Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00105

Full Text







Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL : L CIO FLAVIO PINTO
ANO X N 156 1A QUINZENA DE FEVEREIRO DE 1997 R$ 2,00


CARATAS



Brasil renuncia ao future

Um especialista canadense recomenda: o Brasil ndo pode
abrir mdo do control de umaprovincia mineral
como Carajds. Indiferente a essa evidencia, o governor
mantem o cronograma de venda da CVRD.


uando o milionario
"Baby" Pignatary
conseguiu conven-
cer, na metade da
decada de 70, o en-
tao president Er-
nesto Geisel a estatizar a Caraiba Me-
tais, detentora no sertao baiano da
unica jazida commercial e da funica
metalurgica de cobre do Brasil, o ar-
gumento que fascinou o sistema
(como entao o establishment militar-
empresarial-tecnocrata era conhecido)
foi de que o pais se libertaria da cr6-
nica dependencia em que vivia dos
fornecimentos do Chile e da Bolivia,
alem de desonerar o comercio exteri-
or de um peso equivalent a 400 mi-
lh6es de d6lares ao ano (o segundo
maior nas importac6es de bens mine-
rais). Uma pedra considerdvel seria


retirada do sapato apertado da sobe-
rania national.
Mas a jazida da Caraiba nao teria
nem uma d6cada de vida util se tives-
se que suprir plenamente as necessi-
dades da fabrica. Foi precise continu-
ar suplementando dois tergos das ne-
cessidades metalurgicas com concen-
trado de cobre importado porque os
dep6sitos de min6rio haviam sido su-
per-avaliados provavelmente de ma-
fe.
Quando a Docegeo (subsididria da
CVRD para pesquisa geol6gica) iden-
tificou, no final da decada de 70. uma
novajazida de cobre em Carajas, hou-
ve de inicio a mesma euforia que se
seguiu ao achado no sertao da Bahia.
Mas depois veio a desconfianga, quan-
do os primeiros bons resultados foram
relativizados por determinadas condi-


cionantes, sobretudo de teor e de qua-
lidade. Havia muito minerio bruto
(mais de um bilhao de toneladas), mas
o teor era baixo e a contaminagao de
fluor exageradamente alta.
Com o banho de agua fria, os tdc-
nicos submeteram a jazida de Salobo
3-A a uma revisao criteriosa ate che-
garem a conclusao de que havia real-
mente minerio em quantidade e teor
suficientes para viabilizar a instalagao
da segunda unidade de concentra9co
de cobre e, posteriormente (com o en-
quadramento dos problems tecnol6-
gicos para o beneficiamento), da se-
gunda metalurgia national de cobre.
O Brasil iria, finalmente, se tornar
auto-suficiente nesse ainda importan-
te e estratdgico bem mineral.
O que as novas pesquisas em Cara-
jas, conduzidas desde o ano pas- W


0 ibra' UM.

-obzam,







2 JOURNAL PESSOAL 18 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997


0 sado, estao revelando 6 que ali nio
apenas o Brasil vai poder se libertar
de suas onerosas importac9es de co-
bre, que afetam tanto suas rela98es de
troca quanto sua soberania, mas tam-
bem poderA dispor de uma provincial
do porte da do Chile, lider desse mer-
cado. E nAo s6 de cobre, mas tambem
de ouro. Falar-se em mil toneladas de
ouro em Carajas j nao 6 delirio, o que
arremessa o Brasil para uma posicao
de destaque, entire a Africa do Sul, a
ex-Uniao Sovietica e o Canada, no
topo do setor.
Carajs j a e um filao de mindrio de
ferro, mangands, ouro e cobre, mas
podera incluir em suas generosas en-
tranhas quantidades industrials de
outros minerios, assegurando para o
Brasil lugar unico numa das depen-
ddncias da economic globalizada mais
sujeitas a especula9oes, manipula9ges
e flutuac6es ou seja, perigosamente
instavel. Uma projegao mal feita do
desempenho possivel de cada um des-
ses bens no future podera golpear de
morte a insercgo do Brasil num mun-
do em mutagao acelerada. Alguns des-
ses bens sao considerados em progres-
sivo desuso. Outros estarao na crista
das novas ondas supraindustriais. Ca-
rajas passa a pesar cada vez mais no
planejamento estrategico do Brasil.
Nao e so uma fonte de receita para o
pais, mas um component importan-
te do poder national.
Talvez por um erro, a United States
Steel pulou fora da Amaz6nia Minera-
9go exatamente quando se descobria a
jazida de Salobo, deixando a Compa-
nhia Vale do Rio Doce sozinha no em-
preendimento, mas proprietAria finica
de Carajas. A empresa sangrou em
pouco mais de trds bilh6es de d6lares
para viabilizar a mina e continue equi-
librando-se em uma faca s6 lImina para
entregar a maior parte do minerio aos
japoneses a prego inferior ao da bana-
na. Mas tem um poder potential de in-
terfer6ncia em escala mundial que ra-
rissimos paises e corporag6es possu-
em, ainda que sobre um setor da eco-
nomia intemacional comumente espe-
zinhado por pregos deprimidos. O Bra-
sil, com a privatizagdo da CVRD con-
forme a modelagem estabelecida pe-
los consultores do BNDES, vai renun-
ciar a esse poder maior sob a alegagio
menor de passar em frente uma em-
presa do Estado


E tanta pobreza de raciocinio que
provocou o alerta de um t6cnico ca-
nadense, um dos maiores especialis-
tas em minerios do mundo. Em rela-
t6rio estritamente t6cnico encaminha-
do a Companhia Vale do Rio Doce, o
ge6logo Robert Mason se achou na
obrigagAo de, A margem de seu tra-
balho especifico sobre ouro e cobre,
destacar que Carajas representa um
enorme e insubstituivel bem nacio-
nal". Al6m disso, "a vantage com-
petitiva usufruida atualmente pela
Docegeo/CVRD 6 verdadeiramente
notavel e represent um ativo adici-
onal para o Brasil". Diante de um pa-
trim6nio que ele pr6prio esta ajudan-
do a revelar por inteiro, Mason reco-
menda aos brasileiros "todos os es-
forgos possiveis para garantir que o
desenvolvimento da regiao de Cara-
jAs seja muito cuidadosamente pla-
nejado com o maximo interesse na-
cional".
O patrim6nio depositado nas en-
tranhas de CarajAs 6 uinico no mun-
do: sao "muito poucos" os distritos
existentes em terrenos pr6-cambria-
nos, de uma fase mais remota da for-
magao geol6gica da Terra, "que te-
nham um agrupamento tAo concen-
trado e tao rico de dep6sitos de clas-
se mundial e de alvos mineralizados",
atesta Mason no seu mais recent re-
lat6rio de consultoria para a CVRD,
"vazado" para o jornalista Jose Ca-
sado e publicado em O Estado de S.
Paulo.
Os defensores da privatizacao tal
como ela estA sendo atualmente con-
duzida, a toque de caixa, tentam iro-
nizar os que questionam a transfer6n-
cia do control das jazidas atribuin-
do-lhes um raciocinio primArio e ide-
ologicamente comprometido. Afir-
mam que nao haverA a alegada "doa-
9ao do nosso subsolo" porque a Uniao
continuarA com o control da conces-
sao e a usufruir dos royalties quando
ocorrer a exploragao econ6mica do
bem mineral. Mas este 6 um sofisma
de clara mi-fe, ou uma visao mesqui-
nha e miope da questao, enquadrada
por um perspective micro-econ6mi-
ca.
Nenhum desses condicionantes le-
gais impediu ou vira a impedir que de-
tentores dos direitos de lavra "sentem"
sobre as minas, dando-lhes uso pro-
dutivo quando bem lhes aprouver ou


transformando-as em instruments de
barganha onerosa para o pais, rebai-
xando ainda mais pregos jA desvalori-
zados pela a9Ao dos cart6is de com-
pradores.
Foi exatamente isso o que ocorreu
cor asjazidas de ferro de Carajas, que
a US Steel utilizou para protelar o ini-
cio da lavra, s6 nao tendo tido suces-
so por mais tempo por causa do inte-
ressejapones que se estabeleceu cor
proemindncia. A Alcoa tambem agiu
dessa maneira em relagAo aos dep6si-
tos de bauxita do Trombetas que ad-
quiriu de Daniel Ludwig, transfor-
mando-os em gazua para ingressar na
sociedade da Minera9ao Rio do Nor-
te. A CVRD privatizada com todo o
seu patrim6nio significa transferir a
terceiros, provavelmente instalados
em outros paises e cor estrategias
pr6prias de mercado, o poder que esse
patrim6nio confere em escala mundi-
al.
E uma realidade tao clara que o ex-
ministro Paulo Haddad, tambem con-
sultor da CVRD, decidiu escrever um
artigo no Jornal do Brasil defendendo
uma outra formula para a privatiza-
9do da Vale: vender as empresas que
ja operam regularmente no mercado,
uma a uma (como Albras, Alunorte e
MRN na Amaz6nia) e reter o contro-
le dasjazidas em poder de uma CVRD
institucionalmente modificada, mas
como instrument do Estado para a
definig9o estratdgica da utilizaggo dos
recursos naturais que estao em poder
da estatal.
A pulverizagio e combatida pelos
modeladores compuls6rios da empre-
sa, sob a alegag9o da complexidade e
morosidade que decorreriam da con-
sulta a todos os acionistas, cor a en-
genharia envolvida na composigao de
tantos e tao distintos interesses a se-
rem compostos (alem dos pesados
passivos a serem incorporados, como
no caso da Albras). Isso e verdade,
mas essa verdade atesta que a decisAo
de privatizar a Vale e muito mais gra-
ve do que a das anteriores empresas
estatais, nAo podendo simplesmente
seguir-lhes os passes, nem essa deci-
sao ser ditada pelos estreitos criterios
da divida piublica. O patrim6nio da
CVRD 6 um component indescarti-
vel da estrategia de future do Brasil -
e 6 a isso que se estara renunciando
ao passar em frente a empresa. 0







JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 3




Com Paulo Francis, foi-se um dos


ultimos intelectuais publicos


A tor sem marca, critic tea-
tral quejamais serA uma re-
fer8ncia hist6rica, ficcio-
nista irrealizado, reporter sem uma ,
unica reportagem definitive, autor
de livros datados, de folego con- '
juntural, Franz Paul Trannin Heil-
borner ou Paulo Francis ficara
na hist6ria brasileira como um dos ulti-
mos intelectuais pdblicos do pais.
Parece pouco, mas nao 6. Ele morreu
como uma personalidade national, uma
fonte de paix6es, um item indescartAvel
na agenda de milhares (seria exagero fa-
lar em milhoes?) de cidadaos espalha-
dos por todos os recantos do Brasil. Ra-
ras pessoas terAo conseguido atrair o in-
teresse de tanta gente falando de cultural,
que, quando ouvem falar, alguns reagem
puxando seu 38.
Mesmo os que nao entendiam exata-
mente o que ele estava dizendo, gosta-
vam de ler ou ouvir Paulo Francis. Ele
foi um agitador e passou boa parte de
sua vida como um furacio. E como um
furacAo foi-se prematuramente, aos 66
anos, no alvorecer do dia, como um pa-
cato sexagenario surpreendido por um
ataque fulminante ao corai9o, uma par-
te supra-fisiol6gica do corpo que Fran-
cis mantinha A distancia com sua ironia
e sua raiva postica.
No ano passado, Fernando Jorge gas-
tou centenas de paginas para demonstrar
que Paulo Francis 6 um impostor, plagi-
ario e conforme seu vocabulario "um
apedeuta" (em linguagem de gente, um
ignorante). Na maior parte do livro, Jor-
ge esti certo. N~o sera dificil a um curi-
oso aplicado flagrar toda a imprecisio
disseminada pelos escritos do jomalista.
Mas e dai? Fernando Jorge escreve mal,
nio tem senso de humor, 6 obtuso, re-
gistra os produtos da cultural como um
taximetro e jamais servira de estimulo
para iniciantes nos assuntos intelectuais.
Alem disso, explode de 6dio quando es-
creve, obcecado em sugerir agress6es
fisicas ao criticado e defender bovina-
mente a magistratura national.
O avancar dos anos fez Paulo Francis
carregar nas tintas do racism, do pre-
conceito, dos estere6tipos e do conser-
vadorismo. Surpreso com o pr6prio su-
cesso, resolve levar-se aos extremes da
bufoneria para cativar os bem-nascidos
que pingavam contribuig6es no chap6u
que estendeu na avenida novaiorquina.
Ha muito tempo deixei de ler o que ele
escrevia sobre political e economic. Ja
nio tinha, nesses assuntos, qualquer va-


lor cognitive. Era pura arenga de provo-
cacao. Um carente evidence, Francis fez
das agressoes indiscriminadas uma ma-
neira de estar em evidencia e cativar,
quando nAo o amor, o 6dio do distinto
p6blico..Vivendo entire livros e gatos,
recolhido A sua torre de marfim, era a
maneira de continuar a sentir-se huma-
no, vital.
Desconte-se essas motivates subter-
raneas, talvez inconscientes algumas,
compulsivas na maioria das vezes. O
valor de determinados criadores autori-
zou a seu favor o credito da tolerAncia e
da compreensio. Nto fosse assim e cri-
adores maiores, como Cdline ou Ezra
Pound, teriam que ser executados. Fo-
ram racistas e fascists numa dpoca em
que ser assim acarretava danos sangui-
narios. Os que Francis causou n~o che-
garam a tanto.
Mas quantos abriram livros ou foram
conferir citaqces e opini6es impulsiona-
dos por ele? Como os bons jornalistas,
Paulo Francis escrevia com humor, iro-
nia, clareza e contundEncia, qualidades
dificilmente encontrAveis nos textos dos
intelectuais latu senso, os acad8micos.
Ao contrario da esmagadora maioria dos
joralistas, Francis lia muito, entendia o
que lia, conseguia captar o sentido da
obra e traduzi-la para o mundo em que
estava vivendo, sem abstrair o universe
do autor. Sabia do que estava falando e
tinha opiniao pessoal sobre tudo o que
tratava, espicacando interlocutores, obri-
gando-os a abrir seu jogo. Quem fosse
podre que se quebrasse. Essa 6 a melhor
dial6tica.
Todos queremos chegar a esse grann
finale", mas quantos saber~o chegar efe-
tivamente a ele? No meio da polemica,
um haverA de querer ir consultar suas
anotag6es, dar uma olhada nas cabalisti-
cas "fichas". Outro pedirA tempo para
voltar con a resposta A altura, mesmo
que literalmente retardada. E mais outro
s6 considerard o trabalho apresentavel
quando puder recheA-lo de notas de p6
de pagina e referencias bibliograficas,
m6todo indispensavel para fazer avan-
ar a ciencia, mas nem sempre para pos-
sibilitar ao piblico entend6-la.


Francis sempre esteve no pri-
meiro combat, respondendo de
imediato ao tiroteio, atirando no
S-- meio da rua, expondo-se As con-
S troversias no meio da audiencia.
SOs intelectuais, cada vez mais, fo-
-i ram privatizados pelas universi-
dades, limitando seu universe de
interesse aos colegas, As bancas que exa-
minardo suas teses, as confrarias que os
dignificario com os titulos acad8micos.
Jacoby analisou com precisdo o fen6-
meno do desaparecimento dos intelec-
tuais piblicos, antes encontraveis nos
bares ou nas paginas dos jornais, cotidi-
anamente, agora afogado pelo intelectu-
al de carreira acaddmica, circunscrito aos
campus universitArios, bitolado por seus
insossos e insondAveis trabalhos de eru-
digco, acessiveis apenas aos iniciados.
Ao lamentar essa degrada9go, saudou um
dos 6ltimos intelectuais publicos ameri-
canos, ojornalista I. F. Stone, nome mai-
or da imprensa dos Estados Unidos.
As diferencas entire Izzy Stone e Paulo
Francis sao enormes. Stone foi verdadei-
ramente o grande reporter que Francis
nunca conseguiu ser. A seara do brasilei-
ro era mais especializada, a do jomalis-
mo cultural, mas, por mexer com todas
as manifestaq6es artisticas do home,
englobava tudo o que 6 human. Paulo
Francis foi um exceptional cronista des-
se mundo de representagces, desse calei-
dosc6pio aleg6rico da realidade. Alguns
dos textos em que tratou das manifesta-
Ces dessa alma que ilumina e desgraca o
home sao preciosos. Fazem rir e fazem
pensar, qualidade superior do texto.
Nio sendo o reporter que gera e che-
ca os fatos, sua sensibilidade e as infor-
maqSes criativamente processadas em
seu c6rebro o faziam olhar em torno (ra-
ciocinando "em bloco", como inventou
na 6poca do Pasquim) e em profundida-
de. Via da torre de marfim, mas via com
a argicia que gerac6es vem transmitin-
do desde muito tempo atras desde S6-
crates, por exemplo. Cada um dos su-
cessores nessa cadeia foi unico, em seus
aspects negatives e em suas virtudes,
inimitAvel, insubstituivel, como sio
aqueles poucos que deixam sua marca
gravada em seu tempo. A morte que veio
buscar um Paulo Francis desprevenido,
comecando prosaicamente o dia como
um vov6 acomodado e nao como um
Mestist6feles satanico, nAo trouxe um
outro personagem para colocar no lugar.
Sentiremos a falta de Paulo Francis. Ja
estamos sentindo. 0







4 JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997




Antonio Callado: nosso


ntonio Callado, que
morreu no mes
passado, com 80
anos, realizou
facanhas para o
padrdo do jornalista
brasileiro. Viu, com seus pr6prios
olhos, duas guerras. Foi um
morador de Londres entire 1941 e
1945, quando a capital inglesa se
tornou um dos cenarios mais
importantes da Segunda Guerra
Mundial. Trabalhou como redator
da BBC, a lendaria emissora de
radio da Gra-Bretanha. Duas
decadas depois, Callado conseguiu
ser um dos primeiros e poucos -
jornalistas ocidentais a testemunhar
a guerra do Vietnam a partir de
Han6i. As reportagens que escreveu
para o Jornal do Brasil, de tdo
importantes, foram reproduzidas
pelo The New York Times.
Ele teve a seu favor outro
privil6gio: nao se deixou afogar
pelo cotidiano do trabalho
jornalistico. Sem o dia-a-dia, corn
toda a sua carga de tensdo e
ansiedade, nao ha jornalismo que
valha a pena. Mas s6 com isso o
jornalismo 6 um produto
superficial, efemero, insatisfat6rio.
Tendo evoluido ao long de tres
d6cadas na carreira, Callado nao se
deixou fascinar pelo carreirismo:
renunciou a chefia de reda9go do
Correio da Manha, o mais
marcante journal da maior parte da
hist6ria republican brasileira, para
nio compactuar com um ato de
indignidade que seria praticado
contra Carlos Heitor Cony, na 6poca
colunista do journal, cuja cabega os
vitoriosos militares exigiam.
A partir dai, Callado consolidaria
sua posicgo de free-lancer,
emergindo com belas reportagens,
entire as quais conta-se uma,
anterior, sobre Pernambuco antes
do golpe military de 1964
(transformada em livro de sucesso
na ocasiao, Tempo de Arraes,
infelizmente nunca mais reeditado),
e as cr6nicas que fizeram os leitores


mais jovens da Folha de S. Paulo
redescobri-lo nos ultimos anos.
Escreveu como poucos jornalistas
brasileiros: corn dominio absolute
da lingua, elegancia, originalidade e
clareza.
O estilo era tao bom que Callado,
apenas iniciado na faixa dos 30
anos, arriscou pular o alto muro que
separa o jornalismo da literature.
Produziu 16 livros de ficcao, entire
romances e peas de teatro, ao
long de quase 40 anos media de
um livro a cada dois anos e meio. E
uma produgao respeitavel. Alguns
dias antes de morrer (no dia
seguinte a comemoragao de seu 800
aniversario), por6m, constatou corn
coragem e certa melancolia que
Reflexos do Baile, de 1976, era o
finico de seus romances que tinha
"forga em si".
O compare Antonio Houaiss
saudou o romance como uma
"obra-prima". Embora a trama
tenha sido construida em torno de
um acontecimento comum dos anos
70 no Brasil, os seqOestros politicos
feitos pela esquerda, Callado tentou
dar a Reflexos do Baile uma
autonomia propriamente literaria
que faltou a Quarup e Bar Don
Juan, outros romances a clef.
De fato, ha um experimentalismo
formal, apenas ligeiramente
esbogado nos dois trabalhos
anteriores, mas o resultado que
tanto entusiasmo provocou em
Houaiss tem m6ritos mais do que
modestos. Infelizmente, Callado
nao sera lembrado no future como
um important ficcionista, que ele
tentou ser, mas como um grande
jornalista que procurou superar os
estreitos limits do jornalismo para
dar o testemunho de sua 6poca em
dimens6es mais amplas, se possivel
duradouras.
Sera muito mais proveitoso para
qualquer pessoa buscar uma visao
mais intima e realista do Brasil a
partir da Terceira Republica (ou da
era de Vargas em diante) pelos
romances de Callado do que atrav6s


dos manuais academicos. E a
grande qualidade conquistada por
algu6m que conhece o seu tempo
pelas entranhas, lidando com
personagens de came e osso, tendo
com os fatos um contato direto e
nao do angulo obliquo dos
gabinetes ou do prisma meramente
bibliogrifico, mas que nao se perde
pelos atalhos do nascer e morrer
diario de jornais & jomalistas.
Callado nasceu junto com a
revolugao russa, em 1917. A
coincidencia se manteria at6 o final
da vida: sem ter sido um
revolucionario, foi um socialist,
um gauche, que nao perderia a
terura jamais, mais um socialist
fabiano A maneira britanica, que
sempre foi sua matriz mental, do
que um jansenista A brasileira. Em
coerencia com esse perfil, ganharia
do auto-declarado reacionirio
Nelson Rodrigues a defini9go
basica, do finico britanico de
verdade no mundo, que se repetiria
adnauseam nos necrol6gios
montados com recortes de journal.
Entrou para o jornalismo quando
o Estado Novo se inaugurava, em
1937. Teve, a partir dai, o seu
grande tema: o totalitarismo, a
tirania, contra a qual se insurgiu a
sua maneira. Em 1965, com ouitros
intelectuais, postou-se em frente ao
Hotel Gl6ria, no Rio de Janeiro,
para protestar contra uma reuniAo
patrocinada pela OEA (Organizagdo
dos Estados Americanos),
instrument da ostpolitik dos
Estados Unidos. Foi o maximo que
se permitiu de militancia. Mesmo
assim deu cana, cuja dureza a
mem6ria de resistencia haveria de
compensar.
Os sobreviventes no intermezzo
1964-68 descobririam
maravilhados, em Quarup, que a
hist6ria brasileira recent era muito
mais interessante do que os
compendios onomasticos deixavam
entrever. Na pele do padre Nando,
Callado inscreveu a saga da political
national, desde as bases misticas da






JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 5




jornalista de exportagco


Santa Madre Igreja, com seu
ossuario de niilismo, passando pela
utopia do bom selvagem e os
devaneios diversionistas do 6ter &
do Alcohol, at6 o messianismo
revolucionario da esquerda.
Despido das alienagSes religiosa,
missiondria e er6tica, Nando toma o
rumo do sertao, fugindo ao
escapismo litoraneo como, na
mesma epoca, faria o vaqueiro
Manoel, na incrivel alegoria
glauberiana de Deus e o Diabo na
Terra do Sol.
Antes de Callado e de Glduber
Rocha, brasileiros visionarios como
Euclides da Cunha (e o Bario de
Maui, Tavares Bastos, Cassiano
Ricardo, Fernando de Azevedo)
haviam descoberto que o verdadeiro
Brasil estava no itero (que levaria a
"corrida para o Oeste") da terra e
nao nas suas franjas costeiras.
Nando, por vivencia sofrida e por
esforgo intellectual de revisdo, e
Manoel, A custa de sangue,
chegaram ao resultado da
equadao montada entire o deus e
o diabo diversionistas. Nando
chega ao fim de Quarup
internando-se no sertao,
provavelmente imitando o
revolucionario em dedicacao
integral e exclusive Ernesto Che
Guevara. Manoel v8 diante de seus
olhos o sertao virar um mar real e
aleg6rico. A revolugao, portanto,
embora apenas utopia, ainda estava
de p6.
Bar Don Juan, quatro anos
depois, desfez essas ilus6es. O
Brasil 6 um paquiderme lento e


monstruoso, que excede seus
cagadores. Nas entrelinhas de um
romance literariamente fraco,
Callado 6 s6 ceticismo e descrenga.
NAo verd as grandes mudancas que
pugnou. Quer, entdo, fazer boa
literature, uma compensagAo para o
fenecimento de suas utopias.
Aplica-se o mais que pode,
viajando, lendo e escrevendo.
Deixou, no period, cr6nicas
luminares. Mas nao o grande livro
que perseguiu. Todos os seus livros
estao datados, press ao jornaliSmo
que foi a base de
toda a sua \ida
Teria feito
I VI mnrdur


em mais intense jornalismo do que
nas ousadias da ficqao?
Provavelmente nao. A literature
ajudou tanto seus leitores quanto a
ele mesmo, permitindo-lhe polir o
estilo, alargar a visAo e nao ficar
preso As remissoes documentais e
bibliograficas das quais s6 a boa
fic9do liberta. Mostrou que o
jornalismo, no que tem de melhor e
no que, nele, 6 car6ncia estrutural,
e, sobretudo, uma totalidade, um
interesse insaciavel por tudo o que 6
human, na menos escolastica das
habilitag6es, naquela cujos fins sAo
tao inalcangaveis quanto deve ser
integral a dedicagao para alcanca-
los.
Jornalismo 6 precariedade e
transitoriedade exercidas na
extrema radicalidade, como mostra
a trajet6ria de Antonio Callado,
um dos raros jornalistas de
Sestatura international que
este pais jA produziu.
SNMorreu amargurado e
insatisfeito com a pr6pria
idade, enquanto o
centenario de Barbosa
Lima Sobrinho era
comemorado com
fanfarras, mas morreu
digno, inteiro, decent
como ja nao parece
mais ser moda morrer
neste pais ao qual ele
tanto se dedicou e do
qual nao chegou
Sa receber a
S" retribuigao
merecida,
como ja
devia estar
cansado de
saber nos
anos finals,
Squando,
pela
primeira
vez,
desistiu
de
resistir.


)k







6 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997


Para fica


de fora


da nova


matriz

N ovos caminhos de escoamento
de produtos e novos portos de
embarque (ou lancamento) de
riquezas para o exterior estao surgindo
na Amaz6nia, consequEncia da crescen-
te integraqao da regiao a economic in-
teracional. Mas o Para esta sendo des-
locado desses novos eixos dinimicos e
perdendo posiiao relative na composi-
cao dessa nova matriz regional de trans-
porte.
Ela revitalizou as hidrovias pela ne-
cessidade de oferecer produtos a pregos
competitivos mundialmente. Com o fre-
te rodoviario, isso na maioria dos ca-
sos havia se tornado impossivel. Duas
hidrovias adiantaram-se as demais con-
cebiveis: a do Madeira e a do Araguaia.
Nenhuma delas favorece o Para.
A do Madeira beneficia Rond6nia e
o Amazonas. Ja neste ano estara esco-
ando 300 mil toneladas de soja atrav6s
do porto de Itacoatiara. Nele foram in-
vestidos 54 milh6es de reais no novo
esquema de parceria A moda do neoli-




Grupo Liberal:

ainda contra

PMB e fatos

SLiberal de 30 de janeiro publi-
cou uma noticia cor tudo para
entrar no Guiness do bizarre:
anunciou que cerca de 700 camels es-
tariam saindo espontaneamente do pon-
to de vendas por eles mais cobigado em
Bel6m, nas ruas Joao Alfredo e Santo
Ant6nio, no velho centro commercial da
capital paraense. Apesar de ser um mo-
vimento espontineo, sem lideranca, a no-
ticia admitia que "alguns vendedores"
nao estavam concordando "com a reti-
rada" e outros iriam aceitar "os crit6rios
estabelecidos" para a solugco como pro-
vis6rios, "at6 que se encontre uma pro-
posta definitive".
Na verdade, como mostraram A Pro-
vincia do Pard e o Di6rio do Pard, a pre-


beralismo: o BNDES financiou R$ 24
milh6es, o governor do Amazonas en-
trou com outros R$ 12 milh6es e o gru-
po privado, o Maggi, aplicou R$ 16
milh6es de capital pr6prio. A operacao
do terminal sera feita por uma empresa
nominalmente de economic mista, a
Hermasa, mas controlada efetivamente
pela Maggi.
A partir deste ano Itacaoatiara ja tera
um porto mais important do que o de
Santar6m, ainda a espera do asfaltamen-
to da rodovia CuiabA-Santar6m e da hi-
drovia do Tapaj6s, incluidas entire as
obras prioritarias mas sem qualquer in-
dica~io de que possam concretizar-se a
m6dio prazo. De Itacoatiara os navios
sairao diretamente para os Estados Uni-
dos e a Europa, levando a soja do Cen-
tro-Oeste a um preco muito mais barato.
Outros produtos poderao seguir pot esse
caminho.
A outra alternative 6 a hidrovia do Ara-
guaia, destituida de seu complement do
Tocantins. Tal como estd sendo executa-
da, ela 6 uma pera do intermodal que
inclui o trecho rodoviario de Xambioa a
Imperatriz e, a partir dai, a ferrovia Nor-
te-Sul e a ferrovia de Carajas at6 o porto
da Ponta da Madeira, em Sao Luis, um
dos melhores terminals do mundo.
O ministry das Minas e Energia, Rai-
mundo Brito, garantiu que a continua-
9do da hidrovia at6 Belem sera realiza-
da, no prazo de 10 anos, mas nao pelo
govemo. A tarefa seria transferida aos
empresarios, caso a hidrovia seja priva-
tizada, ou ao cons6rcio Gen (Grupo de


feitura de Bel6m e que iria comandar, na-
quele dia, a retirada dos ambulantes das
duas principals ruas do comercio. Como
o sujeito foi mantido arbitrariamente ocul-
to na orago, 0 Liberal teve que fazer um
malabarismo anti-profissional para deixar
de fazer referencia a administrac~o mu-
nicipal do PT, submetido a boicote at6
aceitar pagar integralmente a divida dei-
xada pelo antecessor, Helio Gueiros, em
relaCio aos veiculos do grupo Liberal (ver
Journal Pessoal n 155). Colocada num
p6 de pagina intema, a noticia perdeu sua
importincia intrinseca e o significado que
tern para a Cdnara de Dirigentes Lojis-
tas, que o criador do Sistema Romulo
Maiorana de Comunicacao ajudou a fun-
dare cujas plataformas sempre defended.
Foi uma agressio tao escandalosa aos
fatos e aos interesses do comercio lojis-
ta que no dia seguinte, na manchete de
pagina internal, O Liberal teve que se ren-
der ao inevitavel: que a desocupagao do
centro 6 uma acao da prefeitura. No tex-
to, a prefeitura foi citada uma vez, a Se-
con (Secretaria de Economia), duas, e a
Ctbel (a companhia de transporte, uma


Empresas do Norte), que estuda a possi-
bilidade de assumir a duplicac~o da hi-
drel6trica de Tucurui. O principal desa-
fio nesse trecho em territ6rio paraense 6
a transposiCao da barrage de Tucurui,
que exigiria a construao da maior eclu-
sa do mundo.
Tamb6m nesse caso fica claro que o
intermodal Araguaia-XambioA-Impera-
triz-Porto da Madeira ganhou priorida-
de sobre a hidrovia Araguaia-Tocantins.
Mesmo que esta venha a ser concluida,
nao sera simultaneamente com a primei-
ra oprao. Os interessados devem ter fei-
to seus cAlculos para optar por uma via
de transport que utiliza tres modais (hi-
drovia, rodovia e ferrovia) sobre outra
que tern um unico modal (o hidroviario),
mas, at6 a demonstraaio desses cAlcu-
los, a escolha intriga. Sera mesmo ques-
tao de vantagem comparative ou de pou-
ca efici8ncia da pressao dos paraenses?
O deslocamento do Para se consolida
com dois novos portos em construcao:
os de Macapi, no Amapa, e Pec6m, no
Ceara, para navios da classes Panamax.
Pec6m, a 50 quil6metros de Fortaleza,
gracas a investimento de R$ 67 milh6es,
tera capacidade para movimentar tr8s
milhoes de toneladas por ano, estabele-
cendo no litoral cearense um grande p6lo
sidero-metalurgico que estaria em me-
Ihor situadao no Para, detentor da pro-
vincia mineral de Carajts. Mas o Para,
rico em recursos naturais, 6 carente de
id6ias e iniciativas para bem usa-los eco-
nomicamente. 0



vez. Nenhuma refer8ncia pessoal, mes-
mo com um fato a ressaltar: o prefeito
foi pessoalmente, em manga de camisa,
conversar corn os camels em plena rua.
A foto com maior destaque era da Joao
Alfredo antes do remanejamento, cheia
de camels o passado, portanto.
Os desencontros entire a prefeitura e o
SRM sobre o d6bito de 1,2 milhao de
reais que a empresa quer receber inte-
gralmente subsistiram ao encontro entire
Ronaldo Maiorana, director do grupo, e a
chefe de comunicagao social da PMB,
Ruth Vieira. Ronaldo procurou minimi-
zar os desentendimentos e expressar o
desejo da corporacao de nao entrar em
choque com uma administragco rec6m-
instalada, ji estando em progressive des-
gaste com outras duas liderangas politi-
cas: o senador Jader Barbalho e o ex-
govemador H1lio Gueiros. Mas os fatos
posteriores se encarregariam de desfazer
as palavras de Ronaldo. Para o grupo,
pelo que da a entender, se os fatos nao
se enquadram aos seus interesses, ao di-
abo com os fatos e o leitor que va se
queixar ao bispo, se o encontrar. 0






JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1997 7




Temporada dos imprevistos


comega
Equal a possibilidade de que, em
1998, o governador Almir Ga-
briel e o senador Jader Barbalho
facam parte da mesma coligaqdo eleito-
ral para enfrentar o ex-goverador H6-
lio Gueiros? Aparentemente, nenhuma.
Mas algumas iniciativas parecem indi-
car que a concretizacgo dessa hip6tese,
hoje improvavel, pode ser apenas uma
questao de vontade, de subjetividade.
Condiq6es objetivas para que ela se rea-
lize ja existem.
A ultima dessas iniciativas foi a ado-
tada nesta semana pelo vice-goverador
Helio Gueiros Jr.. Ele usou como pre-
texto o pedido de desfiliacgo do PFL
para, mais uma vez, atacar o governa-
dor. E fez do ataque um instrument de
intimidagao. Por tras do ato pode estar
um recado do pai contra as progressivas
aproximaa6es entire Almir e Jader.
Demonstracqes de boa vontade de
ambas as parties vem se tomando cada
vez mais visiveis. O lider do PMDB no
senado liberou a bancada do partido na
Assembl6ia Legislativa para que todos
os deputados estaduais pudessem votar
no candidate do governador a presiden-
cia da casa, Luiz OtAvio Campos. O Di-
drio do Pard foi excepcionalmente ge-
neroso na cobertura do acontecimento,
um contrast com o silencio que costu-
ma reservar para os fatos politicos quan-
do eles nao interessam ao dono.
Essa boa vontade de Jader contrast
corn a posicio por ele assumida um pou-
co antes, na elei9Fo da mesa da Cdmara


na political estadual


Municipal de Belem, quando aliou-se ao
PT contra a chapa patrocinada pelo go-
vernador. A cobertura do Diario do Pard
a administration de Edmilson Rodrigues,
alias, s6 rivaliza com a que o journal deu
ao pr6prio Jader. Pode ser uma retribui-
cao a programagao da publicidade muni-
cipal nos veiculos do grupo, mas esta bem
long de ser apenas um fato commercial.
Jader Barbalho parece estar agindo
como um enxadrista que joga em dois
tabuleiros ao mesmo tempo. A coeren-
cia de seus movimentos s6 se tora dis-
cernivel para os que tem a visgo dos dois
tabuleiros. Por essa 6tica, tudo indica que
o senador joga com a hip6tese de, con-
tra todas as tendencias, nao ser candida-
to ao governor do Estado em 1998, po-
dendo se aliar ao grupo que mais se ade-
quar aos seus interesses, caso se confir-
me essa hip6tese.
Quem sabe nao seria aceitavel prolon-
gar o mandate de Almir, adiando o con-
fronto para quatro anos depois, enquan-
to tenta conquistar poder federal, con-
centrando as forgas nas disputes para o
senado e os cargos proporcionais? O go-
verador, candidate a um segundo man-
dato, teria que apoiar a reeleigao de seu
correligionario, Fernando Coutinho Jor-
ge, ou entao impor-lhe uma cicuta para
que o candidate da coligagao ao senado
fosse H61io Gueiros. Coutinho tomaria
esse veneno (o rebaixamento para a Ca-
mara Federal), com a superioridade de
um S6crates? De qualquer maneira, nio
sobraria muito espaco para Gueiros se


movimentar, levando com ele a enorme
troupe de seus talentosos filhos & asso-
ciados, necessitados mais do que um car-
go parlamentar.
Como poucas vezes ocorreu antes, os
lideres politicos estao tendo que montar
suas estrategias considerando um nume-
ro excepcionalmente alto de variaveis in-
consolidadas, a partir da altera~io das
regras do jogo com a introdug~o da ree-
leic~o. A ponderaqo de poder entire os
atores variara de acordo com a consoli-
dacao das mudancas, mas o ex-govema-
dor H1lio Gueiros sente-se deslocado do
eixo principal.
De um lado, ele sofre e continuara a
sofrer por algum tempo o desgaste da
sua image na media em que o PT for
escavando e revelando os podres da ad-
ministraqao gueirista na prefeitura de
Bel6m, que sao numerosos e estao a floor
dos pap6is oficiais. De outro, nao tem
muito a oferecer, nem de vantajoso, nem
de perigoso, no cenario estadual. Seu
inico trunfo 6 o filho na vice-govera-
doria. Atrav6s do aparentemente inocuo
pedido de desligamento do PFL, Guei-
ros manda dizer pelo impetuoso Junior
que a chantagem persistira como uma es-
pada de Dimocles sobre a cabeqa do go-
vernador. Ela serA acionada sempre que
a palavra-chave, uma eventual alianga
com Jader Barbalho, for dita.
Chantagem, por sinal, mesmo quan-
do nao receber essa designagao (e, so-
bretudo, assim), e o que predominara na
saison eleitoral que se aproxima. 0


TCs: paraiso

da burocracia
N elson Chases pronete repetir,
na presidncia do Tribunal de
Contas do Estado, que
assumiu no mes passado. a gestao
moralizadora adotada na Camara
Municipal de Belem. aproximando o
TCE da sociedade e dando-lhe a tal da
transparEncia que muitos dizem
buscar e poucos alcanqam
O compromisso e positive. TrEs
d6cadas atras o Tribunal de Contas
do Estado ocupava um andardo
veiho sobrado de entrada do Museu
Emilio Goeldi. espago suficiente para
abrigar suas trEs duzias de
funcionarios. Hoje eles sio 509 (488


em atividade, sendo 345 efetivos e
143 sem vinculo e temporarios) e se
espalham por tres predios. So as
despesas de pessoal absorvem dois
milh6es de reais por mrs O
orqamento do TCE no ano passado
for de R$ 32 trulhbes
Esses numeros estouraram apesar
de, nesse period, ter sido criado o
Tribunal de Contas dos Municipios,
que livrou o TCE do encargo de
fiscalizar as admmistrac6es
municipals, tarefa anteriormente de
sua competencia (agora restnta aos
poderes executive, legislativo e
ludiciaro).
E claro que o Para tambem cresceu
bastante. mas a expansao dos TCs foi
desproporcionalmente maior. o TCE
a frente Seus 509 funcionArios


custam R$ 2 milhlis mensais.
enquanto os 407 do TCM saem por
R$ 1 milhio A relaqIo mostra que
cada funcionano do TCE ganha. em
media. 809o mais do que o scrvidor
do TCM Se essa media fosse
aplicada ao conjunto do
funcionalismo public paraense, a
folha pulana seis \ezes, chegando a
R$ 300 milh6es.
Os vencimentos se agigantam nos
casos de dois conselheiros
aposentados. cada um deles com R$
14 mil, o mesmo nivel salaral do
assessor de gabinete da presidncia.
tambem aposentado Esse padrao faz
dos servidores dos TCs privilegiados
no conjunto da administraqgo
estadual e explica tanta dispute por
um lugar ali











O sabado era urn dia especial na redacao
do Correio da ManhA. 0 Quarto Caderno
rodava mats cedo do que a edigo domim-
cal do jomal e por la, no final da manhS,
apareciam algumas das figures notaveis que
escreviam no suplemento. o melhor que ja ii
na imprensa brasileira. A maior delas era o
editor. Paulo Francis. "Foca" (iniciante no
largao jomalstico), acompanhava a dist-n-
cia o debate que entAo se tralava entire al-
guns dos presents.
Raramente me atre% La a intervir Meu in-
terlocutor era alguem mais pr6ximo da mi-
nha idade. Flad io Macedo Soares. o mara-
vilhoso Vagn. que. depois. se suicidaria.
Permanece injustamente esquecido foi,
pelo menos. se outro titulo nao quisermos
dar-lhe. o mais culto dos jovens cartunistas
brasileiros (que Vagn nunca deixou de ser:
ainda nio saira da faixa dos 20 ao se suici-
dar).
Quando eventualmente acionado. Francis
era atencioso, dava explicac6es, prestava
atenqio ate mesmo as umaturidades de um
"foca" Mas por pouco tempo- logo saia para
as incursbes sem prazo previsto de final nos
bares de Ipanema Ele e sua "patota", baru-
lhenta e brilhante
So voltaria a encontra-lo, dois anos de-
pois, numa daquelas upicas festas paulista-
nas em que alguem notavel junta outros "al-


guns" igualmente notaveis para apresentar
um notavel maior. Francis era a grande atra-
gAo da noite, mas estava inacessivel. As
mulheres, sobretudo, foram mantidas A dis-
tfncia. tratadas com respostas etiradas frias
e cortantes coro o melhor ago (amda que
inapropriado para aquelas peles).
Tomei conhecimento da existdncia de Pau-
lo Francis antes do antol6gico Quarto Ca-
derno (nao sei por que, ignorado nas lust6-
rias da imprensa). Foi cor Senhor e cor a
revista Diner's.
Senhor continue a ser, passados 23 anos
do seu fim, a mais importance revista de cul-
tura que jA apareceu neste pals, a frente de
todas as que a sucederam. Tenho a coleco
complete, que releio sempre. Agradeqo pela
ventura. A Diner's corresponde, para os que
gostam de ler, ao que am bor vinho into
represent para os bebedores de escol. Ensi-
na. aos que conseguem aprender, o que sig-
nifica estabelecer uma linha editorial a uma
publicaqlo jornalistica.
Sao duas revistas de vanguard, sem con-
cess6es ao gosto medio, inovadoras e criati-
vas ate na sua programaqio publicitaria
(como o Pasquim, muito depois, conseguiu
ser).
Paulo Francis esteve present em todos es-
ses empreendimentos. E frequdncia demais
para ser apenas coincidencia.


Mem6rias franciscanas


Estilo da casa
Quando esteve em Brasilia
no mes passado, engrossando
o lobby da reeleigo, o gover-
nador Almir Gabriel decidiu
convidar a bancada federal
govemista do Para para um
almoro. Quatro dos convida-
dos nao apareceram, alegan-
do que ja haviam assumido
outros compromissos. A co-
luna Rep6rter 70, de 0 Libe-
ral, noticiou no dia seguinte
o fato como se apenas o de-
putado Vic Pires Franco, ami-
go da casa, tivesse sido con-
vidado. Com veneno, a colu-
na observou que Vic "prefe-
riu almocar com o president
da Camara, Luis Eduardo
Magalhies".
O verbo preferir parece ter
sido escolhido a dedo para in-
dicar que Vic desprezou a ini-
ciativa do governador, vitima
de seus constantes ataques, a
despeito de ambos integrarem
a mesma alianga political, op-
tando por um program me-
Ihor. Ou seja: Almir esqueceu
as diverg6ncias para um ato de
reconciliacgo, mas foi esno-
bado pelo parlamentar. A


image de governador fraco
seria reforgada.
Como parece dar mais im-
portancia ao ben trovatto do
que ao vero, quando e de sua
conveniencia, a coluna deixou
mal o governador manobran-
do as palavras e os fatos.

Privilegio
A Companhia das Docas
do Para construiu uma pista
de pouso asfaltada, com 800
metros de comprimento, ao
lado de Vila do Conde, em
Barcarena, onde deveria ser
uma rua. Sua utilidade? Per-
mitir que o president da CDP
cubra os 40 quil6metros em
linha reta que separam Bel6m,
sede da assim chamada em-
presa, do porto que opera com
alto lucro (e espera salvar da
privatizacao), nao propria-
mente por efici8ncia especi-


fica, mas por ser quase tio
bom quanto um cart6rio.
0 comum dos mortals faz
a travessia de barco e carro.

Matar 6 fcil

Qualquer que seja a hist6-
ria verdadeira do assassinate
do professor HClio Norman
(incluindo algumas verses,
menos a oficiosa, que a poli-
cia diligentemente engoliu e
deglutiu para a opiniio pfbli-
ca atC ser obrigada a descar-
ta-la), uma coisa impression:
a facilidade com que se arma
um crime de encomerida em
Bel6m.
O preco da empreitada 6
baixissimo e a execucgo, des-
leixada. Tudo porque a impu-
nidade esta se tornando uma
regra tao freqiiente que nin-
guem mais se importa de apa-


Procura-se

Ha muito tempo nio
se ouve uma palavra do
governador Almir
Gabriel sobre um tema
que, em outros tempos e
sob outras circunstincias,
mereceria sua constant
manifestamo: a
privatizac;o da
Companhia Vale do Rio
Doce. A iltima opiniio
do govemador, de
adaptar o que pensa a
garantia de que parte da
receita de venda da
CVRD viria para o Para,
foi tIo desastrosa que ele
parece estar preferindo
nao repeti-la. Mas o
sil8ncio reduz ainda mais
a estatura cor a qual
Almir Gabriel poderia se
habilitar a fazer parte da
hist6ria do Para e, talvez,
do Brasil.
Lideres e estadistas
nao se escondem em
moments complicados.


r' r


M


Jomal Pessoal
Editor: LOclo FIvio Pinto
lHusraq6es e editoragio gr ific Luiz ae Faria Pinto
RedaeF o. Passagem Bolonha, 60-B 66.053-020 Fone 223-1929/2243728
Contato. Tv Benjamln Constant 845/203 66.053-020 Fone. 223-7690
e maa lucio@expert com.br


. ? 9 -
relen t policik com uma his-f
i e quebrad Atote-
'-acia policial estimula essa j
ousadia. -' _

Puxa-saquismo
A ultima legislature da As-
sembleia Legislativa foi en-
cerrada a moda da casa: cor
uma farta distribui?~o de me-
dalhas. Entre os agraciados,
o novo dono de A Provincia
do Pard, Gengis Freire, e
dois dos donos do Sistema
Romulo Maiorana de Comu-
nicacdo, Lucidea e Ronaldo
Maiorana, A Provincia in-
cluiu em seu noticiario a res-
peito os nomes dos Maiora-
na. O Liberal, porem, omi-
tiu qualquer refer8ncia a
Gengis Freire.
Alem de ndo ser uma poli-
tica de boa vizinhanga, e mais
uma agressdo a informaago
cometida pelos monopolistas
do jornalismo paraense. Indi-
ferentes as homenagens, os
Maiorana tnm dispensado so-
lene desprezo a esses salama-
leques, aos quais invariavel-
mente nao comparecem, a ex-
cego de Ronaldo. Apesar
dessa reac~o, os aulicos insis-
tem. E de sua natureza.