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-L (P g. 8) I1 POLITICAL A vez de Jader e Almir A uiltima pesquisa do Ibope mostra que Hilio Gueirosficou defora da dispute que decidird quem serd o pr6ximo governador do Estado. Nem senador ele conseguird se eleger. Mas ndo e cartafora do baralho. Pode voltar a contar se Almir Gabriel eJader Barbalho ndofecharem um acordo. Essa possibilidade ainda ndo estd descartada. "vice-governador H61io 17 Gueiros Jr. bateu com es- trondo, no domingo passa- do, a porta de comunica9,o com o governador Almir Gabriel, que o pai ainda deixara entrea- berta em sua 61tima manifestagio p6bli- ca, uma semana antes. Agora a guerra estA declarada formalmente entire os dois principals aliados na coligagdo que ven- ceu a eleiqAo de 1994. O afastamento vinha ocorrendo pro- gressivamente. Na media em que se aprofundava, HWlio Gueiros ia deixando de falar atrav6s do filho, passando a as- sumir as declara6oes hostisao governa- dor. Apesar do tom cada vez mais agres- sivo, fazia questAo de manter como na ultima entrevista a A Provincia do Pard - uma possibilidade de recomposigAo. Mas o troco que o deputado Zenaldo Coutinho deu a essa entrevista foi consi- derado excessive no reduto do ex-gover- nador. Helinho foi liberado para retru- car na mesma moeda e, agora, procla- mar o estado de beligerfncia total. A entrevista, publicada no dia 14 pelo Didrio do Pard, do senador Jader Bar- balho, atingiu fundo o convalescent go- vernador. Al6m de chamar Almir Gabri- el de nazista, Helinho espalhou acusa- 96es contra o filho do governador, Mar- celo Gabriel, e amigos pr6ximos, que GOS INO DIAA TU URUI 00T 8) )estariam fazendo trafico de influencia e se favorecendo em contratos dirigidos junto A administragco p6blica. O acusador nAo apresentou provas, mas fez refer6ncias corn o nitido objeti- vo de torni-las equivalentes a documen- tos, ou insinuando que pode voltar ao tema (e certamente o farA, na campanha eleitoral). "O Marcelo Gabriel tem vAri- as empresas de fachada, As vezes usa como test de ferro o capitao Osmar, e fica ganhando licitagAo", disse o vice- goverador, reforgando a insinuanlo corn "urn caso concrete", o do "Hospital do Ex6rcito" (na verdade, da Policia Mili- tar), na praga Batista Campos. Apesar das refer6ncias a casos espe- cificos, nenhuma delas foi acompanha- da de documents comprobat6rios. Lo- calizA-los erao que o vice buscou quan- do assumiu pela fltima vez a interinida- de. Mas, ao que parece, apenas reforcou suas pistas, sem conseguir chegar ao ob- jetivo. Ou porque tudo nao passa mes- mo de indicios, corn circulagPo crescen- te nas chamadas rodas bem informadas, ou porque nio disp6s de tempo sufici- ente para a apura9~o, que exigiria abrir vArias caixas pretas bern instaladas na administra9C o p6blica (dai a investida sobre a empresa de processamento de dados do Estado, Prodepa, que teve im- portincia estrat6gica na administragAo Gueiros). Suscitar casos de corrupgAo no gover- no Almir Gabriel, relacionando-os ao filho do governador e a personagens in- fluentes na administration e na political situacionista, deverA ser a linha de corn- bate dos Gueiros, especialistas na mat&- ria, caso eles partam para o confront corn o PSDB na eleigFo do pr6ximo ano. E uma attitude ditada tanto pela arg6cia como pelo desespero. A ltima pesquisa do Ibope, encomen- dada pelo grupo Liberal (mas nao divul- gada), mostra que o indice eleitoral do goverador dobrou, o de Jader declinou ligeiramente e o de H6lio Gueiros desa- bou. No inicio de dezembro, 37% dos entrevistados pelo institute votariam em Jader (42% antes) e 33% em Almir (an- tes 16%). Apenas 13% optaram por Gueiros, que na primeira pesquisa visan- do 98 estava apenas ligeiramente abaixo do senador do PMDB. Para arrematar, o ex-governador perde por 22% a 38% para Jarbas Passarinho na dispute pela mnica vaga de senador que estarA em dis- puta no pr6ximo ano (Coutinho Jorge tem 16% e Valdir Ganzer, do PT, 8%). Se a eleigAo fosse hoje, Jarbas Passa- rinho, mesmo concorrendo ao senado, ainda teria mais votos para o governor do que Jader Barbalho. Como entender isso "e tr6s anos atrAs Passarinho sofreu, no segundo turo, a mais arrasadora derro- ta em uma dispute para o governor do Estado em muitos anos? Que aconteci- mento teria permitido ao ex-ministro re- cuperar prestigio entire o eleitorado pa- raense? Um palpite de resposta, A falta de in- forma9ges mais completes sobre a pes- quisa do Ibope, cuja integra, como de regra, 6 mantida sob sete chaves: o povo quer eleger dirigentes que possam traba- Ihar em beneficio do Estado, de prefe- rencia aplicando a maior parte do dinhei- ro nas obras e services (mas a corrupgAo 6 considerada inevitavel; o que se busca 6 baixar o percentual de desvio de recur- sos piblicos). O grande problema 6 estabelecer o in- dice aceitAvel de corrupiAo pelo eleitora- do. Jader, realisticamente, s6 se preocupa corn a questao quando ela extravasa seu pr6prio cAlculo, que toma como base sua inquestionavel experiencia political (per- correndo modestas residencias pelo inte- rior, pode-se flagrar na sala o retrato de Jader con a faixa de goverador, tirado de um calendArio que ele nao se cansa de redistribuir). Ele vinha insistindo no lema que Ihe 6 mais caro: a associa9ao do seu nome ao trabalho. E, por decorrencia, cri- ando o contrast entire ele e Almir, como jA havia feito em oposigao ao esquema Gueiros-Xerfan em 1990. Mas o governador, corn obras suas (que finalmente comegam a aparecer), de terceiros, reais ou simplesmente propa- gandeadas (na intensidade que mestre Goebbels recomendava para transfonnar uma mentira em uma verdade), foi ate- nuando esse contrast, livrando-se da pecha de pregui9oso ou inerte que Jader Ihe langava. Ao mesmo tempo, mais comn presdigitagCo publicitAria do que corn realidade, combateu a image de inde- ciso e frouxo, que tambem Ihe era afixa- da. Ainda faturou a imagem de vitima, que Gueiros Jr. Ihe permitiu incorporar durante o period de afastamento do governor, para fazer seus indices dispa- rarem nesta fase decisive de pr6-campa- nha eleitoral (assim como Passarinho se beneficiou do recesso no qual entrou depois da derrota, que estimula o saudo- sismo). Os n6meros favorAveis animaram o governador a attitudes inimaginaveis para o padrdo anterior do seu comportamen- to politico. Numa ousadia incomum, demitiu o chefe da casa military do vice- governador, sem avisi-lo antes. O coro- nel da PM Heitor Watrin 6ra aquele que, de farda, apesar de estar reformado, foi pessoalmente comunicar a MArio Ribei- ro que ele estava demitido da presiddn- cia interina do Banco do Estado do ParA pelo tamb6m interino governador. O deslize era flagrante, como outros pequenos atos de impaciencia que o Ji- nior dos Gueiros cometeu, desrespeitan'- do normas e ritos A maneira autocritica do pai (e criando pretexto para uma CPI mais political do que tecnica). Ficou pro- vado que esse tipo de involu9ao formal s6 6 possivel quando todos coonestam a irrever6ncia do soba. Bastou a grande imprensa national assumir as dores da privatizada Compa- nhia Vale do Rio Doce, incomodada pela supressio de beneficios burocriticos concedidos sem maior rigor, o grupo Liberal nao estar sendo favorecido, ou os cargos laterals ao trono nao estarem sendo monoliticamente ocupados pelo mesmo grupo politico, para que se des- fizesse a unanimidade. Ao long dos anos, elatem sido a cau- sa dos maus habitos politicos do Para, da sua sujeicao ao risco constant de re- trocessos, ao revigoramento do velhissi- mo e carcomido principio de que lei, por aqui, e potoca, cujos rigores s6 aos ini- mgos interessa aplicar. Mesmo que seja conjunturalmeemente, em fun9~o de uma realidade que pouco tem a ver corn os discursos, a situagAo mudou e s6 os Gueiros nAo viram. Eles estAo pagando caro por esse erro de 6tica e de instintos. Se a elei9Ao fosse hoje, Hl6io Gueiros estaria fora do se- gundo turn para o governor e derrotado para o senado. Amargaria o mais long period de exilio do poder em 16 anos, desde que foi eleito senador e voltou A vida political. Ainda teria mais uma opor- tunidade de reconquistar posigao na elei- 9ao para a prefeitura de Belem, no ano 2000. Mas bem mais velho e com me- nos poder do que agora. Mais suscetivel a nova derrota, portanto. Podem ser alteradas as tendancias re- gistradas na iltima pesquisa do Ibope, de crescimento acelerado do governador, declinio ainda indefinido de Jader e que- da vertiginosa de Gueiros? Fatos novos de impact podem modificar essa confi- gura9to, mas essa possibiliodade estA ao alcance dos Gueiros? Eles nao dispoem de nenhum veiculo de comunicacgo e enfrentam a ira do go- vernador, que ainda nio colocou-os ex- plicitamente sob a carapuga de traidores que langada ao ar na segunda-feira, mas ja se referiu a ela um dia depois da entre- vista de Helinho. Mais um pouco de adre- nalina e talvez Almir chegue ao extreme de nominar os traidores e exibir-lhes o m6vel da traigio, consumando o que s6 ameagou fazer quando denunciou os "es- pertos" e renunciou sorumbaticamente A candidatura A prefeitura de Bel6m, em 1992, levando mala e cuia e nao deixan- do explicayao mais convincente. JOURNAL PESSOAL 21 QUINZENA DE DEZEMBRO / 1997 j ) As inicas ferramentas de poder que H61io Gueiros pode usar estao sob o do- minio do seu ex-arqui-inimigo Jader Barbalho. Sem essa alianca, Gueiros s6 tem uma garantia: de ser um imbativel candidate a deputado federal. Voltari a uma carreira solo, sem a Familia S/A. Jader sempre teve essa percep9ao. Mesmo sem conversar corn HWlio para acertar os terms de um novo acordo (o que atW agora nao aconteceu), foi libe- rando espago para o ex-adversArio em seus veiculos de comunicagiio e nas ins- tincias de poder que ainda estao sob o seu control. Essa estrat6gia tanto leva a um cami- nhar seguro e cumulative rumo ao acor- do, como A destruigdo do esquema de poder de Gueiros. Conduzido ao limited do labirinto, o ex-prefeito s6 pode es- colher entire o rompimento definitiva- mente aberto com seus aliados anterio- res e a adesao a Jader em condig6es fa- voraveis ao lider do PMDB. Afinal, o que restaria a Hl6io se Jader aderisse a Almir? Esta hip6tese parece virtualmente im- possivel, mas, nos terms da political paraense (e national mesmo), o que a impede de ocorrer? Um acerto com o senador peemedebista significaria, para Almir Gabriel, a certeza da reeleig9o. Mesmo que consiga apenas metade dos votos de Jader, ji seria o bastante para vencer no primeiro turno, sem risco real ra r A Zona Franca de Manaus foi uma mAgica que o govero federal inventou para tirar a capital amazonense da pros- traqAo em que ela se manteve desde a de- cadencia da borracha. A cada moment em que a manutendlo desse artificialis- mo foi questionado ou teve seu prazo de validade alcangado, ao inv6s de resolver de vez o problema, o govemo o transfe- riu para o future. A ZF completou agora 30 anos e o problema s6 fez crescer. Alguns nimeros impressionam. O go- verno federal deixou de arrecadar 2,2 bi- lhoes de reais em impostos no ano passa- do para incentivar as 517 indfistrias apro- vadas pela Suframa, cujas importagoes chegaram a R$ 3,1 bilhOes. Em troca, elas geraram um faturamento de R$ 10,4 bi- lhoes, mas s6 exportaram R$ 104 milhSes. de perder para o que sobrasse no espec- tro politico (Ademir Andrade, a dissiden- cia do PT e o pr6prio Gueiros). O que inviabiliza um acordo Almir- Jader? Ou, dito de outra maneira: qual seria o prego do senador para assumir o risco de deixar seu rebanho ao relento por mais quatro anos e incorporar-se A tenda do lider tucano? Jader sempre disse que nao se expo- ria ao risco assumido pelo senador Pas- sarinho, que fez uma invejivel carreira federal em Brasilia, mas perdeu seus re- dutos eleitorais no ParA, ficando cor o pincel na mao. Os confidentes, por6m, juram ter ouvido do lider do PMDB no senado que ele nao quer ser candidate ao governor. Pretenderia continuar apos- tando na possibilidade de ir mais long na trajet6ria national, sem perder as ba- ses de sustentaggo no Pard, mas sem dei- xar-se prender por elas. Que garantias o governador Almir Gabriel poderA Ihe dar, sem reduzir a faixa de poder que o segundo mandate consecutive Ihe concederA? A principal consequencia da reelei9go 6 a de conso- lidar um novo projeto politico, j envol- vendo um grupo bem constituido, que ocuparA os escaninhos mais valiosos do poder. Onde se encaixara a facq9o do senador Jader Barbalho nesse projeto? Uma alternative nao exclui a outra, ou ainda e possivel fazer uma composigao factivel e crivel? Os resultados positives alcangados nas ultimas pesquisas de opiniao podem estimular os almiristas a continuar em frente, descartando um acordo com Ja- der (nem tanto corn o PMDB). Essa ati- tude acarretari a alianga Jader-H61io, o que pode significar a necessidade de se- gundo turno e o risco de derrota, numa campanha que se anuncia desde jA como violent, em estilo muito pouco favo- rAvel ao espirito tucano. At6 um certo limited, a Jader interessa continuar estimulando o antagonism entire os ex-aliados. O limited 6 a possi- bilidade, a despeito de tudo, de uma re- composig o de interesses com o gover- no, que os jaderistas ainda nAo ultra- passaram. Mas os gueiristas jA estao do outro lado. Ou eles conseguem trazer os antigos parceiros para sua compa- nhia, ou ficarAo sozinhos e eliminados da faixa de decisao eleitoral. A sua maneira, com muita violen- cia verbal e pantomima, os Gueiros deixaram o centro do tablado e foram deslocados para os bastidores. Nao estao mortos, mas s6 voltarao A cena se algu6m os trousser de li, oferecen- do-lhes um veiculo de comunica9go, recursos de campanha ou uma fatia de poder. Agora, 6 precise acompanhar o jogo que estarao fazendo o gover- nador Almir Gabriel e o senador Ja- der Barbalho. O pr6ximo lance deci- sivo 6 deles. * JIL..~. - E uma relagio de troca desvantajosa, com um balango de pagamentos deficitario. Argumentava-se e ainda se continue a argumentar que 6 o prego a pagar para interiorizar ind6strias naquele desert econ6mico e human tao distant dos grandes mercados. Mas as ind6strias, apa- nhadas no contrapasso da globalizaao, estio reduzindo cada vez mais a absor- qAo de mao-de-obra (hoje sao apenas 35 mil empregos diretos) e reduzindo os cus- tos, enquanto o govemo nao pode mais manter-se na posig o de avestruz, que nao v6 os arranjos das multinacionais e o des- gaste cambial por eles provocado. Mas serA que algum dia o Amazonas nao terA que ser confrontado com sua re- alidade, sem artificios como esse (tao fa- laciosos quanto o suposto monop61io na- tural da borracha)? Premido por suas di- ficuldades, o governor quis eliminar os incentives da ZF. Acabou tendo que se contentar com o corte de 50%, a ser apli- cado apenas aos novos projetos aprova- dos pela Suframa, deixando de lado a ra- cionalidade econbmica em troca do rea- lismo politico (a bancada amazonense, li- derada pelo senador Gilberto Miranda, um lobbista manauara que d paulista nlo por acaso e s6cio de multinacionais nao por coincidencia). Essa fantasia sobreviverA at6 2013, quando fecha-se o guarda-chuva consti- tucional que protege a Zona Franca com esse manto de subsidies e olhos fechados, ou o governor conseguirA apresentar no pr6ximo ano (como promete) uma lei complementary trazendo a Zona Franca para mais pr6ximo da realidade, sem ati- rar o Amazonas na rua da amargura? Um primeiro pass seria acabar cor as zonas obscures que possibilitam a mul- tipliagao de personagens como Miranda e submeter a ZF ao teste da verdade, en- contrando para o Amazonas uma alterna- tiva definitive e saudAvel, nao esse aluci- n6geno fiscal que um dia, quando passar, custard muito caro a todos. * P'3 ~ ~ ~ ~4~f~;~goi gftnw;!~' -Imm" Belem: a que podia ter sido, mas ja nao pode mais ser Belem comegou o s6culo como a ter- ceira principal cidade do pais. Era a por- ta de entrada de uma regiao que forne- cia toda a borracha consumida pela nas- cente ind6stria. Tinha a fisionomia de uma cidade integralmente portuguesa, adapatada aos tr6picos, que incorporou o luxo neoclAssico financiado pela se- ringueira. Ocupava uma posigdo n(ica no mundo. Poderia continuar singular atW hoje. Mas perdeu essa posicgo pri- vilegiada. O titulo de a mais representative ci- dade colonial portuguesa no hemisf6- rio sul, que Sio Luis recebeu da Unes- co no dia 3, caberia corn maior proprie- dade a Bel6m se a capital paraense nio tivesse sofrido, a partir da segunda me- tade da d6cada de 60, um terrivel pro- cesso de descaracterizacio arquitet6ni- ca. A "Bel6m da Saudade", retratada corn esse nome no precioso ilbum que a Secretaria de Cultura editou no ano passado, nao ter paralelo entire as ci- dades ultramarinas de Portugal. Ela estava solidamente preservada, maravilhosa e inica, quando os ameri- canos recolocaram-na no mundo para o esforgo aliado na Segunda Guerra Mun- dial. E permanecia ainda bem caracte- rizada quando o Brasil a ela se integrou a partir da Bel6m-Brasilia (na verdade, Brasilia-Bel6m: o eixo dominant ser- viu aos interesses do resto do pais mais do que A sua ultima fronteira). A partir dai, instalou-se o barbarismo, a dilapi- dag o, a pilhagem. Ainda hA sobras de beleza espalha- das pela cidade, mas ela perdeu sua identidade. Uma ameba de descaso e in- sensibilidade alastra-se por seu organis- mo, a tudo contaminando com esse ar- rivismo de novo-quase-subitamente- rico que seccionou os elos de vida en- tre a cidade e os seus moradores. A pe- rola barroca inscrutrada entire a floresta e o pAntano virou um acampamento de neg6cios que nao se peja em descartar sua hist6ria. Desde 1985, quando comegou o Pro- jeto Renascer, Sio Luis superou a letar- gia (produto da decaddncia, que em grande parte poupou-a da "moderniza- gao") e tratou de recuperar sua mem6- ria arquitetonica, o trago mais impor- tante da hist6ria em uma cidade. Hoje, investidos quase 24 milh5es de reais, os 60 hectares do seu sitio hist6rico, corn 900 expressivos testemunhos (mais 3.500 no entorno), constituem um con- junto arquitet6nico dotado de homoge- neidade e harmonia suficientes parajus- tificar sua selegAo pela Unesco como patrim6nio da humanidade. Veja andou fazendo restrig6es A qua- lidade desse trabalho, mas uma 6poca da hist6ria da capital maranhense pode ser sentida e apreendida por quem per- corre seus casarnes azulejados, alguns corn at6 quatro andares. A degradagio nAo chegou a um ponto tal que inviabi- lizasse a reconstituigao da edificagdo original e do ambiente ao redor. Nunca se via nessa Area, por exemplo, carta- zes em acrilico como os que prolifera- ram em Belem. Mais do que tudo: con- junto inteiros sobreviveram durante o largo period em que houve abandon, mas nem tanto agressao, como em Be- lem. O chocante, na capital paraense, 6 a inciria generalizada, a aus6ncia de um padrAo minimo de exig&ncia e de qua- lidade. Nao era inevitAvel tanta destrui- 9io. Ao contririo: era perfeitamente possivel conciliar o passado com as de- mandas presents, ainda mais porque a obra que sucedeu o prddio anterior era, invariavelmente, um monstrengo, se- quer mais funcional. Quem vai a Ferrara, no Norte da Iti- lia, nlo pode deixar de se surpreender corn a conviv6ncia das tres cidades que a formam: a medieval, a renascentista (a primeira da Europa) e a modern. Elas se sucedem no espago sem confli- to. Seus moradores 6 que transitam en- tre elas, podendo morar tanto na part medieval quanto na modern sem sacri- ficios ou ren(incia As comodidades atu- ais. A cidade medieval nio sofreu qual- quer adaptagAo descaracterizadora para poder funcionar. Bastou bom senso e consciencia, elements inexistentes na hist6ria recent de Bel6m. Ela 6 como uma cobra, que para ter couro novo pre- cisa desfazer-se do que a recobria at6 entIo. Pode-se admirar a Belem colonial, lusotropical, em Albuns como o da Se- cult, mas cada vez menos no pr6prio te- cido urban. O trabalho de restauraqao que se tenta fazer alcanga apenas uma parcela minima do todo, sem refazer conjuntos como o do centro hist6rico de SRo Luis, a primeira cidade deste outro Brasil (aquele onde foi mais du- radoura a presenga portuguesa) prote- gida pela Unesco. E talvez a unica. A revitalizaqao hist6rica que agora a prefeitura pretend fazer concentra-se, de novo, na JoAo Alfredo. O "Belocen- tro" tem sido um investimento ciclico, que nIo se consolida. A administration Coutinho Jorge fez ali um bor traba- lho, mas os comerciantes nao cumpri- ram a sua parte no trato, a restauragio das fachadas (exceto por raras exce95es, entire as quais 6 precise citar, mais lon- ginquamente, Carlinhos Xerfan e, mais recentemente, a familiar Mattar). A media que as melhorias fisicas in- troduzidas pela prefeitura se deterioram, foi-se afirmando uma selvageria sem fronteiras, que culminou com a invasdo dos camels. Hoje a situagAo 6 melhor, mas dA uma tristeza profunda observer a depredagio de pr6dios como o da cen- tenaria Fanrmcia Cesar Santos, hoje um submercado de mau gosto. Como a ne- glig6ncia chegou ao limited extreme, a reconstituigao da paisagem demandard mais temepo e dinheiro, sem garantia de poder restabelecer o status quo ante. A revitalizagIo proposta pela prefei- tura 6 necessaria, mas 6 o lugar comurm. O mais expressive conjunto arquitet6- nico do centro commercial, capaz de re- constituir um ambient colonial, estd na rua Leao XIII, quase intacto. E pre- ciso salva-lo urgentemente, ja que nao se teve a mesma iniciativa em relacao ao conjunto Pombo, na Campos Sales (ainda a merecer todo o cuidado e aten- C'o). Mas sem d6vida a perola de Bel6m 6 a Cidade Velha. Por isso, 6 de cortar o coraqao percorr6-la de olhos bem aber- tos para ver sua selvagem destruigio, produto mais da ignorincia e do como- dismo do que propriamente da venali- dade. A prefeitura esti dnando um so- pro de esperanga cor a anunciada res- tauraqio do Palacete Pinho. Al6m do seu valor intrinseco superior, esse pr6- dio possui tamb6m um significado sim- b6lico. Evitar que ele prossiga na sua rota de desaparecimento pode contribuir para elevar de novo o moral e a auto- estima dos belenenses. Por melhor que venha a se realizar a obra de restauragdo (nAo 6, entretanto, o que assegura o at6 agora minguado orgamento disponivel), vai ser uma nova atrac o isolada se a prefeitura nao apro- veitar para dar inicio a um projeto mais amplo. O Palacete Pinho com o brilho original poderia servir de chamariz para a atragdo de 6rgdos da administragao p6blica com fungao compativel corn o bairro. E tamb6m de moradores que, atrav6s do uso do IPTU e do ISS, e de projetos orientados pela prefeitura, to- mem a iniciativa de restaurar as edifi- cagces arquitetonicamente ainda de in- teresse hist6rico (proporgAo cada vez menor). Deve-se tentar salvar a Cidade Velha enquanto ha o que salvar. Chega, por6m, da mera agao locali- zada e da simples obra fisica. Quanto se gastou (e se perdeu) com restaura- coes como as da Jodo Alfredo e do Ver- o-Peso? Agora mesmo o governor esta investindo uma soma nada desprezivel (R$ 13 milhbes) em tr6s obras que, in- dividualmente, t6m seu valor, mas per- manecem sendo pontos isolados na ci- dade. Ademais, a resid6ncia do governador (em obras pela en6sima vez, embora a mais cara e com o melhor titulo), a Feliz Lusitinia e a Estagdo da Doca podem ser important para os belemenses, destitui- dos de alternatives, mas nao serAo ins- trumentos eficientes de uma political de turismo. Quem se deslocara de sua terra (especialmente no exterior) por essas atracoes? Bel6m poderA ficar no vacuo entire a colonial Sao Luis e a ecol6gica Manaus, vendo os charters passarem so- bre o seu melhorado aeroporto. E claro: nem tudo esta perdido. Mas o que ja estA perdido 6 muito. Novos atrasos no que fazer e mais erros de con- ceppqo sobre como fazer podem ser fa- tais para esta ainda resistente mas muito sofredora Santa Maria de Be- 16m do GrAo Para. 0 A revista Veja se orgu- Iha de ser o quinto sema- nArio de informag9es em circulagCo no mundo. Nao e exatamente assim, mas admita-se que seja. E um titulo de exceptional va- lor. Tanto mais porque Veja nunca recorreu a pen- duricalhos (como encartar enciclopedias, dicionarios e livros, ou sortear aparta- mentos), que permitem a elevagao temporAria e ar- tificial da circulagco das publica95es que apelam para esse estratagema de venda. Basta, pordm, elas dei- xarem de oferecer a van- tagem para rapidamente perderem os leitores oca- sionais que essas fantasi- as atraem. A tiragem da Folha de S. Paulo domi- nical, por exemplo, que chegou a ultrapassar a bar- reira de 1,5 milhAo de exemplares, encontra-se atualmente abaixo do mi- lhao. Veja, entretanto, noo 6 mais a mesma hA muitos anos. Ainda corro para a caixa de correspond6ncia aos domingos, quando pressinto a chegada do en- tregador. Mas A ansiedade quase atavica da busca pela publicacao cheirando a tinta, quente como um pIo fresco, tem correspon- dido a frustragRo da leitu- ra. Veja ficou relaxada, imprecisa, impressionist, passional, falsamente eli- tista, metida a besta, em suma, como se diria por aqui. Um urubu fantasia- do de pavAo (nada contra o urubu, muito pelo con- trArio, nosso higienizador natural que Antonio Car- los Jobim valorizou com seu melhor disco; no caso, a reacgo 6 A presunc o). No seu filtimo n6mero, Veja chega com sete pAgi- nas de Xuxa e quatro de international. Nenhum re- paro ao destaque dado pela revista A apresentado- ra de televisio, assunto de trAs entire tres rodas, na quadratura temAtica do pais. Mas jornalismo de respeito significa, no mi- nimo, pao e circo. Uma parte da edigiao pode ser ditada pelo mercado, mas outra parte ter que resul- tar dos criterios estrita- mente profissionais da pu- blicaq o. Quem jA nAo consegue equilibrar mat6- rias circenses corn o for- necimento de substAncia informative que gera ver- dadeira opiniAo p6blica, nio pode exigir respeito. Veja tem abandonado principios editorials. A edi9co em circulagao traz 87 pAginas de publicidade num total de 148. Ja hou- ve 6poca em que a revista garantia que nunca have- ria mais publicidade do que mat6ria redacional. Agora, talvez para atenu- ar essa renincia, deixa de contar algumas das pAgi- nas de anmncio, subtrain- do-as da numeragao (sem incluir o encarte de auto- promogao da Editora Abril). Mas nem precise fazer um meticuloso levanta- mento para constatar que a Veja de Mario Sergio Con- ti tem pouco a ver corn a Veja de Mino Carta e Elio GAspari. Se ficou mais bo- nitinha, confirmando o fa- moso titulo de Nelson Ro- drigues, a revista tornou-se tamb6m mais ordinaria. Cor ela, quase como re- gra, toda a imprensa brasi- leira. Ficou parecida ao pncipe que incensa. 1 .n . . . . Salobo: a escolha da multinational A Companhia Vale do Rio Doce e a Anglo American estao mesmo unidas em torno do Projeto Salobo, para a explora- 9,0 do cobre de CarajAs? Formalmente associadas em parties iguais no empre- endimento elas de fato se acham, mas a privatizagdo da Vale parece ter agravado as divergencias internal. A nova CVRD parece cada vez mais interessada em produzir apenas concen- trado em CarajAs, uma atividade que s6 pode ser realizada ali mesmo. Mas relu- ta em implantar uma nova fAbrica na irea. O concentrado seria transferido para a Bahia e processado nas instala96es da Caraiba Metais, a niica metalurgica de cobre existente no pais. A Caraiba 6 da Paranapanema, con- trolada, por sua vez, pelos principals donos da CVRD. A Paranapanema, que se consolidou como o grande cartel do setor de nAo-ferrosos, 6 uma empresa em agonia financeira. Estava a um pass do colapso quando, na semana passada, os funds estatais, A frente o Previ, decidi- ram injetar-lhe dinheiro. Mas nao basta ajuda extema. E precise reformular suas parties, reduzindo custos e aumentando a rentabilidade atrav6s de maior raciona- lidade. Em nome dessa racionalizagao, a Vale privatizada consider mais neg6cio aco- plar a mina de CarajAs A metalurgia da Bahia. O investimento necessArio pode- ria ficar em um terqo dos 2,1 bilh6es de d61ares que um novo projeto complete exigiria (da extraqao do min6rio ao me- tal). Ao inv6s de importar do Chile ou do Peru 85% do concentrado que bene- ficia, a Caraiba ficaria inteiramente abas- tecida no mercado interno, atrav6s de uma coligada, gastando em reais e nAo em d6lar, al6m de faturar na outra ponta da linha. E poderia at6 expandir sua ca- pacidade de produg9o de catodos de co- bre, confirmando o dominion absolute do mercado. Mas esse esquema apresenta inconve- nientes outros al6m do monop6lio. A Salobo se tornaria fomecedora cativa da Caraiba. A fAbrica baiana faria a adapta- 9ao das suas instala95es industrials para utilizar o cobre de CarajAs, que apresen- ta um excepcional teor de flior. Que outro consumidor international estaria disposto a investors US$ 300 milh6es na adaptagio do lay-out industrial para se- parar o flior do cobre, quando hA outros fornecedores com min6rio standard? Em consequ6ncia, qual seria a atrati- bilidade da Salobo para outros s6cios, se a empresa ficar tAo dependent desse consumidor privilegiado? Qualquer ou- tra solucao que nao seja um projeto com- pleto s6 interessa A CVRD de Benjamin Steinbruch e seus parceiros na Caraiba. Por isso, a Anglo tem buscado caminhos distintos do s6cio, nao propriamente por ter colocado os interesses do Para acima de tudo, mas em defesa do seu neg6cio. Chegando A industrializagao, a Salobo recuperarA ouro e prata, al6m de agregar valor e entrar estrepitosamente no fecha- do mercado do cobre, uma benvinda novidade para a Naglo. Assim, por incrivel que possa parecer, a posigAo da multinational sul-africana tornou-se mais interessante para o Esta- do do que a da nova multinational bra- sileira, privatizada corn a omissao con- veniente de gente como o governador Almir Gabriel. Espera-se que, agora, ele esteja mais A altura do moment do que antes. 0 Novela a moda da burocracia Ultima forma na novela que estejornal acompanha hd tras nzimeros atravis dessa sensational publicacdo do ocultismo paraense que e o Didrio Official. Recapitulando a novela e reescrevendo os capitulos para ver se todos, finalmente, entendemos. Se ndo, que os canais competentes dcem as devidas explicaoies & opinido piblica para ndo pairar dztvidas e ndo suscitar desconfianqas indevidas e incabiveis. Capitulo um. 0 Didrio Official de 12 de novembro public os extratos de dois contratos assinados no dia 7 pela sub- secretdria de educacdo, Rosineli Guerreiro Salame, cor dispensa de licitaqdo. Ambos tmr o mesmo objetivo: "fornecimento de passagens areas para vdos nacionais e internacionais, bemn como quaisquer trechos do territ6rio national e international", conforme as necessidades da Seduc. O primeiro contrato, no valor de 303 mil reais, e cor a Uirapurzi Turismo. 0 segundo, de R$ 323 mil, com a Dinastur Dinastia Viagens e Turismo. Capitulo dois. 0 D. O. de 17 de novembro public os extratos de rescisdo de dois contratos de fornecimento, assinados naquele mesmo dia 7, mas pelo prdprio secretdrio de educago, Jodo de Jesus Paes Loureiro, com as mesmas empresas (Uirapuri e Dinastia). S6 que esses contratos eram de 1996, rescindidos, presume-se, para que os novos pudessem passar a vigorar. Capitulo trOs. 0 D. 0. de 20 de novembro esclarece, atravds de errata, que o ordenador da despesa do novo contrato corn a Uirapuru Turismo e o secret6rio e ndo a sub- secretdria (ndo localized errata sobre o outro contrato). Capitulo quatro. 0 D. O. de 4 de dezembro public os primeiros aditivos aos novos contratos, assinados no dia 2 (menos de um mrs, portanto, do inicio de sua vigOncia) pelo secretdrio. For "convenifncia administrative", o da Uirapurzi e aditado em R$ 11,9 mil. Jd os R$ 10 mil aditados ao contrato da Dinastur tnm justificacdo mais seca: "corn o objetivo de acrescer o quantitative do instrument original". Deduz-se deste enredo que, por algum motivo, os novos contratosforam assinados para saldar dibitos acumulados nos contratos anteriores, que, talvez, ndo pudessem se prestar a essefim. Mas s6 quando os iltimos jd estavam publicados e que se percebeu a necessidade de rescindir os anteriores, fazendo-o cor data atrasada, pr6tica comum nos atos oficiais. Para todos os efeitos legais, pordm, entire 12 e 17 de novembro a Seduc manteve dois contratos, corn os mesmosfins, cor as duas agincias de turismo. Mesmo que ndo seja nenhum exemplo de ilicitude, essa hist6ria ndo demonstra a necessidade de regularizar e normatizar melhor os atos da administraqo pziblica? Ao menos para poupar os fosfatos do leitor que o Didrio Oficial deixa na orfandade do entendimento. 0 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE DEZEMBRO / 1997 7 Lembrangas de 20 anos entire o 1 e o 70 livro Lancei meu primeiro livro ha 20 anos. Foi Amazdnia, o anteato da des- truiqdo, uma selegAo de artigos e re- portagens. Naquele 1977 navegavamos nas ondas da abertura lenta, segura e gradual do general Geisel, sem um rumo certo, sem um projeto hegem6- nico. Os "bols6es radicais, mas since- ros" do regime (extremamente radicals e nem tAo sinceros) travavam uma guerra feroz cor os radicals (e nem tao iluminados como pensavam) do outro lado, consumindo qualquer espago in- termediario. Ainda estAvamos no meio da traves- sia, entire a escuridAo plena baixada pelo AI-5, em dezembro de 1968 (o ano que nao terminou), e o bruxuleio furta-cor da Nova Rep6blica de Jos6 Sarney, o continuador de uma sucessao de vices traumaticos na nossa Rep6blica de mui- ta conciliaCao e pouca reform, como a definiu Jos6 Hon6rio Rodrigues (para confirmar sua tese, maravilhoso no in- terpretar da hist6ria, desastroso ao de- finir-se politicamente, como fez, em fa- vor de Chagas Freitas). Prop6s ao Romulo Maiorana fazer o langamento na oficina de O Liberal, onde entao eu trabalhava, com as mi- quinas em pleno funcionamento. Ele achou 6tima a id6ia e fez a sua parte: uma maciga divulgagAo nos seus veicu- los, reforgada pela concorr6ncia amiga, e um lauto coquetel. Todos, da esquer- da, direita e centro, confraternizavam e mantinham-se ordeiramente na fila dos aut6grafos, enquanto era impresso o Liberalzinho. Pelo menos original o lan- gamento foi. Oliveira Bastos at6 observou, no O Estado do Pard, fase Avertano Rocha, que havia a subversive intenggo de su- jar a fina roupa da society no 6leo das miquinas e fazi-la irmanar-se no mes- mo ambiente aos rudes grificos, absor- vidos na sua faina o suficiente para nao poder observer a distancia social e eventuais regras de etiqueta. Na ver- dade, foi uma festa democritica, algo raro na 6poca. Vinte anos depois, muitos amigos se foram e outros nao puderam ir ao dis- tante, escuro e pouco ativo campus do Guami. Romulo estd morto e, com ele, um jeito mais 16dico de patronato. NAo conhego as novas oficinas de 0 Libe- ral, certamente mais grandiosas do que as de 77, mas talvez sem o mesmo ca- lor, incluido o human. A Grafisa de Altino Pinheiro, que produziu o Antea- to da Destruiqdo, 6 a mesma do Ama- z6nia, o future perdido, gerado a qua- tro mAos por mim e pelo Luis at6 a fi- nalizagao em disquete (a grande novi- dade tecnol6gica do periodo. Altino e eu envelhecemos esses 20 anos, mas nao perdemos a sintonia e, apesar de tudo, nem o entusiasmo. Era a jungao dos opostos e o prima- do da tolerancia que eu quis louvar na noite de aut6grafos do primeiro livro. A saudagao foi do mestre OtAvio Men- donga, cor quem tenho esgrimido mi- nhas diverg6ncias sem por ele nunca deixar de perder o respeito e a admira- 9ao, porque discordar dele sempre me possibilitou aprender mais. Se eu tives- se naquela ocasiAo feito uma auto-sau- dag o, o resultado nAo teria sido me- Ihor. Ja agora o que quis ressaltar foi o desafio A intelig6ncia. O Pari disp6e de bons c6rebros e tem razoaveis cen- tros de saber, mas nao consegue apli- ci-los a realidade, modificando-a como 6 necessario. E uma intelectuali- dade dispersiva, metropolitan, ainda presa mentalmente ao extrativismo do passado (e, talvez por isso, incapaz de opor-se ao extrativismo do present, Uma pesquisa conduzida pelo Vox Populi em Curitiba, no final do mes passado, apresentou alguns resultados que a grande imprensa nao destacou. Por exemplo: 21% dos entrevistados disseram que confiam sempre em jor- nalistas e 18% nos empresirios da co- municagio; 38% confiam nosjornalis- tas na maioria das vezes, contra 34% nos donos das empresas de comunica- qIo; 34% confiam pouco nos profissi- onais e 37% nos empresarios: e 6% nunca confiam nos profissionais. en- quanto 8% nunca nos empresArios. Conclusoes desses dados: os profis- sionais ainda t6m mais credibilidade pi6blica do que os patries, mas sAo poucos os profissionais que nio fazem o que o patrAo manda. Em geral, o que ojornalista public 6, no minimo, o que mais mineral do que vegetal). Escolhi um audit6rio de um ermo campus uni- versitario (ainda assim, o sitio privile- giado da cidade) porque, apesar de tudo, sem coquetel e em local exclui- do do roteiro dos points, a intengao de discutir o future deste terrivel Pard es- taria melhor aplicada. O livro era ape- nas um pretexto, embora, por forga da timidez do audit6rio, tenha acabado por ser o centro do event. Nio sei se os presents sairam satis- feitos, compensados do sacrificio. Mas eu tive um retrato da situagAo atual, em preto e branco, tao field quanto, em c6res, foi o flagrante de 1977, embora hoje vivamos numa democracia e, 20 anos atrAs, numa ditadura de meia-sola. O desafio que a hist6ria nos imp6e e maior e mais desconcertante do que n6s pr6prios imaginamos. Mas nao esta determinado que ele 6 impossivel de ser respondido. Os amigos que foram ao campus no dia 11 e os que, ausen- tes, mandaram suas atenciosas mensa- gens a este outsider dojornalismo, re- forgam o compromisso com a nossa missAo e a esperanga em relagao ao future, mas um future que resultar da nossa presence na hist6ria e nao ape- nas do empr6stimo do nosso nome. Afinal, o dia nao nasce feito. 0 o patrAo permit. Entretanto, quanto mais a empresa de comunicaigo vei- cula o que seus profissionais produzem, tanto maior 6 a sua credibilidade. Para nao criar euforia. contudo, hA um dado complicador: 43% dos entre- vistados consideram a TV a mais dig- na de cr6dito, enquanto 24% aponta- ram ojoral, 13% a revista e 8% o rd- dio. Ou seja: ojornalista ter que dar sua contribuicgo de cidadio, a margem e alem do mero exercicio professional, para que a opinilo public disponha de melhores elements de analise para avaliar a melhor fonte de credibilida- de. Nlo 6 risonha e franca a profissAo de jornalista, mas nao precisa ser ne- cessariamente a iltima antecAmara do inferno de Dante. Jornalismo a serio Funtelpa aprensenta defesa no fim do mes. A Funtelpa terb ati o final do mes para contraditar o pa- recer do analista de control extemo do Tribunal de Contas do Estado. Amarildo da Silva Guerra. que considerou ile- gal e moral o convenio assinado pela Fundacgo de Teleco- municagces do Estado cor a TV Liberal (verJornal Pes- soal n" 176). O prazo normal para a defesa 6 de cinco dias, a partir da notificag&o sobre o process, que ocorreu no dia 9. Mas como a Funtelpa pediu prorrogaqAo desse prazo, o TCE, como de praxe, atendeu a solicitacAo para possibili- tar a mais ampla defesa ao acusado. Quando a Funtelpa apresentar seus arguments, o pro- cesso sera encaminhado ao Departamento do Controle Ex- terno do tribunal. Em seguida, ira para a assessoriajuridica e o Ministirio P6blico. Concluida a instruqao, o relator, que seri designado s6 nesse moment, pedira data para sub- meter a question ao plenirio do TCE. Esse moment s6 de- veri acontecer em marqo do pr6ximo ano, segundo fontes do tribunal. Pelojeito, ate I& ningudm mais se manifestarA a respeito do pol6mico assunto, nem mesmo os adversfrios do governador Almir Gabriel, cor receio de enfrentar o poderoso grupo Liberal, o maior beneficiArio da armacio montada em torno da Funtelpa. Como dantes O governor federal decidiu: vai ele pr6prio dar partida A duplicagco da hidrel6trica de Tucurui, um investimento de 2,5 bilhoes de dl6ares. S6 de- pois 6 que privatizara a res- ponsivel pela usina, a Eletro- norte, cor leil2o previsto para o segundo semestre de 1999. Ou seja: quem comprar a Ele- tronorte nilo precisard fazer a pesada imobilizagio na usina, podendo, quem sabe, depre- ciar o investimento na conta de chegada, sem pagar o pre- 90 devido. O esquema de terceirizaalo da segunda etapa da usina, ao que parece, nao atraiu os di- nimicos investidores priva- dos, embora eles necessitem de muita energia. Aplica-se o modelo que, quando falha a globalizaiao, serve de alavan- ca: o Estado faz e depois pas- sa em frente. Modelo ao ve- Iho estilo mesmo: a Eletronor- te dobra a capacidade de ge- rag~o da hidrel6trica, mas as obras do sistema de transpo- sigio da barrage s~o dele- gadas a outro escaninho go- vernamental. No caso, extin- ta a Portobris, passa a ser o Minist6rio dos Transportes. O governor promote que, desta vez, motorizagio e transposig9o, ao contrArio do que aconteceu na primeira etapa, vao ser realizadas si- multaneamente. Nem a pro- messa 6 nova. Ato falho (ou falhado?) Marlene Mattos (cor o nobilidrquico direito a letra dobrada), empresAria de Xuxa, que muito mais tempo fica ao lado da apresentadora do que seu reprodutor (digo, namorado), disse A l6tima Veja a prop6sito da mais ba- dalada e ins6lita gravidez da temporada: "Estamos todos nos sentido grAvidos. Todo mundo aqui ter recebido os parab6ns". A concordancia, no caso, foi diretamente ao in- consciente, sem censura. Ou a libido? Escraviddo No final do m&s passado o governor aplicou pela primeira vez o institute da desapropriaqdo para punir umafazenda na qualfoi constatado o trabalho escravo. Foi contra a Flor da Mata, propriedade de 12 mil hectares localizada em Sdo Filix do Xingu. Em setembro a Policia Federal retirou dafazenda 220 trabalhadores que all estavam sendo mantidos sob confinamento. E inconcebivel que, as portas de um novo suculo, cidadaos ainda sejam obrigados a trabalhar como sefossem escravos. A apuragdo dosfatos e a caracterizaqdo dessaforma de exploraqdo devem ser conduzidas cor a mdxima seriedade e competencia, ndo permitindo dtividas como as que o dono da Flor da Mata estd suscitando. Reforqada essa estrutura administrative, o governor deveria equiparar esse crime ao trdfico de drogas. Assim, ao inv&s de a fazenda na qual a escraviddo tiver sido caracterizada ser desapropriada, a pena sera a doperdimento, sem direito a qualquer indenizacdo. Passard ao dominio de uma instituicdo social. Sem legend Duas semanas depois do seu parceiro no Projeto Salo- bo, a Anglo American seguiu o caminho da CVRD e man- dou emissdrios a Almir Gabri- el em Belem. Dois dirigentes da Minorco, que represent a Anglo no Brasil, conversaram por uma hora corn o gover- nador. O encontro foi a por- tas fechadas. Sobre o que ali foi dito, a assessoria de imprensa do governor distribuiu um comu- nicado. Os jorais se limita- ram a reproduzi-lo. Ao que parece, ninguem tentou falar diretamente cor os dois di- retores da Minorco, ao menos para lhes fazer uma pergunta: por que Anglo e CVRD nao fizeram uma visit em conjun- to ao governador, se sAo s6ci- as na Salobo Metais? Chapa branca irradia o vi- rus do comodismo. Historia de 6poca Inacreditavel: cor 12 anos de funcionamento, a hidrel6- trica de Balbina, no Amazo- nas, cor capacidade instala- da para 250 megawatts, s6 esta gerando 50 MW. Uma parte desse enorme deficit 6 atribuida A excepcional estia- gem do El Nifio. Mas s6 uma parte. A outra result da his- t6ria escabrosa dessa usina, que custou um bilhio de d6- lares, nao conseguiu resolver nem o problema do suprimen- to de Manaus e terA vida cur- tissima. Antes que desapare- ga nas brumas da memoria, convinha registrar essa hist6- ria. Ao menos para que dela fique uma moral a usar. Prioridade Ate o final do pr6ximo ano, a energia de Tucurui seguird por mais dois caminhos parafora do Pard. A partir de Imperatriz, no Maranhdo, um ramal de 1.250 quildmetros ird ati Brasilia. Outro, menor, chegard ao porto de Pecim, prdximo a Fortaleza, alimentando o p6lo industrial que ali est6 nascendo. Nas duas linhas, o governofederal investird mais de 1,2 bilhdo de ddlares. Assim, quando a duplicaqdo chegar, jd haverd bocasfamintas para engolir a oferta. Bocas abertasfora do Pard. 4ee hS4Pvque se t iifesta c ieresse dos uwa ahwjL[ta iienses pelo KsiPdo, e or que nos essFr . Jomal Pessoal Editor: LOcio FIAvio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 I CPP: 66 053-020 Fone: 223-1929 s 241-7626 Contat(rirv. 5 pJn Constant, 845/203 16 053-020 Fde: 22 T0 -' e.mail: lucio@expert.copnr. s Edltorag odea : Lulzp6 I24i-18 .. / . 1: |
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