|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Journal Pessoal r I I I I I A I .. r L M V I u P I N I O COBRE E nosso. Ganhamc Corn a decisao da Salobo de implantar todo o seu projeto de 1,5 dolares em Marabi, o maior em andamento no Brasil, comefa uma nova era para o Pard, ou trata-se de uma versdo SALO atualizada da historia dos grades projetos concebidos para a Amaz6nia na decada de 70? * O maior investimento pro- dutivo em andamento no pais, no valor de 1,5 bilhdo de d6lares, ficara em Ma- raba. no Para: e o comple- xo minero-metalurgico da Salobo Metais, uma associacao em par- tes iguais (50% x 50%) da Companhia Vale do Rio Doce e da multinational sul-africana Anglo American (com a possibilidade de ingresso do BNDES, gracas aos seus "direitos de participa- qCo"), que instalara em Carajas o mai- or p6lo de cobre do pais e um dos maiores do mundo. Na semana passada, o governador Almir Gabriel e dois diretores da em- presa assinaram, em Belem, um proto- colo de inten96es para implantar a .11 mina, a usina de concentra9ao de mi- nerio e a plant metalfrgica em Mara- ba, como queria o govero do Estado. Entusiasmado, o governador que con- vocou uma reuniio solene no Centur - anteviu uma nova era de investimentos para o Para. Olhando para tras, ele contabilizou cinco bilh6es de d6lares de aplicac6es recentes efetuadas em territ6rio para- ense, as ultimos das quais para a Alu- norte (US$ 850 milh6es) e duas fabri- cas de caulim (US$ 500 milh6es). No horizonte, alem da Salobo, outras cen- tenas de milh6es deverdo chegar ao Estado em uma nova onda de "grandes projetos". E muito e e quase nada. A Salobo movimentara seis vezes mais dinheiro do que a Volkswagen mobilizara para tornar realidade sua nova fabrica, que Sao Paulo e Rio de Janeiro tanto dis- putaram. Mas nao ha duvida de que o balango social desses mega-empreen- dimentos e altamente deficitario: eles concentram o capital, absorvem pouca mao-de-obra (porque recorrem a alta tecnologia), nao conseguem amenizar a desorganizacgo que acarretam, inter- nalizam apenas uma fragao da renda gerada e nao tem sido capazes de mul- tiplicar os efeitos de sua atividade, con- tribuindo ao contrario para solidifi- car rela96es de troca desfavoraveis a regiio. Nao escapam, por tudo isso, a condi~ao de enclaves. Cor as vantagens fiscais e tributa- rias que recebeu, a Salobo podera, - A OREAG DE BEe A SLA (Ag3) L J I j 2 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE MAIO / 1997 W num espaco de ate 15 ou mesmo 25 anos (dois tercos da vida fitil do pro- jeto), nao pagar qualquer tipo de im- posto ou so recolher metade do que Ihe caberia se fosse um neg6cio comum, sem os excepcionais incentives que recebeu. Contabilizados apenas os be- neficios para a implantagco (desconsi- derando, portanto, os ganhos operaci- onais), a contrapartida governmental poderi chegar a 7% ou 8% do investi- mento total. Numa apuragao fina, com- putados ate o ultimo dia de concessao, esses beneficios terao uma proporcio- nalidade superior. Ja no discurso que fez durante a so- lenidade de assinatura do protocolo, o goverador Almir Gabriel procurou res- guardar-se dos critics, apontados como os eternos pessimists. Estados que atra- iram investimentos menores deram fa- vorecimentos muito mais significativos do que o Para. E uma verdade, mas nio toda a verdade. Em outros casos nao houve, a rigor, competicgo: os projetos eram implantados no Para porque nao havia outra alternative, em fungao da natureza da atividade (na maioria das vezes, mineradora). No caso da Salobo, por6m, existia a altemativa maranhense (e, dentro do ter- rit6rio paraense, a hip6tese de Paraua- pebas). Nio era um leque tio numeroso quanto nas disputes no Centro-Sul do pais ou mesmo no Nordeste. Mas o Es- tado precisou compensar a vantagem natural do Maranhao. Essa compensa- cqo foi dada na exata media dos gan- hos que a Salobo Metais teria se deci- disse instalar a metalurgia em Rosario? O protocolo nao responded a essa per- gunta, nem as duas parties ajudaram a opiniao piblica a se esclarecer a res- peito, embora haja a refer6ncia ao li- mite de 75 milh6es de reais como a soma de todos os beneficios e vanta- gens oficiais. O document, por6m, nao traz um anexo com a demonstra- cqo e detalhamento dos valores e at6 estabelece clausula restritiva para sua divulgagdo no future, impondo-lhe confidencialidade. As vantagens concedidas nao foram quantificadas, tarefa que os deputados, se ainda conseguirem lembrar-se de que constituem um poder aut6nomo e paralelo ao executive, poderao desem- penhar quando, nos pr6ximos 90 dias, receberem os projetos-de-lei (em regi- me de urg8ncia, naturalmente) que con- solidarao os compromissos assumidos pelo governor. A definigco de Maraba como o local da usina metalurgica (e de todo o pro- cesso produtivo, da mineragao a trans- formagao industrial, embora em tres pontos distintos do seu territ6rio) foi uma vit6ria de todos os que se aplica- ram na luta em favor dessa hip6tese, desde o ex-prefeito Haroldo Bezerra, passando pelo atual, Geraldo Veloso, ate o governador Almir Gabriel, que fez dessa definigao um cavalo de batalha. O resultado favoravel, entretanto, nao significa aceitar mansa e pacifica- mente os terms do protocolo de in- teng6es e nao fazer marola para nao ameacar o barco de naufragio. O bar- co, alias, ja tem ameagas suficientes no texto do protocolo. Ele admite o rom- pimento do compromisso com a loca- lizaqgo da fabrica se importantes con- trapartidas do Estado nao forem cum- pridas, com a garantia complementary de que, na eventualidade de problems, o governor tenha que financial os pre- juizos sofridos pela empresa. Algumas dessas contrapartidas nao sdo onerosas, embora envolvam um custo institutional pesado, como a de incluir a empresa "dentro do sistema de seguranca publica, mesmo sendo uma instalacgo particular. Mas outros servings sao custosos e de execug9o exigente (e com cronograma apertado), como o sistema de transmissao de ener- gia em alta tensao para um consume de 175 mil kw, do porte de Belem fora dos piques, a ser pago por uma tarifa m6dia inicial ja fixada. Pinoquiadas II O lornal 0 Lihira/l prestaria am valioso scervico a opmnio piu- blica paracnse se divulgasse mals dados ou franiqueasse a cousulia a intcgra da pesqui- sa que divulgou no mIIs pas- sado, atestando o domntio absolute que exerce sobre a unprensa escrita no Estado Infornim 6es unportantes fo- ram sonegadas na inatena do lornal. rnpossibilitando um examn complete da influen- cia do Jornalhsmo impresso sobre a sociedadc paraense. Mas tomando-se os nume- ros disponi\ci s da pesquisa do Ibope e adicionando-lhics os cdads apurados pelo IVC. o Imsttuto que ~\Lnica a cr- culaiao do Jornal. dcduz-se que a soma das tiragens dos concorrerits dainos de O Li- hbcal, este cor umia iragerm media dc 45 mil exemplares (a de doinulo e as dt da a sabado ponderadi inacrcdita\cis 2 5Tii plares, sendo I 500 rhi di Poa a e 1 000 d vi'cit tih Para Tambem por Lxt serin possMel conch este Jornal Pessoa 2 300 exiemplares. a da publicaqco pein6 lragem que cireula n tal paraense. o que si A prefeitura de Maraba tera que ar- car com encargos ainda mais pesados para suas disponibilidades, sem poder contar com um rendimento compativel de seus impostos (ISS e IPTU), princi- palmente para tender o nucleo residen- cial que sera construido. Alem disso, o aniuncio do projeto, que pretend absor- ver de 3 mil a 5 mil trabalhadores no canteiro de obras, vai gerar uma migra- cao que acarretara obrigagces adicionais para a administracTo municipal. Pode-se apontar em favor do enten- dimento entire o governor e a empresa que ele e inedito em relacgo aos gran- des projetos. Embora Boa parte dos compromissos assumidos pela Salobo nao passe de imposig6es legais ou ope- racionais que a empresa adotaria, sem qualquer contribui~go especial, ela se disp6e a realizar beneficios que atd entao nao constavam da pauta desses mega-projetos, como a devolugdo de alojamentos ja inserviveis ou lotes nao usados, e de participar dos esforgos para a verticalizacgo de suas ativida- des (mas condicionando esses esforgos a seus interesses estrategicos, nao de- clarados ainda). Por outro lado, entretanto, os primei- ros grandes projetos idealizados na d6cada de 70 assumiam inteiramente a montagem da infraestrutura que iriam utilizar, incluindo-a no custo de im- plantagao e buscando o retorno atraves da receita operacional. Agora os recur- sos publicos sAo desviados para se con- centrarem nesses projetos, uma pratica iniciada cor a Albras que, no caso do cobre, se ampliou e se formalizou por inteiro. Como a hist6ria desse mais novo mastodonte esta apenas se inici- ando, 20 anos depois da identificaggo das jazidas do minerio na mina do Sa- lobo 3/A, ainda ha tempo para conta- la melhor, desde que as cabegas nao sejam anestesiadas por um triunfalis- mo oco, nem caiam num pessimismo niilista (dois estados de espirito, alias, que o govemo costuma induzir). * se'un- titulo fornmidail. se pudes- as). dc se ser xerdadc- e se os nuine- Sccm- ros dc 0) Liberal njo fo;scmi do 1/ ji- 1um errLfico sinet do mnioio- . A Prn- pol.o da forniaqio da opi- mio nesLe infcliz Estado c.tnsao. Sera que niI'gueim rI.ac. Itr quI ao iieinos para e \rcitar unma I. corn analise mais aprofundada c segun- consequent do que pern~le lica em fazer o siimulacro de resuno a capi- divulgado pelo joonrilio dos ena um Maiorana' JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE MAIO / 1997 3 Macrodrenagem das baixadas sobrevive e vai em frente governor do Estado conseguiu, enfim, salvar o Programa de Macrodrenagem das Baixadas de Belem, no valor de 225 milh6es de d6lares, o maior executado em muitos anos na capital paraense e um dos prin- cipais em curso nas grandes cidades brasileiras. 0 Banco Interamericano de Desenvolvimento, responsavel por dois tercos dos recursos, concordou com a reprogramaqao fisica e financeira do projeto, que s6 executou 30% do que estava previsto e esta atrasado mais de dois anos em relaiao ao cronograma original. 0 BID vai dar um prazo de nove meses para que o governor cumpra as novas metas que forem estabelecidas. Com base na execuqdo feita nesse pe- riodo, indicando o comprometimento da administrator piblica corn o proje- to, acertara uma prorrogaqao mais ex- tensa para a finalizagao do empreendi- mento, que podera ser feita em pouco mais de um ano. Dos US$ 225 milh6es previstos ini- cialmente, foram aplicados, a partir do inicio do projeto, em 1993, apenas US$ 48 milh6es, sendo US$ 25 milh6es do Estado e US$ 23 milh6es do BID. Os atrasos nas contrapartidas estaduais re- tardaram as liberag6es do banco e s6 agora o governor conseguiu compor as fontes para fechar os US$ 55 milh6es que ainda precisara aportar a fim de receber, ja a parir do final do mes, US$ 122 milh6es do banco interamericano (a major parcela, de US$ 25 milh6es, vira do BNDES). A busca das nova fontes foi prece- dida por duas iniciativas: o afastamen- to do antigo consultor privado e a re- discussao de precos corn os empreitei- ros. A Rede Engenharia, influence nos bastidores dos governor de Jader Bar- balho e Carlos Santos, acabou aceitan- do retirar-se do projeto (corn indeni- zagdo de 1,2 milhao de reais), sub-ro- gando os direitos a Leme Engenharia, que cumprira o restante do servigo. Assim, o govemo afastou um persona- gem que, simbolicamente falando, po- deria funcionar como um cavalo de Tr6oia, na 6tica do atual govemo (6tica nada favoravel em relacao ao anteces- sor). A outra providEncia foi a revisao dos custos originals do projeto. A suspeita de superfaturamento dos orqamentos, no entanto, nao se con- firmou: o valor estabelecido ainda na administracao Jader Barbalho mante- ve-se inalterado. A conquista do gover- no nessa revisao foi convencer os em- preiteiros a abrir mao do reajustamen- to de precos a que teriam direito por causa dos atrasos, aditando o contrato sem o acrescimo desse 6nus. Refeito e aprovado o novo crono- grama fisico-financeiro, que permiti- ra a retomada plena do projeto na pr6- xima semana, ha ainda dois compli- cadores pela frente. Os t6cnicos acham que sera inviavel executar integral- mente a diretriz do projeto de assen- tar os remanejados das areas de ma- crodrenagem em locais distantes, no maximo, 1,5 quil6metro de suas mo- radias originals. Esta seria a novidade do projeto: nao permitir que ele se tor- nasse uma simples forma de expulsao de moradores de baixa renda de areas valorizadas pelas obras de engenharia. Mas os tecnicos nao encontram mais areas disponiveis para a relocacao nes- ses terms. U m outro problema e a participa rao da prefeitura de Belem. Ela esta prevista no projeto, mas o entao prefeito H6lio Gueiros nao se in- teressou em ocupar esse lugar, fiel a ideia (ou idiossincrasia) de jamais ser co-autor quando nao pode ser o dono da festa. Ja Edmilson Rodrigues, do PT (em relacgo ao qual o governador nao difarga sua aversao), vem tentando se instalar nesse espago. Ate agora, as complicag6es da re- discussao com o BID eram a justifi- cativa para postergar essa questao. Mas agora ela vai se avivar. Uma re- cusa aberta enfraqueceria a posicao do Estado junto ao BID, que encara fa- voravelmente uma presenga maior e mais ativa da prefeitura, conforme o pr6prio projeto. Nao havendo mais arguments tdc- nicos, sobrarao as motivag6es political, mesmo se elas nao vierem a ser forma- lizadas, caso a sutil mas renitente - resistincia, determinada diretamente a partir do gabinete do governador, se mantiver. Ao que tudo indica, agora que con- seguiu recriar a crianga, de invejavel poder mercadol6gico, o governador Almir Gabriel nao quer dividir-lhe a paternidade, ainda que nem seja o pai natural, mas o padrasto segundo ele, certamente, porem, o mais preparado para a criagdo. Sem mist6rio Desfez-se o misterio: a Se- cretaria Municipal de Assun- tos Juridicos tern uma frota de 24 veiculos porque a Guarda Municipal esta a ela subordinada, gragas ao pro- jeto original de D. Milton Nobre, o primeiro e etemo - comandante-em-chefe da guard. Os carros e motoci- cletas nao sao usados na tra- mitagdo internal dos proces- sos, como ironicamente aqui se sugeriu (Jornal Pessoal n 160), mas nas atividades dos guards municipals. Tamanho do home 0 governador Almir Ga- briel tinha todo o direito de ser a favor ou contra a pri- vativagao da Companhia Vale do Rio Doce. Mas, au- toridade maxima do Estado mais afetado da federacao por essa mudanga, s6 nao poderia era ter permanecido omisso, calado. Municiou assim a versao de que sua attitude tem um motivador: os 30 dinheiros. 12b cuLLLLki 0 procurador-geral de jusnrt A I ulOel SCalino Naisciniento Jiliior idz uliolar a cauehla dte excltur-.%' da upre'ctaiao de que.st&es as quals esltea ligIda ckua espo.wU, ca aumtbhd procuradora Luzia Nivadja Guinrdures NAscuimento, uprecitada/s pelo Cotnselho Superior do A !imslkno Publico. Da miesmna inaneira, elk declara-se imnpeddai de tilhLr em e qif.esers< atCil atio Inaridlo, evanYhdo que ,. Ju)s f('aml valer vi tvla'co matrimonitil it coi'eg(idot' c de sCe m nivtbros., elicnteLcne' Oil moranlente crifici e/. conmo ob.servou este journal Iet sua cdechedo aterior. 4 JOURNAL PESSOAL1 QUINZENA DE MAIO / 1997 Do principle certo N enhum intellectual nao s6 no Brasil, mas no mundo inteiro teve uma missao tao important quanto a que Fernando Henrique Cardoso recebeu ao assu- mir a presidencia da Reptblica brasi- leira, em 1994. comandando um dos paises mais extensos, mais populosos e mais ricos do planet mas tambem o mais injusto. E lamentavel constatar que a camada intellectual, national e in- ternacional, que inevitavelmente corn ele sera julgada, tenha dado tao pouca atenado a gestao de FHC e a ele pr6- prio em particular. O primeiro livro especifico sobre Fernando Henrique foi escrito por um estrangeiro, a jornalista francesa Bri- gitte Hersant Leoni, atualmente no Bra- sil a servi9o da BBC de Londres. "Fer- nando Henrique Cardoso O Brasil do Possivel" (Editora Nova Fronteira, 360 paginas, R$ 27) poderia ser recebido quase como uma biografia autorizada, ou ate ser acusado de ser o trabalho nio-assumido de uma ghost-writer co- locando sob o seu nome o que o bio- grafado gostaria de ter dito a seu pr6- prio respeito, sem cair na armadilha da autobiografia. O livro assemelha-se as biografias intelectuais cor as quais Getulio Var- gas foi mimoseado no period do Es- tado Novo (1937/45): trabalhos escri- tos cor aparente autonomia por inte- lectuais, alguns de respeito (como Aze- vedo Amaral e Oliveira Viana), mas que equilibravam-se entire a avaliaqao supostamente independent e o desla- vado panegirico. O ditador era o prin- cipe reformista ou o d6spota esclareci- do, cuja ausencia ja era lamentada, em 1930, por Octavio Faria (entao um jo- vem fen6meno) O livro de Brigitte apresenta-se como "perfil biografico", no qual a reconsti- tuiglo da vida de FHC serve de susten- taglo a defesa de uma tese: ele venceu "porque estava intelectualmente certo e tambem porque soube fazer com que as verdades que sua analise Ihe revelava pe- netrassem em um meio politico em ple- na recomposicao e portanto atento". A trajet6ria political de Fernando Henrique seria "a continuacao 16gica de uma s6rie de acontecimentos e de en- contros que o levaram literalmente a presid8ncia, como se ele estivesse de alguma forma predestinado a essa fun- gao". sustenta Brigitte. "A universida- de fez dele um home public. A di- tadura, um politico, e a democracia, um presidenciavel". Ao final desse percurso, Fernando Henrique seria o unico brasileiro em condic6es de conduzir o pais ao limited do possivel. Nem vai alem, nem aceita permanecer aquem dessa possibilida- de sancionada pela hist6ria. Livra o Brasil das duas principals pragas, a in- justica e o autoritarismo, que o impe- dem de se modernizar, concretizando assim potential de grandeza geopoliti- camente pr6-determinado, e garantin- do a melhoria das condic6es de vida do seu povo. Nenhum outro home pfiblico esta em condic6es de cumprir essa missao superior, assegura a bi6grafa, pois a inteligencia, que o consagrou como in- telectual, fez do politico, que ele deci- diu ser, um estadista: "O mundo mu- dou, e Fernando Henrique mudou corn ele, mas defended sempre os mesmos valores. Os valores da democracia e da justica para todos". Muitos intelectuais torceriam o na- riz para o livro a simples formulaiao dessa tese. Garantiriam com isso a pla- titude de suas segurangas, mas nao atenderiam uma necessidade social que precisa ser satisfeita com rigor de preferEncia em nivel superior ao da jor- nalista francesa. N ao ha dfivida de que FHC 6 um intellectual brilhante. Ao con- trario de Jos6 Sarney, um be- letrista a moda antiga, o produto de sua inteligencia ter atestado de qualidade e foi gerado na aplicaiao do raciocinio ao entendimento do pais (e nao usando a cultural como moeda de troca, a maneira de Jos6 de Ribamar). Mesmo quando ja era politico, em 1981, Fernando Henri- que foi convidado por Michel Foulcault para 11 aulas no Coll6ge de France, em Paris, e em 1985, quando era apenas se- nador, recebeu o Premio Juca Pato como intellectuall do ano". "A bagagem te6rica sera um trun- fo?", indaga Ignacy Sachs, o criador do ecodesenvolvimento. Cor isto esta perguntando se os que se aplicaram ao maximo em compreender e interpreter a realidade de acordo corn m6todos ci- entificos sao os mais autorizados a modifica-la, uma formulagao de Karl Marx no s6culo passado que ele pro- prio nao conseguiu resolver. Ha motives para crer que Fernando Henrique Cardoso utilizou na plenitu- de sua privilegiada intelig6ncia num projeto puramente intellectual (primei- ro aplicado a escravidao, em seguida ao desenvolvimento e, por fim, ao au- toritarismo). Ele poderia ter-se torna- do politico ja na primeira maturidade, quando acompanhou o pai e o tio, am- bos generals (em uma familiar de tradi- cao military em campanhas eleitorais (por mandate politico) ou civicas (pelo monop6lio estatal do petr6leo, que, iro- nicamente, iria quebrar quase cinco de- cadas depois). Mas tanto como estudante (aos 23 anos ja era representante dos ex-alunos no Conselho Universitario da USP) como professor (inteiramente a mar- gem dos acontecimentos de rua da Pa- ris revolucionaria de 1968), sempre manteve-se como academico. sem ou- tro compromisso se nao cor as conse- quencias de seu raciocinio. Foi bem preparado para isso. Era um dos lideres do celebre grupo de oito in- telectuais paulistas, todos de esquerda (alguns, depois, petistas), que se reu- niram, no final da d6cada de 50, para ler em conjunto 0 Capital, de Marx, quando o livro muito citado e pouco lido, raramente por inteiro ainda nao havia sido traduzido para o portugu8s. Foi uma das maiores contribuic6es in- telectuais dos "uspeanos", pondo fim a uma era de marxismo amador prati- cada na ex-capital da Reptiblica, o Rio de Janeiro. O primeiro livro, escrito aos 29 anos cor Octavio lanni (cor quem nunca mais conseguiu se reconciliar), 6 uma competent monografia; a tese de dou- torado, sobre a escravidao e o capita- lismo no Brasil Meridional, 6 um pri- mor de diretriz metodol6gica para bons aprendizes de sociologia. Mas, intelectualmente, a contribuigio definitive de Fernando Henrique foi a "teoria moderada da dependEncia", tal- vez produto mais de sua intuigio do que do seu racionalismo. Um exemplar de "Dependencia e Desenvolvimento na Am6rica Latina", que ele escreveu no exilio em parceria cor o sociblogo chi- leno Enzo Faletto, chegou-me as mios, em Sao Paulo, algumas semanas depois de ter sido langado no M6xico pela Si- glo XXI, em 1969. O impact foi enor- me ao final da leitura, onerada por um estilo dificil, duro (em contrast corn o fluente didatismo das exposi9oes orais do professor). JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE MAIO / 1997 5 ao povo errado Numa epoca de culto ao "foquismo" e exalta- cao da revolugao socia- lista como inica alter- nativa ao capitalism espoliador, Fernando. Henrique carregava nas cores do reformismo. Vinha cor uma visaio heterodoxa do process hist6rico, quebrava o bi- tolamento maniqueista reagao/capitalismo-re- volugdo/socialismo e aceitava o intemaciona- lismo como um desafio ao qual os subdesenvol- vidos poderiam sobre- viver e dele tirar vanta- gens, sem serem esma- gados pela subordina- 9ao a um polo hegem6- mico central. Ou seja: colocava um dos cravos fundamentals na teoria da moderizacao (ou do "possibilismo") que te- ria em Albert Hirsch- man o seu mais sistema- tico te6rico. O professor brasileiro deixava de ser um inte- lectual apenas do seu pais para ser uma fonte de refer6ncia continen- tal. Seus livros passaram a ter dezenas de edig6es em varias linguas e ele era chamado para encontros acad6micos em muitos paises. Mas Fernando Henrique decidiu trocar uma das mais privilegia- das posic6es acad8micas, na Cepal, no Chile (onde passou quatro anos), por um novo desafio: dar aulas em Nanterre, em Paris, a partir de 1967. Quando ja era professor respeitado na Franca, aceitou nova mudanga: voltar ao Brasil para dis- putar uma catedra na USP. Sua cassacao, em 1969, fechou-lhe a carreira em seu pais, mas, ao inv6s de ir para um exilio dourado na Euro- pa ou nos Estados Unidos, criou sua pr6pria said: participou da criacqo do Cebrap, o centro de estudo que foi a primeira reacao organizada dos intelec- tuais ao regime military. O Cebrap s6 se tornou possivel com uma dotaglo de 145 mil d6lares da Fundagao Ford, mas a Ford so resistiu a pressao dos milita- res porque seu representante no Brasil, Peter Bell, fez do Cebrap um projeto pessoal seu. ogo, seria desonesto dizer que o centro de estudos nio passava e ponta-de-lanca do imperialis- mo ianque, conforme o imutavel jar- gdo da esquerda. Afinal, Lenin s6 con- seguiu pular para a lideranga da revo- lugno comunista ja em andamento na Ruissia gragas ao sinal verde do gover- no alemao e nem por isso precede a acusagco de ser lacaio do kaiser. A his- t6ria 6 mais complicada do que a de- duzem, aplainando as ondulag9es de sua realidade, seus falsos cultores. O que Brigitte Leoni se empenha em demonstrar 6 a existancia de um fio condutor continue e coerente ao long da vida de FHC. Nao se espere dele a revolugao, que ele jamais prometeu fazer, nem acredita que seja necessa- ria. Oriundo da esquerda, ele se tornou um home de centro. Sua grande as- piragao 6 ser "o primeiro social-demo- crata da America Latina". Mas nao mu- dou ao ingressar na carreira political, ji aos 47 anos: seu pensamento havia mu- dado (ele diria "evoluido") quase 20 anos antes, quando s6 tinha projetos acadimicos, estudando o poder e nao o cobicando. Quando, no inicio da d6cada de 60, seus colegas de esquerda especializa- dos no estudo das relac6es entire o ca- pital e o trabalho optaram pelo opera- riado, ele escolheu os industrials, vin- do a tornar-se "o home da esquerda que compreende a direita". Aplicou sua capacidade a compreensao dos meca- nismos da reform. 'Ele nunca propo- ra a ruptura ou a revolug9o, e sim a con- ciliaclo e a negociacgo. A mudanca, para ele, s6 6 concebivel quando ins- crita nas estruturas existentes", escre- ve Brigitte. Foi cor esse projeto e nao com outro, que agora estaria traindo que Fernando Henrique Cardoso concor- reu ao senado, em 1982, e, aos 52 anos, passou a cumprir o seu primeiro mandate de senador. A carreira pode- ria ter sido interrompida pela desist6n- cia. como ocorreu com a maioria dos intelectuais que cruzou a linha divi- s6ria do mundo das ideias (e logo re- tornou aos gabinetes), ou pelos erros que cometeu. Os dois maiores, que permanecem como pontos nebulosos na fulgurante biografia escrita pela jornalista fran- cesa, sdo sua posiqco ambigua na cam- panha pelo estabelecimento das elei- 56es diretas em 1984 e os entendimen- tos que manteve com Fernando Collor de Mello para ser seu ministry do Ex- terior, em 1992. A primeira dama Ruth Cardoso admite que houve o interes- se, mas garante que se o marido esti- vesse mesmo convencido da conveni- 6ncia da proposta teria aceitado o car- go oferecido, sem submeter sua deci- sdo a terceiros. Brigitte avaliza a versao de que Fer- nando Henrique informou Mario Co- vas de que nao aceitava o cargo antes do PSDB finalmente decidir afastar-se de Collor. Covas parece nao ter julga- do important esclarecer que FHC se antecipara a decisdo partidaria, deixan- do a sugestdo de que fora obrigado a curvar-se a ela (um desencontro que explica o sutil desconforto que ate hoje persiste entire os dois). Mas, ao mesmo tempo que aprendeu corn seus erros, Fernando Henrique foi protegido pela sorte. Uma intervenqco de Leitao de Abreu (um dos mais efi- cientes ministros da justiCa do regime military) no Supremo Tribunal Fe- 6 JOURNAL PESSOALP QUINZENA DE MAIO / 1997 0 deral permitiu que ele se tornasse o primeiro cassado pelo AI-5 a concor- rer a uma eleigao, decisao que lhe deu divulgacgo gratuita, numa 6poca em que a propaganda eleitoral era limita- da (uma "benado dos c6us", diz a bi6- grafa, sem ir conferir a motivagao ce- lestial de Leitao de Abreu). Sem o aprendizado e os ventos alea- t6rios nao teria sobrevivido a acacha- pante derrota para Jinio Quadros na dispute pela prefeitura de Sao Paulo e a desastrada descrenga em piano anti- inflagdo do governor Sarney um dia an- tes da edicgo do Cruzado (que ainda ajudou FHC a reeleger-se senador). E strela tao luminosa, entretanto, nao ofusca os meritos especifi cos de Fernando Henrique na arte da political. "Ele tem um talent politico que nada tem a ver com seus talents intelectuais", dep6e Celso Fur- tado. Embora s6 tenha conseguido ele- ger-se senador gragas a sublegenda, sempre foi bem votado, sempre teve mais votos do que seus ex-companhei- ros de viagem petistas (cujo projeto de partido rejeitou desde o inicio, fundan- do um a sua imagem e semelhanga, o PSDB, em 1988) e chegou ao segundo lugar, atras de Mario Covas, cor 6 mi- lh6es de votos. Alcangou a presiden- cia cor a maior porcentagem de votos desde 1945 (54,3%, o dobro de Lula, o segundo colocado, derrotado ja no 1 turno. Claro que uma vit6ria tao esmaga- dora como essa foi possibilitada pelo Piano Real. Mas 6 bom nao esquecer que, antes, sete pianos nao haviam dado certo, no espaco de 10 anos, e que Lula apostara tratar-se de mais um arranjo electoral, como aquele em que o Cru- zado se transformara. O unico arranjo no Real, entretanto, foi cronol6gico: certamente seu lanaamento foi anteci- pado para favorecer o candidate da si- tuaqdo (bancado apenas por Itamar Franco e os economists do governor , que aceitara trocar o Itamaraty (ofere- cido pela primeira vez e recusado, apesar do glamour que exercia sobre o cogitado nove anos antes) pela Fa- zenda, mesmo sem que apreciasse o se- tor econ6mico. No mais, exibia uma engenharia econ6mica invejavel, mes- mo cor seus equivocos e desacertos. Assim como foi um erro reduzir o Real a um plano meramente politiquei- ro, e um erro definir Fernando Henri- que Cardoso como um titere do Con- senso de Washinton, um servo do neo- liberalismo ou qualquer outra etiqueta do aparato de fantoches. Ele 6 o me- Ihor quadro da elite brasileira aplicado a political em um projeto de reform para valer, que se destaca contra o pano de fundo do seu antecessor em emprei- tada equivalent, Fernando Collor de Mello. O comprometimento cor esse pro- jeto o fez proper em 1988 o mandate presidential de quatro anos, com ree- leigao (bem antes, portanto, de imagi- nar que poderia ser presidente, e o leva a enfrentar o medo de aviao em segui- das e longas viagens ao exterior, como ninguem antes dele realizou. Mas essa reform pode ser insufici- ente, mesmo se aplicada com rigor e honestidade, para dar conta do conjunto de dilaceramentos do pais mais injusto do globo terrestre, que nunca foi exa- tamente subdesenvolvido, mas misera- velmente explorado. E ou nao e essa reform tao profun- da quanto exige este pais de contras- tes, profundidade que requer de refor- mas a coragem e o compromisso com as consequincias das revoluq6es? A jomalista francesa busca assegurar que o limited do possivel 6 exatamente este ao qual chegou o president da Repu- blica e que ir al6m significa expor-se a retrocessos. Mas ela nao e um arbitro aceitavel dessa demarcacgo. eu livro e uma costura Altata costura", 6 certo, como se po- deria esperar de um francs) de depoimentos c uma montagem de in- formao6es nem sempre confiaveis (como as femininas, sempre anonimas: "ex-aluna", "uma amiga", ou "os ami- gos", "um jornalista"). Embora admi- re tanto o biografado, elogiando-lhe a coer8ncia intellectual, Brigitte so admit ter lido cinco dos 24 livros de Fernan- do Henrique, o que 6 um desfalque con- sideravel para quem faz afirmativas tdo categ6ricas sobre o pensamento do per- sonagem. Mas o livro de Brigitte Leoni ter um merito incontestavel: evidencia a lacuna aberta pela omissao dos intelectuais bra- sileiros diante de um moment tao grave da vida national. Esse vacuo tende a se alargar, at6, quem sabe, cristalizar de vez o fosso que separa esses mandarins da massa do povo, carente de sinaliza9oes sobre os duros tempos que esta vivendo, sem saber para onde eles o conduzem, sern atrair a atengao desses far6is inte- lectuais de nariz arrebitado, olhos glaci- ais e ouvidos inacessiveis. 0 Esperanga na policia ilvandro Furtado 6 o pri- meiro chefe da policia ci vil que assume o cargo to- mando decisao e decidindo so- bre quests essenciais da sua cor- porato. O primeiro ato do novo delegado-geral, que substituiu Brivaldo Soares, incompatibiliza- do com o secretario de Seguran- Ca Publica, Paulo Sette Cdmara, foi baixar uma incisiva e moder- nizadora instruio normativa. Em seus 19 artigos, essa ins- truco procura descentralizar a azao da policia, dando poder aos agents operacionais, mas ao mesmo tenpo impondo-lhes res- ponsabiliades correspondents, tudo corn concisio e clareza. As seccionais e delegacias de bairro passarao a ter plena autonomia, deixando de sobre- carregar a dirego central e as- sumindo todas as tarefas que lhes cabem. E media funda- mental para dar eficiencia a policia, onde vinha sendo fa- cil a pratica do corpo mole. Mas, al6m desse aspect cen- tral, a Instrum~o Nonnativa n" 1 do novo chefe de policia es- tabelece prAticas importantes: vO Unificaio da DIOE, a estrat6gica Divisao de Inves- tigag6es e Operac6es Especi- ais, em um s6 predio, corn to- dos os seus agregados. ;0 Treinamento e recicla- gem dos policiais. O( Mobilizacao de todo o pessoal qualificado nas ativi- dades-fim. O Reducao ao minimo da participagco de policiais em atividades burocraticas. O Responsabilizagao dos chefes por tudo o que fizerem seus subordinados. () Estimulo a especializa- 9do em areas prioritarias de apoio. O0 ReativagCo do delegado de ronda. t evidence que as orienta- c6es do chefe de policia s6 te- r~o resultado se ele dispuser de recursos financeiros e materi- ais para implantar as diretrizes que estabeleceu. A mesma so- ciedade que, com todos os motives, condena e repudia os atos de violencia da policia, no dia-a-dia ignora que melhorar a engrenagem policial 6 tarefa de todos e nao apenas dos in- tegrantes da corporagao. E que a execugio dessa tarefa ter um custo, inevitavelmente alto, a ser bancado pela coletividade. Sera uma pena que o mais bem preparado chefe de po- licia em muitos anos nao ve- nha a dispor dos meios ne- cessarios para enfrentar e tentar resolver os graves pro- blemas desse setor-chave da administraqao piblica. Um bor nome sera queimado e uma oportunidade rara des- perdigada se essa boa com- binacao nao acontecer. * JOURNAL PESSOAL -1P- QUINZENA DE MAIO / 1997 7 qualidade maior dos grades fot6- grafos e sua condigqo de invisibili- dade. Batem fotos como se nao es- tivessem ali. Sua ausincia e ainda um es- timulo para os models chegarem ao ul- trarrrealismo, tao radical que pode levar ao surrealismo, ou ao inconsciente. Mais do que olhos, bocas, orelhas ou bracos, os grandes fot6grafos fotografam a alma dos seus personagens, que se desnudam das mascaras sem perceber e ate sem querer. O mineiro Sebastido Salgado 6 dresses grandes fot6grafos. Uma exposiq~o sua, como a que foi exibida no mrs passado em Belem, e uma aula de humanidade, um teste de sensibilidade. Nao se trata apenas de um professional do flagrante, que, por pericia ou sorte, capta uma cena interes- sante, unica. Ele tem disso. Mas seu tra- balho C sistematico: Salgado vive seus cenarios varias vezes, vai e retoma para conferir, acompanha a evoluqao dos series que fotografa, esta com eles para enten- d&-los como sao de verdade. E os desco- bre nos lugares mais tipicos, desde o ser- tao escaldante ate um andaime de obra na grande cidade. Infelizmente, apesar da presence da rede Globo por tras da exposicao national que ele organizou em favor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, a mostra no Palacio Antonio Lemos foi prejudicada pelo boicote do grupo Liberal a prefeitura do PT. Menos gente do que seria recomen- davel soube do local da exposicio e p6de apreciar as fotos em tamanho de poster. A observago de algumas delas excede o que se pode aprender em sala de aula sobre a repldade esmagadora deste pais: SU Urna familiar (casal e 3 filhos) de Iretirantes abandon o campo, no Ce- ara, em 1983. Caminham por uma estra- da muito bem asfaltada e sinalizada. Ao lado, a terra esturricada pela seca, uma ter- ra que, com toda a propriedade, o poeta Eliot poderia chamar de desolada (ou de- vastada). Qual a serventia da estrada para essa gente? Pista de luxo para uma cami- n a ssem volta'? Crianqas brincando com ossos de H animals (Ceara, 1983). Um menino enfileira ossos na porta da casa, de tijolo cru. Um outro menino, de olhar perdido, e uma cabra, de olhar curioso, observam. Tern os animals mais vida do que as cri- ancas? (Nao tera sido por simples imagi- nadao que Graciliano Ramos fez da ca- chorra Baleia a grande personagem de "x4as Secas".) - Enterro em Juazeiro do Norte (Ce- aa, 1980). Uma pessoa e enterrada sem caixao em uma cova rasa. Quatro decadas atras, outros severinos quiseram morrer como cristaos, dentro de caixoes de madeira. Organizaram uma associacao para comprar os caix6es. Os donos do en- 0 olho invisivel N inguem, em sa consci- encia, pode acusar o go- vernador Almir Gabri- el de ter dado ordem a Policia Military para matar os sem-terra que obstruiam uma estrada es- tadual em Eldorado de Carajas, um ano atras. A biografia do go- vernador nao autoriza essa acu- sagdo. Mas o estilo autoritario do govemador o levou a orien- tar de uma forma tao desastra- da a PM que a morte seria uma consequ8ncia previsivel. A hip6tese mais favoravel ao govemador, de que os oficiais executores de suas ordens des- cumpriram-nas, deixando de adotar as cautelas recomenda- das e se excedendo em viol-n- cia na desobstrueo da estrada, s6 seria crivel se, alem da ime- diata punicio do chefe da ope- ragCo (que determinou), tives- se demitido os responsaveis maiores por ela (o que nao fez). Um comandante-geral da PM e um secretaio de Segu- ranga Publica incapazes de ava- liar o risco que o envio de tropa armada exclusivamente com fuzis e metralhadoras oferece a uma operac~o de repressao de massa nao merecem permane- cer em seus cargos. Todos viram, atravCs das imagens da televisao, que os policiais militares recuaram at6 um certo ponto, mas, quando precisaram (ou quiseram) avan- car, as finicas armas que tinham em maos eram as de fogo. A partir desse ponto, de compor- tamento elogiavel diante de cir- cunstancias desfavoraveis, os policiais se langaram a uma complete selvageria e, atraves dela, a execucbes sumarias. Cassetetes, escudos, bombas de gas lacrimogeneo ou caes, pre- cedidos de ostensivas manobras de intimidac o, fizeram falta. Todos sabiam que fariam, mas o governador e seu esque- ma pr6prio de informa6es ava- liaram erradamente o "teatro de operac6es", como se diz em lin- guagem de estado-maior. Acha- vam que sabiam mais do que os pr6prios personagens do dra- ma, embarando-lhes os papeis e lanqando-os em uma tragedia, literal. Ao punir apenas os stores do massacre, o govemador isentou os comandantes maiores de res- ponsabilidade por esses exces- sos. Mas nao conseguiu con- vencer as parcelas mais bem in- formadas da opinimo public de que esses chefes superiors nio tivessem a obrigaao funcional de saber que o que haviam de- sencadeado iria dar resultados muito diversos daqueles que, depois, diriam que esperavam. Seria como se, candidamente, tivessem ordenado a raposas que fossem vigiar ordeiramen- te o movimento de galinhas apetitosas. Cometeram, no mi- nimo, grosseiro erro de oficio. Ao agir de maneira tao para- doxal, o govemador estimulou os mais critics a supor que nao demitiu a ambos para obter de- les um silencio estratCgico. Contrariados, os dois chefes poderiam fomecer elements suficientes para cindir de vez a fragil explicaqo official dada a barbarie cometida em Eldora- do de Carajas. E, ao preceder os atos que marcaram o 1 ano do epis6dio, com a concessio de foro privilegiado para o co- mandante da PM para efeitos penais (os civis foram esqueci- dos ou deixados de lado), o govemador reforgou a descon- fianga de que a lei mais aplica- daemrelacgo aessahist6riatra- gica e a da ormet6, ou, como dizem os especialistas desse setor, a lei do silencio. Silencio sempre fez bem a culpados, nao a inocentes. 0 genho Canan6ia, em Pernambuco, nao dei- xaram: os lavradores teriam que continu- ar a ser transportados em rede ate a cha- mada ultima morada e nela despejados (despejo e seu moto-continuo). Dessa luta surgiram as Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Juliao, filho de fazendeiros. Disseram que queria conquistar a terra. IV comecou aspirando ao c6u. - Mina de ouro de Serra Pelada S(como diz o titulo, errando na mina, que e um garimpo), 1980. O home for- te, sem qualquer pedago de gordura no corpo, segura o cano do fuzil de um sol- dado da PM que o ameaga, mas olha o antagonista como se estivessem em con- dig6es iguais e a arma nao passasse de de- talhe irrelevant. Os outros garimpeiros espalhados pela cava observam o incident como se nao fosse incomum. O que e co- mum na selva selvaggia amaz6nica? Mi- chellangelo pintaria essa foto de muscu- lo-0etesados e vontades tensionadas. - Bairro periferico de Sao Paulo, 1990. A ca6tica fiaCio das dezenas de ligag6es clandestinas de luz, lixo pelas ruas de terra, dois negros pedalando bici- cletas, um branco sobre uma moto, luz acesa, com capacete. Sera mesmo esse um meio urbanizado? Sebastiao Salgado, corn sua lente ma- gica, nao tem culpa se nao for: ele esta ali para ver, nao para inventar. A inveng~o, mesmo, 6 este pais. Quem foi a sua expo- sig~o ou quem comprou seu livro, viu se ainda tem olhos para ver. 0 0 incrivel misterio das terras em Carajas Grande imprensa nio deu o destaque devi- do a uma hist6ria simplesmente inacreditavel que surgiu na guerra em tor- no da privatizacao da Com- panhia Vale do Rio Doce. Em 1986 o Senado conce- deu a empresa o direito real de uso sobre uma area de 411 mil hectares em Cara- jas. Foi a boa solucao juri- dica dada a uma pendencia que se iniciara 10 anos an- tes, quando a CVRD tentou adquirir essa terra do gover- no do Estado. Irregularida- des apareceram no proces- so e o general Geisel, entao na presidEncia da Republi- ca, federalizou a area. Para extrair mincrio em Carajas, a Vale bastaria a concessdo do DNPM (De- partamento Nacional da Pro- duCao Mineral), que ja pos- suia. Mas a enmpresa sabia que apenas o domino do subsolo. embora suficiente do ponto de vista legal para a mineraaoo, nao daria a se- guranCa do control da area, assediada pela colonizago,. a grilagem fundiaria e a ga- rimpagem. Quis combinar a autorizaCgo para a explora- gao do subsolo cor o domi- nio da superficie do solo, iniciativa que a Mineraauo Rio do Norte intentara pio- neiramente no Trombetas (sem ser bem sucedida, po- rem). Em meio ao ataque dos que nao queriam a alienaqco pura e simples da area e dos que esgrimiam o limited dos tras mil hectares. o Senado recorreu a transferencia da terra cor clausula resoluti- va, ou o direito real de uso. uma propriedade a titulo precario, condicionada ao seu uso. Pois bem: vencida toda a celeuma, a poderosa CVRD simplesmente nao matriculou a propriedade no registro de im6veis, como faria qualquer dono de bar- raco. A inacreditavel omissao s6 foi sanada em marco des- te ano por um decreto do president Fernando Henri- que Cardoso, mas o ato foi questionado por um grupo de parlamentares. a frente a deputada paraense Socorro Gomes. do PC do B. Eles alegaram, em um mandado de seguranga im- petrado junto ao Supremo Tribunal Federal, que a con- cessio de 1986 caducou a partir de 1988 porque a Constituicgo estabeleceu novas regras naquele ano e a CVRD nao criou situacao juridica constituida, ja que a concessao nao foi levada ao registro imobiliario. Para o ato se tomar valido, ele te- ria que seguir novo rito e passar pelo Congresso Naci- onal e nao mais apenas pelo Senado. 0 ministry Marco Aurelio Mello, primo do ex-presiden- te Fernando Collor de Mello, deu a liminar. Os jomais en- tenderam que assim estava suspense o leilao da Vale. En- tenderam errado. 0 leilao p6de prosseguir. Mas o inci- dente possibility a naago re- assumir o dominio do solo e deixar a estatal privatizada apenas a concessio do sub- solo, renegociando a partir dai os terms da transfer-n- cia do direito real, necessa- rio para impedir que a pro- vincia mineral escape, cor sua preciosa reserve de recur- sos naturais, a pirataria fun- diaria e mineral envolventc. S6 essa espantosa hist6ria. entretanto, ji mostra como o govemo agiu agodadamcnte no process de venda de sua mais preciosa estatal e como ha falhas clamorosas na mon- tagem desse leilao. Agora. in- dependentemente desses as- pectos maiores da hist6ria. caberia reconstituir o espan- toso epis6dio de uma imensa corporaao que age cor me- nos previd6ncia do que um Joao da Silva qualquer. 0 Jornal Pessoal Editor Lucio Flavio Pinto RedaAo: Passagem Bolonha. 60-B i 66 053-020 Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Try. Benjamin Constant, 8451203 / 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail. lucio@expert com.br Editoragao de arte: Luizpe / 241-1859 I |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 32 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |