|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Journal Pessoal L C I O F L A V O P I N TO AN -1 4-1-Q Z N EJ NH E 1 9 R$ 2,0 Cu6o volta ao garimpo: pra que? AMAZONIA Fronteira da sujeira Os politicos do Norte aparecem perante a opinido public coei os lFrtes dopais. Mas eles sao umproduto da logica que o Brasil estabelk'cedipa sua maior fro teira. onde a vez ed sempre do bandido e a esperan!a no mocinhofica AMAZONIA para um future incerto e nao sabido. . em a participago de Joao .-., Maia, na 6poca represen- :;, tante da Contag (Confede- raydo Nacional dos Traba- Si; Ihadores naAgricultural no Estado, e provavel que as prineiras organizay6es de seringueiros nao se instalassem no4cre, no inicio da de- cada de 70. Maia desafiou muitos riscos, inclusive de vida, para apoi- ar os nascentes sindicatos. um dos quais, o de Xapuri, viria a ser co- mandado por Chico Mendes. depois transformado em simbolo da luta pela ecologia na Amaz6nia No mes passado o mesmo Maia. agora com 55 anos, um dos cinco parlamentares que teriam tido seu voto em favor da reeleigdo do pre- sidente Fernando Henrique Cardo- so comprado pelo governador do Amazonas, Amazonino Mendes, numa manobra de argucia renunciou ao mandate de deputado federal para escapar a cassacio e poder con- correr novampnte ao cargo no pr6- ximo ano. Seriam a mesma pessoa o militan- te de esquerda dos anos 70, que pas- sou por cursos superiores no Cana- da, nos Estados Unidos e na Ingla- terra (nesta, na prestigiada Univer- sidade Sussex), defendendo no Acre ex-seringueiros e trabalhadores ru. rais massacrados pela expansdo b I I 2 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JUNHO / 1997 Sdas frentes econ6micas, e o po- litico fisiol6gico dos anos 90, que nao se constrangeu em montar um ardil de mafioso para escapar a pu- niygo certa? Joao Maia caberia como luva no modelo que Robert Louis Stevenson montou na literature cor o medico e o monstro, o dr. Jekyll e Mr. Hyde, a dupla personalidade, enfim. Mas seria possivel alegar, em favor dele, que ao menos algum dia defended ideas. Os outros envolvidos no es- candalo da compra de votos, todos politicos nortistas, nem essa pr6-his- t6ria de idealismo tiveram. Entra- ram na political com o deliberado prop6sito de "levar vantagem, con- forme a tristemente antol6gica fra- se do pai do franciscanismo depra- vado, o ex-jogador (e hoje locutor esportivo) Gerson. Ha alguns anos os piores espeta- culos de fisiologismo explicit e ma conduta professional v6m sen- do apresentados no pais por politi- cos do Norte, desde o assassinate, em 1990, do senador (e entdo can- didato a governador) Olavo Pires, de Rond6nia, que a policia acom- panhava por seu envolvimento corn o narcotrafico (acusagao que tam- bem pesou sobre outros politicos rondonienses), ate a apreensdo e confisco de um Boeing 727 (de um total de nada menos que 10 preten- didos por compra) do governador do Acre, Orleir Cameli, em 1995. Cameli se notabilizou tanto por obras suspeitas quanto por seus cin- co CPFs. Os politicos do Norte sao os pio- res do Brasil? A pergunta deve es- tar latejando, agora mais do que nunca, em muitas cabegas espalha- das pelo pais, reavivada pelo mais recent escfndalo, mas cor moti- vadores muito mais constantes e nem sempre explicitos. Eles t6m suas raizes profundas plantadas no preconceito, em estere6tipos e no conflito de interesses econ6micos, mas tambem cor inspiracao em um instrument politico que deveria servir de antidote a condigao de su- bordinacao e dependencia do Norte em relacao ao Sul (para simbolizar, mesmo que simplificando, a dispa- ridade interregional mais grave do Brasil). A "constituiCao-cidadd" do depu- tado (ja falecido) Ulysses Guima- rdes estabeleceu que a menor ban- cada na Cimara Federal teria oito deputados, independentemente da populagco do Estado que represen- tasse. Gragas a esse dispositivo, Roraima e Amapa, cor 300 mil ha- bitantes, elegem oito deputados fe- derais, enquanto a cota de So Pau- lo, cor 34 milhaes de habitantes, 6 de 70. O voto de um amapaense cor- responde a mais de 100 paulistas. Ndo surpereende que o ex-presiden- te Jos6 Sarney tenha transferido seu domicilio eleitoral do Maranhdo para o Amapa, conseguindo dessa maneira assegurar sua vaga senato- rial. Essa bancada minima violentou o principio da proporcionalidade da representagdo dos Estados na Cama- ra dos Deputados, tornando alguns brasileiros "mais iguais" do que outros. O argument em favor des- sa disposigao constitutional e o de compensar a fragilidade dos Esta- dos ao mesmo tempo mais distan- tes e mais pobres da Federagco, dan- do-lhes um peso politico relative maior. Contribuindo apenas margi- nalmente para a riqueza national e tendo significacgo demografica la- teral, a Amaz6nia disporia de uma bancada parlamentar maior para tentar anular, pelo caminho politi- co, as desvantagens de seu peso eco- n6mico e demografico. A tradugdo concrete desse belo enunciado federativo 6 sofrivel. Quem percorre as duas casas legis- lativas percebe que a respeitabilida- de e a credibilidade da bancada nor- tista sdo quase nulas. A rigor, nem existe uma bancada amaz6nica para valer, apesar de criada formalmen- te, mas representag6es de cada Es- tado agindo autonoma e isolada- mente. Essa pulverizacgo seria de- corrente do pr6prio tamanho da re- giao, al6m de resultar do interven- cionismo federal, que fragmentou- a em autarquias para efeito adminis- trativo. Cor um peso politico sem cor- respond6ncia cor sua expressao produtiva e humana, a Amaz6nia ainda assim nao tira vantage des- se fator politico compensat6rio, que agora as bancadas dominantes do Centro-Sul querem reduzir a meta- de, estabelecendo em quatro depu- tados a bancada minima na CAmara Federal. Apesar das reunites perio- dicas, as bancadas estaduais nao conseguem definir programs co- muns de dimensao regional, ultra- passando os limits de cada unida- de federativa. O contrast cor ou- tra bancada nao menos fisiol6gica, mas dotada de uma visao supra-es- tadual, como a nordestina, e gritan- te. A Amaz6nia seguramente ter os piores politicos da comunidade par- lamentar. Talvez por isso eles te- nham se destacado negativamente no conjunto de operac6es de com- pra e voto que, de forma indireta, alcangaram representantes de vari- os outros Estados. S6 que no Norte a operagao de compra de voto cos- tuma ser literal e nao apenas sim- b6lica, ou por via de compensac6es um pouco mais sofisticadas do que o recebimento da moeda sonante. Nao sendo de maneira alguma casos isolados de inescrupulosida- de, os politicos nortistas foram co- locados sob os holofotes pelo seu primarismo e pela promiscuidade cada vez mais aberta entire a ativi- dade pfblica e o rendimento priva- do. Os incentives e vantagens que a administragco public, mas especi- almente o governor federal, concede para atrair investidores para a region e como compensagao pelo custo oneroso do "fator amaz6nico" ddo a politicos e burocratas um poder excepcional. Eles se beneficial dessa selvagem 16gica da fronteira, que justifica a exist6ncia do bandi- do a espera do mocinho (que nunca vem) e dos ganhos a qualquer titu- lo, sobretudo os ilegitimos, pelo mapa de acesso a esses beneficios. E compreensivel, sobre esse pano de fundo, que o governador Ama- zonino Mendes seja o grande her6i da political amaz6nica. Verso atua- lizada do Gilberto Mestrinho que imperou na era do extrativismo ve- getal, Amazonino 6 o campeao de votos (no caso do governor do Esta- do, bi-campeao) e de obras de clara inspiragao adhemarista (do mitol6- JOURNAL PESSOAL -1P QUINZENA DE JUNHO / 1997 3 gico Adhemar de Barros, autor do slogan "rouba, mas faz", ainda a principal legend da political brasi- leira) que a Zona Franca de Manaus engendrou. A Zona Franca concentrou na ca- pital amazonense 50% da populagao do Estado territorialmente mais ex- tenso do pais e 90% do seu Produto Interno Bruto. Essa economic, que faturou 13 bilh6es de reais no ano passado seiss vezes as vendas exter- nas do Para, o s6timo maior expor- tador do pais), vive em funqio da Suframa (Superintend6ncia da Zona Franca de Manaus), com seu powder sobre R$ 3 bilhbes anuais de incen- tivos fiscais e R$ 100 milh6es de orgamento pr6prio. Quase a totalidade do di- nheiro que entrou na campa- ', nha da reelei9go de Ama- zonino veio das empresas da ZF, um tergo das quais faz ali apenas "maquila- gem" de produtos importa- dos, caricatamente nacio- nalizados. Trata-se de uma tenda tecnol6gica, que fa- cilmente pode ser desfeita e transferida, mas que gera um poderoso subproduto. Essa renda marginal 6 absorvida por um pequeno punhado de gente cor um enorme poder de fogo ( sim- b6lico e literal), capaz de embone- car a capital (criando um contraste desconfortavel para a maior cidade da Amaz6nia, Bel6m) e criar uma intense circulagao de dinheiro por circuitos privilegiados, dificil de ex- plicar, entretanto, em uma economic que busca a normalidade e a ordem. A inspiragao especificamente amaz6nica no balcTo geral de nego- ciacao de votos pr6-reeleig9o presi- dencial (que pingou uma n6doa de- finitiva na biografia do principle , era, alias, a Suframa. O governador Amazonino quer tirar um burocrata federal do comando da superinten- d6ncia e la infiltrar pessoa de sua confianya. Para credenciar-se, mos- trou "servigo", algo, mal-comparan- do, como o que Greg6rio Fortunato fez quando planejou a eliminagao dos adversarios de Getblio Vargas, dando o arremate final a crise que fez o president suicidar-se, num ato singularmente inusitado para o pa- drao dos politicos brasileiros. No mesmo mes em que o pais des- cobriu uma das teias ilicitas da aqui- sicao de votos, centrada no gover- nador do Amazonas, a Policia Fe- deral prendeu um dos amazonen- ses mais ricos, que fundou seu imp6rio na perna legal da dis- tribui9ao de combustivel e na perna illegal do narcotra- :. fico: Antonio Mota Graga, S. o "Curica", o home de *. uum bilhao de d6lares, se- gundo os dossi6s da PF. Foi uma das maiores S faganhas dos "federais", mas nAo mereceu o desta- S que que outro tipo de de- linqu6ncia, distinta apenas na apardncia, receberia ao logo de dias na grande midia national. Pessoas notaveis cor essa ambival6ncia se multiplicam na jungle amaz6nica, como um pro- duto coerente, ainda que indeseja- \el. da 16gica da fronteira. * Curi6, o retorno Serra Pelada sempre foi um produto npico da in- xentma brasileira Durante a primeira metade da deca- da de 80 o garlmpo funcio- na\a como um quarrel e era gerenciado pelo SNI (Ser- viqo Nacional de Informa- q6es). atra\ es de um de seus agents. o tenente-coronel Sebastilo Rodrigues de Moura. codinome Curio (doutor. major, conform a necessidade) Curio apre- sentava-se. entretanto, como se fosse do Conselho de Segurauqa Nacional tal- vez para nio dar "bandeira". como enio diziamn os naisl joverns Destituido de sua condi- qfio de dependencia milirar. Serra Pelada tambem perdeu sua condiqdo teenica de ga- rimpo Nao ha mais all ouro garimpavel: o fildo mergulha por centenas de metros e so pode ser extraido para a su- perficie atrav6s de laIra in- dustrial. Mas dois mil ganm- peiros permanecem lavando rocha no local para garantir presenga, passando nuseria. Quase tres vezes e media mais ganmpeiros do que a popu- la~;o efeti;amente residence. entretanto, votaram no mes passado para escolher o no; o president da Cooperati.va dos Garinpeiros de Serra Pelada (Coomigasp). falaudo em nome de supostos 22 mil associados. 0 uiuco poder (e scu ver- dadeiro fildo) da cooperati- va 6 o direito reiindicado sobre 115 milhies de reais que restam pendentes da con- ta de deve e haver corn a Cai- xa Econ6mica Federal, a mo- nopolista na compra de ouro em Serra Pelada. A di\ ida da Coomigasp ascende a R$ 50 milhbes. mas o saldo e arra- tivo o suficiente para o ex- agente. ex-deputado federal (por unia tinica legislature) e inlitar reformnado voltar ao seu antigo imperio parucular. Novos pretextos para a mesma retonca foram en- contrados para Curio re- compor sua lhderanQa des- gastada pelo tempo e pelas promessas nAo cumpridas. Mas o \ elho e, quase sem- pre. irrelizAvel sonho do ganmpeiro de "bamburrar" serviu de scenario para mais um capitulo da pantomima O tempo mudou, os perso- nagens permanoceram unu- tAveis, mas o que os recicla e a desmemoria de sua cli- entela e o jogo de interes- ses que permit esses enre- dos mal costurados read- quinrem verossimilhan-a O picadeiro esti armado novamente Um ato de intelig ncia, por favor ntre seus meritos, Jose Marce- lino Monteiro da Costa pode apresentar como um dos maiores ter abrigado Eidorfe Moreira no Nucleo de Altos Estudos Amaz- nicos da Universidade Federal do Para. Cruzei tres ou quatro vezes corn Eidorfe pelos corredores do NAEA. Nossas conversas, infeliz- mente, sempre foram muito rapi- das. Eidorfe estava ali para ler, pes- quisar e escrever, nao para conver- sar ou participar da vida acadmi- ca. Desde o acidente de 1932, quando, aluno do "Paes de Carva- Iho", foi ferido por um tiro e per- deu um dos bragos durante o mo- vimento de adesao dos estudantes a revolta constitucionalista de Sao Paulo, Eidorfe foi-se fechando. Apenas uns raros amigos tinham 9 acesso a sua intimidade. Ele quase se transformara num eremita. E que nao precisava sair de casa ou desviar-se dos rotineiros percursos a Universidade e livrarias: muito antes da campanha de oportunidade em curso, Eidorfe ja viajava atraves dos livros, lidos com sofreguidao e acuracia. A ele bastava ler e, tendo lido com extrema sensibilidade, digerir as ideias atraves da escrita. Eidorfe passara a hist6ria como um grande ge6grafo, talvez o maior dentre os que produziram na Amaz6nia e no proprio pais. Mas nao foi menor fil6- sofo, tao denso que nao se sabe se bri- lha mais como ge6grafo da filosofia ou fil6sofo da geografia (ou as duas coi- sas interpenetradas sem distincao esco- lastica). Tambem poderia ter consoli- dado a marca de critic literario e en- saista se tivesse transferido as obser- va96es feitas a margem dos livros que leu para os livros que poderia ter escri- to se a vida nao lhe tivesse sido tao di- ficil de enfrentar. Considero-me um privilegiado (e de vez em quando agradego intimamente por isso): adquiri varios dos livros que foram de Eidorfe. Assim, pude fazer leituras orientado por ele ou refazer leituras anteriores confrontando minhas observances cor as dele, depois de decifrar seus c6digos de anotacao (que amalgamei aos meus). Esse guia foi e ter sido maravi- Ihoso, tanto em relagio a livros tecni- cos quanto a romances e poesias. A lei- tura que Eidorfe fez de "Grande Ser- tao: Veredas", de Guimaraes Rosa, por exemplo, me indi- cou significados que eu nao perce- bera, mesmo sendo um roseano corn muito tempo de servigo (e, cor ele, de- liciado pelo prazer da releitura, o teste da excelkncia de um autor). Minha compreensao da poesia francesa se tor- nou melhor gracas as observa56es que encontrei em seus livros. Eidorfe Moreira poderia ter sido muito mais util a sua terra e dela rece- ber o reconhecimento de que e mere- cedor (mas ate aqui a espera de de- monstracao public) se o apoio que Marcelino deu a ele no NAEA tivesse sido ampliado e aprofundado. Eidorfe nao tinha nenhum titulo academico, nem era das "panelinhas", mas seu en- quadramento para efeito de vincula9go a universidade seria uma inutilidade. Ele era, simplesmente, um sabio. E como se produz um sabio? Evidentemente, nao se produz. Houvesse relagco direta de causa e efeito na sabedoria e gente como Ei- dorfe dificilmente surgiria em terra tao arida (ultimamente mais do que antes) como a paraense. Mas esse produto raro tambr m brota por aqui, a despei- to de tudo e contra muitos. O minimo de iniciativa que se espera de uma uni- versidade plantada nesta terra vazia (ou desolada, ou devastada, como se queira traduzir o poema seminal de T. S. Eliot, acertando no alvo sem essa in- tengio) e que ao menos abrigue tal cri- agao inesperada, esse impossivel ma- terializado (como a rosa amarela no asfalto do poema drummondiano). Pois por obra e graga da clari- videncia de gente arejada como o Marcelino (a quem na epoca com- bati por outros motives, estes ve- niais, sem nunca deixar de quer6- lo bem e respeita-lo), Eidorfe Moreira teve la o seu canto onde ler e escrever, infelizmente ja no crepusculo da vida, depois de ter sacrificado a si e aos seus para realizar sua santa tarefa de pen- sar)por n6s, iluminando-nos cor seu pensamento. Demos-lhe tao pouco e ele nos retribuiu com tanto... O que Ei- dorfe Moreira nao teria produzi- do se recebesse um salario decen- te (e nao a miseria que sempre Ihe foi paga), tivesse um escrit6rio, uma secretaria e o direito de in- dicar livros para aquisicgo pela biblioteca universitaria? Os oito volumes de sua obra reunida que a Cejup editou se multiplicariam porque ele teria escrito novos li- vros ou evoluido a partir dos artigos e esbogos que deixou, de surpreendente diversidade e apaixonante profundida- de. Ao inv6s de desperdigar montes de dinheiro com viagens estereis a con- gressos e seminarios, cor pesquisas bizantinas e corn uma burocracia ciclo- pica (sempre pretextando assessorias onerosas), a universidade deveria tor- nar disponiveis recursos (que, mesmo em periods de crise, sempre sao guar- dados como reserve ao alcance de bu- rocratas cor o mapa da mina na mao) para receber essas figures excepcionais para o saber de um povo. Se elas sao realmente excepcionais, sendo public e not6rio o seu saber, as regrinhas da burocracia devem ser es- quecidas e o niico compromisso co- brado delas deve ser a produago inte- lectual, a escrita e a oral, tAo mofina entire n6s. Por falta de sensibilidade, deixamos que nosso deficit cor Eidor- fe Moreira se acumulasse e so nao foi maior porque o NAEA lhe ofereceu um pequeno porto seguro, acanhado mas functional. Tendo errado no passado, nao estaremos errando no present, in- capazes de prevenir erros impossivel de remediar no future? Penso novamente no caso de Fran- cisco Paulo Mendes. Corn a idade avan- gada que ja possui, Chico Mendes con- tinua contemporineo e ate vanguardis- ta, de um saber raro fora do eixo inte- JOURNAL PESSOAL -1' QUINZENA DE JUNHO / 1997 5 lectual dominant no pais. Todos os dias ele 1, acompanhando o que vem sendo produzido no mundo inteiro ou revisitando os classics de seu interes- se a partir de uma perspective unica. De vez em quando um texto dele apa- rece na apresentacio de uma exposicio de pintura (como no tltimo catalog de Dina Oliveira) ou de um livro, sempre sintetico, exato, espirituoso ou mordaz. Mas por que diabos nao pode estar vin- culado organicamente a universidade? Porque hi regras impeditivas? Sim, elas existem, como as bruxas daquela piada espanhola que se materializam apesar da nossa descrenca. Dificultam, mas nao impossibilitam. 0 economist Holio Mairata envio ao journal a seguinte carta: I Nao li a obra de Brigite Leoni sobre o FHC, comentada por ti na mais recent edicgo do JP, portanto, nao tenho como avaliA-la. Contu- do, julgo necessario chamar a atenqao para al- guns comentarios ali estampados acerca da pes- soa do Principe. Em certo trecho, pareces (?) encampar o julgamento da autora acerca de que nao se deve esperar. do president, "a revolugao. que ele jamais prometeu fazer, nem acredita que seja necessAria. Oriundo da esquerda, ele se tornou um home de centro'. Mais adiante, contudo, FHC 6 identificado como 'o home da esquer- da que compreende a direita', como quer Bri- gitte e, parece (?), Lucio. Como, entao, situa- lo geopoliticamente, mormente ap6s a debacle do 'socialismo real' e o anunciado 'fim da His- t6ria'? Esquerda ou centroo'? Desde logo, concordo que nao se pode atri- buir A personalidade intima de FHC, consi- derando-se o seu passado hist6rico, os r6tulos maniqueistas de 'titere do Consenso de Wa- shington' ou 'servo do neoliberalismo'. Instin- tivamente, ao assistir pela TV as entrevistas e discursos do president, passa-me a impressao de sua sinceridade e honestidade (apesar do Serjao, do Ronivon e de outros) na crenga de que ele deposit em seu 'projeto de reform para valer'. Mas, de boas intencoes o inferno esta cheio. Uma coisa e alguem acreditar sinceramente em um projeto sadio de desenvolvimento e empe- nhar-se por ele (embora com metodos que aqui, na Provincia, tens considerado condeni- veis, como as aliancas espurias, as compras de parlamentares, as nomeagces franciscanas, etc.). Outra coisa, porem, 6 essa mesma pessoa ter embarcado em um projeto cuja filosofia e, por conseqiiencia, resultados reflete apenas os interesses de certos grupos, mas nao neces- sariamente os das camadas majoritarias da so- ciedade. Nao 6 A toa que reconheces em teu artigo que FHC 'e o melhor quadro da elite brasileira' (o grifo e meu). t ai que esta a ferida. Pensando fazer o me- lhor para as circunstancias e nas circunstAnci- as, FHC acaba por ser 'escravo de algum eco- nomista morto', no caso, nao tanto dos econo- mistas do Consenso de Washington,que slo Para isso ha a tao falada, maltrada e incompreendida autonomia universita- na. Francisco Paulo Mendes deveria ser um pesquisador visitante da UFPA, com tempo para estudar e acessivel aos estudantes interessados, ji que os inte- lectuais do setor cultural da adminis- tracao estadual tem sido incapazes de encontrar um lugar para ele (permane- cem sem efeito as promessas de Joao de Jesus Paes Loureiro e Paulo Chaves Fernandes). A UFPA poderia criar uma ou mais catedras honorarias para paraenses ilus- tres ainda em plena fase produtiva que se acham espalhados por ai, gente como Haroldo Maranhao, Benedito Nunes, Ca rt a apenas os ide6logos e porta-vozes das elites econ6micas do globo, mas, na realidade, des- tas ultimas, as beneficiaries do sistema que usa a ideologia neoliberal para instrumentalizar seus objetivos no atual modelo da globaliza- g.o excludente, aproveitando o estado de des- falecimento das esquerdas ap6s os duros gol- pes da queda do 'socialismo real' para criar um retrocesso nas conquistas trabalhistas e soci- ais em geral, no 'welfare state' da social-de- mocracia, da qual o Principe, segundo o jorna- lista, gostaria de ser 'o primeiro... da Amdrica Latina'; e. para arrombar os mercados interns de todo o inundo, impondo uma concorrencia desigual. FHC ter AGIDO assim, ou seja, pensando acertar, estaria realmente atrelado como um ti- tere ao Consenso de Washington, como servo do Neoliberalismo? Infelizmente, se tambem formos honestos e limitarmo-nos A constatata- cgo dos fatos, SIM, embora algumas vezes te- nha uma recaida social-democrata, como no caso das medidas cor o fito de agilizar e faci- litar a Reforma Agraria, ainda assim medidas essas tomadas sob a pressIo do MST e da soci- edade civil (CNBB, etc.) e timidas se compa- radas, por exemplo, a um PROER; ou, do rolo compressor no Congresso quando quer aprovar OUTRAS coisas, usando at6 mesmo a deturpa- da maxima franciscana. Poderia arrolar varios fatos comprovantes dessa assertive. Mas vou deter-me em dois, posto que irrefutavelmente emblematicos: as propostas referentes a 'flexibilizacAo' dos con- tratos cor trabalhadores, do seu ministry (um dos preferidos) do Trabalho, criando o traba- lhador de segunda classes formalmente reconhe- cido; e a exagerada e velocissima abertura externa (a aliquota m6dia aduaneira brasileira sobre as importa96es, que era de 34% no go- verno Sarney, baixou para 12% cor Collor e para apenas 7,1% com FHC, segundo estudos da Associac.o Brasileira dos Exportadores), abertura essa sem paralelo e correspondEncia nos parceiros comerciais, como se pode demons- trar, mas afinada com o Consenso de Washing- ton e o ideArio neoliberal, como a outra medi- da, provocando mais exportacoes de empregos, sobo embasamento da 'competigao do merca- do' a qualquer custo, num darwinismo social que faria a alegria de Spencer, Edgeworth e at6 do velho Malthus. Como se a economic fosse regida pelas leis do mercado tipicas da concor- rencia perfeita, num mundo cada vez mais do- Vicente Sales, Armando Mendes (e nao ha muito mais, nao), que, vindo para ca, diminuira o tamanho da nossa ig- nor.ncia e nos ajudara a nos reconcili- ar com a nossa hist6ria, sem precisar encara-lo com a consciencia pesada. Ou que aqui estao, como Clara Pandolfo. Nao podemos desperdigar a oportu- nidade de dar a esses cerebros privile- giados a possibilidade de continuarem produzindo com lucidez, com as van- tagens da longa experiencia acumula- da e sem os prejuizos da idade. Faqa- mos ja, enquanto e tempo. Ou vamos continuar achando que e risonha e fran- ca a hist6ria de nao precisar chorar so- bre o leito derramado? * minado por cart6is. Espero que essas resumidissimas conside- racbes possam contribuir para sacudir as men- tes dos leitores (se porventura elas merecem mencAo), embora eu nIo tenha as qualificac6es requeridas nofecho do teu artigo, pois, econo- mista menor de provincia, nem de long aspiro fazer parte do circulo dos sisudos intelectuais que mencionas como alheios a assunto de fato tao important. Um abraco do amigo e leitor fiel, do Ban- deira 3 ao JP". Tambem espero que as observaqCes do Hd- lio Mairata estimulem novas manifestacqes a respeito do governor de Fernando Henrique, nao para consagra-lo cor abordagens publicitAri- as, nem condena-lo cor dogmas ideol6gicos, mas entende-lo, interpreta-lo e, a partir dai, aceita-lo ou nega-lo. A diferenca entire nosso soci6logo-presiden- te e os satrapas provinciais 6 que aquele tem um projeto e estes querem apenas o poder. Nao e porque FHC ter um projeto, entretanto, que relevo seu fisiologismo, aqui tambdm conde- nado. Mas como ele ter uma proposta para o exercicio do poder, you alm dessas praticas, espurias mas aparentemente inevitiveis se e precise aceitar os parametros da democracia representative em um pais canibalesco como o nosso. Mesmo na presiddncia, Fernando Henrique continue a ser um intejectual; e nao 6 por dia- logar com SerjAo que langou A apostasia sua bagagem intellectual (Serjao, alias, para quem nao acredita, tambdm e um intellectual Sua administracao controlou a inflagco e isto s6 foi possivel porque ele tem um projeto, concebido na passage do enfoque de esquerda (quando apenas intellectual, era o esquerdista que mais compreendeu a direita, que escolheu como ob- jeto de pesquisa) para a pratica de centro. Tra- ta-se de um projeto reformista comandado pelo melhor quadro da elite brasileira. Se nao tiver a consistencia necessAria ou, por outro moti- vo, nao der certo, atestando que o melhor pro- jeto da elite nao 6 o projeto que serve ao pais (ou pelo menos que atende a maioria da sua populagao), como evoluirA o Brasil a partir dai? Esta 6 a inc6gnita. S6 um insensato dira que falta angistia e incerteza A formulagio de uma tal questao. Se acreditamos que a intelig6ncia orienta as melhores aqoes humans, temos que encontrar uma resposta. A esfinge 6 que nao vai nos dar vida mansa. 0 6 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE JUNHO / 1997 Tucurui: o custo da corruppao segundo depoimento hist6rico A Albras poderia produzir alumi- nio em -Barcarena sem subsidio. Bastaria que a hidreletrica de Tucu- rui tivesse sido construida sem cor- rupcao. Mas como o custo da usina foi onerado por desvio de recursos, a Albras teve direito a uma tarifa de energia favorecida. No espago de 20 anos, que e o prazo de vig6ncia do contrato da Albras cor a Eletronor- te, o subsidio vai onerar o povo bra- sileiro em mais de um bilhdo de d6lares, pr6ximo do valor de uma nova fabrica. Quem diz isso nao e um oposici- onista, mas o home de maior in- flu6ncia em toda a hist6ria da re- c6m-privatizada Companhia Vale do Rio Doce, o engenheiro Eliezer Bap- tista, que atua na empresa ha quase 50 anos. A declaracao foi dada em uma entrevista a Gisela Pires do Rio, em 17 de outubro de 1995, na sede da CVRD, no Rio de Janeiro. Uma sintese das declarac6es de Eliezer Baptista chegou as minhas mdos recentemente. Li e reli. Ajor- nalista nao parece ter percebido in- tegralmente a importancia de algu- mas opini6es e confissbes do entdo president da Rio Doce Internacio- nal, que ter sua sede em Bruxelas, na Belgica. Deixou de aprofundar e ampliar topicos que ajudariam a re- escrever uma parte da hist6ria re- cente do pais, sobretudo a abertura da frente econ6mica na Amaz6nia. Infelizmente, personagens decisi- vos como Eliezer Baptista s6 costu- mam dizer tudo o que sabem (se al- gum dia chegam mesmo a abrir seus arquivos) quando seus depoimentos tem um sentido apenas historiogra- fico, nao podendo mais interferir no curso das decisoes, ja entao consu- madas. Foi o que fez algum tempo atras o engenheiro Lucas Lopes, mineiro de origem como Eliezer, tao ou mais influence do que ele (a ni- vel federal, desde a administraygo JK ate o governor do marechal Cas- telo Branco, o ultimo despotismo esclarecido no ciclo military p6s-64 - e, talvez nao por mera coinciden- cia, o primeiro deles). Contrariando a retorica de sua pr6pria empresa, Eliezer sustenta que o oneroso subsidio concedido a Albras seria dispensavel, mesmo a empresa se instalando em uma area pioneira, sujeita ao inflacionado "fa- tor amazonico", se o custo da hidre- letrica de Tucurui fosse correto. E sempre bom lembrar que a via- bilidade da construcgo da usina, a maior instalada integralmente em territ6rio brasileiro (Itaipu, que a ultrapassa, e binacional, brasileiro- paraguaia), foi definida em torno de um orgamento de 2,1 bilh6es de d6lares. Nesse esquema, a Albras entraria corn 30% dos recursos ne- cessarios para a obra, ja que absor- veria 30% da energia firme gerada pela usina. Mesmo cor a redugco da capaci- dade de producgo da Albras em 50%, o acordo conjugado original aluminio-energia, assinado (nao por acaso) em T6quio, exigiria que a empresa aportasse 15% do custo de Tucurui. Pelo oraamento de proje- to, era um peso mais do que supor- tavel, correspondendo a um quarto do que o consorcio nipo-brasileiro investiria na metalurgia de Barca- rena. Pelo acerto original, essa apli- cacao da Albras em Tucurui seria a fundo perdido, sem retorno, portan- to, ao investidor. Ainda que viesse a evoluir (ou involuir, conforme a 6tica) para um encontro de contas, entretanto, pouparia a Eletronorte do pagamento de juros, barateando a usina. Mas quando os custos de Tucurui comegaram a evoluir exponencialmen- te, osjaponeses trataram de se livrar do acordo, deixando a batata quente nas mdos da Eletronorte. O Brasil assumiu sozinho o custo da hidrel6trica, desonerando a Albras desse fardo. 0 pais precisou entao recorrer a bancos franceses. Eles concederam o emprestimo cobran- do taxas de risco conforme a escala por eles pr6prios fixada em relaggo ao Brasil, e cor uma condicgo adi- cional: metade das enormes turbi- nas (cada uma das 12 ja instaladas gera mais energia do que todo o con- sumo de Belem) teriam que ser cons- truidas na Franga. A outra metade foi construida por empresas brasileiras, mas que pagam royalties aos fabri- cantes franceses. Uma festa de di- nheiro gaulesa, com certeza. Quando a usina foi inaugurada, em 1984, seu custo saltara dos US$ 2,1 bilh6es orgados para US$ 5,4 bilhoes realizados, sem incluir os juros dos empr6stimos (exceto um pequeno montante, pago durante a construgao). Ou seja: em apenas nove anos de execugao da obra, ela saira US$ 3,3 bilh6es mais cara do que a haviam projetado seus enge- nheiros (e isto deixando de lado os terriveis juros). A que se deve tao brutal diferen- ga? Oficialmente, a culpa sempre foi langada sobre os largos ombros do insaciavel "fator amaz6nico". Elie- zer Baptista, em seu depoimento mal-aproveitado, da o verdadeiro nome do boi: e a corrupgao. A conta desse desvio e ainda mai- or. Ela inclui juros que a Eletronor- te continue a pagar, ou a empurrar com a barriga, quando nao paga (o que significa juros sobre juros con- tabilizados em Paris e outras pragas mundiais). Quantos bilh6es a mais foram agregados a essa conta? Tres bilh6es, ou mais. Logo, construimos uma enorme hidrel6trica e fatores outros que nao os geograficos, de engenharia, econ6micos e financei- ros engoliram outras duas enormes hidreletricas, arrastadas pelo rio da manipulag0o, da conivencia, da omissao e da desinformagao para o esgoto da hist6ria subterranea, que s6 emerge quando os cidadaos j nao estao mais em condig6es de refazet a historia. Mas ha ainda outro onus, o do subsidio de energia: Os japoneses, os americanos e outros produtores JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE JUNHO / 1997 7 ou consumidores de aluminio viri- am para ca, sem o leonino subsidio que Ihes concedemos, se, constru- indo cor honestidade e compet6n- cia, Ihes cobrassemos tarifas de mercado, ao mesmo tempo atraen- tes para o empresario e remunera- doras para o concessionario pibli- co, capazes de permitir-lhes amor- tizar o investimento feito, ao inv6s de desencadear cascatas financeiras sem fim, que at6 hoje sangram o pais. Isto era e provavelmente con- tinua a ser possivel Quem diz isso 6 unm homeln do respeito e do conheci- mento de Eliezer Bapt i- ta. O que se deduz des- :. sa afirmativa 6 que certamente nao teria- mos a (questionavel) primazia de colocar- mos um milionario brasileiro, como o sr. Sebastiao Ca- margo (ja faleci- . do), entire os ho- mens mais ricos do mundo, nas famosas listas cunhadas por revistas de neg6cios como For- bes e Fortune, mas, em compensa- gao, nao seriamos atirados ao r6s-o- chao da comunidade international, como o pais ao mesmo tempo com a maior concentrated de riqueza e os mais negros indicadores de po- breza. Entre 1975 e 1984, period de construgdo de Tucurui, o dono da Construtora Camargo Correa, a em- preiteira principal da usina, ascen- deu a condigdo de membro do ex- clusivissimo clube dos milionarios mundiais, do qual apenas mais dois brasileiros faziam parte: Antonio Ermirio de Moraes e Roberto Mari- nho. A fortune de Camargo dobrou nesse intervalo, passando de US$ 500 milhoes para US$ 1 bilhao - gragas a Tucurui, naturalmente. Mas se garante que sem corrup- 9do na obra da mega-hidrel6trica o subsidio tarifario para a Albras se- ria dispensavel, Eliezer Baptista declara ainda na entrevista que, se dependesse apenas da Vale, a fabri- ,a de aluminio teria ficado em Sao Luis e nao em Bel6m. Pelos criteri- os logisticos, que constituem o pa- trim6nio maior da CVRD, a implan- taqgo da metalirgica no porto da Ponta da Madeira, no Maranhao, au- mentaria a rentabilidade do sistema de transport e o aproveitamento de sinergias na empresa, agregando valor ao process produtivo. "Pressoes de natureza diversa, diz Eliezer, fi- zeram a Vale desistir da localizaqao ideal para a fdbrica. "Por razoes de politi- ca estadual construiu-se em Bar- carena". A Alcoa, concorrente da Albras, foi mesmo para Sao Luis. A entrevistadora deveria ter for- cado Eliezer a revelar os bastido- res da 6poca, ja que enquanto agia em relagao a metalirgica de aluminio para instala-la em Be- 16m, contra os criterios t6cnicos e economicos, o governor federal decidia fazer o escoamento da produgao de min6rio de ferro pelo Maranhao, colocando, nes- te caso, os arguments econ6mi- cos acima da pressao political. A reconstituigao do process deci- s6rio nesses dois casos ajudaria a esclarecer o modo de proceder do prussiano governor do general Ernesto Geisel e suas aliancas com os politicos e o capital. Nessa 6poca intensificava-se a influ6ncia political do governor fe- deral dentro da estatal. Foi por causa dessa pressao que a empre- sa construiu a Valesul (outra fa- brica de aluminio) no Rio de Ja- neiro e fez investimentos em fer- ro-liga. Mesmo a assinatura dos contratos de gestao livrou a CVRD da camisa-de-forga na qual Eliezer garante que ela foi nimtida cada vez mais a S pa'rtir de 1986 (peri- 0 odo da Nova Repii- *Ilica de Jos6 Sar- ney), simplesmen- te porque o gover- no nao respeitava os terms desses contratos. A partir desse moment Elie- zer parece ter- Sse incorporado definitivamente ao process de privatizagdo da empresa, mas no rumo da intensificagdo da parce- ria com os japoneses, por ele ini- ciada quando foi president da Vale, entire 1961 e 1964, deslo- cando de dentro da empresa a in- fluencia americana (que agora es- taria de volta?). O resultado do leilao de venda do control acio- nario da estatal deve ter causado alguma surpresa a Eliezer, que certamentre estara tentando recu- perar posicao da nova configura- p9o da empresa. Pena que agora estejamos tao a distancia desses bastidores. Quando Eliezer Baptista falara sobre este moment tao impor- tante, se algum dia falar? Os ho- mens que fazem a hist6ria com consci6ncia do que fazem, mas como personagens dotados de importancia incomum, sao mais tentados a usar as informag6es que det6m como bem pessoal do que como patrim6nio coletivo. Por isso, deve-se aproveitar os moments em que, descontraidos, vao al6m de suas estrat6gias e partilham informag6es exclusi- vas, mesmo que elas sejam miga- lhas e estejam misturadas com a poeira do tempo. * Fim de direito No pr6ximo dia 8 o pre- feito Edmilson Rodrigues perdera o direito de proces- sar 0 Liberal por crime pre- visto na chamada Lei de Im- prensa. Foi nesse dia que o journal publicou noticia di- zendo que o prefeito de Be- 16m havia agredido Leandro Borges, que se declarava li- der comunitario no conjun- to Raimundo Jinkings, uma das invas6es da periferia da cidade (ver Jornal Pessoal n 159). 0 prefeito, exercen- do o direito de resposta, es- creveu uma carta argumen- tando que a informagdo era falsa, mas o journal se recu- sou a publica-la. Edmilson anunciou que recorreria a via judicial. A96es em em nome dele, de sua irma, Edilene Rodri- gues, do secretario de edu- cac;o, Luiz Arafjo, e da pre- sidente da Fundag9o da Me- renda Escolar, Ana Concei- cao Oliveira, que se consi- deraram tambem atingidos pelo journal, foram prepara- das pelo advogado (e depu- tado federal pelo PT de Sao Paulo) Luiz Eduardo Gree- nhalgh, mas nao foram ajui- zadas at6 hoje. Se nao derem entrada at6 o dia 8, tres me- ses ap6s a publicacao da no- ticia, ao menos em relagao a Lei de Imprensa decaira o direito do prefeito. Talvez seja uma maneira de tomar iniciativa atraves da inercia. NImeros da Vale Em oito anos, entire 1989 e 1996, a Companhia Vale do Rio Doce deu 3,3 bilh6es de d6lares de lucro liquid (em valores hist6ricos, sem correg o), uma media annual de US$ 400 milh6es, distri- buindo US$ 800 milh6es em dividends. Nesse period, investiu US$ 3 bilh6es s6 cor aplicagao de seus acio- nistas, quase sem alterar o seu grau de endividamento. Para uma empresa priva- da e mais ainda, para uma estatal 6 desempenho no- tavel. Esses ntimeros estao no iltimo balango da CVRD como estatal. Estarao no pr6ximo, da empresa priva- tizada? Salvagdo necessaria Njo e porquc a Companhia Vale do Rio Doce lof prn- vattzada (por enquanto. ainda a tirulo precar'o) que o go- \erno dca se desintcrcssar pela integrdade das areas de protecio ecologica no cntorno da pro\ incia funeral e pelo proprio nucleo da mineraa.ii sob o domnio da cnipre- sa Emni priniro lugar ha unia pindcdcia judicial que pode resultar na dle'olui'o integral ao poder public dos 4 11 mil que foram concedidos pelo Sinado a CVRD Em se- giundo lugar ha o rclxc ante ntcrcsse social em preservar aquela beissina composiio ambiental do padrdo de de- vastai;.,o que existed ao redor E urma felicidade que o con- uinto de fauna e flora tenha podido sobrcvvler a aridez da paisagem mineradora. Daremos uma diemonstraqSi~ de Intelihgncia umpedindo que a predatio alnji oa coraiao de Carajas qualquer quc seja o seu pretexto Saida salvadora Pode at6 nao ter havido mesmo um acordo compuls6rio entire o governor do Estado e o PT, mas o resultado da CPI que deveria ter sido instalada para apurar a depredacgo da sede da Assembleia Legislativa acabou agradando aos dois lados. A Comissao Parlamentar de Inqu6rito foi atingida de morte por uma preliminary suscitada pelo deputado petista Ze Carlos: o nao preenchimento do interregno regimental entire a propositura e a instalagao. A instaladao o deputado compareceu, mas a questao de ordem era procedente: um vacilo (ou um erro intencional) tornou a CPI formalmente imprestavel. Mas os rigores do formalismo s6 sao atendidos quando isso interessa a maio- ria e, ao que parece, foi o que aconteceu. A intencgo poli- tica da CPI, por tras de seus objetivos oficiais (de defender a integridade do poder legislative), era obter a cabega de um deputado do PT que ja estava at6 escolhida: seria a de Jose Geraldo, acusado de comandar os atos de vandalism. Mas para chegar at6 esse alvo desejavel, o governor teria que se expor ao risco do depoimento do ex-chefe da Agio Social Integrada do Palacio do Governo, Jos6 Augusto Pon- tes de Moraes, o Juba. Conforme o Jornal Pessoal noti- ciou com exclusividade (ver edigio 161), Juba se recusou a participar do esquema official de ocupacgo da Assembleia, que'serviu de estopim para as agress6es a sede do legislati- ve, e por isso deixou o cargo. Convocado para depor na CPI, Juba teria que decidir: desmentir a noticia (e rejeita-la significaria negar a verda- de), desgastando-se depois de um ato de dignidade, ou con- firmar o que aconteceu, deixando mal o governor. A questao de ordem levantada pelo deputado Z6 Carlos foi a salvagdo para os dois lados postos diante do desgastante confront, subitamente ampliado para atingir tamb6m a bancada go- vernista. Menos, naturalmente, para os que diziam defen- der a dignidade do poder e para os que, no fundo, queriam uma cabeqa para cassar. Prevaleceu a acomodacgo ou seja, fez-se novamente a regra no poder legislative. Journal Pessoal Editor Lucio Flavio Pinto Redae&o: Passagem Bolonha, 60-B I 66 053-020 Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Try. Benjamin Constant. 845/203 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail. lucio@expert com.br Edllora;&o de arte: Luizpe / 241-1859 Como de regra O Reporter 70, de 0 Liberal, nao corrigiu, como deveria, um erro cometido na nota principal publicada no dia 24, induzindo um erro grave na hist6ria brasileira. 0 journal diz que o editorial "Basta", do Correio da Manha, do Rio de Janeiro (ja desaparecido), foi contra o president Getilio Vargas. Na verdade, o epis6dio ocorreu 10 anos depois: na ocasido, aquele que foi o mais important journal da Repiiblica considerava exaurido o governor do president Jodo Goulart, filho spiritual de Gettilio. No dia 1 de abril de 1964 veio outro petardo letal cor o editorial "Fora", que funcionou como senha para os militares, cor apoio popular, afastarem do cargo o president constitutional do pais. Mas ja no dia 2 o grande journal percebia os primeiros sinais de perigo e comegava a critical o regime military em estabelecimento, atraindo sua fdria. Nao tendo se preparado administrativamente para enfrentar o boicote desencadeado pelo governor Castelo Branco, o Correio da Manha (onde trabalhei como reporter) acabou morrendo melancolicamente. Melanc6lico, em outra dimensao, foi o erro de informagao do Rep6rter 70, nio retificado, como de praxe naquele journal, contumaz maltratador da hist6ria. Ao contrario do que havia anunciado, acabo lancando o n6mero regular do JP desta quinzena. E para nao perder tema que envelheceria a es- pera da volta da viagem. Es- pero que a produgao de afo- gadilho nao afete a qualida- de desta edigao. |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 25 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |