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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00107

Full Text





Journal Pessoal
L U C I 0 F L A V I P I H T O


,I N 0 XN15: ,s 1 "9- LallAlA 9 DE 199 R$. 2,0 -[I 1


POLITICAL


Os donos



do poder


0 vice-governador
H6lio Gueiros Jr.
escreve um livro
mostrando os
bastidores e as
entranhas do poder,
que, no Pard, e
dominadopor umas
poucasfamilias, servindo a
seus interesses.
0 retrato tragado e tdofiel
quanto melanc6lico.


O vice-governador do Para,
Helio Gueiros Jr., 36 anos,
6 um fronteiriqo. Fica na li-
nha divisoria, demarcada
por uma faca s6 lImina, en-
tre o humor e a galhofa, a
sensibilidade e a ingenuidade, a ironia
e a grosseria, o conhecimento e a intui-
9do, a memorial e o oportunismo, a sin-
ceridade e a asticia. Tudo isso e mui-
to mais esta exposto em seu primeiro
cometimento digamos assim litera-
rio, DiArio do Abandono Campanha
, .^


de 1994 (edigao do autor, 119 paginas,
1997, 10 reais).
O livro chegou as principals livrarias
de Belem no ultimo sabado, em lotes
de 10 exemplares entregues por um ofi-
cial da Policia Militar, ajudante de or-
dens da vice-governadoria. Quatro dias
antes, o mesmo intermediario havia fei-
to o contato inicial com os livreiros
anunciando, em tom sigiloso, que apa-
receria depois para deixar em consig-
nagdo o livro de um politico que pro-
metia provocar repercussao. O lanCa-


mento official, sem dia de aut6grafo,
acabou sendo feito em duas paginas de
entrevista na ediqao dominical de O Li-
beral.
A estrat6gia de comercializacio do li-
vro, combinada cor a entrevista exclu-
siva dada ao jomal, sugere que se trata de
uma iniciativa pessoal do vice-governa-
dor. Seu pai, o ex-prefeito Helio Gueiros,
nada teria a ver com o epis6dio, uma ou-
tra investida na tentative de garantir a ima-
gem de autonomia de sua cria. Ha moti-
vos para crer nessa sugestao.


1S 0 LI RALA ATACA DBAR-AD 3- SS


- v


* I I y







2 JOURNAL PESSOAL -1- QUINZENA DE MARCO / 1997


Depois de romper corn
seu partido, o PFL, no
qual o pai permaneceu
filiado, Helinhoestariamandando
um recado: quer continuar a carreira po-
litica. Como isso vai ocorrer,
ainda e uma inc6gnita, mas,
em qualquer circunstancia,
tera que afastar-se do car-
go que ocupa e para o qual
vem montando a maior das
estruturas com que um vice ,
ja contou.
0 pretext para o livro e o relato da
campanha eleitoral de 199 Mas, dois
anos e meio depois, provavelmente sem
contar com anotacoes e documents que
garantiriam valor hist6rico ao testemu-
nho, o vice esta mais interessado em al-
vejar seu companheiro de chapa, o go-
vernador Almir Gabriel, com o qual esta
abertamente rompido ha mais de um ano.
E um livro, portanto, utilitario, uma arma
de combat.
Numa terra na qual os politicos nao
costumam ler para dar maior consisten-
cia aos seus atos e nao escrevem para
documentary o que fazem, o livro de He-
lio Gueiros Jr. nao e de todo destituido
de valor. Mostra um bad-boy, que tive-
ra suas relacqes de trabalho confinadas
a um cart6rio que a familiar ganhou no
foro de Belem, subitamente despejado
na atividade political e ja no post de
vice-governador por um arranjo engen-
drado exclusivamente pelo pai.
Helinho diz que so soube desse arran-
jo no dia em que a chapa, encabegada
por Almir Gabriel, foi homologada em
Belem. Sua reconstituigao desse dia d um
primor de testemunho sobre os m6todos
das oligarquias familiares paraenses e o
universe de seu compromisso.
Instantes antes de se tornar o candida-
to a vice-govemadoria, o Junior havia
rejeitado categoricamente a sugestao de
"tr8s lorpas" com as quais conversava
"no trio do F6rum", para entrar na po-
litica porque "o nosso grupo precisa de
ti". Nao aceitaria ser companheiro de
Almir Gabriel porque ele era "frouxo,
despreparado". A16m do mais, Helinho
julgava ter "uma posicgo ideol6gica de-
lirantemente (sic) oposta a que ele [Al-
mir] prega". A recusa seria sua posicao
final, "a menos que meu pai madee.
Pois o pai mandou. Foi uma ordem
telefonica, dada duas horas antes de co-
megar a convenqao da coligaqio Unidos
pelo Para, em Bel6m. Helinho calou e
aceitou, mas diz que foi um impact tao
grande que, ao desligar o telefone, "pa-
recia muito branco, apesar de carregar
varios mulatinhos no sangue", conform
sua forma bem original de fazer humor.


A esposa, que estava ao lado, tambem
ficou estatelada com o anincio: "Os la-
bios tremiam como se quisessem falar
sem qualquer comando do cerebro", diz
o marido, relatando com propriedade a
reagao de sua mulher. A sua maneira, o
future ungido prometeu: "Jamais me cur-
Svarei ao gosto ou a imposicgo de quem
Squer que seja. Mas... por via das duvi-
Sdas, trata logo de preparar teu vestido
para a convengco, ate porque a gen-
te nao faz na vida s6 o que quer. E a
Simagem de uma familiar bonita, ale-
gre e harmoniosa e muito important
nessas horas".
A relacgo do primogenito dos Mora-
es Gueiros cor o pai avassalador e a mae
esmagadora e um dos principals eixos
do livro e um dos tracos definidores, se
nao exatamente da personalidade (como
pensa o autor), da psicologia (como pre-
fere o povo) do nosso vice. Ele poderia
ser muito melhor do que e, desenvolven-
do em plenitude seus dotes naturals, sem
limitaqbes e represses, nao fora alguns
6ditos de criaqdo.
A mae, a professor, fil6sofa e multi-
secretaria Therezinha Gueiros, por
exemplo, batizou o pimeiro filho, ainda
infantil, de "espirito de porco". O eti-
quetado reage: quanto a espirito, tudo
bem; ele nao da mesmo importancia as
questoes materials. Mas dai a ser espiri-
to "de porco", animal imundo "que se
deleita ao se (sic) chafurdar na lama",
seria uma distancia inaceitavel.
O simbolismo da "baixeza e vilania
dos homess, associado ao animal, "nao
poderia jamais estar ligado a (sic) mi-
nha image, a (sic) minha pessoa, a (sic)
minha personalidade. E o pior e a com-
paraCio vir da boca da pr6pria mae. Pura
humilhagao. Nunca soube o que fizera
para receber tal epiteto", reclama edipi-
anamente o vice.
Helinho se viu obrigado a assumir
desde cedo camisas-de-forga (em senti-
do figurado, claro), como a de ter que
preferir o azul: "Desde crianga a minha
mae- me fez acreditar que a minha cor
preferida era o azul. Em ferias no Rio
de Janeiro, eu e meu irmnAo Paulo ganha-
mos dois carrinhos rigorosamente iguais.
Um vermelho, outro azul. Queriamos,
como toda crianga, o mesmo carro, por
um motive ou por outro, o de cor ver-
melha. Era choro para tudo que e lado.
At6 que a sabia mae me convenceu, sei
la com que arguments, que a minha cor
preferida era o azul".
Os traumas originals emerge nova-
mente quando a mae, querendo prote-
ger o filho durante um v6o de teco-teco
de Belem para Altamira, ja durante a
campanha electoral, ante a iminencia de
um acidente no ar, pediu para o filho tro-


car de lugar, ficando com o dela: "Aqui
tu talvez ainda tenhas uma chance de es-
capar corn vida. Ja vivi mais do que tu...".
Segue-se a reconstituigao de Helinho:
"Nao deu para responder nada. Meu
pai adiantou-se e apressou-se a tomar
conta da situagao, com a voz um pouco
elevada (para se fazer melhor ouvir) e
aguda (caracteristica por mim, infeliz-
mente, herdada), pronunciou as calmas
e delicadas palavras:
Cala a boca Therezinha...
Tentei ajudar a minha mae:
NAo se preocupe nao, mae. Se acon-
tecer alguma coisa, vai todo mundo jun-
to. Fico por aqui mesmo onde estou...
Hoje, pensando serenamente, acho que
nao agradei aos presentss.
A image da familiar "alegre, bonita
e harmoniosa" estaria garantida pela dis-
posi~ao de Helinho de se submeter do-
cilmente ao sacrificio imposto pelo pai
duas horas antes. Nao importa que, ate
entao, ele jamais houvesse segurado um
microfone, nem que receasse usar nele
sua voz "esganigada e horrivel". Muito
menos que jamais houvesse trocado
"dois dedos de prosa com o Almir Ga-
briel antes de subir ao palanque naquela
convenqgo", mesmo que depois nao ti-
vesse mudado muita coisa, porque Al-
mir "sempre tentasse passar uma image
de intimidade em relacgo a mim" para
Gueiros pai e Therezinha mae.
Ao subir pela primeira vez ao palan-
que para discursar como candidate da
coligagdo oposicionista, Helinho perce-
beu, "pela primeira vez, que nao tinha a
minima ideia do que ia dizer aquela mul-
tidao. Nada preparado. Nada pensado".
O future vice nao conseguia "desenvol-
ver nada com sentido ou que se aprovei-
tasse. Nao formulava, mentalmente, duas
frases inteligiveis".
Mas isso nao interessava: o que impor-
tava era o apoio do pai a candidatura do
govemador. O filho seria apenas um ins-
trumento, de preferencia oculto. Gabriel
"quer o apoio, mas nao quer aparecer ao
lado. Depois e mais facil esquecer".
Foi o que Helinho logo percebeu. Para
ele estavam sempre reservadas as sobras
da logistica de campanha: os teco-tecos
ruins, os roteiros sacrificantes, a figura-
9go. Ele nao falou uma vez sequer no
horario eleitoral gratuito. O que the ca-
bia era falar, "ao vivo", em comicios sem
pilblico e sem suporte.
Em Garrafao do Norte, por exemplo,
havia "cerca de dez ouvintes, e o doutor
Almir sozinho ninguem mais quis usar
a palavra falou por mais de tres horas.
As pessoas queriam ir embora e ele nao
deixava. Se eu estivesse falando, as dei-
xaria sair. Ninguem notaria, havia mais
pessoas na comitiva do que na plateia".







JOURNAL PESSOAL -1- QUINZENA DE MARCO / 1997 3


Admite Helinho que, na ras de um Estado duas vezes maior do
hora, nao sabia classificar que a Franga: "um home de poucas
palavras, um tanto quanto taciturno. Nao
a cena de comovedora U ousaria aqui utilizar a palavra soturno -
constrangedora. "Hoje digo, para mim, confesso, expressaria melhor
cor isengao e tranqiiilidade, foi a situa- sua personalidade -, pois poderia pare-
cio mais patetica presenciada por cer insultuosa e long de mim querer
mim na vida. E foi premedita- / ofender alguem. O ar sombrio e pe-
da. Aprendi, mais tarde, que ao saroso, a falta de humor, o governa-
PSDB podia falar durante ho- / I dor traz sempre consigo".
ras com dez gatos pingados, Levado a observer melhor o parceiro
mas tinha medo de se expor ap6s meses de convivencia, Helinho ob-
realmente ao povo" srva: "Se a gente reparar bem, quando
A caravana Gabriel-Gueiros nao sabe o que responder, o Almir Ga-
era um autintico exercito Brancaleone, briel fala sobre outra coisa qualquer.
chegando a pontos do interior do Esta- Geralmente sem nexo. Desisti de tentar
do, nunca dantes percorridos, sem ser co- conversar qualquer assunto com o sena-
nhecida pelos moradores ("ninguem sa- dor. Nao adiantava, ele nao escutava.
bia quem era Almir Gabriel e, evidente- Pior, era despreparado".
mente, qualquer outro membro"), falan- O que Helinho quer dizer, cor o ines-
do as vezes para "uma multidao de 50 perado e involuntario auxilio do fil6-
pessoas", ou para "o nada, ou melhor, sofo alemao, e que Almir Gabriel nun-
para uma mangueira, dois acaizeiros e ca representou nada de novo na political
um cachorro abanando o rabo", como em paraense (seu passado e o de um 'buro-
Portel. crata e servil ao regime de 64"). O atual
No entanto, depois de ser derrotada vice ate arrisca dizer que seu parceiro
por estreita margem no 10 turn, a chapa de governor renunciou a candidatura a
oposicionista venceu a situacionista pela prefeito de Belem, em 1992, para nao
maior margem de votos registrada em ser derrotado por H1lio Gueiros pai: "re-
eleig5es no Para nos iltimos anos. Foi nunciar a candidatura s6 porque perce-
uma inversao que surpreendeu ate o pre- beu que seria fragorosamente derrota-
sidente Fernando Henrique Cardoso: do, demonstra a falta de coragem para
uma assessora dele "chegou a declarar, enfrentar eventuais desafios. Pode ser
na minha presenga, nao por descortesia ruim perder, muito mais feio, porem, e
- pois nao sabia que eu era candidate a fugir".
vice na chapa de Almir Gabriel -, que O que o depoimento do vice-gover-
aqui ia ser um passeio do senador Passa- nador atesta e que o Para parece conde-
rinho. Era irreversivel, as pesquisas ga- nado a nao ter ,sa novidade em mat6ria
rantiam. Para desconforto e tristeza das de politicos ou de elite, de uma manei-
pesquisas, dos jornalistas e dos politicos ra mais ampla. O testemunho do filho
de uma maneira geral, o coronel Passa- sobre o pai s6 ter valor psicanalitico: o
rinho perdeu. E perdeu muito feio, como ex-prefeito e o estadista querido pelo
jamais aconteceu na hist6ria do Para". povo; se a vontade popular nao afina corn
Como isso aconteceu? "Para falar a a expectativa do grao-vizir, encontra-se
verdade nao acredito que tenhamos ven- uma nova explicacgo, em desacordo com
cido nada. O grupo do ex-governador a verdade anterior.
Jader Barbalho e do coronel Passarinho Assim, se H6lio Gueiros transforma-
foi que perdeu fragorosamente", confes- ra a ultima eleigo municipal em um ple-
sa Helinho. "0 eleitor, agora, era a viti- biscito em torno de sua administracao,
ma, digo, quem devia ser persuadido a julgando que ela o autorizava a sagrar
votar no melhor. Na minha opiniao, no quem quisesse, e foi derrotado, o resul-
menos pior". Helinho, evidentemente, tado passa a expressar uma avaliaago
inclui-se nesse "menos pior". exclusive dos candidates feita pelos elei-
A falta de op9ao era o resultado desse tores e nao mais do alcaide, que apoiou
eterno retorno nietzscheano da political um deles, o vencido, arrastando-o atras
paraense, eruditamente definido por He- de seu nome.
linho (al6m de Nietzsche, outro fil6sofo Helinho e exemplo do tipo padrao de
lembrado, em terras mocorongas, 6 Pla- paraense urbanizado litoraneamente que
tao). Almir Gabriel era um personagem descobre uma dimensao insuspeitada de
diferente, mas o enredo da hist6ria seria sua terra, a do interior, o hinterland cada
o mesmo: um lider personalista, autori- vez mais sertanejo, em certa altura da
trioi, disposto a todos os acertos para vida, choca-se com a descoberta, tenta
chegar ao poder e nele manter-se. transforma-la em instrument de a9go,
Helinho tenta traqar o perfil do seu mas acaba sufocado por estruturas mais
companheiro de adangas eleitorais pelos amplas no caso, a familiar, que pree-
distantes currais espalhados pelas lonju- xistia ao personagem, definindo (e de-


formando) sua personalidade.
Nao se pode deixar de sensibilizar-se
e ate solidarizar-se com a busca pat6tica
de identidade e unidade do autor, mes-
mo quando fica visivel sua dificuldade
para entender o enredo que lhe foi im-
posto. Al6m das constantes colisres cor
as complicagces da lingua (especialmen-
te quanto a crase e concordincia), o vice
padece de sua condi9ao de ne6fito em
political e em Para.
A baia do Guajara, por exemplo, vira
rio e passa a separar Belem da ilha do
Maraj6. Maraba 6 banhada "pelo rio Ara-
guaia-Tocantins" (o Itacaiunas foi cassa-
do da geografia). A cidade "ao lado" de
Monte Dourado deixa de ser Laranjal do
Jari (antigo Beiradao) e passa a ser Al-
meirim. A fabrica de celulose deixada
por Daniel Ludwig talvez seja a maior
do Brasil, embora tres vezes menor do
que a da Aracruz, no Espirito Santo.
Mineraqio Rio do Norte, para o vice,
continue a poluir o lago Batata (o que
deixou de fazer desde o final da decada
de 80) e Wirland Freire ainda e o prefei-
to de Itaituba (onde, "de uma maneira
geral, nao ha mocinhos", s6 bandidos,
como o entao prefeito-bandoleiro, mas
brindou o pai "com uma surpreendente
e bonita vit6ria"). A BR-222 ter 80 e
nao 200 quil6metros de extensao e liga
Maraba a Vila Rondon (na verdade, pros-
segue mais algumas dezenas de quil6me-
tros ate a Belem-Brasilia).
Nao importa: sao "detalhes" que nao
alteram a constatagao do iniciante poli-
tico sobre o abandon de sua terra e o
seu crescente empobrecimento. Helinho
quer ser um personagem nessa hist6ria e
talvez valesse a pena prestar atencao nele.
Carla Camuratti, por exemplo, nao pre-
cisaria ir buscar incorreta inspirago em
D. Joao VI para deixar em seu filme a
image do herdeiro compuls6rio de um
poder oligarquico familiar que se suce-
de, sem qualquer renovago, indiferente
aos desejos e direitos de uma sociedade
chamada a decidir apenas para sacramen-
tar os arranjos, muitos deles decididos
as vesperas da montagem da cena para
consume externo, e sem as advertencias
da gen6tica.
Com seu livro, Helinho deixa bem cla-
ro que e personagem melhor, ou mais ade-
quado e o Para o scenario ideal para com-
provar esse etemo retorno as caverna, seja
da hist6ria como das families, por um
Estado que sonha barrocamente com seus
designios de grandeza, nao sendo os so-
nhos utopia, mas delirio produzido por
um sezao infiltrado na memoria pela pr6-
pria desmem6ria do tempo. A biblia des-
se paradoxo ji foi escrita. Este m6rito o
vice de Almir Gabriel pode reivindicar
para si. E legitimamente dele. *







4 JOURNAL PESSOAL -1- QUINZENA DE MARCO / 1997


Desem bargador ganha peita a corregdo do desembargador e
de sua esposa, diz que elas nao fo-
1 round contra 0 Liberal ram escritas por Luiz Paulo, mas
"plantadas" a revelia dele por al-
uase um ano depois que a co- cor o desembargador. O intermedia- guem cor frequencia assidua nos
luna Paulo Zing publicou qua- rio sugeriu que as desavengas poderi- ultimos anos no forum, pessoa que
tro notas curtas mas contun- am ser eliminadas se o magistrado acei- foi contrariada por um parecer que
dentes sobre a vida professional e tasse conversar corn o principal execu- Alvarenga deu quando ainda atuava
pessoal do desembargador Benedito tivo do SRM, Romulo Maiorana Jr., que como procurador de justiga (sua in-
Alvarenga e de sua esposa, Elizabe- estaria disposto a receb8-lo em seu ga- dicagao para o Tribunal foi do Mi-
th, O Liberal atraves da coluna so- binete, na sede do journal. Alvarenga nisterio Publico).
cial de Isaac Soares elogiou, no mrs teria reagido cor sugestao inversa: se Fen6meno semelhante ocorreu
passado, a aplicagdo e a produtivida- Rominho estava interessado em um cor a desembargadora Maria de Na-
de do mesmo magistrado, como se acordo, que o procurasse em seu pr6- zare Brabo de Souza: bastou ela dar
anteriormente nao tivesse sido afir- prio gabinete, no tribunal, um unico despacho contrario as pre-
mado exatamente o contrario. Talvez O encontro no ocorreu. Mas se a tenses de Rosangela Maiorana Kzan
nao por mera coincid6ncia, um pou- nota na coluna de Isaac Soares nao para ataques contra a magistrada co-
co antes o jornalista Luiz Paulo Frei- foi uma desavisada e desastrada ini- megarem a aparecer no Rep6rter 70.
tas, autor da coluna Paulo Zing, ha- ciativa, que deu espaco a uma perso- O pretexto foi de que a indicaqgo dela
via sido condenado na 16" vara penal na non grata a casa, sua publicacgo havia sido political e que atuava mal
de Belem a pagar nove salaries mini- indica que alguem da cupula do SRM como president do Tribunal Regio-
mos de multa por ofender o desem- estava interessado em transmitir um nal Eleitoral. Ou seja: as notas pro-
bargador. sinal de paz e de boa vontade para o curavam um argument de natureza
0 surpreendente elogio na coluna desembargador, desfazendo o inci- pfiblica para ocultar sua motivacgo
de Isaac Soares provocou reaches na dente criado no ano passado. personalissima.
cupula do Sistema Romulo Maiorana i que a sentenga condenat6ria de Luiz Paulo nega essa versao. Ele
de Comunicagio. A diretora adminis- 1 grau contra Luiz Paulo Freitas pode sustenta ter sido quem redigiu as no-
trativa da empresa, Rosangela Maio- se transformar em poderoso argumen- tas, o que afirmou em juizo, e, como
rana Kzan, quis saber quem fora o res- to em outra agco, esta civel, que o de- tambem fez no process, garante nao
ponsavel pela publicacio da nota. sembargador Benedito Alvarenga ter pretendido atingir o desembarga-
Carmem Souza, secretaria de Isaac, impetrou contra a responsavel legal dor e sua esposa, "tanto que nao ha
explicou que a informacdo havia sido pelo grupo Liberal, Lucidea Maiora- refernncia a nomes na noticia". Mas
transmitida por telefone por um amigo na, cobrando indenizacgo de 100 mil o casal sentiu-se tdo identificado pe-
do colunista, ja cor o format de noti- reais em fungf o dos danos que con- los dados apresentados que Alvaren-
cia. Ao telefonar, a fonte dissera que o sidera ter sofrido cor a publicacao ga decidiu imediatamente processar
pr6prio Isaac lhe pedira para mandar das notas da coluna Paulo Zing. E criminalmente o responsavel pela
notas para a coluna e que estava cum- praticamente certo que o magistrado coluna e civilmente a resposavel pela
prindo o acordo. Carmem nao se lem- tambem ganhara esta agoo. empresa. Corn isso, fez o ceu maio-
brava do nome desse informant. Um forte boato que circula desde randmico. *
A historia nao parece muito convin- que comegaram surgir as sucessivas
center. A referencia elogiosa apareceu notas na coluna, colocando em sus-
no jomal ao mesmo tempo em que no
f6rum surgia uma hist6ria sobre o con-
tato de um advogado do grupo Liberal universidade, a de Bolonha. Sob md
sociologia, os intelectuais italianos
jogararn diante da imagem purpura
sul do Pard) e da violagdo da de nosso maquiavilico (no bom
ordem juridica (ao exigir a sentido, e claro) principle a inacdo
designacdo de juiz e promoter do governor diante dos pobres e
Voz do al mr especiais para a apuraqao do marginalizados (descamisados,
massacre de Eldorado de Carajas). como diria a jafora de moda
E ssefilme, a vinda do mocinho E media de meia-sola inspirada linguagem collorida), contrastante
a terra do bandido, n6sjd por iniciativa de meia-agua. Tudo cor sias celeres providjncias em
vimos vdrias vezes, porque sua excelOncia o president favor dos ricos e cheirosos
invariavelmente interpretado pelo Fernando Henrique Cardoso foi empresdrios.
ministry dajustiga de plantao no cobrado, em Roma, por sua De volta ao trono, o monarca
planalto. Como seus antecessores emindncia o apa Jodo Paulo II, republican mandou o emissario ao
no papel, o ministry Nelson Jobim vendo-se, depois, sob a hinterland levando bugigangas
abusou da demagogia (ao anunciar constrangedora circunstdncia de para encantar os bugres e corn a
mais uma in6cua "operaqdo ser criticadopor irmdos ordem de trazer noticias a corte
desarmamento para o conflagrado acadOmicos de uma milenar para repassar ao ultra-mar,







JOURNAL PESSOAL -P QUINZENA DE MARCO / 1997 5



A lei da tesoura, 30 anos depois


Alei 5.250, a famigerada "lei de
imprensa", completou no m6s
passado 30 anos de vida. E de
se lamentar que permanega viva. So-
brevive ha nove anos a atual consti-
tuicgo federal, que deveria t6-la tor-
nado letra morta. A incompatibilida-
de entire ambas 6 gritante. Como a
constitui(go e a lei maior, a outra de-
veria ter se transformado em letra
morta. Isso nao aconteceu. Nenhuma
declaracGo de inconstitucionalidade
foi suscitada, ou, se o foi, nao alcan-
cou desfecho judicial. O monstrengo
continue em vigor.
Desde 1991 os parlamentares v6m
prometendo que esse absurdo vai aca-
bar. Ha em tramitag9o no Congresso
um projeto para revogar a 5.250, con-
cebida pelos militares para comegar a
arrolhar para valer a imprensa critical
e independent surgida no espago que
os constituintes de 1946 abriram, ao
long do mais extenso e prolific pe-
riodo de vida democratic do Brasil
republican.
A emenda 6 pior do que o soneto.
As boas intengces que abengoaram
alguns artigos da lei em discussed fo-
ram afogadas por dispositivos que,
minimizando o poder censorial do
Estado, engendram em contrapar-





assossegando os espiritos
e resguardando o velho
continent dafina ironia
do soci6logo-presidente
(que ameagara tratar do
galopante desemprego
dos europeus).
Ora, o status legal, seja
do Brasil como da
Europa, ndo permit a
formagdo de umajustiga
especial. A que o doutor Jobim
sugeriu teria bons motives para
nascer, mas, cor outra inspiraq~o,
os integralistas ndo assumidos do
Estado Novo, os nazistas de herr
Hitler e os comunistas de papa
Stalin tambem organizaram
tribunals especiais para dar cor
legal a um negro exterminio de
adversarios, reais ou imaginados.


tida a auto-censura a partir da ameaga
de avangar nos cofres das empresas,
cobrando multas ruinosas. A pena de
prisdo por crime de opinido permane-
ce. A inspiraqgo 6 desastrosa.
Nenhum jornalista a serio ha de es-
perar regulamentago just e honest
para a atividade da imprensa oriunda
do Executive ou do Legislativo. A nos-
sa tradicgo institutional e de reprimir
a imprensa, nao de resguardar sua in-
depend6ncia e liberdade. Antes de sur-
gir o primeiro jomal no Brasil, corn
um seculo de atraso no tardio conti-
nente latino-americano (o Correio
Braziliense, que Hyp6lito Jose da Cos-
ta teve que editar em Londres), ja o
poder estabelecera uma junta de cen-
sura. De la para ca mudou a forma e a
ret6rica nessa relagao, mas a ess6ncia
6 a mesma.
A nacgo nao precisa de uma lei pe-
nal especifica para os crimes de im-
prensa. Os delitos possiveis ja estdo
capitulados no C6digo Penal. Nao ha
por que agrava-los. A unica regula-
mentagio especial a fazer e quanto ao
direito de resposta. Ai, sim, cabe ao


poder public obrigar as empresasjor-
nalisticas a acatar, respeitar e dar pri-
oridade ao exercicio da resposta dos
que houver atingido ou citado, sob as
mais several sanc6es legais quando a
norma de prote9 o for contrariada. O
exercicio desse direito tira o poder de
imp6rio da imprensa e a obriga a ex-
por seus arguments, estabelecendo
uma controversial que favorece a to-
dos, inclusive a educagdo do cidaddo.
Um outro ponto fundamental 6 o da
relagco da empresa jornalistica cor o
puiblico. As sociedades an6nimas da
comunicagao teriam que ser obrigadas
a abrir seu capital, oferecendo ages a
subscrigdo de qualquer um, desde que
prevenida a formacgo de carteis e a
usurpagao do control acionario.
Quanto ao mais, sempre que se ape-
lar para os poderes constituidos em
busca de regras para o exercicio da li-
berdade de imprensa, o que se estara
fazendo e jogar o macaco na loja de
loucas. 0 resultado 6 previsivel.0


.4/


0 que tem quefazer ospoderes voz e muito sangue, sangue demais,
constitidos e criar condigCes para desnecessdrio e, infelizmente, ate
a instauraQdo das varas agrdrias, aqui, initil. Tdo inftil quanto os
ndo para executor normas representantes dos natives,
inspiradas pelo civilismo do obsequiosos ao receber a caravana
passado, ainda crente na origem real e tdo mudos e estdticos ao
divina da propriedade, mas pelo ouvi-la desfiar seu discurso postigo.
direito que se inspirou nas novas Terra infeliz, esta, pela qual tantos
relacges sociais. Isto e o que a morrem e que s6 unspoucos usam -
nadao vem pedindo h4 tempos, cor e mal.


r2 ((
~
i, %-~







6 JOURNAL PESSOAL -I1 QUINZENA DE MARCO / 1997


Fazendo sua redacao sobre o tema
do vestibular deste ano da Uni-
versidade Federal do Pard, um
candidate observou, judiciosamente,
que assim como ha os maltrapilhos,
tambem ha de haver os bem-trapilhos.
Cor a intencionalidade que faltou ao
neologista accidental, Lewis Carrol (o
autor de Alice no pais das maravi-
Ihas) assinaria cor deleite embaixo
da criaqao. Afinal, se ha aniversario,
tambem existe desaniversdrio.
A hist6ria 6 c6mica, cor ou sem
elaboraqao artistic. Mas talvez dei-
xe revelar algumas das raizes mais
profundas de um furacao que arrasou
milhares de lares beleneses no m6s
passado: apenas 58% das quatro mil
vagas oferecidas pela UFPa foram
preenchidas.'
Nada menos do que 1.600 lugares
disponiveis ficaram de fora porque os
candidates nao alcangaram o rendi-
mento minimo. Se anos atras o dra-
ma do acesso ao sonhado (e idealiza-
do) terceiro grau era o candidate ex-
cedente, agora e a vaga excedente, um
libelo acusat6rio que e acionado
como uma metralhadora giratoria.
Os atingidos logo se manifestaram,
apresentandos explicaq6es e alibis.
Visando alvos mais proximos e, por
isso, mais faceis de atingir pode-se
transferir a culpa para o pessimo en-
sino anterior, tanto de 1 quanto de


2 graus; para a montagem dos esque-
mas de prepare de atletas-candidatos
nos cursinhos (numa competicgo alu-
cinante que, tendo gerado mafias, esta
pondo-as em guerra literalmente san-
grenta); para a diferenga de renda que
torna uns "mais iguais" do que ou-
tros, a maioria; para o malabarismo
da preparagao dos desafios colocados
antes do fatidico quadradinho que
espera o "xis" salvador; ou para as
inovag6es pedag6gicas, algumas ri-
gorosamente novas, outras nada mais
do que o retorno de antiguidades fa-
tidicamente suprimidas (como a de-
vastadora redacgo).
Alvejando de maior distdncia e com
acuidade, pode-se, examinando a ma-
nifestaggo mais livre e exemplar dos
candidates, quando postos diante do
texto em branco do papel para o de-
senvolvimento da redagco, ver os da-
nos cometidos contra o patrim6nio
mental de gerac6es de brasileiros que
ja vieram ou ainda virao por um siste-
ma de ensino que pune o espirito criti-
co e inventive, mas denso e aplicado.
Um sistema que expurgou o ensino
de filosofia, considerado superfluo, e
"desensinou" (como diria Carrol) a
pensar, distanciando o aluno da apre-
ensao simb6lica, do raciocinio em abs-
trato, do puro e complex prazer de
pensar, de toda e qualquer metafisica
que nao seja a forjada no mercado (ge-


0 fracasso do vestibular

e a regressao intellectual


0 negocio do livro. So neg6cio


O mercado do livro dida-
tico no Brasil e um dos
maiores do mundo, mo-
vimentando bilh6es de reais e
alguns milhoes de volumes.
Cresceu tanto e tdo selvage-
mente que ja nao consegue
fazer lembrar sobre sua moti-
vag9o e destinaggo cultural.
Vai sendo marcado cada vez
mais pela busca obsessive do
lucro.
Enquanto 6 tempo, as au-
toridades deveriam iniciar
uma ofensiva para expurgar o
virus do comercialismo a
qualquer custo que vem cor-


rompendo as relag6es em tor-
no do livro didatico. Hoje, em
escala crescente, as indicaqies
feitas aos alunos obdecem
mais aos interesses pessoais
do que a criterios pedag6gi-
cos. E uma onda que vem de
cima, desde os 6rgaos ofici-
ais e as editors, espraiando-
se por todos os niveis.
Mesmo em Belem, pode-
se constatar a promiscuidade
entire vendedores de livros,
dirigentes de colegios e pro-
fessores. Algumas situa96es
evoluiram (ou seria mais ade-
quado dizer involuiram) da


sedudo sutil para a compra
aberta. Al6m dos descontos
para os que compram, gran-
des vantagens sao oferecidas
aos que indicam a compra ou
a direcionam institucional-
mente, como ja vem fazendo
algumas escolas, que chega-
ram at6 mesmo a montar bal-
c6es de venda internal, com-
puls6ria.
As que entram na jogada
podem receber apoio para as
promo oes e events da esco-
la, fornecimento da relagio de
livros, devidamente impressa,
fornecimento de material es-


portivo e presents individu-
alizados. Fala-se insistente-
mente no pagamento de co-
missao para os professors.
A distribuiCao de livros nas
escolas p6blicas e a exigen-
cia da leitura extra-classe tam-
bem se transformaram numa
mercadoria cor peso de ouro,
com valor estabelecido ape-
nas pelos cifrbes e quase ne-
nhuma preocupaqco cor o
valor didatico, literario ou ci-
entifico das obras recomenda-
das. A escola esta se tornan-
do uma extensao do balcao da
quitanda. 0


ralmente em video-clips) para glamou-
rizar o consume de tudo, menos da
identidade que result de um constan-
te, sistematico e aprofundado pensar
sobre o "em si" e o estar no mundo",
cor o metodo que nos deixaram os
que pensaram antes ou resistem pen-
sando ainda hoje.
Nesse infimamente desmoralizan-
te indice de aprovacao no vestibular
da UFPa a sociedade ter a advert6n-
cia para encarar cor seriedade, hu-
mildade e compet6ncia, certa de que
resultados para valer s6 virao depois
de muitos anos, o desafio que a for-
manao de sua juventude Ihe impoe.
Comegamos a pagar e pagaremos ain-
da muito mais alto pela insensatez de
desprezar a cultural preservada em li-
vros como fonte de conhecimento,
meio de prazer e instrument de adgo
no mundo, na va ilusao de que basta
acionar comandos digitais e contem-
plar maravilhosas respostas da tecno-
logia para ter o dominio de tudo.
Quando isto ocorrer, o home sera
dispensado de ser human, misterio-
so e imprevisivel numa escala que
nem mesmo o mais engenhoso pro-
grama de computador abarcara e pro-
vera porque a chave do segredo ter
um unico local de abrigo e ocultagdo:
a mente humana. Se ela deixar de ser
estimulada pelos desafios da inteli-
g6ncia, encurtara tanto que passara a
tomar em seu sentido literal a lingua-
gem abstrata, nao-figurativa. Ai, en-
tao, voltaremos as cavernas. Digita-
lizadas, 6 claro, mas cavernas. Cor
maltrapilhos e bem-trapilhos. *


I







JOURNAL PESSOAL QUINZENA DE MARCO / 1997 7


Esta aberta a

temporada

electoral: tern

dissimularao

no ar

senador Ademir Andrade final-
mente p6s fim a interminavel
novel e rompeu formalmente
cor o governador Almir Gabriel. O
desfecho era mais do que previsivel:
tornou-se inevitavel a partir do mo-
mento em que foi viabilizada a ree-
leia.o dos atuais ocupantes de cargos
do executive. Almir e Ademir sao
candidates ao mesmo cargo. Por uma
lei da fisica, um deles teria que so-
brar.
0 principal lider do PSDB no Para
elevou o tom das critics ao gover-
nador a partir do episodio de Eldora-
do de Carajas. No plenario do sena-
do, em Brasilia, fez um discurso ex-
tremamente contundente contra Al-
mir, que ficou irritado e determinou
que, ao inves da fritura, Ademir fos-
se colocado na geladeira. O senador
nao conseguia mais ser recebido por
seu aliado.
Mas manteve uma conciliacgo es-
quizofrenica: em Brasilia era o opo-
sicionista, mas seu brago direito,
Antonio Carlos Fonteles, continuava
presidindo o Ipasep e colocando a
disposigao do senador a estrutura ad-
ministrativa do 6rgao, grandemente
ampliada no interior para funcionar
como diretorio informal do PSB. Para
Ademir, era uma important base de
apoio. Para Fonteles, passou a ser in-
dispensavel para realizar seus proje-
tos politicos.
Enquanto Ademir p6de conciliar a
ret6rica agressiva em Brasilia e a pra-
tica clientelista no Para, a composi-
9go triangular de interesses (governa-
dor-Ipasep-PSB) foi mantida. Mas, a
partir da aprovagco da emenda da
reeleigdo, tornando Almir forte can-
didato a mais um mandate, comegou
a contagem regressiva para Ademir:
quanto mais ele retardasse uma defi-
niCgo clara, mais comprometeria sua
image de oposicionista, de "sena-
dor-coragem". Nao podendo mais


contar com a maquina, decidiu sal-
var o carisma.
E um patrim6nio, mas nao e muito
para quem, para realizar seus sonhos
maiores, vai ter que enfrentar a ma-
quina comandada pessoalmente pelo
governador no pleno exercicio do
cargo. Por isso, alguns observadores
apostam que o rompimento de Ade-
mir com Almir nao alcangara Fonte-
les no Ipasep e que o rompimento
entire os correligionarios, se vier a
ocorrer, sera apenas para consume ex-
terno. Segundo essa hip6tese, Fonte-
les continuaria a frente do ins-
tituto e Ademir contaria
cor seu apoio nAo-declara-
do e a vista
grossa do go-
vernador.
A hip6tesee '
imaginosa, mas
falta-lhe subs-
tancia. Tanto
Ademir quanto -
Almir sabem
que seus cami-
nhos vao se
cruzar e, nesse
caso, o con-
fronto se torna-
ra inevitavel. .
Confirmada a
reeleigao no se-
nado, o gover- .
nador vai inten- ,. s
sificar a articu-
laqgo para vencer em 1998 contando
cor a maior estrutura political a ser-
vigo de um candidate em muitas de-
cadas. O senador do PSB 6 uma das
poucas alternatives fora desse esque-
ma, ainda que dependent de ligagces
como a que foi montada no Ipasep.
A outra 6 do PT. Mas por enquanto
ela e uma incognita. Acreditam os pe-
tistas que apenas cor a prefeitura de
Belem poderao sustentar uma cam-
panha para valer para o governor do
Estado? Sem uma avaliagao realista
da vit6ria de Edmilson Rodrigues,
podem alimentar essa presungco e
ate, por milagre (como o que Helio
Gueiros Jr. diz que ocorreu, possibi-
litando sua ascensao ao governor re-
petir a dose. Mas pode cair entrar no
efeito reverse e cair num fracasso to-
tal.
Assim, a outra hip6tese e de que o
PT entire para a dispute aliado a um
grande grupo politico. As especula-


95es sao feitas na direcgo do PMDB
de Jader Barbalho. Tudo porque os
veiculos de comunicagdo do senador
t6m sido os privilegiados pela midia
da prefeitura de Belem, retribuindo
com um tratamento privilegiado as
atividades de Edmilson Rodrigues. O
que poderia ser apenas relag~o co-
mercial passou a ser visto como o
inicio de uma alianga political.
Isso e fantasia? Provavelmente a
eleigdo de 98 vai estar cheia de fan-
tasias e surpresas, tal a rearrumagdo
dos grupos politicos no tabuleiro do
poder. A vig6ncia, pela primeira vez
Sna hist6ria republican brasilei-
ra, do principio da reeleicao para
o sempre poderoso chefe do exe-
S cutivo, vai desencadear efei-
A f tos em cadeia no ter-


: 17


reno oposicio-
nista. Alguns,
como o movi-
mento do sena-
dor Ademir An-
drade, ja pre-
nunciam a tem-
porada que se
aproxima. Ou-
tros ainda estdo
se produzindo
nos bastidores e
nas entranhas
das articulagbes
silenciosas,
como se fossem
bombas at6mi-


cas estouradas subterraneamente.
Lateralmente a esse enredo, uma
pergunta intriga: por que o governa-
dor Almir Gabriel prestigia tanto a
conturbada presid6ncia de Antonio
Fonteles no Ipasep. Alguns apostam,
ao procurar a explica9ao, num lance
de xadrezista maquiav6lico: seria
para diminuir ao minimo o tamanho
do Ipasep, tirando-o de vez da assis-
tencia m6dica e devolvendo-o exclu-
sivamente as suas origens previden-
ciarias.
Em political, nem sempre o que se
diz ou se manda escrever e no que se
pensa. Especialmente agora, quando
os contendores apresentam suas ar-
mas para entrar na liga, o jogo do
despistamento 6 essencial. Infeliz-
mente, e nesses moments que se re-
velam as grandes virtudes dos politi-
cos brasileiros, os mestres do eng6-
do com as cada vez mais magras
excebses de praxe. *








Telhado de
vidro
A frota do Ministerio Pu-
blico e composta por nada
menos do que 44 veiculos,
dos quais 12 sao autom6-
veis de luxo (como Monza
e Santana) e cinco sao ca-
mionetes, havendo ainda
um micro6nibus Besta, im-
portado. Precisa mesmo de
tudo isso e cor essas espe-
cifica~6es, ou o MP esta
deixando de ver em sua
propria estrutura os males
da mordomia que combat
quando situada fora de seus
(cada vez mais extensos)
muros?

Posiqgo
tucana
0 Liberal da mais um
golpe no cravo do governa-
dor Almir Gabriel e outro
na ferradura do deputado
federal Vic Pires Franco. O
Reporter 70 do ultimo dia
de fevereiro lascou: "Con-
vidado por Kandir [minis-
tro do Planejamento] e pelo
govemador para a assinatu-
ra do convenio [da macro-
drenagem, em Brasilia], o
deputado Vic Pires Franco
trocou a solenidade pela
simplicidade das baixadas
de Belem, onde entregou
mais um 6nibus para aten-
dimento odontologico da
populagao".
Ate quando o governa-
dor se mantera nessa posi-
9do de curvatura, que ser-
ve de escada a alpinistas?


Marca
administrative
Na pagina tres do Didrio
Official de 27 de fevereiro
foi publicado decreto data-
do de dois dias antes, do go-
vernador Almir Gabriel,
exonerando Rute Vieira de
Miranda do cargo em co-
missao de diretora do De-
partamento de Assistdncia
Integrada da Superintenden-
cia do Sistema Penal, a con-


-r--------- ---------- -.
I I
Ameaga
"liberal"
I Desde a semana
I passada, 0 Liberal
I adotou uma nova
I tatica de combat
I ao prefeito de Be-
I 16m, Edmilson Ro-
I drigues. Ao inv6s
I de simplesmente I
I boicota-lo, vetado I
o aparecimento de
Sseu nome e igno-
rando sua administrago, como vinha fazendo ate I
entio, a direngo do journal decidiu partir para a ofen-
siva.
Sempre usando apenas a coluna Rep6rter 70, o
Sjornal comeou a fazer refer6ncias indiretas a Ed-
Smilson e, no dia 4, a ataca-lo pessoalmente. Como
Sno se trata de reportagens, a apurado de dados,
que seria louvavel num acompanhamento critic, e
deixada de lado e o journal faz apenas insinuates e
instila veneno no que diz.
S A ttica serve de aviso: se a prefeitura ceder a co-
branga da divida de 1,2 milhao de reais deixada por
H6lio Gueiros, o journal ainda n.o empenhado como
um todo na oposig~o volta atras e esquece as alfi-
netadas. Caso contrario, a escalada cresce e o pre-
feito experimentara a forga do monop6lio do qual o
grupo Liberal desfruta.
Critica seria e competent a administraqgo pfiblica
constitui o melhor do jornalismo. Mas o que 0 Libe-
ral esta fazendo tem um nome feio: 6 chantagem.
------ - - --------


tar de 23 dejulho de 1996.
Na pagina quatro da
mesma edicgo do DO saiu
outro decreto do governa-
dor, tambem do dia 25 de
fevereiro, tornando sem
efeito um decreto de 22 de
julho de 1996, que exone-
rara, "a pedido", a mesma
Rute Miranda do mesmo
cargo.
Aparentemente, a admi-
nistragao estadual estava
corrigindo um prosaico ato
de exonera9go, embora
corn quase um ano de atra-
so, tudo em um mesmo dia


e em uma mesma edigao do
6rgdo official, sob motiva-
gdo divers.
Mas o que impression
sdo as nogces de tempo e
de espago da administragdo
Almir Gabriel. 0 tempo e
lentissimo, quase parando;
e, na geometria gabrielina,
a reta nao e a menor distan-
cia entire dois pontos, como
se seu parametro fosse a
curva do bico de um tuca-
no ou seria de um papa-
gaio?
De qualquer maneira, na
divida, ISO 50.000 nela.


O de sempre
E verdade: o vice-gover-
nador Helio Gueiros Jr.
aproveitou a ausencia do
governador Almir Gabriel
para, no exercicio do car-
.go do titular, conceder-se
suplementagao de verba no
valor de 196 mil reais, re-
manejar outros R$ 79 mil
ja alocados, regulamentar a
contratacgo de servidores
temporarios para a vice-go-
vernadoria e requisitar para
o gabinete outros funciona-
rios estaduais.
Deslealdade? Moral-
mente, sim. Legalmente,
nao. Afinal, a lei 5.986, que
possibilitou todos esses
atos do Junior, foi aprova-
da pela Assembleia Legis-
lativa no ano passado e nao
vetada pelo governador.
Seria possivel dizer:
quem criou Mateus que o
embale. O problema e que
Mateus acaba passando a
conta do embalo para a vi-
ulva, que cobre os gastos e
paga o pato. Irresponsabi-
lidade com o dinheiro
alheio, ainda que creditado
ao anonimo pfublico, ter
nome, tdo certo quanto as
incertas do vice-versa.

Caminho
das pedras
0 data-room montado
pelo BNDES na sua
sede, no Rio de Janeiro,
com todos os segredos
da Companhia Vale do
Rio Doce, ja foi
visitado por 11
pretendentes a compra
do control da empresa
estatal: quatro
empresas nacionais,
quatro japonesas, duas
australianas e uma sul-
africana, a que esta
pintando como a
favorite a arrematar a
CVRD.
Esse tal de data-room
poderia tender, em
linguagem de
brasileiro, por casa da
sogra.


Journal Pessoal
Editor Licio FlIvio Pinto
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