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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL : L CIO FLAVIO PINTO ANO X N 156 1A QUINZENA DE FEVEREIRO DE 1997 R$ 2,00 CARATAS Brasil renuncia ao future Um especialista canadense recomenda: o Brasil ndo pode abrir mdo do control de umaprovincia mineral como Carajds. Indiferente a essa evidencia, o governor mantem o cronograma de venda da CVRD. uando o milionario "Baby" Pignatary conseguiu conven- cer, na metade da decada de 70, o en- tao president Er- nesto Geisel a estatizar a Caraiba Me- tais, detentora no sertao baiano da unica jazida commercial e da funica metalurgica de cobre do Brasil, o ar- gumento que fascinou o sistema (como entao o establishment militar- empresarial-tecnocrata era conhecido) foi de que o pais se libertaria da cr6- nica dependencia em que vivia dos fornecimentos do Chile e da Bolivia, alem de desonerar o comercio exteri- or de um peso equivalent a 400 mi- lh6es de d6lares ao ano (o segundo maior nas importac6es de bens mine- rais). Uma pedra considerdvel seria retirada do sapato apertado da sobe- rania national. Mas a jazida da Caraiba nao teria nem uma d6cada de vida util se tives- se que suprir plenamente as necessi- dades da fabrica. Foi precise continu- ar suplementando dois tergos das ne- cessidades metalurgicas com concen- trado de cobre importado porque os dep6sitos de min6rio haviam sido su- per-avaliados provavelmente de ma- fe. Quando a Docegeo (subsididria da CVRD para pesquisa geol6gica) iden- tificou, no final da decada de 70. uma novajazida de cobre em Carajas, hou- ve de inicio a mesma euforia que se seguiu ao achado no sertao da Bahia. Mas depois veio a desconfianga, quan- do os primeiros bons resultados foram relativizados por determinadas condi- cionantes, sobretudo de teor e de qua- lidade. Havia muito minerio bruto (mais de um bilhao de toneladas), mas o teor era baixo e a contaminagao de fluor exageradamente alta. Com o banho de agua fria, os tdc- nicos submeteram a jazida de Salobo 3-A a uma revisao criteriosa ate che- garem a conclusao de que havia real- mente minerio em quantidade e teor suficientes para viabilizar a instalagao da segunda unidade de concentra9co de cobre e, posteriormente (com o en- quadramento dos problems tecnol6- gicos para o beneficiamento), da se- gunda metalurgia national de cobre. O Brasil iria, finalmente, se tornar auto-suficiente nesse ainda importan- te e estratdgico bem mineral. O que as novas pesquisas em Cara- jas, conduzidas desde o ano pas- W 0 ibra' UM. -obzam, 2 JOURNAL PESSOAL 18 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 0 sado, estao revelando 6 que ali nio apenas o Brasil vai poder se libertar de suas onerosas importac9es de co- bre, que afetam tanto suas rela98es de troca quanto sua soberania, mas tam- bem poderA dispor de uma provincial do porte da do Chile, lider desse mer- cado. E nAo s6 de cobre, mas tambem de ouro. Falar-se em mil toneladas de ouro em Carajas j nao 6 delirio, o que arremessa o Brasil para uma posicao de destaque, entire a Africa do Sul, a ex-Uniao Sovietica e o Canada, no topo do setor. Carajs j a e um filao de mindrio de ferro, mangands, ouro e cobre, mas podera incluir em suas generosas en- tranhas quantidades industrials de outros minerios, assegurando para o Brasil lugar unico numa das depen- ddncias da economic globalizada mais sujeitas a especula9oes, manipula9ges e flutuac6es ou seja, perigosamente instavel. Uma projegao mal feita do desempenho possivel de cada um des- ses bens no future podera golpear de morte a insercgo do Brasil num mun- do em mutagao acelerada. Alguns des- ses bens sao considerados em progres- sivo desuso. Outros estarao na crista das novas ondas supraindustriais. Ca- rajas passa a pesar cada vez mais no planejamento estrategico do Brasil. Nao e so uma fonte de receita para o pais, mas um component importan- te do poder national. Talvez por um erro, a United States Steel pulou fora da Amaz6nia Minera- 9go exatamente quando se descobria a jazida de Salobo, deixando a Compa- nhia Vale do Rio Doce sozinha no em- preendimento, mas proprietAria finica de Carajas. A empresa sangrou em pouco mais de trds bilh6es de d6lares para viabilizar a mina e continue equi- librando-se em uma faca s6 lImina para entregar a maior parte do minerio aos japoneses a prego inferior ao da bana- na. Mas tem um poder potential de in- terfer6ncia em escala mundial que ra- rissimos paises e corporag6es possu- em, ainda que sobre um setor da eco- nomia intemacional comumente espe- zinhado por pregos deprimidos. O Bra- sil, com a privatizagdo da CVRD con- forme a modelagem estabelecida pe- los consultores do BNDES, vai renun- ciar a esse poder maior sob a alegagio menor de passar em frente uma em- presa do Estado E tanta pobreza de raciocinio que provocou o alerta de um t6cnico ca- nadense, um dos maiores especialis- tas em minerios do mundo. Em rela- t6rio estritamente t6cnico encaminha- do a Companhia Vale do Rio Doce, o ge6logo Robert Mason se achou na obrigagAo de, A margem de seu tra- balho especifico sobre ouro e cobre, destacar que Carajas representa um enorme e insubstituivel bem nacio- nal". Al6m disso, "a vantage com- petitiva usufruida atualmente pela Docegeo/CVRD 6 verdadeiramente notavel e represent um ativo adici- onal para o Brasil". Diante de um pa- trim6nio que ele pr6prio esta ajudan- do a revelar por inteiro, Mason reco- menda aos brasileiros "todos os es- forgos possiveis para garantir que o desenvolvimento da regiao de Cara- jAs seja muito cuidadosamente pla- nejado com o maximo interesse na- cional". O patrim6nio depositado nas en- tranhas de CarajAs 6 uinico no mun- do: sao "muito poucos" os distritos existentes em terrenos pr6-cambria- nos, de uma fase mais remota da for- magao geol6gica da Terra, "que te- nham um agrupamento tAo concen- trado e tao rico de dep6sitos de clas- se mundial e de alvos mineralizados", atesta Mason no seu mais recent re- lat6rio de consultoria para a CVRD, "vazado" para o jornalista Jose Ca- sado e publicado em O Estado de S. Paulo. Os defensores da privatizacao tal como ela estA sendo atualmente con- duzida, a toque de caixa, tentam iro- nizar os que questionam a transfer6n- cia do control das jazidas atribuin- do-lhes um raciocinio primArio e ide- ologicamente comprometido. Afir- mam que nao haverA a alegada "doa- 9ao do nosso subsolo" porque a Uniao continuarA com o control da conces- sao e a usufruir dos royalties quando ocorrer a exploragao econ6mica do bem mineral. Mas este 6 um sofisma de clara mi-fe, ou uma visao mesqui- nha e miope da questao, enquadrada por um perspective micro-econ6mi- ca. Nenhum desses condicionantes le- gais impediu ou vira a impedir que de- tentores dos direitos de lavra "sentem" sobre as minas, dando-lhes uso pro- dutivo quando bem lhes aprouver ou transformando-as em instruments de barganha onerosa para o pais, rebai- xando ainda mais pregos jA desvalori- zados pela a9Ao dos cart6is de com- pradores. Foi exatamente isso o que ocorreu cor asjazidas de ferro de Carajas, que a US Steel utilizou para protelar o ini- cio da lavra, s6 nao tendo tido suces- so por mais tempo por causa do inte- ressejapones que se estabeleceu cor proemindncia. A Alcoa tambem agiu dessa maneira em relagAo aos dep6si- tos de bauxita do Trombetas que ad- quiriu de Daniel Ludwig, transfor- mando-os em gazua para ingressar na sociedade da Minera9ao Rio do Nor- te. A CVRD privatizada com todo o seu patrim6nio significa transferir a terceiros, provavelmente instalados em outros paises e cor estrategias pr6prias de mercado, o poder que esse patrim6nio confere em escala mundi- al. E uma realidade tao clara que o ex- ministro Paulo Haddad, tambem con- sultor da CVRD, decidiu escrever um artigo no Jornal do Brasil defendendo uma outra formula para a privatiza- 9do da Vale: vender as empresas que ja operam regularmente no mercado, uma a uma (como Albras, Alunorte e MRN na Amaz6nia) e reter o contro- le dasjazidas em poder de uma CVRD institucionalmente modificada, mas como instrument do Estado para a definig9o estratdgica da utilizaggo dos recursos naturais que estao em poder da estatal. A pulverizagio e combatida pelos modeladores compuls6rios da empre- sa, sob a alegag9o da complexidade e morosidade que decorreriam da con- sulta a todos os acionistas, cor a en- genharia envolvida na composigao de tantos e tao distintos interesses a se- rem compostos (alem dos pesados passivos a serem incorporados, como no caso da Albras). Isso e verdade, mas essa verdade atesta que a decisAo de privatizar a Vale e muito mais gra- ve do que a das anteriores empresas estatais, nAo podendo simplesmente seguir-lhes os passes, nem essa deci- sao ser ditada pelos estreitos criterios da divida piublica. O patrim6nio da CVRD 6 um component indescarti- vel da estrategia de future do Brasil - e 6 a isso que se estara renunciando ao passar em frente a empresa. 0 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 3 Com Paulo Francis, foi-se um dos ultimos intelectuais publicos A tor sem marca, critic tea- tral quejamais serA uma re- fer8ncia hist6rica, ficcio- nista irrealizado, reporter sem uma , unica reportagem definitive, autor de livros datados, de folego con- ' juntural, Franz Paul Trannin Heil- borner ou Paulo Francis ficara na hist6ria brasileira como um dos ulti- mos intelectuais pdblicos do pais. Parece pouco, mas nao 6. Ele morreu como uma personalidade national, uma fonte de paix6es, um item indescartAvel na agenda de milhares (seria exagero fa- lar em milhoes?) de cidadaos espalha- dos por todos os recantos do Brasil. Ra- ras pessoas terAo conseguido atrair o in- teresse de tanta gente falando de cultural, que, quando ouvem falar, alguns reagem puxando seu 38. Mesmo os que nao entendiam exata- mente o que ele estava dizendo, gosta- vam de ler ou ouvir Paulo Francis. Ele foi um agitador e passou boa parte de sua vida como um furacio. E como um furacAo foi-se prematuramente, aos 66 anos, no alvorecer do dia, como um pa- cato sexagenario surpreendido por um ataque fulminante ao corai9o, uma par- te supra-fisiol6gica do corpo que Fran- cis mantinha A distancia com sua ironia e sua raiva postica. No ano passado, Fernando Jorge gas- tou centenas de paginas para demonstrar que Paulo Francis 6 um impostor, plagi- ario e conforme seu vocabulario "um apedeuta" (em linguagem de gente, um ignorante). Na maior parte do livro, Jor- ge esti certo. N~o sera dificil a um curi- oso aplicado flagrar toda a imprecisio disseminada pelos escritos do jomalista. Mas e dai? Fernando Jorge escreve mal, nio tem senso de humor, 6 obtuso, re- gistra os produtos da cultural como um taximetro e jamais servira de estimulo para iniciantes nos assuntos intelectuais. Alem disso, explode de 6dio quando es- creve, obcecado em sugerir agress6es fisicas ao criticado e defender bovina- mente a magistratura national. O avancar dos anos fez Paulo Francis carregar nas tintas do racism, do pre- conceito, dos estere6tipos e do conser- vadorismo. Surpreso com o pr6prio su- cesso, resolve levar-se aos extremes da bufoneria para cativar os bem-nascidos que pingavam contribuig6es no chap6u que estendeu na avenida novaiorquina. Ha muito tempo deixei de ler o que ele escrevia sobre political e economic. Ja nio tinha, nesses assuntos, qualquer va- lor cognitive. Era pura arenga de provo- cacao. Um carente evidence, Francis fez das agressoes indiscriminadas uma ma- neira de estar em evidencia e cativar, quando nAo o amor, o 6dio do distinto p6blico..Vivendo entire livros e gatos, recolhido A sua torre de marfim, era a maneira de continuar a sentir-se huma- no, vital. Desconte-se essas motivates subter- raneas, talvez inconscientes algumas, compulsivas na maioria das vezes. O valor de determinados criadores autori- zou a seu favor o credito da tolerAncia e da compreensio. Nto fosse assim e cri- adores maiores, como Cdline ou Ezra Pound, teriam que ser executados. Fo- ram racistas e fascists numa dpoca em que ser assim acarretava danos sangui- narios. Os que Francis causou n~o che- garam a tanto. Mas quantos abriram livros ou foram conferir citaqces e opini6es impulsiona- dos por ele? Como os bons jornalistas, Paulo Francis escrevia com humor, iro- nia, clareza e contundEncia, qualidades dificilmente encontrAveis nos textos dos intelectuais latu senso, os acad8micos. Ao contrario da esmagadora maioria dos joralistas, Francis lia muito, entendia o que lia, conseguia captar o sentido da obra e traduzi-la para o mundo em que estava vivendo, sem abstrair o universe do autor. Sabia do que estava falando e tinha opiniao pessoal sobre tudo o que tratava, espicacando interlocutores, obri- gando-os a abrir seu jogo. Quem fosse podre que se quebrasse. Essa 6 a melhor dial6tica. Todos queremos chegar a esse grann finale", mas quantos saber~o chegar efe- tivamente a ele? No meio da polemica, um haverA de querer ir consultar suas anotag6es, dar uma olhada nas cabalisti- cas "fichas". Outro pedirA tempo para voltar con a resposta A altura, mesmo que literalmente retardada. E mais outro s6 considerard o trabalho apresentavel quando puder recheA-lo de notas de p6 de pagina e referencias bibliograficas, m6todo indispensavel para fazer avan- ar a ciencia, mas nem sempre para pos- sibilitar ao piblico entend6-la. Francis sempre esteve no pri- meiro combat, respondendo de imediato ao tiroteio, atirando no S-- meio da rua, expondo-se As con- S troversias no meio da audiencia. SOs intelectuais, cada vez mais, fo- -i ram privatizados pelas universi- dades, limitando seu universe de interesse aos colegas, As bancas que exa- minardo suas teses, as confrarias que os dignificario com os titulos acad8micos. Jacoby analisou com precisdo o fen6- meno do desaparecimento dos intelec- tuais piblicos, antes encontraveis nos bares ou nas paginas dos jornais, cotidi- anamente, agora afogado pelo intelectu- al de carreira acaddmica, circunscrito aos campus universitArios, bitolado por seus insossos e insondAveis trabalhos de eru- digco, acessiveis apenas aos iniciados. Ao lamentar essa degrada9go, saudou um dos 6ltimos intelectuais publicos ameri- canos, ojornalista I. F. Stone, nome mai- or da imprensa dos Estados Unidos. As diferencas entire Izzy Stone e Paulo Francis sao enormes. Stone foi verdadei- ramente o grande reporter que Francis nunca conseguiu ser. A seara do brasilei- ro era mais especializada, a do jomalis- mo cultural, mas, por mexer com todas as manifestaq6es artisticas do home, englobava tudo o que 6 human. Paulo Francis foi um exceptional cronista des- se mundo de representagces, desse calei- dosc6pio aleg6rico da realidade. Alguns dos textos em que tratou das manifesta- Ces dessa alma que ilumina e desgraca o home sao preciosos. Fazem rir e fazem pensar, qualidade superior do texto. Nio sendo o reporter que gera e che- ca os fatos, sua sensibilidade e as infor- maqSes criativamente processadas em seu c6rebro o faziam olhar em torno (ra- ciocinando "em bloco", como inventou na 6poca do Pasquim) e em profundida- de. Via da torre de marfim, mas via com a argicia que gerac6es vem transmitin- do desde muito tempo atras desde S6- crates, por exemplo. Cada um dos su- cessores nessa cadeia foi unico, em seus aspects negatives e em suas virtudes, inimitAvel, insubstituivel, como sio aqueles poucos que deixam sua marca gravada em seu tempo. A morte que veio buscar um Paulo Francis desprevenido, comecando prosaicamente o dia como um vov6 acomodado e nao como um Mestist6feles satanico, nAo trouxe um outro personagem para colocar no lugar. Sentiremos a falta de Paulo Francis. Ja estamos sentindo. 0 4 JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 Antonio Callado: nosso ntonio Callado, que morreu no mes passado, com 80 anos, realizou facanhas para o padrdo do jornalista brasileiro. Viu, com seus pr6prios olhos, duas guerras. Foi um morador de Londres entire 1941 e 1945, quando a capital inglesa se tornou um dos cenarios mais importantes da Segunda Guerra Mundial. Trabalhou como redator da BBC, a lendaria emissora de radio da Gra-Bretanha. Duas decadas depois, Callado conseguiu ser um dos primeiros e poucos - jornalistas ocidentais a testemunhar a guerra do Vietnam a partir de Han6i. As reportagens que escreveu para o Jornal do Brasil, de tdo importantes, foram reproduzidas pelo The New York Times. Ele teve a seu favor outro privil6gio: nao se deixou afogar pelo cotidiano do trabalho jornalistico. Sem o dia-a-dia, corn toda a sua carga de tensdo e ansiedade, nao ha jornalismo que valha a pena. Mas s6 com isso o jornalismo 6 um produto superficial, efemero, insatisfat6rio. Tendo evoluido ao long de tres d6cadas na carreira, Callado nao se deixou fascinar pelo carreirismo: renunciou a chefia de reda9go do Correio da Manha, o mais marcante journal da maior parte da hist6ria republican brasileira, para nio compactuar com um ato de indignidade que seria praticado contra Carlos Heitor Cony, na 6poca colunista do journal, cuja cabega os vitoriosos militares exigiam. A partir dai, Callado consolidaria sua posicgo de free-lancer, emergindo com belas reportagens, entire as quais conta-se uma, anterior, sobre Pernambuco antes do golpe military de 1964 (transformada em livro de sucesso na ocasiao, Tempo de Arraes, infelizmente nunca mais reeditado), e as cr6nicas que fizeram os leitores mais jovens da Folha de S. Paulo redescobri-lo nos ultimos anos. Escreveu como poucos jornalistas brasileiros: corn dominio absolute da lingua, elegancia, originalidade e clareza. O estilo era tao bom que Callado, apenas iniciado na faixa dos 30 anos, arriscou pular o alto muro que separa o jornalismo da literature. Produziu 16 livros de ficcao, entire romances e peas de teatro, ao long de quase 40 anos media de um livro a cada dois anos e meio. E uma produgao respeitavel. Alguns dias antes de morrer (no dia seguinte a comemoragao de seu 800 aniversario), por6m, constatou corn coragem e certa melancolia que Reflexos do Baile, de 1976, era o finico de seus romances que tinha "forga em si". O compare Antonio Houaiss saudou o romance como uma "obra-prima". Embora a trama tenha sido construida em torno de um acontecimento comum dos anos 70 no Brasil, os seqOestros politicos feitos pela esquerda, Callado tentou dar a Reflexos do Baile uma autonomia propriamente literaria que faltou a Quarup e Bar Don Juan, outros romances a clef. De fato, ha um experimentalismo formal, apenas ligeiramente esbogado nos dois trabalhos anteriores, mas o resultado que tanto entusiasmo provocou em Houaiss tem m6ritos mais do que modestos. Infelizmente, Callado nao sera lembrado no future como um important ficcionista, que ele tentou ser, mas como um grande jornalista que procurou superar os estreitos limits do jornalismo para dar o testemunho de sua 6poca em dimens6es mais amplas, se possivel duradouras. Sera muito mais proveitoso para qualquer pessoa buscar uma visao mais intima e realista do Brasil a partir da Terceira Republica (ou da era de Vargas em diante) pelos romances de Callado do que atrav6s dos manuais academicos. E a grande qualidade conquistada por algu6m que conhece o seu tempo pelas entranhas, lidando com personagens de came e osso, tendo com os fatos um contato direto e nao do angulo obliquo dos gabinetes ou do prisma meramente bibliogrifico, mas que nao se perde pelos atalhos do nascer e morrer diario de jornais & jomalistas. Callado nasceu junto com a revolugao russa, em 1917. A coincidencia se manteria at6 o final da vida: sem ter sido um revolucionario, foi um socialist, um gauche, que nao perderia a terura jamais, mais um socialist fabiano A maneira britanica, que sempre foi sua matriz mental, do que um jansenista A brasileira. Em coerencia com esse perfil, ganharia do auto-declarado reacionirio Nelson Rodrigues a defini9go basica, do finico britanico de verdade no mundo, que se repetiria adnauseam nos necrol6gios montados com recortes de journal. Entrou para o jornalismo quando o Estado Novo se inaugurava, em 1937. Teve, a partir dai, o seu grande tema: o totalitarismo, a tirania, contra a qual se insurgiu a sua maneira. Em 1965, com ouitros intelectuais, postou-se em frente ao Hotel Gl6ria, no Rio de Janeiro, para protestar contra uma reuniAo patrocinada pela OEA (Organizagdo dos Estados Americanos), instrument da ostpolitik dos Estados Unidos. Foi o maximo que se permitiu de militancia. Mesmo assim deu cana, cuja dureza a mem6ria de resistencia haveria de compensar. Os sobreviventes no intermezzo 1964-68 descobririam maravilhados, em Quarup, que a hist6ria brasileira recent era muito mais interessante do que os compendios onomasticos deixavam entrever. Na pele do padre Nando, Callado inscreveu a saga da political national, desde as bases misticas da JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 5 jornalista de exportagco Santa Madre Igreja, com seu ossuario de niilismo, passando pela utopia do bom selvagem e os devaneios diversionistas do 6ter & do Alcohol, at6 o messianismo revolucionario da esquerda. Despido das alienagSes religiosa, missiondria e er6tica, Nando toma o rumo do sertao, fugindo ao escapismo litoraneo como, na mesma epoca, faria o vaqueiro Manoel, na incrivel alegoria glauberiana de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Antes de Callado e de Glduber Rocha, brasileiros visionarios como Euclides da Cunha (e o Bario de Maui, Tavares Bastos, Cassiano Ricardo, Fernando de Azevedo) haviam descoberto que o verdadeiro Brasil estava no itero (que levaria a "corrida para o Oeste") da terra e nao nas suas franjas costeiras. Nando, por vivencia sofrida e por esforgo intellectual de revisdo, e Manoel, A custa de sangue, chegaram ao resultado da equadao montada entire o deus e o diabo diversionistas. Nando chega ao fim de Quarup internando-se no sertao, provavelmente imitando o revolucionario em dedicacao integral e exclusive Ernesto Che Guevara. Manoel v8 diante de seus olhos o sertao virar um mar real e aleg6rico. A revolugao, portanto, embora apenas utopia, ainda estava de p6. Bar Don Juan, quatro anos depois, desfez essas ilus6es. O Brasil 6 um paquiderme lento e monstruoso, que excede seus cagadores. Nas entrelinhas de um romance literariamente fraco, Callado 6 s6 ceticismo e descrenga. NAo verd as grandes mudancas que pugnou. Quer, entdo, fazer boa literature, uma compensagAo para o fenecimento de suas utopias. Aplica-se o mais que pode, viajando, lendo e escrevendo. Deixou, no period, cr6nicas luminares. Mas nao o grande livro que perseguiu. Todos os seus livros estao datados, press ao jornaliSmo que foi a base de toda a sua \ida Teria feito I VI mnrdur em mais intense jornalismo do que nas ousadias da ficqao? Provavelmente nao. A literature ajudou tanto seus leitores quanto a ele mesmo, permitindo-lhe polir o estilo, alargar a visAo e nao ficar preso As remissoes documentais e bibliograficas das quais s6 a boa fic9do liberta. Mostrou que o jornalismo, no que tem de melhor e no que, nele, 6 car6ncia estrutural, e, sobretudo, uma totalidade, um interesse insaciavel por tudo o que 6 human, na menos escolastica das habilitag6es, naquela cujos fins sAo tao inalcangaveis quanto deve ser integral a dedicagao para alcanca- los. Jornalismo 6 precariedade e transitoriedade exercidas na extrema radicalidade, como mostra a trajet6ria de Antonio Callado, um dos raros jornalistas de Sestatura international que este pais jA produziu. SNMorreu amargurado e insatisfeito com a pr6pria idade, enquanto o centenario de Barbosa Lima Sobrinho era comemorado com fanfarras, mas morreu digno, inteiro, decent como ja nao parece mais ser moda morrer neste pais ao qual ele tanto se dedicou e do qual nao chegou Sa receber a S" retribuigao merecida, como ja devia estar cansado de saber nos anos finals, Squando, pela primeira vez, desistiu de resistir. )k 6 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 Para fica de fora da nova matriz N ovos caminhos de escoamento de produtos e novos portos de embarque (ou lancamento) de riquezas para o exterior estao surgindo na Amaz6nia, consequEncia da crescen- te integraqao da regiao a economic in- teracional. Mas o Para esta sendo des- locado desses novos eixos dinimicos e perdendo posiiao relative na composi- cao dessa nova matriz regional de trans- porte. Ela revitalizou as hidrovias pela ne- cessidade de oferecer produtos a pregos competitivos mundialmente. Com o fre- te rodoviario, isso na maioria dos ca- sos havia se tornado impossivel. Duas hidrovias adiantaram-se as demais con- cebiveis: a do Madeira e a do Araguaia. Nenhuma delas favorece o Para. A do Madeira beneficia Rond6nia e o Amazonas. Ja neste ano estara esco- ando 300 mil toneladas de soja atrav6s do porto de Itacoatiara. Nele foram in- vestidos 54 milh6es de reais no novo esquema de parceria A moda do neoli- Grupo Liberal: ainda contra PMB e fatos SLiberal de 30 de janeiro publi- cou uma noticia cor tudo para entrar no Guiness do bizarre: anunciou que cerca de 700 camels es- tariam saindo espontaneamente do pon- to de vendas por eles mais cobigado em Bel6m, nas ruas Joao Alfredo e Santo Ant6nio, no velho centro commercial da capital paraense. Apesar de ser um mo- vimento espontineo, sem lideranca, a no- ticia admitia que "alguns vendedores" nao estavam concordando "com a reti- rada" e outros iriam aceitar "os crit6rios estabelecidos" para a solugco como pro- vis6rios, "at6 que se encontre uma pro- posta definitive". Na verdade, como mostraram A Pro- vincia do Pard e o Di6rio do Pard, a pre- beralismo: o BNDES financiou R$ 24 milh6es, o governor do Amazonas en- trou com outros R$ 12 milh6es e o gru- po privado, o Maggi, aplicou R$ 16 milh6es de capital pr6prio. A operacao do terminal sera feita por uma empresa nominalmente de economic mista, a Hermasa, mas controlada efetivamente pela Maggi. A partir deste ano Itacaoatiara ja tera um porto mais important do que o de Santar6m, ainda a espera do asfaltamen- to da rodovia CuiabA-Santar6m e da hi- drovia do Tapaj6s, incluidas entire as obras prioritarias mas sem qualquer in- dica~io de que possam concretizar-se a m6dio prazo. De Itacoatiara os navios sairao diretamente para os Estados Uni- dos e a Europa, levando a soja do Cen- tro-Oeste a um preco muito mais barato. Outros produtos poderao seguir pot esse caminho. A outra alternative 6 a hidrovia do Ara- guaia, destituida de seu complement do Tocantins. Tal como estd sendo executa- da, ela 6 uma pera do intermodal que inclui o trecho rodoviario de Xambioa a Imperatriz e, a partir dai, a ferrovia Nor- te-Sul e a ferrovia de Carajas at6 o porto da Ponta da Madeira, em Sao Luis, um dos melhores terminals do mundo. O ministry das Minas e Energia, Rai- mundo Brito, garantiu que a continua- 9do da hidrovia at6 Belem sera realiza- da, no prazo de 10 anos, mas nao pelo govemo. A tarefa seria transferida aos empresarios, caso a hidrovia seja priva- tizada, ou ao cons6rcio Gen (Grupo de feitura de Bel6m e que iria comandar, na- quele dia, a retirada dos ambulantes das duas principals ruas do comercio. Como o sujeito foi mantido arbitrariamente ocul- to na orago, 0 Liberal teve que fazer um malabarismo anti-profissional para deixar de fazer referencia a administrac~o mu- nicipal do PT, submetido a boicote at6 aceitar pagar integralmente a divida dei- xada pelo antecessor, Helio Gueiros, em relaCio aos veiculos do grupo Liberal (ver Journal Pessoal n 155). Colocada num p6 de pagina intema, a noticia perdeu sua importincia intrinseca e o significado que tern para a Cdnara de Dirigentes Lojis- tas, que o criador do Sistema Romulo Maiorana de Comunicacao ajudou a fun- dare cujas plataformas sempre defended. Foi uma agressio tao escandalosa aos fatos e aos interesses do comercio lojis- ta que no dia seguinte, na manchete de pagina internal, O Liberal teve que se ren- der ao inevitavel: que a desocupagao do centro 6 uma acao da prefeitura. No tex- to, a prefeitura foi citada uma vez, a Se- con (Secretaria de Economia), duas, e a Ctbel (a companhia de transporte, uma Empresas do Norte), que estuda a possi- bilidade de assumir a duplicac~o da hi- drel6trica de Tucurui. O principal desa- fio nesse trecho em territ6rio paraense 6 a transposiCao da barrage de Tucurui, que exigiria a construao da maior eclu- sa do mundo. Tamb6m nesse caso fica claro que o intermodal Araguaia-XambioA-Impera- triz-Porto da Madeira ganhou priorida- de sobre a hidrovia Araguaia-Tocantins. Mesmo que esta venha a ser concluida, nao sera simultaneamente com a primei- ra oprao. Os interessados devem ter fei- to seus cAlculos para optar por uma via de transport que utiliza tres modais (hi- drovia, rodovia e ferrovia) sobre outra que tern um unico modal (o hidroviario), mas, at6 a demonstraaio desses cAlcu- los, a escolha intriga. Sera mesmo ques- tao de vantagem comparative ou de pou- ca efici8ncia da pressao dos paraenses? O deslocamento do Para se consolida com dois novos portos em construcao: os de Macapi, no Amapa, e Pec6m, no Ceara, para navios da classes Panamax. Pec6m, a 50 quil6metros de Fortaleza, gracas a investimento de R$ 67 milh6es, tera capacidade para movimentar tr8s milhoes de toneladas por ano, estabele- cendo no litoral cearense um grande p6lo sidero-metalurgico que estaria em me- Ihor situadao no Para, detentor da pro- vincia mineral de Carajts. Mas o Para, rico em recursos naturais, 6 carente de id6ias e iniciativas para bem usa-los eco- nomicamente. 0 vez. Nenhuma refer8ncia pessoal, mes- mo com um fato a ressaltar: o prefeito foi pessoalmente, em manga de camisa, conversar corn os camels em plena rua. A foto com maior destaque era da Joao Alfredo antes do remanejamento, cheia de camels o passado, portanto. Os desencontros entire a prefeitura e o SRM sobre o d6bito de 1,2 milhao de reais que a empresa quer receber inte- gralmente subsistiram ao encontro entire Ronaldo Maiorana, director do grupo, e a chefe de comunicagao social da PMB, Ruth Vieira. Ronaldo procurou minimi- zar os desentendimentos e expressar o desejo da corporacao de nao entrar em choque com uma administragco rec6m- instalada, ji estando em progressive des- gaste com outras duas liderangas politi- cas: o senador Jader Barbalho e o ex- govemador H1lio Gueiros. Mas os fatos posteriores se encarregariam de desfazer as palavras de Ronaldo. Para o grupo, pelo que da a entender, se os fatos nao se enquadram aos seus interesses, ao di- abo com os fatos e o leitor que va se queixar ao bispo, se o encontrar. 0 JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 7 Temporada dos imprevistos comega Equal a possibilidade de que, em 1998, o governador Almir Ga- briel e o senador Jader Barbalho facam parte da mesma coligaqdo eleito- ral para enfrentar o ex-goverador H6- lio Gueiros? Aparentemente, nenhuma. Mas algumas iniciativas parecem indi- car que a concretizacgo dessa hip6tese, hoje improvavel, pode ser apenas uma questao de vontade, de subjetividade. Condiq6es objetivas para que ela se rea- lize ja existem. A ultima dessas iniciativas foi a ado- tada nesta semana pelo vice-goverador Helio Gueiros Jr.. Ele usou como pre- texto o pedido de desfiliacgo do PFL para, mais uma vez, atacar o governa- dor. E fez do ataque um instrument de intimidagao. Por tras do ato pode estar um recado do pai contra as progressivas aproximaa6es entire Almir e Jader. Demonstracqes de boa vontade de ambas as parties vem se tomando cada vez mais visiveis. O lider do PMDB no senado liberou a bancada do partido na Assembl6ia Legislativa para que todos os deputados estaduais pudessem votar no candidate do governador a presiden- cia da casa, Luiz OtAvio Campos. O Di- drio do Pard foi excepcionalmente ge- neroso na cobertura do acontecimento, um contrast com o silencio que costu- ma reservar para os fatos politicos quan- do eles nao interessam ao dono. Essa boa vontade de Jader contrast corn a posicio por ele assumida um pou- co antes, na elei9Fo da mesa da Cdmara na political estadual Municipal de Belem, quando aliou-se ao PT contra a chapa patrocinada pelo go- vernador. A cobertura do Diario do Pard a administration de Edmilson Rodrigues, alias, s6 rivaliza com a que o journal deu ao pr6prio Jader. Pode ser uma retribui- cao a programagao da publicidade muni- cipal nos veiculos do grupo, mas esta bem long de ser apenas um fato commercial. Jader Barbalho parece estar agindo como um enxadrista que joga em dois tabuleiros ao mesmo tempo. A coeren- cia de seus movimentos s6 se tora dis- cernivel para os que tem a visgo dos dois tabuleiros. Por essa 6tica, tudo indica que o senador joga com a hip6tese de, con- tra todas as tendencias, nao ser candida- to ao governor do Estado em 1998, po- dendo se aliar ao grupo que mais se ade- quar aos seus interesses, caso se confir- me essa hip6tese. Quem sabe nao seria aceitavel prolon- gar o mandate de Almir, adiando o con- fronto para quatro anos depois, enquan- to tenta conquistar poder federal, con- centrando as forgas nas disputes para o senado e os cargos proporcionais? O go- verador, candidate a um segundo man- dato, teria que apoiar a reeleigao de seu correligionario, Fernando Coutinho Jor- ge, ou entao impor-lhe uma cicuta para que o candidate da coligagao ao senado fosse H61io Gueiros. Coutinho tomaria esse veneno (o rebaixamento para a Ca- mara Federal), com a superioridade de um S6crates? De qualquer maneira, nio sobraria muito espaco para Gueiros se movimentar, levando com ele a enorme troupe de seus talentosos filhos & asso- ciados, necessitados mais do que um car- go parlamentar. Como poucas vezes ocorreu antes, os lideres politicos estao tendo que montar suas estrategias considerando um nume- ro excepcionalmente alto de variaveis in- consolidadas, a partir da altera~io das regras do jogo com a introdug~o da ree- leic~o. A ponderaqo de poder entire os atores variara de acordo com a consoli- dacao das mudancas, mas o ex-govema- dor H1lio Gueiros sente-se deslocado do eixo principal. De um lado, ele sofre e continuara a sofrer por algum tempo o desgaste da sua image na media em que o PT for escavando e revelando os podres da ad- ministraqao gueirista na prefeitura de Bel6m, que sao numerosos e estao a floor dos pap6is oficiais. De outro, nao tem muito a oferecer, nem de vantajoso, nem de perigoso, no cenario estadual. Seu inico trunfo 6 o filho na vice-govera- doria. Atrav6s do aparentemente inocuo pedido de desligamento do PFL, Guei- ros manda dizer pelo impetuoso Junior que a chantagem persistira como uma es- pada de Dimocles sobre a cabeqa do go- vernador. Ela serA acionada sempre que a palavra-chave, uma eventual alianga com Jader Barbalho, for dita. Chantagem, por sinal, mesmo quan- do nao receber essa designagao (e, so- bretudo, assim), e o que predominara na saison eleitoral que se aproxima. 0 TCs: paraiso da burocracia N elson Chases pronete repetir, na presidncia do Tribunal de Contas do Estado, que assumiu no mes passado. a gestao moralizadora adotada na Camara Municipal de Belem. aproximando o TCE da sociedade e dando-lhe a tal da transparEncia que muitos dizem buscar e poucos alcanqam O compromisso e positive. TrEs d6cadas atras o Tribunal de Contas do Estado ocupava um andardo veiho sobrado de entrada do Museu Emilio Goeldi. espago suficiente para abrigar suas trEs duzias de funcionarios. Hoje eles sio 509 (488 em atividade, sendo 345 efetivos e 143 sem vinculo e temporarios) e se espalham por tres predios. So as despesas de pessoal absorvem dois milh6es de reais por mrs O orqamento do TCE no ano passado for de R$ 32 trulhbes Esses numeros estouraram apesar de, nesse period, ter sido criado o Tribunal de Contas dos Municipios, que livrou o TCE do encargo de fiscalizar as admmistrac6es municipals, tarefa anteriormente de sua competencia (agora restnta aos poderes executive, legislativo e ludiciaro). E claro que o Para tambem cresceu bastante. mas a expansao dos TCs foi desproporcionalmente maior. o TCE a frente Seus 509 funcionArios custam R$ 2 milhlis mensais. enquanto os 407 do TCM saem por R$ 1 milhio A relaqIo mostra que cada funcionano do TCE ganha. em media. 809o mais do que o scrvidor do TCM Se essa media fosse aplicada ao conjunto do funcionalismo public paraense, a folha pulana seis \ezes, chegando a R$ 300 milh6es. Os vencimentos se agigantam nos casos de dois conselheiros aposentados. cada um deles com R$ 14 mil, o mesmo nivel salaral do assessor de gabinete da presidncia. tambem aposentado Esse padrao faz dos servidores dos TCs privilegiados no conjunto da administraqgo estadual e explica tanta dispute por um lugar ali O sabado era urn dia especial na redacao do Correio da ManhA. 0 Quarto Caderno rodava mats cedo do que a edigo domim- cal do jomal e por la, no final da manhS, apareciam algumas das figures notaveis que escreviam no suplemento. o melhor que ja ii na imprensa brasileira. A maior delas era o editor. Paulo Francis. "Foca" (iniciante no largao jomalstico), acompanhava a dist-n- cia o debate que entAo se tralava entire al- guns dos presents. Raramente me atre% La a intervir Meu in- terlocutor era alguem mais pr6ximo da mi- nha idade. Flad io Macedo Soares. o mara- vilhoso Vagn. que. depois. se suicidaria. Permanece injustamente esquecido foi, pelo menos. se outro titulo nao quisermos dar-lhe. o mais culto dos jovens cartunistas brasileiros (que Vagn nunca deixou de ser: ainda nio saira da faixa dos 20 ao se suici- dar). Quando eventualmente acionado. Francis era atencioso, dava explicac6es, prestava atenqio ate mesmo as umaturidades de um "foca" Mas por pouco tempo- logo saia para as incursbes sem prazo previsto de final nos bares de Ipanema Ele e sua "patota", baru- lhenta e brilhante So voltaria a encontra-lo, dois anos de- pois, numa daquelas upicas festas paulista- nas em que alguem notavel junta outros "al- guns" igualmente notaveis para apresentar um notavel maior. Francis era a grande atra- gAo da noite, mas estava inacessivel. As mulheres, sobretudo, foram mantidas A dis- tfncia. tratadas com respostas etiradas frias e cortantes coro o melhor ago (amda que inapropriado para aquelas peles). Tomei conhecimento da existdncia de Pau- lo Francis antes do antol6gico Quarto Ca- derno (nao sei por que, ignorado nas lust6- rias da imprensa). Foi cor Senhor e cor a revista Diner's. Senhor continue a ser, passados 23 anos do seu fim, a mais importance revista de cul- tura que jA apareceu neste pals, a frente de todas as que a sucederam. Tenho a coleco complete, que releio sempre. Agradeqo pela ventura. A Diner's corresponde, para os que gostam de ler, ao que am bor vinho into represent para os bebedores de escol. Ensi- na. aos que conseguem aprender, o que sig- nifica estabelecer uma linha editorial a uma publicaqlo jornalistica. Sao duas revistas de vanguard, sem con- cess6es ao gosto medio, inovadoras e criati- vas ate na sua programaqio publicitaria (como o Pasquim, muito depois, conseguiu ser). Paulo Francis esteve present em todos es- ses empreendimentos. E frequdncia demais para ser apenas coincidencia. Mem6rias franciscanas Estilo da casa Quando esteve em Brasilia no mes passado, engrossando o lobby da reeleigo, o gover- nador Almir Gabriel decidiu convidar a bancada federal govemista do Para para um almoro. Quatro dos convida- dos nao apareceram, alegan- do que ja haviam assumido outros compromissos. A co- luna Rep6rter 70, de 0 Libe- ral, noticiou no dia seguinte o fato como se apenas o de- putado Vic Pires Franco, ami- go da casa, tivesse sido con- vidado. Com veneno, a colu- na observou que Vic "prefe- riu almocar com o president da Camara, Luis Eduardo Magalhies". O verbo preferir parece ter sido escolhido a dedo para in- dicar que Vic desprezou a ini- ciativa do governador, vitima de seus constantes ataques, a despeito de ambos integrarem a mesma alianga political, op- tando por um program me- Ihor. Ou seja: Almir esqueceu as diverg6ncias para um ato de reconciliacgo, mas foi esno- bado pelo parlamentar. A image de governador fraco seria reforgada. Como parece dar mais im- portancia ao ben trovatto do que ao vero, quando e de sua conveniencia, a coluna deixou mal o governador manobran- do as palavras e os fatos. Privilegio A Companhia das Docas do Para construiu uma pista de pouso asfaltada, com 800 metros de comprimento, ao lado de Vila do Conde, em Barcarena, onde deveria ser uma rua. Sua utilidade? Per- mitir que o president da CDP cubra os 40 quil6metros em linha reta que separam Bel6m, sede da assim chamada em- presa, do porto que opera com alto lucro (e espera salvar da privatizacao), nao propria- mente por efici8ncia especi- fica, mas por ser quase tio bom quanto um cart6rio. 0 comum dos mortals faz a travessia de barco e carro. Matar 6 fcil Qualquer que seja a hist6- ria verdadeira do assassinate do professor HClio Norman (incluindo algumas verses, menos a oficiosa, que a poli- cia diligentemente engoliu e deglutiu para a opiniio pfbli- ca atC ser obrigada a descar- ta-la), uma coisa impression: a facilidade com que se arma um crime de encomerida em Bel6m. O preco da empreitada 6 baixissimo e a execucgo, des- leixada. Tudo porque a impu- nidade esta se tornando uma regra tao freqiiente que nin- guem mais se importa de apa- Procura-se Ha muito tempo nio se ouve uma palavra do governador Almir Gabriel sobre um tema que, em outros tempos e sob outras circunstincias, mereceria sua constant manifestamo: a privatizac;o da Companhia Vale do Rio Doce. A iltima opiniio do govemador, de adaptar o que pensa a garantia de que parte da receita de venda da CVRD viria para o Para, foi tIo desastrosa que ele parece estar preferindo nao repeti-la. Mas o sil8ncio reduz ainda mais a estatura cor a qual Almir Gabriel poderia se habilitar a fazer parte da hist6ria do Para e, talvez, do Brasil. Lideres e estadistas nao se escondem em moments complicados. r' r M Jomal Pessoal Editor: LOclo FIvio Pinto lHusraq6es e editoragio gr ific Luiz ae Faria Pinto RedaeF o. Passagem Bolonha, 60-B 66.053-020 Fone 223-1929/2243728 Contato. Tv Benjamln Constant 845/203 66.053-020 Fone. 223-7690 e maa lucio@expert com.br . ? 9 - relen t policik com uma his-f i e quebrad Atote- '-acia policial estimula essa j ousadia. -' _ Puxa-saquismo A ultima legislature da As- sembleia Legislativa foi en- cerrada a moda da casa: cor uma farta distribui?~o de me- dalhas. Entre os agraciados, o novo dono de A Provincia do Pard, Gengis Freire, e dois dos donos do Sistema Romulo Maiorana de Comu- nicacdo, Lucidea e Ronaldo Maiorana, A Provincia in- cluiu em seu noticiario a res- peito os nomes dos Maiora- na. O Liberal, porem, omi- tiu qualquer refer8ncia a Gengis Freire. Alem de ndo ser uma poli- tica de boa vizinhanga, e mais uma agressdo a informaago cometida pelos monopolistas do jornalismo paraense. Indi- ferentes as homenagens, os Maiorana tnm dispensado so- lene desprezo a esses salama- leques, aos quais invariavel- mente nao comparecem, a ex- cego de Ronaldo. Apesar dessa reac~o, os aulicos insis- tem. E de sua natureza. |
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