Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00123

Full Text






Tor n Pessoal
L U C I F L A V I P I N TO
AN XIN A V ,, I NZ NA DE D I R$ 2,00


POLITICAL


No tempo do nao


Indignado com os atos do seu vice,
Almir Gabriel antecipa sua volta a
Belkm. Mas calcula bem os seus
atospara ndoprejudicar a

S -- campanha da reeleido.
Sozinho, nenhumgrupo

k 'politico pode vencer em
1988. Agora, quem vai se
S-- unir a quem? Tudo

\ \ continue possivel, mesmo o

impossivel. Apesar das
declaragdes em contrdrio. As
S-- palavras ndo revelam, escondem


dlio Gueiros Jr. nao deve-
ra mais assumir o gover-
no do Estado atW abril do
pr6ximo ano, quando ter-
mina o prazo para as de-
sincompatibilizag6es dos
candidates A eleiqdo de
outubro de 1998. Se assumir a partir dai, 6
porque o pal, o ex-prefeito H6lio Gueiros,
nao serA candidate a nada. Se continuar fora


do governor, estarA confir-
S mada a candidatura de
H-Hlio pai e o filho voltarA A
condiAo de acidente de per-
curso na political paraense.
A Assembldia Legislativa deu ao gover-
nador umalei, francamente inconstitucional,
poupando-o de transferir de novo o gover-
no ao inc6modo vice se suas ausencias do
Estado durarem menos de 15 dias. A mu-
danga na regra atual, que imp6e a substitui-
iao do titular pelo vice em qualquer ausen-
cia do governador do territ6rio paraense, s6
poderia ser feita legalmente atrav6s de emen-
da constitutional, como propunha desde


s verdadeiras intenrdes



1993 um projeto-de-lei do entao deputado
Ronaldo Passarinho (hoje conselheiro do Tri-
bunal de Contas dos Municipios, nomeado
por Almir).
Mas a aprovagao de uma emenda consti-
tucional exige o quorum qualificado de dois
tergos dos 41 deputados estaduais, dificil de
alcanqar na atual conjuntura, em que o
PMDB se recolheu A espera do desfecho do
conflito do governador cor os ex-aliados,
valorizando o prego de sua adesAo A coliga-
9.o que se formard para viabilizar a reelei-
9Qo de Almir Gabriel. Os governistas prefe-
riram, ent5o, deixar o rigor formal de lado e
produzir um interdito ao retorno de Helinho
ao governor.
Os Gueiros, 6 claro, poderao recorrer A
justiga. Como o objeto da impugnaygo 6 uma
lei ordinaria, oprimeiro combat ser trava-
do no Tribunal de Justiga do Estado. Em se-
guida, haverA a instancia do Supremo Tribu-


'V B~1[& 1" '~5 4 i~~~1 ~~]~~~ ga~~a~%g~s~ '







2 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE VOVEMBRO / 1997


)nal Federal, por se tratar de matdria consti-
tucional. Mesmo que o governor perca, como
6 previsivel, terao decorridos preciosos me-
ses atd a definiqao das candidaturas. Assim,
a nao ser que o governador adoega seriamen-
te de novo, antes de abril, H6lio Gueiros Jr.
terA sido imobilizado. E a candidatura do pai
sofrerA um s6rio abalo, exigindo um novo
planejamento estratdgico.
Os Gueiros provavelmente raciocinavam
cor uma convalescenga mais demorada de
Almir Gabriel, senao cor sua more. Por
isso, perderam tempo precioso atd a defini-
cAo da estrat6gia a seguir na interinidade do
Jinior, reduzida ainda mais pela conjuncio
de um fim-de-semana a um ponto facultati-
vo (no serving piblico sempre interpretado
como feriado) prolongado. Tiveram que ser
agodados. Na busca de resultados imediatos,
cometeram irregularidades e ilegalidades de
efeitos desgastantes para a image da oli-
gArquica familiar e que, se a CPI instalada
no legislative for para valer, podera resultar
em sancqes legais.
Como de outras vezes, Hd6io Gueiros deve
ter raciocinado corn o principio baratista de
que lei 6 potoca. Uma vez consumado o ato,
nAo serd o formalismo legal que ira reparar
o resultado. Esse raciocinio foi eficaz, quase
sempre. Mas o crescente federalismo centra-
lizador, a integraao fisica do ParA ao resto
do pais e o avanqo das telecomunicaq6es afe-
taram esse localismo, que fazia do Para uma
distant satrapia, sujeita a recaidas hist6ri-
cas, como a do vice-reinado do Junior.
"Se quiser, retire o dinheiro que quiser",
imaginou Helinho, ao investor contra o Ban-
co do Estado do Para atras de dinheiro para
repassar a duas prefeituras comandadas por
seu partido, o PFL. Cor essa convicqAo de
autocrata provincial, ele se achou no direito
de mandar o chefe de sua Casa Militar, co-
ronel Heitor Watrin, despejar manu military
o president do banco, Mario Ribeiro, pas-
sando por cima dos formalismos legais.
Tamb6m "nao deu pelota" (para usar ex-
pressao cara ao pai, jogador de peladas em
fins-de-semana, como o filho) A circunstan-
cia de que aprimeirafuncionaria indicada nao
aceitara a designaqio e a segunda, sem qua-
lificaqC o tdcnica, nao preenchia o requisite
normativo preliminary (ser membro do Con-
'selho de Administraqio da instituiago: "era
pouco mais do que continue", fulminara
Mario Ribeiro).
Era muita violagao junta e desnecessi-
ria, jA que bastava seguir o ordenamento es-
tabelecido para conseguir o que, final, foi
alcancado: a liberal~ o do dinheiro da conta
inica do Estado. Esse ordenamento deixou
de ser uma preciosidade initial de tempos
passados: 6 vital para que se mantenha o pre-
cArio equilibrio das contas pfiblicas e de todo
o sistema financeiro, sem o qual a estabilida-
de monetAria do Piano Real ruird (e, com ela,
a possibilidade de reeleicio do president
Fernando Henrique Cardoso).
Por isso, houve reaqAo imediata do Ban-


co Central e da Comissao de Valores Mobi-
lidrios, com a ameaga implicita de interven-
qao no BanparA, seguida de liquidagio da
instituic o. Brasilia j teria imposto essa so-
lucdo para o banco se as autoridades mone-
tArias pudessem decidir sem interferencia
political. Desde que a dificil negociaqlo co-
megou, o Banco Central busca un pretexto
sustentivel para incluir o BanparA no pro-
grama de privatizacAo, hip6tese rejeitada pela
administraao Almir Gabriel (ela trabalha
com a alternative hibrida de reduzir o tama-
nho do banco e mudar suanatureza, mas sem-
pre tendo-o a mao como um instrument
politico).


Corn sua sucessAo de
barbaridades, Helinho quase
entregou essajustificativa, mas a rusticidade
de seus atos facilitou a retomada da direcao
do banco pelos almiristas. Restabelecendo a
normalidade das atividades, eles optaram em
seguida pela conciliacao, liberando os 2,1 mi-
lhWes de reais transferidos para Santar6m
(Inhangapi ficou com o troco). JA com Almir
em Bel6m, o secretArio do planejamento, Si-
mao Jatene (agora umprimeiro-ministro semi-
oficial), partiu de novo para o ataque. Ele diz
que vai exigir do Tribunal de Contas do Esta-
do a devolucio do dinheiro, repassado sem o
atendimento das normas legais.
Seguindo as orientaq6es do pai, um espe-
cialista no pathos paraense, Helinho inves-
tiu (demagogicamente, na verdade) contra a
inimiga nimero um do Estado, a privatizada
Companhia Vale do Rio Doce. Foi seu ato
de maior apelo popular. Mas provocou a mal-
disfarcada ira da grande imprensa national.
Dois anos antes a desastrosa interinidade
havia merecido discretos registros na midia.
Desta vez, o fronteiriqo Helinho foi objeto
de massacre e escAmio.
Num editorial, O Estado de S. Paulo re-
ceitou-lhe camisa-de-forga. O vespertino da
empresa, o Jornal da Tarde, dev a Helinho
manchete de primeira pgina e eatorial cheio
de adjetivos e carente de informacqes (o edi-
torialista diz que Almir Gabriel, internado a
apenas alguns quilbmetros da sede do jor-
nal, havia sido operado do coraqo). A voz
esganigada, em puro falsete, as frases bom-
bAsticas e a apardncia fisica do vice foram
um prato cheio para a imprensa mostrar a
pantomima dos paraenses, por aqui tornada
uma rotina, mas fora da provincia um verda-
deiro espanto. Por que s6 agora, contudo, a
revelaqao desse simbolo do atraso politico e
mental da provincial?
Entre a primeira interinidade burlesca e a
atual aconteceu a privatizaao da CVRD, um
fato jd em si important, mas dotado de va-
lor simb6lico ainda maior. A privatizaqlo 6
o mais precioso brilhante da coroa do prin-
cipe federal. Os que o sustentam conside-
ram qualquer ato contrario a essa political,
sobre a qual se firma a continuidade do atual
projeto de poder, um verdadeiro lesa-majes-


tade. Dai a letalidade dos atos demag6gicos
de Helinho contra a CVRD.
Paulo e MArio Ribeiro, os irmaos (aplica-
dos filhos do ex-ministro Nelson Ribeiro) que
dirigem a Secretaria da Fazenda e o Banco
do Estado do ParA, sustentaram que os atos
do interino sao in6cuos, a despeito da agres-
sividade ret6rica. Apenas suspenderam favo-
recimento de natureza administrative dado A
Vale, de baixa expressao monetAria. Se isso
6 verdade, por que o governador fechou a
primeira semana de retomada do poder sem
revogar esse ato?
Os Aulicos explicamlogo que hA compli-
caqao juridica nessa operaqio. Mas o que
parece haver mesmo 6 complica9ao political:
Poucos parecem em condiqces de avaliar
corretamente o saldo das retaliates de Hd-
lio Jr. A CVRD. O editorialista de O Estado
de S. Paulo, por exemplo, nao faz parte des-
sa excecao. Seu entendimento dos fatos, que
resultou em tanto furor mal direcionado,
parece o mesmo do senso comum: "Enquan-
to usou o Didrio Oficial para extravazar seus
ressentimentos e nomear seus correligionA-
rios, o governador interino limitou os estra-
gos de sua atuaqao provis6ria ao Ambito da
political local. Mas, ao revogar incentives
dados a uma empresa do porte da Compa-
nhia Vale do Rio Doce, ele demonstrou um
potential de periculosidade que precisa ser
levado a s6rio".
Ou seja: enquanto faz mal apenas aos seus
jurisdicionados, todos eles brasileiros, al6m
de paraenses, o d6spota paroquial nao inte-
ressa A grande imprensa national, mal-con-
tida em seus preconceitos sobre os rtisticos
amazbnicos (nem sempre amazbnidas, infe-
lizmente). Mas quando se torna periculoso
para uma parceira do sistema central de po-
der, entao deve ser destrogado.
O problema 6 que os porta-vozes desse
poder atribuiram aos atos do vice uma efica-
cia que, intrinsecamente, eles nao tnm. Se
desmoralizaram o herdeiro politico, fazen-
do-o motivo de chacota que atingiu todos
os paraenses, tamb6m podem criar um efei-
to oposto na taba. Vitima de uma clara in-
compreensao, Helinho se achou no direito
de considerar-se her6i. At6 pensa em pros-
seguir numa carreira political accidental, ele-
gendo a CVRD como.moinho, alvo de.seu:
combat de cavaleiro medieval:
Os favors e privil6gios tem sido dados A
Vale com tanta displic6ncia que chega a ser
procedente a cautela dos almiristas na ava-
liaqco do status quo ante. Dai a relutAncia A
simples revogaglo automAtica dos atos do
vice contra a poderosa empresa. A CVRD
adiantou 16 milhdes de reals a Jader Barba-
lho, em 1993, e, mais generosamente ainda.
R$ 21 milh6es a Almir Gabriel tres anos de-
pois, moments antes de entrar em vigor a
Lei Kandir, que tornaria inviAvel a compen-
sagao desse dinheiro adiantado. E tema ain-
da pendente, num moment em que a em-
presa contabiliza outros R$ 30 milh6es de
cr6ditos, acumulados desde o inicio da tal







JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO / 1997 J


lei de desoneracao das exportacqes, e um
total de R$ 80 milhoes, incluindo os custos
da estrada de acesso a Carajas, um arranjo
leonino do governador Alacid Nunes, depois
membro do Conselho de Administracgo da
empresa como, alias, procedera anterior-
mente em relaqao ao grupo Joao Santos.
Os dois grandes erros de H6lio Gueiros
Jr. em sua interinidade o do Banpara e o da
Vale permitiram aos almiristas desencade-
ar uma guerra de represalia, superdimensio-
nando a lesividade do vice. A16m de algu-
mas molecagens e fisiologismos, o objetivo
dos Gueiros era reunir o maximo de infor-
maq6es possivel no curto period que foi se
materializando na media em que a rapida
recuperagao do governador se confirmava.
E evidence que o retorno de Almir Gabriel
foi precipitado, em parte porque, psicologi-
camente, ele ja estava em Beldm desde que
tomou conhecimento das iniciativas do seu
successor (em fungAo disso, a distancia esta-
va Ihe fazendo mal maior do que o beneficio
do internamento no Incor de Sao Paulo).
Na ess6ncia, o vice agiu cor deslealda-
de e falta de 6tica, mas o comportamento do
titular nao ter sido um primor em relagao
ao seu parceiro de mandate. Almir Gabriel,
antes de viajar para a capital paulista, telefo-
nou para os chefes dos outros dois poderes
(o president do Tribunal de Justica, desem-
bargador Romao Amo&do, e o president da
Assembl6ia Legislativa, deputado Luiz OtA-
vio Campos), mas para o vice mandou ape-
nas o livro do term de posse.
Para saber do que se passava cor o go-
vernador, a Helinho restava a imprensa. Se-
quer foi convidado, alguns dias antes, para o
almoco do Cirio, que reuniu no museum al-
guns dos principals esp6cimes do tucanato e
do governor. Diante desse tipo de tratamen-
to, sempre sutil e sinuoso, como do estilo
pessedebista, nao surpreende o rancor do
coadjuvante no exercicio da titularidade.
Mas novamente se enganaram os que ima-
ginavam que, ao reassumir o comando da
administragao estadual, o governador resta-
belecesse plenamente sua autoridade, repe-
lindo integralmente a como dizem os poli-
ticos felonia do suposto parceiro. A indig-
naggo diante dos atos de H6lio Jr. fez Almir
forcar a alta para continuar convalescendo
em Bel6m. Tratou, por6m, de proclamar um
neol6gico tempo do "nao 6dio" e de fazer a
separagdo entire o PFL e os Gueiros, man-
tendo aberta a porta para um entendimento,
ou mesmo coligagao. O impulso moral, se
houve, ficou intramuros: de pilblico, o go-
vernador novamente engoliu em seco, mes-
mo que seus auxiliares tenham a missao de
arrasar corn as "cabegas-de-ponte" instala-
das pelos Gueiros no governor.
A incensaqao do chefe foi delegada aos
Aulicos, que continuaram aproveitando-se do
clima emotional da vitimologia para fazer a
propaganda eleitoral. "O Governo Almir Ga-
briel rompeu, em menos de tres anos, a teia
da corrupao, do autoritarismo e do persona-


lismo que condenavam o Para a um lugar de
coadjuvante menor da construgao do seupr6-
prio destiny", dizia uma nota, conveniente-
mente an6nima, da "equipe Almir Gabriel",
preparada no dia da chegada do chefe por meia
duzia de seus mais pr6ximos auxiliares.
Eles asseguram que o lema do governor
("Uniao pelo Pard") nao 6 figure de ret6rica
(ou recurso eleitoreiro), "mas missao, com-
promisso". O estilo sereno de governor de
Almir Gabriel "nao pode ser confundido corn
fragilidade. Expressa, antes de mais nada, a
sua generosidade e a sua 6tica".
Nao importa que, um pouco antes, numa
cabalistica entrevista ao grapo Liberal (o
governador fez a posio flor de l6tus do ioga
para demonstrar satide, enquanto o reporter
Emanoel Villaca permaneceu sob uma chu-
varada, talvez para atestar o empenho do
"furo"), Almir Gabriel tenha proclamado,
cor a melhor dicgco tucana, o significado
de sua volta ao governor: "Esta voltando o
nao 6dio. Exatamente a possibilidade de a
gente construir, pela nossa uniao, o desen-
volvimento do Estado. Por acaso, Almir
Gabriel tamb6m represent isso".


Referir-se a si pr6prio
na terceira pessoa cons-
titui evoluio classica de um tipo de narci-
sismo que, em political, se confunde cor au-
toritarismo. O mundo passa a se circunscre-
ver ao pr6prio umbigo. A linguagem de um
grupo torna-se a linguagem de todos, como
assinala, batendo na mesma nota, o super-
secretario Simao Jatene. Para ele, "adversa-
rios e falsos aliados sao aqueles que, utili-
zando palavras para esconder e nao para re-
velar suas intenq6es, dizendo-se defensores
do Estado, agem no sentido de denegrir sua
imagem, muitas vezes colocando suas ques-
t6es pessoais acima dos interesses do Esta-
do, e pouco contribuem para que o Para seja
cada vez mais um Estado modero, o tenha
como finico dono a sua populaqio".
Sera que a carapuca, inteiramente valida
para os governor de Jader Barbalho e H6io
Gueiros (para s6 se referir aos mais pr6xi-
mos), nao cabe como luva no atual gover-
no? Se os dois relresentam essa era de cor-
ruppo, autoritarismo e personalismo sepul-
tada por que Almir, o Grande, os ressusci-
tou?
Nao foi ele quem tomou a iniciativa de
retomar o contato cor Jader, j entao do lado
contaminado do territ6rio politico? Nao foi
ele quem inventou a dissociagao entire pai e
filho Gueiros, enquanto Ihe foi convenient,
perdoando as irresponsabilidades do Junior
e inocentando o mestre? Nao foi ele quern
se manteve por tantos anos calado diante da
saraivada de denmncias contra as administra-
cqes Barbalho e Gueiros?
Nao 6 ele quem, constatando a impossi-
bilidade de reeleger-se sozinho, apesar da
mais intense campanha pr6-eleitoral de to-
dos os tempos, sufoca sua indignaqAo para


agir com cautela pensada a fim de ocupar
um lugar melhor no tabuleiro politico? Nao
6 ele quem estA superando o nivel de pro-
miscuidade governo-imprensa alcancado nos
governor Barbalho e Gueiros?
Nao ha dAvida de que o padrao Almir de
administrageo estA pontos acima dos dois
anteriores, mas a ret6rica political se diferen-
cia apenas pelo maior grau de malabarismo
da linguagem (o que poderia explicar a con-
traditao entire indices mais elevados em fa-
vor do administrator e muito mais baixos ao
politico, nas pesquisas realizadas).
Na convalescenqa, Almir inventou o ge-
renciamento mental, ou, como disse na en-
trevista coletiva em Sao Paulo no dia da vol-
ta: "Tenho uma enorme capacidade de recu-
peragdo e de gerenciamento da minha cabe-
qa". Quem pensa mal, mal fala e escreve.
Tamb6m quem esconde o que pensa. t o
castigo da lingiiistica.
Na verdade, tudo isso ocorre porque nao
ha mais um p6lo hegeminico na political pa-
raense. Sozinho, nenhum dos caciques con-
segue vencer eleiqao. Inegavelmente, o blo-
co dos Gueiros foi o mais prejudicado pelos
filtimos acontecimentos. Mas o do governa-
dor nao foi o mais beneficiado. O sujeito
oculto na oragao insudordinadissima, o gru-
po Barbalho, credenciou-se aos melhores
dividends. O senator do PMDB aticou o
quanto p6de a fogueira para provocar quei-
maduras generalizadas nos contendores, sem,
por6m, incompatibilizar-se corn nenhum de-
les.
Mais do que antes, Jader 6 o pendulo da
balanca. Para os gueiristas pode nao ter res-
tado outro caminho. Pela primeira vez o ex-
governador perdeu abatalha da imprensa, da
qual 6 expert. Foi massacrado pela grande
imprensa national e nao dispbs da midia lo-
cal para o seu espetAculo circense, sempre
de grande efeito. Dai a investida furiosa de
Helinho contra o grupo Liberal, que jogou
pedras contra o espacoso telhado de vidro
da familiar e escondeu a mao, protegendo-se
atras de O Estado de S. Paulo e do Jornal
da Tarde.
Se nao conseguir atrair para o redil A Pro-
vincia do Para, o que 6 muito improvavel, s6
Ihe restart a cidadela de Jader Barbalho. Mas
o senador aguardarA uma nova proposta do
governador, acrescida de juros e correcao
monetaria, antes de decidir qual sera o seu
pr6ximo pass. Uma pesquisa divulgada no
filtimo domingo por A Provincia mostra que
o prestigio do senador peemedebista atraves-
sou inc6lume a tormentosa saison do Jinior.
O journal esqueceu de destacar que os 18,5%
surpreendentemente atribuidos a Jader, Almir
e H1lio, num rarissimo empate, se restringe a
Bel6m. Nao inclui quase 80% do eleitorado
paraense, domiciliado no interior.
Isto quer dizer que, feitas as contas do
prejuizo e levantadas as baixas, quem inega-
velmente perdeu, mais uma vez, foi o Para.
Com os personagens de sempre e as ret6ri-
cas de ocasiao. 0








4 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE VOVEMBRO / 1997


Prefeito, desga de vez


do palanque

A edifdo anterior jd estava impressa quando chegou a estejornal uma
carta doprefeito de Belem, Edmilson Brito Rodrigues. Embora ndo o
declare explicitamente, a carta se refere a uma notapublicada na edicdo
da I quinzena de outubro ("Palavra de arquiteto'), que tambem
provocou uma carta da vice-prefeita AnaJzilia Carepa, jd
publicada e respondida [ver no 173).
Segue-se a integra da carta doprefeito, tal comofoi escrita, sem correado:


"Soci6logo LOcio FlAvio Pinto,
Mesmo tendo sido eu um dos
poucos homes piblicos detentores
de mandate parlamentar a ter assi-
nado manifesto politico e subido em
palanque em protest veemente con-
tra a ag9o judicial impetrada por
membros da familiar Maiorana con-
tra tua pessoa, esclarego que nao te-
nho qualquer motivo para sofrer por
ti, permanentemente (etemamente?)
os teus traumas e 6dios pessoais re-
sultantes de tua contraditoria rela-
9Ao professional com os dirigentes
da Organizaeao R6mulo Maiorana,
que tem variado desde os mais im-
pactantes elogios ao falecido joma-
lista R6mulo Maiorana ate as criti-
cas Acidas e emocionais dirigidas aos
herdeiros desse poderoso grupo em-
presarial.
Quando eu dirigia os maiores
movimentos sindicais do nosso Es-
tado eras tu, LOcio, quem escrevia
em 'O LIBERAL' e posteriormente
em 'A PROViNCIA', invariavel-
mente, construindo arguments que
ressaltavam o 'radicalismo' e a 'falta
de seriedade' dos lideres do movi-
mento dos educadores e outras ca-
tegorias de trabalhadores.
Eu, invariavelmente, mantenho-
me fora de quaisquer amarras. Con-
tinuo a critical as political neolibe-
rais do president Femando Henri-
que Cardoso. As vezes chego na
emoglo, a chami-lo de Femandinho.
Final de contas nao sou.de ferro e
nao aceito que os eleitos pelo povo
traiam os programs corn os quais
se comprometeram para com esse
povo. Alias, esse fato te fez pensar
que tens direito de desrespeitar, de
forms amolecada, esse gestor muni-
cipal. Tens teus motives, continue
sendo um daqueles 'dinossauros'
que nio abre mio do Sonho Socia-
lista.
Nio sei se as diferenas ideol6-
gicas te impnem uma cegueira ana-
litica. Fiquei assustado corn a ver-
slo de que nosso Governo em nada
mudou em relagio ao passado. Usas-
te o resultado de uma licitaco ho-
nesta, transparent, da Area de co-
municago para tirar essa conclusao.
Como bom soci6logo, deverias in-
vestigar melhor para saber que hoje
08 (oito) empresas de publicidade
prestam servigos so nosso Governo.
Sou um critic e nao retire uma


Onica palavra dita por mim sobre o
conflito entire o nosso Govemo e o
'Grupo Liberal'. Entre outras coisas
disse que nao seria refdm de qual-
quer pessoa, fisica ou juridica, de
pequena ou grande forga political e
econrmica. O fato que, SEM CO-
VARDIA, tomei piblico 6 o nao re-
conhecimento por parte de nosso
Governo da divida alegada pelo
Grupo Liberal.
Nunca, [sic] disse (desafio que
prove o contrario) que nao reco-
nhecia a existencia de uma enorme
divida dessa municipalidade para
cor in(umeras empress, inclusive
com as Organizagao [sic] R6mulo
Maiorana. Continue a afirmar: em
nenhuma hip6tese, de modo consci-
ente, o nosso Govemo pagarA A [sic]
maior qualquer de suas dividas.
Vale esclarecer que devemos ain-
da, dos restos a pagar deixados pelo
meu antecessor, cerca de R$ 16 mi-
Wlhes. A prioridade n I (um) tern
sido os servidores e a manutenglo
dos servings pfblicos municipals.
Pagamos praticamente todas as pe-
quenas dividas pars evitar a falen-
cia das empresas credoras de menor
porte. Os credores que prestam ser-
vigos na Area de limpeza urbana e
fornecimento de merenda pars esco-
las e cresches, bem como os que for-
necem os equipamentos m6dico-ci-
r6rgicos e medicamentos.
Obviamente, nAo somos burros.
Sabemos que o nosso program de
Govemo, pars ser realizado, ter que
ser assimilado pela populacio. Um
dos mecanismos de construglo de
Govemo Democratico e Popular slo
os meios de comunicago de massa,
que infelizmente slo dominados por
oligarquias oligopolistas.
Devemos sim. Pagamos, jA no
inicio do Governo, parte de nossa
divida cor os grupos de comunica-
90o, excegao feita ao Grupo Libe-
ral, o que agora jA estamos a fazer.
A primeira parcel foi de R$
250.000,00. Mas a segunda, L6cio,
foi de R$ 150.118.71 e nao de R$
250.000,00, como afirmaste em teu
respeitoso journal.
Tenho ainda a informar-te que a
vice-prefeita Ana Julia Carepa, Co-
ordenadora do Comite de Revitali-
zagao Urbanistica, Econ6mica e
Cultural do nosso Governo, foi in-
dicada por mim para coordenar as


a9qes interestaduais do Governo ati-
nentes a realizaglo do 'Parbfolia'.
Desse modo, foi ela quem apresen-
tou aos diretores dessa Micareta, a
portaria da SEFIN que obriga a re-
ferida empresa 'BIS PROMOCOES
LTDA' a pagar R$ 164.690,38
UFIR'S [sic] referentes ao ISS.
Logo, 6 pouco s6rio afirmar que o
Sr. Ronaldo Maiorana teria econo-
mizado 'R$ 70.000,00 cor isengIo
de ISS'.
Nao sou, L6cio, certamente, um
intellectual tAo brilhante quanto tu.
Mas, mesmo mudando de opinion
sobre determinados aspects de nos-
sa vida s6cio-econ8mica e cultural,
nunca me envergonho e nunca me
envergonharei de minha hist6ria e de
meus despretenciosos [sic] escritos.
Por isso, nao cabe a pouco s6ria
comparagao entire a Palavra deste
Arquiteto cor a palavra de qualquer
soci6logo. Muito menos corn a do
Excelentissimo Senhor Presidente
da Reptiblica Federativa do Brasil,
Doutor Femando Henrique Cardo-
so.
Agradego tua paciencia ao ler
essas humildes linhas tragadas por
um trabalhador socialist que nun-
ca dependeu de coron6is, fardados
ou nao, para viver, trabalhar e exer-
cer o direito de critical, da cidadania.
PS.: E, tamb6m, pouco s6rio di-
zer que ameacei 'fazer o povo inva-
dir o palAcio dos Maiorana'".

Minha resposta: Nao odeio
nenhum Maiorana, nem mesmo Ro-
sangela Maiorana Kzan, a autora
de cinco aq6es (quatro criminals e
uma civel) contra mim, a unicapes-
soa ati agora a me processor em
32 anos bem vividos de profissao.
Nunca ataquei Rosdngela. A unica
refer&nciafeita a ela ati entao, na
edi9do 98 deste journal, foi em fun-
Fao da dispute pelo poder no gru-
po Liberal, assunto de alto interes-
se public.
Semjamais ter escrito para este
iornal, Rosdngela props uma for-
ma de entendimento, atraves do
marido. Queria ler antes o que eu
iria escrever sobre o assunto para
verificar se eu escreveria o que ela
mandara dizer que queria ver im-
presso. Ndo aceitei. Jornalista que
age de outra maneira ndo e digno
desta maravilhosa (e atormentada)


profissdo. Ao invis de retificar a
noticia, Rosdngela resolve me
processor.
Nao era o procedimento corre-
to, j4 que eu abrira espago nojor-
nal para ela se manifestar a von-
tade, mas era direito dela (ou sua
tdtica frente a competifao com o
irmao). Eu indiquei uma inica tes-
temunha no process. Essa teste-
munha ndo ia me defender Podia
ati acontecer o contrdrio, jd que
Ariovaldo Antunes, gerente de cir-
culafao, era empregado dojornal
O Liberal, subordinado de Rosdn-
gela e eu nao tinha qualquer con-
tato com ele. Mas, no contradit6-
rio processual, iria ajudar a escla-
recer osfatos. Agi assim pela con-
vicqco de nao terfeito outra coisa
sendo reproduzir o que realmente
acontecera.
Nao adotei nenhum procedi-
mento capaz de protelar a instru-
fao judicial. Tudo teria sido defi-
nido com rapidez. Mas Rosdngela,
surpreendentemente, dispensou o
testemunho do irmio, RomuloMai-
orana Junior, personagem-chave
da hist6ria noticiada. Ai comeqa-
ram as obstruVfes e manipulafaes
nos processes, geradas por mano-
bras de bastidores a base da inti-
midagao.
Hd mais de cinco anos sou viti-
ma de um processopolitico, que al-
gum dia reconstituirei documental-
mente. Espero que venha a ser uma
contribui9ao para que a opinido
public reflita sobre a nossajusti-
oa e as coaVoes a que se submete,
apesar das prerrogativas que Ihe
foram conferidas para dar-lhe in-
dependOncia ndo s6 retoricamente
e, assim, ser o ultimo baluarte do
que ate hoje entendemos por demo-
cracia (prerrogativas que, numa
confused tipica da crise atual, pre-
tende-se abolir).
Em algumas edifOes do Jornal
Pessoal denunciei esse process
politico, comofaria se a vitimafos-
se qualquer outrojornalista. Cum-
prida essafunfdo, deixei de me re-
ferir aqui a essa via crucis, apesar
dos dissabores que continue so-








JOURNAL PESSOAL 1i QUINZENA DE NOVEMBRO / 1997 5


frendo (por falta de informafao,
muita gente acha ate que os pro-
cessos se extinguiram). Em todo
este ano, exceto quando provoca-
do a me manifestar como agora, s6
escrevi uma matiria a respeito.
Mas jamais penetrei na vida
pessoal de qualquer dos Maiora-
na, incluindo Rosdngela. Nada te-
nho contra Rominho, o znico cita-
do neste journal, apenas pelo fato
de ser o cabega da empresa e por
dirigi-la de um modo imperial, que
no faz bem a ninguem, nem a ele.
Essa e uma dasfontes do papel ne-
gativo que o grupo de comunica-
qao desempenha na sociedade pa-
raense, que precise combater, ate
o restabelecimento de uma plura-
lidade informative (para a qual,
alids, os supostos concorrentes
pouco contribuem, criando a enga-
nadora aparencia de oligopdlio).
Edmilson pode convocar sua
militdncia e dar-lhe como castigo
ler toda a coleqdo do JP para en-
contrar provas do meu 6dio a fa-
milia. Conheci alguns dos herdei-
ros criangas ou adolescents; ndo
rompi pessoalmente com nenhum
deles. Mas e claro que h6 um evi-
dente constrangimento quando
eventualmente nos cruzamos. Mi-
nhas relacges cor algumas exten-
s6es dafamilia permanecem ama-
veis e civilizadas, como tem que ser,
mesmo e sobretudo, como pedia
Voltaire na divergencia.
Quanto ao pai deles, pego ao
prefeito um "elogio impactante"
(isso e linguagem de arquiteto ou
de engenheiro?) meu a Romulo
Maiorana. Eu tinha um carinho
enorme por ele, mas jamais o ca-
nonizei, em vida ou morto. Romulo
tinha as virtudes que eu mais pre-
zo: lealdade e generosidade. Mas
tinha seus defeitos, nem todos ve-
niais. Eu ndo iria sacrificar nossa
amizade pelos erros que cometia,
mas naofechava os olhos na hora
de escrever
Nunca tive uma "contradit6ria
relacao professional" com a em-
presa. Sempre fiz ali jornalismo,
nada mais do que isso, onde esti-
vesse atuando (tambr m sugiro a
Edmilson convocar sua equipe e
vasculhar a colecao de 0 Liberal
atrds de um texto do qual eu pos-
sa me envergonhar). Sai duas ve-
zes do grupo Liberal por divergir
do dono. A iniciativa sempre foi
minha. Nunca fui demitido. Nas
duas vezes em que sai, Romulofoi
me buscar.
Na nossa ultima discorddncia,
fui ao Rio de Janeiro, ele ji doen-
te, para entregar-lhe minha colu-
na, o Reporter 70 e minha partici-
pagdo na TV Liberal.
No auge de uma guerra com o
governoJader Barbalho, quispou-
par Romulo das presses que esta-
va sofrendo dos amigos do velho
PSD baratista (Jader, Helio Guei-
ros e Henry Kayath, entao no mes-
mo barco e no mesmo alvo de tiro


meu). Almogamos sob os olhares da
Dea, por quem continue a ter a
mesmo afeigao. Mas Romulo se re-
cusou a aceitar meu pedido de de-
missao.
Eu continuaria a fazer as mes-
mas coisas e estava completamen-
te desobrigado dos compromissos
que ele jd havia assumido corn a
candidatura de Hdlio Gueiros ao
governor, contra os quais me opius
(e sobre isso me manifestaria em
longa carta pessoal a Gueiros, um
mrs antes de ele assumir o gover-
no). Romulo tinha confianca em
mim e me respeitava. Infelizmente,
a grave doenga o impediu de resis-
tir ao assedioferoz dos amigos uti-
litcrios. Quando morreu, estdva-
mos mais uma vez rompidos. A di-
ferenga i que, desta vez, ele naopo-
deria tomar a iniciativa da recon-
ciliagao, um trago de generosida-
de na sua personalidade multifa-
cetada.
Jr ao vel6rio do Romulo (sem
circunflexo, prefeito), em tais cir-
cunstdncias, era um desafio. Mas
quando cheguei a igreja do Rosdi-
rio, Dea me abragou e, chorando,
disse que o Romulo vivia falando
que ia fazer as pazes comigo. Es-
pontaneamente, escrevi a materia
que saiu na iltima pdgina do jor-
nal no dia do enterro. Espontane-
amente, os Maiorana colocaram
um artigo meu na pdgina nobre do
ornal na edi4co da morte, ao lado
do Reporter 70. Desafio o prefeito
a pinqar um adjetivo "impactante "
nesse artigo. Talvez ele chegue a
conclusdo que ali estavam as uni-
cas critics feitas a Romulo em
toda a extensa ediado (depois, ape-
dido de Rosdngela, eu escreveria
toda a ediFdo do primeiro ano de
morte; no process, ela negaria
esse fato).
Ao long da vida jd tive revol-
ta, indignaqao e medo (odio e algo
que o atavismo professional elimi-
nou, se algum dia chegou a bro-
tar dentro de mim). Felizmente,
porim, tnm sido estados de espi-
rito passageiros. Aplicam-se mais
a situaqoes do que a pessoas. E
por isso quejamais tive rancor, um
veneno produzido pela permangn-
cia desses sentiments. Estou su-
jeito ao erro e ais interferencias
subjetivas quando escrevo, mas
procuro reduzir ao maximo o grau
de alteragqo da minha andlise por
essesfatores, de tal maneira que
se acomodem numa margem acei-
tdvel em series humans.
Eu presumia que o cidaddo Ed-
milson Rodrigues se tivesse solida-
rizado a mim emfungdo da biogra-
fia de um jornalista independent.
Se ele sabia que meu litigio cor o
grupo Liberal era produlo de
"traumas e 6dios pessoais ", resul-
tantes de uma "contradit6ria rela-
qao professional", nao deveria ter
assinado manifesto, nem subido em
palanque (a sua inica competen-
cia, ao que parece).


Sd deveria ter tomado essas ati-
tudes se estivesse convencido de
tratar-se de um process politico.
Ou Edmilson muda levianamente
de opinido (o que difere de evoluir),
ou estd negando utilitariamente o
que fez apenasporque agora estou
contrariando-o (minha especiali-
dade incidental em relagdo aos que
ocupam o poder) e ele estd pulan-
do o muro.
Suas investidas contra mim sdo
ddbeis nao porque nao seja um in-
telectual, mas porque nao ter ra-
zao. Atrevo-me a sugerir ao prefei-
to que, ao inves de se debrugar so-
bre catecismos confessionais do.
Socialismo (que ele escreve corn
maicscula, fiel ao mandamento),
aproveite uma de suas constantes
viagenspara uma leitura maispro-
veitosa, ainda que area.
De Antonio Gramsci, por exem-
plo. Ajudard a "construir" (como
dizem os obreirospetistas) um con-
ceito mais operative (menos aris-
totelico, mas tambem ndo demag6-
gico) de intellectual, aquele cida-
dao que se distingue de outros por
usar em sua atividade mais o cdre-
bro do que os outros mrsculos. E
que, acrescento, adaptando o con-
ceito ao nosso Brasil, faz tris re-
feicges por dia.
Logo, Edmilson d um intelectu-
al (quem sabe, orgdnico, e eu, tra-
dicional, na visao gramsciniana).
Mas um intellectual que se orienta
por dogmas, e, porfaltar-lhe hu-
mor e estilo, move-se lentamente,
sem graca, como um dinossauro de
verdade (e de museu, cor ou sem
Sonho Socialista; neste caso, mu-
mificado). Depois que passar di-
aleticamente por Gramsci, o pre-
feito ganharia percorrendo gran-
des ficcionistas, ndo para inven-
tar situacoes, d claro, mas para
adquirir criatividade, imaginagao
(a dimensao lidica do pensamen-
to, que di colicas nos "pragmili-
cos" e "revoluciondrios") e, mais
uma vez, o bom humor, o verdadei-
ro sal da alma. Da mesma manei-
ra como abusa dos decibdis oral-
mente, o prefeito exagera nas mai-
4sculas, escorrega na lingua e
claudica na argumentaado quan-
do por escrito (mesmo tendo esti-
lo despretensioso).
Ele acha que o desrespeitei,
usando linguagem amolecada, pen-
so eu que por ter, na nota, emprega-
do o sin6nimo alcaide ao referir-me
a ele. Queria que o tratasse de bur-
go-mestre? Tambdm d um sin6nimo.
Pode ser ironia, nao molecagem.
Ironia sepaga cor ironia, ndo corn
desaforo e uma das regras do esti-
lo, no qual o grao-vizir petista pre-
cisa ser introduzido.
0 mau humor tambdm o impe-
diu de perceber que eu nao estava
destratando os nobres arquitetos,
mas associando-o ao ti-ti-ti que es-
tava em causa naquele moment,
motivado pelas heresias do arqui-
teto Paulo Cal. Rir d a melhor te-


rapia, prefeito. 0 problema d que e
precise aprender para quem ndo
tern o hdbito. Fafa um esforfo. To-
dos vamos sairganhando. E melhor
do que serferrabrds num momen-
to e passar a um cdndido faz-de-
conta em seguida.
Eu nunca defend que o PT dei-
xasse de pagar a divida cor o gru-
po Liberal, criada sagazmente por
H!lio Gueiros. 0 problema e que o
entao secretdrio de financas, Ge-
raldo Lima, desencadeou uma
guerra santa contra a empresa dos
Maiorana e o prefeito, se ndo ex-
plicitamente, mas (nesse caso) por
sildncio tdcito, deixou-o ir emfren-
te nas retaliagces, que culminaram
naquele comicio doidivanas. Por
que em frente ao paldcio dos Mai-
orana? Por que aquelas palavras
agressivas contra a empresa? Eu,
a quem o prefeito atribui 6dios e
traumas, jamaisfiz isso.Quando
nada, por pudor (pundonor como
se dizia no tempo da civilidade)
Ora, se a prefeitura chegou a
esse ponto, o coerente seria espe-
rar que o valor real (ndo o a mais
de Edmilson, o que e menas mate-
mdtica) fosse arbitrado judicial-
mente. OsMaioranajd haviam con-
tratado uma auditagem e a prefei-
tura tinha as informaFges oficiais
em mcos. 0 secretdrio de financas
sustentava que a soma era de R$
300 mile que os Maiorana poderi-
am estar sonegando impostos. Que
viesse o contencioso judicial. Mas
o PT temeu as represclias do gru-
po Liberal efez um acordo, esque-
cendo o tratamento anterior da
empresa. 0 prefeito nao se tornou
refdm pelo simples detalhe de que
capitulou. Sua mal-disfargada de-
fesa do grupo Liberal ndo ter mo-
tivacao filos6fica.
Nao se pode simplesmente con-
denar a administragao municipal:
o poder do grupo Liberal e real-
mente infernal, um dos espinhos a
sangrar os destinos deste Estado
(e por isso minhas critics tnm
sido crescentes). Nao i a toa que
so o JP resisted a uma guerra aber-
ta cor os donos da opinido pzbli-
ca paraense.
Mas precisava ir alem da qui-
tagco da divida? Edmilson diz que
a segunda parcel foi de 150 mil
reais e ndo de 250 mil reais. Estd
aceita sua declarag~o. Ela ndo al-
tera um dtimo do raciocinio apre-
sentado. Quanto a prefeitura estdc
gastando a margem dessa divida
consolidada? Serd que para a po-
pulafao "assimilar" o program
petista de governor precisava haver
essa massive propaganda?
Era necessario pagar a salga-
da cota da transmissdo do Cirio?
Ndo seria mais recomendcivel, ao
menos por enquanto, trabalhar
mais e propagandear menos, ain-
da que atravds deprocedimentos li-
citat6rios, usando oito agnncias
(mitodo tambem utilizadopor Hi-
lio Gueiros)? Afinal, o PT estd co-








6 JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE VOVEMBRO / 1997


)meeando sua gestao e ndo tern mui-
to o que mostrar (e como ndo tern,
a propaganda invent, uma das
agnncias mais igual do que as ou-
tras nessa distribuiqao de tarefa).
No Brasil e no Pard de hoje e
impossivel nio ter emofao e indig-
nagdo. Mas deve-se tI-las no mo-
mentojusto, expressando-as ade-
quadamente. Uma autoridade
como o prefeito de Belim referir-
se aopresidente da Reptblica como
"Fernandinho" nao d emofao, e
falta de educaqdo e de compostura
mesmo.Nio precisa ter espirito de
corpo para chegar i constataado.
Edmilson jd nbo d mais um ci-
daddo qualquer Ter delegagdo de
competancia dos cidadaos de uma
cidade com 1,2 milhdo de habitan-
tes para representd-los. Precisa de
equilibrio em todos os seus atos,
ainda que sujeitos h emotividade.
0 prefeito e o lider de passeata re-
presentam dois papeis distintos.
Um ndo anula o outro, mas um nao
So outro. Na ediado da 1"quinze-
na de maio escrevi um long arti-
go contra o principle dos soci6lo-
gos brasileiros (sociologia e a mi-
nha outra profissdo), francamente
"anti-neo-liberal", sem precisar
baixar o nivel. Edmilson deve fa-
zer esforqo nesse sentido. Pode
doer mas educa.
Esse dominio do emotional o
ajudard a nao cair nas armadilhas
argumentativas. Ele e acometido da
cegueira que me atribui quando diz
que eu disse que no governor dele
"nada mudou ". No artigo de capa
da edigao da 2"quinzena de novem-
bro do ano passado tentei dar uma
contribuicdo positive (ainda que os
petistas possam considerd-la irre-
levante) d administraqao que ia co-
megar Na edig&o seguinte fiz ob-
servaqoes sobre a constituicao da
equipe.
No ultimo numero do ano pas-
sado expressed minha esperanga de
que chegara aofim a "idade dofer-
ro" imposta a Belim pelos Guei-
ros. Logo em seguida denunciei as
manobras de Almir Gabriel contra
o PT na constituiqao da mesa da
Cdmara Municipal. Registrei na
edigao posterior a mudanga na re-
lagdo ate entdo promiscua da pre-
feitura cor a imprensa. A tensao
prefeitura-grupo Liberal estd na
capa da edi9ao da 2 quinzena de
marco. Interpretei a demissao de
Geraldo Lima como o sauddvel ini-
cio da desmontagem do monolitis-
mo partiddrio na administracao
municipal e ndo como concessdo
privia aos Maiorana (os iltim6s
acontecimentos sugerem que me
equivoquei na minha boa fg).
Enfim, para ndo enfadar o lei-
tor, que poderd consultar a co-
leF~o deste journal, houve artigo
sobre a administraado de Edmil-
son em quase todas as ediqoes do
JP desde que o prefeito ocupou
o Paldcio Antonio Lemos. Ne-
nhuma retificaaio do outro lado.
Quem cala, consent. Por que s6


agora esse despautirio de pi
quebrado?
As humildes linhas do trabalha-
dor socialist terminal cor refe-
rnncia a corondis. Tentei captar
uma sutileza sibilina na sub-linha
(literalmente), mas nada encontrei.
Estaria o nosso alcaide insinuan-
do que algum dia depend de coro-
ndis, fardados ou nao?
Bor, comecei a escrever como
jornalista professional em 1966.
De 16 para cd entestei corn muito
coronel, fardado ou nao. Vtrios se
tornaram meus inimigos, outros
meus contendores, o mais provei-
toso deles sendo o ex-senador Jar-
bas Passarinho, que jd foi o mais
poderoso dos corondis pds-64
(primeiro fardado, depois anfi-
bio).
Tambm fiz s6lida amizade corn
alguns deles, entire os quais o co-
ronel (de fato e de direito) Jose
Lopes de Oliveira, o Peixe-Agulha.
Acho que nossa amizade mantim-
se hd 20 anosporque resisted a nos-
sas muitas e as vezes acaloradas
- divergEncias. Mas o coronel Oli-
veira i um soldado, dos melhores
que o Exdrcito mandou para cd.
Nao concordo cor uns 80% do que
elepensa oufez, mas o respeito que
tenho por ele nao foi abalado por
tantos maus corondis que tive pela
frente. No balanco, sempre houve
mais bons soldados, fardados ou
nao, do que maus soldados, coro-
neis ou ndo.
Nunca trabalhei cor nenhum
governor, nunca fiz assesssoria de
imprensa ou relaFces ptblicas.
Prestei assessoria c administracao
public, em trabalhos ticnicos,
atravis de contratos de curta du-
raqao, para realizar obra certa (to-
das i disposiqdo para consult no
Idesp, na Seplan, no Poema).
Quando houve choque entire as
duasfun5oes, sacrifiquei as consul-
torias (e o bolso), que eu poderia
ter multiplicado (sempre a pedido,
nunca por oferecimento), pelo jor-
nalismo, que castiga meu patrim6-
nio, mas sacia minha alma.
Nunca subi aos palanques do
poder mesmo quando convidado.
Nenhum poder institutional eu te-
nho. Minha inica arma, boa ou md,
Sa minha inteligtncia. Gosto do
bom combat. Mas naofujo ao mau
combat; o dano que ele me ocasi-
ona d transit6rio. Felizmente, tenho
sobrevivido corn dignidade. Njo d
muito. Mas d minha fd. E a f ndo
costume falhar, diz Gilberto Gil.
Canto embaixo.
E por isso que tenho confianFa
nofuturo. Num future em que, con-
trariando minha crenca e os fatos
que comegam a se avolumar Edmil-
son Brito Rodrigues demonstre que,
alem de ser um sujeito honest e
bem intencionado, estd i altura dos
poderes que a histdria, por uma cir-
cunstdncia ou capricho, colocou
em suas mios. Ainda torfo, no in-
timo, para que ele d9 certo.
Quando escrevo o o quepenso, e


ndo o que espero, o que tenho a obri-
gagao de colocar no papel. Infeliz-
mente, ndo ter havido casamento
entire o que gostaria que fosse e o
que efetivamente d. Mas este e um
daqueles moments em que, since-
ramente, gostaria de estar errado. 0


Carta
De Rodolfo Cerveira:
0 Journal Pessoal da P quin-
zena de outubro, n 172, traz um
merecido panegirico a Otto Ma-
ria Carpeaux. Noo conheo corn
profundidade a obra do erudito
austriaco-brasileiro; al6m dos es-
poradicos artigos (os jornais e o
dinheiro eram dificeis a 6poca),
s6 tive a oportunidade de ler o
livro A Batalha da America La-
tina, da Editora Civilizacqo Bra-
sileira- 1965. Contudo, assegu-
ro-lhe que presenciei e participei
de variados events discutindo
textos desse distinguido articu-
lista (ou ensaista?). Por6m, o que
importa abordar no moment 6
a comparagdo que voce fez dele
com o escritor Will Durant. Na
sua opiniao ele nao seria capaz
de apresentar ao Carpeaux "as
suas chinelas", como se costume
dizernos floreios literarios. Tudo
navida ter as suasjustificativas,
assevera a filosofia popular. Eu
tenho absolute certeza que, caso
fosse argiido, voc8 teria um ar-
gumento plausivel parajustificar
esta predilegao. Isto 6 um fato.
Agora, nomear de cultural de
"orelha de livro" o conhecimen-
to de um autor que consumiu
longos 40 anos para erigir uma
obra do porte da HISTORIA DA
.CIVILIZACAO (10 volumes
cor cerca de 5.000 paginas),
seria, no minimo, uma ingrati-
dAo; um anatema, talvez...".

Minha resposta: Cdsare
Cantu, antes de Will Durant, le-
vou mais tempo e se espalhou
por mais volumes para escrever
a sua hist6ria universal. Hoje,
tern tanta importAncia quanto o
americano tera em mais alguns
anos (Homero continue a encan-
tar at6 hoje, cor outro m6todo).
Mantenho minha opiniao.
Mas respeito a do Cerveira. Ele,
aliis, mandou duas cartas para
esta edicio. Estou publicando a
que chegou primeiro. E pedin-
do-lhe que encerremos, ao me-
nos por ora, o debate sobre o
Banco da Amazonia. EsticA-lo
continuara a consumer o precio-
so espago destejornal sem acres-
centar dados novos. Seri apenas
ajustaposigao de opini6es.
Em outra oportunidade e tal-
vez em outro local poderemos
retomar essa proveitosa discus-
s~o. Dando tamb6m espago para
outros se manifestarem. Sem o
que a segao de csrtas acaba se
transformando em coluna de
opiniao. 0


Vai ficar?
A inovaoo. determinada por
Hello Guetros Jr. A sua
secrenria da fazenda. teve
um objeliho meramenle
politico, mas. em these. 6
salular. Pela primeira ez. no
dia 23, o governor publicou
no DibrioOficial a posiqao
do seu cai.a Na vespera, o
cai-xa foi aberto corn saldo de
RS 41.6 nulh0es e encerrado
com R$ 34.8 milhoes
Eis unai novidade que o
go ernador Al mnu Gabriel
deveria manter. Ajudariaa
tornar a "transparencia" de
sua administra~o algo mai.s
do que figure de ret6rica.

Pobre lingua
Os assessores do governador
de\ enam suprnmir uma
incorreaoo formal incomoda.
Todos os conlumazes veos
opostos pelo governador a
projetos de lei onundos do
legislati\o sio aberos corn a
frase "lenho a honra de
conunicar" Ora, se o
governador esi honrado em
vetar. a Assembl6ia esta
desonrada por ter mais um
ato seu mvalidado
Ganhariam todos se, a partir
de agora, o governador se
lhmitasse a mandar mensa-
gens simplesmente comumi-
cando sea veto. deixando a
pomposa honra de lado.
Inclusi% e porque esta. para
efeitos outros que njo os
meramente formais, estA em
desuso ou "'no uso", para
usar a linguagem frouxanen-
te carolliana do tucanato
murisia-


Traste
Se me perguntarem quais as
cinco melhores criaqzes da
misica popular brasdeira, na
relaFto vou colocar "'Quando
tu passes por mim", de
Antonio Maria e Vinicius de
Moraes. Por isso, meu mais
veemente protest comra o
arranjo que um certo
."maestro" Aecio Flavio fez
para essa perola musical no
iltimo disco de Marisa Gata
Mansa (em Maysa
Matarazzo. o titulo era um
complement natural sem as
inconvenientes e postias
maidsculas).
Foi ouvir e corner para o
computador em busca de
uma arena para o revide. NaQ
e critical musical, nem nada e
pura indignaq~o de ouvinte.
A "nova" versao d um
ultraje. Passem a distncia
desse atentado.







JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE NOVEMBRO / 1997 7


Alem de illegal, convenio



FuntelpalLiberal e imoral


Nos pr6ximos cinco anos, que comega-
ram a contar em setembro, a Funtelpa (Fun-
dagdo de Telecomunicaq6es do Para) paga-
rA um total de 12 milhoes de reais (R$ 200
mil por mes) A TV Liberal para receber a pro-
gramacao local e regional produzida pela
emissora, afiliada A TV Globo, e transmiti-la
para todo o Estado atraves de sua rede de
estac6es em terra, que cobre 77 municipios
paraense.
E isso o que estabelece o conv6nio assi-
nadopelas parties a 23 de setembro e somen-
te publicado no DiArio Oficial um mes de-
pois, a 27 de outubro. A publicagao foi de-
terminada pelo vice-governador Hdlio Guei-
ros Jr., durante o seu pol8mico period de
interinidade. Corn a revelaqao do contedido
do convenio, Helinho pretendeu criar cons-
trangimento para o governador Almir Ga-
briel.
Quem ler o document percebera porque
ele vinha sendo mantido sob total sigilo. At6
entao, a inica refernncia pfiblica era um ino-
doro e incolor extrato, que apenas citava a
natureza do conv6nio, seu valor (R$ 600 mil)
e sua duracao (cinco anos). Deduziu-se des-
sas informaq6es que a TV Liberal pagaria
R$ 10 mil por mrs A Funtelpa para usar sua
rede de estac6es repetidoras (ver Jornal
Pessoal n 173).
Nao se podia imaginar que a Funtelpa 6
quem paga e a TV Liberal quem recebe. Os
R$ 600 mil referidos sao apenas as tr6s par-
celas mensais de R$ 200 mil que foram in-
cluidas no orcamento deste exercicio. A Fun-
telpa, invariavelmente de caixa baixo e obri-
gada a cortar na pr6pria pele, tera sobre si o
peso de R$ 2,4 milh6es em cada orgamento
annual, valor a ser atualizado pelo IGP (Indi-
ce Geral de Preqos).
Como os pagamentos serao feitos direta-
mente a TV Liberal "ate o dia 15 dos meses
subsequentes A prestacqo respective dos ser-
vigos", na conta dos Maiorana ja entraram
os primeiros R$ 200 mil da Funtelpa. Ou-
tros R$ 200 mil serao recolhidos no final
desta quinzena.
Uma magica verbal bem caracteristica do
tucanato tornou possivel a fraude: a Funtel-
pa, a despeito de ceder suas estaq6es retrans-
missoras de imagem, ainda vai ter que pagar
A emissora que usarA essa estrutura, por ser
ela a unica no Estado "com programagdo lo-
cal inteiramente transportada via satdlite, corn
subida 'up link' pr6pria" (o ardil para tentar
contornar a exigencia de licitagdo pfiblica).
De uma forma cinica, as parties proclamam
que o comvenio vai permitir "a maior inte-
grag~o da comunidade paraense quanto a
seus problems e aspiracqes, inclusive corn
o acompanhamento, via inserc6es propostas,
de assuntos concernentes aos objetivos e ao
desempenho da Administracao Estadual, de
problems gerais do Pard e de suas solug6es
possiveis, de reivindicag6es dos variados seg-
mentos sociais e, finalmente, de numerosos
temas de utilidade e conveni6ncia para esta
Unidade Federativa e seus jurisdicionados".
Toda a linguagem do convenio segue esse
padrao para ocultar o que foi acertado: pra-


ticamente o fim da TV Cultura, que vai ficar
cor sua ago limitada a Beldm, passando a
rede da Funtelpa a servir exclusivamente A
TV Liberal (que pouquissimo espaco tern
para ser efetivamente paraense, presa A dita-
dura da Globo); e, ainda por cima, o paga-
mento dos R$ 200 mil para que os Maiorana
incluam na sua programagdo a campanha
publicitaria do governador (jA abertamente
eleitoral) e presumiveis veiculacqes de inte-
resse do Estado.
Pelo novo contrato (o nome verdadeiro
do convenio), o governador tera direito a
duas inserqGes didrias de 90 segundos da sua
propaganda pessoal, mais trls chamadas para
essas inserg6es; 15 minutes semanais "de
temas que promovam a valorizacqo das ati-
vidades econbmicas, artisticas, culturais e
cientificas do Estado do Para, com objetivo
de integra-lo, preservando e estimulando o
desenvolvimento da economic e da cultural
paraense"; mensalmente, outros 25 minutes
de espaco publicitArio, mas que ficarao limi-
tados pela duragao do intervalo commercial da
programanao da TV Liberal, com inserq6es
de mensagens institucionais do governor, su-
jeitas, por6m, a prdvia consult e reserve de
espago para sua veiculaqo; finalmente, seis
mensagens institucionais anunciando as in-
sercqes do convenio.
Ou seja: a TV Liberal nada paga pela uti-
lizagao das estaqoes da Funtelpa em terra
para a retransmissao de sua programaqao e
ainda assegura um faturamento publicitArio
mensal de R$ 200 mil corn o governor at6 30
de setembro de 2002, podendo prorrogar a
vigencia desse convenio atrav6s de simples
termo aditivo. E um neg6cio da China para
os Maiorana e um ato lesivo aos interesses
do Estado.
Com o sat6lite Brasilsat e a rede de re-
transmissao da Funtelpa sob seu inteiro con-
trole, a TV Liberal chegara a todo o Estado,
inclusive corn suas mensagens comerciais,
que nao estariam sendo recebidas por 22 dos
77 municipios teoricamente na faixa de co-
bertura da Funtelpa (que acessam diretamen-
te a TV Globo atrav6s de parab6lica). As-
sim, a comercializaqao de seus hordrios ga-
nha mais forca, o que significaum belo fatu-
ramento em cima do governor do Estado.
Quanto A contrapartida, ela interessa so-
bretudo ao governador. JA em period pr6-
eleitoral, ele podera fazer sua mensagem che-
gar muito mais long, aproveitando as inser-
c es na programagC o da TV Liberal. Mas
isso ao custo de uma alentada verba publici-
tAria (de valor constant ao long de cinco
anos) e da renincia A concepcAo que estava
por trAs do sistema educativo de televisao.
O governor Almir Gabriel liquidou a TV
Cultura, tornou a Funtelpa satdlite da TV Li-
beral e sucumbiu aos Maiorana. Nao e por
acaso que ganhou um caderno inteiro de 0
Liberal para filosofar emjavanes e foi quase
santificado durante o reinado de Gueiros II.
Almir Gabriel, que assina o conv6nio como
testemunha, virou clone dos Maiorana. Para
quem ainda promete um ParA novo, 6 um fim
triste. *


Retrato moral
Nas paginms 4. 5 e 6 do Cadero 1 do
Diarki Oficial de 27 de ouiubro estio osatos
mans niportantes de Helio Gueros Jr. cono
governador em exercicio. Nao por acaso.
cle nada decidiu- bmnuou-sea publicardocu-
memos sobre a condicao moral do ParAdos
nossos dias. ULm e o convitmo Funtelpa'dV
Liberal.
Os outros documents slo dois contra-
tos da Funtelpa corn a TV TapTjos, de San-
tarem. O primeiro. assinadoem 1991. coro
valdade de ires anos. cede seis estaqoes do
Sistena Integrado Estadual de Reransmis-
sAo dc Televisao no Baixo-Amazonas, con-
tra o rrimsono paganmento ensade 100 mil
cruzeiros I valor da epocal. Em compensa-
qio. o governador podena dirpor de ur mi-
nuto por dia. nt a bnlile de tries mmutos por
semana. na programaiao da emissora
Essecontrato fo reno\ado, em 1994, por
nada menos do que mass oito anos Ivai atW
2002). A s etaoes retransnussoras odidas
pela Funelpa aumentaram deseis para noe.
O pagaenito passou a ser de 15 URVs (as
Unidades Reais de \iilor que aniecederam
o pmprio realj. algo como 20 reais de hoje
'a titulode conpensaiqofinancerna". Olem-
po cedido o go\enmador Ibi reduzido de tres
paradois mi Mnuos semanars.
Se y. la ia pron ksuidade e tesidade ao
mteresse piblhco. a "evo luqAo" tucana ape-
nas piorou a relaqio entre o governor e a
iunprensa


Na fila
Numna propaganda nmakmolente para a
felevisao Tereza Collor constata- "impren-
sae Iimitaao barala estlo doidinlas para pe-
gara genre". Mod6stia de calculo, madame.


Habito
Dizem que, amnci recolhido A Granja do
Icui, o govenmador Alnur Gabnel tern lido
osjormais. O hibito da comvalescenca deve-
ria ser eaendidoa nonrma dade Quase sem-
pre quando d procurado para se manifewar
sobre mn rema do moment. o go% emador
costume dizer que ainda nio leu osjomais
para se inlbrmar O pior e que. na maioria
das veaes, no e ardil : inacreditavelmen-
le. averdade nesmo











Bern que a Conselho Regional de Medicina
poderia abrir um inquento para apurar os proce-
dimemtosrealizados em Almir Gabriel. Sem inte-
resse policialesco, mas para tirar a opinion pdbti-
cado estado de choque no qua] pode t[-la dei xa-
do am debate inconduso pela i mprensa.
S Na vers&o dos medicos que atenderam o go-
Svernador, n o houve erro de diagn6stico. Todos
os sintomas e os resultados dos exames feitos te-
riam levaado os medicos a interprear a doeoqa
come cAlculo renal. Poderiam ter diagnosticado
diverticuliteou hemorrtagia digestiva, que tnm sin-
tomas senmelhantes, sem incorrer em impericia-
O problema 6 que o primeiro medico a aten-
der o govemador na sua alegada segunda crise
S(na verdade, um prolongamento da pnmeira). o
Surologista Femando Jordao. constatoulogo que
Sna havia cilculo renal ao simplesmente ver o
rajo-K. A ultra-sonografia do abdomen fot realh-
zada antes que a urografia excretora detectasse a
Sinexislencia da pedra nos rins, levando os nifdi-
cos a conclair, erroneamente. que o cAlculo ha-
via sido expelido naturalmenie.
Ou seja: o primeiro exane jA teria sido sufici-


Depois
S6 no dia seguinte ao da di-
vulgagao da pesquisa eleitoral da
Opqio, A Provincia do Para res-
saltou, na Primeira Coluna, que
os numerous se referiam exdusi-
vamente a Bel6m. O problema 6
que o esclarecimento nao foi
para a primeira pagina e a edi-
cio de segunda 6
menos lida do que a de do-
mingo.

Caneta
assassina
HWlio Gueiros Jr. aproveitou
a interinidade para nomear o ir-
mao, Paulo Gueiros (que tam-
b6m 6 Junior), sucessivamente,
para responder pelo expediente
da Secretaria da Adjunta da Sefa
e para ser o director do Departa-
mento de Material da Vice-Go-
vernadoria. Deve ter usado a ca-
neta da familiar.

Equipe
Pela quantidade de cargos que
o Jimior concentrou em poucas
pessoas, pode-se chegar A con-
clusAo de que os quadros pr6-
prios dos Gueiros foram sensi-
velmente reduzidos. A culpa
pode ser atribuida A aaco do de-
tentor da chave do cofre. Ela
costuma abalar as convicq6es
menos firmes.

Interdito
E melhor o deputado federal
Vic Pires Franco nAo aparecer
mais no gabinete do ministro das


ente para atestar que nao havia problema renal.
Uma leitura comperente da chapa teria levado a
esse resultado, garante Jordao,
Uma outra questso refere-se a conveniencia
da alta dada ao govemador menos de 48 horas
depois da crises aguda (A o aneurisma da aorta
abdominal). Ele retomou As suas atividades ro-
tineiras antes de ser submetido aos exames re-
comendados pela gravidade doseu problema.
A tomogratia computadorizada e a ressonin-
cia magnetica, que, final, levaram ao diagnos-
tico certo, s6 foram realizadas quase 24 horas
depois da atta, ja entfo por determioaqao de
ura outra quitpe media, depois de muito bate-
cabeCa. E a cinmrgia salvadora, que poderia ter
sido faita eneos do 24 boras depois da mani-
festaqao da crig aguda, so ocorreu 72 horas
depois.
Para que pacientes menos importantes do
que a maior autoridade piblica do Estado se
tranqilizaem, convinha o CRM fazer a devida
apuraqlo do case, alimlnando d6vidas que fo-
ram suscitadas, nao pela imprensa, mas pelos
pr6prios midicos.


. .* a *... &..... ... a.&. a *.. a 6. .a a a

Profissionalismo
Emjomal, jomalista tern que ter preferencia. Mesmo que seja para
dar algum recado.
Pode parecer tautologia, mas esse principio costume ser ignora-
do pela grande imprensa. Por isso, cabe destacar o bom nivel infor-
mative das notas que, em serie, ocuparam quase todo o Rep6rter
Diario, a principal coluna do Diario do Para, no filtimo domingo.
E claro que o predator da nota mandava um recado do donor do
jomal, senador Jader Barbalho, a ex-parceiros que pularam o muro
(ou subiram nele). Mas suas informag6es estavam rigorosamente
certas. Se suas conclus6es sao falsas, 6 outra coisa. Mas o leitor ao
menos tern muniSao para tirar suas pr6prias deduc6es. Mesmo a
servigo do dono, isso Cjomalismo. Quando a coluna vai buscar adje-
tivos cavilosos para mimosear os adversArios, isso C anti-jornalismo.
E verdade que a muitos dos nomes ali arrolados cabe o qualifica-
tivo de carreiristas, que se mantem no poder independentemente de
quem esteja dando as ordens. Mas, felizmente, alguns sao t6cnicos
que fazem carreira. Sobretudo nos escal6es intermediarios, a admi-
nistragio piblica j estA se profissionalizando. E gente que faz o seu
servigo, sem vender sua consci6ncia. Par; alegria das feministas,
nesses escaninhos de competencia e seriedade a proporqao de mu-
lheres 6 crescente, tanto que ate o carreirismo jA nao e monop6lio
dos homes.


Comunicaq6es, o tmculento Sdr-
gio Motta, a quem airava
para tratar de v4a jlf e-fts,


Voz da verdade


Apesar das insistencias da espo-
sa, Motta manteve o interdito:
ela saiu do Museu Goeldi cor
varios presents, mas sem a co-
bra.
O s6cio do president se des-
temperou ao saber que Vic con-
seguiu mudar a posicgo do de-
putado Inocncio Oliveira, o
manda-chuva do PFL na Cama-
ra. Depois de ter sugerido a H6-
lio Gueiros Jr, nem pegar na ca-
neta do govemador efetivo, Ino-
cencio louvou o pal do vice,
aprovando-lhe os arroubos.
Tudo porque Vic seria "intriguei-
ro", desancou Seijjao, disparan-
do um interdito contra Vic: loh-
hj,, nunca mais.

Tatica
Agora jA se pode chegar a
uma explicago mais l6gica para
a escolha de H61io Gueiros Jr.
como vice-governador: 6 para
todas as pessoas ainda dotadas
de sensatez rezarem sempre pela
sauide de Almir Gabriel. Por isso
Deus fez o milagre de salva-lo
das mios da c6rte e dos colegas
esculapios. Espera-se que o dr
Almir nao repita o estratagema
para a reeleigao. 0 coracgo pa-
raense nao suportara.

Epoca xerox
A criatividade e a originalida-
de na imprensa brasileira estao em
crise. Basta que algudm inove
para que imediatamente se forme
uma legiao de imitadores e copis-
tas. Frases e interjeiqes nascidas
numa determinada coluna se re-
produzem como ameba nas de-
mais. Todos finalizam suas obser-
vag6es com um "ne nao?" ou coi-
sa que o valha. At6 as imagens
sao mim6ticas. A iltima onda 6 o
tal do "feliz como umrpinto na lata
de lixo", que se irradiou qual pra-
ga pelo pais desde que mr. Clin-
ton por aqui passou.


Por osmose
A Provincia do Pard, como
qualquerjornal professional fa-
ria, publicou editorials sobre a
crise aberta pela interinidade
abusiva de H6lio Gueiros Jr. 0
Didrio do Pard, fiel A orienta-
q~o do dono, nao se manifesto.
Ja a attitude do grupo Liberal foi
inica: nenhum editorial pr6prio,
mas portas abertas para as cati-
linarias de O Estado de S. Pau-
lo e Jornal da Tarde.
A velha attitude daqueles aos
quais falta coragem para assu-
mir o que querem fazer, ou usam
o instrument alheio para con-
sumar seus atos o que, em lin-
guagem popular, result em di-
tado bastante conhecido.
A osmose tucano-liberal ter
efeito nos dois sentidos.
Menos macaqueagao, ci-
dadao.