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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO ANO X N 155 2" QUINZENA DE JANEIRO DE 1997 R$ 2,00 CARAJAS Governo faz que nao ve Brasilia prefer ignorar que as constantes e suibitas mutagoes nopatrimonio da CVRD tornam sua privatizaqdo umjogo de cartas marcadas. E abre mao de um instrument estratigico de poder ~*% ,g:' ,%, ". "..F '~( ~s~ ~ j .. z .. , ., . ,. ... . ... ..-r ,. o [ .." ":%.g. ; LCY .... ". t."- ,-. .:_ .. . , .""'. "" ,:,.., .r -t< ... -'" ". .v. 1. L - ~~~~ I~iTL~1 Ojornal 0 Estado de S. Paulo langou um pouco mais de com bustivel na explosive fogueira da privatizagao da Companhia Vale do Rio Doce ao anunciar, em manchete de primeira pagina, no dia 14, que a empresa havia descoberto uma nova provincia mineral em CarajAs, ainda maior e melhor do que a ja em explora9go naquela area, no sul do Para. Com as imperfeig6es que invariavelmen- te marcam a abordagem pela imprensa dos fatos da geologia, o journal repassou infor- maa6es de um relat6rio de pesquisa da CVRD concluido duas semanas antes. O do- cumento teria sido repassado a 0 Estado pelo ex-presidente da Vale, Eliezer Baptista, se- gundo a revista Veja. Seu objetivo seria o de reabrir a discussao sobre a forma da venda da empresa. Eliezer nio estaria concordan- do corn o modelo adotado pelo govemo, pre- ferindo que a Vale seja retalhada para venda ao inves de ser passada em frente em bloco. Qualquer que tenha sido o inconfidente e independentemente da sua inteng5o, o anin- cio bombistico feito pelo journal teve uma repercussio muito grande. As informa96es ja eram conhecidas de circulos bem infor- mados dentro e fora da CVRD e do gover- no. O Jomal Pessoal publicou alguns dos resultados alcangados pela Docegeo na sua edigio da la quinzena de dezembro (v. no 152, pagina 3). O Estado, com'acesso ao relato- ro encaminhado ao Palacio do Planalto, de- talhou as informa9ges, embora cometendo equivocos. Na verdade, nao surgiu um "novo Cara- jas", como proclamou a manchete do tradi- cional matutino paulista. A provincia mineral e a mesma, so que multiplicada e enriqueci- da pelas novas descobertas que resultaram do avango da pesquisa. Como se antecipou aqui um m6s e meio atras, a reserve possivel de ouro dobrou, podendo superar mil tone- ladas uma cifra inimaginavel dois anos - O LIBERAL DEMITE PREFEITO (pag.3) Prje o Co r fc en arb fca rc~"'i- ,;,,!:'~i~:~' x~P 2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997 - atris, mas hoje previsivel ao mais pes- simista dos ge6logos. Quantidades maiores de ouro estao asso- ciadas a cobre cor teores duas vezes supe- riores aos da jazida do Salobo, que a Vale esta se preparando para comegar a explorer. Resultados desse tipo foram encontrados em cinco dos 12 pocos que a Docegeo subsi- diaria da CVRD para pesquisa geol6gica j perfurou. Outros 30 pogos serao abertos ao long deste ano. As indicaq6es obtidas ate agora assegu- ram a qualidade superior do min6rio desco- berto, mas ainda nao permitem chegar a medic9es de volume, as cubagens. Tudo su- gere, no entanto, que as jazidas de Carajas receberao um acrescimo notavel, em quanti- dade e qualidade, com as pesquisas em ex- tensdo dos corpos mineralizados ja conhecidos, dos quais algumas das novas descobertas parecem fazer parte. Empolgado com seu pr6prio furo, s6 de- pois de divulgar a noticia 6 que O Estado parece ter-se dado conta da amplitude de sig- nificados do que revelara. Em seguidos edi- toriais, o journal tratou de alertar que o crescimento dos deposits minerals em Ca- rajas, antes de servir como novo complica- dor para a decisAo do govemo de vender suas aq6es na CVRD, deveria reforgar a privati- zagao da empresa. Nas mios do capital pri- vado, ela poderia incrementar as pesquisas que revelam riquezas e abreviar o prazo para a sua explorag~o econ6mica. Cor a Vale pri- vatizada, nao teria sido precise esperar 30 anos entire a descoberta do "primeiro" e do "segundo" Carajas". Apesar da insist6ncia de O Estado em dar uma interpretagao bem particular ao fato, a revelagio dos resultados das pesquisas deve ter reforgado o animo dos que ou nao que- rem a privatizagdo da CVRD, ou nao a de- sejam da forma como ela vem sendo modelada pelo govemo (o que seria o caso do "inconfidente" na versao de Veja sobre o vazamento, o ex-ministro Eliezer Baptis- ta). Qualquer cidadao corn id6ias razoavelmen- te bem postas deve ter-se perguntado se a pri- vatiza~9o nao esta sendo conduzida com agodamento ou impropriedade quando o acer- vo patrimonial da Vale esta sujeito a subitas e profundas alterac6es. O problema nio e s6 - nem pricipalmente o da incorporagdo das adug6es de valor ao prego de venda da esta- tal. S6 isso jai um complicador e uma fonte de dor de cabega para os que estao honesta- mente envolvidos no process, receosos de entregar a empresa ao comprador a prego ir- realmente baixo. A revista especializada Euromoney, in- suspeita a respeito, calculou que quem fi- car com a CVRD se ressarciri do que gastou na transagCo com a receita de 30 anos de venda de minerio de ferro. Mas, como estao cansados de saber os mais bem informados, minerio de ferro ja nio e o me- lhor neg6cio dentro da Vale. S6 6 e por enquanto o maior neg6cio, embora com a menor rentabilidade. A combinagao de co- bre e ouro, mais, secundariamente, a prata, podera pular a frente em volume e rendi- mento a medio prazo. Cor seu faturamento de seis bilh6es de d6lares anuais, sua capacidade de geragao de renda (seja pelo lucro real, seja pelos fi- nanciamentos que seu patrim6nio viabiliza), a vasta infraestrutura que montou e opera, e, sobretudo, seu dominio de mercados e sua fabulosa reserve de recursos naturais, a CVRD e uma das mais estrategicas corpo- raq6es produtivas do planet. Sua privati- zadao significa uma renuncia de poder do Estado brasileiro equivalent a uma con- quista por parte do comprador, ainda mais se ele for estrangeiro. A Vale, criacgo ori- ginal de empresa privada rentavel combi- nada com ag&ncia de desenvolvimento de novo tipo, jogaria fora meio s6culo de ex- periencia unica no Brasil e no mundo, con- tabilizando seu prego por estreitos criterios de contabilidade. A ampliagao, em volu- me e qualidade, das re- servas de ouro e cobre em Carajas n eo 6 um fato meramente national, em- bora ja nesse piano tenha uma enorme relevancia: ele podera alterar a confi- guragao do pr6prio mer- cado international dessas commodities. Ouro e cobre sdo apenas dois components de um elenco de recursos mais amplos, que as pesquisas es- tao apontando. Certamente nao ha, em ne- nhum outro ponto do planet (talvez, exceto a AntArtida e o fundo dos mares, este ainda inacessivel economicamente), nenhum lugar onde a possibilidade de revelagAo de novos bens minerals seja tio elastica quanto Cara- jas. Ao contririo do que diz O Estado de S. Paulo, o ritmo da pesquisa que a Vale con- duz, atraves da Docegeo, nem e lento nem e ineficaz. No ano passado a Docegeo aplicou 36 milhfes de reais nas pesquisas em Carajas. Nao e o suficiente para tender as exigEncias de um program sistematico compativel com a importincia dos alvos selecionados, mas e um valor expressive, que a empresa poderia ampliar se o govemo nio estivesse limitando a autonomia da CVRD. A empresa teve, pela primeira vez, ja sob a atual administrag~o, que recorrer a contra- tos de risco com empresas estrangeiras para suplementar seu program. Quatro contra- tos, com tris empresas estrangeiras, estao atualmente em andamento na area de Cara- jas. Se houver sucesso nas sondagens, o re- sultado sera dividido ao meio. NAo e bom, mas ji e o resultado da decisao de privatizar a Vale. O ritmo e a forma desse process, inde- pendentemente de seu desfecho, ja causa- ram estragos profundos no papel da CVRD como empresa estrategica do governor e, em media crescente (gragas ao contrato de gestao, adotado ha tres exercicios e atro- pelado pela privatizacao), do povo brasi- leiro. Apesar de todas as declara95es feitas em Brasilia, de que nem os grandes clien- tes da Vale, nem os seus concorrentes dire- tos poderiam participar do leilao de privatizagao, australianos, sul-africanos eja- poneses estAo no pareo. Pagando a ninha- ria de R$ 150 mil, tiveram acesso ao "data-room" nomee high-tech dado ao que, em outros tempos, poderia ser chamado com mais propriedade de alcova) e a infor- magoes que a CVRD gerou e preservou por serem uma arma de luta no mercado. Mes- mo que as empresas que ja passaram por essa sala computadorizada (as japonesas Mitsui, Nissho Iwai e Mitsubishi, as sul-afri- canas Anglo American e Gencor e a austra- liana Western Minning) nao venham a adquirir o control da CVRD, conseguiram o que talvez s6 seria possivel, nao fosse a malsinada privatizagdo, atraves de espiona- gem industrial, cor os riscos decorrentes. Nem mesmo a perspective de, em material de cobre, o pais alcangar a auto-sufici6ncia e logo passar a exporta9Ao, e, quanto a ouro, conquistar a 3' posigao mundial, abalou a de- liberagdo do governor pela privatizagao. Ti- midamente, o president da CVRD, Francisco Schettino, sugeriu o adiamento por tres meses do leilao organizado pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Eco- n6mico Social). O Ministerio de Minas e Energia reagiu alegando que tr6s meses seri- am insuficientes para dimensionar integral- mente as novas jazidas. A conclusAo saudavel do impasse seria, entao, sustar integralmen- te o leilAo, como recomenda o bom senso e a inteligencia, qualquer que seja o sistema econ6mico, no Brasil de FHC como na In- glaterra de Major (que ja foi de Thatcher, a inspiradora do nosso tucano de plumagem fluida). Nao para cancelar de vez a privati- zagao, mas para examina-la cor a parcim6- nia que o caso requer. Se nAo 6 assim, pode-se concluir que a privatiza9o da Vale no 6 um process tio saudavel quanto o governor diz que e. Ou porque o president, tendo estabelecido ir- refletidamente a meta, ja nao pode mais re- cuar, refem das expectativas que o anincio gerou na comunidade intemacional, ou por- que ha mais entire Brasilia e as capitals do mundo do que que proclama a va filosofia do nosso principle brasiliense. A prefeitura e a imprensa: o fim da promiscuidade? dmilson Rodrigues foi demitido. Nao, evidentemente, da prefeitura de Belem, que continue comandan- do gragas ao mandate que o povo Ihe con- feriu em novembro do ano passado, mas dos veiculos do Sistema Romulo Maiorana de Comunicagao, o monopolista da opiniAo pu- blica no Para. Ha duas semanas o nome do prefeito desapareceu como que por encan- to das paginas de O Liberal, das imagens da TV Liberal e das audio;es da Radio Li- beral. Tudo porque Edmilson Rodrigues ainda nao definiu um esquema de pagamento da divida de 1,2 milh~o de reais que Hdlio Gueiros deixou junto ao grupo Liberal, de um total de R$ 2 milh6es acumulados corn os veiculos de comunica9go de Beldm. Na primeira investida, o grupo queria que o 'ddbito fosse quitado em parcelas iguais a cada 10 dias. Depois, a proposta passou a ser de desdobrar os creditos em tres paga- mentos mensais de R$ 400 mil. A primeira apresentacgo da conta o pre- feito Edmilson Rodrigues reagiu mandando conferir cada item. Algumas faturas nao te- riam sido acompanhadas da comprova~go de inserqgo do material de divulgag9o. Em ou- tros casos a falta teria sido de empenho. Pas- sado pelo filtro de uma apuragco mais rigorosa, o debito poderia ser reduzido, mas os representantes do grupo Liberal nao esta- riam dispostos a mexer no valor apurado. O tamanho da conta teria que ser aceito como definitive. Aviso de que a empresa nao esta- va para brincadeir veio atravds de uma or- dem baixada da direggo para que a publicidade da prefeitura s6 fosse aceita corn pagamento a vista e em dinheiro vivo. Nem mesmo cheque seria admitido. A prefeitura passou entao a apurar as relagoes da empresa corn a administraggo municipal para tentar abater valores num encontro de contas. Foram levantados os im6veis em nome da familiar Maiorana (que, segundo informa9io oficiosa, seriam 45) e verificada a situacgo do IPTU (Imposto Pre- dial e Territorial Urbano) de cada um de- les. Em seguida, tdcnicos fizeram uma vistoria na suntuosa sede dojornal, na ave- nida 25 de Setembro, nos funds do Bos- que Rodrigues Alves. O im6vel maior surgiu do remembramento de outros im6veis me- nores, mas eles permaneceram individuali- zados para fins tributarios. Um ensaio de calculo foi feito comparando os valores do intposto cor o im6vel fracionado e unifi- cado. Tambdm houve apuragio no pagamento do ISS (Imposto Sobre Servigos). Enquanto empresa jornalistica, o grupo Liberal goza de imunidade tributaria, mas presta outros tipos de servigos, que nao estariam sendo escriturados. Os t6cnicos verificaram que nos arquivos da prefeitura nao existe um dossi8 do grupo Liberal, ao contrario do que ocor- re com todas as pessoas juridicas passiveis de tributacao. Os movimentos de ambos os lados indi- cavam os preparativos para a deflagracgo de uma guerra aberta, mas no final de semana a negociacqo parece ter sido restabelecida, em bases que tentavam evitar o confront que parecia as v6speras de se tomar iminente. Provavelmente agindo por etapas, confor- me uma estrat6gia de agao, o grupo Liberal banira o nome do prefeito do noticiario, mas ainda nlo desencadeara uma campanha con- tra ele. Edmilson fora colocado no limbo do olimpo em que se julgam encastelados os donos do Sistema Romulo Maiorana de Co- municacao. Por nao se tratar de uma decision editorial jomalistica, o comportamento fu- turo da corporacgo dependera da evolugao dos entendimentos comerciais. Essa d a di- retriz da empresa. oi semelhante o procedimento do SRM em relagao ao segundo gover no de Jader Barbalho. Ele assumiu o cargo morto em vida para os Maiorana. Depois de um certo tempo seu nome vol- tou a ser citado. Em seguida, sua foto. Pos- teriormente ele p6de aparecer na primeira pagina. Por fun, quando o governor passou a vehicular diariamente seu program na ra- dio e na televised, deixando de usar o siste- ma de permuta como antidote contra o desembolso de dinheiro no caixa do grupo Liberal (o que era possivel corn tres veicu- la9oes por semana), e suspended o boicote publicitario que iniciara, a cobertura tomou- se normal e normalissima permaneceu ate o desencontro seguinte de interesses. Isto e, normalissima no concerto dos Maiorana: fazer cortina de fumaga na media em que continuar sonante a relacgo com o erario. A parceria exime o mais poderoso grupo de comunicacAo do Norte do pais de fiscali- zar os atos do govemo. Foi uma parceria tio intense corn Helio Gueiros que os Maiora- na, desatentos a voz da experiencia, permiti- ram que a divida da prefeitura fosse se avolumando a partir de fevereiro do ano pas- sado sem reduzir o volume da propaganda official, o que s6 aconteceu ja no final de 1996. rotegido por essa desatengao, que nao foi s6 do grupo Liberal, como da maioria da sociedade belenense, Gueiros ultrapassou o limited constitutional para a propaganda official, quase igualando o valor dos gastos publicitarios da PMB aos do governor do Estado, que arrecada quatro vezes mais (em 1995 a prefeitura gastou o triple do govero). Para Helio Gueiros, estourar a verba de publicidade (50% al6m do limited cons- titucional no ano passado) e condigco nao apenas para alardear as obras que reali- za, inflacionando artificialmente seu sig- nificado, como para comprar a coniv6ncia da imprensa. A Comus, a as- sessoria de comunicacao social do mu- nicipio, chegou a ter 75 nomes em sua folha (apenas reduzida para 62 na atual gestao), incluindo cinco colunistas de journal que la s6 iam, quando iam, para buscar seu salario, entire mil e 1.500 re- ais por mis. Elogios a Hdlio Gueiros nes- sas colunas nao eram gratuitos, mas, por se tratar de opiniao, eram muito baratos. Controlando o mercado, ao qual im- p6s regras selvagemente mercantis, o grupo sabe que tem poder, mas que a ad- ministragao desse poder envolve riscos. Se o nome do prefeito sumiu dos veicu- los do SRM, multiplicou-se no grupo de comunicacao do senador Jader Barbalho. Neste caso, o acerto commercial envolve um component de entendimento politi- co, que se reforgart numa eventualidade de confront aberto entire a prefeitura do PT e o grupo Liberal. Os desdobiamen- tos nao sao de todo previsiveis. Espera-se que Edmilson Rodrigues, fazendo fd no que disse em palanque, te- nha forga interior e exterior suficien- te para estabelecer um novo padrao no relacionamento da prefeitura de Belem cor a opiniao public e a imprensa, sem fanfarronice vazia, mas tambem sem cur- var a espinha al6m do dngulo recomen- davel para os que querem manter a independencia e, quando nao ela, ao menos o pud;e 4 JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE JANEIRO / 1997 prefeito Edmilson Ro- drigues criou, sem pre- cisar, os motives para uma segunda derrota desde que assumiu o cargo. Desta vez, nao political, dentro do parla- mento, mas junto a opiniao pu- blica. Por teimosia que costume ser chamada por aqui de pinima, o prefeito decidiu promover o des- file de carnaval deste ano na Doca de Souza Franco. Desencadeou a partir dai uma polemica que acabou no judiciario e moti- vou discusses apaixonadas e, por isso mesmo, nem sempre racionais. Qualquer que seja o resultado do cabo-de-guerraa que se formou, o prefeito said desgastado, quando nada na sua imagem. Talvez a melhor intenggo do prefeito nao fosse se vingar do antecessor, que fez da Doca o seu cartao postal publicitario. Talvez Ed- milson tenha simplesmente pretendido banali- zar a Doca, deixando claro aos cidadaos que os quatro milhaes de reais ali aplicados, ao menos pela contabilidade official, foram um desperdicio. Apesar da boa vontade dos log- gings, a Doca nao e o Central Park novaior- quino, nem equivale is calgadas de Copacabana (na adaptagio, sintomaticamen- te, o esgoto substituindo o mar). Tudo bem. Mas antes de decidir fazer ali a passarela para as combalidas escolas de sam- ba que sobrevivem ao caos camavalesco ofi- cial, o prefeito foi ao local com a imprensa. No afa de tudo fazer "ao vivo", Edmilson quase sofreu um tombo feio, que o mau as- sentamento de paralelepipedos ameacou pro- vocar. Com suas mAos, o prefeito mostrou o afundamento da pista. Suprimiu a maquilagem superficial que ali fora feita Toda essa mise-enscene, talvez necessa- uitos t6cnicos consideram artificial Irente inchado o orgamento do Estado para este ano, no valor de 2,4 bilh6es de reais. Os que participaram da elaboragAo do document defendem-no: preferem alegar que o Estado vai trabalhar com metas oti- mistas, sim. mas factiveis diante da melho- ria da qualidade da administraCgo piblica, que estaria conseguindo vedar os vazamen- tos de receita. Colocar metas audaciosas po- deria ser um metodo adequado para fazer o Para andar corn mais velocidade. Mas para fechar o caixa com numerous bem mais altos do que os da mera atualiza- cAo do que foi realizado no ano passado, as operao6es de credit deverdo somar R$ 240 milh6es, o que significa a retomada de urn endividamento que, no exercicio anterior, foi combatido. O Estado tamb6m prev6 ar- ria para convencer os increus, deveria ter levado a conclusao diametralmente oposta daquela que acometeu o prefeito. Ou seja: e precise refazer alguma part do trabalho executado na Doca ao inves de exp6-la ao desgaste do carnaval para, s6 depois, corn o que sobreviver, dar- l Ihe o padrao de qualidade necessa- S. rio para que ela possa existir como algo mais do que o cartAo postal (com vegeta- c5o, ferros & tudo) dos Gueiros. Provisoriamente, o desfile poderia ser transferido para um local pr6ximo, a Mare- chal Hermes, por exemplo (cor a vanta- gem adicional de a area ser praticamente desabitada, servindo mais ao comercio), ou a Pedreira do samba & do amor, sentimen- talmente o local mais carnavalesco de Be- lem. Ao menos ate que se possa tentar estimular o renascimento de um carnaval que se deteriorou na media em que pas- sou a ser propriedade privada (disfargada de publica. O prefeito ganharia e cor ele toda a ci- dade se refletisse sobre o que ocorreu no ultimo camaval: o burgo-mestre de entlo, por pura (sic) pirraga, transferiu o desfile para a 25 de Setembro, nos funds do Bosque, ape- nas para atormentar os moradores daquela arteria, que haviam ousado desafiar sua von- tade imperial, sempre mais etilica do que ete- rea. Camaval, os foli6es sabem muito bem dis- so, nao rima com carranca e mau humor. Quem age assim no carnaval, ou e ruim da cabega, ou doente do p&. O alcaide que saiu sofria de constantes dores de cabeqa e de gota. Et pour cause, como dizem os colu- nistas sociais. * recadar pouco mais de R$ 100 milh6es com a alienacao de bens, um item de insuspeita- do vigor se comparado aos ultimos anos. O que mesmo estara pretendendo o governor alienar de valor? Ja espera contar cor os primeiros resultados da privatiza9go? Alem disso, a lei orgamentaria aprovada pelos deputados permit ao governor abrir credits suplementares num valor de ate 25% do que esta previsto no pr6prio orca- mento, o que significa a possibilidade de movimentar, sem quaisquer restrigoes, R$ 470 milh6es, ou o equivalent a seis meses e meio de receita pr6pria. Algo equivalen- te, na contabilidade privada, ao caixa dois - cor a vantage de que este e legalizado pelo legislative. Orgamento bom esse ai. Bem ao gosto do nosso monarca. 0 Carnaval e bom humor Baixadas: comega contagem regressive Comeca a contar lncst- dia 27 a pror- rogaqi do prazo. por mais O11 dias para que o goerno do Esiado apresentc ao Banco Inierantericano dL Desentol\i- mento o nolo cronograma fisico-inman- ceiro do Programa ,e KMlcrodrTnagcnm das Baixadas de Belin 0 prazo para a e\ecaio do program. o nmatr na his- i6ria recently da capital paracnsL. tenni- nou no dia 27. quamro anos depois de iniciada a obra Mas apenas un quartn do qu Lsta3~J riglldnlnicil ntte prT1i slt i realizadi 0 aliraso dt:Je-sc a filra dJi contrapartida do Esrjdo ao iuprcsim1no do BID obrnado a saspender as libera- ves qua.ndo o govenio dei\ou de hon- rar seu compromisso de responder com sua cola as remessas fellas de Washing- ton C duscompasso nao pre.udikou apc- nas o andamento da obra o Estado paga nmulta e jurors por n5o csrar habiktado j fazer os saques nas datas accrtadjs Ou se.ja nio retire o dmhetro i aindj pagj como se o csii\esse usando. O que provocou essay falia de sinto- nia' A actual administrac5o sugcre que o entio govmnador Jader Barbalho agiu ir- responsa,.cmrnece .u, demagogicamen- ii 3 ao ssmnlir cornprolmi,'i;s que Ina,. tinha condig'.es de h:onrar. Incrianldo um progranu de 225 milthcLs de dolares scin asseglirar os recursos da contraparmda estadual, de US$ 80 milhoes Afogada pelo cusieto e pela heranqa considera- da nuldita dos antec3csorecs a admi- nistraqio parainsc ficou sem condides de manner esse in\esiumnro. Porta-vozes do governor antcrior re- trucam que as bases do cronograma fi- nanceiro foram submetidas ao BID c apro adas por seus teciicos. que conhr- maram a existencoa de fontes de recur- sos capazes de responder pela contrapartida do Estado Dizem que o que teria ha',ido foi falta de \ontade dc ewecutar a obra considtrada a mavor des- pusa dr capital do Estadc. porquc elj foi gerada no govenio de .ader Qualquer que ienha sido a razio real do relardamnento o prograna. o que partce cada v'ez imais prowavel e que a macrodre- nagem das basiadas de Belem comece a colecionar pats 3em cnsumnar suo matun- dade Talvez a obra nio fiqae pronia no go~qvo AJmir Gabriel. a nio ser que. flta a reform consir uconal. ele possa concor- rer i reeleriao e \encer Mas o que scra mars facil sair a rlelerglo e Aminr \rncer ou a macrodrenagern ir em frente'' Orgamento inchado JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997 5 Violencia no campo: uma safra continue A morte de dois lavradores e um ex- lorador de madeira na fazenda anta Clara, em Ourilindia do Norte, na semana passada, poderia pare- cer um incident menor no quadro da vi- ol6ncia rural no Para, nio fossem algumas circunstfncias do epis6dio. Esses "deta- lhes" aparentemente nio foram percebi- dos pela grande imprensa, que deu ao caso amplo destaque na suposicio de que fos- se uma reedikio do massacre de Eldora- do de Carajas. Na verdade, porem, as tr6s vitimas nlo faziam parte do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra5. Os au- tores dos crimes nao eram representantes do governor, como os militares da PM que mataram os 19 sem-terra em Eldorado, em abril do ano passado. A fazenda Santa Clara seria um im6vel sem destaque, ex- ceto pela coincid6ncia de seu proprieta- rio, o m6dico Edvair Queiroz, ser primo do deputado federal (do PDT) Giovanni Queiroz, tambem ele um proprietario de terras em Xinguara, no sul do Para. A reconstituiaio dos fatos mostrou que nio houve um confront entire os defen- sores e os tres invasores da fazenda. Es- tes foram simplesmente executados, talvez porque ja fossem esperados no lo- cal. Apesar da quantidade de chumbo re- tirado dos tres corpos, foi uma execugco primaria: as armas utilisadas foram rev6l- ver 38 e espingarda 12 carregada de chum- bo, muita usada par todos os moradores O governador Almir Gabriel prcten- de anunciar. cm NMaraba. no final do proximo incs o local da Instala- ,io da inetalurgica d& cobre da Salo- bo iMetais o maior inet0iinetio no Estado. no \alor dL 1.5 billho de do- lares A fabrca faiaca a cm NMaraba incsino sc o go\e-rno e a Companhia Vale do Rio Doce. ,ecia da sul-afri- cana Anglo American no enipreendi- ninto. clihcarcmI a um acordo sobre o \alor dos bcncficios qIu o Esiado tera qiu conc(dcr para a empresa dc- cidir por NMaraba e nl:,o por Parauapc- bas. tamiben rll ll Para. ou Rosario. Ino Nlaranhlili as outras opq~ .s dc loca- ]lzatio Para decide por Nlaraba. a Salobo prcclsaria ser compcnsada em R$ 87 do campo. Sofis- ticado o nome usadopelos anti- gos pistoleiros e jagungos: agora sio "diaristas". Sem term vinculag o com o MST (mesmo porque o movi- mento tem pou- ca penetragao nas areas mais distantes do sul ,'.- .. do Estado), 6 :.. : ,,' :". .... provavel que os tris invasores visassem mais as arvores do que exatamente o solo. O crime ocorreu na reserve florestal da propriedade, apa- rentemente mais cobigada do que as cul- turas agricolas. Esse 6 um problema s6rio: os proprietarios que mantem a reserve (hoje, nas faixas de floresta native, am- pliada para 80% da area do im6vel rural) atraem os extratores de madeira e mesmo colonos que s6 sabem introduzir benfei- torias atraves de cultivos agricolas, nio do manejo florestal. Mesmo que a reserve florestal seja um ardil para o uso especulativo da terra ou para destinagio future como fonte de ma- deira solida, o modelo de ocupaAio da Amaz6nia, tanto atrav6s da empresa ca- pitalista como dos programs de assen- tamento de colonos ou posseiros, nio millhes atraacs de beneficios e \antra- gens a scrnem concedidas pelo Estado. entrc as quai, as tributanas. No encon- tro quc eI'e na seinana passada. no Rio dc Janciro coin o president da CVRD Franci-co Schcltino o governador con- trapropos coimpeiiiancs no total de RS i il h lli6Lcs A dtfcrcn;a. dc RS 27 ini- llih6s a propria \alc compensaria Schettiio proineten estudar .omn boa \onradc a ofcrra Jo gov\'rno paracnse c dar irina rcsposta cin Iempo de per- niimr a Ainir Gabriel rcalizar scu pla- no de ir a M.uaaba dar a grande nontcia d. que todo o RS I 5 billion cra in% es- lido no iliunicipli ranrl na concr.:ntra- aio do mIincro as proxuinidadcs da nmma. quanto na metalurgica. a 200 qui- lmenictros de distiincia '. 7." .ii a'" *-"" ,a -:: ... . preve nem inclui o uso racional do bem mais nobre na Amaz6nia: as arvores. Em areas afetadas pelo desmatamento, as re- servas remanescentes passam a ter um valor multiplicado, capaz de gerar pac- tos de morte como o de Ourilandia e transformar o uso agricola da terra como biombo para esconder o interesse pela madeira. A political official, por sua irra- cionalidade, decorrente da inexistencia de uma visao especifica da Amazonia, coloca ainda mais lenha nessa fogueira. No caso de Ourilandia, como no epi- sodio da fazenda Sdo Francisco, em El- dorado, ocorrido uma semana antes. quando morreram dois lavradores, tam- b6m sem liga9go com o MST, o que preo- cupa 6 a repetigio de conflitos sangrentos em plena 6poca do "inverno" e o recurso direto A execug~o sem uma tentative pre- via de entendimento. Normalmente nesse period de chuvas intensas ha uma tr6gua: o desmatamento e o plantio ja foram rea- lizados e aguarda-se a colheita. A ocupa- Aio de areas como forma de reserve de direitos para o uso da terra torna-se, as- sim, in6cua. Mas nao ocorre o mesmo em relag o a extragio de madeira. Uma conclusio a partir do registro desses "detalhes" e de que teremos nes- te ano uma safra de conflitos mais grave e sangrenta, fruto da ineficiencia do go- verno e da radicalizagio dos dois lados do litigio. 0 MST decidiu apostar no con- fronto e os proprietarios de terras volta- ram a se armar para enfrentar seus adversarios, coin um espectro de interes- ses mais diversificado. Ressuscitaram a UDR (Uniao Democratica Ruralista), dirigida por um paulista (Roque Rosse- velt dos Santos) corn terras no Para. Pela primeira vez nao vai haver recesso nos conflitos fundiArios no Estado. Esse 6 o pior dos pressagios para o campo. * Cobre e de Maraba ---------- 6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997 No primeiro deba- te entire os can- -- ... .. didatos a prefei- tura de Belem na Radio Marajoara, no ano pas- sado, Edmilson Rodri- gues disse que os filhos do entao prefeito Helio Gueiros eram s6cios da empresa de 6nibus Be- lem-Lisboa. Imediata- mente Adilson Tamanqueira, um dos s6cios da firma, passou por fax para o estudio da emissora uma c6pia do contrato social da Belem-Lisboa. LA nao aparecia nenhum Gueiros. Agora a Belem-Lisboa, juntamente com a Transarsenal, outra empresa da qual Ta- manqueira faz parte, patrocina um out-door da prefeitura do PT. Pode ser simplesmente manifesta9go de alivio pelo desaparecimen- to de uma traditional comissdo de agencia- mento que as empresas de 6nibus tinham que pagar sem poder, naturalmente, inscrever essa despesa extra no caixa um e na contabi- lidade official. O PT criou tradigio national de que esse meio-de-campo desaparece de sua gestlo, passando a negociagao a ser feita em torno F ernando Henrique Cardoso e uma pes- soa decent e inteligente. Entre os can- didatos especulados a presid8ncia da Repuiblica, e, de long, o melhor. Como p6de se enredar na armadilha por ele mesmo ar- mada na busca obsessive da reeleicgo? Encontrar uma resposta satisfatoria e urn desafio para o intelecto. Se estava conscien- te de que o mandate de quatro anos era in- suficiente para levar ate o fim o seu program de reforms, Fernando Henrique deveria, desde o inicio, manter as ruas mobilizadas para a convocaqdo de um plebiscito no mo- mento adequado, sem que isso se tornasse uma aventura de desdobramentos imprevisi- veis. Anos e anos de militincia na anilise da sociedade brasileira informaram o soci6logo Fernando Henrique qual e a moeda corrente de troca do Congresso ou de sua maioria fisiol6gica. O president s6 sairia vitorioso dessa negociag9o se estivesse disposto a se- guir a lei desse mercado. Ter chegado ao estagio em que se encontra na transagio com os politicos revela o grau de comprometi- mento de FHC cor esse fisologismo. Agora, a melhor perspective para o presi- dente e uma vit6ria de Pirro: conseguir a re- eleic9o, mas perder o respeito da nacio e arriscar-se a uma derrota na dispute por mais um mandate. Ainda que, tropegamente, so- dos ganhos para o cida- dao e o contribuinte. SEsse novo padrIo, ex- purgando o papel espu- rio do atravessador de 2 A prestigio, tambem nao deve servir de biombo para vantagens political para o partido. --No dia 18 de feverei- ro expiram as atuais con- cess6es de 6nibus de Belem. Sabe-se que o monop6lio da linha de Icoaraci sera quebra- do: a prefeitura admitird mais uma empresa para servir a esse trajeto. Se quanto aos de- mais tudo continuard igual, e bom nao es- quecer que, se nao ha um monop6lio igual ao de Icoaraci, tem funcionado um nocivo cartel. Ele priva o usuario de dispor de van- tagens ji oferecidas em outras cidades, sob a alegago de que, aqui, a tarifa 6 mais bai- xa. Pode ate ser, mas o volume de fatura- mento A vista, recolhido todos os dias, que proporciona. mais do que compensa a me- nor rentabilidade unitaria. Espera-se que os out-doors n~o funcionem como bombons para disfargar o gosto amar- go que o sistema de transport coletivo tem deixado na mem6ria do cidadAo belenense.* breviva a essa perspective sombria, o pais pagara muito caro pelo milagre da reeleiiao do president, arrancado de uma horda de birbaros da pilhagem political. O president que decidiu apostar tudo no prosseguimento da aventura poderia ter urn lampejo de lucidez: sustar a negociagao em curso e recorrer ao plebiscite, ainda que ex- pondo seu governor a um final melanc6lico. Apostando tudo, poderia r:cuperar o preci- oso capital que acumulou junto as camadas mais pobres da populagdo, aquelas que esta- vam abaixo da linha da miseria e que o Real colocou no nivel da pobreza, numa condi- 9ao a de consumidores de interesse do mercado. Tudo seria menos desgastante para o Bra- sil se a vaidade, multiplicada no exercicio do poder, nao inutilizasse a visao que o soci6- logo Fernando Henrique Cardoso cultivou durante anos. Ele poderia exercer plenamente seu mandate ate o ultimo dia, eleger corn tranquilidade o successor, escolhendo quem quisesse, e reocupar uma privilegiada posi- 9co de espectador engajado para voltar A presidencia da Repiblica quatro anos depois, garantindo um lugar inico na historia brasi- leira. Agindo como agiu, expos-se a ser uma pessima figure no enfoque analitico do soci- ologo Fernando Henrique, se vivo este ain- da estivesse. 0 Objetivo a vista Dist&ncia centenaria Barbosa Lima Sobrinho, centenario des- de o dia 22, pertence a rara estirpe dos poli- ticos intelectuais ou, dito de uma forma menos pretensiosa, dos politicos cor ideas, que lCem. Antes de me dar conta de que ele era um politico, ja havia lido a biografia que ele escrevera de Alberto Torres, um fecundo trabalho. Sua bibliografia e extensa (inclui 30 livros) e variada, embora irregular. Mas nao public apenas por vaidade: seus livros tim a substincia de quem so escreve sobre o que estuda, estudando bastante para poder escrever. Apesar da longevidade excepcional, Bar- bosa Lima Sobrinho nao produziu mem6ri- as, ao menos que eu conhega. E lacuna imperdoavel para quem esteve dos dois la- dos do balcdo, exercendo o poder e anali- sando-o. Afonso Arinos de Mello Franco foi fecundo nesse aspect: suas extensas memo- rias sio uma fonte de prazer e de informa- 9Ao. Levam o leitor tambem a refletir sobre o desacerto entire a potencia mental e a acgo political, nem sempre em harmonia. O saber nIo e garantia de acerto na pratica. Mas politicos como Barbosa Lima Sobri- nho e Afonso Arinos se perguntavam sobre a natureza de seus atos e suas consequenci- as. Queriam medir-se no mundo, tomando o pr6prio pulso e sentindo os rumos do seu tempo. Nao e a centenaria idade do primeiro que o torna pega de museum: e sua distancia etica, moral e intellectual do padrio de poli- tico dos nossos dias, mentalmente arido como um desert. ASSINATURAS .- .-- - - - -- -- - - - jornal i'esold i OS a... .... ..pedidos Agora, e pra vales deJoral aPessoal S (R$ 15,00 Spor trimestre) A podemser -. feitos p pelos telefones 224-3 728 e 223-1929 ou diretamente a rua Aristides Lobo, 871, CEP 66 053-020. Junto cor dados pessoais nomee e endereqo complete), o interessadopode enviar cheque em nome de Lticio Fldvio de Faria Pinto para o endereco acima. In memorial JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1997 7 0 poder universitario A s atividades-fim nas universidades so o ensino, a pesquisa e a exten- ao. Quem conduz essas atividades sao os professors. Os funcionarios sao os auxiliares e os alunos o meio para garantir a perenidade dessas fung6es. Esta equag~o simples, que, evidente- mente, nao esgota a complexidade do tema, mas 6 seu eixo estruturante, explica a ne- cessidade de estabelecer ponderag5o na manifesta5o da vontade political da comu- nidade universitaria. O voto direto e uni- versal distorce os terms dessa equagqo e confere ao corpo discente poder decis6rio incompativel com seu significado na uni- versidade. Os estudantes estao em campanha pelo voto igual para todos, independentemente da condiOo de cada um. E uma plataforma atraente, sobretudo por permitir correlagbes com a origem da democracia. O congressu- alismo grego tornou-se inviivel no mundo de hoje e o iluminismo foi a tradugao revo- lucionaria de um moment, mas estamos em outra 6poca, sob outras condi9ces. Os estudantes fazem cavalo de batalha em torno do final do process, na ponta do funil, que 6 a escolha do reitor. Se fizes- sem prevalecer a tese do voto igual para todos estariam garantindo para si o poder, mas nao o melhor caminho para conduzir a universidade. O democratismo, nesses terms, poderia significar o comprometi- mento do papel da universidade como cen- tro de saber (ou excel6ncia). Ela passaria ser conduzida pela comunidade transit6ria e por quem desempenha atividade-meio, ou, ao menos, e mais paciente do que agen- te do process, o produto de um process que s6 se realize se conduzido por profes- sores competentes. Os professor serao tanto mais compe- tentes quanto mais exigentes, organizados e participants, em todos os niveis, com as 'gradacqesjustas e compativeis em cada eta- pa, forem os estudantes. A desorientagAo deles e o comodismo (ou indiferenga) dos professors explicam tantas distorcbes acu- muladas na vida universitaria. Basta pegar uma delas, a das remunerag6es, para ter um exemplo significativo de tais distorc6es. Os maiores salaries nao sao os dos professo- res com maior qualificacao, mas dos buro- cratas que mais cargos acumulam. Os professors que quiseram ganhar mais des- viaram suas carreiras para a administrag~o. Dai resultou o burocratismo infernal que corr6i por dentro a vitalidade acad6mica. Escolher o reitor 6 um element pode- roso na luta pelo poder, mas nao tudo e, talvez, nem o mais important para recu- perar ou inaugurar a qualidade dos campi, exceto para aqueles que querem apenas to- mar o poder, ao inv6s de executar um pro- grama. E o que mais a universidade precisa e de intelig6ncia e saber, nao s6 para espa- lhar entire a sociedade, mas para usar em seu pr6prio favor, ao inves de simplesmente criar uma gangorra de acesso ao poder.O A linhagem do sangue S obrevivente dos campos de concen- nhum grave problema o assc tragao nazistas, nos quais se por- Ihete que deixou, apenas a hi tou com dignidade sobre-humana, tiava, mas, ao invds de entra Bruno Bettelheim se tornou uma legend pai, queria deixa-la passar. por sua dedicagdo as criangas autistas. A A morte, dizia Albert Can Fortaleza Vazia, desde o titulo, 6 um livro tui o inico problema filos6fic primoroso. Faz parte da melhor tradi9go cidio, uma antecipa9ao no cui humanista. Aos 82 anos, recem-viivo, bri- da vida, 6 a maior de todas as gado cor a filha unica, isolado num exilio humans. Um suicidio na al dourado na Calif6rnia, Bettelheim tomou abala tanto quanto o da juv uma superdose de barbituricos, enfiou a uma inversao do movimento r cabega em um saco plastico e esperou os vado a mais extrema radic. efeitos simultineos do ataque quimico e Mas nio ajuda a fazerjusti< da asfixia mecinica, um agent atuando so- m6ria do morto, nem a sabe bre os efeitos colaterais do outro para per- ria dos sobreviventes, mitir a morte menos dolorosa possivel. encarar esses auto-aniquila- Foi-se como umjusto. mentos pelo prisma da moral S6 em seguida apareceu um livro tentan- rigida, do dogma, do princi- do desmontar a estatua viva do her6i. Dizia pio axiomatico do valor da que Bruno era um ditador, que maltratava vida. as criangas com as quais apareceu em inu- Maneco Vargas comanda- meras fotografias e filmes como o terno e va a sua familiar com bom devotado pai adotivo. Bettelheim nao esta- senso e humor em torno de u va mais vivo para defender-se. Tinha a n6s, zenda na regiao gaicha das em compensagao, que acompanhamos seus rentemente, nenhum fator e passes e olhavamos para ele de uma posi- sobre sua agenda nos dias ai io inferior porque ele estava em um nivel morte. O suicidio nao foi umr muito mais elevado. rio produzido por um sentin O suicidio nao diminuiu nem um pouco incontrolavel, nem por um lei meu imenso respeito e admiracgo por ele. vontade. Parece ter sido um Seu suicidio nao foi um ato de covardia. maturada, com algum term Foi um ato de coragem. Como o de Mano- fincado no ato do pai, pratic el Antonio Sarmanho Vargas, o Maneco s6culo de anteced6ncia. Vargas, o filho cagula e o unico sobrevi- O suicidio de Getulio Va vente de Getulio Vargas. Ele estava as gular na vida political brasil v6speras dos 80 anos quando deu um tiro home public deste pais c no peito, na semana passada, a semelhanga tremo em circunstincias se do pai. NIo estava fugindo de nada. Ne- vida national. A carta-testz )lava Pelo bi- st6ria o angus- rnela. como o us, consli- ;o. Eo sui- sonatural quest6es ta velhice entude E * natural Ic- aliza ao ga a me- do- S. S . ;.. i' .' ." '* .; ..., .<, ,. .$ ...-...^ .v& ,' *>w ma grande fa- missoes. Apa- xterno pesava iteriores a sua Sato de desva- nento subito e ito definhar da la deliberagao nal de partida ado com meio rgas 6 ato sin- eira. Nenhum hegou a tal ex- melhantes da imento, s6 no esbogo de autoria plena do president, si- tua o context, mas nao ilumina satisfato- riamente as raizes da motivagao. Pouquissima luz se obt6m nos diarios de Vargas, publicados pouco tempo atras. Ele foi tio eficiente nos concilidbulos da poli- tica quanto na oculta9go de sua alma, uma esfmge a desafiar os que nao se satisfa- zem com as explicag6es reducionistas das ci6ncias positivas. Deixou no ar o miste- rio, cujas ressonincias continuam em ati- vidade, como parece indicar o suicidio do uiltimo de seus descendentes diretos. Ma- neco, de fato, deixou a Hist6ria passar para que, nela, cesta ainda mais, se tomando mais difusa, a onipresente figure do pai. * \ ^e% Cs: ..I .:~'~ -iiji .. iuro )UTO lia Vale do Rio sigilosamente, do Estado, um :guranga para trugdo, em Cu- um muro de quatro metros to quil6metros provavelmente ntado no Para. trea estari as- osseguimento a Leste, no va- hoes de reais, :mpresa estara duzir, ate o fi- 15 toneladas de rea da future igao encontra- para manter os : Serra Pelada ts o muro so se I porque o go- r Gabriel acei- )0 homes da no local, para e fosse o caso, perada reaiao )s. Em poucos am impedidos i area de inte- onde ha uma 3 toneladas de o pais ate ago- a empresa de- Sali R$ 28 m q atrt, v'e- i [,mar Muni- n e,, n 1odisl 61lfilo nI'!I'e- 7,ro na al- Olhar vesgo Dos tres governadores caba- ..2 nos, o PT parece ter escolhido o segundo, Francisco Pedro Vi- nagre, como o seu heroi por ex- celancia. Na homenagem que o ", prefeito Edmilson Rodrigues : prestou ao movimento na data do 1620 aniversario da tomada de Belem, Vinagre foi destacado. Entendem os petistas que, por ser "camponEs" (como escreveu o prefeito em artigo publicado no . dia 7) e, aparentemente, o de- fensor de um caminho mais radical para o movimento, /inagre era o mais re- voluciondrio de todos os lideres cabanos. Contrastaria corn o proprietario rural Flix : Clemente Malcher eo a ,, idealista Eduardo An- gelim, atf aqui a mais * carismdtica das tres fi- guras. 0 PT estc vendo osfatos de 1835 cor os olhos de 1 i so luo Para o bem de todos e felicidade geral do muncipio, o PT deve fazer uma separagco bem clara entire sua militfncia e o funcionalismo de Belem. As tarefas da administragdo devem ser executadas pelos servidores competentes do quadro regular da PMB para cada uma das ta especificas sem record eles. Mesmo que haj alguma vantagem nis militants nao devem mobilizados para cur tarefas como cadastr contribuintes do IPTI quaisquer outras. Poc o primeiro pass par confundindo prefeitur partido, confundir o cidadao agora e o ele depois. Menos privilegios Desde o inicio do mis a Pocuradoria Fiscal do Estado I a se subordinar d Procuradoria Geral, que tambdm pas ter ascendincia sobre todos os consultores juridicos esta A emenda que alterou a Constituicdo passou sem trauma Assemblkia Legislativa, embora ponhafim a antigo privilegios na administragdo piblica. Entre eles, o direi procuradores fiscais de receber honordrios na execuad dividas de particulares junto ao Estado. Acontecia de honordrios serem integralmente pagos e as dividas, n Journal Pessoal Editor responsavel: LOcio Flhvio Pinto Ilustrag6es e editoragao grafica: Luiz de Faria Pinto Redapio: Passagem Bolonha, 60-B 66.053-020 Fone: 223-1929/22. Contato: Tv. Benjamin Constant 845/203 66.053-020 Fone: 223 V}elhh sqrge ,. i% la da bistoria do .ar inctuida naida a pre- parada pelo MST (Monien- to dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a tomada do poder pelos cabanos. em 6 de laneiro de 1835 0 outro aconecimento lembrado no dia mats prxunmo foi o assas- siato de Rosa Luniemburgo (ocorrido em (I de laneiro de 1928) A Cabanagem conti- nua a ser tco louvada quanro mal compreendida para nio dizer mal histonada. Castigojusto ., 0 historiador ingles Perry Anderson, autor de um estudo S classico sobre o Estado absolu- tista, andou dizendo besteiras na sua passage pelo Brasil. Teve o castigo merecido: o senador Jose Samey escreveu um artigo sobre ele, onde, entire outras pe- 997. rolas, trata o historiador de "um tal de Perry Anderson". SAlvo errado refas Movimento dos Trabalhado- -rer a res Rurais Sem Terra selecionou a a area de dominio da Companhia so, os Vale do RioDoce em Carajas como ser r um dos alvos de invasLo. Alega que "prir a CVRD ocupa apenas 1,5% de um r os milhio de hectares que estAo sob o U, ou S seu control. Seria, portanto, pro- S priedade improdutiva. a, Esquece o MST que: 1 Na area a CVRD atua como mineradora. 0 espago 6 reservado eitor em fungco do potential do subsolo e nio do que ha na superficie do solo. Quanto menos area a empre- sa alterar, melhor: destruira menos. 2 A manutengAo de uma area maior como reserve nao 6 especu- lativa. Visa preservar um exemplar 7assou unico de floresta em meio a uma sou a uais. devastag~o desenfreada, mesmo iduais. s pela que a criago dessas unidades de s pela . conservagao tenha sido um pretex- o dos to para proteger as jazidas de co- S bre e ouro do Salobo. io de A alegag~o de que a invasao ser- os , vira tambem para pressionar con- ao. tra a privatizagao da CVRD e cobrar do govemo maior compro- misso com a reform agraria tam- bem nio ajuda porque o patrim6nio natural estaria destruido de qual- quer maneira. Carajas e maior do 43728 que a Vale e a estrategia do MST. -7690 Tem que ser usado corn mais inte- ligencia. ~~~:ylr~ |
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