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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00115
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00115

Full Text





Journal Pessoal
L U C I 0 F L A V I O P I N T O
AN X N5 16 UN A DE JU L E197.R$20


PFL: Gueiros e
candidate
L.^ (ag. 8)I


CARAJAS


Golpe mortal no coragao

0 tempo rapidamente vai mostrando que o president Fernando
Henrique Cardoso praticou um ato de lesa-pdtria quando decidiu
privatizar a CVRD. Mas o Para, onde as enormes riquezas minerals se
localizam, faz de conta que ndo existed. Quedo e mudo, aceita o abrire. !.I
~3~1~2p


ois fatos escancaram o ab-
surdo que foi: 1) vender a
Companhia Vale do Rio
Doce; 2) privatiza-la; 3)
vend8-la da forma que foi
adotada; 4) aliend-la pelo
prego estabelecido. Um fato: a venda,
por 2,64 bilh6es de reals, dos direitos
para a BellSouth operar a telefonia ce-
lular da Banda B na regiao metropoli-
tana de Sao Paulo. O outro fato: a pers-


pectiva de as jazidas de cobre de Cara-
jas crescerem muito acima do que se
previa, quando as pesquisas forem en-
cerradas.
No caso do leilio da telefonia celu-
lar no mais atraente mercado continen-
tal, surpreendeu tanto o prego minimo
fixado pelo governor, de R$ 600 mi-
lhMes, quanto o lance do licitante ven-
cedor, 341% superior ao piso. O que o
governor transferiu foi apenas a conces-


sao para a gigante americana entrar no
mercado, mas nao um monop6lio, mui-
to menos ativos. Foi ar a mercadoria
transacionada, observaram os analistas.
Ja no caso da CVRD, o patrim6nio ali-
enado 6 imenso em instalag~es fisicas
e em bens comerciais, alem do valor
de prestigio da marca e sua funCgo es-
trat6gica, mas s6 alcangou 30% a mais
do que a telefonia cellular paulistana.
0 contrast 6 brutal.


Ps 0 0 BT: FIM DO -OVERNO PATAIE.7)







2 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO / 1997


Tao espantoso e o governor ter deci-
dido privatizar a principal empresa de
minerafio do mundo exatamente quan-
do se abrem para ela perspectives ate
entao inimaginaveis s6 corn a provin-
cia de Carajas. Todos se impressionam
cor as revelac~es que sucessivamente
vem sendo feitas sobre os dep6sitos de
ouro em Carajas. A Vale, que at6 pou-
co tempo atras nao tinha qualquer re-
presentatividade no mercado do ouro,
deve comegar o seculo produzido mais
de 30 toneladas por mes e podera con-
tar com jazidas cor reserves de at6 mil
toneladas, assumindo o terceiro lugar
no ranking mundial.
Mas o ouro, na melhor das hip6te-
ses, nao representara mais do que 20%
da receita possivel com a produgao de
cobre metalico caso as informae6es que
comegam a filtrar das pesquisas em
andamento pela Docegeo em Carajas
se confirmarem ao final dos trabalhos,
em setembro. Segundo esses dados, na
extensao da jazida do igarap6 Bahia o
minerio encontrado tem o dobro do teor
de cobre que ha na jazida do Salobo,
aquela que viabilizou o projeto de be-
neficiamento da Salobo Metais. Nao s6
o teor 6 mais rico, como a extensao do
dep6sito 6 maior. E, naturalmente, traz
mais ouro e prata consigo.
Isto quer dizer que o Brasil, de tra-
dicional importador de cobre, nao s6
se tornara auto-suficiente, mas vai sal-
tar para o terceiro ou talvez o segundo
lugar entire os maiores detentores do
minerio. Os mais otimistas apostam
que, na verdade, o Brasil apenas
corn os jazimentos de Carajas, sem se-
quer considerar os de Jamari e Cama-
qua, na Bahia, e o de Chapada, em
Goids podera desbancar o tradicio-
nal lider do setor, o Chile.
Como 6 que, cor essa perspective
de transformag6es cor tal pofundida-
de, o governor brasileiro decide passar
em frente, por pego de final de feira,
sua mais important empresa? O pior
6 que, como os melhores resultados
estao sendo obtidos na jazida do iga-
rape Bahia (e nao no Corpo Alemao,
ao contrario do que vem noticiando a
grande imprensa), esses direitos fica-
rao com a CVRD privatizada e nio
con a empresa que foi organizada pelo
governor (como forma de adogar a
boca dos opositores do leilao de ven-
da), em parties iguais entire a Vale e o
BNDES, para garantir uma certa for-
ma de control sobre os novos dep6-
sitos.
Ou seja: o governor Fernando Henri-
que Cardoso tomou a pior das suas de-
cis6ess de seu mandate, pelo qual res-
ponc r-- n,'rante a. hist6ria se 6 que,


antes, caso o poder judiciario for sen-
sivel, os que contestaram a privatiza-
cao nao conseguirem anular esse ato de
lesa-patria. Alias, se alguem nao lem-
bra, Carajas fica no Para, um Estado
rico, mas sem lideranga para fazer ou-
vir sua voz e impor sua vontade. O
governor estadual aceitou passivamen-


A Provincia do Pard publicou, no
dia 23 de junho, a seguinte nota em sua
Primeira Coluna: "As 10hs, de ontem,
nao havia mais A Provincia do Pard
em nenhum gazeteiro; poucos restavam
nas bancas. Esta e a maior prova de que
este journal esta de cara com o leitor.
Todo dia. Nao adianta os despeitados
dizerem em seus folhetins que nao e
bem assim. E nao adianta fingir igno-
rancia, fazendo calculos s6 corn a po-
pulagao de Bel6m para estimar a nossa
tiragem. O calculo, se honest, deve-
ria ser feito com pelo menos 5 milh6es,
que 6 a populagao paraense. Mas tern
jornalista metido a fazer jornalismo
investigative que nao apura o que pu-
blica e ainda puxa o saco dos seus al-
gozes. Melhor faria pedir arrego e vol-
tar a trabalhar para os antigos patries.
Pelo menos seria mais honesto.
A nota, evidentemente, refere-se a
edic~o da segunda quinzena de junho
deste journal. O primeiro trabalho de
auto-profilaxia que A 'Provincia sub-
Gengis deveria fazer era abandonar
essa pratica provinciana e anti-pro-
fissional da indireta, que prevale-
ceu como erva daninha durante muito
tempo, mas ja foi convenientemente
expurgada nas publica6es modernas.
D8-se nome a quem se refere, tanto
para estimular saudaveis pol8micas,
como para melhor informar o leitor.
Como sempre viso os dois objetivos,
assume a carapuga.
Se A Provincia quer que sua auto-
declarada tiragem seja levada a s6rio
deve contratar a auditagem do IVC
(Instituto Verificador de Circulaiao).
Se ainda nao ter dinheiro (ou coragem)
para contratar o IVC, entao evite esti-
mativas tao irreais como a apresentada
a revista Imprensa. Nao 6 desonroso ter
tiragem pequena, embora deva-se bus-
car a ampliagao da circulagao, uma
necessidade vital para empresas como
A Provincia. Indigno 6 mentir ao pu-
blico. O New York Review of Books, a
mais prestigiosa publicagao intelectu-
al do planet, tira 30 mil exemplares.


te que o comando das decisSes nessa
parte vital de seu territ6rio e sobre a
principal base de future fique integral-
mente nas maos de um empresario par-
venu que participa da empresa que tem
apenas 1,2% do capital da poderosa
CVRD. Atores mediocres de uma fase
decisive da hist6ria deste Estado. 0


A questao e de political editorial
O redator da coluna, que destila seu
rancor e inveja protegido pelo anoni-
mato (o que nao faz mesmo diferenga:
ainda que assinasse a Primeira Coluna
continuaria an6nimo), nao sabe ler. Ele
diz que o calculo honest das tiragens
deveria ser feito sobre os 5 milh6es de
habitantes que ter o Para (na verdade,
sao 5,5 milh6es) e nao apenas sobre a
populagao de Belem. Ora, na nota que
escrevi e que provocou seu furor uteri-
no ressalvei, com todas as letras: "Pelo
menos 80% dessa circulagao fica na
capital" (em alguns casos, pode ir alem
de 90%, se considerada a area metro-
politana). Relativizei, portanto. Deso-
nesto seria nao relativizar, como se a
tiragem dos jomais de Bel6m circulas-
se homogeneamente por todo o Esta-
do, o que nao ocorre.
Ele diz que sou despeitado. Nao sou.
Em primeiro lugar porque A Provincia
nao 6 meu concorrente. Atuamos em
segments distintos do public e ofe-
recemos produtos diferentes (e supe-
ropostos, nao excludentes) ao merca-
do. A minha publicado 6 uma news-
letter de circulagao semi-dirigida. Os
leitores de A Provincia nao abandona-
rao esse journal para ler o meu, nem
vice-versa. Se leem os dois jornais, a
leitura continuara a ser cumulative. O
mesmo se aplica aos outros dois diari-
os. Logo, nao tenho o mais remote
motivo para desejar ma sorte a A Pro-
vincia.
Muito contrario. Foi nesse journal que
comecei minha carreira, ha quase 32
anos, e me orgulho muito dessa origem.
Estando onde estava naquele remote
ano de 1966, na remota Belem do Grao
Para, nao poderia ter tido abrigo me-
Ihor. Ganhei trEs padrinhos afetuosos,
Milton Trindade, Agostinho Monteiro
e Augusto Meira Filho; formei uma das
mais belas amizades da minha vida,
cor Roberto Jares Martins (de quem
minha saudade jamais se extinguira);
tive um mestre de primeira linha, Clau-
dio Augusto de Sa Leal; ganhei um


Vaidade de Gulliver,

realidade de Lilliput







JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE JULHO / 1997 3


companheiro para toda a vida, Wilson
Correa; aprendi cor rep6rteres que
conviviam e competiam saudavelmen-
te comigo, como Rubens Silva, Mano-
el Maria Pompeu Braga, Aldo Almei-
da e Alvaro Costa (depois, sucessiva-
mente, com S6rgio Buarque de Holan-
da, Euclides Bandeira e Jurandir Mon-
teiro Lopes) e cor fot6grafos que me
orientaram, como Porfirio da Rocha,
Ayrton Quaresma, Jose Tolentino Mar-
tins e Emanoel 0 de Almeida,.
Foi uma geragao de ouro de jorna-
listas, aos quais se juntariam Raimun-
do Jose Pinto, Guilherme Augusto Pe-
reira. Raymundo Costa e Nlio Palhe-
ta. Fontes outras de boas lembrangas e
saudades imorredouras ndo faltam (e,
infelizmente, nao tenho espago para
nomina-las todas). Como posso ter des-
peito do 6rgao e da empresa que fer-
mentaram essa onda de criatividade e
crescimento professional? Mesmo sem
ter relacgo professional com o journal,
nunca deixei de visita-lo e demonstrar-
lhe minha afeiclo.
Sejamos sdrios, redator an6nimo e
mediocre. Tenho todos os motives, do
passado e do present, para desejar que
A Provincia d& certo e rompa o mono-
p6lio odioso e pernicioso do grupo Li-
beral. Mas tenho todos os receios quan-
to ao sucesso dessa empreitada de in-
teresse public.
Em primeiro lugar, porque a empre-
sa nao enfrenta o monop6lio. O maxi-
mo que ocorreu foi uma guerra de vai-
dades, da qual resultou que um 6rgao
nao se refere ao outro porque um dei-
xou de citar o dirigente do outro, numa
guerrinha de comadres que em nada
serve a opiniao pfiblica.
A maior realizaiao at6 agora de Gen-


gis Freire como dono de jomal foi ter
ultrapassado o record estabelecido por
OctAvio Avertano Rocha em O Estado
do Pard em mat6ria de fotos e referen-
cias a pr6pria familiar (um genero de
nepotismo que nao costuma ser repri-
mido). Mas Avertano pelo menos per-
mitiu (ou conviveu cor) o ultimo me-
Ihor jornalismo que se praticou na gran-
de imprensa paraense, o que nao e o
caso da fase inaugurada pelo secreta-
rio do Tribunal de Justiga do Estado.
Ainda assim, alguma esperanca ainda
ha dentro de mim (ou precise reinven-
ta-la) quanto a possibilidade de rever-
sao desse dominio que o grupo Liberal
estabeleceu nesta sofrida terra.
As palavras levianas do redator an6-
nimato (daquele tipo de anonimato pra-
ticado pelos gatos, que sempre deixam
o rabo de fora) nao serao capazes de
anular um fato objetivo: sou a unica
pessoa, dentro e fora da imprensa, que
nao se curvou a vontade, aos caprichos
e ao poder da familiar imperial (ou im-
periosa) paraense. Ha quase cinco anos
resisto a guerra judicial de Rosangela
Maiorana (guerra, nesse caso, nada tern
de forga de expressao). Sou o inico que
ataca o grupo, sem jamais ter entrado
em sua vida privada (mat6ria-prima
rica para uma imprensa sensacionalis-
ta), para mim sagrada quando nao re-
lacionada a dimensdo piblica da per-
sonalidade.
Mas nem por isso vou distorcer fa-
tos ou inventar informacges contra o
grupo Liberal. Quando escrevo, sou
jornalista. Impossivel ser jornalista
agredindo os fatos, qualquer que seja
a motivagao political ideol6lgica, sen-
timental). Apesar da sandice do colu-
nista, nao vou tomar o tempo do leitor


recontando a hist6ria de um profissio-
nal com 32 anos de carreira. O Liberal
So uinico journal cor tiragem auditada
pelo IVC (um dos raros do Norte e
Nordeste).
Ninguem contest o que diz o IVC,
membro de uma restrita relacgo de ins-
tituicqes series do pais. O que tenho
feito e questioner o significado de um
iinico resultado de uma pesquisa do
Ibope que O Liberal divulga, isolan-
do-o do conjunto da pesquisa. A Pro-
vincia simplesmente tern feito de con-
ta que a pesquisa nao existe, embora
ela represent sua complete humilha-
gco. Mas nao se pode contestar um
dado parcial opondo-lhe uma mentira
aberta. E precise desmascara-lo atra-
ves de raciocinio, investigag9o e anali-
se, tres elements do meu jornalismo
que o obscure colunista nao consegui-
ra desautorizar.
Jomalismo, para dar resultado, ne-
cessita de bons administradores, mas
jamais dara certo sem bons jornalistas.
O problema de A Provincia do Para
esta em nao contar com a quantidade
minimamente necessaria desses dois
tipos de profissionais e, sobretudo,
nao ter a diregCo adequada para o gra-
ve moment que esta enfrentando, ja
que bons profissionais sempre ha no
mercado, mas A Provincia nao tem dis-
posto dos dirigentes que requer e me-
rece. Se tivesse, a malfadada nota aqui
comentada nao teria sido publicada,
nem said uma outra produzida depois,
protestando por nao terem os deputa-
dos estaduais reservado lugar em seu
almoco de confraterizagio para os re-
p6rteres setoristas BLT.
Pobre Provincia de tantas gl6rias
passadas, pobre jomalismo. 0


A providencia rapida e rasteira


Invariavelmente os governa-
dores eleitos assume o cargo
prometendo dar prioridade A
seguranqa pitblica em suas ad-
ministraq6es, um dos temas
que mais toca a sensibilidade da
opiniao puiblica brasileira. Em
geral entendem por prioridade
comprar carros (viaturas, na
linguagem policial), executar
obras fisicas e fazer algumas
maquilagens administrativas,
cujos mecaniosmos acionam
mais os efeitos do "por fora"do
que do "por dentro" na corpo-
ragdo e seus extensos satdlites.
Nunca vem com uma ver-
dadeira political de seguranqa
piublica, que exige piano de car-
gos e salArios compativel corn


a natureza da funcdo policial,
treinamento adequado, infraes-
trutura suficiente e logistica
atualizada. Ou seja: coragem,
determinagao e clarividencia
para mudar para valer uma es-
trutura carcomida, viciada e
ineficiente, mas indispensavel
para a sociedade.
O governador Almir Gabri-
el, que chegou cor a mesma
8nfase ret6rica e equivalent
vacuidade de conteufdo, nao
tendo aplicado uma political de
seguranca pfiblica, ao tender
atabalhoadamente as exigEnci-
as dos policiais grevistas pode
ter dado um sagaz golpe po-
litico (ou eleitoreiro), mas
nada fez para estabelecer uma


postura saudivel nesse setor.
Ao contrArio: lanqou ao ar
uma arma que pode se voltar
contra ele como um bumeran-
gue. E isso quando, finalmen-
te, tendo um bom chefe de po-
licia, poderia dar-lhe mais do
que bugigangas e lantejoulas
para que a ret6rica se trans-
formasse em realidade. Por
falta de cimento, a aguada que
o governador fez nao vai dar
pega e o que ele construiu
pode ruir como casteio de
areia na praia.

Advertdncia
A fuga tao facil em massa do
presidio de Americana, lidera-
da por um criminoso cor a pe-


riculosidade de "Ninja", no
mesmo dia em que policiais mi-
litares provocam, de forma tao
amadoristica e irresponsavel, a
morte de uma mulher seqiies-
trada por bandidos primarios,
revela, ate para o mais cego dos
tucanos, a total faldncia da po-
licia paraense.
Ou se leva a s6rio o proble-
ma, apostando nele recursos
que nao vao dar a resposta ime-
diata dos projetos eleitoreiros
de estagao, mas que sao urgen-
te e categ6ricos, ouvamos con-
tinuar colecionando essas bar-
baridades, embromados por go-
vernantes e assassinados pelos
que nao estao nem ai para a le-
ni8ncia da demagogia. 0







4 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JULHO / 1997


De volta ao lar,


Cinco anos antes eu sofrera
impact semelhante, mas ndo
tao intense: embarcado em
Barcelona, na Espanha,
algumas horas depois
atravessava o Araguaia,
vindo de Brasilia, entrava no
devastado territ6rio paraense
e pousava no aeroporto de
Carajds, uma escala antes de
Belem. Agora eu vinha de
Roma, passara pelo Rio de
Janeiro e Brasilia, e ainda
tocaria em Marabd antes de
aterrissar na arrasada capital
dos paraenses.

azia tempo que eu nao tinha
uma visao tao panoramica
do sul do Para. No horizon-
te de todas as direc6es, a
mesma paisagem la embai-
xo: maiores extens6es de
areas ja sem a cobertura vegetal primi-
tiva e ilhas de floresta original. Corn
um detalhe perceptivel ao observador
mais atento: macigos empobrecidos
pela extragao seletiva das esp6cies de
maior valor commercial o mogno, so-
bretudo.
O desmatamento cresceu muito em
cinco anos, em tr8s dos quais estamos
em v6o cego, sem o apoio do levanta-
mento annual do Inpe, o Instituto Naci-
onal de Pesquisas Espaciais de Sao Jose
dos Campos, certamente por falta de
dinheiro (que nao falta ao sistema fi-
nanceiro. Ao decr6scimo da taxa de
desmatamento entire 1987/90 seguiu-se
a infletida ascendente de 1991/93,
quando a estatistica estancou; desde
entao, ninguem sabe, ningu6m viu.
Mas, pelo silencio official, pode-se sus-
peitar de que o crescimento da destrui-
gio persista.
Tres semanas antes eu fizera uma
viagem de aviao entire o centro-sul e o
nordeste da Italia, indo do Mar Tirre-
no ao Adriatico. Passara da planicie
baixa ao planalto e a montanha, sem-
pre registrando a presenga humana,
apesar dos acidentes geograficos, das
limitaQ6es territoriais. Corn uma area
25 vezes menor do que a do Brasil, a
Italia oferecia a uma populag~o s6 um


tergo inferior um padrao de vida incom-
paravelmente superior ao do brasilei-
ro, embora, em terms quantitativos, a
diferenga nao parega tao abissal: a Ita-
lia como a quinta potencia econ6mica,
o Brasil no oitavo lugar.
Depois de tres semanas de intense
vivEncia na Italia, ao atravessar o Ara-
guaia na direcao noroeste eu divisava
uma grandeza geografica sem parale-
lo. O Para 6 quase quatro vezes maior
do que a Italia, cor uma populagao 10
vezes menor. Sua maior restrigao fisi-
ca comegava a divisar-se diante dos
meus olhos: os acidentes no terreno,
como a anomalia de Carajis, alcangan-
do ate 400 metros de altitude.
Mas aqueles conjuntos de serras si-
tuadas no interflfvio Araguaia-Xingu
ainda estao, em boa parte, cobertos de
vegetagco, cercados por cursos d'agua,
abenqoados por chuvas intensas, enri-
quecidos por uma fauna diversificada.
0 espetaculo oferecido por Carajas e
deslumbrante, mesmo para aquele que
ali ja pousou dezenas de vezes: lagoas
perenes ou temporarias, plates recober-
tos de vegetagao de canga, escarpas
debruadas de rico verde (e a maior con-
centracao de castanheiras da regiao,
sintoma da fertilidade do solo), dois
belos rios circundando as eleva96es
(Itacaiiunas e Parauapebas). Como e que
os italianos conseguem tanto com tio
pouco e, n6s, tao pouco com tanto?
Eles nao tmr ouro, mas disp6em da
melhor ourivesaria. Nao tnm couro,
mas fabricam os melhores sapatos do
mundo. 0 rebanho e limitado, mas a
Parmalat e uma potencia. Nao e fun-
damental ter recursos naturais quando
se ter intelig6ncia e conhecimento.
Mas uma coisa nao exclui a outra: n6s
6 que estamos deliberadamente (ou
burramente) excluindo, anulando uma
vantagem que poderiamos usar na com-
petigao global. Caimos no conto da
sereia e afundamos no mar abissal do
tempo.

A Era no que pensava
sobre minha poltrona
area (ainda nao cons-
ciente do risco da eje-
9ao nao programada
que a comercialissima
aviaggo brasileira introduziu no atavar
do nosso cotidiano) enquanto contem-
plava as feridas abertas no solo antes
recoberto de mata.
Para que serve essa terra desmata-


da? Para capim, para umas poucas cul-
turas agricolas e diminutos rebanhos
bovinos, algo de pouco valor se enca-
rado pelo prisma da qualidade (a mai-
oria do gado segue para as charquea-
das no Nordeste). Antes de mais nada,
nos anos mais recentes, para a pilha-
gem madeireira. Somos series antedilu-
vianos num mundo desperto para o
meio ambiente, mas nao tao atento aos
ambientes mais distantes de seu umbi-
go.
Eu tinha diante de mim a larga pai-
sagem da insensatez, da desinteligen-
cia, do atraso. Estaremos condenados
a isso no Para, a um nunca se aproxi-
mar do padrao corn o qual convivera
tres semanas na Italia? A nos distanci-
ar cada vez mais, enquanto os public-
relations (muitas vezes advogados de
ocasiao) apregoam que estamos che-
gando la?

M Ha varios anos o jor-
nalismo me tem pro-
porcionado a oportuni-
dade de experiencias
comparativas entire um
padrao mais elevado
no exterior e o nosso. De todas essas
incurs6es tenho voltado cor a convic-
cao de que o peso das limitac6es estru-
turais que nos sao impostas a partir de
fora s6 e um pouco superior ao que que
result de nossas pr6prias deficinci-
as, de nossas limita96es intemas, dos
nossos vicios e mazelas historicamen-
te acumulados e conjunturalmente
sempre renovados, ao inves de serem
suprimidos.
0 nosso potential de grandeza e tao
visivel e 6bvio quanto nossa incapaci-
dade para transformar esse destino
manifesto em realidade, em algo mais
do que figure de ret6rica ou instrumen-
to publicitario. 0 colonialismo, o im-
perialismo ou o neoliberalismo existem
e nao podem ter sua a9go minimizada.
Mas nao sao fatores que bloqueiam por
inteiro nosso acesso ao clube das na-
c9es de primeira linha. Somos n6s mes-
mos essa barreira fundamental.
N6s, virgula: nossas elites. Temos a
pior das elites que ja rastejaram sobre
a superficie deste planet azul. Conhe-
ci varias elites, vivas ou hist6ricas. A
iltima delas, a da Veneza dos dodges
(na verdade, dos conselhos dos oligar-
cas), me deixou interessadissimo em
aprofundar meus conhecimentos a res-
peito. Mesmo depois de ler bastante,







JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO / 1997 5


ao agridoce lar


s6 me dei conta em profundidade da
razao do amor (e da nostalgia) de Gia-
como Casanova por Veneza (foi ele
quem primeiro me apresentou a Sere-
nissima em suas fascinantes Mem6ri-
as), mesmo ao fugir pelo telhado da
prisao veneziana a que fora condena-
do e ter que ir-se definitivamente dali,
ao encerrar uma visit de trEs dias a
cidade.

Veneza foi republican
numa epoca em que a
humanidade patinava
sob monarquias de ori-
gem divina. Havia des-
potismo nessa republi-
ca, mas havia tambem
esclarecimento. Havia um projeto de ci-
vilizacgo. Os nobres venezianos viam
o mundo na perspective de um largo
horizonte que queriam alcangar e
alcangaram. Nao apenas sozinhos, mas
carregando uma comunidade.
A evid6ncia desse sucesso persiste
at6 hoje na configuragao da cidade,
uma arrebatadora realizagao urbanisti-
ca, inclusive no que parece ser sua cha-
ga. Visitei o gueto veneziano, o primei-
ro do mundo, e fiquei escandalizado
com minha pr6pria conclusao: boa par-
te dos 150 milh6es de brasileiros vive,
hoje, em condi98es piores do que os
segregados hebreus de quatro, cinco
seculos atras.
E irreprimivel a sensacao de revolta
e indignagao, e tambem de derrota, di-
ante dessa constatagao. E que nao te-
mos um projeto de civilizagqo, algo
que, infelizmente, s6 uma elite escla-
recida pode formular e executar. Nos-
sa elite nao tem a menor preocupagio
corn isso. Nem mesmo a melhor floor
produzida nos jardins dessa elite diri-
gente no caso, o nosso principle Fer-


nando Henrique Cardoso. Infelizmen-
te, ele esta trocando a dignidade do
cargo pelas pompas e circunstincias da
representagao, sacrificando o essenci-
al na estrutura do pais pelo efemero na
duradio do mandate, por mais que ele
possa ser espichado a custa de fisiolo-
gismo.
Mas nao e uma culpa que se indivi-
dualize de forma tao singular: ela deve
se multiplicar pelas centenas (cinco?
seis?) de families que agrilhoram o pais
aos seus interesses e sugam-no com
uma voracidade sem paralelo na histo-
ria international das pilhagens.
No aviao li numa revista de bordo
da Alitalia que a sensacgo dos neg6ci-
os nesta decada, o americano Michael
Bloomberg, de 55 anos, destina parte
dos lucros de sua empresa de informa-
cao econ6mica (de 200 milh6es de d6-
lares no ano passado) a universidade
John Hopkins, onde ele se formou em
administragao e onde faz questao de
atuar como president do conselho (la,
a convite, fiz palestra em 1984 e fiquei
comovido cor a recepgao e o interes-
se). Que brasileiro ter attitude seme-
lhante? Quantos dao um misero retor-
no de seus ganhos econ6micos a cau-
sas de verdadeiro interesse plblico?
Dirao que superestimo a fungao das
elites. Mas o que seria da mais glorio-
sa das revolu96es deste seculo, a rus-
sa, sem sua elite de bolcheviques? E o
que aconteceu quando o primeiro dos
apparatchiks, o papd Josef Stalin, to-
mou o poder das maos (tr6mulas) de
Trotsky? A bela elite que fez a revolu-
9ao era pequena demais e em pouco
tempo o caminho para uma das mais
selvagens tiranias de todos os tempos
estava aberto escancarado, melhor
dizendo. A partir dai, matar centenas
de milhares de pessoas foi muito facil.


Dinossauro na reta final


Se nao temos ura verdadeira elite
national, o que falar em terms regio-
nais ou estaduais? Temos no comando
de Estados amaz6nicos gente como
Amazonino Mendes e Orleir Carmeli.
O que seria da Amaz6nia se tivesse se
tornado pais entire 1835 e 1840, quan-
do durou a revolucao cabana, tendo
governantes desse quilate? Quem seria
o nosso Mobutu ou Bokassa?

SNao, certamente, o
nosso governador Al-
mir Gabriel, apesar do
epis6dio de Eldorado
de Carajas. Nosso go-
vernador, ao que pare-
ce, nao sera nada, nem para mais, nem
para menos. Sera sempre o tom neu-
tro, a neutralidade e a assepsia de uma
sala de cirurgia, o lugar no qual de-
monstrou a competencia especifica que
agora, se existiu algum dia em seu sen-
tido mais amplo, evaporou-se e sumiu.
Um tucano sem macola, mas tambem
sem tutano, mais um numa sucessao de
satrapas. Mais do que um Estado de
tucanos, tornamo-nos um Estado de
avestruzes.
Somos um Estado sem comando,
somos uma terra sujeita a pilhagem dos
bandos, que vao e voltam e pare-
cem sempre ser os mesmos, a despeito
da mudanga de nomes, sobrevivendo a
selvageria explicit de seus metodos
primarios (mas acobertadpos por uma
imprensa conivente). Somos um pro-
jeto que falhou, sem nunca sequer ha-
ver existido, sendo na imaginacao e na
esperanga.
E o que me fica na cabeca quando
desembarco em Bel6m, com aquela
estranha sensacao de vazio e de inqui-
etagao que me invade ao perceber que,
finalmente, estou em casa. *


Final melanc6lico
ameaga o ex-governador
Alacid Nunes. Na ultima
elei9do foi obrigado a
ceder seu espago na
propaganda eleitoral para
que Vic Pires Franco
pudesse atacar o entao
senador Jarbas Passarinho,
candidate ao governor.
Passarinho perdeu, mas
Alacid dormiu eleito
deputado federal e


acordou suplente, atras de
Vie. 0 mesmo Vic que,
servindo de testa-de-ferro
do ex-prefeito H6lio
Gueiros (para quem,
quando governador,
obsequiosamente levava
fitas de video), despejou
Alacid do comando do
PFL, onde ele se manteve
impavido e soberano por
tantos anos.
A possibilidade de


Alacid sobreviver na
political, depois de ter sido
duas vezes governador do
Para, tornou-se ainda mais
problematica depois dos
erros que cometeu, erros
que seus fieis amigos de
um passado ja remote
dificilmente deixariam que
cometesse. A solidio
poliitica ou a ma
companhia tem cobrado
um alto preco ao ex-


governador como, de
resto, ao seu grande
desafeto, Jarbas
Passarinho.
Se nao houver mudangas
profundas nos pr6ximos
tempos, eles desaparecerao
da political paraense, na
qual ja foram tio
poderosos, como os
dinossauros, apenas
grandiosos enquanto
figures de museu.







6 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JULHO / 1997



0 premio dos bons italianos



e a ausencia do embaixador


0 Colombe d'Oro per la Pace 6,
hoje, o maior premio jornalistico da
Italia. Foi instituido em 1986 pelo Ar-
chivio Disarmo, uma ONG criada qua-
tro anos antes em Roma por homess
da political, da cultural e da ciEncia" para
ser um centro de documentagao e estu-
do sobre os problems da paz e do con-
trole dos armamentos, ja reconhecido
pela ONU. Os fundadores da Disarmo
possuiam a convic9ao comum de que
"a paz e um bem supremo do genero
human e que uma informaGr o correta
e difusa e condicgo indispensavel para
que (a paz) possa ser realizada", como
diz um document da entidade.
Por isso, resolveram distribuir anu-
almente quatro primios: tres para jor-
nalistas (da imprensa cotidiana, de pe-
ri6dicos e de emissoras de radio-tele-
visao) e um para uma personalidade
international, que hajam dado "contri-
buicgo significativa A causa da paz".
A primeira personalidade premiada
foi o primeiro-ministro da Su6cia, Olof
Palme, que foi assassinado em plena
Estocolmo, num crime ate hoje nio
esclarecido. Tamb6m foram distingui-
dos o president sul-africano Nelson
Mandela e o ex-primeiro-ministro rus-
so Mikhail Gorbatchov, e organizacbes
como o Greenpeace, a Anistia Interna-
cional e a Congregagdo Franciscana,
entire outros.
Para a premiacao deste ano o comi-
t6 da Disarmo escolheu tres jornalis-
tas. Pela primeira-vez, os italianos fi-
caram em minoria: a unica representan-
te do pais era Laura Becherelli, autora
de um documentario sobre o envolvi-
mento das criangas na guerra de Mo-
cambique. O president do Disarmo, o
ex-senador socialist Luigi Anderlini
(que atuou no parlamento durante 30
anos, firmando uma image de digni-
dade), explicou, diante dos jornalistas
que compareceram a uma entrevista
coletiva, que o nivel da imprensa es-
crita italiana foi considerado sofrivel.
Por isso, o juri decidiu exclui-la da pre-
miaao.
Uma outra Colombe d'Oro foi des-
tinada a Fatos Lubonja, que edita uma
revista em Tirana, a capital da Alba-
nia. Ele permaneceu 17 anos na prisao
do ditador alban8s Enver Hoxha. A
principal pega de acusagio eram seus
diarios pessoais, alem de poemas e
novelas que escrevia enquanto estuda-


va fisica. Solto em
1991, engajou-se no
esforgo que seu pais
vem fazendo para
alcangar uma de-
mocracia estavel.
O terceiro jornalis-
ta premiado fui eu, o prmeiro
de fora da Europa nas 13 edi-
9oes do primio. Quem indicou
meu nome ao comity foi o jorna-
lista Maurizio Chierici, um
dos premiados de 1994. En-
viado especial do Corriere
della Sera, o principal journal italiano,
Maurizio me encontrou em duas de
suas viagens ao Brasil. Ficou impres-
sionado com o Jornal Pessoal, ao qual
dedicou materia de pagina inteira no
Corriere no ano passado (e escreveu
outra para a revista Sette, que circula
encartada no journal .
Mas decidiu ir mais long: reinvidi-
cou o premio para mim, fazendo o co-
mite endossar a opiniao de que perten-
co "aquela categoria de jornalista no
qual e forte o empenho pela defesa da
liberdade e da justiga". O parecer do
comite reconhece ainda que eu nao re-
nunciei "jamais a travar a batalha con-
tra os poderosos devastadores de sua
terra, contra os traficantes de todos os
generous que continuam a desfrutar da
enorme riqueza do Brasil".
Recebi com muita honra o premio
no dia 3, em Roma. Nao para alimen-
tar vaidade pessoal, mas como o reco-
nhecimento de que, mesmo num 6rgao
de imprensa liliputeano como este,
pode-se fazer jornalismo digno de ser
reconhecido como valioso nos centros
mais exigentes do mundo, ainda que em
torno prevalega o esforgo dos podero-
sos para esmaga-lo.
O estimulo ao desempenho dessa
fungao de denuncia e critical foi dado
pelo president da Italia, Oscar Luigi
Scalfaro, numa prolongada audincia
que concede aos premiados no Pala-
cio Quirinal (o nosso principle teria nos
dado tal oportunidade?). Amavel, o
velho president posou para uma foto
me cumprimentando (como Maurizio
Ihe solicitara que fizesse) e me disse
que continuasse defendendo a verda-
de, "mas cor prudencia, para nao ex-
por tanto a sua vida".
A solenidade de entrega da bela es-
cultura (obra de Pericle Fazzini, um


artist corn trabalhos no Vatica-
no) foi emocionante. A
personalidade inter-
nacional homena-
geada foi o deputa-
do cat61lico John
Hume, da Irlanda do
Norte, um dos princi-
pais interlocutors nas
reabertas negocia96es de
paz que, apesar dos novos
conflitos, tentam criar uma
situageo definitivamente esta-
vel entire a Irlanda e a Inglaterra.
Ao apresentar Hume nomee de um
dos maiores fil6sofos ingleses), o se-
nador Anderlini observou que estavam
sentados no audit6rio, lado a lado, os
embaixadores ingles e irlandes. A pla-
teia bateu palmas demoradamente, in-
dicando a insia de paz do melhor im-
pulso que ha Europa. Ali tamb6m se
encontrava o jovem embaixador da
Albania, o atencioso Panddi Pasko.
S6 o representante do meu pais es-
tava ausente. O embaixador Paulo Car-
doso Pires do Rio preferiu mandar o
quarto funcionario na escala hierarqui-
ca da embaixada, que, depois, visivel-
mente constrangido, me procurou para
convidar-me a visitar a embaixada e la
almogar, o que deixei de fazer.
S6 quando o senador Anderlini des-
tacou a presenga do embaixador ingles
ao lado do embaixador irland6s, con-
ferindo importincia ao premio dado a
Hume, e que me dei conta da enormi-
dade da ausencia do operoso embaixa-
dor brasileiro. Estaria assim tao atare-
fado o sr. Pires do Rio no escaldante
verao romano como disse seu represen-
tante ou, fiel a um principio de servir
ao governor e nao a nacdo, um dos tra-
cos da n6doa que ainda marca o Ita-
maraty desde o regime military, procu-
rou evitar estar present a um ato no
qual umjornalista critic iria falar (sou-
be, depois, que informa96es a meu res-
peito foram solicitadas de Roma a Bra-
silia)? Ou tratou-se de mais um erro de
avaliacao e perspective dos nossos di-
plomatas?
Mesmo o funcionario de quarto es-
calao que esteve present a belissima
festa do Disarmo foi logo embora, en-
quanto Panddi Pasko conversava lon-
gamente comigo. Observou que a me-
dida que meu pronunciamento evoluia,
minhas palavras pareciam descrever







JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE JULHO / 1997 7


tanto a minha Amaz6nia quanto a sua
Albinia, vitimas de um mesmo explo-
rador extemo. Por isso. ficou sensibi-
lizado e quis conversar comigo. E por
esses moments foi como se ele fosse
o meu embaixador e o sr. Pires do Rio
nada mais fosse do que um lamentavel
equivoco, mais um entire tantos que nos
tem aprontado o Itamaraty, infiel a ins-
piragco de Rio Branco. Temos um be-
lissimo pr6dio como sede de embaixa-
da em Roma e destinamos a ela maus
ocupantes.
Mas se faltou o estimulo do repre-
sentante do meu pais, nao faltaram pa-
lavras e atos de incentive dos various
amigos italianos que fiz nestes dias in-
tensos de junho/julho passados naque-
le admiravel pais. No pronunciamento
que fiz agradecendo o prEmio, lembrei
a feliz frase de Euclides da Cunha que
definiu, no inicio do seculo, a abertura
da fronteira na Amaz6nia, a pagina do
Genesis cuja escritura Deus delegou ao
home. Mas recorri a um verso de
Dante Alighieri na Divina Comedia
para me referir ao drama que agora,
neste fim-de-s6culo, vive-se na Ama-
z6nia, esta "selva selvaggia, aspra e
forte".
Duas frases interligadas, a mais an-
tiga, de quatro s6culos, antecipando a
mais nova, que a insensatez humana,
em poucas d6cadas, tratou de envelhe-
cer, langando fumaga mais negra sobre
o horizonte. O que devia ser escritura
virou garrancho.
Mas ainda ha paginas em branco no
caderno do p6ssimo aprendiz que te-
mos sido. Ao jornalismo cabe o vas-
tissimo desafio de ocupar algumas
dessas paginas antes que finde ate
mesmo tempo para chorar o leite der-
ramado ou a morte de Ines seja mais
do que a image de um bardo que nos
deixou por escrito inspiraaio para a
eterna melancolia neste pais que nun-
ca se realize. 0


Com a demissao do primeiro secre-
tario municipal em sete meses de
mandate, o prefeito Edmilson Rodri-
gues tem a possibilidade de mudar o
modo de o PT administrar Belem.
Geraldo Lima havia conquistado a
principal secretaria da PMB, a de fi-
nangas, em fungio dos anos de traba-
Iho como o principal assessor do par-
tido em todas as campanhas eleitorais
e nas lutas parlamentares ate entao
travadas. Sua indicagao para o cargo
era o arremate superior da diretriz do
PT paraense de governor a capital par-
tidariamente: quem nao fosse do par-
tido nao poderia ascender a linha de
frente da administration municipal e
aos cargos de confianga.
Apesar dos m6ritos acumulados em
longos anos de dedicacgo ao partido,
Geraldo Lima logo deixou evidence
sua incapacidade de ajustar-se a um
cargo de comando extremamente
complex como o da Secretaria de Fi-
nangas. Nao s6 ele, entretanto: a mai-
or parte dos integrantes do staff mu-
nicipal nao conseguiu ate agora so-
breviver na transiqdo da ret6rica a
pratica, da critical ao governor para o
exercicio do poder. Ou seja: os qua-
dros pr6prios do PT mostraram-se ex-
tremamente pobres para responder ao
desafio de resolver os problems acu-
mulados em uma prefeitura arrasada
por dentro como a de Bel6m, mas que
se mantinha como cenario de cinema
em fungfo da intense propaganda fei-
ta pela administragco H6lio Gueiros.
O resultado 6 que os indices de re-
jeicao ao prefeito mais do que dobra-
ram entire marco e junho. O desgaste
tanto pode ser medido por pesquisas


Ainda sem acordo


cientificas de opiniao como por sim-
ples conversa de rua. A cidade ficou
ainda mais suja depois de um primei-
ro trabalho de limpeza, tornou-se
acompletamente ca6tica cor a ampla
ocupagdo de suas vias pilblicas por
camels e nao consegue identificar
um program de governor a partir do
Palicio Antonio Lemos.
Al6m da heranga maldita deixada
por Helio Gueiros, o desempenho so-
frivel do conjunto do secretariado e
de seus 6rgaos dependents, se per-
sistir por mais tempo, nao s6 vai con-
sumir o capital de esperanga e sim-
patia com o qual o PT venceu a elei-
cAo do ano passado, como, pelo con-
traste, alimentado pela contumaz des-
mem6ria do brasileiro, reforgara a
imagem do ex-prefeito Helio Gueiros,
dando-lhe armas para trabalhar sua
candidatura ao governor no pr6ximo
ano.
E possivel que Edmilson Rodrigues
tenha, finalmente, se convencido de
que uma administra9ao partidaria na
PMB esta condenada ao fracasso, tor-
nando o PT de Belem um fen6meno
tdo passageiro quanto foi o de Forta-
leza. Tendo afastado seu principal as-
sessor de campanha, ele agora tem au-
toridade para cobrar eficiencia a cur-
to prazo dos demais e, caso nao Ihe
sejam devolvidos resultados, ir bus-
car auxiliares onde os houver, corn
efici8ncia, mesmo que nao tenham o
sinal (ou estigma) da estrela verme-
lha. Se afastar de vez a figure do pa-
lanque, o prefeito ainda tem a opor-
tunidade de nao frustrar de vez os que
o elegeram para ser prefeito de uma
cidade e nao o chefe de um partido.*


A negociaqdo da
prefeitura de Belem com o
grupo Liberal em tomo da
divida de publicidade de
1,2 milhao de reais, deixada
pela administragco H1lio
Gueiros, esteve bem
pr6xima de um final feliz
(ao menos para as duas
parties; para o erario sao
outros quinhentos). O
principal executive do
grupo, Romulo Maiorana
Jr., vinha conversando a


respeito com o secretario
municipal de assuntos
juridicos, Egydio Salles
Filho, gragas ao fato de
serem amigos.
A proposta da prefeitura
era dar um sinal equivalent
a 20% do total do d6bito
(que, na versao da PMB,
seria de R$ 1,1 milhao) e
quitar o restante em 10
parcelas mensais iguais.
Para melhorar o perfil, a
prefeitura se dispunha a


pagar mais R$ 100 mil por
mes de publicidade nova. O
mais favoravel dentre os
Maiorana a esse acordo era
o director corporativo,
Ronaldo, que quer
promover a sua micareta
annual em Belem com o
apoio da prefeitura. Mas
Romulo Jr. nao abriu mio
de sua proposta: a divida
paga em tres parcelas
mensais.
Mas se nro houve acordo


nessa questio, ao menos o
prefeito Edmilson Rodrigues
pode comemorar a volta do
seu nome ao noticiario de O
Liberal, que nao poderia
deixar de aproveitar a
demissao do secretario de
finangas, Geraldo Lima, mas
para isso precisou referir-se
nominalmente ao prefeito
petista. Um interdito
proibit6rio a menos na
agenda inquisitorial da
empresa.


PT: a hora de afastar

o partido da prefeitura








Os coroneis vAo se dividir? Melhor para o Estado.


O PFL tern um candida-
to ao governor em 1998: 6
o ex-governador Helio
Gueiros. Se Gueiros tives-
se a pretensao de candida-
tar-se ao senado, nio arma-
ria a manobra que levou a
dissolugao do diret6rio re-
gional do partido, deslo-
cando de seu comando os
que eram favoraveis a ma-
nutencao da coligagio que,
tendo conseguido eleger
Almir Gabriel em 1994, te-
ria que apoiar sua reeleicao
na dispute do pr6ximo ano.
Uma recomposicao da
coligacao s6 sera possivel,
a partir de agora, se o go-
vernador concordar em
permanecer no cargo at6 o
final do mandate e apoiar
a volta de Gueiros ao po-
der como seu successor, ten-
do como compensagco a
prerrogativa de indicar o
candidate ao senado. Nes-
se caso, o vice-governador
H6lio Gueiros Jr. poderia
candidatar-se a deputado
federal, liberando com seu
afastamento do cargo o pai
da incompatibilidade elei-
toral.
Esta 6 a explicagco para
a intervengao da executive
national do PFL no dire-
t6rio do partido no Para, re-
alizada na semana passada.
O governador Almir Gabri-
el perdeu seus aliados no
partido, chefiados pelo ex-
governador Alacid Nunes,
e agora, se se interessar
pela opqco que Ihe resta,
tera que renegociar os ter-
mos do acordo, perdendo a
c6moda posigao que tinha
de impor as regras do jogo.
Almir esta em franca
campanha pela reelei9ao,
mas nuvens ameagadoras se
formam em seu horizonte.
Uma pesquisa do Ibope en-
comendada pelo journal O
Liberal, mas nao publica-
da, teria revelado que Jader
Barbalho e Helio Gueiros
estao tecnicamente empata-
dos na prefer8ncia do elei-
torado (o primeiro com
25%, o segundo corn 24%)
e que Almir 6 apenas o
quinto (com 7%), atras do
senador Ademir Andrade,


do PSB, e do prefeito de
Bel6m, Edmilson Rodri-
gues, do PT (que nao deve-
ra ser candidate).
O governador pode achar
que, apesar desse resultado
sofrivel, o uso da maquina
official, mesmo cor as res-
trig6es que o anteprojeto da
lei electoral prevista para
1998 pretend introduzir,
Ihe assegurarao mais oxig6-
nio do que o de seus con-
correntes na reta final,
quando o fisiologismo tern
sua importancia redobrada.
Mas a perspective da ree-
leigco ja nao 6 tao risonha
e franca como parecia
quando essa possibilidade
para detentores de cargos
executives foi aprovada
pelo congress.
Se quatro candidates
fortes se apresentarem em
1998 (Almir Gabriel, Jader
Barbalho, Helio Gueiros e
Ademir Andrade), a pulve-
rizacao da votacao que
eles irao provocar podera
viabilizar uma candidatu-
ra nova, capaz de contras-
tar cor esse portfolio de
mesmice apresentado ao
eleitor, oferecendo-lhe
imagem e mensagem no-
vas. Se for assim, final-
mente os velhos (ou no-
vos) coroneis da political
estadual poderao dar uma
contribuiiao positive ao
Para, destruindo-se uns
aos outros e abrindo cami-
nho para uma renovaiao.*


Mau exemplo
A unica noticia que li na
imprensa italiana nas tris
semanas em que por la esti-
ve saiu no Corriere della
Sera, vinda de Paris. O gru-
po ecol6gico frances "Robin
Hood" ou "Robin das ma-
deiras" estava iniciando um
boicote ao perfume Chanel
no 5. Os ambientalistas ha-
viam descoberto que o fixa-
dor do perfume e uma essen-
cia extraida do pau-rosa, ar-
vore da Amaz6nia ameaga-
da de extingao por causa
desse uso.
O destaque maior foi dado
a um detalhe hist6rico envol-
vendo o perfume: era corn
gotas dele, e nada mais no
corpo, que a maravilhosa
Marilyn Monroe ia para a
cama quando nao tinha
acompanhante mais inreres-
sante, 6 claro, o que nao che-
gava a ser assim tao raro.
Como reagiria la Monroe, se
ainda viva, diante dessa
campanha? Aderiria a ela ou
a repudiaria?
Nao 6 essa a preocupagao
mais relevant na questao,
obviamente. Gente que so
enxerga cifrao na natureza
dira que se trata de uma cam-
panha ex6tica, coisa de eu-
ropeu cor conscience mau-
vaise que nao ter o que fa-
zer ou nao quer que os ou-
tros enriquegam como eles.
E que ser infitil: nao 6 pro-
vavel que a casa Chanel se
sensibilize ou que os consu-


Journal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto
RedaF o: Passagem Bolonha, 60-B / 66 053-020
Fone: 223-1928 e 241-7626
Contato: Trv. Benjamin Constant, 846/203 1 66 063-020 Fone: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
Editora;go de arle: Luizpe / 241-18586222-5238


midores larguem em massa
o perfume.
Mas a iniciativa dos am-
bientalistas francesas, por
mais bizarre que pudesse
ser, deveria provocar-nos re-
flex6es mais positivas do
que simplesmente tentar iro-
niza-los, como fazem advo-
gados rec6m-contratados
por devastadores high tech.
Desde a d6cada de 60 temos,
em Santar6m, uma reserve
para o pau-rosa. Na ultima
vez que fui visitar a hidrel6-
trica de Curua-Una consta-
tei, no Palhao, que provavel-
mente ali ja nao existe ne-
nhuma arvore de pau-rosa,
a esp6cie que deveria ser
preservada.
N6s nao precisariamos
tomar licgo de estrangeiros
sobre a preservagao ou o uso
racional de nossas riquezas
naturais se, antes, soub6sse-
mos, quis6ssemos ou pudes-
semos dar o bom exemplo.
Derrubou-se vergonhosa-
mente pau-rosa ao long de
decadas para produzir a es-
sencia fixadora de perfume,
quando cor pesquisa e di-
nheiro seria viavel realizar
essa atividade sem o sacri-
ficio da arvore.
No ano passado um jo-
vem estudante catarinense
esteve comigo e me revelou
seu escandalo diante da pou-
ca informagao existente so-
bre o pau-rosa. Mais ainda
do que isso: da inconsist6n-
cia da pouca informacao di-
vulgada como sendo verda-
de cientifica. Em alguns
meses nos quais esse jovem
dedicou tempo e inteligen-
cia a estudar a arvore pare-
ce haver acumulado mais e
melhor informagao do que
tudo o que se havia produ-
zido at6 entao. Teve que vol-
tar a Santa Catarina antes de
concluir suas pesquisas por
falta de dinheiro. E por fal-
ta de dinheiro nao conseguiu
mais retorar.
Depois, simulando indig-
nagio, gritamos que esses
estrangeiros mal-apresenta-
dos nao tnm nada que se
meter cor o nosso patrim6-
nio, que dilapidamos corn
total leviandade. 0