Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00127

Full Text






Journal Pessoal
L 0 C I 0 F L A V I 0 P I N T 0O
O XI N2 178 1a I N DE JANEIROD E 1998R$2,0


Dengue:
mosquito
politico
(pag. 3)


POLITICAL


Quem fala a verdade?


Almir Gabriel estd pr6ximo de chegar a
lideranga nas pesquisas pr-eleitorais.
Elejd entrou na rota da vit6ria ou
S^i. no caminho ainda hd barreiras que
<- podem impedir seu sonho de ter mais
j um mandate de governador? Ate
abril, muitojogo de
cena e muitas
mentiras ainda vdo
S ^e ser servidas a

OPIMIAO opinido pzblica.
Fo D BL 0 leildo ndo

terminou.


uando a campanha elei-
toral comegar formal-
mente, em abril, Almir
Gabriel podera apare-
cer nas pesquisas de
opinido como o mais
Sforte dos candidates a
governador do Estado, emparelhado
com o senador Jader Barbalho ou, tal-
vez, ate na frente dele. Essa confianga
pode estar por tras da aparentemente
paradoxal decisdo do journal O Liberal,
hoje o porta-voz oficioso do governor,
de ndo divulgar o principal resultado
da pesquisa que a pr6pria empresa en-


comendou ao Ibope (e que este journal
antecipou).
A preferencia dos entrevistados pelo
governador pulou de 16% para 33%,
enquanto a de Jader baixou de 42% para
37% (e H61io Gueiros saiu da raia da dis-
puta, ficando com 16%). Mas a tend8n-
cia observada nas pesquisas indica que,
jd neste inicio de ano, o governador po-
dera aparecer em primeiro lugar. Ao que
parece, O Liberal s6 ent~o se dispora a
divulgar o dado mais important da son-
dagem. Os Maiorana nao querem regis-
trar a presenga do agora velado inimi-
go na lideranga das preferencias.


De qualquer maneira, a evolugao do
governador 6 notavel (para nao perder o
embalo, O Liberal divulgou a aprova-
9ao ao governor Almir, que, incluindo
40% do neutro regular, chegou a 85%).
O moment em que essa disparada co-
megou pode ser claramente identificado:
fbi quando H6lio Gueiros Jr. bisou os de-
satinos da primeira interinidade.
Cometeu dois erros fatais: investiu
contra o icone do establishment, a poli-
tica de privatizagao do president Fer-
nando Henrique Cardoso (que tamb6m
atende pela designa9go de dilapidagdo do
patrim6nio piublico), e esqueceu que o)


OF4UTLAGATE 3 UP COMATE*ag. 6)







2 JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE JANEIRO / 1998


)titular do cargo dessa vez nao estava vi-
ajando, mas enfrentando risco de vida
dentro de um hospital.
Incorporado no papel de vitima, Al-
mir Gabriel capitalizou o sentimentalis-
mo do povo, integralizando as cotas de
popularidade a cada vez que a TV Libe-
ral exibia sua imagem de convalescent.
Inteligentemente, sua assessoria aprovei-
tou o impulso, que tirou o client de sua
in6rcia letirgica, e desencadeou uma
campanha publicitaria sem paralelo em
periods semelhantes no Pard. Algo tao
massive e ao mesmo tempo tao sutil
que o governador p6de apresentar na
televisao uma artitmetica frivola sem o
risco de qualquer contestag~o.
Diante das cameras do que resta da TV
Cultura, no program Sem Censura, Al-
mir mostrou, alquimisticamente, que o
conv6nio assinado pela Funtelpa corn a
TV Liberal foi at6 lucrative para o Esta-
do. Se toda a propaganda veiculada pela
emissora fosse contabilizada normal-
mente, a conta seria de 700 mil reais e
nao de R$ 200 mil mensais, como foi
estabelecido no conv8nio para se prolon-
gar pelos pr6ximos cinco anos.
Talvez a mera adi9ao fisica dos nui-
meros chegue ao convenient resultado
apontado pelo goverador, mas caberia
uma simples pergunta: propaganda do
Estado, doutor Almir, ou do govemador?
Interesse maior de difusao da mensagem
do executive e da integragao regional ou
convenicncia pessoal do governador de
massificar seu nome para viabilizar sua
eleigao, se possivel (o que ainda e pro-
blematico) no 1 tumo, sem os compli-
cados acertos que ele precisara fazer para
impedir a uniao Jader/Gueiros?
Algu6m dira que a propaganda 6 in-
descartavel para um politico pesadao
como o doutor Almir, um Mario Covas
mais bem humorado (pouca coisa que
seja, ja 6 o suficiente para derrubar a car-
ranca que cobre o governador paulista,
mas nao o suficiente para fazer do m6di-
co paraense uma figure propriamente
carismatica e popular). A propaganda,
juram os assessores, 6 necessaria para
fazer os cidadaos descobrirem o traba-
Iho que Gabriel estaria efetivamente re-
alizando.
Com seus botoes obsequiosos, se os
tem, ele nao deve esconder de si a con-
viccao de que esta fazendo a melhor ad-
ministragao que o Para ja teve em mui-
tos anos ou, se a mod6stia permit,
que nao houve nenhum melhor antes dele
(nem havera, se o segundo mandate sair).
E o que proclama um suplemento de 32
paginas encartado no final do ano nos
trEs jomais diarios de Bel6m, inclusive
no Didrio do Pard, de Jader.
O govemador acha que esta mudando


a base produtiva do Estado, agregando
valor as suas atividades produtivas de
mera extracgo de riquezas naturais e
mat6rias primas semi-elaboradas. E que,
em pouco tempo, todos reconhecerao
que o Para foi uma coisa antes de Almir
e outra, muito melhor, depois dele.
De fato, em alguns stores estao em
andamento obras significativas (nenhu-
ma, porem, absolutamente original) e o
custo dos servings pode ter diminuido
para o Estado. Mas a populagdo ja.nao
leu (se 6 que leu), ja nao viu na televisao
e ja nao ouviu propaganda com o mes-
mo tipo de proclamacgo? Quando cum-
priu os meses de campanha eleitoral em
1986, inaugurando obras em moto-con-
tinuo (sem dar tempo para ver as fatu-
ras), Jader Barbalho elegeu facilmente
H6lio Gueiros, mas elegeria at6 o caca-
reco ao tucupi naquela ocasiao. E Helio
s6 nao elegeu Xerfan, quatro anos de-
pois, porque do outro lado o oponente
era Jader, do lado official estava Xerfan
e, na boca do cofre, o govemador, a
maneira de Mateus, s6 olhava os seus
(dele, claro, nao do pobre Mateus).
Qual o m6rito de Almir estar na linha
de frente das pesquisas se conta com uma
prerrogativa a qual nenhum outro gover-
nador antes dele teve acesso, a possibili-
dade de disputar a reeleicao e sem ser
obrigado a deixar o cargo? O veto a ree-
leigo atribuia um certo relativismo ao
uso da maquina official, impedindo que
a elei9ao fosse apenas um referendo po-
pular da vontade do detentor das chaves
dos cofres publicos. Mas diga-se, em
favor de Almir Gabriel, que nem todos
os govemadores que pretended continu-
ar no cargo estao numa posigco equipa-
ravel a dele e que raros cresceram tanto
em tao pouco tempo.
Na pondera9ao desse triunfo, qual a
porcentagem da image de vitima, do
trabalho administrative para valer que
comega a aparecer e da propaganda sem
igual, a qualquer prego (um deles, a li-
quidagdo da TV Cultura), sem dispensar
meios?
As acusag6es de corrup9ao e trafico
de influencia comecam a aparecer, mas
nenhuma alcanca diretamente a figure do
goverador (que tambem nao julgou ne-
cessario defender o filho mais novo,
Marcelo, alvo preferencial dos ataques).
At6 prova suficiente em contrario, o go-
vernador nao pesa nos orgamentos de
obras puiblicas, antes aliviando os cus-
tos, permitindo-lhe fazer mais com me-
nos dinheiro (uma novidade em quatro
governor).
Mas sera que t6m consistEncia os pro-
clamas oficiais e oficiosos, sem assi-
natura identificadora da origem na mi-
dia de realizaq5es? O excess de auto-


confianga do governador (os maldosos
dizem, sem demonstrar, que essa hiper-
trofia de personalidade se tomou mais
visivel depois da cirurgia) pode estar le-
vando-o a cometer algumas barbarida-
des.
Uma delas: Almir Gabriel declarou,
com todas as letras, que seu govemo re-
duziu o custo do projeto de macrodrena-
gem das baixadas de 320 milh6es de
d6lares para US$ 180 milh6es. At6 en-
tao, nenhum document official registra-
ra a soma mais elevada, absolute novi-
dade em uma fonte governmental. E at6
que se prove diferentemente, o orgamen-
to em vigor da macrodrenagem e de US$
226 milh6es, um milhao a mais do que
estava definido quando o atual governa-
dor assumiu o cargo.
Se o governor conseguiu baixar a pre-
visao de custo para US$ 180 milh6es,
entao a desatenta imprensa deve dedicar-
Ihe paginas de louvores desde, evi-
dentemente, que as planilhas comprovem
a afirmativa do doutor Almir, at6 agora
suspense no ar apenas pelo vigor de sua
palavra.
Da mesma maneira, sem demonstrar
ponto a ponto a ocorrEncia de superfatu-
ramento, a redugao que verbalmente o
governador promoveu no program de
eletrificagao estadual, reduzindo por tres
o que diz que estava previsto, pode pa-
recer alucinagao. Ainda mais porque,
nesse caso, a economic teria sido de nada
menos do que 800 milh6es de reais, algo
a ser glorificado mundialmente se nao
decorreu da mera eliminagao de servi-
cos ou de cAlculos de chapeleiro maluco
(ou nao seria coelho apressado?).
Talvez por causa da centralizagao do
mando no Estado e das articulag6es fei-
tas junto a um seleto grupo de interlocu-
tores exclusivos, s6 o governador seja
capaz de entender perfeitamente alguns
dos lances que movimenta em seu soli-
tariojogo de xadrez. No program na TV
Cultura, sem que nenhum dos entrevis-
tadores Ihe tivesse feito pergunta a res-
peito, Almir Gabriel trocou de assunto
no meio de uma resposta sobre as rela-
9ces com H6lio Gueiros para dizer que
os entendimentos com o senador Jader
Barbalho iam bem, obrigado.
Nesse moment informou sobre seu
encontro cor o lider do PMDB de uma
tal maneira que, em seguida, O Liberal
se sentiu autorizado a anunciar como furo
uma segunda reuniao havida entire o go-
vernador e o senador. Avanqou at6 sobre
detalhes, como o uso do carro do depu-
tado Jos6 Priante, cuja origem pode ser
atribuida a um inconvenient corvo que
deve ter o mau habito de rondar a granja
do Icui e pousar nos funds do bosque
Rodrigues Alves cor segredos no bico.







JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JANEIRO / 1998 3


) De viva voz, Jader Barbalho preferiu
nao desmentir a barriga, mas plantou
uma nota no seu journal e soprou a infor-
magao para outras fontes. O unico en-
contro que ele teve cor o govemador
foi antes da doenca de Almir, a convite
dele e para participar de uma sessao da
qual saiu rouco de tanto ouvir. Jader diz
que nao entendeu esses desencontros,
mas a mensagem fica clara: o govema-
dor nao descarta de todo a possibilidade
de um acordo cor aqueles que ainda
podem atrapalhar a consumacio do seu
grande sonho de ficar por mais um man-
dato como governador do Para. Nem
estes o rechacaram definitivamente. O
balcao de a6es ainda esti aberto a es-
pera de novos lances.
A tendencia de crescimento das pre-
ferencias pelo governador e visualizavel
at6 abril, mas ate la Almir contara cor a
unanimidade public, pela qual esta pa-
gando caro (nao s6 em moeda sonante,
convem esclarecer)? Sem um acordo
com os outros caciques, porem, deve se
preparar para um combat sangrento,
sem regras civilizadas. Helio Gueiros e
Jader Barbalho estao estocando lama,
para nao falar em materia ainda mais f6-
tida, que poderao lancar ao ventilador se
tiverem mesmo que enfrentar um gover-
nador a caga do que nenhum deles p6de
almejar: a reeleigio. Como Almir reagi-
ra na linha de fogo? Como um guerreiro
disposto a qualquer combat, ou fugin-
do?
E claro que contara cor a maquina
official, sob seu comando e a servigo do
seu nome. Mas tera na retaguarda o go-
verno federal, ate aqui tio submisso as
vontades do lider peemedebista no se-
nado que rest ao govemador argumen-
tar, sem evitar o sorriso amarelo, que
nunca disputou cargos federal no Esta-
do (o epis6dio Fernando Flexa Ribeiro/
Sudam nao conta, 6 claro)? Ou FHC lhe
dara ragao mais magra do que a de Co-
vas? A Jader, que bastaria a neutralidade
de Brasilia, o favorecimento e um mana,
tio util na planicie quanto estrat6gico no
planalto (por onde tramitam inqu6ritos
judiciais e administrativos capazes de
causar-lhe inc6modos). E o que nio fara
H6lio Gueiros, reduzido da condi9ao de
poule premiada a de azario?
Por tudo isso, enquanto nao se deci-
frar o enigma maquiavelicamente ali-
mentado nesse triingulo, tudo o mais na
sucessao paraense nao passara de ativi-
dade olimpica, na qual competir e o que
interessa e veneer fica para o future.*


Em 1995 a dengue atingiu 155 mil pes-
soas em todo o Brasil, segundo os dados
oficiais. No Para, no ano passado, houve
mais de 16 mil registros, mas o director do
Institute Evandro Chagas, referncia inter-
nacional nesse tipo de doenga, diz que o
niumero pode ser multiplicado por 30 para
se ter algo mais pr6ximo da realidade do
que a burocracia official. Ou seja: o Estado
teve, em seu territ6rio, o dobro das ocor-
rencias registradas emtodo o pais dois anos
antes, quando a dengue ainda era uma ame-
aga. Hoje, e uma realidade triste e brutal.
Para uma geracio que apostou na sagu-
de piublica, conviver corn a reinfestagao
das cidades e a expansao sem fronteira
de epidemias que pareciam erradicadas ou
controladas tem um gosto amargo de der-
rota. O Brasil esta novamente mais doen-
te, mais desamparado e, como consequ-
incia, socialmente mais pobre. Numa fase
em que o patrim6nio pdiblico amealhado
por geragoes ao long de decadas e alie-
nado, sem muito crit6rio e por prego du-
vidoso, para que o Estado possa se dedi-
car ao que os neoliberais dizem ser sua
fungao residual, o setor social, conviver
corn desvio de recursos da saude e da edu-
cado e um ultraje. E justamente neles que
mais se distancia o orgamento proposto
do orgamento realizado para menos,
infelizmente.
Qualquer cidadao medianamente infor-
mado ha de ficar chocado com esse tom
de sem-cerim6nia que se usa nas referen-
cias a possibilidade de, passado meio se-
culo de susto, voltar a haver febre amarela
urbana. Ou se combinarem os sorotipos 1
e 2 para dar a dengue uma dimensao letal.
Eu proprio me assustei ao mobilizar a
familiar para atualizar a vacinaco anti-
amarilica. Onde mesmo 6 que estamos?
Numa cidade com mais de um milhio de
habitantes no alvorecer do seculo 21 ou
num ermo pantanoso dos tr6picos pre-ca-
bralino condenado ao povoamento dito ci-
vilizado?
A urbanizagio dessas doengas que ha-
viam sido expulsas das cidades e uma re-
alidade angustiante. Belem acumula mais
de 90% dos casos de dengue do Estado.


Esta entire os quatro alvos municipals do
tipo hemorragico. Espera-se pelo apare-
cimento da febre amarela a qualquer mo-
mento, como se fosse um visitante indes-
cartavel. E ainda por cima ha uma briga
de comadres que tentam se desfazer de
suas responsabilidade e atribuir a culpa
as outras, sem pudor public.
E fato que a politicagem influiu na ele-
vagCo dos casos e no tratamento official
incompativel corn a gravidade da situa-
Cao. Essa roupa suja ter que ser lavada
de piublico. Mas nao deve imobilizar a
corrego dos erros e as novas iniciativas,
sem vaidades e vedetismos. Ao que pare-
ce, todos erraram e o que estA pendente e
a dosage das responsabilidades.
O legislative, que costuma perder tem-
po com teatro de fantoches, ja poderia ter
instalado uma CPI para fazer a conta do
passado, de tal maneira a desatravancar o
acerto do present. Mas, ja na contagem
regressiva dos votos, nada escapa a con-
taminaCqo eleitoral e a outros interes-
ses menos explicitos.
A multiplicacgo por seis do indice de
ocorrencia de dengue entire 1996 e 1997,
mais as ameagas da forma hemorragica e
da febre amarela, sao um atestado da fa-
lencia do poder pilblico, da instancia fe-
deral a municipal, na area da sauide. Ha
um velado oportunismo nessa municipa-
lizaqAo que transfer encargos sem fatiar
adequadamente recursos, e nesses desvi-
os orramentArios que contrariam a ret6ri-
ca opcao pelo social.
No nosso especifico caso amazonico,
a aceitagio do sacrificio da Sucam, de his-
toria gloriosa, e o pouco empenho cor a
FNS (Fundag~o Nacional de Sauide), re-
velam desatenago e despreparo. O "Evan-
dro Chagas", uma modelar instituigio de
pesquisa, esta sendo obrigado a funcio-
nar como inst2ncia ambulatorial. Se isso
n~o 6 sucateamento, entAo perdi o senti-
do do que seja sucata.
Ja estamos pagando caro por isso. Pa-
garemos mais ainda no future, se nio to-
marmos o peao a unha, j. A situaaqo e de
escindalo; se ninguem se escandaliza, e o
caso de se perguntar: quem apagara a luz?@


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Doengas: a opgao


pelo social e


apenas conversa








4 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JANEIRO / 1998




Testemunho solitario do general


Quando o general
Ernesto Geisel era
president da Repfi-
blica (1974/79) cir-
culava a seguinte pi-
ada. O chefe da Casa
Civil, general Gol-
bery do Couto e Sil-
va, procurando pelo
chefe no PalAcio da
Alvorada, abre a
porta do quarto pre-
sidencial. Depara cor Geisel nu. "Oh, meu
Deus!", exclama o surpreso Golbery. Impas-
sivel, Geisel retruca: "Deixa disso, Golbery.
Podes me chamar de tu".
MetAfora de 6poca, sem precisar ser fiel a
fatos, a piada 6 uma exata caricature do per-
sonagem. Luterano, da primeira geragao de
uma familiar alemd que emigrou para o Bra-
sil, Geisel pertenceu a rara galeria dos presi-
dentes imperiais. Representaria o despotis-
mo esclarecido, na muito mais desp6tica do
que ilustrada nobiliarquia military que se su-
cedeu entire 1964 e 1985. Ela promoveu sete
alternncias de comando da Repiublica, en-
tao reduzida a um quartel a que s6 generals
de quatro estrelas poderiam ter a veleidade
de aspirar.
Geisel tinha, pelo menos, um projeto para
o pais, podendo retomar a caminhada incon-
clusa iniciada pelo marechal Castelo Branco
e entrecortada por simples exercicios de po-
der nas outras presidencias militares. Mas e
impossivel deixar de fazer um balanoe nega-
tivo do legado do general ap6s a leitura de
Ernesto Geisel (Fundagao Getulio Vargas
Editora, Rio de Janeiro, 1997, 494 pAginas),
livro organizado por Maria Celina d'AraAjo
e Celso Castro.
Aos dois membros do Centro de Pesqui-
sa e Documentaqgo de Historia Contempo-
rAnea do Brasil da FGV o ex-presidente con-
cedeu um privildgio finico: deu-lhes 19 en-
trevistas entire 1993 e 1996, somando 30
horas de conversas. Um record absolute
para quem confessa desinteresse senAo
desprezo pela opiniao pfiblica. Mas hou-
ve uma exigencia: o conteudo das entrevis-
tas s6 poderia ser divulgado depois da mor-
te do entrevistado, que ocorreu em setem-
bro de 1996, aos 89 anos de idade.
Permitiu-se o ex-presidente dizer o que
queria e nada ouvir em troca, um outro tra-
go do seu carter. Se, a rigor, o livro nao
traz grandes novidades, o quase solil6quio
de Geisel, eventualmente ecoado em unisso-
no pelos respeitosos entrevistadores, serve
para confirmariddias que j se tinha dele in-
dependentemente de sua pr6pria avaliacqo e
testemunho.
Surpreende o grau de desinformagao con-
fesso de um cidadao que exigia o exercicio
pleno do poder, centralizando ao mAximo o
control da maquina. Dizia-se na corte bra-


siliense que at6 processes de nomeagao de
continue na administragao federal o presi-
dente levava para ler em casa e despachar.
De fato, Geisel estabeleceu uma rotina bu-
rocratica sem igual no Planalto, mas a boa
norma nao se confunde necessariamente corn
racionalidade e qualidade das decis6es. O
home meticuloso e aplicado que ele sempre
foi, dentro e fora do quartel, era obtuso e via
pouco aldm da quadratura dos pap6is. Nao
foi o estadista cujo perfil wagneriano tentou
esculpirpelas maos dos entrevistadores.
Cientes do privil6gio recebido, os dois
parecem ter evitado deliberadamente inco-
modar o general octogenario com perguntas
mais duras ou replicas questionadoras. Li-
mitaram-se a servir de instrument para a
fluiqao da versao que o entrevistado quis dar
da sua participaqao na hist6ria do pais ao
long de quase sete d6cadas republicans. O
livro ter seu valor por esta perspective. Mas
6 uma visada exageradamente obsequiosa do
papel do general Geisel na vida national.
Numa das entrevistas, por exemplo, ele
admite ter ouvido dizer sobre Shigeaki Ueki
"que ele roubou". Mas em seguida garante:
"Eu nunca apurei nada". Para nao deixar pas-
sar em branco essa eliptica e unica refe-
rnncia, os entrevistados poderiam pedir para
o ex-presidente esclarecer se ele simplesmen-
te nao mandou apurar as denuncias ou se o
resultado das investigag6es foi negative.
Suspeitas de trafico de influincia foram
apontadas sobre tres dos homes mais pr6-
ximos do president Geisel: o ministry das
Minas e Energia, Shigeaki Ueki, o secreti-
rio particular, Heitor Aquino Ferreira, e o
porta-voz e president da Caixa
Economica, Humberto Esmeral-
do Barreto. Eles teriam substi-
tuido afetivamente o filho unico,
Orlando, que morreu tragica e
prematuramente, deixando no
coraqdo do general um lugar que
a filha nao poderia preencher.
Ningu6m duvidara que se
Geisel tivesse conhecimento de
corrupgao envolvendo qualquer
auxiliar trataria de demiti-lo.
Mas sera que ele nao foi envol-
vido e manobrado para nao ver o que nao
interessava? O president nao ignorava esse
risco na posiqao que ocupava: "O endeusa-
mento do home que esta no poder e muito
grande, e nem todos os governantes a ele
resistem". Mas terA conseguido ser uma ex-
cecgo?
E pouco provavel que algu6m saia con-
vencido que sim da leitura atenta do livro.
Do alto de sua imensa auto-estima, Geisel
concede: "Tamb6m devo ter os meus defei-
tos". Mas trata de fugir dessa auto-analise.
Por isso, seu testemunho tem valor duvido-
so. Ele condena seu successor, o general Joao
Baptista Figueiredo, por nao ter agido cor-


retamente em relacao ao atentado ao Rio-
centro (e, cor isso, forgado o general Gol-
bery a demitir-se da Casa Civil da Presid6n-
cia). Mas agora pode-se constatar que o com-
portamento de Geisel, seis anos antes, nao
foi tao discrepante.
Louvou-se muito a decisdo do president
de demitir o general Ednardo d'Avila Mello
do comando do II Ex6rcito, em Sao Paulo,
quando a morte do operario Manoel Fiel Fi-
Iho seguiu-se A dojornalista Wladimir Her-
zog nos poroes de tortura do DOI-CODI.
NAo foi a defesa do direito elementary A vida
que motivou o general-presidente, mas ovis-
lumbre de um lance na luta de bastidores pelo
control do poder que ele vinha travando cor
seu ministry do Exdrcito, general Silvio Fro-
ta.
O trecho mais chocante do livro esta mes-
mo a pagina 225, quando Geisel admite que
a tortura "em certos casos torna-se necessa-
ria, para obter confissoes". Ainda tenta sua-
vizar, mas a emenda entorta de vez o sone-
to: "Nao justifico a tortura, mas reconheqo
que ha circunstAncias em que o individuo e
impelido a praticar a tortura, para obter de-
terminadas confiss6es e, assim, evitar um mal
maior!". Mesmo para um Estado totalitArio
menos selvagem, a tortura nao d garantia de
informacao confiAvel, como os d6spotas es-
clarecidos ja conseguem perceber (mas nao
o nosso).
Isto quer dizer que o president nao in-
vestiu contra os radicals do DOI-CODI de
SAo Paulo por terem torturado, mas por ndo
terem sabido torturar. E o erro deu-lhe mo-
tivos para comecar a desfazer o esquema de
poder que o general Frota monta-
va para impor sua candidatura a
president.
P E o que diz com todas as le-
tras: "exigi que o inquerito fosse
feito e que tudo fosse apurado.
S No sei se o inqudrito estava cer-
to ou nio, mas o fato 6 que apu-
rou que o Herzog tinha se enfor-
cado. A partir dai o problema do
Herzog, para mim, acabou".
Como as falhas da apuraglo
e am gritantes, mais at6 do que as
do Riocentro, Geisel admite ser possivel que
o resultado do inqu6rito tivesse sido monta-
do para encobrir a verdade, mas considerou-
se satisfeito por tudo ter sido feito segundo
os tramites e as normas legais; ou seja, ter a
aparencia formal, burocratica, de coisa s6-
ria.
Quanto ao resultado, da de lado: "Eu nao
o examine, nao me preocupava se estava certo
ou errado". Afinal, o grande president nao
iria ficar remoendo "um probleminha desses".
Procedia em relacqo A linha dura cor a mes-
ma demagogia de um Costa e Silva, que tanto
condenou. Justificava como o boi de piranha
que se sacrificava para ver a manada passar








JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JANEIRO / 1998 b




Geisel, despota pouco esclarecido


ao largo um tanto cinicamente, ou, como
seria uma das marcas do seu govemo, prag-
matica e responsavelmente.
Tanto isso 6 verdade
/ que o inqudrito mon-
tado no II Ex6rcito
foi uma farsa tAo
grande quanto que o
I Ex6rcito montaria
para coonestar a
7 aAo terrorist dos
dois oficiais que pre-
pararam o atentado
ao Riocentro. 0 Gei-
sel que duvida do in-
qu6rito do Riocen-
tro, por6m, 6 o mesmo que endossou o do
DOI-CODI paulista. Talvez porque ele sem-
pre julgou-se fonte de legitimidade e direito.
Mas nao deixa de aceitar as evidencias:
"Essa imagem do ditador que se apresenta a
meu respeito nao era bem assim", concede.
O livro, pornm, mostra que 6 mais ou menos
verdadeira essa image. Embora atribua-se
a autoria de uma boa nonna introduzida na
administragao piblica, contraria ao nepotis-
mo (que, modestamente, diz nao saber dizer
se prosseguiu depois), o nAo-aproveitamen-
to do irmao em seu governor pode nao estar
enquadrado nesse salutar principio.
Talvez Ernesto tenha deixado de fora o
general Orlando, ministry do Ex6rcito no
governor M6dici, do qual foi um dos homes
fortes, para nao dividir poder. Se Orlando
nunca o visitou na presid6ncia, Ernesto nun-
ca perguntou-lhe sobre problemss do go-
verno Mddici, de repressao". Acidentes prus-
sianos narepiiblica latino-brasileira
Apesar de se apresentar como um dirigen-
te tolerant, capaz de absorver derrotas, como
a que o PMDB Ihe imp6s na renovaqao parci-
al do senado na eleicAo de 1974, A adminis-
traqao Geisel podem ser creditados alguns dos
mais melanc61icos moments da political bra-
sileira recent, como a mediocre propaganda
eleitoral estabelecida pela "lei Falcao", os bi-
6nicos senadores (nem todos perfeitamente
distinguiveis do Incitatus que os inspirou) ou
as cassag6es de deputados para garantir mai-
oria em parlamentos estaduais.
Esse perfil nao surpreende os que acom-
panham ha mais tempo e com maior atengao
a biografia do general. Desde que trocou os
ideas tenentistas pela simbiose entire a buro-
cracia civil e o comando military, Geisel sem-
pre esteve A direita da maioria do Exercito
- e, por isso, do lado do udenismo castren-
se, formalmente democr6tico, essencialmente
golpista (ele diz que, se tivesse conseguido
ser president, Carlos Lacerda se tornaria um
ditador; Geisel, nesse aspect, superou o
mestre).
Na pagina 150 do livro, por exemplo, ele
diz que o movimento military contra Jolo
Goulart em 1964 foi "quase que espontaneo",


mas tres pAginas antes admite que as conspi-
ragbes comecaram desde que Jango tomara
posse como president.
Na crise de 1961, alibs, como comandan-
te military de Brasilia, nao se vexou em pro-
mover escutas telef6nicas clandestinas da
presid6ncia da Rep6blica, como confessa no
livro, aparentemente sem se dar conta de que
estava cometendo crime. Mantinha-se coe-
rente com a 16gica do golpismo no qual mili-
tava. Reconhece que, na 6poca, era incapaz
de prever o que poderia suceder-se ao mo-
vimento miltar para impedir o president na
sucessAo amparada constitucionalmente.
Como outros do mesmo esquema, apostava
ate no pior: a guerra civil.
Tudo bem, esses slo recursos autoritari-
os indispensaveis para executar um progra-
ma de Estado categ6rico, comprometido
com o desenvolvimento (jargao que o ex-pre-
sidente repete aparentemente sem maior dis-
cernimento). Mas nem isso serve de habeas-
corpus para o governor Geisel.
Se o general estava preparado para domi-
nar algum assunto era o do petr6leo. Fora,
sucessivamente, administrator da refinaria de
CubatAo, membro do Conselho Nacional do
Petr61eo e president da PetrobrAs. Mas
quando a hist6ria Ihe permitiu tomar deci-
soes estrat6gicas mais amplas, ele errou: en-
quanto o barril do petr6leo disparava no mer-
cado international, o governor Geisel gasta-
va dinheiro em redes de distribuicao e refi-
narias para processar um produto que nao
tinhamos em nosso territ6rio. Teve que ape-
lar para os contratos de risco como forma
emergencial de incrementar a produqao in-
terna, mas tao cheio de veleida-
des que, ao invds de terms su-
cesso em nosso pais, s6 consegui-
mos descobrir petr6leo em terri-
t6rio alheio. E o governor mais na-
cionalista, obtusamente naciona-
lista (na verdade, apenas anti-
americano), escancarou as portei-
ras para a invasao forinea.
E chocante ver o president
responder que nao sabe a muitas
das perguntas basicas feitas pelos
entrevistadores, inclusive quanto
ao seu governor, e dar respostas maldosas em
rela ao a outros assuntos sobre os quais tra-
tou de poupar-se do risco de replicas, vetan-
do a divulgagAo do livro ate a sua morte.
Sobre o grave surto de meningite que
eclodiu em Sao Paulo, em 1973, por exem-
plo, o maior ate entao registrado em toda a
hist6ria da humanidade, lembra apenas que
seu governor promoveu a primeira vacinaqAo
em massa que se conhece. Mas nenhuma re-
fer6ncia fez A aq9o da censura sobre a co-
bertura sdria e profunda que O Estado
de S. Paulo deu A questao. Quantas mortes
poderiam ter sido evitadas se o paulistano
pudesse ter sido bem informado a tempo so-


bre a epidemia? Qual a razAo de estado para
os cortes massacrantes da censura no notici-
Ario, senao o principio da infalibilidade que
parecia estar na origem do poder desp6tico
do general-presidente, refratArio As critics
e A verdade?
A mem6ria pela qual os entrevistados
puxam nas entrevistas claudica e nao pode-
ria ser repassada A opiniao p6blica sem um
convenient trabalho de revisao. S6 para dar
um exemplo mais pr6ximo a n6s, basta lem-
brar que o ex-presidente afinna que "quan-
do Ludwig adoeceu e morreu, o Projeto Jari
foi comprado por um cons6rcio de empresA-
rios brasileiros". Ora, o milionArio america-
no Daniel Ludwig morreu 10 anos depois que
seu Jari foi nacionalizado, A maneira de Del-
fim Netto & Cia.
Bom, isso 6 passado. Mas Geisel assegura
que o projeto "estA indo muito bem" no mo-
mento da entrevista, quando eram p6blicas e
not6rias as suas enormes dificuldades. O pre-
sidente ja nao se lembrava do passado e nAo
acompanhava o present. Virara um escom-
bro do monument que imaginou ter sido.
Nem por isso o seu depoimento deixa de
ter um alto valor. Reafirma, mesmo que invo-
luntariamente, a necessidade de firmes con-
troles sociais sobre o exercicio do poder, de
tal maneira que a seduq o dos altos cargos
nao acabe reduzindo seus detentores a instru-
mentos de projetos pessoais, s6 nominalmen-
te relacionados ao bem coletivo. t a moral
que o general Geisel deixa neste livro.
Ele narra uma sucessao de atos oportu-
nistas, como o do general Mourio Filho, que
precipitou as conspiraqoes anti-Jango por-
que estava chegando A idade-li-
mite do generalato, ou de Costa
e Silva, que se aproximou da li-
nha dura para ser president, ou
de Golbery tentando excluir Ja-
nio Quadros da lista de cassagao,
ou de Hugo Abreu disputando
com Figueiredo a posse da Gran-
ja do Torto e por ai afora.
Assim, ao contrArio do que era
o desejo mais intimo do general-
^ president, s6 o permanent con-
trole p6blico do poder pode fun-
cionar como antidote As tiranias. A impren-
sa 6 um dos principals elements desse con-
trole. E quando renuncia a essa funqAo soci-
al, mergulhando nos mesmos bastidores fre-
quentados pelos servidores p6blicos traves-
tidos de locatArios do poder, estA dando ra-
zao occasional a um cidadao que fez da hist6-
ria um instrument de seus caprichos. Mes-
mo quando submeteu-se a uma prestaqAo de
contas, antes tratou de isolar-se no sil]ncio
absolute para nAo ser perturbado pelo que,
na democracia, 6 essencial: o coro de muitas
vozes contra o solil6quio de um int6rprete,
talvez mesmo privilegiado, mas sempre ten-
tado a tomar conta de todo o palco. 0








6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO / 1998



Funtelpagate: ofensiva em dois rumos


O deputado federal Vic Pires Franco abriu
a segunda ofensiva de combat ao convenio
que a Funtelpa assinou corn a TV Liberal (ver
as 61timas edicqes do Jornal Pessoal): ajui-
zou uma aqao popular na justica paraense,
pedindo a anulacao do acerto e a imputaqAo
dos responsaveis pelo ato, alim do ressarci-
mento do prejuizo que podem ter causado
ao erario. Mas o juiz R6mulo Nunes, da 2 1
vara cfvel do forum de Bel6m, para o qual o
process foi distribufdo, preferiu nao deferir
de imediato a liminar requerida contra o con-
venio, alegando a complexidade da matdria.
Por isso, solicitou novas informaqoes e o
parecer do Minist6rio P6blico antes de se
pronunciar sobre o m6rito da agao.
Trata-se de uma substanciosa pega, de 12
laudas, assinada pelo advogado Marcos So-
lino. Na aqIo, sustenta que o contrato, ardi-
losamente denominado de convenio, 6 illegal
e imoral, beneficiando comercialmente a TV
Liberal e pessoalmente o goverador, mas
causando grandes prejuizos ao Estado e ao
patrim6nio piblico.
Apossando-se da rede de transmissao de
sinais de televisao em terra, a TV Liberal
poderA expandir em 150% seu mercado re-
ceptor, elevando-o de dois milhoes para qua-
se cinco milhSes de telespectadores, corn
evidentes vantagens para o seu faturamento.
Por essa rede, pela qual atd entao transitava
a programaqao da TV Cultura, passara ex-


A s vezes, quando da, ama- l
nheqo caminhando pela
SCidade Velha. Pouso os
olhos no que ainda sobrevive de
belo para renovar o prazer e re-
gistrar a esperan9a. Mas 6 uma
possibilidade cada vez menor.
Em intervals sempre mais curtos, a cada re-
torno pode-se constatar que a descaracteriza-
9ao arquitet6nica e a destruigao hist6rica con-
tinuam avangando, enquanto a preservaqco e a
restauraao encolhem. O mais belo pedaco da
cidade vai se torando coisa do passado.
O pior 6 que ha uma perda de qualidade na
substituiiao do velho pelo novo. Construcoes
de valor evidence cedem lugar a monstrengos,
nem sempre mais funcionais do que seus an-
tecessores. O proprietArio quer de qualquer
maneira uma alvenaria nova porque o prddio
antigo seria um atestado public de demdrito.
Nao hA apreqo pelo passado, nao se atribui
valor Aquelaedificaao. Ao contrArio: ela estA
associada a uma incapacidade de subir na vida,
de adquirir status, de se impor aos vizinhos.
Por isso, trata-se de colocar abaixo aquela su-
posta n6doa e levantar uma prova de moder-
nidade e afluencia. Assim permanecerA en-
quanto nao houver uma mudanga mais pro-
funda de mentalidade, estimulada por vanta-
gens materials, mas para as quais os benefici-
Arios terao que ser atraidos pelo poder pfbli-
co. Para escapar as atribulacaes de um tom-
bamento, que formaliza as incertas relaqbes
com a burocracia official, prefere-se simples-
mente tombar o pr6dio, fisicamente falando.
E claro que sem o concurso dos govemos,
que t6m o poder de mobilizacao compuls6ria,
o que se poderi fazer para salvar o que rest
da integridade hist6rica de Beldm serd pouco.
Mas algo 6 precise ser feito ja. Independente-
mente do significado apenas simb61ico da ini-


clusivamente a programagao commercial da
TV Liberal, sem que a emissora haja neces-
sitado submeter-se a uma concorrencia pu-
blica para assumir o control da rede da Fun-
telpa. S6 atrav6s dela o sinal de satdlite po-
deria ser levado a todo o territ6rio paraense.
Para dispor de inserq6es na programacqo
da Liberal, que utiliza macicamente corn pro-
paganda pessoal e para objetivos politico-
eleitorais, o goverador fez a Funtelpa obri-
gar-se a pagar 200 mil reais por mes A Libe-
ral, ao long de cinco anos, apesar de todas
as restriq8es legais a esse tipo de arranjo.
Argumenta Vic Pires Fran'co na acao po-
pular que se o objetivo fosse o de realmente
promover a integraqao do Estado atrav6s de
uma rede de televisio, bastaria A Funtelpa
obter junto A Embratel o mesmo transpon-
der contratado pela Liberal, "o que certa-
mente garantiria um custo imensamente in-
ferior e possibilitaria a retransmissao de sua
pr6pria programacqo educativa". Acertado
diretamente cor a Embratel, o servi9o cus-
taria o equivalent a US$ 2,5 milhoes em cin-
co anos, quase cinco vezes menos do que os
R$ 12 milhoes que a Funtelpa se compro-
meteu a pagar A Liberal, com as atualizagqes
devidas.
Refere-se ainda o parlamentar do PFL,
durante anos o principal apresentador dos
telejorais da Liberal, A informagao "corren-
te no meio que a Funtelpa foi a primeira a


I


ciativa, gostaria de convidar
os leitores deste journal a fa-
zermos um levantamento
dos im6veis de valor hist6ri-
co e cultural da cidade que
deveriam ser preservados ou
restaurados.
Esse inventArio nAo incluirA, evidentemen-
te, os prddios quejd tnm protecqo legal ou so-
bre cujo valor hA um reconhecimento publico
e not6rio. Gostaria que os leitores indicassem
residencias ou estabelecimentos comerciais re-
presentativos de um determinado moment da
hist6ria da cidade, que pode ser recent, ou
que Ihes provoca emocqes e sentiments. Nao
precise ser construgAo do period colonial ou
do impdrio. Pode ser deste s6culo mesmo, ati
o final da d6cada de 50 (para delimitar um pe-
riodo, at6 a abertura da Bel6m-Brasflia).
Vou dar um exemplo. Na rua Veiga Cabral
hA casas que sobreviveram ao fim das vacari-
as e hortas que havia entire as ruas Sao Pedro
e 16 de Novembro. Provavelmente nem a pre-
feitura e nem o Iphan as tombarao, mas eu
me sentiria feliz se elas escapassem A especu-
laqao imobiliaria, que serA ainda mais incre-


ser contactada pela Embratel para obter o
serving digital", corn o qual, final, a Liberal
ficou. Mas qualquer outra emissora poderia
tambem consegui-lo, inclusive agora, no pra-
zo de 90 dias ap6s o pedido.
Vic observa que se a Funtelpa investisse
na TV Cultura, pelos mesmos cinco anos do
"convenio", os R$ 200 mil mensais que ja
esta pagando A Liberal, "certamente teria
programaqao de melhor qualidade que qual-
quer emissora commercial do Estado, na me-
dida em que nenhuma teria capacidade de
investimento dessa envergadura por tao Ion-
go tempo".
Agora ojuiz ird receber as informacoes e
documents que solicitou, aldm da manifes-
taqAo do representante do Minist6rio P6bli-
co. E o mesmo estAgio em que se encontra a
inspegio extraordinaria que o Tribunal de
Contas do Estado abriu.
Tratando de precaver-se contra essas ini-
ciativas, o grupo Liberal montou logo a pri-
meira reagao: incluiu na sua programaiao
natalina imagens da marujada, a traditional
festa de fim-de-ano de Braganqa. Um anun-
cio nojomal feito As pressas saudou o feito:
"Agora, e somente agora, o ParA vai conhe-
cer o Parn".
Resta saber se a opiniAo publica se deixa-
rA iludir pelos fogos de artificio dos Maiora-
na ou se levarA a apuraqto dos fatos atd suas
iltimas consequencias. *


mentada a partir de agora nessa Area, corn um
mega-shopping acrescido A paisagem.
Assim, tambem os leitores haverao de ter seus
relicdrios, seus objetos de prazer e emoqlo.
Gostaria que ao menos nos ajudassem a pensar
em voz alta e coletivamente sobre asj6ias desta
cidade cada vez mais enfeiada. Nela sobrevivem
preciosidades, como a casa da famflia de Paulo
Itaguai, na Veiga Cabral corn a Presidente Per-
nambuco, que deveria ganhar uma medalha de
merito por sua aplicacAo na manutenoao de um
pr6dio. Todas as vezes que pass por ali renovo
a esperanqa de que nem tudo estA perdido neste
acampamento mercantil.
Talvez as autoridades se estimulem a, apon-
tado o im6vel, chamar seu proprietArio e ofe-
recer-lhe um projeto gratuito de restauragio
da edificacAo, alim de vantagens tributArias e
fiscais para a execuAio da obra e sua conser-
vaqao future. Quem sabe nao se consegue
assim salvar elements vitais da composi9go
urbana de Beldm antes que a praga da insen-
sibilidade reduza tudo a ruinas?
Espero as contribuiqSes dos leitores a partir
do pr6ximo numero, corn a indicaco do im6-
vel e ajustificativa da escolha. Maos A obra. *


I- h- e LIA t possivel alegar que o deputado Vic Pires Franco
nao tem legitimidade moral para proper a ac~o popular que ajuizou contra o convenio Fun-
telpa/TV Liberal, que age apenas por interesse contrariado. Mas o governador Almir Gabri-
el nao teri dado respaldo moral A ofensiva quando colocou seus interesses e conveniencias
pessoais acima dos do Estado?
De qualquer maneira, esse Funtelpagate jA comeca a ter cheiro de escAndalo do Aura.
Paulo Lamarlo tambem atacou o governador Jader Barbalho por impulse de contrarieda-
de pessoal, mas sua pega era tao s6lida e seus arguments tao procedentes quanto a acao
popular de Vic. No primeiro caso, Jader retribuia ao dinheiro investido em sua campanha
eleitoral. No de agora, o governador cria condioes para favorecer sua pr6xima campa-
liha. A mudanca 6 de matiz, nao exatamente de fundo.
No Parh, frequentemente, o certo 6 escrito por linhas tortas. Porque torto estA o Esta-
do. NBo de agora, 6 certo. Mas ainda.


~ii~iCi~illl







JOURNAL PESSOAL 21 QUINZENA DE JANEIRO / 1998 7



Terminal pesqueiro:



ferro nos responsaveis


O terminal pesqueiro flutuante construi-
do na administragao Hdlio Gueiros, ao cus-
to de quase dois milhoes de reais (em valor
atualizado), 6 um embuste. Favoreceu o es-
taleiro que o construiu, de familiares do ex-
prefeito, mas nao pode ser usado para suas
finalidades. Inaugurado as v6speras da elei-
9Ao de 1996, funcionou precariamente du-
rante tres meses. Depois torou-se inservi-
vel. Sua unica fungto d aumentar a feiuira do
cartao-postal de Bel6m e ameagar o movi-
mento de embarca96es e pessoas na Area do
Ver-O-Peso.
A atual administraqao jA anunciou a dis-
posiqlo de transformar o terminal num cen-
tro turistico ou cultural, ancorando-o em al-
gum outro ponto da orla fluvial da cidade.
Se fizer isso, cometera um erro. O terminal
6 um tipico neg6cio ruinoso. A ma f6 do ges-
tor dos recursos piblicos utilizados na obra
jA estA caracterizada.
O que a prefeitura tem que fazer 6 cobrar
as responsabilidades civis e penais dos en-
volvidos, ressarcindo o erario da lesao sofri-
da. Se procurar um outre uso para as insta-
laqdes estard coonestando a dilapidaglo do
patrim6nio p6blico. JA estA na hora de al-
gu6m pagar pela irresponsabilidade no uso
do dinheiro do povo, que d escaso, mas 6
esbanjado levianamente pelos eventuais or-
denadores de despesa.
O terminal exemplifica a ma-ft da admi-
nistragAo H6lio Gueiros. A id6ia do terminal
foi plantadanum terreno f6rtil. Mais de 80%
do peixe consumido pela populaQlo de Be-
lm 6 fornecido por pescadores artesanais.
O prego de venda A onerado por uma cadeia
de vorazes atravessadores. Os padres de co-
mercializaqao do pescado deixam muito a
desejar. Logo, o govero poderia intervir na
regulaqao desse mercado, favorecendo as
duas pontas da cadeia de comercializa9go:
os produtores e os consumidores.
Mas, como na maioria das iniciativas de
HWlio Gueiros, uma boa ideia foi apropriada
pela Familia S/A para beneficio pr6prio.
Abriu-se uma concorrencia para que a enco-
menda ficasse com a Ebal (Estaleiros da Ba-
cia Amaz6nica). Nessa 6poca, dois filhos do
prefeito o advogado Paulo Erico Moraes
Gueiros e o engenheiro naval Andrd Moraes
Gueiros eram diretores acionistas da em-
presa. Duas noras do alcaide Maria Inez
Klautau de Mendonga Gueiros e Ana Lidia
Mauds Gueiros faziam parte do conselho
de administration da Ebal.
Em dezembro de 1994 o servigo foi
concluido.A prefeitura pagou A empresa a
quinta e iltima parcela do contrato, quitan-


do-o. Durante um ano o terminal permane-
ceu fundeado no porto do estaleiro A espera
de um local para atracacao definitive. Em
janeiro de 1996 foi levado para o porto da
Feira do Agai, no Ver-o-Peso. Alguns dias
depois soltou-se das amarras, ficando A de-
riva, por atracaglo incorreta.
Retornou A Ebal para reparos e s6 entao
foi novamente levado para a Feira do Agai.
t interessante observer que o contrato assi-
nado pela prefeitura cor a Ebal inclufa, na
planilha de custos, a construgao e a atraca-
qao, mas quem realizou o segundo serviqo
foi a Senior Engenharia, que assinou um ou-
tro contrato cor a Codem (Companhia de
Desenvolvimento e Administragao da Area
Metropolitan de Belem) para esse fim. Mais
190 mil reais foram adicionados ao custo
original.
Em setembro de 1996, cor as festas de
estilo, o prefeito H6lio Gueiros inaugurou a
"obra" atrds de votos para seus aliados elei-
torais, entire os quais o atual governador Al-
mir Gabriel. Tr6s meses depois de funciona-
mento precArio, o estaleiro parou e assim
permanece atW hoje.
No period de 19 meses que transcorre-
ram entire a conclusAo do serving e a inaugu-
ragao do terminal alguns dos seus equipa-
mentos que apresentaram problems por falta
de manutencAo, como as maquinas de resfri-
amento (conhecidas como kits-frigos), per-
deram a garantia do fabricante. A recupera-
cqo teria que ser onerosa para a prefeitura.
Mas muitos problems operacionais logo
se manifestaram. Os contatos com coopera-
tivas de pescadores ou col6nias pesqueiras,
que deveriam ser os verdadeiros administra-
dores da unidade, nao passavam de promes-
sas de cabos-eleitorais. Simplesmente inexis-


Perdao
Mais do que em todos os nimeros re-
centes, a ultima edicAo deste journal foi
tomada por gatos e lombadas. O mais gra-
ve foi um esdruxulo trousse no lugar do
competent trouxe. Tudo porque a vi-
brante redafgo deste peri6dico foi ataca-
da por uma combinaiAo de forte gripe e
does de coluna.
Mas o computador, que, aldm de bur-
ro. 6 tambem tao culpAvel quanto um
mordomo. foi convenientemente punido.
Perdlo, leitores. Pelas gralhas de ontem,
pelas de hoje e ceramente pelas
de amanha. Como diz aquela bela mQsi-
ca, perdlo foi feito pra gente pedir.


tia uma cadeia de comercializa9Ao estabele-
cida.
A Feira do Agaf, que 6 tomada por ven-
dedores e compradores da fruta desde a ma-
drugada, tambem nao pode ser um local apto
para receber o terminal. Mas nem aquela es-
trutura de ferro (marca registrada da admi-
nistragao Gueiros) poderia funcionar como
tal. A fAbrica de gelo, montada ao lado da
sala de maquinas, 6 prejudicada pelo recebi-
mento de calor proveniente dos motors.
TambCm nao dispOe de exaustores de ar
frio para impedir a elevacao da temperature.
Nele nao hA um dispositivo de protegao ele-
trica (previsto nas especificaCOes tdcnicas,
mas nao instalado), que poderia evitar os
danos causados aos equipamentos de refri-
geraqao pela queda de tensao, permanent
em Beldm. Nem mesmo um gerador pr6prio
o terminal tern para manter a protecao ao
peixe estocado nas muito comuns interrup-
96es no fornecimento de energia pela Celpa.
As ligac6es el6tricas do terminal A rede ex-
tera, aliAs, sempre representaram um gran-
de perigo, como revelou um acidente ocor-
ridojA no ano passado. A fia to se rompeu
e por pouco nAo houve vitima de eletrocuta-
gem.
Mesmo se a refrigeragao funcionasse bem,
a estrutura de ferro, que acumula calor, pre-
judicaria a durabilidade do pescado nas ca-
maras frigorificas. Por que'ferro, senao para
tender aos talentosos donos da Ebal? Como
justificar que a area de maior dimensao do
terminal seja destinada nao As instalaq8es a
ele relacionadas (recepglo do pescado, cais
maritime, fAbrica de gelo e cAmara de resfri-
amento), mas a uma praga de fins culturais?
So para aumentar o faturamento do estalei-
ro? E para tentar o successor de Gueiros a
pensar em usar a estrutura de ferro como um
centro turistico ou cultural, esquecendo o
prejufzo que ele acarretou A comunidade?
A Marinha exigiu a remogao do terminal
da Feira do Agal desde que uma balsa da
Reicon A deriva se chocou com o monstren-
go dos Gueiros, deixando A mostra o perigo
de novos acidentes no future se permanecer
ali. JA a opiniAo p6blica cobra da atual admi-
nistraggo municipal provid&ncias para apu-
rar responsabilidades e cobrar na justica a
punigAo dos delitos, com o ressarcimento dos
prejuizos. Pode ser que assim a ret6rica das
ameagas que marca a mudanga de cadeiras
no poder perca sua caracteristica inocuida-
de e a lei comece a ser respeitada. Do con-
trArio, enquanto o bla-bl-bli se espicha, os
crimes mesmo os ja tao conhecidos como
este permanecerao impunes. 0








Esta nova sei;o: interesse public
Uma das obrigaqoes ddservido, ptblivcg 6prestarcontas ao povo.
Acreditando ness F~nxima, you incremeftar aqui uma segAo. A cada
ndtmero cobrarei'd s'diversas instAncias do governo atos seus que
nao estiverem adequadamente registrados no Diario Oficial. Ao in-
v6s de ir A repartiglo atrds dos esclarecimentos, cobrd-los-ei (como
diria Janio Quadros) publicamente, exceto quando se tratar de ques-
tao tao complex que exija antes uma checagem na fonte.
Penso que assim todos estarao bem servidos. O distinto p6blico
participarA do nosso aprendizado na liturgia dos atos oficiais, ativi-
dade que sempre requer, aldm de competdncia e aplicaqAo, uma boa
dose de imaginagao e criatividade. A autoridade, nao se sentindo
acusada, mas civilizadamente convidada a prestar esclarecimentos,
reforgari seu compromisso funcional, creditando-se A estima coleti-
va. E dessa maneira se atenderA ao que interessa acima de tudo: o
bem comum e a vontade da maioria, como estabelece o regime de-
mocratico.
Evidentemente, qualquer leitor poderA participar dessa nova se-
cqo, remetendo sua contribuiqao conforme as especificaq6es aqui
apresentadas. Para tanto, tera que praticar uma atividade nao muito
atraente, mas muito pedag6gica e construtiva: a leitura do Diario
Official. Contudo, o objetivo superior s6 sera alcancado se para ele
contribuirem os verdadeiros servidores pdblicos, nao os grileiros de
cargos pfiblicos por interferencia political ou os azares da vida, mas
aqueles que nao duvidam do lema eteramente democrAtico: do povo,
pelo povo e para o povo.
O primeiro pedido de esclarecimentos 6 para a Secretaria de Pla-
nejamento. No dia 19 de dezembro a Seplan repassou 100 mil reals
do FDE (Fundo de Desenvolvimento Econ6mico) para a prefeitura
de Aurora do ParA comprar uma motoniveladora. No mesmo dia,
atraves de convnnio identico, a prefeitura de Anapu recebeu R$ 144
mil para adquirir uma mesma motoniveladora. Qual a razao dessa
discrepancia de quase 50%?
O segundo requerimento d dirigido A Empresa P6blica Ofir Loyo-
la (que, polemicamente, substituiu e estatizou o Instituto Ofir Loyo-
la). No Altimo dia 29 a empresa aditou pela s6tima vez um contrato
originalmente assinado em 1995, acrescentando R$ 338 mil por mais
um ano (o de 1998) aos rendimentos da Puma Servioes Especiali-
zados de Vigilancia e Transporte de Valores. No mesmo dia o adita-
mento, o sexto, igualmente incident sobre valor e prazo, foi ao con-
trato originalmente de 1995 da KM Comdrcio e Serviqos, que
vai receber mais R$ 890 mil durante 1998.
Pergunta-se: nAo seria de boa norma administrative quando mul-
tiplicam-se os terms aditivos, espichando prazo e ampliando valor
de forma significativa, proceder pelo menos a uma tomada de prego
para garantir vantagens para o 6rgao pablico e prevenir o risco de
manipulacbes? O Tribunal de Contas nao deveria exigir previamente
justificativa fundamentada para o aditamento, ao inv6s de reservar-
se para apurar durante a prestag~o de contas (quando os fatos estao
consumados e, se muito, apenas serA punido o responsAvel pelo
dano)? Talvez conseguisse inibir a onda de aditamentos e dispensas
de licitaqAo que se espalhou como era daninha pelo DO, contornan-
do habilmente a lei, mas colidindo com a moral e a etica. Estas,
como se sabe (ou se sabia), sao a base necessAria a existencia ou
manuteng o das normas legais.


Verdades


No numero que estA nas bancas,
Veja se auto-proclama "a maior pu-
blicaqao da hist6ria brasileira, corn
tiragem de 1.250.000 exemplares
semanais". N&o 6 exato: O Cruzei-
ro, dos Diarios Associados, chegou
a 550 mil exemplares semanais em
1952, quando o Brasil tinha tres ve-
zes menos habitantes (50 milhbes)
do que agora. Assim, a circulacAo
atualizada de O Cruzeiro seria de
1.750.000 exemplares, 30% acima
de Veja.
Mas, para dar uma dimensao mais
exatadas diferengas, em 1952 O Cru-
zeiro era lida por 7% de toda a popu-
lag~o brasileira. Se fossem conside-
rados apenas os alfabetizados (numa
epoca em que o indice de analfabe-
tismo era elevado; agora esta disfar-
0ado), a proporqao subiria para 10%.


Hoje, Veja 6 lida por apenas 2,5% da
populagao brasileira.
Nao se deve minimizar o significa-
dodatiragemde Veja emum pals como
o nosso. Trata-se realmente de uma fa-
qanha. Mas a gl6ria nao 6 tanta. Veja,
mais uma vez, peca pela inexatidao.
Alias, para avaliar a hist6ria re-
cente dojomalismo brasileiro basta
comparar a ediqto especial sobre a
Amaz6nia de Realidade, uma publi-
cacao mensal da mesma Editora
Abril (lanQada em 1966 e suicida-
da em 1974), A edigAo de Veja no
l6timo numero de 1997, tamb6m a
derradeira facanha de MArio Sergio
Conti como director de redaqao. Pas-
sados 25 anos das duas abordagens
amaz6nicas, aprimorou-se a perfu-
maria, mas o jornalismo evaporou
do belo env61ucro.


0 artist
Em muitos anos, s6 consigo me
lembrar cor prazer e emoAo de
poucos programs de televisao. Re-
gina Case em Portugal pela TV Glo-
bo, um documentdrio sobre Noam
Chomsky que a Cultura exibiu, ou-
tro da BBC sobre Mamiraua, na var-
zea amazonense, e meia d6zia mais.
Agora se junta A coleqao um belis-
simo sobre Milton Nascimento, que
ja peguei iniciado na TVA pelo ca-
nal 13BO. DA para perceber quando
ha ideias por tras da cAmera e quan-
do o operator nao d apenas o iletra-
do executor de um roteiro. Em al-
guns moments a emocao foi tao
forte que deu para lagrimejar. Vol-
tando no tempo, sem perder a sinto-
nia do tempo, pude perceber o quan-
to foi marcante na nossa vida o gru-
po mineiro do Clube da Esquina.
Felizmente Milton Nascimento
esta retornando A sua plena condi-
clo de artist. livre dos perigos do
reducionismo sociol6gico e da car-
tilha do politicamente correto. Os
artists sao tao especiais que 6 preci-
so defender sua integridade, original,
ex6tica ou radical, sejam la quais fo-
rem as ideias que habitam seu c6re-
bro. Artistateleguiado artist morto.

Uma r6stia de
iluminismo
Desta vez algumas empresas
paraenses aproveitaram com in-
teligencia e criatividade o final do
ano. Ao invds de an6dinos brin-
des, que geram apenas benefici-
os individuals, apostaram na cul-
tura. A Estacon, por exemplo,
montou seu cartao natalino so-
bre quatro projetos de Camillo
Porto de Oliveira que exemplifi-
cam A perfeiqco o estilo funcio-
nal praticado no Para.


Os irmaos Lobo, da Clinica
Lobo (aplicados seguidores do pai,
numa empresa familiar de fazer
inveja), associaram-se A produgao
do excelente disco de Salomao
Habib, capaz de agradar mesmo
os que nAo fazem do violao o seu
instrument musical favorite.
A Companhia Vale do Rio
Doce distribuiu entire convidados
o CD de Carlos Gomes produzi-
do pela Secretaria de Cultura, que
atesta o grau de maturidade da
mufsica clssica no Pard, e o duplo
de Paulo Andr6 Barata, o mais im-
portante compositor popular do
Estado (ele apenas deveria ter o
cuidado de procurar apoio para
sua voz, que nAo sustenta tudo o
que suas m6sicas, especialmente
as de parceria com o pai, o ines-
quecivel poeta Ruy Barata, podem
render).
Deu para fechar o ano cor a
sensacao de que a gente do Pari 6
melhor do que deixa perceber sua
elite dirigente.

Coer ncia
Durante a chamada quadra
momesca osjorais nao circular
em Salvador. E irritante para um
dependent de peri6dicos. Mas e
coerente com a realidade. A im-
prensa baiana e que estA certa.
Atitude identica deveria ser ado-
tada nos periods de fim-de-ano,
seguindo-se o exemplo solitario
da Gazeta Mercantil, que suspen-
deu sua atividade nos dias 24 e
31, permanecendo inativa ate a
segunda-feira seguinte ao feria-
dao prolongado pelos enforca-
mentos dos dias imprensados. Ler
jornais nesse period 6 uma tor-
tura. Se quase tudo nAo passa de
embromaglo, por que nao incor-
porar o farniente generalizado?


Bola de cristal da energia
Para que o governor consiga vender sua empresa de energia e ain-
da apresentar Agio A sociedade, a Celpa foi dividida em tres. Uma vai
ser arrematada, talvez em abril: 6 a Celpa integrada a Tucurui, cor
jurisdigao sobre a area de infludncia de Bel6m. A outra, abrangendo
o sul e sudeste do Para, tem atrativos. A l6tima s6 interessarA por-
que o governor estd construindo o tal do tramoeste ate Santarmr e
Itaituba e nao se ressarcirA desse investimento. Mas ainda terA que
oferecer outras compensagSes para se livrar do encargo, subsidian-
do incremento de consume para dar A estrutura de custos a econo-
mia de escala adequada..
A obsessao em vender parece tao grande que o comprador da
Celpa/Baixo-Amazonas vai ter que administrar o Maraj6, isolado a
800 quil6metros de distancia da future sede, uma incongrudncia ge-
ogrAfica e uma tortuosidade 16gica. Mas o Maraj6 agregado a Be-
l6m, que seria seu destiny natural, representaria uma pitada de gor-
dura no fil6-mignon. E o que os tucanos querem oferecer ao arrema-
tador potential 6 fil6 puro. Se possivel, em espanhol.



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