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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00106

Full Text


Quem ganha
corn 0
Tramoste j,
ornal Pessoal orre o
brasileirissimo
LUCIO FLAVIO PINTO Darcy (P
ANO X N2 157 2- QUINZENA DE FEVEREIRO DE 1997 R$ 2,00 I LFes que ficam
de Francis ,,, j
POLITICAL


0 governor mostra a sua face


Almir Gabriel escolhe Luiz Otdvio
Campos para presidir o legislative. Cor o
nome, o governador que mais mandou na
AL revela a sua nova natureza e assume as
transformacies quefoi experimentando
nestes dois anos depoder.


E m 1994, para selar a coli-
gaCao electoral que fariam,
o entao prefeito Helio Guei-
ros sugeriu a Almir Gabriel
escolher entire tres nomes o
seu companheiro de chapa
para o governor do Estado: o ex-secreta-
rio de Transportes, Luiz Otavio Campos,
o ex-superintendente da Sudam, Henry
Kayath, e o seu filho, Helio Gueiros Ju-

II 7A I


nior, ate aquele moment jejuno em po-
litica. Nenhum desses nomes tinha qual-
quer afinidade corn a biografia de Almir
Gabriel. Sem altemativa para valer, Al-
mir optou pelo filho do prefeito, agra-
dando o pai.
Dois anos e meio depois, o govema-
dor decidiu pelo nome que antes rejeita-
ra, sagrando-o president da Assembleia
Legislative: o deputado Luiz Otavio


Campos. Desta vez, nao houve qualquer
constrangimento. O legislative pratica-
mente renunciou a sua identidade e trans-
feriu para o governador todo o poder de
escolha. Almir teria colocado na presi-
d&ncia da AL quem quisesse, sem o ris-
co de ser surpreendido. Era uma boa
oportunidade para reforcar o seu parti-
do, o PSDB. Mas foi buscar o nome no
PFL, um nome que leva uma parce- -


- ARE DA IMRES *pg


- - -- - -







2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997


- la da opiniao public a se perguntar,
a maneira do velho e sabio Machado de
Assis, sobre quem mudou: se a political
paraense ou se Almir Gabriel.
Estarao muito mais proximos da ver-
dade os que marcarem a segunda alter-
nativa. Em 1994 Almir Gabriel era uma
alternative de mudanga para o Estado,
sem grande potential electoral, mas car-
regado de esperangas. Ao fazer-se acom-
panhar de'H61io Gueiros Jr., provocou
um questionamento alem e aqu6m das
conveniencias eleitorais do moment,
que recomendavam a alianga com Hlio
Gueiros para tentar derrotar o candidate
de Jader Barbalho, o entao senador Jar-
bas Passarinho.
Seria mesmo apenas um acerto elei-
toral? era a primeira indagagao. A se-
gunda era mais desconcertante: estaria
ali a verdadeira razao da renincia de
Almir Gabriel a candidatura i prefeitu-
ra de Bel6m, dois anos antes? Surpre-
endendo a todos, o entao senador de-
sistiu de disputar um cargo para o qual
era fortissimo concorrente. Ao sair, dei-
xou aberto o caminho para H6lio Guei-
ros voltar ao poder e manter o esquema
da familiar & Cia. Um vacuo mais ex-
tenso teria sido desastroso para os Guei-
ros, mas nao tanto para Almir. Ele po-
deria apresentar-se dois anos depois
como candidate a um post maior, equi-
librando-se nesse interval no senado
(consolo de poder que nao havia para
Gueiros) e tendo a promessa de dispor
da base de sustentacgo da prefeitura da
capital, que seu future aliado Ihe con-
cederia em troca.
Ali comecava a mudar se nao na sua
essencia real, ao menos na imagem com
que se apresentava para a opiniao pfubli-
ca o politico Almir Gabriel. Como tem
acontecido frequentemente entire aque-
les com a mesma formacdo political e
ideologica de Almir, os meios foram se
agigantando sobre os fins e o program
cedendo espago as taticas, ainda que a
ret6rica continuasse resistindo as conces-
sees.
Quando Almir assumiu o govemo, o
partido do govemador tinha apenas 10%
das cadeiras do legislative e sua coliga-
9co um ter9o do poder de fogo da AL.
No mes passado ele arrebanhou para o
seu candidate a presid6ncia da casa 37
dos 41 votos possiveis. Apenas a banca-
da do PT nao o acompanhou.
Desde 1964, nenhum governador man-
dou tanto na Assembl6ia Legislativa quan-
to ele, nem mesmo os coron6is Jarbas
Passarinho e Alacid Nunes transferidos
da casema para a political pelo regime
military. Como se diz na linguagem de ge-
ral de campo de futebol (tornada corrente
no poder pela gramatica de H6lio Guei-


ros), Almir fez neste ano barba e cabelo
na AL, depois de ter descido de suas ta-
mancas para impor uma derrota ao PT na
Cnmara Municipal de Belem (envolven-
do-se no legislative mirim de uma ma-
neira tal como nenhum outro goverador
havia ousado antes dele).
Em sua defesa, o governador podera
dizer que agindo dessa maneira respon-
deu aos que apontavam sua fragilidade
political como um dos components mais
desfavoraveis de seu governor. A faqa-
nha 6 realmente notavel. Deve-se consi-
derar, entretanto, o tamanho do preqo que
o goverador ainda tera que pagar por
essa coquisia A political para-

ense nao mudou: conti-

nua a ser mesquinha, me-

diocre, clientelista e fisi-

ol6gica como regra (corn

as exceCqes de praxe).

Nenhuma contribui ao

deu Almir Gabriel para

que ela mudasse para

melhor. Ao contrario sua desen ol-
tura revela que ele, sim, amoldou-se a
political corrente no Estado.
Diga-se, ainda em favor do governa-
dor, que nao ha outro caminho para re-
alizar um program de mudancas no
Para. E precise contar com maioria par-
lamentar, sem o que os entraves politi-
cos poderao comprometer a acao admi-
nistrativa. Mas uma coisa 6 maioria.
Outra, 6 hegemonia ao menos no sen-
tido em que ela 6 praticada na political
paraense. O governador exagera na do-
sagem. Sem autonomia, o legislative
exp6s-se a opiniao public como mero
caudatario do executive, desmoraliza-
do. Era essa a intengao do governador?
Mais do que ter aliados, ele parece as-
pirar por suditos.
Tudo bem: mas dominion politico
para qua? Qual 6 o program de trans-
formagdo profunda do governor Almir
Gabriel? Se havia, evaporou-se, diluiu-
se. Sua equipe 6 fraca, lenta, paquid6r-
mica e sofre as consequencias da ver-
ticalizagdo de mando, da nucleacao do
poder formal (nas maos de uns pou-
cos, como Simao Jatene) ou informal
(controlado por pessoas como Fernan-
do Flexa Ribeiro), da qual poucos,
como o secretario da Fazenda, Jorge
Alex Athias, conseguem escapar. No
mais, prevalece a vontade imperial do
governador, que responded ao incensa-
mento da corte com a crescente auto-


consciencia da pr6pria lucidez (ou nao
seria genialidade?).
O governor e forte em ret6rica e fraco
em realidade. Na propaganda, tao cons-
-tante quanto a das administraq6es ante-
riores recentes, apresenta suas obras, em
geral fisicas, em geral desligadas umas
das outras (como em todo governor obrei-
rista, honest ou nao), sem formarem, a
rigor, um program, muito menos um
piano. Quase tudo o que era promessa
no comego do governor continue como
promessa agora que ele ja esta na sua
segunda metade, enquanto a regiao so-
fre transformacoes, em parte por resso-
nancias de mudancas mais amplas, mas
tamb6m produto de interven56es locali-
zadas, de iniciativas proprias. E agora a
prioridade 6 assegurar as condiW6es para
que o governador, buscando um segun-
do mandate, possa concretiza-lo sem
maiores atropelos.
Como uma cobra em mutagao acele-
rada, o governador foi deixando na tri-
lha percorrida as peles que vestiu e das
quais foi se livrando em cada um dos
moments em que foi desafiado, vencen-
do na maioria das ocasi6es, mas cada vez
mais parecendo-se aos contendores que
foi vencendo, at6 chegar aqui, elegendo
Pepeca president da Assembleia Legis-
lativa. tendo como vice H1lio Gueiros
Jr. e, como eminencia parda, o empresa-
rio Fernando Flexa Ribeiro.
As bolas sao trocadas tanto que corre-
se o risco de nao mais perceber as trocas
e dar-se por normal o que 6 esdrfxulo,
por ser essa a marca de um governor que
fez do erro a sua marca de acerto. E as-
sim que, convencido da estreiteza de sua
a9Co, acordou com seu maior parceiro
potential, a Companhia Vale do Rio Doce,
criar uma ag6ncia de desenvolvimento.
Ela seria encarregada de colocar em pra-
tica os projetos estruturantes, que dariam
solidez a utilizacao dos fartos e comu-
mente dilapidados recursos naturais pa-
raenses, verticalizando o process produ-
tivo e retendo a renda gerada, conforme a
ladainha do economies.
A ag8ncia ja virou conventional se-
cretaria no projeto. E para chefia-la fala-
se em Jose Augusto Affonso. Jose Au-
gusto 6 um tecnico competent, aplica-
do e honest, mas nao tem o perfil reco-
mendavel para quem ira comandar um
6rgao encarregado de estrat6gias. Suas
habilitacqes o credenciam exatamente a
atuar no estagio seguinte, o da execugco
do que foi pensado. E um home certo
no lugar errado. Constataqao que cabe a
todo o governor do qual Jose Augusto faz
parte e, como luva na media certa, ao
home que literalmente comanda esse
governor, ja agora trazendo o Para de vol-
ta ao future. *







JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 3


0 Liberal e A Provincia:


e a guerra das vaidades


A o abrir seu exemplar de A Pro-
vincia do Para do dia 6, Ray-
mundo Mario Sobral teve uma
surpresa: sua coluna, o Jonale-
co, uma das mais antigas dojor-
nal, nao havia sido publicada.
Por telefone, Sobral ficou sabendo que
Gengis Freire, novo dono de A Provin-
cia, havia dado ordem para que a coluna
fosse suspense por tempo indeterminado,
at6 ele conversar cor o autor. O motivo
da punic~o: Sobral, na v6spera, noticiara
e saudara o aniversario de Romulo Maio-
rana Jr., o principal executive do grupo
Liberal.
Na semana anterior, a pr6pria A Pro-
vincia registrara os nomes de D6a e Ro-
naldo Maiorana entire os homenageados
pela Assembl6ia Legislativa. Mas O Li-
beral ignorara a presence de Gengis en-
tre os premiados com uma medalha na
mesma solenidade (ver Jornal Pesso-
al no 156), Irritado com a falta de reci-
procidade, Gengis decidiu expurgar os
Maiorana das paginas de seu jomal. Nio
teve o cuidado, entretanto, de anunciar
a nova orientagao editorial. Desconhe-
cendo-a, Sobral repetiu o que faz ha
muitos anos: registrou o aniversario de
Rominho, cor os salamaleques de pra-
xe do seu Jomaleco, criado para ser um
veiculo do que o autor sup6e ser anar-
quismo.
Sua attitude foi considerada pela dire-
gao de A Provincia uma desconsidera-
0ao ou, no minimo, desatencdo. Ao con-
trario do que sempre faz, no dia 4 Gen-
gis nao esteve na sede do journal para, en-
tre outras tarefas, ler as colunas. S6 viu
o Jomaleco no dia seguinte, a coluna ja
publicada. Incontinenti, mandou suspen-
dd-la, argumentando que todas as colu-
nas de jomal, independentemente de sua
tematica, acabam se transformando em
colunas sociais. E, ao contrario do que
anunciara, nao recebeu Sobral quando ele
foi ao seu gabinete para conversar. Man-
dou dizer que estava em reuniao. Sobral,
por sua vez, nao compareceu a um en-
contro que os dois tinham acertado para
o dia 18. Estava criado o impasse.
Ele vira a ser solucionado com o fim
da coluna de Raymundo Mario Sobral?
A forma traumatica adotada para mar-
car a nova posicgo editorial do jomal
sugere que sim. A dedugao automatica
6 a de que Sobral poderia transferir-se
para O Liberal. Ele ja havia consegui-
do uma gentileza de Rominho, que


imprimiu e nao cobrou pelo serving a
capa do ultimo numero, em cores, do
POP, o semanario que o jornalista edita.
A Provincia do Parc e 0 Liberal dos
Maiorana s6 brigaram uma vez, na d6-
cada de 70. O jornalista Oliveira Bastos
convenceu o entao superintendent local
dos Diarios Associados, Milton Trinda-
de, a atacar pessoalmente Romulo Mai-
orana. Bastos estava por tras dos artigos
ferozes que A Provincia publicou nesse
period. Depois, transferiu-se para O
Liberal. Irritado com a decisao de atacar
o grupo Liberal, em relagco a qual se
opusera, Roberto Jares Martins dizia que
o unico beneficiado com aquela guerra
fora o seu autor, Oliveira Bastos.
Por enquanto, a nova guerra entire os
dois jornais parece que sera marcada pe-
las omiss6es e sil6ncios, nao pelos ata-
ques, como parecia que iria ocorrer quan-
do O Liberal registrou no ano passado a
aquisigdo de A Provincia por Gengis
Freire cor uma nota casutica no Rep6r-
ter 70, referindo-se as atribulac6es finan-
ceiras do mais novo barao da imprensa
local (ver Jornal Pessoal no 149).
Apesar de seu tom azedo, revelando
um surpreendente receio de concorren-
cia por parte de um grupo que detem o
virtual monop6lio das comunicaqoes no
Para, a nota tocava em dois pontos sen-
siveis da nova empreitada jornalistica,
que punha fim a quase 50 anos de con-
trole dos Diarios Associados (criados por
Assis Chateaubriand) sobre o mais anti-
go jomal do Norte.
Um ponto diz respeito a capacidade
financeira de Gengis Freire para surpor-
tar o peso de um jomal diario, empreen-
dimento oneroso e geralmente de baixa
rentabilidade (quando nao deficitario). O
novo dono de A Provincia 6 considera-
do um home rico, que fez fortune com
o Cejup, originalmente um centro de es-
tudos ligado ao Tribunal de Justica do
Estado, hoje misto de grafica, editor,
livraria e distribuidora de livros (e ainda
vivendo a simbiose de ser entidade sem
fins lucrativos, com imunidade fiscal, e
atuar como qualquer empresa comerci-
al), cor a heranga deixada pelo pai em
Recife e cor seu estrat6gico cargo de
secretario do Tribunal.
Seria esse acervo o bastante para fa-
zer frente a um neg6cio com passive de
alguns milhoes de reais e exigencias de
custeio de dezenas de milhares de reais
a cada mns, quando (como registrou O


Liberal), seus neg6cios em curso apare-
cem submetidos a protests em cart6rio?
Aparentemente, sim. Afinal, A Provin-
cia continue circulando em cores e com
a mesma quantidade de pdginas de an-
tes. Pianos de expansAo e melhoria es-
tao em andamento, entire os quais a trans-
ferencia da sede de sua atual localizaiao,
no inviavel centro commercial velho da
cidade. Isto, apesar de um faturamento
publicitario minimo.
Ai surge o outro ponto da insinuaaio
colerica de O Liberal. Por tras de Gen-
gis Freire estaria um politico. O preferi-
do nas especulac9es e o ex-prefeito H6-
lio Gueiros, necessitado de um jomal
para usar politicamente. No entanto, ape-
sar da sintonia logica entire as dificulda-
des de Gengis e as necessidades de Guei-
ros, nao ha qualquer prova concrete da
associacio dos dois. Nao houve na efe-
tivagao da compra e nao ha na manuten-
gao do journal at6 aqui. Nao quer dizer
que nao venha a haver.
Gengis Freire vai precisar de uma sus-
tentagao political ou, se nao exatamen-
te uma sustentag~o, de uma defini~io po-
litica. A afirmaq o de A Provincia no
mercado exige desfazer o control mo-
nolitico que o grupo Liberal exerce. Nao
se trata, por6m, apenas de uma guerra
commercial: 6 necessario quebrar tambem
o poder politico do concorrente, que ex-
cede sua pr6pria dimensao econ6mico-
financeira.
Um dos alvos de Gengis 6 o judicia-
rio, onde sua presenqa se consolidou em
fungno do cargo administrative que exer-
ce. Sintomaticamente, a posse do novo
president do TJE, Romdo Amo8do
Neto, ganhou uma pagina do journal, que
passou ainda a publicar uma coluna se-
manal dedicada ao direito. Mas uma de-
finicao political 6 uma condigio dentro
dos pianos de crescimento que ele pare-
ce ter-se imposto. Para onde, entao, se
inclinara A Provincia?
O grupo Liberal, acostumado a fazer
de sua vontade ato de imp6rio, simples-
mente nao tolera o que, no capitalism,
costuma ser fonte de oxigenagao: a con-
correncia. Dai o gesto indelicado de ve-
tar a refer8ncia ao nome de Gengis Frei-
re, desencadeando o incident que en-
volveu Raymundo Mario Sobral e, ao
desatar a fogueira crepitante das vaida-
des, pode precipitar um confront que
vem sendo cozido em banho-maria, com
os inevitaveis ingredients da intriga e
do veneno, A vantage do fogo alto
sobre essas fagulhas 6 a de iluminar
melhor os bastidores dominados pelos
barges da imprensa. Quando eles bri-
gam, a opiniao p6blica costuma ficar
melhor informada. 0







4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997




Francis paga um alto prego pelo


reporter que nao foi


O reporter 6 a espinha dorsal do
journal, sua peca mais importan-
te. Por isso, todo jornalista tem
a pretensao de ser reporter. Al-
guns tanto insisted em se apre-
sentar como rep6rteres que seus
leitores acabam acreditando que eles re-
almente cumprem as tarefas do reporter:
encontrar as fontes de informacgo, iden-
tificar e selecionar os fatos, cobri-los di-
retamente, quando eles estao acontecen-
do, e relata-los para a opiniao public. E
por lidar cor os fatos como nenhum
outro meio de expressao que a imprensa
se distingue de todas as demais formas
de manifestagao humana, mesmo as as-
semelhadas.
Paulo Francis tentou, mas nunca
conseguiu ser um reporter. Nem quan-
do sua funcgo professional, a de cor-
respondente international, o obrigava
a ser, contra seus desejos mais intimos.
Nenhum reporter repassaria ao publi-
co a informacao de que os diretores da
Petrobras possuem contas secrets na
Suica, na qual teriam depositado 50
milh6es de d6lares, sem um documen-
to em mao.
Diante da gravidade do assunto, mes-
mo um reporter iniciante iria checar a
informal~ o em fontes confiaveis. Sem
uma comprovagao documental, o tema
teria que permanecer A margem (onde
ficam os numerosos boatos que Ihe che-
gam ao conhecimento) ate que, pelo
menos, viessem a ser reunidas evidenci-
as equiparaveis legalmente a provas. Um
jornalista que denuncia tem que estar em
condig6es de responder pelo que diz, tan-
to administrativamente quanto judicial-
mente.
Francis nao tinha a mais misera das
evid8ncias para apresentar quando os seis
diretores e o president da Petrobras o
acionaram


judicialmente nos Estados Unidos.
Como acontecia frequentemente, Fran-
cis havia se excedido em sua interven-
qao no Manhattan Conection, o progra-
ma de televisao do qual participava, em
Nova York. Mas uma coisa e se exceder
em juizos de valor, material de opiniao.
Outra coisa muito diferente 6 inventar
fatos e atribui-los a pessoas. Na primei-
ra situagao o excess pode ser contradi-
tado e segue-se dai uma polemica. No
segundo, os ofendidos tem o direito de
acionar o agressor porque este tem a
consciencia de sua leviandade.
O detalhe important 6 que os dire-
tores da Petrobras nao processaram cri-
minalmente Paulo Francis: partiram di-
retamente para uma acao civel de co-
branga de indenizagao. Significa que o
delito de calunia era inquestionavel, fi-
cando pendente apenas avaliar o valor
do dano causado pelo caluniador. Ai os
dirigentes da estatal completaram o re-
quinte da vinganqa, iniciado com a es-
colha do foro americano para arbitrar a
litigancia: cobraram 110 milh6es de
d6lares.
Mas onde eles viram requinte, orien-
tados por um competent advogado, um
observador mais etico veria pecado: uma
autoridade public deveria indicar um
valor simb6lico para a causa, deixando
claro que ela diz respeito a um principio
e nao a busca de ressarcimento material
ou a ruina do caluniador. A eleigco da
justica americana, feita com o visivel
prop6sito de dar celeridade a tramitacao
da aCao, tambem deixa mal ajustica bra-
sileira, sempre famosa por sua lentidao
e pela incapacidade de cobrir a vista com
a legendaria tarja que garante im-
parcialidade ao ato judi-
cante. A justiga
brasileira costu-
ma distinguir .


conta de que cometera um erro. Se pa-
garia ou nao por ele, era uma questao a
ser verificada depois. Os atingidos po-
deriam ignorar sua bufoneria. Mas os di-
rigentes da Petrobras, pela pr6pria res-
ponsabilidade que seus cargos Ihes im-
pbem, decidiram cobrar judicialmente a
responsabilidade que o jomalista igno-
rara ao fazer a infeliz denuncia como se
ela nao passasse de mais um de seus im-
pensados comentarios selvagens. Era um
legitimo direito deles.
Surpreendente foi ver depois verda-
deiros rep6rteres, como Elio Gaspari,
irem buscar no process uma causa -
mesmo que indireta do enfarte que ful-
minou Paulo Francis. Gaspari produziu
num artigo ("Doutor Joel Renn6 [presi-
dente da Petrobras], o senhor ganhou")
um primor de corporativismo e desinfor-
magao. Efetivamente, Francis vinha se
queixando junto aos amigos da iniciati-
va da Petrobras, numa intensidade tal que
colheu como preciosa floor a informacao,
vinda como devolucgo de seus apelos,
de que o proprio president da Republi-
ca interferira ou iria interferir para que
os diretores da Petrobras retirassem a
acgo. Francis parecia menos preocupa-
do com o merito em si do que dissera do
que com o custo de sua leviandade.
Como professional da informacao, seu
dever era declarar explicit e delibera-
damente (e nao por via obliqua e su-
bentendidos, como fez duas vezes) que
errara, como errara sempre que tivera que
cobrir um acontecimento ainda nao pro-
cessado pelos rep6rteres efetivamente
presents ao fato quando ele ocorria
(Francis vinha na segunda leva, usando
a televisao ou o journal impresso para,
sobre a materia-prima neles conti-
r. dda, fazer sua lapidagCo de
6 gabinete). Francis iria se


osiguais ". :
dos mais .:.
iguais. :.
Passada a
euforia de po-
sar como o corajo-
so autor de uma grave
denuncia, deslize que a luz dos spots
e a sedugao da camera de televisao cos-
tuma induzir, Francis deve ter-se dado


Sexpor a passar a
condi9do de reu con-
fesso, mas poderia
montar trincheira na
posigao seguinte: de
que, a partir dai, consu-
mada a retratagao, a ma-
nutencgo da acgo por part
S dos dirigentes da Petrobras pas-
saria a ser perseguicao pessoal, nada
mais tendo a ver cor o interesse coleti-
vo.







JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 5


A guerra continue


Se o enfarte teve alguma de suas rai-
zes plantadas na a9~o de indenizacao, ela
nada ter a ver com a iniciativa dos diri-
gentes da Petrobras, absolutamente legi-
tima e legal, mas com a conscience mau-
vaise do jomalista, plenamente ciente de
seu deliberado erro, mas incapaz de as-
sumir sua remissao.
Relida pela otica corporativista dos
amigos, essa lig9o final do epis6dio pode
ser danosa para osjomalistas e a opiniao
piblica, estimulando a irresponsabilida-
de e o descompromisso com a indispen-
savel apuraggo dos fatos. Paulo Francis
nao foi e nunca sera modelo para rep6r-
teres simplesmente porque nunca foi um
deles. E estava pagando, ate morrer, um
prego alto por declarar ser sem s6-lo de
verdade.
Ao inv6s de definir-se de vez como
jornalista cultural, cronista, ensaista ou
seja la o que fosse, seu ego latifundiario
exigia o titulo que nunca lhe caira bem,
mas que era condi9do para que ele se
considerasse umjornalista complete, nao
apenas unico, mas o melhor de todos. Era
uma irracionalidade, ja que sua grande-
za como incomparavel cronista do efe-
mero e do transitorio estava garantida,
mas quando as questbes envolvem sen-
timentos humans (como a vaidade), elas
deixam de se circunscrever ao racional.
Nesse aspect, Francis tambem nao e
model porque demonstrou uma fraque-
za inaceitavel parajomalistas que fazem
denuncias. Eles devem ter uma dupla
preocupacao ao se disporem a faz&-las.
Previamente, precisam contar com a se-
guranga de terem buscado todas as for-
mas de confirmacgo, demonstragCo e
comprovag o do que vao afirmar. Esse
pr6-requisito Ihes garante a paz de espi-
rito e a forga moral para enfrentar a res-
saca que vira se os contrariados forem
pessoas poderosas e inescrupulosas, que,
mesmo cientes de que o que se afirmou
e verdade, agem impulsionadas pelo pro-
p6sito de punir quem teve a ousadia de
contraria-las.
O melhor jornalismo sempre foi o
de denincia e de critical, que s6 os pro-
fissionais independents podem fazer
com autoridade. Francis 6 responsavel
por alguns dos melhores moments na
imprensa brasileira contemporanea,
mas a distancia fisica ou temporal de
seus alvos o poupou do desgaste final,
que evidenciou sua fraqueza quando os
atacados reagiram. Se tivesse nas mnos


O jorral 0 Lberal do dia 6 trouxe
uma no idade pcla primeira vez em
duas semnanas se referia ao preferto de
Belem. colocado na geladeira desde
que nao aceitou pagar sem questlonar
uma conta de 1.2 milhio de reais co-
brada pela empresa House ate chama-
da de primeira pagina para a noticia.
de evidentc inmeresse public. de que a
prefetura prorrogara ate 13 de marco
o prazo para o pagamento da cota inm-
ca ou da prmunera parcela do IPTU (o
Imposto Predial e Territorial Urbano)
Mas. claro. o prefeto citado nro foi
o titular. Ednulson Rodrigues. A tem-
poraria quebra do boicote beneficion
a ,ice-prefeita Ana Jilia Carepa. que
assumiu a prefeitura pela pnmeira ,ez
com a \iagem de Edmilson a Brasilia.
Para caprichar na tentativa de intrigar
os dois. apostando no ego da \ice. O
Liberal aIt deu uma toto de Ana Jilia.
Estara ela realmente acinada contra o


as provas do que havia dito, ou se ao
menos estivesse autorizado a revelar as
fontes da informacgo ou apresentar os
indicios veementes da veracidade do
que rclatara, Francis poderia entrar na
guerra em condic6es de ir ate suas il-
timas consequencias. Mas suas armas
eram de brincadeira, ou simplesmente
ele as inventara.
Certamente nao foi por causa disso
que ele teve o ataque do coragao, como
declarou seu mddico parti-
cular, at
a vespera
tratando
burocratica-
mente uma cres-
cente e talvez sin-
tomatica dor no bra-
go como bursite. Mas esse
era um dos components do estado de
desalento em que ele vinha mergulhan-
do ate se declarar tecnicamente morto,
superado, ainda que cada vez mais aplau-
dido e idolatrado por um ptiblico que
Paulo Francis, quando tecnicamente
vivo, ignorava ou mesmo desprezava.
Olhar-se refletido naqueles espelhos de-
veria servir, para ele, como atestado da
decad6ncia.
Felizmente Paulo Francis nao estava
mais vivo para ler as cartas p6s-morte
enderecadas aos grandes jornais nacio-
nais. Foram 87 publicadas por O Estado
de S. Paulo, 0 Globo, Jornal do Brasil,
Folha de S Paulo, Gazeta Mercantil e
Jorncd da 7arde. Francis ganhou de go-


virus Inoculadojunramente cor a pu-
blhcacAo da noticia"
Amda no assunto a prefeitura teve
que recorrer a justiqa para tentar obn-
gar o grupo Liberal a mostrar seus Ii-
vros. A administracgo municipal quer
\enficar se a empresa esta restringm-
do suas atividades comerciais aos h-
mites da imunidade fiscal de que des-
fruta, ou se esta sonegando ISS (Im-
posto Sobre Servisos A direcdo do
Sistema Romulo Maiorana de Comu-
rucaqo se recusou a exibir os li ros
para os fiscais.
Quanto ao IPTU do imovel da sede
do jomal. nio hA mais duvida para a
prefeitura de que ele foi sub-faturado.
Mas como a guia do impostor foi pre-
parada ainda pela admmnistracdo pas-
sada e lancada conforme a base de cal-
culo anterior, talvez a correcio do im-
posto so possa ser efetuada no proxi-
mo exercicio fiscal.


leada: 76 delas exaltavam-no, 10 criti-
cavam-no-o e uma era neutra. Mas as
melhores cartas, as mais criativas e ar-
gutas, foram as que fizeram uma avalia-
cao negative do que ele significou. As
favoraveis eram cheias dos cliches e lu-
gares comuns tipicos de quem raciocina
por aluguel, tomando emprestadas as
ideias alheias, sem refletir sobre elas,
inteiramente manipulavel.
Paulo Francis deixa enormes sauda-
des, mas as melhores saudades estavam
distantes do per-
sonagem de
hoje, como
sempre
ruim, que
ele criou a
partir daquele
Paulo Francis
que, com toda ra-
zao, se orgulhava de jamais ter escrito
algo em que nao acreditasse ou que nao
pudesse assinar.
Conforme revelou o atrito com a Pe-
trobras, o que o clone recent de Franz
Paul Trannin da Matta (sobrenome da
mae que, freudianamente, omitia) Heil-
born dizia nao se devia escrever, nem
acreditar. Era o arlequim de uma fanta-
sia doentia, que, sintomaticamente, se
desfez para sempre em pleno carnaval.
Mas ja entao, como naquele celebre po-
ema de Fernando Pessoa, A Tabacaria,
a mascara grudara no rosto, nao permi-
tindo mais distinguir o que e borracha
do que 6 pele. 0







6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997


impact ao mostrar, no Jornal Na-
cional, a mansao de supostos cinco
milh6es de d6lares que o cunhado
do ex-presidente Fernando Collor de
Mello esta construindo em Miami. Ci-
ceroneada pelo empreiteiro da obra (num
gesto comovente, por sua originalidade,
para jornalistas brasileiros que tem a
porta batida diante de seus narizes quan-
do tentam investigar situacges semelhan-
tes neste pais), a reporter mostrou deta-
lhes chocantes da mansao, como tornei-
ra de ouro macigo no banheiro. E garan-
tiu que o ex-presidente, hoje acantona-
do na meca dos brasileiros parvenus ou
em situagao suspeita, ia duas vezes por
semana vistoriar o andamento das obras.
Essa informaFao seria suficiente para
confirmar a imediata suspeita da maio-
ria dos telespectadores: o embaixador
aposentado Marcos Coimbra seria ape-
nas testa-de-ferro do cunhado famoso.
Nada mais just: o esquema Collor-PC
(ou seria PC-Collor?; nao importa: a or-
dem dos fatores nao altera o produto,
ensina a boa matematica) celebrizou fan-
tasmas e laranjas na trilha financeira do
desvio e ocultacao de dinheiro. Coim-
bra, secretario particular do entao presi-


ollor: TV Glotl


Itaca outra ve

dente, seria mais um desses biombos.
Talvez seja, mas nada esta provado at6
agora. Como quase sempre, a imprensa
e particularmente a Globo nao e rigo-
rosamente professional quando trata de
Collor. Primeiro ao usa-lo como instru-
mento de manipulagio para leva-lo ao
topo do poder. Depois, com os mesmos
metodos, mas para fins distintos, quan-
do decidiu desapea-lo. A informacqo
cede a editorializag~o do texto.
Um servigo de utilidade public ain-
da maior a TV Globo teria prestado a
sociedade brasileira se tivesse mantido
um plantao em frente a mansao para fla-
grar o ex-presidente em uma de suas ale-
gadas visits bi-semanais a mansao. As-
sim, ao inves de a reporter se referir a
fontes an6nimas, a emissora teria com-
provado o que, ate agora, nao passou de
suposigao ou boato. E ja que a Globo
tinha a informag.o, seria facil filmar
Collor na vistoria, fazendo o jornalismo
para valer que a grande corporac.o da
midia s6 pratica episodicamente, com
tempo certo e curto de duraqao.
Passando em frente informaqdo incon-
sistente, a TV Globo exp6s-se a mesma
acusa go de ma fe que faz ao ex-presi-
dente, ainda mais porque uma reporter


desatenta tomou por ouro macigo de 24
quilates o que nao passa de tinta-ouro,
corn valor milhares de d6lares menor, e
super-avaliou a mansao.
O exagero e a manipulag~o nunca ser-
viram A verdade. E, sem a verdade, o ale-
gado interesse public acaba servindo de
instrument para interesses particulares,
em geral escusos. Cor exageros, impre-
cisbes e tendenciosismo, a reportagem da
TV Globo pode acabar favorecendo a
ocultag~o do verdadeiramente escabroso
caso da mansao do embaixador Coimbra.
Como pode ele ter acumulado poupanqa
de pelo menos 1,5 milhao de d6lares ao
long de sua carreira, que s6 se distinguiu.
fora da carrirre, corn a ascensao do cu-
nhado, para investor em dois imoveis em
Miami, e enigma que desafia a apuraaio
das autoridades responsaveis pela legiti-
ma renda dos cidadaos. Se ficar compro-
vado que o embaixador conseguiu a pro-
eza, o governor deve imediatamente requi-
sita-lo outra vez para ensinar o pulo des-
se gato malhado a todos os demais brasi-
leiros. Cada um de n6s vai poder final-
mente construir sua propria mansao na-
quela cosmetizada parte dos Estados Uni-
dos, se assim for o gosto de cada um. Ou
desgosto, sei la. 0


Quem vai

ganhar mais


com a linha?

Principal favorecido pela linha de
transmissao de energia de 240 mi-
lhWes de reais que o govero vai
comecar a construir, ligando a hi-
dreletrica de Tucurui ao Oeste do Para,
sera o grupo Jodo Santos. Quando o pro-
jeto da fabrica de cimento de Itaituba foi
aprovado pela Sudam, o grupo prome-
teu coloca-la em funcionamento simul-
taneamente a unidade de Manaus. Mas a
fabrica amazonense entrou em operacao
ha 12 anos, enquanto a paraense perma-
nece na prancheta.
A causa seria a inexistEncia de ener-
gia (30 mil kw, o equivalent ao que e
gerado na usina de Curua-Una, em San-
tarem) para movimentar as maquinas. No
entanto, o grupo tamb6m tinha assumi-


do o compromisso (em troca de fartos
recursos de incentives fiscais) de auto-
suprir-se de energia, que, como o de sin-
cronizar as partidas das fabricas, nao
cumpriu. O govemo, generoso, vai ban-
car o fornecimento.
Entende-se que os 800 mil habitantes
dos 13 municipios pelos quais passara a
linha de energia tenham feito festas, na
semana passada, para a assinatura dos
contratos que vao dar inicio ao Tramo-
este. Eles tem sido vitimas da incapaci-
dade da administra9co piiblica para as-
segurar-lhes a energia necessaria as suas
necessidades elementares. Mas essa na-
tural euforia esconde questbes serias por
tras da obra.
Seria desejavel mesmo investor numa
linha de transmissao em alta voltage
para tender uma demand minima, que
seria ainda menor se o grupo Joao Santos
tivesse instalado sua pr6pria fonte de ge-
racgo? Sabe-se que energia atrai novos
investimentos e multiplica demands que
se achem reprimidas, mas qual o efeito
multiplicador previsivel do Tramoeste?


Num pais carente de recursos, ao qual se
imp6e programar escrupulosamente seus
investimentos, nao 6 forgada a prioridade
do Tramoeste? E s6 nao foi forcada pelo
interesse da Eletronorte de colocar a pon-
ta da linha de alta tensao em Altamira, a
partir de onde retomaria o problematico
projeto da hidreletrica de Karara6 (hoje
Belo Monte), coerente cor a obsessio
hidraulica e a logica barragista? Nio se-
ria mais l6gico e racional expandir a op-
cao do gAs natural da margem esquerda
do Amazonas para o Oeste paraense? E
nao seria mais inteligente esperar o des-
fecho da privatizaago da Celpa, poupan-
do o investimento e transferindo-o para a
responsabilidade do arrematante privado?
Sao muitas as perguntas, mas todas
foram sepultadas pela pa dos politicos
nas festas realizadas em Cameta e Alta-
mira, na semana passada, na passage
da comitiva do ministry de Minas e Ener-
gia, Raimundo Brito, e do govemador
Almir Gariel. O esclarecimento, junto
corn a conta, vira depois, com os fatos
consumados, como de praxe. 9







JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 7


Foi-se Darcy Ribeiro,


brasileiro por inteiro


C onheci Darcy Ribeiro em 1982,
em Gainesville, na Fl6rida. Par-
ticipavamos de uma conferencia
international sobre a expansao
da fronteira na Amaz6nia. Nao
me lembro do que ele ele disse
em sua palestra (surpreendentemente,
ngo falava nada em ingles), mas nao es-
queoo a morena de inacreditaveis olhos
azuis (e idade para ser sua filha) com a
qual ele desfilou diante da inveja geral
dos homes. Era o surpreendente e poli-
m6rfico Darcy.
Conseguira, tres anos antes, que os
militares permitissem seu retoro do exi-
lio no Peru, liberando um dos nomes que
mais detestavam, para que morresse em
sua terra natal. Era tido como paciente
terminal de cancer. Darcy Ribeiro mor-
reu quase 18 anos depois, ontem, 17.
Nesse intervalo, nao apenas venceu su-
cessivas batalhas contra a terrivel doen-



Terra de
Os polciais costumam ter carradas
de raz6es quando reclanam de certas
intervenSes de juizes. promotores e
procuradores. que tomam decisoes na
retaguarda sem considerar a linha de
frente do combat a crumnalidade 0
desencontro entire o conteudo de mui-
tas decisoes e a realidade dos fatos gera
revolt e desanimo entire os policiais,
ignorados em tais moments, mesmo
sendo aqueles que arriscam suas %idas
para desencadear a apuraqio que resul-
tara nos processes judicias
Mas, no caso do assassinate do pro-
fessor HWlio Norman, as posic5es se m-
verteram. O delegado responsaiel pelo
inqudrito policial deixou de cumprir a
sua missAo, que era requisitar a pnsrio
temporaria do personagem que apare-
ceu cor todos os indicios de suspeiao.
O tambem professor, nmtdco e empre-
sAno Adalberto Rocha saiu tranquila-
mente da delegacia depois de ter conta-
do uma histona, no minuno, suspeita
sobre o crime, alum de haver-se envol-
vido em debto corn algumas caracteris-
ticas snemelhantes no ano passado
Era tao evidence a inconsistncia da
histrna que a promotora Rosana Cor-
dovil dos Santos teve que. suplemen-
tando a falta do delegado, pedrr a juiza


ca. Mostrou que, ao perder final a guer-
ra, por inevitavel, salvou a vida espiritu-
al, que prossegue independentemente da
generosa presence fisica de seu autor,
pelo muito que ele fez em tantos cam-
pos do interesse human.
Encontrei-o mais quatro ou cinco ve-
zes, dentro e fora do pais. Sempre tinha
uma novidade para mostrar, costumeira-
mente em came, osso & curvas, ou para
relatar cor verve e ironia. Nao precisa-
va ser a verdade, ou nem toda a verdade.
Darcy era, ao mesmo tempo, camale6-
nico e macunaimico um brasileiro em
these, corn todos os seus pr6s e contras, o
tipo ideal de brasileiro, para usar um
concerto que ele e eu tamb6m apren-
demos nos bancos antropol6gicos.
Quando cheguei a Sao Paulo para es-
tudar, no final da d6cada de 60, de olho
na antropologia, ja havia lido seu livro
sobre o SPI (Servigo de Prote9~o ao In-




ninguem
Maria Soares Palheta que decretasse a
prisao. o que a juiza fez. "de oficio' -
para desmoralizacao da police, nesse
caso. Surpreendentemente. o delegado
Hamilton Cezar reagiu, protestando de
public contra a determinaiao judici-
al. Alegou que a divulgaqAo da deci-
sao (no entendimento dele, precipita-
da) preiudicou a investugacao polical
e favoreceu a fuga do suspeito (embo-
ra. art entfio, ao menos fonnalmente.
Adalberto figurasse no inqueriro como
simples informante.
A esdruxula posicqo assumida pelo
delegado ficou sem a devida resposta,
seja do judiciario como do Ministrio
Piblico e are. por uma questAo de aca-
tamento institucional, da Secretaria de
Seguranqa Publica. Ficou parecendo
que a ordem de prisio, retardada pela
nma;ao da policia, acumphciou a fuga
do que, s6 a partir de entio, passou a
ser o pnncipal suspeito envolvido na
inspiraqio do crime, quando a verda-
de e justanwnte o contrario. A impren-
sa. por sua vez, fez de conta que nao
unha nada a dizer sobre esse insolito
episodio. rvcelador da profundidade da
conmvncia ou omissdo do powder pu-
blco diante do avassalador crescimen-
to da violEncia em Beldm c no Para.


dio) e --- -
os Urubu do Ma-
ranhao, mas fui conhec8-lo mais intima-
mente atraves dos relates de Herbert
Baldus, professor dele no inicio da len-
daria Escola de Sociologia e Politica de
Sao Paulo e do qual fui monitor/acom-
panhante. Baldus dizia que Darcy havia
sido seu melhor aluno e um etnologo
como s6 Curt Unkel Nimuendaju fora
antes. O problema eram as complicacoes
em que se metia por causa das mulheres
(fonte de atribulacges para o pr6prio
Baldus, tao mulherengo quanto o disci-
pulo) e os desvios da political.
Apesar de ferrenho anticomunista,
Assis Chateaubriand mandava seus jor-
nais e revistas elogiarem Darcy, um ser-
tanista para valer, que andava no meio
dos indios, na mata, e critical Baldus, que
considerava um antrop6logo de gabine-
te. Os indios foram um dos poucos te-
mas com o qual Chat6 nao ganhou di-
nheiro: era mesmo por idealismo ou
pela muito ftil fantasia que Ihe possibi-
litava apresentar-se como descendente
dos temiveis Caetes, que haviam janta-
do o bispo Sardinha. Isso, dito em Lon-
dres pelo embaixador-cangaceiro do tro-
pical Brasil, era motivo para causar es-
panto aos gdlidos suditos da rainha Eli-
zabeth.
Darcy, como o pr6prio Chat6, foi o
melhor de seus personagens. Conseguiu
a multiplicidade que s6 os grandes aman-
tes da vida alcancam. Nem sempre foi
verdadeiro e nem sempre certo em cada
uma de suas facetas, mas foi sempre cri-
ativo e audacioso, impetuoso, essencial,
superficial e brilhante como o brasilei-
ro, do qual foi arquetipico. Meridiano e
solar como a alegria.
A Franca faz festas sem fim pelo privi-
legio de ter sido a patria de nascimento
de Claude Levy-Strauss. Quantas graqas
nao temos entao que dar por uma pessoa
ainda maior como foi Darcy Ribeiro? Ele
perdeu a guerra, mas ganhou a hist6ria.
Vai passamdo direto para a rede da pn-
meira india que encontrar nas novas ter-
ras que ontem comeoou a conquistar. *








Paraense no Guiness
Ajustiga military do Estado
do Para existed ha 46 anos. Ha
22 anos o juiz-auditor e o
mesmo, Flavio Roberto Soa-
res de Oliveira. Durante 17
anos elc atuou sozinho. Ha
cinco anos foi nomeado um
juiz-substituto. Esses sao mo-
tivos suficientes para o juiz
Flavio Roberto se considerar
sacrificado e injustiqado com
certas avaliac6es. Mas tam-
bem e o bastante para a opi-
niao piblica concluir que nao
se leva na devida conta ajus-
tiqa military estadual e, como
esta. ela nio pode funcionar
bem.


Droga na frente
Fato da maior gravidade: a
Policia Federal estourou a
primeira refinaria de cocaine
em Belem e acredita que
haja outras em
funcionamento na cidade.
Ate entdo a capital paraense
era apenas ponto de
passage ou transbordo da
droga, alem de consumi-la
em pequenas quantidades. O
mercado parece ter crescido
tanto que ja compensa o
investimento e o risco do
refino.
Antes que a questao se tome
apenas um problema de
policia, as autoridades
deveriam trata-la cor a
amplitude que ela requer. Se
demorarem, todos sairao
prejudicados, mesmo os que
pensam que levam
vantagem.


La e ca
A medica Elisa Sa nio ser-
viu para continuar na Secre-
taria de Saude do govemo do
seu compare Almir Gabriel.
Foi obrigada a pedir demis-
sao, num process tio trau-
matico que afetou uma ami-
zade de longos anos. Mas ser-
viu para ser indicada para a
presidencia da Fundacao Na-
cional de Saude, o principal
6rgao executive do Ministe-
rio da Sauide do governor -
tamb6m tucano, mas de outra
plumagem de Fernando
Henrique Cardoso.
Quem, final, sabe seleci-
onar e recrutar melhor?


Um velho drama
No dia 13 dois assaltantcs tonuram uma rnm c seu filho
como refens diante do cerco de pohciais que os persegwaui
para conscguir urn objetlo- entrar no Presidio Slo Jose LUm
dos bandidos saira umna semana autes ca Pemctncana dc A mc-
ricano. graqas a um alara de soltura concedido pcla justiia O
outro em foracido da Colnia Agricola Heleno Fragoso
Esse simple enrcdo. quase rorinciro numa cidade conmo
Belkim. mostra que a lrqcia c-sta com loda a razio ao csco-
Ilir o sistema penitcnciario como tema da Campalnha da
Fratcrnidade destc ano A sociedade que ndo oferece urma
solucio cficientc pam cssc problema c a mesnma quc paga
carissimo pela manulitenlu o de uin sistcrna que \va gerar scus
ctcitos corn maior violdncia fora das grade.,. o-nde. hipteu-
camnitc sado isolados aqiules considerados incapazes de
cont- ncia social. 0 drama e velho como a mitologia gre-
ga. mas a socicdade prefer fazer d. conta quc na o 0 conhe-
cc Irracionalismo gera irracionalismo.


Parceria imposta
Ricardo Boechat ainda nio sabe, mas ganhou um parceiro
an6nimo em cua coluna Swann, distribuida por 0 Globo c tam-
bdm publicada em 0 Liberal. No dia 8, as notas que Boechat
escreveu, 0 Liberal acrescentou uma, que nio constava da co-
luna original. Era sobre a participacio da cantora Fafa de Be-
lem no desfile da escola de samba "Nao Posso me Amofina".
Boechat se sentira honrado com a enxertia?

Misterio madeireiro
E iusta a picrtcnsaio das madciiciras dc continlarcmll a clm-
barcar c.mn seus proprios embarcadouros ou em ports mrais
proimmos do suas Istalaqles. ao ills de serem obrigadas a
trazr o produto para Belcm las e absoluramniee procederme
a suspeita do goc.rno de que nein todos os emnbarques si'o
rcgular.cs. ou. I altcz. nern a maioria Como e\plicar quc mia-
dclrciras longaim nte deficitarias, urma dIlas polo menos, das
maiores, estranLcira. coninuenm cm opera.i'io?
Tornareni-Se enlidades de benemeroncia


Gangorra tucana
No dia 4 o president Fernan-
do Henrique Cardoso acusou os
govemos estaduais e o Ministd-
rio Puiblico de "omissio", por
permitirem que os sem-terra in-
vadam propriedades rurais. Os
principals alvos das critics do
tucano-mor foram dois tucanos
menores: o governador de Sao
Paulo, Mario Covas, e o do Para,
Almir Gabriel.
Desta vez, as critics nao fo-
ram devolvidas e, junto corn
elas, a eterna transfer6ncia de
responsabilidades na administra-
gAo public.


Prioridade
Aadministracgo Helio Guei-
ros deu no Bosque Rodrigues
Alves prioridade a construcgo de
um novo gradil em feroo, na-
turalmente -, que custou a ba-
gatela de 700 mil reais, pagos a
talentosa Ebal. Na semana pas-
sada uma arvore tombou sobre
um trecho do gradil, destruindo-
o. Outras arvores podem cair. As
arvores, apesar de serem a razdo
da existincia do bosque, ficaram
em segundo piano.
Assim caminhava a administra-
qio piiblica municipal por cami-
nhos de ferro, naturalmente


Oasis
Nem so colunas sociais os jor-
nais locais compram das agenci-
as de noticias. A Provincia do
Para comega a publicar a colu-
na de Millor Femandes, o sabio
do Meier, que s6 os leitores de
0 Dia e do Correio Braziliense,
na grande imprensa, tem acesso.


0 "toma ca"
Os municipios cor maior
arrecadagio de impostos no
interior do Estado sao, pela
ordem, Tucurui, Ananindeua,
Barcarena, Parauapebas. San-
tardm, Oriximina, Paragomi-
nas, Maraba e Castanhal. Os
prefeitos mais bem pagos, ga-
nhando entire 12 mil e 7 mil
reais, sao, tambem pela or-
dem (ou seria desordem?),
Ananindeua, Parauapebas,
Oriximini. Curion6polis.
Santa Izabel, Viseu, Xmgua-
ra, Maraba, Tucurui, Chaves
e Castanhal.
Sao belos e injustificados
salaries, mas nao seria tao ruim
se essa fosse sua unica partici-
paao nos cofres ptiblicos.

Rotina da

violncia
Considerando-se lesado, o
seguranca de uma empresa
particular de vigilancia foi
reclamar na justica do traba-
Iho. Irritado, o patrao seguiu-
o por uma avenida de intense
trafego da cidade, a Duque de
Caxias, e, quando seu carro
emparelhou cor a motocicle-
ta do ex-empregado, matou-
o a tiro. Nem se deu ao traba-
lho de tambem matar o acom-
panhante que ia na garupa da
moto. testemunha do crime,
para nao deixar pista. Foi em-
bora sem disfarce. Identifica-
do, ainda nao foi preso.
Em Mosqueiro, o dono de
um mercadinho assaltado seis
vezes pelo mesmo bandido
juntou parents c foi atras do
rapaz que considerou suspei-
to. Mataram-no a pancadas e
depois foram comemorar o
justlgamento num bar, onde a
policia chegou logo depois por
indicaago de uma testemunha
do massacre. Foram press o
comerciante, seu irmao, dois
sobrinhos e um amigo.
Cenas da Belem de hoje.


Journal Pessoal
Editor. Lcioo Flavio Pinto
Ilusiraq -s e edinorao grafica Luizpe
Redaao Passagem Bolonha 60-8 66 053-020 Fone 223-1929 241-7626
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