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Jornal Pessoal L C I 0 F L A V I P I N TO AN.b X L] 2 IUI ZEN A DE JI L O DE]'1997 R$ 2,00 (Pg. 6) a. Mata-borrjio nasconts sujias deGueirosl AMrg 5) CARAJAS As ligoes de 30 anos A hist6ria da maior provincia mineral do planet revela a incapacidade de um Estado como o Pard de encontrar um caminho melhor para a utilizacdo de suas riquezas naturals. Uma geraqdo foi derrotada. Nova derrota espera os paraenses-- - no ciclo que comega, ainda mais important do que o aizd a ,, , Provincia Mineral de Cara- jas, a maior do mundo, esta completando 30 anos de vida. Pode-se tomar como referencial o dia 31 de julho de 1967, quando o jovem Ye6logo paulista Breno Augusto dos Santos, hoje president da Docegeo (a ;ubsidiiria da Companhia Vale do Rio Doce para pesquisa geol6gica), pousou ,S com seu helic6ptero ao lado de uma bela lagoa perene, na Serra Sul. A aterrissagem foi involuntiria, pro- vocada por um problema no aparelho. Mas Breno fez um reconhecimento da area, coletou amostras e, quando os resultados vieram, a Companhia Meri- dional de Minerago, controlada pela United States Steel, a maior siderdrgi- ca do planet, ficou sabendo que era dona do melhor min6rio de ferro que se conhecia. Esta 6 a data official de uma das mais notaveis faganhas da geologia em to- dos os tempos. Mas outros parimetros podem ser adotados, como o do ano anterior, quando outra multinational, a Codim, fez a primeira descoberta de Carajas: os dep6sitos de mangan8s de Buritirama. Ou avangando no tem- W ....... I ""~~' 2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JULHO / 1997 - po e chegando a 14 de margo de 1968, quando um primeiro empregado da CVRD, Jose Eduardo Machado, chegou a Carajas para avaliar o que a USS passara a controlar, iniciando um jogo de presses que resultaria na sai- da da multinational americana, em 1977, ficando o control da mina em maos nacionais, como queriam os mi- litares (e os japoneses?). Qualquer que seja o ponto de parti- da, entretanto, o ponto de chegada 6 o dos 30 anos da revelagao da maior con- centraao de recursos minerals existen- te em territ6rio paraense, o aconteci- mento que mudou os rumos da hist6ria regional. De Carajas, no ano passado, a Vale extraiu o equivalent a 800 mi- lh6es de d6lares em ferro, ouro e man- gan&s, mas seu faturamento global no Para chegou a US$ 2,6 bilh6es, contri- buindo com dois tergos da pauta de exportacio do Estado. Esses niimeros terao rapida multipli- cagao nos pr6ximos anos, tanto no nu- cleo de Carajas, quanto nos outros em- preendimentos da CVRD (a receita po- dera bater em US$ 4 bilhoes na meta- de da primeira d6cada do novo s6cu- lo), mas o que isso realmente significa para o Para? Quando a corrida para Carajas esta- va apenas iniciando, o ge6logo Jose do Patrocinio Motta, da Universidade Fe- deral do Rio Grande do Sul, escreveu um monumental trabalho, em tres vo- lumes, sobre a economic mineral bra- sileira, publicado pelo CNPq. Avalian- do com toda a parcim6nia possivel a political mineral do inicio da d6cada de 70, Motta observou: "Realmente, a exportagao de qualquer minerio bruto ou semi-elaborado implica em empo- brecimento do pais de origem e o pro- veito e colhido pelo pais importador". A constatag~o 6 evidence, mas pare- ce inevitavel na Amaz6nia. O ciclo do extrativismo mineral, que sucedeu o vegetal, tem sido tao ou mais nocivo do que o antecessor. A regido nao con- segue responder ao seu grande desafio: evitar a exportagao de mat6ria-prima ou semi-elaborados, agregando-lhes o maior valor possivel no beneficiamen- to. Justamente por continuar a ser uma col6nia de produtos bisicos (incluin- do a energia), o Para e o Estado mais prejudicado pela desoneraago das ex- porta96es dos produtos nio-industria- lizados, uma iniciativa do governor fe- deral (para tentar reequilibrar as defi- citarias contas extemas) que esta agin- do como bomba de suc9Ao sobre o eri- rio estadual, sem compensar adequa- damente suas perdas. Prevs-se uma quebra tributaria de R$ 100 milh6es neste ano, mas ja no ano passado os efeitos danosos sobre uma economic primaria exportadora como a nossa puderam ser registrados. A con- tribuigio tributaria da Vale, que fora de R$ 95 milh6es em 1995, baixou para US$ 78 milh6es no ano passado, de- vendo cair a um valor inexpressivo em 1997. Nio apenas o Estado nao consegue industrializar suas riquezas naturais, como nada pode fazer para sustentar os precos de seus produtos primarios. No ano passado cairam todos os precos relatives da pauta minero-metalirgica das exportagSes paraenses, que chegam a quase 80% do total, fazendo do Para o s6timo Estado exportador da federa- Cgo. Mas, como os cofres publicos es- tao sentin'do, isso nada significa de van- tajoso. Q uando a viabilidade do pro- jeto de Carajas foi definida, cada tonelada de min6rio valia entire 25 e 28 d6lares. Hoje o prego m6dio esta em torno de 15/16 d6lares. Exceto no caso da bau- xita, a flutuagio tem seguido essa ten- dencia declinante em relagao a quase todos os bens de exportagao paraenses, que apresentam a caracteristica de se- rem eletrointensivos (ou seja, exigirem uma demand grande de energia, natu- ral ou artificial). Uma apuragao fina das consequen- cias dessa deteriorac~o relative dos pre- cos dos produtos, combinada com o cAlculo das perdas nas relaq6es de tro- ca decorrentes do nao beneficiamento do produto ate o grau maximo possi- vel na cadeia produtiva, chegara a re- sultados assustadores. Uma pitada de desespero podera ser acrescida se, a esses terms de troca, forem aditadas as perdas financeiras, decorrentes da amortizago dos emprestimos e do pa- gamento dos encargos do principal, um fluxo que talvez at6 seja pior do que o da atividade diretamente produtiva. A conclusao desses estudos compa- rativos certamente sera a de que uma regido pobre como a amaz6nica estA contribuindo para aumentar o enrique- cimento das regi6es ricas com as quais ela comercia (se a esse massacre eco- n6mico-fianceiro aplica-se cor pro- priedade o conceito de com6rcio). Valeu a pena ter incorporado Cara- jAs e todo o modelo em relacio ao qual 6 um emblema ao mercado in- temacional? Hoje a pergunta 6 vw, mas a resposta nao e tao ociosa assim. Ao contrario: surpreende que atW hoje fal- te uma reconstituicio hist6rica rigoro- sa e ampla do que foi esse important capitulo de 30 anos da vida brasileira. Muitas quest6es decisivas de Carajas permanecem sem resposta e varias quest6es sequer foram formuladas. Alguns exemplos podem ser citados aleatoriamente. Por que a USS saiu do projeto? Quando comegaram as esca- ramucas da Steel corn a Vale e quais suas raizes? Ate que ponto foi relevan- te a vontade categ6rica (mas invaria- velmente voluntarista mesmo) dos mi- litares e sua geopolitica? Quando co- mecou o deslocamento do eixo de in- flu8ncia dos EUA para o Japao? Como o mercado mundial se rearrumou para receber o min6rio de Carajis? Qual o ganho japones cor o ingresso de Ca- rajas? A recent privatizacao pode sig- nificar a volta da influencia americana na area? As duvidas podem se enfileirar, mas sair atras delas 6 uma tarefa digna, com- pativel corn a dimensIo da hist6ria de tr8s d6cadas de Carajis. Muito prova- velmente, ao fim desse inventario, pode-se acabar corn o gosto travo de derrota na boca. Ao long das iltimas duas decades, nas quais os "grandes projetos" iniciaram sua atividade pro- dutiva, deixando de ser "projetos" (sem nunca perder essa classificacio, entre- tanto, nas velhas e recorrentes discus- s6es academicas), uma geraqio nao conseguiu tirar o Para de sua triste con- dicgo de produtor primario de mineri- os e semi-elaborados, como o lingote de aliminio, na verdade, 6. Uma geracao falhou. Um desafio ain- da maior esti sendo colocado diante de uma nova geracao, agora que parece comegar um ciclo de bens mais nobres, como cobre, zinco, ni6bio, ouro e ter- ras raras, e a madeira amaznica cresce de participagio no mercado mundial. Nesse tempo que passou, a sensacao que fica 6 de que, ao inv6s de avancar para o future, a Amaz6nia (e, particu- larmente nela, o Parm) caminhou foi para tras, sem perceber, indo agasalhar-se num tempo e num espaco reservados aos que foram derrotados. A derrota ainda nao 6 definitive, ou 6 definitive em al- guns stores (como o aluminio, a ener- gia), mas nao 6 global ainda. 0 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JULHO / 1997 3 Jari: para quem ficara a conta? Passados 15 anos de uma das mais confusas (e nem por isso menos cele- bradas) operag6es de salvamento de uma empresa, comandada por um trio de estrelas (o entVo ministry e hoje de- putado Delfim Neto, o advogado Bu- lh6es Pedreira e o empresario Augus- to Antunes), o governor federal 6 no- vamente convocado para tentar salvar mais uma vez a Companhia do Jari, sucessora do empreendimento do mi- lionario norte-americano Daniel Lu- dwig, que fazia agua em 1982 e agora pode estar em sua crise agonica. Em poucas empresas o govemo co- locou tanto dinheiro quanto na Jari. Em 82 assumiu a divida extema da empresa, de mais de 500 milh6es de d6lares, um bolo que cresceu muito at6 ser quitado, pouco tempo atris. Para nao serem donos da empresa, o BDES e o Banco do Brasil transfor- maram o dinheiro que transferiram para o projeto em a69es virtualmente simb6licas, que lhe deram 64% do ca- pital nao-votante, mas apenas 33% do capital total. O esquema de Bulh6es-Delfim caiu como luva nos bolsos de Antunes. Ele ficou sozinho cor a inica empresa rentavel do grupo, a Cadam (que be- neficia caulim para revestimento de pap6is especiais), e a mina de bauxi- ta refrataria. Com as aq6es da Cadam integralizou sua participagao majoritaria na Jari, enquan- to os outros 22 s6cios precisaram aplicar al- guns troca- dos (nao mais do que US$ 300 mil em tres anos). A justificativa 6 de que o governor, sem competencia para operar o projeto, entregue A iniciativa pri- vada, era o ideal para ar- car com o imenso 6nus finan- ceiro deixado por Ludwig. Mas os beneficios do giro dessa di- vida volumosa ficaram com o gr6prio grupo Caemi, que pode - ter conseguido melhorar o perfil de seu caixa gragas ao desen- caixe do Jari. Enquanto Antunes este- ve vivo o projeto ao menos permane- ceu de p6, ainda que a custa de caras escoras estatais. Quando ele morreu e seus netos assumiram o neg6cio, de- sencadeando uma guerra intema ain- da irressolvida, essa fragil es- trutura comegou a des- moronar. 0 governor tem um cr6dito de US$ 120 mi- Ihoes e outros credores mais US$ 200 mi- S lhes. 0 em- preendimento, sem suprimento de energia e s6 agora se tornando auto-suficiente em madeira, esta desnive- lado. 0 acidente cor a usi- na de energia apenas deu o arremate final na complica- 9do. Agora s6 ha said para o Jari com mais investimento e pesado (de US$ 200 milh5es a US$ 300 milhoes, mais a divi- da). E de onde vira o dinheiro, se puder vir? Quem responder certo ga- nhara uma tonelada de ce- lulose, se a produgo for retomada, como precisa ser, mas a um prego cuja dimensao ainda ndo se sabe corretamente. Como sempre, por6m, nos dramas amaz6nicos, o responsa- vel sumiu e o mordomo ja foi convo- cado para dar as explica65es. * Privatizagao a brasileira Os privativistas comemoram: foi o segundo maior agio pago pelo arre- matante de uma ferrovia federal, de 37,86% sobre o lance minimo esta- belecido pelo BNDES. Mas o que sig- nificam os 15,8 milhbes de reals pa- gos no dia 18 pelo cons6rcio Manor para ficar com a Malha Nordeste da Rede Ferroviaria Federal, a ultima a ser vendida? Aparentemente, era um trambolho que o governor deveria descartar at6 de graga. A malha Nordeste, com seus 4.679 quil6metros interligando preca- riamente oito Estados nordestinos, dava prejuizo annual de R$ 50 milh6es e ha muito tempo estava corn patrim8nio ne- gativo. Sua linha de bitola estreita ndo atraia carga, nem oferecia seguranga aos que tentavam usA-la. Parecia con- denada a morrer de inanigao. Era tanta a vontade de livrar-se dela e tdo pouca a confianga em seu valor que o cons6rcio vai poder pa- gar os R$ 15,8 milh6es em 109 par- celas. Nos pr6ximos 15 anos investi- ra outros R$ 140 milh6es na ferrovia para melhorA-la. Deve ir at6 al6m: patinho feio para o govemo, a malha Nordeste terA fungdo estrat6gica para seus novos donos. A 120 quil6metros de Sao Luis, um de seus pontos extremes, ela se co- necta A ferrovia de Carajas. Com isso, o minerio de ferro paraense podera se- guir, em um inico modal ferroviArio (e nio tendo que ser transbordado para navio, seguindo pela costa), desde a mina at6 o porto de Pec6m, 8s proxi- midades de Fortaleza, no Ceara, onde a Companhia Vale do Rio Doce esta construindo a primeira grande siderur- gica do Norte e Nordeste. Em Pec6m tamb6m esta surgindo a Metalic, a fAbrica de latas do gru- po Vicunha, que tem 40% das ao9es da ferrovia, enquanto a CVRD pri- vatizada possui outros 20%. A Com- panhia Siderfirgica Nacional (tam- b6m privatizada), que entra na side- rurgia nordestina, control 20% e o Bradesco (no imbroglio da Vale), os restantes 20%. E assim os cart6is vio se reforgando e o que apenas pare- cia ser latao pode acabar se toran- do ouro mesmo. Coisas da privatizagao a brasileira. 1 4 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JULHO / 1997 A nova frente dos barbaros Antes de tomar posse, o governador Almir Gabriel fez uma longa viagem i Malasia, sua inica incursao internaci- onal at6 agora. Nao foi recreio: ao co- mandar uma alentada comitiva ao su- deste asiitico, o goverador estava in- dicando que a Malisia poderia ser um grande parceiro no desenvolvimento do Para. Talvez tenha sido a mais impor- tante visit official feita aquele pais nos uiltimos anos. Mas a hist6ria ainda vai cobrar essa responsabilidade do gover- nador, quando ela for adequadamente avaliada. A hist6ria official assegura que o sal- do ja 6 e sera cada vez mais positive. Atendendo ao apelo do Para, os malai- os estao trazendo para ca suas poupan- 9as e investindo em agriculture, extra- tivismo e agroinduistria, dend8 e ma- deira como linha de frente. Assim, con- tribuirao para incrementar a moderni- zagdo do setor primirio e agregar va- lor a atividade produtiva. Mas e se o govemador tiver apenas aberto o caminho para uma frente eco- n6mica ainda mais feroz (por combi- nar os mesmos objetivos especulativos cor uma revitalizada capacidade tec- nol6gica e financeira) do que as cha- madas frentes pioneiras? Se o gover- nador, cor todas as famosas boas in- ten9es de sempre, tiver sido usado por um poderoso lobby de interesses, al- guns deles situados a sua ilharga? A ret6rica do desenvolvimento pode ter sido usada apenas para disfargar a ve- lhissima pilhagem de recursos naturais, emoldurada por prospects de agroin- diistria apenas para ingl8s ver. Este journal teve o triste privilegio de ser o inico a noticiar o primeiro embarque de madeira amaz6nica para a Malasia, em 1995. O fato tinha uma enorme relevincia: as fontes de ma- deira tropical no sudeste asiatico es- tavam realmente se esgotando, a des- peito de toda a propaganda em torno do desenvolvimento auto-sustentavel. As reserves amaz6nicas iriam deixar de ser apenas uma refernncia distant, relative ao future. Comecariam a ser usadas para valer. O que fazer? Fechar a fronteira? Certamente nio. Mas controla-la, nao no sentido as vezes apenas policiales- co que Ihe da o Ibama, cujos resulta- dos mais notaveis tem sido relat6rios irreais e corrupcao (esta, bem real). Corn investimento em tecnologia e op- c~o political para valer em favor da flo- resta na Amaz6nia. Sair do faz-de-con- ta que reduz a uma proporcgo ridicule o que se aplica no melhor conhecimen- to da floresta e no seu uso inteligente. Os malaios chegaram de vez, pre- cursores de uma nova onda que pode nos afogar, e continuamos na era ex- trativista, na fase do palavr6rio ofici- al inconsequente e na conversa-para- boi-dormir dos que falam, usando pa- lavras sofisticadas, em nome dos es- peculadores, camuflando a realidade. Os malaios devem estar certos de que nao precisam agir aqui diferen- temente do que faziam na Asia. La, eles tinham uma arvore de ouro, a teka. Destruiram-na, quase. 0 que temos de melhor por aqui para im- pingir-lhes um enredo diferente? Mesmo porque a regra do mercado e essa mesma: criar um incident juri- dico e, com base no prolongadoo sub-judice que nosso judiciario cos- tuma proporcionar, criar uma situa- cao de fato e ir extraindo madeira. Temos uma amostra gratis de bom padrao novo no Tapaj6s. Sempre que o faz-de-conta precisa ser mais impres- sionavel, recorre-se aos abnegados pes- quisadores, sempre divividos entire epocas de vacas magras e magerrimas, e insinua-se um projeto experimental. Pode ser at6 que, desta vez, o experi- mento cresca, mas sera um pingo d'agua no oceano do simples corte raso de madeira e o ajuste do beneficiamen- to, adaptado para as novas condigSes e para o custo do frete international. O que vai acontecer na Amaz6nia, se esse quadro nao for drasticamente modificado, 6 apenas a multiplicagao da escala da destrui9ao, com algum re- finamento tecnol6gico. Se isso acon- tecer, o governador Almir Gabriel tera tido um papel exatamente contrario ao que Ihe atribui a historia official e nada edificante para a sua biografia. 0 Com os mesmos erros nas bordas do paraiso Em outubro a CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerals) vai licitar uma jazida no Amazonas que represent um caso mineral exemplar. A mina fica muito long de qualquer presumivel mer- cado consumidor do bem, quase na fron- teira do Brasil cor a Venezuela. O valor atribuido ao deposito e pequeno, de 600 mil reals. Vencera quem der maior percen- tual a partir do royalty minimo de 3% co- brado pela CPRM. Mas ja ha uma corrida atras do leilao. O objetivo 6 uma jazida de ni6bio supe- rior a 80 milh6es de toneladas, o suficiente para mais de 500 anos de explorago. O Brasil fomece 97% do ni6bio consumido mundialmente para a produgAo de agos es- peciais. A mina amazonense n~o s6 pode- ri varrer o que ainda subsist de aparencia de competiiAo, como apresenta uma van- tagem que talvez nem seja complementary, mas essencial: o ni6bio aparece associado a outros minerals, entire os quais terrs ra- ras, o lutecio (utilizado pela indfistria de computadores e telefones celulares) sendo a mais car delas. Ha ainda outras condigqes especiais re- sultantes da localiza~go da jazida. Ela esta sob tripla protecio: 6 area de preservacgo, por se encontrar no Parque Nacional do Pico da Neblina, na reserve biol6gica dos Seis Lagos, por ser habitada por indios e por se encontrar na faixa de fronteiras. Apesar de tudo isso, a CPRM estA prepa- rando o leilao de outubro sem se importar com tais complicadores. A consultoriajuridica da empresa, quan- do questionada a respeito pelos interessa- dos, limita-se a encaminha-los ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovaveis) e a Funai (Fundaq o Nacional do Indio). Ou seja: prevalece a velha mentalidade buro- cratica obtusa, responsavel por tantos ma- les, na abertura de mais uma frente pionei- ra na Amaz6nia. Trata-se de uma das mais belas areas da regiio. Na decade de 70, o Radam (Radar da Amaz6nia) revelou que no morro dos Seis Lagos estava uma das muito ricas cha- mines alcalinas da Amaz6nia, nas quais vulc6es extintos reservavam riquezas mi- nerais varias. Duas decadas passadas ain- da nao foram o bastante pam viabilizar eco- nomicamente essas usinas minerals, mas o moment parece comear a chegar. A abordagem, por&m, tern que ser feita com cuidado e discemimento, de preferln- cia cor aquela visio de conjunto a qual ago- ra da-se o titulo de holistica (pode nrio ser correto, mas 6 bonito). t um absurdo que a abertura dessa fiente se faia apenas pelo in- teresse mineral, comandada por um 6rgao setorial como a CPRM, que acha possivel separar as instincias segundo a compet-n- cia burocrftica de cada instituigao. Sera que nao aprendemos nunca, mesmo quando as bordas do pamiso, como na distant e ma- ravilhosa regiao do Pico da Neblina? * Adeus, irmao Ira Diz a lenda que, em meados da d6ca- da de 30, um daqueles poucos funcio- narios que deambulavam pelo Palicio Lauro Sodre antes da multiplicago dos cargos, feita a partir dos populistas anos 80, ao abrir uma das gavetas onde eram colocados os processes la encontrou tamb6m um beb8 trajando palet6 e gra- vata, usando 6culos, cor um mayo de papel debaixo do brago e segurando um guarda-chuva. Diz a mesma cronica que assim, gri- tando ao ser surpreendido em seu esca- ninho pelo amanuense desatento, veio ao mundo o cidadao Irawaldyr Waldner de Moraes Rocha, nome pomposo ade- quadamente reduzido pelos amigos para o intimista Ira este, alias, um estado de inimo nao de todo estranho ao nos- so as vezes iracundo personagem. A historia, claro, 6 imaginmria, mas serve para definir a personalidade e a hist6ria de Irawaldyr Rocha, prematu- ramente falecido no m8s passado, aos 62 anos. Antes de tudo, ele foi um ser- vidor public, um exemplar profissio- nal do servico piblico, um talent que as vicissitudes da provincia e as circuns- tancias do home nao permitiram que desabrochasse por inteiro. O potential ficou apenas meio utilizado, bloqueado antes do tempo natural disponivel, mas o que Irawaldyr fez nesta terra foi o bas- tante para estar eu aqui lamentando seu fim, um fim sofrido injustamente pro- longado. Irawaldyr foi precoce como lider es- tudantil, como politico e como profes- sor, variantes de suas habilidades que convergiram para um ponto comum, atrav6s do qual tornou-se um dos mais brilhantes tecnoburocratas do Para. O termo pode parecer palavrio, ou, de qualquer maneira, desajustado na apli- cago A maioria das carreiras feitas no service piublico. Mas em Irawaldyr caia como uma luva perfeitamente ajustada. Ele nao se envergonhava de ser barna- b6, para usar uma expressao do passa- do. Ao contrario, honrava essa fungio por desempenha-la cor a maxima cor- rec~ o possivel, dentro dos parimetros e da cultural da burocracia brasileira. Nao escapava de um dos pecados da administragao piiblica: a mordomia. Mas Irawaldyr nao escondia (como fa- zem muitos fariseus) sua afeicio ao usufruto das vantagens conferidas aos cargos que exerceu. Sinceramente, con- siderava esses privil6gios, que, costu- mando estender-se ao odioso nepotis- mo, acabam por tornar-se um pesado 6nus para o erario, nada mais do que uma compensa~ao pelas agruras impos- tas aos que verdadeiramente atuam em nome do pfiblico e em seu beneficio. O carro official acompanhando-o para onde fosse, o custeio das despesas de representag~o e da solenidade maxima dada aos atos oficiais que praticava, disso ele nao abria mao. Os amigos que convivessem cor esse desvio, se as- sim o considerassem. Irawaldyr foi, entretanto, um home honest no trato do dinheiro public confiado a sua responsabilidade. E o foi durante muito tempo, diante de volume apreciavel de dinheiro. Nao foi o ho- nesto obtuso, beirando a burrice alvear, como costumam ser alguns Cataos, que caem compulsivamente nessa virtude por falta de qualquer outra, nela se con- gelando. Foi honest e eficiente, um aplicado servidor dos que Ihe delega- ram cargos de confianca. Lembro do segundo govemo de Ala- cid Nunes, quando o efetivo da asses- soria especial, que hoje aproxima-se novamente da inimaginavel (e inaceita- vel) barreira do meio milhar, dependia apenas dele, do general Rubens Vaz, do jornalista Aldo Almeida, do escritor Machado Coelho e do major Alaudio Melo (os dois fltimos, ainda vivos). Talvez a visao limitada de Alacid res- tringisse sua assessoria, mas ela funcio- nava e pagavamos pouquissimo por ela. 0 element de ligagio e sustentaaio dessa equipe era o Irawaldyr, corn to- dos os seus extremes e paixoes, mas justamente por eles. Por essas virtudes pdiblicas e pelas qualidades privativas de companheiro, do belo companheiro das conversas lii- dicas que subvertem as regras do espa- co e do tempo, colocando ao nosso al- cance os beneficios da convivencia hu- mana, deixo aqui este registro-de lamen- to e de saudade pela perda dessa bela figure que foi Irawaldyr Waldner de Moraes Rocha. * Um arquivo mortissimo Em maio de 1992 o Tribunal de Con- tas do Estado recomendou a nio apro- vagao das contas do ex-governador Hlio Gueiros relatives ao exercicio de 1990. Um mis depois o plenario da Assembl6ia Legislativa acolheu o pa- recer pr6vio do TCE e, por maioria, aprovou a rejeigao. A partir dai, cabia simplesmente a Comissao de Consti- tuigao e Justica da casa indicar as pro- vid8ncias a serem adotadas para dar consequEncia pratica a media. Mas o que era mera agio executive transfor- mou-se num dos maiores exemplos da inciiria do legislative estadual. Tr8s relatores, a procuradoria juridi- ca e o vacuo se alternaram nos 1.700 dias seguintes, sem conseguirem pro- duzir qualquer parecer. Em maio deste ano, finalmente, brotou o parecer, re- digido pelo primeiro dos deputados indicados para a tarefa. Em setembro de 1993 Zeno Veloso havia se consi- derado incompatibilizado com a mis- sao porque, em plenario, votara pela aprovaoao das contas de Gueiros, sen- do vencido pela maioria. Mas ao rece- ber de novo o encargo, em fevereiro deste ano, nio mais o afastou de si. Deu parecer pelo arquivamento do proces- so. Alegou o parlamentar, tamb6m pro- fessor de direito, que, passados quase cinco anos de in6rcia, nao hA mais pro- videncias a adotar. No period, Guei- ros teria vencido as quest6es judiciais suscitadas a prop6sito de irregularida- des em suas contas e que os fatos apon- tados foram alcanCados pela prescri- Oio. Ou seja: a decisao da rejeigao das contas nio tera consequEncia alguma. O deputado Jose Carlos Costa ainda tentou evitar o rumo desonroso dos ar- quivos com um parecer paralelo, cheio de raz6es, ainda que mal redigido. Mostrou que os julgamentos favoraveis a Gueiros em varias instancias judici- ais referiram-se a fatos distintos. do analisado pelo TCE. Neste, era a A9go Social do Govemo, usada na famosa campanha "Caminhando cor o Povo", que teve seus procedimentos rejeitados. Nos outros, eram a Celpa e o Banpara. Al1m disso, varios dos delitos decor- rentes da irregularidade apontada pelo TCE (dispensa indevida de licitagao piblica) poderiam ser apurados e nio estavam acobertados pela prescri9go. Mas a AL, ignorando sua decisao de cinco anos antes, preferiu arquivar o process, dando a impressAo de consi- derar a si pr6pria como um vasto, em- bora nio-declarado, arquivo morto. * 6 JOURNAL PESSOAL 2* QUINZENA DE JULHO / 1997 A duplicacgo da linha de transmis- sao de energia entire Tucurui e Bel6m nao sera coisa para este s6culo, nem para os anos iniciais do seguinte. Ape- sar de toda a conversa sobre o inves- timento nessa linha singela, funda- mental para dar seguranga a maior ci- dade da Amaz6nia e o maior consu- midor individual de energia do pais (a Albras), o governor federal preferiu aplicar quase quatro vezes mais di- nergia: go out nheiro (ou 738 milhies de reais) re- do a fung~o de Tucurui de exportadora forgando a interligagao entire o Norte de energia (e a nossa, de col6nia). O e o' Sul. investimento, com recursos garantidos Esse dinheiro, tornado emprestado pelo governor, vai tornar ainda mais ren- junto ao BID (Banco Interamericano de travel a segunda etapa de Tucurui, que Desenvolvimento) e ao Eximbank do devera ser executada pela iniciativa Japao, vai viabilizar uma nova linha particular sob regime de concessao ou entire Imperatriz, no Maranhao, e Mi- diretamente, caso a Eletronorte venha racema, em Tocantins, com 517 quil6- a ser privatizada. metros de extensao (a Tucurui-Vila do Nada como o governor prevendo o Conde-Bel6m tem 380 kms), reforgan- future para os outros. 0 Gisela Pires do Rio enviou a este journal a seguinte carta: "Venho por meio desta expressar meu desacordo com algumas das informaq9es contidas na materia 'Tucurui: o custo da corrupqdo segundo depoimento hist6ri- co', publicada no Jornal Pessoal ano X nfmuero 164, paginas 6 e 7. A origem dessa mat6ria foi, segundo suas pr6prias palavras, 'a sintese das declara95es de Eliezer Baptista dada a jornalista Gise- la Pires do Rio'. Sem entrar no merito de como esse material chegou as suas maos, pois pre- firo acreditar que o obteve por interme- dio de uma fonte mais inadvertida do que propriamente caracterizada pelo seu mau-caratismo, esclarego que a sintese na qual o senhor se baseia para produzir tal artigo constitui, na verdade, mat6ria bruta de um projeto de pesquisa. Como ao jornalista 6 concedido o beneficio de produzir comentarios a la l4gere, nao causou-me surpresa o fato de jamais ter sido consultada a 6poca da elaboragdo de tal mat6ria. Resta-me lamentar a levian- dade de tal procedimento. Posso, no entanto, requerer que, ao usar um material por mim produzido, o senhor informed corretamente seus leitores. Nao sou jornalista. Sou professora-pesquisado- ra do Departamento de Geografia da Uni- versidade Federal do Rio de Janeiro, nao tendo, portanto, compromisso algum com 'confiss6es' de efeito que possam aumen- tar a tiragem de qualquer informative. Assim, espero que o senhor retifique a 'in- formagCo' de que sua mat6ria teria por base uma entrevista realizada por uma jor- nalista, reproduzindo esta carta, na inte- gra, em seu informative". N. da R. Na ultima linha da carta da dra. Gisela veio-me logo d lembranga o livro de Jacobby sobre o fim dos intelec- tuais piblicos. Lamentava ele que os in- telectuais houvessem deixado bares, bo- tequins e ruas para enfurnar-se nos cam- pi universitarios, onde suas preocupa- ,oes converge para a carreira, e qua- se s6 ela. Tem sido esta a privazizagdo dos intelectuais, por enquanto ainda ndo uma iniciativa do nosso principle. Dei- xaram as preocupagoes com a coletivi- dade e foram tratar de suas teses, sem as quais os campos de capa de manitu e o nirvana estdo interditados. Neste sentido, ndo sou um intellectual como a dra. Gisela. Sou um jornalista que jd se guiava por uma just frase de Ber Bagdkian, velho e decent jornalis- ta, antes mesmo de a ter lido: "Aquilo que e noticiado passa a fazer parte da agenda pbblica. 0 que ndo e noticiado pode ate ndo estar perdido para sempre, mas pode estar perdido para a epoca em que e mais necessdrio". Quando a entrevista da dra. Gisela chegou-me as maos, tomei um choque: finalmente um personagem official, corn a importdncia do (tambem) doutor Elie- zer Baptista, admitia o que vinhamos denunciando e procurando comprovar hd tempos: a corrupgdo na obra de Tu- cutui, que multiplicou seu custo final (de US$ 2,1 bilhoes para algo em torno de US$ 9 bilhoes) e redrobrou as agruras do pais para pagar o prego inchado da maior obra publica de toda a hist6ria da Amaz6nia (a segunda maior do pais), aldm de suas consequOncias sobre o sub- sidio tarifdrio a mamutes como Albrds e Alumar (mais uns US$ 2 bilh5es). Eu nada sabia sobre a dra. Gisela e afonte, boa fonte, idem. Mas sugeriu que fora entrevista dada a uma revista semanal, da qual resultara aquele re- sumo. Acreditei ser mesmo resume: ndo me passava pela cabega que uma pes- soa, qualquer pessoa, academica ou nqo, ouviria o doutor Eliezer admitir a corrupgdo sem perguntar-lhe ao menos quem fizera a corrupcdo, ou a quanto supunha que ela montava. 0 silincio diante da declaraCgo poderia ser ate educado, mas seria impatri6tico e nada inteligente, se por imneligencia en- tende-se a qualidade de procurar des- cobrir e encarar a verdade, esancaran- do-a quando necessdrio. Isto ndo passa de jornalismo, ou de observaqdo 6 la ldgere, para usar a ex- pressao superior (francesa, comme-il- faut) cor a qual a doutora Gisela nos encara, supostamente do alto de sua me- lhor sabedoria. Que seja, mas, como alerta o critic americano da comunica- Cqo, nosso ever e transferir imediata- mente essa informagdo ao leitor, enquan- to ele pode transformd-la em agdo. Nunca tive o prop6sito de prejudicar o andamento de um robusto trabalho academico,como o que se prenuncia da lavra da doutora Gisela, nem deixaria de consultar a autora, se soubesse quem ela era. Mas minha informaado era de que aquele material era o esqueleto de uma entrevista publicada dois anos antes. E se a doutora Gisela estd aguardando hd qua- se dois anos para que, em future ainda incerto e ndo sabido, amaduregam as con- digoes para que sua tese venha ao mun- do, entdo lamento have-la atropelado com um servigo de relevant interesse ptbli- co: entregar as declaraCoes do doutor Eli- ezer a sociedade, o mais rdpido que eu pude fazer na tentative (talvez vd, sim, doutora Gisela, mas e nosso dever traba- lhar com a palavra mal comega a manhd, ia maneira de Carlos Drummond de An- drade) de que esse crime ndo passe im- pune, como tantos outros, inclusive com a conivencia ou a omissdo de academi- cos, como o sapientissimo "herr" Heide- gger na Alemanha nazista Ndo concordo que a materia deste "in- formativo" tenha sido sensacionalista, mas, como em todas as outras matirias, quem fard a prova dos nove serd o pTbli- co, a quem espero continuar a servir com a aJuda de minhas fontes, voluntdrias ou ndo, conscientes ou ndo, como acabou sendo age6grafo e ndo jornalista, acho que jd nao e mais precise sublinhar Gi- sela Pires do Rio, cujo nome, qualifica- Cdo e meritos prometo jamais voltar a cometer o pecado mortal de esquecer. X : .. .... ......... ....... xxxxx: XX X...... XXX: X: :xx: x. x : ................. ............. ,X .......... ...... ................ JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JULHO / 1997 7 A Amaz6nia que se foi: um projeto a realizar A Amaz6nia poderia ter-se tornado realmente um pais independent duran- te a Cabanagem? A pergunta vai per- manecer como uma especulagao at6 que documentagao mais s6lida permit dar- lhe resposta definitive, se isso foi pos- sivel algum dia. Por enquanto, tudo nio passa de refer6ncia a partir do registro que um contemporineo, o Bario de Guajara (Domingos Antonio Rayol), fez em seu classico "Motins Politicos", ainda hoje, quase um s6culo e meio depois, a principal fonte documental sobre a revolta (revolugio?) cabana. A Cabanagem persiste sendo uma esfinge, inesgotavel na formulacgo de quest6es, mas incapaz se provocar um estudo satisfat6rio, apesar da riqueza do fen6meno que levou ao poder, ali o mantendo por um period de tempo apreciavel, o primeiro governor efetiva- mente popular do Brasil. Nao falta mitologia. Eduardo No- gueira Angelim teria recusado o inci- tamento de um military ingles, o capi- tdo C. B. Strong, para separar a Ama- z6nia do Brasil, proclamando a inde- pend8ncia da regiao e tornando-a uma esp6cie de vice-reinado ingles. O pr6- prio Angelim teria contado essa hist6- ria a Rayol. Reconstituido pela neta, Dilke Bar- bosa Rodrigues, Angelim seria um po- litico culto, que teria se inspirado nos iluministas para formular a utopia de uma Repfiblica nos tr6picos. Nao esta- ria perdido no meio da pura revolta "dos que tem contra os que nao tem", uma radical luta de classes destituida de qual- quer sofisticagao de id6ias, na visao de um alemio sensivel, Heinrich Han- delman, que escreveu sobre a Cabanagem sem sequer haver visitado o Brasil. Separar o joio do trigo exige competEncia, tempo, aplica- qdo, acesso a arquivos e verbas de sustenta- 0ao, mas, A falta desses elements, o escritor Marcio Souza tentou captar a riqueza de 70 anos preciosos na hist6ria amaz8- nica (1780 a 1845) atrav6s da fic9oo. Langou no mrs passado Lealdade (Edi- tora Marco Zero, Sao Paulo, 207 pagi- nas), o primeiro romance de uma pla- nejada tetralogia. E e nao e propriamente um ro- mance hist6rico. Sua maior falha jus- tamente a indefini9ao. Marcio nao pa- rece ter tido tempo suficiente para uma pesquisa s6lida, con a qual faria uma reconstitugiao de 6poca correta e teria materia prima para a recriaao ficcio- nal. Ficou a meio caminho de tudo. O personagem principal, Fernando Si- moes Correia, 6 fraco, inconsistent como todos os demais. A trama 6 in- verossimel: o paraense Fernando fica muitos anos em Portugal, enquanto se forma em engenharia military e chega A patente de tenente. E filo-lusitano, "perfeito sudito, um complete vassalo da monarquia portuguesa". Mas aceita retornar a Bel6m quando as tropas na- pole6nicas chegam a Lisboa numa con- fusa missao separatist, que nunca se esclarece. E mant6m a duplicidade de separatist e reinol na provinciana ca- pital dos paraenses, circulando en- tre os dois grupos antag6nicos sem provocar suspeitas. Nao 6 s6 o enredo inconsistent que prejudice o livro como obra li- teraria, outra vez (como nos mais recentes romances de Mar- ^ : cio) claudicante no texto. At6 mes- mo informa- Soes essenci- ais a sustentagao do quadro de epoca e da geografia claudi- cam. Fernando precisa de apenas dois dias para uma viagem de Belem a Ori- ximina, de sumaca, e de nao mais do que oito ou nove horas para ir e voltar de Oriximina a boca do Trombetas re- mando sua piroga. Por agua, nem hoje isso 6 possivel. A press parece ser a causa princi- pal da impressao de improvisagao que Lealdade transmite ao leitor mais aten- to. Marcio nem nos traz de volta (ilu- minados pela recria9ao) aqueles deci- sivos anos da passage do despotis- mo esclarecido a tentative de autono- mia national (ou regional), nem nos proporciona o prazer estetico que a li- teratura possibility, dois moments ele- vados que, recentemente, Haroldo Ma- ranhao alcangou em Tetraneto d'el Rei e Cabelos no coragdo, sumas de ro- mance hist6rico e ficcao. Como o estimulante projeto de Mir- cio abrange uma tetralogia, ele tera mais tres oportunidades para concretizar o que anunciou. Por enquanto, a esfinge continue solitaria e insatisfeita. 0 . . . .. . .. . . . . . .... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... . . . .. . ..... . .. ... . ....... . ............................. XX ....... . . t a r i s :m a i ....... . ....................... ........... .... .... ........... ... .. . . . . . . . . . ............... J oao Pedro St6dile, um dos princi- pais lideres do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Ter- ra), nao compareceu a uma mesa-redon- da na rec6m-encerrada 49' Reuniao Anu- al da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci6ncia) porque, ao inv6s do ministry Raul Jungmann, que estava previsto inicialmente, o outro convidado do encontro passou a ser o president da UDR (Uniao DemocrAtica Ruralista), o fa- zendeiro Roque Roosevelt dos Santos. St6dile disse que a UDR "6 uma or- ganizagao paramilitary, cujo objetivo principal 6 destruir o MST e 6 respon- savel pelo assassinate de trabalhadores rurais". Criticou os organizadores da SBPC por nao pereceberem essa incom- patibilidade: "Se nossa universidade fosse menos acadnmica e mais popular, seria mais facil eles entenderem porque n6s nio debatemos com essa gente". A attitude intolerante de St6dile evi- dencia o rango milenarista que costu- ma distorcer as agbes do MST. A gran- de virtude do movimento foi estar dis- ponivel aos abandonados lavradores brasileiros num moment de necessida- de, persistindo ao lado deles, apesar das dificuldades enormes que enfrentam diante de uma elite insensivel ao seu drama, e agindo com competencia. Mas o MST revela o sectarismo dos que t6m uma visAo pre-determinada da realida- de, ajustando-a aos seus principios e objetivos. Sao dogmaticos, portanto. Se MST e UDR estio em campos dis- tintos e antag6nicos no espago politico e social, nada os impede de enfrentar-se no confront de id6ias, que tem seu terreno privilegiado no campus universitario. A UDR e uma organizacgo legal, corn uma definig9o politico-ideol6gica tao nitida quanto a do MST. Se atua para- militarmente e est6 envolvida em assas- sinatos, deve ser punida, mas na medi- da da comprovagao de sua participag9o. St6dile nio 6 arbitro de nada, nem ins- tancia final. Sabemos o que result de tal presunglo, mesmo quando invocada pelos mais nobres prop6sitos. Ate os inimigos, se pressupoem o enquadra- mento legal, podem confrontar suas id6ias. Isto favorece a avaliahao da opi- nilo public. E 6 assim que se fortalece a democracia, na manifestagao dos opostos e na garantia a controversial. 0 Fim de linha Francisco Schettino dei- xou a presid8ncia da Com- panhia Vale do Rio Doce, que ocupou durante quatro anos e meio (a mais longa gestao desde Eliezer Baptis- ta, que ficou sete anos), anunciando como uma de suas principals realizao9es ter reduzido o quadro de funcionarios de 35 mil para 15 mil. Para chegar ao total enxugamento exigido pelos novos donos da estatal res- tariam ainda duas mil demis- soes. Ora, se uma estatal cor- tou tao fundo na pr6pria came e eliminou as vastas gorduras que possuia (a des- peito das quais nunca parou de ser rentavel), por que pri- vatizA-la? Na verdade, a Vale nao perdera apenas mais dois mil empregados: perdera a sua hist6ria, a po- sigio especial que conquis- tou no mundo dos neg6ci- os. Schettino deve ter per- cebido finalmente isso quando nao havia mais re- torno e a cabe9a de Joao Batista ja estava na salva de prata de Salome. Tendo de- dicado sua vida professional a essa empresa, saiu sem o minimo que seu curriculo o autorizava a cobrar dos que o sucederam: respeito. Novo front Os brasileiros seriamente empenhados com o future do pais devem dar atencao a um novo front na guerra das privatizac6es: e o que se formou no Cade, o 6rgao governmental que deveria evitar a formagao de cart6is. La estao sendo instruidos processes tentando desvendar o emaranhado de elos que podem pear o tal livre mercado em consequ8ncia das privatizag6es. 0 Brasil esta readquirindo, em versao atualizada, uma image do passado: o das capitanias hereditarias. S6 que nao mais hereditarias: elas passam a ser concedidas por ato de imperio. Seriedade Numa entrevista mais longa que concede na semana passada a A Provincia do Pard, o prefeito Edmilson Rodrigues deu a impressao de que continue emocionalmente em cima do palanque, embora ja tenha incorporado alguns vicios do exercicio do poder, como o de ver a realidade pela 6tica da propaganda official e sempre ter um argument, mesmo que falso, para se opor is critics, quando o correto seria reconhec6-las e delas tirar proveito. A conversa corn a reporter nao foi leal e franca, mesmo que entrevista A imprensa nunca seja propriamente um atalho para a verdade. O prefeito tern que se conscientizar, enquanto ainda e tempo, da natureza do cargo que ocupa. O povo v6 o chefe como chefe. E claro que alguns abusam da solenidade do cargo e da autoridade dele decorrente, trocando os meios pelos fins. Mas a total informalidade conferida por Edmilson nao faz bem a ele, ao partido e ao povo. Talvez at6 seja uma forma de livrar-se de parte das responsabilidades que Ihe cabem. Entre elas, a de ser respeitoso, mesmo diante de adversarios. E o fim da picada ver o prefeito de Bel6m tratando o president da Repiblica de "Fernandinho". Como diz, corn toda razao, aquela bela muisica, "quem semeia vento, colhe tempestade". 0 Edmilson, nao esta na hora de ser serio? Ou voc6 quer estabelecer urma linguagem de geral de campo de futebol? Dedo do gigante O novo diret6rio regional do PFL e um condominio fechado comandado pelo ex- prefeito H6lio Gueiros, ao qual s6 o seu s6quito tern acesso, cor uma abertura para Romulo Maiorana Jr (para vir a fazer parte da cha- pa majoritaria?). A manuten- 9io do ex-governador Ala- cid Nunes foi um toque de sadismo tipico de Gueiros. E para humilhar um pouco mais o aliado descartado. Estrategia ParA ja tem seus projetos estrat6gicos, que, em sendo estrat6gicos, devem ser de long prazo, capazes de mu- dar o perfil do Estado. Ne- les serao gastos 160 milh6es de reais, que devem ter sido (e ainda serao) economiza- dos com parcim6nia. O di- nheiro comeca a ser gasto neste mes de agosto e vai ir- rigar a horta at6 julho do pr6- ximo ano. Por mera coinci- dencia, 6 claro, em period eleitoral. Entao ta, doutor Almir. Journal Pessoal Editor: L6cio Fltvio Pinto RedagVo: Passagem Bolorha, 60-B 1 6 063-020 Fone: 223-1929 e 241-7628 Conlato: Try. Benjamin Constant. 848203 16 0653-020 Fan: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editoragio de arte: Luizpe / 241-1868222-8238 No bolso O capitio Walber Mar- ques recebeu oito mil reais para tenderr despesas miu- das de pronto pagamento" feitas pelo vice-governador H6lio Gueiros Jr em Sio Paulo durante os dias em que estivesse no Congresso Fe- nasoft, na semana passada. Isso, independentemente das diarias e passagens a que o vice e seus tr8s acompanhan- tes tiveram direito para ir A capital paulista. A viiva que se arranje. Obrigadissimo Quro agradecer trazedo essa gratidio do mais bem protegido escanrho do cwrebro e do coraqio, as homenagens dos amigos in pectoris pelo recebimento do pr&tio Colombe d'oro per la Pace. A jornada comc.ou co umn agradabilissimo jantar no Omro (s6 nio perfeito porque Ana Maria Mamrtns no estava em Beo6m). Estendeu-se a out-doors espalhados pela cidade cor o belo anonmiato dos verdadeiramente amigos. E so completon com teegramas e telefonemas que rcebi. Foi muito mais do que merecia. Obrigado, carissimos amigos. Equivoco A mudanga no diret6rio, antes ecl6tico, agora mono- craticamente gueirista, teria transformado o PFL do Para na "noiva do ano", segundo o pai assumido do cometi- mento, o deputado federal Vic Pires Franco. A noiva, disse o parlamentar a A Pro- vincia do Pard, "esta recep- tiva, mas vai analisar todas as propostas cor tranqiili- dade". Quem se dispoe a ficar recebendo esse tipo de pro- posta e anuncia que ira con- fronta-las antes de decidir corn quem consumara o ato nao pode ser chamada pro- priamente de noiva. |
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