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Journal Pessoal L U C I 0 F L A V I O P I N T O AN X N5 16 UN A DE JU L E197.R$20 PFL: Gueiros e candidate L.^ (ag. 8)I CARAJAS Golpe mortal no coragao 0 tempo rapidamente vai mostrando que o president Fernando Henrique Cardoso praticou um ato de lesa-pdtria quando decidiu privatizar a CVRD. Mas o Para, onde as enormes riquezas minerals se localizam, faz de conta que ndo existed. Quedo e mudo, aceita o abrire. !.I ~3~1~2p ois fatos escancaram o ab- surdo que foi: 1) vender a Companhia Vale do Rio Doce; 2) privatiza-la; 3) vend8-la da forma que foi adotada; 4) aliend-la pelo prego estabelecido. Um fato: a venda, por 2,64 bilh6es de reals, dos direitos para a BellSouth operar a telefonia ce- lular da Banda B na regiao metropoli- tana de Sao Paulo. O outro fato: a pers- pectiva de as jazidas de cobre de Cara- jas crescerem muito acima do que se previa, quando as pesquisas forem en- cerradas. No caso do leilio da telefonia celu- lar no mais atraente mercado continen- tal, surpreendeu tanto o prego minimo fixado pelo governor, de R$ 600 mi- lhMes, quanto o lance do licitante ven- cedor, 341% superior ao piso. O que o governor transferiu foi apenas a conces- sao para a gigante americana entrar no mercado, mas nao um monop6lio, mui- to menos ativos. Foi ar a mercadoria transacionada, observaram os analistas. Ja no caso da CVRD, o patrim6nio ali- enado 6 imenso em instalag~es fisicas e em bens comerciais, alem do valor de prestigio da marca e sua funCgo es- trat6gica, mas s6 alcangou 30% a mais do que a telefonia cellular paulistana. 0 contrast 6 brutal. Ps 0 0 BT: FIM DO -OVERNO PATAIE.7) 2 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO / 1997 Tao espantoso e o governor ter deci- dido privatizar a principal empresa de minerafio do mundo exatamente quan- do se abrem para ela perspectives ate entao inimaginaveis s6 corn a provin- cia de Carajas. Todos se impressionam cor as revelac~es que sucessivamente vem sendo feitas sobre os dep6sitos de ouro em Carajas. A Vale, que at6 pou- co tempo atras nao tinha qualquer re- presentatividade no mercado do ouro, deve comegar o seculo produzido mais de 30 toneladas por mes e podera con- tar com jazidas cor reserves de at6 mil toneladas, assumindo o terceiro lugar no ranking mundial. Mas o ouro, na melhor das hip6te- ses, nao representara mais do que 20% da receita possivel com a produgao de cobre metalico caso as informae6es que comegam a filtrar das pesquisas em andamento pela Docegeo em Carajas se confirmarem ao final dos trabalhos, em setembro. Segundo esses dados, na extensao da jazida do igarap6 Bahia o minerio encontrado tem o dobro do teor de cobre que ha na jazida do Salobo, aquela que viabilizou o projeto de be- neficiamento da Salobo Metais. Nao s6 o teor 6 mais rico, como a extensao do dep6sito 6 maior. E, naturalmente, traz mais ouro e prata consigo. Isto quer dizer que o Brasil, de tra- dicional importador de cobre, nao s6 se tornara auto-suficiente, mas vai sal- tar para o terceiro ou talvez o segundo lugar entire os maiores detentores do minerio. Os mais otimistas apostam que, na verdade, o Brasil apenas corn os jazimentos de Carajas, sem se- quer considerar os de Jamari e Cama- qua, na Bahia, e o de Chapada, em Goids podera desbancar o tradicio- nal lider do setor, o Chile. Como 6 que, cor essa perspective de transformag6es cor tal pofundida- de, o governor brasileiro decide passar em frente, por pego de final de feira, sua mais important empresa? O pior 6 que, como os melhores resultados estao sendo obtidos na jazida do iga- rape Bahia (e nao no Corpo Alemao, ao contrario do que vem noticiando a grande imprensa), esses direitos fica- rao com a CVRD privatizada e nio con a empresa que foi organizada pelo governor (como forma de adogar a boca dos opositores do leilao de ven- da), em parties iguais entire a Vale e o BNDES, para garantir uma certa for- ma de control sobre os novos dep6- sitos. Ou seja: o governor Fernando Henri- que Cardoso tomou a pior das suas de- cis6ess de seu mandate, pelo qual res- ponc r-- n,'rante a. hist6ria se 6 que, antes, caso o poder judiciario for sen- sivel, os que contestaram a privatiza- cao nao conseguirem anular esse ato de lesa-patria. Alias, se alguem nao lem- bra, Carajas fica no Para, um Estado rico, mas sem lideranga para fazer ou- vir sua voz e impor sua vontade. O governor estadual aceitou passivamen- A Provincia do Pard publicou, no dia 23 de junho, a seguinte nota em sua Primeira Coluna: "As 10hs, de ontem, nao havia mais A Provincia do Pard em nenhum gazeteiro; poucos restavam nas bancas. Esta e a maior prova de que este journal esta de cara com o leitor. Todo dia. Nao adianta os despeitados dizerem em seus folhetins que nao e bem assim. E nao adianta fingir igno- rancia, fazendo calculos s6 corn a po- pulagao de Bel6m para estimar a nossa tiragem. O calculo, se honest, deve- ria ser feito com pelo menos 5 milh6es, que 6 a populagao paraense. Mas tern jornalista metido a fazer jornalismo investigative que nao apura o que pu- blica e ainda puxa o saco dos seus al- gozes. Melhor faria pedir arrego e vol- tar a trabalhar para os antigos patries. Pelo menos seria mais honesto. A nota, evidentemente, refere-se a edic~o da segunda quinzena de junho deste journal. O primeiro trabalho de auto-profilaxia que A 'Provincia sub- Gengis deveria fazer era abandonar essa pratica provinciana e anti-pro- fissional da indireta, que prevale- ceu como erva daninha durante muito tempo, mas ja foi convenientemente expurgada nas publica6es modernas. D8-se nome a quem se refere, tanto para estimular saudaveis pol8micas, como para melhor informar o leitor. Como sempre viso os dois objetivos, assume a carapuga. Se A Provincia quer que sua auto- declarada tiragem seja levada a s6rio deve contratar a auditagem do IVC (Instituto Verificador de Circulaiao). Se ainda nao ter dinheiro (ou coragem) para contratar o IVC, entao evite esti- mativas tao irreais como a apresentada a revista Imprensa. Nao 6 desonroso ter tiragem pequena, embora deva-se bus- car a ampliagao da circulagao, uma necessidade vital para empresas como A Provincia. Indigno 6 mentir ao pu- blico. O New York Review of Books, a mais prestigiosa publicagao intelectu- al do planet, tira 30 mil exemplares. te que o comando das decisSes nessa parte vital de seu territ6rio e sobre a principal base de future fique integral- mente nas maos de um empresario par- venu que participa da empresa que tem apenas 1,2% do capital da poderosa CVRD. Atores mediocres de uma fase decisive da hist6ria deste Estado. 0 A questao e de political editorial O redator da coluna, que destila seu rancor e inveja protegido pelo anoni- mato (o que nao faz mesmo diferenga: ainda que assinasse a Primeira Coluna continuaria an6nimo), nao sabe ler. Ele diz que o calculo honest das tiragens deveria ser feito sobre os 5 milh6es de habitantes que ter o Para (na verdade, sao 5,5 milh6es) e nao apenas sobre a populagao de Belem. Ora, na nota que escrevi e que provocou seu furor uteri- no ressalvei, com todas as letras: "Pelo menos 80% dessa circulagao fica na capital" (em alguns casos, pode ir alem de 90%, se considerada a area metro- politana). Relativizei, portanto. Deso- nesto seria nao relativizar, como se a tiragem dos jomais de Bel6m circulas- se homogeneamente por todo o Esta- do, o que nao ocorre. Ele diz que sou despeitado. Nao sou. Em primeiro lugar porque A Provincia nao 6 meu concorrente. Atuamos em segments distintos do public e ofe- recemos produtos diferentes (e supe- ropostos, nao excludentes) ao merca- do. A minha publicado 6 uma news- letter de circulagao semi-dirigida. Os leitores de A Provincia nao abandona- rao esse journal para ler o meu, nem vice-versa. Se leem os dois jornais, a leitura continuara a ser cumulative. O mesmo se aplica aos outros dois diari- os. Logo, nao tenho o mais remote motivo para desejar ma sorte a A Pro- vincia. Muito contrario. Foi nesse journal que comecei minha carreira, ha quase 32 anos, e me orgulho muito dessa origem. Estando onde estava naquele remote ano de 1966, na remota Belem do Grao Para, nao poderia ter tido abrigo me- Ihor. Ganhei trEs padrinhos afetuosos, Milton Trindade, Agostinho Monteiro e Augusto Meira Filho; formei uma das mais belas amizades da minha vida, cor Roberto Jares Martins (de quem minha saudade jamais se extinguira); tive um mestre de primeira linha, Clau- dio Augusto de Sa Leal; ganhei um Vaidade de Gulliver, realidade de Lilliput JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE JULHO / 1997 3 companheiro para toda a vida, Wilson Correa; aprendi cor rep6rteres que conviviam e competiam saudavelmen- te comigo, como Rubens Silva, Mano- el Maria Pompeu Braga, Aldo Almei- da e Alvaro Costa (depois, sucessiva- mente, com S6rgio Buarque de Holan- da, Euclides Bandeira e Jurandir Mon- teiro Lopes) e cor fot6grafos que me orientaram, como Porfirio da Rocha, Ayrton Quaresma, Jose Tolentino Mar- tins e Emanoel 0 de Almeida,. Foi uma geragao de ouro de jorna- listas, aos quais se juntariam Raimun- do Jose Pinto, Guilherme Augusto Pe- reira. Raymundo Costa e Nlio Palhe- ta. Fontes outras de boas lembrangas e saudades imorredouras ndo faltam (e, infelizmente, nao tenho espago para nomina-las todas). Como posso ter des- peito do 6rgao e da empresa que fer- mentaram essa onda de criatividade e crescimento professional? Mesmo sem ter relacgo professional com o journal, nunca deixei de visita-lo e demonstrar- lhe minha afeiclo. Sejamos sdrios, redator an6nimo e mediocre. Tenho todos os motives, do passado e do present, para desejar que A Provincia d& certo e rompa o mono- p6lio odioso e pernicioso do grupo Li- beral. Mas tenho todos os receios quan- to ao sucesso dessa empreitada de in- teresse public. Em primeiro lugar, porque a empre- sa nao enfrenta o monop6lio. O maxi- mo que ocorreu foi uma guerra de vai- dades, da qual resultou que um 6rgao nao se refere ao outro porque um dei- xou de citar o dirigente do outro, numa guerrinha de comadres que em nada serve a opiniao pfiblica. A maior realizaiao at6 agora de Gen- gis Freire como dono de jomal foi ter ultrapassado o record estabelecido por OctAvio Avertano Rocha em O Estado do Pard em mat6ria de fotos e referen- cias a pr6pria familiar (um genero de nepotismo que nao costuma ser repri- mido). Mas Avertano pelo menos per- mitiu (ou conviveu cor) o ultimo me- Ihor jornalismo que se praticou na gran- de imprensa paraense, o que nao e o caso da fase inaugurada pelo secreta- rio do Tribunal de Justiga do Estado. Ainda assim, alguma esperanca ainda ha dentro de mim (ou precise reinven- ta-la) quanto a possibilidade de rever- sao desse dominio que o grupo Liberal estabeleceu nesta sofrida terra. As palavras levianas do redator an6- nimato (daquele tipo de anonimato pra- ticado pelos gatos, que sempre deixam o rabo de fora) nao serao capazes de anular um fato objetivo: sou a unica pessoa, dentro e fora da imprensa, que nao se curvou a vontade, aos caprichos e ao poder da familiar imperial (ou im- periosa) paraense. Ha quase cinco anos resisto a guerra judicial de Rosangela Maiorana (guerra, nesse caso, nada tern de forga de expressao). Sou o inico que ataca o grupo, sem jamais ter entrado em sua vida privada (mat6ria-prima rica para uma imprensa sensacionalis- ta), para mim sagrada quando nao re- lacionada a dimensdo piblica da per- sonalidade. Mas nem por isso vou distorcer fa- tos ou inventar informacges contra o grupo Liberal. Quando escrevo, sou jornalista. Impossivel ser jornalista agredindo os fatos, qualquer que seja a motivagao political ideol6lgica, sen- timental). Apesar da sandice do colu- nista, nao vou tomar o tempo do leitor recontando a hist6ria de um profissio- nal com 32 anos de carreira. O Liberal So uinico journal cor tiragem auditada pelo IVC (um dos raros do Norte e Nordeste). Ninguem contest o que diz o IVC, membro de uma restrita relacgo de ins- tituicqes series do pais. O que tenho feito e questioner o significado de um iinico resultado de uma pesquisa do Ibope que O Liberal divulga, isolan- do-o do conjunto da pesquisa. A Pro- vincia simplesmente tern feito de con- ta que a pesquisa nao existe, embora ela represent sua complete humilha- gco. Mas nao se pode contestar um dado parcial opondo-lhe uma mentira aberta. E precise desmascara-lo atra- ves de raciocinio, investigag9o e anali- se, tres elements do meu jornalismo que o obscure colunista nao consegui- ra desautorizar. Jomalismo, para dar resultado, ne- cessita de bons administradores, mas jamais dara certo sem bons jornalistas. O problema de A Provincia do Para esta em nao contar com a quantidade minimamente necessaria desses dois tipos de profissionais e, sobretudo, nao ter a diregCo adequada para o gra- ve moment que esta enfrentando, ja que bons profissionais sempre ha no mercado, mas A Provincia nao tem dis- posto dos dirigentes que requer e me- rece. Se tivesse, a malfadada nota aqui comentada nao teria sido publicada, nem said uma outra produzida depois, protestando por nao terem os deputa- dos estaduais reservado lugar em seu almoco de confraterizagio para os re- p6rteres setoristas BLT. Pobre Provincia de tantas gl6rias passadas, pobre jomalismo. 0 A providencia rapida e rasteira Invariavelmente os governa- dores eleitos assume o cargo prometendo dar prioridade A seguranqa pitblica em suas ad- ministraq6es, um dos temas que mais toca a sensibilidade da opiniao puiblica brasileira. Em geral entendem por prioridade comprar carros (viaturas, na linguagem policial), executar obras fisicas e fazer algumas maquilagens administrativas, cujos mecaniosmos acionam mais os efeitos do "por fora"do que do "por dentro" na corpo- ragdo e seus extensos satdlites. Nunca vem com uma ver- dadeira political de seguranqa piublica, que exige piano de car- gos e salArios compativel corn a natureza da funcdo policial, treinamento adequado, infraes- trutura suficiente e logistica atualizada. Ou seja: coragem, determinagao e clarividencia para mudar para valer uma es- trutura carcomida, viciada e ineficiente, mas indispensavel para a sociedade. O governador Almir Gabri- el, que chegou cor a mesma 8nfase ret6rica e equivalent vacuidade de conteufdo, nao tendo aplicado uma political de seguranca pfiblica, ao tender atabalhoadamente as exigEnci- as dos policiais grevistas pode ter dado um sagaz golpe po- litico (ou eleitoreiro), mas nada fez para estabelecer uma postura saudivel nesse setor. Ao contrArio: lanqou ao ar uma arma que pode se voltar contra ele como um bumeran- gue. E isso quando, finalmen- te, tendo um bom chefe de po- licia, poderia dar-lhe mais do que bugigangas e lantejoulas para que a ret6rica se trans- formasse em realidade. Por falta de cimento, a aguada que o governador fez nao vai dar pega e o que ele construiu pode ruir como casteio de areia na praia. Advertdncia A fuga tao facil em massa do presidio de Americana, lidera- da por um criminoso cor a pe- riculosidade de "Ninja", no mesmo dia em que policiais mi- litares provocam, de forma tao amadoristica e irresponsavel, a morte de uma mulher seqiies- trada por bandidos primarios, revela, ate para o mais cego dos tucanos, a total faldncia da po- licia paraense. Ou se leva a s6rio o proble- ma, apostando nele recursos que nao vao dar a resposta ime- diata dos projetos eleitoreiros de estagao, mas que sao urgen- te e categ6ricos, ouvamos con- tinuar colecionando essas bar- baridades, embromados por go- vernantes e assassinados pelos que nao estao nem ai para a le- ni8ncia da demagogia. 0 4 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JULHO / 1997 De volta ao lar, Cinco anos antes eu sofrera impact semelhante, mas ndo tao intense: embarcado em Barcelona, na Espanha, algumas horas depois atravessava o Araguaia, vindo de Brasilia, entrava no devastado territ6rio paraense e pousava no aeroporto de Carajds, uma escala antes de Belem. Agora eu vinha de Roma, passara pelo Rio de Janeiro e Brasilia, e ainda tocaria em Marabd antes de aterrissar na arrasada capital dos paraenses. azia tempo que eu nao tinha uma visao tao panoramica do sul do Para. No horizon- te de todas as direc6es, a mesma paisagem la embai- xo: maiores extens6es de areas ja sem a cobertura vegetal primi- tiva e ilhas de floresta original. Corn um detalhe perceptivel ao observador mais atento: macigos empobrecidos pela extragao seletiva das esp6cies de maior valor commercial o mogno, so- bretudo. O desmatamento cresceu muito em cinco anos, em tr8s dos quais estamos em v6o cego, sem o apoio do levanta- mento annual do Inpe, o Instituto Naci- onal de Pesquisas Espaciais de Sao Jose dos Campos, certamente por falta de dinheiro (que nao falta ao sistema fi- nanceiro. Ao decr6scimo da taxa de desmatamento entire 1987/90 seguiu-se a infletida ascendente de 1991/93, quando a estatistica estancou; desde entao, ninguem sabe, ningu6m viu. Mas, pelo silencio official, pode-se sus- peitar de que o crescimento da destrui- gio persista. Tres semanas antes eu fizera uma viagem de aviao entire o centro-sul e o nordeste da Italia, indo do Mar Tirre- no ao Adriatico. Passara da planicie baixa ao planalto e a montanha, sem- pre registrando a presenga humana, apesar dos acidentes geograficos, das limitaQ6es territoriais. Corn uma area 25 vezes menor do que a do Brasil, a Italia oferecia a uma populag~o s6 um tergo inferior um padrao de vida incom- paravelmente superior ao do brasilei- ro, embora, em terms quantitativos, a diferenga nao parega tao abissal: a Ita- lia como a quinta potencia econ6mica, o Brasil no oitavo lugar. Depois de tres semanas de intense vivEncia na Italia, ao atravessar o Ara- guaia na direcao noroeste eu divisava uma grandeza geografica sem parale- lo. O Para 6 quase quatro vezes maior do que a Italia, cor uma populagao 10 vezes menor. Sua maior restrigao fisi- ca comegava a divisar-se diante dos meus olhos: os acidentes no terreno, como a anomalia de Carajis, alcangan- do ate 400 metros de altitude. Mas aqueles conjuntos de serras si- tuadas no interflfvio Araguaia-Xingu ainda estao, em boa parte, cobertos de vegetagco, cercados por cursos d'agua, abenqoados por chuvas intensas, enri- quecidos por uma fauna diversificada. 0 espetaculo oferecido por Carajas e deslumbrante, mesmo para aquele que ali ja pousou dezenas de vezes: lagoas perenes ou temporarias, plates recober- tos de vegetagao de canga, escarpas debruadas de rico verde (e a maior con- centracao de castanheiras da regiao, sintoma da fertilidade do solo), dois belos rios circundando as eleva96es (Itacaiiunas e Parauapebas). Como e que os italianos conseguem tanto com tio pouco e, n6s, tao pouco com tanto? Eles nao tmr ouro, mas disp6em da melhor ourivesaria. Nao tnm couro, mas fabricam os melhores sapatos do mundo. 0 rebanho e limitado, mas a Parmalat e uma potencia. Nao e fun- damental ter recursos naturais quando se ter intelig6ncia e conhecimento. Mas uma coisa nao exclui a outra: n6s 6 que estamos deliberadamente (ou burramente) excluindo, anulando uma vantagem que poderiamos usar na com- petigao global. Caimos no conto da sereia e afundamos no mar abissal do tempo. A Era no que pensava sobre minha poltrona area (ainda nao cons- ciente do risco da eje- 9ao nao programada que a comercialissima aviaggo brasileira introduziu no atavar do nosso cotidiano) enquanto contem- plava as feridas abertas no solo antes recoberto de mata. Para que serve essa terra desmata- da? Para capim, para umas poucas cul- turas agricolas e diminutos rebanhos bovinos, algo de pouco valor se enca- rado pelo prisma da qualidade (a mai- oria do gado segue para as charquea- das no Nordeste). Antes de mais nada, nos anos mais recentes, para a pilha- gem madeireira. Somos series antedilu- vianos num mundo desperto para o meio ambiente, mas nao tao atento aos ambientes mais distantes de seu umbi- go. Eu tinha diante de mim a larga pai- sagem da insensatez, da desinteligen- cia, do atraso. Estaremos condenados a isso no Para, a um nunca se aproxi- mar do padrao corn o qual convivera tres semanas na Italia? A nos distanci- ar cada vez mais, enquanto os public- relations (muitas vezes advogados de ocasiao) apregoam que estamos che- gando la? M Ha varios anos o jor- nalismo me tem pro- porcionado a oportuni- dade de experiencias comparativas entire um padrao mais elevado no exterior e o nosso. De todas essas incurs6es tenho voltado cor a convic- cao de que o peso das limitac6es estru- turais que nos sao impostas a partir de fora s6 e um pouco superior ao que que result de nossas pr6prias deficinci- as, de nossas limita96es intemas, dos nossos vicios e mazelas historicamen- te acumulados e conjunturalmente sempre renovados, ao inves de serem suprimidos. 0 nosso potential de grandeza e tao visivel e 6bvio quanto nossa incapaci- dade para transformar esse destino manifesto em realidade, em algo mais do que figure de ret6rica ou instrumen- to publicitario. 0 colonialismo, o im- perialismo ou o neoliberalismo existem e nao podem ter sua a9go minimizada. Mas nao sao fatores que bloqueiam por inteiro nosso acesso ao clube das na- c9es de primeira linha. Somos n6s mes- mos essa barreira fundamental. N6s, virgula: nossas elites. Temos a pior das elites que ja rastejaram sobre a superficie deste planet azul. Conhe- ci varias elites, vivas ou hist6ricas. A iltima delas, a da Veneza dos dodges (na verdade, dos conselhos dos oligar- cas), me deixou interessadissimo em aprofundar meus conhecimentos a res- peito. Mesmo depois de ler bastante, JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO / 1997 5 ao agridoce lar s6 me dei conta em profundidade da razao do amor (e da nostalgia) de Gia- como Casanova por Veneza (foi ele quem primeiro me apresentou a Sere- nissima em suas fascinantes Mem6ri- as), mesmo ao fugir pelo telhado da prisao veneziana a que fora condena- do e ter que ir-se definitivamente dali, ao encerrar uma visit de trEs dias a cidade. Veneza foi republican numa epoca em que a humanidade patinava sob monarquias de ori- gem divina. Havia des- potismo nessa republi- ca, mas havia tambem esclarecimento. Havia um projeto de ci- vilizacgo. Os nobres venezianos viam o mundo na perspective de um largo horizonte que queriam alcangar e alcangaram. Nao apenas sozinhos, mas carregando uma comunidade. A evid6ncia desse sucesso persiste at6 hoje na configuragao da cidade, uma arrebatadora realizagao urbanisti- ca, inclusive no que parece ser sua cha- ga. Visitei o gueto veneziano, o primei- ro do mundo, e fiquei escandalizado com minha pr6pria conclusao: boa par- te dos 150 milh6es de brasileiros vive, hoje, em condi98es piores do que os segregados hebreus de quatro, cinco seculos atras. E irreprimivel a sensacao de revolta e indignagao, e tambem de derrota, di- ante dessa constatagao. E que nao te- mos um projeto de civilizagqo, algo que, infelizmente, s6 uma elite escla- recida pode formular e executar. Nos- sa elite nao tem a menor preocupagio corn isso. Nem mesmo a melhor floor produzida nos jardins dessa elite diri- gente no caso, o nosso principle Fer- nando Henrique Cardoso. Infelizmen- te, ele esta trocando a dignidade do cargo pelas pompas e circunstincias da representagao, sacrificando o essenci- al na estrutura do pais pelo efemero na duradio do mandate, por mais que ele possa ser espichado a custa de fisiolo- gismo. Mas nao e uma culpa que se indivi- dualize de forma tao singular: ela deve se multiplicar pelas centenas (cinco? seis?) de families que agrilhoram o pais aos seus interesses e sugam-no com uma voracidade sem paralelo na histo- ria international das pilhagens. No aviao li numa revista de bordo da Alitalia que a sensacgo dos neg6ci- os nesta decada, o americano Michael Bloomberg, de 55 anos, destina parte dos lucros de sua empresa de informa- cao econ6mica (de 200 milh6es de d6- lares no ano passado) a universidade John Hopkins, onde ele se formou em administragao e onde faz questao de atuar como president do conselho (la, a convite, fiz palestra em 1984 e fiquei comovido cor a recepgao e o interes- se). Que brasileiro ter attitude seme- lhante? Quantos dao um misero retor- no de seus ganhos econ6micos a cau- sas de verdadeiro interesse plblico? Dirao que superestimo a fungao das elites. Mas o que seria da mais glorio- sa das revolu96es deste seculo, a rus- sa, sem sua elite de bolcheviques? E o que aconteceu quando o primeiro dos apparatchiks, o papd Josef Stalin, to- mou o poder das maos (tr6mulas) de Trotsky? A bela elite que fez a revolu- 9ao era pequena demais e em pouco tempo o caminho para uma das mais selvagens tiranias de todos os tempos estava aberto escancarado, melhor dizendo. A partir dai, matar centenas de milhares de pessoas foi muito facil. Dinossauro na reta final Se nao temos ura verdadeira elite national, o que falar em terms regio- nais ou estaduais? Temos no comando de Estados amaz6nicos gente como Amazonino Mendes e Orleir Carmeli. O que seria da Amaz6nia se tivesse se tornado pais entire 1835 e 1840, quan- do durou a revolucao cabana, tendo governantes desse quilate? Quem seria o nosso Mobutu ou Bokassa? SNao, certamente, o nosso governador Al- mir Gabriel, apesar do epis6dio de Eldorado de Carajas. Nosso go- vernador, ao que pare- ce, nao sera nada, nem para mais, nem para menos. Sera sempre o tom neu- tro, a neutralidade e a assepsia de uma sala de cirurgia, o lugar no qual de- monstrou a competencia especifica que agora, se existiu algum dia em seu sen- tido mais amplo, evaporou-se e sumiu. Um tucano sem macola, mas tambem sem tutano, mais um numa sucessao de satrapas. Mais do que um Estado de tucanos, tornamo-nos um Estado de avestruzes. Somos um Estado sem comando, somos uma terra sujeita a pilhagem dos bandos, que vao e voltam e pare- cem sempre ser os mesmos, a despeito da mudanga de nomes, sobrevivendo a selvageria explicit de seus metodos primarios (mas acobertadpos por uma imprensa conivente). Somos um pro- jeto que falhou, sem nunca sequer ha- ver existido, sendo na imaginacao e na esperanga. E o que me fica na cabeca quando desembarco em Bel6m, com aquela estranha sensacao de vazio e de inqui- etagao que me invade ao perceber que, finalmente, estou em casa. * Final melanc6lico ameaga o ex-governador Alacid Nunes. Na ultima elei9do foi obrigado a ceder seu espago na propaganda eleitoral para que Vic Pires Franco pudesse atacar o entao senador Jarbas Passarinho, candidate ao governor. Passarinho perdeu, mas Alacid dormiu eleito deputado federal e acordou suplente, atras de Vie. 0 mesmo Vic que, servindo de testa-de-ferro do ex-prefeito H6lio Gueiros (para quem, quando governador, obsequiosamente levava fitas de video), despejou Alacid do comando do PFL, onde ele se manteve impavido e soberano por tantos anos. A possibilidade de Alacid sobreviver na political, depois de ter sido duas vezes governador do Para, tornou-se ainda mais problematica depois dos erros que cometeu, erros que seus fieis amigos de um passado ja remote dificilmente deixariam que cometesse. A solidio poliitica ou a ma companhia tem cobrado um alto preco ao ex- governador como, de resto, ao seu grande desafeto, Jarbas Passarinho. Se nao houver mudangas profundas nos pr6ximos tempos, eles desaparecerao da political paraense, na qual ja foram tio poderosos, como os dinossauros, apenas grandiosos enquanto figures de museu. 6 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JULHO / 1997 0 premio dos bons italianos e a ausencia do embaixador 0 Colombe d'Oro per la Pace 6, hoje, o maior premio jornalistico da Italia. Foi instituido em 1986 pelo Ar- chivio Disarmo, uma ONG criada qua- tro anos antes em Roma por homess da political, da cultural e da ciEncia" para ser um centro de documentagao e estu- do sobre os problems da paz e do con- trole dos armamentos, ja reconhecido pela ONU. Os fundadores da Disarmo possuiam a convic9ao comum de que "a paz e um bem supremo do genero human e que uma informaGr o correta e difusa e condicgo indispensavel para que (a paz) possa ser realizada", como diz um document da entidade. Por isso, resolveram distribuir anu- almente quatro primios: tres para jor- nalistas (da imprensa cotidiana, de pe- ri6dicos e de emissoras de radio-tele- visao) e um para uma personalidade international, que hajam dado "contri- buicgo significativa A causa da paz". A primeira personalidade premiada foi o primeiro-ministro da Su6cia, Olof Palme, que foi assassinado em plena Estocolmo, num crime ate hoje nio esclarecido. Tamb6m foram distingui- dos o president sul-africano Nelson Mandela e o ex-primeiro-ministro rus- so Mikhail Gorbatchov, e organizacbes como o Greenpeace, a Anistia Interna- cional e a Congregagdo Franciscana, entire outros. Para a premiacao deste ano o comi- t6 da Disarmo escolheu tres jornalis- tas. Pela primeira-vez, os italianos fi- caram em minoria: a unica representan- te do pais era Laura Becherelli, autora de um documentario sobre o envolvi- mento das criangas na guerra de Mo- cambique. O president do Disarmo, o ex-senador socialist Luigi Anderlini (que atuou no parlamento durante 30 anos, firmando uma image de digni- dade), explicou, diante dos jornalistas que compareceram a uma entrevista coletiva, que o nivel da imprensa es- crita italiana foi considerado sofrivel. Por isso, o juri decidiu exclui-la da pre- miaao. Uma outra Colombe d'Oro foi des- tinada a Fatos Lubonja, que edita uma revista em Tirana, a capital da Alba- nia. Ele permaneceu 17 anos na prisao do ditador alban8s Enver Hoxha. A principal pega de acusagio eram seus diarios pessoais, alem de poemas e novelas que escrevia enquanto estuda- va fisica. Solto em 1991, engajou-se no esforgo que seu pais vem fazendo para alcangar uma de- mocracia estavel. O terceiro jornalis- ta premiado fui eu, o prmeiro de fora da Europa nas 13 edi- 9oes do primio. Quem indicou meu nome ao comity foi o jorna- lista Maurizio Chierici, um dos premiados de 1994. En- viado especial do Corriere della Sera, o principal journal italiano, Maurizio me encontrou em duas de suas viagens ao Brasil. Ficou impres- sionado com o Jornal Pessoal, ao qual dedicou materia de pagina inteira no Corriere no ano passado (e escreveu outra para a revista Sette, que circula encartada no journal . Mas decidiu ir mais long: reinvidi- cou o premio para mim, fazendo o co- mite endossar a opiniao de que perten- co "aquela categoria de jornalista no qual e forte o empenho pela defesa da liberdade e da justiga". O parecer do comite reconhece ainda que eu nao re- nunciei "jamais a travar a batalha con- tra os poderosos devastadores de sua terra, contra os traficantes de todos os generous que continuam a desfrutar da enorme riqueza do Brasil". Recebi com muita honra o premio no dia 3, em Roma. Nao para alimen- tar vaidade pessoal, mas como o reco- nhecimento de que, mesmo num 6rgao de imprensa liliputeano como este, pode-se fazer jornalismo digno de ser reconhecido como valioso nos centros mais exigentes do mundo, ainda que em torno prevalega o esforgo dos podero- sos para esmaga-lo. O estimulo ao desempenho dessa fungao de denuncia e critical foi dado pelo president da Italia, Oscar Luigi Scalfaro, numa prolongada audincia que concede aos premiados no Pala- cio Quirinal (o nosso principle teria nos dado tal oportunidade?). Amavel, o velho president posou para uma foto me cumprimentando (como Maurizio Ihe solicitara que fizesse) e me disse que continuasse defendendo a verda- de, "mas cor prudencia, para nao ex- por tanto a sua vida". A solenidade de entrega da bela es- cultura (obra de Pericle Fazzini, um artist corn trabalhos no Vatica- no) foi emocionante. A personalidade inter- nacional homena- geada foi o deputa- do cat61lico John Hume, da Irlanda do Norte, um dos princi- pais interlocutors nas reabertas negocia96es de paz que, apesar dos novos conflitos, tentam criar uma situageo definitivamente esta- vel entire a Irlanda e a Inglaterra. Ao apresentar Hume nomee de um dos maiores fil6sofos ingleses), o se- nador Anderlini observou que estavam sentados no audit6rio, lado a lado, os embaixadores ingles e irlandes. A pla- teia bateu palmas demoradamente, in- dicando a insia de paz do melhor im- pulso que ha Europa. Ali tamb6m se encontrava o jovem embaixador da Albania, o atencioso Panddi Pasko. S6 o representante do meu pais es- tava ausente. O embaixador Paulo Car- doso Pires do Rio preferiu mandar o quarto funcionario na escala hierarqui- ca da embaixada, que, depois, visivel- mente constrangido, me procurou para convidar-me a visitar a embaixada e la almogar, o que deixei de fazer. S6 quando o senador Anderlini des- tacou a presenga do embaixador ingles ao lado do embaixador irland6s, con- ferindo importincia ao premio dado a Hume, e que me dei conta da enormi- dade da ausencia do operoso embaixa- dor brasileiro. Estaria assim tao atare- fado o sr. Pires do Rio no escaldante verao romano como disse seu represen- tante ou, fiel a um principio de servir ao governor e nao a nacdo, um dos tra- cos da n6doa que ainda marca o Ita- maraty desde o regime military, procu- rou evitar estar present a um ato no qual umjornalista critic iria falar (sou- be, depois, que informa96es a meu res- peito foram solicitadas de Roma a Bra- silia)? Ou tratou-se de mais um erro de avaliacao e perspective dos nossos di- plomatas? Mesmo o funcionario de quarto es- calao que esteve present a belissima festa do Disarmo foi logo embora, en- quanto Panddi Pasko conversava lon- gamente comigo. Observou que a me- dida que meu pronunciamento evoluia, minhas palavras pareciam descrever JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE JULHO / 1997 7 tanto a minha Amaz6nia quanto a sua Albinia, vitimas de um mesmo explo- rador extemo. Por isso. ficou sensibi- lizado e quis conversar comigo. E por esses moments foi como se ele fosse o meu embaixador e o sr. Pires do Rio nada mais fosse do que um lamentavel equivoco, mais um entire tantos que nos tem aprontado o Itamaraty, infiel a ins- piragco de Rio Branco. Temos um be- lissimo pr6dio como sede de embaixa- da em Roma e destinamos a ela maus ocupantes. Mas se faltou o estimulo do repre- sentante do meu pais, nao faltaram pa- lavras e atos de incentive dos various amigos italianos que fiz nestes dias in- tensos de junho/julho passados naque- le admiravel pais. No pronunciamento que fiz agradecendo o prEmio, lembrei a feliz frase de Euclides da Cunha que definiu, no inicio do seculo, a abertura da fronteira na Amaz6nia, a pagina do Genesis cuja escritura Deus delegou ao home. Mas recorri a um verso de Dante Alighieri na Divina Comedia para me referir ao drama que agora, neste fim-de-s6culo, vive-se na Ama- z6nia, esta "selva selvaggia, aspra e forte". Duas frases interligadas, a mais an- tiga, de quatro s6culos, antecipando a mais nova, que a insensatez humana, em poucas d6cadas, tratou de envelhe- cer, langando fumaga mais negra sobre o horizonte. O que devia ser escritura virou garrancho. Mas ainda ha paginas em branco no caderno do p6ssimo aprendiz que te- mos sido. Ao jornalismo cabe o vas- tissimo desafio de ocupar algumas dessas paginas antes que finde ate mesmo tempo para chorar o leite der- ramado ou a morte de Ines seja mais do que a image de um bardo que nos deixou por escrito inspiraaio para a eterna melancolia neste pais que nun- ca se realize. 0 Com a demissao do primeiro secre- tario municipal em sete meses de mandate, o prefeito Edmilson Rodri- gues tem a possibilidade de mudar o modo de o PT administrar Belem. Geraldo Lima havia conquistado a principal secretaria da PMB, a de fi- nangas, em fungio dos anos de traba- Iho como o principal assessor do par- tido em todas as campanhas eleitorais e nas lutas parlamentares ate entao travadas. Sua indicagao para o cargo era o arremate superior da diretriz do PT paraense de governor a capital par- tidariamente: quem nao fosse do par- tido nao poderia ascender a linha de frente da administration municipal e aos cargos de confianga. Apesar dos m6ritos acumulados em longos anos de dedicacgo ao partido, Geraldo Lima logo deixou evidence sua incapacidade de ajustar-se a um cargo de comando extremamente complex como o da Secretaria de Fi- nangas. Nao s6 ele, entretanto: a mai- or parte dos integrantes do staff mu- nicipal nao conseguiu ate agora so- breviver na transiqdo da ret6rica a pratica, da critical ao governor para o exercicio do poder. Ou seja: os qua- dros pr6prios do PT mostraram-se ex- tremamente pobres para responder ao desafio de resolver os problems acu- mulados em uma prefeitura arrasada por dentro como a de Bel6m, mas que se mantinha como cenario de cinema em fungfo da intense propaganda fei- ta pela administragco H6lio Gueiros. O resultado 6 que os indices de re- jeicao ao prefeito mais do que dobra- ram entire marco e junho. O desgaste tanto pode ser medido por pesquisas Ainda sem acordo cientificas de opiniao como por sim- ples conversa de rua. A cidade ficou ainda mais suja depois de um primei- ro trabalho de limpeza, tornou-se acompletamente ca6tica cor a ampla ocupagdo de suas vias pilblicas por camels e nao consegue identificar um program de governor a partir do Palicio Antonio Lemos. Al6m da heranga maldita deixada por Helio Gueiros, o desempenho so- frivel do conjunto do secretariado e de seus 6rgaos dependents, se per- sistir por mais tempo, nao s6 vai con- sumir o capital de esperanga e sim- patia com o qual o PT venceu a elei- cAo do ano passado, como, pelo con- traste, alimentado pela contumaz des- mem6ria do brasileiro, reforgara a imagem do ex-prefeito Helio Gueiros, dando-lhe armas para trabalhar sua candidatura ao governor no pr6ximo ano. E possivel que Edmilson Rodrigues tenha, finalmente, se convencido de que uma administra9ao partidaria na PMB esta condenada ao fracasso, tor- nando o PT de Belem um fen6meno tdo passageiro quanto foi o de Forta- leza. Tendo afastado seu principal as- sessor de campanha, ele agora tem au- toridade para cobrar eficiencia a cur- to prazo dos demais e, caso nao Ihe sejam devolvidos resultados, ir bus- car auxiliares onde os houver, corn efici8ncia, mesmo que nao tenham o sinal (ou estigma) da estrela verme- lha. Se afastar de vez a figure do pa- lanque, o prefeito ainda tem a opor- tunidade de nao frustrar de vez os que o elegeram para ser prefeito de uma cidade e nao o chefe de um partido.* A negociaqdo da prefeitura de Belem com o grupo Liberal em tomo da divida de publicidade de 1,2 milhao de reais, deixada pela administragco H1lio Gueiros, esteve bem pr6xima de um final feliz (ao menos para as duas parties; para o erario sao outros quinhentos). O principal executive do grupo, Romulo Maiorana Jr., vinha conversando a respeito com o secretario municipal de assuntos juridicos, Egydio Salles Filho, gragas ao fato de serem amigos. A proposta da prefeitura era dar um sinal equivalent a 20% do total do d6bito (que, na versao da PMB, seria de R$ 1,1 milhao) e quitar o restante em 10 parcelas mensais iguais. Para melhorar o perfil, a prefeitura se dispunha a pagar mais R$ 100 mil por mes de publicidade nova. O mais favoravel dentre os Maiorana a esse acordo era o director corporativo, Ronaldo, que quer promover a sua micareta annual em Belem com o apoio da prefeitura. Mas Romulo Jr. nao abriu mio de sua proposta: a divida paga em tres parcelas mensais. Mas se nro houve acordo nessa questio, ao menos o prefeito Edmilson Rodrigues pode comemorar a volta do seu nome ao noticiario de O Liberal, que nao poderia deixar de aproveitar a demissao do secretario de finangas, Geraldo Lima, mas para isso precisou referir-se nominalmente ao prefeito petista. Um interdito proibit6rio a menos na agenda inquisitorial da empresa. PT: a hora de afastar o partido da prefeitura Os coroneis vAo se dividir? Melhor para o Estado. O PFL tern um candida- to ao governor em 1998: 6 o ex-governador Helio Gueiros. Se Gueiros tives- se a pretensao de candida- tar-se ao senado, nio arma- ria a manobra que levou a dissolugao do diret6rio re- gional do partido, deslo- cando de seu comando os que eram favoraveis a ma- nutencao da coligagio que, tendo conseguido eleger Almir Gabriel em 1994, te- ria que apoiar sua reeleicao na dispute do pr6ximo ano. Uma recomposicao da coligacao s6 sera possivel, a partir de agora, se o go- vernador concordar em permanecer no cargo at6 o final do mandate e apoiar a volta de Gueiros ao po- der como seu successor, ten- do como compensagco a prerrogativa de indicar o candidate ao senado. Nes- se caso, o vice-governador H6lio Gueiros Jr. poderia candidatar-se a deputado federal, liberando com seu afastamento do cargo o pai da incompatibilidade elei- toral. Esta 6 a explicagco para a intervengao da executive national do PFL no dire- t6rio do partido no Para, re- alizada na semana passada. O governador Almir Gabri- el perdeu seus aliados no partido, chefiados pelo ex- governador Alacid Nunes, e agora, se se interessar pela opqco que Ihe resta, tera que renegociar os ter- mos do acordo, perdendo a c6moda posigao que tinha de impor as regras do jogo. Almir esta em franca campanha pela reelei9ao, mas nuvens ameagadoras se formam em seu horizonte. Uma pesquisa do Ibope en- comendada pelo journal O Liberal, mas nao publica- da, teria revelado que Jader Barbalho e Helio Gueiros estao tecnicamente empata- dos na prefer8ncia do elei- torado (o primeiro com 25%, o segundo corn 24%) e que Almir 6 apenas o quinto (com 7%), atras do senador Ademir Andrade, do PSB, e do prefeito de Bel6m, Edmilson Rodri- gues, do PT (que nao deve- ra ser candidate). O governador pode achar que, apesar desse resultado sofrivel, o uso da maquina official, mesmo cor as res- trig6es que o anteprojeto da lei electoral prevista para 1998 pretend introduzir, Ihe assegurarao mais oxig6- nio do que o de seus con- correntes na reta final, quando o fisiologismo tern sua importancia redobrada. Mas a perspective da ree- leigco ja nao 6 tao risonha e franca como parecia quando essa possibilidade para detentores de cargos executives foi aprovada pelo congress. Se quatro candidates fortes se apresentarem em 1998 (Almir Gabriel, Jader Barbalho, Helio Gueiros e Ademir Andrade), a pulve- rizacao da votacao que eles irao provocar podera viabilizar uma candidatu- ra nova, capaz de contras- tar cor esse portfolio de mesmice apresentado ao eleitor, oferecendo-lhe imagem e mensagem no- vas. Se for assim, final- mente os velhos (ou no- vos) coroneis da political estadual poderao dar uma contribuiiao positive ao Para, destruindo-se uns aos outros e abrindo cami- nho para uma renovaiao.* Mau exemplo A unica noticia que li na imprensa italiana nas tris semanas em que por la esti- ve saiu no Corriere della Sera, vinda de Paris. O gru- po ecol6gico frances "Robin Hood" ou "Robin das ma- deiras" estava iniciando um boicote ao perfume Chanel no 5. Os ambientalistas ha- viam descoberto que o fixa- dor do perfume e uma essen- cia extraida do pau-rosa, ar- vore da Amaz6nia ameaga- da de extingao por causa desse uso. O destaque maior foi dado a um detalhe hist6rico envol- vendo o perfume: era corn gotas dele, e nada mais no corpo, que a maravilhosa Marilyn Monroe ia para a cama quando nao tinha acompanhante mais inreres- sante, 6 claro, o que nao che- gava a ser assim tao raro. Como reagiria la Monroe, se ainda viva, diante dessa campanha? Aderiria a ela ou a repudiaria? Nao 6 essa a preocupagao mais relevant na questao, obviamente. Gente que so enxerga cifrao na natureza dira que se trata de uma cam- panha ex6tica, coisa de eu- ropeu cor conscience mau- vaise que nao ter o que fa- zer ou nao quer que os ou- tros enriquegam como eles. E que ser infitil: nao 6 pro- vavel que a casa Chanel se sensibilize ou que os consu- Journal Pessoal Editor: Lucio Flavio Pinto RedaF o: Passagem Bolonha, 60-B / 66 053-020 Fone: 223-1928 e 241-7626 Contato: Trv. Benjamin Constant, 846/203 1 66 063-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editora;go de arle: Luizpe / 241-18586222-5238 midores larguem em massa o perfume. Mas a iniciativa dos am- bientalistas francesas, por mais bizarre que pudesse ser, deveria provocar-nos re- flex6es mais positivas do que simplesmente tentar iro- niza-los, como fazem advo- gados rec6m-contratados por devastadores high tech. Desde a d6cada de 60 temos, em Santar6m, uma reserve para o pau-rosa. Na ultima vez que fui visitar a hidrel6- trica de Curua-Una consta- tei, no Palhao, que provavel- mente ali ja nao existe ne- nhuma arvore de pau-rosa, a esp6cie que deveria ser preservada. N6s nao precisariamos tomar licgo de estrangeiros sobre a preservagao ou o uso racional de nossas riquezas naturais se, antes, soub6sse- mos, quis6ssemos ou pudes- semos dar o bom exemplo. Derrubou-se vergonhosa- mente pau-rosa ao long de decadas para produzir a es- sencia fixadora de perfume, quando cor pesquisa e di- nheiro seria viavel realizar essa atividade sem o sacri- ficio da arvore. No ano passado um jo- vem estudante catarinense esteve comigo e me revelou seu escandalo diante da pou- ca informagao existente so- bre o pau-rosa. Mais ainda do que isso: da inconsist6n- cia da pouca informacao di- vulgada como sendo verda- de cientifica. Em alguns meses nos quais esse jovem dedicou tempo e inteligen- cia a estudar a arvore pare- ce haver acumulado mais e melhor informagao do que tudo o que se havia produ- zido at6 entao. Teve que vol- tar a Santa Catarina antes de concluir suas pesquisas por falta de dinheiro. E por fal- ta de dinheiro nao conseguiu mais retorar. Depois, simulando indig- nagio, gritamos que esses estrangeiros mal-apresenta- dos nao tnm nada que se meter cor o nosso patrim6- nio, que dilapidamos corn total leviandade. 0 |
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