Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00096

Full Text




Journal Pessoal

E D I T OR R E S PONSAVE L L L C IO F LAVI O P I N T O
ANO IX NW 141 la QUINZENA DE JUNHO DE 1996e R$ 2,00

ELEICAO


Em BelIm, o de sempre

Numa dispute em que o maior eleitor tem que procurar candidate
fora do seu esquema politico pessoal, a preferida nas previas
precisa superar uma crise de identidade antes de confirmar que
realmente 6 a mais cotada para vencer em outubro.


eleitor nume-
ro um de Be-
16m em outu-
bro, o prefeito
H6lio Gueiros, nao conse-
guira lancar um candidate
do seu esquema politico pes-
soal. Tera que recorrer a um
nome de fora.
O senador Jader Barbalho, que vem
sendo derrotado na capital desde
1982, quando se elegeu govemador
pela primeira vez, ter a eandidata
mais forte na dispute, a deputada fe-
deral Elcione Barbalho. As pr6vias
feitas at6 agora Ihe dao o dobro ou
mais de preferencia sobre o mais pr6-
ximo concorrente e um tergo dos vo-
tos vilidos. Elcione ja estaria melhor
colocada e ter-se-ia aproveitado me-
lhor da indrcia dos adversaries se ti-
vesse assumido mais cedo sua candi-
datura, trabalhando-a antes que co-
megassem os ataques pessoais tipicos
de campanhas eleitorais carentes de
idWias, como costumam ser as para-
enses. Motivos pessoais, muito mais
do que politicos, retardaram sua de-
finiiAo. Mas, a partir desta semana, a
campanha dos candidates pela mais
important administration municipal
da Amaz6nia chegard definitivamen-
te as ruas. Esta dado o tiro de larga-
da.
O prefeito Helio Gueiros ji sabe
quem vai apoiar, mas ainda nao re-
velou o nome. Podera ndo ser nenhum
dos que ele gostaria de escolher,
como seu ex-secretario de Financas,


miro
Ben-
tes, ou o
( deputado X
federal Vic
Pires Franco, do qual vinha se distan-
ciando nos ultimos tempos, porque
seus indices nas pesquisas est~o mui-
to baixos. Nem as alternatives mais a
seu gosto, como os ex-auxiliares Fre-
derico Coelho de Souza e Nazar6
Marques, que se desincompatibiliza-
ram de seus cargos para ficar a dis-
posigao do prefeito. Frederico pode-
ria ficar como vice e Nazar6 ganha-
ria um mandate de vereadora.
A composigao da chapa ficou des-
concertantemente dificil para um li-
der que poderia eleger qualquer
nome, desde que nao fosse excessi-
vamente pesado para a partida. Guei-
ros deve estar se vendo na situaaio
que Paulo Maluf enfrenta em Sao
Paulo, sem terreno f6rtil para o qual
transferir sua popularidade. Aritme-
ticamente, sua melhor alterativa e o
senador Fernando Coutinho Jorge,
segundo colocado em todas as pes-
quisas previas.
Em todas, menos na ultima, que o
Ibope realizou por encomenda do pre-
feito. Gueiros determinou a exclusio
do nome de Coutinho. Dizem algu-
mas fontes que agiu assim diante das


reiteradas de-
clara9ces do se-
nador do PSDB
de que nao seria
candidate a pre-
feito de Bel6m,
qualquer que fosse
^ a circunstincia. "Se
era para levar a de-
claracao a s6rio, o
prefeito achou que nao valia a pena
fazer a sondagem em tomo do nome
de Coutinho", explicou um assessor.
Mas seria tambem um castigo pelas
declaragoes simpaticas de Coutinho
a Elcione, provocadas pelo apresen-
tador Mauro Bona, durante entrevis-
ta ao program "Argumento", da TV
RBA, de propriedade da familiar Bar-
balho. O prefeito ficou achando que
Coutinho fez o jogo da casa.
Gueiros sabe, de longa data, que o
grande sonho do atual senador 6 ser
governador do Estado. Mas Coutinho
e mais realista do que da a entender
sua forma meio tumultuada de mon-
tar estrat6gias. A hipotese de que seja
um candidate corn possibilidade real
de suceder Almir Gabriel se torna
cada vez mais remota porque Couti-
nho nao tem luz pr6pria, nao poden-
do dispensar o calor de quem esta no
poder.
Nio sera total surpresa se H61io
Gueiros Jr. for o candidate do pai em
1998. Um indicio 6 a inclusdo do
nome do atual vice na ultima pesqui-
sa eleitoral, mesmo nao podendo ser
cN=





2 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/JUNHO/1996


candidate a prefeito. Talvez o Guei-
ros pai queira verificar se, corn a co-
incidencia de nomes, a transferencia
automitica de votos 6 possivel. Mas
mesmo que o Gueiros filho ndo saia,
Coutinho tem no seu colega de sena-
do, Ademir Andrade,um concorren-
te dificil de ultrapassar.
Se o ainda distant governor 6 difi-


cil de alcangar, por que nao mon- eleiqao para governador.
tar na prefeitura, que passa AlQ AlIm de perder para Ja-
selada nas sondagens dos d, er Barbalho por infi-
institutos de pesquisa? Os pri- ma maioria de votos,
meiros bales de ensaio come- que o entao governador
garam a ser enviados para pro- H6lio Gueiros poderia ter
clamar ao mercado que o nome tranquilainente revertido,
do senador pode ser uma opp~o, a o empresdrio ficou corn
mais bem posicionada para enfrentar uma conta a pagar da campanha de
a preferida do eleitorado, a deputada 3,5 milhoes de dolares. Absorveu-
Elcione Barbalho. Seria a melhor ma- a sozinho, para isso quei-
neira de recompor a alianga vitoriosa mando grande parte de seu
na iiltima eleigAo, tirando o governa- patrim6nio. Mas parece dis-
dor Almir Gabriel da constrangedora posto a esquecer esse desa-
situaiao de nao ter ningu6m do seu gradavel passado recent pe-
PSDB para disputar para valer no las pomessas de poder. Convo-
maior col6gio eleitoral do Estado. cado a partilhar o sacrificio, o go-
Nesse caso, o prefeito HOlio Guei- vernador mandou dizer que restos
ros, aliado nao muito contrite do go- a pagar de campanha, quando se per-
vemador, com o qual se relaciona de, nao se paga. Xerfan ficou furio-
atravds de dupla face (a sua e a do so, mas a mosca azul 6 implacivel.
filho), mesmo sendo o maior lider no Um candidate acima dos 10 pon-
reduto, teria que se contentar com o tos 6 muito mais facil de impulsio-
lugar do vice (que, alias, sabe mane- nar pela mdquina official porque fal-
jar muito bem). Gueiros deve ter ava- tara ao nome at6 aqui mais forte uma
liado se 6 melhor concorrer com Cou- miquina equivalent. Elcione Bar-
tinho ou se 6 melhor arriscar com balho fez carreira political a sombra
Sahid Xerfan, o terceiro colocado nas de Jader e da estrutura de poder por
previas. ele montada, realizando acao social


Ambos jd foram prefeitos bi6ni-
cos e, no caso de Xerfan, tamb6m
eleito, numa das mais consagrado-
ras eleigoes ja ocorridas na capital.
HA arestas a aparar, mas em political
dificilmente elas sao resistentes aos
interesses, mesmo quando aparente-
mente rijas como as que separaram
Gueiros de Xerfan na penultima


Oportunismo

municipalista
A margem do conflito entire
indios Tembe e colonos, um
fato lateral mostra o desajus-
te entire as political publicas
e a realidade, um div6rcio
nitido entire as dinimicas po-
litica e social. O municipio
de Nova Esperanga do Pirii,
um dos cenarios do confli-
to, foi criado em 1991, quan-
do a litigincia ja estava ar-
mada e se alimentava de uma
longa hist6ria de omissao.
official.
Gestado pela industria
municipalista, que age em


escala national para tirar
proveito politico, econ6mi-
co e pessoal das redivisaes
efetivadas, o novo municipio
do extreme nordeste do Pari
foi criado com Area de 2.192
quil6metros quadrados, 70%
dos quais ou 1.534 km2 -
fazendo parte da Reserva In-
digena Alto Rio Guama, in-
teiramente fora dajurisdig o
municipal.
Como os indios sdo clien-
tes federal e nao municipals,
exceto quando a aculturacio
permit uma complete inte-
gragao econ6mica, o poder
politico local, at6 mesmo por
uma questAo de sobreviv6n-
cia, tomou o partido dos co-


lonos. Sem duvida eles t6m
seus direitos, que foram se
cristalizando a media que a
intrusao em territ6rio indige-
na foi permitida. No podem
ser simplesmente colocados
para fora, embora esta seja
uma possibilidade legal. Mas
os indios do Alto Guami se
cansaram de fazer expedi-
96es a Belem em busca da
protegao institutional que
lhes era devida. Invariavel-
mente recebiam nada al6m
do que promessas. O sambu-
rd que as armazenava have-
ria de estourar, como final
estourou. O desfecho era pre-
visivel, mas os moralistas de
dedo em riste no moment


final sao os mesmos que
apostavam na regra das aco-
modar6es naturais, passiveis
de tantas excegfes que qua-
se nao sao regras.
O oportunismo, que tem
sido a marca maior dos des-
membramentos intraestadu-
ais, atesta, nesse caso, como
pode vir a faz6-lo em nume-
rosos outros exemplos, a ir-
responsabilidade na gestdo
territorial no Para. Nova Es-
peranga do Piria nio foi pre-
parada para conviver e resol-
ver o gargalo territorial em
que foi deixada pelo legisla-
dor irresponsavel. Outras
bombas semelhantes poderdo
explodir no future. *


com verbas publicas. Ela ainda 6
Barbalho pessoal e politicamente,
mas jA esta em fase de separagqo le-
gal do marido, vivendo o dificil mo-
mento de apartar os bens e procurar
identidade pr6pria. i um moment
arriscado para v6os solos: ainda usa
marca alheia.
Ela continue dependent do apoio
do ex-marido, que tem posiq o mais
nitida no mercado politico, mas para
o public, especialmente para o elei-
torado da capital, precisara transmi-
tir uma image pr6pria. Nascida
politicamente de Jader Barbalho,
precisa mostrar que sera, cada vez
mais, Elcionc Zaluth. Fez um movi-
mento ousado: anunciou-se como
continuadora de Hl6io
Gueiros, uma conti-
- nuadora hlcida, ca-
paz de dar prossegui-
mento ao que o atual
prefeito possa estar fa-
zendo de bom e corri-
V gindo onde ele tenha er-
rado.
Al6m de eficiente opAo
de marketing, 6 uma tentative de pre-
venir-se contra o rebaixamento da lin-
guagem de campanha, tentando evi-
tar que ela chegue ate a sua alcova.
Se conseguira, as definicges a serem
feitas em future imediato responde-
rio. Mais uma vez, portm, a eleiqAo
na maior cidade amaz6nica da a sen-
sagdo de que nao ha novidade sob o
sol e que a luz projetada 6 ilus6ria.*






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0 duro teste para o enclave


Pela primeira vez a Companhia Vale
do Rio Doce montou uma matriz
social para um empreendimento eco-
n6mico seu no Pari. Nas ocasi6es an-
teriores, a empresa a mais impor-
tante do Estado -limitava-se a im-
plantar a base produtiva e o n6cleo de
apoio, estabelecendo o canal de esco-
amento quando o centro de comercia-
lizag~ o se encontrava a dist~ncia, num
porto litorfneo. Mas no caso do pro-
jeto Serra Leste, destinado ao aprovei-
tamento da maior jazida de ouro do
pais, em Curion6polis, no sul do Pari,
a CVRD esta disposta a oferecer com-
pensa96es para os antigos ocupantes
da Area na qual vai se instalar.
Para poder fazer a lavra subterri-
nea do dep6sito, avaliado em 150 to-
neladas at6 a profundidade de 430
metros (podendo crescer com as no-
vas sondagens, que deverao chegar a
1.500 metros), a Vale ofereceu o pa-
gamento de indenizagao aos 6.600
moradores de Serra Pelada, pelas ben-
feitorias que criaram na area e a cons-
trug.o de casas para os que estiverem
dispostos a participar de uma permu-
ta, al6m de dar prioridade a contrata-
gao de mao-de-obra local.
O problema 6 que a oferta se res-
tringe A populagao resident de Serra
Pelada, que sobreviveu no local aos
filtimos anos de peniria que se segui-
ram ao esgotamento do garimpo. Nao
atinge as outras 16 mil pessoas, prin-
cipalmente do Maranhao, cadastradas
pela Cooperativa dos Garimpeiros de
Serra Pelada. Elas haviam se retirado
quando o filao se esgotou, mas retor-
naram com o anuncio de que cada um
poderia receber o equivalent a 30
quilos de ouro, mais de 350 mil reais
"per capital .
Para alimentar a mobilizagao, algu-
mas liderangas sustentam que a Vale
nao e a detentora plena dos direitos
de lavra. Nao 6 verdade: antes de ser
conhecida como Serra Pelada, a Area
era a Serra Leste, incluida no decreto
de lavra concedido a empresa em
1974, seis anos antes da formagao do
garimpo. A principio a unica substan-
cia indicada para pesquisa era o ferro,
mas logo depois da corrida ao ouro
houve o aditamento para essa subs-


tincia. O direito da Vale foi reconhe-
cido em todas as instancias adminis-
trativas competentes. O unico questi-
onamento possivel a partir dai 6 o ju-
dicial.
Na justiga, a pendencia dos garim-
peiros 6 com o govemo e pelo paga-
mento do palidio recolhido pela Cai-
xa Econ6mica Federal. Sio 32 mi-
Ihoes de reais, mas parcela preponde-
rante desse valor 6 divida da Coomi-
gasp junto a terceiros. Depois de tan-
ta confusao na gestao do garimpo, 6
inevitivel que os neg6cios ali estejam
muito long da clareza. Para manter o
jogo camuflado de interesses, muita
gente prefer continuar a apostar no
conflito.
Para o municipio de Curion6polis,
a vantagem da proposta da CVRD
sobre os prop6sitos de algumas lide-
rangas de Serra Pelada 6 evidence.
Obrigada a renunciar a attitude costu-
meiramente arrogante que adota no
Park, a Vale teve que ir um pouco al6m
do enclave usual, pensando na popu-
lagao ao redor, mesmo que tenha sido
para enfrentar as liderangas do garim-
po no quebra-de-brago diante da opi-
niao ptiblica. Mas terd a empresa apre-
sentado a proposta mais just?
Apurar a dimensao social desses
grandes projetos costuma ser um enig-
ma indecifravel diante de sua conta-
bilidade fechada. Para um investimen-
to de 250 milhies em Serra Leste, re-
alizavel ao long de tres anos, o orga-
mento da matriz social talvez nao vi
al6m de 2 ou 3%. Em alguns casos
essa proporgao pode ser alta, como no
caso da Alunorte, com taxa de apenas
7% de retomo de capital. Mas em ou-
tro exemplo, mais apropriado, como
o da exploracao do ouro do igarap6
Bahia, e pouquissimo. 0 faturamento
da mina no ano passado, de 130 mi-
lhWes, equivaleu a todo o investimen-
to feito ali. E claro que se trata de fa-
turamento bruto, mas ainda assim 6
uma ordem de grandeza invejavel.
Com o impasse de Serra Leste a
Vale estA tendo muita dor de cabega
desnecessAria e vem sendo injustiga-
da. Mas tem a oportunidade de come-
gar a aprender que tao important
quanto seus parceiros e clients inter-


nacionais, para os quais se volta qua-
se completamente com seus projetos-
enclaves, 6 a populag9o local. Ao
menos numa sociedade com regime
politico aberto.
A capacidade de geragao de ener-
gia no Brasil 6 atualmente de 56 mil
megawatts. Em 20 anos tera que che-
gar a 80 mil megawatts para poder
tender o consume que o governor pro-
jeta para 2004. Mais 42 usinas terao
que ser construidas dentro do plane-
jamento da EletrobrAs. Como o pais
pouco avangou em fontes altemativas
de energia e parou na frente nuclear,
esse acr6scimo de 24 mil MW terA que
ser buscado mesmo nos rios, respon-
sAveis por 93% da oferta disponivel.
De toda a Agua que existe no Brasil
equivalent a 20% do planet, 70%
esta na Amazonia. E o ParA 6 o mais
favorecido para produzir energia.
Um indicador desse rumo foi a as-
sinatura, em Brasilia, no mes passa-
do, de um protocolo de inten9ges en-
tre a Eletronorte e seis empresas alta-
mente consumidoras de energia para
a duplicagao da hidreletrica de Tucu-
rui, a maior inteiramente national.
Cor investimento de 1,5 bilhao de
d6lares, a usina receberia mais 10
mAquinas e poderia chegar a 8 mil
MW, uma s6tima parte da capacidade
atualmente instalada em todo o Bra-
sil.
As empresas dividiriam entire si as
turbines de acordo com as suas neces-
sidades e conforme a aplicagio de ca-
pital que tiverem feito, liberando para
a Eletronorte as maquinas ja instala-
das. Empresas como a Albras, a Alu-
mar e a Camargo Corr6a passariam a
suprir-se diretamente de energia, dei-
xando de ser clients da Eletronorte.
Essa mudanga viria em boa hora: os
contratos da Albris e da Alumar, res-
ponsaveis por 3% do consume de
energia de todo o pais, termminam em
2004. E improvavel que as tarifas em
uso, estabelecidas em 1984 para te-
rem vigencia de 20 anos, possam ser
renovadas. O subsidio, de 200 milh6es
de d6lares ao ano, tera que ser encer-
rado, sob pena de liquidar de vez com
a Eletronorte, a segunda empresa bra-
sileira mais deficitaria. *






4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA/JUNHO/1996


TESTEMUNHO


Civilizayio na jungle"


O ano era de 1972. Eu atravessava urn
dos corredores do Ipea, o Instituto de
Pesquisa Economica la Secretaria de
Planejamento da PresidEncia da Repiu-
blica. A porta de uma das salas estava
entreaberta. Na passage por ela ouvi
algu6m falar em Marx. Parei. Um sinal
de alerta disparou na consciencia. Naque-
les anos de chumbo era heresia grave
falar ou ouvir aquele nome. Um intelec-
tual tivera apreendido seu exemplar de
A Capital, do infelizmente ji pouco
lido portugu8s Ega de Queiroz. A Cau-
sa? Confusio, na mente do policial re-
pressor, cor O Capital, do ingitado Karl
Marx, o home que se servia de crian-
cinhas em seu breakfast. O mesmo
aconteceria com um exemplar de O Ver-
melho e o Negro, do maravilhoso Sten-
dhal. Tudo o que era vermelho necessa-
riamente deveria dizer respeito a comu-
nistas. Tempos em que a inteligdncia era
praticada nas madrugadas caladas.
Pois dentro daquela sala, em um dos
coraqces do poder, t6cnicos pagos pelo
govemo discutiam Marx como se esti-
vessem em buc6lico piquenique. Apro-
ximei-me, pedi para entrar e fiquei as-
sistindo ao debate. Depois fui embora
sem dar explica.9es, que, aliAs, nem fo-
ram pedidas. Tinha a sensagio de que
acabara de passar por um territ6rio alheio
ao Brasil, embora encravado em seus li-
mites. O Estado policial sufocara a con-
trov6rsia intellectual fora de ilhas como
aquela.
Quem patrocinava semelhante cena de
liberdade de pensamento explicit? O
piauiense Joiio Paulo dos Reis Veloso,
secretario de Planejamento da Presiden-
cia da Republica, que equivalia ao mi-
nistro de hoje. Reis Veloso era um dos
mais fortes entalhes da engrenagem bu-
rocritica que se aliara aos tutores milita-
res para sustentar o chamado milagre
econ6mico daqueles tempos.
Os militares pouco entendiam de eco-
nomia, uma grave deficiencia reconhe-
cida por um dos principals escribas fo-
renses (embora de esquerda), o general
Nelson Werneck Sodrd. Os tecnocratas,
na maioria economists, precisavam da
espada para fazerem-se aceitos e, no
caso, conquistarem a hegemonia politi-
ca no Brasil. Em outros paises eram des-
tratados: a economic, por 1l, era assunto
muito sdrio para ser deixado nas maos
deles (como tamb6m as guerras, entre-


gues a ministros da defesa invariavel-
mente civis)
Reis Veloso era o que Platdo chama-
ria de intellectual organico, conceito ar-
redondado pelo italiano Antonio Grams-
ci. Estava cor os militares nio abria.
Mas se preocupava com a hist6ria. Man-
tinha-se a distfncia do banho de sangue
da luta armada e atraira para a sua ilhar-
ga cabegas pensantes da tecnocracia de
esquerda. Algumas delas estavam na sala
pela qual passei. Elas assegurariam nas
futuras cr6nicas que Reis Veloso, pelo
menos, era um despota esclarecido.
O Ipea, por isso, se transformou na
consciencia critical do sistema. Nas pra-
teleiras do institute podiam ser encon-
tradas pesquisas que eram a pura aplica-
5o da teoria marxista, inclusive com
suas bases metodol6gicas. N~o eram
consideradas na acAo pratica, claro, mas
estavam ali a disposigao dos iniciados e
dos que viessem a consulta-las para se
admirarem do Principe piauiense. O Ipea
era um dos components do populismo
de novo tipo, A maneira dejovens turcos
tropicalizados, montado a 6poca dos
militares, especialmente no governor de
Garrastazu M6dici.
Os sucessores de Reis Veloso, a prin-
cipio o baritone etilico Mario Henrique
Simonsen, nao tiveram esses pruridos
caleidosc6picos. A consciencia critical
voou para muito long. Foi pousar em
Washington, na pesada arquitetura do
Banco Mundial. O BIRD, chamado, na
decada de 70, a fianciar o asfaltamento
da mais important rodovia de penetra-
9ao na Amaz6nia depois da Beldm-Bra-
silia, a BR-364 (Cuiabi-Porto Velho),
olhou o prospect e advertiu: nio havia
nada no projeto sobre o impact da obra
sobre o meio ambiente. S6 daria o di-
nheiro se a papelada, em relagao a cuja
gestarao o regime military sempre foi pro-
lifico, incluisse um capitulo sobre acio
ecol6gica.
A humanidade jA havia passado pela
primeira Conferencia Mundial sobre
Desenvolvimento e Meio Ambiente, re-
alizada em Estocolmo, em 1972. Des-
cobriu-se que a Terra era um orgnismo
vivo e que n6s a estavamos ferindo gra-
vemente. Reis Veloso, por6m, mandou
dizer pelo delegado brasileiro, o general
Costa Cavalcanti, ministry do Interior,
que os ecologistas segurassem no pin-
cel: primeiro teriamos que importar a


industrializacio, da qual eramos caren-
tes. Depois 6 que pensariamos nos seus
males. Iriamos percorrer o mesmo cami-
nho dos ent~o industrializados, na espe-
ranqa de que a mimese produzisse os
mesmos resultados.
Mas o Banco Mundial fincou p6 e o
capitulo ecol6gico foi providenciado.
Nao adiantou muito diante do hAbito bem
luso-tropicalista de produzir muito pa-
pel para emoldurar prateleiras e s6.
Serviu, no entanto, para prevenir o in-
gresso do BIRD na jungle da acusagqo
de barbarie que viria pelo caminho. A
selvageria das frentes econ6micas em
Rond6nia teria sido ainda maior se o
banco 1 n~o tivesse estado.
O BIRD tamb6m aplicou seu sinete
em Carajis. O governor brasileiro espe-
rava ansioso o empr6stimo do banco.
Nao era muito, quantitativamente, dian-
te do volume de recursos necessarios para
dar a partida na exploraqo damaior pro-
vincia mineral do planet: seriam 10%,
ou 300 milh6es de d61ares em US$ 3
bilh6es. Mas serviria de aval para fechar
muitos outros contratos mais volumosos,
tanto de empr6stimos quanto de venda
de produto. Compensaria com folgas a
said do empreendimento da maior si-
der6rgica do planet, a norte-americana
United States Steel.
O banco leu a nova papelada e feriu
um novo ponto: a ajuda as populaq6es
indigenas colhidas pelo trem de min6-
rio. Nada estava previsto na concepqao
original. Mas a Companhia Vale do Rio
Doce, uma estatal que nao se ajustara ao
mundo tropical (do qual permanece de-
sajustada at6 hoje), foi obrigada a reser-
var 12 milh6es de d61ares para um pro-
grama de assistencia as tribes entire o Parf
e o Maranhao.
Novamente houve descompasso entire
a teoria e a pritica, entire o papel e a rali-
dade. A maior parte do dinheiro foi apli-
cada em atividades-meio, na pantagrue-
lica burocracia official. Outra parcela es-
vaiu-se por canais diversionistas e nao
foi recuperada. Diretamente para os in-
dios nao sobrou muito. Mas o banco as-
segurou a assepsia na sua segunda gran-
de incursao amaz6nica: tentara adequar
pianos econdmicos a preocupac6es hu-
manitrias universais. O Brasil, oisis in-
sular em um oceano de problems mun-
diais, nao dava atendio a essas quest6es.
Ficariam para depois do milagre, se hou-
vesse depois (o estamento tecnocrata-
militar talvez tivesse ambigco maior do
que os mil anos do Reich).
O BIRD era, entAo, a vanguard. Sa-
biamos, por ouvir dizer, que seus t6cni-






JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/JUNHO/1996 5


cos ou "oficiais", conforme o jargao, vi-
nham em mission ao Brasil, como os deu-
ses-astronautas inventados por Van Da-
niken, e retomavam aos Estados Unidos
com o Santo Graal da verdade. Seus es-
tudos nos permitiriam ver o que estava
interditado aos nossos olhos dentro do
pr6prio pais. Seria uma sensaiAo tio re-
veladora quanto, em noites bem prote-
gidas, sintonizar a Voz da America e
ficar sabendo do que a propaganda ofi-
cial nos ocultava naqueles dias. Os ame-
ricanos, que apoiaram decididamente a
ascensio dos militares ao poder total, se
transmudavam em relicrios da liberda-
de, posta em quarentena pela criatura
criada no laborat6rio misto.
S6 17 anos depois do epis6dio brasi-
liense no Ipea pude alcangar a Meca do
World Bank, na 1818 H Street, em Wa-
shington. Foi uma sensaqgo semelhante
a que experimentei quando vi chegar ao
Jari as plataformas com a fibrica de ce-
lulose e a usina de energia mandadas
construir no Japio, a 20 mil quil6metros
de distfncia, por Daniel Ludwig. A cena
se materializava diante dos meus olhos
oito anos depois do primeiro contato corn
o Jari (e outros seis ainda transcorreriam
ate o milionArio americano abandonar
seu imp6rio amaz6nico). Eramos adver-
sArios, mas havia um intimo respeito
mituo entire n6s, o gigante do mundo de
neg6cios dos EUA e um pigmeu das sel-
vas jomalisticas. Foi corn emocgo que
sobrevoei as duas enomes estruturas
metAlicas navegando pelo Jari recorta-
das no verde da mata ao fundo, depois


de terem passado por trds mares. Nem
sempre ganhar 6 o mais important quan-
do se tem consci8ncia da grandiosidade
da batalha.
Na sede do BIRD, minha batalha era
para ler o relat6rio de avaliaco que tor-
nara possivel o empr6stimo a Carajas. Ja
era, entio, um document hist6rico. Mas
houve relutfncia na autorizaqco. Afinal
ela veio, mas sob condigoes: eu nio po-
deria fazer anotarbes sobre o que iria ler.
Entrei com mios rigorosamente limpas
numa sala pequena e li o document.
Memorizei e depois registrei alguns da-
dos relevantes, antes que a ansiosa tic-
nica que autorizara a consult voltasse
atras e encerrasse a sessAo. Fora um ato
de gentileza e, ate, de coragem dela, mas
as regras do banco impunham limits.
O dado de maior significarao naque-
le relat6rio: o minerio de ferro de Cara-
jas teria que ser vendido a 36 d6lares a
tonelada para que o projeto se tornasse
auto-suficiente. Do contrArio, a CVRD
teria que transferir recursos de outras
fontes para mante-lo em funcionamen-
to. Operaria no vermelho por virios anos
e o retorno seria mais demorado do que
o recomendivel. O preco atual estA em
toro de 15 d6lares a tonelada.
Na semana passada, John Garrison II,
consultor permanent do Banco Mundi-
al, garantiu que hoje eu poderia ler sem
sobressaltos uns 70% de todos os docu-
mentos produzidos pela instituigAo. Ape-
nas trabalhos que dependem da libera-
g9o de govemos nacionais ndo podem ser
consultados pelo piiblico. O BIRD ade-



A hist6ria de volta


riu A moda nem sempre mais do que
modismo da transparEncia (produto tan-
to do desejo de se mostrar quanto do fato
de n~o ter o que mostrar).
O Banco Mundial ndo quer mais ter
apenas como interlocutores os goveros
nacionais. Quer dialogar com outras re-
presenta96es da sociedade, entire as quais
as ONGs (Organizaq6es Nio-Governa-
mentais). Na semana passada Garrison
comandou uma reuniao em Bel6m com
13 representantes de ONGs paraenses, que
poderiam ser mais se mais houvesse ou
se algumas nao tivessem adotado uma ati-
tude c6tica diante da surpreendente inici-
ativa.
O BIRD diz que nio apenas quer criar
um canal de voz extra-governos, mas ab-
sorver algumas das necessidades da soci-
edade que vinham sendo mantidas fora
de suajurisdicao. Na reuniao, Garrison,
criado no Brasil por pais americanos, sur-
preendeu-se corn a afabilidade local, con-
trastante com um tom mais duro ou ideo-
16gico nas pracas nordestinas ou do Sul-
Maravilha. Os amaz6nidas tem critics a
fazer ao banco e partilham visSes de ou-
tros paises quanto ao papel da instituicgo
na assim chamada nova ordem econ6mi-
ca interacional. Mas um balango realista
destas tres d6cadas podera levar A con-
clusao de que os governor locals tem sido
ainda piores do que o banco criado hA 50
anos para promover a reconstrugo e o
desenvolvimento interacionais. Portan-
to, come here, BIRD, nmas A nossa moda.
Ou serA que o banco tem uma nova sur-
presa a apresentar? 0


Historiadores acostuma
dos a lidar cor fontes
primnrias de documentagaio
sempre destacaram a preci-
osidade do acervo existente
no Arquivo Ptblico do Para.
E uma mina sobre hist6ria
colonial do Brasil A espera
de diligentes pesquisadores.
Poucos deles aproveitaram
esse manancial at6 o inicio
da decada de 80, nao s6 por
falta de uma tradig~o histo-
riografica sdria, como pelas
pr6prias condi9des da guar-
da da vasta documentacgo.
armazenada em Beldm sobre
os seculos 17 a 19. Ate a
sadde dos eventuais pesqui-


sadores estava ameagada
quando se dispunham a ir
al6m dos documents orga-
nizados por Arthur Viana no
inicio deste s6culo, mesmo
estes nem sempre acessiveis.
As condig6es fisicas do
pr6dio neoclissico do Arqui-
vo Piblico no centro da ci-
dade e o tratamento dado A
documentag~o melhoraram
extraordinariamente desde a
gestao da bibliotecaria Alda
Mendes Gongalves, que ti-
rou a instituigio da triste
condiaio em que foi manti-
da, durante anos, de dep6si-
to de papel velho e sonolen-
ta fonte de consult (quan-


do tamb6m ali funcionava a
Biblioteca Piblica, transfe-
rida depois para o Centur).
Agora, com o antrop6logo
Mdrcio Meira, o Arquivo
passa a ser um centro de ati-
vismo cultural.
MArcio conseguiu refor-
gar a equipe tccnica que foi
se estruturando a partir da
diregao de Alda Gongalves
e comega a atrair pesquisa-
dores para dar forma A ma-
teria-prima existente no Ar-
quivo. Um important repo-
sit6rio desse material esta
nos Anais, que voltaram a
circular na semana passada,
com o relangamento official


realizado no Museu do Es-
tado.
Por enquanto, sera apenas
uma ediaio annual (o nmne-
ro langado ainda se refere a
1995), cor tiragem de 1.500
exemplares, mas podera ter
periodicidade mais curta no
future. A nova s6rie dos
Anais, com origem em 1902,
quando a riqueza da borra-
cha animava os empreendi-
mentos culturais, tem uma
qualidade grafica sem para-
lelo no passado. Sua sobre-
vivencia medira nossa capa-
cidade de preservar a mem6-
ria e escrever a pr6pria hi
t6ria.





6 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/JUNHO/1996


As facetas da cultural


Aprefeitura de Bel6m gastou 550
mil reais para editar um album de
180 pdginas, "Os Caminhos de Be-
16m", com fotos de Jos' de Paula Ma-
chado e Nelson Monteiro, impresso
pela Agir Editora, do mesmo Paula
Machado. Nao houve concorrencia
para a realizaao do trabalho. Os al-
buns estao sendo distribuidos gratui-
tamente.
O govemo do Estado gastou R$ 150
mil para editar um album de 260 pd-
ginas, "Bel6m da Saudade", reunin-
do cart6es-postais do inicio do s6cu-
lo, cedidos para serem reproduzidos
por seus colecionadores. O album,
impresso pela Pancrom, sem concor-
rencia, estd sendo vendido a R$ 100
a unidade.
Os dois albuns foram langados corn
intervalo de apenas um dia, permitin-
do A opinion piblica comparar as duas
iniciativas. Sao duas publicagOes lu-
xuosas e de bom gosto, tendo como
motive a- por outros meios que ntao
o grAfico maltratada capital do ParA.
A prefeitura optou por contratar dire-
tamente dois profissionais de fora do
Estado para registrarem alguns dos
pontos mais expressivos da cidade e
de sua Area de influencia, dando aos
historiadores Geraldo Coelho e Ruth
Moraes (esta, cunhada do prefeito Hd-
lio Gueiros) a tarefa de sustentar as
imagens com textos minimamente ex-
plicativos.
Bel6m jd dispoe de pares equiva-
lentes de fot6grafos habilitados para
um serving da qualidade de Machado
& Monteiro, ou talvez at6 melhor. Sur-
preende que a prefeitura nem tenha
se dado ao trabalho de convocar inte-
ressados em uma cidade onde a foto-
grafia tem se desenvolvido tanto que
alguns de seus profissionais jd parti-
cipam de exposig6es intemacionais.
Talvez a escolha direta possa ser ex-
plicada pelo fato de que Paula Ma-
chado 6 dono da Agir Editora, que im-
primiu o album. O que explica, mas
nao justifica a decisao muito pelo
contr-rio, exige que se explique o em-
pacotamento complete da edigao nas
maos de um fot6grafo-editor.


Seria para que o livro ganhasse
melhor divulgagao fora do circulo lo-
cal? De fato, a iniciativa foi registra-
da extra-muros, mas seus melhores
efeitos foram sentidos em Belem
mesmo. O lancamento do album
municipal foi muito mais concorri-
do do que o estadual e exatamente
porque a distribuigao seria risonha e
franca. Convidados foram vistos car-
regando dois, tres ou mais exempla-
res. JA no lancamento da Secretaria
de Cultura houve ranger de dentes
quando o prego da publicacao foi
anunciado: quase um salArio minimo.
Se a idWia do album tinha finali-
dade political, a prefeitura faturou
mais dividends A custa, natural-
mente, do precioso dinheiro do con-
tribuinte. Mas essa sagacidade nao
impede que se consider o aspect
de estrita polftica cultural, sem seus
derivatives e aplicativos politicos ou
politiqueiros, que a edicao de um li-
vro envolve.
O que 6 dado nao tem valor, diz a
sabedoria popular. Mas a sagacida-
de dos sobas paroquiais assegura que
o povo s6 aceita a cultural quando ela
6 gratuita. i precise tutela-lo e mi-
moseA-lo, quando necessario, para
que ele vA aldm do universe da teli-
nha eletr6nica. A verdade 6 ditada ca-
tegoricamente, mas quem questio-
nou-a obteve resultados surpreenen-
tes. Um exemplo positive: a revela-
qCo de jovens vocagoes musicals en-
tre filhos de families pobres aos quais
o Conservat6rio Carlos Gomes con-
seguiu ter acesso. Um exemplo ne-
gativo: as encenaqOes de classicos da
dramaturgia pela Escola de Teatro da
Universidade, entire as decadas de 60
e 70, em espetAculos abertos ao pu-
blico, mas que nao formavam publi-
co. Meses, ensaio e dinheiro aplica-
do se esvaiam em tres dias de apre-
sentaiao.
A formagao do gosto e o aprendi-
zado visando o entendimento podem
ser gratuitos. Essa 6 a funcao especi-
fica do Estado. Mas ele nao 6 o Pa-
pai Noel da cultural, que retribui com
present a simples vontade onirica do


destinatArio. Vista A maneira da
PMB, a cultural seria uma aTAo entire
amigos, aqueles que sao convidados
para os langamentos e vIo A festa
para receber o present, al6m do co-
quetel, indo a conta tambem para o
excluido da confraria. Mas tambem
6 equivocada a visao do Estado como
agent commercial da cultural, dela ex-
traindo o custo integral do empreen-
dimento. Se for assim, o que deveria
ser investimento de desenvolvimen-
to passa a ser aplicacao commercial de
capital. A taxa de retorno da cultural
6 lenta, mas 6 assim na maioria das
vezes, principalmente em um pais
como o nosso.
O album municipal 6 um portfolio
turistico, sem maior densidade cul-
tural. Jd a publicaao da Secult tern
uma proposta reflexiva, envolvendo
um trabalho de maior participagao
coletiva. Pode-se questioner a solu-
gao encontrada para o tratamento edi-
torial dos cart6espostais. O escanea-
mento por computador permitiria tra-
balhar melhor as imagens e reprodu-
zi-las ampliadas. Algumas, reduzidas
demais, deixam de transmitir boa
parte das informao6es que carregam
consigo.
A consult ao "Bel6m da Saudade"
6 utilissima para quem quer saber da
trajet6ria da cidade (ver matkria a
respeito nesta ediolo), mas a R$ 100
o exemplar o acesso fica muito difi-
cil. O apoio cultural obtido (de AlbrAs,
Montemil, Asssociaao Comercial e
Minist6rio da Cultura) deveria ter pos-
sibilitado reduqao do preco de venda
e dos custos de produgao, atraves da
ampliagao da tiragem. Algumas pes-
soas que foram ao BLT da prefeitura
e compraram o album da Secult de-
vem ter o prop6sito de fazer neg6cio.
Sendo de tiragem reduzida e tendo
circulado entire poucas pessoas, as
duas publicacaes logo serao raridades
e valerao bem mais do que custaram.
Mas, como sempre, a cultural conti-
nuara a ser uma refer6ncia vaga para
muitos, um deleito para poucos e um
neg6cio rentAvel para raros. Terd que
ser sempre assim? *





JOURNAL PESSOAL '" QUINZENA/JUNHO/1996 7


0 satlite esta de volta a AM


Ao contrArio do que prometeu, o go-
verno federal acabou nlo anuncian-
do os dados sobre o desmatamento na
Amazonia nos periods de 1992/93 e
1993/94, que seriam revelados durante
a semana comemorativa ao meio ambi-
ente. Os filtimos resultados oficiais co-
nhecidos sGo relatives a 1991, mas, como
ocorreu cor as apuracqes de boa part
da d6cada de 80, foram muito questio-
nados. Eles indicam que, depois do pi-
que registrado em 1987, quando o Bra-
sil bateu, na Amaz6nia, o record mun-
dial de queimadas em todos os tempos,
a progressAo do desflorestamento se de-
sintensificou. A media de 20 mil quil6-
metros quadrados destruidos a cada ano
teria baixado para bem menos da meta-
de.
A Amazonia entrou para a recent era
de monitoramento de recursos naturais
atrav6s de sat6lite na segunda metade da
d6cada de 70. T6cnicos da Nasa, a agen-
cia espacial americana, detectaram um
grande incendio no sul do Para Era a


Volkswagen que estava queimando qua-
se 10 mil hectares para a formaqao de
pastagens em sua fazenda em Santana do
Araguaia, a Vale do Rio Cristalino. Um
cientista brasileiro, Varwick Kerr, que na
6poca dirigia o Inpa (Instituto Nacional
de Pesquisas da Amaz6nia, de Manaus),
chegou a denunciar que o desmatamen-
to abrangia um milhao de hectares, 100
vezes mais do que a area efetivamente
atingida.
Cor a advertEncia da Nasa, o gover-
no brasileiro fez o primeiro levantamen-
to da alteracao da cobertura vegetal da
Amaz6nia usando o sat6lite Skylab, ji
desativado. O monitoramento foi reali-
zado a seguir corn o Landsat, mas, por
economic, o Inpe (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais, instalado em Sao
Jos6 dos Campos, Sao Paulo) passou a
utilizar o NOAA.
O NOAA, um satelite meteorol6gico,
identifica os pontos de fogo, mas nio a
amplitude do seu alcance. Pode dizer
quantos pontos de fogo estao ativos em


determinada Area, sem permitir, entretan-
to, fazer a soma da sua extensao. Por isso,
quando o Inpe revelou o incrivel dado
de que em 1987 haviam sido destruidos
200 mil quil6metros de floresta prima-
ria na Amaz6nia, logo surgiram muitas
contesta6es. A metodologia nao possi-
bilitaria chegar ao resultado apresenta-
do.
A s6rie annual sobre desmatamento
(conceito que os t6cnicos do governor
preferem substituir por desflorestamen-
to) permaneceu precariamente at6 1991,
quando foi interrompida. Agora o Inpe
usou a versao mais modern do Landsat
para o levantamento dos dois iltimos
periods. E o governor ainda comunica a
parceria corn a pr6pria Nasa para fazer a
cobertura sistemitica da regiao amaz6-
nica atris dos que estAo derrubando a flo-
resta, utilizando um aviso conveniente-
mente equipado para fazer a localizagdo
por coordenadas geogrificas.
Em materia de promessas, um avango
consideravel. Faltam agora os fatos. *


As mfusicas de uma epoca


Ahist6ria da mais musical das famili-
as do interior do Estado 6 o testemu-
nho de uma 6poca. Na decada de 20 o
maestro Jos6 Agostinho da Fonseca
mandava suas misicas para concorrer no
Rio de Janeiro, que era a capital da Re-
p6blica, e tinha algum reconhecimento.
Na d6cada seguinte era seu filho, Wil-
son, mais conhecido como Isoca, quem
aparecia no concorrido scenario national,
causando surpresa pela qualidade do
produto, vindo de tao long. A capital
do Estado quase nio conhecia os Fon-
seca, mas todos, na Santar6m daquela
6poca, sabiam de cor pelo menos algu-
ma de suas muitas composicSes, fre-
quentemente ingmnuas e grandiloquen-
tes, mas nunca simpl6rias. Os Fonseca
conheciam muito misica. Sabiam ate


ler partituras, como os conterrineos des-
tacavam, orgulhosos.
Santar6m gostava de mfisica e de cul-
tura em geral. Tinha pretensSes autono-
mistas. Se nAo conseguia elevar-se a con-
diaio de Estado, vivia as ilus6es de pro-
duzir seus hinos, ter material pr6prio para
serenatas sem fim, buscar inspiragao nos
antepassados indigenas ou nas linhagens
nobilifrquicas, escrever uma hist6ria que
comegava e terminava no vale do Tapa-
j6s, como se Belim fosse tAo distant que
nem valia a pena parar nela quando a ca-
minho de horizontes maiores, na capital
do pais. Mesmo porque Bel6m era a pe-
dra no caminho da ascensao.
A trajet6ria de Wilson Fonseca reflete
bem as aspirarSes santarenas. Em 65
anos de constant criagao, acumulando


800 composiqoes musicals, mestre Isoca
fez de quase tudo, aberto a todas as ins-
pirag9es, mas sobretudo aos eflivios da
terra. O CD em homenagem a ele, lanca-
do no inicio do mes pela Secretaria de
Cultura, document essa riqueza estilis-
tica e garante audin&cia para um moment
da hist6ria cultural do Estado. Talvez ele
ji tenha efetivamente passado, mas s6
seri saudavelmente superado se for in-
corporado ao patrimOnio de realizaqaes,
sem o qual o avanqar no tempo nao &
muito mais do que construir nas areas
das praias, praias pelas quais mestre Iso-
ca passou cor seu didatismo musical e
sua vontade de ser maior do que o tem-
po. Vontade tAo f6rrea que os Fonsecajia
chegaram a terceira geraiao com bem6is
e sibem6is no sangue. 0


Na mem6ria
Mais uma vez o gover-
nador Almir Gabriel nao
compareceu A reuniAo
do Conselho Deliberati-
vo da Sudam, mesmo
sendo ela realizada no-
vamente em Bel6m. A


ausencia do govemador da
cidade sede do encontro
serviu para esvaziar o Con-
del. Apenas o governador
de Rond6nia, Valdir Rau-
pp, esteve present.
A ausencia do govema-
dor, apesar dos reiterados
convites que Ihe faz o su-


perintendente da Sudam,
Frederico Andrade, tern
uma explicaio: o candida-
to de Almir, o empresArio
Fernando Flexa Ribeiro,
president da Federagao
das Ind6strias do Estado e
suplete de senador, deu en-
trevista como superinten-


dente indicado, mas nAo
assumiu o cargo. Foi ve-
tado.
De lI para ca se pas-
saram 17 meses e Frede-
rico continue a ser o su-
perintendente. 0 gover-
nador nao esquece, nem
perdoa.






Sgrimas pela cidade
o inicio deste seculo Bel6m era uma ci-
dade macigamente portuguesa plantada
nos tr6picos que comegava a experimentar
variances de estilo, iniportados, como o ne-
oclassico, ou recriados, como o Imp6rio bra-
sileiro. Algumas caracteristicas dessa cida-
de nio eram nada adaptadas, ou ecol6gi-
cas, como se diria hoje. A construnio ge-
minada de casas, por exemplo, cirnplice da
agressao ambiental, mas que era um ajuste
A carn&cia de material. No entanto, a cida-
de tinha alma forte, clara, maicante. Uma
cidade encantadora, mesmo que algumas de
suas chagas, s6 momentaneamente exibidas,
quase por descuido, deixassem bem claro
que n~o era o paraiso. Nao para os nordes-
tinos, sobretudo cearenses, nao alcangados
a tempo pela urbanizagco de Ant6nio Le-
mos.
Passados 80 anos dessas imagens, regis-
tradas no album "Bel6m da Saudade", edi-
tado pela Secretaria de Cultura do Estado,
o que se v6, mesmo atrav6s da maquiada
lente de um fot6grafo sensivel, 6 uma cida-
de que perdeu sua identidade e val sendo
progressivamente arrasada, tendo que sem-
pre buscar refrigerio nas ilhas que sobrevi-
veram do passado. t o que se conclui da
consult a outro Album, "Os Caminhos de
Bel6m", editado pela prefeitura.



0 future do jomal
Aceitei uma proposta da "Gazeta Mer-
cantil" para ser reporter do jomal na
Amaz6nia. Volto assim plenamente a im-
prensa dihria. Antes, ja havia aceitado
um convite de Giancarlo Sartorelo para
fazer um comentArio diArio no TJ Para,
o telejomalismo do SBT que voltou ao
Estado ha um mes e meio, depois de cin-
co anos de ausencia. Eu pr6prio retorno
A grande imprensa oito anos ap6s ter dei-
xado "O Estado de S. Paulo", onde tra-
balhei durante 17 anos.
A "Gazeta" represent um grande de-
safio para mim. Desde 1988, quando che-
gou ao fim minha colaboragao de 15 anos
em "O Liberal" e deixei "O Estado", jor-
nalismo para mim tem sido este Jornal
Pessoal, um acompanhamento meio a
distAncia dos fatos, por forga da limita-
iAo de meios em uma pobre publicagao
alternative como esta, mas que me obri-
gou a muita reflexro sobre as conjuntu-
ras que As vezes afogam o jornalismo.
Atitude analitica que, a despeito de tudo,


Uma cidade luxuriante em luz, cores e
cheiros 6 um destropo arquitet6nico, um
simulacro urbanistico.
Sabemos que os encantos da "belle
6poque", extremamente cars, s6 foram'
possiveis porque a Amaz6nia tinha uma
mina fabulosa, a borracha. Ningu6m
mais, durante 40 anos, teve essa precio-
sidade para oferecer a nascente industri-
alizagao mundial. Gastou-se muito para
fazer de Bel6m uma metr6pole de sabor
europeu enfiada na jungle. O dinheiro
teria sido melhor aplicado se, ao inv6s de
financial palacetes, pracas suntuosas e es-
petaculos artisticos, tivesse ido preparar
o cultivo da borracha para enfrentar seu
inimigo biol6gico ou dar-lhe altemativas
produtivas. A borracha nao conseguiu
fazer pela Amaz6nia o que o cafe reali-
zou por SAo Paulo. Por fatalidade?
As respostas ainda nao slo plenamen-
te satisfat6rias, mas o fato 6 que tinha-
mos uma cidade preciosa quando fomos
deslocados do mercado international e
passamos a viver nossa Idade M6dia en-
tre as d6cadas de 20 e 40, um period mui-
to menos desinteressante e desfavorAvel
do que parece a primeira vista. Ao final
da Segunda Guerra Bel6m ja nao era faus-
tosa, mas era gostoso de viver nela. O que
a estA liquidando foi ter-se submetido ir-
reflexivelmente A fungAo sub-colonial que



a Universidade Federal do Para me esti-
mulou a desenvolver com o cargo de pro-
fessor visitante. Quase me tomei acade-
mico, declaraglo que pode ser feita com
entonacao ora positive, ora negative. De
qualquer maneira, sou profundamente
grato a UFPA por sua receptividade e
pelo nicho que me proporcionou.
A "Gazeta Mercantil", que j A se apro-
ximou muito do modelo "Financial Ti-
mes", hoje ruma mais claramente para a
boa ancoragem no "Wall Street Journal",
umjomal pesadAo (sem fotos e sem cor),
especializado em economic e neg6cios,
mas que da tudo o que acontece de rele-
vante no mundo, sabe situar os fatos em
seu context explicativo, tem uma preo-
cupa~lo national e a maior tiragem (1,9
milhao de exemplares) entire os jornais
americanos.
Depois de sete anos dono do meu na-
riz, embora sem conseguir sustenta-lo
com o conforto que a idade ja comega a
exigir, tento a readaptagio a uma corpo-
racAo de produgio de noticias, na qual
sou apenas uma das peas, mas da qual
se exigira a plena integragdo ao esforco


Journal Pessoal Editor Responsivel: LIcio FIlvio Pinto
Redaco: Pass. Bolonha, 60-B -Fones: 223-7690 e 223-1929
Ilustragfo e editoragAo eletr6nica: Luiz Pinto


lhe impuseram os estrategistas de Brasi-
lia, desde quando abriram as comportas e
fizeram das rodovias os canais de avanqo
de hordas de hunos colonizadores ao in-
terior da floresta.
Enormes fontes de succqo de recursos
foram entronizadas no sertao e para a ca-
pital passaram a sobrar migalhas. Miga-
lhas de recursos, mas legi6es de migran-
tes. O crescimento vegetative da cidade
foi afogado pelos fluxos migrat6rios de
outros Estados e do interior, este abando-
nado por gente que nao entendia, nAo es-
tava prevista e nao conseguia integrar-se
a esses mastodontes de exportaqgo que
foram implantados pela alianga metropo-
litana avalizada em Brasilia. Os deserda-
dos do modelo foram instalar-se nas peri-
ferias e fazem seu com6rcio de sobrevi-
vencia nas ruas, fora da economic formal
e do estabelecimento regular. Bel6m vi-
rou um vasto acampamento do salve-se-
quem-puder-como-puder, neste espetAcu-
lo de selvageria e deterioraqgo que se re-
nova, multiplicado, a cada dia.
A saudade faz bem A alma, mas nao
impulsiona o corpo. Bel6m perdeu a ba-
talha do passado. Estara condenada a per-
der a luta do future? Motivos para lagri-
mas nao faltam. Mas chorar nunca foi a
attitude de chegada. Bel6m ainda merece
mais do que isso. *



comum. Esta a dimensko pessoal do de-
safio. O que interessa aqui 6 saber se o
Jornal Pessoal podera ou devera sobre-
viver a esse novo tempo professional. Eu
pr6prio tenho minhas duvidas, tantas
quanto minha angitstia quanto ao future
de uma publicadio na qual invest tan-
tos anos de sacrificios e alegrias, cuja im-
portfncia aleg6rica 6 para mim superior
at6 mesmo a significaqao pritica.
Nao gostaria de tomar uma decisdo
exclusivamente pessoal a respeito deste
jomal, embora ela necessariamente aca-
be sendo individual mesmo finala, sou
toda a redagao e administrag~o do JP).
Na maior parte do tempo a partir de 1988
ele foi minha inica janela para o mun-
do. Tornou-se para mim, portanto, uma
fonte de oxigenio. Ja nao 6 a inica e pode
vir a perder cada vez mais importincia
quanto a esse aspect proximamente.
Mas tera tamb6m a sua relevincia para a
opiniAo piiblica local. E 6 essa serven-
tia que gostaria de medir antes que o de-
sempenho das minhas novas fun9~es es-
tabelega as regras profissionais em rela-
gio as quais manter o JP talvez se tome
impossivel.
Ao mesmo tempo que j advirto o lei-
tor para a nova situacgo, pego-lhe por
esta via a gentileza de me ajudar a tomar
uma decisao just e ponderada. 0