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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO SX *eI. .3tC 2' QUINZENA DE DEZEMBRO DE 1996. R$ 2,00 POLITICAL *ir *4* 1d ed S e 1 (, 0 S fit MV C.1 f 4 . A eleigao chega mais cedo No pr6ximo nms praticamente comegam, para valer, as articulag6es political visando a eleigdo geral de 1998. Quem dd o pontape inicial 6 o governador Almir Gabriel, mudando algumas peas ,A RS de sua equipe. E depois? Janeiro vai trazer os primeiros movi mentos concretos dos gru-pos poll ticospreparando a dis-puta que irio travar, un ano e meio depois, pelo control politico do Parn. Tudo in- dica que seri a eleiio mais disputada das i6ti- mas dcadas, mesmo que ainda no seja possi vel tragar cor seguranqa o cenrtio mais pro- vivel do segundo semestre de 1998. Tudo de- pende da mais important variivel em curso: a possibilidade de se reelegerem, talvez perma- necendo no cargo durante a campanha eleito- ral, os atuais detentores dos principals cargos da administraaqo p6blica que estario em jogo, a presidncia da Rep6blica e os govemos dos Estados. Uma novidade introduzida na Repu- blica, no final do sculo, pelo mais imperial dos republicans, o principe-presidente Femando Henrique Cardoso. A temporada antecipada de caca ao po- der vai ser deflagrada pelo governador Almir Gabriel. Ele nio vai fazer propria- mente uma reform de secretariado, mas mudar alguns dos membros do primeiro escalio. A maioria dos secretifios 6 "ime- xivel", para usar uma das p&rolas da ne- fanda corrente de neologismos que vem corroendo a lingua portuguesa. 0 desempenho do secretirio de Sa6de, por exemplo, 6 considerado internamente so- frivel, mas Vitor Manuel 6 home de confi- anqa de Socorro Gabriel, a primeira-dama, que atua na Secretaria do Trabalho e Pro- mocio Social, mas influi poderosamente na Sespa. Simio Jatene, do Planejamento, 6 a cara e o cerebro do governor, impondo-lhe o ritmo e a feiio, que alguns critics conside- ram excedente em process (e ret6rica) e es- cassa em produto (e agio). Jorge Alex Athi- as s6 sai da Secretaria da Fazenda se quiser, o mesmo acontecendo cor Jose Augusto Affonso em Obras. Pelo critnio da exclusio, sobram poucos secretirios para mudar. Entre eles, estao os titulares da Seguranqa P6blica, Paulo Sette Camara, e da Ind6stria, Comercio e Minera- Io, Carlos Kayath. Mas a mudanga de mai- or significado para a corrida a eleicIo em 98 pode estar na educacio. Normalmente, Joao de Jesus Paes Loureiro estaria entire os auxi- liares in pectoris do governador. Mas paira sobre a Seduc um component ao mesmo tempo complicador e cor potential de si- nalizador de tendencias. Recentemente, a professor Terezinha Gueiros reuniu suas mais pr6ximas "com- panheiras de trabalho" na Secretaria Muni- cipal de Educaqo para fazer-lhes uma reve- lagao. Reivindicara ao marido, o prefeito Helio Gueiros, ser indicada por ele ao go- vernador Almir Gabriel para reassumir a Se- duc assim que voltar das ferias na Europa, no pr6ximo mes, descansando das fatigan- tes labutas na Semec. Pelo menos duas fontes ligadas aos Guei- ros negaram a existencia desse fato, mas ou- tras fontes bem postadas o confirmaram, mesmo uma delas admitindo que a iniciativa da multi-super-secretiria nio seja das mais felizes: "Todas as vezes em que ela foi se- cretiria, o marido era o chefe do poder. Esta seria a primeira experiencia em que ela, teo- ricamente, seria uma secretiria igual aos de- mais". Mas se essa previsao se concretizar, como Almir Gabriel reagiri ao pedido de Hlio Gueiros? O govemador estari colocando a professor Terezinha na mais estrategica das secretaries estaduais, que mobilize mais da metade do efetivo administrative. Ela estard ao lado do filho, o vice-governador Hlio GueirosJr., dispondo de tempo e condig6es para fortalecer uma parte da miquina a ser- vico do projeto gueirista para 1998. 2 JORNALIPESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO/1996 Almir Gabriel ji disse, para um nimero restrito de confidentes, que seri candidate aogoverno, se a emenda da reeleigio passar. E o oposto do que prometeu ao assumir o cargo, mas 6 essa a "dinimica da political" que constitui o habeas.corpus prevetivo em favor dos que querem fazer carreira: no po- der, invariavelmente chegam i concluslo de que o tempo de mandate 6 curto para a rea- lizagio de todos os seus projetos. Mas como ter um esquema pr6prio i som- bra dos Gueiros? Mesmo quando ainda es- tava no exercicio da primeira metade do seu mandate, Almir Gabriel ji foi apenas coad- juvante e, no caso, invisivel na eleicio para a prefeitura de Bel6m, neste ano. Teve que engolir um nome que nio era do seu grupo e aceitar em sil6ncio as humilhaq es impos- tas pelo prefeito para preservar a alitana que garantiu-lhe a eleicio em 1994. Os Gueiros irio retribuir a gentileza na grande dispute de 98? Eles parecem mais propensos a dar ao governador o trof6u de maior engolidor de sapos da political para- ense, atleta que engole batriquios sem tugir nem mugir, para usar a fraseologia da guei- rolindia. Se o atual burgo-mestre da capital for candidate ao senado e nio ao governor, isso at6 seria pogsivel em tomo de um ter- ceiro nome de coalizho um tertius i ma- neira de um Ramiro Bentes, naturalmente. Mas a miquina dos Gueiros sobreviveri a mais quatro anos sem a prefeitura de Be- 16m e o governor do Estado, caso a aprova- qio da emenda constitutional em tramitagio no Congress tome possivel a reeleigao e Almir saia candidate? E quem os Gueiros poderiam indicar, capaz de assegurar os im- teresses da S/A que constituiram em torno da familiar (ou seria mais correto dizerfami- glia?). O trauma de 96, cor Ramiro Bentes, mostrou que o capo Hlio, poderoso quan- do 6 o candidate, nio consegue transferir seus votos corn a facilidade na qual ele pr6- prio acreditava. E possivel que volte a dis- putar o governor para preservar esses inte- resses. O senado poderia ficar para a apo- sentadoria definitive. Essas ziguezagueantes perspectives deve- riam pelo menos acautelar o governador, ca- pacitando-o a adensar cada vez mais sua pr6- pria estrutura political, dando-lhe autonomia, e procurar uma identidade. Nio t6-la, por6m, parece ser a maior carencia de Almir Gabri- el, at6 aqui incapaz de liderar uma tropa de combat direto is velhas liderangas political do Estado, em relag.o is quais sua mais ge- nerosa promessa era a de ser uma alternati- va de mudanca. O governador se adestra nas preliminares, mas recua nos confrontos prin- cipais. Continue a ser um coadjuvante, poli- ticamente satilite do brilho alheio. Nio 6e que procura demonstrar sua as- sessoria, batendo na tecla de supostas 41 pre- feituras conquistadas na iltima eleico nos 142 municipios do Estado. Mas o PSDB nao e ainda um partido no Pari e algumas das vit6rias se tornario mirificas dentro de al- gum tempo, se nio forem consolidadas. Nunca 6 demais lembrar que Francelino Pe- reira proclamou a Arena como o maior par- tido do Ocidente algum tempo antes da agre- miaco reduzir-se a escombros, sobre os quais o PDS renascente nunca foi propria- mente um fenix, nem sequer um Lizaro. No cargo e se, a partir de agora, de- monstrar a foria que ainda nio revelou, o governador como quase todo governa- dor neste pais de executive hipertrofiado 6 candidate de peso. Os pesos politicos, contudo, foram relativizados na dispute municipalista deste ano. Ningu6m 6 mais o cacique da political, como o foram, no passado, Lauro Sodr6, Antonio Lemos, Magalhies Barata eJarbas Passarinho. Mas as raposas continuam em campo. A novi- dade, restabelecida pela apuragio dos vo- tos de 96, 6 que essa sagacidade vai ser quase tio important quanto o poder ins- titucionalizado, o que diminui a vantage do governador, mesmo na promissora conjuntura da reeleicao. Ele pode set o pole-position, mas a corrida esti aberta a surpresas e imprevistos. Ao inv6s de ser aconfirmao, ele pode se tornar a exce- 0Io i regra, segundo a qual quem ter as chaves do eririo nio perde eleicio. O senador Jader Barbalho, por exemplo, que por algumas 6ticas 6 visto como o mai- or derrotado nas mais recentes eleiC6es, de- monstra um folego de gato. E verdade que ele ji perdeu algumas vidas, mas nio pare- ce have esgotado sua reserve. Negociou cor habilidade em Brasilia a reocupagio de cargos-chave da administraq o federal, como a Sudam e a Telepari, passando por cima do tucano local. Vai ter onde abrigar as liderangas political do interior que for- marem sob seu comando, montando uma estrutura paralela a do governor estadual. E, mais uma vez, 6 dono absolute do PMDB paraense, colhendo os frutos do ofusca- mento de sua ex-mulher, o grande sucesso electoral de 1994 e o grande fracasso neste ano (como, alias, o pr6prio Jader previu, numa longa conversa sem offs no restau- rante O Outro, um ano antes da debacle). Mas, como seu ex-amigo Helio, quem Ja- der poderi indicar para disputar o governor em 1998 se nio tern sido bem-sucedido na transferencia de votos e se recusa a cultivar sombras? Seri que veremos, entio, o combat di- reto entire as duas iltimas especimes do ba- ratismo, o Jurissico-Gueiros contra o Pre- Cambriano-Barbalho? Seri que, no con- fronto direto, eles nio acabam repetindo o que ocorreu neste ano: destroem um ao outro, abrindo caminho para o novo? Pode-se, por6m, ter espeianga quanto a novidades consistentes no Parn? O pr6prio Jader, 15 anos atris, personificava essa pro- messa. Filho temporio do caudilhismo pes- sedista, ele parecia vocacionado para sepul- tar um estilo politico do qual o pai consti- tuia geracio remanescente. A promessa nio se sustentou mais do que meses. Logo ele passaria a se enquadrar no molde do ad- versirio que antes combatera. O senador Almir Gabriel se tornaria a promessa seguinte diante de um eleitorado que, perdendo os terms de refertncia para maiores exigencias, se predispunha a apoi- ar quem nio precisasse apontar obras para esconder seus custos. O discurso de Almir era compact, coerente, sedutor. Dois anos depois o discurso continue satisfat6rio, mas nio 6 muito mais do que isso. Discurso born, Jader sempre teve e, quanto a apeti- te, ter incomparivel vantagem sobre Al- mir. O governor do Estado exige um coman- dante decidido e Almir parece continuar a ser um secretirio-executivo (ou seria mais apropriado falar de secretirio-geral?), que nio se coloca i frente de seu exircito, nem Ihe indica o rumo. Pode se tornar uma ree- digio, revista e modificada para tempos de- mocriticos, do que foi Fernando Guilhon. E capaz ati de dar nome a uma penitencii- ria, castigo a que todos os governantes de bons prop6sitos e desajuste em relaaio aos tempos vividos estio sujeitos. A mais recent promessa de mudanaa 6 a vit6ria do PT em Bel6m. S6 os integran- tes dos esquemas politicos dominantes es- tdo apostando no fracasso da administra- gio Edmilson Rodrigues. Mesmo os que nio colocam suas fichas na pessoa do pre- feito eleito, esperam que ele, entendendo a natureza de sua vit6ria, cumpra o papel que Ihe cabe: abrir uma nova porta na political paraense, pela qual liderangas mais identi- ficadas corn o potential do Estado (e me- nos esmagadas pot sua realidade imediata) possam despontar e trabalhar pela aproxi- maio entire a representatividade political e a dinimica social, sem a qual nosso desti- no ji esti tragado (e nio 6 na rota das es- trelas). Conseguiri o PT de Edmilson desempe- nhar esse papel? Por enquanto, 6 divida. Pela primeira vez um dos eixos da miquina political passari pelo monobloco petista. Essa estrutura mostrari se ter condiq6es de responder ao desafio, suportando a pres- sio dos atritos ou desfazendo-se neles para se tornar um acidehte de percurso. Nesse caso, sobrarao dividends para o senador Ademir Andrade apresentar-se como alter- nativa saudivel (porque ainda apenas ima- ginaria, com o foram Jader e Almir) do lado esquerdo do poder, indicagio topogri- fica t6nue, mas operacionalizivel. De qualquer maneira, hi ventos onde, at6 hi pouco, dominava a calmaria. Velas vio ser hasteadas para aproveitar o tempo fa- vorivel. A campanha eleitoral, por isso, vai comeaar mais cedo do que nunca. Quem sobreviver, navegari. 0 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DB DEZEMBRO/1996 3 Chega ao fim omo aconteceu antes, no go- verno do Estado, chega ao fimn, melancolicamente, a adminis- tragio de HWlio Gueiros na prefeitura de Bel6m. Derrotado, o alcaide se iso- lou em seu palicio de inferno, como um czar-avestruz, que enfia a cara no buraco (ou, em adapta4go atualizada, na garrafa) para nio ver mais um mun- do que nao se curvou aos seus desig- nios e caprichos, desfazendo as proje- q6es de um sonho de onipotencia que mais se pareciam a um delirio (trmens?). NIo querendo sumir para a Europa, como a familiar, o burgo-mestre se manda para o Rio de Janeiro, de onde promete renovar a ameaga de voltar nas asas de um queremismo que o mau de- sempenho do PT poderi alimentar. O poder public municipal evapo- rou-se junto com o contrariado alcai- de. Nio hi nas ruas as tradicionais lu- zes natalinas que decoraram, nos anos anteriores, os muito uteis postes de ferro, comme-il-faut. Os camels toma- ram de vez as ruas do centro da cidade e de onde mais Ihes pareceu interes- sante, sem qualquer mediago fiscali- zadora. Poderio at6, nos estertores do alcaide-ferrifero, reocupar a Avenida Portugal, um dos brincos cor que os Gueiros se permitiram decorar a cida- de. E cavalo de Tr6ia deixado aos su- cessores para a volta da grande familiar ao cativante poder. Nenhuma o enlacou tanto quanto os Gueiros a partir de 1987. Eles devem achar que esse decenato de exercicio das redeas do Estado e da capital dei- xou inscrita a marca de um despotis- mo esclarecido. Como os Barbalho, mas corn pitada maior de esclarecimen- to no caldo de despotismo, os Guei- ros deixam seus totens os deles, ob- viamente, em ferro fundido, forjado, trabalhado e no que mais a tecnologia permitir a inventive da corporagio na presungio de se elevarem da efemera conjuntura a estrutura s6lida da hist6- ria. A professor Terezinha 6 o icone desse mostruirio. Ela deixa, por exem- plo, a escola-bosque do Outeiro como marco de uma nova era educational, que agrega e concilia o ensino aca- d&mico a habilitagio ecol6gica. Nio importa que o projeto, tendo comega- do cor orgamento de 1,2 milhNo de reals, tenha sido finalizado cor a im- a idade do ferr pres- sionante soma de R$ 6,8 milh6es. Quantas escolas do tipo, mais bem ajustadas, o outeirense emerito Mariano Klautau n~o construi- ria cor esse dinheiro? Ou melhor: ele utilizaria todo esse dinheiro em escola especial quando a basica more de ina- niqgo? Mas o guru da professor Terezinha, o soci6logo Pedro Demo, esta ai a mAo para recomendar essas levitag6es edu- cacionais de primeiro mundo. Aos que combatem esse elitismo com a peda- gogia do oprimido, a professor have- ra de responder que Demo nada custa a Semec, o que 6 verdade, onerando, isto sim, a Codem e a Cinbesa, graqas ao contorcionismo do qual os Guei- ros slo pr6digos quando querem via- bilizar seus empreendimentos. A vontade da primeira-dama 6 im- perial. Por isso, ela ignorou a sistema- tica rejeiqio de suas contas no TCM e continuou a aditar contratos caducos, indiferente a lei, que, como nio se can- sa de repetir o c6njuge, no Pari 6 po- toca. O Para todo virou potoca para quem, do mundo, tern a vislo limitada ao pr6prio umbigo. A administration HWlio Gueiros gastou milh6es de reais em obras como o terminal pesqueiro do Ver-o-Peso, o embonecamento su- perfluo da Doca (matriz de uma tara auto-declarada, que, como toda tara, 6 cega ao discernimento), o igualmente sup6rfluo gradeamento do Bosque ou a multiplicago de penduricalhos urba- nos (todos laborados em ferro, 6 cla- ro), sem a correspondent melhoria da consciencia sobre seu uso, mas a capi- tal paraense nio avanqou um milime- tro na redugio do fosso que a separa de todas as demais ireas metropolita- o em Belem? nas do Brasil. Bel6m continue no distant rabo dessa fila. A dis- tincia, ao contri~io, s6 fez aumentar. At6 os maiores cri- ticos, no entanto, reco- nhecerio que, compa- rativamente aos ante- cessores, o atual pre- feito deixou mais obras visiveis. Mas sio obras fisicas sem coe- Srencia cor a estrutura Sprodutiva da cidade, como se os Gueiros - por todos os motives, os de inspi- raao superior ou nio fizessem obras para si apenas. E uma visio tio elitist quanto, por incrivel que parega (em- bora sem o mesmo 6nus), a do prefei- to Almir Gabriel, que recriou um Ver- o-Peso a sua image e, agora, 6 obri- gado a colaborar para salvar dos des- trogos que soqobraram da sua cria~io. Cor mais ou menos obras, maior ou menor aplicalo dos recursos pu- blicos arrecadados, maior ou menor exaqo, todas as gest6es municipals t6m agido a partir de um quadro de refe- rancia determinado. Nio tocam, por isso, na essencia da questio, a unica capaz de mudar para valer a triste situ- agio da capital dos paraenses, mas que nio gera tantos dividends paralelos quanto sucessivas obras fisicas: a fun- qao econ6mica de Bel6m num Estado que se interiorizou e numa regiao que mudou de matriz e vetores, deixando a cidade isolada em seu estuirio. Por isso, o maior problema de Be- 16m 6 o desemprego, sua incapacidade estrutural de absorver os contingentes crescentes de migrants que atrai, ge- rando esse pandem6nio corrosive do qual os ambulantes sio a manifestagco visivel mais profunda (a da criminali- dade 6 partilhada cor outras capitals) - e nao por acaso, a que menos aten- qio suscita na administration. O came- 16 nao 6 o cancer que ataca a cidade, mas a manifestaco externa da doenga que mina seu organismo. A maquiagem feita pelos Gueiros no iltimo quatri6- nio apenas disfargou, at6 o dia em que o chefe foi contrariado, esse quadro pa- tol6gico. Agora, 6 enfrentar a realida- de sem a cortina de ferro dos que, afi- nal, se vio e, talvez, ainda voltem. @ 4 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO/1996 Foi-se outro grande Joao do N um ensaio antol6gico para o sivel de um politico de direita. Num numero 2 da revista Aparte, do ensaio escrito originalmente para Fatos Teatro dos Universitirios de & Fotos na metade da d6cada de 60, Slo Paulo, de maio-junho de 1968, Wal- Lacerda entio purificado pelo exilio nice Nogueira Galvio desvendou "o dia percebeu a forga do lirismo de Joio que viri", a principal mitologia escapis- do Vale, o poeta que via a sua fungio ta nas letras de mfisica da MMPB (a si- como a de uma floor: gla entio em uso para a Modema Miisi- "A minha floor ca Popular Brasileira). Os composito- o vento pode levar, res prometiam a libertaqo num oniri- mas o meu perfume co dia que viral, poupando-se dos riscos fica morando no ar". de conclamar i a;io: "nio hi na can- Nio 6 essa a mais intima aspiraqio 9qo popular brasileira sinais de uma dos criadores diante das opressoes e consciencia avancada nem proposta represses, que inevitavelmente se aba- para qualquer ac5o que naio seja cantar", ter sobre os que contestam a ordem constatava Walnice, corn certo sectaris- vigente e sufocam a liberdade da cria- mo e muita melancolia, num ano que (so, e diante do tempo, que arrasta comegou projetando a revoluqio e ter- como poeira para atirar no infinito fa- minou afogado nas trevas. mas fugazes (mas trabalhadas em ouro Havia riscos, admitia Walnice, na por uma imprensa do efemero, que di 6poca conhecida apenas por um cir- cadernos a um Renato Russo e desde- culo de colegas universitaiios. Mas, em nha umJooo por ser "do mato" ou nio circunstincias muito mais dificeis do passar de primitivismo rural pre-capi- que aquela nas quais jovens artists ur- talista)? banos ou urbanizados (como Vandr6, Toda a percep;io em Joio do Vale Chico Buarque, Gil, Caetano e Edu era instintiva, quase natural. Nessas Lobo) estavam criando, "foi langado o funds raizes estava a origem da sua Carca, que esti ai, solitirio, para por forga. Ele era um element s6lido da em cheque a afirmacio de que nao hi natureza. Qualquer um dos privilegia- nenhuma canqio brasileira que propo- dos espectadores do show Opinio, 30 nha a agso. N~o hi nenhuma, de fato. anos atris, no Rio de Janeiro, podia Exceto Carcard'. sentir as emanac6es dessa forga boa O autor de Carcard, uma autnntica quando Maria Bethania, usando o tra- Marselhesa do sertao brasileiro, morreu je tipico daprotest song da 6poca (cami- neste m6s, aos 63 anos, e foi enterrado sa de malha de manga comprida ver- em sua pobre terra natal, Pedreiras, no melha, cala jeans clara, sapato mocas- interior do Maranhio. Como de espe- sin sem media, os cabelos press em rar, o senador Jos6 Sarney fez o elogio coque na nuca) comecou a descrever o finebre do morto e a imprensa reser- carcara corn sua voz ispera de serta- vou-lhe burocriticos registros. Nada a neja. No meio da misica, lidos em off, altura do que fezJoao do Vale em meia dados estatisticos sobre a mis6ria nor- duizia de muisicas que estio no nirvana destina aumentavam a combustio at6 da criagio musical do povo, daquelas o epilogo famoso, mastoso: perolas que, quando caem no pintano, "Carcar, slo privil6gio de descobertas ao acaso pega, mata e come". ou terminam condenadas ao refocilar A explosio de palmas traduzia o de- dos porcos. Joio foi, para o sertIo, o lirio da plat6ia, desejosa de reagir aque- que Cartola ou Nelson Cavaquinho re- les tempos ruins que mal comegavam, presentaram para a favela, irmanados nem que fosse apenas numa letra de na marginalizagio social brasileira. misica, mesmo que nio houvesse nela As p6rolas do maranhense Joao do nenhuma proposta para o future, s6 o Vale sobreviverio, mesmo que seu va- instintinto de sobrevivencia, que, no lor s6 venha a ser plenamente reconhe- sertio, 6 a primeira natureza. Era a des- cido na releitura, pela sensibilidade do cric;o de um mundo pungente, mas es- olhar voltado ao passado cor a pers- tranho ao habitante litorineo, um mun- pectiva do future. Se mereceu ser ele- do indispensivel em qualquer projeto vado i condi~io de exceq~o solitimia para o pais. Numa forma mais destitu- na musica de protest por uma inte- ida de adjetivac6es e juizos de valor do lectual de esquerda como Walnice,Joio que Os Serties, de Euclides da Cunha, da Vale tamb6m teve a indicago sen- meio s6culo depois dele, Joio do Vale nosso sertao apresentava para o sul-maravila o so- brevivente do sertio, o Carcard, que mata e come o que rest de vivente na terra submetida a inclemencia do sol para poder estar a postos quando um minimo de salubridade se restabelecer, o personagem que Gliuber Rocha ale- goricamente queria em acio no sertio, sem as intermediates diversionistas de deus e do diabo ("a terra 6 do homem/ nio 6 de deus nem do diabo", cantava a m6sica de S6rgio Ricardo). Tudo o que Joio do Vale tinha para dizer estava ali nas suas toadas, bai6es, emboladas e maxixes, cor os quais de- vassava tudo o que via, por onde via: "Eu vi a lavadeira pedindo c6u e o lavrador pra cover. Os dois cor a mesma razio, todos precisam viver". Sua conversa era animada, viva, in- teligente e insinuante, falar de sertane- jo (ainda que do Meio-Norte, numa terra de emigracio compuls6ria, como foi o Ceari), cheio de malicia na lin- gua, mas de alma transparent. Ter cri- ado Cacar, se o pais entendesse seus nais, teria sid o bastante para garan- tir-lhe a gl6ria e uma vida decent para sempre. Mas a vida pessoal sempre foi uma insuperivel sucessio de compli- cao6es para Jolo do Vale. Ele acabou esperando a morte ap6s anos de sofri- mento fisico, pobre e amargurado. Temn sido invariavelmente assim para grandes criadores do povo como ele, mas o pais faria bem se se perguntasse se tem mesmo que ser assim, a miseria final do grande Joao do Vale contras- tando com a opulencia dos xitiozinhos & xoror6s da vida, mediocridades que se multiplicam em par como virus p6s- modemo. Se vai continuar assim, de minha parte tomo a liberdade de usar este pe- daqo do Jornal Pessoal para, no fun- do da alma, agradecer a Joao do Vale por tantos moments de alegria, de re- juvenescimento e de crenqa no ser hu- mano que ele me permitiu cor sua m6sica. Como observou Walnice 30 anos atris, essa m6sica 6 iinica, urbi et orbi, hic et nunc, como entio podiamos dizer, literalmente gastando o latim que nos fizeram aprender a recitar. A cam redonda e bonachona de Joio e agora lua preta no firmamento dos maiores criadores da musica brasileira. Vai es- tar em casa, li em cima. 0 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE DEZEMBRO/I996 5 Renasce uma estrela no Tribunal de Contas AConstituigio federal estabeleceu ue as demonstrates financeiras o Tribunal de Contas da Uniio t&n que ser submetidas pelo president da instituiio ao colegiado, que as anali- sari e julgari como todas as demais con- tas da administrago pfiblica. Os tribunais de contas estaduais t6m que seguir o mes- mo modelo. Mas neste m6s houve urma inovagio no Par: a Assembl6ia Legislati- va mandou auditar as contas do TCE e, corn base no relat6rio de seus pr6prios inspetores, rejeitou-as. Corn isso, criou uma situaqio embaraqosa, capaz de ser re- solvida judicialmente, tio flagrante 6 seu descabimento, mas que funciona como re- presilia. A id6ia da AL de, pela primeira vez, sub- meter seu 6rgio auxiliar mas aut6nomo - de auditagem a uma inspecao internal parece ter surgido a partir do moment em que alguns deputados tiveram acesso ao relat6rio do TCE sobre as contas do legislative estadual. Esses parlamentares se sentiram ofendidos corn refer6ncias do relat6rio ao uso indevido do dinheiro pi- blico. A original inspe~io que inspiraram entdo teria o sentido de retaliaio. Talvez tudo ficasse numa exibilio de forca, que serviria para inibir a furia do adversirio, se a mi condugio do relat6rio para a apre- ciaq~o no plenino nio acabasse levando a maioria preciria (14 a 12) a aprovar a rejei ~o das contas do TCE. O inimo dos deputados se acirrou prin- cipalmente quando Zeno Veloso, secreti- ro da mesa, responsive pela leitura do relat6rio, observou corn sua irionia to- nitruante que um assistente de informa- tica estava ganhando no TCE 7.800 reais por m6s. "Imaginem quanto nio ganha o titular", observou Zeno, cujo salirio 6 bern menor e a funimo, de maior responsabili- dade. Na verdade, na gestio da conselheira Eva Andersen Pinheiro os salirios no TCE foram reduzidos a um nivel abaixo do ponto de escindalo que poderiam cau- sar quando comparados ao padrio dos demais niveis da administrago piblica. Os mais altos salirios (de conselheiros e procuradores, enriquecidos por efeitos- cascata) aida constituem informaqio si- gilosa, i qual nem mesmo os auditoses do legislative conseguiram ter acesso. Mas a evoluio exponencial dos anos anteriores, que projetou alguns salirios do TCE is alturas e consolidou ilhas de nepotismo na instituigio, foi contida, um m6rito da gestio de Eva Andersen que o incident de fim-de-ano ofuscou. Mas uma media estrat6gica ji foi to- mada corn a ascensio, aceleradissima, do ex-deputado Nelson Chaves i presiden- cia da corte, deixando para tris preten- dentes corn maior antiguidade. Embora Nelson nio tenha passado t hist6ria como um parlamentar particularmente fecundo em projetos-de-lei e outras iniciativas ca- racterizadoras do parlamento (seu iinico projeto sempre lembrado 6 a institugio de escov6dromos), sua disposicio de re- petir no TCE as provid&ncias cosm6ticas de saneamento adotadas quando assumiu a presidencia da Cimara Municipal de Be- 16m (vindo em seguida ao desastroso Aquilon Bezerra, qualquer acerto se des- tacaria) teri bom efeito. Ainda rhais porque nenhum lobby em Belim se equipara ao do future presiden- te do TCE, que tern trs jornalistas na sua assessoria pessoal de conselheiro. Essa preocupagio cor a image Ihe rendeu um record: sua escolha para a presid6n- cia foi noticia, durante cinco dias, no co- bigado espago da segio Em Poucas Uinhar, da coluna Repdrter 70, de 0 Liberal Escri- ta, alis, por um desses assessores. Nelson, que trocou as incertezas da dis- puta por qualquer novo cargo politico pela vitaliciedade de um lugar no Tribunal de Contas, frustrando os que apostavam em seu nome em 1992 e 1994, poderi, apo- sentando-se ao final da presid6ncia, em dois anos, garantir um padrio conforti- vel at6 o final da vida e voltar a carreira political, talvez retomando o grande sonho que deixou de lado em 1990: disputar a eleiio do ano 200 para ser o primeiro prefeito de Bel6m no novo s6culo. A pos- sibilidade de Exito pode set considerada tio certa quanto prever um farto e favo- rivel noticiirio na midia sobre essa deci- sio dentro de quatro anos, se Nelson nem a imprensa mudarem at li. rNovela reprsada ::; Logo depois que voltar das f6- (se 6 que nao foi sempre assi iwe no Rio deJaneiro, HlioGuei- desde os longinquos temposg ai0 poderia montar trincheira de 0 Liberalsob o control do , b ia coluna em A Provina do PSD baratista, e, em seguida fi6wasegundo as especulagaes cor- corn a atenuagao imposta pot i~attes na praa. Esta seria a con- Romulo Maiorana e pelo r finai o de que ele 6 um dos no- ligament forgado de H6liod-' ayos donos do journal, segundo os political pelos militares). Da ais afoitos, capazes de jurar que uma coluna para o 4tual alcai- i alcaide 6 personagem invisivel de da capital significa embar w Va transaao que transferiu o co- car em sua nau, sem o quyp oe dda empresa, do condomi- mesmo que comprar contrari-. w dos Diirios e Emissoras As- edades, como o pr6prio Guei - s para Gengis Freire. ros deixou claro ao ro -lNio necessariamente. Mas cor Romulo quando ele niao proprietirios formats de A lhe deu apoio incondicional na;s aa sabem que o jornalis- dispute para o senado contra.., se tornou apenas instru- Jarbas Passarinho. to a servigo de projetos Naquela 6poca a chantagem . Siticos para Hdlio Gueiros deu certo. E agora? -4 Um comego 0 problema mais imediato que a administra- qio Edmilson Rodrigues vai enfrentar 6 o dos camels. Amultiplicaao anquica,estimulada em fim de safra por H6lio Gueiros, toma impossivel a manutenqio das legi6es de ambulantes que to- maram conta do central Sua presenga 6 um ates- tado de falncia da gestao public municipal Mas, evidentemente, uma mera soluio de fotra 6 ur desprop6sita O que fazer, entio? A resposta satisfat6ia s6 poderi ser dada a m6- dio ou long prazo A long prazo, como lembra- va Lord Keynes corn humor sard6nico, todos es- taremos mortos. E precise fazer alguma coisa ji. 0 que se pode imaginary um cadastramento cor finalidade especifica. Atrav6s do levantamento, a prefeitura verificaria quem nio quer continuar como camel. Para muitos, a sobrevivencia na condiaio de ambulantes se inviabilizou. Apresen- tando-se espontaneamente, poderiam ser rema- nejados, desde que a prefeitura encontrasse uma opgio de emprego para eles. Seria apenas um co- mego, mas 6 precise comegar 6 JOURNAL PESSOAL 2 QNZNA DE DZEMBRO/1996 Ainda somos col6nia (seremos sempre?) O PParn tern a melhor jazida de Sr inrio de ferro do pais (e do planeta, mas as duas primei- ras grandes siderdrgicas do Norte e Nordeste vio ficar no Ceari e no Ma- ranhio, ambas alimentadas cor mine- rio extraido do subsolo paraense. A usina do Ceari, corn investimento de 800 milh6es de reals, vai produzir um milhio de toneladas de aqo nao piano. A do Maranhio, aplicando R$ 250 mi- lh6es, produziri um milhio de tonela- das de places de aco. Dos dois proje- tos participa a Companhia Vale do Rio Doce, responsivel pela minera4io de ferro no Par. Nenhum dos dois projetos poderia ser instaladas no Parn, verticalizando a mineracio e mudando o perfil da base produtiva, o leitmotiv (por enquanto apenas ret6rico) da administration Al- mir Gabriel? Os cearenses, cor inteli- gncia (ver Jornal Pessoal n 146), ofereceram condiq6es excepcionais para abrigar a aciaria atrav6s de inova- gio tecnol6gica, mesmo nao dispon- do de fontes naturais de min6rio e de energia (tinham a seu favor apenas o porto). Ficamos para tris. A instalagio da segunda siderurgia em Sio Luis, anunciada na semana pas- sada, tern um nitido objetivo compen- sat6rio. E para aplacar a frustracio dos maranhenses cor o anuncio da usina no Ceara. A anilise das vantagens com- parativas oucompetitivas do Maranhio sobre o Pari pode nio ter sido consi- derada na decision, mas tamb6m os pa- raenses nio fizeram nenhum questio- namento que obrigasse os parceiros do empreendimento a trazer a siderurgia para pr6ximo da mina. O Park, ao que parece, foi excluido do espectro naci- onal. Deixa de ser lembrado at6 como adversario na decisao das decis6es mai- ores. O Maranhio pode ganhar outra compensacio, caso a metalurgia do cobre seja implantada no Par, junta- mente cor a mineragio e a concen- traqio do min6rio, se 6 que ao con- tritio do discurso official a implanta- iao da usina da Salobo Metais nao per- manega como uma questio em aberto diante das tr6s hip6teses de localiza- 9ao. Algumas fontes oficiais ou oficiosas reclamam do tratamento na visao delas injusto que os critics estariam dando ao governor Almir Gabriel nes- se aspect, de uma aparente incapaci- dade para atrair investimentos produ- tivos em relagio a competidores ime- diatos, como Maranhao, Ceari, Ama- pi ou Amazonas. Dizem que se o go- verno oferece vantagens aos investido- res 6 acusado de abrir mio de recursos publicos valiosos e escassos. E, se se retrai, 6 atacado como abilico e displi- cente. A said, onde estaria a said? Certamente, em claras e operaciona- liziveis defini6es de political public. O governor precisa saber o que quer e os meios a usar para atingir esses fins. Se existentes, devem ser acionados. Se inexistentes, criados. Inclusive a massa critical, um brain trust em condi96es de interlocuqAo no mesmo nivel corn os investidores potenciais. O Pari vai fechar a d6cada como o principal Estado minerador do BrasiL O que existe de mineraqio no organo- grama do governor reduz-se meia d6i- zia de t6cnicos agregados no departa- mento de uma secretaria n~o-setoriza- da, que trata tanto de comercio quanto turismo e mineraqio, cor raquitica estrutura de apoio. E condi~io condi- zente cor a mais do que evidence, ain- da que problemitica, vocago mineral do Estado? Obviamente que nZo. A partir dessa obviedade, at6 mesmo um tucano poderia agir para mudar a situ- agio. Mas continue a letargia. Uma fonte argument que a re- nincia fiscal e outras vantagens que o govemo pretend con- ceder a Salobo Metals 6 insignificant diante do que o governor mineiro ji garantiu a Mercedes Benz para a insta- la~io de uma fibrica de autom6veis da empresa emJuiz de Fora, incluindo at6 o desvio de um rio. Este poderia ser classificado como um caso melanc6li- co de estimulo ao canibalismo de re- cursos publicos, ji que a soma das van- tagens asseguradas pelo governor de Minas quase equivale a do investimen- to da empresa, de R$ 820 milh6es. Mas os casos paraense e mineiro nao se equivalem. O investimento da Salobo e quase o dobro do da Mercedes, mas a empresa de cobre, fruto da preocupante associ- agio da CVRD cor a multinational sul-africana Anglo American, nio tern as miltiplas alternatives locacionais a disposiqio do grupo alemio. A meta- lirgica da Salobo s6 pode ficar no Maranhio ou no Pari, o que reduz sua margem de barganha. Como a Merce- des tern mais possibilidades, o leilio dos Estados endoidece. Al6m disso, as conex6es (que os eco- nomistas chamam de linkages) para frente e para trfs sao reduzidos, no caso da Salobo, em comparaaio corn o da Mercedes. Boa parte do que o gover- no mineiro vai abrir mio se transfor- mari em investimento para circulaaio internal no Estado, enquanto na Salo- bo 6 dinheiro que vai ser transferido para fora, onde se fari sentir o efeito multiplicador do investimento. O que em Minas 6 retrioalimentacio de recur- sos, aqui 6 transferencia onerosa atra- v6s de relag6es de troca desfavoriveis. A definiio de uma vantajosa poll- tica piblica para o setor produtivo em uma regiio perif6rica, subdesenvolvi- da ou a designacao que se lhe quiser dar, 6 um desafio enorme, que s6 pode ser respondido cor muita inteligencia aplicada, mas inteligncia de ponta, adestrada no embate intellectual mun- dial, atualizada no tempo. Algu6m haveri dizer e demonstrar - que o Para s6 pode produzir caulim e n~o celulose ou papel, que deve ficar na mineraio do ferro sem ir i aciaria, que o miximo de pretens~ o ao seu al- cance em cobre 6 a metalurgia, mas ain- da assim poderemos estar comendo gato no lugar de lebre por falta de ele- mentos de argumentagio. Chega, po- r6m, de conhecimento por ensaio e erro, de mera intuicio e empirismo de orelha, por mais impressionante que seja a ret6rica dos nossos dirigentes. Se continuar assim, mesmo que evolu- amos, seri uma evolu~io aritm6tica di- ante do avanco geomntrico dos que se interessam por nossos recursos. A as- sociaqo, nessas circunstncias, deixa de ser parceria (esta expresso viciada) para se transformer em manipulagio. O Pari, infelizmente, nio consegue ser contemporineo de si mesmo. Esti pagando caro por isso e vai continu- ar comprometendo seu future na qui- tag~o desse compromisso. Somos sa- trapias nas quais o sitrapa enviado, es- colhido ou eleito se caracteriza, sobre- tudo, pelo muito de despotismo que usa e o pouco de esclarecimento que tem. Foi assim em muitas col6nias se- melhantes i nossa, espalhadas no tem- po e no espaco. E tamb6m a nossa condenacgio? 0 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO/1996 7 0 municipio estA falido. Quem e mesmo culpado? C omo entender que as prefeitu- As irregularidades tnm aumentado feito para os prefeitos recem-eleitos, o ras do Para estejam falidas, se tamb6m em funido da melhor fiscali- governador Almir Gabriel declarou a Constituigio de 1988 privi- zaqio. Apesar de sua origem viciada, o que esse fator nio pesa na situacqo das legiou os municipios na redistribuiqio Tribunal de Contas dos Municipios prefeituras. Minas Gerais, sempre to- tributiria national, transferindo-lhes ter sanado essa chaga cor a crescen- mada como referencia, tern quase cin- fatias de receita que at6 ento cabiam I te profissionalizagio dos seus quadros. co vezes mais municipios do que o Uniio e aos Estados? E visivel que audit cor mais compe- Pari, cujo territ6rio super de muito o A resposta mais ficil esti na ponta tencia as contas municipals do que o de Minas. da lingua: os prefeitos slo ladr6es, TCE a agio estadual. Os vicios da ges- Esse paralelo desatento tern autori- como todos os politicos. O diagn6sti- t6o municipalista apareceram cor mais zado a ffiria redivisionista de pessoas co ji pode ser aplicado a virios deles, clareza, o que nao significa, necessari- como o deputado Nicias Ribeiro. Mas, mas nio tern validade como generali- amente, que eles se tenham multiplica- embora em tese o territ6rio paraense zaqio. Se valesse, o pais ji teria sido do. E que antes eram manipulados e seja capaz de absorver muito mais do inviabilizado, embora, de fato, o alto escondidos cor mais facilidade do que que seus atuais 142 municipos, os cri- indice de apropriaco indebita de re- agora. trios de criaqgo de municipio conti- cursos publicos no Brasil, comparati- Se o TCM melhorou, o mesmo n~o nuam atendendo mais a clientelismos vamente a outros paises e a media aconteceu cor as administraq6es mu- do que a uma inspiraqco racional. mundial, deva causar preocupagAo aos nicipais. A consequ&ncia 16gica dessa Marabi exemplifica essa tendencia brasileiros. relaqco 6 a multiplicacio da rejeiqio de irracionalizante. Os limits dos qua- A lisura no uso do erfrio n3o e ape- contas de prefeitos. Pela primeira vez, tro municipios que passaram a ocu- nas um tema de moralidade p6blica. E neste ano, um prefeito municipal foi par o esparo onde, antes, havia ape- tamb6m uma questIo econ6mica: corn condenado pela justiqa por irregulari- nas um, nio seguiram nenhuma dire- tantas fontes de sangria (que dio aos dades nas suas contas. Corn um Minis- triz territorial discernivel, nem procu- brasileiros o dominio sobre a terceira trio Piblico mais ativo (e a definigio raram absorver e acomodar os pro- maior somas nas contas numeradas na dessa excrescencia que 6 a representa- cessos hist6ricos de tal maneira a as- Suiqa, que costumam abrigar dinheiro qio do Minist6rio P6blico junto aos segurar a harmonia e a complemen- de origem ilicita, cor oito bilh6es de tribunals de contas) e um judiciirio taridade entire as parties. Engendraram d61ares depositados em favor de qua- cumprindo minimamente seus prazos um impasse territorial que subsiste at6 tro mil milionirios secrets, segundo processuais, esse caso inico haveri de hoje. o journal Finanial Times de cinco anos multiplicar-se no future. Nesse caso hi, pelo menos, ativida- atris), o pais jamais teri poupanca in- Cor isso, a estrutura sonolenta que des econ6micas capazes de sustentar a terna suficiente para assegurar um cres- havia at6 recent (e ainda predomina) existencia das quatro unidades. Mas, em cimento economic sustentivel e, por desapareceri: mesmo para roubar, o boa parte dos casos dos mais recentes isso, saudivel. Mesmo que a economic prefeito teri que se modernizar. Espe- municipios emancipados, nem isso hi. vi bem, o povo iri mal. ra-se, 6 claro, que as estruturas inibi- As novas unidades territories ji nas- A qualidade do politico conta, evi- doras do roubo, ou punidoras de seu cemninviabilizadas, com perspectives de dentemente. Mas talvez a geraq~ o ante- cometimento, melhorem numa escala autonomia precirias ou sofrendo uma rior a que assume no dia 1l seja melhor. mais avanqada do que a dos ladroes, tend6ncia a inanigio. Inanic~o da qual Alguns' dos novos prefeitos nio sio favorecendo, pelo efeito demonstrati- o desvio do dinheiro piblico 6 apenas nada novos, nem de qualidade superi- vo, a lisura na conducIo dos neg6cios um dos sintomas, ainda que o de efei- or. Imaginava-se que as irregularidades publicos, que todos pretendemos ver to mais imediato e perturbador. Se as praticadas por eles os tivessem expur- instaurada no pais. causes nio forem atacadas, os efeitos gado de vez da vida piblica, mas estio Mas hi ainda um outro element que perdurarAo, a despeito dos discursos e de volta, pessoalmente ou atrav6s de influi sobre a peniria municipal. Sio dos falsos diagn6sticos, nem sempre prepostos. Por esse prisma, portanto, as os criterios da redivisio territorial in- apresentados cor o prop6sito de re- perspectivas nio sio favoriveis. terna do Para. Num pronunciamento solver o problema. 0 E parceria mesmo? Os m6dicos cooperados da Uni- med receberam um comunicado anunciando que a Big Ben, a mai- or rede de farmicias de Belem, daria descontos de at6 30% aos usuirios da cooperative. Aparen- temente, uma grande noticia. Mas que a parceria possa dar certo, 6 ne- cessirio que o medico "esteja ple- namente engajado e atento para recei- tar os medicamentos que constam na list do convenio, sempre que possi- vel e necessirio ao usuirio, pois as- sim estaremos conseguindo melhores descontos dos laborat6rios fornece- dores dos medicamentos, tornando a campanha viivel num maior period de tempo". A list ter 700 medicamentos, mas cabe perguntar: quem a defi- niu? Que consultas foram feitas para a elaboraqio da list? A Unimed, que pediu por circular a adesio dos conveniados, ouviu-os antes? A par- ceria 6 mesmo paritiria ou favorece mais os laborat6rios? Antes de acei- tar, e precise perguntar. Ainda no palanque e o fato tivesse ocorri- S do em um pais civiliza- do, o prefeito eleito te- lefonaria para a juiza respon- sivel pela ordem judicial de despejo e diria: Doutora, estou lhe telefo- nando para Ihe dizer que, na condicgo d.e prefeito eleito, embarguei a ordem de despe- jo e mandei a familiar reocupar o im6vel sob litigio. A juiza, tolerante, pergunta- ria: Doutor, o senhor consta- tou alguma irregularidade no cumprimento da minha sen- tenca? O prefeito eleito, sensivel ao drama human, responderia de pronto: Constantei, doutora. O official de justiqa exorbitou na execugio do mandado e alguns procedimentos formais nio foram cumpridos. A juiza, civilizadamente, ar- remataria: Entio, doutor, arranje um advogado para contestar a exe- cuqio da sentenqa e recorrer do m6rito. Mas se o senhoi continuar impedindo o official de justica de cumprir o que lhe determine, infelizmente terei que expedir um mandado de prisio contra o senhor. O mi- ximo que lhe cabe, como a qualquer cidadao, 6 tentar re- vogar minha decision. Ordem da justiga se cumpre. Ou en- tio vira anarquia. Mas essa situacqo simulada nio aconteceu na semana pas- sada, quando o prefeito elei- to, Edmilson Rodrigues, im- pediu o cumprimento de uma ordem de despejo contra uma familiar que ocupava im6vel alheio na rua dos Munduru- cus. Depois de mandar arre- bentar um cadeado colocado no portao pelo official de jus- tica e reinstalar a familiar no casarao, Edmilson telefonou para a juiza Isabel Benone, relatando-lhe as irregularida- des que verificou na execugao da sentenca. A juiza, entio, re- abriu em 24 horas o prazo para a said da familiar. E louvavel a preocupagao de Edmilson Rodrigues corn a questio social. Sua intervencIo pode ter favorecido uma defi- nicao mais just do impasse que existe hi anos entire o pro- prietirio e os ocupantes do im6vel. Mesmo corn o novo potential de bom resultado que abriu, no entanto, sua par- ticipag~o no epis6dio e preo- cupante. Apresentar-se como prefeito eleito, titulo sem qual- quer base legal, pode sugerir sua disposiio de recorrer ao triste "sabe cor quem esti fa- lando", p6rola do autoritaris- mo brasileiro, ou abusar da au- toridade da qual seri revesti- do no dia 1. Quando a aplicaqio da lei for incorreta, o desejivel 6 que se recorra dela e nio negue-se sua validade. Isto vale mais para os dirigentes do que para o comum dos cidadios. Colo- car-se acima e al6m da. lei 6 dar o primeiro pass para o auto- ritarismo e, na progressio qua- se sempre inevitivel, a tirania. 0 exemplo de Edmilson nes- se caso nio foi edificante. Nem exemplar foi sua par- ticipa~io no encontro dos pre- feitos da area metropolitan com o governador Almir Ga- briel. Edmilson furou a ordem natural de participago, por se- quencia alfabitica, falou duran- te muito mais tempo do que o acertado, suscitou quest6es que nio caberiam na agenda do encontro e tentou interromper o governador quando Almir Gabriel falava no fecho da reu- niio, depois de ouvir impassi- vel a nove discursos. "Nio o interrompi, nem Ihe dei a pala- vra", retrucou o governador a inconveniencia. Restou a Edmilson um em- barago de lider estudantil ou de politico que ainda nio desceu do palanque ou cuja empol- gaio cor a vit6ria ultrapassa o admissivel em tempo e inten- sidade. Espera-se que, a 10 de janeiro, ji esteja em condic6es de assumir a prefeitura de Be- 1&m tilo formal quanto psico- logica e espiritualmente. Seri melhor para todos que assim venha a ser. Belem do passado A prefeitura de Bel6m certa- mente ji gastou mais de 100 mil reais patrocinando a publicaco nos jornais de retratos de uni- versitirios que estio se forman- do neste ano nas universidades paraenses. Essa 6 apenas uma das despesas que o prefeito H6- lio Gueiros assume corn os for- mandos, desde que eles se dis- ponham a "elegf-lo" e/ou a es- posa, Terezinha, como patrons ou homenageados da turma. 0 patrociniopode incluir tambmn a recepcio de formatura. A presenca do casal nos ine- fiveis anndcios de colandos su- gere, ao desavisado, uma popu- laridade incomparivel do alcai- de junto aos universitirios. Mas sea attitude deixa sempre um re- siduo de gratidio, nio passa de uma relagio commercial. Os uni- versiitios abrem mao da prer- rogativa de homenagear pesso- as cor as quais efetivamente t&m ligago ou representativida- de em sua carreira academica, marcando corn sinceridade uma fase inica de suas vidas, para ter a possibilidade de colocar seus retratos nos jornais e fazer uma festa, transferindo a conta para ummecenas an6nimo: o contri- buinte. Ou seja; abrem mio de umn principio antes mesmo de con- fronti-lo corn a realidade da ati- vidade professional, renuncian- do a um ideal corn o qual, pro- vavelmente, jamais se reconcili- ario depois. E o prefeito faz po- litica pessoal com o dinheiro do eriio, como se a administragao piblica fosse a casa da mie Joa- na e a lei, potoca. Tudo isso para manter uma tradiaio de provin- ciana presungao, ji eliminada de quase todas as capitals do pais. Antigamente, pelo menos, havia o politizado trote dos ca- louros, animando a cidade corn sua irrever&ncia, criatividade e rebeldia, tragos caracteristicos do estudante que desaparece- ram nesse arranjo de troca de formatura dos nossos dias. O prefeito H6lio Gueiros conse- guiu o que pretendia: transfor- mar os colandos, i sua unagem e semelhanga, em negociantes de convicg~o. Autonomla pra qu6? Algum tempo atris a co- politics cultural. L eswu.i hlna mantida pela Universi- os nomes de todos os pals- dade Federal do Painos jor- trantes, exceto o meu. nais de domingo, ao noticiar Os responsiveis pea pro, urn dos events acadlmicos, mocio gaantem que relaci- fez referencia ao men nome onatam meu nome na nota como palestrante. A coluna encaminhada i assessor ide saiu em O Liberal tal como imprensa. Se houve census, foi produzidapela assessoia nio foi em 0 Liberal, ji que de imprensa daUFPa. Gerou a coluna sai igul em A Pro- umacrise intern: meu nome vincia do Pare no Dirio do faz part de um index de ve- Pari tados. Para o journal, sou um Quem for capaz de expli- morto emvida. Hi ordem de car o incident, que se spre- elmunar qualquer referncia senate. Afinal, a coluna paga ao meu nome, seja li onde e a Universidade considers for. uma de suas grades platan- No ultimo domingo, a co- forms defender su autono- luna da Universidade noti- mia. ciou um cido de palestras Seri que essa autonomam. promovido pelo DCE sobre nio se aplica a 0 Liberal? Jornal Pessoal Editor responsivel: Lcio FlAvio Pinto IIlustres e edtorago grifica: Lui de Faria Pinto Reda9io: Passagem Bolonha, 60-B- 66.053020 Fo. 223-19292443728 Contato: Tv. Benjamin Constnt 845/203 60.053-020 Foe 223-7M0 8256F3i3718 02/03/03 347GB -*.g |
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