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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00112

Full Text


A ressaca

Journal Pessoal Va
L 0 C I 0 F L A V I O P I N T O (peg. 3)
Quem control
A D2a imprensa?
POLITICAL LPAS. 6)


Ojogo dos caciques K

Almir Gabriel faz o elogio dejarbas Passarinho. Helio Gueiroir'2pra .
armadilhaspara Almir Gabriel. 0 eleitor de 1994 vai ser surpreeidhi
pelos esquemas de dispute que estco sendo montadospara 1998. Tudo se
embaralha para que tudo continue sempre igual. E opovo esquece.


Q ue tal Almir Gabriel e
Jarbas Passarinho de
um lado e Helio Guei-
ros do outro lado na dis-
puta eleitoral do pr6xi-
mo ano? Ou Helio e Jader reunidos
contra Almir? Seria a complete in-
versdo do que aconteceu em 1994,
mas hoje essas hip6teses deixaram de
ser um mero delirio. Assim ter sido
ha muito tempo na political paraen-
se: hi poucos tragos de continuidade
entire uma e outra eleigao. E como
se, a cada nova eleigao, ocorresse
como num jogo de baralho, em que
as cartas sdo reembaralhadas aleato-
riamente e, de prefer6ncia, o mais
desconexamente possivel.
31: a?
K d J1>
A5^^~^T^^T


Esse eterno recomegar da politi-
ca paraense parece resultar de dois
components basicos: enquanto a
massa do povo (diluida por alta
taxa migrat6ria, com grande disper-
sdo territorial) nao tem conscien-
cia do process hist6rico do qual
faz parte, as elites nao tem qualquer
projeto para o Estado ou, se o
conceberam em algum moment,
ele acabou se reduzindo a tomar e
manter o poder. A desmem6ria de
uma parte ajuda a manipulagao de
outra.
i por isso que, na semana passa-
da, dois movimentos do jogo de po-
der passaram quase a margem do
conhecimento public, mas poden-


do ter causado mais uma perplexi-
dade aos que os registraram.
No comego da semana o senador
Jader Barbalho ocupou integralmen-
te os 20 minutes reservados pelo
TRE ao PMDB na televised para
fazer uma espdcie de previa do lan-
gamento de sua possivel candidatu-
ra ao governor do Estado no pr6xi-
mo ano. Nem o pr6prio senador
deve saber ao certo o que disputara
em 1998 ou mesmo se participara
dessa dispute (tem assegurados mais
quatro anos de mandate a partir de
entao). Mas achou necessario fazer
uma reserve de lugar.
No final da semana o governador
Almir Gabriel compareceu ao M


A ESPANCA NO CAMU (g A


I







2 JOURNAL PESSOAL2" QUINZENA DE MAIO / 1997


S encontro regional do PPB e fez
o elogio do adversario que tanto fus-
tigou na eleigdo de 1994, o ex-go-
vernador Jarbas Passarinho, a quem
conseguiu derrotar no segundo tur-
no. Passarinho foi atacado em duas
frentes: pela via informal, foi real-
cado seu passado de associagdo ao
regime military; pela via direta, os
marqueteiros de Almir chegaram a
questioner sua reconhecida hones-
tidade pessoal relacionando-o ao
tristemente famoso muro (o "muri-
nho") da penitenciaria de Santa Iza-
bel, o mais caro da hist6ria do pais.
Talvez Passarinho nao chegue a
assumir publicamente a alianga com
seu adversario (tratado em familiar
como detrator), mas seu silencio
avaliza o aprofundamento da rela-
9do entire o PPB e o governador. No
pronunciamento do final de sema-
na, Almir Gabriel destacou o "apoio
desinteressado" do PPB a sua admi-
nistragdo e garantiu que vai procu-
rar mant6-lo at6 a eleigdo. O PPB
tem 20% das cadeiras da Assem-
bl6ia Legislativa e (o que 6 ainda
mais interessante) uma estrutura
partidaria no interior, em condi95es
de ser usada pelo metafisico PSDB
se ele nao puder mais contar cor a
fungco de abre-alas interiorano de-
sempenhada pelo PFL em 1994, e
tamb6m para se contrapor ao
PMDB, ainda o principal partido
estadual.
O senador Jader Barbalho usou
linguagem de palanque no precioso
horario de televised para ressusci-
tar o governoro do "trabalho", o slo-
gan mais forte da campanha de
1990, em oposigdo ao tambem res-
suscitado governoro da preguiga",
a marca que teria passado de Hl6io
Gueiros para Almir Gabriel. Mais
uma vez o ex-governador aposta na
desmem6ria do povo para criar um
sentiment de nostalgia diante de
uma realidade de desesperanga em
relagdo ao governor atual, farto na re-
t6rica e escasso nas realizag6es.
Ate entdo Jader vinha sendo mais
ambiguo. A hip6tese de um acordo
cor Almir Gabriel parecia mais vi-
avel do que a alternative do rompi-
mento em fungdo de duas variaveis:
a obtengqo de um ministerio no go-
verno Fernando Henrique Cardoso
e a aprovagao da emenda da reelei-
9do em todos os niveis.


O ministerio de Jader (pendente
de criagao), do Desenvolvimento
Regional, inviabilizou-se. A reelei-
9ao dos governadores em condic6es
id6nticas as do president devera
definir-se nos pr6ximos dias. De-
pendendo do empenho de FHC, po-
dera ser confirmada. Se a pressao
dos senadores conseguir escapar as
amarras presidenciais, sera exclui-
da do texto em tramitagao.
O problema do PMDB, o de sem-
pre, 6 que ele s6 tem Jader Barba-
Iho para as disputes majoritarias.
Nao haveria nenhum motivador para
o ex-governador se antecipar em
1998 a uma necessidade que s6 pre-
cisaria ser posta em 2002 senao a
da preservagao de seu poder.
Ele sabe que, sendo ou nao can-
didato, sera um tema de campanha
e seu reduto sofrerd as consequen-
cias de mais quatro anos de deterio-
raydo. Podera voltar no pr6ximo se-
culo cor imagem realmente reno-
vada? Este ganho compensara todas
as perdas decorrentes de seu deslo-
camento para o piano federal? Es-
capara ao que aconteceu corn Lau-
ro Sodr6 e Jarbas Passarinho?
Na duvida, o senador optou por
antecipar o movimento de sua pega
no tabuleiro completando-a corn
uma reunido com a bancada estadu-
al, na qual anunciou que sera can-
didato ao governor e que podera rom-
per corn o governador. Quem qui-
ser que interpreted sua aparigdo na te-
levisdo como o pr6-langamento de
sua candidatura ao governor. O que
ele quer 6 que considered essa hi-
p6tese, reavivando os trunfos que
poderia usar (nenhuma novidade,
mas eles ja deram resultados no pas-
sado). Jader estara disposto a en-
frentar Almir Gabriel se ele puder
concorrer a reeleigdo sem precisar
deixar o cargo de governador?
Por enquanto, ao que parece, ne-
nhum dos adversarios em potential
do governador parece considerar ne-
cessirio tratar dessa questao. I mais
16gico esperar que o Senado a re-
solva para s6 entao reagir a ela como
um fato consumado, inclusive por
ser uma complete novidade no pro-
cesso eleitoral brasileiro. Mas pare-
ce que apenas dois grupos mante-
rdo suas pretensbes em qualquer si-
tuagao: o PT e o senador Ademir
Andrade. Ambos, riao por mera co-


incidencia, ja foram selecionados
pessoalmente pelo governador Al-
mir Gabriel como seus adversaries
preferenciais.
Para o PT paraense a participaco
na eleicgo com candidatura pr6pria
ainda parece ter a forca de dogma,
eliminado do horizonte de algumas
sec6es estaduais do partido. Para
1998 o PT ter a vice-prefeita de
Belem, Ana Julia Carepa, e os se-
cretarios municipals Valdir Ganzer
e Luis Araujo, conforme as opq6es
de suas varias correntes internal.
Todas elas irdo defender dos resul-
tados que a administraqco Edmilson
Rodrigues obtiver at6 a eleicgo. Se
tivesse que escolher pessoalmente,
o prefeito segundo algumas fon-
tes penderia para o lado do seu se-
cretario de educagco. Mas uma an-
dorinha, por maior que seja a sua au-
tonomia de v6o, nao -faz verdo no
t6rrido cenario petista.
Em relagao ao senador Ademir
Andrade, a inc6gnita esta em saber
se ele dispora de f6lego ($$$) para
montar uma maquina pr6pria de pro-
duqgo de votos, a semelhanga do que
fez Jader Barbalho em 1990 (cor a
diferenga, fundamental, de que Ja-
der ja havia sido governador). Sem
essa estrutura, a eleicgo de 1998
acabara sendo uma tribune para o
senador do PSB propagandear sua
candidatura para quatro anos depois,
mas ja quase descartando o grande
sonho de ser governador do Para.
Neste espectro de hip6teses como
se insere o ex-governador Helio
Gueiros? Oriundo de matriz seme-
lhante a de Jader, Gueiros tem se
preocupado em dar sinais de vida.
O principal incide sobre o PFL: o ex-
alcaide nao aceita o atual sistema de
troca, por favorecer apenas o ex-
governador Alacid Nunes. Um even-
tual apoio a Almir teria que resultar
em compensac6es muito maiores do
que as recebidas por Alacid, ou des-
cambar para um rompimento.
E essa a 16gica do movimento li-
derado pelos deputados federais Vic
Pires Franco e Raimundo Santos,
que querem deslocar Alacid do co-
mando do PFL e indicar ao deputa-
do Luiz Otavio Campos, president
da Assembleia Legislativa, a porta
da rua se ele mantiver como de-
vera fazer a lealdade a Almir Ga-
briel.









O PFL sofre do mesmo problema
vivido pelo PMDB: que outro can-
didato, alem de Helio Gueiros, po-
deria se apresentar para a eleicgo
majoritaria? Qual a composicao
melhor para os interesses desse gru-
po em uma eventualidade de nao
poder apresentar concorrente a al-
tura da busca da reeleigdo por Al-
mir Gabriel?
Se as coisas nao sairem bem, o
PFL ja ter a partitura para ler: e uma
mfisica que se apresenta como opo-
sicionista, recortando contra um
fundo de imbilidade no present um
passado de realizacoes (fantasia que
uma ma administrago do PT torna-
ra mais audivel para o eleitor caren-
te de fosfato mental).
O governador sabe que sua segu-
ranca funda-se na extensao, para a
eleicgo de governador, das mesmas
regras eleitorais para a presid6ncia
da Republica. Como, porem, ficara
a ponderacao de forcas se a reelei-
cgo passar, mas o obrigar a se de-
sincompatibilizar do cargo? Mas se
isso ocorrer, Helio Gueiros nao con-
tara com seu grande trunfo (o filho
como vice-governador) porque tam-
bem Helio Gueiros Jr. teria que se
desincompatibilizar para o pai sair
candidate. Surgiria ent.o a possibi-
lidade, aparentemente impensavel,
de uma alian9a tatica cor o arqui-
inimigo Jader Barbalho, no dobra-
dinha que multiplicaria os rendi-
mentos de seus carismas, asolando
seus efeitos negatives?
Caso se abram perspectives para
tres, quatro ou cinco candidaturas ao
governor, haveria mais equilibrio na
dispute e o que nao passaria de aven-
tura poderia se transformar em ris-
co calculado. Esse pode ser o cal-
culo de risco que politicos como
Jader Barbalho e Helio Gueiros es-
tdo fazendo.
O tabuleiro, portanto, ainda tern
poucos movimentos consumados.
Mas os primeiros que ja aparecem
mostram que, como das outras ve-
zes, os inimigos de ontem tornam-
se os amigos de hoje e vice-versa,
conforme os riscos se apresentam
para os que simplesmente querem
continuar a deter o poder, mesmo
que o tenham, assumido com a pro-
messa de usa-lo para mudar um Es-
tado aniquilado por esse inico modo
de fazer a political. *


Ssensa;ao pos-pritattzaqio da
Companhia Vale do Rio Doce
"L3_U; a de illll ressaca N.t:-s m1o-
mcnitos nfao a razdo a midlhor fonic
de inforima 5io. ma? a inipressio, o
instinct, a miuttiio V'ndo. no dia se-
guintc. o empresario Benjamin Stein-
brich ser incensado pela grande im-
prensa e posar de p!ai'"!ot comlerti-
do \elo a mininha inioia'lirl a linaL~'le
d& Bab\ Ptgnaiar,
Nas ddcadas de 5ti a 7u Piignatar.
foi construindo a unarein de un enm-
preendedor que saira do ra'rniiPm
dourado para aam lidade responsatel.
criatia. inovadora Acabou entrcgan-
do ad:i gcncral Geisel a Caraiba Nlc-
tais. inm ntucI que nos i ustou. por b;u-
x\o I eqiuiallcntc a 5t iN mllells dj
dolarcs. consol;dando a nossa depen-
d.nicia das mlportai;cs de cobre
A dit:renga. talker. scja dc que en-
quanto por tras dc Pigintarn' so ha\ ta
o proprio PIgntar.r. agoIra temos a
sensaqio de que urna loni.a sombra
escura sc projcla por tras do perfil dc
Stcinbruch O liado ima is its\cl des-
sa somnbra e quc elc substitui unma
muilinacional brasileira coinandada
pelo Esrado (crnaiio dc uina faccta
modernzadora do nosso inevita el
patrimonialismno estatal) por urma
cmprcsa faniihar. se acreditamos na
hist6ria official
Sc desccndnimos de So Tomi, al-
goz da fe reilaosa e ascnidcnte do
cxpcrunenialhs mo scientific. a corpo-
raio familiar que nos assust:a en-
quanto regrcssiio na orgamizai'ao em--
presarial. apenas umna moldura den-
tro da qual a tela ainda nao fol colo-
cada Mas qual ser'a a tela' Steinbnu-
ch. quando muito. no ambientc car-
naxalesco em que o leldao de privnti-
zaioo da Vale acabou se transtbfman-
do. serai apenas o abre-alas da coulis-
sdo-de-frentc
A dor que fica latejando na cabeqa
nesse dajy-ai,- e de que fizemos al-
gunma coisa de nmito errado no cni-
balo do porre ci\.co semrdo a naoaio
por nosso augusto president. Apesar
do esforgo de reconstituriS o do que
aconteceu ao unpulso dos 'vapores eti-
licos neoliberais, prova\clmenitc so
teremos uma complete noqio do que
praticamos quando. jA a razdo aluan-
do sobre mformaq6es completes, a
remissao ter-se-a tornado impossivel.
Nao propriamente por ser iacei-


tavel a pnratizacao. mas pelo ipo de
pri\atiza;o que o gocmrno praticou
Sc a esmagadora rmaoria dos critics
da \cnda da CVRD tce uni compor-
tanmento ditado por orienttadIo Idco-
logica. tambimbn fini macI;amente ide-
oli6gic o argnumento dos que concL-
beram e consumnaram o ato A \ale c
especial o bastante para rio se aco-
modar no niodelo de praii atzaqiio.
se.la ele qualqucr dos modclos, Id.i-
lizados c c'xcutados em todo o mnim-
do ate auora
Ncnhuin go\erno pri\atzou unia
rmultliacional. inulto imentos unla em-
presa estrategica. que no scu atl\o
lem comalo comiponlence mais precco-
so o patrimonto logisuco Dc forma
negal\a. o Brasil iio\ou por com-
pleto e pensa qiue cuimprm um r.cct-
tuarlo rotinetro Deivou de entrecar
dirertamente ato scnl povo una multli-
nacional que Ihe pertencia indireta-
inente (e pela problemainca \ia da
soci:dade political permitindo que
cada eidadJlo arrenmatasse pedaois de
parttcip.io acioniana dc unmi a gian-
te (que. uceses parinietros icaria eni
tLnm:ilho l usto
Por isso. o discurso pragmatic e tc-
nico dos pnratrzadores toniou-se t(io
ideologico quanto o do PC do B. o que
nuis ~. destacou rn a trincheiras (quan-
do o compare principal foi ou deverna
ter sidr: dc ;stado-nmior. preparatoino
para o confront aberto).
Ou seja falou ao pats a duimns'io
hist6rica do proprno ato Se nao fti
supinainente maquia\'clico. nosso
presidcnte pecou no que deTeria ser
scu maior bern professional a com-
preens5o do context. \Vat arder nas
chamas da sociologia para sempre.
amda que brilhe nos retraros oficiais
Sc a priaulzaq~o era o que de me-
Ihor o Brasil poderia fazer coim a
Vale o dia da ressaca nos insmua que
nio reazannos a methor pnmaizaq5o.
que cedemos espaqo estrategico a
uma combinaqo de esperteza & es-
peculaqIo e que perdemos um dos
melhores moments que a histona
nos concede para demonstrarmos
nossa competing cia como ci\ilizaqao
O Brasil que bateu, exultante. o mar-
teo da Bolsa de Valores do Rio de
Janeiro, transferindo o control da
Vale a um Pignatary globalizado e.
de si mesmo. o que tern prevalecido
nas horas decisivas: uma cancatura


0 leilao da Vale:

a hora da ressaca







4 JOURNAL PESSOAL2A QUINZENA DE MAIO / 1997


Universidade: triste campo


Minha primeira idea de unriver-
sidade quem a deu foi Miguel
de Unamuno. N~o cor sua fina
filosofia, porem: foi ao colocar-se di-
ante das tropas do general Franco, que
invadiam a Universidade de Salaman-
ca, uma das mais antigas e legendarias
do planet. O comandante da turba,
cujo nome a poeira do tempo se encar-
regou de varrer dos registros hist6ri-
cos, gritava: viva a morte. Unamuno re-
plicava: viva a inteligencia.
Seu corpo franzio foi apenas um
detalhe na invasao, que se consumou.
Mas seu gesto ficara para sempre na
mem6ria dos que encaram a universi-
dade, ate hoje, como o centro por ex-
celencia do saber contra a ignorincia,
da razao contra a barbaric, da civiliza-
cao contra a selvageria.
Minha mais recent image da uni-
versidade quem a proporcionou foi o
reitor da Universidade Federal do Para,
Marcos Ximenes. Colocando o en6rgi-
co (mas doce) Unamuno de cabega para
baixo, o musculoso reitor paraense cha-
mou a policia para o campus do Gua-
ma e saiu de la escoltado por agents
ninjas da Policia Federal, sob a cober-
tura de atiradores de elite e a prote9io
de soldados da tropa de-choque da PM.
Nem quando percorri o campus da Uni-
versidade da Col6mbia, numa Bogota
sob sitio, deparei com cena tao pateti-
ca, tao melanc6lica e tao infitil.
Situa95es invertidas: o que deve-
ria ser o reduto da intelig8ncia trans-
formou-se num p6lo de barbarie. In-
capazes de dialogar e definir a vit6-
ria pela hegemonia das id6ias, os con-
tendores acabaram sancionando -
voluntaria ou involuntariamente o
uso do poder categ6rico das armas.
E o pior s6 nao ocorreu porque o cen-
turiao (no caso, o coronel Magela),
sob um relampejar de bom senso,
conseguiu arrancar a formalizagao de
uma tregua ate a pr6xima batalha


de batalha



campal, ja que nem esse elementary
principio belico era respeitado.
Que triste espetaculo nos tnm pro-
porcionado esses guerreiros neol6gicos
de uma Itarar6 academica. Nem nos rin-
gues parlamentares ocorreu uma tal de-
monstragao de selvageria e obscuran-
tismo. E como se a Universidade do
Para tivesse renunciado ao discerni-
mento e se houvesse transformado na-
quela academia de simios descrita por
Franz Kafka numa amarga e, como
sempre, just novela sobre o irracio-
nalismo (mais at6: o absurdo).
A hegemonia que o legado do pen-
samento transmite como patrim6nio as
universidades humanizadas no mundo
inteiro 6 de que a hegemonia deve fun-
dar-se sobre o convencimento, no em-
bate de ideias e programs. Mas os gla-
diadores do Guama s6 conseguem con-
ceber a hegemonia como o produto de
um golpe de mao, de um coup d'dtat
malapartiano.
Nao vislumbram reforms e revolu-
56es como realizac6es de base, induzi-
veis por pregag6es que podem come-
car em desertos de homes, mas tnm a
possibilidade de alcangar a planicie
social. Nao: s6 depois de conquistar um
aparelho de Estado e que poderao rea-
lizar seus projetos. Por isso, a eleigao
de um reitor passou a ser uma fonte de
ferocidade canina.
As elites da UFPA criaram um mons-
tro e perderam a capacidade de domes-
tica-lo. Essa entidade monstruosa teve
uma origem remota ate decent, plan-
tada no combat ao centralismo auto-
ritario de uma institui9ao de ensino que
comegou no Brasil com atraso de um
seculo em relagao ao restante do conti-
nente e ate hoje nao se livrou do rango
autoritario, radicalizado sob os gover-
nos militares.
O igualitarismo ja era um anacronis-
mo quando esgrimido, no inicio da de-
cada de 70, mas desempenhava a no-
bre fungao de escudo, servindo de pon-
te para a recuperacao da autonomia
universitaria. No caso da UFPA, a par-
tir dos anos 80, o igualitarismo inte-
gral tornou-se uma moeda de troca,
usada conforme as conveniencias do
mercado. Permitiu a execugao de um
projeto de dominio da universidade a
partir de uma elite compact, sedimen-


tada (literalmente) em torno do Nucleo
de Geofisica e Geoci8ncias, e de um
fisiologismo de esquerda cor ligag6es
extra-muros.
Diga-se, em favor dessa elite de ge6-
logos e engenheiros, que ela demons-
trou competencia. Nao por obra do aca-
so, Jose Seixas Louren9o, que esta na
origem desse projeto (concebido ainda
na Alemanha, por onde passou essa ge-
rag~o na consolidacgo de suas carreiras,
sob a inspiragao de um prussianismo
esclarecido inovador, antitdeico nos seus
termss, 6 hoje um dos maiores nomes
do establishment cientifico, muito mais
ativo nos bastidores da ciencia do que
na sua produgao intellectual.

ourengo foi sagrado reitor por
Brasilia mesmo sendo o segundo
da lista e nao houve problema nas
bases. Nilson Pinto conquistou o 10
lugar e Brasilia nao atrapalhou. Mar-
cos Ximenes, na primeira eleigao uni-
versal, repetiu o sucesso sem maiores
complicagoes porque elementos-chave
da oposicao continuaram a ser obsequi-
ados cor funq9es (e salaries) na ad-
ministragao.
Mas Ximenes enfrentou um period
recessivo e nao teve criatividade (ou
competencia) para ajustar a universida-
de a fase das vacas magras, sofrendo
um desajuste agravado por seu cacoete
autoritario. Acrescentam os mais pr6-
ximos que a auto-suficiencia do reitor
ou a inexperi8ncia do seu candidate (ou
as duas coisas juntas) fizeram-nos dis-
pensar ou ignorar os ajustes pr6-elei-
torais realizados nas tres bem-sucedi-
das eleig6es anteriores, o que teria con-
tribuido para acirrar ainda mais os ini-
mos contestat6rios.
As manobras golpistas da oposicgo,
desenvolvidas em tomo da deliberada
ambigiidade da consult a comunida-
de, foram possibilitadas pela expecta-
tiva golpista do reitor. Qualquer que







JOURNAL PESSOAL -2- QUINZENA DE MAIO / 1997 5


fosse o resultado, Ximenes estava se-
guro de confirmar o seu candidate (ain-
da que ele pudesse nao ser o vencedor
nas trEs formas de consult feitas) gra-
gas ao poderoso lobby de seu grupo em
Brasilia.
Todos iriam usar a tal consulta-elei-
qao como o cadaver que serve de es-
tandarte aos movimentos de massa,
cada um dos grupos com prop6sitos
opostos.
Enfrentaram-se, assim, uma concep-
cao exclusivista de poder e uma prati-
ca oposicionista de tipo leninista (ou
jesuitica, para lembrarmos o famoso
confront entire Settembrini e Leo Na-
phta em A Montanha MAgica, de Tho-
mas Mann).
A democracia e a condicao univer-
sitaria teriam que sair cor escoriaq6es
generalizadas desse confront, que
transformou o process de escolha do
principal administrator da universida-
de em epicentro de um abalo fatal da
instituicao, como se esse moment,
mesmo send um dos principals, fosse
tudo ou fosse o principal.
Vivemos uma fase primaria de popu-
lismo, na qual o argument sofisticado,
o pleno desenvolvimento do raciocinio,
a consistencia das ideias e o saber cons-
truido com m6todo sao deixados de lado
(e mesmo vetados) porque a plateia nao
quer nada disso, ou, se algum dia vier a
deseja-lo, este nao e o moment. Vive-
se um nivelamento por baixo, como se


o crit6rio da verdade nos campi nao fos-
se o saber e s6 o saber.

Apolitica dentro da universida-
de nao pode ser praticada da
mesma maneira como e sancio-
nada fora dos seus muros, o que a im-
pediria de desempenhar seu papel es-
pecifico na vida social. E saudavel que
para ser politico bastem condi9oes
iguais a todos, mas os que frequentam
a universidade passaram por uma sele-
cdo previa, de acordo com crit6rios dis-
tintos. Os mais rigorosos foram apli-
cados em relagao a professors e pes-
quisadores, nao sem motivagdo. E que
a razao de ser da universidade 6 o ensi-
no e a pesquisa. Esta 6 sua atividade-
fim. O resto, apesar das distorgies cris-
talizadas, e atividade-meio.
O corpo docente ter o peso de 70%
pode ser exagerado, mas a ponderadao
esti em algum lugar al6m da metade,
em algum ponto acima da media que
assegure o prevalecimento do que e fim
sobre o que 6 meio na instituicgo uni-
versitaria.
Os estudantes podem afastar profes-
sores das salas de aula demonstrando
que eles nao sao capazes e participar
de inuimeros movimentos para interfe-
rir na vida acad8mica. Mas a delega-
pco de poderes e a representatividade
sao elements indescartaveis de uma
comunidade baseada na excelencia, a
ser dirigida pelos melhores dentre os


que nela transmitem o saber da huma-
nidade.
Nao pode o debate na universidade
ser definido em decibeis, na ousadia
de liderangas, na agressividade das
vanguardas, no sedutor argument fa-
cil ou resultar de efeitos desencadea-
dos a partir de uma teia de arranjos e
compromissos estabelecidos extra-
muros, segundo objetivos ultra(ou
sub)-saber.
Uma ma administragao possibilitou
que a UFPA fosse conduzida ao dificil
impasse em que se encontra. Uma pes-
sima elite oposicionista se alimenta
desse caos como um organism anae-
r6bio, que nao precisa da oxigenacao
da inteligencia para viver. Pelo contra-
rio, viceja no irracionalismo, fazendo
dele a catapulta para projetar seus pla-
nos golpistas e colocar mediocres em
posic6es que, pelos criterios de sele-
cao academica, eles jamais poderiam
ocupar.
Nas lamentaveis cenas que a univer-
sidade proporcionou a opinion publi-
ca, o mais triste 6 verificar que um
Unamuno redivivo e nacionalizado, ao
inves de enfrentar a legiao armada fas-
cista, teria que proclamar o prevaleci-
mento da intelig8ncia diante de sua pr6-
pria comunidade universitaria, ende-
moniada pelo fascinio do poder a qual-
quer custo e para qualquer fim um
triste fim para uma institui9go a qual o
saber de um povo foi confiado. *


A palavra do secretario


SsecretArio de Seguranca Publica,
Paulo Sette Cimara, volta a sustentar
que a culpa pelo erro cometido pela
policia no epis6dio sangrento de Eldorado de
CarajAs "recai sobre os ombros do
comandante da operacao", o coronel MArio
Pantoja, jA punido administrativamente (e atd
hoje em obsequioso silencio). E o que diz o
secretArio em carta que me enviou,
reproduzida a seguir na integra:

"Em homenagem a voc6 (permita-me tratd-
lo assim), a sua forma de fazer jornalismo e a
importincia de sua opiniao pessoal, gostaria de
tecer rapidas considerac6es em torno do artigo
'A lei de Eldorado', inserida na ediIao da 1a
quinzena de Maio do Jornal Pessoal.
Voce estA convict de que o Comandante da
PM e o Secretario de Seguranga foram 'inca-
pazes de avaliar o risco que o envio de tropa
armada exclusivamente cor fuzis e metralha-
doras oferece a uma operaqao de repressdo de
massa ndo merecem permanecer em seus car-
gos'. Mas nao 6 bem assim.
Veja, LUcio, a decisao do que fazer, cabe a
mim. Uma rodovia cor o movimento daquele,
nao pode ficar interrompida, pois nao ha alter-
nativa para a grande circulacio de veiculos (6ni-
bus, cargas, carros, etc.). Sua desobstrucIo se
fazia necessaria e a ordem absolutamente legal
foi por mim dada, recomendando a repeticao do


que havia sido feito no dia anterior, advertindo
para a importancia do acompanhamento da ope-
racao pela imprensa. Ao Comandante Geral da
PM, cabia definir quem deveria dar-lhe cum-
primento e optou pela maior autoridade da PM
na Area. A este, cabia decidir o como dar cum-
primento A missao. Este depend de circunstan-
cias que s6 o comandante do 'teatro de opera-
qbes' pode avaliar. A ele compete definir o efe-
tivo, o armamento, a disposiCao da tropa, a con-
veniencia e a oportunidade de dar inicio A aClo
e pode, at6 mesmo, suspender a operagao sem
que isso characterize desobediencia, desde que
haja justificativa para tal.
Finalmente, toda agao policial, por mais sim-
ples que aparente ser, oferece risco, pois em
ambos os casos estAo series humans. E 6bvio
esperar-se que os policiais nao cometam erros,
mas como medicos, juizes, etc., todos comete-
mos. Mas posso assegurar-lhe que no epis6dio
de Eldorado de Carajis, a responsabilidade pelo
erro da policia recai sobre os ombros do co-
mandante da operacao. E pelo erro dos mani-
festantes (embriagados pelas palavras de or-
dem e pelo dlcool, buscando um confront des-
necessdrio, pois jd haviam alcangado o que
queriam, a Macaxeira), recai sobre sua lide-
ranga local. Apesar disso, nada justifica os
mortos e feridos e apaga o emblematico epis6-
dio que nos atingiu a todos e que nIo pode nem
deve ser esquecido".


Sem questioner o m6rito das colocac6es
feitas pelo secretario, caberia pelo menos
fazer uma ponderago quanto aos critdrios
de repartilAo das responsabilidades pela ope-
raco policial executada em Eldorado.
O comandante do batalhao da PM em Ma-
raba saiu da cidade a frente de 106 homes.
O major Jose Maria de Oliveira saiu de Pa-
rauapebas com 65 homes. O official superi-
or comandava efetivamente as duas movi-
mentacges de tropa ou s6 aquela que estava
diretamente sob o seu comando? Na acgo, as
duas tropas deixaram a impressao de agirem
autonomamente, uma recuando ate o limited
do toleravel, a outra investindo sem esgotar
a fase suas6ria, precipitando as execug6es.
Se isso 6 verdade, entLo ambas obedeci-
am a um comando superior, executando, cada
uma A sua maneira, uma determinacgo ("de-
socupar a estrada de qualquer maneira") fei--
ta sem a devida analise das consequencias,
apesar de o comando da PM e o governor do
Estado por extensIo ter contado com um
adiamento de 24 horas A ordem inicial para
avaliar melhor um epis6dio, que, como re-
conhece o secretario, tornou-se emblemati-
co e nao pode, nem deve ser esquecido, nao
para ser remoido na mem6ria, mas para re-
ceber o esclarecimento satisfat6rio. Que ain-
da esta por ser dado.







6 JOURNAL PESSOAL2 QUINZENA DE MAIO / 1997


Um poder descontrolado


(Os meios de comunicado in
Sdustriais se beneficiam de
uma singular depravaCgo das
leis democraticas. Efetivamente, se
a televised e, por osmose, a impren-
sa, nao gozam, a priori, da liberda-
de de anunciar noticias falsas, nos-
sa legislagCo Ihes concede por ou-
tro lado o poder exorbitante de men-
tir por omissdo, censurando e vetan-
do aqueles que nao Ihes conv6m ou
possam prejudicar seus interesses.
O quarto poder e ainda e ade-
quado chama-lo assim 6 portanto
a unica de nossas instituig9es capaz
de funcionar fora de qualquer con-
trole democratic eficaz, ja que toda
critical independent dirigida contra
ele, toda solugdo alternative, perma-
necem desconhecidas do grande
public, simplesmente porque nao
t6m nenhuma chance de serem am-
plamente difundidas e, consequen-
temente, de atingirem este publico.
Fui buscar essa certeira reflexao
de Paul Virillo, um dos mais respei-
tados analistas atuais dos meios de
comunicagdo em todo o mundo,
quando mais um critic an6nimo me
formulou duas quest6es encadeadas:
eu s6 passed a atacar o grupo Libe-
ral quando os Maiorana teriam me
tirarado de la; e o fago at6 hoje como
uma questdo pessoal.
Claro que Paul Virillo nao veio
intencionalmente em meu socorro.
Sua reflexao, de 1993, feita em seu
penultimo livro, diz respeito a im-
prensa francesa e universal. Mas se
aplica como luva ao imp6rio que os
Maiorana estabeleceram nesta ter-
ra. A critical a atuaCdo dessa rede de
comunica~go nao pode ser circuns-
crita aos terms de uma idiossincra-
sia pessoal: e uma exig6ncia social,
uma condigao para a boa sauide po-
litica, um requisite da democracia.
Os fatos e as pessoas entram, se
mantem ou desaparecem do notici-
ario dos veiculos das Organizacges
Romulo Maiorana conforme os in-
teresses da corporacgo e nao de
acordo cor o fluir da realidade e as
exigencias da opinido public.
Tomemos um exemplar caso atu-
al como demonstraqgo. Ate que se
transformasse em prefeito eleito de
Bel6m, Edmilson Rodrigues sofreu


um sutil ou aberto boicote do grupo
Liberal, que apostava em Ramiro
Bentes. Entre a elei9go e a posse, a
cobertura tornou-se mais favoravel.
Nos primeiros dias da nova adminis-
traqdo, o tratamento foi generoso.
Mas quando a prefeitura questionou
um credit de 1,2 milhdo de reais da
corporagao junto a gestao anterior, o
nome do prefeito foi riscado do no-
ticiario e seu governor submetido a
tiroteio (dado a esmo em fungo da
incompet6ncia do grupo empresari-
al para praticar jornalismo estrito
senso). Agora a acidez comega a su-
avizar-se com a possibilidade de
composigdo entire as parties.
E o compromisso com a opiniao
public, onde fica nessas idas e vin-
das puramente (impuramente, seria
mais exato dizer) comerciais? Pode
uma empresa (ou qualquer institui-
9)o) transformar noticias em mer-
cadoria de neg6cio? Nao estardo fin-
cadas ai as raizes mais profundas do
estado de desinformagao, de inde-
fesa e de impot6ncia da sociedade
paraense?
Logo, a critical da midia, centra-
da no grupo Liberal em virtude de
seu excepcional dominio do merca-
do, esta muito long de ser um exer-
cicio pessoal. Ao contrario: seu in-
teresse social 6 excepcional, rele-
vante.

ara que a opiniao public nao
permanega inteiramente sub
metida a esse arbitrio (em lin-
guagem mais dura, em alguns casos
poder-se-ia ate falar em escroque-
ria), os senadores brasileiros pode-
riam imitar o que seus colegas fran-
ceses fizeram em novembro de
1992: transformar o desrespeito ao
direito de resposta por um veiculo
de comunicagao em delito, estabe-
lecendo a puniqgo decorrente desse
novo tipo de crime.
S6 assim o cidadao poderia inter-
vir eficazmente quando ultrajado
por atuaygo ou omissao (mentira ou
boicote) de 6rgdos de comunicag-o
como os do grupo Liberal, que nao
acatam o direito de resposta e des-
denham da via judicial, por sabe-
rem-na inalcangavel ou in6cua di-
ante de seu pr6prio poderio, usado


inescrupulosamente para esmagar
os que se atrevem a revelar'seus
metodos de a~go (por isso o desem-
bargador Benedito Alvarenga foi
inscrito no index do journal .

uanto a origem das critics,
tomo a liberdade de reprodu
zir um document que ates-
ta a natureza das relad9es profissio-
nais que mantive com o grupo Li-
beral durante os 14 anos que a ele
prestei servigos, tendo, nesse perio-
do, torado a iniciativa de dele me
desligar tr6s vezes por divergencia
com suas decis6es editorials.
Trata-se de uma carta que enviei
a Rosangela Maiorana Kzan, dire-
tora e uma das donas da empresa,
no dia 13 de novembro de 1988 (um
ano depois de ter lanpado este jor-
nal e quatro anos antes de nossa li-
tigancia judicial, por ela desencade-
ada), devido a um incident que ela
provocou ao intervir numa progra-
mango da TV Liberal antecipada-
mente acertada. Como fui obrigado
a juntar esse document aos autos
de uma das a6es por ela propostas
contra mim, essa carta particular
tornou-se public.
Ela talvez ajude meus critics -
an6nimos, mas, qupm sabe, de boa
fe a fazerem melhor juizo sobre
as motivag~es da perseguiCgo que
venho sofrendo ha quase cinco anos
(e ainda em curso, infelizmente, gra-
9as a venalidade de certos magistra-
dos e ao medo de varios outros).
Mostra que o exercicio da critical
nao significa a busca da destruig~o
do criticado e este pode ganhar com
a critical se ela for feita corn compe-
t6ncia e honestidade, ao inves de
anatematiza-la como pecado mortal.
Esta e a integra da carta dirigida
a diretora administrative da empre-
sa:
"Eu poderia fazer de conta que
nao tenho nada com isso, mas ndo 6
o meu estilo. A tua attitude de on-
tem, sabado, ter a ver comigo.
Aceitei participar dos programs
na televised porque, a dois dias da
data para realiza-lo, o Nelio [Palhe-
ta] insistiu para que eu aceitasse fa-
zer o 'A Palavra 6 Sua'. Ele nao ti-
nha outra pessoa em condi96es de







JOURNAL PESSOAL -2A QUINZENA DE MAIO / 1997 7


desempenhar a tarefa. E claro que
se voc6s nao me pagassem eu nao
iria, ao contrario de outras vezes.
Mas o dinheiro nao 6 tudo para mim.
A partir do moment em que, nas
circunstancias relatadas, eu passed
a fazer o program, voc6s tinham
obrigac6es comigo. Fazer o progra-
ma me custou muito, inclusive pe-
las restrig6es do 'Diario do Para'.
Tu sabes muito bem que, fosse ou-
tro o jornalista, dificilmente o pro-
grama poderia ser apresentado ao
publio sem a imagem de comprome-
timento cor a campanha Xerfan,
que infelizmente voc6s transmiti-
ram. Este 6 um detalhe important.
A indicacqo do [jornalista] Ronal-
do Brasiliense para participar do pro-
grama de ontem foi apresentada na
quarta-feira. O veto veio no exato
moment em que iamos para o estu-
dio. Houve tempo suficiente para
voc6s e os homes de confianga de
voc6s darem uma definico 'a partir
de cima', de cfipula. 'Desconvidar'
o Ronaldo na hora do program nao
e apenas descortesia ou grossura, mas
falta de respeito professional. Isto e
o que me atinge. Se durante tr6s dias
voc8s nao se manifestaram ou nao


tomaram conhecimento, 6 inadmis-
sivel que apenas na hora da grava-
c9o decidam interferir.

as duas, uma: ou voc6s deci
dem fazer jornalismo, com
todas as implicaqoes, ou es-
tabelecem regras bem claras sobre
a interfer6ncia que voces vdo fazer
em cima do trabalho dos outros.
Com essas regras bem claras jorna-
listas como eu podem decidir se
aceitam ou nao convites como o que
o Nelio me fez. O que nao pode e
voc6s inventarem e reinventarem as
regras, conforme as mudancas de
temperament de voc6s. Afinal, um
program como 'A Palavra 6 Sua'
nao envolve apenas os nomes e as
indiossincrasias de voc6s. Ha pro-
fissionais no meio e profissionais
gostam de ser respeitados.
Interfer6ncias ha em todas as em-
presas jornalisticas. A Globo nao
vetou durante tanto tempo o Caeta-
no [Veloso] ou o Saturnino [Braga]?
S6 que eu acho que ha tambem a
necessidade de padres profissio-
nais serem adotados. Se voc6 nao
soube ou nao p6de interferir na pro-
ducdo do program para eliminar


um desafeto, nao pode atropelar o
respeito a outras pessoas para 'des-
convidar' o Ronaldo. So aceitei fa-
zer o program em consideragdo ao
Nelio e aos outros tres convidados.
Meu constrangimento foi tanto que
eu simplemente nao faria o progra-
ma em outra circunstancia. E nao
farei mais isso, o que me leva a sus-
pender minhas participag6es na TV
Liberal.
Ja disse varias vezes a ti e ja es-
crevi isso no meu journal que o gru-
po Liberal regrediu adotando essa
forma de participagao na campanha
Xerfan. Quem poderia ajudar a em-
presa a chegar a um ponto de equi-
librio entire seu legitimo desejo de
tomar parte no process eleitoral e
a necessidade de manter seu padrao
professional, omitiu-se ou agiu com
oportunismo. Deixou ou levou o
grupo a entrar incondicionalmente
e desajeitadamente na campanha
como cabo electoral. Este ato trara
sequelas no future, sem representar
qualquer vantage para a empresa.
Mas esta e outra hist6ria. O que eu
queria mesmo era registrar minha
indignacgo com a situacgo de saba-
do e transmiti-la a vocF". 0


Um modelo roto


resuime-sc quI o cdi-
L tor Gengi. Freire
entroU numn neilocN
noniial de quase ( mt-I
1h6es de reats para se tor-
nar o dono do titulo de ram
lornal com 121 anos de
\ida .-1 P vtl1Ii U d-' Pii r-'
Lten atras de st unia Insto-
ria que Ihe deu tradtiio a
de ser o "lornal da fannlia
paraensc". Naio e por LIu-
tro mnotivo que scu logoti-
po e o fitco ainda em es-
Lilo gotico da grande ini-
prensa paraenseo
Mas hia algum tempo A
PrI)inci.i \eni sendo o jor-
nal mais scnsacionalisla do
mercado Quase metade da
capa da edi;ao do dia 7.
por exemnplo. fti ocupada
pela fotorrafia de gimeas
que nasceram coni uina


unica cabe~a. was morrt.-
ram! logo Num lornal de
circlnlaV o ceral. a foto era
chocainte pClo tamianhio.
pdla unitdez. pelo trataincn-
to editorial
Os response is pela dc-
cisio que colocon cssa toto
na pruncira pagina aiegarao
que o material era exclusi-
\o c que a edicio daqucle
dia \-endiu muito Mas ha
tempos .4 Prnivuinti vCni co-
mctendo esses atos de etica
para la de duvidos a o jor-
nal contuiua a ser o de mce-
nor tiragem entire os trrs di-
arios. Neni como recurso de
markeung. ao que parece. a
iogada rende o que prome-
teinm a scus praticantes
0 sensacionalismio ree-
la o lado neero do ornalis-
nio, sua condri'io exclusi\a


dc negucio Ma.s ha os que
o cultr.am C o0s qun com C le
conseguemin succsso Os0 niil-
ores c\cnlplos sio os tabloi-
diL Ilondrinos. que .cindLm
conij atIua Nlas c Ls tim
amia pohlica edLtorial (inclu-
sive dc inestiinento) coe-
rentc corn seus diganio -
principlis (ou falte de) A
Proainia pretcnde chegar
aos incsmols iesultados agin-
do contraditoriiamente Ndo
tcnt conseguido Nio consec-
guira
Ncssc c:iaso. e melhor jo-
gar fora o logotipo gorIco.
esquecor a tradi do. cortar
o nimcro de paL2inas. dimi-
utir drasticamente o prego-
de capa e i\-estir numa hl-
nba editorial de apelo po-
pular Mas take os que se
disponlhain a entrar nesse


can3inho acabem secido
surprecndidoa pela cons-
tata'ao de que mesmo ir
por ai t LigC unia compe-
iLncia especifica que. atr
agora. teni falladu aos
mandarins da nmprensa c
scus factoides (tun Jos
poucos C'\cinplos citavx-cls
So do FIlash. dc lian Mla-
rianhulo)
Ha formulas de suces-
so. imas nio fonnulas n11111-
cas NlMsmo elas rLque-
recm inrcligincia para sc
ajustarin as condi'es
do mercado local aliii.
e claro, de unia boa doske
de anti-corpos C ncos .4
P'rovit'cia. para recou-
quistar sue lugar, poderia
fazer o que faz falta no
mcrcado inmestir na inte-
llg-tncia do jornalisnio









Margens invertidas
O poeta Bertold Brecht recomendava num
de seus poemas que, ao inves de condenarmos
um rio por ser turbulento, d6ssemos atencgo
as margens que o comprimem.
Pensei em um sentido exatamente inverso
ao desse poema quando li a noticia sobre a
decisao do juiz Julio Ayres, da 8' Vara Civel
de Sao Luis. Ele condenou o Banco do Brasil
a pagar 250 milhies de reais a um
comerciante que, sete anos antes, ajuizara
uma agao de indenizagdo equivalent a tres
salaries minimos pela devolugao indevida de
um cheque seu. Nao satisfeito, o juiz mandou
abrir a macarico o cofre do banco para a
retirada do dinheiro que 1a houvesse, no
cumprimento da decisao.
Candidamente, quando a noticia estourou
como bomba, chocando todo o pais, o juiz
explicou sua decisao atribuindo-a a um erro
de calculo (o valor supera o que sera gasto na
macrodrenagem das baixadas de Bel6m, o
maior investimento piblico ja feito nesta
cidade de 1,2 milhao de habitantes).
A complete sensaygo de impunidade em que
se acham acantonados muitos magistrados,
propiciada pelo corporativismo do judiciario,
e nao uma aritmetica alucinada, e que explica
essa manifestadao explicit de ma f6, audacia
e cinismo ou seja, ao contrario do poema
brechtiano, margens tao largas e permissivas
que tudo autorizam e coonestam.
O episodio e triste, mas muito mais
desastroso sera se para nada servir. Se o
judiciario nao estreitar as margens da tolerancia
ao erro e a venalidade, sera a hora de a nacao
estabelecer o control externo para expurgar de
vez do aparato judicial pessoas como esse juiz
Julio Ayres, que proliferam como ervas
daninhas no 6gao arbitral da sociedade.




Puxando conversa
O escrit6rio de advocacia do qual faz parte o
secretario estadual da Fazenda, Jorge Alex Athi
foi contratado pelas Organizagdes Romulo Mai
rana para tratar do credito que o grupo alega
junto a prefeitura de Belem, heranga ainda da g
tao H6lio Gueiros. A cobranga da divida, de 1,2 r
lhao de reais segundo o grupo Liberal, podera.
judicial ou administrative. Mas a ponte para ui
negociagao cor a prefeitura do PT, que question
o valor do debito, ja foi estabelecida..
A cobertura dada pelos veiculos da familiar M
orana a administragao de Edmilson Rodrigues
sofreu uma certa modulagao de tom para se ad
quar ao novo moment. Podera ir ao pianissimo
voltar ao estridente.


O servigo
pOblico
Deveria ser norma de
aplicapgo an6nima, mas
como trata-se de excecgo
no servigo public e reco-
mendavel registrar. De-
pois de ler o artigo "Hidro-
vias O Pard fica fora de
rota" (edicgo da a1 quin-
zena de abril), o superin-
tendente da Administra-
9Io das Hidrovias da
Amaz6nia Oriental, Anto-
nio Alberto Pequeno de
Barros, decidiu encami-
nhar-me o "Resumo Con-
solidado do Estudo de Al-
ternativas T6cnicas para a
Implantacqo da Hidrovia
dos Rios Tapaj6s/Teles
Pires".
O document mostraria,
no entendimento do supe-
Srintendente da Ahimor,
que "os dados t6cnicos es-
Sto todos devidamente es-
: tudados" e que ja estao
concluidas determinadas
atividades que asseguram
a viabilidade da hidrovia
em todo o seu percurso, de
1.043 quilometros, corn
um investimento de 140
milh6es de reais. Em seis
anos esse dinheiro retor-
naria ao investidor, garan-
Stindo a rentabilidade do
projeto, alem de sua evi-
dente significagdo social.
Para ser definida, po-
rem, a questao ainda de-
pende de mais avaliag6es,
que faremos em proxima
edigao, contando cor a
boa vontade da Ahimor.

ex-
as, Ironia
A Associacqo Nacional
ter
de Jornais e a Associagco
Mundial de Jornais (ANJ
,, Mundial de Jornais (ANJ


ser
na
na

ai-
Ja
le-
ou


e FIEJ) conceberam um
anuncio-padrao para assi-
nalar o "dia mundial da li-
berdade de expressao". As
frases do anuncio ("A li-
berdade e uma conquista"
e "Em 120 paises ainda
existem censura e repres-
sao a imprensa"), publica-
das no dia 3 em O Libe-
ral, soaram como auto-cri-
tica ou ironia.
Ao inves de ser vitima,
o journal e agent desses
delitos, censurando quem
o incomoda e reprimindo
a liberdade de seus leito-
res, cujo direito de respos-
ta desrespeitam e, de in-
formag o correta, igno-
ram. Cor esse comporta-
mento, O Liberal contri-
bui para colocar o Brasil
no lado-negro dessa rela-
C9o de 120 paises, cor
uma originalidade que fi-
cou fora de moda gragas
ao avango da consci6ncia
dos povos.
Quando pegaremos esse
trem?


Intervalo
No dia 1 de junho de-
verei estar em Veneza, na
Itilia, falando, no encon-
tro annual da Fondazione
Macondo, sobre minha
utopia pessoal na Amaz6-
nia. Depois, irei a outras
cidades, inclusive Milao,
onde deverei receber um
premio que o Corriere de-
lla Sera, o maior journal
italiano, confere todos os
anos a um jornalista sele-
cionado no mundo inteiro.
Por isso, o Jornal Pesso-
al nao circular na '1 quin-
zena de junho. Espero es-
tar a postos por aqui na 2"
quinzena.


Journal Pessoal


Editor. Ljcio Flavio Pinto
Redaqao: Passagem Bolonha, 60-B 166 053-020
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