Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00104

Full Text





Journal Pessoal

EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO
ANO X N 155 2" QUINZENA DE JANEIRO DE 1997 R$ 2,00


CARAJAS


Governo faz que nao ve

Brasilia prefer ignorar que as constantes e suibitas

mutagoes nopatrimonio da CVRD tornam sua
privatizaqdo umjogo de cartas marcadas. E abre mao de

um instrument estratigico de poder


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Ojornal 0 Estado de S. Paulo
langou um pouco mais de com
bustivel na explosive fogueira
da privatizagao da Companhia
Vale do Rio Doce ao anunciar,
em manchete de primeira pagina, no dia 14,
que a empresa havia descoberto uma nova
provincia mineral em CarajAs, ainda maior e
melhor do que a ja em explora9go naquela
area, no sul do Para.
Com as imperfeig6es que invariavelmen-
te marcam a abordagem pela imprensa dos
fatos da geologia, o journal repassou infor-
maa6es de um relat6rio de pesquisa da
CVRD concluido duas semanas antes. O do-


cumento teria sido repassado a 0 Estado pelo
ex-presidente da Vale, Eliezer Baptista, se-
gundo a revista Veja. Seu objetivo seria o de
reabrir a discussao sobre a forma da venda
da empresa. Eliezer nio estaria concordan-
do corn o modelo adotado pelo govemo, pre-
ferindo que a Vale seja retalhada para venda
ao inves de ser passada em frente em bloco.
Qualquer que tenha sido o inconfidente e
independentemente da sua inteng5o, o anin-
cio bombistico feito pelo journal teve uma
repercussio muito grande. As informa96es
ja eram conhecidas de circulos bem infor-
mados dentro e fora da CVRD e do gover-
no. O Jomal Pessoal publicou alguns dos


resultados alcangados pela Docegeo na sua
edigio da la quinzena de dezembro (v. no 152,
pagina 3). O Estado, com'acesso ao relato-
ro encaminhado ao Palacio do Planalto, de-
talhou as informa9ges, embora cometendo
equivocos.
Na verdade, nao surgiu um "novo Cara-
jas", como proclamou a manchete do tradi-
cional matutino paulista. A provincia mineral
e a mesma, so que multiplicada e enriqueci-
da pelas novas descobertas que resultaram
do avango da pesquisa. Como se antecipou
aqui um m6s e meio atras, a reserve possivel
de ouro dobrou, podendo superar mil tone-
ladas uma cifra inimaginavel dois anos -


O LIBERAL DEMITE PREFEITO (pag.3)


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2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997


- atris, mas hoje previsivel ao mais pes-
simista dos ge6logos.
Quantidades maiores de ouro estao asso-
ciadas a cobre cor teores duas vezes supe-
riores aos da jazida do Salobo, que a Vale
esta se preparando para comegar a explorer.
Resultados desse tipo foram encontrados em
cinco dos 12 pocos que a Docegeo subsi-
diaria da CVRD para pesquisa geol6gica j
perfurou. Outros 30 pogos serao abertos ao
long deste ano.
As indicaq6es obtidas ate agora assegu-
ram a qualidade superior do min6rio desco-
berto, mas ainda nao permitem chegar a
medic9es de volume, as cubagens. Tudo su-
gere, no entanto, que as jazidas de Carajas
receberao um acrescimo notavel, em quanti-
dade e qualidade, com as pesquisas em ex-
tensdo dos corpos mineralizados ja
conhecidos, dos quais algumas das novas
descobertas parecem fazer parte.
Empolgado com seu pr6prio furo, s6 de-
pois de divulgar a noticia 6 que O Estado
parece ter-se dado conta da amplitude de sig-
nificados do que revelara. Em seguidos edi-
toriais, o journal tratou de alertar que o
crescimento dos deposits minerals em Ca-
rajas, antes de servir como novo complica-
dor para a decisAo do govemo de vender suas
aq6es na CVRD, deveria reforgar a privati-
zagao da empresa. Nas mios do capital pri-
vado, ela poderia incrementar as pesquisas
que revelam riquezas e abreviar o prazo para
a sua explorag~o econ6mica. Cor a Vale pri-
vatizada, nao teria sido precise esperar 30
anos entire a descoberta do "primeiro" e do
"segundo" Carajas".
Apesar da insist6ncia de O Estado em dar
uma interpretagao bem particular ao fato, a
revelagio dos resultados das pesquisas deve
ter reforgado o animo dos que ou nao que-
rem a privatizagdo da CVRD, ou nao a de-
sejam da forma como ela vem sendo
modelada pelo govemo (o que seria o caso
do "inconfidente" na versao de Veja sobre
o vazamento, o ex-ministro Eliezer Baptis-
ta).
Qualquer cidadao corn id6ias razoavelmen-
te bem postas deve ter-se perguntado se a pri-
vatiza~9o nao esta sendo conduzida com
agodamento ou impropriedade quando o acer-
vo patrimonial da Vale esta sujeito a subitas e
profundas alterac6es. O problema nio e s6 -
nem pricipalmente o da incorporagdo das
adug6es de valor ao prego de venda da esta-
tal. S6 isso jai um complicador e uma fonte
de dor de cabega para os que estao honesta-
mente envolvidos no process, receosos de
entregar a empresa ao comprador a prego ir-
realmente baixo.
A revista especializada Euromoney, in-
suspeita a respeito, calculou que quem fi-
car com a CVRD se ressarciri do que
gastou na transagCo com a receita de 30
anos de venda de minerio de ferro. Mas,
como estao cansados de saber os mais bem
informados, minerio de ferro ja nio e o me-


lhor neg6cio dentro da Vale. S6 6 e por
enquanto o maior neg6cio, embora com a
menor rentabilidade. A combinagao de co-
bre e ouro, mais, secundariamente, a prata,
podera pular a frente em volume e rendi-
mento a medio prazo.
Cor seu faturamento de seis bilh6es de
d6lares anuais, sua capacidade de geragao
de renda (seja pelo lucro real, seja pelos fi-
nanciamentos que seu patrim6nio viabiliza),
a vasta infraestrutura que montou e opera,
e, sobretudo, seu dominio de mercados e
sua fabulosa reserve de recursos naturais, a
CVRD e uma das mais estrategicas corpo-
raq6es produtivas do planet. Sua privati-
zadao significa uma renuncia de poder do
Estado brasileiro equivalent a uma con-
quista por parte do comprador, ainda mais
se ele for estrangeiro. A Vale, criacgo ori-
ginal de empresa privada rentavel combi-
nada com ag&ncia de desenvolvimento de
novo tipo, jogaria fora meio s6culo de ex-
periencia unica no Brasil e no mundo, con-
tabilizando seu prego por estreitos criterios
de contabilidade.

A ampliagao, em volu-
me e qualidade, das re-
servas de ouro e cobre
em Carajas n eo 6 um fato
meramente national, em-
bora ja nesse piano tenha
uma enorme relevancia:
ele podera alterar a confi-
guragao do pr6prio mer-
cado international dessas
commodities. Ouro e cobre sdo
apenas dois components de um elenco de
recursos mais amplos, que as pesquisas es-
tao apontando. Certamente nao ha, em ne-
nhum outro ponto do planet (talvez, exceto
a AntArtida e o fundo dos mares, este ainda
inacessivel economicamente), nenhum lugar
onde a possibilidade de revelagAo de novos
bens minerals seja tio elastica quanto Cara-
jas.
Ao contririo do que diz O Estado de S.
Paulo, o ritmo da pesquisa que a Vale con-
duz, atraves da Docegeo, nem e lento nem e
ineficaz. No ano passado a Docegeo aplicou
36 milhfes de reais nas pesquisas em Carajas.
Nao e o suficiente para tender as exigEncias
de um program sistematico compativel com
a importincia dos alvos selecionados, mas e
um valor expressive, que a empresa poderia
ampliar se o govemo nio estivesse limitando
a autonomia da CVRD.
A empresa teve, pela primeira vez, ja sob
a atual administrag~o, que recorrer a contra-
tos de risco com empresas estrangeiras para


suplementar seu program. Quatro contra-
tos, com tris empresas estrangeiras, estao
atualmente em andamento na area de Cara-
jas. Se houver sucesso nas sondagens, o re-
sultado sera dividido ao meio. NAo e bom,
mas ji e o resultado da decisao de privatizar
a Vale.
O ritmo e a forma desse process, inde-
pendentemente de seu desfecho, ja causa-
ram estragos profundos no papel da CVRD
como empresa estrategica do governor e,
em media crescente (gragas ao contrato de
gestao, adotado ha tres exercicios e atro-
pelado pela privatizacao), do povo brasi-
leiro. Apesar de todas as declara95es feitas
em Brasilia, de que nem os grandes clien-
tes da Vale, nem os seus concorrentes dire-
tos poderiam participar do leilao de
privatizagao, australianos, sul-africanos eja-
poneses estAo no pareo. Pagando a ninha-
ria de R$ 150 mil, tiveram acesso ao
"data-room" nomee high-tech dado ao que,
em outros tempos, poderia ser chamado
com mais propriedade de alcova) e a infor-
magoes que a CVRD gerou e preservou por
serem uma arma de luta no mercado. Mes-
mo que as empresas que ja passaram por
essa sala computadorizada (as japonesas
Mitsui, Nissho Iwai e Mitsubishi, as sul-afri-
canas Anglo American e Gencor e a austra-
liana Western Minning) nao venham a
adquirir o control da CVRD, conseguiram
o que talvez s6 seria possivel, nao fosse a
malsinada privatizagdo, atraves de espiona-
gem industrial, cor os riscos decorrentes.
Nem mesmo a perspective de, em material
de cobre, o pais alcangar a auto-sufici6ncia
e logo passar a exporta9Ao, e, quanto a ouro,
conquistar a 3' posigao mundial, abalou a de-
liberagdo do governor pela privatizagao. Ti-
midamente, o president da CVRD,
Francisco Schettino, sugeriu o adiamento por
tres meses do leilao organizado pelo BNDES
(Banco Nacional do Desenvolvimento Eco-
n6mico Social). O Ministerio de Minas e
Energia reagiu alegando que tr6s meses seri-
am insuficientes para dimensionar integral-
mente as novas jazidas. A conclusAo saudavel
do impasse seria, entao, sustar integralmen-
te o leilAo, como recomenda o bom senso e
a inteligencia, qualquer que seja o sistema
econ6mico, no Brasil de FHC como na In-
glaterra de Major (que ja foi de Thatcher, a
inspiradora do nosso tucano de plumagem
fluida). Nao para cancelar de vez a privati-
zagao, mas para examina-la cor a parcim6-
nia que o caso requer.
Se nAo 6 assim, pode-se concluir que a
privatiza9o da Vale no 6 um process tio
saudavel quanto o governor diz que e. Ou
porque o president, tendo estabelecido ir-
refletidamente a meta, ja nao pode mais re-
cuar, refem das expectativas que o anincio
gerou na comunidade intemacional, ou por-
que ha mais entire Brasilia e as capitals do
mundo do que que proclama a va filosofia
do nosso principle brasiliense.









A prefeitura e a imprensa:

o fim da promiscuidade?


dmilson Rodrigues foi demitido.
Nao, evidentemente, da prefeitura
de Belem, que continue comandan-
do gragas ao mandate que o povo Ihe con-
feriu em novembro do ano passado, mas dos
veiculos do Sistema Romulo Maiorana de
Comunicagao, o monopolista da opiniAo pu-
blica no Para. Ha duas semanas o nome do
prefeito desapareceu como que por encan-
to das paginas de O Liberal, das imagens
da TV Liberal e das audio;es da Radio Li-
beral.
Tudo porque Edmilson Rodrigues ainda
nao definiu um esquema de pagamento da
divida de 1,2 milh~o de reais que Hdlio
Gueiros deixou junto ao grupo Liberal, de
um total de R$ 2 milh6es acumulados corn
os veiculos de comunica9go de Beldm. Na
primeira investida, o grupo queria que o
'ddbito fosse quitado em parcelas iguais a
cada 10 dias. Depois, a proposta passou a
ser de desdobrar os creditos em tres paga-
mentos mensais de R$ 400 mil.
A primeira apresentacgo da conta o pre-
feito Edmilson Rodrigues reagiu mandando
conferir cada item. Algumas faturas nao te-
riam sido acompanhadas da comprova~go de
inserqgo do material de divulgag9o. Em ou-
tros casos a falta teria sido de empenho. Pas-
sado pelo filtro de uma apuragco mais
rigorosa, o debito poderia ser reduzido, mas
os representantes do grupo Liberal nao esta-
riam dispostos a mexer no valor apurado. O
tamanho da conta teria que ser aceito como
definitive. Aviso de que a empresa nao esta-
va para brincadeir veio atravds de uma or-
dem baixada da direggo para que a
publicidade da prefeitura s6 fosse aceita corn
pagamento a vista e em dinheiro vivo. Nem
mesmo cheque seria admitido.
A prefeitura passou entao a apurar as
relagoes da empresa corn a administraggo
municipal para tentar abater valores num
encontro de contas. Foram levantados os
im6veis em nome da familiar Maiorana (que,
segundo informa9io oficiosa, seriam 45) e
verificada a situacgo do IPTU (Imposto Pre-
dial e Territorial Urbano) de cada um de-
les. Em seguida, tdcnicos fizeram uma
vistoria na suntuosa sede dojornal, na ave-
nida 25 de Setembro, nos funds do Bos-
que Rodrigues Alves. O im6vel maior surgiu
do remembramento de outros im6veis me-
nores, mas eles permaneceram individuali-
zados para fins tributarios. Um ensaio de
calculo foi feito comparando os valores do
intposto cor o im6vel fracionado e unifi-
cado.
Tambdm houve apuragio no pagamento
do ISS (Imposto Sobre Servigos). Enquanto
empresa jornalistica, o grupo Liberal goza
de imunidade tributaria, mas presta outros


tipos de servigos, que nao estariam sendo
escriturados. Os t6cnicos verificaram que nos
arquivos da prefeitura nao existe um dossi8
do grupo Liberal, ao contrario do que ocor-
re com todas as pessoas juridicas passiveis
de tributacao.
Os movimentos de ambos os lados indi-
cavam os preparativos para a deflagracgo de
uma guerra aberta, mas no final de semana a
negociacqo parece ter sido restabelecida, em
bases que tentavam evitar o confront que
parecia as v6speras de se tomar iminente.
Provavelmente agindo por etapas, confor-
me uma estrat6gia de agao, o grupo Liberal
banira o nome do prefeito do noticiario, mas
ainda nlo desencadeara uma campanha con-
tra ele. Edmilson fora colocado no limbo do
olimpo em que se julgam encastelados os
donos do Sistema Romulo Maiorana de Co-
municacao. Por nao se tratar de uma decision
editorial jomalistica, o comportamento fu-
turo da corporacgo dependera da evolugao
dos entendimentos comerciais. Essa d a di-
retriz da empresa.

oi semelhante o procedimento do
SRM em relagao ao segundo gover
no de Jader Barbalho. Ele assumiu o
cargo morto em vida para os Maiorana.
Depois de um certo tempo seu nome vol-
tou a ser citado. Em seguida, sua foto. Pos-
teriormente ele p6de aparecer na primeira
pagina. Por fun, quando o governor passou
a vehicular diariamente seu program na ra-
dio e na televised, deixando de usar o siste-
ma de permuta como antidote contra o
desembolso de dinheiro no caixa do grupo
Liberal (o que era possivel corn tres veicu-
la9oes por semana), e suspended o boicote
publicitario que iniciara, a cobertura tomou-
se normal e normalissima permaneceu ate
o desencontro seguinte de interesses. Isto
e, normalissima no concerto dos Maiorana:


fazer cortina de fumaga na media em que
continuar sonante a relacgo com o erario.
A parceria exime o mais poderoso grupo
de comunicacAo do Norte do pais de fiscali-
zar os atos do govemo. Foi uma parceria tio
intense corn Helio Gueiros que os Maiora-
na, desatentos a voz da experiencia, permiti-
ram que a divida da prefeitura fosse se
avolumando a partir de fevereiro do ano pas-
sado sem reduzir o volume da propaganda
official, o que s6 aconteceu ja no final de
1996.

rotegido por essa desatengao, que
nao foi s6 do grupo Liberal, como
da maioria da sociedade belenense,
Gueiros ultrapassou o limited constitutional
para a propaganda official, quase igualando
o valor dos gastos publicitarios da PMB aos
do governor do Estado, que arrecada quatro
vezes mais (em 1995 a prefeitura gastou o
triple do govero).
Para Helio Gueiros, estourar a verba
de publicidade (50% al6m do limited cons-
titucional no ano passado) e condigco nao
apenas para alardear as obras que reali-
za, inflacionando artificialmente seu sig-
nificado, como para comprar a
coniv6ncia da imprensa. A Comus, a as-
sessoria de comunicacao social do mu-
nicipio, chegou a ter 75 nomes em sua
folha (apenas reduzida para 62 na atual
gestao), incluindo cinco colunistas de
journal que la s6 iam, quando iam, para
buscar seu salario, entire mil e 1.500 re-
ais por mis. Elogios a Hdlio Gueiros nes-
sas colunas nao eram gratuitos, mas, por
se tratar de opiniao, eram muito baratos.
Controlando o mercado, ao qual im-
p6s regras selvagemente mercantis, o
grupo sabe que tem poder, mas que a ad-
ministragao desse poder envolve riscos.
Se o nome do prefeito sumiu dos veicu-
los do SRM, multiplicou-se no grupo de
comunicacao do senador Jader Barbalho.
Neste caso, o acerto commercial envolve
um component de entendimento politi-
co, que se reforgart numa eventualidade
de confront aberto entire a prefeitura do
PT e o grupo Liberal. Os desdobiamen-
tos nao sao de todo previsiveis.
Espera-se que Edmilson Rodrigues,
fazendo fd no que disse em palanque, te-
nha forga interior e exterior suficien-
te para estabelecer um novo padrao no
relacionamento da prefeitura de Belem
cor a opiniao public e a imprensa, sem
fanfarronice vazia, mas tambem sem cur-
var a espinha al6m do dngulo recomen-
davel para os que querem manter a
independencia e, quando nao ela, ao
menos o pud;e







4 JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE JANEIRO / 1997


prefeito Edmilson Ro-
drigues criou, sem pre-
cisar, os motives para
uma segunda derrota desde que
assumiu o cargo. Desta vez,
nao political, dentro do parla-
mento, mas junto a opiniao pu-
blica. Por teimosia que costume
ser chamada por aqui de pinima,
o prefeito decidiu promover o des-
file de carnaval deste ano na Doca de
Souza Franco. Desencadeou a partir dai uma
polemica que acabou no judiciario e moti-
vou discusses apaixonadas e, por isso
mesmo, nem sempre racionais. Qualquer que
seja o resultado do cabo-de-guerraa que se
formou, o prefeito said desgastado, quando
nada na sua imagem.
Talvez a melhor intenggo do prefeito nao
fosse se vingar do antecessor, que fez da Doca
o seu cartao postal publicitario. Talvez Ed-
milson tenha simplesmente pretendido banali-
zar a Doca, deixando claro aos cidadaos que
os quatro milhaes de reais ali aplicados, ao
menos pela contabilidade official, foram um
desperdicio. Apesar da boa vontade dos log-
gings, a Doca nao e o Central Park novaior-
quino, nem equivale is calgadas de
Copacabana (na adaptagio, sintomaticamen-
te, o esgoto substituindo o mar).
Tudo bem. Mas antes de decidir fazer ali a
passarela para as combalidas escolas de sam-
ba que sobrevivem ao caos camavalesco ofi-
cial, o prefeito foi ao local com a imprensa.
No afa de tudo fazer "ao vivo", Edmilson
quase sofreu um tombo feio, que o mau as-
sentamento de paralelepipedos ameacou pro-
vocar. Com suas mAos, o prefeito mostrou o
afundamento da pista. Suprimiu a maquilagem
superficial que ali fora feita
Toda essa mise-enscene, talvez necessa-


uitos t6cnicos consideram artificial
Irente inchado o orgamento do Estado
para este ano, no valor de 2,4 bilh6es de
reais. Os que participaram da elaboragAo do
document defendem-no: preferem alegar
que o Estado vai trabalhar com metas oti-
mistas, sim. mas factiveis diante da melho-
ria da qualidade da administraCgo piblica,
que estaria conseguindo vedar os vazamen-
tos de receita. Colocar metas audaciosas po-
deria ser um metodo adequado para fazer o
Para andar corn mais velocidade.
Mas para fechar o caixa com numerous
bem mais altos do que os da mera atualiza-
cAo do que foi realizado no ano passado, as
operao6es de credit deverdo somar R$ 240
milh6es, o que significa a retomada de urn
endividamento que, no exercicio anterior,
foi combatido. O Estado tamb6m prev6 ar-


ria para convencer os increus,
deveria ter levado a conclusao
diametralmente oposta daquela
que acometeu o prefeito. Ou
seja: e precise refazer alguma
part do trabalho executado na
Doca ao inves de exp6-la ao
desgaste do carnaval para, s6
depois, corn o que sobreviver, dar-
l Ihe o padrao de qualidade necessa-
S. rio para que ela possa existir como algo
mais do que o cartAo postal (com vegeta-
c5o, ferros & tudo) dos Gueiros.
Provisoriamente, o desfile poderia ser
transferido para um local pr6ximo, a Mare-
chal Hermes, por exemplo (cor a vanta-
gem adicional de a area ser praticamente
desabitada, servindo mais ao comercio), ou
a Pedreira do samba & do amor, sentimen-
talmente o local mais carnavalesco de Be-
lem. Ao menos ate que se possa tentar
estimular o renascimento de um carnaval
que se deteriorou na media em que pas-
sou a ser propriedade privada (disfargada
de publica.
O prefeito ganharia e cor ele toda a ci-
dade se refletisse sobre o que ocorreu no
ultimo camaval: o burgo-mestre de entlo, por
pura (sic) pirraga, transferiu o desfile para a
25 de Setembro, nos funds do Bosque, ape-
nas para atormentar os moradores daquela
arteria, que haviam ousado desafiar sua von-
tade imperial, sempre mais etilica do que ete-
rea.
Camaval, os foli6es sabem muito bem dis-
so, nao rima com carranca e mau humor.
Quem age assim no carnaval, ou e ruim da
cabega, ou doente do p&. O alcaide que saiu
sofria de constantes dores de cabeqa e de
gota. Et pour cause, como dizem os colu-
nistas sociais. *


recadar pouco mais de R$ 100 milh6es com
a alienacao de bens, um item de insuspeita-
do vigor se comparado aos ultimos anos. O
que mesmo estara pretendendo o governor
alienar de valor? Ja espera contar cor os
primeiros resultados da privatiza9go?
Alem disso, a lei orgamentaria aprovada
pelos deputados permit ao governor abrir
credits suplementares num valor de ate
25% do que esta previsto no pr6prio orca-
mento, o que significa a possibilidade de
movimentar, sem quaisquer restrigoes, R$
470 milh6es, ou o equivalent a seis meses
e meio de receita pr6pria. Algo equivalen-
te, na contabilidade privada, ao caixa dois -
cor a vantage de que este e legalizado
pelo legislative.
Orgamento bom esse ai. Bem ao gosto
do nosso monarca. 0


Carnaval e bom humor


Baixadas: comega

contagem

regressive
Comeca a contar lncst- dia 27 a pror-
rogaqi do prazo. por mais O11 dias para
que o goerno do Esiado apresentc ao
Banco Inierantericano dL Desentol\i-
mento o nolo cronograma fisico-inman-
ceiro do Programa ,e KMlcrodrTnagcnm
das Baixadas de Belin 0 prazo para a
e\ecaio do program. o nmatr na his-
i6ria recently da capital paracnsL. tenni-
nou no dia 27. quamro anos depois de
iniciada a obra Mas apenas un quartn
do qu Lsta3~J riglldnlnicil ntte prT1i slt i
realizadi 0 aliraso dt:Je-sc a filra dJi
contrapartida do Esrjdo ao iuprcsim1no
do BID obrnado a saspender as libera-
ves qua.ndo o govenio dei\ou de hon-
rar seu compromisso de responder com
sua cola as remessas fellas de Washing-
ton
C duscompasso nao pre.udikou apc-
nas o andamento da obra o Estado paga
nmulta e jurors por n5o csrar habiktado j
fazer os saques nas datas accrtadjs Ou
se.ja nio retire o dmhetro i aindj pagj
como se o csii\esse usando.
O que provocou essay falia de sinto-
nia' A actual administrac5o sugcre que o
entio govmnador Jader Barbalho agiu ir-
responsa,.cmrnece .u, demagogicamen-
ii 3 ao ssmnlir cornprolmi,'i;s que Ina,.
tinha condig'.es de h:onrar. Incrianldo um
progranu de 225 milthcLs de dolares scin
asseglirar os recursos da contraparmda
estadual, de US$ 80 milhoes Afogada
pelo cusieto e pela heranqa considera-
da nuldita dos antec3csorecs a admi-
nistraqio parainsc ficou sem condides
de manner esse in\esiumnro.
Porta-vozes do governor antcrior re-
trucam que as bases do cronograma fi-
nanceiro foram submetidas ao BID c
apro adas por seus teciicos. que conhr-
maram a existencoa de fontes de recur-
sos capazes de responder pela
contrapartida do Estado Dizem que o
que teria ha',ido foi falta de \ontade dc
ewecutar a obra considtrada a mavor des-
pusa dr capital do Estadc. porquc elj foi
gerada no govenio de .ader
Qualquer que ienha sido a razio real do
relardamnento o prograna. o que partce
cada v'ez imais prowavel e que a macrodre-
nagem das basiadas de Belem comece a
colecionar pats 3em cnsumnar suo matun-
dade Talvez a obra nio fiqae pronia no
go~qvo AJmir Gabriel. a nio ser que. flta
a reform consir uconal. ele possa concor-
rer i reeleriao e \encer Mas o que scra
mars facil sair a rlelerglo e Aminr \rncer
ou a macrodrenagern ir em frente''


Orgamento inchado






JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997 5


Violencia no campo:



uma safra continue


A morte de dois lavradores e um ex-
lorador de madeira na fazenda
anta Clara, em Ourilindia do
Norte, na semana passada, poderia pare-
cer um incident menor no quadro da vi-
ol6ncia rural no Para, nio fossem algumas
circunstfncias do epis6dio. Esses "deta-
lhes" aparentemente nio foram percebi-
dos pela grande imprensa, que deu ao caso
amplo destaque na suposicio de que fos-
se uma reedikio do massacre de Eldora-
do de Carajas.
Na verdade, porem, as tr6s vitimas nlo
faziam parte do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra5. Os au-
tores dos crimes nao eram representantes
do governor, como os militares da PM que
mataram os 19 sem-terra em Eldorado, em
abril do ano passado. A fazenda Santa
Clara seria um im6vel sem destaque, ex-
ceto pela coincid6ncia de seu proprieta-
rio, o m6dico Edvair Queiroz, ser primo
do deputado federal (do PDT) Giovanni
Queiroz, tambem ele um proprietario de
terras em Xinguara, no sul do Para.
A reconstituiaio dos fatos mostrou que
nio houve um confront entire os defen-
sores e os tres invasores da fazenda. Es-
tes foram simplesmente executados,
talvez porque ja fossem esperados no lo-
cal. Apesar da quantidade de chumbo re-
tirado dos tres corpos, foi uma execugco
primaria: as armas utilisadas foram rev6l-
ver 38 e espingarda 12 carregada de chum-
bo, muita usada par todos os moradores


O governador Almir Gabriel prcten-
de anunciar. cm NMaraba. no final
do proximo incs o local da Instala-
,io da inetalurgica d& cobre da Salo-
bo iMetais o maior inet0iinetio no
Estado. no \alor dL 1.5 billho de do-
lares A fabrca faiaca a cm NMaraba
incsino sc o go\e-rno e a Companhia
Vale do Rio Doce. ,ecia da sul-afri-
cana Anglo American no enipreendi-
ninto. clihcarcmI a um acordo sobre
o \alor dos bcncficios qIu o Esiado
tera qiu conc(dcr para a empresa dc-
cidir por NMaraba e nl:,o por Parauapc-
bas. tamiben rll ll Para. ou Rosario. Ino
Nlaranhlili as outras opq~ .s dc loca-
]lzatio
Para decide por Nlaraba. a Salobo
prcclsaria ser compcnsada em R$ 87


do campo. Sofis-
ticado o nome
usadopelos anti-
gos pistoleiros e
jagungos: agora
sio "diaristas".
Sem term
vinculag o com
o MST (mesmo
porque o movi-
mento tem pou-
ca penetragao
nas areas mais
distantes do sul ,'.- ..
do Estado), 6 :.. : ,,' :". ....
provavel que os
tris invasores visassem mais as arvores do
que exatamente o solo. O crime ocorreu
na reserve florestal da propriedade, apa-
rentemente mais cobigada do que as cul-
turas agricolas. Esse 6 um problema s6rio:
os proprietarios que mantem a reserve
(hoje, nas faixas de floresta native, am-
pliada para 80% da area do im6vel rural)
atraem os extratores de madeira e mesmo
colonos que s6 sabem introduzir benfei-
torias atraves de cultivos agricolas, nio
do manejo florestal.
Mesmo que a reserve florestal seja um
ardil para o uso especulativo da terra ou
para destinagio future como fonte de ma-
deira solida, o modelo de ocupaAio da
Amaz6nia, tanto atrav6s da empresa ca-
pitalista como dos programs de assen-
tamento de colonos ou posseiros, nio


millhes atraacs de beneficios e \antra-
gens a scrnem concedidas pelo Estado.
entrc as quai, as tributanas. No encon-
tro quc eI'e na seinana passada. no Rio
dc Janciro coin o president da CVRD
Franci-co Schcltino o governador con-
trapropos coimpeiiiancs no total de RS
i il h lli6Lcs A dtfcrcn;a. dc RS 27 ini-
llih6s a propria \alc compensaria
Schettiio proineten estudar .omn boa
\onradc a ofcrra Jo gov\'rno paracnse
c dar irina rcsposta cin Iempo de per-
niimr a Ainir Gabriel rcalizar scu pla-
no de ir a M.uaaba dar a grande nontcia
d. que todo o RS I 5 billion cra in% es-
lido no iliunicipli ranrl na concr.:ntra-
aio do mIincro as proxuinidadcs da
nmma. quanto na metalurgica. a 200 qui-
lmenictros de distiincia


'. 7." .ii a'" *-"" ,a -:: ... .

preve nem inclui o uso racional do bem
mais nobre na Amaz6nia: as arvores. Em
areas afetadas pelo desmatamento, as re-
servas remanescentes passam a ter um
valor multiplicado, capaz de gerar pac-
tos de morte como o de Ourilandia e
transformar o uso agricola da terra como
biombo para esconder o interesse pela
madeira. A political official, por sua irra-
cionalidade, decorrente da inexistencia
de uma visao especifica da Amazonia,
coloca ainda mais lenha nessa fogueira.
No caso de Ourilandia, como no epi-
sodio da fazenda Sdo Francisco, em El-
dorado, ocorrido uma semana antes.
quando morreram dois lavradores, tam-
b6m sem liga9go com o MST, o que preo-
cupa 6 a repetigio de conflitos sangrentos
em plena 6poca do "inverno" e o recurso
direto A execug~o sem uma tentative pre-
via de entendimento. Normalmente nesse
period de chuvas intensas ha uma tr6gua:
o desmatamento e o plantio ja foram rea-
lizados e aguarda-se a colheita. A ocupa-
Aio de areas como forma de reserve de
direitos para o uso da terra torna-se, as-
sim, in6cua. Mas nao ocorre o mesmo em
relag o a extragio de madeira.
Uma conclusio a partir do registro
desses "detalhes" e de que teremos nes-
te ano uma safra de conflitos mais grave
e sangrenta, fruto da ineficiencia do go-
verno e da radicalizagio dos dois lados
do litigio. 0 MST decidiu apostar no con-
fronto e os proprietarios de terras volta-
ram a se armar para enfrentar seus
adversarios, coin um espectro de interes-
ses mais diversificado. Ressuscitaram a
UDR (Uniao Democratica Ruralista),
dirigida por um paulista (Roque Rosse-
velt dos Santos) corn terras no Para. Pela
primeira vez nao vai haver recesso nos
conflitos fundiArios no Estado. Esse 6 o
pior dos pressagios para o campo. *


Cobre e de Maraba


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6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997


No primeiro deba-
te entire os can- -- ... ..
didatos a prefei-
tura de Belem na Radio
Marajoara, no ano pas-
sado, Edmilson Rodri-
gues disse que os filhos
do entao prefeito Helio
Gueiros eram s6cios da
empresa de 6nibus Be-
lem-Lisboa. Imediata-
mente Adilson Tamanqueira, um dos s6cios
da firma, passou por fax para o estudio da
emissora uma c6pia do contrato social da
Belem-Lisboa. LA nao aparecia nenhum
Gueiros.
Agora a Belem-Lisboa, juntamente com
a Transarsenal, outra empresa da qual Ta-
manqueira faz parte, patrocina um out-door
da prefeitura do PT. Pode ser simplesmente
manifesta9go de alivio pelo desaparecimen-
to de uma traditional comissdo de agencia-
mento que as empresas de 6nibus tinham que
pagar sem poder, naturalmente, inscrever
essa despesa extra no caixa um e na contabi-
lidade official.
O PT criou tradigio national de que esse
meio-de-campo desaparece de sua gestlo,
passando a negociagao a ser feita em torno


F ernando Henrique Cardoso e uma pes-
soa decent e inteligente. Entre os can-
didatos especulados a presid8ncia da
Repuiblica, e, de long, o melhor. Como p6de
se enredar na armadilha por ele mesmo ar-
mada na busca obsessive da reeleicgo?
Encontrar uma resposta satisfatoria e urn
desafio para o intelecto. Se estava conscien-
te de que o mandate de quatro anos era in-
suficiente para levar ate o fim o seu program
de reforms, Fernando Henrique deveria,
desde o inicio, manter as ruas mobilizadas
para a convocaqdo de um plebiscito no mo-
mento adequado, sem que isso se tornasse
uma aventura de desdobramentos imprevisi-
veis.
Anos e anos de militincia na anilise da
sociedade brasileira informaram o soci6logo
Fernando Henrique qual e a moeda corrente
de troca do Congresso ou de sua maioria
fisiol6gica. O president s6 sairia vitorioso
dessa negociag9o se estivesse disposto a se-
guir a lei desse mercado. Ter chegado ao
estagio em que se encontra na transagio com
os politicos revela o grau de comprometi-
mento de FHC cor esse fisologismo.
Agora, a melhor perspective para o presi-
dente e uma vit6ria de Pirro: conseguir a re-
eleic9o, mas perder o respeito da nacio e
arriscar-se a uma derrota na dispute por mais
um mandate. Ainda que, tropegamente, so-


dos ganhos para o cida-
dao e o contribuinte.
SEsse novo padrIo, ex-
purgando o papel espu-
rio do atravessador de
2 A prestigio, tambem nao
deve servir de biombo
para vantagens political
para o partido.
--No dia 18 de feverei-
ro expiram as atuais con-
cess6es de 6nibus de Belem. Sabe-se que o
monop6lio da linha de Icoaraci sera quebra-
do: a prefeitura admitird mais uma empresa
para servir a esse trajeto. Se quanto aos de-
mais tudo continuard igual, e bom nao es-
quecer que, se nao ha um monop6lio igual
ao de Icoaraci, tem funcionado um nocivo
cartel. Ele priva o usuario de dispor de van-
tagens ji oferecidas em outras cidades, sob
a alegago de que, aqui, a tarifa 6 mais bai-
xa. Pode ate ser, mas o volume de fatura-
mento A vista, recolhido todos os dias, que
proporciona. mais do que compensa a me-
nor rentabilidade unitaria.
Espera-se que os out-doors n~o funcionem
como bombons para disfargar o gosto amar-
go que o sistema de transport coletivo tem
deixado na mem6ria do cidadAo belenense.*


breviva a essa perspective sombria, o pais
pagara muito caro pelo milagre da reeleiiao
do president, arrancado de uma horda de
birbaros da pilhagem political.
O president que decidiu apostar tudo no
prosseguimento da aventura poderia ter urn
lampejo de lucidez: sustar a negociagao em
curso e recorrer ao plebiscite, ainda que ex-
pondo seu governor a um final melanc6lico.
Apostando tudo, poderia r:cuperar o preci-
oso capital que acumulou junto as camadas
mais pobres da populagdo, aquelas que esta-
vam abaixo da linha da miseria e que o Real
colocou no nivel da pobreza, numa condi-
9ao a de consumidores de interesse do
mercado.
Tudo seria menos desgastante para o Bra-
sil se a vaidade, multiplicada no exercicio do
poder, nao inutilizasse a visao que o soci6-
logo Fernando Henrique Cardoso cultivou
durante anos. Ele poderia exercer plenamente
seu mandate ate o ultimo dia, eleger corn
tranquilidade o successor, escolhendo quem
quisesse, e reocupar uma privilegiada posi-
9co de espectador engajado para voltar A
presidencia da Repiblica quatro anos depois,
garantindo um lugar inico na historia brasi-
leira. Agindo como agiu, expos-se a ser uma
pessima figure no enfoque analitico do soci-
ologo Fernando Henrique, se vivo este ain-
da estivesse. 0


Objetivo a vista


Dist&ncia centenaria
Barbosa Lima Sobrinho, centenario des-
de o dia 22, pertence a rara estirpe dos poli-
ticos intelectuais ou, dito de uma forma
menos pretensiosa, dos politicos cor ideas,
que lCem. Antes de me dar conta de que ele
era um politico, ja havia lido a biografia que
ele escrevera de Alberto Torres, um fecundo
trabalho. Sua bibliografia e extensa (inclui
30 livros) e variada, embora irregular. Mas
nao public apenas por vaidade: seus livros
tim a substincia de quem so escreve sobre o
que estuda, estudando bastante para poder
escrever.
Apesar da longevidade excepcional, Bar-
bosa Lima Sobrinho nao produziu mem6ri-
as, ao menos que eu conhega. E lacuna
imperdoavel para quem esteve dos dois la-
dos do balcdo, exercendo o poder e anali-
sando-o. Afonso Arinos de Mello Franco foi
fecundo nesse aspect: suas extensas memo-
rias sio uma fonte de prazer e de informa-
9Ao. Levam o leitor tambem a refletir sobre
o desacerto entire a potencia mental e a acgo
political, nem sempre em harmonia. O saber
nIo e garantia de acerto na pratica.
Mas politicos como Barbosa Lima Sobri-
nho e Afonso Arinos se perguntavam sobre
a natureza de seus atos e suas consequenci-
as. Queriam medir-se no mundo, tomando o
pr6prio pulso e sentindo os rumos do seu
tempo. Nao e a centenaria idade do primeiro
que o torna pega de museum: e sua distancia
etica, moral e intellectual do padrio de poli-
tico dos nossos dias, mentalmente arido como
um desert.


ASSINATURAS
.- .-- -- -- -
jornal i'esold i OS
a... .... ..pedidos
Agora, e pra vales
deJoral
aPessoal
S (R$ 15,00
Spor
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A podemser
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de Faria Pinto
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In memorial







JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997 7


0 poder universitario


A s atividades-fim nas universidades
so o ensino, a pesquisa e a exten-
ao. Quem conduz essas atividades
sao os professors. Os funcionarios sao os
auxiliares e os alunos o meio para garantir
a perenidade dessas fung6es.
Esta equag~o simples, que, evidente-
mente, nao esgota a complexidade do tema,
mas 6 seu eixo estruturante, explica a ne-
cessidade de estabelecer ponderag5o na
manifesta5o da vontade political da comu-
nidade universitaria. O voto direto e uni-
versal distorce os terms dessa equagqo e
confere ao corpo discente poder decis6rio
incompativel com seu significado na uni-
versidade.
Os estudantes estao em campanha pelo
voto igual para todos, independentemente
da condiOo de cada um. E uma plataforma
atraente, sobretudo por permitir correlagbes
com a origem da democracia. O congressu-
alismo grego tornou-se inviivel no mundo
de hoje e o iluminismo foi a tradugao revo-


lucionaria de um moment, mas estamos em
outra 6poca, sob outras condi9ces.
Os estudantes fazem cavalo de batalha
em torno do final do process, na ponta do
funil, que 6 a escolha do reitor. Se fizes-
sem prevalecer a tese do voto igual para
todos estariam garantindo para si o poder,
mas nao o melhor caminho para conduzir
a universidade. O democratismo, nesses
terms, poderia significar o comprometi-
mento do papel da universidade como cen-
tro de saber (ou excel6ncia). Ela passaria
ser conduzida pela comunidade transit6ria
e por quem desempenha atividade-meio,
ou, ao menos, e mais paciente do que agen-
te do process, o produto de um process
que s6 se realize se conduzido por profes-
sores competentes.
Os professor serao tanto mais compe-
tentes quanto mais exigentes, organizados
e participants, em todos os niveis, com as
'gradacqesjustas e compativeis em cada eta-
pa, forem os estudantes. A desorientagAo


deles e o comodismo (ou indiferenga) dos
professors explicam tantas distorcbes acu-
muladas na vida universitaria. Basta pegar
uma delas, a das remunerag6es, para ter um
exemplo significativo de tais distorc6es. Os
maiores salaries nao sao os dos professo-
res com maior qualificacao, mas dos buro-
cratas que mais cargos acumulam. Os
professors que quiseram ganhar mais des-
viaram suas carreiras para a administrag~o.
Dai resultou o burocratismo infernal que
corr6i por dentro a vitalidade acad6mica.
Escolher o reitor 6 um element pode-
roso na luta pelo poder, mas nao tudo e,
talvez, nem o mais important para recu-
perar ou inaugurar a qualidade dos campi,
exceto para aqueles que querem apenas to-
mar o poder, ao inv6s de executar um pro-
grama. E o que mais a universidade precisa
e de intelig6ncia e saber, nao s6 para espa-
lhar entire a sociedade, mas para usar em
seu pr6prio favor, ao inves de simplesmente
criar uma gangorra de acesso ao poder.O


A linhagem do sangue
S obrevivente dos campos de concen- nhum grave problema o assc
tragao nazistas, nos quais se por- Ihete que deixou, apenas a hi
tou com dignidade sobre-humana, tiava, mas, ao invds de entra
Bruno Bettelheim se tornou uma legend pai, queria deixa-la passar.
por sua dedicagdo as criangas autistas. A A morte, dizia Albert Can
Fortaleza Vazia, desde o titulo, 6 um livro tui o inico problema filos6fic
primoroso. Faz parte da melhor tradi9go cidio, uma antecipa9ao no cui
humanista. Aos 82 anos, recem-viivo, bri- da vida, 6 a maior de todas as
gado cor a filha unica, isolado num exilio humans. Um suicidio na al
dourado na Calif6rnia, Bettelheim tomou abala tanto quanto o da juv
uma superdose de barbituricos, enfiou a uma inversao do movimento r
cabega em um saco plastico e esperou os vado a mais extrema radic.
efeitos simultineos do ataque quimico e Mas nio ajuda a fazerjusti<
da asfixia mecinica, um agent atuando so- m6ria do morto, nem a sabe
bre os efeitos colaterais do outro para per- ria dos sobreviventes,
mitir a morte menos dolorosa possivel. encarar esses auto-aniquila-
Foi-se como umjusto. mentos pelo prisma da moral
S6 em seguida apareceu um livro tentan- rigida, do dogma, do princi-
do desmontar a estatua viva do her6i. Dizia pio axiomatico do valor da
que Bruno era um ditador, que maltratava vida.
as criangas com as quais apareceu em inu- Maneco Vargas comanda-
meras fotografias e filmes como o terno e va a sua familiar com bom
devotado pai adotivo. Bettelheim nao esta- senso e humor em torno de u
va mais vivo para defender-se. Tinha a n6s, zenda na regiao gaicha das
em compensagao, que acompanhamos seus rentemente, nenhum fator e
passes e olhavamos para ele de uma posi- sobre sua agenda nos dias ai
io inferior porque ele estava em um nivel morte. O suicidio nao foi umr
muito mais elevado. rio produzido por um sentin
O suicidio nao diminuiu nem um pouco incontrolavel, nem por um lei
meu imenso respeito e admiracgo por ele. vontade. Parece ter sido um
Seu suicidio nao foi um ato de covardia. maturada, com algum term
Foi um ato de coragem. Como o de Mano- fincado no ato do pai, pratic
el Antonio Sarmanho Vargas, o Maneco s6culo de anteced6ncia.
Vargas, o filho cagula e o unico sobrevi- O suicidio de Getulio Va
vente de Getulio Vargas. Ele estava as gular na vida political brasil
v6speras dos 80 anos quando deu um tiro home public deste pais c
no peito, na semana passada, a semelhanga tremo em circunstincias se
do pai. NIo estava fugindo de nada. Ne- vida national. A carta-testz


)lava Pelo bi-
st6ria o angus-
rnela. como o

us, consli-
;o. Eo sui-
sonatural
quest6es
ta velhice
entude E *
natural Ic-
aliza ao
ga a me-
do-



S.


S .
;.. i' .' ."
'* .; ..., .<, ,. .$ ...-...^ .v& ,' *>w


ma grande fa-
missoes. Apa-
xterno pesava
iteriores a sua
Sato de desva-
nento subito e
ito definhar da
la deliberagao
nal de partida
ado com meio

rgas 6 ato sin-
eira. Nenhum
hegou a tal ex-
melhantes da
imento, s6 no


esbogo de autoria plena do president, si-
tua o context, mas nao ilumina satisfato-
riamente as raizes da motivagao.
Pouquissima luz se obt6m nos diarios de
Vargas, publicados pouco tempo atras. Ele
foi tio eficiente nos concilidbulos da poli-
tica quanto na oculta9go de sua alma, uma
esfmge a desafiar os que nao se satisfa-
zem com as explicag6es reducionistas das
ci6ncias positivas. Deixou no ar o miste-
rio, cujas ressonincias continuam em ati-
vidade, como parece indicar o suicidio do
uiltimo de seus descendentes diretos. Ma-
neco, de fato, deixou a Hist6ria passar para
que, nela, cesta ainda mais, se tomando mais
difusa, a onipresente figure do pai. *


\


^e%


Cs:
..I .:~'~ -iiji
..







iuro

)UTO
lia Vale do Rio
sigilosamente,
do Estado, um
:guranga para
trugdo, em Cu-
um muro de
quatro metros
to quil6metros
provavelmente
ntado no Para.
trea estari as-
osseguimento
a Leste, no va-
hoes de reais,
:mpresa estara
duzir, ate o fi-
15 toneladas de

rea da future
igao encontra-
para manter os
: Serra Pelada
ts o muro so se
I porque o go-
r Gabriel acei-
)0 homes da
no local, para
e fosse o caso,
perada reaiao
)s. Em poucos
am impedidos
i area de inte-
onde ha uma
3 toneladas de
o pais ate ago-
a empresa de-
Sali R$ 28


m q atrt, v'e-
i [,mar Muni-


n e,, n 1odisl
61lfilo nI'!I'e-

7,ro na al-


Olhar vesgo
Dos tres governadores caba- ..2
nos, o PT parece ter escolhido
o segundo, Francisco Pedro Vi-
nagre, como o seu heroi por ex-
celancia. Na homenagem que o ",
prefeito Edmilson Rodrigues :
prestou ao movimento na data do
1620 aniversario da tomada de
Belem, Vinagre foi destacado.
Entendem os petistas que, por ser
"camponEs" (como escreveu o
prefeito em artigo publicado no .
dia 7) e, aparentemente, o de-
fensor de um caminho mais
radical para o movimento,
/inagre era o mais re-
voluciondrio de todos
os lideres cabanos.
Contrastaria corn o
proprietario rural Flix :
Clemente Malcher eo a ,,
idealista Eduardo An-
gelim, atf aqui a mais *
carismdtica das tres fi-
guras.
0 PT estc vendo osfatos de 1835 cor os olhos de 1

i so luo


Para o bem de todos e
felicidade geral do
muncipio, o PT deve fazer
uma separagco bem clara
entire sua militfncia e o
funcionalismo de Belem.
As tarefas da administragdo
devem ser executadas pelos
servidores competentes do
quadro regular da PMB


para cada uma das ta
especificas sem record
eles. Mesmo que haj
alguma vantagem nis
militants nao devem
mobilizados para cur
tarefas como cadastr
contribuintes do IPTI
quaisquer outras. Poc
o primeiro pass par
confundindo prefeitur
partido, confundir o
cidadao agora e o ele
depois.


Menos privilegios

Desde o inicio do mis a Pocuradoria Fiscal do Estado I
a se subordinar d Procuradoria Geral, que tambdm pas
ter ascendincia sobre todos os consultores juridicos esta
A emenda que alterou a Constituicdo passou sem trauma
Assemblkia Legislativa, embora ponhafim a antigo
privilegios na administragdo piblica. Entre eles, o direi
procuradores fiscais de receber honordrios na execuad
dividas de particulares junto ao Estado. Acontecia de
honordrios serem integralmente pagos e as dividas, n



Journal Pessoal
Editor responsavel: LOcio Flhvio Pinto
Ilustrag6es e editoragao grafica: Luiz de Faria Pinto
Redapio: Passagem Bolonha, 60-B 66.053-020 Fone: 223-1929/22.
Contato: Tv. Benjamin Constant 845/203 66.053-020 Fone: 223


V}elhh sqrge
,. i% la da bistoria do
.ar inctuida naida a pre-
parada pelo MST (Monien-
to dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) e a tomada do
poder pelos cabanos. em 6 de
laneiro de 1835 0 outro
aconecimento lembrado no
dia mats prxunmo foi o assas-
siato de Rosa Luniemburgo
(ocorrido em (I de laneiro de
1928) A Cabanagem conti-
nua a ser tco louvada quanro
mal compreendida para nio
dizer mal histonada.


Castigojusto
., 0 historiador ingles Perry
Anderson, autor de um estudo
S classico sobre o Estado absolu-
tista, andou dizendo besteiras na
sua passage pelo Brasil. Teve
o castigo merecido: o senador
Jose Samey escreveu um artigo
sobre ele, onde, entire outras pe-
997. rolas, trata o historiador de "um
tal de Perry Anderson".


SAlvo errado
refas Movimento dos Trabalhado-
-rer a
res Rurais Sem Terra selecionou a
a area de dominio da Companhia
so, os Vale do RioDoce em Carajas como
ser
r um dos alvos de invasLo. Alega que
"prir a CVRD ocupa apenas 1,5% de um
r os milhio de hectares que estAo sob o
U, ou
S seu control. Seria, portanto, pro-
S priedade improdutiva.
a, Esquece o MST que:
1 Na area a CVRD atua como
mineradora. 0 espago 6 reservado
eitor
em fungco do potential do subsolo
e nio do que ha na superficie do
solo. Quanto menos area a empre-
sa alterar, melhor: destruira menos.
2 A manutengAo de uma area
maior como reserve nao 6 especu-
lativa. Visa preservar um exemplar
7assou
unico de floresta em meio a uma
sou a
uais. devastag~o desenfreada, mesmo
iduais.
s pela que a criago dessas unidades de
s pela .
conservagao tenha sido um pretex-
o dos to para proteger as jazidas de co-
S bre e ouro do Salobo.
io de
A alegag~o de que a invasao ser-
os ,
vira tambem para pressionar con-
ao.
tra a privatizagao da CVRD e
cobrar do govemo maior compro-
misso com a reform agraria tam-
bem nio ajuda porque o patrim6nio
natural estaria destruido de qual-
quer maneira. Carajas e maior do
43728 que a Vale e a estrategia do MST.
-7690 Tem que ser usado corn mais inte-
ligencia.


~~~:ylr~