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journal Pessoal ITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVI PINTO 0 ANO IX N 145 1 QUINZIENA DE AGOSTO DE 1996 RS 2,00 ELEICAO Quem seri o segundo? A dispute pela prefeitura da maior cidade da Amaz6nia s6 ser6 decidida no segundo turno. Mas pode haver surpresas j6 no primeiro turno na defini;ao do adversario da favorite da pesquisa Spl Dificilmente o belemense conhe- cera seu novo prefeito no pri- meiro turno da eleiqAo munici pal, a 3 de outubro. E provivel que surjam novidades no segundo turn, a 15 de novembro, como a ascensdo de candidates que estavam no rabo da fila. Mas 6 temeririo avanqar com outras in- terpretaqges sobre uma campanha mar- cada pelos lugares comuns e inssossa, sem atrativo para o eleitor, sem propos- tas concretas ou criativas para enfrentar os dificeis problems da maior cidade da Amaz6nia, com seus 1,3 milhAo de ha- bitantes. S6 uma alterario brusca e imprevisi- vel impedira que a candidate do PMDB, a deputada federal Elcione Barbalho, venga o primeiro turno. Ela 6 a mais bem cotada dentre todas as mulheres que dis- putario a elei9co nas capitals brasileiras e uma das poucas peemedebistas corn oportunidade real de vit6ria. Elcione ain- da ter a possibilidade de ultrapassar a marca de 40% das preferencias, mas 6 pouco provavel que atinja os 50% mais um voto, que a elegeriamji no primeiro tumo, poupando-a de um segundo turn que Ihe deveri ser mais adverse. A grande duvida do moment 6 sa- ber quem sera o concorrente da ex-pri- meira dama na dispute de 15 de novem- bro. A inclinaAo natural seria para o lado do ex-secretirio municipal de Fi- nangas, Ramiro Bentes, tAo-somente por ser o candidate da coligaCgo governis- ta. Um dos pontos bAsicos da campa- nha de Ramiro busca associa-la a evo- lugco vitoriosa da candidatura de Almir Gabriel ao governor, que comecou com um indice bem baixo, cresceu bastante um pouco antes do 12 turn e ultrapas- sou com grande folga seu adversario, o ex-senador Jarbas Passarinho, no 22 tur- no. Essa ascensio mete6rica se repetird? O mote da campanha assegura que sim, estimulando sutilmente o voto itil em favor de Ramiro. A propaganda alardeia que o ex-secretirio foi o candidate que mais cresceu na preferencia do eleitora- do, evoluindo 125% entrejunho ejulho. Nao 6 uma afirmativa verdadeira: a op- co pelo candidate Duciomar Costa, do PSD, cresceu 400% no mesmo period. Foi de 300% o crescimento de Fernando Moraes, do PRN. JOURNAL PESSOAL -I- QUINZENAAGOSTO/1996 2 jr Duciomar Costa possuia ape- nas 4% na pesquisa feita pelo Ibope no mrs passado e Fernando Mo- raes, 3%. Nio estAo disputando para va- ler, 6 verdade, mas j 6 urn indice sur- preendentemente alto para os dois can- didatos, principalmente em relalAo a Moraes, um traditional detentor de tra- go em pesquisas e votacoes. omparativamente, porem, o melhor resultado foi o do ex- prefeito Augusto Rezende, do PRP, que triplicou seus votos e bateu nos 9%.Ja esses mesmos 9% de Ramiro nio sio um indice excepcional para um candidate que saiu na frente de todos, esta com seu nome nas ruas desde fevereiro e ter atras de si as mi- quinas da prefeitura e do Estado. Explicitamente, alias, apenas o pre- feito da capital aparece ao lado do can- didato. O goverador Almir Gabriel foi, discretamente, deixado de lado. Sussur- ram pessoas do esquema eleitoral que 6 para nAo tirar votos: o nome do gover- nador estA muito desgastado em Bel6m. Mas essas mesmas fontes apostam que basta a companhia de H6lio Gueiros para garantir a forga do candidate que ele ap6ia A sua sucessao (embora algu- mas fontes se refiram a um entendimen- to, por baixo dos panos, com Cipriano Sabino). Ningu6m ter duvida de que Gueiros 6 o principal eleitor na cidade, nao ape- nas em fungio de seu prestigio pessoal, como por ter a chave do cofre munici- pal, corn o beneficio das empresas que dele dependem. Mas a transfer6ncia de votos 6 uma operagio complex, ainda mais quando o patrim6nio nao estA con- venientemente inventariado. H6lio Gueiros elegeu-se prefeito, em 1990, ja no primeiro turno. Mas teve apenas 51% dos votos. Sahid Xerfan, quatro anos antes, em condicges pare- cidas, chegou a 78%. Nao 6 um excep- cional handicap, portanto. De qualquer maneira, o prefeito tem servigos a mos- trar para oferecer em troca de votos. Alguns slo services questionaveis, como o reasfaltamento de vias publicas em condigqes normais de uso, obras mais fAceis de executar, de maior ren- tabilidade (o que pode ter reflexo no fundo invisivel de campanha) e melhor visualizAveis na vitrine da cidade, que 6 o seu centro. Os usuarios dessa faixa urbana devem aceitar sem problems transferir seus votes para o candidate do prefeito. Mas a periferia oferece um quadro diame- tralmente oposto, mesmo se contempla- do a superficie, como costuma ser a anflise dos belemenses, hoje desprovi- dos de terms de refernncia mais rigo- rosos e atualizados (o que explica o enorme atraso relative da capital para- ense em relagAo as demais metr6poles brasileiras, situag o sobre a qual nao tem auto-consci6ncia). A eleigio em Bel6m seri decidida macigamente pelos votos das camadas inferiores de renda da populagAo. Slo pessoas que moram em locals distantes, mal servidas por linhas de 6nibus, de- sassistidas de servings piblicos, convi- vendo com doengas que estio se reur- banizando, trazidas do interior e, o que 6 pior (pelo lado da cidadania) ou me- lhor (pelo fngulo da manipulaglo de massa) destituidas de esperangas e perspectives. A deputada federal Elcione Barbalho trabalha sobre esse terreno f6rtil. Uma esp6cie de Evita Per6n tropicalizada, ela se apresenta como algu6m que surgira no horizonte para assistir essa legiAo de deserdados que se espraia pelas areas invadidas e nos bairros suburbanizados. Sua proposta de maior apelo 6 o retor- no do assistencialismo, que Ihe deu grande popularidade (a deputada fede- ral mais votada de toda a hist6ria repu- blicana paraense). Mas o eleitor acredi- tara nessa oferta ou esperara por ela sem uma forte agco assistencialista ja na campanha eleitoral? Esta 6 uma diivida procedente. Ofi- cialmente, a campanha de Elcione 6 mo- desta para as dimens6es exigidas por uma candidatura favorite. O dinheiro nao virA de uma desmobilizac o patri- monial pessoal, que nio 6 uma tradiqao entire os Barbalho e, agora, estA mais complicada ainda, com o process de separa~io do casal. Mas poderia vir do fundo partidArio national, com a sensi- bilizagAo da diregco do PMDB diante da melhor perspective de vit6ria que tem numa capital brasileira. Assim, Elcione poderia acompanhar a acgo obsequian- te da maquina official de troca (aterro, telha, tijolo e quesitos mais sofistica- dos, como maquinas de costura, em tro- ca de voto), que favorece seu adversa- rio, e evitar que o eventual avanco de Ramiro ocorra sobre seu pr6prio redu- to eleitoral. Nio basta, por6m, ser o candidate do governor, com a melhor campanha e um discurso recheado de referencias a itens concretos de um receituario de promes- sas (como faz o ex-secretArio de Finan- gas, lembrando sempre que arranjou muito dinheiro para o prefeito gastar) para ser o vencedor. Enquanto o indice de preferdncia na votagio estimulada da pesquisa do Ibope avancou relativamen- te bastante, embora quantitativamente nem tanto (sem se aproximar do que acoteceu com Almir Gabriel ou vem acontecendo com Celso Pitta, o candi- date do prefeito Paulo Maluf, em Sao Paulo), o indice de rejeigio de Ramiro Bentes entire junho ejulho cresceu 50%, bem mais do que o de Elcione (30%). Isso mostra que o candidate n&o ter a leveza desejavel para "virar ojogo". Vai continuar exigindo muito do marketing. Mas o marketing ter sido discrete. A preferida do eleitorado evitou um confront direto corn o adversario. Ao contrario ate, Elcione tem proclamado que vai continuar a obra de H61io Guei- ros no centro da cidade, apenas tendo o cuidado de estend6-la A periferia. Faz assim, mesmo que lateralmente, um elo- gio ao prefeito, talvez de olho nos sub- terraneos, onde Gueiros costuma guar- dar suas armas de combat. or enquanto, tem conseguido manter-se a distancia de um ataque frontal. Sofre pela via oblfqua, a opao escolhida pelos marqueteiros de Ramiro para fazer a louvacgo da estabilidade fa- miliar deste em relagao A instabilidade do desfeito casal Barbalho, um lance de improvivel e discutivel efeito numa so- ciedade onde a estrutura familiar tradi- cional estA em ruina, principalmente na periferia, onde estA a mais preciosa mina de votos. Mas estarA a dispute real pela princi- pal prefeitura paraense restrita aos dois mais antigos esquemas politicos no po- der? Uma resposta vai defender dos re- sultados das pr6ximas pesquisas de opi- nido, que devem ser fornecidos pelo JOURNAL PESSOAL -1' QUINZENAAGOSTO/I996 3 Gallup e o Ibope entire os dias 15 (o pri- meiro) e 25 (o segundo). Se se confir- mar o resultado de uma pesquisa feita pelo Gallup na mesma 6poca em que o Ibope ouviu a populagao (iltima semana dejulho), mas nao divulgada oficialmen- te, nem registrada no TRE pelo comite de Elcione Barbalho, apesar de largamente comentada nos meios politicos, o candi- dato Ramiro Bentes pode nao s6 continu- ar sua boa evoluco, como estacionar e atW cair. Caso isso ocorra, o element es- trutural de sua pesquisa erodiri e suas chances de vit6ria comegarao a se tornar incertas. T al resultado abrird espago para a evolu o de outras candidaturas que gravitam em tomo do segundo lugar. A do deputado estadual Cipriano Sabino, do PPB, parece a de maior potential (tendo, na pesquisa do Gallup, quase o dobro 11% de Ramiro, com 6%): ofe- rece aos marqueteiros a leveza que falta ao candidate governista, podendo essa leveza, interpretivel como vacuidade, ser maquilada em suas insuficiencias. Mas para Cipriano se consolidar no segundo lugar precisari dispor, na re- alidade, de muito mais dinheiro do que o declarado no orgamento de campa- nha o que, convenhamos, nao consti- tui novidade. Por isso, circulam hist6- rias, ainda nao comprovadas, sobre a melhoria t6cnica de sua campanha, que se tornou a mais dinfimica de todas. Um indice evolutivo na pr6xima pes- quisa poderia credencii-lo como o con- corrente mais pr6ximo de Elcione. Num escallo mais afastado vem o ex-prefeito Augusto Rezende, com um indice ainda modesto, mas cor uma taxa de incremento surpreendente, e Edmilson Rodrigues, do PT, cor uma porcentagem de votos ainda incompa- tivel cor a faixa traditional de optan- tes do partido, entire 15 e 20%. Mais atrAs, cor uma agressiva linguagem oposicionista, Luis Seffer, do PL, vi- sando o beneficio do vicuo de lingua- gem oposicionista, um element defi- nidor do tom ronoc6rdio e repetitive da campanha a menos de dois meses do primeiro turn. 0 Em 1983, quando passou o governor do Estado ao seu successor, que ajudou a eleger, o goverador Alacid Nunes dis- punha de quatro assessores especiais e de uma pequena estrutura de gabinete. Qua- tro anos depois, Jader Barbalho havia multiplicado por 100 essa estrutura, que ngo parou mais de crescer, sobrevivendo at6 mesmo aos prop6sitos de dar-lhe con- sistencia e seriedade, que o governador Almir Gabriel parecia ter quando assumiu o cargo. Mas agora nio 6 s6 o govemador que disp6e de um s6quito desproporcional: o vice, H6lio Gueiros Jr., em plena 6poca de alegada contenqao de gastos com pes- soal, conseguiu aumentar em 400% o seu gabinete e em 480 mil reais a sua verba de custeio. O gabinete do vice-governa- dor, que contava com 17 servidores, ago- raten 81, 53 dos quais passam a ocupar cargos de provimento efetivo e 28 pode- rao ser livremente nomeados pelo vice, por estarem em cargos comissionados. Em marco, quando ocupou interina- mente a chefia do executive com a via- gem do titular (ver Jornal Pessoal n 139), H6lio Gueiros Jr. enviou mensa- gem ao legislative reorganizando e am- pliando seu pr6prio gabinete, tornando- o independent do gabinete do gover- nador, do qual at6 entio era um virtual apandice. Os projetos ficaram engave- tados mais de um mes, at6 que, ceden- do a pressio para restabelecer a alianga cor o capo dos Gueiros, que 6 o pre- feito de Bel6m, o governador Almir Gabriel fez o president da Assembl6ia Legislative, Zenaldo Coutinho, restabe- lecer a tramitagio dos projetos. A posi gao 0 Liberal, ao contrario de algumas expectativas, nao embarcou na nau de Ramiro Bentes, o candidate official A prefeitura de Bel6m. NAo s6 tem pro- curado ser imparcial (embora nem sem- pre eficiente) na cobertura dos candi- dates principals (esquecendo o PT, pu- nido por se opor a vantagens comerci- ais da empresa ver Jornal Pessoal no 144), como at6 vem publicando mat6- rias que tnm irritado o prefeito Hlio Gueiros, o coordenador da campanha do ex-secret&rio municipal de financas. Eles foram aprovados e submetidos ao govemador. Tucanamente, Almir Gabriel nao os sancionou, como seria de se es- perar por sua alianga com os Gueiros (mas nao seria de desejar, por suas pro- messas de campanha e drasticas attitudes em rela~qo ao funcionalismo estadual). Deixou para seu correligionArio de PSDB e president da AL, deputado Zenaldo Coutinho, a ingl6ria tarefa de sancionar as duas leis, publicadas no DiArio Ofici- al no dia 8. Foi uma said sagaz, embora com ajA envelhecida e desgastada esperteza dos politicos profissionais, em relalao a qual Almir Gabriel prometia inovar. Mas tam- b6m evidencia a fraqueza political do governador, incapaz de uma attitude mais afirmativa: ou vetando iniciativa que contraria seu discurso administrative, ou sancionando a lei, por superiores ou inferiores, conforme o fingulo interes- ses politicos. Interesses que, inclusive, sacrificaram R$ 480 mil da verba de cus- teio da Secretaria do Trabalho e Promo- Aio Social, dirigida por sua esposa, So- corro Gabriel, remanejados para o gabi- nete do vice. Aldm do desgaste, lateralmente o go- vernador estA dando alimento para uma cobra criada. Com 81 funcionarios e um amplo conjunto de funo9es, H61io Guei- ros Jr. poderA contar cor uma estrutura invejivel para fazer political e comegar uma campanha que poderia levar a rea- lizaqAo do sonho oculto do pai: torn-lo o successor de Almir Gabriel, assim man- tendo o circulo fechado e viciado das families (ou seria melhor falar de fami- glias?) e dos nepotismos no Para. 0 da midia Seria o troco do jomal pelo atraso no pagamento das contas de publicidade daprefeitura, segundo algumas verses. Mas outras dizem que e opgio editorial - ou political da empresa, que nao quer ajudar a manuteniao do esquema dos Gueiros no poder. JA A Provincia do Para inclina-se sempre mais por Ramiro, mesmo quan- do procura ser equitativa. 0 Diirio do Para deu alguns passes atris no esforgo de profissionalizagAo para participar da campanha de Elcione Barbalho. Vice cresce com dubiedade tucana - -- JOURNAL PESSOAL -1' QUINZENAAGOSTO/1996 4 Despotismo esclarecido em agao na Amazonia AadministraCio Fernando Henrique Cardoso pode ate ser iluminada, herdeira das luzes do iluminismo do s6culo 18, mas nio 6 democritica. Cor a presungao de agir certo, mas sem consultar a clientele, editou no dia 25 uma media provis6ria destinada a provocar uma revolugao na Amaz6- nia, mas que ningu6m sabe se sera capaz de colocar em pratica. Nem mesmo de ter uma antevisio de seus efeitos nao no papel, o locus da his- t6ria para muitos intelectuais (e ex- intelectuais), mas na pritica. A media provis6ria estabelece que, nas areas de floresta (ou de "fitofisio- nomias florestais", para empregar a expressio dos autores), os proprieti- rios s6 poderio desmatar at6 20% da superficie de seus im6veis rurais. Os outros 80% terio que ser averbados na transcrigao do registro imobiliario como reserve florestal, "sendo veda- da a alteragao de sua destinagio, nos casos de transmissio a qualquer titu- lo ou de desmembramento da Area", pondo fim ao golpe do desmembra- mento, que tangenciava a lei. Nessas mesmas Areas cobertas por floresta, o proprietirio ji instalado nao podera efetuar novos desmatamentos se ja contar, em seu im6vel, com are- as sem cobertura vegetal que estejam "abandonadas, sub-utilizadas ou uti- lizadas de forma inadequada segundo a capacidade de suporte do solo". Te- rio, primeiro, que retornar a essas are- as, reaproveitando-as, dando-lhes um uso mais intensive. Alkm da media provis6ria, que modificou o C6digo Florestal, de 1965 (ver Jornal Pessoal n0 144), no mes- mo dia o governor ainda baixou uma portaria suspendendo por dois anos as autorizag6es e concess6es para a ex- ploragqo de mogno e virola, as duas espdcies florestais mais valiosas da Amaz6nia, e determinando a vistoria, no prazo de 60 dias, das autorizag6es e concessoes em vigor, cancelando-se aquelas encontradas em situaqao irre- gular. Os empresarios logo reagiram. Acu- saram o governor de, cedendo a pres- soes internacionais (os "interesses ocultos" que sempre levitam sobre a vida national), ter "engessado" a Amaz6nia, impedindo que as ativida- des produtivas continue a nela se ex- pandir. JA alguns t6cnicos garantem que, por tris das providencias, estA a intengao de, cortejando os mesmos personagens, conseguir recursos inter- nacionais para instituig6es brasileiras, especialmente o Inpe (Instituto Naci- onal de Pesquisas Espaciais, de Slo Jose dos Campos). Tecnicamente, 6 impossivel a um observador isento nao deixar de reco- nhecer que as medidas adotadas sio um avango e uma contribuigio efeti- va para a utilizagdo mais inteligente dos recursos naturais amaz6nicos. Te- oricamente, o que o governor fez foi criar condig9es para a adogio de t6c- nicas de manejo sustentado da flores- ta (o tal do desenvolvimento auto-sus- tentavel, por enquanto nio muito mais do que ret6rica), valorizando-a como o bem mais nobre da Amaz6nia. Nio 6 exatamente isso o que resul- ta da realidade atual. O coninntingente de centenas de serrarias e indfistrias em atividade em today a regiao amazonica proporciona uma receita que e apenas um pouco mais da metade do que e gerado pelo extrativismo mineral exclusivamente em Carajas, muito long de ser modelo para o de- senvolvimento regional. O corte raso de Arvores priva a Amaz6nia de ren- dimentos muito maiores se a cobertu- ra vegetal pudesse ter um uso mais no- bre. Essa constatagAo elementary parecia ter inibido o avango do desmatamen- to, que bateu records na decada de 80. Mas a tend6ncia declinante obser- vada de 1978 e 1991 comegou a ser invertida em 1992; no ultimo bi6nio (1992/94) volta a se aproximar dos indices catastr6ficos dos anos 80. Com a media provis6ria, o governor quer antecipar-se a esse desfecho in- desejavel, ainda mais ameacador pela chegada dos grandes grupos madeirei- ros do sudeste asiatico, que trazem consigo uma feroz tradigAo predado- ra. O future deveria ser indesejAvel para todos, exceto para os agents de mi-fi. Afinal, 12% da floresta ama- z8nica original ja foram sacrificados e 98% dessa destruicgo comegaram ha apenas 20 anos. A Area desmatada, de 470 mil quil6metros quadrados, equi- vale a dois Estados de Sdo Paulo, o principal produtor agricola do pais. I Area suficiente para tender o que se espera de contribuigio amaz6nica para as necessidades nacionais de alimen- tos, fibras e madeiras. Da at6 para ex- portar. Nio 6 por insuficiencia de Area que a produg9o amaz6nica tern to pouca expressAo: 6 por ausencia dos meios de produgao, da tecnologia ao capital, passando pelo despreparo human. Cor as cautelas devidas e a atengao sempre exigida contra as agress6es ao meio ambiente, esses 470 mil km2 po- deriam ter um uso muito mais intensi- vo e racional. A MP do governor pre- tende center os efeitos nocivos da agriculture migrat6ria e da cultural pelo fogo, o que 6 positive. t precise dar tempo para conhecer melhor as Areas que ainda estAo vir- gens, identificando seus recursos, en- contrando a melhor maneira de abor- di-las e selecionando os alvos. Mas o governor nio s6 ainda nio deu a pes- quisa cientifica e tecnol6gica os recur- sos indispensaveis a essa missio an- tecipadora, como n~o tern sido capaz de center convenientemente o avango das frentes pioneiras, principalmente porque a Amaz6nia, classificada como fronteira, funciona como valvula de seguranga para os conflitos e tenses irresolvidos das outras Areas brasilei- ras. Deixa, assim, de ter autonomia e at6 mesmo identidade pr6pria. Se nIo consegue antecipar-se is ge- ralmente ca6ticas frentes econ6micas (inclusive pelo retardamento na elabo- raqdo do zoneamento ecol6gico-eco- n6mico), o governor tambem nao 6 ca- paz de ordenar as atividades nas are- as ja desflorestadas. Essa insuficien- cia 6 tanto fungao da carancia de re- cursos, como de uma miquina official desqualificada para ben executar a ta- refa. E claro que boa parte da des- JOURNAL PESSOAL -1" QUINZENAAGOSTO/1996 5 qualificacao result de salaries ru- ins pagos aos servidores que estao na linha de frente e, tambem, na alta retaguarda do governor, tornando-os mais suscetiveis a corrupiao. Mas tambem hi uma boa dose de visAo err6nea sobre o que seja a Amaz6- nia. O problema, entio, nio esta tan- to no acerto das medidas, mas na possibilidade de elas serem postas em pratica. As eventuais distorg6es que elas podem center, entire a pro- posiqAo de um modelo te6rico de desenvolvimento sustentavel e seu conteudo operative, poderao ser corrigidas na execuqAo. Mas, para isso, precisam ser executadas. Po- dem s8-lo? Essa 6 a grande dfvida. Uma coi- sa 6 acompanhar o desmatamento atrav6s de imagens de sat6lite, em gabinete. Outra 6 fiscalizar a ativi- dade em campo e estar ao alcance dos agents produtivos, nio s6 - nem principalmente para punir suas infrag6es, mas para oferecer sugest6es factiveis para corrigir seus erros e apoiar suas iniciativas. Os recursos para as instituiq6es de pesquisa estao previstos na expo- sigio interministerial que levou a media provis6ria, mas nada foi es- tabelecido para a atividade de cam- po. Apesar de todas as promessas, o Ibama continue a ser uma insti- tui~go fraca e de pouca credibilida- de. Sem isso, boas intenq6es poderao resultar em efeito contrario, como o agravamento da latifundiarizaqao, nao s6 para a incorporaqio ao mes- mo im6vel de novas areas que pos- sam ser legalmente desmatadas, como pelo desestimulo ou quase in- viabiliza io da pequena proprieda- de (ao menos dentro de parimetros legais). Um governor iluminado pode pe- gar as melhores contribuicqes te6ri- cas e montar com elas uma boa pro- vid6ncia, mas, sem ouvir quem esta na ponta da linha, pode desencade- ar exatamente o oposto do que anun- ciou (se 6 que esta realmente empe- nhado no que anunciou). O governor FHC nao seria o primeiro exemplo desastroso desse tipo de despotismo esclarecido. Todos ganhariam se fos- se mais esclarecido e menos desp6- tico. Mas, de qualquer maneira, um novo pass foi dado na hist6ria re- cente da Amaz6nia. 0 Para implantar uma refinaria de ouro junto a mina do igara- p6 Bahia, em CarajAs, cedendo a uma pres- sAo feita pelo governor do Estado, a Compa- nhia Vale do Rio Doce diz que precisara investor entire 3 e 4 milh6es de d61a- res. t 3% a mais do que ali jA apli- cou para former a 1 CRl.-:i)iTf ONE OC..,N' FINE9 . 399^.^ maior mina de ouro do pais, em ope- raqAo desde 1991. Uns poucos em- pregos serao acrescidos aos tres mil - diretos e indiretos que foram cri- ados, a grande maioria deles nao na atividade produtiva, mas na seguran- 9a. Com o refino, o ouro tera sua pu- reza elevada de 95% para 99,9%, o teor exigido pelos que o utilizam como ativo financeiro, seu uso mis pobre. E podera at6 comegar a ser exportado. Essa 6 a dimens~o da vit6ria con- seguida pela administraiAo Almir Gabriel na queda de brago mantida com a CVRD. A guerra comegou em dezembro do ano passado, quando o representante do Estado no Conse- Iho Deliberativo da Sudam conse- guiu que os demais conselheiros res- tringissem os beneficios fiscais que seriam concedidos a empresa. Ela queria isenqAo integral de imposto de renda por 10 anos. O Condel re- duziu a isencao a 50%. A Vale, num recurso in6dito na hist6ria do conselho, solicitou a re- consideraqao do pedido. Alegou os antecedentes da concessdo desse tipo de isengao e o perfeito enquadra- mento da sua pretensao. Mas iria perder. Quando nada, devido a um posicionamento traditional no cole- giado: ja que o Estado-sede do em- preendimento nao concordava com a pretensao, os outros prefeririam nAo discordar. Depois de muita negociagio nos dias anteriores, a CVRD retirou o pedido de pau- ta na reuniAo, realizada no final do mes passado em Cuiaba, e cedeu a C reivindicagAo do Es- tado. Prometeu -. - implantar a refi- S naria exigida pelo governor paraense para fechar a cadeia produ- tiva do ouro, agregando va- lor A atividade, em troca da plena isencio do IR por 10 anos. Mas a co- memoracAo publicitaria que se se- guiu ao epis6dio impediu que ele fosse convenientemente avaliado, circunstincia que sempre se repete quando a imprensa 6 apenas uma re- produtora dos press-releases ofici- ais. Mas 6 necessario passA-lo em revista para tirar as liq6es adequa- das. Primeiramente pela posiago da Vale do Rio Doce. A empresa apli- cou o equivalent a 130 milhoes de d6lares para criar a mina do igarap6 Bahia. No ano passado, essa mina superou em produgao a de Morro Velho, em Minas Gerais, tomando-se a maior do pals, cor 10 toneladas de ouro. Em 1995 o faturamento da mina de Carajis foi equivalent a todo o investimento realizado para viabili- zA-la, os mesmos US$ 130 milhoes. E um dado impressionante. Nos seus cinco anos de operaoo, s6 alcangando a plena capacidade de produqlo no ultimo deles, a mina do igarape Bahia deveria ter pago US$ 20 milhoes de imposto. DA uma me- dia de US$ 4 milh6es por ano. Mas essa m6dia vai se multiplicar por seis, no minimo, a partir de agora. Por isso a press da Vale em obter agora o beneficio fiscal da Sudam, cinco anos depois de ter apresentado seu pedi- do. Ela vai ter entire 25 e 30 milhoes de d6lares de IR a pagar, valor que passa a ter peso sobre a taxa de retor- no do capital. A guerra do ouro, a vit6ria de Pirro F IX" JOURNAL PESSOAL -1" QUINZENAAGOSTO/1996 6 Todas as empresas com o mesmo perfil conseguiram da Sudam idWntico beneffcio no passado. Mas a situa;o pode e deve mudar. A lavra de ouro do igarap6 Bahia da um alto faturamento, mas seri cur- ta, considerando-se a jazida hoje re- gistrada (que deverd crescer, entretan- to). i precise forqar a empresa a rein- vestir. Isso ji estava previsto: o im- posto isentado tera que ser reaplica- do. A questao 6 a destinaqao dessa reaplicaq9o. A Vale queria faze-lo no proprio projeto, mas isso 6 tAo pouco desejivel quanto deixar ao livre ar- bitrio do govemo, que acaba deslo- cahdo espacialmente o investimento, pulverizando-o, ou emprega o dinhei- ro segundo critdrios politicos irraci- onais, que s6 dizem respeito aos seus pr6prios interesses. O objetivo principal do fundo a ser formado por essa poupanga compul- s6ria deveria estar voltado contra a qualidade de enclave desses empre- endimentos mineradores, que s6 ge- ram efeitos (e os menos expressivos deles, ji que os efeitos multiplicado- res agem mais no exterior) estrita- mente no lugar onde se instalam. O dinheiro deveria sair da circunscrigio do projeto, espraiando-se pelas areas em volta e estimulando efeitos eco- n6micos para frente e para tras, como dizem os economists. Ou seja: per- mitindo que outras unidades produ- tivas, desenvolvendo outras ativida- des, preferencialmente as menos in- tensivas em capital e tecnologia e mais intensivas em trabalho, se be- neficiem da renda gerada. E correta, em tese, a posiqao do go- verno do Estado de forqar o fecha- mento da cadeia produtiva. Mas cada caso deve ser analisado em sua con- figuraqdo concrete, realisticamente. i provocante constatar que a CVRD, depois de extrair e fundir o ouro em Carajas, o transport para ser refina- do pela Degussa, em Sqo Paulo. O raciocinio 6 imediato: por que nao refinar 1a mesmo em Carajds? Tudo bem: mas quanto se ganha pela in- corporaqao desse elo final da cadeia produtiva? Analisando-se os iume- ros, constata-se que o ganho 6 pou- co. A Vale argument que terceiriza o refino porque a quantidade de ouro n2o compensa assumir essa ativida- de. A producgo no Bahia 6 de 10 to- neladas, muito expressive, mas ain- da distant das 30 toneladas que jus- tificariam o refino, segundo a CVRD. Algumas fontes que ouvi negam ha- ver procedencia t6cnica nessa alega- 9ao: uma refinaria pode ser modula- da de acordo com a produqao. Mas realmente nao 6 a parte mais interes- sante da cadeia produtiva por causa da logistica e do esquema de segu- ranga que requer. O problema nio seria propriamente t6cnico, de quan- tidade de matdria-prima para o refi- no, mas econ6mico. Por isso, a Vale nao teve problema em ceder ao governor. Mas, no oficio que encaminhou ao superintendent da Sudam, Frederico de Andrade, no dia 29 do mrs passado, o president da CVRD, Francisco Schettino, foi sutilmente sagaz. Disse que a empre- sa decidira implantar uma unidade de refino no Pard "em fun9Ao da Unida- de Operacional de Igarap6 Bahia, bem como o inexoravel crescimento dessa produgao com a implantagio do Projeto Serra Leste". Embora Schettino tenha prometi- do reapresentar o pedido de isengao em 120 dias, incorporando a ele o projeto da refinaria de ouro, deixou subentendido que isso s6 ocorrera se o governor do Estado cumprir seu pa- pel para a retomada do Projeto Serra Leste, assegurando, corn forga poli- cial e o que mais for necessario, o tra- balho das sondagens, interrompido pelos garimpeiros de Serra Pelada. Para estimular o governor a dar esse pass, em relagao ao qual tem titube- ado, acena ainda cor o refino da pra- ta, deixando implicita a decision de instalar no Pari a metalfirgica de co- bre (que sera a unica geradora de pra- ta, como um dos subprodutos do ca- todo de cobre). Como Serra Leste deverA produzir 15 toneladas de ouro, desbancando a mina do igarap6 Bahia do topo da pro- dugao aurifera, e da extragao do co- bre do Salobo resultarAo mais oito to- neladas, seria ultrapassada corn fol- ga a meta de 30 toneladas para via- bilizar a refinaria, confirmando o es- quema apresentado pela CVRD. O saldo dessa guerra, portanto, da vantage a Vale, apesar de o go- verno ter-se apresentado a socie- dade como o vencedor. No caso, pelo diferencial do melhor acesso a informaqao pela CVRD, houve mes- mo vit6ria mas bem parecida corn a de Pirro. * Um parceiro privilegiado O govemo federal quer salvar a Ferro- norte do ex-mega-empresirio Olacyr de Moraes. Reservou a obra R$ 1,3 bilhio no seu piano de metas. Significa que o que at6 entio era uma iniciativa particu- lar, embora projetada sobre dinheiro pu- blico, passa agora a ser obra formalmen- te public. E urna mudanga que acompa- nha a pr6pria trajet6ria de Olacyr, que en- riqueceu corn a avolumango da sua conta corn o governor e entrou em cruise quando a torneira do erario secou. A Ferronorte era um modelo exem- plar desse tipo de concepiio. Mais de dois tergos do dinheiro seria fornecido pelo governor. Olacyr executaria a obra atrav6s de sua empresa de construg9o civil. As terras marginais a linha f6rrea Ihe seriam repassadas em servidao. Ele seria o operator da ferrovia, por ela es- coando sua producgo de grios, que ago- ra 6 record, mas que declinou tanto que ele ofereceu a fazenda Itamaraty para nela o Incra assentar sem-terras. O em- presario entraria com a audicia e a id6ia. 0 govemo estA fazendo tudo para que o projeto nao se desfaga, como outros itens do patrim6nio do empresirio. Forga os funds de pens~ o a se associarem a em- presa responsAvel e transform em sua a obra alheia. Para os amaz6nidas, essa obra tem ainda o inconvenient de desviar o flu- xo de cargas para o Sudeste, embora, na ret6rica, a ferrovia devesse chegar at6 San- tar6m. Mas esse item 6 mais um dos com- ponentes para ingles ver do projeto. 0 JOURNAL PESSOAL -1" QUINZENAAGOSTO/1996 7 Para ficari mais fraco ao fim do govemo FHC Dos 54 bilh6es de reals que serio in- vestidos no piano de metas para o bie- nio 1997-98, o Brasil em AgAo anunci- ado na semana passada pelo president Fernando Henrique Cardoso, com 42 itens, apenas R$ 236 milhSes (0,4% do total de recursos previstos) destinam-se exclusivamente ao Para, a serem aplica- dos na linha de transmissao de energia da hidrel6trica de Tucurui para o Oeste do Estado. O mero exame das obras relacionadas no piano, que vai abranger os dois 61ti- mos anos do mandate presidential, pode sugerir que o Para foi deslocado na defi- nigao de prioridades da administragao fe- deral. Os novos focos se dirigem para a parte ocidental da Amaz6nia e desviam- se para o Maranhao, ao inves de segui- rem do Centro-Oeste para o litoral para- ense. A maior obra prevista no piano FHC para a regido visa a intensificacao da pro- ducao de gas natural no campo de Uru- cu, no Amazonas. Ali o governor federal pretend aplicar R$ 1,6 bilhao para pro- duzir quatro milhfes de metros cubicos de gas por dia. 0 gis vai servir princi- palmente como combustivel para abas- tecer as usinas t6rmicas isoladas das ci- dades ribeirinhas da Amazonia que es- tAo fora do alcance das seis hidrel6tricas em atividade na regiao. Indiretamente, o Pari seri beneficia- do por esse investimento, que vai mudar a matriz energetica amazonica e conferir nova importincia ao Estado do Amazo- nas. As cidades da margem esquerda do rio Amazonas, como Alenquer, Obidos, OriximinA e Monte Alegre, poderao ter seus problems de energia resolvidos, re- cebendo o gas do Urucu para alimentar as atuais e as novas usinas que serio in- corporadas, substituindo o 6leo combus- tivel, mais caro e incomparavelmente mais poluidor. Paralelamente, uma linha em alta ten- sAo sairi de Tucurui para chegar a Alta- mira, Itaituba e Santar6m, por mais de mil quil6metros de extensao. O tramo- este 6 uma unanimidade, mas unanimi- dade estabelecida a partir da 6bvia cons- tataqAo de que o Oeste do Estado nao pode continuar a ser privado de energia adequada. Mas essa 6 mesmo a melhor alternative? Alguns acham que o orgamento da Eletronorte esta subestimado, que o in- teresse da empresa federal 6 apenas le- var a energia ate Altamira, de onde po- deria recomecar o projeto para a hidre- 16trica de Belo Monte (ex-Karara6), que transferiria toda a sua energia para o fa- minto Sudeste do pais, e que a solugAo do gas poderia ser estendida da margem esquerda ate Santarem e Itaituba, trans- ferindo-se o investimento no "linhAo" para uma obra mais urgente. Ha posi- 96es extremadas de um e de outro lado da questao, mas ela ainda esta em aber- to. A correlagAo das duas hip6teses de- veria merecer uma urgente discussao. 0' investimento no campo de Urucu nao se restringe ao setor energ6tico. O transport do gas liquefeito vai exigir a construgAo de balsas especializadas, cha- madas de cariogenicas, e revitalizar o transport fluvial, voltando a colocar as tradicionais cidades da calha do Ama- zonas no eixo econ8mico. Spiano avanga na mudanpa da matriz de transportes: toma-se seletivo no apoio a rodovias e incrementa as hidrovias. O maior investimento setorial 6 a Hi- drovia Tocantins-Araguaia, que recebe- ra R$ 222 milh6es, sendo R$ 114 mi- lhWes numa primeira fase. O documen- to official entregue A imprensa fala ape- nas em "completar corredor intermodal, para incrementar a produg9o de grAos no Centro-Oeste e no Maranhao". Mas o valor do investimento parece indicar a disposiqAo do govemo de executar o ser- vigo mais dispendioso desse trecho: a transposiCgo eclusada das corredeiras de Santa Isabel, num trecho pr6ximo a Sao Geraldo do Araguaia e Xambioi. Nesse local estava prevista a constru- Cgo de uma hidrel6trica com capacidade para um milhAo de quilowatts e custo de US$ 1,5 bilhAo. O projeto foi cancelado por motives ambientais: o represamento inundaria uma area bem maior do que a da hidrel6trica de Tucurui, gerando qua- tro vezes menos energia. Mas o apro- veitamento hidreletrico tinha a vantage de torar marginal o custo da transposi- cao do rio Araguaia, amortizando o seu impact. Apesar do porte da obra, o piano de metas de Fernando Henrique vai enfren- ti-la. E a maneira de assegurar a pereni- dade da ligago intermodal de AruanA, em Goias, ate o porto de Itaqui, no Ma- ranhao, garantindo ainda uma capacida- de de reserve para absorver a multipli- cagao do volume de carga no future (a oferta, a principio, deveri ser de um mi- lhio de toneladas). O piano contempla a eclusagem em Santa Isabel, mas nto em Tucurui, onde o sistema de transposiqAo foi iniciado, com a construcgo do encabeaamento de montante na estrutura da barragem. A ex- plicaAo de alguns t6cnicos para a exclu- sio das eclusas de Tucurui 6 de que essa obra fari parte do contrato de concessao que a Eletronorte assinari com o GEN, o grupo formado pelas empresas que mais consomem energia na regilo. Se esse grupo assumir a responsabilidade pela ampliagAo da hidrel6trica, as eclu- sas serlo um dos itens contratuais. Nao seria necessario inclui-lo no piano de me- tas. A explicaqao tem sua 16gica, mas nem sempre a 16gica esgota a explicargo. O GEN (formado pela Companhia Vale do Rio Doce, Alumar, Albras, e Camargo Correa) aceita viabilizar a transposigio, mas nao se mostra receptive a continuar as eclusas. E que a Eletronorte Ihe re- passou um orgamento de 300 milh6es de d6lares para a realizago dessa obra, ao final do qual teria sido construida a mai- or eclusa do mundo. Para essa obra especificamente nio hA viabilidade, mas muitos questionam as contas da Eletronorte. Querem que o GEN, antes de definir que no lugar das eclusas haveri apenas um sistema de transposigao atraves de correias, faqa uma revisao do projeto original, prepa- rado pela Camargo Correa. Acreditam nao s6 em uma redug o drastica de cus- tos, mas numa simplificadio signficati- va do projeto de engenharia. Executar o sistema complete de transposigao, ao inves de um limitado arranjo de transbordo de carga de um lado para o outro da grande barrage, 6 important neste moment em que duas das principals matrizes de servigos, de transport e ener- gia, experimentam profunda mudanga. 0sR$ 24 miles que o govemo anuncia para baratear o escoamento de graos produzidos em Mato Grosso, Rond6nia, Acre e Amazonas, pela hidrovia do Madeira, vai fazer o porto de Itacoatiara ser muito mais interessante do que o de Santarem. O piano preve a divisAo de R$ 60 mi- lhWes entire as recupera6ges da Cuiaba- Porto Velho (BR-364) e da CuiabA-San- tarem (BR-163), sem especificar quan- to caberA especificamente a cada uma delas. Para a primeira, uma metade jA ajudaria. Para a segunda, mesmo o to- tal e pouco.A obrapode nao ajudar tan- to Santarem quanto o investimento na melhoria do Madeira vai favorecer Ita- coatiara. Ou seja: o eixo mais dinimi- co no Baixo-Amazonas sofrer um des- locamento para Oeste. Sem a plena navegabilidade do To- cantins em Tucurui, o desvio fara o li- toral maranhense da carga potencial- mente destinada ao litoral paraense vai se fortalecer. Pingando, como sempre, o piano de metas destina mais R$ 68 milh6es para a continuaado da ferro- via Norte-Sul. O avanco da linha fer- rea poderia permitir, no future, a eli- minago da perna rodoviAria que a car- ga vinda do Brasil Central ainda pre- cisa percorrer, entire Xambioa, no To- cantins, e Imperatriz, no Maranho, aumentando a atratibilidade dessa via de escoamento, cor um inico trans- bordo. Mas as eclusas de Tucurui nao sao importantes apenas para drenar a car- ga na diregio Centro-Norte: elas per- mitiriam ao gas de Urucu chegar ate a Area da provincia mineral de CarajAs, suprindo siderurgias e metalurgias que ai poderao surgir e substituindo o car- vao vegetal na redugao pela energia el6trica. Evidentemente, um sistema de correias nao permit o transbordo de gAs. E vital substituir o carvio como energ6tico para que a produgio mineral agregue valor sem destruir a natureza. E a maneira de estimular a implantagao de aciarias. O piano de FHC, portanto, nao 6 a melhor resposta phblica aos anseios e potenciais do Para. Talvez nao o seja em fung9o de sua pr6pria concepqao do document. Ele parece ter sido consumado As pressas para produzir impact em um momento-chave da es- trat6gia de reelei~Ao do president. Tecnicamente, o piano tem inconsis- tencias, desde as orgamentArias (do total de R$ 54 bilh6es, nao estAo de- finidas fontes para US$ 24 bilh6es) ate as de engenharia, mas traz indica- 96es tanto no que anuncia quanto no que silencia. Evidentemente, o piano nAo esgota o elenco de investimentos previstos e jA em maturaqco no Para no bienio 1987-88. Mas tudo o que omitiu sao investimentos produtivos, a maior parte de responsabilidade da iniciati- va privada e carregando consigo os efeitos indesejiveis dos enclaves. Em materia de infraestrutura, o que vai ser feito no Para no period 6 o que esta arrolado no piano. Por isso, pode-se concluir que, comparativa- mente aos vizinhos amaz6nicos e a co- munidade national, o Para estara mais mal servido ao final do governor Fe- mando Henrique do que agora. O que, traduzido para este mundo de globa- lizagao, significa que o Pari perderd poder de competitividade. Se quiser escapar a este destino, o governor do Estado terA que defi- nir seu pr6prio plano de metas, mas nio como pretensao academica: em condiq6es de torna-lo realida- de, desviando uma vocagao que Brasilia pretend definir: o de uma- provincia de recursos. A manipula go de sempre Nao foi esta a primeira vez que o poder executive ajudou a justica eleitoral, uma eterna carente de recursos para realizar por seus pr6prios meios uma eleiqao. Por isso, o prefeito Hl6io Gueiros tem certa razAo quando estranha o escandalo criado em torno do auxilio que a prefeitura de Bel6m deu ao Tribunal Regional Eleitoral, reaqao multiplicada pelas declaraq6es do president do Tribunal Superior Eleitoral, ministry Marco Aurl6io Mello, contrario A operaqgo. Mas, como sempre, o prefeito sofismou ao tentar demonstrar a lisura da a lo e a elevaqao de seus prop6sitos. O TRE precisava de 300 mil reais. A primeira solicitagco foi feita em margo, quando ainda eram R$ 100 mil, e renovada em junho. O prefeito deu bem mais: R$ 500 mil. E, ao inv6s de submeter a mat6ria A Camara Municipal no period regular de sess6es, convocou extraordinariamente os vereadores - o que significa o pagamento de extras e uma apreciacao mais rApida, sem maior ponderagao sobre a relacAo um tanto promiscua que se estabeleceria entire o poder concedente, com um candidate na eleiqao, e o beneficiario, responsavel pela lisura dessa mesma eleiqco. A defesa do prefeito, portanto, como sempre, foi feita de meias verdades, que costumam servir melhor a manipulaaqes do que a mentira, mais facilmente identificAvel. Journal Pessoal SEditor responsive: L6ci;fl6vio Pinto Ilustraoes e editora ao gr6fica: Luiz de Faria Pinto Redag o: Passagem Bolonha, 60-B Fones: 223-7690 e 223-1929 |
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