Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00116

Full Text





Jornal Pessoal
L C I 0 F L A V I P I N TO
AN.b X L] 2 IUI ZEN A DE JI L O DE]'1997 R$ 2,00


(Pg. 6)
a.
Mata-borrjio
nasconts sujias
deGueirosl
AMrg 5)


CARAJAS


As ligoes de 30 anos

A hist6ria da maior provincia mineral do planet revela a
incapacidade de um Estado como o Pard de encontrar um caminho
melhor para a utilizacdo de suas riquezas naturals.
Uma geraqdo foi derrotada. Nova derrota espera os paraenses-- -
no ciclo que comega, ainda mais important do que o aizd a
,, ,


Provincia Mineral de Cara-
jas, a maior do mundo, esta
completando 30 anos de
vida. Pode-se tomar como
referencial o dia 31 de julho
de 1967, quando o jovem
Ye6logo paulista Breno Augusto dos
Santos, hoje president da Docegeo (a
;ubsidiiria da Companhia Vale do Rio
Doce para pesquisa geol6gica), pousou
,S


com seu helic6ptero ao lado de uma
bela lagoa perene, na Serra Sul.
A aterrissagem foi involuntiria, pro-
vocada por um problema no aparelho.
Mas Breno fez um reconhecimento da
area, coletou amostras e, quando os
resultados vieram, a Companhia Meri-
dional de Minerago, controlada pela
United States Steel, a maior siderdrgi-
ca do planet, ficou sabendo que era


dona do melhor min6rio de ferro que
se conhecia.
Esta 6 a data official de uma das mais
notaveis faganhas da geologia em to-
dos os tempos. Mas outros parimetros
podem ser adotados, como o do ano
anterior, quando outra multinational, a
Codim, fez a primeira descoberta de
Carajas: os dep6sitos de mangan8s de
Buritirama. Ou avangando no tem- W


....... I


""~~'







2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JULHO / 1997


- po e chegando a 14 de margo de
1968, quando um primeiro empregado
da CVRD, Jose Eduardo Machado,
chegou a Carajas para avaliar o que a
USS passara a controlar, iniciando um
jogo de presses que resultaria na sai-
da da multinational americana, em
1977, ficando o control da mina em
maos nacionais, como queriam os mi-
litares (e os japoneses?).
Qualquer que seja o ponto de parti-
da, entretanto, o ponto de chegada 6 o
dos 30 anos da revelagao da maior con-
centraao de recursos minerals existen-
te em territ6rio paraense, o aconteci-
mento que mudou os rumos da hist6ria
regional. De Carajas, no ano passado,
a Vale extraiu o equivalent a 800 mi-
lh6es de d6lares em ferro, ouro e man-
gan&s, mas seu faturamento global no
Para chegou a US$ 2,6 bilh6es, contri-
buindo com dois tergos da pauta de
exportacio do Estado.
Esses niimeros terao rapida multipli-
cagao nos pr6ximos anos, tanto no nu-
cleo de Carajas, quanto nos outros em-
preendimentos da CVRD (a receita po-
dera bater em US$ 4 bilhoes na meta-
de da primeira d6cada do novo s6cu-
lo), mas o que isso realmente significa
para o Para?
Quando a corrida para Carajas esta-
va apenas iniciando, o ge6logo Jose do
Patrocinio Motta, da Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Sul, escreveu
um monumental trabalho, em tres vo-
lumes, sobre a economic mineral bra-
sileira, publicado pelo CNPq. Avalian-
do com toda a parcim6nia possivel a
political mineral do inicio da d6cada de
70, Motta observou: "Realmente, a
exportagao de qualquer minerio bruto
ou semi-elaborado implica em empo-
brecimento do pais de origem e o pro-
veito e colhido pelo pais importador".
A constatag~o 6 evidence, mas pare-
ce inevitavel na Amaz6nia. O ciclo do
extrativismo mineral, que sucedeu o
vegetal, tem sido tao ou mais nocivo
do que o antecessor. A regido nao con-
segue responder ao seu grande desafio:
evitar a exportagao de mat6ria-prima ou
semi-elaborados, agregando-lhes o
maior valor possivel no beneficiamen-
to.
Justamente por continuar a ser uma
col6nia de produtos bisicos (incluin-
do a energia), o Para e o Estado mais
prejudicado pela desoneraago das ex-
porta96es dos produtos nio-industria-
lizados, uma iniciativa do governor fe-
deral (para tentar reequilibrar as defi-
citarias contas extemas) que esta agin-
do como bomba de suc9Ao sobre o eri-
rio estadual, sem compensar adequa-
damente suas perdas.


Prevs-se uma quebra tributaria de R$
100 milh6es neste ano, mas ja no ano
passado os efeitos danosos sobre uma
economic primaria exportadora como
a nossa puderam ser registrados. A con-
tribuigio tributaria da Vale, que fora de
R$ 95 milh6es em 1995, baixou para
US$ 78 milh6es no ano passado, de-
vendo cair a um valor inexpressivo em
1997.
Nio apenas o Estado nao consegue
industrializar suas riquezas naturais,
como nada pode fazer para sustentar os
precos de seus produtos primarios. No
ano passado cairam todos os precos
relatives da pauta minero-metalirgica
das exportagSes paraenses, que chegam
a quase 80% do total, fazendo do Para
o s6timo Estado exportador da federa-
Cgo. Mas, como os cofres publicos es-
tao sentin'do, isso nada significa de van-
tajoso.


Q uando a viabilidade do pro-
jeto de Carajas foi definida,
cada tonelada de min6rio
valia entire 25 e 28 d6lares.
Hoje o prego m6dio esta em torno de
15/16 d6lares. Exceto no caso da bau-
xita, a flutuagio tem seguido essa ten-
dencia declinante em relagao a quase
todos os bens de exportagao paraenses,
que apresentam a caracteristica de se-
rem eletrointensivos (ou seja, exigirem
uma demand grande de energia, natu-
ral ou artificial).
Uma apuragao fina das consequen-
cias dessa deteriorac~o relative dos pre-
cos dos produtos, combinada com o
cAlculo das perdas nas relaq6es de tro-
ca decorrentes do nao beneficiamento
do produto ate o grau maximo possi-
vel na cadeia produtiva, chegara a re-
sultados assustadores. Uma pitada de
desespero podera ser acrescida se, a
esses terms de troca, forem aditadas
as perdas financeiras, decorrentes da
amortizago dos emprestimos e do pa-
gamento dos encargos do principal, um
fluxo que talvez at6 seja pior do que o
da atividade diretamente produtiva.
A conclusao desses estudos compa-
rativos certamente sera a de que uma
regido pobre como a amaz6nica estA
contribuindo para aumentar o enrique-


cimento das regi6es ricas com as quais
ela comercia (se a esse massacre eco-
n6mico-fianceiro aplica-se cor pro-
priedade o conceito de com6rcio).
Valeu a pena ter incorporado Cara-
jAs e todo o modelo em relacio ao
qual 6 um emblema ao mercado in-
temacional? Hoje a pergunta 6 vw, mas
a resposta nao e tao ociosa assim. Ao
contrario: surpreende que atW hoje fal-
te uma reconstituicio hist6rica rigoro-
sa e ampla do que foi esse important
capitulo de 30 anos da vida brasileira.
Muitas quest6es decisivas de Carajas
permanecem sem resposta e varias
quest6es sequer foram formuladas.
Alguns exemplos podem ser citados
aleatoriamente. Por que a USS saiu do
projeto? Quando comegaram as esca-
ramucas da Steel corn a Vale e quais
suas raizes? Ate que ponto foi relevan-
te a vontade categ6rica (mas invaria-
velmente voluntarista mesmo) dos mi-
litares e sua geopolitica? Quando co-
mecou o deslocamento do eixo de in-
flu8ncia dos EUA para o Japao? Como
o mercado mundial se rearrumou para
receber o min6rio de Carajis? Qual o
ganho japones cor o ingresso de Ca-
rajas? A recent privatizacao pode sig-
nificar a volta da influencia americana
na area?
As duvidas podem se enfileirar, mas
sair atras delas 6 uma tarefa digna, com-
pativel corn a dimensIo da hist6ria de
tr8s d6cadas de Carajis. Muito prova-
velmente, ao fim desse inventario,
pode-se acabar corn o gosto travo de
derrota na boca. Ao long das iltimas
duas decades, nas quais os "grandes
projetos" iniciaram sua atividade pro-
dutiva, deixando de ser "projetos" (sem
nunca perder essa classificacio, entre-
tanto, nas velhas e recorrentes discus-
s6es academicas), uma geraqio nao
conseguiu tirar o Para de sua triste con-
dicgo de produtor primario de mineri-
os e semi-elaborados, como o lingote
de aliminio, na verdade, 6.
Uma geracao falhou. Um desafio ain-
da maior esti sendo colocado diante de
uma nova geracao, agora que parece
comegar um ciclo de bens mais nobres,
como cobre, zinco, ni6bio, ouro e ter-
ras raras, e a madeira amaznica cresce
de participagio no mercado mundial.
Nesse tempo que passou, a sensacao
que fica 6 de que, ao inv6s de avancar
para o future, a Amaz6nia (e, particu-
larmente nela, o Parm) caminhou foi para
tras, sem perceber, indo agasalhar-se
num tempo e num espaco reservados aos
que foram derrotados. A derrota ainda
nao 6 definitive, ou 6 definitive em al-
guns stores (como o aluminio, a ener-
gia), mas nao 6 global ainda. 0







JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JULHO / 1997 3



Jari: para quem ficara a conta?


Passados 15 anos de uma das mais
confusas (e nem por isso menos cele-
bradas) operag6es de salvamento de
uma empresa, comandada por um trio
de estrelas (o entVo ministry e hoje de-
putado Delfim Neto, o advogado Bu-
lh6es Pedreira e o empresario Augus-
to Antunes), o governor federal 6 no-
vamente convocado para tentar salvar
mais uma vez a Companhia do Jari,
sucessora do empreendimento do mi-
lionario norte-americano Daniel Lu-
dwig, que fazia agua em 1982 e agora
pode estar em sua crise agonica.
Em poucas empresas o govemo co-
locou tanto dinheiro quanto na Jari.
Em 82 assumiu a divida extema da
empresa, de mais de 500 milh6es de
d6lares, um bolo que cresceu muito
at6 ser quitado, pouco tempo atris.
Para nao serem donos da empresa, o
BDES e o Banco do Brasil transfor-
maram o dinheiro que transferiram
para o projeto em a69es virtualmente
simb6licas, que lhe deram 64% do ca-
pital nao-votante, mas apenas 33% do
capital total.
O esquema de Bulh6es-Delfim caiu
como luva nos bolsos de Antunes. Ele
ficou sozinho cor a inica empresa
rentavel do grupo, a Cadam (que be-
neficia caulim para revestimento de
pap6is especiais), e a mina de bauxi-
ta refrataria. Com as aq6es da Cadam


integralizou sua
participagao
majoritaria na
Jari, enquan-
to os outros
22 s6cios
precisaram
aplicar al-
guns troca-
dos (nao
mais do que
US$ 300 mil em
tres anos).
A justificativa 6
de que o governor,
sem competencia
para operar o projeto,
entregue A iniciativa pri-
vada, era o ideal para ar-
car com o imenso 6nus finan-
ceiro deixado por Ludwig. Mas
os beneficios do giro dessa di-
vida volumosa ficaram com o
gr6prio grupo Caemi, que pode -
ter conseguido melhorar o perfil
de seu caixa gragas ao desen-
caixe do Jari.
Enquanto
Antunes este-
ve vivo o projeto ao menos permane-
ceu de p6, ainda que a custa de caras
escoras estatais. Quando ele morreu
e seus netos assumiram o neg6cio, de-
sencadeando uma guerra intema ain-


da irressolvida, essa fragil es-
trutura comegou a des-
moronar.
0 governor
tem um cr6dito
de US$ 120 mi-
Ihoes e outros
credores mais
US$ 200 mi-
S lhes. 0 em-
preendimento,
sem suprimento de
energia e s6 agora se
tornando auto-suficiente
em madeira, esta desnive-
lado. 0 acidente cor a usi-
na de energia apenas deu o
arremate final na complica-
9do. Agora s6 ha said para o
Jari com mais investimento e
pesado (de US$ 200 milh5es a
US$ 300 milhoes, mais a divi-
da). E de onde vira o dinheiro,
se puder vir?
Quem responder certo ga-
nhara uma tonelada de ce-
lulose, se a produgo
for retomada, como
precisa ser, mas a um
prego cuja dimensao ainda ndo se sabe
corretamente. Como sempre, por6m,
nos dramas amaz6nicos, o responsa-
vel sumiu e o mordomo ja foi convo-
cado para dar as explica65es. *


Privatizagao a brasileira


Os privativistas comemoram: foi o
segundo maior agio pago pelo arre-
matante de uma ferrovia federal, de
37,86% sobre o lance minimo esta-
belecido pelo BNDES. Mas o que sig-
nificam os 15,8 milhbes de reals pa-
gos no dia 18 pelo cons6rcio Manor
para ficar com a Malha Nordeste da
Rede Ferroviaria Federal, a ultima a
ser vendida?
Aparentemente, era um trambolho
que o governor deveria descartar at6 de
graga. A malha Nordeste, com seus
4.679 quil6metros interligando preca-
riamente oito Estados nordestinos, dava
prejuizo annual de R$ 50 milh6es e ha
muito tempo estava corn patrim8nio ne-
gativo. Sua linha de bitola estreita ndo
atraia carga, nem oferecia seguranga


aos que tentavam usA-la. Parecia con-
denada a morrer de inanigao.
Era tanta a vontade de livrar-se
dela e tdo pouca a confianga em seu
valor que o cons6rcio vai poder pa-
gar os R$ 15,8 milh6es em 109 par-
celas. Nos pr6ximos 15 anos investi-
ra outros R$ 140 milh6es na ferrovia
para melhorA-la. Deve ir at6 al6m:
patinho feio para o govemo, a malha
Nordeste terA fungdo estrat6gica para
seus novos donos.
A 120 quil6metros de Sao Luis, um
de seus pontos extremes, ela se co-
necta A ferrovia de Carajas. Com isso,
o minerio de ferro paraense podera se-
guir, em um inico modal ferroviArio
(e nio tendo que ser transbordado para
navio, seguindo pela costa), desde a


mina at6 o porto de Pec6m, 8s proxi-
midades de Fortaleza, no Ceara, onde
a Companhia Vale do Rio Doce esta
construindo a primeira grande siderur-
gica do Norte e Nordeste.
Em Pec6m tamb6m esta surgindo
a Metalic, a fAbrica de latas do gru-
po Vicunha, que tem 40% das ao9es
da ferrovia, enquanto a CVRD pri-
vatizada possui outros 20%. A Com-
panhia Siderfirgica Nacional (tam-
b6m privatizada), que entra na side-
rurgia nordestina, control 20% e o
Bradesco (no imbroglio da Vale), os
restantes 20%. E assim os cart6is vio
se reforgando e o que apenas pare-
cia ser latao pode acabar se toran-
do ouro mesmo.
Coisas da privatizagao a brasileira.


1







4 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JULHO / 1997




A nova frente dos barbaros


Antes de tomar posse, o governador
Almir Gabriel fez uma longa viagem i
Malasia, sua inica incursao internaci-
onal at6 agora. Nao foi recreio: ao co-
mandar uma alentada comitiva ao su-
deste asiitico, o goverador estava in-
dicando que a Malisia poderia ser um
grande parceiro no desenvolvimento do
Para. Talvez tenha sido a mais impor-
tante visit official feita aquele pais nos
uiltimos anos. Mas a hist6ria ainda vai
cobrar essa responsabilidade do gover-
nador, quando ela for adequadamente
avaliada.
A hist6ria official assegura que o sal-
do ja 6 e sera cada vez mais positive.
Atendendo ao apelo do Para, os malai-
os estao trazendo para ca suas poupan-
9as e investindo em agriculture, extra-
tivismo e agroinduistria, dend8 e ma-
deira como linha de frente. Assim, con-
tribuirao para incrementar a moderni-
zagdo do setor primirio e agregar va-
lor a atividade produtiva.
Mas e se o govemador tiver apenas
aberto o caminho para uma frente eco-
n6mica ainda mais feroz (por combi-
nar os mesmos objetivos especulativos
cor uma revitalizada capacidade tec-
nol6gica e financeira) do que as cha-
madas frentes pioneiras? Se o gover-
nador, cor todas as famosas boas in-
ten9es de sempre, tiver sido usado por
um poderoso lobby de interesses, al-
guns deles situados a sua ilharga? A
ret6rica do desenvolvimento pode ter


sido usada apenas para disfargar a ve-
lhissima pilhagem de recursos naturais,
emoldurada por prospects de agroin-
diistria apenas para ingl8s ver.
Este journal teve o triste privilegio
de ser o inico a noticiar o primeiro
embarque de madeira amaz6nica para
a Malasia, em 1995. O fato tinha uma
enorme relevincia: as fontes de ma-
deira tropical no sudeste asiatico es-
tavam realmente se esgotando, a des-
peito de toda a propaganda em torno
do desenvolvimento auto-sustentavel.
As reserves amaz6nicas iriam deixar
de ser apenas uma refernncia distant,
relative ao future. Comecariam a ser
usadas para valer.
O que fazer? Fechar a fronteira?
Certamente nio. Mas controla-la, nao
no sentido as vezes apenas policiales-
co que Ihe da o Ibama, cujos resulta-
dos mais notaveis tem sido relat6rios
irreais e corrupcao (esta, bem real).
Corn investimento em tecnologia e op-
c~o political para valer em favor da flo-
resta na Amaz6nia. Sair do faz-de-con-
ta que reduz a uma proporcgo ridicule
o que se aplica no melhor conhecimen-
to da floresta e no seu uso inteligente.
Os malaios chegaram de vez, pre-
cursores de uma nova onda que pode
nos afogar, e continuamos na era ex-
trativista, na fase do palavr6rio ofici-
al inconsequente e na conversa-para-
boi-dormir dos que falam, usando pa-
lavras sofisticadas, em nome dos es-


peculadores, camuflando a realidade.
Os malaios devem estar certos de
que nao precisam agir aqui diferen-
temente do que faziam na Asia. La,
eles tinham uma arvore de ouro, a
teka. Destruiram-na, quase. 0 que
temos de melhor por aqui para im-
pingir-lhes um enredo diferente?
Mesmo porque a regra do mercado e
essa mesma: criar um incident juri-
dico e, com base no prolongadoo
sub-judice que nosso judiciario cos-
tuma proporcionar, criar uma situa-
cao de fato e ir extraindo madeira.
Temos uma amostra gratis de bom
padrao novo no Tapaj6s. Sempre que
o faz-de-conta precisa ser mais impres-
sionavel, recorre-se aos abnegados pes-
quisadores, sempre divividos entire
epocas de vacas magras e magerrimas,
e insinua-se um projeto experimental.
Pode ser at6 que, desta vez, o experi-
mento cresca, mas sera um pingo
d'agua no oceano do simples corte raso
de madeira e o ajuste do beneficiamen-
to, adaptado para as novas condigSes e
para o custo do frete international.
O que vai acontecer na Amaz6nia,
se esse quadro nao for drasticamente
modificado, 6 apenas a multiplicagao
da escala da destrui9ao, com algum re-
finamento tecnol6gico. Se isso acon-
tecer, o governador Almir Gabriel tera
tido um papel exatamente contrario ao
que Ihe atribui a historia official e nada
edificante para a sua biografia. 0


Com os mesmos erros nas bordas do paraiso


Em outubro a CPRM (Companhia de
Pesquisa de Recursos Minerals) vai licitar
uma jazida no Amazonas que represent
um caso mineral exemplar. A mina fica
muito long de qualquer presumivel mer-
cado consumidor do bem, quase na fron-
teira do Brasil cor a Venezuela. O valor
atribuido ao deposito e pequeno, de 600
mil reals. Vencera quem der maior percen-
tual a partir do royalty minimo de 3% co-
brado pela CPRM. Mas ja ha uma corrida
atras do leilao.
O objetivo 6 uma jazida de ni6bio supe-
rior a 80 milh6es de toneladas, o suficiente
para mais de 500 anos de explorago. O
Brasil fomece 97% do ni6bio consumido
mundialmente para a produgAo de agos es-
peciais. A mina amazonense n~o s6 pode-
ri varrer o que ainda subsist de aparencia
de competiiAo, como apresenta uma van-
tagem que talvez nem seja complementary,
mas essencial: o ni6bio aparece associado
a outros minerals, entire os quais terrs ra-


ras, o lutecio (utilizado pela indfistria de
computadores e telefones celulares) sendo
a mais car delas.
Ha ainda outras condigqes especiais re-
sultantes da localiza~go da jazida. Ela esta
sob tripla protecio: 6 area de preservacgo,
por se encontrar no Parque Nacional do
Pico da Neblina, na reserve biol6gica dos
Seis Lagos, por ser habitada por indios e
por se encontrar na faixa de fronteiras.
Apesar de tudo isso, a CPRM estA prepa-
rando o leilao de outubro sem se importar
com tais complicadores.
A consultoriajuridica da empresa, quan-
do questionada a respeito pelos interessa-
dos, limita-se a encaminha-los ao Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renovaveis) e a
Funai (Fundaq o Nacional do Indio). Ou
seja: prevalece a velha mentalidade buro-
cratica obtusa, responsavel por tantos ma-
les, na abertura de mais uma frente pionei-
ra na Amaz6nia.


Trata-se de uma das mais belas areas da
regiio. Na decade de 70, o Radam (Radar
da Amaz6nia) revelou que no morro dos
Seis Lagos estava uma das muito ricas cha-
mines alcalinas da Amaz6nia, nas quais
vulc6es extintos reservavam riquezas mi-
nerais varias. Duas decadas passadas ain-
da nao foram o bastante pam viabilizar eco-
nomicamente essas usinas minerals, mas o
moment parece comear a chegar.
A abordagem, por&m, tern que ser feita
com cuidado e discemimento, de preferln-
cia cor aquela visio de conjunto a qual ago-
ra da-se o titulo de holistica (pode nrio ser
correto, mas 6 bonito). t um absurdo que a
abertura dessa fiente se faia apenas pelo in-
teresse mineral, comandada por um 6rgao
setorial como a CPRM, que acha possivel
separar as instincias segundo a compet-n-
cia burocrftica de cada instituigao. Sera que
nao aprendemos nunca, mesmo quando as
bordas do pamiso, como na distant e ma-
ravilhosa regiao do Pico da Neblina? *










Adeus, irmao Ira


Diz a lenda que, em meados da d6ca-
da de 30, um daqueles poucos funcio-
narios que deambulavam pelo Palicio
Lauro Sodre antes da multiplicago dos
cargos, feita a partir dos populistas anos
80, ao abrir uma das gavetas onde eram
colocados os processes la encontrou
tamb6m um beb8 trajando palet6 e gra-
vata, usando 6culos, cor um mayo de
papel debaixo do brago e segurando um
guarda-chuva.
Diz a mesma cronica que assim, gri-
tando ao ser surpreendido em seu esca-
ninho pelo amanuense desatento, veio
ao mundo o cidadao Irawaldyr Waldner
de Moraes Rocha, nome pomposo ade-
quadamente reduzido pelos amigos para
o intimista Ira este, alias, um estado
de inimo nao de todo estranho ao nos-
so as vezes iracundo personagem.
A historia, claro, 6 imaginmria, mas
serve para definir a personalidade e a
hist6ria de Irawaldyr Rocha, prematu-
ramente falecido no m8s passado, aos
62 anos. Antes de tudo, ele foi um ser-
vidor public, um exemplar profissio-
nal do servico piblico, um talent que
as vicissitudes da provincia e as circuns-
tancias do home nao permitiram que
desabrochasse por inteiro. O potential
ficou apenas meio utilizado, bloqueado
antes do tempo natural disponivel, mas
o que Irawaldyr fez nesta terra foi o bas-
tante para estar eu aqui lamentando seu
fim, um fim sofrido injustamente pro-
longado.
Irawaldyr foi precoce como lider es-


tudantil, como politico e como profes-
sor, variantes de suas habilidades que
convergiram para um ponto comum,
atrav6s do qual tornou-se um dos mais
brilhantes tecnoburocratas do Para. O
termo pode parecer palavrio, ou, de
qualquer maneira, desajustado na apli-
cago A maioria das carreiras feitas no
service piublico. Mas em Irawaldyr caia
como uma luva perfeitamente ajustada.
Ele nao se envergonhava de ser barna-
b6, para usar uma expressao do passa-
do. Ao contrario, honrava essa fungio
por desempenha-la cor a maxima cor-
rec~ o possivel, dentro dos parimetros e
da cultural da burocracia brasileira.
Nao escapava de um dos pecados da
administragao piiblica: a mordomia.
Mas Irawaldyr nao escondia (como fa-
zem muitos fariseus) sua afeicio ao
usufruto das vantagens conferidas aos
cargos que exerceu. Sinceramente, con-
siderava esses privil6gios, que, costu-
mando estender-se ao odioso nepotis-
mo, acabam por tornar-se um pesado
6nus para o erario, nada mais do que
uma compensa~ao pelas agruras impos-
tas aos que verdadeiramente atuam em
nome do pfiblico e em seu beneficio.
O carro official acompanhando-o para
onde fosse, o custeio das despesas de
representag~o e da solenidade maxima
dada aos atos oficiais que praticava,
disso ele nao abria mao. Os amigos que
convivessem cor esse desvio, se as-
sim o considerassem.
Irawaldyr foi, entretanto, um home


honest no trato do dinheiro public
confiado a sua responsabilidade. E o foi
durante muito tempo, diante de volume
apreciavel de dinheiro. Nao foi o ho-
nesto obtuso, beirando a burrice alvear,
como costumam ser alguns Cataos, que
caem compulsivamente nessa virtude
por falta de qualquer outra, nela se con-
gelando. Foi honest e eficiente, um
aplicado servidor dos que Ihe delega-
ram cargos de confianca.
Lembro do segundo govemo de Ala-
cid Nunes, quando o efetivo da asses-
soria especial, que hoje aproxima-se
novamente da inimaginavel (e inaceita-
vel) barreira do meio milhar, dependia
apenas dele, do general Rubens Vaz, do
jornalista Aldo Almeida, do escritor
Machado Coelho e do major Alaudio
Melo (os dois fltimos, ainda vivos).
Talvez a visao limitada de Alacid res-
tringisse sua assessoria, mas ela funcio-
nava e pagavamos pouquissimo por ela.
0 element de ligagio e sustentaaio
dessa equipe era o Irawaldyr, corn to-
dos os seus extremes e paixoes, mas
justamente por eles.
Por essas virtudes pdiblicas e pelas
qualidades privativas de companheiro,
do belo companheiro das conversas lii-
dicas que subvertem as regras do espa-
co e do tempo, colocando ao nosso al-
cance os beneficios da convivencia hu-
mana, deixo aqui este registro-de lamen-
to e de saudade pela perda dessa bela
figure que foi Irawaldyr Waldner de
Moraes Rocha. *


Um arquivo mortissimo


Em maio de 1992 o Tribunal de Con-
tas do Estado recomendou a nio apro-
vagao das contas do ex-governador
Hlio Gueiros relatives ao exercicio de
1990. Um mis depois o plenario da
Assembl6ia Legislativa acolheu o pa-
recer pr6vio do TCE e, por maioria,
aprovou a rejeigao. A partir dai, cabia
simplesmente a Comissao de Consti-
tuigao e Justica da casa indicar as pro-
vid8ncias a serem adotadas para dar
consequEncia pratica a media. Mas o
que era mera agio executive transfor-
mou-se num dos maiores exemplos da
inciiria do legislative estadual.
Tr8s relatores, a procuradoria juridi-
ca e o vacuo se alternaram nos 1.700
dias seguintes, sem conseguirem pro-
duzir qualquer parecer. Em maio deste
ano, finalmente, brotou o parecer, re-
digido pelo primeiro dos deputados


indicados para a tarefa. Em setembro
de 1993 Zeno Veloso havia se consi-
derado incompatibilizado com a mis-
sao porque, em plenario, votara pela
aprovaoao das contas de Gueiros, sen-
do vencido pela maioria. Mas ao rece-
ber de novo o encargo, em fevereiro
deste ano, nio mais o afastou de si. Deu
parecer pelo arquivamento do proces-
so.
Alegou o parlamentar, tamb6m pro-
fessor de direito, que, passados quase
cinco anos de in6rcia, nao hA mais pro-
videncias a adotar. No period, Guei-
ros teria vencido as quest6es judiciais
suscitadas a prop6sito de irregularida-
des em suas contas e que os fatos apon-
tados foram alcanCados pela prescri-
Oio. Ou seja: a decisao da rejeigao das
contas nio tera consequEncia alguma.
O deputado Jose Carlos Costa ainda


tentou evitar o rumo desonroso dos ar-
quivos com um parecer paralelo, cheio
de raz6es, ainda que mal redigido.
Mostrou que os julgamentos favoraveis
a Gueiros em varias instancias judici-
ais referiram-se a fatos distintos. do
analisado pelo TCE. Neste, era a A9go
Social do Govemo, usada na famosa
campanha "Caminhando cor o Povo",
que teve seus procedimentos rejeitados.
Nos outros, eram a Celpa e o Banpara.
Al1m disso, varios dos delitos decor-
rentes da irregularidade apontada pelo
TCE (dispensa indevida de licitagao
piblica) poderiam ser apurados e nio
estavam acobertados pela prescri9go.
Mas a AL, ignorando sua decisao de
cinco anos antes, preferiu arquivar o
process, dando a impressAo de consi-
derar a si pr6pria como um vasto, em-
bora nio-declarado, arquivo morto. *







6 JOURNAL PESSOAL 2* QUINZENA DE JULHO / 1997


A duplicacgo da linha de transmis-
sao de energia entire Tucurui e Bel6m
nao sera coisa para este s6culo, nem
para os anos iniciais do seguinte. Ape-
sar de toda a conversa sobre o inves-
timento nessa linha singela, funda-
mental para dar seguranga a maior ci-
dade da Amaz6nia e o maior consu-
midor individual de energia do pais (a
Albras), o governor federal preferiu
aplicar quase quatro vezes mais di-


nergia: go out

nheiro (ou 738 milhies de reais) re- do a fung~o de Tucurui de exportadora
forgando a interligagao entire o Norte de energia (e a nossa, de col6nia). O
e o' Sul. investimento, com recursos garantidos
Esse dinheiro, tornado emprestado pelo governor, vai tornar ainda mais ren-
junto ao BID (Banco Interamericano de travel a segunda etapa de Tucurui, que
Desenvolvimento) e ao Eximbank do devera ser executada pela iniciativa
Japao, vai viabilizar uma nova linha particular sob regime de concessao ou
entire Imperatriz, no Maranhao, e Mi- diretamente, caso a Eletronorte venha
racema, em Tocantins, com 517 quil6- a ser privatizada.
metros de extensao (a Tucurui-Vila do Nada como o governor prevendo o
Conde-Bel6m tem 380 kms), reforgan- future para os outros. 0


Gisela Pires do Rio enviou a
este journal a seguinte carta:

"Venho por meio desta expressar meu
desacordo com algumas das informaq9es
contidas na materia 'Tucurui: o custo da
corrupqdo segundo depoimento hist6ri-
co', publicada no Jornal Pessoal ano X
nfmuero 164, paginas 6 e 7. A origem
dessa mat6ria foi, segundo suas pr6prias
palavras, 'a sintese das declara95es de
Eliezer Baptista dada a jornalista Gise-
la Pires do Rio'.
Sem entrar no merito de como esse
material chegou as suas maos, pois pre-
firo acreditar que o obteve por interme-
dio de uma fonte mais inadvertida do que
propriamente caracterizada pelo seu
mau-caratismo, esclarego que a sintese
na qual o senhor se baseia para produzir
tal artigo constitui, na verdade, mat6ria
bruta de um projeto de pesquisa. Como
ao jornalista 6 concedido o beneficio de
produzir comentarios a la l4gere, nao
causou-me surpresa o fato de jamais ter
sido consultada a 6poca da elaboragdo de
tal mat6ria. Resta-me lamentar a levian-
dade de tal procedimento.
Posso, no entanto, requerer que, ao usar
um material por mim produzido, o senhor
informed corretamente seus leitores. Nao
sou jornalista. Sou professora-pesquisado-
ra do Departamento de Geografia da Uni-
versidade Federal do Rio de Janeiro, nao
tendo, portanto, compromisso algum com
'confiss6es' de efeito que possam aumen-
tar a tiragem de qualquer informative.
Assim, espero que o senhor retifique a 'in-
formagCo' de que sua mat6ria teria por
base uma entrevista realizada por uma jor-
nalista, reproduzindo esta carta, na inte-
gra, em seu informative".
N. da R. Na ultima linha da carta da
dra. Gisela veio-me logo d lembranga o
livro de Jacobby sobre o fim dos intelec-
tuais piblicos. Lamentava ele que os in-
telectuais houvessem deixado bares, bo-
tequins e ruas para enfurnar-se nos cam-
pi universitarios, onde suas preocupa-


,oes converge para a carreira, e qua-
se s6 ela. Tem sido esta a privazizagdo
dos intelectuais, por enquanto ainda ndo
uma iniciativa do nosso principle. Dei-
xaram as preocupagoes com a coletivi-
dade e foram tratar de suas teses, sem
as quais os campos de capa de manitu e
o nirvana estdo interditados.
Neste sentido, ndo sou um intellectual
como a dra. Gisela. Sou um jornalista
que jd se guiava por uma just frase de
Ber Bagdkian, velho e decent jornalis-
ta, antes mesmo de a ter lido: "Aquilo
que e noticiado passa a fazer parte da
agenda pbblica. 0 que ndo e noticiado
pode ate ndo estar perdido para sempre,
mas pode estar perdido para a epoca em
que e mais necessdrio".
Quando a entrevista da dra. Gisela
chegou-me as maos, tomei um choque:
finalmente um personagem official, corn
a importdncia do (tambem) doutor Elie-
zer Baptista, admitia o que vinhamos
denunciando e procurando comprovar
hd tempos: a corrupgdo na obra de Tu-
cutui, que multiplicou seu custo final (de
US$ 2,1 bilhoes para algo em torno de
US$ 9 bilhoes) e redrobrou as agruras
do pais para pagar o prego inchado da
maior obra publica de toda a hist6ria da
Amaz6nia (a segunda maior do pais),
aldm de suas consequOncias sobre o sub-
sidio tarifdrio a mamutes como Albrds e
Alumar (mais uns US$ 2 bilh5es).
Eu nada sabia sobre a dra. Gisela e
afonte, boa fonte, idem. Mas sugeriu
que fora entrevista dada a uma revista
semanal, da qual resultara aquele re-
sumo. Acreditei ser mesmo resume: ndo
me passava pela cabega que uma pes-
soa, qualquer pessoa, academica ou
nqo, ouviria o doutor Eliezer admitir a
corrupgdo sem perguntar-lhe ao menos
quem fizera a corrupcdo, ou a quanto
supunha que ela montava. 0 silincio
diante da declaraCgo poderia ser ate
educado, mas seria impatri6tico e
nada inteligente, se por imneligencia en-
tende-se a qualidade de procurar des-


cobrir e encarar a verdade, esancaran-
do-a quando necessdrio.
Isto ndo passa de jornalismo, ou de
observaqdo 6 la ldgere, para usar a ex-
pressao superior (francesa, comme-il-
faut) cor a qual a doutora Gisela nos
encara, supostamente do alto de sua me-
lhor sabedoria. Que seja, mas, como
alerta o critic americano da comunica-
Cqo, nosso ever e transferir imediata-
mente essa informagdo ao leitor, enquan-
to ele pode transformd-la em agdo.
Nunca tive o prop6sito de prejudicar o
andamento de um robusto trabalho
academico,como o que se prenuncia da
lavra da doutora Gisela, nem deixaria de
consultar a autora, se soubesse quem ela
era. Mas minha informaado era de que
aquele material era o esqueleto de uma
entrevista publicada dois anos antes. E se
a doutora Gisela estd aguardando hd qua-
se dois anos para que, em future ainda
incerto e ndo sabido, amaduregam as con-
digoes para que sua tese venha ao mun-
do, entdo lamento have-la atropelado com
um servigo de relevant interesse ptbli-
co: entregar as declaraCoes do doutor Eli-
ezer a sociedade, o mais rdpido que eu
pude fazer na tentative (talvez vd, sim,
doutora Gisela, mas e nosso dever traba-
lhar com a palavra mal comega a manhd,
ia maneira de Carlos Drummond de An-
drade) de que esse crime ndo passe im-
pune, como tantos outros, inclusive com
a conivencia ou a omissdo de academi-
cos, como o sapientissimo "herr" Heide-
gger na Alemanha nazista
Ndo concordo que a materia deste "in-
formativo" tenha sido sensacionalista,
mas, como em todas as outras matirias,
quem fard a prova dos nove serd o pTbli-
co, a quem espero continuar a servir com
a aJuda de minhas fontes, voluntdrias ou
ndo, conscientes ou ndo, como acabou
sendo age6grafo e ndo jornalista, acho
que jd nao e mais precise sublinhar Gi-
sela Pires do Rio, cujo nome, qualifica-
Cdo e meritos prometo jamais voltar a
cometer o pecado mortal de esquecer.


X : .. .... ......... .......
xxxxx: XX X......
XXX:
X: :xx:
x. x : .................
............. ,X .......... ...... ................







JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JULHO / 1997 7



A Amaz6nia que se foi: um projeto a realizar


A Amaz6nia poderia ter-se tornado
realmente um pais independent duran-
te a Cabanagem? A pergunta vai per-
manecer como uma especulagao at6 que
documentagao mais s6lida permit dar-
lhe resposta definitive, se isso foi pos-
sivel algum dia. Por enquanto, tudo nio
passa de refer6ncia a partir do registro
que um contemporineo, o Bario de
Guajara (Domingos Antonio Rayol),
fez em seu classico "Motins Politicos",
ainda hoje, quase um s6culo e meio
depois, a principal fonte documental
sobre a revolta (revolugio?) cabana.
A Cabanagem persiste sendo uma
esfinge, inesgotavel na formulacgo de
quest6es, mas incapaz se provocar um
estudo satisfat6rio, apesar da riqueza
do fen6meno que levou ao poder, ali o
mantendo por um period de tempo
apreciavel, o primeiro governor efetiva-
mente popular do Brasil.
Nao falta mitologia. Eduardo No-
gueira Angelim teria recusado o inci-
tamento de um military ingles, o capi-
tdo C. B. Strong, para separar a Ama-
z6nia do Brasil, proclamando a inde-
pend8ncia da regiao e tornando-a uma
esp6cie de vice-reinado ingles. O pr6-
prio Angelim teria contado essa hist6-
ria a Rayol.
Reconstituido pela neta, Dilke Bar-
bosa Rodrigues, Angelim seria um po-
litico culto, que teria se inspirado nos
iluministas para formular a utopia de
uma Repfiblica nos tr6picos. Nao esta-
ria perdido no meio da pura revolta "dos
que tem contra os que nao tem", uma
radical luta de classes destituida de qual-
quer sofisticagao de id6ias, na visao de


um alemio sensivel, Heinrich Han-
delman, que escreveu sobre a
Cabanagem sem sequer haver
visitado o Brasil.
Separar o joio do trigo
exige competEncia,
tempo, aplica-
qdo, acesso a
arquivos e
verbas de sustenta-
0ao, mas, A falta desses
elements, o escritor Marcio
Souza tentou captar a riqueza de
70 anos preciosos na hist6ria amaz8-
nica (1780 a 1845) atrav6s da fic9oo.
Langou no mrs passado Lealdade (Edi-
tora Marco Zero, Sao Paulo, 207 pagi-
nas), o primeiro romance de uma pla-
nejada tetralogia.
E e nao e propriamente um ro-
mance hist6rico. Sua maior falha jus-
tamente a indefini9ao. Marcio nao pa-
rece ter tido tempo suficiente para uma
pesquisa s6lida, con a qual faria uma
reconstitugiao de 6poca correta e teria
materia prima para a recriaao ficcio-
nal. Ficou a meio caminho de tudo. O
personagem principal, Fernando Si-
moes Correia, 6 fraco, inconsistent
como todos os demais. A trama 6 in-
verossimel: o paraense Fernando fica
muitos anos em Portugal, enquanto se
forma em engenharia military e chega A
patente de tenente. E filo-lusitano,
"perfeito sudito, um complete vassalo
da monarquia portuguesa". Mas aceita
retornar a Bel6m quando as tropas na-
pole6nicas chegam a Lisboa numa con-
fusa missao separatist, que nunca se
esclarece. E mant6m a duplicidade de


separatist e reinol na provinciana ca-
pital dos paraenses, circulando en-
tre os dois grupos antag6nicos sem
provocar suspeitas.
Nao 6 s6 o enredo inconsistent
que prejudice o livro como obra li-
teraria, outra vez (como nos mais
recentes romances de Mar-
^ : cio) claudicante no
texto. At6 mes-
mo informa-
Soes essenci-
ais a sustentagao do
quadro de epoca e da geografia claudi-
cam. Fernando precisa de apenas dois
dias para uma viagem de Belem a Ori-
ximina, de sumaca, e de nao mais do
que oito ou nove horas para ir e voltar
de Oriximina a boca do Trombetas re-
mando sua piroga. Por agua, nem hoje
isso 6 possivel.
A press parece ser a causa princi-
pal da impressao de improvisagao que
Lealdade transmite ao leitor mais aten-
to. Marcio nem nos traz de volta (ilu-
minados pela recria9ao) aqueles deci-
sivos anos da passage do despotis-
mo esclarecido a tentative de autono-
mia national (ou regional), nem nos
proporciona o prazer estetico que a li-
teratura possibility, dois moments ele-
vados que, recentemente, Haroldo Ma-
ranhao alcangou em Tetraneto d'el Rei
e Cabelos no coragdo, sumas de ro-
mance hist6rico e ficcao.
Como o estimulante projeto de Mir-
cio abrange uma tetralogia, ele tera mais
tres oportunidades para concretizar o
que anunciou. Por enquanto, a esfinge
continue solitaria e insatisfeita. 0


.. .. . .
.... . . . . .
... .. ..... .. ...
....... .
............................. XX
....... t a r i s :m a i ....... .......................
........... .... ....
...........
... .. . . .
...............


J oao Pedro St6dile, um dos princi-
pais lideres do MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem-Ter-
ra), nao compareceu a uma mesa-redon-
da na rec6m-encerrada 49' Reuniao Anu-
al da SBPC (Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ci6ncia) porque, ao inv6s
do ministry Raul Jungmann, que estava
previsto inicialmente, o outro convidado
do encontro passou a ser o president da
UDR (Uniao DemocrAtica Ruralista), o fa-
zendeiro Roque Roosevelt dos Santos.
St6dile disse que a UDR "6 uma or-
ganizagao paramilitary, cujo objetivo
principal 6 destruir o MST e 6 respon-
savel pelo assassinate de trabalhadores
rurais". Criticou os organizadores da
SBPC por nao pereceberem essa incom-
patibilidade: "Se nossa universidade


fosse menos acadnmica e mais popular,
seria mais facil eles entenderem porque
n6s nio debatemos com essa gente".
A attitude intolerante de St6dile evi-
dencia o rango milenarista que costu-
ma distorcer as agbes do MST. A gran-
de virtude do movimento foi estar dis-
ponivel aos abandonados lavradores
brasileiros num moment de necessida-
de, persistindo ao lado deles, apesar das
dificuldades enormes que enfrentam
diante de uma elite insensivel ao seu
drama, e agindo com competencia. Mas
o MST revela o sectarismo dos que t6m
uma visAo pre-determinada da realida-
de, ajustando-a aos seus principios e
objetivos. Sao dogmaticos, portanto.
Se MST e UDR estio em campos dis-
tintos e antag6nicos no espago politico e


social, nada os impede de enfrentar-se no
confront de id6ias, que tem seu terreno
privilegiado no campus universitario.
A UDR e uma organizacgo legal, corn
uma definig9o politico-ideol6gica tao
nitida quanto a do MST. Se atua para-
militarmente e est6 envolvida em assas-
sinatos, deve ser punida, mas na medi-
da da comprovagao de sua participag9o.
St6dile nio 6 arbitro de nada, nem ins-
tancia final. Sabemos o que result de
tal presunglo, mesmo quando invocada
pelos mais nobres prop6sitos. Ate os
inimigos, se pressupoem o enquadra-
mento legal, podem confrontar suas
id6ias. Isto favorece a avaliahao da opi-
nilo public. E 6 assim que se fortalece
a democracia, na manifestagao dos
opostos e na garantia a controversial. 0







Fim de linha
Francisco Schettino dei-
xou a presid8ncia da Com-
panhia Vale do Rio Doce,
que ocupou durante quatro
anos e meio (a mais longa
gestao desde Eliezer Baptis-
ta, que ficou sete anos),
anunciando como uma de
suas principals realizao9es
ter reduzido o quadro de
funcionarios de 35 mil para
15 mil. Para chegar ao total
enxugamento exigido pelos
novos donos da estatal res-
tariam ainda duas mil demis-
soes.
Ora, se uma estatal cor-
tou tao fundo na pr6pria
came e eliminou as vastas
gorduras que possuia (a des-
peito das quais nunca parou
de ser rentavel), por que pri-
vatizA-la? Na verdade, a
Vale nao perdera apenas
mais dois mil empregados:
perdera a sua hist6ria, a po-
sigio especial que conquis-
tou no mundo dos neg6ci-
os. Schettino deve ter per-
cebido finalmente isso
quando nao havia mais re-
torno e a cabe9a de Joao
Batista ja estava na salva de
prata de Salome. Tendo de-
dicado sua vida professional
a essa empresa, saiu sem o
minimo que seu curriculo o
autorizava a cobrar dos que
o sucederam: respeito.


Novo front
Os brasileiros seriamente
empenhados com o future
do pais devem dar atencao
a um novo front na guerra
das privatizac6es: e o que
se formou no Cade, o
6rgao governmental que
deveria evitar a formagao
de cart6is. La estao sendo
instruidos processes
tentando desvendar o
emaranhado de elos que
podem pear o tal livre
mercado em
consequ8ncia das
privatizag6es. 0 Brasil
esta readquirindo, em
versao atualizada, uma
image do passado: o
das capitanias
hereditarias. S6 que nao
mais hereditarias: elas
passam a ser concedidas
por ato de imperio.


Seriedade
Numa entrevista mais longa que concede na
semana passada a A Provincia do Pard, o prefeito
Edmilson Rodrigues deu a impressao de que
continue emocionalmente em cima do palanque,
embora ja tenha incorporado alguns vicios do
exercicio do poder, como o de ver a realidade
pela 6tica da propaganda official e sempre ter um
argument, mesmo que falso, para se opor is
critics, quando o correto seria reconhec6-las e
delas tirar proveito. A conversa corn a reporter
nao foi leal e franca, mesmo que entrevista A
imprensa nunca seja propriamente um
atalho para a verdade.
O prefeito tern que se conscientizar, enquanto
ainda e tempo, da natureza do cargo que ocupa. O
povo v6 o chefe como chefe. E claro que alguns
abusam da solenidade do cargo e da autoridade
dele decorrente, trocando os meios pelos fins. Mas
a total informalidade conferida por Edmilson nao
faz bem a ele, ao partido e ao povo. Talvez at6
seja uma forma de livrar-se de parte das
responsabilidades que Ihe cabem. Entre elas, a de
ser respeitoso, mesmo diante de adversarios. E o
fim da picada ver o prefeito de Bel6m tratando o
president da Repiblica de "Fernandinho".
Como diz, corn toda razao, aquela bela muisica,
"quem semeia vento, colhe tempestade". 0
Edmilson, nao esta na hora de ser serio? Ou voc6
quer estabelecer urma linguagem de
geral de campo de futebol?


Dedo do
gigante
O novo diret6rio regional
do PFL e um condominio
fechado comandado pelo ex-
prefeito H6lio Gueiros, ao
qual s6 o seu s6quito tern
acesso, cor uma abertura
para Romulo Maiorana Jr
(para vir a fazer parte da cha-
pa majoritaria?). A manuten-
9io do ex-governador Ala-
cid Nunes foi um toque de
sadismo tipico de Gueiros. E
para humilhar um pouco
mais o aliado descartado.


Estrategia
ParA ja tem seus projetos
estrat6gicos, que, em sendo
estrat6gicos, devem ser de
long prazo, capazes de mu-
dar o perfil do Estado. Ne-
les serao gastos 160 milh6es
de reais, que devem ter sido
(e ainda serao) economiza-
dos com parcim6nia. O di-
nheiro comeca a ser gasto
neste mes de agosto e vai ir-
rigar a horta at6 julho do pr6-
ximo ano. Por mera coinci-
dencia, 6 claro, em period
eleitoral.
Entao ta, doutor Almir.


Journal Pessoal
Editor: L6cio Fltvio Pinto
RedagVo: Passagem Bolorha, 60-B 1 6 063-020
Fone: 223-1929 e 241-7628
Conlato: Try. Benjamin Constant. 848203 16 0653-020 Fan: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
Editoragio de arte: Luizpe / 241-1868222-8238


No bolso
O capitio Walber Mar-
ques recebeu oito mil reais
para tenderr despesas miu-
das de pronto pagamento"
feitas pelo vice-governador
H6lio Gueiros Jr em Sio
Paulo durante os dias em que
estivesse no Congresso Fe-
nasoft, na semana passada.
Isso, independentemente das
diarias e passagens a que o
vice e seus tr8s acompanhan-
tes tiveram direito para ir A
capital paulista.
A viiva que se arranje.


Obrigadissimo
Quro agradecer
trazedo essa gratidio do
mais bem protegido
escanrho do cwrebro e
do coraqio, as
homenagens dos amigos
in pectoris pelo
recebimento do pr&tio
Colombe d'oro per la
Pace. A jornada comc.ou
co umn agradabilissimo
jantar no Omro (s6 nio
perfeito porque Ana
Maria Mamrtns no estava
em Beo6m). Estendeu-se
a out-doors espalhados
pela cidade cor o belo
anonmiato dos
verdadeiramente amigos.
E so completon com
teegramas e telefonemas
que rcebi. Foi muito
mais do que merecia.
Obrigado, carissimos
amigos.


Equivoco
A mudanga no diret6rio,
antes ecl6tico, agora mono-
craticamente gueirista, teria
transformado o PFL do Para
na "noiva do ano", segundo
o pai assumido do cometi-
mento, o deputado federal
Vic Pires Franco. A noiva,
disse o parlamentar a A Pro-
vincia do Pard, "esta recep-
tiva, mas vai analisar todas
as propostas cor tranqiili-
dade".
Quem se dispoe a ficar
recebendo esse tipo de pro-
posta e anuncia que ira con-
fronta-las antes de decidir
corn quem consumara o ato
nao pode ser chamada pro-
priamente de noiva.