Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00111

Full Text





Journal Pessoal
r I I I I I A I ..


r L M V I u


P I N I O


COBRE



E nosso. Ganhamc

Corn a decisao da Salobo de implantar todo o seu projeto de 1,5

dolares em Marabi, o maior em

andamento no Brasil, comefa uma

nova era para o Pard, ou
trata-se de uma versdo SALO

atualizada da

historia dos

grades

projetos
concebidos

para a
Amaz6nia

na decada

de 70? *


O maior investimento pro-
dutivo em andamento no
pais, no valor de 1,5 bilhdo
de d6lares, ficara em Ma-
raba. no Para: e o comple-
xo minero-metalurgico da
Salobo Metais, uma associacao em par-
tes iguais (50% x 50%) da Companhia
Vale do Rio Doce e da multinational
sul-africana Anglo American (com a
possibilidade de ingresso do BNDES,
gracas aos seus "direitos de participa-
qCo"), que instalara em Carajas o mai-
or p6lo de cobre do pais e um dos
maiores do mundo.
Na semana passada, o governador
Almir Gabriel e dois diretores da em-
presa assinaram, em Belem, um proto-
colo de inten96es para implantar a
.11


mina, a usina de concentra9ao de mi-
nerio e a plant metalfrgica em Mara-
ba, como queria o govero do Estado.
Entusiasmado, o governador que con-
vocou uma reuniio solene no Centur -
anteviu uma nova era de investimentos
para o Para.
Olhando para tras, ele contabilizou
cinco bilh6es de d6lares de aplicac6es
recentes efetuadas em territ6rio para-
ense, as ultimos das quais para a Alu-
norte (US$ 850 milh6es) e duas fabri-
cas de caulim (US$ 500 milh6es). No
horizonte, alem da Salobo, outras cen-
tenas de milh6es deverdo chegar ao
Estado em uma nova onda de "grandes
projetos".
E muito e e quase nada. A Salobo
movimentara seis vezes mais dinheiro


do que a Volkswagen mobilizara para
tornar realidade sua nova fabrica, que
Sao Paulo e Rio de Janeiro tanto dis-
putaram. Mas nao ha duvida de que o
balango social desses mega-empreen-
dimentos e altamente deficitario: eles
concentram o capital, absorvem pouca
mao-de-obra (porque recorrem a alta
tecnologia), nao conseguem amenizar
a desorganizacgo que acarretam, inter-
nalizam apenas uma fragao da renda
gerada e nao tem sido capazes de mul-
tiplicar os efeitos de sua atividade, con-
tribuindo ao contrario para solidifi-
car rela96es de troca desfavoraveis a
regiio. Nao escapam, por tudo isso, a
condi~ao de enclaves.
Cor as vantagens fiscais e tributa-
rias que recebeu, a Salobo podera, -


A OREAG DE BEe A SLA (Ag3)


L J I j







2 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE MAIO / 1997


W num espaco de ate 15 ou mesmo
25 anos (dois tercos da vida fitil do pro-
jeto), nao pagar qualquer tipo de im-
posto ou so recolher metade do que Ihe
caberia se fosse um neg6cio comum,
sem os excepcionais incentives que
recebeu. Contabilizados apenas os be-
neficios para a implantagco (desconsi-
derando, portanto, os ganhos operaci-
onais), a contrapartida governmental
poderi chegar a 7% ou 8% do investi-
mento total. Numa apuragao fina, com-
putados ate o ultimo dia de concessao,
esses beneficios terao uma proporcio-
nalidade superior.
Ja no discurso que fez durante a so-
lenidade de assinatura do protocolo, o
goverador Almir Gabriel procurou res-
guardar-se dos critics, apontados como
os eternos pessimists. Estados que atra-
iram investimentos menores deram fa-
vorecimentos muito mais significativos
do que o Para. E uma verdade, mas nio
toda a verdade. Em outros casos nao
houve, a rigor, competicgo: os projetos
eram implantados no Para porque nao
havia outra alternative, em fungao da
natureza da atividade (na maioria das
vezes, mineradora).
No caso da Salobo, por6m, existia a
altemativa maranhense (e, dentro do ter-
rit6rio paraense, a hip6tese de Paraua-
pebas). Nio era um leque tio numeroso
quanto nas disputes no Centro-Sul do
pais ou mesmo no Nordeste. Mas o Es-
tado precisou compensar a vantagem
natural do Maranhao. Essa compensa-
cqo foi dada na exata media dos gan-
hos que a Salobo Metais teria se deci-
disse instalar a metalurgia em Rosario?
O protocolo nao responded a essa per-
gunta, nem as duas parties ajudaram a
opiniao piblica a se esclarecer a res-
peito, embora haja a refer6ncia ao li-
mite de 75 milh6es de reais como a
soma de todos os beneficios e vanta-
gens oficiais. O document, por6m,
nao traz um anexo com a demonstra-
cqo e detalhamento dos valores e at6
estabelece clausula restritiva para sua


divulgagdo no future, impondo-lhe
confidencialidade.
As vantagens concedidas nao foram
quantificadas, tarefa que os deputados,
se ainda conseguirem lembrar-se de
que constituem um poder aut6nomo e
paralelo ao executive, poderao desem-
penhar quando, nos pr6ximos 90 dias,
receberem os projetos-de-lei (em regi-
me de urg8ncia, naturalmente) que con-
solidarao os compromissos assumidos
pelo governor.
A definigco de Maraba como o local
da usina metalurgica (e de todo o pro-
cesso produtivo, da mineragao a trans-
formagao industrial, embora em tres
pontos distintos do seu territ6rio) foi
uma vit6ria de todos os que se aplica-
ram na luta em favor dessa hip6tese,
desde o ex-prefeito Haroldo Bezerra,
passando pelo atual, Geraldo Veloso, ate
o governador Almir Gabriel, que fez
dessa definigao um cavalo de batalha.
O resultado favoravel, entretanto,
nao significa aceitar mansa e pacifica-
mente os terms do protocolo de in-
teng6es e nao fazer marola para nao
ameacar o barco de naufragio. O bar-
co, alias, ja tem ameagas suficientes no
texto do protocolo. Ele admite o rom-
pimento do compromisso com a loca-
lizaqgo da fabrica se importantes con-
trapartidas do Estado nao forem cum-
pridas, com a garantia complementary
de que, na eventualidade de problems,
o governor tenha que financial os pre-
juizos sofridos pela empresa.
Algumas dessas contrapartidas nao
sdo onerosas, embora envolvam um
custo institutional pesado, como a de
incluir a empresa "dentro do sistema
de seguranca publica, mesmo sendo
uma instalacgo particular. Mas outros
servings sao custosos e de execug9o
exigente (e com cronograma apertado),
como o sistema de transmissao de ener-
gia em alta tensao para um consume
de 175 mil kw, do porte de Belem fora
dos piques, a ser pago por uma tarifa
m6dia inicial ja fixada.


Pinoquiadas II


O lornal 0 Lihira/l
prestaria am valioso
scervico a opmnio piu-
blica paracnse se divulgasse
mals dados ou franiqueasse a
cousulia a intcgra da pesqui-
sa que divulgou no mIIs pas-
sado, atestando o domntio
absolute que exerce sobre a
unprensa escrita no Estado
Infornim 6es unportantes fo-
ram sonegadas na inatena do
lornal. rnpossibilitando um


examn complete da influen-
cia do Jornalhsmo impresso
sobre a sociedadc paraense.
Mas tomando-se os nume-
ros disponi\ci s da pesquisa
do Ibope e adicionando-lhics
os cdads apurados pelo IVC.
o Imsttuto que ~\Lnica a cr-
culaiao do Jornal. dcduz-se
que a soma das tiragens dos
concorrerits dainos de O Li-
hbcal, este cor umia iragerm
media dc 45 mil exemplares


(a de doinulo e as dt
da a sabado ponderadi
inacrcdita\cis 2 5Tii
plares, sendo I 500
rhi di Poa a e 1 000 d
vi'cit tih Para
Tambem por Lxt
serin possMel conch
este Jornal Pessoa
2 300 exiemplares. a
da publicaqco pein6
lragem que cireula n
tal paraense. o que si


A prefeitura de Maraba tera que ar-
car com encargos ainda mais pesados
para suas disponibilidades, sem poder
contar com um rendimento compativel
de seus impostos (ISS e IPTU), princi-
palmente para tender o nucleo residen-
cial que sera construido. Alem disso, o
aniuncio do projeto, que pretend absor-
ver de 3 mil a 5 mil trabalhadores no
canteiro de obras, vai gerar uma migra-
cao que acarretara obrigagces adicionais
para a administracTo municipal.
Pode-se apontar em favor do enten-
dimento entire o governor e a empresa
que ele e inedito em relacgo aos gran-
des projetos. Embora Boa parte dos
compromissos assumidos pela Salobo
nao passe de imposig6es legais ou ope-
racionais que a empresa adotaria, sem
qualquer contribui~go especial, ela se
disp6e a realizar beneficios que atd
entao nao constavam da pauta desses
mega-projetos, como a devolugdo de
alojamentos ja inserviveis ou lotes nao
usados, e de participar dos esforgos
para a verticalizacgo de suas ativida-
des (mas condicionando esses esforgos
a seus interesses estrategicos, nao de-
clarados ainda).
Por outro lado, entretanto, os primei-
ros grandes projetos idealizados na
d6cada de 70 assumiam inteiramente a
montagem da infraestrutura que iriam
utilizar, incluindo-a no custo de im-
plantagao e buscando o retorno atraves
da receita operacional. Agora os recur-
sos publicos sAo desviados para se con-
centrarem nesses projetos, uma pratica
iniciada cor a Albras que, no caso do
cobre, se ampliou e se formalizou por
inteiro. Como a hist6ria desse mais
novo mastodonte esta apenas se inici-
ando, 20 anos depois da identificaggo
das jazidas do minerio na mina do Sa-
lobo 3/A, ainda ha tempo para conta-
la melhor, desde que as cabegas nao
sejam anestesiadas por um triunfalis-
mo oco, nem caiam num pessimismo
niilista (dois estados de espirito, alias,
que o govemo costuma induzir). *



se'un- titulo fornmidail. se pudes-
as). dc se ser xerdadc- e se os nuine-
Sccm- ros dc 0) Liberal njo fo;scmi
do 1/ ji- 1um errLfico sinet do mnioio-
. A Prn- pol.o da forniaqio da opi-
mio nesLe infcliz Estado
c.tnsao. Sera que niI'gueim rI.ac.
Itr quI ao iieinos para e \rcitar unma
I. corn analise mais aprofundada c
segun- consequent do que pern~le
lica em fazer o siimulacro de resuno
a capi- divulgado pelo joonrilio dos
ena um Maiorana'







JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE MAIO / 1997 3


Macrodrenagem das baixadas

sobrevive e vai em frente


governor do Estado conseguiu,
enfim, salvar o Programa de
Macrodrenagem das Baixadas
de Belem, no valor de 225 milh6es de
d6lares, o maior executado em muitos
anos na capital paraense e um dos prin-
cipais em curso nas grandes cidades
brasileiras. 0 Banco Interamericano de
Desenvolvimento, responsavel por dois
tercos dos recursos, concordou com a
reprogramaqao fisica e financeira do
projeto, que s6 executou 30% do que
estava previsto e esta atrasado mais de
dois anos em relaiao ao cronograma
original.
0 BID vai dar um prazo de nove
meses para que o governor cumpra as
novas metas que forem estabelecidas.
Com base na execuqdo feita nesse pe-
riodo, indicando o comprometimento
da administrator piblica corn o proje-
to, acertara uma prorrogaqao mais ex-
tensa para a finalizagao do empreendi-
mento, que podera ser feita em pouco
mais de um ano.
Dos US$ 225 milh6es previstos ini-
cialmente, foram aplicados, a partir do
inicio do projeto, em 1993, apenas US$
48 milh6es, sendo US$ 25 milh6es do
Estado e US$ 23 milh6es do BID. Os
atrasos nas contrapartidas estaduais re-
tardaram as liberag6es do banco e s6
agora o governor conseguiu compor as
fontes para fechar os US$ 55 milh6es
que ainda precisara aportar a fim de
receber, ja a parir do final do mes, US$
122 milh6es do banco interamericano
(a major parcela, de US$ 25 milh6es,
vira do BNDES).
A busca das nova fontes foi prece-
dida por duas iniciativas: o afastamen-


to do antigo consultor privado e a re-
discussao de precos corn os empreitei-
ros. A Rede Engenharia, influence nos
bastidores dos governor de Jader Bar-
balho e Carlos Santos, acabou aceitan-
do retirar-se do projeto (corn indeni-
zagdo de 1,2 milhao de reais), sub-ro-
gando os direitos a Leme Engenharia,
que cumprira o restante do servigo.
Assim, o govemo afastou um persona-
gem que, simbolicamente falando, po-
deria funcionar como um cavalo de
Tr6oia, na 6tica do atual govemo (6tica
nada favoravel em relacao ao anteces-
sor).

A outra providEncia foi a revisao
dos custos originals do projeto.
A suspeita de superfaturamento
dos orqamentos, no entanto, nao se con-
firmou: o valor estabelecido ainda na
administracao Jader Barbalho mante-
ve-se inalterado. A conquista do gover-
no nessa revisao foi convencer os em-
preiteiros a abrir mao do reajustamen-
to de precos a que teriam direito por
causa dos atrasos, aditando o contrato
sem o acrescimo desse 6nus.
Refeito e aprovado o novo crono-
grama fisico-financeiro, que permiti-
ra a retomada plena do projeto na pr6-
xima semana, ha ainda dois compli-
cadores pela frente. Os t6cnicos acham
que sera inviavel executar integral-
mente a diretriz do projeto de assen-
tar os remanejados das areas de ma-
crodrenagem em locais distantes, no
maximo, 1,5 quil6metro de suas mo-
radias originals. Esta seria a novidade
do projeto: nao permitir que ele se tor-
nasse uma simples forma de expulsao


de moradores de baixa renda de areas
valorizadas pelas obras de engenharia.
Mas os tecnicos nao encontram mais
areas disponiveis para a relocacao nes-
ses terms.

U m outro problema e a participa
rao da prefeitura de Belem. Ela
esta prevista no projeto, mas o
entao prefeito H6lio Gueiros nao se in-
teressou em ocupar esse lugar, fiel a
ideia (ou idiossincrasia) de jamais ser
co-autor quando nao pode ser o dono
da festa. Ja Edmilson Rodrigues, do PT
(em relacgo ao qual o governador nao
difarga sua aversao), vem tentando se
instalar nesse espago.
Ate agora, as complicag6es da re-
discussao com o BID eram a justifi-
cativa para postergar essa questao.
Mas agora ela vai se avivar. Uma re-
cusa aberta enfraqueceria a posicao do
Estado junto ao BID, que encara fa-
voravelmente uma presenga maior e
mais ativa da prefeitura, conforme o
pr6prio projeto.
Nao havendo mais arguments tdc-
nicos, sobrarao as motivag6es political,
mesmo se elas nao vierem a ser forma-
lizadas, caso a sutil mas renitente -
resistincia, determinada diretamente a
partir do gabinete do governador, se
mantiver.
Ao que tudo indica, agora que con-
seguiu recriar a crianga, de invejavel
poder mercadol6gico, o governador
Almir Gabriel nao quer dividir-lhe a
paternidade, ainda que nem seja o pai
natural, mas o padrasto segundo ele,
certamente, porem, o mais preparado
para a criagdo.


Sem mist6rio
Desfez-se o misterio: a Se-
cretaria Municipal de Assun-
tos Juridicos tern uma frota
de 24 veiculos porque a
Guarda Municipal esta a ela
subordinada, gragas ao pro-
jeto original de D. Milton
Nobre, o primeiro e etemo
- comandante-em-chefe da
guard. Os carros e motoci-
cletas nao sao usados na tra-
mitagdo internal dos proces-
sos, como ironicamente aqui
se sugeriu (Jornal Pessoal n
160), mas nas atividades dos
guards municipals.


Tamanho do
home
0 governador Almir Ga-
briel tinha todo o direito de
ser a favor ou contra a pri-
vativagao da Companhia
Vale do Rio Doce. Mas, au-
toridade maxima do Estado
mais afetado da federacao
por essa mudanga, s6 nao
poderia era ter permanecido
omisso, calado. Municiou
assim a versao de que sua
attitude tem um motivador:
os 30 dinheiros.


12b cuLLLLki
0 procurador-geral de jusnrt A I ulOel SCalino
Naisciniento Jiliior idz uliolar a cauehla dte
excltur-.%' da upre'ctaiao de que.st&es as quals
esltea ligIda ckua espo.wU, ca aumtbhd procuradora
Luzia Nivadja Guinrdures NAscuimento, uprecitada/s
pelo Cotnselho Superior do A !imslkno Publico.
Da miesmna inaneira, elk declara-se imnpeddai de
tilhLr em e qif.esers< atCil atio Inaridlo, evanYhdo
que ,. Ju)s f('aml valer vi tvla'co matrimonitil
it coi'eg(idot' c de sCe m nivtbros., elicnteLcne' Oil
moranlente crifici e/. conmo ob.servou este journal
Iet sua cdechedo aterior.







4 JOURNAL PESSOAL1 QUINZENA DE MAIO / 1997


Do principle certo


N enhum intellectual nao s6
no Brasil, mas no mundo
inteiro teve uma missao
tao important quanto a
que Fernando Henrique
Cardoso recebeu ao assu-
mir a presidencia da Reptblica brasi-
leira, em 1994. comandando um dos
paises mais extensos, mais populosos
e mais ricos do planet mas tambem
o mais injusto. E lamentavel constatar
que a camada intellectual, national e in-
ternacional, que inevitavelmente corn
ele sera julgada, tenha dado tao pouca
atenado a gestao de FHC e a ele pr6-
prio em particular.
O primeiro livro especifico sobre
Fernando Henrique foi escrito por um
estrangeiro, a jornalista francesa Bri-
gitte Hersant Leoni, atualmente no Bra-
sil a servi9o da BBC de Londres. "Fer-
nando Henrique Cardoso O Brasil do
Possivel" (Editora Nova Fronteira, 360
paginas, R$ 27) poderia ser recebido
quase como uma biografia autorizada,
ou ate ser acusado de ser o trabalho
nio-assumido de uma ghost-writer co-
locando sob o seu nome o que o bio-
grafado gostaria de ter dito a seu pr6-
prio respeito, sem cair na armadilha da
autobiografia.
O livro assemelha-se as biografias
intelectuais cor as quais Getulio Var-
gas foi mimoseado no period do Es-
tado Novo (1937/45): trabalhos escri-
tos cor aparente autonomia por inte-
lectuais, alguns de respeito (como Aze-
vedo Amaral e Oliveira Viana), mas
que equilibravam-se entire a avaliaqao
supostamente independent e o desla-
vado panegirico. O ditador era o prin-
cipe reformista ou o d6spota esclareci-
do, cuja ausencia ja era lamentada, em
1930, por Octavio Faria (entao um jo-
vem fen6meno)
O livro de Brigitte apresenta-se como
"perfil biografico", no qual a reconsti-
tuiglo da vida de FHC serve de susten-
taglo a defesa de uma tese: ele venceu
"porque estava intelectualmente certo e
tambem porque soube fazer com que as
verdades que sua analise Ihe revelava pe-
netrassem em um meio politico em ple-
na recomposicao e portanto atento".
A trajet6ria political de Fernando
Henrique seria "a continuacao 16gica de
uma s6rie de acontecimentos e de en-
contros que o levaram literalmente a
presid8ncia, como se ele estivesse de
alguma forma predestinado a essa fun-
gao". sustenta Brigitte. "A universida-


de fez dele um home public. A di-
tadura, um politico, e a democracia, um
presidenciavel".
Ao final desse percurso, Fernando
Henrique seria o unico brasileiro em
condic6es de conduzir o pais ao limited
do possivel. Nem vai alem, nem aceita
permanecer aquem dessa possibilida-
de sancionada pela hist6ria. Livra o
Brasil das duas principals pragas, a in-
justica e o autoritarismo, que o impe-
dem de se modernizar, concretizando
assim potential de grandeza geopoliti-
camente pr6-determinado, e garantin-
do a melhoria das condic6es de vida
do seu povo.
Nenhum outro home pfiblico esta
em condic6es de cumprir essa missao
superior, assegura a bi6grafa, pois a
inteligencia, que o consagrou como in-
telectual, fez do politico, que ele deci-
diu ser, um estadista: "O mundo mu-
dou, e Fernando Henrique mudou corn
ele, mas defended sempre os mesmos
valores. Os valores da democracia e da
justica para todos".
Muitos intelectuais torceriam o na-
riz para o livro a simples formulaiao
dessa tese. Garantiriam com isso a pla-
titude de suas segurangas, mas nao
atenderiam uma necessidade social que
precisa ser satisfeita com rigor de
preferEncia em nivel superior ao da jor-
nalista francesa.

N ao ha dfivida de que FHC 6 um
intellectual brilhante. Ao con-
trario de Jos6 Sarney, um be-
letrista a moda antiga, o produto de sua
inteligencia ter atestado de qualidade e
foi gerado na aplicaiao do raciocinio ao
entendimento do pais (e nao usando a
cultural como moeda de troca, a maneira
de Jos6 de Ribamar). Mesmo quando ja
era politico, em 1981, Fernando Henri-
que foi convidado por Michel Foulcault
para 11 aulas no Coll6ge de France, em
Paris, e em 1985, quando era apenas se-
nador, recebeu o Premio Juca Pato como
intellectuall do ano".
"A bagagem te6rica sera um trun-
fo?", indaga Ignacy Sachs, o criador do
ecodesenvolvimento. Cor isto esta
perguntando se os que se aplicaram ao
maximo em compreender e interpreter
a realidade de acordo corn m6todos ci-
entificos sao os mais autorizados a
modifica-la, uma formulagao de Karl
Marx no s6culo passado que ele pro-
prio nao conseguiu resolver.
Ha motives para crer que Fernando


Henrique Cardoso utilizou na plenitu-
de sua privilegiada intelig6ncia num
projeto puramente intellectual (primei-
ro aplicado a escravidao, em seguida
ao desenvolvimento e, por fim, ao au-
toritarismo). Ele poderia ter-se torna-
do politico ja na primeira maturidade,
quando acompanhou o pai e o tio, am-
bos generals (em uma familiar de tradi-
cao military em campanhas eleitorais
(por mandate politico) ou civicas (pelo
monop6lio estatal do petr6leo, que, iro-
nicamente, iria quebrar quase cinco de-
cadas depois).
Mas tanto como estudante (aos 23
anos ja era representante dos ex-alunos
no Conselho Universitario da USP)
como professor (inteiramente a mar-
gem dos acontecimentos de rua da Pa-
ris revolucionaria de 1968), sempre
manteve-se como academico. sem ou-
tro compromisso se nao cor as conse-
quencias de seu raciocinio.
Foi bem preparado para isso. Era um
dos lideres do celebre grupo de oito in-
telectuais paulistas, todos de esquerda
(alguns, depois, petistas), que se reu-
niram, no final da d6cada de 50, para
ler em conjunto 0 Capital, de Marx,
quando o livro muito citado e pouco
lido, raramente por inteiro ainda nao
havia sido traduzido para o portugu8s.
Foi uma das maiores contribuic6es in-
telectuais dos "uspeanos", pondo fim
a uma era de marxismo amador prati-
cada na ex-capital da Reptiblica, o Rio
de Janeiro.
O primeiro livro, escrito aos 29 anos
cor Octavio lanni (cor quem nunca
mais conseguiu se reconciliar), 6 uma
competent monografia; a tese de dou-
torado, sobre a escravidao e o capita-
lismo no Brasil Meridional, 6 um pri-
mor de diretriz metodol6gica para bons
aprendizes de sociologia.
Mas, intelectualmente, a contribuigio
definitive de Fernando Henrique foi a
"teoria moderada da dependEncia", tal-
vez produto mais de sua intuigio do que
do seu racionalismo. Um exemplar de
"Dependencia e Desenvolvimento na
Am6rica Latina", que ele escreveu no
exilio em parceria cor o sociblogo chi-
leno Enzo Faletto, chegou-me as mios,
em Sao Paulo, algumas semanas depois
de ter sido langado no M6xico pela Si-
glo XXI, em 1969. O impact foi enor-
me ao final da leitura, onerada por um
estilo dificil, duro (em contrast corn o
fluente didatismo das exposi9oes orais
do professor).







JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE MAIO / 1997 5


ao povo errado


Numa epoca de culto
ao "foquismo" e exalta-
cao da revolugao socia-
lista como inica alter-
nativa ao capitalism
espoliador, Fernando.
Henrique carregava nas
cores do reformismo.
Vinha cor uma visaio
heterodoxa do process
hist6rico, quebrava o bi-
tolamento maniqueista
reagao/capitalismo-re-
volugdo/socialismo e
aceitava o intemaciona-
lismo como um desafio
ao qual os subdesenvol-
vidos poderiam sobre-
viver e dele tirar vanta-
gens, sem serem esma-
gados pela subordina-
9ao a um polo hegem6-
mico central. Ou seja:
colocava um dos cravos
fundamentals na teoria
da moderizacao (ou do
"possibilismo") que te-
ria em Albert Hirsch-
man o seu mais sistema-
tico te6rico.
O professor brasileiro
deixava de ser um inte-
lectual apenas do seu
pais para ser uma fonte
de refer6ncia continen-
tal. Seus livros passaram a ter dezenas
de edig6es em varias linguas e ele era
chamado para encontros acad6micos em
muitos paises. Mas Fernando Henrique
decidiu trocar uma das mais privilegia-
das posic6es acad8micas, na Cepal, no
Chile (onde passou quatro anos), por um
novo desafio: dar aulas em Nanterre, em
Paris, a partir de 1967. Quando ja era
professor respeitado na Franca, aceitou
nova mudanga: voltar ao Brasil para dis-
putar uma catedra na USP.
Sua cassacao, em 1969, fechou-lhe
a carreira em seu pais, mas, ao inv6s
de ir para um exilio dourado na Euro-
pa ou nos Estados Unidos, criou sua
pr6pria said: participou da criacqo do
Cebrap, o centro de estudo que foi a
primeira reacao organizada dos intelec-
tuais ao regime military. O Cebrap s6 se
tornou possivel com uma dotaglo de
145 mil d6lares da Fundagao Ford, mas
a Ford so resistiu a pressao dos milita-
res porque seu representante no Brasil,
Peter Bell, fez do Cebrap um projeto
pessoal seu.


ogo, seria desonesto dizer que
o centro de estudos nio passava
e ponta-de-lanca do imperialis-
mo ianque, conforme o imutavel jar-
gdo da esquerda. Afinal, Lenin s6 con-
seguiu pular para a lideranga da revo-
lugno comunista ja em andamento na
Ruissia gragas ao sinal verde do gover-
no alemao e nem por isso precede a
acusagco de ser lacaio do kaiser. A his-
t6ria 6 mais complicada do que a de-
duzem, aplainando as ondulag9es de
sua realidade, seus falsos cultores.
O que Brigitte Leoni se empenha em
demonstrar 6 a existancia de um fio
condutor continue e coerente ao long
da vida de FHC. Nao se espere dele a
revolugao, que ele jamais prometeu
fazer, nem acredita que seja necessa-
ria. Oriundo da esquerda, ele se tornou
um home de centro. Sua grande as-
piragao 6 ser "o primeiro social-demo-
crata da America Latina". Mas nao mu-
dou ao ingressar na carreira political, ji
aos 47 anos: seu pensamento havia mu-
dado (ele diria "evoluido") quase 20


anos antes, quando s6 tinha projetos
acadimicos, estudando o poder e nao
o cobicando.
Quando, no inicio da d6cada de 60,
seus colegas de esquerda especializa-
dos no estudo das relac6es entire o ca-
pital e o trabalho optaram pelo opera-
riado, ele escolheu os industrials, vin-
do a tornar-se "o home da esquerda
que compreende a direita". Aplicou sua
capacidade a compreensao dos meca-
nismos da reform. 'Ele nunca propo-
ra a ruptura ou a revolug9o, e sim a con-
ciliaclo e a negociacgo. A mudanca,
para ele, s6 6 concebivel quando ins-
crita nas estruturas existentes", escre-
ve Brigitte.
Foi cor esse projeto e nao com
outro, que agora estaria traindo que
Fernando Henrique Cardoso concor-
reu ao senado, em 1982, e, aos 52
anos, passou a cumprir o seu primeiro
mandate de senador. A carreira pode-
ria ter sido interrompida pela desist6n-
cia. como ocorreu com a maioria dos
intelectuais que cruzou a linha divi-
s6ria do mundo das ideias (e logo re-
tornou aos gabinetes), ou pelos erros
que cometeu.
Os dois maiores, que permanecem
como pontos nebulosos na fulgurante
biografia escrita pela jornalista fran-
cesa, sdo sua posiqco ambigua na cam-
panha pelo estabelecimento das elei-
56es diretas em 1984 e os entendimen-
tos que manteve com Fernando Collor
de Mello para ser seu ministry do Ex-
terior, em 1992. A primeira dama Ruth
Cardoso admite que houve o interes-
se, mas garante que se o marido esti-
vesse mesmo convencido da conveni-
6ncia da proposta teria aceitado o car-
go oferecido, sem submeter sua deci-
sdo a terceiros.
Brigitte avaliza a versao de que Fer-
nando Henrique informou Mario Co-
vas de que nao aceitava o cargo antes
do PSDB finalmente decidir afastar-se
de Collor. Covas parece nao ter julga-
do important esclarecer que FHC se
antecipara a decisdo partidaria, deixan-
do a sugestdo de que fora obrigado a
curvar-se a ela (um desencontro que
explica o sutil desconforto que ate hoje
persiste entire os dois).
Mas, ao mesmo tempo que aprendeu
corn seus erros, Fernando Henrique foi
protegido pela sorte. Uma intervenqco
de Leitao de Abreu (um dos mais efi-
cientes ministros da justiCa do regime
military) no Supremo Tribunal Fe-







6 JOURNAL PESSOALP QUINZENA DE MAIO / 1997


0 deral permitiu que ele se tornasse
o primeiro cassado pelo AI-5 a concor-
rer a uma eleigao, decisao que lhe deu
divulgacgo gratuita, numa 6poca em
que a propaganda eleitoral era limita-
da (uma "benado dos c6us", diz a bi6-
grafa, sem ir conferir a motivagao ce-
lestial de Leitao de Abreu).
Sem o aprendizado e os ventos alea-
t6rios nao teria sobrevivido a acacha-
pante derrota para Jinio Quadros na
dispute pela prefeitura de Sao Paulo e
a desastrada descrenga em piano anti-
inflagdo do governor Sarney um dia an-
tes da edicgo do Cruzado (que ainda
ajudou FHC a reeleger-se senador).

E strela tao luminosa, entretanto,
nao ofusca os meritos especifi
cos de Fernando Henrique na
arte da political. "Ele tem um talent
politico que nada tem a ver com seus
talents intelectuais", dep6e Celso Fur-
tado. Embora s6 tenha conseguido ele-
ger-se senador gragas a sublegenda,
sempre foi bem votado, sempre teve
mais votos do que seus ex-companhei-
ros de viagem petistas (cujo projeto de
partido rejeitou desde o inicio, fundan-
do um a sua imagem e semelhanga, o
PSDB, em 1988) e chegou ao segundo
lugar, atras de Mario Covas, cor 6 mi-
lh6es de votos. Alcangou a presiden-
cia cor a maior porcentagem de votos
desde 1945 (54,3%, o dobro de Lula,
o segundo colocado, derrotado ja no 1
turno.
Claro que uma vit6ria tao esmaga-
dora como essa foi possibilitada pelo
Piano Real. Mas 6 bom nao esquecer
que, antes, sete pianos nao haviam dado
certo, no espaco de 10 anos, e que Lula


apostara tratar-se de mais um arranjo
electoral, como aquele em que o Cru-
zado se transformara. O unico arranjo
no Real, entretanto, foi cronol6gico:
certamente seu lanaamento foi anteci-
pado para favorecer o candidate da si-
tuaqdo (bancado apenas por Itamar
Franco e os economists do governor ,
que aceitara trocar o Itamaraty (ofere-
cido pela primeira vez e recusado,
apesar do glamour que exercia sobre o
cogitado nove anos antes) pela Fa-
zenda, mesmo sem que apreciasse o se-
tor econ6mico. No mais, exibia uma
engenharia econ6mica invejavel, mes-
mo cor seus equivocos e desacertos.
Assim como foi um erro reduzir o
Real a um plano meramente politiquei-
ro, e um erro definir Fernando Henri-
que Cardoso como um titere do Con-
senso de Washinton, um servo do neo-
liberalismo ou qualquer outra etiqueta
do aparato de fantoches. Ele 6 o me-
Ihor quadro da elite brasileira aplicado
a political em um projeto de reform
para valer, que se destaca contra o pano
de fundo do seu antecessor em emprei-
tada equivalent, Fernando Collor de
Mello.
O comprometimento cor esse pro-
jeto o fez proper em 1988 o mandate
presidential de quatro anos, com ree-
leigao (bem antes, portanto, de imagi-
nar que poderia ser presidente, e o leva
a enfrentar o medo de aviao em segui-
das e longas viagens ao exterior, como
ninguem antes dele realizou.
Mas essa reform pode ser insufici-
ente, mesmo se aplicada com rigor e
honestidade, para dar conta do conjunto
de dilaceramentos do pais mais injusto
do globo terrestre, que nunca foi exa-


tamente subdesenvolvido, mas misera-
velmente explorado.
E ou nao e essa reform tao profun-
da quanto exige este pais de contras-
tes, profundidade que requer de refor-
mas a coragem e o compromisso com
as consequincias das revoluq6es? A
jomalista francesa busca assegurar que
o limited do possivel 6 exatamente este
ao qual chegou o president da Repu-
blica e que ir al6m significa expor-se a
retrocessos. Mas ela nao e um arbitro
aceitavel dessa demarcacgo.

eu livro e uma costura Altata
costura", 6 certo, como se po-
deria esperar de um francs) de
depoimentos c uma montagem de in-
formao6es nem sempre confiaveis
(como as femininas, sempre anonimas:
"ex-aluna", "uma amiga", ou "os ami-
gos", "um jornalista"). Embora admi-
re tanto o biografado, elogiando-lhe a
coer8ncia intellectual, Brigitte so admit
ter lido cinco dos 24 livros de Fernan-
do Henrique, o que 6 um desfalque con-
sideravel para quem faz afirmativas tdo
categ6ricas sobre o pensamento do per-
sonagem.
Mas o livro de Brigitte Leoni ter um
merito incontestavel: evidencia a lacuna
aberta pela omissao dos intelectuais bra-
sileiros diante de um moment tao grave
da vida national. Esse vacuo tende a se
alargar, at6, quem sabe, cristalizar de vez
o fosso que separa esses mandarins da
massa do povo, carente de sinaliza9oes
sobre os duros tempos que esta vivendo,
sem saber para onde eles o conduzem,
sern atrair a atengao desses far6is inte-
lectuais de nariz arrebitado, olhos glaci-
ais e ouvidos inacessiveis. 0


Esperanga na

policia
ilvandro Furtado 6 o pri-
meiro chefe da policia ci
vil que assume o cargo to-
mando decisao e decidindo so-
bre quests essenciais da sua cor-
porato. O primeiro ato do novo
delegado-geral, que substituiu
Brivaldo Soares, incompatibiliza-
do com o secretario de Seguran-
Ca Publica, Paulo Sette Cdmara,
foi baixar uma incisiva e moder-
nizadora instruio normativa.
Em seus 19 artigos, essa ins-
truco procura descentralizar a
azao da policia, dando poder aos
agents operacionais, mas ao
mesmo tenpo impondo-lhes res-
ponsabiliades correspondents,


tudo corn concisio e clareza.
As seccionais e delegacias
de bairro passarao a ter plena
autonomia, deixando de sobre-
carregar a dirego central e as-
sumindo todas as tarefas que
lhes cabem. E media funda-
mental para dar eficiencia a
policia, onde vinha sendo fa-
cil a pratica do corpo mole.
Mas, al6m desse aspect cen-
tral, a Instrum~o Nonnativa n"
1 do novo chefe de policia es-
tabelece prAticas importantes:
vO Unificaio da DIOE,
a estrat6gica Divisao de Inves-
tigag6es e Operac6es Especi-
ais, em um s6 predio, corn to-
dos os seus agregados.
;0 Treinamento e recicla-
gem dos policiais.


O( Mobilizacao de todo o
pessoal qualificado nas ativi-
dades-fim.
O Reducao ao minimo da
participagco de policiais em
atividades burocraticas.
O Responsabilizagao dos
chefes por tudo o que fizerem
seus subordinados.
() Estimulo a especializa-
9do em areas prioritarias de
apoio.
O0 ReativagCo do delegado
de ronda.
t evidence que as orienta-
c6es do chefe de policia s6 te-
r~o resultado se ele dispuser de
recursos financeiros e materi-
ais para implantar as diretrizes
que estabeleceu. A mesma so-
ciedade que, com todos os


motives, condena e repudia os
atos de violencia da policia, no
dia-a-dia ignora que melhorar
a engrenagem policial 6 tarefa
de todos e nao apenas dos in-
tegrantes da corporagao. E que
a execugio dessa tarefa ter um
custo, inevitavelmente alto, a
ser bancado pela coletividade.
Sera uma pena que o mais
bem preparado chefe de po-
licia em muitos anos nao ve-
nha a dispor dos meios ne-
cessarios para enfrentar e
tentar resolver os graves pro-
blemas desse setor-chave da
administraqao piblica. Um
bor nome sera queimado e
uma oportunidade rara des-
perdigada se essa boa com-
binacao nao acontecer. *







JOURNAL PESSOAL -1P- QUINZENA DE MAIO / 1997 7


qualidade maior dos grades fot6-
grafos e sua condigqo de invisibili-
dade. Batem fotos como se nao es-
tivessem ali. Sua ausincia e ainda um es-
timulo para os models chegarem ao ul-
trarrrealismo, tao radical que pode levar
ao surrealismo, ou ao inconsciente. Mais
do que olhos, bocas, orelhas ou bracos, os
grandes fot6grafos fotografam a alma dos
seus personagens, que se desnudam das
mascaras sem perceber e ate sem querer.
O mineiro Sebastido Salgado 6 dresses
grandes fot6grafos. Uma exposiq~o sua,
como a que foi exibida no mrs passado
em Belem, e uma aula de humanidade, um
teste de sensibilidade. Nao se trata apenas
de um professional do flagrante, que, por
pericia ou sorte, capta uma cena interes-
sante, unica. Ele tem disso. Mas seu tra-
balho C sistematico: Salgado vive seus
cenarios varias vezes, vai e retoma para
conferir, acompanha a evoluqao dos series
que fotografa, esta com eles para enten-
d&-los como sao de verdade. E os desco-
bre nos lugares mais tipicos, desde o ser-
tao escaldante ate um andaime de obra na
grande cidade.
Infelizmente, apesar da presence da rede
Globo por tras da exposicao national que
ele organizou em favor do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra, a mostra
no Palacio Antonio Lemos foi prejudicada
pelo boicote do grupo Liberal a prefeitura


do PT. Menos gente do que seria recomen-
davel soube do local da exposicio e p6de
apreciar as fotos em tamanho de poster. A
observago de algumas delas excede o que
se pode aprender em sala de aula sobre a
repldade esmagadora deste pais:
SU Urna familiar (casal e 3 filhos) de
Iretirantes abandon o campo, no Ce-
ara, em 1983. Caminham por uma estra-
da muito bem asfaltada e sinalizada. Ao
lado, a terra esturricada pela seca, uma ter-
ra que, com toda a propriedade, o poeta
Eliot poderia chamar de desolada (ou de-
vastada). Qual a serventia da estrada para
essa gente? Pista de luxo para uma cami-
n a ssem volta'?
Crianqas brincando com ossos de
H animals (Ceara, 1983). Um menino
enfileira ossos na porta da casa, de tijolo
cru. Um outro menino, de olhar perdido,
e uma cabra, de olhar curioso, observam.
Tern os animals mais vida do que as cri-
ancas? (Nao tera sido por simples imagi-
nadao que Graciliano Ramos fez da ca-
chorra Baleia a grande personagem de
"x4as Secas".)
- Enterro em Juazeiro do Norte (Ce-
aa, 1980). Uma pessoa e enterrada
sem caixao em uma cova rasa. Quatro
decadas atras, outros severinos quiseram
morrer como cristaos, dentro de caixoes
de madeira. Organizaram uma associacao
para comprar os caix6es. Os donos do en-


0 olho invisivel


N inguem, em sa consci-
encia, pode acusar o go-
vernador Almir Gabri-
el de ter dado ordem a Policia
Military para matar os sem-terra
que obstruiam uma estrada es-
tadual em Eldorado de Carajas,
um ano atras. A biografia do go-
vernador nao autoriza essa acu-
sagdo. Mas o estilo autoritario
do govemador o levou a orien-
tar de uma forma tao desastra-
da a PM que a morte seria uma
consequ8ncia previsivel.
A hip6tese mais favoravel ao
govemador, de que os oficiais
executores de suas ordens des-
cumpriram-nas, deixando de
adotar as cautelas recomenda-
das e se excedendo em viol-n-
cia na desobstrueo da estrada,
s6 seria crivel se, alem da ime-
diata punicio do chefe da ope-


ragCo (que determinou), tives-
se demitido os responsaveis
maiores por ela (o que nao fez).
Um comandante-geral da
PM e um secretaio de Segu-
ranga Publica incapazes de ava-
liar o risco que o envio de tropa
armada exclusivamente com
fuzis e metralhadoras oferece a
uma operac~o de repressao de
massa nao merecem permane-
cer em seus cargos.
Todos viram, atravCs das
imagens da televisao, que os
policiais militares recuaram at6
um certo ponto, mas, quando
precisaram (ou quiseram) avan-
car, as finicas armas que tinham
em maos eram as de fogo. A
partir desse ponto, de compor-
tamento elogiavel diante de cir-
cunstancias desfavoraveis, os
policiais se langaram a uma
complete selvageria e, atraves
dela, a execucbes sumarias.
Cassetetes, escudos, bombas de
gas lacrimogeneo ou caes, pre-
cedidos de ostensivas manobras


de intimidac o, fizeram falta.
Todos sabiam que fariam,
mas o governador e seu esque-
ma pr6prio de informa6es ava-
liaram erradamente o "teatro de
operac6es", como se diz em lin-
guagem de estado-maior. Acha-
vam que sabiam mais do que
os pr6prios personagens do dra-
ma, embarando-lhes os papeis
e lanqando-os em uma tragedia,
literal.
Ao punir apenas os stores do
massacre, o govemador isentou
os comandantes maiores de res-
ponsabilidade por esses exces-
sos. Mas nao conseguiu con-
vencer as parcelas mais bem in-
formadas da opinimo public de
que esses chefes superiors nio
tivessem a obrigaao funcional
de saber que o que haviam de-
sencadeado iria dar resultados
muito diversos daqueles que,
depois, diriam que esperavam.
Seria como se, candidamente,
tivessem ordenado a raposas
que fossem vigiar ordeiramen-


te o movimento de galinhas
apetitosas. Cometeram, no mi-
nimo, grosseiro erro de oficio.
Ao agir de maneira tao para-
doxal, o govemador estimulou
os mais critics a supor que nao
demitiu a ambos para obter de-
les um silencio estratCgico.
Contrariados, os dois chefes
poderiam fomecer elements
suficientes para cindir de vez a
fragil explicaqo official dada a
barbarie cometida em Eldora-
do de Carajas. E, ao preceder
os atos que marcaram o 1 ano
do epis6dio, com a concessio
de foro privilegiado para o co-
mandante da PM para efeitos
penais (os civis foram esqueci-
dos ou deixados de lado), o
govemador reforgou a descon-
fianga de que a lei mais aplica-
daemrelacgo aessahist6riatra-
gica e a da ormet6, ou, como
dizem os especialistas desse
setor, a lei do silencio.
Silencio sempre fez bem a
culpados, nao a inocentes. 0


genho Canan6ia, em Pernambuco, nao dei-
xaram: os lavradores teriam que continu-
ar a ser transportados em rede ate a cha-
mada ultima morada e nela despejados
(despejo e seu moto-continuo). Dessa luta
surgiram as Ligas Camponesas, lideradas
por Francisco Juliao, filho de fazendeiros.
Disseram que queria conquistar a terra.
IV comecou aspirando ao c6u.
- Mina de ouro de Serra Pelada
S(como diz o titulo, errando na mina,
que e um garimpo), 1980. O home for-
te, sem qualquer pedago de gordura no
corpo, segura o cano do fuzil de um sol-
dado da PM que o ameaga, mas olha o
antagonista como se estivessem em con-
dig6es iguais e a arma nao passasse de de-
talhe irrelevant. Os outros garimpeiros
espalhados pela cava observam o incident
como se nao fosse incomum. O que e co-
mum na selva selvaggia amaz6nica? Mi-
chellangelo pintaria essa foto de muscu-
lo-0etesados e vontades tensionadas.
- Bairro periferico de Sao Paulo,
1990. A ca6tica fiaCio das dezenas
de ligag6es clandestinas de luz, lixo pelas
ruas de terra, dois negros pedalando bici-
cletas, um branco sobre uma moto, luz
acesa, com capacete. Sera mesmo esse um
meio urbanizado?
Sebastiao Salgado, corn sua lente ma-
gica, nao tem culpa se nao for: ele esta ali
para ver, nao para inventar. A inveng~o,
mesmo, 6 este pais. Quem foi a sua expo-
sig~o ou quem comprou seu livro, viu se
ainda tem olhos para ver. 0








0 incrivel misterio das terras em Carajas


Grande imprensa nio
deu o destaque devi-
do a uma hist6ria
simplesmente inacreditavel
que surgiu na guerra em tor-
no da privatizacao da Com-
panhia Vale do Rio Doce.
Em 1986 o Senado conce-
deu a empresa o direito real
de uso sobre uma area de
411 mil hectares em Cara-
jas. Foi a boa solucao juri-
dica dada a uma pendencia
que se iniciara 10 anos an-
tes, quando a CVRD tentou
adquirir essa terra do gover-
no do Estado. Irregularida-
des apareceram no proces-
so e o general Geisel, entao
na presidEncia da Republi-
ca, federalizou a area.
Para extrair mincrio em


Carajas, a Vale bastaria a
concessdo do DNPM (De-
partamento Nacional da Pro-
duCao Mineral), que ja pos-
suia. Mas a enmpresa sabia
que apenas o domino do
subsolo. embora suficiente
do ponto de vista legal para
a mineraaoo, nao daria a se-
guranCa do control da area,
assediada pela colonizago,.
a grilagem fundiaria e a ga-
rimpagem. Quis combinar a
autorizaCgo para a explora-
gao do subsolo cor o domi-
nio da superficie do solo,
iniciativa que a Mineraauo
Rio do Norte intentara pio-
neiramente no Trombetas
(sem ser bem sucedida, po-
rem).


Em meio ao ataque dos
que nao queriam a alienaqco
pura e simples da area e dos
que esgrimiam o limited dos
tras mil hectares. o Senado
recorreu a transferencia da
terra cor clausula resoluti-
va, ou o direito real de uso.
uma propriedade a titulo
precario, condicionada ao
seu uso. Pois bem: vencida
toda a celeuma, a poderosa
CVRD simplesmente nao
matriculou a propriedade no
registro de im6veis, como
faria qualquer dono de bar-
raco.
A inacreditavel omissao
s6 foi sanada em marco des-
te ano por um decreto do
president Fernando Henri-
que Cardoso, mas o ato foi


questionado por um grupo
de parlamentares. a frente a
deputada paraense Socorro
Gomes. do PC do B.
Eles alegaram, em um
mandado de seguranga im-
petrado junto ao Supremo
Tribunal Federal, que a con-
cessio de 1986 caducou a
partir de 1988 porque a
Constituicgo estabeleceu
novas regras naquele ano e
a CVRD nao criou situacao
juridica constituida, ja que a
concessao nao foi levada ao
registro imobiliario. Para o
ato se tomar valido, ele te-
ria que seguir novo rito e
passar pelo Congresso Naci-
onal e nao mais apenas pelo
Senado.
0 ministry Marco Aurelio
Mello, primo do ex-presiden-
te Fernando Collor de Mello,
deu a liminar. Os jomais en-
tenderam que assim estava
suspense o leilao da Vale. En-
tenderam errado. 0 leilao
p6de prosseguir. Mas o inci-
dente possibility a naago re-
assumir o dominio do solo e
deixar a estatal privatizada
apenas a concessio do sub-
solo, renegociando a partir
dai os terms da transfer-n-
cia do direito real, necessa-
rio para impedir que a pro-
vincia mineral escape, cor
sua preciosa reserve de recur-
sos naturais, a pirataria fun-
diaria e mineral envolventc.
S6 essa espantosa hist6ria.
entretanto, ji mostra como o
govemo agiu agodadamcnte
no process de venda de sua
mais preciosa estatal e como
ha falhas clamorosas na mon-
tagem desse leilao. Agora. in-
dependentemente desses as-
pectos maiores da hist6ria.
caberia reconstituir o espan-
toso epis6dio de uma imensa
corporaao que age cor me-
nos previd6ncia do que um
Joao da Silva qualquer. 0


Jornal Pessoal


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