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Journal Pessoal L U C I 0 F L A v P I I N TO AN -N 172 .5 I LQIZENA DE OUU DI97-$20 Os boatos da ,comprada Istoe (pWg. 3) POLITICAL A lambada maluca 0 fultimo lance no xadrezpolfticopre-eleitoral e de endoidar: o governadorAlmir Gabriel chama o senadorJader Barbalho para uma conversa. Dizem que e sobre os interesses do Estado. Na verdade, e uma mexida quepode mudar o quadro de uma maneira tdo drdstica quanto o acerto de contas entire o governador e o grupo Liberal. A hora e do vale-tudo. Advinhe quem vaipagar a conta. perplexidade e a confu- ; I.' so baixaram definitiva- "ii mente sobre o Para par- Stir de segunda-feira da i .. semana passada. Nesse S dia comegou a tomar-se piublica a informagao sobre o encontro, na vespera, do go- vernador Almir Gabriel corn o senador Jader Barbalho na Granja do Icui. Du- rante os quatro dias seguintes, ate a noticia aparecer na primeira pigina de 0 Liberal, as pessoas mais bem infor- madas sairam ansiosas atris de confir- maqao ou de verses mais detalhadas 40" M.", M, Mm, ;AgEa"!^ sobre o fato em si e o seu significado. Era uma recomendavel media de bor senso. Apesar dos reiterados boa- tos sobre o empenho do Palacio do Pla- nalto em promover um acordo mais am- plo no Para, atendendo os compromis- sos partidarios na verdade, um tanto forgados do president Fernando Hen- rique Cardoso cor seu correligionario tucano e seu interesse no poder congres- sual de manobra do senador do PMDB, nada vinha indicando uma disposidao das parties em enraizar essa tendencia em ter- rit6rio paraense. Ao contrario, sobravam farpas entire os dois lados. Isso ate Jader reverter a tend8ncia de aproveitar a insatisfacao pilblica da deputada Izane Zaluth corn o goverador para um rompimento aberto e Almir desestimular estocadas contra o senador a partir de denincias contra ele publicadas na revista Istoe, ja ensaiadas. A possibilidade do encontro amadurecia e foi precipitada cor a aproximarao do final do prazo para as filiag6es partida- rias e as trocas de partidos. Mas, ao contrario do que O Liberal antecipou, ainda nao hW um acordo fir- mado. Tratando-se de uma guerra bran- ca, tecnicamente o que houve foi um - . II -* "T-~ t... r 2 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE OUTUBRO / 1997 N armisticio. As duas parties colocaram sobre a mesa suas propostas e agora vio trabalhar para viabilizA-las, mas condi- cionadas a determinados aspects da evoluqao da conjuntura political que es- capam inteiramente ao seu control. Ao se manifestar sobre os fatos de- pois de deixar seu jomal ser furado pelo concorrente (na problematica profissio- nalizaCo do Didrio do Pard), Jader - usando como biombo uma "pessoa bem informada sobre a political do Para" - publicou em seu journal que o convite para o encontro viera atraves do secretario de Planejamento, Simro Jatene. "Alem de conversarem sobre temas administrativos de interesse do Para, Almir manifestou a Jader a vontade de iniciar e promover um projeto de reuniao das diversas lide- rangas political do Estado, com vistas a uma uniao visando as eleigbes do pr6xi- mo ano", registrou a coluna Rep6rter Didrio, complementando: "Al6m da tese de uniao das diversas forcas political, nada mais foi tratado ou alentado, parti- cularmente cor relagao a candidaturas ou distribuigao de cargos nos governor estadual e federal". 0 acordo, evidentemente, pressupde o acatamento a candidatura de Almir a reelei~io, cabendo a Jader indicar o vice e aprovar o nome do senador, que seria o de Jarbas Passarinho, fechando a coa- lizao PSDB-PMDB-PPB e derivados. A inclusao de Passarinho seria decorrente de um resultado da pesquisa do Ibope que o Didrio divulgou, tratando de omi- tir, porem, esse dado especifico: Passa- rinho teve 39% das preferencias do elei- torado, contra 23% de Almir Gabriel, 19% de Fernando Coutinho Jorge, 8% de Valdir Ganzer e 2% de Fernando Fle- xa Ribeiro. Esse resultado, combinado cor a lide- ranga de Jader na dispute para o govemo (42%, contra 19% de H6lio Gueiros e 16% de Almir Gabriel), precipitou o que, bem tucanamente, o Palacio do Planalto vinha estimulando. Atraindo Jader Bar- balho, Almir reforga poderosamente a sua candidatura, isolando H6lio Gueiros, corn quem um acordo ja s6 nao 6 considerado totalmente impossivel porque de impos- sibilidades a political paraense esta cheia (e o povo, saturado). O prego de Jader seria o minist6rio dos transportes. Nenhum problema haveria nessa pretensao, mesmo porque o sena- dor paraense ja colocou na boca do co- fre desse minist6rio um home de sua confianca, o engenheiro Livio Assis, e o cargo pertence ao PMDB. O complica- dor 6 que os deputados federais peeme- debistas nao querem mais um senador ocupando sua cota. Iris Resende ja estA na pasta da justica. Poderia ced8-la para Jader, mas ele 6 que nao a quer. Esse 6 um ministdrio de muitos problems, pou- co poder e escassos recursos. Nao pre- enche os requisitos de Jader para cargo public. O ministerio funcionaria como uma nau para a travessia do grupo politico do senador pelos percalgos eleitorais e ro- cha para abriga-lo ao long do novo qua- trienio de Almir Gabriel. A luz e as ver- bas federais permitiriam ao senador, jun- tamente cor o vice-govemador (o mais traumatico dos cargos eleitorais da Re- ptiblica), acautelar-se contra o risco de devastagao pelo aliado, que costuma ser mais perigoso do que o inimigo. Jader estaria disposto a aguardar as provid6ncias tucanas para prov6-lo de ministdrio forte. Essa seria a maneira de manter sua estrutura de poder no Para sem forga-lo a expor-se a uma desgas- tante dispute governmental no pr6ximo ano, que ele preferiria transferir para 2002, se sua ascendente carreira federal nao o levar a posi6oes ainda mais altas do que a que ocupa atualmente. Sem esse cargo forte, porem, Jader te- ria que desfazer sua melhor estrat6gia e voltar a tratar da horta paroquial, como foi obrigado a fazer em 1990. Nesse caso, deixaria o barco do governador e atraca- ria de novo no de H6lio Gueiros, mesmo porque a fase aguda que precedeu o 3 de outubro voltara a amainar at6 o desenca- deamento da dispute para valer. Fraco de realizacdes e sofrivel de ima- gem, o goverador Almir Gabriel deixou os escrnpulos de lado e agora invested numa propaganda personalizada sem pa- ralelo na hist6ria recent do Estado. Em- bora seus indices tenham melhorado na lttima pesquisa do Ibope e o povo ainda mantenha esperancas na sua administra- Gio, um goverador sem carisma e sem profundas raizes political no interior s6 tem possibilidades reais de vit6ria se seu marketing for agressivo e eficiente. Para chegar a esses resultados, o mais poderoso instrument 6 o conv6nio que o govemo assinou cor o grupo Liberal. Gragas a esse acordo, fechado na sema- na retrasada, depois de tr6s meses de negociacqo de bastidores, em 120 dias Almir Gabriel fara seu program de pro- paganda (ja abertamente eleitoral) che- gar a metade dos municipios do Para, podendo, at6 a elciCao, expandir esse inedito raio de alcance (e estrategico na segunda mais extensa unidade federati- va brasileira, cor quase 80% de sua po- pulacao espraiada pelo interior). Para o padrio brasileiro (e especifi- camente paraense) das rela9ses entire o poder politico e o poder econ6mico, o acordo foi a sopa no mel. O grupo Libe- ral alugou um transponder no sat6lite Brasilsat, mas s6 dispunha de estrutura em terra para alcancar menos de 20% dos municipios paraenses (nove anos antes, Jair Bernardino dos Santos montara pro- jeto para o dobro das estaqces terrestres com sua RBA, hoje de Jader, mas a morte subita interrompeu seus pianos). A Funtelpa oferecera suporte para a captagao e recepcao da imagem de sate- lite em 73 municipios. Em troca, a TV Liberal pagara, ao long de cinco anos, 600 mil reais (a mais do que m6dica quantia de 10 mil reais por mes, sem pre- visao de reajuste). Fontes da emissora garantem que a empresa entrara com parte consideravel dos investimentos para concluir essa estrutura e mant6-la em funcionamento, mas suas condiq6es sao tao leoninas para os Maiorana que, ao inves do contrato, adotado at6 entao, a Funtelpa usou um conv8nio para abri- gar as novas relaQ6es entire as parties. Mais uma vez, o tempo de duraqo ex- cede o que resta de mandate ao gover- nador, estendendo-se pelo period se- guinte (talvez porque, no intimo, Almir Gabriel ja se consider reeleito?). Alem das excepcionais vantagens para usar o sistema de captaqco e retransmis- sao em terra da Funtelpa, a TV Liberal ainda ira faturar 200 mil reais por mes pelo program do govemador e recebe- ra os beneficios de uma propaganda em expansao, capaz de fazer os indices de Almir crescerem exponencialmente, avangando sobre as fatias de seus com- petidores potenciais. Essa guerra por indices ameaa sobre- tudo o ex-governador Hdlio Gueiros. Sem veiculos de comunicacao, chegan- do aos 70 anos, sem a maquina official e inapetente para correrias pelo interior, Gueiros 6 o grande prejudicado pelas mais recentes manobras nesse xadrez de bastidores que antecede a campanha elei- toral aberta (se 6 que ela j nao esta defi- nitivamente instalada no mercado). Em qualquer circunstancia, restaria ao ex- prefeito o console de ser imbativel para o senado sem precisar de coalizdes ou maiores esforcos, mas a lideranca apon- tada na pesquisa do Ibope do ex-sena- dor Passarinho 6 uma advertancia. Tal- vez tenha reforcado a tolerincia de He- lio para faz8-lo esperar pelos resultados das tratativas entire Almir e Jader, confi- ando de que, no final, o casamento seja desfeito e um dos noivos venha procu- ra-lo. prosseguindo o namoro para se usar uma das mais caras imagens da in- telig6ncia de Gueiros. No moment em que o Papa Joao Pau- lo II passa pelo Rio de Janeiro com sua moral conservadora, 6 infidelidade de- mais o que a political paraense exibe, sem a menor desfagatez. * JOURNAL PESSOAL P1 QUINZENA DE OUTUBRO / 1997 3 Boataria solta Diz a boataria de um lado da political pa- raense que o senador Jader Barbalho man- dou comprar todos os exemplares da revis- ta Istod que vieramr para Belem ha duas se- manas, trazendo umareportagem muito des- favoravel ao lider do PMDB no senado (mais uma denincia criminal sobre enrique- cimento ilicito). Diz aboataria de outro lado do espectro politico que o govemo do Esta- do, por vias e travessas, teria pago 250 mil reais pam a publicacao da materia, cor do- cumentos que fomeceu. Ambas as boatarias sao improcedentes, ao menos enparte. Os assinantes da revista re- ceberam (alguns com oinevitavelatraso) seus exemplares devidos. Apenas as bancas tive- ram reduzidas suas cotas (em ate 80%) por- que efetivamente algudm, que pode ter sido ou ino enviado pelo senador, fez a aquisicao diretamente junto ao distribuidor. Quanto a pagamento, o que houve foi o oferecimento, pela revista, da pesquisa da Brasmarket sobre os favorites pam a elei- cio, pela m6dica quantia de 150 mil reais. Uma fonte ligada ao govemador diz que, em absolute, a matria nao teve origem na Secretaria de Planejamento do ex-secreta- rio de Jader, Simio Jatene (ao contrario, par- tidario de uma ampla composiq~o, incluin- do o senador). Seria geraqio propria da su- cursal de Istod em Brasilia. A fonte da in- formaao, Jader ja sabe, esta plantada na sede da Policia Federal em Brasilia. A prop6sito: mais dois processes trami- tam na justica federal contra Jader Barba- lho. Um referente a Emater e outro a com- pra dos castanhais de Maraba. Dizem os que conhecem os assuntos que um bom advo- gado conseguira demonstrar que as irregu- laridades nao alcangam o ministry de entao, da mesma maneira como nao chegam ao govemador Almir Gabriel, pela falta de elo na cadeia de comando, as arbitrariedades praticadas em Eldorado de Carajas. O mano de Bel6m mandou para o mano de Cameta a partida de azulejos encomen- dada. Recebida a carga, o mano cametaen- se reclamou por telegrama: "Mano, o azulejo chegou. Falta agora o verdelejo". Gileno Miller Chaves se inspirou nesse gostoso causo, cuja veracidade alguns ates- tam de pes juntos, para montar uma expo- sigco aberta ao pfiblico no dia 26, na Elf Galeria, a "Azulejos, verdelejos e adjacEn- cias". Para dar suporte a mostra, Gileno andou atras de bibliografia, inclusive no Museu do Azulejo, em Sao Luis. Nada en- controu. E uma constatac~o espantosa. Os portugueses deixaram aqui, por se- culos, uma entranhada disposic~o de afi- xar azulejos nas paredes intemas e exter- nas das casas. E uma das mais antigas e persistentes cultures adaptadas aos tr6pi- cos. Criou um acervo de hist6rias e folclo- res notAvel. Alem do chiste cametaense, diz um amigo arquiteto (cujo nome n~o vou citar, senao o CREA pega, mata e come) que a moda de decorar a fachada das casas corn cacos de azulejo foi pura macaquea- co. Algu6m recebeu uma partida de azu- lejos quebrados. Para nao ter prejuizo, es- palhou nas colunas que era o ddrnier-cri. Logo apareceriam casas com o tabuleiro de azulejos na fachada. Esta 6 a parcela risonha e franca da his- toria. A exposigao inteligentemente orga- nizada por Gileno combina dosagens r6- seas e negras de humor para nos encantar e assustar, talvez a maneira mais adequada para tirar a gente paraoara de sua leseira militant. A insensibilidade contribuiu para o saque perpetrado contra os azulejos (e tambrm os verdelejos) de Santa Maria de Belem do Grao Para, e alhures. Amigos que se refinem para uma con- versa emtomo de uma garrafa arrolam, sem esforco, dezenas de casos de pirataria con- tra a integridade do patrimnio arquitet6- nico da cidade. No s6 de pirataria, alias. Pirataria, de qualquer maneira, 6 uma for- ma ativa de participag~o (que tanto poder e riqueza proporcionou ao imperio brita- nico). Tambrm de omissao e descaso cri- minosos, de burrice cavalar. Tudo bem: mas o que se faz para p6r fim a essa tertuilia predat6ria? S6 humor nao basta, como lembra Gileno: 6 neces- sario fustigar os atos de lesividade. Do con- trario, vamos continuar chorando sobre o leite derrmado de uma in8s mortissima. No convite preparado para a exposig~o, Gileno fez questao de destacar que os pe- dagos de azulejo chegaram as suas maos naturalmente, at6 mesmo por gravidade (ou magnetismo). Nao precisou comprar, nem acampar ao lado de demolicbes. Que es- ses pedacos de cerfmicatrabalhadatenham said de preciosidades como o Palacete Bolonha, o Palacete Pinho e o Teatro Wal- demar Henrique (ao lixo lateral ao pr6dio, especifique-se) 6 de arrepiar. Mas de que vale levantar o dedo em riste para acusar se da acusacio nada resultar? Belem perdeu o amor pr6prio, a identi- dade cor sua hist6ria, a perspective do seu destiny. Virou letargica, praticante do amem-sim-senhor, daquela unanimidade complacente tao criticada por Mario de Andrade na Paulic6ia Desvairada. Enqua- drou-se na camisa-de-forga dos 98,7%, um indice estatistico coerente corn esse medi- ocre estado de espirito. Ainda bem que contamos corn a verve de gente como o Gileno para chacoalhar esse torpor. Se o distinto piblico quer per- manecer nessa pasmaceira, pelo menos que d& uma olhada na mostra. O choro ganha- ra em motivagiio e, quem sabe, nao surja umn novo fado tropical para acalentar nos- sa InWs azulverdelejante. * Lidio de political A Pmvincia do Pard prestou um servigo de utilidade pliblica na edigao do Altimo domingo. Em duas pAginas seguidas, Ala- cid Nunes e H6lio Gueiros Jr. mostraram como e 6 praticada a political no Pari. Ela transcorre numa quadratura tao viciada que seus praticantes sequer dao-se conta do que dizem. Provocado pela reporter Ana Celia Pinheiro a explicar o moti- vo do seu rompimento aberto corn Jarbas Passarinho na eleigao de 1982, o ex-governador Alacid Nunes deu uma resposta antol6- gica. "Nao posso te dizer, porque ja faz tanto tempo que nem lem- bro", delarou o mudo mais pode- roso da political paraense. Alacid no titubeia (seriamais adequado dizer, nao bobeia?): foi ele quem elegeu Jader Barbalho govemador contra o candidate do regime military que o entroni- zou na political (sempre disputou cargos a pedido do general na presidencia da Repiblica, diz). Como conseguiu a faeanha? Em primeiro lugar, por ter usado a maquina official: "Eu estava corn a maquina na mao, era o gover- nador", admit. "Na verdade, o fiel da balanga era o Govemo do Estado". Mas por que Jader es- pecificamente? "Porque achava que, sendo ele o candidate, po- deriamos ganhar a elei9ao", con- tradiz-se Alacid. Finalmente ele proclama que seu entao aliado Hl6io Gueiros estava por tr6s da tramapara des- peja-lo do PFL. A acusagio per- de legitimidade: o moment cer- to para falar passou, partidaria- mente falando. E s6 Alacid, como a Carolina de Chico Buar- que de Hollanda, nao viu. Ou fin- giu que nao viu, como sempre. Ja o vice-governador Helio Gueiros Jr. vem com um aut6n- tico bumerangue.. Diz que o se- nador Jader Barbalho, "politica- mente falando, tern mais honra do que o Almir Gabriel". Isso porque, "se ele acertou uma ali- anqa corn voc6, cumpre". Muito bem: se Jader acertou corn Helio Gueiros para ele ser seu successor no govemo do Es- tado, quem 6 mesmo que nio agiu com honra nesse acerto? Ganhara um manual de ciencia political quem marcar o nome do pai do Jmnior como a resposta certa. Quem induz o resultado nao 6 outro senao o clone. Nada a surpreender: Gueiros Jr. pro- clama na entrevista: "Nao sei o que estou pensando quanto ao meu future". Da para algu6m ser- vir de guia do rapaz? 0 A ceramica da saudade 4 JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE OUTUBRO / 1997 Li a correspondencia da Associa- 9go dos Empregados do BASA e sua res- posta. Ficou claro que nem a AEBA tinha condi95es de levantar a problematica do BASA, tampouco o jornalista conseguiu ex- primir seus arguments no espago apertado do Jornal Pessoal. Tambdm eu, al6m de li- mitado, ndo pretend discuti-la nesta opor- tunidade, por6m como julgo conhecer a atu- al posi9Ao de Licio FlAvio sobre o desem- penho do Banco, posso arriscar a fazer al- gumas alus6es acerca deste important fato. Em primeiro lugar, o Cr6dito Especializa- do, nome t6cnico que se dA A aloca9go de recursos no setor produtivo da economic, e que 6 fung9o dos Bancos de Desenvolvi- mento, requer dois fatores bAsicos para fun- cionar a content: fonte de recursos estAveis e pessoal treinado para execuplo dos traba- Ihos. A primeira condi9Ao, teoricamente, o BASA preencheu a contar de 1988; a segun- da, veio mantendo-se at6 1980, quando ad- ministra96es adredes comegaram o desman- che da area (pessoal t6cnico do Cr6dito Es- pecializado) e hoje encontra-se em estado agonizante, por6m com amplas possibilida- des de recupera9ao, 6 bom que se diga. Fe- char agEncias deficitArias nio me parece a forma mais inteligente de administrar um Banco. HA outras opq9es para conciliar cus- to/receita; uma political de desenvolvimen- to, por exemplo, justificaria plenamente a existincia de situagBes aparentemente an- tagonicas. A Amaz8nia vem sendo sacrificada se- guidamente e por isso devemos cobrar do Governo a nossa cota de compensagao. As ag8ncias superavitArias estrategicamente lo- calizadas vqo manter aquelas deficitArias, o important 6 assegurar o pioneirismo e corn isso atingir os segments populacionais ca- rentes. Basta colocar A frente do BASA pro- fissionais competentes e equilibrados, des- pidos do compadrismo politiqueiro, e que nao sejam identificados pela massa putre- facta dos politicos desta terra. De outro modo, venho notando a sua qui- zila quando se trata do BASA, final de con- tas todas as atribula96es por que passou fo- ram perpetradas pela "elite" que voc8 bern conhece; a instituigao em si nada ter a ver com essas trapalhadas. O iltimo pr6digo que ali aportou foi o Sr. Anivaldo Vale, eleito Deputado Federal cor os votos dos finan- ciamentos que estao e vAo engrossar a ru- brica de "CL" credito em liquidawio). Por falar em BB, voce sabe quanto importou o seu prejuizo nos anos 1995/96? E o "rom- bo" do Bamerindus, do Econ6mico, do Na- cional? E a negociata do BANESPA, ainda nao concluida? Todos estes estragos finan- ceiros irdo ser quitados pelo bolso do cida- dSo brasileiro (uns a custo zero, no caso do BB; e outros a 6% a. a., cor recursos oriun- dos dos Dep6sitos Compuls6rios). O Ban- co Baring foi implodido por uma picareta- gem de irris6rio 1 bilhfo de d61ares. Nao desejo complacencia para o BASA, tamb6m nso me sinto encorajado a aplaudir o seu Acido discurso. Antes, entendo que devemos ponderar as razaes de seu funcionamento pela via t6cnica e political (como Cincia). Nao obstan- te os aspects abordados, long de mim sugerir seguir- mos a mAxima do saudoso escritor Sergio Porto "ou to- dos nos locupletemos ou res- taure-se a moralidade". Tenha-me como um aliado. Rodolfo Lisboa Cerveira Minha resposta: Nao tenho quizilia ou quizila contra o Basa. Ao contrdrio, | estou entire os que julgam necessdria a instituiqdo e w _ t&m se empenhado pela sua manutenaio. Mas ndo e qualquer banco que defend. Critiquei muito o Basa que promoveu a des- capitalizaqdo da regido, que desorganizou suas atividades produtivas, que funcionou como biombo para a simples escritura9do conatdbil de recursos (a custo zero, ressal- te-se) que voltaram aos pontos de origem da captagdo (ou da rentncia tributdria), contribuindo para aprofundar ao invis de atenuar ou eliminar as desigualda- des regionais. Tambem invest contra o ban- co clientelista, instrument de acordos politicos,e de compadrio. Alertei para a es- trutura cheia de buracos e canais de vaza- mento, que possibilitou a inacreditdvel pi- rataria dos Barreira Pereira & aderentes (mas ndo s6 deles, ali.s: h6 uma sucessdo de saques a partir de Lamartine Nogueira, que deixou os credits insolventes supera- rem duas vezes e meia o capital do banco). 0 Basa do passado ndo sobreviverd por- que esse esquema deixou de interessar ao governor federal (que, por isso, ndo encon- trard um paliativo para o Banco da Ama- zdnia). 0 Basa do future e uma incognita. Para esclarecer suas perspectives e preci- so aprofundar a andlise e o debate em tor- no do banco. 0 plenrio do parlamento ndo e o sitio indicado, tantos sdo os inte- resses corporativos envolvidos e a passio- nalidade intencional, como ficou demons- trado na sessdo de um m&s atrds. Este e um desafio da inteliggncia. Atd que o tema seja colocado diante da sociedade como um item fundamental da sua agenda, e pre- ciso consolidar um tratamento tecnico aos problems e impasses que tem dado a cri- se do Basa uma modulagdo negative. 0 locus adequado seria a universidade ou qualquer outra instdncia academico-pro- fissional, antes de ser tribunas ou palan- ques. Mas hd um div6rcio fatal entire essas instdncias e a vida social. Superd-la a a grande tarefa das elites es- clarecidas, esclarecidas so- .. bretudo por saberem que, desta vez, sem uma mobili- S I zaqao de publico tudo aca- Sbard em vel6rio, ainda que papa-fina. i~ P enitenciando-me pela Sdemora, envio meus mais 1 efusivos cumprimentos pela 1e d6cada do JP. S Deus permit que as leiss Ssx s K objetivas", aludidas na penul- tima edig9o, sigam o caminho de tantas ou- tras leis no Pais; teremos assim a garantia de que prosseguirA em seu trajeto intimora- to e singular, que muito tem contribuido para a busca da verdade, merc8 de informar e dis- cutir a isen9ao, seriedade e competencia. Sua continuidade permitir-nos-A sonhar a dias de melhores costumes socials e poli- ticos, assim nos tirando do desalento coti- dianamento vivenciado frente a triste reali- dade de hoje, particularmente entire n6s. SPaulo Barroso Rebello Q uem nasceu dguia, sempre sera dguia Lendo o pensamento acima, reportamo- nos A trajet6ria das publica96es feitas du- rante dez anos do Jornal Pessoal. Aprecia- mos seus escritos, que em meio ao cosmo ordem das coisas parece ser a desordem o caos. Entretanto, 6 esse jeito que faz o JP e seu editor serem diferentes da mesmi- ce jornalistica. A Caritas Brasileira Regional Norte II pa- rabeniza voce pelos anos de coragem, ho- nestidade e probidade cor que exp6e e pu- blica suas id6ias. Receba nosso incentive constant atra- v6s de calorosos abragos, desejando que ja- mais voce perca sua coragem de publicar. Equipe de Caritas B. Reg. Norte II #a I I I O IDa~ JOURNAL PESSOAL 1I QUINZENA DE OUTUBRO / 1997 5 Sem humor N o 6 incomum que uma boa idea em abstrato result numa execuqgo desastrosa. Esse 6 o caso do Memorial Magalhles Barata. 0 chap6u duro, imitado dos ingleses co- loniais, serve para carac- terizar o Barata revoluci- onario do tenentismo. Foi uma boa inspiragao. Mas a obra fisica que to- mou essa forma 6 um equivoco. Ao inves de pensar no caudilho que prometia re- volucionar o Para e acabou retardan- do a hist6ria, o transeunte associa logo a edificaao a nave da Xuxa (associa- 0ao que, em estagio primitive, levou a TV Globo no ultimo domingo a Curuga, em reportagem digna do Ripley 's). Mas ndo 6 so um mau efeito exter- no. Por dentro, o pr6dio nao serve ade- quadamente aos seus prop6sitos. Fal- ta-lhe paredes para exposigio. Os com- partimentos internos, condicionados pela busca de efeitos visuais externos. sdo acanhados demais. Nao ha um es- pago panorimico, um angulo mais fa- voravel. Paradoxalmente, entretanto, essa mediocridade acabou se ajustan- do como luva ao conteudo da mostra permanent. Ela inclui (ou incluia, at6 a ultima vez em que la estive) uma es- cova de dentes usada por Magalhles Barata. Tern o pijama dele, que, ao contririo do de Getulio Vargas (talvez a inspiragdo tomada ao Museu do Ca- tete), noo tern o chamuscamento de tiro de bala no peito que justificou sua ex- posicao no Rio de Janeiro. Nao 6 que faltem motives para ho- menagear Barata. Ele foi o mais in- fluente politico da Repiblica para- ense. Mas o memorial, apesar dos esforgos dos que o dirigem, tem sido praticamente inutil na tarefa de tra- tar a mem6ria do personagem, que 6 o que interessa hoje, quando esta ag6nico o fanatismo 6co dos que tentam prolongar o "baratismo". O projeto foi concebido na administra- cdo de um "baratista" de ultima ge- ragco, o entdo governador H6lio Gueiros, para ser um totem, uma tumba mais solene, um museu pobre, nao para motivar o repensar sobre Barata (ao contrario, a bibliografia a respeito 6 anEmica). A media que o tempo passa o Barata vivo, da pri- meira fase, 6 soterrado pelo caudi- lho da segunda fase, o tenentismo re- volucionario substituido pelo "bara- tismo" oligarca. Essas reflexes sdo motivadas pela encrenca que o Crea (Conselho Re- gional de Engenharia e Arquitetura) armou em cima do arquiteto Paulo Cal. Paulo deu sua opinido sobre o memorial. Fez uma avaliadao tecnica, semelhante a esta que aqui expresso. A Constitui- io, felizmente, Ihe garan- te a liberdade de pensa- mento e critical. Ele nao disse que o criador da obra nao presta, 6 um in- competente, mas que a obra dele 6 feia. Nao 6 questao corporativa, um crime professional. E o elementary e saudavel direito de critical. Nesta infeliz terra critical esta virando delito. As pes- soas se sentem particularmente ofen- didas, querem levar o caso para o pe- rigoso as vezes galhofeiro ter- reno da honra pessoal. O argument do critic 6 deixado de lado. O que se quer saber 6: o que ele ter contra mim? 0 que fiz contra ele? Ele nao e mais meu amigo? E o virus dos 98,7% em aCo, a sindrome do Li- beral. O critic e o animador da socieda- de. Mesmo que ele esteja errado ou ate seja leviano, ter a fungdo de azei- tar as engenagens do sistema politi- co, evitando que ele se enrijeca, que passe a sofrer aquele tipo de corro- sao que conduz ao colapso das dita- duras. Debate so faz mal a pessoas destituidas de senso de humor. O ho- mem sem humor nao ter qualidades, 6 um perigo, mesmo quando, even- tualmente, tenha razao. Como recomendaria George Orwe- 11, um entendido em tiranias: um pou- co de ar, Santa Maria de Belem do Grao Para. Chega de Torquemadas e inquisi9oes. * O senador Fernando Cou- tinho Jorge ja advertiu, com todas as letras, que nao abre mio de sua condirdo de can- didato nato a dispute pela re- eleicao de senador no pr6xi- mo ano pelo PSDB. Se se mantiver nessa posigdo, tera que ser reconhecido pelo par- tido, mesmo que o acordo te- cido pelo governador Almir Gabriel leva-lo a apoiar o ex- senador Jarbas Passarinho. Nesse caso, Coutinho ira in- corporar mais uma frustracgo ao seu curriculo: foi o pri- meiro politico federal a pas- sar para o lado dos tucanos, deixando o PMDB, que ha- via preterido seu grande so- nho de ser candidate a gover- nador, mas tera como recom- pensa mais uma marginaliza- 90o. A de ser o candidate ofi- cial do partido do governa- dor, sem receber o apoio de Almir. E a ponta de dois dile- mas, como diz um jornalis- ta da terra. * Demorou mais tempo do que devia, mas finalmente as associa96es dos donos dos veiculos de comunicaggo se manifestaram sobre o perigo da nova lei de imprensa em tramitagco no congress. Uma nota official foi publica- da na imprensa no ultimo do- mingo (s6 o Didrio do Pard nio deu na primeira pagina). Nao se trata de uma inicia- tiva corporativa, como muitas vezes acontece quando essas entidades se mexem. A lei e mesmo uma ameaga a liber- dade de imprensa, induzindo a auto-censura, que ja gran- de e se tornara a regra em re- laggo a quest6es mais polemi- cas se o projeto for aprovado pelos parlamentares. E espan- toso que uma proposta mais atrasada do que a atual lei 5.250, arrancada pelos mili- tares em 1967, surja em ple- na epoca de garantias consti- tucionais a liberdade. Pais esquizofrenico, este Brasil. 0 ... ... .. . .. .......... ...... .. ...... ...... ...... ..... . ...... .... . .. ........... ... M .... .. ...... ..... ...... ...... ... ..... .... ........... .. ..... ............... ...... ... ....... 6 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE OUTUBRO / 1997 Crescendo como rabo de cavalo O Para tern o 11 Produto Intemo Bruto do pais, 6 o sexto Estado em exportaqco, o quinto em gerago de energia (o 3 em ex- portagco de energia), o 152 em arrecadagdo de ICMS e o 172 em desenvolvimento hu- mano. Esses niuneros contrastantes indicam que o Estado rno esta conseguindo tirar o melhor proveito possivel de seus recursos naturais, de seu potential de riqueza. Falta- Ihe capacidade para organizer a atividade produtiva e para faz6-la drenar recursos que agreguem valor ao Estado. Ainda mais por- que foi "vocacionado" para exportar mate- rias-primas, insumos basicos e produtos semi-elaborados. O normal, nessa situaqho, seria que o govemo estadual se acautelasse contra ini- ciativas onerosas nesse sentido. A tal lei Kandir, inspirada pelo atual ministry do Pla- nejamento (na epoca atuando como depu- tado federal por Sio Paulo), atende as difi- culdades mais graves enfrentadas pelo Pla- no Real. As exportaces nio crescem e as importacbes evoluem ou se mantnm. Para tapar o buraco aberto pelo deficit da balan- ca commercial, o govemo tem que sacar mo- eda forte nas reserves cambiais, ja em peri- goso esvaziamento. Mas para evitar uma fuga de capitals, precisa manter os altos ju- ros e toda a political cambial. Mais um pou- co nessa situaqio e o efeito asiatico estara aqui. Corn a lei Kandir, boa parte da conta foi repassada aos Estados (e, pelo efeito domi- n6, que ilusoriamente a constituig9o de 1988 haviaprometido acabar, aos municipios). As exportacfes e as importases de maquinas e equipamentos nao s6 foram isentadas de ICMS, como os que as promovem se credi- tam pelo que nio pagam, reedigio do que Delfim, Gouveas et caterva haviam feito no regime military. O govemo federal prometeu compensar o rombo nas contas piblicas estaduais, mas, malandramente, montou uma base de cal- culo que nao incorpora os aumentos nas re- ceitas obtidos pelas administra9ces que ve- daram canais devazamentotributario e apri- moraram a maquina arrecadadora. Assim, quem conseguiu ganho real nos recursos pr6prios, tera menor ou nenhuma compen- saCio. E transfer8ncia de perdas mesmo. Depois de ter feito a bancada parla- mentar que Ihe da apoio em Brasilia vo- tar mansamente a lei Kandir, o governor estadual percebeu o "mico". O Para per- deu 14% de sua arrecadagao e s6 vai ter de volta R$ 159 milh6es, em 12 parce- las anuais. Um prego mais a pagar para o Estado tomar consciEncia de que, se nao mudar o modelo que o agrilhoa, os indicadores desconfortaveis do amaneira do rabo de cavalo irao se consolidar. O mais culto dos bra sileiros nao e bra sileiro: 6 o austria co Otto Maria Car- peaux, que morreu quase 20 anos atras, no Rio de Janei- ro. Faz esse mesmo tempo que nenhum dos muitos livros dele 6 relangado, sinal de que a sedugao a incultura desfru- tou de terreno mais f6rtil no Brasil. Durante a Bienal do Livro, em agosto, no Rio, duas editors promete- ram uma nova edigao da monumental Hist6ria da Literatura Ocidental, um feito sem paralelo na hist6ria literaria mundial. A promessa aguarda cumpri- mento. Deveriam era contratar gente para pesquisar os arquivos dos jornais e lan- Var a obra complete de Carpeaux, incor- porando os livros dispersos e os artigos in6ditos, e nao apenas a hist6ria da lite- ratura. Ha duas edigoes dessa obra prima. A primeira, da editor 0 Cruzeiro, em seis grossos volumes (por causa do papel). A outra, da Alhambra, tambem em seis volumes, mas comedidos (prefiro a pri- meira, registro exemplar de um momen- to editorial). Nenhum outro intellectual executou algo semelhante ao que fez Otto Maria Carpeaux. Se nao leu todos os livros dos autores que cita, leu a grande maioria. Leu e deu a leitura um entendimento pes- soal, sem perder o context de cada 6po- ca. Nao 6 algo como Henry Thomas ou Will Durant realizaram, coisa enciclope- dica, de orelha de livro. E De Sactis pro- jetado da literature italiana as letras de todo o mundo. O mais fascinante para mim, entretan- to, sao os artigos de journal de Carpeaux. Como 6 que um austriaco, obrigado pelo avango nazista a deixar a Europa no fi- nal da d6cada de 30, alguns meses de- pois ja falava a esquisita lingua portu- guesa? Mais do que isso: escrevia e, em pouco tempo, escrevia como estilis- ta. Cheguei a ver de perto o mestre Car- peaux (Karpfen de batismo, antes do afrancesamento para agradar os brasilei- ros) na redagao do Correio da Manhd. Era feio como um duende, mas cativan- te, inteligente e fluente como poucos. Magnetizava ao simples contato, embo- ra nao fosse acessivel facilmente. Um artigo de Carpeaux valia por li- vros de outros intelectuais, mesmo po- derosos intelectuais. Tinha aquela rara ironia superior que os resenhistas de oca- 1< A falta que nos faz Otto Maria Carpeaux "sio insisted em ser fina, sem que eles pr6prios estejam em condi95es de fazer a classifi- cacgo. Num artigo de 5/6 lau- das, seu habitual, Carpeaux atravessava da literature para a musica e as artes plasticas, alem da political e a econo- mia, fazendo todas as ilag5es e conexoes possiveis, sint6ti- co e profundo. Conhecia a obra inteira dos grandes autores, nao ape- nas um ou outro livro. Mas nao era o exegeta obtuso, que se perde na minu- dncia. Era o verdadeiro erudito, aquele que conseguiu abarcar com sua insacia- vel curiosidade tudo o que 6 human, o demasiadamente human de Nietzsche, iluminando cada ponto que toca e enca- deando os pontos pelo sentido 16gico e por seu valor heuristico. As vezes escrevia sem livros de refe- rencia ao alcance. Sua mem6ria era unica. Nao a mem6ria dos atletas da informaqo, mas dos que tudo investigaram e para tudo encontraram, quando nao uma resposta, uma nova pergunta, sem a qual o conheci- mento human nao avanga. Nenhuma in- telig8ncia maior andou pelas reda95es bra- sileiras, onde um austriaco estava sempre disponivel a qualquer national que preci- sasse de uma solugio para o texto empa- cado. As aberturas dos artigos de Carpeaux sao uma liiAo de lide parajomalistas, sem qualquer artificialismo, sem concess6es ao maneirismo facil. Sempre estou voltando a esses textos e alguns deles, como sobre os artists que tiveram a premonimao de suas mortes precoces, tmrn o poder de sem- pre me comover. E lamentavel que ha tanto tempo o privil6gio e o prazer de ler Otto Maria Carpeaux estejam confinados aos qut compraram a tempo seus livros ou con- seguem encontra-los nos sebos e antiqu- arios. Este e um elitismo absenteista que s6 mal faz a intelig8ncia brasileira. Seu ant6nimo, mais cultivado nos filtimos tempos, teria um antidote eficaz se as instituigoes nacionais fizessem por me- recer a sorte de terms tido, como resul- tado da selvageria nazista, a adogao de Otto Maria Carpeaux. E ele que engran- dece o Brasil e nao o contrario. Esque- 4 c6-lo 6 um pecado que amesquinha mais um pouco a venturosa circunstincia de aqui ele ter aportado na fuga dos bandos i de Adolf Hitler, ele, Paulo Ronai e ou- tras ienteligencias privilegiadas que tei- mamos em nao aproveitar na media exata de sua grandeza. 0 m JOURNAL PESSOAL* IA QUINZENA DE OUTUBRO / 1997 7 Experidncia acaba 0 Liberal p6s fim a uma e.pen- 6ncia pioneira nojornal: demitiu Ana Dinuz, que vinha fazendo uma avalia- gco internal da pubhcaq.o e se prepa- rava para dar inicio a um centro de do- cumentaqao. Ana tinha retomado a 0 Liberal. onde chegou a ser redatora- chefe depois de longos e prolificos anos na ediaio do jomal. a convite de Ronaldo Maiorana, director corporati- vo da empresa. No mis passado foi comunicada sobre sua denissao pelo departamento de recursos bumanos, sem qualquer contato nem prevto. nem posterior dos Maiorana corn ela para tratar do assuno. Necessida- de de reduqao de despesas foi a ale- gaqdo apresentada. No seu trabatho, Ana vinha apon- rando os erros mais primarios come- tidos diariamenre pelo journal. princi- palmerae gramaticais. e fallas de edi- q o, tentando corrigi-las Tambem apresentara o projeto de um centro de documentaqao a sen'r-o da redaqiio, que evitana as repetiq6es de assuntos e as infonnaroes erradas, tao comuns no jomal. que sub-uulza wu sistema de intfrnitica (os termnials de com- putadores ado passan de maquwnas de escrever sofisticadas). Fontes d d entro da empresa dizem que a razao official apresntada para o afastamento de Ana Diniz nao 6 ver- dadeira e que a descortesia dos donos da empresa para corn ea nio fbo cir- cunstancial Mas a onda de boatos que o fato suscitou na redaco nto con- duz a uma razao solid para o ato Mesmo porque e mais recomendavel procura-la em uma metempsicose que aniquila a intelig6ncia em uma empre- sa que, por natureza, deveria rt-la como o combustivel do seu funciona- mento. Na cathedral de negocios dos iundos do bosque. a ordem 6 praticar jornalismo por indrcia. Ou nas sobras de espago do mercantilismo. A instalacgo da recem-criada Direto- ria Norte em Sio Luis e nio em Belem e uma media coerente cor a privatiza- q~o da Companhia Vale do Rio Doce. Muitos dos que estao protestando contra essa iniciativa, entire eles o govemador Almir Gabriel, reagem a uma consequ- ncia de suas posiq9es anteriores, de ade- sao a venda da estatal. O azar dos feiti- ceiros 6 de acabarem provando do pr6- prio feitiqo. Os novos donos da CVRD ja estabe- leceram sua mais audaciosa meta: lucrar 1,2 bilhdo de reals no pr6ximo ano. A urgent necessidade dessa geraq o recor- de de caixa tern sua explica9ao: o grupo controlador precisa pagar os empresti- mos feitos para a aquisicao da Vale. Mais at6 do que isso: no comando da empresa houve o deslocamento de capitalistas produtivos para capitalistas financistas. A Vale, de empresa estrategica, esta se tomando uma paper company, que atre- la o seu sistema de produgao a comerci- alizagao de seus pap6is. A centralizaqao administrative em Sao Luis indica que os projetos de long pra- zo e menor rentabilidade, depois de re- vistos, serao redimensionados. Nao e apenas um reajuste interno: a empresa busca tamb6m sua adequaqao a nova re- alidade criada no setor minero-metalir- gico pelo program de desestatizaqco. A ordem, agora, 6 submeter os empreendi- mentos a um torniquete, eliminando to- dos os gastos possiveis e imaginaveis, os investimentos menos atrativos aos ope- radores de papel e as atividades-meio (como a pesquisa geol6gica). Essa estrategia consolida a fungco colonial do Para, fornecedor de mi- nerio. Se a nova Vale ja det6m as mi- nas, por que haveria de instalar em Beltm sua diretoria Norte? Para ad- ministrar quest6es cativas? Claro que a 16gica aponta para Sgo Luis, ponto no- dal da ferrovia. sitio do porto ocednico. Mas e uma l6gica perverse. Qualquer pessoa medianatamente dotada de infor- marao, bom senso e boa fe anteviria es- ses desdobramentos no moment do aniuncio da privatizaqco da CVRD (sem falar no carter lesivo do tipo de transa- gao commercial que o governor patroci- nou). Quem apoiou ou aceitou, por con- viccqo ou oportunismo, essa iniciativa nao tern moral para combate-la agora. Se nio foi ingenuo incompetent no primei- ro moment, foi desonesto. A reducao da representagao da CVRD na capital paraense a uma sala de 10 me- tros quadrados enquistada no escritorio da Albras/Alunorte 6 tio coerente cor a nova situaaio quanto o predio que a empresa ocupava quando era estatal. Antes ela agia como agencia de desen- volvimento, cheia de deficiencias, e cer- to, mas suscetivel a apelos e presses coerentes corn a sua natureza. Agora nio tem raciocinio macroecon6mico. Se fin- cou sua base administrative em Sio Luis e porque all esta o nexo de liga io entire as riquezas extraidas do hinterland e os mercados compradores, no exterior. A cadeia produtiva que o governador Al- mir Gabriel diz buscar dentro do territo- rio paraense esta entire Carajas e Toquio, por exemplo. Escalas intennediarias pas- sam a ser consequencia ou detalhe. O governor que queria virar a Vale de cabe- 9a para baixo foi por ela colocado de ponta-cabeoa, como dizem os sulistas. N so se sugere acomodacio, nem que a guerra esta perdida. Mas nao adiantara muito gritos patrioticos ou amearas vis. Falar grosso, a esta altura, nio impressi- ona se antes o interlocutor abusava do falsete. Agora d precise intelig6ncia, competencia. vontade e autoridade. qua- lidades tao necessarias ao Para dos nos- sos dias e das quais tao impiedosa- mente ele tern sido privado. 0 0 valor da desmem6ria Quem, ate alguns dias atris, imaginaria o ex-senador Jarbas Passarinho descend de suas tamancas brasilienses nara assinar a ficha de filia- g io de Luiz Otavio Campos ao seu partido? Quem se atre- /eria tamb6m a prever que, tr8s anos depois de term tro- cado pesadas acusaq6es entire si, Jarbas Passarinho e Almir Gabriel estariam juntos na sede do PPB como aliados politicos? Quem menos ain- da deliraria corn a possibili- dade de Almir, Jarbas e Ala- cid Nunes integrarem a mes- ma coligacao electoral, que suscita a hipotese do reencon- tro dos dois maiores lideres politicos p6s-64, catapultados do quartel para a sede do go- verno estadual e transforma- dos depois em inimigos figa- dais? Quern se atreveria a so- nhar cor a reconciliagao ta- cita de Jader Barbalho e He- lio Gueiros? E quem seria ca- paz de profetizar que o gover- nador Almir Gabriel acabaria convidando Jader para uma "conversa de alto nivel" pela uniao em favor do Para? Essas invers6es pessoais so nio espantam porque a poli- tica paraense no costuma ser feita con id6ias e teses. Sen- do helioc6ntrica, como diz Passarinho, a political deste Estado s6 sobrevive ao alcan- ce da luz do poder. Por isso, vale tudo para chegar a ele, mesmo que seguidamente ati- rando a vala comum da des- memoria as palavras. os ges- tos e os atos da vespera. No Para, tudo muda para tudo continuar igual. 0 Vale: o dia depois da privatizagao Palavra de arquiteto O pagamento da segunda par- cela da divida deixada por H61io Gueiros, de 250 mil re- ais, selou o acordo da prefei- tura de Bel6m com o grupo Liberal, consolidado com os movimentos seguintes. A vice-prefeita Ana Julia Care- pa foi ao gabinete de Ronal- do Maiorana, o promoter do Para Folia, levar o apoio da PMB (tendo, depois, desfila- do festivamente na micareta). Alem de contar corn a segu- ranca, Ronaldo economizou 70 mil reals s6 cor a isengao do ISS, o imposto sobre ser- vigos que deveria ser cobra- do sobre os ingressos. Para culminar, a prefeitura esta car- regando na publicidade veicu- lada em O Liberal. Como foi aconselhado a fa- zer em relagio ao sociologo- presidente, o distinto piublico deve esquecer as palavras do arquiteto-prefeito Edmilson Rodrigues no comicio de sete meses atras realizado em fren- te a sede do journal, quando o alcaide do PT ameaou fazer o povo invadir o palAcio dos Maiorana. Na hora A nova administrarao da Uni- versidade Federal do Para ja quitou metade da divida, de 250 mil reais, deixada pela anterior, junto ao grupo Libe- ral. O d6bito se refere A colu- na semanal da UFPA publica- da na imprensa, sendo o mai- or com a empresa da familiar Maiorana. A ameaga de veto e de cam- panha foi suspense. Origens Esta na Divina Comedia, de Dante Alighieri, o maior po- Briga de Ao saber que Edmilson Rodrigues estava vei- culando um andncio nos jomais do dia 28, pro- clamando uma indevida autoria do projeto de macrodrenagem das baixadas de Bel6m, a equi- pe do govemador Almir Gabriel tratou de pro- videnciar uma pega em cores ainda maior. Se o prefeito considerava-se corn direito a transferir para seu cr6dito o projeto apenas porque ele se localiza em Belem, o govemador retrucou: Be- lem acontece porque o govemo faz. A iniciativa da PMB 6 uma "forgagdo de bar- ra", como se costume dizer nos neol6gicos ar- raiais petistas. A prefeitura naojoga um tostio na macrodrenagem. Sua participacao no rema- nejamento dos atingidos implica em gastos, evidentemente, mas eles nao foram apropria- dos no orcamento. E como se tivessem que ser gratuitos, ainda que pesando sobre os co- fres municipals. Mas sem a prefeitura nao ha- veria macrodrenagem, por exigencia do Ban- co Interamericano de Desenvolvimento, o prin- cipal agent financeiro do projeto (e, por in- ema ja escrito por um ser hu- mano, mas a refer6ncia nem precisaria ser tao nobre: o lim- bo, nao sendo a premiacao celestial nem o castigo infer- nal, e o lugar certo para abri- gar os que se omitiram. Nao erraram nem acertaram. Por- que nao tentaram, nao se ar- riscaram. Esse 6 o pior gene- ro human, fustigado pela Bi- blia. Como as arvores que nio ddo frutos, os impassiveis da vida deveriam ser cortados e atirados ao fogo. Dante foi mais sofisticado: deixou-os no gelido limbo, o reino da burocracia, da repeticao e da rotina eternas. Ainda nao havia sido funda- do o PSDB na ocasiao. Indo fundo O govemador Almir Gabriel esta fazendo o que nem Jader Barbalho nem Hl6io Gueiros se atreveram a fazer: persona- lizou a propaganda official. Tanto no program da televi- sao quanto nos out-doors, o Journal Pessoal Editor: Lucio Flavio Pinto Seole: Rua Aristides Lobo, 871 / CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Try. Benjamin Constant, 845/203 / 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Edttora;&o de arte: Lulzpe 1 241-18591222-5238 comadres crivel que possa parecer, o mais avancado dos protagonistas). Quando estava tudo em casa (Coutinho e Jader ou Gueiros e Almir), nao havia problema na exe- cucao dessa ins6lita equagio. Mas agora ela per- mite essas manobras de Joao-sem-brago da pre- feitura. Ela repete o procedimento astuto do poli- tico oposicionista do interior que sai na frente na sua excursao eleitoral pelos currais de votos anun- ciando que seu opositor official, atras no percur- so, esta trazendo o dinheiro que ele, candidate sem maquina, possibilitou. "Recebam o dinheiro, mas votem em mim", e sua recomendagao, que a PMB esta seguindo neste joguinho de gato-e-rato que vem travando com o govemo pelo faturamento da repercussio da ma- crodrenagem (muito natural: em nenhum lugar se v6 o governor tao ostensivamente em obrr como na bacia do Una). Coisinha provinciana, bem ao nivel da infeli- Belem de agora. Do Para, por falar nisso - fazer justica tanto a Edmilson quanto a Almir. slogan unidos pelo Pard ce- deu para o nome do governa- dor, tratado messianicamente como Gabriel. E assim que aparece ao long da avenida Julio Cesar, de acesso ao ae- roporto. Diz a propaganda que Sao Joaquim (o nome do canal da macrodrenagem) pe- diu e Gabriel atendeu, mote evidentemente inspirado no rito junino. Um detalhe, sobre o qual o go- vernador talvez consiga se in- formar com o seu ex-parceiro H6lio Gueiros, mais afeito ao tema: Gabriel era o anjo ex- terminador. No caso, extermi- nou com o resto de veleidades e escrupulos que haviam feito Gueiros trombetear o cami- nhando com o povo e Jader o governor do trabalho (cor o subtitulo adhemarista, do rou- ha masfaz, implicito). Almir, que declarou ter vindo para renovar o Para, esta ra- dicalizando os anacronismos. Consumado est Foi emocionante ouvir Cleo Resque de Oliveira, gradua- do tdcnico da Secretaria da Fazenda, dizer, no debate de encerramento da VIII Sema- na do Economista, no campus da Universidade Federal do Para, dia 3: "o modelo de en- clave que voc6s anteciparam teoricamente ja se confirmou integralmente na pratica". E o tipo de elogio que machu- ca: os que advertiam para esse risco, no fundo, nao queriam que ele se realizasse; por isso faziam as critics. Afmal, o laborat6rio dessa reedicao, atualizada e ampliada, do fe n6meno colonial, 6 a nossa ter- ra. Mas fica o registro de urr moment, cada vez mais raro, de honestidade intellectual. Antes e agora Numa s6 edicao do Diario C cial, do dia 2, o secretario est dual de saude, Vitor Manu Mateus, cedeu dois de seus fur cionarios para as prefeituras C Portel e Bujaru, com 6nus p a Sespa. Antes da corrida toral desenfreada a ordem goverador era para proibi cessaes onerosas de servidc estaduais. Agora, e a reg; quando convem. Ah, sim: as verbas do FDE, o fundo que deveria fomentar o desenvolvimento do Estado, continuam sendo pulveriza- das nos convenios eleitorais cor as prefeituras. Obras de meia-sola para propiciar pu- blicidade-e-meia em favor do chefe. Uma especie de culto a personalidade staliniano fora de epoca (mas o Para todo nao esta fora de 6poca?), que, quem sabe, acabara cri- ando personalidade. I --I |
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