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Journal Pessoal E D I T O R R E S P O N SAVE L UCIO FLAVIO P I N TO ANO X la QUINZENA DE OUTUBRO DE 1996* R$ 2,00 ELEICAO Boa surpresa vem no final A apenas uma semana da eleicao, o PT apareceu na frente na penOltima pesquisa do Ibope. Ainda nao 6 tudo, mas 6 alguma coisa. A surpresa pode abrir novos caminhos politicos no principal col6gio eleitoral do Estado. K dia 3, aturdido pelo Ibope. A uma semana do 1o turno da dispute, o resultado da pe- nultima pesquisa (a filtima, de surpre- sa, foi deixada para a v6spera da elei- 95o) do institute trouxe a mais des- norteadora das surpresas de toda a camparha: Edmilson Rodrigues, do PT, passou A frente de Ramiro Ben- tes e Elcione Barbalho, que pareci- am garantidos para a queda-de-brago do segundo turno entire as duas oli- garquias political do Estado. O resultado da pesquisa foi rece- bido com euforia pelos petistas e com certo ceticismo pelos adversarios. Mas ningu6m contest que, ao final da campanha para o 10 turno, o can- didato do PT foi o ainico que nunca caiu, mantendo sempre uma tend8n- cia ascendente ao long dos tres me- ses de sondagens do Ibope, que a Rede Globo consagrou como a mais influence fonte de aferi9go de pr6vi- as eleitorais. Qualquer que seja o resultado da votagao desta quinta-feira, de previ- sibilidade temeraria diante da peque- na diferenga (de sete pontos percen- tuais) entire o primeiro e o quarto co- locados na penfiltima pesquisa do Ibope (que 6 Cipriano Sabino, do PPB), as surpresas que foram surgin- do na sucessao de pesquisas parece revelar que o eleitorado da capital paraense nAo esti tdo enrijecido e cristalizado quanto parecia. A dispute para valer comegou, em julho, do ponto em que o quadro elei- toral fora deixado em 1994. Elcione Barbalho aparecia com os dois ter- 9os de preferencia que constituiam o acervo do ex-marido, o sena- dor Jader Barbalho, e sem per- OS CORNI DA REFORMA AG'A' A 'PG.7 2 -JORNAL PESSOAL 1 QUINZENA OiTUBRO 1996 der o status de a deputada fe- deral mais votada de todos os tempos no Para. A queda provocada pelo calor da campanha, dos 39% ini- ciais para 30%. era previsivel. Mas nao o ponto em que chegou, de 20%. A causa mais provavel pode ter sido a aparicao de Jader Barbalho na TV para exercer o direito de resposta em continues intervalos ao long de tr6s dias. At6 entAo, Elcione parecia estar realmente iniciando uma carrei- ra solo, com a perspective de se tor- nar independent do ex-marido e fi- car imune a mi image que a ele foi imposta na capital. Mas a subita e intense participagao do senador do PMDB pode ter comprometido essa expectativa. Essa pode ser a explica9,o para um dado desconcertante da pesquisa do Ibope. que ninguem revelou: para cada eleitor que prev6 a vit6ria de Edmilson Rodrigues, oito acham que quem vai ganhar sera Elcione Barba- lho. Na expectativa de vit6ria ela 6 a primeira. cor folga. Mas a maioria dos que acham que ela ganhard nio votara nela. Isto pode significar que o povo gosta de Elcione, mas nao acredita na sua autonomia political. Esta contradicgo pode ter-lhe sido fatal. A campanha de radio e television da ex-primeira dama foi desastrosa e tambem pode ter contribuido para nao firmar a imagem de independ6n- cia da qual era carente. Depois de ter elogiado Hl6io Gueiros, ir para o con- fronto com ele poderia parecer opor- tunismo e inseguranga. A campanha so funcionou para desgastar a ima- gem que os marqueteiros da coliga- 9Co official queriam projetar de Ra- miro Bentes, como uma solu9,o t6c- nica. honest e eficiente para a pre- feitura. Mas, ao se acusarem mutua- mente, os dois se arrastaram para o fundo. Esse moment foi captado cor fe- licidade pelos assessores de Cipria- no Sabino. O quadro do elevador, uma revisAo critical e bem humorada do que havia aparecido no program de Ramiro Bentes, foi o melhor acha- do da campanha, antecipando a ten- d6ncia que, logo em seguida, o Ibope registraria: Edmilson Rodrigues e Cipriano subindo, enquanto Elcione e Ramiro desciam com o bate-boca de comadres. Essa foi a tendencia inquestioni- vel da ultima quinzena de setembro. Mas qual seria a posi~go exata dos candidates? Cor diferenga tao mini- ma, a margem de erro admitida na pesquisa estimula as interpreta96es conflitantes e o realce ao empate t6c- nico, feito pelos marqueteiros do ex- secretario municipal de finangas. Cri- ticas tamb6m sao feitas A amostragem estabelecida pelo Ibope. Para cada pessoa com apenas o an- tigo curso primirio que ouviu, o Ibo- pe selecionou duas cor o segundo grau e o curso universitario (50% e 25% do universe, respectivamente). Para 29% dos entrevistados que t6m renda de at6 dois salaries minimos, foram entrevistados 20% que rece- bem acima de 10 salaries minimos. E uma extrapolagao irreal do nivel de ensino e da verdadeira distribuig o de renda em Bel6m. A amostragem, as- sim, pode gerar alguma distor9go, ji que o PT 6 o preferido da classes m6- dia e Elcione a mais popular nas ca- madas mais pobres da popula9 o. Ibope mesmo propiciou esses uestionamentos. 0 institute nao informou qual foi a distri- bui9 o da amostragem por bairros. Toda a base metodol6gica foi entre- gue ao TRE meia hora antes da di- vulgag9o dos resultados da pesquisa. E, no dia seguinte, o Ibope registrou outra pesquisa, queji nAo estava mais prevista, levando os mais desconfia- dos a suspeitar de que a sondagem anterior preparara campo propicio para a nova aferig9o, esta em bases mais corretas, a ser divulgada na v6s- pera da vota9ao. A pesquisa do Ibope pode estar ab- solutamente correta, mas o institute, descumprindo os prazos da legislag o eleitoral, ter impedido a melhor ava- liaqao dos fundamentos de seu traba- Iho. Amplia o campo para manobras a partir das pesquisas, manobras para as quais a revista Isto6 contribuiu com a sobrecapa de sua pen6ltima edig9o, dedicada ao Para pela primeira vez. Independentemente desses questi- onamentos e do resultado real da vo- taqao, a maior contribuigao para a renovagao political em Belem esta sendo dada pelo PT. Nao 6 verdade que o partido simplesmente tenha mantido uma posiqao traditional no col6gio eleitoral belenense. Se fosse assim, Edmilson Rodrigues no teria partido de tao pouco, 5% contra 39% de Elcione em julho O crescimento decisive do PT ocorreu a partir da velha troca de acu- sa9bes entire as duas desgastadas oli- garquias political, a dos Barbalho e a dos Gueiros. Nesse moment o PT deixou de ser mero figurante para se tomar concorrente para valer, abrin- do inteligentemente o terreno para as retaliag6es dos dois grupos dominan- tes e oferecendo ao eleitor uma op- gAo administrative ou, ao menos, uma esperanga de mudanga. Explo- rou o terreno no qual deveria ter evo- luido a candidatura de Ramiro Ben- tes, se nao partisse para o desgastan- te confront com Jader Barbalho. O PT 6, portanto, a saudavel no- vidade desta eleig o. Seu sucesso pode ser apenas eleitoral e resultar em nova frustrag9o se, vitorioso, nao conseguir fazer a administragao que projetou para o eleitorado. Mas que- brou a gangorra que tem feito subir ao poder apenas jaderistas e gueiris- tas. No entanto, ainda nao ganhou o 1 turo. E bom nAo esquecer que apenas no distrito de Bel6m a vota- qAo sera eletr6nica (cor o risco de um elevado indice de erro): nos de- mais distritos seri manual. A fisca- lizaqao serA decisive. Derrotada, a deputada federal El- cione Barbalho pode ter sua carreira political comprometida. Se arrastarA junto o ex-marido, queji tanto a pre- judicou, ainda 6 uma inc6gnita. Uma derrota tamb6m afetarA os pianos do prefeito Hl6io Gueiros, ji langado para voltar ao governor do Estado. Sem uma base clientelista em Bel6m, Gueiros, com 71 anos na pr6xima eleig~io, nao tera folego para arrastar o interior. Uma luz se abrirA no fim do thnel. Isto nao 6 muito para restabelecer a confianga na lideranga political. Mas, diante do quase nada que se tem hoje, 6 um bom pretexto para comegar um capitulo novo no Pari. * JOURNAL PESSOAL I QUINZENA OUTUBRO/1996 -3 As tormentas uatro anos atras eu tinha por Franz I afka uma admiracg o distinta da que rXpossuo atualmente e nao tao pro- quanto agora. Acho que foi dos 15 para os 16 anos que me deparei com a me- tamorfose de Gregor Samsa na famosa no- vela. Poucas sensaq6es foram tAo esmaga- doras na minha vida quanto entrar no ca- minho do absurdo a partir da transforma- cao de Samsa em uma barata. A descriqAo de Kafka do novo mundo do homem-inse- to ainda faz meus cabelos ficarem eriCa- dos, como daquela primeira vez, em plena adolescEncia. Depois foi a vez de O Processo. Lendo na madrugada, parecia estar realmente num pesadelo, daqueles dos quais a gente tenta sair e nAo consegue. Talvez esteja nessa lei- tura a raiz mais s61ida da minha aversao visceral A burocracia, que me fez entrar de corpo e alma no jomalismo, lutando con- tra o virus burocratico que sempre o amea- Ca, agora mais do que nunca. Formavamos o clube kafkeano do Bar do Parque em meados da decada de 60, antes do golpe do AI-5 cair sobre nossas inquietas cabegas naquele belo e terrivel ano de 1968. Minha admiragAo por Kafka naqueles tempos ja remotos era estdtica, literaria. Eu admirava a capacidade aleg6- rica que ele tinha, de criar situag6es aber- rantes, bizarras, sem se desviar um mili- metro da intuiqao de realidade que entAo tinhamos e que 6, no minimo, o senso comum da percepoao. Hoje admiro ainda mais o escritor Ka- fka. Encaro agora sua obra pelo prisma de quem, hA quatro anos, vem sendo vitima de um process semelhante ao de Joseph K. Nao direi process kafkiano para nAo em- pobrecer a obra deixada pelo escritor, colo- cando-o em camisa-de-forga classificat6ria (Maquiavel sofreu da mesma vulgarizacAo - e parecia at6 ter dela vislo premonit6ria quando defendeu-se: ensinou, sim, a tirania aos principles; mas tamb6m mostrou ao povo como se livrar dos tiranos). Em setembro de 1992, RosAngela Mai- orana Kzan, em parceria cor o marido, Ca- lilo Kzan Neto, iniciou uma guerra de mor- te contra mim. O pretexto foi uma reporta- gem que escrevi neste journal naquele dis- tante mes daquele distant ano. A diretora administrative do Sistema Romulo Maio- rana de Comunicaqao me processou qua- tro vezes por supostos crimes de cal6nia, injulria e difamaAo que eu teria cometido contra ela. A prova do crime? O artigo no qual mostrava a luta internal pelo poder no grupo Liberal, travada entire ela e o vice- presidente do SRM, Romulo Maiorana JO- nior, um assunto do mais alto interesse co- letivo porque O Liberal e o arrendatario da opiniAo p6blica no Estado. Os fatos que related foram deixados de lado. RosAngela dispensou o testemunho da vida, a confia do irmno, personagem principal da hist6- ria, e nlo quis ouvir o de Ariovaldo Antu- nes, coadjuvante nimero um. As maiores violencias foram praticadas para que a mae dela, Dda Maiorana, minha testemunha, nio depusesse. Absurdos que nao passari- am pela mente de Franz Kafka pontearam os processes. Estio nos autos para quem quiser constatar (que falta que faz um Fran- cisco Cafica em Bel6m...). Nao vou reconstituir para os leitores toda essa sucessao de epis6dios de covardia, in- dignidade, inescrupulosidade et caterva. Havera o moment e o meio adequados para contar essa hist6ria, ajudando a langar lu- zes sobre as trevas, que costumam funcio- nar como pano de fundo para a aq o de um certo tipo de imprensa e um certo tipo de judiciario. Este registro serve apenas para informal os leitores de que, depois de ter sido conde- nado em uma mesma vara judicial, por uma mesma juiza (que havia sido removida an- teriormente da comarca de Maraba, onde deixou um rastro de irregularidades), pelo crime de escrever verdades desagradaveis a poderosos paroquiais, ainda continue ten- do que me defender muito mais de aW6es de bastidores judiciais do que de processes judiciais, sempre instruidos A margem da letra da lei, o que me obriga a uma presenqa constant no f6rum e sucessivas ausencias neste jomal. O tempo que me foi expropriado nesses quatro anos e os desgastes que sofri por en- frentar voluntariosos principles de algibeira se refletiu na minha vida pessoal e na mi- nha atividade professional, causando-lhes prejuizos irreparAveis e privando-me de ser- vir melhor a sociedade, A qual tenho dedi- cado o melhor das minhas energies. Mas enquanto sofria tres vezes con- denag6es que me foram impostas por uma magistrada mediocre, tAo voluvel a manobras na capital quanto fora antes no interior, o meu algoz permanece impune. O advogado Calilo Kzan Neto me ameagou de morte e me agrediu na entrada do f6rum de BelCm, diante de testemunhas. Alegou, depois, que estava sob forte emo- qao. Teria reagido em defesa da mae de seus filhos. Nada mais do que ardil: ele veio por trAs, me apanhou de surpresa, me abotoou, imo- bilizando-me, e comecou a vociferar con- tra mim. Reagi verbalmente, passado o cho- que inicial. Ele me soltou. Subiu as esca- darias. LA de cima gritou que me daria urn tiro se me encontrasse novamente. Ia em- bora. Voltou. Gritou de novo que me mata- ria se nAo conseguisse que ajustiga o aten- desse. Foi-se, entAo. A acao tem todas as caracteristicas de uma tentative de intimi- dacio pensada, adredemente planejada, como diriam os rabulas. Lutador de karate e atleta em tempo inte- nga no future gral, o marido de Rosfngela Maiorana sa- bia muito bem o que estava fazendo quan- do iniciou a agressdo contra mim. A des- proporgdo fisica entire n6s dois 6 brutal. S6 me restaria tentar defender-me. Numa briga desse tipo eu sairia tao mal quanto ele (pu- desse eu escolher as armas de combate, se, por exemplo, o forgasse a ler Grande Ser- tAo: Veredas complete, de uma s6 vez. lui condenado tr6s vezes por crime sub- jetivo, sem poder comprovar os fatos i que noticiara, todos eles verdadeiros. Calilo Kzan, rdu confesso, continue impu- ne. A agao pfiblica condicionada foi arqui- vada porque o representante do Ministerio Piblico, suposto fiscal da lei, nao viu crime algum no ato, apesar de o inqudrito policial caracterizar o crime de injiria real, confes- sado pelo agressor (que declarou-se arrepen- dido da ameaga de morte que fez), e a presi- dente do feito concordou cor essa ignomi- nia. A alAo particular s6 agora estd sendo ins- truida. E, como nao hd nenhum meio de de- fesa valido para o r6u, ele apelou para seu amigo intimo, o desembargador Jogo Alber- to Castelo Branco Paiva. Fazendo ojogo da obstrug o para permitir a impunidade do agressor, gracas i prescrilAo da aclo, que ocorreri a 16 de dezembro, o desembarga- dor, por infeliz acaso no exercicio da Cor- regedoria Geral de Justiga, exorbitou de suas fun9ies para bloquear a instrug&o do pro- cesso na 2" Pretoria Criminal, onde, final- mente, uma magistrada nao se sujeitou ao atrabiliario advogado (e por isso esta sendo coagida). Jd represented contra o desembargador ao Conselho Superior da Magistratura, na es- peranca de que os demais desembargadores do colegiado consigam manter a altivez e a independencia da' justiga, qualidades sem- pre lembradas em ocasi6es festival, mas nem sempre na rotina de abrigar os litigios e dar-lhes um julgamento decent e just. Passados quatro anos de tormentos sur- realistas, mais cresceu a minha admiragco por Franz Kafka, aquela sensivel alma que padeceu na transigqo de uma Europa varri- da por ondas de simpatia pelo totalitarismo. Mas minha confianga no ser human ndo diminuiu nem um pouco, apesar de ter tido que me relacionar cor tipos tao distantes desse padrao. Os vencedores vencerio, mes- mo se derrotados por compradores de sen- tencas e intimidadores de consciEncias. O tempo se encarregara de redimi-los, se seus contemporineos nao o fizerem. E essa convicqo, pelo menos, que me faz olhar para muito al6m de meus lilipute- anos inimigos. Ao contrario do que dizia La Passionaria dos fascistas de Franco, decla- ro: eles passardo. HaverAo de passar algum dia, menos distant se fizermos alguma coi- sa para devolve-los ao seu verdadeiro lugar: a poeira da hist6ria. * 4- JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA OUTUBRO/1996 Esta antologia demonstra: a reportagem niao morreu Igor Fuser, editor de assuntos gerais da revista Veja, organizou um volu- me de 652 pAginas (A Arte da Re- portagem, Scritta, SAo Paulo, 1996, R$ 43,00) para tentar recuperar o prestigio da reportagem. um genero em abandon ou desvalorizado na grande imprensa brasileira. O golpe mais duro foi dado A reportagem pelos universitArios do pro- fessor Octavio Frias na Folha de S. Pau- lo, a partir da decada de 80. Octavinho imp6s redea curta e bitola estreita aos ta- lentosos, obsequiosos e obedientes re- p6rteres do Folhio, a partir do pressu- posto de que o leitor "p6s- modemo" nao gosta de tex- tos longos e que eles costu- , mam servir de abrigo a hor- rendas subjetividades. -'- _ O maior santuArio de re- -. portagens em toda a hist6ria - da imprensa brasileira foi a _ revista Realidade, que a Edi- tora Abril criou em 1966 e -. deixou que os militares su- focassem, a partir do AI-5, --. porque j dispunha de Veja - e talvez Veja nAo medrasse enquanto vicejasse Realida- - de (esta hist6ria, como a do 7 - Correio da Manha precisa de urgente revisAo). Ler Realidade. hoje, da o mesmo pra- zer que ler Charles Dickens, Jack Lon- don ou Daniel Defoe, representantes mais distantes de um genero etemo. E mais atual do que as publicag6es encon- traveis nas bancas, assim como Senhor permanece mais densa do que todas as auto-declaradas publica95es culturais correntes. S6 evoluimos tecnicamente; nossa cabeca empobreceu. Qual o segredo de textos tao bons? A vivencia do tema. Os rep6rteres de Rea- lidade (sucumbida em 1974, quando ja era uma versao em tamanho maior da Selecoes do Reader's Digest) partiam de uma boa pauta e de uma proveitosa in- cursdo por arquivos sobre o tema. NAo chegavam ao assunto jejunos, ignoran- do significados e sutilezas; dispunham de um background pr6vio. Mas tinham, sobretudo, o tempo que fosse necessario para dominar, tomar o pulso do que iam escrever. Realidade, sendo mensal, ajudava na produ9io de mat6rias mais bem-elaboradas. Uma re- portagem podia durar um mis, ou mais, de apuragAo de campo. Depois vinha a laboriosa redagao. Rarissimos ja come- gavam com texto final. Havia um copiao j ; I -, 9! w .. Eiri - i: I intermedidrio, ou copies. Seguia-se a mAxima do copy Gracili- ano Ramos: um texto serA tanto melhor quanto mais papel houver na lata de lixo (hoje, com o computador, imagem em sentido figurado). E a extensAo do que se descarta que avaliza o que se aprovei- ta. Texto limpo de primeira 6 privil6gio de g6nios, por isso inicos, como Nelson Rodrigues. Para os demais, sAo os 99% de transpiraqAo para 1% de inspiralAo que um genio maior, humilde, receitava para si pr6prio: Picasso. Se era para fazer uma reportagem so- bre prostitutes, o .Y J@ reporter passava noites e noites cir- S culando no meio delas, se familia- S rizando, farejan- do uma hist6ria exemplar, um S.. tipo ideal, como prescrevem os so- A ci61ogos. As ve- zes o material se enriquece tanto que result em li- vro, como o que A ". Gay Talese escre- .-- .- veu (Honrados Mafiosos) sobre uma familiar da mAfia. Os Bonnano sao crueis, matam, extorquem, mas Talese mostrou gente ruim de came e osso e nAo tipos extraidos de manuais de psicolo- gia. E o melhor que o jomalismo pode produzir: uma reprodu9go, o menos dis- torcida possivel, do complex genero hu- mano. Ningubm 6 linear, nem sua som- bra. A unilinearidade 6 apenas um con- ceito fil6sofico, que Marcuse batizou. Aantologia preparada cor toque pes- soal por Igor Fuser (pessoalidade - I I Landsberg que talvez Veja nao lhe possibility no cotidiano professional) renova o prazer de ler verdadeiras repor- tagens, que s6 episodicamente brotam das Aridas pAginas da grande imprensa. LA estAo textos preciosos de gente que fez fama mais como escritor do que jor- nalista (como se o bomjomalista nao fos- se sempre escritor): Dickens, London, Euclides da Cunha, Carlos Fuentes. Ou de portentosos jornalistas brasileiros, como Raimundo Rodrigues Pereira, Elio Gaspari, Narciso Kalili, Ricardo Kots- cho, JAnio de Freitas. Como o pr6prio Fuser ressalva. hA la- cunas a preencher. Daniel Defoe, por exemplo. ficou de fora entire os remotos jornalistas. Tambem Mylton Severiano Filho, o Miltainho, entire os nacionais. Mas esse 6 apenas o primeiro volume de A Arte da Reportagem. Os leitores poderao induzir um novo volume no fu- turo, se a Scritta for estimulada a repetir a dose. Ajudard a oxigenar o meio jor- nalistico, tdo preso a obtusidades no moment. e minha parte, quero comemorar I om os leitores a inclusqo, nesse Jylivro, da reportagem que inaugu- rou o Jornal Pessoal, de setembro de 1987. Ao selecionar para a antologia a matdria que escrevi sobre o assassinate do ex-deputado estadual Paulo Fonteles de Lima, Igor Fuser escreveu a seguinte apresentaio: "Um dos maiores crimes politicos do Brasil p6s-ditadura military o assas-sina- to de Paulo Fonteles, advogado de pos- seiros do Sul do ParA passou quase em branco pela imprensa brasileira. Os gran- desjornais do Brasil trataram a noticia em pequenas notas, como um assunto de pro- vincia. Na provincia, o caso envolvia in- teresses grandes demais para permitir uma cobertura isenta. Dai o silencio.Coube a um reporter de Belem, num trabalho por conta pr6pria, a melhor reportagem so- bre o caso: Licio FlAvio Pinto, reconhe- cido dentro e fora do pais como um gran- de conhecedor dos assuntos da Amaz6- nia. Al6m de sua atividade professional para a imprensa do centro-sul (foi duran- te muitos anos correspondent de O Es- tado de S. Paulo), LAcio FlAvio edita cor recursos pr6prios uma newsletter intitu- lada Jornal Pessoal. O caso Fonteles 6 o tema do primeiro numero do Jomal Pessoal, em setembro de 1987. Fonteles, ex-deputado estadual pelo PMDB, mas publicamente vincula- do ao PC do B, foi morto aos 38 anos por dois pistoleiros de aluguel, no dia 11 de junho daquele ano. Lficio Flivio, em dois meses de investigates, destrinchou a his- t6ria do 'capitAo James', principal suspei- to de ter organizado o crime, e suas liga- 96es cor os provaveis mandantes, gran- des proprietArios de terras ligados A UDR (Uniao Democritica Ruralista). Rigoro- samente baseado em informacges com- provaveis, o reporter introduz o leitor num universe, violent e sem lei, de pistolei- ros, latifundiarios, policiais militares, agents do DOPS, do SNI e da Policia Federal. No texto que se segue, o exemplo de um jomalismo que tem como principal ingredient a coragem". 0 JOURNAL PESSOAL 1' OUINZENA OUTUBRO/1996 5 TESTEMUNHO 0 anjo da guard da nossa hist6ria oi um quarto de s6culo atris, mas parece que foi ontem. Depois de ler Musica e Misicos no Para, eu es- tava dividido entire duas attitudes. Admi- rar o responsavel por aquele minucioso trabalho de recuperacqo da hist6ria da misica paraense, que rastreara significa- dos por onde um olho comum nao en- contraria sequer registros, e lamentar que, nesse meticuloso inventArio, ele nao con- seguisse ponderar valores, nivelando cri- adores tAo distintos entire si. Eu nio conhecia pessoalmente o au- tor daquele livro, Vicente Salles, um pa- raense que se transferira muitos anos antes para o Rio de Janeiro, a meca de ontem e ainda de hoje dos paraen- ses, exilados ou nRo. Na coluna que eu assinava em A Provincia do Pari, Qua- rk (aveia quacker, segundo o saudoso Carlos Gomes Lopes, ainda por fora das ultimas da fisica de entao), uma metra- lhadora girat6ria para todos os alvos, es- crevi trds artigos resenhando o livro de Vicente. Ponderava no artigo que o autor po- deria ter tentado enriquecer a anilise das manifesta9qes dos escravos, por exem- plo, massacrados latu sensu, ou, mais sutilmente, pelo sincretismo compuls6- rio, mas conseguindo expressar, de con- trabando, formas mais livres de organi- zaqdo musical quando nao estava mais atento o olhar repressor do senhor es- cravocrata. Ganharia o livro incorporan- do essas novidades, que s6 um pesqui- sador paciente, aplicado e sensivel po- deria recuperar para a historiografia lo- cal, do que acolhendo os abundantes maneirismos musicals da 6poca da bor- racha, fogo-fituo que se esfumou quan- do o dinheiro evaporou do mercado, deixando apenas as marcas de uma 6po- ca postiga. Ao contrArio da esmagadora maioria dos medalhdes da 6poca (e de sempre), Vicente Salles mandou uma carta humil- de e superior como resposta. Reco- nhecia as deficiencias do livro e aco- lhia as critics feitas, mas poderia ir al6m do que produziu com as fontes pri- marias de que dispunha e sem os fun- dos que fazem a solidez do trabalho aca- demico americano, por exemplo? No ar- dor dos 20 anos, eu nao estava nem ai para as limitagaes: com essa idade a gente se julga eterno e poderoso; quer o infinite. Mesmo assim, consegui cap- tar algumas li96es, dadas sem tom pro- fessoral pelo pesquisador maduro ao in- saciavel critic iconoclasta. Quando conheci Vicente Salles pou- co tempo depois, no apartamento dele em Botafogo. no Rio de Janeiro, com- preendi as raz6es das limitag6es que eu apresentara ao Musica e Musicos (cur- vando-me, em seguida, ao notivel O Negro no Pari). Vicente 6 uma alma boa demais para conseguir critical os outros, principalmente os amigos, ou mesmo aqueles que, destituidos de mdritos, o procuram para obter sua avaliag9o, cri- ando um elo que nio consegue desatar (do que alguns tam-se aproveitado, como se aproveitam de outra boa alma, a de Benedito Nunes). E como se ele andasse pelo mundo de pantufas, daquelas que colocam nos nossos pds como condi9go para visitarmos museus. Vicente transit como um anjo bom, pe sobre pd, sem querer arranhar concei- tos ou desbancar imagens. Faz seu tra- balho honestamente, cor rigor, mas n&o avanga nada que Ihe parega perturbar os contemporfneos. No seu afA de contri- buir para recompor a maltratada mem6- ria local, a tudo aproveita e tudo incor- pora. mesmo que alguns components desse acervo merecam mesmo a desme- m6ria e o sil6ncio. N6s, que desfrutamos de sua presen- 9a fisica, perdoamos alguns conceitos exageradamente generosos que is vezes emite para nao causar qualquer tipo de contrariedade as pessoas. Vicente bem que poderia ter sido a fonte inspiradora de Jeremias, o bor, personagem de ou- tros tempos criado por Ziraldo. Mas nio 6 bom apenas por sua alma: sua contri- buigio para a cultural do Pard 6 unica, a mais fdrtil de todas, fazendo presenga na hist6ria geral, na hist6ria da m~sica, do teatro, no folclore, na iconografia e em quase tudo que se relaciona cor a pro- dugco humana. T ive o impulso de dar esse testemu- nho sobre Vicente Salles ao chegar em casa, abrir um envelope deixa- do na portaria e encontrar dentro dele, cor afetuosas dedicat6rias, dois estudos que Vicente fez sobre Carlos Gomes e mais dois livros de cordel da S6rie Gua- jarina que reeditou. Agora ja sAo quatro os titulos da Coleglo Literatura Popular Paraense por ele langados desde que, em boa hora, assumiu a direg o do Museu da Universidade Federal do Para. O museu, antes, era apenas um centro receptive de cultural, para emprestar o jargao do turismo. Estava estAtico. Vi- cente Ihe deu vida. Mesmo que ainda nAo seja um organismo coletivo, hi tantas vidas em Vicente que 6 como se fosse. O nicleo do museu 6 a cole9go de livros, folhetos, peri6dicos, partituras e objetos vArios que Vicente foi reunindo ao Ion- go dos anos. Ia coletar material na feira popular de SAo Miguel do Guami ou entire antigos vendedores do Ver-o-Peso. Conhecia pessoalmente essas fontes de uma cultural popular, que se mantinha informed por falta de um organizador, de algu6m com olho clinic para guardar o que s6 revelaria seu valor depois, quan- do se tornasse raridade. Sem essa reco- Iha paciente, quanto da cultural paraense ja nao teria desaparecido? iquei imensamente feliz quando a Universidade Federal do Para, num gesto de rara lucidez, adquiriu a colegao de Vicente e o trouxe de volta a Bel6m para assumir o museu. Vicente, mais do que n6s, sabe muito bem o va- lor dessa iniciativa. Quase tudo o que ele produziu deve-se A sua pr6pria obstina- 9co, que tantos sacrificios Ihe deve ter causado e a maravilhosa familiar que construiu, unida pela mfisicalidade de to- dos e pela mansa sabedoria do patriarch ex-cathedra, mesmo sem quere-la para si. Ji na fase mais avancada da vida, mas tao produtiva quanto antes, Vicente ter a oportunidade que faltou a tantos intelec- tuais de sua geragAo, cujo talent a desi- dia geral sacrificou, fazendo de n6s mes- mos os maiores prejudicados. O que cons- trange 6 que essas pessoas querem tio pouco. Com as minimas condig9es, dao contrapartida desproporcionalmente fdr- til em relac2o aos meios que se Ihes ofe- recem. Num pais mais consciente da im- portincia de resguardar sua mem6ria, se- riam icones. Aqui, estao permanentemen- te suejitos a incompreensies e maltratos. Que bom que essa desconsideragaojA nio se aplica a Vicente Salles. Se os de- sencontros da vida nao nos possibility melhor convivencia pessoal, devemos aproveitar os moments de contato para reavivar o compromisso que devemos ter com eles e reforgar nosso penhor pelo que tem feito e, certamente, ainda fa- rao. Vicente 6 dessas preciosidades que faz a vida de uma regiao mais inteligen- te, interessante e valiosa. Obrigado por tudo, mestre. 0 6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA OUTUBRO/1996 a sabia musica de desafio do |Nordeste adverte: "nao ha quern cuspa pra cima/ que nio Ihe caia na cara". Pensei nessa musica, feita a dois vio- 16es pelos repentistas Z6 Pretinho e Cego Aderaldo, e no velho ditado segundo o qual "quem cor ferro fere, cor ferro sera ferido", ao ver a professor There- zinha Gueiros aparecer no horario da propaganda eleitoral do TRE na televi- sao, duas semanas atrAs. A primeira-dama do municipio fazia seu d6but no apoio explicit ao candi- date Ramiro Bentes, indicado pelo ma- rido da secretiria municipal de educa- qao, o prefeito HWlio Gueiros. Mas a pro- fessora Therezinha tamb6m foi a televi- sao defender os filhos, segundo ela viti- mas de campanhas eleitorais que sem- pre descambam para a ofensa pessoal. As families deveriam realmente ser preservadas do calor da dispute political. No entanto, elas s6 tem o legitimo direi- to a esse manto protetor quando nio se imiscuem no exercicio eventual do po- der por um de seus integrantes. Cessa de haver esse sagrado direito a privacidade quando a ascensio de uma familiar ao poder 6 acompanhada de nepotismo ou de outros tipos de favorecimento, a cus- ta do errio public. Ai os assuntos de familiar passam a ser de interesse coleti- vo. Devem ser abordados cor respeito, mas devem ser tratados mesmo. Onde estavam os filhos e parents da profes- sora antes de seu marido ser governador? Onde ficaram depois? Alias, cabe perguntar se os Gueiros sio apenas vitimas ou se, antes, tamb6m nao atacaram outras families e praticaram atos que agora condenam s6 porque pas- saram de baladeira a vidraqa. Nao 6 pre- ciso nem remontar a 6poca em que HC- lio Gueiros prestava servi9os ao baratis- mo nas paginas de O Liberal, entio 6r- gio official do PSD. Honra, para o jor- nal, era como o corpo do joelho para cima na mira de zagueiros truculentos: t.ido passa a ser canela. Basta lembrar epis6dios mais pr6xi- mos. Como na campanha para a elei9go de H61io Gueiros como senador, em 1982. O marido da professor Therezi- nha abriu para o pfiblico segredos que s6 conhecia por ter acesso a alcova de Romulo Maiorana. Frequentador de apo- sentos intimos ter que obedecer um c6- digo de honra. H6lio Gueiros ignorou o mais comezinho dos principios: por sen- tir-se traido, vomitou o que deveria guar- dar. Foi depositario infiel de confid&nci- as do ex-amigo, ao qual retomou quan- do Ihe foi convenient, como sempre faz. HClio Gueiros fez tais inconfidencias em artigos assinados. Em artigos nao assinados, aproveitando-se como de seu feitio do anonimato na principal colu- na do Diirio do Para, do qual era o alia- do de ocasiAo, desferiu ofensas contra Romulo, sua esposa, Dea, e a familiar Maiorana, no melhor estilo dos arougues morais (moral, alias, 6 verbete que nIo integra o dicionArio do atual alcaide). Nao vou nem falar da carta pornogrA- fica que ele me mandou, em 1991, dois meses depois de ter deixado o principal cargo pdblico do Estado, o de govema- dor. Diz uma testemunha que a profes- sora Therezinha teve acesso pr6vio Aque- la imundicie. Nao sei. Mas, tao zelosa dos valores da familiar, poderia ter man- dado um recado qualquer para o ofendi- do, filho de um dos maiores amigos do pai dela, o querido "velho" Moraes, eu pr6prio amigo de Altima gera9lo daque- le bravo patriarca que o f6rtil Nordeste mandou para Santar6m. Nao o fez. Ao contrArio: teve a agressividade dos que culpam incautos civis por se postarem na trajet6ria de balas perdidas. A talentosa mestra talvez prefira subs- tituir o C6digo Penal por uma vitimolo- gia doidivanas, meio pass para a cami- nhada de tiranos, como seu consorte. Mas quem age assim um dia paga o devido pre9o: o feiticeiro, final, acaba sempre experimentando o pr6prio feiti9o e, quando isso ocorre, alegando surpresa, diz que nao gosta. 0 feitigo e o feiticeiro Nao e mais aquele Sprefeito H61io Gueiros "se esque- ceu" de citar em seus abundantes pro- gramas de radio e televislo de uma pes- quisa feita pelo Ibope, a pedido do jor- nal O Globo, do Rio de Janeiro, avalian- do a p6pularidade dos prefeitos de 20 capitals brasileiras. Em 11 delas a admi- nistraggo municipal foi considerada 6ti- ma ou boa por 50% ou mais das pessoas entrevistas, indice excepcionalmente ele- vado para administradores ji em fim de mandate. Jarbas Vasconcelos, de Recife, foi considerado o melhor prefeito do Bra- sil: recebeu aprovaalo de 79% de seus municipes. Ja o prefeito de Belem foi aprovado por 49% dos entrevistados, fi- cando em 12 lugar no ranking nacio- nal. EstA entire os nove prefeitos que ti- veram a aprovaAio de menos da metade das pessoas pesquisadas pelo Ibope. E bom lembrar que H61io Gueiros se elegeu prefeito de Bel6m, em 1992, corn aproximadamente 51% dos votos, um ano e meio depois de ter deixado o go- vero do Estado. Agora, no moment em que a prefeitura intensificou suas obras (em geral de fachada), de olho na suces- sao municipal, o indice de aprovagAo do alcaide 6 ligeiramente inferior. Duas interpretac6es podem ser feitas a partir desses numeros. Uma, C de que o desempenho de Helio Gueiros na pre- feitura de Bel6m nAo expandiu a sua po- pularidade, mesmo estando na fase mais important da sua gestao, forcando obras e (principalmente) propaganda para car- regar seu paquid6rmico candidate a PMB. A outra concluslo C de que ele ainda 6 o politico mais forte de Bel6m, sem conseguir, entretanto, transferir vo- tos para quem ap6ia, nem ter uma pre- senga eleitoral hegem6nica. Na AmazOnia, o prefeito cor maior indice de aprovagao C o de Manaus, Eduardo Braga, cor os mesmos 79% de Jarbas Vasconcelos em Recife. Braga esti conseguindo desbancar o boto tu- cuxi Gilberto Mestrinho na capital ama- zonense. ASSINATURAS Os pedidos de assinatura do Jornal Pessoal (R$ 15,00 por trimestre) podem ser feitas pelos telefones 224-3728 e 223- 1929, ou diretamente a rua Aristides Lobo 871. Junto com dados pessoais nomee e enderego complete), o interessado pode enviar cheque em nome de Licio Flivio de Faria Pinto para o enderego acima. JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA OUTUBRO/1996- 7 Reforma agrari brincar com fo superintendent do Incra em Sao Paulo, Miguel Abeche, foi demi tido do cargo por negociar com sem-terra. Contrariou a orientag~o supe- rior para que a negociacqo s6 fosse ini- ciada depois que os manifestantes sais- sem da sede do Incra (Instituto Nacio- nal de Colonizagio e Reforma Agra- ria), que haviam ocupado como ato de protest. JA no Para, o superintendent do Incra, coronel Floriano Amorim, foi desautorizado e, em seguida, exo- nerado por ter pedido a de- missao do executor do insti- tuto em Maraba, Ronaldo Giusti. O coronel acusara o executor de fazer o jogo dos sem-terra, que ocuparam a sede do Incra em MarabA e teriam tomado o executor como ref6m, mas com a con- cordancia dele mesmo, que teria canal direto de comunicacao com Brasilia. Por que o Incra age de uma forma em SAo Paulo e de outra no ParA? Para aumentar ainda mais a confusao, depois de ter sido mantido no cargo, con- tra a vontade de seu superior imediato, que era o superintendent no Para, o exe- cutor de MarabA pediu demissio, dizen- do tender recomendaqao da familiar e do partido, o mesmo do ministry que o prestigious, Raul Jungmann, o PPS (ex- PCB). Em Belem e em MarabB interi- nos. sem qualquer forca, estAo respon- dendo pelo mais explosive problema so- cial existente no Estado. Todos estranharam quando foi anun- ciado que o govemo federal escolhera um coronel da ativa do Ex6rcito para chefi- ar o Incra. Sensatamente, o indicado re- nunciou antes de assumir o posto. O substitute dele tambdm seria um coro- nel, mas da reserve, um paraense hA al- gum tempo fora do Estado. Dizia-se que o vereador Amaldo Jordy, niico parla- mentar do PPS no Para, apontaria o nome do dirigente local do Incra. Mas o go- vernador Almir Gabriel foi quem convi- dou pessoalmente o coronel Floriano Amorim. As informacqes disponiveis o apon- tavana como um military aplicado e ho- nesto, mas. como o pr6prio coronel re- conhecia, um leigo em matiria de refor- ma agraria. Nao fora nomeado. entretan- to, por conhecimentos ou experiencia provada na question. mas para impor or- dem no sector e controlar o Incra, visto no pr6prio minist6rio como um 6r- gao corrupt. Amorim seria um in- terventor manu milita- ri, a uinica jus- tificativa (em- bora nAo seja uma expli- caaio) para a sua desig- naCgo. Na primeira interveniao que fez, por6m, o coronel foi desprestigiado e mandado de volta para Brasilia. O governador que o indicou nada fez. A (mica participagdo de Almir Gabriel nos dois meses da ges- tio do coronel foi conseguir aumentar a gratificaggo da fungo por ele ocupada, de R$ 970 para R$ 1,7 mil. Os observadores da atuag~o de Amo- rim em Marabi dizem que ele ndo esta- va preparado para entender uma question social como a dos conflitos fundiirios, achando que poderia enfrenta-los como numa agio de commando military. Um re- sultado desse tipo era previsivel desde que o mesmo ministry Jungmann anun- ciou o nome do coronel (um outro foi para Mato Grosso, "restabelecer a or- dem"). Mas o coronel, fiado no aval re- cebido, andou dando tiros certeiros con- tra alvos expostos. Amorim investiu contra o decreto 430, que, substituindo a desapropriagilo pela compra, vem transformando a reform agrdria numa transaqgo agrAria, na qual os posseiros acabam servindo de instru- mento para rentaveis manobras financei- ras. Criticou tamb6m a mi administra- 9go do Incra e os interesses politicos pes- soais na negociaFao com sem-terra. Di- ante disso, fica-se sem saber se foi de- mitido pelo que fez de certo ou pelo que fez de errado (e o que Brasilia consider certo ou errado). Mais confused e contradigCo nio pode haver. Agindo irresponsavelmen- te como tem agido, o governor estA brin- cando de fazer reform agrAria. S6 que brincar com esse tipo de fogo sempre result em inc6ndio. 0 Decisio vem de long ACompanhia Vale do Rio Doce anun- cia para a segunda quinzena deste mes a decisao final sobre o maior investimen- to produtivo do pais at6 o final da d6ca- da: a implantago do projeto de cobre de Carajas, no valor de 1,5 bilh~o de d61a- res. Na primeira quinzena seri formali- zada a associacio da CVRD cor a mul- tinacional sul-africana Anglo American e o BNDES, s6cios na Salobo Metais. Em seguida sera revelado o local onde vai se instalar a fabrica de cobre metAlico, o item mais important do investimento (equi- vale a dois anos de receita pr6pria do Es- tado). A data para ao aniincio da localizacqo da fabric foi escolhida a dedo. Ficari para depois da eleigio de 3 de outubro, dei- xando passar o clima passional que se estabeleceu entire os dois municipios que disputam sediar a Salobo Metais, Paraua- pebas e MarabA. Tudo indica que a opcio sera mesmo por Marabi, menos por in- jun96es political do governor do Estado, defensor dessa opcao, dispondo-se a com- pensar a diferenga (de US$ 60 milhoes) que favoreceria Parauapebas, do que por entendimentos diretos entire a Vale e a Anglo. NAo por mero acaso, antes de receber no Rio de Janeiro, na semana passada, representantes do Estado para fazer a co- municagAo da cronologia de definigao do projeto, os dirigentes da CVRD estive- ram na Africa do Sul para uma semana de contatos com a Anglo, a segunda mai- or mineradora do mundo. A visit coinci- diu com as primeiras noticias, dadas pela grande imprensa national, de que a em- presa sul-africana pode ser uma das arre- matadoras de ag6es no leilio da Vale. Ao contrario de sua concorrente poten- cial, a inglesa RTZ, a maior mineradora do planet (que compete com a Vale no mercado de minerio de ferro), a Anglo nao esbarra nas restrig6es estabelecidas na modelagem de venda da CVRD. E tem uma vantage adicional: a parceria com a estatal no projeto da Salobo, uma asso- ciaqAo que pode vir a se estender para a mineragdo de ouro de Serra Leste, onde estA a maior jazida brasileira (com pro- duqio prevista de 15 toneladas anuais de ouro). Serra Leste, assim, pode ficar aco- plada ao Salobo, tanto para a associacAo das duas empresas. como para a partici- pacio do governor. O fecho seria comple- to com o ingresso da poderosa Anglo na composigao aciondria da Vale. As grandes decis5es sobre a Amaz6nia, com o sempre, v6m de muito long. 0 conver latheral(iada? i 0 jornalista Oliveira Bastos, agora "coordenador do projeto de uso milti- plo do grupo C, R. Almeida em Altami- ra". voltou a ocupar meia pagina em O Liberal de domingo passado para defen- der o direito de Cecilio Rego Almeida sobre 4,7 milhSes de hectares que teria adquirido no Pari (ver Jornal Pessoal n" 147). 0 jomalista invested outra vez contra o Iterpa, que ajuizou acAo de can- celamento dos registros imobiliarios des- sas terras e obteve sua primeira vit6ria: ojuiz Jose Torquato de Alencar, que res- ponde pela comarca de Altamira, deter- minou a suspensAo do registro de qual- quer ato de transferencia ou alienaq~o da area litigiosa, concedendo liminarmente tutela antecipada ao Instituto de Terras do Para. 0 artigo de Oliveira Bastos 6 a reno- vacqo da arenga contra o Iterpa, que es- taria agindo ireresponsavelmente ao an- tecipar de meses o ajuizamento da acAo de cancelamento, "plantando" notas em colunas soiais, enquanto intermediArios se aproveitariam dessa demora para chantagear C. R. Almeida. Tamb6m diz que o objetivo do Iterpa C faturar, tro- cando a regularizagio da Area pelo pa- gamento de "custas especiais", inflacio- nando o valor da gleba para ganhar bom dinheiro, ainda que dando desconto. E arremata corn suspeig9o sobre a capaci- dade do institute estadual de agir corn efici&ncia diante do desafio fundiirio. O principal, Oliveira Bastos nao fez: denunciar os autores da extorsdo contra o seu patrAo e revelar a participaclo - direta ou indireta de dirigentes do Iter- pa nessa transaiAo. O ato do juiz Tor- quato de Alencar restabelece o que 6 pre- liminar nesse confront: os cinco milh6es de hectares, que o jornalista diz serem "quase nada", slo o bastante para cercar a defini~io do caso cor as devidas cau- telas legais. Ja hi bandido demais saque- ando as terras do Pari, aproveitando-se de cart6rios despreparados (ou coniven- tes) e de pessoas inescrupulosas. A primeira media saneadora 6 mes- mo o bloqueio de novas transac6es com os registros de uma terra sem origem le- gal, ji que inexiste document compro- vando o desmembramento da Area do patrim6nio public para o particular, enquanto ajustica nAo se pronuncia so- bre o m6rito da questAo. Em segundo lugar, remetendo-se para a policia a par- te que Ihe compete apurar: a aqao de chantagistas que estariam se aproveitan- do da a~go de um 6rgao piblico, denun- E possivel que o economista Frederico Andrade nio reassuma a superintendencia da Sudam. Problems de saude levaram-no a solicitar afastamento do cargodurante um mes. Mas em novembro, quando podera receber liberaNo medica, Frederico talvez prefira levar as itimas consequencias a decislo que tomou M algum tempo de se dedicar a outra atividade. Ele acha que cumpriu sua missao, de restabeleor uma base tdcnica na Sudam. Esse, de fato, foi um mdrito de sua gestao. A Sudam nko conseguira recuperar-se da desarticulafo da administrator Elias Seffer e da cia que Oliveira Bastos ainda nao se deu ao trabalho de nominar, mesmo dispon- do do generoso espaqo que O Liberal lhe di, enquanto veta o acesso dos demais interessados, transformando o que deve- ria ser um debate aberto orientado para o interesse ptiblico em um solil6quio, quem sabe, de proveito pessoal. Suicidio tucano O governador Almir Gabriel foi o grande ausente na eleiq~o deste ano em Belrm. Tradicionalmente, os governado- res se envolvem ativamente na dispute na capital e procuram eleger o prefeito. Na pior das hip6teses porque permit um trabalho entrosado entire as duas princi- pais instancias da administraoao piiblica no Estado. Mas o atual governador pre- feriu delegar ao prefeito Hl6io Gueiros pleno poder para indicar o candidate da coligagao situacionista. Cor a faca e o queijo nas mAos, Guei- ros queimou o nome mais preparado para a corrida eleitoral (desde que empurra- do per alguem), o senador Fernando Coutinho Jorge, do pr6prio partido do governador e do president da Repfibli- ca, o hamletiano PSDB. A fritura foi grosseira, mas Almir Gabriel nao fez o menor gesto para se impor e salvar uma candidatura evidentemente mais qualifi- cada. Por que o prefeito fez isso? Porque nAo interessava ao seu esquema pessoal manipulacaodo period Henry Kayath. Frederico Andrade conseguiu criar normas t6cnicas para padronizar todas as aqes da Sudam e reconquistar respeito t6cnico. Todo esse trabalho quase se perde nas aguas turvas que socobraram de gest6es anteriores e foram capturadas pelo Tribunal de Contas da Uniio. Exatamente quando complete 30 anos de vida, a Sudam pode entrar numa nova fase de transiglo. A superintendencia contmarni a ser administrada por crit6rios tdcnicos ou novamente seu comando seri apoderado por um grupo politico? Se isso ocorrer, dificilmente a Sudam estara saudivel para comemorar um novo aniversdrio. de poder. Preferiu arriscar, apoiando um candidate muito mais pesado, o ex-se- cretirio Ramiro Bentes, mas que C do esquema. Aposta na forva da mAquina official do municipio para levanti-lo. Se Ramiro se eleger, todos os mdritos terao sido de H61io Gueiros e ele prosseguiri no poder quando deixar a prefeitura. Ja o governador, mesmo integrando a coli- gaqo e cedendo-lhe a pr6pria mAquina que nominalmente comanda, terA sido derrotado. Afinal, os marqueteiros de Ramiro Bentes, atendendo orientaaio do comandante-em-chefe da campanha, que 6 o prefeito, mantiveram sempre Almir Gabriel a uma constrangedora distincia.Todos estavam convencidos de que uma associaiao de Ramiro corn o governador tiraria votos do candidate official. Isso em Belim, que era o reduto principal de Almir Gabriel. O governador nao apenas sofre o des- gaste de sua administrag~o. De forma abilica, esta se suicidando politicamen- te e ainda aceitando que suposto aliado Ihe da o golpe da gra9a, colocando-lhe a espada na mao. Coisa de tucano, 6 claro de tucano amaz8nico, diga-se, ji que a ave maior brasiliense se comporta de ma- neira diferente, sempre querendo mais poder. Se ji nao 6 mais o principle dos soci6logos, no futruro sera apenas il prin- cipe" ou, quem sabe, "il dulce". Almir sera, quando muito, principle de uma Dinamarca tropical. Future da Sudam Journal Pessoal Editor respons6vel: LOcio Flavio Pinto Ilustra;6es e editora6ao gr6fica: Luiz de Faria Pinto RedaCao: Passagem Bolonha, 60-B 66.053-020 Fone: 223-1929/224-3728 Contato: Tv. Benjamin Constant 845/203 66.053-020 Fone: 223-7690 |
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