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J^-j 1.173 Jorna Pessoal L 0 C I 0 F L A V I O P I N T O ANOX N 7 V'U EA3 DENVMR E19 -e R$ 2*,00 POLITICAL Belem.90: Chicago-20 (Pag. 3) Almir sobe, Helio cai Jader Barbalho continue o mais forte candidate ao governor do Estado em 1998, mas Almir Gabriel desloca Helio Gueiros do segundo lugar. E uma mudanpa a mais, emfungdo da cruisee da interinidade", um pouco antes da definiCdo dos esquemas de capulapara a eleipdo do proximo ano. Pode-se esperar mais novidades? 6lio Gueiros ja nao e a segunda forga political no Para. Este 6 o principal resultado da cruisee da in- terinidade", o period de 10 dias em que H6lio Gueiros Jr. substituiu Almir Gabriel no go- vemo do Estado. Beneficiado pela condi- 45o de vitima e pela reacio negative da maioria da populacgo aos atos do vice, Almir Gabriel deslocou H61io Gueiros do segundo lugar na preferencia do eleitora- do, segundo a verificaco feita pelo Ibope. O ex-govemador, superestimando a empatia que tem com a massa dos paraen- i F ses, pode ter exagerado na dosagem recei- tada ao filho. E o que pode explicar sua primeira derrota na utilizaio da opinion pilblica. Tudo o que Almir ganhou foi con- quistado sobre o acervo de Gueiros. Helio Gueiros julgou que poderia fa- zer mais uma demonstragCo de forga sem dar atenago a queda de prestigio ja de- tectavel nas duas pesquisas de opinion realizadas anteriormente. Tambem igno- rou a nova conjuntura national e a cor- relagio de forcas a partir da privatizaaio da Companhia Vale do Rio Doce, expon- do-se a torar-se saco de pancadas da grande imprensa national. Jader Barbalho, ainda o primeiro nas prefer8ncias, escapou praticamente inc6- lume aos estilhacos do tiroteio entire o vice e o titular do governor. A manuten- 9co do seu indice em torno dos 40%, com variacgo incluida na margem de erro, mostra que apenas um fato novo de gran- de impact podera derruba-lo da lideran- ca na fase pre-eleitoral. Tudo indica que uma nova onda de denmncias de corrup- 9go contra o lider do PMDB no senado, duas vezes indiciado perante o Supremo Tribunal Federal (em maio e outubro deste ano), por atos praticados quando era ministry da Reforma Agrdria de JoseC UR Lm O '. 2 JOURNAL PESSOAL 2* QUINZENA DE VOVEMBRO / 1997 )Sarey, pode estar em formagao, mas sera que essa investida terA o poder de abalar seu concerto perante a populagco? As pesquisas mostram que mais da metade dos paraenses consider Jader desonesto, mas ao mesmo tempo com- petente e o melhor preparado para go- verar o Estado, mais ainda do que Al- mir Gabriel. O governador 6 destacado por nao cumprir o que promete e por sua indecisao, conceitos que explicam ainda estar abaixo do senador do PMDB. O indice de aprovagao A atual administra- co estadual 6 alto, mas nao superior A anterior de Jader, ambas ganhando con- fianga por obras fisicas que realizam (re- cuperacio de escolas e de estradas), jus- tamente colocadas sob suspeigao por superfaturamento e comiss6es paralelas indevidas. Num Estado tao pobre como o Para, dispor de acesso ao tesouro piblico 6 um fator cuja importincia nao pode ser su- bestimada. A honestidade, que em Almir contrast diante de Jader, nao 6 o sufici- ente, entretanto, para provocar uma tra- dugAo eleitoral equivalent. Os ganhos para o Estado de uma eventual melhor gestao dos recursos publicos que agora se faz, nIo vai fazer a diferenga no con- fronto entire Almir e Jader porque o se- gundo 6 muito mais lider do que o pri- meiro. Essa vantage se mede por caris- ma, sagacidade, poder de iniciativa e pe- netragao no Estado, elements que exce- dem em Jader e escasseiam em Almir. Provavelmente conscientes dessa rea- lidade, os responsaveis pela candidatura do govemador estio promovendo a mai- or campanha publicitaria de que se tern noticia no Para. Querem desfazer a im- pressao dada por Almir ao eleitorado de que nao cumpre o que promote e de que nio 6 home de decision, as principals deficiencias da sua imagem, conforme as pesquisas. Naturalmente, o queestiverdis- ponivel no cofre sera raspado para atrair a adesao de politicos e cabos eleitorais, almn de criar uma base de realidade para a in- tensa mensagem publicitiria, que ja conta corn a decidida (e reconhecida) adesao do grupo Liberal, hoje o principal instrumen- to de marketing da maquina official. Sao esses os trunfos corn que contain os almiristas para tentar tirar o primeiro lugar de Jader. A duvida, porem, perma- nece no ar: eles partirao mesmo para um confront aberto ou ainda tentargo uma composigio com o lider peemedebista? A pergunta pode tamb6m ser feita em sen- tido inverso. O que mais interessa a Ja- der: compor com Almir ou enfrenta-lo? Essas questoes slo postas como preli- minares porque nenhum dos antagonistas, sozinho, tern condices de veneer a elei- 4ao. E porque, provavelmente, nao haveri definio no primeiro turno. Pelos errors que cometeu, Heio Gueiros no mais, Revival ao menos tempora- riamente, a maior 0 ltimo boato po ameaca A reeleigio. pra-a, soprado de l Se o efeito emocio- numa possivel co nal momentfneo PMDB-PFL, a chap persistir, ele teri rirdria tera Jader B perdido de vez a como candldato ao g possibilidade de ser Vic Pies Franc con o candidate anti-Al- Heto Gueiros como mir cor maior po- to ao senado Mas tencial de vit6ria. desincompatnbiiari Mas persiste sendo 2000 para ser nov um fiel da balanca. candidato dprefjitur Em fungio des- Ktm. Seu suplente. sa circunstancia, pelo PMDB. subiria crescem os boatos Seria UMa esp cle sobre uma alianga a pena ver de nova" PMDB-PFL. As e plorado. Para ass, pesquisas mostram novo skculo, ao tucu que a perda de vo- tos para H6lio e Jader em consequ8ncia desse at6 hA pouco tempo impensa- vel reatamento 6 marginal em Bel6m e nao tao significativo como se pensava no interior. E ai que ha maior reacao, mas talvez possa ser reduzida por uma api- mentada campanha eleitoral em que os dois dirijam sua artilharia contra um novo alvo comum, o governador e seu grande parceiro, o grupo Liberal (que, alias, quando assumiu abertamente uma can- didatura, sempre perdeu). A escolha pr6via do PPB de Jarbas Passarinho serviu para Almir Gabriel precipitar a definigao de H6lio Gueiros, fazendo-o nao s6 assumir sua candida- tura ao govemo (que vinha sendo mon- tada sinuosamente), como expondo o fi- lho a um desgaste irreversivel, mas acar- lais que inspirara" retou-lhe mais perdas do que ganhos elei- torais. Os entrevistados tem manifesta- do maior reagio A alianca Almir-Jarbas (talvez porque mais recent tenha sido o antagonismo entire os dois) do que a um acordo Jader-H6lio. Se a propaganda, o uso da maquina e denuncias de corrup9io contra o adversa- rio ndo surtirem o efeito desejado, Almir ja sabe que chegara ao 20 turno atris de Jader. Repetir o fen6meno de 1994, quan- do ele reverteu uma zebra num passeio so- bre Jarbas, sera muito mais dificil. Pelo simple detalhe de que Jader- I 98 no padecera dos males de Jarbas-94. liico na 0 que provocara a passa- Brasiia: gem das aproximagces as ali- ligafVo angas, definindo-se o quadro Smajo- da dispute? Evidentemente, arbalho os entendimentos paroquiais. overno, Mas tambem os interesses o vice e nacionais. Jader Barbalho ar- andida- riscou-se a sair em favor do Helio .e president da Repiblica num anoano moment em que o PMDB amente inclina-se para uma candida- a de Be. tura pr6pria. Tera influido ndlcado nessa iniciativa a deliberagao do senador Antonio Carlos de "vale Magalhles de enviar os pedi- * r'elsto dos de licenga para o proces- inalar o samento de parlamentares di- Pt" retamente ao plenario, atrope- lando as comiss6es, onde os acertos sio mais favoraveis ao "espirito de corpo"? Cada vez mais deslocado do epicentro da political national, estaria o senador paraense procurando proteger seu flanco mais exposto para descer A planicie para uma campanha eleitoral desgastante? Ele poderi antecipar-se aos titubeios do grupo do governador e assumir sua can- didatura, nesse caso aliando-se outra vez ao seu ex-correligionario, se nenhuma proposta fascinante surgir do lado dos tu- canos tropicais. Aproveitaria para confir- mar, mais uma vez, aquela maxima do futebol, de que o ataque 6 a melhor defe- sa. Definido o quadro dominant para a dispute eleitoral, restaria verificar se ha um "outro" na political paraense, capaz de introduzir nela um gosto de novidade.@ Excelente a concepglo de usar o transport fluvial em Be- 16m. A Ctbel estA pondo em prA- tica uma das id6ias, num acervo pr6digo em proper, anemico em executar. Se essa boa inspiragAo tivesse said mais cedo e mais vezes do papel, certamente nAo teriamos canais pavimentados, que servem para drenar Aguas pluviais e servidas, mas sao inmu- teis como vias de transport. Ao inv6s disso, Bel6m seria, como foi idealizado desde o s6culo 18, uma Veneza amaz8nica. Mas o projeto de uma linha entire o centro e o campus uni- versitario dificilmente avangarA. HA apenas duas viagens de ida- e-volta nos dias de semana, ex- cessivamente demoradas, e um imico barco a cobrir o trajeto. Como a rota nao 6 voltada pre- ferencialmente para turismo, dei- xa de ser competitive com o transport conventional, por 8nibus, ainda mais porque nao hA conexAo com outras linhas em terra para trazer passageiros e atral-los pela tarifa. Precisaria haver mais barcos (do tipo ho- vercraft), mais viagens e inter- modalidade, sem o que a boa intenglo da Ctbel nao se susten- tarA, apenas enriquecendo a his- t6ria dos projetos a arquivar.O t 1 1 t JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE NOVEMBRO / 1997 . Funtelpa: escandalo sufocado. Esta em vigor a lei do silencio Alm deste JornalPessoal, queja hatres nimeros trata do assunto, apenas a revista Istod da semana passada mencionou (mas em nota convenientemente rapida e ambigua) o escandaloso convenio da Funtelpa com a TV Liberal, assinado em setembro (ver JP 173 e 174). Nada na grande imprensa local. Poderia parecer reagao 6tica, de concor- rentes que nAo querem usar o fato para retali- ar o adversario. Mas nao 6. Trata-se mesmo de acomodagao oportunista: os que ficaram de fora podem estar A espera de compensa- qCo, seja nAo a receberam. O Pard da d6cada de 90 se distingue da Chicago da ddcada de 20 (remember Al Capone) pelo frio, aquiine- xistente. Nos diversos escaninhos e camadas do poder, quando nao ha uma panelinha ou uma gangue em aqAo, 6 mafia pura. Ao contrario, o sil8ncio acumpliciador 6 que se constitui fato inusitado: como o con- venio 6 francamente lesivo ao interesse pu- blico, a obrigaqco da imprensa seria denun- cia-lo, ou ao menos noticia-lo para conheci- mento de um pfiblico mais amplo do que o do restrito circuit deste JP. Se a imprensa nao o faz, as outras representaq6es da socie- dade deveriam substitui-la nessa tarefa. Mas nem politicos (nao 6 um bom tema para CPI?), nem o Ministdrio Pfiblico (fiscal da lei e autor da a9ao penal, com iniciativa em aqao civil pfiblica), nem organizaqBes ci- vis ou individuos (que poderiam patrocinar agco popular) e, especificamente, o Tribunal de Contas do Estado (que poderia realizar inspecao extraordindria) tomam iniciativa alguma. E o comply do sil6ncio. Todos parecem temer o rei da taba, que faz sua imagem ocu- par, em c6res, pagina inteira do seu journal, repetida por toda a semana. Haja narcisis- mo. Mas se o Haiti 6 aqui, viva Baby Doc. Essa conivEncia tacita acoberta um crime. A televisao de cultural, uma opcao dos cida- daos a TV commercial, foi ferida de morte no Pard. Sua rede de retransmissao de imagens vai servir de canal para uma programacao massacrantemente commercial. Episodicamen- te, a TV Liberal poderA abrir espago para uma mensagem educativa e para o que res- tar da programagao da TV Cultura. A maior parte desse espago, entretanto, sera ocupa- da por propaganda pessoal e eleitoral do governador do Estado. Na quinta-feira da semana passada, as pessoas presents ao audit6rio do Centur, sede da cultural official do Estado, artificial- mente inflada, tiveram, sem haver essa in- tencionalidade, uma avaliaqco da extensao do dano praticado pelo governador Almir Gabriel ao patrocinar o ato. Fazendo a apre- sentagio de seu fultimo livro (O Poder, cad& o poder?), Emir Sader disse que uma de suas esperangas de democratizacao do poder 6 a TV Cultura de Sao Paulo. Mesmo corn seu orgamento estacionado, ha dois anos, em 24 milh6es de reais (para n6s, valor fantAstico), a TV Cultura paulista mantdm um alto nivel de programaqao. En- tre 18 e 20 horas s6 perde para a Globo, sem precisar de apelaqao commercial. Mas em Sao Paulo a TV Cultura 6 protegida por um con- selho, relativamente infenso ao absolutismo governmental. Esse conselho, se nao con- segue melhorar o orgamento da televisao, protege-o de cortes. Nao 6 s6 bens materials que o Estado tern que devolver a sociedade, agora mais do que nunca obrigado a essa pluridimensao. Mas aqui o governador 6 o virtual dono da Funtelpa e um soba da televisao. A emis- sora nao tem a menor resistencia A injuncio political, nem conta com a mediaqao de um conselho para garantir seu compromisso corn a saAde mental do povo. Conforme seu teor etilico, o entao governador Hdlio Gueiros metia a mao na programaqco. Jader Barba- Iho usou-a para o eficiente marketing do se- gundo mandate, que imunizou o negativis- mo da associacao do seu nome A dilapidacao do erario, montando a imagem do adminis- trador eficiente, que trabalha, a despeito de tudo (e continue recebendo at6 hoje os divi- dendos dessa iniciativa). Mas nenhum deles chegou ao cimulo de cinismo da administraCqo Almir Gabriel, que estavirtualmente liquidando a TV Cultura, sem choro nem vela, sequeruma noticia amarela na imprensa. E precise que um professor venha de SAo Paulo para registrar, por um paralelis- mo desintencional, a gravidade da lesao come- tida sob nosso congestionado nariz moral. Alem disso, sem realizar licitagAo pfibli- ca, o governor fechou um contrato publicitA- rio no valor de 12 milh6es de reals com uma inica empresa privada de comunicaqio, as- segurando-lhe receita fixa mensal de R$ 200 mil ao long de cinco anos. E, provavelmen- te, o maior contrato publicitArio ja firmado por um governor em toda a hist6ria do Para. Duvido que haja um contrato desse porte no setor pfiblico no pais neste moment com um mnico veiculo de comunicagao. O paraense deixou de engolir mosca: esta engolindo ele- fante voador (que nao 6 o ing6nuo Dumbo). Quando tucano quer poder, paga qual- quer preqo. Ate cor sacrificio da pr6pria biografia. 0 Logo depois de ter dado uma entrevista aos veiculos do grupo Liberal em Brasilia, atacando violentamente o deputado fede- ral Vic Pires Franco, protegido da casa, o ministry das Comuni- ca96es, S6rgio Mota, telefonou para Romulo Maiorana Jr., em Beldm. A secretAria do principal executive da empresa informou que ele nao estava. O ministry perguntou se havia uma secreta- ria eletr6nicapara ele gravar uma mensagem. E gravou-a: iria es- perar a resposta que a empresa daria a sua entrevista, se desse uma resposta, para se manifes- tar novamente. Depois, talvez temendo que a mensagem nao chegasse a tempo ao destinatArio, o ministry fez outra ligaqAo. Dessa vez, conver- sou com uma das irmis de Romi- nho, tambem diretora da empre- sa. Repetiu o recado, corn nfa- se: queria ver a entrevista no dia seguinte e de que maneira a em- presa se manifestaria a respeito. A entrevista do truculento Serjao foi reproduzida nojornal e na televisAo. Sem comentAri- os. Sob ajurisdicqo do ministry estao a concessAo de canais as emissoras de radio e televisao e a privatizagao do sistema Tele- bras (o grupo Liberal 6 candida- tissimo a compra da Telepara). Na entrevista, o ministry, amigo e s6cio do president da Repfi- blica disse que o deputado do PFL paraense s6 o procurava para tratar de assuntos particu- lares e fazer lobby (especialmen- te para os Maiorana), nunca pe- los interesses do Estado. Mas como era "intrigante", a porta do gabinete do ministry das Comu- nicaq6es passava a ficar fechada para ele. A quarta meia pagina publici- taria de Vic Pires Franco (um teleprompter impresso posto A sua disposicgo) saiu no domin- go seguinte. Desta vez, nao mais em O Liberal, que abrigara as tres inserq6es anteriores. Surpre- endendo os desavisados leitores, a pega publicitAria foi publicada no Didrio do Pard. Vic saudava Hdlio Gueiros Jr. pelos atos pra- ticados como governador interi- no, sobretudo o suposto ataque a Companhia Vale do Rio Doce. Esse teria sido apenas um ar- ranjo de conveni8ncia? Talvez nao. Os Maiorana foram infor- mados que Vic teria contactado as redaq6es brasilienses de Veja e Isto6, oferecendo informag6es sobre o escandaloso conv8nio Funtelpa/TV Liberal (que, final, saiu na segunda revista). A rea- cqo no palAcio dos funds do bosque foi furiosa, culminando um desentendimento que ocor- rera, jA antes, entire Ronaldo Mai- orana e o deputado federal do PFL. Ele estaria pulando de vez a muralha? Business as usual, diria um americano sobre o epis6dio. Ou, como prefereria o caboclo: embri- ga de brancos, os brancos que se entendam. Se ainda seentendem. Prime^irH u 4 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE VOVEMBRO / 1997 Cobre: agora, mais do que palavras? Quando o govemador Almir Gabriel esteve intemado no Instituto do Cora- co, em Sao Paulo, no mrs passado, o president do Conselho de Administra- 9co da Companhia Vale do Rio Doce, Benjamin Steinbruch, apareceu por 1d corn uma corbeille de flores na mio e um anuncio radioso nos labios: o pro- jeto de.cobre da Salobo Metais, que al- guns ja avaliam em dois bilh6es de d6- lares (comegou corn US$ 1,2 bilhdo), ficaria mesmo em Marabi. A revelagao seria um valiosissimo present de convalescenga, se tivesse sido para valer. Mas Steinbruch nio re- tornou ao assunto na semana seguinte, nem na posterior, e nem ate agora, ao contririo do que havia prometido. E tudo voltaria a ser nada mais do que um castelo (rococ6, talvez) de palavras se a populagco de Maraba nao tivesse blo- queado a ferrovia de Carajis durante 48 horas, na semana passada, radicalizan- do atos de protest contra a indefiniio do empreendimento, que vinham sen- do realizados inocentemente atW entao. Embora a manifesta9go fosse anun- ciada com antecedencia, a CVRD s6 tomou uma iniciativa na vespera, quan- do tentou obter um interdito proibit6- rio na justiga de Maraba. Talvez nao acreditasse que o bloqueio da ferrovia se consumasse. Rejeitada em duas in- vestidas (s6 num terceiro moment a juiza Maria Laudelina Oliveira autori- zou o uso de forga policial para liberar a ferrovia), a empresa teve que nego- ciar cor os lideres do movimento. Desta vez, enviou a area o pr6prio di- retor do Sistema Norte (cargo recente- mente criado e instalado em Sdo Luis, no Maranhao), Juarez Saliba Avelar. Dos entendimentos resultou uma agenda de reunites, a serem realizadas em intervalos de 45 dias, a primeira de- las nesta quinta-feira. Os encontros se- rio sempre em Maraba, tendo a comu- nidade local como a principal interlo- cutora. Foi um avango. Mas significa tamb6m que as garantias dadas por Steinbruch, alardeadas com estrondo pelo grupo Liberal (hoje o principal porta-voz do governador), nao passa- ram de relagbes publicas. Na melhor das hip6teses, segundo as pr6prias fontes da Vale ouvidas na se- mana passada durante a ocupagao da ferrovia, uma definigao sobre a locali- zagdo ainda levari mais um ano. Mas essa questao depend de outras preli- minares, como a nova forma associa- tiva e a pr6pria jazida a ser utilizada, que pode deixar de ser a do Salobo e passar a ser a do Igarap6 Bahia. Se bem assessorados e competentes, os negociadores locais da CVRD po- derao, pela primeira vez, reunir infor- maa9es suficientes para separar as di- ficuldades reals, que impedem o anmn- cio de uma decision final, do malaba- rismo verbal apresentado diante de in- terlocutores menos exigentes, que sem- pre tomam uma promessa como mote para propaganda, se ela Ihes convem. Talvez a hist6ria do Salobo tenha en- trado em uma nova etapa. Mas, como sempre, e precise conferir antes de acreditar. * A profilaxia da informagao Sei que o Tribunal de Comas pode alegar que so age provocado. Mas como o president, Nelson Chaves. declara compromisso cor um novo padroo de qualidade no 6rgAo, bem que poderia designer uma equipe 4Ccnica para vistonar a publicacfo de contra- tos e convinios da administranFo esta- dual. O minimo que se exige e que eles sejam como se diz no patoa da moda - transparentes. Ou seja. contenham informacbes suficientes para o cidadio saber do que tratam, fiscalizando a apli- caco do seu dinheiro. HA documents exemplares, que po- deriam servir de padrao, mas. infeliz- mente, sho, cada vez mais, a exceio. Nominam os participants, especificam o objeto em causa, expressam os valo- res envolvidos, indicam a rubrica or- 9amentiria e tipificam a operacqo. Mas outros sonegam, por esquecimento ou sagacidade, dados fundamentals, como o valor do contrato ou convanio. Alem do mais, cresce em abusivi- dade a dispensa de licita~io. A lei nao chega a ser exatamente contrariada (unm advogado esta sempre a nmco para ran- gencia-la). mas a enca e a moral estIo sendo dcixadas de lado. O Itmile para a licitaco public e respeitado. No entan- to, o bonm senso e a decencia recomen- dariam a realizaco do procedimento li- citat6rio. Como o go\erno dJee. alem de ser legal. ter legtmnudade. con\inha ser chaniado a ordem quanto a mconm e- niencia de fazer contrataqo direta. Mes- mo onde nao haja degalidade ou ma-fe, e precise que os extratos dos atos ofici- als tragam justificaqdo fundamentada para a dispensa de licitaqAo, ao mnv6s de simplesmente enuncia-la. Um exemplo ilustrativo. O Diario Official da semana passada publicou dois contratos da Secretara de Educa- qio, ambos com dispense de hicita~io, um no valor de R$ 303 mil e outro de R$ 323 mil, para o fornecimento de passagens areas. Segundo uma fonte do setor, esse for uni arranjo, que a lei admite, para concluir um contato ainda em andamento, que foi suspense por- que a Seduc nao estax a efetuando os pagamentos devidos Teria havido car- ta-convite, mas apenas as duas empre- sas habilitadas ter-se-iamapresentado, naturalmente por aceitarem o atraso no pagamento. Mas no extrato do contra- to esti assinalado apenas a dispensa de licitaqao, o que pode levar os lei- tores do D. 0 a tomar gato por lebre Final. o neg6cio de agencias de via- gens e concoridissimo. Fiel a sua missao, o TCE poderia baixar regulamento, mstruqio norma- tiva. ou seja la qual for o document competence, impondo um padrAo obn- gatorio. Assim, permitirA que o mortal cidadio possa, pela leitura do Diirio Official. ser tambem um fiscal dos atos da admimstraqio pilblica, como quer a Constituigao em vigor. Para o bem de todos e felicidade geral da naaio, excetuados os que fazem da sonega- cio de informacqes urn minstrumento a serviqo da dilapidaiAo do tesouro. Da- se tambem mais um pass na salutar direqio de separar o joio do trigo no desigual plantio do servigo ptiblico, distinguindo quem age corretamente e punindo os maus servidores do povo. JOURNAL PESSOAL 2* QUINZENA DE NOVEMBRO / 1997 5 Ao custo de um bilhao de d6lares, a hidrel6trica de Balbina entrou em funci- onamento no meio da d6cada de 80 como a solug9o para a crise no abastecimento de energia de Manaus, a segunda maior cidade da Amaz6nia. Mas agora em no- vembro a capital amazonense completou o 110 m8s sem energia para tender a mais de um tergo do seu consume. Com produgao em crescente declinio por causa dos problems ambientais que provocou na bacia do rio Uatumi, Bal- bina mal vinha conseguindo tender me- tade da demand da Zona Franca. Obri- gou o governor a ampliar o parque t6rmi- co (que ela deveria ter aposentado) e a construir uma linha de transmissao para trazer energia da Venezuela. A forte es- tiagem causada pelo El Niiio fez o pro- blema se agravar ainda mais. A justiga foi acionada para forgar a Eletronorte a pagar uma multa pelo racionamento im- posto pesadamente a cidade. Por envolver diretamente mais de 1,2 milhao de pessoas e prejudicar o maior parque industrial da regiao, o problema em Manaus ter mais impact. Esta no Para, entretanto, o paradoxo maior da atual crise amaz6nica de energia. A con- di9go do Estado, de terceiro maior ex- portador de energia do pais, nao evita o constrangimento de vArias sedes muni- cipais estarem sofrendo rigorosos racio- namentos ou totalmente as escuras, in- clusive Santar6m, a segunda maior cida- de. A situacgo de Santar6m 6 exemplar dos absurdos e irracionalidades da poli- tica energ6tica tragada para a Amaz6nia a partir do regime military. A cidade abri- ga uma hidrel6trica, a de Curua-Una, construida cor tecnologia de ponta, so- bre areia. Das quatro maquinas, apenas tris foram instaladas. A que falta adici- onaria 10 megawatts ao sistema (con 30 MW nominais instalados) e, em condi- 96es ideas, poderia eliminar o deficit existente, de 8 MW. Se aritmeticamente a questdo estaria resolvida com a instalagao da quarta tur- bina na casa de maquinas, na pratica Cu- rud-Una se defasou. O desmatamento nas margens do reservat6rio e ao long do rio tem provocado assoreamento, redu- zindo progressivamente a disponibilida- de de Agua. Logo a tomada de agua esta- rd afetada. Assim, talvez j nem compen- se instalar a quarta miquina. Mas nao 6 s6 isso: a hidrel6trica, com geragao li- mitada, ha alguns anos vem funcionan- do como inibidora do consume, A ma- neira de outra usina, a Coaracy Nunes (ou "Paredao"), no AmapA, principal- mente da demand industrial. Esses problems sao muito bem conhe- cidos no setor, mas as saidas foram deixa- das de lado, a espera da anunciada privati- zagio. O "empurrar-com-a-barriga", que constitui uma das especialidades da tec- noburocracia official, por6m, nao conciliou seu timing cor o efeito retardado da bom- ba, cujo mecanismo continuous em a9go. A explosao esta ocorrendo antes do tem- po desejavel pelos arquitetos da privatiza- 95o. O fim dos racionamentos e blecautes na regiao Oeste do Estado s6 pode ser pensa- do para o final do segundo semestre do pr6ximo ano, numa hipotese exagerada- mente otimista, cor a nova linha de trans- missao de Tucurui. A obra, anunciada corn custo de 280 milhhes de reais, certamente custard mais e podera empacar nas pr6pri- as armadilhas da privatizagao. E que a Eletronorte-Transmissao (a sur- gir emjaneiro, desmembrada da Eletronor- te-Geragao/Distribuigao e excluida da pri- vatizacao, por alegada "razao de Estado", cor a finalidade de transformar-se em ins- trumento de regulagao official do merca- do) s6 garantirA uma parte do percurso, de Tucurui a Altamira. O restante 6 tarefa da Celpa. Mas qual Celpa? Com quais recursos? As empresas sucessoras na privatizagao serao compostas na moldura estadual de que maneira? Essa 6 a privatizagao menos sentida e at6 mais desejada pelo cida- dao paraense. A Celpa tem sido um dos exemplos mais definitivos do carter pre- dat6rio das elites locais, daquelas com acesso ao poder politico. Como 6 que uma empresa que recebe seu produto do fome- cedor a R$ 27,23 o MW/h e o repassa ao consumidor a R$ 97,83 esse mesmo MW/ h consegue ter prejuizo, acumulando a for- midAvel divida que ostenta em seu passi- vo? Esse inaceitavel d6bito 6 a consequ- 6ncia de sucessivos governor daninhos, que se expandiram diante de uma opiniao piublica fragil e manipulando um corpora- tivismo irreal. A Celpa, por isso, podera ser privatiza- da a prego de banana e o future do consu- midor nao privilegiado no dia seguinte vai ser incerto e nao sabido. Teve-se uma avant-premiere em setembro, quando a CDI (Companhia de Distritos Industriais) vendeu suas aq6es da Celpa e s6 atraiu um comprador, que pagou R$ 3,10 por lote de mil ac6es. No mesmo dia o lance vence- dor no leilgo da Coelce (Companhia Ener- A energia e nossa, o consume e deles g6tica do Ceari) foi de R$ 5,20 pelo lote de mil a9oes. A diferenga 6 que a Celpa perde 29,7% de energia entire o recebimento do gera- dor e o consumidor, o maior indice nacio- nal. A perda da paulista CPFL, a iltima energ6tica a ser privatizada (e a que ter o melhor indice), 6 de 5,8%.. A da Coelce 6 de menos da metade do da Celpa, ou 13,3%. A pr6xima estatal que vai a leilao, no dia 3, 6 a Energipe. Ela 6 responsavel por 80% da energia consumida em Sergipe, seu valor 6 de quase R$ 300 milh6es e o agio s6 nao atingira um indice compativel corn o interesse que esta provocando (CVRD, Coelba e grupo Vicunha estao na dispute), porque sua perda de energia 6 considerada alta. De quanto 6 essa perda? De 15,5%, quase metade do que perde a Celpa. A Energipe compra o MW/h a R$ 32 e o vende a R$ 87 (uma relagao R$ 15 menor por MW/h do que a da Celpa). Isto quer dizer que a Celpa sera vendi- da barato e quem compra-la, libertado das amarracoes espilrias impostas a empresa, terA um potential de lucro fantAstico. Se nao for obrigado a um reinvestimento em sistemas isolados, evidentemente que fi- cara no sistema integrado, como ja esta definido no modelo de privatizag5o. Ou seja: exceto pelos casos especificamente atraentes, o interior continuara dependen- do do governor para nao acordar e dormir as escuras. E o que pensa disso o governor? O fede- ral ja tem a sua estrat6gia montada. Na pr6xima d6cada a Amaz6nia devera pas- sar A frente do Parana e Minas Gerais, tor- nando-se o principal Estado exportador de energia do Brasil. Para isso, Tucurui, de- vidamente privatizada, sera duplicada. Mesmo antes do inicio dessas obras de elevagao da capacidade de geraq5o da usi- na, duas novas linhas de transmissao na diregao sudeste e nordeste ja estao em an- damento. Uma, de US$ 600 milh6es, trans- ferira 600 MW para a regiao Sudeste. Outra, de US$ 450 milh6es, desviara mais 1.000 MW para o Ceara, elevando para 2.100 MW o total de energia de Tucurui utilizada pelo Nordeste. Diante desses valores, o que represen- tam os 38 MW de Santar6m, ou os 15 MW de Itaituba? "Detalhes", 6 claro. O que o Pard conseguir de sua pr6pria energia sera como sobra, ou por efeito gravitational. A energia de Tucurui podera ir a Santar6m e Itaituba, mas o governor federal s6 se res- ponsabiliza por ela at6 Altamira, onde pre- tende retomar o projeto das grandes hidre- 16tricas no Xingu, com as quais, por exten- sas linhas de transmissao, pretend gerar energia para o centro consumidor priorita- rio, o Sudeste (e mesmo o Nordeste) mais desenvolvido, quando o Tocantins estiver exaurido. Amaz6nia, no entendimento de Brasilia, rima ainda que pobremente cor provincia, sobretudo energetica. 0 6 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE VOVEMBRO / 1997 Nao existe paraiso debaixo do Equador Este e um texto escrito "no calor da hora "para suprir minha ausencia num encontro da Unicef realizado na semanapassada em Salvador, na Bahia. Comopode interessar a ptblico mais amplo, public aqui. O Para 6 o segundo Estado mais extenso do Brasil e o 9 em populacgo. E o quinto maior produtor de energia do pais e o tercei- ro que mais export ener- gia para fora dos seus limits, abaixo apenas do Parana e Minas Gerais. E o sexto Estado exportador da Federaqao e o segundo em producgo mineral. Fica em 11 lugar por arrecadacao de ICMS, mas cai para 170 lugar em desenvolvimento human. Segundo o levantamento realizado pela ONU em 1991, quando pela primeira vez foi aplicado o IDH (Indice de Desenvol- vimento Humano), o Para faz parte do "terceiro Brasil", o mais pobre de todos. Ele e formado pelos Estados nordestinos mais pobres acrescidos de apenas dois Es- tados da Amaz6nia, o Para e o Acre. As demais unidades federativas amazonicas fazem parte do Brasil intermedidrio. O que acontece com o Para? Seis em- preendimentos produtivos e de infraes- trutura de grande porte (a extraqao mi- neral em Carajis, o p6lo de alumina e aluminio de Barcarena, a mineragao de bauxita no Trombetas, o complex in- dustrial do Jari e a hidrel6trica de Tucu- rui) representam um investimento reali- zado de quase 15 bilh6es de d6lares. Todos estao em plena operaaio. A hi- dreletrica de Tucurui 6 a maior inteira- mente national. Carajas 6 a maior mina de exportadao de ferro do planet, assim como a de bauxita do Trombetas. As fa- bricas de alumina e aluminio sao as mai- ores do continent. Gragas a todos esses investimentos, a Companhia Vale do Rio Doce, sozinha e atrav6s das empresas associadas, fatu- rou no Estado mais de 1,5 bilhao de d6- lares no ano passado, bem acima da pr6- pria arrecadacao tributaria do Para. O Estado assegurou 15% de todo o consu- mo de aluminio e min6rio de ferro do Japao, o principal pais do com6rcio ex- terior paraense, mesmo situado a 20 mil quil6metros de distincia. O Pard 6 o terceiro maior produtor de bauxita do mundo, o maior exportador de min6rio de ferro que se conhece (no ano passado enviou 54 milh6es de tone- ladas, superando Minas Gerais pela pri- meira vez), tambem o terceiro maior pro- dutor de caulim (uma argila usada para o revestimento de pap6is especiais), o sexto maior produtor de ouro e, se rece- ber um investimento de US$ 1,7 bilhao que vem sendo anunciado pela Salobo Metais, em cinco anos garantira o supri- mento de toda a necessidade national de cobre, podendo at6 passar a figurar en- tre os maiores do mundo nesse setor. Mas por que, a despeito de todo esse elenco de grandiosidade, a realidade do Para 6 tao paradoxalmente pobre? Prin- cipalmente por dois motives. Em primei- ro lugar, porque a riqueza que esta sen- do mais intensamente explorada fica no subsolo. Sao os minerios, dos quais o Estado e de uma riqueza tao excepcio- nal que s6 pode ser comparado a paises tradicionalmente mineradores, como a Africa do Sul e a Australia no mundo tropical, nao por coincidencia cor es- truturas geol6gicas semelhantes. Minerio nao enriquece nin iuem, prin- cipalmente no nosso mundo atual, im- pulsionado pela "quarta onda" de mate- riais. E precise agregar valor a essa ati- vidade meramente extrativa. O Para, en- tretanto, nao passa de produtor de bens primarios, de baixo ou nenhum valor agregado. Ha 18 anos, s6 num desses polos definidos durante os governor mi- litares para promover a acelerada ocu- pagao da fronteira amaz6nica, o Para vem produzindo, em fabricas que se dis- tanciam entire si 200 metros, no Jari, ce- lulose e caulim. Celulose mais caulim result em pa- pel, que represent valor agregado bem maior do que as receitas de caulim e ce- lulose superopostas. Mas garante-se que produzir papel 6 inviavel em um Esta- do tao distanciado dos principals cen- tros consumidores. Por isso, a CPRM esti licitando a maior jazida de caulim e ningu6m se incomoda com a perpetu- agco do contrast. Quando o papel, nin- gfiem sabe. O Para export quase integralmente lingotes de aluminio. Desde 1973 foram sendo fechadas as metalirgicas no mun- do desenvolvido, que nao conseguiriam sobreviver com os novos custos de ener- gia. O primeiro mundo transferiu para o terceiro a responsabilidade (e o custo, tra- tando-se do produto mais eletrointensi- vo que existe) de gerar o metal prima- rio. Ha 12 anos o p6lo de aluminio de Barcarena limita-se a embalar energia com minerio e enviar o produto para o Japao, onde ele 6 desdobrado em artefa- tos industrials e ganha valor. O mesmo acontece cor o minerio de ferro, que s6 vira ago nas usinas do com- prador, situadas muito long das costas paraenses. Um produto intermediario_:' gusa, tem ainda o inconvenient de corporar humus retirado da delgada mada de fertilidade natural do solo., z6nico e contribuir para a expansact desmatamento, mantendo-se nas relaciY. de troca por nao incorporar aos sevt,. culos o valor desse prejuizo (6 pt que, hoje, s6 o Brasil produz gus de carvao vegetal). b E o que dizer do quartz, apenas ... do para virar silicio metalico e ser6,i4, do pela indilstria eletroeletr6nica, ;: A formando-se entio em rel6gio e chipjak computador? Neste caso, a Amaz6" . encontra-se, literalmente, na idade dL pedra lascada. Assim, o grande valor economic. sera incorporado ao produto quas natural, exceto pela adigao de entL el6trica (desafortunadamente, sem.4. ceber o valor real de custo), no territ6- rio do comprador. A inexistencia do beneficiamento in situ tem seus danq- sos efeitos agravados pela "especial- zagao" imposta ao Para via "mode lo de desenvolvimento econ6mico de- sequilibrado corrigido", definido no II PDA (Plano de Desenvolvimento da Amaz6nia), 1975/79, apesar de tudo JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE NOVEMBRO / 1997 7 em vigor ate hoje de ser um centro produtor de exportag~o. Gerando US$ 2,2 bilh6es de receita cambial no ano passado, o Para contabi- lizou "superavit" de US$ 1,8 bilhdo. Mas nesse mesmo ano a Zona Franca de Ma- naus fez importaq5es no valor de US$ 3,1 bilh6es, que contribuiram para o seu faturamento, de US$ 14 bilh5es. No en- tanto, essa zona franca somente expor- tou US$ 200 milh6es, menos de 2% da sua receita. Ou seja, enquanto o Para 6 a mina de mat6rias primas e insumos basicos para a indistria transformadora interacional, a Zona Franca de Manaus e o biombo usado para penetrar no mercado nacio- nal com produtos beneficiados, num es- quema perverse de comprometimento do present e do future da regiao. 0 present sacrificado pela dilapida- 9do dos bens da natureza ja definidos como econ6micos. O future comprome- tido nesse meio-tempo pelo descaso em relacao aos recursos seguintes, origina- rios da biodiversidade tropical, tesouro sobre o qual v8m se langando os pesqui- sadores, nem sempre academicos, e j as empresas (como os asiaticos sobre a madeira). O descaso que leva a sub-utilizadao dos recursos naturals e criminoso. Du- rante 10 anos o Para foi o terceiro maior produtor mundial de bauxita e o maior produtor continental de aluminio, mas nao produzia o bem intermediirio, a alu- 'mina. Tinha que importar alumina para .istecer a Albras porque o projeto-g8- .., da Alunorte, em fungao de um 'ping da Alcoa, ficou parade. A con- iaencia 6 que desperdigou-se 2 bilhoes 16lares nesse period importando alu- Dinheiro que foi realizar seu efei- tiplicador al6m das fronteiras na- lumping foi praticado apesar de, -le moment, ser estatal a CVRD. e acontecera a partir de agora, corn .s estrat6gica das empresas da Ama- nia integrando um cartel privado? Isto -Atamente quando a empresa esta em vias de confirmar o dominio sobre jazi- das insuspeitadamente grandes de cobre e de ouro em Carajas. A Amaz6nia 6 uma fronteira aberta A pirataria. Mas 6 um equivoco deduzir dessa fragilidade, por uma visao canhes- tramente geopolitica, que a solugao esta em iniciativas como o Sivam (Sistema de Vigilincia da Amaz6nia). Um resu- mo da hist6ria de mais esse mega-proje- to, filho novo de uma mesma safra, 6 o suficiente para revelar as distor96es das political piblicas na regiao. O Sivam foi motivado por manobras conjuntas militares lideradas pelos Esta- dos Unidos. Essas operaqces foram rea- lizadas no territ6rio da Repfblica Coo- perativista da Guiana. No regime mili- tar, a Guiana era vista como cabera-de- ponte de Cuba para penetrar na Amaz6- na. Poucos anos depois virava fantoche dos EUA. O Brasil, convidado, nao com- pareceu. O governor Collor apresentou, entao, para a sociedade, o Sivam, criatu- ra criada nos laborat6rios da geopolitica ao long de cinco anos. Sua inspiraao mais retomota era o Projeto Calha Norte. O primeiro presi- dente civil p6s-64, Jose Sarney, editou- o cor base na doutrina de seguranca national, que, na Amaz6nia, sobrevivia assim a passage do regime military para a Nova Repiblica. Itamar Franco, suces- sor de Collor, convocou o Conselho de Defesa Nacional substituteo do extinto Conselho de Seguranca Nacional, de tris- te mem6ria, reunido apenas duas vezes ate agora, em todas elas para tratar de Amaz6nia), e, cor esse referendo, dis- pensou a concorrencia pfiblica previa para a execugio do Sivam. Alegava-se, ainda que difusamente, que as tropas ja deviam estar atravessando a fronteira. O Sivam, que inicialmente custaria US$ 500 milh6es, teve seu contrato assi- nado por US$ 1,4 bilh~o. Como se sabe, o president dos Estados Unidos foi o primeiro a ser oficialmente notificado do resultado da carta-convite, que selecionou a norte-americana Raytheon. Se o orCa- mento nao for estourado, em cinco anos serao gastos recursos que correspondem a 20 anos de verba de ci8ncia e tecnolo- gia na Amaz6nia. O Sivam, um projeto a margem da comunidade cientifica, tendo sido criatura da doutrina de seguranga national, permanece cor essa roupagem te6rica ate hoje. Seu gerenciamento 6 fei- to por 6gaos militares. A "constituigio- cidad" de 1998, ao que parece, ainda no chegou a Amaz6nia. Nao surpreende, assim, a convivencia promiscua de tantos contrastes nesse su- posto Eden, que deveria ser o paraiso fundiario, tendo se transformado, entre- tanto, no locus contumaz do conflito de terra, em geral sangrento. Esa vastissi- ma fronteira, na qual o colono nao passa de posseiro, atravessada por gigantecas torres de alta tensao levando energia para trampolins de lancamento de riquezas energizadas para o exterior, e pela qual trafegam velozes trens de minerios cor- tando a paisagem ocupada por primiti- vos garimpeiros, indios, madeireiros, um mundo social parade no tempo, exclui- do dos prospects de sonho que, nem sempre, sao mais do que fantasia publi- citaria. Dai invas6es urbanas records, como a do Paar, em Belem, elevadissimo indi- ce de prostiuicgo infantil, criangas fora da escola, doengas medievais, baixa ex- pectativa de vida, criminalidade em ex- pansao (inclusive o narcotrafico), enfim, o IDH de ultimo mundo no Brasil. Nessa "fltima pagina do Genesis", como a viu Euclides da Cunha quando o s6culo comegava, a desorganizaqCo e o caos, o garrancho da criagao que fi- cou delegada por Deus aos homes, 6 o trago maior quando o s6culo chega ao fim e um novo esta prestes a se iniciar. Novo mesmo? E para quem? E a per- gunta que a Amazonia se faz, tensa e ansiosa, na esperanga de conseguir a solidariedade de todos para encontrar a verdadeira resposta e um novo caminho. Um caminho que a reconcilie com sua hist6ria, a seu serving. colocando-a a altura da honra de encerrar a cria9go neste planet azulado. 0 "- kpesar da propaganda em .ntrario e das notas planta- das na imprensa, a I Feira Pan-Amaz6nica do Livro foi --m fracasso. Nao por falta de bons stands e de investi- 'mento pelos expositores. A campanha publicitaria pr6- via concentrou-se no event paralelo, o I F6rum Pan- Amaz8nico, a "menina dos olhos" do principal promo- tor, o secretario de Cultura, Paulo Chaves Fernandes. Quando, por pressao dos li- vreiros, as veiculac6es na televisao passaram a se re- ferir claramente A feira de livros, varios dias ja haviam sido desperdiCados. A divul- gacao, al6m disso, colidiu com o pacote de medidas restritivas ao consume do governor federal. E nao foi acompanhada por mobiliza- c0o nas escolas, ao menos para criar uma rota migrat6- ria para o event. Foi a sopa no mel para vendas fraquissimas e dias de mostra de livros sem puibli- co atW mesmo para ver o ma- terial exposto. Livreiros de fora prometem nunca mais vir a Bel6m. E se a feira era um pass para a implantagao de um Merconorte cultural, na fantasiosa ret6rica do seu inspirador, esse caminho foi demarcado como se fosse de Joao e Maria: com migalhas de pao, que o passarinho (no caso, um gaviao de vaidade) come. 0 Santa Engracia Este ponto ja esra fora de diNida: se Almir Gabriel nao for reeleito, a conclusio da macrodrenagem das baixadas de Belem. o maior invesumento na capital paraense em nuitos anos, ficara para a nova admniustra.ao. a quarta a se suceder em oito anos, desde que o empreendimento for iniciado Apesar de todos os esforqos nesse sentido, o que o fez reMindicar para si o titulo de o verdadeiro pal da macrodrenagemn, o arual govemo perdeu a perspectiva de. incremnentando as aplicacqes da comrapartida national. poder inaugurar a grande obra. de 225 milh6es de dolares. O derradetro castigo para Almir Gabriel sera se Jader Barbalho for o eleito em 1998 e o home que descerrara a fita em 1999 Desequilibrio A prefeitura de Belem pa- gou mais uma parcela, a ter- ceira, da divida corn o grupo Liberal. Foram mais 150 mil reais, totalizando R$ 550 mil. Em tres meses, metade do debito que Helio Gueiros for- mou em nove meses foi qui- tado por Edmilson Rodrigues. A metade restante devera ser amortizada nos tris meses se- guintes. Ronaldo Maiorana ainda nio pagou os R$ 150 mil de ISS do Para Folia, arbitrado pela PMB corn base em esti- mativa de faturamento do car- naval fora de epoca. Ronaldo impugnou o valor cobrado. A prefeitura nao aceitou a impug- nagCo. O novo prazo para pa- gamento vai ate o final do mes. Assim, ao toma a1 dos Mai- orana nao ter correspondido o da ca do errio. Vai? A Secretaria de Agricultu- ra do Estado publicou, no Diario Oficial do dia 13, a retifica~io de uma errata. Vai para o Guiness ou nao vai? Clientelismo Em plena ofensiva para contengao de gastos e manu- tengao da estabilidade mone- taria, o govemo Almir Gabri- el concede 50% de reajuste no limited do valor de emenda de cada parlamentar no orga- mento do pr6ximo ano. An- tes, a cota era de 200 mil re- ais. Em ano eleitoral, subiu para R$ 300 mil. Em conjun- to, a Assembl6ia Legislativa vai poder aditar R$ 12 mi- lhbes ao orgamento que o exe- cutivo Ihe mandou. O correto nao seria os t6c- nicos do governor reunirem previamente cor os politicos e outras representa9oes da so- ciedade antes de fechar o or- 9amento, eliminando essa pratica flagrantemente clien- telista de emendar depois, atrav6s de acertos que sempre envolvem concessao e com- pensacao? Mesmo sem che- gar ao assembleismo do PT, que em materia de orCamen- to esta bem na frente, seria uma evolucgo. No rumo da decencia e da seriedade. N6s e eles O Maranhio ja contribuiu com 200 mil reais para o pro- grama luso-brasileiro de micro- filmagem dos documents existentes no Arquivo Ultrama- rino, em Lisboa, sobre a hist6- ria colonial brasileira. O Para entraria com R$ 20 mil para obter apreciosa documentag~o. Metade da cota foi paga. A outra metade esta atrasada 10 meses. Apesar de a hist6ria do Gr~o-Para e Rio Negro ser tao rica quanto a do vizinho Mara- nhao, senio mais. Questao de lucidez, discer- nimento, equilibrio e espirito verdadeiramente puiblico em mat6ria de political cultural. Ego de elefante nao impede nosso deslocamento do cir- cuito para valer da cultural national. Livro No inicio de dezembro es- pero lancar meu mais novo livro, Amaz6nia, ofuturo per- dido (A hist6ria do aluminio e outras derrotas da globali- zagao), que comegard a ser Nova Amaz6nia Ningu6m registrou a mais nova faganha do governor Fernando Henrique Cardoso: conseguiu redesenhar a Amaz8nia. A fragmentagdo do sistema Telebr.s para a privatizagdo provocara uma nova divisao regional. A future Tele Norte-Nordeste-Leste (ou o nome que ven1ai a ganhar) tern jurisdigdo sobre Park, AmapA, Amazonas e Roraima (abrangendo anda o Nordeste e o Leste). Ja Rond6nia, Acre e Mato Grosso serao atendidos pela projetada Tele Centro-Sul (que se estendera ainda pelo Centro-Oeste e o Sul do pais). O que deduzir dessa nova geografia? Que os Estados amaz6nicos serao os primos pobres dessas duas empresas telefinicas nacionais privatizadas. Principalmente os da Tele-Norte-Nordeste-Leste, a maior de todas, atendendo 39% do PIB brasileiro. Journal Pessoal Editor: LOcio Flivio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 / CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Trv. Benjamin Constant 845/203 /66 063-020 Fone: 223-7890 e.mail: lucio@expert.com.br Editoraqgo de arte: Luizpe i 241-1859 impresso nesta semana. Como Roberto Carlos desis- tiu do seu traditional disco de final de ano, pode ser que te- nha sobrado piiblico com ou- tras disposi oes. Baiands Como Arthur Xexeo, ainda estou remando pelas paginas do livro de Caetano Veloso, Verdade Tropical (titulo pou- co inspirado). Nao propria- mente por falta de atrativo a leitura, mas tamb6m de tem- po. Uma conclusio pode dis- pensar o que falta para chegar ao fim: a leitura de Jung nio fez bem aos baianos (fez bem, final, a quem?). Quando fala o outro lado da persona assu- mida por Caetano (mais ainda por Gilberto Gil, por incrivel que pudesse parecer), o nivel cai, ainda e sobretudo - que suba o inconsciente. Mas vamos em frente. Na moda Os convites das galerias de arte Bolonha Um e Elf sio, cada vez mais, uma especie de journal pessoal do marchand Gileno Miiller Chaves, em edi9ao compact, mas reple- to de humor e picardia. A pre- texto de convocar a clientele, Gileno faz uma cr6nica do que vai pela taba, combinan- do ironia cor perspicacia. No convite para a mostra coletiva de esculturas que abre no dia 21 no Bolonha Um, Gileno convida todos "& familiar & aderentes, bem como o Jornalista Edwaldo Martins, o Sociblogo Lficio Flavio, o Professor Augusto Rodrigues, o Arquiteto Paulo Cal, os vinte mais recentes emergentes (contando cor o Dr. Euclides Bandeira)". Faltou apenas o Professor (Professor mesmo, como diz o H1lio Fernandes) Edmilson Brito Rodrigues. r , |
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