Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00108

Full Text





Jornal Pessoal s
U CI F L A V I P I N T 0 pSivam
D. na Surdina

POLITICAL



A guerra dos brancos


Contrariado por ndo receber a divida de 1,2 milhado de reais deixada por
Hilio Gueiros, o grupo Liberal declara guerra aberta a administragdo de
Edmilson Rodrigues em Belim.
Mas pela primeira vez


No final da semana pas-
sada comegou em Be-
16m um movimento
com ares de novidade:
pequenos grupos passa-
ram a se reunir para ava-
liar o confront entire o grupo Liberal e a
prefeitura de Bel6m. A partir do exame
que se prop6em a fazer, podem tomar
uma posi9go em relagao a essa guerra, ja
abertamente declarada. Ao long da se-
mana, as reunites informais iriam de-
sembocar em pelo menos dois encontros
mais articulados, na quinta e na sexta-
feira, um deles promovido por stores
da igreja e outro por pesquisadores de
institui6es cientificas. Conforme o re-
sultado das discusses, os envolvidos
Z


podem tomar decis6es, como deixar de
comprar o journal, para marcar sua posi-
9o0.
A preocupagao com a questao e a dis-
posigdo que segments importantes da
sociedade estao manifestando evidenci-
am que o litigio entire o maior grupo de
comunicaqoes do Estado (e do Norte do
pais) e a prefeitura da maior cidade da
regido podem, finalmente, deixar de ser
uma questao privada para assumir sua
condig9o public. De um lado porque,
mal conduzida, a querela pode compro-
meter a gestao dos assuntos municipais.
De outro lado, porque desinformara o
cidadao, sujeitando-o a manipula96es.
Nao esta em causa a liberdade de im-
prensa: os various grupos que espontane-


amente se articularam na cidade nao
questionam o direito de critical, que re-
conhecem e defendem. Mas estAo cada
vez mais convencidos de que nao 6 legi-
tima a origem da campanha que o grupo
Liberal desencadeou contra a prefeitura
do PT, nem ela visa o bem pfiblico. Ao
contrario, 6 conduzida para tender os
interesses da corporagao e forcar o pre-
feito a sujeitar-se a eles.
A cobertura dos veiculos do grupo
Liberal as atividades da administraego
municipal petista era normal (mediocre-
mente normal, conforme o padrao da
casa) ate que surgiu o impasse em torno
do d6bito de 1,2 milhao de reais deixa-
do por H61io Gueiros. A negociaao che-
gou a ser iniciada, mas se tornou w-


1 ~ 0- VAO A -m S: 30 DIHERO (p-.







2 JOURNAL PESSOAL -2' QUINZENA DE MARCO / 1997


- dificil quando os representantes da
empresa estabeleceram algumas condi-
90es:
1 O valor estabelecido nao poderia
ser alterado.
2 A quitacgo teria que ser feita no
mais curto espago de tempo possivel (ini-
cialmente, em intervalos de 10 dias, de-
pois prolongados para um mes, em tr8s
parcelas).
3 As novas veiculaq6es publicitarias
teriam que ser pagas a vista, em dinhei-
ro vivo, ate a complete quitaggo da divi-
da.
Havia arrogincia e intransig8ncia nes-
sas exig8ncias. A nova administragao
estava apenas iniciando e se via diante
de graves problems de gestio. A admi-
nistrac~o Gueiros, mesmo tendo pago R$
192 milh6es a empreiteiros e fomecedo-
res ao long de 1996, deixara para os
sucessores "restos a pagar" no valor de
R$ 43 milh6es nesse item, al6m dos sa-
larios atrasados dos servidores munici-
pais. O desencaixe de curto prazo exigi-
do pelo grupo Liberal nao seria aceito
por qualquer administrator, fosse ele do
PT ou do PFL, que estivesse pensando
no equilibrio das contas publicas.
O tom draconiano imposto a negocia-
cao cor a prefeitura do PT contrastou
com a extrema tolerincia dispensada a
Helio Gueiros, s6 rompida na ultima
quinzena do mandate do entao burgo-
mestre. Com todas as faturas em atraso,
o grupo Liberal ainda teve que amargar
com a anulagao de 45 empenhos, todos
de Delta Publicidade, no valor de R$ 167
mil, determinado pessoalmente por He-
lio Gueiros, de caso pensado, um pouco
antes de passar o cargo.
A attitude do entao alcaide seria inin-
teligivel, diante do apoio macigo que o
grupo Liberal lhe deu durante quase todo
o seu quatri8nio, nao houvesse nela uma
motivagao hist6rica insufocavel pelas
gentilezas de ocasiao que as duas parties
se dedicavam no fundo, a contragosto.
Depois de ter sido, durante muitos
anos, um dos principals redatores da co-
luna Rep6rter 70, de O Liberal, Helio
Gueiros rompeu com Romulo Maiora-
na, seu amigo de longa data, por nio
haver recebido dele todo o apoio que
exigiu na eleiiao de 1982.
Como era de seu estilo, Romulo pre-
tendia colocar o grupo Liberal a serving
das candidaturas de Jarbas Passarinho e
Oziel Carneiro ao senado e ao govermo
do Estado, mas nao fecharia as portas a
oposigao oriunda do velho PSD de Ma-
galhies Barata (onde tinha algumas de
suas raizes, inclusive porter casado corn
uma sobrinha de Barata, Lucidea Maio-
rana).
Institucionalmente, Romulo estaria do


lado que sempre o apoiara, desde que
adquirira o jomal, 30 anos atras (o aval
para a compra das maquinas fora dado
por Armando Carneiro, irmao de Ozi-
el), .substituindo a inc6moda Folha do
Norte na lideranga do mercado. Lateral-
mente, por6m, abriria espaqo para o gru-
po de Jader Barbalho.
Sempre fizera assim, mesmo quando
tinha os militares no seu calo, dispostos
a usar as marcas de um passado contur-
bado como entrave para a expansao de
seus neg6cios. Ainda que sob cautelas,
Romulo manteve ao seu redor cassados
e oposicionistas, como Helio Gueiros,
assumindo os riscos.
Mas quando rompeu com o ex-alia-
do, o future senador ignorou esse passa-
do. Obcecado pelo desejo de vingar-se
de Jarbas Passarinho, a quem atribuia a
responsabilidade por sua cassacao pelo
regime military e a quem pretendia ven-
cer na dispute pela unica vaga disponi-
vel em 1982 para o senado, nao perdoou
a conciliagdo do at6 entao amigo: atra-
v6s das paginas do Didrio do Pard, cria-
do por Jader Barbalho para a campanha
eleitoral, escreveu hist6rias de alcova,
revelou segredos e disse horrores sobre
os Maiorana.
Passada a eleigao e consumada a re-
vanche, houve a reaproximaago e Romu-
lo voltou a abrigar H6lio Gueiros. Ja
goverador, ele parece ter estabelecido
que a maneira de fazer os herdeiros do
Sistema Romulo Maiorana de Comuni-
cacao (agora Organizag6es Romulo Mai-
orana) esquecerem o passado seria atra-
v6s de macica programagao publicitaria
nas empresas da corporacgo, muito sen-
sivel A ressonancia do assim chamado vil
metal. Mas os ex-litigantes sabiam que
se tratava de uma tr6gua onerosa (para
os cofres piblicos, naturalmente), con-
denada a algum dia voltar a ser rompi-
da. A alianca era simplesmente tacita, de
conveniencia.
De memoria mais viva, Gueiros deci-
diu quebrar o armisticio quando ja nao
tinha nada a perder, em fim de mandate.
Al6m de nao pagar faturas que vinham
se acumulando desde abril, determinou
a anulagao de empenhos que ja haviam
sido encaminhados A empresa. Pelo mes-
mo caminho que percorrera na reaproxi-
manao, afastou-se dos aliados.
S6 entao, descobrindo finalmente o
golpe, em armaao desde meses antes,
os Maiorana decidiram encomendar
apressadas matdrias de critical em seus
veiculos, contribuindo para destacar o
clima de Baile da Ilha Fiscal (que mar-
cou o crepisculo do imp6rio brasileiro)
do final da administracao Gueiros.
Esses antecedentes recomendavam
cautela, discenimento e bom senso no


trato da divida com os novos dirigentes
municipals. Ao inv6s disso, os porta-vo-
zes do grupo Liberal decidiram usar seu
inegavel poder para impor condicSes leo-
ninas, acostumados que ficaram a dar
ordens aos que julgam indispensavel con-
tar com seus veiculos para lidar corn a
opiniao piublica, ou temem ingressar no
index da empresa.
Essa attitude estimulou os grupos que,
dentro do PT e da prefeitura, ha algum
tempo queram acertar contas muito mais
amplas e profundas com os donos da
comunicaago no Para. O pr6prio Edmil-
son Rodrigues prometera esse ajuste em
alguns de seus comicios, irritado com o
tratamento diferenciado que recebia em
relagao ao concorrente Ramiro Bentes,
sempre favorecido pela empresa.
Quando a ultima tentative de reuniao
entire as parties frustrou-se porque no dia
em que deveria ocorrer, na ultima sexta-
feira de fevereiro, O Liberal publicou
uma nota que desagradou os petistas,
Edmilson decidiu trocar a posigao de
defesa pela de ataque. Contra a opiniao
dos moderados, mas contando cor o
apoio dos correligionarios mais inflama-
dos, al6m de estar emocionalmente afe-
tado por problema de saude na familiar,
foi a Praca da Repuiblica num domingo
de manha falar mal da empresa e da fa-
milia que a control. Depois, a pretexto
de fazer um balango de 73 dias de go-
verno, convocou um comicio para em
frente a sede do journal (local disfargado
no convite como sendo os funds do
Bosque Rodrigues Alves), e voltou a ata-
car os Maiorana.
0 Liberal reagiu com um editorial de
primeira pagina e um artigo do "diretor-
editor-corporativo", o primeiro assinado
por Ronaldo Maiorana, o cagula dos ir-
maos. O mal-escrito editorial cometeu
dois erros de informaio. Disse que Ed-
milson Rodrigues d um criador de casos,
"vivendo a morder o dedo dos outros",
quando s6 se dispoe de um unico regis-
tro sobre a ins6lita forma de ataque de
Edmilson ao dedo do entao major Arru-
da, ja falecido (por outro motive, escla-
rega-se).
Informagdo falsa mais grave foi a de
que o journal "sempre fez e fara" criti-
cas a administracao do PT. Nao 6 verda-
de: elas s6 comecaram quando a ques-
tao da divida nao foi resolvida nos ter-
mos estabelecidos pela empresa.As cri-
ticas tamb6m costumam desaparecer
quando o dinheiro pousa nos cofres da
firma.
Mesmo que a motivagao da campa-
nha anti-prefeitura nao fosse espuria, a
diretriz das critics 6 ilegitima. Uma
empresa jornalistica pode fazer campa-
nhas, mas elas precisam de legitimida-







JOURNAL PESSOAL -2- QUINZENA DE MARCO / 1997 3


de. No inicio do seculo o Wall Street
Journal, o maior journal dos Estados
Unidos, desencadeou uma campanha
contra a maior empresa do planet, a
General Motors. A GM reagira a critics
do WSJ simplesmente excluindo o jor-
nal da midia. Em represalia, o jomal des-
locou dois rep6rteres para a cobertura
diaria das atividades da empresa. Acon-
tecia de a diretoria da GM so ficar sa-
bendo de fatos ocorridos dentro da em-
presa ou a ela relacionados atraves do
jomal. Acabou tendo que voltar a incluir
o jomal na sua programacao publicita-
ria.
Mas os rep6rteres do Wall Street Jour-
nal nao mentiam, nao inventavam mate-
rias, nem se metiam na vida privada dos
diretores da GM. 0 journal restringia sua
campanha a reportagens de acompanha-
mento e denfincia sobre o funcionamen-
to da grande indfistria automobilistica.
Quando a GM suspended o boicote, o
WSJ voltou a cobertura normal, com no-
ticias, elogios e critics.
0 Liberal, para defender seus interes-
ses, mente e manipula. Nenhum de seus
rep6rteres acompanhava o prefeito Ed-
milson Rodrigues quando, na manha do
dia 7, ele foi visitar o conjunto Raimun-
do Jinkings, uma das invasoes na perife-
ria da cidade, e discutiu com o auto-inti-
tulado lider comunitario Leandro Bor-
ges (que, segundo a prefeitura, manipu-
la a invasao com intenc6es espfirias).
Horas depois do epis6dio 6 que um
reporter foi mandado ao local. A recons-
tituicio de uma suposta agressao que o
prefeito teria praticado contra o lider
comunitario se baseou exclusivamente na
versao de Borges. O outro lado nao foi
ouvido e nenhum document apresenta-
do. Apesar de se dizer agredido, Borges
nao registrou queixa na policia. A pre-
feitura, ao contrario, e que o acionou.
Destacada na primeira pagina e publi-
cada com estardalhago no journal, a noti-
cia sumiu a partir dai. Borges voltou a
ser entrevistado, mas nenhuma referen-
cia foi feita ao fato grave, que chegou a
desencadear uma longa discussao na
Assembleia Legislativa e na Camara
Municipal em torno de um voto de re-
pfidio ao prefeito.
Tumulto e discussao haviam aconte-
cido, mas a agressao, nao. O Liberal, que
conscientemente embarcara na canoa
furada, nao se dignou a retificar o erro.
Porque nao quer.
Da mesma maneira, nao acolheu o
exercicio do direito de resposta requeri-
do pelo prefeito, sua irma, Edilene Ro-
drigues, o secretario de educacgo, Luiz
Araiijo, e a president da Fundagao da
Merenda Escolar, Ana Conceicao Olivei-
ra. Todos eles se sentiram prejudicados


por erros contidos em reportagens do
jomal.
Na sua carta, o prefeito desmentia a
agressao e negava estar praticando ne-
potismo (sua esposa, um irmao e uma
irmi sao funcionirios municipals concur-
sados ha varios anos). Edilene negava a
existencia de fraudes na licitacao para o
desfile deste ano de blocos e escolas de
samba. O secretario Luiz Arauido retifi-
cava noticia sobre criancas fora das sa-
las de aula com o descredenciamento de
escolas comunitarias. Ja Ana Oliveira
reagia a distorcqes na divulgaqao de uma
pesquisa sobre a merenda escolar.
Como o jomal se recusou a admitir
voluntariamente o direito de resposta,
mesmo verificando os erros do que pu-
blicara, os prejudicados foram obrigados
a recorrer a via judicial para que seus es-
clarecimentos e retificacbes venham a ser
publicados, se sair decisao e ela for fa-
voravel ao requerente. Nao 6, seguramen-
te, uma contribuicdo a liberdade de im-
prensa, que O Liberal consider amea-
cada pela manifestagCo organizada por
Edmilson Rodrigues em frente a sede do
journal.
A escalada das escaramugas certamen-
te prejudicara a sociedade. Sem os vei-
culos de comunicacgo que lideram o
mercado, o prefeito teve que recorrer aos
outros jornais e emissoras de radio e te-
levisao.
A empresa mais receptive tem sido a
do senador Jader Barbalho: alem de se
beneficiary comercialmente da programa-
cao publicitaria, ele mant6m um canal
aberto, que pode evoluir para um acerto
politico nas disputes eleitorais do pr6xi-
mo ano. Por isso, enquanto O Liberal
priva a opiniao piblica de um acompa-
nhamento decent sobre a administraqao
da capital, os veiculos de comunicacao
do senador do PMDB praticamente se
tomaram 6rgaos oficiosos do PT, fazen-
do mais propaganda do que jornalismo.
A Provincia do Para poderia desem-
penhar uma fungao arbitral, mantendo
cobertura isenta e competent do que faz
o PT, mas nao parece acreditar que esse
trabalho professional seja compativel
cor a obtencdo de verbas publicitarias.
Tende para acompanhar o Diario.
Em qualquer situagao, quem sai pre-
judicado 6 o cidadao, desprovido de
acessos confiaveis a informaCao. Emba-
lado pela tendenciosidade de O Liberal,
o leitor Ant6nio Pimentel escreveu uma
carta ao jomal criticando o prefeito por
se comportar "como um energiumeno",
que agride cidadaos "em attitude de fla-
grante desrespeito".
Convinha a Edmilson Rodrigues inti-
mar o journal a apresentar a carta em jui-
zo. Nao 6 incomum supostas cartas de


leitores serem redigidas por funcionari-
os da empresa na pr6pria redagao do jor-
nal. Essa nao seria a primeira, mas po-
deria permitir ao prefeito testar a vera-
cidade do document. Mais do que en-
trar numa dispute sem regras estabeleci-
das, porem, conviria a algu6m com a res-
ponsabilidade do prefeito de Belem fa-
zer certas adaptag6es em sua personali-
dade para ajusta-la as atribuig6es e re-
quisitos do cargo que ocupa.
O comicio em frente a suntuosa sede
de O Liberal, por exemplo, foi um ex-
cesso inaceitavel. O habito de Edmilson
de verificar pessoalmente tudo o que
acontece no imbito de sua administra-
cao nao apenas 6, frequentemente, uma
fonte desnecessaria de exposig~o, como
um mau principio professional, que agra-
va a tend8ncia natural (no Brasil) de con-
centragao de poderes nas maos do chefe
do executive.
O prefeito precisa se conscientizar de
vez de que nao 6 mais apenas nem prin-
cipalmente o militant do passado, e
que a fase do comicio acabou. Corre o
risco de, subestimando o poder do gru-
po Liberal, prejudicar a si e A comuni-
dade que Ihe transferiu o privilegio de
comandar a maior cidade da Amaz6nia.
Mas parece disposto a defender sua po-
si9ao at6 as ultimas consequ8ncias, tan-
to que teria escrito uma carta a Roberto
Marinho, o dono da Rede Globo, denun-
ciando as attitudes anti-profissionais e
anti-6ticas dos dirigentes da emissora
afiliada do Para, recusando-se a veicu-
lar as mensagens da prefeitura, mesmo
pagas.
Nao ha nada demais que a pendencia
sobre o debito de 1996 seja decidida ju-
dicialmente. O grupo Liberal contratou
um servigo de auditagem e vai usa-lo
para cobrar o que julga ser seu na justi-
ca. Uma sentence de execuaoo pode per-
mitir ao prefeito sacar o dinheiro do
combalido erArio sem o risco de sujei-
tar-se a suspei9oes e critics. O absurdo
e que esse incident commercial tenha in-
terferido tanto sobre a formacgo da opi-
niao puiblica.
Quanto ao comum dos cidadaos, ele
nao parece mais tao acomodado ao pa-
pel que lhe delegam, de mero especta-
dor dojogo dos caciques. Epossivel que,
despertando para seus direitos e encon-
trando as formas adequadas de mobili-
zagao para exerc8-los, impeca que este-
jamos assistindo a mais uma escaramu-
Ca entire personagens que consideram o
poder de que desfrutam um direito he-
reditario ou de grupo. Belem ja e muito
grande e complex para servir de arena
para as arengas desses ocasionais e fre-
quentemente acidentais poderosos de
provincia. 0







JOURNAL PESSOAL -2' QUINZENA DE MARCO / 1997


Sivam: muito dinheiro


e tecnologia. Para qua?


urante os pr6ximos cinco anos press e in
os montadores do Sivam (Sis- que o custc
tema de Vigilancia da Ama- desde a al
inia), a frente a multinational ame- maio do an
;ana Raytheon, ganharao 1,4 bilhao sicgo. E qu
Sdolares. Ao long dos pr6ximos lam apenas
Sanos os agents financeiros, o prin- tada, corn
pal deles sendo o Eximbank dos re (equipar
;tados Unidos, irao faturar outros formitica),
S$ 1,4 bilhao de juros pelo dinhei- 6es. Jamai
concedido para viabilizar, com nanceiro, q
>upanga e tecnologia estrangeiras, ta annual de
n projeto contratado sem licitacAo 18 anos, af
iblica, sob a justificativa de servir A omissao
Sreforgo da seguranca national. fusao.
Todos os contratos foram finaliza- Isto sign
ss a toque de caixa, na semana pas- efetivameni
da, para que os pontos obscuros e 40 anos de
hist6rias inconclusas do Sivam, tecnologia
incebido ha cinco anos e processa- de amortiz
Sno subsolo da administragco fe- area estrate
:ral, se tornassem fatos consuma- sos duplica
)s, dispensando-o de nova reapre- important,
ntagco ao congress para dirimir as e projetos
ividas pendentes. Legalmente, o Si- munidade
m entrara em vigor no pr6ximo dia gdo de seg
I e em 2002 tera sido plenamente SAE (Secri
iplantado. gicos), durE
As vezes essas duvidas resultam de como ocon


Palavras, palavras
A julgar pelo superfaturamento que tena
sido praticado no iucio das obras. o uo\erno
federal gastaria 2 I milbhes de reais a mats na
penitenciaria de Santa Izabel, que poderia sair
por R$ 7 milhoies, mas tfo orgada em R$ 28
nilh6es durante a admninistracio Collor.
So no ij famoso muro e na terraplenagemn
do terreno foram engolidos R$ 4 nilh6es da
epoca atualizados. cheuam a RS 5.8 nilh6es).
quando precos reais e'igiriam apenas um quar-
to desse valor
Ao inspecionar a "obra" na senana passa-
da. o president do Conselho Nacional de Po-
licat Criminal e Penitenciaria, Paulo Tonet
Camargo. classiticou-a de "uni escandalo", ja
que ndo pode nem ser continuada
A historia do Brasil ensina que indigna;ao
tambem ser\e para pouca coisa quando fica
restrita a palaxras ou como nos acostuma-
mos a dizer. a retonca Dela, a administracao
public brasileira continue inflacionada


;ompreensdo. Nao 6 certo
do projeto tenha dobrado
provacgo legislative, em
o passado, como diz a opo-
e os prospects oficiais fa-
no custo direto da emprei-
)s tais hardware e softwa-
nentos e programs de in-
alem das obras civis e avi-
s se referiram ao custo fi-
ue dara aos bancos recei-
US$ 78 milhoes durante
bra o retorno do principal.
dessa parte gerou a con-

ifica que o que se gastara
te no Sivam corresponde a
verba regular de ci8ncia e
na Amaz6nia. No espago
a9ao do empr6stimo, essa
gica poderiater seus recur-
dos e, o que 6 too ou mais
Sdirigidos para programs
definidos pela pr6pria co-
;ientifica, ndo por um 6r-
:uranga national, como a
etaria de Assuntos Estrate-
nte a administrag.o Collor,
reu cor o Sivam.
Mas o enorme cus-
to de US$ 2,8 bilh6es
6 o prego final a ser
pago pela concepcao
megalomaniaca e
distorcida do Sivam?
Provavelmente nao.
Os gestores do proje-
to ja substituiram os
oito avi6es Brasilia, a
helice, que fariam a
vigilancia, por oito
jatos. Alem da evi-
dente alteragco de
preco, esta embutida
uma concepp9o de
Amaz6nia subordi-
nada a doutrina de se-
guranga national,
que ve a regiao pelo
prisma military, ao in-
ves de dar maior re-
levancia ao aspect
cientifico que um sis-
tema de radares e
S processamento de


dados deveria ter. Mesmo porque o
que mais ameaca a Amazonia, num
horizonte visivel, e sua defasagem co-
mercial, econ6mica e de conhecimen-
tos do que uma eventual incursdo mi-
litar de resto, para os efeitos da ex-
ploracgo da regido, ociosa, desneces-
saria.
Cor toda a parafernalia financia-
da pelo Eximbank e transferida pela
Raytheon, mais o que ainda podera
surgir desta caixa preta (como acon-
teceu cor o program nuclear que o
general Geisel assinou com a Alema-
nha), nossos militares podem ficar
up-to-date para localizar narcotrafi-
cantes, contrabandistas e agressores
externos hipoteticos (ou simulados
em exercicios de estado-maior). O
que, entretanto, poderdo fazer contra
a transfer6ncia de riquezas naturais
processada formalmente dentro da
lei, mas a revelia do que, mais do que
a seguranqa national, atenta contra
algo ainda maior e englobante, a so-
berania national?
As armas que o Sivam podera con-
ceder serdo pouco 6teis diante das in-
formag6es que um program verda-
deiramente cientifico poderia gerar,
proporcional ao volume de recursos
utilizados, se a origem da concepcao
tivesse sido outra, o desenvolvimen-
to fosse diferente e os propositos, di-
ferentes. Quem conseguir ver, vera.


I






JOURNAL PESSOAL -2" QUINZENA DE MARCO / 1997 5


Louco quem, cara-palida?


govemador Almir Gabriel jul-
ga-se um democrat, mas foi
buscar inspiragdo do outro
lado do balcdo para reagir, sem na ver-
dade reagir, como de seu feitio em tais
circunstincias, as critics que recebeu
de seu vice, Hlio Gueiros Jr. "Nada a
declarar", declarou o govemador ao re-
p6rter que o provocava sobre o livro e
a entrevista do Junior (ver Jornal Pes-
soal o 158).
O branco verbal virou marca regis-
trada na boca (na cabega tambem?) de
Armando Falcao. Ele se notabilizou
como ministry da Justica do general Er-
nesto Geisel pelo patrocinio, exatamen-
te 20 anos atras, do lugubre "pacote de
abril", um conjunto de medidas de ex-
cegao que instituiu o senador bi6nico
(um Incitatus nao equestre) e a propa-
ganda eleitoral gratuita restrita a curri-
culo e retrato 3 x 4.
Se o govemador preferiu o subterffi-
gio para nio reagir aos ataques de He-
lio Jr., o president da Assembleia Le-
gislativa, Luiz Otavio Campos, levou a
reacgo para o terreno pessoal. Lembrou
que o Junior havia engravidado sua
baba, "ainda na adolesc6ncia", e nao
assumiu a pateridade, incident que
seria revelador de seu carter. Um ami-
go explicou que Pepeca baixara o ni-
vel do confront porque fora alvejado
com uma "indireta" muito pessoal, so
decifravel pelos iniciados na sua bio-
grafia, ainda assim bastante ofensiva.
Quest6es da vida privada dizem res-
peito aos dois homes publicos, que po-
deriam continuar ou nao a lavagem de
roupa suja. Felizmente suspenderam as
retaliah6es, mas dai as declaragoes e es-
crivinhag6es do vice-govemador repre-
sentarem a quebra do decoro public,
submetendo-o a ameaca de cassag o do
mandate, vai uma dist^ncia enorme -
que, em geral, s6 os aulicos se dispoem
a percorrer sem o menor pudor.
Exceto pelos excesses nas referen-
cias pessoais, as critics que o vice fez
ao governador Almir Gabriel e ao de-
putado Luiz Otavio foram de natureza
political. No caberia o voto de repudio
ao critic, nem o desagravo aos criti-
cados, se estes, especialmente o gover-


nador, nao se defended das restri96es
de conteudo feitas por Helinho. Ele fez
varias e nem todas destituidas de pro-
ced6ncia, muito pelo contrario.
Controversias sempre fazem muito
bem a democracia. Silencios sepulcrais,
como os de Armando Falcao, ou con-
venientes, como o do governador Al-
mir Gabriel, e que sao um estorvo, prin-
cipalmente porque sao seguidos de
agqes nos bastidores. O distinto publi-
co, mantido a distdncia, e quem sobra.
Acaba sendo surpreendido ao descobrir
fatos ja consumados, cujo prepare os
autores dos atos mant6m em sigilo, com
a obsequiosa omissao quando nao co-
niv6ncia da imprensa.
Depois, os deputados, acometidos
pelo feroz virus da subserviencia, numa
epidemia sem paralelo na hist6ria re-
cente do legislative paraense, equali-
zaram situag9es distintas. Juntaram no
mesmo saco o goverador e o deputa-
do, irmanando-os em uma "dignidade
de dois politicos de reputaggo ilibada,
reconhecidamente dotados de espirito
public exemplar, cor larga folha de
servigos prestados ao Para", conform
declarou na tribune o deputado Ade-
nauer G6es, do PSDB.

o que se saiba, o govemador ja-
mais se viu envolvido em situa-
Aao como a que marcou o hoje
deputado Luiz Otavio, a 6poca secreta-
rio de Transportes do goverador He-
lio Gueiros, sete anos atras. O parla-
mentar pode argumentar, com razao,
que legalmente sua situaydo e limpa,
mas nem sempre a falta de decisdo do
judiciario, claudicante quando decidir
envolve risco, serve de certidao nega-
tiva. Nao examinado o merito da acao,
decidida por preliminary, ficou o enre-
do da hist6ria a manchar a biografia do
ex-secretario cor uma n6doa comple-
tamente diferente da que pode existir
na hist6ria de vida do medico Almir
Gabriel.
De qualquer maneira, no entanto, e
com tais companhias que agora o go-
vemador anda e, sendo assim, sobre
ele paira a sabedoria de um velhissimo
ditado popular, que recomenda prestar


ateng o nas companhias para se saber
quem 6 o caminhante.
Com ironia, o president da AL res-
ponsabilizou o govemador pelos con-
tratempos que seu vice Ihe causa: "par-
te da culpa e de Almir, que, quando foi
secretaiio (de Saude), fechou o Hospi-
tal Juliano Moreira, porque se ainda
existisse esse hospicio, podia-se colo-
car la o vice-govemador e nao tinha
problema".

parte a concept9o ultrapassa-
da sobre tratamento psiquiatri-
co para doentes mentais, que
confina em depositos inumanos gente
indesejavel at6 para os familiares, a de-
claraq o do deputado deixa duplamente
em ma situacao o governador.
Como secretario de Saude de Ala-
cid Nunes, Almir Gabriel agiu certo
quando desativou o "Juliano Moreira",
um aut6ntico museu dos horrores da
mente. S6 errou porque fez abrupta-
mente a mudan9a, sem dispor de uma
estruturaja existente para atendimento
ambulatorial e assist6ncia aos doentes
mentais e suas families. A falta da de-
vida transigco, formou-se um vacuo,
que gerou historias dramaticas. Elas vdo
acompanha-lo para sempre, cor a
mesma marcagao cerrada que atormen-
ta o ex-senador Jarbas Passarinho em
tomo da hist6ria do trabalhador de sa-
lario minimo, capaz de poupar e tomar
cerveja. Virou folclore. Acredita o povo
que onde ha fumaga ha fogo. Por isso,
nao esquece.
Mas se o "Juliano Moreira" nao ti-
vesse sido fechado, nem evoluido a psi-
quiatria, por que o entdo governador
eleito Almir Gabriel escolheu Helio
Gueiros Jr. para ser seu vice, ao inves
de remet6-lo para o hospicio, se tinha a
oppco do pr6prio Pepeca, que ungiu seu
lider e president do legislative?
Talvez porque nem tenha examina-
do a encomenda. O que o interessava
era saber quem era o remetente, con-
vindo agrada-lo. Neste caso, o castigo
e merecido e nem precisou vir a ca-
valo.
Os deputados que deixem os bran-
cos se entenderem. 0







6 JOURNAL PESSOAL -2' QUINZENA DE MARCO / 1997


0 estupro

no subsolo

ara adquirir o control aciona-
rio da Companhia Vale do Rio
Doce, que 6, ao mesmo tem-
po, a maior mineradora de ferro do
mundo, a maior transportadora inte-
roceanica de min6rio, a terceira mai-
or mineradora do planet e a deten-
tora das mais novas jazidas de porte
mundial que se conhece, a japonesa
Nissho Iwai vai precisar reunir, no
maximo, nao mais do que 1,5% dos
89 bilh6es de d6lares que faturou no
ano passado.
Com esse dinheiro, a multinacio-
nal nip6nica (como outro qualquer
arrematante) podera se tornar acio-
nista majoritaria, bem long dos 50%
mais um do passado. Trata-se de uma
engenhosa invencao, apresentada
como ferramenta de difusao de parti-
cipagio societaria, mas que confere
os mesmos poderes anteriores, sem o
inconvenient de um desembolso de
capital correspondent. Coisa de gen-
te muito inteligente, mas indigente de
sentiment national.
Esse parametro da uma ideia do
que a privatizagao da CVRD, marca-
da para 29 de abril, represent para o
grande capital international, que no
Japao, na Africa do Sul, na Austra-
lia, na Inglaterra e em algumas ou-
tras pragas privilegiadas, esta interes-
sado em arrematar a estatal brasilei-
ra. Tudo o que o governor ainda pro-
mete que nao ocorrera se materiali-
zara, se nao agora, a partir dos pr6xi-
mos cinco anos, quando deixarem de
ter vigencia as salvaguardas estabe-
lecidas pela golden share, a acao es-
pecial que ficara em poder do gover-
no brasileiro ap6s a venda.
O leilao, preparado pelo BNDES
para daqui a um m6s, 6 um dos atos
mais lesivos contra o patrim6nio na-
cional que a minha geraqgo ja teste-
munhou. Testemunhar 6 a palavra
certa: sabemos que uma estupidez (ou
seria mais real, ainda que mais gros-
seiro, falar em estupro?) sera perpe-
trada, mas nada podemos fazer para
evita-la.
As elites contrArias ao ato da ad-
ministragao de Fernando Henrique
Cardoso reagiram letargicamente de-


mais. Nem conseguiram mobilizar a
sociedade na media certa, perden-
do a batalha political, nem venceram
o confront de arguments com a tec-
noburocracia federal, sucumbindo a
batalha t6cnica. S6 ideologia nada
resolve nos tempos atuais.
Nesta epoca de glamour globalizan-
te (antidoto vernacular ao velho e des-
gastado jargao do imperialismo), nao
basta acusar os globalizadores de gente
de ma-f6. E precise devolver contra
eles os numerous e os raciocinios dos
quais se apossaram para dourar a pi-
lula da integraqao a economic inter-
nacional. Ela 6 vendida como a pana-
ceia que nos livra dos inc6modos (ver-
dadeiramente reais) do isolacionismo
intramuros, do qual nao temos moti-
vo algum para boas lembranqas.
Nenhum pais serio aliena uma fon-
te de acqo estrategica e uma detento-
ra de patrim6nio de recursos naturais
como estamos fazendo com a Vale -
com aqodamento, corn imprecisao,
cor lacunas que ddo guarida tanto a
tosca e vaga ret6rica oposicionista,
quanto a sagacidade de pirates p6s-
modernos, como esses dos precatori-
os e demais pap6is da selva inexpug-
navel que surgiu como praga daninha
no mercado financeiro.
Nossa geraCqo revelou-se menos efi-
ciente do que nossos antepassados do
"petr6leo 6 nosso", talvez porque ago-
ra realmente tenhamos no trono do Pa-
lacio do Planalto um personagem fe-
nomenal, mais eficiente do que aquele
cavalo de Tr6ia que Homero imortali-
zou. Ele combine a tematica da Iliada
corn a da Odiss6ia, fundindo os leito-
res especializados de uma e de outra
epop6ia, o masculine e o feminine, com
a sagacidade dos gregos e o melifluo
encantamento das sereias sereia soci-
ologica a nossa, que canta em multi-
linguas.
A CVRD, que ja 6 eficiente, se tor-
nara mais eficiente com a privatizagao,
como promete a propaganda official na
televisao? "Menas" verdade, como di-
ria Lula, nos bons tempos em que an-
dava pari-passu cor Fernando Henri-
que no ABC paulista, ainda poupado
dos Medeiros & Vicentinhos. A pode-
rosissima Nippon Steel faturou no ano
passado 10 vezes mais do que a Vale,
mas lucrou 15% menos. A edulcorada
Anglo American teve receita quase cin-
co vezes superior a da Vale e seu lucro
s6 foi tr6s vezes maior.


As duas multinacionais sao empre-
sas que nao sofreram as restriq6es de
natureza political, administrative e
burocratica de uma estatal brasileira,
nem foram sensiveis a pressao poli-
tica para relativizar seu lucro com
gastos sociais e uma alta taxa de rein-
vestimento, al6m das contingencias
de assumir a condigdo de agnncia de
desenvolvimento com papel pionei-
ro na abertura de frentes econ6micas.
Mas ainda assim o confront 6 favo-
ravel a CVRD.
Visto apenas pela 6tica commercial,
o leilo, tal como foi modelado por
consultoria liderada por firma estran-
geira, 6 um lance de tolo. A insuspei-
ta revista Euromoney mostrou que o
future detentor do control acionario
se ressarcira do que investiu com a
receita de 30 anos de exploragao de
min6rio de ferro (que pode dar safra
continue por 400 anos). O "resto",
que engloba min6rios mais "moder-
nos" e rentaveis, sera lucro liquid.
Mas o dano maior pode ser visto
por prismas mais amplos, quando os
circuitos internacionais de comerci-
alizacao e os dutos de fluxo de inves-
timento forem redesenhados a partir
da exclusao da estatal brasileira. A
Anglo American levou 20 anos mi-
nerando na maior jazida de ouro do
pais, em Minas Gerais, para assumir
o control da Mineraggo Morro Ve-
Iho, livrando-se sob pecunia, e cla-
ro do Bozano, Simonsen. Nem por
isso deixou de mandar no period em
que era acionista minoritario.
As garantias da golden share do go-
verno sao balela e, ainda que funcio-
nem, nao durarao mais do que cinco
anos, prazo de car6ncia para que os
novos acionistas majoritarios (ou o
novo acionista controlador, para ser
mais realista) definam as regras. Quan-
to ao arranjo de ultima hora, feito para
minimizar a violencia contra o domi-
nio dos jazimentos minerals ainda por
descobrir (ou sacramentar), 6 provi-
d6ncia de know-how ingl6s para bra-
sileiro ver. O que nao deixamos fazer
com um fnico produto do subsolo na
d6cada de 50, vamos consentir que se
faga cor o ilimitado cardapio do fun-
do da terra nos ainda coloridos anos
90 do nosso principle republican.
Quando nos perguntarem como o
touro passou, nao saberemos respon-
der. Sera nosso irresgatavel penhor
com o future. *







JOURNAL PESSOAL -2' QUINZENA DE MARCO / 1997 7


A voz do dono


s deputados da atual legisla-
tura estao se empenhando ao
maximo para desmoralizar o
que resta da imagem do poder ao qual
pertencem e que raros conseguem
honrar. Agora 6 o epis6dio da presta-
g9o de contas do Tribunal de Contas
do Estado.
Em dezembro do ano passado, por
14 votos contra 12, o plenario rejei-
tou as contas do TCE relatives ao
exercicio de 1995 (ver Jornal Pes-
soal n 153). Uma in6dita inspegio
extraordinaria que a AL mandou fa-
zer no TCE (6rgao auxiliar do legis-
lativo, mas dotado de autonomia)
constatara vArias irregularidades,
como o pagamento de gratificag6es
e vantagens indevidas, horas extras
al6m do permitido, reajuste salarial
lesivo, cessbes irregulares de funcio-
nirios e o comprometimento de 90%
da receita do 6rgao com a folha de
pessoal, estourando o limited de 65%.


S6 depois da votagao em plenario
6 que o deputado Haroldo Tavares,
do PPB, suscitou uma questao de or-
dem: o process nao havia sido sub-
metido A Comissao de Finangas da
Assembl6ia Legislativa. O desvio re-
almente ocorrera e o entao presiden-
te da casa, Zenaldo Coutinho, do
PSDB, sabia disso quando submeteu
a mat6ria a votagao.
O problema 6 que o plenario 6 o
6rgao miximo do legislative, abso-
luto em sua autonomia. Os motives
pessoais que levaram Zenaldo a atro-
pelar a ordem regimental e arriscar a
votagao (talvez convencido da vit6-
ria) podem ser cobrados, ate civil-
mente, mas o ato estava consumado.
Corresponde, na linguagem dos tri-
bunais, a decisao transitada em jul-
gado, que extingue a a9ao.
Na prttica, o que os deputados fi-
zeram foi "desvotar" a prestagao de
contas do TCE, restabelecendo ain-


da que irracionalmente a tramita-
9ao. A mat6ria voltou a comissao,
nela foi aprovada e, reapresentada ao
plenario, para alivio quase geral, so-
bretudo do governor, recebeu 26 vo-
tos favoraveis, tres contrarios e um
em branco.
Ora, como o qu6rum entire as duas
votaqoes (de dezembro e de margo) re-
cebeu o acr6scimo da presenga de ape-
nas mais tr6s deputados, isto signifi-
ca, na melhor das hipoteses (ou seria
na pior?), que oito parlamentares vo-
taram "nao" na primeira vez e "sim"
na segunda. Nao tendo havido nenhu-
ma alteracao no conteudo da inspe-
9go que os t6cnicos da AL realizaram
nas contas do TCE, por determina-
9ao superior, nem inovag6es introdu-
zidas na comissao, a mudanga de opi-
niao foi um tipico produto da ordem
unida, dada por quem pode dar e
obedecida por quem s6 sabe obede-
cer, mas nao fazer-se respeitar. *


Nosso

correio
Se as reclamaqaes dos
assinantes contra a demora
ou mesmo o extravio de
seus exemplares do journal
continuarem, terei que
cancelar o sistema de
assinatura, voltar
exclusivamente as bancas
e transferir a culpa para a
Empresa Brasileira de
Correios e Tel6grafos.

Infelizmente, s6 posso
entregar em maos os
exemplares dos assinantes
que residem no perimetro
central da cidade. Para os
demais, a remessa 6 feita
atraves dos Correios. O
grau de inefici&ncia da
empresa estatal,
monopolista de
segments do mercado
postal, parece estar em
crescimento exponencial,
ameagando destruir a
credibilidade conquistada
e recoloca-la na ma
posigao anterior.


Independentemente de
apuragdo das causes dessa
decad6ncia, cabe lamentar
a regressao constatada.

Logo que cheguei para um
period de resid6ncia nos
Estados Unidos, recebi
pelo correio convite para
um jantar. Acabei nao
indo. Ao se encontrar
comigo, o anfitriao cobrou
minha aus6ncia. Sem jeito,
recorri a uma desculpa
bem brasileira na 6poca:
n~o recebera a
correspond6ncia.

Incontineti, o amigo


americano me pegou pelo
brago e ja me levava para
a ag6ncia postal, onde
certamente faria um
carnaval protestante (nos
dois sentidos), quando cai
na real e achei melhor
explicar a desculpa. Com
ela, minha image ficou
r6s-o-chao, mas as gl6rias
- merecidas do correio
americano permaneceram
altaneiras.

Lembro um exemplo
ainda mais edificante. Em
1952, I. F. Stone, o maior
jornalista de todos os
tempos, decidiu editar o


seu I. F Stone's Weekly.
Tinha pouco dinheiro.
Requereu ao correio a
tarifa postal privilegiada
dos impresses peri6dicos.
Vivia-se o apogeu do
maccarthismo, com a
perseguigio a tudo e
todos que se parecessem a
comunismo. Stone era um
jornalista independent e
critic e seu semanario
seria uma fonte de dor-de-
cabega para os poderosos.
Mas o Weekly recebeu a
tarifa especial e os
exemplares sempre
chegaram direitinho aos
assinantes. Observaria
Stone que a diferenca de
valor entire a tarifa de
impresso e a seguinte
correspondia ao seu
pr6prio salario no
jornalzinho pequeno no
tamanho, enorme na
qualidade.

Vamos continuar a lembrar
com melancolia e inveja
esses exemplos, 6 correio
brasileiro?








Padrao Liberal
A noticia de O Liberal
sobre a suposta agressdo
de Edmilson Rodrigues ao
lider comunitario do
conjunto Raimundo
Jinkings terminava com
um primor de
desinformadgo: "O
prefeito Edmilson
Rodrigues conseguiu corn
o representante do
proprietario do terreno a
suspensao da retirada dos
invasores at6 segunda-
feira".
Da terga-feira em
diante nenhuma
refernncia mais ao dono
do terreno e A anunciada
reunido. A Area pertence a
propria prefeitura.

Vox populi
"O Liberal" era, dois
anos atras, o oitavo journal
em circulagao no pais.
Perdia apenas para os
tradicionais jornaloes do
centro-sul e "A Tarde", da
Bahia. Entusiasmados
com essa realmente
honrosa posicao, seus
donos se associaram ao
IVC, a institui9cao de
maior credibilidade na
verifica@go da circulagao
da midia impressa.
Hoje, "O Liberal"caiu
para a 13" posigio e perdeu
nada menos do que um
quarto dos exemplares que
ostentava quando o IVC
comegou a auditar sua
circulagao. Foram entire 20
e 25 mil compradores a
menos do jomal.
Nesse period, 6
verdade, a maioria dos
jornais brasileiros sofreu
encolhimento de tiragem,
mas a queda de "O
Liberal"foi muito grande.
Passaram a frente dele "A
Gazeta do Povo", de
Curitiba, o "Jornal do
Commercio", de Recife, o
"Correio Braziliense", de
Brasilia, e "A Gazeta", de
Vit6ria.
Nem tudo, portanto, e
lantejoula.


O turismo official
O Para, como a Amaz6nia, esta cada vez mais integra-
do ao mundo. Natural que os administradores publicos
estendam suas viagens alem-fronteiras, deixando de li-
mitar suas incurs6es sistematicas a Brasilia e arredores.
Nada de espantoso que, numa unica quinzena, quatro se-
cretArios, mais um assessor especial, estivessem percor-
rendo os Estados Unidos, o M6xico e a Franga, consu-
mindo 15 mil d6lares s6 de diarias, sob a alegagao de
realizarem atos proveitosos para a gestao p6blica.
Mas 6 realmente proveitoso mandar o secretario de
Obras P6blicas e o de Comdrcio, Indfstria e Minera9ao,
que tecnicamente nao sao afeitos a essa atividade especi-
fica, ver o parque temitico de Cancfun, se este ter por
base as aguas transparentes do oceano, inencontraveis nas
cercanias de Bel6m, que 6 onde se espera que um destes
parques venha a se localizar?
Parque temAtico, 6 verdade, passou a ser a obsessao
mais recent do telepatico turismo papachib6. Seria 6ti-
mo, se a obsessao nao tivesse feito nossos emissarios sa-
irem numa improvisada excursao a Santa Catarina, ba-
tendo cor a porta de Beto Carrero na cara. Claro, 6 pre-
ciso recuperar o tempo perdido, mas sem perder a inteli-
g6ncia, o discernimento e a compostura.
Quais ensinamentos o secretario da Fazenda e um as-
sessor especial do governador foram buscar em Chicago
(ou em Washington?), nos Estados Unidos?
JA o secretArio de Educagao foi autorizado a passar nove
dias entire duas cidades francesas, onde participaria do
"60' aniversario das.Casas Familiares Rurais". O que isto
significa e qual a utilidade para a educago public no
Estado?
Sao perguntas que caberia fazer e se o legislative
nao pode faz6-las previamente, por ser a autorizacgo das
viagens prerrogativa do chefe do poder executive, convi-
nha formula-las ap6s o regresso dos viajantes, convocan-
do os servidores para depor na comissao afeita ao tema
que trataram na excursao.
Serviria tanto a eles, isentando-os da nem sempre pro-
cedente suspeita de estarem a fazer turismo cor o di-
nheiro da viuva, quanto ao public, socializando os co-
nhecimentos que certamente devem trazer de suas ex-
curs6es ao al6m-mar. A pratica pode comegar imediata-
mente, cor o aplauso do distinto mas geralmente es-
quecido contribuinte. Afinal, 6 ele quem paga todas as
contas, tanto as bem gastas quanto as desperdigadas.


Jomal Pessoal
Editor: LOcio Flavio Pinto
Redagho: Passagem Botonha. 60-B 1 66 053-020
Fone: 223-1929 e 241-7626
Contato: Try. Benjarmn Constant, 845/203 1 66 053-020 Fone: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
Editora ao de arte: Lulzpe 1 241-1859


Escolas de
votos
Aos poucos as
chamadas escolas
comunitarias passaram a
ter cada vez menos de
escolas e de comunitarias.
Muitas delas se
transformaram em
comitis eleitorais
informais e seus
"animadores" em nada
mais do que cabos
eleitorais.
Nao surpreende, assim,
que os vereadores de
Bel6m tenham reagido
com pouca racionalidade
e muito emocionalismo A
investida da prefeitura
contra essas escolas. Nao
e ensino, mas votos o que
estao defendendo. Esse
interesse compromete a
essencia da discussao que
comegou a ser travada a
respeito, mas nao a anula
de todo.
Agiu certo a Secretaria
Municipal de Educagao e
Cultura ao se proper a
extinguir as escolas
comunitarias, mas errou
porque ainda nao tem
condig6es de substitui-las
integralmente pela escola
piblica regular. A Semec
sustenta que as 16 escolas
comunitarias
remanescentes da antiga
rede, formada por 53
unidades, sao as unicas
com condikoes
pedag6gicas de continuar
funcionando.
Deve-se verificar se
essa afirmativa e
verdadeira e se o
crescimento da oferta, de
quase 30%, com a
abertura de 1.300 vagas
na rede municipal, atende
a demand que ficou
desassistida. InaceitAvel e
simplesmente querer que
uma solugao de
emergencia e precaria,
como a das escolas
comunitarias, se
mantenha
indefinidamente, apenas
por render votos.