Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00113

Full Text





Journal Pessoal
L C I O F L A V O P I N TO
AN -1 4-1-Q Z N EJ NH E 1 9 R$ 2,0


Cu6o volta ao
garimpo: pra que?


AMAZONIA


Fronteira da sujeira

Os politicos do Norte aparecem perante a opinido public coei os lFrtes
dopais. Mas eles sao umproduto da logica que o Brasil estabelk'cedipa
sua maior fro teira.
onde a vez ed

sempre do
bandido e a
esperan!a no
mocinhofica AMAZONIA
para um
future
incerto e nao sabido. .


em a participago de Joao
.-., Maia, na 6poca represen-
:;, tante da Contag (Confede-
raydo Nacional dos Traba-
Si; Ihadores naAgricultural no
Estado, e provavel que as prineiras
organizay6es de seringueiros nao se
instalassem no4cre, no inicio da de-
cada de 70. Maia desafiou muitos
riscos, inclusive de vida, para apoi-
ar os nascentes sindicatos. um dos
quais, o de Xapuri, viria a ser co-
mandado por Chico Mendes. depois
transformado em simbolo da luta
pela ecologia na Amaz6nia
No mes passado o mesmo Maia.
agora com 55 anos, um dos cinco
parlamentares que teriam tido seu
voto em favor da reeleigdo do pre-
sidente Fernando Henrique Cardo-
so comprado pelo governador do
Amazonas, Amazonino Mendes,
numa manobra de argucia renunciou


ao mandate de deputado federal
para escapar a cassacio e poder con-
correr novampnte ao cargo no pr6-
ximo ano.
Seriam a mesma pessoa o militan-
te de esquerda dos anos 70, que pas-


sou por cursos superiores no Cana-
da, nos Estados Unidos e na Ingla-
terra (nesta, na prestigiada Univer-
sidade Sussex), defendendo no Acre
ex-seringueiros e trabalhadores ru.
rais massacrados pela expansdo b


I I







2 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JUNHO / 1997


Sdas frentes econ6micas, e o po-
litico fisiol6gico dos anos 90, que
nao se constrangeu em montar um
ardil de mafioso para escapar a pu-
niygo certa?
Joao Maia caberia como luva no
modelo que Robert Louis Stevenson
montou na literature cor o medico
e o monstro, o dr. Jekyll e Mr. Hyde,
a dupla personalidade, enfim. Mas
seria possivel alegar, em favor dele,
que ao menos algum dia defended
ideas. Os outros envolvidos no es-
candalo da compra de votos, todos
politicos nortistas, nem essa pr6-his-
t6ria de idealismo tiveram. Entra-
ram na political com o deliberado
prop6sito de "levar vantagem, con-
forme a tristemente antol6gica fra-
se do pai do franciscanismo depra-
vado, o ex-jogador (e hoje locutor
esportivo) Gerson.
Ha alguns anos os piores espeta-
culos de fisiologismo explicit e
ma conduta professional v6m sen-
do apresentados no pais por politi-
cos do Norte, desde o assassinate,
em 1990, do senador (e entdo can-
didato a governador) Olavo Pires,
de Rond6nia, que a policia acom-
panhava por seu envolvimento corn
o narcotrafico (acusagao que tam-
bem pesou sobre outros politicos
rondonienses), ate a apreensdo e
confisco de um Boeing 727 (de um
total de nada menos que 10 preten-
didos por compra) do governador
do Acre, Orleir Cameli, em 1995.
Cameli se notabilizou tanto por
obras suspeitas quanto por seus cin-
co CPFs.
Os politicos do Norte sao os pio-
res do Brasil? A pergunta deve es-
tar latejando, agora mais do que
nunca, em muitas cabegas espalha-
das pelo pais, reavivada pelo mais
recent escfndalo, mas cor moti-
vadores muito mais constantes e
nem sempre explicitos. Eles t6m
suas raizes profundas plantadas no
preconceito, em estere6tipos e no
conflito de interesses econ6micos,
mas tambem cor inspiracao em um
instrument politico que deveria
servir de antidote a condigao de su-


bordinacao e dependencia do Norte
em relacao ao Sul (para simbolizar,
mesmo que simplificando, a dispa-
ridade interregional mais grave do
Brasil).
A "constituiCao-cidadd" do depu-
tado (ja falecido) Ulysses Guima-
rdes estabeleceu que a menor ban-
cada na Cimara Federal teria oito
deputados, independentemente da
populagco do Estado que represen-
tasse. Gragas a esse dispositivo,
Roraima e Amapa, cor 300 mil ha-
bitantes, elegem oito deputados fe-
derais, enquanto a cota de So Pau-
lo, cor 34 milhaes de habitantes, 6
de 70. O voto de um amapaense cor-
responde a mais de 100 paulistas.
Ndo surpereende que o ex-presiden-
te Jos6 Sarney tenha transferido seu
domicilio eleitoral do Maranhdo
para o Amapa, conseguindo dessa
maneira assegurar sua vaga senato-
rial.
Essa bancada minima violentou o
principio da proporcionalidade da
representagdo dos Estados na Cama-
ra dos Deputados, tornando alguns
brasileiros "mais iguais" do que
outros. O argument em favor des-
sa disposigao constitutional e o de
compensar a fragilidade dos Esta-
dos ao mesmo tempo mais distan-
tes e mais pobres da Federagco, dan-
do-lhes um peso politico relative
maior. Contribuindo apenas margi-
nalmente para a riqueza national e
tendo significacgo demografica la-
teral, a Amaz6nia disporia de uma
bancada parlamentar maior para
tentar anular, pelo caminho politi-
co, as desvantagens de seu peso eco-
n6mico e demografico.
A tradugdo concrete desse belo
enunciado federativo 6 sofrivel.
Quem percorre as duas casas legis-
lativas percebe que a respeitabilida-
de e a credibilidade da bancada nor-
tista sdo quase nulas. A rigor, nem
existe uma bancada amaz6nica para
valer, apesar de criada formalmen-
te, mas representag6es de cada Es-
tado agindo autonoma e isolada-
mente. Essa pulverizacgo seria de-
corrente do pr6prio tamanho da re-
giao, al6m de resultar do interven-
cionismo federal, que fragmentou-
a em autarquias para efeito adminis-
trativo.
Cor um peso politico sem cor-
respond6ncia cor sua expressao


produtiva e humana, a Amaz6nia
ainda assim nao tira vantage des-
se fator politico compensat6rio, que
agora as bancadas dominantes do
Centro-Sul querem reduzir a meta-
de, estabelecendo em quatro depu-
tados a bancada minima na CAmara
Federal. Apesar das reunites perio-
dicas, as bancadas estaduais nao
conseguem definir programs co-
muns de dimensao regional, ultra-
passando os limits de cada unida-
de federativa. O contrast cor ou-
tra bancada nao menos fisiol6gica,
mas dotada de uma visao supra-es-
tadual, como a nordestina, e gritan-
te.
A Amaz6nia seguramente ter os
piores politicos da comunidade par-
lamentar. Talvez por isso eles te-
nham se destacado negativamente
no conjunto de operac6es de com-
pra e voto que, de forma indireta,
alcangaram representantes de vari-
os outros Estados. S6 que no Norte
a operagao de compra de voto cos-
tuma ser literal e nao apenas sim-
b6lica, ou por via de compensac6es
um pouco mais sofisticadas do que
o recebimento da moeda sonante.
Nao sendo de maneira alguma
casos isolados de inescrupulosida-
de, os politicos nortistas foram co-
locados sob os holofotes pelo seu
primarismo e pela promiscuidade
cada vez mais aberta entire a ativi-
dade pfblica e o rendimento priva-
do. Os incentives e vantagens que a
administragco public, mas especi-
almente o governor federal, concede
para atrair investidores para a region
e como compensagao pelo custo
oneroso do "fator amaz6nico" ddo
a politicos e burocratas um poder
excepcional. Eles se beneficial
dessa selvagem 16gica da fronteira,
que justifica a exist6ncia do bandi-
do a espera do mocinho (que nunca
vem) e dos ganhos a qualquer titu-
lo, sobretudo os ilegitimos, pelo
mapa de acesso a esses beneficios.
E compreensivel, sobre esse pano
de fundo, que o governador Ama-
zonino Mendes seja o grande her6i
da political amaz6nica. Verso atua-
lizada do Gilberto Mestrinho que
imperou na era do extrativismo ve-
getal, Amazonino 6 o campeao de
votos (no caso do governor do Esta-
do, bi-campeao) e de obras de clara
inspiragao adhemarista (do mitol6-







JOURNAL PESSOAL -1P QUINZENA DE JUNHO / 1997 3


gico Adhemar de Barros, autor do
slogan "rouba, mas faz", ainda a
principal legend da political brasi-
leira) que a Zona Franca de Manaus
engendrou.
A Zona Franca concentrou na ca-
pital amazonense 50% da populagao
do Estado territorialmente mais ex-
tenso do pais e 90% do seu Produto
Interno Bruto. Essa economic, que
faturou 13 bilh6es de reais no ano
passado seiss vezes as vendas exter-
nas do Para, o s6timo maior expor-
tador do pais), vive em funqio da
Suframa (Superintend6ncia da Zona
Franca de Manaus), com seu powder
sobre R$ 3 bilhbes anuais de incen-
tivos fiscais e R$ 100 milh6es de
orgamento pr6prio.
Quase a totalidade do di-
nheiro que entrou na campa- ',
nha da reelei9go de Ama-
zonino veio das empresas
da ZF, um tergo das quais
faz ali apenas "maquila-
gem" de produtos importa-
dos, caricatamente nacio-
nalizados. Trata-se de uma
tenda tecnol6gica, que fa-
cilmente pode ser desfeita e
transferida, mas que gera um
poderoso subproduto. Essa
renda marginal 6 absorvida por
um pequeno punhado de gente
cor um enorme poder de fogo ( sim-
b6lico e literal), capaz de embone-
car a capital (criando um contraste


desconfortavel para a maior cidade
da Amaz6nia, Bel6m) e criar uma
intense circulagao de dinheiro por
circuitos privilegiados, dificil de ex-
plicar, entretanto, em uma economic
que busca a normalidade e a ordem.
A inspiragao especificamente
amaz6nica no balcTo geral de nego-
ciacao de votos pr6-reeleig9o presi-
dencial (que pingou uma n6doa de-
finitiva na biografia do principle ,
era, alias, a Suframa. O governador


Amazonino quer tirar um burocrata
federal do comando da superinten-
d6ncia e la infiltrar pessoa de sua
confianya. Para credenciar-se, mos-
trou "servigo", algo, mal-comparan-
do, como o que Greg6rio Fortunato
fez quando planejou a eliminagao
dos adversarios de Getblio Vargas,
dando o arremate final a crise que
fez o president suicidar-se, num ato
singularmente inusitado para o pa-
drao dos politicos brasileiros.
No mesmo mes em que o pais des-
cobriu uma das teias ilicitas da aqui-
sicao de votos, centrada no gover-
nador do Amazonas, a Policia Fe-
deral prendeu um dos amazonen-
ses mais ricos, que fundou seu
imp6rio na perna legal da dis-
tribui9ao de combustivel e
na perna illegal do narcotra-
:. fico: Antonio Mota Graga,
S. o "Curica", o home de
*. uum bilhao de d6lares, se-
gundo os dossi6s da PF.
Foi uma das maiores
S faganhas dos "federais",
mas nAo mereceu o desta-
S que que outro tipo de de-
linqu6ncia, distinta apenas
na apardncia, receberia ao
logo de dias na grande midia
national. Pessoas notaveis cor
essa ambival6ncia se multiplicam
na jungle amaz6nica, como um pro-
duto coerente, ainda que indeseja-
\el. da 16gica da fronteira. *


Curi6, o retorno


Serra Pelada sempre foi
um produto npico da in-
xentma brasileira Durante
a primeira metade da deca-
da de 80 o garlmpo funcio-
na\a como um quarrel e era
gerenciado pelo SNI (Ser-
viqo Nacional de Informa-
q6es). atra\ es de um de seus
agents. o tenente-coronel
Sebastilo Rodrigues de
Moura. codinome Curio
(doutor. major, conform a
necessidade) Curio apre-
sentava-se. entretanto,
como se fosse do Conselho
de Segurauqa Nacional tal-
vez para nio dar "bandeira".
como enio diziamn os naisl
joverns


Destituido de sua condi-
qfio de dependencia milirar.
Serra Pelada tambem perdeu
sua condiqdo teenica de ga-
rimpo Nao ha mais all ouro
garimpavel: o fildo mergulha
por centenas de metros e so
pode ser extraido para a su-
perficie atrav6s de laIra in-
dustrial. Mas dois mil ganm-
peiros permanecem lavando
rocha no local para garantir
presenga, passando nuseria.
Quase tres vezes e media mais
ganmpeiros do que a popu-
la~;o efeti;amente residence.
entretanto, votaram no mes
passado para escolher o no; o
president da Cooperati.va
dos Garinpeiros de Serra


Pelada (Coomigasp). falaudo
em nome de supostos 22 mil
associados.
0 uiuco poder (e scu ver-
dadeiro fildo) da cooperati-
va 6 o direito reiindicado
sobre 115 milhies de reais
que restam pendentes da con-
ta de deve e haver corn a Cai-
xa Econ6mica Federal, a mo-
nopolista na compra de ouro
em Serra Pelada. A di\ ida da
Coomigasp ascende a R$ 50
milhbes. mas o saldo e arra-
tivo o suficiente para o ex-
agente. ex-deputado federal
(por unia tinica legislature) e
inlitar reformnado voltar ao
seu antigo imperio parucular.
Novos pretextos para a


mesma retonca foram en-
contrados para Curio re-
compor sua lhderanQa des-
gastada pelo tempo e pelas
promessas nAo cumpridas.
Mas o \ elho e, quase sem-
pre. irrelizAvel sonho do
ganmpeiro de "bamburrar"
serviu de scenario para mais
um capitulo da pantomima
O tempo mudou, os perso-
nagens permanoceram unu-
tAveis, mas o que os recicla
e a desmemoria de sua cli-
entela e o jogo de interes-
ses que permit esses enre-
dos mal costurados read-
quinrem verossimilhan-a
O picadeiro esti armado
novamente










Um ato de intelig ncia, por favor


ntre seus meritos, Jose Marce-
lino Monteiro da Costa pode
apresentar como um dos maiores
ter abrigado Eidorfe Moreira no
Nucleo de Altos Estudos Amaz-
nicos da Universidade Federal do
Para.
Cruzei tres ou quatro vezes corn
Eidorfe pelos corredores do
NAEA. Nossas conversas, infeliz-
mente, sempre foram muito rapi-
das. Eidorfe estava ali para ler, pes-
quisar e escrever, nao para conver-
sar ou participar da vida acadmi-
ca. Desde o acidente de 1932,
quando, aluno do "Paes de Carva-
Iho", foi ferido por um tiro e per-
deu um dos bragos durante o mo-
vimento de adesao dos estudantes
a revolta constitucionalista de Sao
Paulo, Eidorfe foi-se fechando.
Apenas uns raros amigos tinham 9
acesso a sua intimidade. Ele quase
se transformara num eremita.
E que nao precisava sair de casa ou
desviar-se dos rotineiros percursos a
Universidade e livrarias: muito antes da
campanha de oportunidade em curso,
Eidorfe ja viajava atraves dos livros,
lidos com sofreguidao e acuracia. A ele
bastava ler e, tendo lido com extrema
sensibilidade, digerir as ideias atraves
da escrita.
Eidorfe passara a hist6ria como um
grande ge6grafo, talvez o maior dentre
os que produziram na Amaz6nia e no
proprio pais. Mas nao foi menor fil6-
sofo, tao denso que nao se sabe se bri-
lha mais como ge6grafo da filosofia ou
fil6sofo da geografia (ou as duas coi-
sas interpenetradas sem distincao esco-
lastica). Tambem poderia ter consoli-
dado a marca de critic literario e en-
saista se tivesse transferido as obser-
va96es feitas a margem dos livros que
leu para os livros que poderia ter escri-
to se a vida nao lhe tivesse sido tao di-
ficil de enfrentar.
Considero-me um privilegiado (e de
vez em quando agradego intimamente
por isso): adquiri varios dos livros que
foram de Eidorfe. Assim, pude fazer
leituras orientado por ele ou refazer
leituras anteriores confrontando minhas
observances cor as dele, depois de
decifrar seus c6digos de anotacao (que
amalgamei aos meus).
Esse guia foi e ter sido maravi-
Ihoso, tanto em relagio a livros tecni-
cos quanto a romances e poesias. A lei-
tura que Eidorfe fez de "Grande Ser-
tao: Veredas", de Guimaraes Rosa, por


exemplo, me indi-
cou significados que eu nao perce-
bera, mesmo sendo um roseano corn
muito tempo de servigo (e, cor ele, de-
liciado pelo prazer da releitura, o teste
da excelkncia de um autor). Minha
compreensao da poesia francesa se tor-
nou melhor gracas as observa56es que
encontrei em seus livros.
Eidorfe Moreira poderia ter sido
muito mais util a sua terra e dela rece-
ber o reconhecimento de que e mere-
cedor (mas ate aqui a espera de de-
monstracao public) se o apoio que
Marcelino deu a ele no NAEA tivesse
sido ampliado e aprofundado. Eidorfe
nao tinha nenhum titulo academico,
nem era das "panelinhas", mas seu en-
quadramento para efeito de vincula9go
a universidade seria uma inutilidade.
Ele era, simplesmente, um sabio. E
como se produz um sabio?
Evidentemente, nao se produz.
Houvesse relagco direta de causa e
efeito na sabedoria e gente como Ei-
dorfe dificilmente surgiria em terra tao
arida (ultimamente mais do que antes)
como a paraense. Mas esse produto
raro tambr m brota por aqui, a despei-
to de tudo e contra muitos. O minimo
de iniciativa que se espera de uma uni-
versidade plantada nesta terra vazia
(ou desolada, ou devastada, como se
queira traduzir o poema seminal de T.
S. Eliot, acertando no alvo sem essa in-
tengio) e que ao menos abrigue tal cri-
agao inesperada, esse impossivel ma-
terializado (como a rosa amarela no


asfalto do poema drummondiano).
Pois por obra e graga da clari-
videncia de gente arejada como o
Marcelino (a quem na epoca com-
bati por outros motives, estes ve-
niais, sem nunca deixar de quer6-
lo bem e respeita-lo), Eidorfe
Moreira teve la o seu canto onde
ler e escrever, infelizmente ja no
crepusculo da vida, depois de ter
sacrificado a si e aos seus para
realizar sua santa tarefa de pen-
sar)por n6s, iluminando-nos cor
seu pensamento.
Demos-lhe tao pouco e ele nos
retribuiu com tanto... O que Ei-
dorfe Moreira nao teria produzi-
do se recebesse um salario decen-
te (e nao a miseria que sempre Ihe
foi paga), tivesse um escrit6rio,
uma secretaria e o direito de in-
dicar livros para aquisicgo pela
biblioteca universitaria? Os oito
volumes de sua obra reunida que
a Cejup editou se multiplicariam
porque ele teria escrito novos li-
vros ou evoluido a partir dos artigos e
esbogos que deixou, de surpreendente
diversidade e apaixonante profundida-
de.
Ao inv6s de desperdigar montes de
dinheiro com viagens estereis a con-
gressos e seminarios, cor pesquisas
bizantinas e corn uma burocracia ciclo-
pica (sempre pretextando assessorias
onerosas), a universidade deveria tor-
nar disponiveis recursos (que, mesmo
em periods de crise, sempre sao guar-
dados como reserve ao alcance de bu-
rocratas cor o mapa da mina na mao)
para receber essas figures excepcionais
para o saber de um povo.
Se elas sao realmente excepcionais,
sendo public e not6rio o seu saber, as
regrinhas da burocracia devem ser es-
quecidas e o niico compromisso co-
brado delas deve ser a produago inte-
lectual, a escrita e a oral, tAo mofina
entire n6s. Por falta de sensibilidade,
deixamos que nosso deficit cor Eidor-
fe Moreira se acumulasse e so nao foi
maior porque o NAEA lhe ofereceu um
pequeno porto seguro, acanhado mas
functional. Tendo errado no passado,
nao estaremos errando no present, in-
capazes de prevenir erros impossivel de
remediar no future?
Penso novamente no caso de Fran-
cisco Paulo Mendes. Corn a idade avan-
gada que ja possui, Chico Mendes con-
tinua contemporineo e ate vanguardis-
ta, de um saber raro fora do eixo inte-







JOURNAL PESSOAL -1' QUINZENA DE JUNHO / 1997 5


lectual dominant no pais. Todos os
dias ele 1, acompanhando o que vem
sendo produzido no mundo inteiro ou
revisitando os classics de seu interes-
se a partir de uma perspective unica.
De vez em quando um texto dele apa-
rece na apresentacio de uma exposicio
de pintura (como no tltimo catalog de
Dina Oliveira) ou de um livro, sempre
sintetico, exato, espirituoso ou mordaz.
Mas por que diabos nao pode estar vin-
culado organicamente a universidade?
Porque hi regras impeditivas? Sim, elas
existem, como as bruxas daquela piada
espanhola que se materializam apesar da
nossa descrenca.
Dificultam, mas nao impossibilitam.


0 economist Holio
Mairata envio ao journal
a seguinte carta:

I Nao li a obra de Brigite Leoni sobre o FHC,
comentada por ti na mais recent edicgo do
JP, portanto, nao tenho como avaliA-la. Contu-
do, julgo necessario chamar a atenqao para al-
guns comentarios ali estampados acerca da pes-
soa do Principe.
Em certo trecho, pareces (?) encampar o
julgamento da autora acerca de que nao se deve
esperar. do president, "a revolugao. que ele
jamais prometeu fazer, nem acredita que seja
necessAria. Oriundo da esquerda, ele se tornou
um home de centro'. Mais adiante, contudo,
FHC 6 identificado como 'o home da esquer-
da que compreende a direita', como quer Bri-
gitte e, parece (?), Lucio. Como, entao, situa-
lo geopoliticamente, mormente ap6s a debacle
do 'socialismo real' e o anunciado 'fim da His-
t6ria'? Esquerda ou centroo'?
Desde logo, concordo que nao se pode atri-
buir A personalidade intima de FHC, consi-
derando-se o seu passado hist6rico, os r6tulos
maniqueistas de 'titere do Consenso de Wa-
shington' ou 'servo do neoliberalismo'. Instin-
tivamente, ao assistir pela TV as entrevistas e
discursos do president, passa-me a impressao
de sua sinceridade e honestidade (apesar do
Serjao, do Ronivon e de outros) na crenga de
que ele deposit em seu 'projeto de reform para
valer'.
Mas, de boas intencoes o inferno esta cheio.
Uma coisa e alguem acreditar sinceramente em
um projeto sadio de desenvolvimento e empe-
nhar-se por ele (embora com metodos que aqui,
na Provincia, tens considerado condeni-
veis, como as aliancas espurias, as compras de
parlamentares, as nomeagces franciscanas,
etc.). Outra coisa, porem, 6 essa mesma pessoa
ter embarcado em um projeto cuja filosofia e,
por conseqiiencia, resultados reflete apenas
os interesses de certos grupos, mas nao neces-
sariamente os das camadas majoritarias da so-
ciedade. Nao 6 A toa que reconheces em teu
artigo que FHC 'e o melhor quadro da elite
brasileira' (o grifo e meu).
t ai que esta a ferida. Pensando fazer o me-
lhor para as circunstancias e nas circunstAnci-
as, FHC acaba por ser 'escravo de algum eco-
nomista morto', no caso, nao tanto dos econo-
mistas do Consenso de Washington,que slo


Para isso ha a tao falada, maltrada e
incompreendida autonomia universita-
na. Francisco Paulo Mendes deveria ser
um pesquisador visitante da UFPA,
com tempo para estudar e acessivel aos
estudantes interessados, ji que os inte-
lectuais do setor cultural da adminis-
tracao estadual tem sido incapazes de
encontrar um lugar para ele (permane-
cem sem efeito as promessas de Joao
de Jesus Paes Loureiro e Paulo Chaves
Fernandes).
A UFPA poderia criar uma ou mais
catedras honorarias para paraenses ilus-
tres ainda em plena fase produtiva que
se acham espalhados por ai, gente como
Haroldo Maranhao, Benedito Nunes,


Ca rt a
apenas os ide6logos e porta-vozes das elites
econ6micas do globo, mas, na realidade, des-
tas ultimas, as beneficiaries do sistema que usa
a ideologia neoliberal para instrumentalizar
seus objetivos no atual modelo da globaliza-
g.o excludente, aproveitando o estado de des-
falecimento das esquerdas ap6s os duros gol-
pes da queda do 'socialismo real' para criar um
retrocesso nas conquistas trabalhistas e soci-
ais em geral, no 'welfare state' da social-de-
mocracia, da qual o Principe, segundo o jorna-
lista, gostaria de ser 'o primeiro... da Amdrica
Latina'; e. para arrombar os mercados interns
de todo o inundo, impondo uma concorrencia
desigual.
FHC ter AGIDO assim, ou seja, pensando
acertar, estaria realmente atrelado como um ti-
tere ao Consenso de Washington, como servo
do Neoliberalismo? Infelizmente, se tambem
formos honestos e limitarmo-nos A constatata-
cgo dos fatos, SIM, embora algumas vezes te-
nha uma recaida social-democrata, como no
caso das medidas cor o fito de agilizar e faci-
litar a Reforma Agraria, ainda assim medidas
essas tomadas sob a pressIo do MST e da soci-
edade civil (CNBB, etc.) e timidas se compa-
radas, por exemplo, a um PROER; ou, do rolo
compressor no Congresso quando quer aprovar
OUTRAS coisas, usando at6 mesmo a deturpa-
da maxima franciscana.
Poderia arrolar varios fatos comprovantes
dessa assertive. Mas vou deter-me em dois,
posto que irrefutavelmente emblematicos: as
propostas referentes a 'flexibilizacAo' dos con-
tratos cor trabalhadores, do seu ministry (um
dos preferidos) do Trabalho, criando o traba-
lhador de segunda classes formalmente reconhe-
cido; e a exagerada e velocissima abertura
externa (a aliquota m6dia aduaneira brasileira
sobre as importa96es, que era de 34% no go-
verno Sarney, baixou para 12% cor Collor e
para apenas 7,1% com FHC, segundo estudos
da Associac.o Brasileira dos Exportadores),
abertura essa sem paralelo e correspondEncia
nos parceiros comerciais, como se pode demons-
trar, mas afinada com o Consenso de Washing-
ton e o ideArio neoliberal, como a outra medi-
da, provocando mais exportacoes de empregos,
sobo embasamento da 'competigao do merca-
do' a qualquer custo, num darwinismo social
que faria a alegria de Spencer, Edgeworth e at6
do velho Malthus. Como se a economic fosse
regida pelas leis do mercado tipicas da concor-
rencia perfeita, num mundo cada vez mais do-


Vicente Sales, Armando Mendes (e nao
ha muito mais, nao), que, vindo para
ca, diminuira o tamanho da nossa ig-
nor.ncia e nos ajudara a nos reconcili-
ar com a nossa hist6ria, sem precisar
encara-lo com a consciencia pesada. Ou
que aqui estao, como Clara Pandolfo.
Nao podemos desperdigar a oportu-
nidade de dar a esses cerebros privile-
giados a possibilidade de continuarem
produzindo com lucidez, com as van-
tagens da longa experiencia acumula-
da e sem os prejuizos da idade. Faqa-
mos ja, enquanto e tempo. Ou vamos
continuar achando que e risonha e fran-
ca a hist6ria de nao precisar chorar so-
bre o leito derramado? *


minado por cart6is.
Espero que essas resumidissimas conside-
racbes possam contribuir para sacudir as men-
tes dos leitores (se porventura elas merecem
mencAo), embora eu nIo tenha as qualificac6es
requeridas nofecho do teu artigo, pois, econo-
mista menor de provincia, nem de long aspiro
fazer parte do circulo dos sisudos intelectuais
que mencionas como alheios a assunto de fato
tao important.
Um abraco do amigo e leitor fiel, do Ban-
deira 3 ao JP".
Tambem espero que as observaqCes do Hd-
lio Mairata estimulem novas manifestacqes a
respeito do governor de Fernando Henrique, nao
para consagra-lo cor abordagens publicitAri-
as, nem condena-lo cor dogmas ideol6gicos,
mas entende-lo, interpreta-lo e, a partir dai,
aceita-lo ou nega-lo.
A diferenca entire nosso soci6logo-presiden-
te e os satrapas provinciais 6 que aquele tem
um projeto e estes querem apenas o poder. Nao
e porque FHC ter um projeto, entretanto, que
relevo seu fisiologismo, aqui tambdm conde-
nado. Mas como ele ter uma proposta para o
exercicio do poder, you alm dessas praticas,
espurias mas aparentemente inevitiveis se e
precise aceitar os parametros da democracia
representative em um pais canibalesco como o
nosso.
Mesmo na presiddncia, Fernando Henrique
continue a ser um intejectual; e nao 6 por dia-
logar com SerjAo que langou A apostasia sua
bagagem intellectual (Serjao, alias, para quem
nao acredita, tambdm e um intellectual Sua
administracao controlou a inflagco e isto s6 foi
possivel porque ele tem um projeto, concebido
na passage do enfoque de esquerda (quando
apenas intellectual, era o esquerdista que mais
compreendeu a direita, que escolheu como ob-
jeto de pesquisa) para a pratica de centro. Tra-
ta-se de um projeto reformista comandado pelo
melhor quadro da elite brasileira. Se nao tiver
a consistencia necessAria ou, por outro moti-
vo, nao der certo, atestando que o melhor pro-
jeto da elite nao 6 o projeto que serve ao pais
(ou pelo menos que atende a maioria da sua
populagao), como evoluirA o Brasil a partir dai?
Esta 6 a inc6gnita. S6 um insensato dira que
falta angistia e incerteza A formulagio de uma
tal questao. Se acreditamos que a intelig6ncia
orienta as melhores aqoes humans, temos que
encontrar uma resposta. A esfinge 6 que nao
vai nos dar vida mansa. 0






6 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE JUNHO / 1997


Tucurui: o custo da corruppao

segundo depoimento hist6rico


A Albras poderia produzir alumi-
nio em -Barcarena sem subsidio.
Bastaria que a hidreletrica de Tucu-
rui tivesse sido construida sem cor-
rupcao. Mas como o custo da usina
foi onerado por desvio de recursos,
a Albras teve direito a uma tarifa de
energia favorecida. No espago de 20
anos, que e o prazo de vig6ncia do
contrato da Albras cor a Eletronor-
te, o subsidio vai onerar o povo bra-
sileiro em mais de um bilhdo de
d6lares, pr6ximo do valor de uma
nova fabrica.
Quem diz isso nao e um oposici-
onista, mas o home de maior in-
flu6ncia em toda a hist6ria da re-
c6m-privatizada Companhia Vale do
Rio Doce, o engenheiro Eliezer Bap-
tista, que atua na empresa ha quase
50 anos. A declaracao foi dada em
uma entrevista a Gisela Pires do Rio,
em 17 de outubro de 1995, na sede
da CVRD, no Rio de Janeiro.
Uma sintese das declarac6es de
Eliezer Baptista chegou as minhas
mdos recentemente. Li e reli. Ajor-
nalista nao parece ter percebido in-
tegralmente a importancia de algu-
mas opini6es e confissbes do entdo
president da Rio Doce Internacio-
nal, que ter sua sede em Bruxelas,
na Belgica. Deixou de aprofundar e
ampliar topicos que ajudariam a re-
escrever uma parte da hist6ria re-
cente do pais, sobretudo a abertura
da frente econ6mica na Amaz6nia.
Infelizmente, personagens decisi-
vos como Eliezer Baptista s6 costu-
mam dizer tudo o que sabem (se al-
gum dia chegam mesmo a abrir seus
arquivos) quando seus depoimentos
tem um sentido apenas historiogra-
fico, nao podendo mais interferir no
curso das decisoes, ja entao consu-
madas. Foi o que fez algum tempo
atras o engenheiro Lucas Lopes,
mineiro de origem como Eliezer, tao
ou mais influence do que ele (a ni-
vel federal, desde a administraygo
JK ate o governor do marechal Cas-
telo Branco, o ultimo despotismo
esclarecido no ciclo military p6s-64
- e, talvez nao por mera coinciden-
cia, o primeiro deles).


Contrariando a retorica de sua
pr6pria empresa, Eliezer sustenta
que o oneroso subsidio concedido a
Albras seria dispensavel, mesmo a
empresa se instalando em uma area
pioneira, sujeita ao inflacionado "fa-
tor amazonico", se o custo da hidre-
letrica de Tucurui fosse correto.
E sempre bom lembrar que a via-
bilidade da construcgo da usina, a
maior instalada integralmente em
territ6rio brasileiro (Itaipu, que a
ultrapassa, e binacional, brasileiro-
paraguaia), foi definida em torno de
um orgamento de 2,1 bilh6es de
d6lares. Nesse esquema, a Albras
entraria corn 30% dos recursos ne-
cessarios para a obra, ja que absor-
veria 30% da energia firme gerada
pela usina.
Mesmo cor a redugco da capaci-
dade de producgo da Albras em
50%, o acordo conjugado original
aluminio-energia, assinado (nao por
acaso) em T6quio, exigiria que a
empresa aportasse 15% do custo de
Tucurui. Pelo oraamento de proje-
to, era um peso mais do que supor-
tavel, correspondendo a um quarto
do que o consorcio nipo-brasileiro
investiria na metalurgia de Barca-
rena. Pelo acerto original, essa apli-
cacao da Albras em Tucurui seria a
fundo perdido, sem retorno, portan-
to, ao investidor. Ainda que viesse
a evoluir (ou involuir, conforme a
6tica) para um encontro de contas,
entretanto, pouparia a Eletronorte
do pagamento de juros, barateando
a usina.
Mas quando os custos
de Tucurui comegaram a
evoluir exponencialmen-
te, osjaponeses trataram
de se livrar do acordo,
deixando a batata quente
nas mdos da Eletronorte.
O Brasil assumiu sozinho o custo da
hidrel6trica, desonerando a Albras
desse fardo. 0 pais precisou entao
recorrer a bancos franceses. Eles


concederam o emprestimo cobran-
do taxas de risco conforme a escala
por eles pr6prios fixada em relaggo
ao Brasil, e cor uma condicgo adi-
cional: metade das enormes turbi-
nas (cada uma das 12 ja instaladas
gera mais energia do que todo o con-
sumo de Belem) teriam que ser cons-
truidas na Franga. A outra metade foi
construida por empresas brasileiras,
mas que pagam royalties aos fabri-
cantes franceses. Uma festa de di-
nheiro gaulesa, com certeza.
Quando a usina foi inaugurada,
em 1984, seu custo saltara dos US$
2,1 bilh6es orgados para US$ 5,4
bilhoes realizados, sem incluir os
juros dos empr6stimos (exceto um
pequeno montante, pago durante a
construgao). Ou seja: em apenas
nove anos de execugao da obra, ela
saira US$ 3,3 bilh6es mais cara do
que a haviam projetado seus enge-
nheiros (e isto deixando de lado os
terriveis juros).
A que se deve tao brutal diferen-
ga? Oficialmente, a culpa sempre foi
langada sobre os largos ombros do
insaciavel "fator amaz6nico". Elie-
zer Baptista, em seu depoimento
mal-aproveitado, da o verdadeiro
nome do boi: e a corrupgao.
A conta desse desvio e ainda mai-
or. Ela inclui juros que a Eletronor-
te continue a pagar, ou a empurrar
com a barriga, quando nao paga (o
que significa juros sobre juros con-
tabilizados em Paris e outras pragas
mundiais). Quantos bilh6es a mais
foram agregados a essa conta? Tres
bilh6es, ou mais. Logo, construimos
uma enorme hidrel6trica e fatores
outros que nao os geograficos, de
engenharia, econ6micos e financei-
ros engoliram outras duas enormes
hidreletricas, arrastadas pelo rio da
manipulag0o, da conivencia, da
omissao e da desinformagao para o
esgoto da hist6ria subterranea, que
s6 emerge quando os cidadaos j nao
estao mais em condig6es de refazet
a historia.
Mas ha ainda outro onus, o do
subsidio de energia: Os japoneses,
os americanos e outros produtores






JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE JUNHO / 1997 7


ou consumidores de aluminio viri-
am para ca, sem o leonino subsidio
que Ihes concedemos, se, constru-
indo cor honestidade e compet6n-
cia, Ihes cobrassemos tarifas de
mercado, ao mesmo tempo atraen-
tes para o empresario e remunera-
doras para o concessionario pibli-
co, capazes de permitir-lhes amor-
tizar o investimento feito, ao inv6s
de desencadear cascatas financeiras
sem fim, que at6 hoje sangram o
pais. Isto era e provavelmente con-
tinua a ser possivel
Quem diz isso 6 unm homeln
do respeito e do conheci-
mento de Eliezer Bapt i-
ta. O que se deduz des- :.
sa afirmativa 6 que
certamente nao teria-
mos a (questionavel)
primazia de colocar-
mos um milionario
brasileiro, como o
sr. Sebastiao Ca-
margo (ja faleci- .
do), entire os ho-
mens mais ricos do
mundo, nas famosas listas cunhadas
por revistas de neg6cios como For-
bes e Fortune, mas, em compensa-
gao, nao seriamos atirados ao r6s-o-
chao da comunidade international,
como o pais ao mesmo tempo com
a maior concentrated de riqueza e
os mais negros indicadores de po-
breza.
Entre 1975 e 1984, period de
construgdo de Tucurui, o dono da
Construtora Camargo Correa, a em-
preiteira principal da usina, ascen-
deu a condigdo de membro do ex-
clusivissimo clube dos milionarios
mundiais, do qual apenas mais dois
brasileiros faziam parte: Antonio
Ermirio de Moraes e Roberto Mari-
nho. A fortune de Camargo dobrou
nesse intervalo, passando de US$
500 milhoes para US$ 1 bilhao -
gragas a Tucurui, naturalmente.
Mas se garante que sem corrup-
9do na obra da mega-hidrel6trica o
subsidio tarifario para a Albras se-
ria dispensavel, Eliezer Baptista
declara ainda na entrevista que, se
dependesse apenas da Vale, a fabri-
,a de aluminio teria ficado em Sao
Luis e nao em Bel6m. Pelos criteri-
os logisticos, que constituem o pa-
trim6nio maior da CVRD, a implan-
taqgo da metalirgica no porto da


Ponta da Madeira, no Maranhao, au-
mentaria a rentabilidade do sistema
de transport e o aproveitamento de
sinergias na empresa, agregando
valor ao process produtivo.
"Pressoes de natureza

diversa, diz Eliezer, fi-

zeram a Vale desistir da
localizaqao ideal para a
fdbrica. "Por razoes de politi-
ca estadual construiu-se em Bar-
carena". A Alcoa, concorrente da
Albras, foi mesmo para Sao Luis.
A entrevistadora deveria ter for-
cado Eliezer a revelar os bastido-
res da 6poca, ja que enquanto
agia em relagao a metalirgica de
aluminio para instala-la em Be-
16m, contra os criterios t6cnicos
e economicos, o governor federal
decidia fazer o escoamento da
produgao de min6rio de ferro
pelo Maranhao, colocando, nes-
te caso, os arguments econ6mi-
cos acima da pressao political. A
reconstituigao do process deci-
s6rio nesses dois casos ajudaria
a esclarecer o modo de proceder
do prussiano governor do general


Ernesto Geisel e suas aliancas
com os politicos e o capital.
Nessa 6poca intensificava-se a
influ6ncia political do governor fe-
deral dentro da estatal. Foi por
causa dessa pressao que a empre-
sa construiu a Valesul (outra fa-
brica de aluminio) no Rio de Ja-
neiro e fez investimentos em fer-
ro-liga. Mesmo a assinatura dos
contratos de gestao livrou a
CVRD da camisa-de-forga na
qual Eliezer garante que ela foi
nimtida cada vez mais a
S pa'rtir de 1986 (peri-
0 odo da Nova Repii-
*Ilica de Jos6 Sar-
ney), simplesmen-
te porque o gover-
no nao respeitava
os terms desses
contratos.
A partir desse
moment Elie-
zer parece ter-
Sse incorporado
definitivamente
ao process de
privatizagdo da empresa, mas no
rumo da intensificagdo da parce-
ria com os japoneses, por ele ini-
ciada quando foi president da
Vale, entire 1961 e 1964, deslo-
cando de dentro da empresa a in-
fluencia americana (que agora es-
taria de volta?). O resultado do
leilao de venda do control acio-
nario da estatal deve ter causado
alguma surpresa a Eliezer, que
certamentre estara tentando recu-
perar posicao da nova configura-
p9o da empresa. Pena que agora
estejamos tao a distancia desses
bastidores.
Quando Eliezer Baptista falara
sobre este moment tao impor-
tante, se algum dia falar? Os ho-
mens que fazem a hist6ria com
consci6ncia do que fazem, mas
como personagens dotados de
importancia incomum, sao mais
tentados a usar as informag6es
que det6m como bem pessoal do
que como patrim6nio coletivo.
Por isso, deve-se aproveitar os
moments em que, descontraidos,
vao al6m de suas estrat6gias e
partilham informag6es exclusi-
vas, mesmo que elas sejam miga-
lhas e estejam misturadas com a
poeira do tempo. *








Fim de direito
No pr6ximo dia 8 o pre-
feito Edmilson Rodrigues
perdera o direito de proces-
sar 0 Liberal por crime pre-
visto na chamada Lei de Im-
prensa. Foi nesse dia que o
journal publicou noticia di-
zendo que o prefeito de Be-
16m havia agredido Leandro
Borges, que se declarava li-
der comunitario no conjun-
to Raimundo Jinkings, uma
das invas6es da periferia da
cidade (ver Jornal Pessoal
n 159). 0 prefeito, exercen-
do o direito de resposta, es-
creveu uma carta argumen-
tando que a informagdo era
falsa, mas o journal se recu-
sou a publica-la. Edmilson
anunciou que recorreria a via
judicial.
A96es em em nome dele,
de sua irma, Edilene Rodri-
gues, do secretario de edu-
cac;o, Luiz Arafjo, e da pre-
sidente da Fundag9o da Me-
renda Escolar, Ana Concei-
cao Oliveira, que se consi-
deraram tambem atingidos
pelo journal, foram prepara-
das pelo advogado (e depu-
tado federal pelo PT de Sao
Paulo) Luiz Eduardo Gree-
nhalgh, mas nao foram ajui-
zadas at6 hoje. Se nao derem
entrada at6 o dia 8, tres me-
ses ap6s a publicacao da no-
ticia, ao menos em relagao a
Lei de Imprensa decaira o
direito do prefeito. Talvez
seja uma maneira de tomar
iniciativa atraves da inercia.

NImeros da Vale
Em oito anos, entire 1989
e 1996, a Companhia Vale
do Rio Doce deu 3,3 bilh6es
de d6lares de lucro liquid
(em valores hist6ricos, sem
correg o), uma media annual
de US$ 400 milh6es, distri-
buindo US$ 800 milh6es em
dividends. Nesse period,
investiu US$ 3 bilh6es s6
cor aplicagao de seus acio-
nistas, quase sem alterar o
seu grau de endividamento.
Para uma empresa priva-
da e mais ainda, para uma
estatal 6 desempenho no-
tavel. Esses ntimeros estao
no iltimo balango da CVRD
como estatal. Estarao no
pr6ximo, da empresa priva-
tizada?


Salvagdo necessaria
Njo e porquc a Companhia Vale do Rio Doce lof prn-
vattzada (por enquanto. ainda a tirulo precar'o) que o go-
\erno dca se desintcrcssar pela integrdade das areas de
protecio ecologica no cntorno da pro\ incia funeral e pelo
proprio nucleo da mineraa.ii sob o domnio da cnipre-
sa
Emni priniro lugar ha unia pindcdcia judicial que pode
resultar na dle'olui'o integral ao poder public dos 4 11
mil que foram concedidos pelo Sinado a CVRD Em se-
giundo lugar ha o rclxc ante ntcrcsse social em preservar
aquela beissina composiio ambiental do padrdo de de-
vastai;.,o que existed ao redor E urma felicidade que o con-
uinto de fauna e flora tenha podido sobrcvvler a aridez
da paisagem mineradora. Daremos uma diemonstraqSi~ de
Intelihgncia umpedindo que a predatio alnji oa coraiao
de Carajas qualquer quc seja o seu pretexto


Saida salvadora
Pode at6 nao ter havido mesmo um acordo compuls6rio
entire o governor do Estado e o PT, mas o resultado da CPI
que deveria ter sido instalada para apurar a depredacgo da
sede da Assembleia Legislativa acabou agradando aos dois
lados. A Comissao Parlamentar de Inqu6rito foi atingida de
morte por uma preliminary suscitada pelo deputado petista
Ze Carlos: o nao preenchimento do interregno regimental
entire a propositura e a instalagao.
A instaladao o deputado compareceu, mas a questao de
ordem era procedente: um vacilo (ou um erro intencional)
tornou a CPI formalmente imprestavel. Mas os rigores do
formalismo s6 sao atendidos quando isso interessa a maio-
ria e, ao que parece, foi o que aconteceu. A intencgo poli-
tica da CPI, por tras de seus objetivos oficiais (de defender
a integridade do poder legislative), era obter a cabega de
um deputado do PT que ja estava at6 escolhida: seria a de
Jose Geraldo, acusado de comandar os atos de vandalism.
Mas para chegar at6 esse alvo desejavel, o governor teria
que se expor ao risco do depoimento do ex-chefe da Agio
Social Integrada do Palacio do Governo, Jos6 Augusto Pon-
tes de Moraes, o Juba. Conforme o Jornal Pessoal noti-
ciou com exclusividade (ver edigio 161), Juba se recusou
a participar do esquema official de ocupacgo da Assembleia,
que'serviu de estopim para as agress6es a sede do legislati-
ve, e por isso deixou o cargo.
Convocado para depor na CPI, Juba teria que decidir:
desmentir a noticia (e rejeita-la significaria negar a verda-
de), desgastando-se depois de um ato de dignidade, ou con-
firmar o que aconteceu, deixando mal o governor. A questao
de ordem levantada pelo deputado Z6 Carlos foi a salvagdo
para os dois lados postos diante do desgastante confront,
subitamente ampliado para atingir tamb6m a bancada go-
vernista. Menos, naturalmente, para os que diziam defen-
der a dignidade do poder e para os que, no fundo, queriam
uma cabeqa para cassar. Prevaleceu a acomodacgo ou seja,
fez-se novamente a regra no poder legislative.



Journal Pessoal
Editor Lucio Flavio Pinto
Redae&o: Passagem Bolonha, 60-B I 66 053-020
Fone: 223-1929 e 241-7626
Contato: Try. Benjamin Constant. 845/203 66 053-020 Fone: 223-7690
e.mail. lucio@expert com.br
Edllora;&o de arte: Luizpe / 241-1859


Como de regra
O Reporter 70, de 0
Liberal, nao corrigiu,
como deveria, um erro
cometido na nota
principal publicada no dia
24, induzindo um erro
grave na hist6ria
brasileira. 0 journal diz
que o editorial "Basta",
do Correio da Manha, do
Rio de Janeiro (ja
desaparecido), foi contra
o president Getilio
Vargas. Na verdade, o
epis6dio ocorreu 10 anos
depois: na ocasido, aquele
que foi o mais important
journal da Repiiblica
considerava exaurido o
governor do president
Jodo Goulart, filho
spiritual de Gettilio. No
dia 1 de abril de 1964
veio outro petardo letal
cor o editorial "Fora",
que funcionou como
senha para os militares,
cor apoio popular,
afastarem do cargo o
president constitutional
do pais.
Mas ja no dia 2 o grande
journal percebia os
primeiros sinais de perigo
e comegava a critical o
regime military em
estabelecimento, atraindo
sua fdria. Nao tendo se
preparado
administrativamente para
enfrentar o boicote
desencadeado pelo
governor Castelo Branco, o
Correio da Manha (onde
trabalhei como reporter)
acabou morrendo
melancolicamente.
Melanc6lico, em outra
dimensao, foi o erro de
informagao do Rep6rter
70, nio retificado, como
de praxe naquele journal,
contumaz maltratador da
hist6ria.



Ao contrario do que havia
anunciado, acabo lancando o
n6mero regular do JP desta
quinzena. E para nao perder
tema que envelheceria a es-
pera da volta da viagem. Es-
pero que a produgao de afo-
gadilho nao afete a qualida-
de desta edigao.