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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00109
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00109

Full Text



Alunorte: as
vantagens da

Journal Pessoal Prinie:dso
L C I 0 F L A V I P I N T idroia 3)
ANO X N 160 1 QUINZENA DE ABRIL DE 1997 R$ 2,00 onge doPara

ECONOMIC (a


Os sonhos vao-se de trem


CJ.


-- ---- -
/
-I' ~
~.


.4


SA Albrds, a maior


fdbrica de aluminio do


w continent e a maior indfstria do

Pari, teve lucro de R$ 13 milhoes no ano


passado. jl/as acl mula prejuizos de R$ 650 milhoes e


divida de R$ 1,2 bilhdo. Sdo numeros de uma realidade que

anula os sonhos defuturo.


Em 11 anos de plena pro-
ducgo como a maior fa-
brica de aluminio do
continent e a maior in-
dustria do Para, a Albras
formada pela associa-
c9o entire a Companhia Vale do Rio
Doce (com 51% do capital) e um con-
s6rciojapones, a NAAC (com os res-
tantes 49%), acumulou 644 milhoes
de reais de prejuizo. E um valor im-
pressionante: esse dinheiro daria pra-
ticamente para pagar os salaries dos
120 mil funcionarios publicos esta-
duais durante um ano inteiro e supe-
raria a receita bruta da pr6pria Albras


ao long de todo um exercicio.
O impact desse numero pode ser
ligeiramente atenuado. Agora a Al-
bras ja esta dando lucro liquid, ao
inv6s de acumular deficits, como fez
durante nove anos. O lucro, em 1996,
foi de quase 14 milhoes de reais. Os
prejuizos acumulados, que chegaram
a R$ 690 milhoes em 1995, baixaram
quase 50 milhoes (ainda assim, bem
menos de 10%) no ano passado.
Tem-se a impressao, analisando o
balanco da empresa, diyulgado no
m6s passado, que a suavizacgo desse
perfil decorreu menos de abater a
montanha de vermelho contabil do


que de transferir para o future os de-
safios, reescalonando quanto a prazo
e custos o monstro que vem desafi-
ando a empresa: a sua divida, tanto
em moeda national quanto estrangei-
ra.
O saldo desse endividamento, prin-
cipalmente junto ao BNDES e aos
financiadores japoneses, a frente o
Eximbank do Japdo, foi de mais de
R$ 1,1 bilhdo no ano passado, ape-
nas um pouco inferior ao do ano an-
terior. A parcela maior, superior a
80% do total, 6 divida de long pra-
zo, que esta numa rampa descenden-
te fracamente inclinada. A divi- -


BLECAUTE: 0 RAIO QUE OS SALVE (pag. 4)


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2 JOURNAL PESSOAL 1I QUINZENA DE ABRIL / 1997


D da circulante e fatia menor, mas
cresceu 10% entire 1995 e 1996, cer-
tamente pelas dificuldades de caixa
da Albras, que se manteve estaciona-
da um ano com o mesmo capital (de
R$ 824 milhaes).
O faturamento bruto da empresa
caiu quase 5% entire os dois exercici-
os, de R$ 558 milh6es para R$ 533
milh6es (praticamente todo ele obti-
do atraves de exportagdo, metade dela
para o Japdo). Isso ocorreu por uma
retragao do prego do aluminio (que
alcangou o maximo de US$ 1.643 por
tonelada no mercado international,
mas chegou a baixar a ate US$ 1.368/
t). Mesmo assim, a Albras usou seu
estoque, vendendo 17 mil toneladas
alem de sua producgo de 1996, de 340
mil toneladas (5% aquem da plena
capacidade nominal da fabrica).
Tendo a Albras ultrapassado me-
tade do tempo de vida util normal da
fabrica e tamb6m da vig6ncia do con-
trato de tarifa privilegiada de ener-
gia, esses numeros deveriam estimu-
lar um questionamento serio sobre as
perspectives de um empreendimento
que exigiu US$ 1,4 bilhao de aplica-
95o direta de capital. Isto sem contar
outros US$ 800 milhies gastos na
unidade complementary de alumina da
Alunorte, cujo inicio do funciona-
mento se atrasou 10 anos em relagco
ao cronograma original e acarretou
um prejuizo cambial adicional ao pais
de um bilhao de reais, gastos durante
esse period com a importacgo de
alumina.
O salto industrial e tecnol6gico que
permitiu a montagem em Barcarena
do principal p6lo de aluminio da
America do Sul fez-se a conta de en-
dividamento, a maior parte dele em
moeda estrangeira, que hoje equiva-
le a quase todo o investimento reque-
rido e corresponde a dois tergos de
toda a divida da CVRD, e de transa-
96es correntes desfavoraveis.
Somados, os debitos da Albras e
da Alunorte (quase US$ 1,1 bilhao da
primeira e US$ 800 milh6es da se-
gunda) atingem exatamente os US$
2,2 bilh6es de imobilizac6es histori-
camente realizadas nas duas fabricas
(seus ativos somam, hoje, R$ 2,8 bi-
lh6es). A parte mais pesada das amor-
tizacges comega a ocorrer agora, pro-
longando-se ata o final da primeira
decada do pr6ximo milenio.
Isto significa que grande parte da


receita conseguida pela produgCo das
duas fibricas sera canalizada para os
agents financeiros, numa sangria
que nao s6 debilita as contas da em-
presa, como os beneficios da region
e do pais. Ha de se considerar, na ana-
lise desse significado, que a nagao
comprometeu suas pr6prias poupan-
gas, pela via direta de investimentos
publicos em infraestrutura de apoio
(como o porto de Ponta Grossa e a
Vila dos Cabanos), ou pela via indi-
reta do subsidio energetico (que ira
superar um bilhao de reais ao final
do contrato de favorecimento, em
2004) e das dedug6es fiscais e tribu-
tarias. Integralizados, esses valores
equivalem a uma fabrica nova credi-
tada a empresa atraves da associacao
compulsoria do capital public.
O que retornou para a coletividade
dessa "parceria", para usar o concei-
to enviezado desta 6poca globaliza-
da? Num dos muitos (mas geralmen-
te inferteis) debates sobre os "gran-
des projetos", uma pessoa da plateia
fez a pergunta, curta e grossa: valeu
a pena ter a Albras? O saldo do sur-
gimento desse nucleo industrial e
positive?
Tanto na apuragao dos numeros
pela fria contabilidade, como numa
avaliagco qualitativa, a resposta po-
deria ser negative. Algum dia o pre-
juizo contabil sera revertido estrutu-
ralmente e o endividamento definiti-
vamente abatido? As vantagens tra-
zidas pela empresa, com capital, tec-
nologia, emprego e infraestrutura
modern, superam qualitativamente
o desarranjo social e a desestrutura-
ago espacial que acarretou?
Ha uma dimensao digamos as-
sim- filos6fica nessas quest6es, mas,
sem abandona-las, 6 precise tambem
fazer um questionamento operacio-
nal, num nivel que parecera mais
pragmatico e tamb6m exemplar
para os relacionamentos que a Ama-
z6nia tem e tera cada vez mais com o
mundo exterior. Compensa mesmo
implantar na regiao empreendimen-
tos que representam um salto no con-
tinuo hist6rico, colocando subitamen-
te um determinado lugar numa situa-
c9o inalcangavel pelo habitante local?
Nao tendo uma relagco organica
estruturada com o espago geografi-
co e social em volta, o tal empreen-
dimento no velho modelo do encla-
ve facilmente se desconecta quan-


do seu tempo de vida util se esgota e
ali fica um vacuo, como se antes nada
tivesse existido, como se ali tivessem
pousado os deuses astronauts de fan-
tasistas como Erich von Daniken,
sucedaneos e sucessores.
Quem retornar ao arrozal que o mi-
lionario norte-americano Daniel Lu-
dwig pretendeu former no Jari certa-
mente tera essa sensagao: ali ficaram
apenas marcas arqueol6gicas da em-
preitada; o saber, captado por poucos
especialistas, nao se socializou (um
saber negative, ressalte-se: aprendeu-
se como ndo fazer plantio commercial
de arroz na varzea amaz6nica).
A este process ca6tico, cuja raci-
onalidade se alimenta de sua fungco
estrategica extra-amaz6nica, a Sudam
- quando era a porta-voz da metr6-
pole em meio aos colonizados deu
o nome de "desenvolvimento dese-
quilibrado corrigido" (no I PDA, o
Plano de Desenvolvimento da Ama-
z6nia, 1975/79).
E claro que esse esquema de ma-
nutengco dos fluxos comerciais inter-
nacionais cor ponto de partida em
uma col6nia (mesmo que de novo
tipo) envolve um risco elevado de
convulsao political e social. Mas acre-
dita-se que o Estado, cor seu poder
sancionado de coergao, atraves do
planejamento, que introduz elemen-
tos de corregdo (ainda que artificial)
no desequilibrio gerado naturalmen-
te pelos mecanismos do model, ha-
vera de manter os riscos sob relative
control. Depois, poderdo advir ex-
plosoes, como as que ocorrem cada
vez mais na Africa e na Asia, mas
espera-se que o mecanismo funcione
como o de uma bomba rel6gio, no
minimo resguardando quem a opera.
Nao havendo na Amaz6nia os an-
tagonismos raciais e tribais do conti-
nente africano, os maiores estragos
sao, a long prazo, culturais (no mais
largo significado desse conceito).
Mas antes entram em cadeia os enor-
mes prejuizos comerciais, economi-
cos, sociais, ambientais e geograficos.
Estas consequencias sao fatais? Os
que tem descartado a hist6ria have-
rao de dizer que sim, mas em cada
caso evidenciou-se uma margem de
autonomia e uma capacidade de par-
ticipagao da regiao no process que
nao podem ser ignoradas.
O que incomoda em todo o inven-
tario do complex industrial Albras-







JOURNAL PESSOAL -1P QUINZENA DE ABRIL / 1997 3




Alunorte: os beneficios da privatizacgo


N o seu segundo ano de operaCdo, a Alunorte regis-
Trou. em 199'6 prejuizo superior a 8 I milhWes de
reais. que se adiciona ao defitkit de R$ 14 mjlhoes
de I'195. chegando a quase RS 100 nulhioes NeseS doI,
penodos. a fabric de aluminia (matena-pnma do- alumi-
niol podena produzir 2.2 mnulIhes de toneladais. se ji e-ti-
vesse mteiramente normalizada. mas nio annglu nem nme-
tade desse .alor Em part porque em 19'5 lftncionoui
apenas durante quatro meses Nlas em lob a produiiio
Iicou aquem do esperado pro causa de "pra'.es proble-
mas de piojeto ocorrdos na area dC precipitado" ic'iom
admite no relatortn da diretoria
Mesmo no ano passado quando Ia poxlern ter operado a
plena cargai a quebra de produgdo tfo de 2 1'-,. dei'ciado de
produzir quase 30)' nll toneladas Soniente em 1997 a pro-
dutito da Aluniroe estara revulanzada O pre.iLizo liqmudo
conespondeu a nmas da metade do f tur:amento bruto Al.em
de ter produzido nenos. a AlJnorte se queixa de circunstii-
cias onerosas como a nterrupyao no ltbriecimnento de ener-
gna especial por imais de tries nilees, obriuando-a a uIS.ar ener-
aga cara na Lerai5o de vapor, e o atrao na enlie-a e comas-
sionamento do descarregador de bauLita. no10 dejlando-lhe
outra alternaniva senio recorrer a na', os de inenor eficilenci.
e maiores culstos
A diretoria consider ter readizado numa taf~tnha rio long(


do ano passado possibil tou a plena operaao da ffibnca.
meUhorou o pertil de sua di',ida (-alorn'ando a mnornza<;o e
reduzindo o seu cuto) e captou Io'.os rectirsos (mnims 210
mnilhes de d es pra dcaes esatfo-;a o l se fltixo de caia. que
esta a proximo do colapso Ainda assimn, assusta LonsilSal
que a dida.i consolidada, que 'ai ser paga a pair de agora,
eqiulale a rudo o quie tbf gasto para construir a fabnca. a
nmaor fonie didi\idual de alumina do pais RS 800 nmilh6es
Ou seja paga-se ,duas tlhbnc:s para que uma ifncione
Por caiLLa. da coimplcxa engenharia exigida para tirar a Alu-
norte d,, sono p-s.ado em que fori nannda duramiae sete anjtl
(pur uml error esTatecgico da Vale do Rio Doce). numr hilber-
nu' o que cunstou uln billiio de dolares. a emnpres~ foi a pn-
nmera que tfiglu ao control da CVRD na Amnazonia :) acor-
do de acloni'.tas de 1993 prI,.alzou a Alunorte antes que os
neoliberais nao-bobiltas (de ibobos eles n.o temn nada) so-
nliasse em colocar no mercado a desestatizaqao da Vale
No entanlo. a renegociaq;o da imensa dividaL corn aval do
tesouro national e usando o peso da estal.d, beneficion-se da
condii5o onanal da Vale como nenhuma outra empresa par-
ticular conseLuinria NMemo Ja naiuo sendo o socio mnaloritaro
da empresa. o gov.ernm: federal. diretanente ou atraves de sua
xnitia empresa conntolada, concede vauntaens excepcionams
a Alunorte Es;.e de:ilhe tem sldo i nlorado nuia epuca em
que ;e destaca apena o contraro Nio por acaiso


Alunorte e que ainda estejamos ex-
portando um bem minimamente be-
neficiado, o lingote de aluminio,
quando poderiamos ter avangado na
tal da cadeia produtiva, a qual todos
agora se sentem no direito de se refe-
rir, sem a devida obriga9go de trans-
forma-la em algo mais do que figure
de retorica.
Da mesma maneira como impuse-
ram a soluqgo da ferrovia privativa
ate um porto de aguas profundas no
litoral, indepenentemente de qual-
quer outra consideraqIo, de calculo
econ6mico ou de convulsdo patri6ti-
ca, os s6ciosjaponeses estabeleceram
o produto industrial mais eletrointen-
sivo que existe, a barra de metal de
aluminio, como o resultado final de
toda a cornucopia de dinheiro envol-
vida. E pt saudag6es ou, para ser fiel
ao cenario, arigat6.
Mas sera que a CVRD, comprome-
tida com o Estado que lhe dara os di-
videndos do future (se ela nao for pri-
vatizada), ao menos tanto quanto corn
seus parceiros orientals nos pianos
mundiais avalizados pelo doutor Eli-
ezer Baptista, nao poderia ter for9ado
induistrias paralelas, incentivando-as a


partir da oferta do aluminio liquid?
E uma pergunta que cabe tanto
quanto, anos atras, diante do projeto
de Ludwig de montar uma industria
integrada de aluminio com s6cios que
nao faziam parte do cartel das seis
irmas, fora recomendavel colocar de
lado as visagens geopoliticas dos nos-
sos descompassados 6rg.os de segu-
ranga e apostar nesse caminho alter-
nativo.
Ap6s a crise mundial da energia,
na d6cada de 70, o Brasil (e o Para
nele como destaque) foi a grande no-
vidade na economic aluminifera.
Mas, ao inves de quebrar os grilh6es
do cartel, deixou de aproveitar a as-
sociacgo com os japoneses, obriga-
dos a realizar a maior transfer6ncia
industrial deste s6culo. Acabou sub-
metido as regras da carteliza9~o por
ter fechado um acordo leoninamente
vantajoso para os japoneses (no co-
mando das negociagoes estava o sr.
Shigeaki Ueki, ministry das Minas e
Energia do general Geisel).
Fatalidade? E pouco provavel. Nao
foi fatalidade o blecaute de 1991, atri-
buido a um imprevisivel raio: foi erro
gerencial, para dizer o minimo (ver


mat6ria a respeito nesta edigio).
Como resultado de um prejuizo de R$
70 milhoes cor a interruppgo da ofer-
ta de energia durante 12 horas, a Al-
bras ainda.discute cor a seguradora
uma pend&ncia de R$ 18 milh6es sem
cobertura. E 50% mais do que o lu-
cro do ano passado. DA uma ideia d
ordem de grandeza nas quest6es en-
volvidas.
Incapaz de detectar as situag6es no
moment mesmo em que elas sdo
criadas e de ter um dominio da ex-
tens.o dos processes que aqui emer-
gem na figure dos "grandes projetos",
usando por isso uma agenda desatua-
lizada, a Amaz6nia talvez s6 venha a
se dar conta de sua hist6ria cotidia-
na, no que ela ter de contempora-
nea, quando o tempo, como o trem
simb6lico sempre usado para defini-
lo, tiver passado.
Leva o comboio os sonhos e as ilu-
soes, como, na forma concrete de re-
cursos extraidos da natureza, os trens
de ago de cada dia levam para o alto-
mar as sementes reais desse sonhos
idealizados. Eles estao indo parar
bem long, tdo mais long no espago
quanto no tempo. *







4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE ABRIL / 1997


So dia 8 de margo de
1991 a linha de trans-
missdo de energia da
hidrel6trica de Tucu-
rui sofreu, menos de
Ssete anos depois de ter
comecado a operar, seu maior aciden-
te, permanecendo desativada duran-
te 12 horas. Seis anos depois, na se-
mana passada, um novo blecaute -
nao nas dimens6es do anterior, mas
o mais grave desde entdo voltou a
ocorrer. A area mais densamente po-
voada do Para, em torno da capital,
ficou durante quase toda a tarde da
quinta-feira santa sem energia.
Para 2,5 milhoes de pessoas, foi um
enorme transtorno. Mas para o mai-
or consumidor individual de energia
do pais, a fabrica de aluminio da Al-
bras, em Barcarena, nao tanto. A Al-
bris, que, sozinha, detem 1,5% de
todo o consume brasileiro de ener-
gia, anunciou prejuizo de 264 mil
d6lares por ter deixado de fabricar
160 toneladas de lingote de aluminio.
O principal dano, o desaquecimento
dos fornos, desta vez nao aconteceu.
Eles foram mantidos acesos at6 o res-
tabelecimento da energia de Tucurui.
No acidente de 1991 o prejuizo da
Albras foi de US$ 70 milh6es, s6 par-
cialmente coberto pelo seguro (ver,
a respeito, outra mat6ria nesta edi-
go). Foi um dos mais longos blecau-
tes ja sofridos por uma industria de
aluminio em todos os tempos no mun-
do inteiro. Se se prolongasse mais um
pouco, teria forgado a destruicgo dos
fornos e praticamente o reinicio da
fabrica de aluminio, a maior do con-
tinente sul-americano.
Na epoca, a Eletronorte anunciou
que a interrupcao no fornecimento da
energia de Tucurui tinha sido causa-
da por um raio. A explicagdo official
permanece at6 hoje. Mas este jorna-
lista mostrou que o acidente resultou
de erro de comissionamento de uma
peCa de uma das torres de alta tensdo
existentes ao long da linha entire
Tucurui e Vila do Conde, corn 380
quil6metros de extensdo. De qualida-
de inferior a declarada no recebimen-
to, a pega teve um tempo de vida 6itil
mais curto do que o previsto em sua
declarada especifica9go.
Ao inv6s de resultar de um elemen-
to aleat6rio, o acidente foi conseqi-
&ncia das condicqes de construqgo e
manutenyco da linha. Ngo foi a natu-


Blecaute: o raio paga


a conta dos humans


reza, mas c home quem o provo-
cou. Por isso, a hist6ria real desse
blecaute record deve ter influido tan-
to na litigiosa negociacao entire a Al-
bris e a empresa seguradora, quanto
pesado sobre a estrategia da empresa
para enfrentar situagdes de risco de
energia.
Apesar de a fabrica consumer o do-
bro da energia absorvida por Belem,
com seus 1,2 milhdo de habitantes, o
suprimento de energia continue a ser
feito por uma linha singela. A dupli-
cacao, ao custo de US$ 80 milh6es,
ja esta em andamento, num ritmo
mais lento, porem, do que a gravida-
de da situagAo impoe, como o novo
blecaute voltou a alertar. Pelas novas
regras do financiamento internacio-
nal, a nova linha tera que servir nao
s6 a fabrica, mas tambem a popula-
cao da area de influ6ncia, parte dela,
durante esses anos todos, nada mais
do que contempladora da energia em
alta tensao que passa sobre suas ca-
becas.
A nova interrupyco mais demora-
da no fornecimentp bemn que poderia
estimular os paraenses a pensar corn
alguma consequencia sobre esta pro-
vincia energetica. E a terceira maior
do pais, superada apenas pelo Para-
na e Minas Gerais, considerando-se
o que transferem esses tr6s Estados
de energia para outras unidades fe-
derativas.
Mandar energia para fora 6 o pior
tipo de sujeicgo colonial nestes tem-
pos de carencia ou encarecimento das
fontes de suprimento. A desvantagem
commercial adiciona-se o peso fiscal,
ji que o Estado gerador foi penaliza-
do corn a aliquota de 17% e o consu-
midor favorecido pela desoneragao
do ICMS sobre a energia. Ou seja:
Para, Parana e Minas Gerais, obriga-
dos a transferir uma parte ou a maior
parte da energia produzida em seu
territ6rio, nao souberam ou nao con-
seguiram estabelecer political com-
pensat6rias a altura do dano que so-
freram (o Para mais do que as demais
provincias).
O p6ssimo saldo negative result


do estado de inconsciencia da socie-
dade sobre sua pr6pria condiyco de
produtor eletrointensivo. E inacredi-
tavel que, passados seis anos e suce-
dendo-se novos acidentes na linha de
transmissio, a opiniio public nao
tenha conseguido restabelecer a ver-
dade sobre o epis6dio de 1991.
E verdade que agora a Eletronorte
forneceu didaticamente as explica-
96es sobre o que ocorreu na semana
passada. As causes do desligamento
da linha, entretanto, ainda nao foram
identificadas. E important que a
imprensa acompanhe o trabalho dos
tecnicos para verificar o que realmen-
te aconteceu. E, se for o caso, che-
que o comunicado official com a rea-
lidade, indo alem do oficialismo
Sabe-se que os investimentos no
sistema de transmissao montado a
partir de Tucurui tmr sido decrescen-
tes e seletivos. Diante do quadro de
insufici6ncia, a Alumar a fabrica de
aluminio instalada pela Alcoa em So
Luis patrocinou a duplicagyo da li-
nha para o Maranhao, ressarcindo-se
num encontro de contas com a Ele-
tronorte.
Uso social
Albras tem sido mais reticen-
te (seria o toque da influ6ncia
oriental, parceira no da Com-
panhia Vale do Rio Doce no empre-
endimento, ou coisa mesmo de naci-
onais?). Mesmo sabendo do risco a
que esta exposta, sua delicada situa-
c9o financeira a faz procurar um di-
nheiro a custo quase impossivel por-
que a fundo perdido.
Corn isso, o uso social da energia
se torna impossivel. Mas sera mes-
mo uma impossibilidade tecnica?
Uma parcela do setor energetico faz
sugerir ou declara explicitamente
- que sim, mas outra ala apresenta
soluc9es que nada tmn a ver corn as
caras e restritivas linhas de transmis-
sao em alta voltage, como a mais
nova, a do Tramoeste, que se inicia.
Uma solugao perfeitamente aplica-
vel ao caso dos municipios situados
na area de influ6ncia da linha, mas






JOURNAL PESSOAL -1P QUINZENA DE ABRIL / 1997 5


0 calor e a artimetica

do poder no PSB


cujo baixo consume torna inviavel o
rebaixamento da energia, sao os para-
raios energeticos. Essa alternative
dispensa a construcgo das subesta-
c6es, cor custo que se conta por de-
zenas de milh6es de reais e que tal-
vez, justamente por isso, nao seja
muito atraente para empreiteiros e
seus satelites.
i incrivel que o Para continue ex-
cluido dos projetos pioneiros nesse
setor, enquanto centenas de milhoes
de reais sao programados para as
obras convencionais de transmission
de energia por grandes distancias em
altas tensoes, s6 acessiveis aos gran-
des consumidores.
Nesse quadro de conhecimentos e
expectativas, nao espanta que nas lar-
gas costas de imponderaveis raios
sejam langadas as culpas por aciden-
tes que tnm na impericia, neglig6n-
cia ou improbidade dos homes a sua
causa, tanto as imediatas, ligadas a
acidentes, como as distantes, oriun-
das das estruturas. A mudanga para
valer exige, portanto, mais do que a
simples troca de peas. 0


omo e que "dezenas de mili-
tantes" do PSB (o PSB "chapa
branca", como dizem seus
opositores) conseguiram vir de diver-
sos municipios do interior do Estado
para participar de um ato de apoio ao
governador Almir Gabriel, realizado
na semana passada em Belem?
Os organizadores da inflada cara-
vana garantem que ela pr6pria cus-
teou suas despesas de deslocamento
do interior e manutenygo na capital,
mas a direydo do PSB acusa o presi-
dente do Ipasep, Antonio Fonteles de
Lima, dissidente do partido, de ter
bancado as despesas cor dinheiro
do institute.
Os reporters presents ao even-
to, que teve como palco o impropri-
amente chamado "palacio de despa-
chos" do governor do Estado, n.o se
deram ao trabalho de checar o total
exato de aderentes e os cargos que
realmente ocupam. O Diario do
Para limitou-se a reproduzir um
press-release da assessoria do gover-
nador falando em "liderangas" do
PSB de 32 municipios, mas A Pro-
vincia do Para s6 relacionou 25
municipios.
Entre eles estao os mais importan-
tes do Estado, mas como o Partido
Socialista Brasileiro se organizou em
120 municipios, ao menos aritmeti-
camente (ou nominalmente) Fonte-
les esta em minoria diante do seu
hoje opositor, o senador Ademir An-
drade, que mant6m o control da di-
recao partidaria no Estado.
Mas a pompa e circunstancia con-
feridas pelo governador ao ato de
apoio dos correligionarios arreba-
nhados pelo seu pol6mico auxiliary
mostram que Almir Gabriel preten-
de mesmo solapar as bases da can-
didatura de Ademir ao governor do
Estado, prevenindo-se contra uma
concorr6ncia liquid e certa. Tudo
indica que o senador dito socialist
sera o unico dos candidates ja lan-
cados que se colocara, de qualquer
maneira, do lado oposto ao do es-
quema de reeleicgo que Almir vem
montando com uma paciencia, uma
argucia e um maquiavelismo dignos
de um Jader Barbalho.


Ndo ha possibilidade de que Ade-
mir possa encontrar pontos de con-
vergencia compensat6rios para vol-
tar atras em seus sonhos de ocupar o
principal cargo da administracao pu-
blica estadual. A partir da aprova-
aio da reeleicgo para os cargos do
executive, o confront com Almir
Gabriel passou a ser o destino inevi-
tavel, embora o esquema operacio-
nal ate entao usado para consolidar
o nome do lider do PSB no interior
fosse o Ipasep de Fonteles.
Agora, sem uma maquina official,
Ademir Andrade tera que contar ape-
nas cor seu carisma e a estrutura do
PSB, fracionada a partir do momen-
to em que Fonteles, com seus pr6-
prios pianos politicos, se recusou a
deixar o Ipasep e passou a desafiar a
at6 entao incontestavel lideranga de
Ademir no partido.
Saber ate onde vai o calor official
dentro do PSB, ainda que acionado
por via alternative (ou clandestine?),
e um dado important para medir o
f6lego e a forca que Ademir Andra-
de podera ter no pr6ximo ano como
adversario do primeiro governador
com licenga official para disputar, em
tempo integral, a permanencia no
poder,
A margem dessa dispute antecipa-
da, ha a sorte do pr6prio institute. 0
pensamento do governador sobre o
Ipasep parece bastante claro: reme-
ter o atendimento medico dos asso-
ciados para o SUS ou os pianos de
sauide, mantendo apenas as pens6es
e aposentadorias. Para essa orienta-
ydo se estabelecer saudavelmente, o
normal seria o saneamento das pen-
d6ncias do institute, para que ele pu-
desse comecar limpo a nova vida,
enterrando suas sequelas e suspei-
96es.
Os ziguezagues de Fonteles, entre-
tanto, estdo muito long desse pa-
drdo. Mas, talvez, suficientemente
pr6ximos dos pianos politicos do go-
vernador para que ele, por enquan-
to, prefira levar como da, a maneira
dos velhos sobas da political paraen-
se, em cujo rol, aliAs, Almir Gabriel
se integra com merecimento cada
vez maior. 0







6 JOURNAL PESSOAL 1 a QUINZENA DE ABRIL / 1997


ader Barbalho recebeu uma
marca indel6vel (e indestruti-
vel) quando, no inicio do seu
primeiro governor, emergiu para o
public uma complicada operacgo de
desapropriacao da maior area conti-
nua existente na regido metropolita-
na de Belem, no Aura, para que nela
viessem a ser construidas nada me-
nos do que 35 mil casas populares. A
obra iria ser executada por uma em-
presa cujo dominio acionario fora
transferido, um pouco antes, a Jos6
Maria Mendonga, o principal finan-
ciador da campanha eleitoral de Ja-
der em 1982 (que dizia nela haver
aplicado o equivalent a dois milh6es
de d6lares).
O mesmo Mendonpa, que a partir
do epis6dio foi caindo em desgraga
junto a Jader, esta por tras de duas
empresas, a Eccir e a Copala, em tor-
no das quais foi montado, ja agora no
governor Almir Gabriel, um esquema
duplamente triangular destinado a


salvar aquela que 6 apresentada como
"a unica siderfrgica do Para", preser-
vando os 372 empregos diretos que
ela proporciona.
A Copala ja nao 6 "a unica side-
rurgica do Para". Em.Maraba funci-
onam outras duas, produzindo ferro-
gusa. Mas a Copala, com 46 anos de
vida, vem nos ultimos anos equili-
brando-se precariamente a base do
beneficiamento de sucata. Sua mais
celebrada fungdo, entretanto, tern
sido a de queimar em seu her6ico
alto-forno drogas apreendidas pela
policia. Corn tudo e contra tudo, 6
uma das poucas induistrias que sobre-
vivem na terciaria Belem e seus em-
pregos sdo preciosos. Nao pode sim-
plesmente ser descartada, deixando
a mingua chefes de familiar.
Uma formula salvadora teria que
ser tentada para a empresa. O incon-
veniente, talvez, tenha sido o de que
essa said foi gerada em gabinete e
executada sem uma convenient


Outra hist6ria?


Razao sonante


A mainou, por enquanto, a ffiria do grupo Liberal contra o
refeito Edmilson Rodrigues. As campanhas sumiram
dos veiculos das Organiza96es Romulo Maiorana, sobrevivendo
apenas notas esparsas e critics obliquas. A infletida ainda nio
se deve a presses da opiniio p6blica.
Como sempre ocorre com as orienta96es edi-


toriais da
corporagao,
o interesse
do neg6cio e
que fala
mais alto:
entire os dias
25 e 28 de
setembro
Ronaldo
Maiorana
espera fatu-
rar com o
Para Folia,
um carnaval
fora de 6po-
ca de alta
rentabilida-
de (custa
para o foliao
muito mais
do que as
micaretas
nordesti-


Pinoquiada
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nas). A promocao precise da licengamunicipal, como foi lem-
brado na sede dojornal O Liberal outro dia, um pouco antes
de baixar a ordem de atenuar nas tintas.
Nao cabe a prefeitura aproveitar esse poder para retaliar,
mas 6 sua obrigayao agir cor rigor diante de uma crescente
S licenciosidade que vem privatizando areas piTblicas


f io, Ilrlu a.. (J.azucu J,.
l'.i ',/' ( I ( u io/l'a Jib), .

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Bri, lthi'ense. A lua/,
l" 4/lai dt l.,/IidriIia L, L /I
14" I tau; ()I t ic',.al

IiH I tlt i Vti .' tri\'iiP1 t,


de Bel6m. Os
Maiorana
nao sao os
unicos que se
aproveitam
dessa parce-
ria de pe que-
brado para
faturar mais,
e certo, e por
isso os olhos
municipals
devem olhar
em torno da
cidade
(como na
PraqaKenne-
dy, tomada
de assalto
pelo Afrikan
Bar). Mas so
os mais pode-
rosos donos
da cidade.9


prestac.o de contas a opinido publi-
ca. Chamada a referendar a oficiali-
zagao do ato, a imprensa, como de
habito, deixou de fazer as perguntas
pertinentes.
O esquema adotado trouxe dois
tubos de oxigenio para a empresa. Por
um, v6m 500 mil reais, dinheiro que
o Estado deve a Eccir e que decidiu
repassar para a Copala, capitalizan-
do-a para ela poder voltar a funcio-
nar. Por outro, a empresa, ameagada
de falir definitivamente, deixa de pa-
gar uma altissima conta com a Celpa
(fala-se em varias centenas de milha-
res ate mesmo de milhao de re-
ais), compondo o debito em condi-
96es mais favoraveis.
Em troca, a empresa cede ages aos
seus empregados, que passam a ser
avalistas da exacgo na aplica@go do
dinheiro e no usufruto das vantagens.
A cota que coube aos trabalhadores
foi de 20%, o que os mantem na con-
diygo de minoritarios. Nao poderia
ser mesmo mais do que 20%? O es-
quema 6 a prova de surpresas desa-
gradaveis? *






JOURNAL PESSOAL -1 QUINZENA DE ABRIL / 1997 7



Hidrovias: Para fica fora de rota


Amenos badalada e a mais ba-
rata das hidrovias projetadas
pela nova matriz de transpor-
tes da Amaz6nia entrou em operacao
no m6s passado, mas nao fica no Para,
Estado que tern outras duas vias a
do Araguaia-Tocantins e a do Tapa-
j6s mas at6 hoje nao conseguiu faz6-
las avangar da ret6rica para a reali-
dade.
As primeiras barcacas transportan-
do soja embarcada em Porto Velho, a
capital, de Rond6nia, comegaram a
chegar ao recem-concluido porto de
Itacoatiara, no Amazonas, de onde
seguirao para Roterdam, na Holanda,
encurtando esse percurso de expor-
tacao em 569 quil6metros e reduzin-
do o custo do frete em 30% em rela-
9go a said pelos portos de Parangua
e Santos.
Ainda nao 6 o caminho mais atra-
ente. Ele esta entire Balsas e o porto
de Itaqui, no Maranhdo, por onde sera
mais rapido e barato chegar ao mer-
cado europeu, mas a area de conver-
g6ncia da producgo em torno de Ita-
coatiara ter um potential maior.
Alem de gerar uma nova zona de pro-
ducgo, ela certamente vai atrair para
si parte consideravel da carga que
vinha seguindo para Sdo Paulo e Pa-
rana.
Mas desde ja a hidrovia do Madei-
ra deixou para tras suas concorrentes
paraenses do Tapaj6s e do Araguaia-
Tocantins. Ela se viabilizou porque
era, na pior das hiopoteses, quatro
vezes mais barata do que os dois ou-
tros eixos e, tecnicamente, mais sim-
ples de executar. A do Tapaj6s tern
um modal a mais (a perna rodoviaria


A Folha de S. Paulo
promove em campanha
publicitaria a alegada
sinceridade (alias,
extremada) de seus
profissionais. Numa das
peas, sao descritas as
"sugest6es do Chef
Cl6vis Rossi" (Rossi e
um dos poucos
rep6rteres brasileiros
verdadeiramente


entire Alta Floresta e Jacareacanga) e
a do Araguaia-Tocantins ter o com-
plicador das transposi96es da barra-
gem de Tucurui e das corredeiras de
Santa Isabel.
O tempo de antecipagao com que
a discussed sobre as duas hidrovias
em territ6rio paraense vem sendo tra-
vada nao significou vantage porque
o debate avancou pouco da area aca-
d6mica para a executive e, mesmo
naquela, nao parece ter sido um dia-
logo bem posto a mesa.
No caso do Madeira, uma empre-
sa particular com tradi9go e experi-
6ncia, o grupo Maggi, liderou a ini-
ciativa com tanta aplicagao que aca-
bou entrando com apenas um quarto
dos recursos financeiros que viabili-
zaram a nova hidrovia at6 um porto


Questdo de 6tica


internacionais), nas
quais a listagem dos
pratos, como uma
codorna cor polenta,
s2o adicionados
comentarios
imprevisiveis, como "se
fosse frango, ia ter o
mesmo gosto. Alias, tern
dia que e frango", ou
sobre a "especialidade


da casa", que seria
"queimar o crepe".
Exemplos assim
criados corn sagaz
imaginagao pela agencia
publicitaria serviriam
para atestar que "algumas
pessoas sao tao sinceras
que s6 poderiam escrever
na Folha".
Ja a interessantissima


privativo, o dela (o BNDES e o go-
verno amazonense bancaram quase
75% do orgamento da obra). O resul-
tado 'atesta, mais uma vez, que deter
informag6es e a ideia geral do pro-
cesso 6 o que vale mais.
Os paraenses nao contaram cor
esse capital e continuam a nao dis-
por dele. Sair atabalhoadamente atras
do prejuizo 6 o pior que pode aconte-
cer agora que foram deixados para
tras. A rodo-hidrovia do Tapaj6s,
anunciada como um investimento de
254 milh6es de d6lares, e complica-
da o suficiente para ser examinada
cor toda a circunstancia. Nao ha uma
lideranga de um unico grupo empre-
sarial, mas a dispersdo de interesses
e uma ocupacgo ainda desordenada,
corn algumas mazelas do passado
(como a exploraqgo predat6ria dos
recursos naturais).
A conclusdo da iniciada rodovia
Alta Floresta-Jacareacanga pode ser
uma fonte de problems semelhante
a Transamaz6nica, sem incorporar as
licoes que essa aventura anterior ja
deu. A regiao, alias, e mantida ao
deus-dara, como se nao fosse para-
ense
O grande problema 6 que o Para
nao tem uma visdo estrat6gica de seu
pr6prio territ6rio, repetindo como la-
dainha plataformas mal formuladas
do passado e desligadas de um senti-
do pratico. Sua grandiosidade, que
poderia ser um fator de impulse, ser-
ve de pretexto para o amesquinha-
mento das mentalidades, numa con-
trafagco que tanto mal tem feito ao
Estado e, pelo jeito, continuara essa
safra de maleficios.


segao "Erramos" do
journal (a que leio cor
maior prazer) parece
indicar que a louvavel
virtude da sinceridade
nao 6 complementada
pela indispensavel
competencia em muitos
dos profissionais da
folha dos Frias. Bom em
alardear o bota-ovo, mas
nem tanto em bota-lo








Atras das
cameras
Quando o teleprompter
surgiu, em meados da deca-
da de 80, os que na televi-
sao tiveram acesso pionei-
ro a essa engenhoca eletr6-
nica fizeram sucesso: o pu-
blico se espantava cor a
fantastica capacidade de
memorizacgo e dominio dos
assuntos que os locutores
exibia- .aresentando as
io6ticiahB Q4al fluencia,
Ssemqihar par NAIxto, co-
kloca' icom estul a displi-
..c nciFAobre a baCada.
Numa enquete da revis-
ta Imprensa, Cid Moreira,
que nao diz um ai fora do
texto que Ihe dIo para ler,
chegou a ser eleito o me-
lhor jornalista do pais o
que o excelente locutor ja-
mais foi, para o ben ou
para o mal.
Revelado para o public
o segredo do equipamento
acoplado a camera de TV,
que permit ao apresenta-
dor ler o texto sem preci-
sar desviar os olhos da len-
te, a coqueluche agora e
improvisar. Todos querem
demonstrar que nao sao
apenas filhos do tele-
prompter.
Alguns, cientes de suas
limitag6es, restringem as
improvisac6es a ensaiados
olhares para os lados e a
uma leitura mais solta do
texto exibido no aparelho.
Soo os bons locutores adap-
tados a nova situacgo, con-
vencidos de queja nao po-
dem se limitar a ser ventri-
loquos da eletr6nica.
Mas os jornalistas pro-
priamente ditos arriscam
improvisac6es para valer,
fazendo blagues, acrescen-
tando comentarios extra-
texto, procurando o molho
para temperar o pr6-cozido.
Todos querem o seu lugar
na nova era pos-Cid Morei-
ra. Mas ai 6 exigida uma
combinacdo de acuidade e
brilho, de conhecimento e
criatividade, de solidez da


informayco e dominio do
veiculo que ainda poucos
jomalistas de television pos-
suem (mesmo porque nem
todos sao engragados ao
vivo como Ricardo Boe-
chat).
Num pais em que B6ris
Casoy e ancora, em adap-
tacao mambembe de um
padrao que, nos Estados
Unidos, alcangou os picos
cor Walter Cronkite e se
sustenta cor Peter Jennin-
gs, mas aqui permanece
inalcangado, nao 6 tarefa
facil como pode parecer
quando ancorar o noticia-
rio limita-se ao lanCamen-
to de interjeic6es morais.
Resta ao telespectador
suportar as gags dos nossos
jornalistas do video, supos-
tamente cheios de humor,
veneno e picardia quando
improvisam diante das ca-
meras. E o preyo, em real,
da evolu io da television
brasileira. E ter compreen-
sdo cor ele.


Ineditismo
Ojuiz Helder Girio Bar-
reto acolheu aydo contra a
pratica de nepotismo impe-
trada pelo promoter Edson
Danatas da Silveira e man-
dou que fossem demitidos
10 parents de desembarga-
dores q yocup4Vm carg4,
comissio] dos "e'l -
tes no Tribui'al dj.liti~ a
do Estado. Os demitidos
sao mulheres, filhos, ir-
maos e cunhados de seis
desembargadores, coloca-
dos sem concurso no ga-
binete da presid6ncia, na
vice-presid6ncia, na asses-
soria juridica e em outras
areas estrategicas, cor sa-
larios de at6 tr6s mil reais.


Um unico desembargador
nao empregava parents.
O juiz que deu a decisao
in6dita e o promoter que a
provocou atuam na 2a vara
do f6rum de Boa Vista, em
Roraima,

Desculpa
esfarrapada
O president do senado,
Antonio Carlos Magalhles,
embarcou numa interpreta-
~ao no minimo ex6tica para
poupar seu colega, Gilber-
to Miranda, senador pelo
Amazonas, de ser proces-
sado por quebra do decoro
parlamentar.
O irmao do ex-secretario
de desenvolvimento regio-
nal na administragao Collor,
Egberto Batista (responsa-
vel, entire outras coisas, pela
liberagao das cotas de im-
portagyo da Zona Franca de
Manaus, onde se fatura 10
bilh6es de reais), ameacou
de morte o senador Vilson
Kleiniibing, de Santa Cata-
rina, que o teria acusado (o
que, na verdade, nio fez) de
participar do escandalo dos
precat6rios. O senador ca-
tarinense sofre de cancer.
Como a ameaca foi feita
no gabinete do president
do senado, nao estaria ca-
racterizado um ato public,
dispensando o poderoso
ACM a sua apuracgo. Por
consequ6ncia, essa depen-
d&ncia do patrimonio pui-
blico passou a equivaler,
para efeito pratico (que, no
Brasil, costuma se sobrepor
a forga da lei), a territ6rio
diplomatic de um pais fic-
ticio, mas que pode tender
pela designaqco de Repui-
blica da Malvadeza.
Cor isso, dois coelhos


Journal Pessoal
Editor. Lucio Flavio Pinto
Reda;ao: Passagem Bo:nnha. 60-B i 66 053-020
Fone- 223-1929 e 241-7626
Conlalo: Try. Benjamin Conslant. 8451203 i 66 053-020 Fone: 223-7690
e mail lucio@expert.com br
Ediloracao de arte. Lulzpe / 241-1859


foram mortos de uma so
cajadada (ou penada, tra-
tando-se de politicos). Um:
o crime revoltante de ame-
aga a integridade da vida
ficara sem punicao. Dois:
a devida apuragao sobre o
impressionante enriqueci-
mento do senador Miran-
da continuara coberto pe-
las brumas da lenda.
Ao tomar conhecimento
do epis6dio (revelado em
furo por uma coluna dejor-
nal, a frente dos reporters
setoristas), lembrei-me de
minha pr6pria experi6ncia.
Fui agredido e ameagado de
morte em um dos acessos
ao forum de Belem por um
advogado, Calilo Kzan
Neto. Reclamei provid6nci-
as a OAB. O relator do pro-
cesso disse que o local nao
caracteriza um delito come-
tido no exercicio da profis-
sdo, descabendo a entidade
apura-lo. Era como se a
agressao tivesse ocorrido na
geral de campo de futebol
e o agressor fosse um tor-
cedor uniformizado.
Cor essa conivencia
disfargada, a viol6ncia
avanca e os interesses da
sociedade encolhem. De
lesdo em lesao aos direitos
individuals chega-se a vi-
olagao dos direitos coleti-
vos. E sabemos no que essa
escalada result. Adolf sa-
bia e saiu na frente.

Saber sobre

rodas
A Secretaria Municipal
de Assuntos Juridicos de
Helio Gueiros dispunha de
uma frota de 24 veiculos,
sendo 13 autom6veis, oito
motocicletas, duas kombis
e um 6nibus. Pode-se dizer
que, por ali, os pareceres
circulavam sobre rodas.
O PT, que pediu (e obte-
ve) a isengco de IPVA para
essa frota juridica, deveria
tratar de providenciar um
just destino para a maior
parte dela: a licitagdo pu-
blica para venda.