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Quem ganha corn 0 Tramoste j, ornal Pessoal orre o brasileirissimo LUCIO FLAVIO PINTO Darcy (P ANO X N2 157 2- QUINZENA DE FEVEREIRO DE 1997 R$ 2,00 I LFes que ficam de Francis ,,, j POLITICAL 0 governor mostra a sua face Almir Gabriel escolhe Luiz Otdvio Campos para presidir o legislative. Cor o nome, o governador que mais mandou na AL revela a sua nova natureza e assume as transformacies quefoi experimentando nestes dois anos depoder. E m 1994, para selar a coli- gaCao electoral que fariam, o entao prefeito Helio Guei- ros sugeriu a Almir Gabriel escolher entire tres nomes o seu companheiro de chapa para o governor do Estado: o ex-secreta- rio de Transportes, Luiz Otavio Campos, o ex-superintendente da Sudam, Henry Kayath, e o seu filho, Helio Gueiros Ju- II 7A I nior, ate aquele moment jejuno em po- litica. Nenhum desses nomes tinha qual- quer afinidade corn a biografia de Almir Gabriel. Sem altemativa para valer, Al- mir optou pelo filho do prefeito, agra- dando o pai. Dois anos e meio depois, o govema- dor decidiu pelo nome que antes rejeita- ra, sagrando-o president da Assembleia Legislative: o deputado Luiz Otavio Campos. Desta vez, nao houve qualquer constrangimento. O legislative pratica- mente renunciou a sua identidade e trans- feriu para o governador todo o poder de escolha. Almir teria colocado na presi- d&ncia da AL quem quisesse, sem o ris- co de ser surpreendido. Era uma boa oportunidade para reforcar o seu parti- do, o PSDB. Mas foi buscar o nome no PFL, um nome que leva uma parce- - - ARE DA IMRES *pg - - -- - - 2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 - la da opiniao public a se perguntar, a maneira do velho e sabio Machado de Assis, sobre quem mudou: se a political paraense ou se Almir Gabriel. Estarao muito mais proximos da ver- dade os que marcarem a segunda alter- nativa. Em 1994 Almir Gabriel era uma alternative de mudanga para o Estado, sem grande potential electoral, mas car- regado de esperangas. Ao fazer-se acom- panhar de'H61io Gueiros Jr., provocou um questionamento alem e aqu6m das conveniencias eleitorais do moment, que recomendavam a alianga com Hlio Gueiros para tentar derrotar o candidate de Jader Barbalho, o entao senador Jar- bas Passarinho. Seria mesmo apenas um acerto elei- toral? era a primeira indagagao. A se- gunda era mais desconcertante: estaria ali a verdadeira razao da renincia de Almir Gabriel a candidatura i prefeitu- ra de Bel6m, dois anos antes? Surpre- endendo a todos, o entao senador de- sistiu de disputar um cargo para o qual era fortissimo concorrente. Ao sair, dei- xou aberto o caminho para H6lio Guei- ros voltar ao poder e manter o esquema da familiar & Cia. Um vacuo mais ex- tenso teria sido desastroso para os Guei- ros, mas nao tanto para Almir. Ele po- deria apresentar-se dois anos depois como candidate a um post maior, equi- librando-se nesse interval no senado (consolo de poder que nao havia para Gueiros) e tendo a promessa de dispor da base de sustentacgo da prefeitura da capital, que seu future aliado Ihe con- cederia em troca. Ali comecava a mudar se nao na sua essencia real, ao menos na imagem com que se apresentava para a opiniao pfubli- ca o politico Almir Gabriel. Como tem acontecido frequentemente entire aque- les com a mesma formacdo political e ideologica de Almir, os meios foram se agigantando sobre os fins e o program cedendo espago as taticas, ainda que a ret6rica continuasse resistindo as conces- sees. Quando Almir assumiu o govemo, o partido do govemador tinha apenas 10% das cadeiras do legislative e sua coliga- 9co um ter9o do poder de fogo da AL. No mes passado ele arrebanhou para o seu candidate a presid6ncia da casa 37 dos 41 votos possiveis. Apenas a banca- da do PT nao o acompanhou. Desde 1964, nenhum governador man- dou tanto na Assembl6ia Legislativa quan- to ele, nem mesmo os coron6is Jarbas Passarinho e Alacid Nunes transferidos da casema para a political pelo regime military. Como se diz na linguagem de ge- ral de campo de futebol (tornada corrente no poder pela gramatica de H6lio Guei- ros), Almir fez neste ano barba e cabelo na AL, depois de ter descido de suas ta- mancas para impor uma derrota ao PT na Cnmara Municipal de Belem (envolven- do-se no legislative mirim de uma ma- neira tal como nenhum outro goverador havia ousado antes dele). Em sua defesa, o governador podera dizer que agindo dessa maneira respon- deu aos que apontavam sua fragilidade political como um dos components mais desfavoraveis de seu governor. A faqa- nha 6 realmente notavel. Deve-se consi- derar, entretanto, o tamanho do preqo que o goverador ainda tera que pagar por essa coquisia A political para- ense nao mudou: conti- nua a ser mesquinha, me- diocre, clientelista e fisi- ol6gica como regra (corn as exceCqes de praxe). Nenhuma contribui ao deu Almir Gabriel para que ela mudasse para melhor. Ao contrario sua desen ol- tura revela que ele, sim, amoldou-se a political corrente no Estado. Diga-se, ainda em favor do governa- dor, que nao ha outro caminho para re- alizar um program de mudancas no Para. E precise contar com maioria par- lamentar, sem o que os entraves politi- cos poderao comprometer a acao admi- nistrativa. Mas uma coisa 6 maioria. Outra, 6 hegemonia ao menos no sen- tido em que ela 6 praticada na political paraense. O governador exagera na do- sagem. Sem autonomia, o legislative exp6s-se a opiniao public como mero caudatario do executive, desmoraliza- do. Era essa a intengao do governador? Mais do que ter aliados, ele parece as- pirar por suditos. Tudo bem: mas dominion politico para qua? Qual 6 o program de trans- formagdo profunda do governor Almir Gabriel? Se havia, evaporou-se, diluiu- se. Sua equipe 6 fraca, lenta, paquid6r- mica e sofre as consequencias da ver- ticalizagdo de mando, da nucleacao do poder formal (nas maos de uns pou- cos, como Simao Jatene) ou informal (controlado por pessoas como Fernan- do Flexa Ribeiro), da qual poucos, como o secretario da Fazenda, Jorge Alex Athias, conseguem escapar. No mais, prevalece a vontade imperial do governador, que responded ao incensa- mento da corte com a crescente auto- consciencia da pr6pria lucidez (ou nao seria genialidade?). O governor e forte em ret6rica e fraco em realidade. Na propaganda, tao cons- -tante quanto a das administraq6es ante- riores recentes, apresenta suas obras, em geral fisicas, em geral desligadas umas das outras (como em todo governor obrei- rista, honest ou nao), sem formarem, a rigor, um program, muito menos um piano. Quase tudo o que era promessa no comego do governor continue como promessa agora que ele ja esta na sua segunda metade, enquanto a regiao so- fre transformacoes, em parte por resso- nancias de mudancas mais amplas, mas tamb6m produto de interven56es locali- zadas, de iniciativas proprias. E agora a prioridade 6 assegurar as condiW6es para que o governador, buscando um segun- do mandate, possa concretiza-lo sem maiores atropelos. Como uma cobra em mutagao acele- rada, o governador foi deixando na tri- lha percorrida as peles que vestiu e das quais foi se livrando em cada um dos moments em que foi desafiado, vencen- do na maioria das ocasi6es, mas cada vez mais parecendo-se aos contendores que foi vencendo, at6 chegar aqui, elegendo Pepeca president da Assembleia Legis- lativa. tendo como vice H1lio Gueiros Jr. e, como eminencia parda, o empresa- rio Fernando Flexa Ribeiro. As bolas sao trocadas tanto que corre- se o risco de nao mais perceber as trocas e dar-se por normal o que 6 esdrfxulo, por ser essa a marca de um governor que fez do erro a sua marca de acerto. E as- sim que, convencido da estreiteza de sua a9Co, acordou com seu maior parceiro potential, a Companhia Vale do Rio Doce, criar uma ag6ncia de desenvolvimento. Ela seria encarregada de colocar em pra- tica os projetos estruturantes, que dariam solidez a utilizacao dos fartos e comu- mente dilapidados recursos naturais pa- raenses, verticalizando o process produ- tivo e retendo a renda gerada, conforme a ladainha do economies. A ag8ncia ja virou conventional se- cretaria no projeto. E para chefia-la fala- se em Jose Augusto Affonso. Jose Au- gusto 6 um tecnico competent, aplica- do e honest, mas nao tem o perfil reco- mendavel para quem ira comandar um 6rgao encarregado de estrat6gias. Suas habilitacqes o credenciam exatamente a atuar no estagio seguinte, o da execugco do que foi pensado. E um home certo no lugar errado. Constataqao que cabe a todo o governor do qual Jose Augusto faz parte e, como luva na media certa, ao home que literalmente comanda esse governor, ja agora trazendo o Para de vol- ta ao future. * JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 3 0 Liberal e A Provincia: e a guerra das vaidades A o abrir seu exemplar de A Pro- vincia do Para do dia 6, Ray- mundo Mario Sobral teve uma surpresa: sua coluna, o Jonale- co, uma das mais antigas dojor- nal, nao havia sido publicada. Por telefone, Sobral ficou sabendo que Gengis Freire, novo dono de A Provin- cia, havia dado ordem para que a coluna fosse suspense por tempo indeterminado, at6 ele conversar cor o autor. O motivo da punic~o: Sobral, na v6spera, noticiara e saudara o aniversario de Romulo Maio- rana Jr., o principal executive do grupo Liberal. Na semana anterior, a pr6pria A Pro- vincia registrara os nomes de D6a e Ro- naldo Maiorana entire os homenageados pela Assembl6ia Legislativa. Mas O Li- beral ignorara a presence de Gengis en- tre os premiados com uma medalha na mesma solenidade (ver Jornal Pesso- al no 156), Irritado com a falta de reci- procidade, Gengis decidiu expurgar os Maiorana das paginas de seu jomal. Nio teve o cuidado, entretanto, de anunciar a nova orientagao editorial. Desconhe- cendo-a, Sobral repetiu o que faz ha muitos anos: registrou o aniversario de Rominho, cor os salamaleques de pra- xe do seu Jomaleco, criado para ser um veiculo do que o autor sup6e ser anar- quismo. Sua attitude foi considerada pela dire- gao de A Provincia uma desconsidera- 0ao ou, no minimo, desatencdo. Ao con- trario do que sempre faz, no dia 4 Gen- gis nao esteve na sede do journal para, en- tre outras tarefas, ler as colunas. S6 viu o Jomaleco no dia seguinte, a coluna ja publicada. Incontinenti, mandou suspen- dd-la, argumentando que todas as colu- nas de jomal, independentemente de sua tematica, acabam se transformando em colunas sociais. E, ao contrario do que anunciara, nao recebeu Sobral quando ele foi ao seu gabinete para conversar. Man- dou dizer que estava em reuniao. Sobral, por sua vez, nao compareceu a um en- contro que os dois tinham acertado para o dia 18. Estava criado o impasse. Ele vira a ser solucionado com o fim da coluna de Raymundo Mario Sobral? A forma traumatica adotada para mar- car a nova posicgo editorial do jomal sugere que sim. A dedugao automatica 6 a de que Sobral poderia transferir-se para O Liberal. Ele ja havia consegui- do uma gentileza de Rominho, que imprimiu e nao cobrou pelo serving a capa do ultimo numero, em cores, do POP, o semanario que o jornalista edita. A Provincia do Parc e 0 Liberal dos Maiorana s6 brigaram uma vez, na d6- cada de 70. O jornalista Oliveira Bastos convenceu o entao superintendent local dos Diarios Associados, Milton Trinda- de, a atacar pessoalmente Romulo Mai- orana. Bastos estava por tras dos artigos ferozes que A Provincia publicou nesse period. Depois, transferiu-se para O Liberal. Irritado com a decisao de atacar o grupo Liberal, em relagco a qual se opusera, Roberto Jares Martins dizia que o unico beneficiado com aquela guerra fora o seu autor, Oliveira Bastos. Por enquanto, a nova guerra entire os dois jornais parece que sera marcada pe- las omiss6es e sil6ncios, nao pelos ata- ques, como parecia que iria ocorrer quan- do O Liberal registrou no ano passado a aquisigdo de A Provincia por Gengis Freire cor uma nota casutica no Rep6r- ter 70, referindo-se as atribulac6es finan- ceiras do mais novo barao da imprensa local (ver Jornal Pessoal no 149). Apesar de seu tom azedo, revelando um surpreendente receio de concorren- cia por parte de um grupo que detem o virtual monop6lio das comunicaqoes no Para, a nota tocava em dois pontos sen- siveis da nova empreitada jornalistica, que punha fim a quase 50 anos de con- trole dos Diarios Associados (criados por Assis Chateaubriand) sobre o mais anti- go jomal do Norte. Um ponto diz respeito a capacidade financeira de Gengis Freire para surpor- tar o peso de um jomal diario, empreen- dimento oneroso e geralmente de baixa rentabilidade (quando nao deficitario). O novo dono de A Provincia 6 considera- do um home rico, que fez fortune com o Cejup, originalmente um centro de es- tudos ligado ao Tribunal de Justica do Estado, hoje misto de grafica, editor, livraria e distribuidora de livros (e ainda vivendo a simbiose de ser entidade sem fins lucrativos, com imunidade fiscal, e atuar como qualquer empresa comerci- al), cor a heranga deixada pelo pai em Recife e cor seu estrat6gico cargo de secretario do Tribunal. Seria esse acervo o bastante para fa- zer frente a um neg6cio com passive de alguns milhoes de reais e exigencias de custeio de dezenas de milhares de reais a cada mns, quando (como registrou O Liberal), seus neg6cios em curso apare- cem submetidos a protests em cart6rio? Aparentemente, sim. Afinal, A Provin- cia continue circulando em cores e com a mesma quantidade de pdginas de an- tes. Pianos de expansAo e melhoria es- tao em andamento, entire os quais a trans- ferencia da sede de sua atual localizaiao, no inviavel centro commercial velho da cidade. Isto, apesar de um faturamento publicitario minimo. Ai surge o outro ponto da insinuaaio colerica de O Liberal. Por tras de Gen- gis Freire estaria um politico. O preferi- do nas especulac9es e o ex-prefeito H6- lio Gueiros, necessitado de um jomal para usar politicamente. No entanto, ape- sar da sintonia logica entire as dificulda- des de Gengis e as necessidades de Guei- ros, nao ha qualquer prova concrete da associacio dos dois. Nao houve na efe- tivagao da compra e nao ha na manuten- gao do journal at6 aqui. Nao quer dizer que nao venha a haver. Gengis Freire vai precisar de uma sus- tentagao political ou, se nao exatamen- te uma sustentag~o, de uma defini~io po- litica. A afirmaq o de A Provincia no mercado exige desfazer o control mo- nolitico que o grupo Liberal exerce. Nao se trata, por6m, apenas de uma guerra commercial: 6 necessario quebrar tambem o poder politico do concorrente, que ex- cede sua pr6pria dimensao econ6mico- financeira. Um dos alvos de Gengis 6 o judicia- rio, onde sua presenqa se consolidou em fungno do cargo administrative que exer- ce. Sintomaticamente, a posse do novo president do TJE, Romdo Amo8do Neto, ganhou uma pagina do journal, que passou ainda a publicar uma coluna se- manal dedicada ao direito. Mas uma de- finicao political 6 uma condigio dentro dos pianos de crescimento que ele pare- ce ter-se imposto. Para onde, entao, se inclinara A Provincia? O grupo Liberal, acostumado a fazer de sua vontade ato de imp6rio, simples- mente nao tolera o que, no capitalism, costuma ser fonte de oxigenagao: a con- correncia. Dai o gesto indelicado de ve- tar a refer8ncia ao nome de Gengis Frei- re, desencadeando o incident que en- volveu Raymundo Mario Sobral e, ao desatar a fogueira crepitante das vaida- des, pode precipitar um confront que vem sendo cozido em banho-maria, com os inevitaveis ingredients da intriga e do veneno, A vantage do fogo alto sobre essas fagulhas 6 a de iluminar melhor os bastidores dominados pelos barges da imprensa. Quando eles bri- gam, a opiniao p6blica costuma ficar melhor informada. 0 4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 Francis paga um alto prego pelo reporter que nao foi O reporter 6 a espinha dorsal do journal, sua peca mais importan- te. Por isso, todo jornalista tem a pretensao de ser reporter. Al- guns tanto insisted em se apre- sentar como rep6rteres que seus leitores acabam acreditando que eles re- almente cumprem as tarefas do reporter: encontrar as fontes de informacgo, iden- tificar e selecionar os fatos, cobri-los di- retamente, quando eles estao acontecen- do, e relata-los para a opiniao public. E por lidar cor os fatos como nenhum outro meio de expressao que a imprensa se distingue de todas as demais formas de manifestagao humana, mesmo as as- semelhadas. Paulo Francis tentou, mas nunca conseguiu ser um reporter. Nem quan- do sua funcgo professional, a de cor- respondente international, o obrigava a ser, contra seus desejos mais intimos. Nenhum reporter repassaria ao publi- co a informacao de que os diretores da Petrobras possuem contas secrets na Suica, na qual teriam depositado 50 milh6es de d6lares, sem um documen- to em mao. Diante da gravidade do assunto, mes- mo um reporter iniciante iria checar a informal~ o em fontes confiaveis. Sem uma comprovagao documental, o tema teria que permanecer A margem (onde ficam os numerosos boatos que Ihe che- gam ao conhecimento) ate que, pelo menos, viessem a ser reunidas evidenci- as equiparaveis legalmente a provas. Um jornalista que denuncia tem que estar em condig6es de responder pelo que diz, tan- to administrativamente quanto judicial- mente. Francis nao tinha a mais misera das evid8ncias para apresentar quando os seis diretores e o president da Petrobras o acionaram judicialmente nos Estados Unidos. Como acontecia frequentemente, Fran- cis havia se excedido em sua interven- qao no Manhattan Conection, o progra- ma de televisao do qual participava, em Nova York. Mas uma coisa e se exceder em juizos de valor, material de opiniao. Outra coisa muito diferente 6 inventar fatos e atribui-los a pessoas. Na primei- ra situagao o excess pode ser contradi- tado e segue-se dai uma polemica. No segundo, os ofendidos tem o direito de acionar o agressor porque este tem a consciencia de sua leviandade. O detalhe important 6 que os dire- tores da Petrobras nao processaram cri- minalmente Paulo Francis: partiram di- retamente para uma acao civel de co- branga de indenizagao. Significa que o delito de calunia era inquestionavel, fi- cando pendente apenas avaliar o valor do dano causado pelo caluniador. Ai os dirigentes da estatal completaram o re- quinte da vinganqa, iniciado com a es- colha do foro americano para arbitrar a litigancia: cobraram 110 milh6es de d6lares. Mas onde eles viram requinte, orien- tados por um competent advogado, um observador mais etico veria pecado: uma autoridade public deveria indicar um valor simb6lico para a causa, deixando claro que ela diz respeito a um principio e nao a busca de ressarcimento material ou a ruina do caluniador. A eleigco da justica americana, feita com o visivel prop6sito de dar celeridade a tramitacao da aCao, tambem deixa mal ajustica bra- sileira, sempre famosa por sua lentidao e pela incapacidade de cobrir a vista com a legendaria tarja que garante im- parcialidade ao ato judi- cante. A justiga brasileira costu- ma distinguir . conta de que cometera um erro. Se pa- garia ou nao por ele, era uma questao a ser verificada depois. Os atingidos po- deriam ignorar sua bufoneria. Mas os di- rigentes da Petrobras, pela pr6pria res- ponsabilidade que seus cargos Ihes im- pbem, decidiram cobrar judicialmente a responsabilidade que o jomalista igno- rara ao fazer a infeliz denuncia como se ela nao passasse de mais um de seus im- pensados comentarios selvagens. Era um legitimo direito deles. Surpreendente foi ver depois verda- deiros rep6rteres, como Elio Gaspari, irem buscar no process uma causa - mesmo que indireta do enfarte que ful- minou Paulo Francis. Gaspari produziu num artigo ("Doutor Joel Renn6 [presi- dente da Petrobras], o senhor ganhou") um primor de corporativismo e desinfor- magao. Efetivamente, Francis vinha se queixando junto aos amigos da iniciati- va da Petrobras, numa intensidade tal que colheu como preciosa floor a informacao, vinda como devolucgo de seus apelos, de que o proprio president da Republi- ca interferira ou iria interferir para que os diretores da Petrobras retirassem a acgo. Francis parecia menos preocupa- do com o merito em si do que dissera do que com o custo de sua leviandade. Como professional da informacao, seu dever era declarar explicit e delibera- damente (e nao por via obliqua e su- bentendidos, como fez duas vezes) que errara, como errara sempre que tivera que cobrir um acontecimento ainda nao pro- cessado pelos rep6rteres efetivamente presents ao fato quando ele ocorria (Francis vinha na segunda leva, usando a televisao ou o journal impresso para, sobre a materia-prima neles conti- r. dda, fazer sua lapidagCo de 6 gabinete). Francis iria se osiguais ". : dos mais .:. iguais. :. Passada a euforia de po- sar como o corajo- so autor de uma grave denuncia, deslize que a luz dos spots e a sedugao da camera de televisao cos- tuma induzir, Francis deve ter-se dado Sexpor a passar a condi9do de reu con- fesso, mas poderia montar trincheira na posigao seguinte: de que, a partir dai, consu- mada a retratagao, a ma- nutencgo da acgo por part S dos dirigentes da Petrobras pas- saria a ser perseguicao pessoal, nada mais tendo a ver cor o interesse coleti- vo. JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 5 A guerra continue Se o enfarte teve alguma de suas rai- zes plantadas na a9~o de indenizacao, ela nada ter a ver com a iniciativa dos diri- gentes da Petrobras, absolutamente legi- tima e legal, mas com a conscience mau- vaise do jomalista, plenamente ciente de seu deliberado erro, mas incapaz de as- sumir sua remissao. Relida pela otica corporativista dos amigos, essa lig9o final do epis6dio pode ser danosa para osjomalistas e a opiniao piblica, estimulando a irresponsabilida- de e o descompromisso com a indispen- savel apuraggo dos fatos. Paulo Francis nao foi e nunca sera modelo para rep6r- teres simplesmente porque nunca foi um deles. E estava pagando, ate morrer, um prego alto por declarar ser sem s6-lo de verdade. Ao inv6s de definir-se de vez como jornalista cultural, cronista, ensaista ou seja la o que fosse, seu ego latifundiario exigia o titulo que nunca lhe caira bem, mas que era condi9do para que ele se considerasse umjornalista complete, nao apenas unico, mas o melhor de todos. Era uma irracionalidade, ja que sua grande- za como incomparavel cronista do efe- mero e do transitorio estava garantida, mas quando as questbes envolvem sen- timentos humans (como a vaidade), elas deixam de se circunscrever ao racional. Nesse aspect, Francis tambem nao e model porque demonstrou uma fraque- za inaceitavel parajomalistas que fazem denuncias. Eles devem ter uma dupla preocupacao ao se disporem a faz&-las. Previamente, precisam contar com a se- guranga de terem buscado todas as for- mas de confirmacgo, demonstragCo e comprovag o do que vao afirmar. Esse pr6-requisito Ihes garante a paz de espi- rito e a forga moral para enfrentar a res- saca que vira se os contrariados forem pessoas poderosas e inescrupulosas, que, mesmo cientes de que o que se afirmou e verdade, agem impulsionadas pelo pro- p6sito de punir quem teve a ousadia de contraria-las. O melhor jornalismo sempre foi o de denincia e de critical, que s6 os pro- fissionais independents podem fazer com autoridade. Francis 6 responsavel por alguns dos melhores moments na imprensa brasileira contemporanea, mas a distancia fisica ou temporal de seus alvos o poupou do desgaste final, que evidenciou sua fraqueza quando os atacados reagiram. Se tivesse nas mnos O jorral 0 Lberal do dia 6 trouxe uma no idade pcla primeira vez em duas semnanas se referia ao preferto de Belem. colocado na geladeira desde que nao aceitou pagar sem questlonar uma conta de 1.2 milhio de reais co- brada pela empresa House ate chama- da de primeira pagina para a noticia. de evidentc inmeresse public. de que a prefetura prorrogara ate 13 de marco o prazo para o pagamento da cota inm- ca ou da prmunera parcela do IPTU (o Imposto Predial e Territorial Urbano) Mas. claro. o prefeto citado nro foi o titular. Ednulson Rodrigues. A tem- poraria quebra do boicote beneficion a ,ice-prefeita Ana Jilia Carepa. que assumiu a prefeitura pela pnmeira ,ez com a \iagem de Edmilson a Brasilia. Para caprichar na tentativa de intrigar os dois. apostando no ego da \ice. O Liberal aIt deu uma toto de Ana Jilia. Estara ela realmente acinada contra o as provas do que havia dito, ou se ao menos estivesse autorizado a revelar as fontes da informacgo ou apresentar os indicios veementes da veracidade do que rclatara, Francis poderia entrar na guerra em condic6es de ir ate suas il- timas consequencias. Mas suas armas eram de brincadeira, ou simplesmente ele as inventara. Certamente nao foi por causa disso que ele teve o ataque do coragao, como declarou seu mddico parti- cular, at a vespera tratando burocratica- mente uma cres- cente e talvez sin- tomatica dor no bra- go como bursite. Mas esse era um dos components do estado de desalento em que ele vinha mergulhan- do ate se declarar tecnicamente morto, superado, ainda que cada vez mais aplau- dido e idolatrado por um ptiblico que Paulo Francis, quando tecnicamente vivo, ignorava ou mesmo desprezava. Olhar-se refletido naqueles espelhos de- veria servir, para ele, como atestado da decad6ncia. Felizmente Paulo Francis nao estava mais vivo para ler as cartas p6s-morte enderecadas aos grandes jornais nacio- nais. Foram 87 publicadas por O Estado de S. Paulo, 0 Globo, Jornal do Brasil, Folha de S Paulo, Gazeta Mercantil e Jorncd da 7arde. Francis ganhou de go- virus Inoculadojunramente cor a pu- blhcacAo da noticia" Amda no assunto a prefeitura teve que recorrer a justiqa para tentar obn- gar o grupo Liberal a mostrar seus Ii- vros. A administracgo municipal quer \enficar se a empresa esta restringm- do suas atividades comerciais aos h- mites da imunidade fiscal de que des- fruta, ou se esta sonegando ISS (Im- posto Sobre Servisos A direcdo do Sistema Romulo Maiorana de Comu- rucaqo se recusou a exibir os li ros para os fiscais. Quanto ao IPTU do imovel da sede do jomal. nio hA mais duvida para a prefeitura de que ele foi sub-faturado. Mas como a guia do impostor foi pre- parada ainda pela admmnistracdo pas- sada e lancada conforme a base de cal- culo anterior, talvez a correcio do im- posto so possa ser efetuada no proxi- mo exercicio fiscal. leada: 76 delas exaltavam-no, 10 criti- cavam-no-o e uma era neutra. Mas as melhores cartas, as mais criativas e ar- gutas, foram as que fizeram uma avalia- cao negative do que ele significou. As favoraveis eram cheias dos cliches e lu- gares comuns tipicos de quem raciocina por aluguel, tomando emprestadas as ideias alheias, sem refletir sobre elas, inteiramente manipulavel. Paulo Francis deixa enormes sauda- des, mas as melhores saudades estavam distantes do per- sonagem de hoje, como sempre ruim, que ele criou a partir daquele Paulo Francis que, com toda ra- zao, se orgulhava de jamais ter escrito algo em que nao acreditasse ou que nao pudesse assinar. Conforme revelou o atrito com a Pe- trobras, o que o clone recent de Franz Paul Trannin da Matta (sobrenome da mae que, freudianamente, omitia) Heil- born dizia nao se devia escrever, nem acreditar. Era o arlequim de uma fanta- sia doentia, que, sintomaticamente, se desfez para sempre em pleno carnaval. Mas ja entao, como naquele celebre po- ema de Fernando Pessoa, A Tabacaria, a mascara grudara no rosto, nao permi- tindo mais distinguir o que e borracha do que 6 pele. 0 6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 impact ao mostrar, no Jornal Na- cional, a mansao de supostos cinco milh6es de d6lares que o cunhado do ex-presidente Fernando Collor de Mello esta construindo em Miami. Ci- ceroneada pelo empreiteiro da obra (num gesto comovente, por sua originalidade, para jornalistas brasileiros que tem a porta batida diante de seus narizes quan- do tentam investigar situacges semelhan- tes neste pais), a reporter mostrou deta- lhes chocantes da mansao, como tornei- ra de ouro macigo no banheiro. E garan- tiu que o ex-presidente, hoje acantona- do na meca dos brasileiros parvenus ou em situagao suspeita, ia duas vezes por semana vistoriar o andamento das obras. Essa informaFao seria suficiente para confirmar a imediata suspeita da maio- ria dos telespectadores: o embaixador aposentado Marcos Coimbra seria ape- nas testa-de-ferro do cunhado famoso. Nada mais just: o esquema Collor-PC (ou seria PC-Collor?; nao importa: a or- dem dos fatores nao altera o produto, ensina a boa matematica) celebrizou fan- tasmas e laranjas na trilha financeira do desvio e ocultacao de dinheiro. Coim- bra, secretario particular do entao presi- ollor: TV Glotl Itaca outra ve dente, seria mais um desses biombos. Talvez seja, mas nada esta provado at6 agora. Como quase sempre, a imprensa e particularmente a Globo nao e rigo- rosamente professional quando trata de Collor. Primeiro ao usa-lo como instru- mento de manipulagio para leva-lo ao topo do poder. Depois, com os mesmos metodos, mas para fins distintos, quan- do decidiu desapea-lo. A informacqo cede a editorializag~o do texto. Um servigo de utilidade public ain- da maior a TV Globo teria prestado a sociedade brasileira se tivesse mantido um plantao em frente a mansao para fla- grar o ex-presidente em uma de suas ale- gadas visits bi-semanais a mansao. As- sim, ao inves de a reporter se referir a fontes an6nimas, a emissora teria com- provado o que, ate agora, nao passou de suposigao ou boato. E ja que a Globo tinha a informag.o, seria facil filmar Collor na vistoria, fazendo o jornalismo para valer que a grande corporac.o da midia s6 pratica episodicamente, com tempo certo e curto de duraqao. Passando em frente informaqdo incon- sistente, a TV Globo exp6s-se a mesma acusa go de ma fe que faz ao ex-presi- dente, ainda mais porque uma reporter desatenta tomou por ouro macigo de 24 quilates o que nao passa de tinta-ouro, corn valor milhares de d6lares menor, e super-avaliou a mansao. O exagero e a manipulag~o nunca ser- viram A verdade. E, sem a verdade, o ale- gado interesse public acaba servindo de instrument para interesses particulares, em geral escusos. Cor exageros, impre- cisbes e tendenciosismo, a reportagem da TV Globo pode acabar favorecendo a ocultag~o do verdadeiramente escabroso caso da mansao do embaixador Coimbra. Como pode ele ter acumulado poupanqa de pelo menos 1,5 milhao de d6lares ao long de sua carreira, que s6 se distinguiu. fora da carrirre, corn a ascensao do cu- nhado, para investor em dois imoveis em Miami, e enigma que desafia a apuraaio das autoridades responsaveis pela legiti- ma renda dos cidadaos. Se ficar compro- vado que o embaixador conseguiu a pro- eza, o governor deve imediatamente requi- sita-lo outra vez para ensinar o pulo des- se gato malhado a todos os demais brasi- leiros. Cada um de n6s vai poder final- mente construir sua propria mansao na- quela cosmetizada parte dos Estados Uni- dos, se assim for o gosto de cada um. Ou desgosto, sei la. 0 Quem vai ganhar mais com a linha? Principal favorecido pela linha de transmissao de energia de 240 mi- lhWes de reais que o govero vai comecar a construir, ligando a hi- dreletrica de Tucurui ao Oeste do Para, sera o grupo Jodo Santos. Quando o pro- jeto da fabrica de cimento de Itaituba foi aprovado pela Sudam, o grupo prome- teu coloca-la em funcionamento simul- taneamente a unidade de Manaus. Mas a fabrica amazonense entrou em operacao ha 12 anos, enquanto a paraense perma- nece na prancheta. A causa seria a inexistEncia de ener- gia (30 mil kw, o equivalent ao que e gerado na usina de Curua-Una, em San- tarem) para movimentar as maquinas. No entanto, o grupo tamb6m tinha assumi- do o compromisso (em troca de fartos recursos de incentives fiscais) de auto- suprir-se de energia, que, como o de sin- cronizar as partidas das fabricas, nao cumpriu. O govemo, generoso, vai ban- car o fornecimento. Entende-se que os 800 mil habitantes dos 13 municipios pelos quais passara a linha de energia tenham feito festas, na semana passada, para a assinatura dos contratos que vao dar inicio ao Tramo- este. Eles tem sido vitimas da incapaci- dade da administra9co piiblica para as- segurar-lhes a energia necessaria as suas necessidades elementares. Mas essa na- tural euforia esconde questbes serias por tras da obra. Seria desejavel mesmo investor numa linha de transmissao em alta voltage para tender uma demand minima, que seria ainda menor se o grupo Joao Santos tivesse instalado sua pr6pria fonte de ge- racgo? Sabe-se que energia atrai novos investimentos e multiplica demands que se achem reprimidas, mas qual o efeito multiplicador previsivel do Tramoeste? Num pais carente de recursos, ao qual se imp6e programar escrupulosamente seus investimentos, nao 6 forgada a prioridade do Tramoeste? E s6 nao foi forcada pelo interesse da Eletronorte de colocar a pon- ta da linha de alta tensao em Altamira, a partir de onde retomaria o problematico projeto da hidreletrica de Karara6 (hoje Belo Monte), coerente cor a obsessio hidraulica e a logica barragista? Nio se- ria mais l6gico e racional expandir a op- cao do gAs natural da margem esquerda do Amazonas para o Oeste paraense? E nao seria mais inteligente esperar o des- fecho da privatizaago da Celpa, poupan- do o investimento e transferindo-o para a responsabilidade do arrematante privado? Sao muitas as perguntas, mas todas foram sepultadas pela pa dos politicos nas festas realizadas em Cameta e Alta- mira, na semana passada, na passage da comitiva do ministry de Minas e Ener- gia, Raimundo Brito, e do govemador Almir Gariel. O esclarecimento, junto corn a conta, vira depois, com os fatos consumados, como de praxe. 9 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 7 Foi-se Darcy Ribeiro, brasileiro por inteiro C onheci Darcy Ribeiro em 1982, em Gainesville, na Fl6rida. Par- ticipavamos de uma conferencia international sobre a expansao da fronteira na Amaz6nia. Nao me lembro do que ele ele disse em sua palestra (surpreendentemente, ngo falava nada em ingles), mas nao es- queoo a morena de inacreditaveis olhos azuis (e idade para ser sua filha) com a qual ele desfilou diante da inveja geral dos homes. Era o surpreendente e poli- m6rfico Darcy. Conseguira, tres anos antes, que os militares permitissem seu retoro do exi- lio no Peru, liberando um dos nomes que mais detestavam, para que morresse em sua terra natal. Era tido como paciente terminal de cancer. Darcy Ribeiro mor- reu quase 18 anos depois, ontem, 17. Nesse intervalo, nao apenas venceu su- cessivas batalhas contra a terrivel doen- Terra de Os polciais costumam ter carradas de raz6es quando reclanam de certas intervenSes de juizes. promotores e procuradores. que tomam decisoes na retaguarda sem considerar a linha de frente do combat a crumnalidade 0 desencontro entire o conteudo de mui- tas decisoes e a realidade dos fatos gera revolt e desanimo entire os policiais, ignorados em tais moments, mesmo sendo aqueles que arriscam suas %idas para desencadear a apuraqio que resul- tara nos processes judicias Mas, no caso do assassinate do pro- fessor HWlio Norman, as posic5es se m- verteram. O delegado responsaiel pelo inqudrito policial deixou de cumprir a sua missAo, que era requisitar a pnsrio temporaria do personagem que apare- ceu cor todos os indicios de suspeiao. O tambem professor, nmtdco e empre- sAno Adalberto Rocha saiu tranquila- mente da delegacia depois de ter conta- do uma histona, no minuno, suspeita sobre o crime, alum de haver-se envol- vido em debto corn algumas caracteris- ticas snemelhantes no ano passado Era tao evidence a inconsistncia da histrna que a promotora Rosana Cor- dovil dos Santos teve que. suplemen- tando a falta do delegado, pedrr a juiza ca. Mostrou que, ao perder final a guer- ra, por inevitavel, salvou a vida espiritu- al, que prossegue independentemente da generosa presence fisica de seu autor, pelo muito que ele fez em tantos cam- pos do interesse human. Encontrei-o mais quatro ou cinco ve- zes, dentro e fora do pais. Sempre tinha uma novidade para mostrar, costumeira- mente em came, osso & curvas, ou para relatar cor verve e ironia. Nao precisa- va ser a verdade, ou nem toda a verdade. Darcy era, ao mesmo tempo, camale6- nico e macunaimico um brasileiro em these, corn todos os seus pr6s e contras, o tipo ideal de brasileiro, para usar um concerto que ele e eu tamb6m apren- demos nos bancos antropol6gicos. Quando cheguei a Sao Paulo para es- tudar, no final da d6cada de 60, de olho na antropologia, ja havia lido seu livro sobre o SPI (Servigo de Prote9~o ao In- ninguem Maria Soares Palheta que decretasse a prisao. o que a juiza fez. "de oficio' - para desmoralizacao da police, nesse caso. Surpreendentemente. o delegado Hamilton Cezar reagiu, protestando de public contra a determinaiao judici- al. Alegou que a divulgaqAo da deci- sao (no entendimento dele, precipita- da) preiudicou a investugacao polical e favoreceu a fuga do suspeito (embo- ra. art entfio, ao menos fonnalmente. Adalberto figurasse no inqueriro como simples informante. A esdruxula posicqo assumida pelo delegado ficou sem a devida resposta, seja do judiciario como do Ministrio Piblico e are. por uma questAo de aca- tamento institucional, da Secretaria de Seguranqa Publica. Ficou parecendo que a ordem de prisio, retardada pela nma;ao da policia, acumphciou a fuga do que, s6 a partir de entio, passou a ser o pnncipal suspeito envolvido na inspiraqio do crime, quando a verda- de e justanwnte o contrario. A impren- sa. por sua vez, fez de conta que nao unha nada a dizer sobre esse insolito episodio. rvcelador da profundidade da conmvncia ou omissdo do powder pu- blco diante do avassalador crescimen- to da violEncia em Beldm c no Para. dio) e --- - os Urubu do Ma- ranhao, mas fui conhec8-lo mais intima- mente atraves dos relates de Herbert Baldus, professor dele no inicio da len- daria Escola de Sociologia e Politica de Sao Paulo e do qual fui monitor/acom- panhante. Baldus dizia que Darcy havia sido seu melhor aluno e um etnologo como s6 Curt Unkel Nimuendaju fora antes. O problema eram as complicacoes em que se metia por causa das mulheres (fonte de atribulacges para o pr6prio Baldus, tao mulherengo quanto o disci- pulo) e os desvios da political. Apesar de ferrenho anticomunista, Assis Chateaubriand mandava seus jor- nais e revistas elogiarem Darcy, um ser- tanista para valer, que andava no meio dos indios, na mata, e critical Baldus, que considerava um antrop6logo de gabine- te. Os indios foram um dos poucos te- mas com o qual Chat6 nao ganhou di- nheiro: era mesmo por idealismo ou pela muito ftil fantasia que Ihe possibi- litava apresentar-se como descendente dos temiveis Caetes, que haviam janta- do o bispo Sardinha. Isso, dito em Lon- dres pelo embaixador-cangaceiro do tro- pical Brasil, era motivo para causar es- panto aos gdlidos suditos da rainha Eli- zabeth. Darcy, como o pr6prio Chat6, foi o melhor de seus personagens. Conseguiu a multiplicidade que s6 os grandes aman- tes da vida alcancam. Nem sempre foi verdadeiro e nem sempre certo em cada uma de suas facetas, mas foi sempre cri- ativo e audacioso, impetuoso, essencial, superficial e brilhante como o brasilei- ro, do qual foi arquetipico. Meridiano e solar como a alegria. A Franca faz festas sem fim pelo privi- legio de ter sido a patria de nascimento de Claude Levy-Strauss. Quantas graqas nao temos entao que dar por uma pessoa ainda maior como foi Darcy Ribeiro? Ele perdeu a guerra, mas ganhou a hist6ria. Vai passamdo direto para a rede da pn- meira india que encontrar nas novas ter- ras que ontem comeoou a conquistar. * Paraense no Guiness Ajustiga military do Estado do Para existed ha 46 anos. Ha 22 anos o juiz-auditor e o mesmo, Flavio Roberto Soa- res de Oliveira. Durante 17 anos elc atuou sozinho. Ha cinco anos foi nomeado um juiz-substituto. Esses sao mo- tivos suficientes para o juiz Flavio Roberto se considerar sacrificado e injustiqado com certas avaliac6es. Mas tam- bem e o bastante para a opi- niao piblica concluir que nao se leva na devida conta ajus- tiqa military estadual e, como esta. ela nio pode funcionar bem. Droga na frente Fato da maior gravidade: a Policia Federal estourou a primeira refinaria de cocaine em Belem e acredita que haja outras em funcionamento na cidade. Ate entdo a capital paraense era apenas ponto de passage ou transbordo da droga, alem de consumi-la em pequenas quantidades. O mercado parece ter crescido tanto que ja compensa o investimento e o risco do refino. Antes que a questao se tome apenas um problema de policia, as autoridades deveriam trata-la cor a amplitude que ela requer. Se demorarem, todos sairao prejudicados, mesmo os que pensam que levam vantagem. La e ca A medica Elisa Sa nio ser- viu para continuar na Secre- taria de Saude do govemo do seu compare Almir Gabriel. Foi obrigada a pedir demis- sao, num process tio trau- matico que afetou uma ami- zade de longos anos. Mas ser- viu para ser indicada para a presidencia da Fundacao Na- cional de Saude, o principal 6rgao executive do Ministe- rio da Sauide do governor - tamb6m tucano, mas de outra plumagem de Fernando Henrique Cardoso. Quem, final, sabe seleci- onar e recrutar melhor? Um velho drama No dia 13 dois assaltantcs tonuram uma rnm c seu filho como refens diante do cerco de pohciais que os persegwaui para conscguir urn objetlo- entrar no Presidio Slo Jose LUm dos bandidos saira umna semana autes ca Pemctncana dc A mc- ricano. graqas a um alara de soltura concedido pcla justiia O outro em foracido da Colnia Agricola Heleno Fragoso Esse simple enrcdo. quase rorinciro numa cidade conmo Belkim. mostra que a lrqcia c-sta com loda a razio ao csco- Ilir o sistema penitcnciario como tema da Campalnha da Fratcrnidade destc ano A sociedade que ndo oferece urma solucio cficientc pam cssc problema c a mesnma quc paga carissimo pela manulitenlu o de uin sistcrna que \va gerar scus ctcitos corn maior violdncia fora das grade.,. o-nde. hipteu- camnitc sado isolados aqiules considerados incapazes de cont- ncia social. 0 drama e velho como a mitologia gre- ga. mas a socicdade prefer fazer d. conta quc na o 0 conhe- cc Irracionalismo gera irracionalismo. Parceria imposta Ricardo Boechat ainda nio sabe, mas ganhou um parceiro an6nimo em cua coluna Swann, distribuida por 0 Globo c tam- bdm publicada em 0 Liberal. No dia 8, as notas que Boechat escreveu, 0 Liberal acrescentou uma, que nio constava da co- luna original. Era sobre a participacio da cantora Fafa de Be- lem no desfile da escola de samba "Nao Posso me Amofina". Boechat se sentira honrado com a enxertia? Misterio madeireiro E iusta a picrtcnsaio das madciiciras dc continlarcmll a clm- barcar c.mn seus proprios embarcadouros ou em ports mrais proimmos do suas Istalaqles. ao ills de serem obrigadas a trazr o produto para Belcm las e absoluramniee procederme a suspeita do goc.rno de que nein todos os emnbarques si'o rcgular.cs. ou. I altcz. nern a maioria Como e\plicar quc mia- dclrciras longaim nte deficitarias, urma dIlas polo menos, das maiores, estranLcira. coninuenm cm opera.i'io? Tornareni-Se enlidades de benemeroncia Gangorra tucana No dia 4 o president Fernan- do Henrique Cardoso acusou os govemos estaduais e o Ministd- rio Puiblico de "omissio", por permitirem que os sem-terra in- vadam propriedades rurais. Os principals alvos das critics do tucano-mor foram dois tucanos menores: o governador de Sao Paulo, Mario Covas, e o do Para, Almir Gabriel. Desta vez, as critics nao fo- ram devolvidas e, junto corn elas, a eterna transfer6ncia de responsabilidades na administra- gAo public. Prioridade Aadministracgo Helio Guei- ros deu no Bosque Rodrigues Alves prioridade a construcgo de um novo gradil em feroo, na- turalmente -, que custou a ba- gatela de 700 mil reais, pagos a talentosa Ebal. Na semana pas- sada uma arvore tombou sobre um trecho do gradil, destruindo- o. Outras arvores podem cair. As arvores, apesar de serem a razdo da existincia do bosque, ficaram em segundo piano. Assim caminhava a administra- qio piiblica municipal por cami- nhos de ferro, naturalmente Oasis Nem so colunas sociais os jor- nais locais compram das agenci- as de noticias. A Provincia do Para comega a publicar a colu- na de Millor Femandes, o sabio do Meier, que s6 os leitores de 0 Dia e do Correio Braziliense, na grande imprensa, tem acesso. 0 "toma ca" Os municipios cor maior arrecadagio de impostos no interior do Estado sao, pela ordem, Tucurui, Ananindeua, Barcarena, Parauapebas. San- tardm, Oriximina, Paragomi- nas, Maraba e Castanhal. Os prefeitos mais bem pagos, ga- nhando entire 12 mil e 7 mil reais, sao, tambem pela or- dem (ou seria desordem?), Ananindeua, Parauapebas, Oriximini. Curion6polis. Santa Izabel, Viseu, Xmgua- ra, Maraba, Tucurui, Chaves e Castanhal. Sao belos e injustificados salaries, mas nao seria tao ruim se essa fosse sua unica partici- paao nos cofres ptiblicos. Rotina da violncia Considerando-se lesado, o seguranca de uma empresa particular de vigilancia foi reclamar na justica do traba- Iho. Irritado, o patrao seguiu- o por uma avenida de intense trafego da cidade, a Duque de Caxias, e, quando seu carro emparelhou cor a motocicle- ta do ex-empregado, matou- o a tiro. Nem se deu ao traba- lho de tambem matar o acom- panhante que ia na garupa da moto. testemunha do crime, para nao deixar pista. Foi em- bora sem disfarce. Identifica- do, ainda nao foi preso. Em Mosqueiro, o dono de um mercadinho assaltado seis vezes pelo mesmo bandido juntou parents c foi atras do rapaz que considerou suspei- to. Mataram-no a pancadas e depois foram comemorar o justlgamento num bar, onde a policia chegou logo depois por indicaago de uma testemunha do massacre. Foram press o comerciante, seu irmao, dois sobrinhos e um amigo. Cenas da Belem de hoje. Journal Pessoal Editor. Lcioo Flavio Pinto Ilusiraq -s e edinorao grafica Luizpe Redaao Passagem Bolonha 60-8 66 053-020 Fone 223-1929 241-7626 Conlato Tv Benlamnn Constant 845/203 66 053-020 Fone 223-7690 e mail luio@expert com br |
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