Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00114

Full Text






Journal Pessoal
Si I I n C 1 A \/ I n D i I r

L U '. I LI


I L r V I L/


I A X IN1 9-A15 2S [UNtll DE NlO E 197 R$ 0I0


A tiragem
dos jornais I
.... (pag. ) |)


COBRE


0 castigo vem do ceu


Governador do Estado brasileiro mais importantepara a CVRD, o
governadorAlmir Gabriel se omitiu deliberadamente do debate sobre a
privatizacdo da empresapara ganhar todo o Projeto Salobopara
Marabd.
Agora, ao
invss doprdmio,
recebe o castigo.


Mas opior
ainda estd


por vir.


governa-
dor Al-
mir Ga-
briel nio
e rnm 1ei
tor con-
tumaz da Biblia, ao
contrario do seu peri- .
clitante aliado politico,
o ex-prefeito Hdlio
Gueiros. Se se permitisse leituras bi
blicas, poderia ter interpretado a
graves inc6modos da semana passE
da como castigo dos c6us ou d
ainda desconhecido.
Governador do Estado da FederE


9ao mais important para a Compa-
nhia Vale do Rio Doce, Almir pro-
curou o mais alto muro para acomo-
dar sua omissao diante do aceso de-
bate sobre a privatizaqao da empre-
sa, interrompido antes do tempo


pelo ato consumado da venda ago-
dada. Todos os que o conhecein
melhor e de mais tempo sabiam que
o pensamento do governador era
contrifio a privatizag~o, mas Almir
silenciou oportunisticamente W


t~B~k~-6M--s~"~'8~


r I Iv I v/







2 JOURNAL PESSOAL21 QUINZENA DE JUNHO / 1997


N para nao complicar os prop6si-
tos do tucano-maior, o president
Fernando Henrique Cardosq. Em
troca, ganharia a dispute para insta-
lar a metalurgia do cobre do Salobo
em Maraba.
O pr6prio president da Re-
piblica telefonara de Brasi- (
lia para o governador -
anunciando-lhe, informal- 4.
mente, que todo o investi- Q
mento, de 1,5 bilhao de
d6lares, ficaria no Para -
e, particularmente, no muni-
cipio de Maraba. Estranha-
mente, entretanto, Fernando
Henrique nao marcou data para o
anuncio official da decisao, nem
fez questdo de participar de uma
solenidade que seria realizada no
Para, ao contrario do que tem sido
sua norma de conduta (em v6spe-
ra de eleigdo, politico sujeita-se
at6 a inaugurar pedra fundamen-
tal de isqueiro).
O ato foi agendado para o ultimo
dia 14, depois de um primeiro adia-
mento, gragas a uma iniciativa da
antiga diretoria da CVRD (ainda no
cargo, mas ja sem poder decis6rio),
que aprovou a definigao do local da
fabrica para antes da privatizagao da
estatal.
O ato se revelou precipitado, ou
em descompasso com o process
privatizat6rio, que a diregao da
CVRD, a contragosto embora, aca-
bou aceitando. No dia acertado
para a celebracgo da festa, o presi-
dente do Conselho de Administra-
9ao da nova Vale, Benjamin Stein-
bruch, que acumula de fato a pr6-
pria presid8ncia executive, apesar
da presenga nominal de Francisco
Schettino no cargo, veio a Belem
com um tonel de agua gelada: a
execugdo do Projeto Salobo esta
suspense por 90 ou 180 dias, se-
gundo os dois diferentes prazos que
apresentou para reexame, sujeito
a duas hip6teses: manuteng9o tal
como esta ou cancelamento.
Qualquer que venha a ser a hi-
p6tese realizada (e na verdade hi
mais alternatives do que admitiu o
novo messias do empresariado na-
cional), quem saiu definitivamen-
te desgastado do epis6dio foi o go-
vernador jklmir Gabriel. Ele nao
conseguiu ifazer respeitar um pro-
tocolo de inten9ces assinado um


m6s antes e que ainda estava para
ser encaminhado a Assembl6ia Le-
gislativa para aprovagao. Mais uma
vez teve que se submeter a uma
decisao unilateral do parceiro, sem
qualquer poder de antecipagao. E,
ao inves de ser premido pelo si-
1 ncio confirmado, foi pu-
-~' nido, naquela forma cate-
g6rioca de castigo que a
moral biblica costuma re-
servar aos omissos (tam-
bem condenados ao desprezo
no inferno dantesco por se-
rem mais nocivos do que os
Specadores).
Renunciando voluntariamente ao
poder que a posigdo estrat6gica do
Pard no conjunto dos interesses da
CVRD Ihe conferia, o governador 6
o primeiro a sofrer as consequenci-
as do novo modus operandi da anti-
ga estatal (ainda remotamente sujei-
ta a retornar a condigco anterior, de-
pendendo dos litigios judiciais em
torno do seu leilao).


Steinbruch, at6 recente-
mente um desconhecido
play-boy, nao encarna a fi-
gura traditional do controlador de
uma empresa, que possui 51% do
seu control acionario. A parte de
Steinbruch na nova Vale nao chega
a 2%, mas ele invadiu a sede da em-
presa, no Rio de Janeiro, como um
d6spota esclarecido, com o chicote
dos niumeros na mao para contrapor
aos antigos apparatchicks do
Estado brasileiro (uma cate-
goria t6cnica em mutagdo e,
em algumas instincias, ex-
tingao). -
Entre as varias pergun-
tas consideradas inconvenien-
tes que fez aos antecesso-
res, uma foi: o que o Mara-
nhao ofereceu a Salobo Me-
tais para a instalagao da metalur-
gica de cobre em Rosario (a alter-
nativa preferida da Anglo Ameri-
can, contra Parauapebas e Mara-
ba, da CVRD)? Dizem as fontes
que fez-se silencio. Os tecnicos
que estudaram as hipoteses avali-
aram cada uma delas, mas negoci-
agao para valer sobre vantagens e
compensa9oes s6 houve cor o
Para.
Quando conseguiu beneficios no


valor de US$ 75 milhoes, equalizan-
do as tres hip6teses (e assim elimi-
nando a possibilidade de perdas para
a Salobo), a diretoria da Vale fechou
o acordo com o governor do Para
para que a metalurgia ficasse em
Maraba. Foi uma decisao political,
mas nHo colidiu com os criterios tec-
nicos e econ6micos. Por isso a An-
glo American cor certa relutan-
cia aceitou, mantendo a associa-
9ao.
Esse sempre foi o modus proce-
dendi da estatal, que Ihe garantia
a condi9ao de representante bra-
sileira (do governor e, tambem
sempre mais nos ultimos tempos,
da nagao) mesmo quando envolvi-
da em neg6cios cor multinacio-
nais, sem perder o contato cor a
eficiencia e a busca do lucro que
caracterizam a empresa privada (a
Vale, por isso, era inica, o que dei-
xou de ser).
Mas nao e esse o raciocinio de
Steinbruch e do ainda obscure con-
s6rcio por ele liderado. O novo con-
dottiere da Vale ficou espantado ao
ser informado que o governor do Ma-
ranhao ndo havia sido contactado
para apresentar sua proposta. Con-
siderou essa etapa indispensavel no
reexame do projeto que havia soli-
citado, como em relagao a todos os
que vinham sendo conduzidos. Quer
reduzir ao maximo o investimento
pr6prio no Salobo, avangando sobre
o tesouro public, primeiro para
abocanhar mais vantagens e isen-
96es tributarias e fiscais; em se-
guida, para arrancar cola-
-- boragao financeira (quando
a Sudam sera chamada a
Sdar sua colaboraaozinha,
algo entire RS$ 300 milh6es
e R$ 400 milh6es ao long de
Stores ou quatro anos).
Mas dizem algumas fontes
que o interesse nao 6 apenas
de poupar capital no projeto de co-
bre: as sondagens dirigem-se tam-
bem para a configuragco de um
novo perfil do setor. Individual-
mente, o maior acionista da Vale e
o Previ, o mais rico dos funds das
estatais. O Previ tamb6m e o prin-
cipal controlador da Companhia
Brasileira de Metais Nao-Ferrosos,
uma super-empresa surgida no ini-
cio do ano passado a partir da ab-
sorgco da Caraiba Metais, Parana-






JOURNAL PESSOAL -2- QUINZENA DE JUNHO / 1997 3


panema. Paraibuna Metais e Elu-
ma. A CBMNF passou a ser a se-
gunda maior empresa de minerado
e metalurgia do pais, abaixo ape-
nas da pr6pria Vale, agora, obliqua-
mente, tambem sob seu control.
A holding 6 dona da uinica me-
talirgica de cobre do pais, a
Caraiba Metais, instalada na
Bahia. Segundo algumas
fontes, o Previ teria solici- c
tado a Steinbruch para ve-
rificar se 6 possivel associ-
ar o projeto Salobo a Caraiba,
ampliando-a para receber o
concentrado extraido de Ca- |
rajas e consolidando-a como
a monopolista do cobre metalico
no Brasil, para desespero de 150
compradores nacionais sujeitos
aos seus humores.

Essa hip6tese ja foi estudada.
Anglo American e CVRD s6
decidiram pela verticaliza-
9ao da produg~o na regiao
da mina em fungdo de um detalhe
tecnico: nenhuma outra metalurgia
em operagao no mundo, inclusive a
Caraiba, tem um design industrial
apropriado para tratar o minerio de
cobre de Carajas.
O teor de fluor no concentrado e
excepcionalmente alto, causando
problems principalmente na lim-
peza dos gases na metalurgia (ver
Jornal Pessoal ns 137 e 152). Para
enfrentar o problema, a fabrica da
Salobo foi projetada corn uma tor-
re de limpeza. Outras fabricas que
viessem a usar o concentrado de
Carajas teriam que consumer mais
energia e reagentes quimicos para
eliminar o fluor, onerando o custo
de produgdo e prejudicando sua
competitividade.
Esse 6 um problema tecnol6gico
que pode vir a ser resolvido, mas por
causa dele os donos da Salobo deci-
diram que a produgao seria vertica-
lizada, englobando a mineragdo, a
concentragao e a metalurgia. A de-
cisdo, evidentemente, foi tecnica,
deixando pendente apenas onde fi-
caria a fabrica, ao long da ferrovia
de Carajas.
Final, o BNDES entrou no pro-
jeto Salobo, em 1985, apenas por
apostar que ali poderia obter para
a Caraiba, onde tinha (e tem) mui-
to dinheiro enterrado, o concentra-


do de cobre que 6 trazido, com
6nus cambial, do Chile e da Boli-
via (o auto-abastecimento de mi-
nerio pela empresa ndo vai alem
de 20% em sua pr6pria mina no
sertdo baiano).
Mas ha ainda outra questdo. Para
produzir 200 mil toneladas
) de metal, a Salobo tera
que gerar 500 mil tonela-
das de concentrado, aci-
^ ma do que precisara a Ca-
Sraiba se continuar utili-
zando sua mina. O que se
fara do excedente: expor-
tar? Seria um neg6cio sem
atrativo para a pr6pria Sa-
lobo, exceto se ela for imediata-
mente vendida a Caraiba, que po-
deria ter prejuizo no process mi-
neragdo-concentra~io, mas com-
pensaria essa perda na metalurgia,
alem de economizar grande parte
dos US$ 700 milh6es reservados do
investimento total para a fibrica, ja
que precisaria apenas ampliar e
modificar a plant que ja possui.
Seria o primeiro retalhamento a que
a CVRD seria submetida.
Mas interessaria ao pais continu-
ar dependendo de uma unica meta-
lurgica de cobre, atada a esquemas
logisticos complicados a partir do
desmoronamento do artificial cal-
culo de viabilidade da Caraiba fei-
to pelo play-boy Baby Pignatary, de
certa forma um antecessor de
Steinbruch (ver Jornal Pessoal n
164), que o BNDES foi chamado
a viabilizar, a custa de sangria
desatada nos cofres publi-
cos? (m i'
E sempre bom lembrar
que o projeto da Salobo
esta sendo conduzido si- <
multaneamente ao de Collahu-
assi, no Chile, de tamanho
igual (tamb6m US$ 1,5 bilhdo
de investimento), onde a An-
glo American se associou a Falcon-
bridge. O mercado mundial sera
afetado pela execucgo desses dois
empreendimentos, o do Salobo ca-
paz de inverter radicalmente a po-
sigao do Brasil (de traditional im-
portador, que tem no cobre a segun-
da mais pesada conta de importa-
gao no setor mineral, para exporta-
dor, podendo pular para o quinto
lugar entire os maiores produtores
de cobre).


Quaisquer que sejam as presses
e orientagbes das quais Benjamin
Steinbruch tornou-se o porta-voz,
ele escondeu o jogo nos contatos
que manteve em Belem e simplifi-
cou a situagdo que envolve o pro-
jeto Salobo. Mas o bom e desapai-
xonado observador pode ter medi-
do, pelos fatos da semana passada,
a profundidade das transformagces
que ja ocorreram e ainda irdo acon-
tecer no vicuo da CVRD, exata-
mente quando a empresa esta ini-
ciando, 30 anos depois da desco-
berta original, um novo ciclo, mui-
to mais important do que o primei-
ro (a lideranca do ferro substituida
por cobre e ouro), de aproveitamen-
to da provincia mineral de Carajis.
A prego de banana e ainda sem con-
seguir sequer identificar quem re-
almente esta por tras dos interme-
diarios que fizeram lances no lei-
l1o, o Brasil por seu principle pre-
suntivo renunciou ao seu princi-
pal instrument de geracgo de ri-
queza.

e os grupos que deram a
Steinbruch o poder que seu
control acionario nao ava-
liza estao interessados ape-
nas no lucro das aplica96es, o que
ird se seguir serk um jogo de bar-
ganha avangando sobre os cofres
publicos para reduzir ao maximo o
tamanho do capital pr6prio envol-
vido. Se a desenvoltura do execu-
tivo ata-se a novelos ainda mais en-
rolados, que estao caracteri-
S zando um acelerado pro-
t j cesso de olipoligagio e
cartelizagio do setor mi-
nero-metalurgico da eco-
nomia brasileira, favoreci-
do pela eliminagIo da ag6n-
cia governmental que a
Vale sempre foi, desde sua
criagao, com a transfer6ncia
do poder decisorio para al6m das
fronteiras nacionais, entao pode-se
temer pelo pior.
Um pior tornado inevitavel pela
aus6ncia de um eficaz mecanismo
de contrapartida nas mdos do poder
public, devolvendo o pais aos ris-
cos de manipulagdo que estavam mi-
nimizados antes da onda neolibera-
lizante na qual o governor embarcou
como surfista ne6fito. E o pior ape-
nas comegou. 0






4 JOURNAL PESSOAL21 QUINZENA DE JUNHO / 1997


Nossa historia com

um atraso instantaneo


Os americanos inventaram o ins-
tant book para registrar, cor umjor-
nalismo mais exigente, fatos imedi-
atos de maior importfncia, destina-
dos, por isso, a serem hist6ricos. O
Brasil esta agora inventando o ins-
tant book retardado.
0 Sequestro (dia a dia), livro de
Alberto Berqu6 (Editora Nova Fron-
teira, 137 paginas, R$ 15), pertence
a este ins6lito genero. Foi escrito
como se tivesse sido produzido no
calor da hora. Mas o fato a que se
report, o sequestro do embaixador
dos Estados Unidos no Brasil, Char-
les Burke Elbrick, por grupos poli-
ticos de extrema esquerda (MR-8 e
ALN), ocorreu ha 28 anos.
O livro e bem escrito. Uma vez
iniciada, a leitura vai de um folego
s6 at6 o fim, alcancado no maximo
duas horas depois. Mas tudo o que
esta no livro de Berqu6 ja esteve,
antes, nos jornais da 6poca, mesmo
sob a censura, e em um ou outro de-
poimento dado depois, igualmente
registrado em letra de forma.
Dizem que O Seqiiestro 6 uma
fonte mais confiAvel sobre os acon-
tecimentos da 6poca do que O que e
isso, companheiro?, de Fernando
Gabeira, um verdadeiro instant book
tardio (saiu na frente dos livros de
pesquisa e foi uma autentica reve-
lagao, interditada pelos anos de re-
gime military fechado).
Uma tarja convenientemente co-
locada pela editor sobre o livro as-
segura: "A verdadeira hist6ria do
seqiiestro mostrado no filme O que
e isso, companheiro?'. Ou seja: foi
o filme e nao o fato hist6rico -
que deu ao livro a instantaneidade
de leite em p6.
Toda pessoa razoavelmente in-
formada reconheceu desde o ini-
cio que muito do que Gabeira es-


creveu nao passava de ficcgo -
mas de boa ficqco, ressalte-se. O
problema de Berqu6 6 que, toman-
do Gabeira como refer6ncia, con-
trap6s-lhe apenas uma leitura dos
jornais da 6poca e apanhados de-
sinteressados em outras (poucas)
fontes. Ficamos entire um depoi-
mento de menor valor documen-
tal, mas de aceitavel qualidade li-
teraria, e um jornalismo correto,
mas fora de 6poca. Ao inv6s do
produto instantaneo, destinado a
vender nas ondas do filme (tam-
b6m de qualidade apenas artesa-
nal), o que se deveria fazer era um
levantamento mais rigoroso, pro-
fundo e amplo sobre o period.
Berqu6 registra que toda a con-
versa do embaixador cor seus se-
questradores foi gravada, mas nao
reproduz nenhum trecho dos dialo-
gos. Isso sera porque a fita se per-
deu? E possivel, mas nenhum escla-
recimento 6 dado ao distinto leitor.
Uns poucos documents sao repro-
duzidos sem qualquer comentArio
critic ou explicativo.
A primeira nota que os sequestra-
dores fizeram o governor divulgar
publicamente antecipava que ainda
naquele ano de 1969 seria iniciada
a guerrilha rural. Sil6ncio do autor
a respeito e sobre os erros de portu-
gu6s do redator da nota, que era
Franklin Martins e nao Gabeira. O
desleixo chega a tanto que Berqu6
diz haverem tres carros participa-
do do seqiestro, quando o correto
seria escrever que foram usados.
Mas o que se pode esperar de um
instant book velho de tr6s d6cadas?
Ao fim da leitura veloz fica aquele
gosto de rolha que os maus vinhos
belamente engarrados deixam na
boca do connaisseur. 0 Seqiiestro e
rolha pura. 0


U m adolescent que v4, hoje, O que j isso, companheiro? acredi
ta que aquilo foi mesmo verdade e ndo mera ficc9o, exagero ou
distorg9o de um cineasta? Veio-me essa pergunta no escurinho
da sala de cinema, como dizia uma m(tsica ingenua da 6poca. Nossa me-
m6ria 6 fraca e nossos intetelectuais t6m nos ajudado muito pouco a afid-
la para examiner os fatos imediatos. A tortura parece coisa de um passado
remote e vencido. Mas, como no poema de Drummond, ainda d6i.


Chega de
choradeira
Era desejavel para os belenen-
ses que o Cinema Palhcio conti-
nuasse como uma casa de espeta-
culos" Era. como mostraram as
inanifestantes unanimes das pes-
soas ou\idas pela imprensa- Era
viavel essa manutengio9 Tambem,
mas para isso seria precise usar a
inventive.
Todos sabem que as salas coni-
pactas sao hoje muito mais renta-
veis que as grandes casas, como o
Palacio e o Nazare. E que urma
empresa particular corn prejuizo
num negocio trata de se livrar dele
A equaqao leva inevitavelomente a
uma nova transacgo commercial se
o poder public nao interview
O Palacio (da mesa naneira
que o Nazare) nao e um cinema
comum. Tinha 40 anos como sala
de espetaculo. e um testemunho
arquitet6nico de epoca e continue
plenamente utilizavel para os fins
da sua destinaqAo original. Unma
alternative para sustenta-lo seria o
poder public reduzir a carga tri-
butaria sobre o neg6cio at6 o ni-
vel de ajusta-lo, ainda que nessa
direcao se chegasse a total isen-
qao desde, naturalmente, que
comprovada a insustentabilidade
da atividade.
NAo sendo exequivel esse es-
quema, a prefeitura poderia decla-
rar a desapropriaqgo do imovel
para fins de utilidade pfiblica e
transforma-lo numa sala de espe-
taculos municipal. A prefeitura
nao ter nenhum teatro seu e o
PalAcio poderia prestar-se a espe-
ticulos de musica e a exibicao de
files, alem de abrigar palestras
e conferencias. Essas atividades
poderiam at6 gerar renda para a
amortizacao do custo da desapro-
priacao (e, neste caso, a avaliaqao
seria feita tendo por base o IPTU).
Estas sao apenas algumas idei-
as, cujo prop6sito principal 6 des-
tacar que nio se pode sempre fi-
car lamentando os fatos consuma-
dos desfavorAveis. E precise an-
tecipar-se a eles corn formulas re-
alistas. Belem estA precisando ur-
gentemente de um pensar ousado,
mas de p6s no chio.






JOURNAL PESSOAL -2A QUINZENA DE JUNHO / 1997 5


Italia setentrional,


sempre monumental


k globalizagao foi comandada
exclusivamente pelo capital.
Agora 6 a vez do trabalho. Se
os trabalhadores nao ocuparem a
posiCgo que Ihes cabe, os efeitos
perversos da integradao econ6mica
em escala planetaria irao se agravar,
cor mais desemprego e mais crise
social. O mundo pode explodir.
E o que argumentava um dirigen-
te da CISL, a central sindical italia-
na, cor quem almocei na semana
passada, em Bolonha. A central
ap6ia dois programs no Para. Urm,
de produgao agricola, em Irituia.
Outro, de formagao de liderangas
sindicais, em Belem.
Apesar da discricao do interlocu-
tor, a CISL parece nao estar muito
satisfeita cor os resultados. Acha
que eles poderiam ser melhores se
houvesse mais empenho da outra
parte. Do lado italiano, a maior es-
peranga e de convencer os trabalha-
dores das areas anteriormente cha-
madas de Terceiro Mundo a aceita-
rem um entendimento universal.
As grandes empresas estao empe-
nhadas em produzir cada vez mais
barato. Querem pagar cada vez me-
nos e respeitar direitos em numero
sempre menor dos trabalhadores. E
substituir mao-de-obra humana por
miquinas quando as exig6ncias de
mercado por qualidade tornarem
necessaria a troca, o que inclui at6
mesmo a dispensa de menores de
idade, hoje usados em intensidade
crescente na produdao de bens nao-
sofisticados.
Os trabalhadores dos paises atra-
sados poderiam decidir tirar parti-
do dessa digamos assim vanta-
gem comparative. A consequencia
seria o aprofundamento dos indices
de desemprego no Primeiro Mundo,
que alcangam nivel alarmante na
Alemanha. O dirigente da CISL,
corroborado por seu companheiro,
na casa de quem (na "campagna")
havia dormido na vespera, garantiu
que os trabalhadores europeus nao
abdicarao de suas conquistas em tro-
ca da garantia de trabalho: "Estamos


dispostos a
tudo para nao
perdermos a :
qualidade de vida
que alcangamos", diz,
com voz pausada, sem
dramatizagao. Mas sabe o
que diz: foi um dos organiza-
dores das manifestagoes de protes-
to quando Fernando Henrique Car-
doso esteve em Bolonha, dona da
primeira universidade da Europa.
Ele acredita que o contrario e pos-
sivel: as conquistas sociais dos tra-
balhadores europeus serem tamb6m
incorporadas pelos trabalhadores
das areas pobres, para as quais tnm
se deslocado as empresas globaliza-
das (multinacionais, segundo o jar-
gao ja em relative desuso).
Nesse almogo tive a conversa
mais seria da minha peregrinagao de
duas semanas pelo norte da Italia,
patrocinada pela Fundagao Macon-
do, uma instituigao alimentada pela
vitalidade de Giuseppe Stopillia, um
padre de 60 anos que trocou uma
bem-comportada par6quia interiora-
na pela aventura da solidariedade
cor o Terceiro Mundo. O tema do
meu almoqo cor Enrico Giusti e
Gianni Padrezelli e recorrente em
boa parte das agendas europeias e
comega a ser incluida nas preocu-
paqbes de latino-americanos, africa-
nos e asiaticos: o fim dos empregos
na sociedade globalizada dos pr6xi-
mos anos.
Previsoes sobre a drdstica redu-
9ao dos atuais postos de trabalho
criados pela economic capitalist ao
long da busca pelo pleno emprego
(a teoria que oxigenou o mundo no
p6s-guerra de 1945) ha muitas. Na
primeira decada do pr6ximo mile-
nio a mao-de-obra na atividade pro-


dutiva pode estar reduzida a 20% do
que e atualmente. E um lance no es-
curo, mas um giro mais atento pe-
los paises europeus pode mostrar
claramente os sinais marcantes des-
se caminho rumo ao choque (ou sem
volta, na visao mais fatalista).
Circulei intensamente pelo norte
da Italia, uma das areas mais ricas
do mundo (supera a m6dia da Ale-
manha). Pode-se constatar, sem
maior indagagao, que o bom
Spadrao de vida da atual
C geraqco, muito su-
Sperior a da ante-
S rior, nao se es-
.. tender aos fi-
Ihos e netos se a
situa9ao de hoje fluir
sem mudangas. A classes
media europeia e larguissi-
ma, o que da uma sensacao de
seguranga e conforto, principalmen-
te no norte italiano, onde a popula-
dao vem fugindo das maiores cida-
des e se dispersando pelo que aqui
chamariamos de "area rural" (e, por
la, seria mais adequadamente enten-
dido como extensao urbana interva-
lar). A maioria contenta-se corn o
que ter, num individualism exar-
cebado que pode impedir a forma-
dao de anti-corpos para combater a
crise que realmente se aproxima.
As liderangas mais esclarecidas,
nos sindicatos e nas organizacoes de
voluntariado, andam na contra-mao,
trabalhando as consciencias e ten-
tando criar uma via paralela, na pla-
netarizaqao, a do grande capital. Foi
uma experiencia enriquecedora ter
participado de alguns moments
desse esforgo em duas semanas de
excursao por essa parte rica (em to-
dos os sentidos) da Italia. Espero
poder aplicar o que consegui apren-
der por la no trabalho que aqui fago,
do outro lado do Atlantico, que po-
deria ser e nao e mas, quem sabe,
sera, se nao ficarmos estendidos
eternamente em bergo esplendido,
nem iludidos pela nossa quim6rica
auto-suficiencia.
Italia, valeu. *






6 JOURNAL PESSOAL21 QUINZENA DE JUNHO / 1997


De volta a

terrinha

(eao

dramalhao)

Era pouco mais
de cinco horas da
manhd quando
cheguei de
Roma. Teria que
ficar no Rio de Janeiro 12 horas
ate pegar um outro aviao para
Brasilia e, dai, a Belem. Decidi
pegar o 6nibus do aeroporto e ir
para o centro da cidade. No
caminho, ainda escuro, passamos
por pessoas indormidas esperando
6nibus nas paradas sujas.
Emparelhamos corn um 6nibus
suburban. No long banco
traseiro, cinco pessoas, todas
dormindo, todas negras, um Rio
interditado aos cart6es postais.

Desgo na avenida Rio Branco e
vou no rumo da Cinelandia
observer os primeiros movimentos
do alvorecer. Passo em frente ao
Hotel Itajuba, onde me hospedei
cor meu pai na primeira viagem
ao Rio, em 1961, aos 11 anos.
Hoje o hotel tem apenas duas
estrelas, mas ja foi correto e
decent, corn uma portaria de
primeira, segundo o parecer do
meu pai: "E porque tem paraense
la", acrescentava.
Tomo o segundo caf6 da manha do
dia (o primeiro, insalubre, no
aviao da AlitAlia), num ex-
restaurante, reduzido a um tergo
do antigo espago, ocupado por
uma lanchonete improvisada.
Depois de fazer o pedido, leio na
tabuleta que ali se oferece
"torradas de Petr6polis", mas temo
arriscar. Fico no trivial variado,
comendo em p6, do lado de fora
do balcao, na rua, por onde passa
um grupo de adolescents
amarfanhados, todos grogues,
todos negros. O sol ja espicha seus
primeiros raios de luz no c6u.

Vou ao Largo da Carioca, onde
os primeiros camels montam


suas barracas, ja agora dividindo
espago com pessoas que seguem
apressadas para seus trabalhos
matinais. A temperature 6 de 20
graus e o vento sopra um hdlito frio,
pesado, de sarga e poluigao. A densa
neblina vai lentamente se desfazendo
pela luz e o calor que evoluem corn
preguiga no horizonte.

y Fago de umn
I telefone pilblico
na avenida
Almirante Barroso
escrit6rio improvisado para contactar
amigos, marco almo9o cor um deles
ali mesmo, no centro, e sigo para
uma feira do livro que aos poucos
vai-se abrindo no pr6prio Largo da
Carioca. Depois, circulo pela rua da
Carioca, um pedago relativamente
intacto do Rio que se perdeu
al6m-os-muros da Ipanema de
Jobim, da qual os cariocas
nao conseguem sobreviver.

D escubro, maravilhado, que o
Museu Nacional de Belas
Artes exibe uma exposiygo de Luis
Trimano. E argentino, mas, ji
tanto tempo por aqui, merece o
titulo de o maior ilustrador
brasileiro. Conheci-o no Opinido,
maior journal da imprensa
alternative brasileira, onde ambos
trabalhamos entire 1973/74.
Exposigao de Trimano 6 coisa rara
- e preciosa.


N enhum artist (detesto o
acr6scimo: plastico) usa
melhor a colagem que ele,
primoroso tamb6m no nanquim e
nas criag6es com tinta de
esfereografica. Paro dante do
menino iraniano de olhos
esbugalhados, que ele criou em
1982: que expressao! A bela
composigao claro/escuro de indios
enm nanquim. Ou as maravilhosas
capas de disco, com Nelson
Cavaquinho, Dorival Caymmi e
Hermeto Paschoal. Alguns dos
trabalhos expostos sdo
reprodug6es. Os originals se
perderam. Nem mesmo Trimano
os possui. Ele 6 um artist pobre,
verdadeiramente (e
dolorosamente) underground. Ver
sua exposigao no aconchegante
Museu de Belas Artes me faz ter a
sensag~o de estar prosseguindo os
roteiros artisticos que fizera at6 a
v6spera na Italia.

A o sair, e ji encontrando um
IRio agitado, percebo que
estou de volta mesmo ao Brasil,
das pessoas ansiosas, tensas,
medrosas com as quais cruzei nas
12 horas em que o Rio funcionou
como amaciador ou amortecedor
- para o outro impact no Grao
Pard, onde vim ao mundo e de
onde jamais sairei, mesmo se
quisesse e nao
quero, ou nao posso.


. ..W.......
^r,.fl> ^a









Outro acidente atrai


atengao para o Jari


Em 1972 eu viaja-
va de avido de Be-
1em para Manaus
quando um medico,
embarcado na escala de Santar6m,
sentou ao meu lado. Conversavamos
descontraidamente. Sem perceber a
importancia do que estava dizendo,
foi me passando dados sobre uma
epidemia de meningite que come-
tara a grassar no imperio de Mr.
Daniel Ludwig. Voltei imediatamen-
te de Manaus para Monte Dourado
e dei o furo em O Estado de S. Pau-
lo, em cuja sede paulista entdo tra-
balhava. Ampliei a mat6ria em Opi-
nido, o semanario da imprensa al-
ternativa no qual colaborava. O Jari
antecipou a grande epidemia de Sao
Paulo.
No uiltimo dia 29 seguia por aviao
de Bel6m para o Rio de Janeiro, de
onde prosseguiria para Roma, quan-
do um cidaddo capixaba sentou ao
meu lado. Estava voltando a Vit6ria
para uma temporada cor a familiar.
Tamb6m trabalhava no Jari. Com a
mesma serenidade do interlocutor
de 25 anos antes, foi me relatando o
acidente com a central de energia de
Munguba. Do aeroporto do Galedo
mesmo, antes de embarcar de novo,
passei a noticia para Belem. Era um
outro furo accidental important na
hist6ria desse complicado empreen-
dimento.
0 Projeto Jari completou agora 30
anos. Tem duas etapas diametral-
mente opostas. Nos primeiros 15
anos foi tema de interesse perma-
nente da opinido public. Era quan-
do aquela enorme possessao de ter-
ras as proximidades do estrat6gico
delta do rio Amazonas pertencia ao
milionario norte-americano. Apa-
rentemente, Ludwig estava enterran-
do ali dinheiro do seu pr6prio bolso
cor a intengao de saciar a fome
mundial por arroz e fibra. Mas ini-
ciando a empreitada aos 70 anos de
idade e cercado por uma aura de
mist6rio, ele provocaria nessa pri-
meira fase debates acalorados sem
fim.


Na segunda etapa, com a nacio-
nalizagao do projeto, transferido
em 1982 para um cons6rcio de
empresas nacionais, o interesse
foi diminuindo at6 esmaecer com-
pletamente. A grande imprensa
national s6 raramente se interes-
sa pelo que estava ocorrendo no
Jari, uma attitude estranha, ji que
ali, desde entao, gastava-se di-
nheiro national nao tanto das
empresas privadas, como se alar-
deava, mas tamb6m do governor,
atrav6s do Banco do Brasil e do
BNDES. Nem mesmo para confe-
rir o tamanho do rombo deixado
por Ludwig e a extensao dos da-
nos provocados por suas concep-
96es falsas sobre a regiao amaz6-
nica a imprensa voltou ao Jari corn
a periodicidade anterior.
Resultado: todos mostram-se es-
candalizados com a realidade des-
tacada pelo incdndio na usina de
energia, concebida por Ludwig para
funcionar cor cacos de madeira que
ele nao p6de colocar em disponibi-
lidade. Apesar de terem migrado
US$ 500 milh6es dos cofres pfibli-
cos a partir do moment em que
Ludwig deixou de pagar os empr6s-
timos internacionais e o tesouro bra-
sileiro, avalista das opera96es, pre-
cisou honra-los, o empreendimento


niel Keith Ludwig deveria
compreender duas fabrics
de celulose, outra de papel,
umra hidrel6trica, um plantio de 100
mil hectares. una fabrica de caulim,
umra usina de bauxita refrataria, urma
fabric de compensado. serrarias. um
arrozal de 14 mil hectares, um gran-
de rebanho bubalino e atiidades de
apoio.
Apenas uma pane menor do proje-
to concebido pelo milionario ameri-
cano foi implantada. Ele delirava
quando julgou possivel estabelec&-to
na jungle? A resposta fAcil e, sim Seus
sucessores no control do empreen-


nao conseguiu chegar a uma equa-
9go viavel.
O acidente atual, como o anteri-
or, na pr6pria fabrica, exposta a um
super-esforgo de produgao, fere gra-
vemente o projeto, ameagando a sua
continuidade. O Jari 6 s6 celulose e
caulim (duas riquezas exploradas
isoladamente, quando, combinadas,
resultam em papel), nao tem fonte
auto-sustentavel de energia e, con-
tra uma conta de rendimento esqua-
lida, enfrenta custos desproporcio-
nais. A formula criada por Delfim
Neto e Bulhdes Pedreira foi uma
solucao de ocasido, para durar pou-
co. Hoje, ha uma divida de R$ 300
milh6es e um horizonte de prejui-
zos sem perspective de reversao e
ali nao surgiu verdadeiramente um
p6lo industrial, verticalizado.
O Jari de hoje 6 o resultado de uma
operacao que, de certa forma, anteci-
pa o que se pode prever para Carajas
no future. Pode ser que o acidente con-
siga despertar de novo o interesse na-
cional por uma hist6ria que diz muito
sobre o Brasil dos iiltimos tempos. Se
a histeria e a ma informagdo forem su-
peradas, os brasileiros poderAo desfa-
zer muitos mitos e comprovar, mais
uma vez, que sempre vao pagar o pato
se se deixarem embromar por conver-
sa de fazer boi dormir. 0


dimento sempre sustentaram ser im-
possivel criar um polo de papel a dis-
tancia dos grandes centros consumi-
dores. no sul do pais, ou exportar
Continuamn at6 hoje embarcando, lado
a laudo. caulim e celulose. dois insu-
mos para a producao de papel. um
produto de muito maior valor agre-
gado.
Assim tem sido no Para, Estado
"vocacionado" para urna funFgo co-
lonial, de produtor de naterias primas
e produtos semi-elaborados Mas sera
um destino manifesto, inevitavel e ir-
recusAvel? Certamente nao Mas mu-
dar a historic exige mais do que boa
intencio.


~RRWWRRRRRR~~








A mania da predestinagao


Quando o PT venceu a eleicgo
para a prefeitura de Belem, qualquer
pessoa bem infqrmada poderia escre-
ver ja naquela epoca um artigo ante-
cipando que a publicidade munici-
pal seria entregue a mesma empresa
responsavel pela campanha eleitoral
do candidate Edmilson Rodrigues.
Nao estaria havendo nenhuma novi-
dade nesse anuncio, nem necessari-
amente ilicitude na concessao da
conta public a agencia que traba-
lhara na campanha do candidate vi-
torioso. E essa a regra geral no Para,
no Brasil e, provavelmente, na mai-
or parte do globo terrestre.
A legislagdo, e claro, faz certas
exig6ncias para conferir ao proces-
so licitat6rio (realidade recent, ali-
as, contrastando cor a pratica an-
terior, de concessao da conta por um
ato de imperio) um minimo de ri-
gor formal e legalidade. Mas o que
define se uma ag6ncia sera contra-
tada e a "proposta de political de co-
municacao", que desloca para o pia-
no secundario os outros itens de
avaliaggo objetivos, como preco,
curriculo, etc.
Ora, uma ag6ncia ja afinada corn
a administracIo licitante tem mui-
to mais condigSes de apresentar
uma proposta aceitavel do que as
demais. Mesmo estas, entretanto,


nao terdo muitos motives para quei-
xas porque nao ha um funico vence-
dor, mas um detentor da melhor
fatia do bolo e outros nao tdo bem
obsequiados assim. A proposta tec-
nica confere um contefdo de subje-
tividade a avaliacgo que sempre per-
mite ao governor no poder, sem ferir
a lei, escolher a alternative que Ihe
6 a mais convenient.
O debate surgido na secao de car-
tas do Didrio do Para (infelizmente
sem alcangar as paginas de reporta-
gem, como seria dever de um jomal)
em tomo da licitagco da conta de pu-
blicidade da PMB seria totalmente
desnecessario se o PT nao se outor-
gasse a condigao de partido escolhi-
do e exemplo imaculado de pureza.
No fundamental, a licitagco foi
correta e seguiu os parametros le-
gais. Nao houve violagao de ne-
nhum dispositivo da lei para que a
prefeitura entregasse sua conta prin-
cipal A Vanguarda Propaganda, que
era o que queria desde muito antes
de julgar as propostas apresentadas.
O PT nao inovou, nem para o bem,
nem para o mal, embora e ai estA
o seu pecado se declare sempre
arauto de uma nova era (que, at6
agora, 6 mais promessa do que rea-
lidade em Belem).
Ao proclamar uma inovagao que


nao houve, o vencedor da licitagco
exp6s-se a questionamentos dos ad-
versarios at6 agora nao respondidos.
Walter Junior, assessor de comuni-
cacgo de Helio Gueiros, usando uma
linguagem tortuosa para evitar afir-
mativas, suscitou duas questoes. A
primeira e de que a exig6ncia ante-
rior, de dois anos de atividade para
o concorrente, foi revogada porque
a Vanguarda s6 foi organizada legal-
mente em dezembro. A segunda: de
que a ag&ncia ja autorizava veicula-
cao publicitaria antes da licitagCo.
Nada ha de illegal nas duas situag6es.
Moralidade 6 outra coisa.
Agora que o bate-boca tornou-se
public, convinha passar a limpo a
political de comunicacgo social da
administragdo anterior, pr6diga na
contratagao de pessoas sem a con-
traprestacgo de services e na veicu-
lagco desregrada de mat6ria promo-
cional. O PT promete que esses er-
ros nao serdo repetidos e que agora
sua political para o setor sera volta-
da para o interesse public. Muito
bem. Mas se quiser estabelecer uma
nova era na gestdo dos negocios pf-
blicos em Belem, o partido tera que
ser puro nao apenas na propaganda,
mas na realidade, capaz de resistir
cor mais consistencia aos debates
do que ate agora.


Os numeros,
ah, os nlmeros!
Pelos dados apresentados
a revista Imprensa (edi9ao
116), a tiiagem dos tres jor-
nais diarios de Belem soma,
em media, 70 mil exempla-
res. Seriam 50 mil de O Li-
beral, 11 mil do Didrio do
Pard e 9 mil de A Provin-
cia do Pard. Como cada
journal 6 lido por cinco pes-
soas, a imprensa escrita
atingiria 350 mil leitores.
Pelo menos 80% dessa cir-
culacdo fica na capital
Logo, em uma populacao de
1,2 milhao, 280 mil leriam
journal o que da um quarto
do total. Mas desse 1,2 mi-
lhao deve-se excluir as cri-
angas, os analfabetos e os
economicamente incapazes
de adquirir journal.
A proporcao seria de dar


inveja a qualquer pais rico,
nao fossem falsos os nfiue-
ros apresentados pelos edi-
tores. A tiragem media de O
Liberal & essa mesmo, de 50
mil exemplares (ultrapas-
sando 80 mil aos domingos
e caindo para menos da me-
tade nos dias da semana),
porque o journal e auditado
pelo IVC (Instituto Verifi-
cador de Circulagao), uma
das raras instituig9es serias
do pais. Mas a dos outros
jornais esta exageradamen-
te inflacionada. O que o


Didrio diz ser sua tiragem 6
mais do que a soma do que
ele imprime e do que sai das
oficinas de A Provincia.
Convinha ser mais fiel a
verdade.
Quanto a 0 Liberal, um
dado desafiador: apenas
10% da circulagdo do journal
vai para assinantes. Nas
grandes publicagoes, essa
proporcao costuma ser de
80%. Esse nimero prova
que a duvida cruel nao era
escolher entire as revistas
oferecidas como brinde aos


Jomal Pessoal
Editor: Lucio FIlvio Pinto
Redagao: Passagem Bolonha. 60-B / 66 063-020
Fone: 223-1929 e 241-7626
Contato: Try. Benjamin Conslant, 8451203 i 66 053-020 Fone: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
Editorango de arte: Luizpe 1 241-1859


assinantes na campanha pro-
mocional recentemente rea-
lizada, mas assinar o pr6prio
journal. Cor tanta forga nas
mdos da empresa, deve fal-
tar gente competent a esse
setor.

Cenas da
cidade
Tres fiscais homess do
"rapa", como sdo mais co-
nhezides) da Secon, a secre-
taria de economic do muni-
cipio, circulam ao meio-dia
pela travessa Santo Antonio,
o prolongamento da Joao
Alfredo, sobre uma camio-
nete Mazda silenciosa.
Vejo, depois, na Doca
Souza Franco passar um car-
ro da Cosanpa Mazda, ou-
tra vez.
Ainda 6 a farra dos impor-
tados?