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Journal Pessoal E D I T OR R E S PONSAVE L L L C IO F LAVI O P I N T O ANO IX NW 141 la QUINZENA DE JUNHO DE 1996e R$ 2,00 ELEICAO Em BelIm, o de sempre Numa dispute em que o maior eleitor tem que procurar candidate fora do seu esquema politico pessoal, a preferida nas previas precisa superar uma crise de identidade antes de confirmar que realmente 6 a mais cotada para vencer em outubro. eleitor nume- ro um de Be- 16m em outu- bro, o prefeito H6lio Gueiros, nao conse- guira lancar um candidate do seu esquema politico pes- soal. Tera que recorrer a um nome de fora. O senador Jader Barbalho, que vem sendo derrotado na capital desde 1982, quando se elegeu govemador pela primeira vez, ter a eandidata mais forte na dispute, a deputada fe- deral Elcione Barbalho. As pr6vias feitas at6 agora Ihe dao o dobro ou mais de preferencia sobre o mais pr6- ximo concorrente e um tergo dos vo- tos vilidos. Elcione ja estaria melhor colocada e ter-se-ia aproveitado me- lhor da indrcia dos adversaries se ti- vesse assumido mais cedo sua candi- datura, trabalhando-a antes que co- megassem os ataques pessoais tipicos de campanhas eleitorais carentes de idWias, como costumam ser as para- enses. Motivos pessoais, muito mais do que politicos, retardaram sua de- finiiAo. Mas, a partir desta semana, a campanha dos candidates pela mais important administration municipal da Amaz6nia chegard definitivamen- te as ruas. Esta dado o tiro de larga- da. O prefeito Helio Gueiros ji sabe quem vai apoiar, mas ainda nao re- velou o nome. Podera ndo ser nenhum dos que ele gostaria de escolher, como seu ex-secretario de Financas, miro Ben- tes, ou o ( deputado X federal Vic Pires Franco, do qual vinha se distan- ciando nos ultimos tempos, porque seus indices nas pesquisas est~o mui- to baixos. Nem as alternatives mais a seu gosto, como os ex-auxiliares Fre- derico Coelho de Souza e Nazar6 Marques, que se desincompatibiliza- ram de seus cargos para ficar a dis- posigao do prefeito. Frederico pode- ria ficar como vice e Nazar6 ganha- ria um mandate de vereadora. A composigao da chapa ficou des- concertantemente dificil para um li- der que poderia eleger qualquer nome, desde que nao fosse excessi- vamente pesado para a partida. Guei- ros deve estar se vendo na situaaio que Paulo Maluf enfrenta em Sao Paulo, sem terreno f6rtil para o qual transferir sua popularidade. Aritme- ticamente, sua melhor alterativa e o senador Fernando Coutinho Jorge, segundo colocado em todas as pes- quisas previas. Em todas, menos na ultima, que o Ibope realizou por encomenda do pre- feito. Gueiros determinou a exclusio do nome de Coutinho. Dizem algu- mas fontes que agiu assim diante das reiteradas de- clara9ces do se- nador do PSDB de que nao seria candidate a pre- feito de Bel6m, qualquer que fosse ^ a circunstincia. "Se era para levar a de- claracao a s6rio, o prefeito achou que nao valia a pena fazer a sondagem em tomo do nome de Coutinho", explicou um assessor. Mas seria tambem um castigo pelas declaragoes simpaticas de Coutinho a Elcione, provocadas pelo apresen- tador Mauro Bona, durante entrevis- ta ao program "Argumento", da TV RBA, de propriedade da familiar Bar- balho. O prefeito ficou achando que Coutinho fez o jogo da casa. Gueiros sabe, de longa data, que o grande sonho do atual senador 6 ser governador do Estado. Mas Coutinho e mais realista do que da a entender sua forma meio tumultuada de mon- tar estrat6gias. A hipotese de que seja um candidate corn possibilidade real de suceder Almir Gabriel se torna cada vez mais remota porque Couti- nho nao tem luz pr6pria, nao poden- do dispensar o calor de quem esta no poder. Nio sera total surpresa se H61io Gueiros Jr. for o candidate do pai em 1998. Um indicio 6 a inclusdo do nome do atual vice na ultima pesqui- sa eleitoral, mesmo nao podendo ser cN= 2 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/JUNHO/1996 candidate a prefeito. Talvez o Guei- ros pai queira verificar se, corn a co- incidencia de nomes, a transferencia automitica de votos 6 possivel. Mas mesmo que o Gueiros filho ndo saia, Coutinho tem no seu colega de sena- do, Ademir Andrade,um concorren- te dificil de ultrapassar. Se o ainda distant governor 6 difi- cil de alcangar, por que nao mon- eleiqao para governador. tar na prefeitura, que passa AlQ AlIm de perder para Ja- selada nas sondagens dos d, er Barbalho por infi- institutos de pesquisa? Os pri- ma maioria de votos, meiros bales de ensaio come- que o entao governador garam a ser enviados para pro- H6lio Gueiros poderia ter clamar ao mercado que o nome tranquilainente revertido, do senador pode ser uma opp~o, a o empresdrio ficou corn mais bem posicionada para enfrentar uma conta a pagar da campanha de a preferida do eleitorado, a deputada 3,5 milhoes de dolares. Absorveu- Elcione Barbalho. Seria a melhor ma- a sozinho, para isso quei- neira de recompor a alianga vitoriosa mando grande parte de seu na iiltima eleigAo, tirando o governa- patrim6nio. Mas parece dis- dor Almir Gabriel da constrangedora posto a esquecer esse desa- situaiao de nao ter ningu6m do seu gradavel passado recent pe- PSDB para disputar para valer no las pomessas de poder. Convo- maior col6gio eleitoral do Estado. cado a partilhar o sacrificio, o go- Nesse caso, o prefeito HOlio Guei- vernador mandou dizer que restos ros, aliado nao muito contrite do go- a pagar de campanha, quando se per- vemador, com o qual se relaciona de, nao se paga. Xerfan ficou furio- atravds de dupla face (a sua e a do so, mas a mosca azul 6 implacivel. filho), mesmo sendo o maior lider no Um candidate acima dos 10 pon- reduto, teria que se contentar com o tos 6 muito mais facil de impulsio- lugar do vice (que, alias, sabe mane- nar pela mdquina official porque fal- jar muito bem). Gueiros deve ter ava- tara ao nome at6 aqui mais forte uma liado se 6 melhor concorrer com Cou- miquina equivalent. Elcione Bar- tinho ou se 6 melhor arriscar com balho fez carreira political a sombra Sahid Xerfan, o terceiro colocado nas de Jader e da estrutura de poder por previas. ele montada, realizando acao social Ambos jd foram prefeitos bi6ni- cos e, no caso de Xerfan, tamb6m eleito, numa das mais consagrado- ras eleigoes ja ocorridas na capital. HA arestas a aparar, mas em political dificilmente elas sao resistentes aos interesses, mesmo quando aparente- mente rijas como as que separaram Gueiros de Xerfan na penultima Oportunismo municipalista A margem do conflito entire indios Tembe e colonos, um fato lateral mostra o desajus- te entire as political publicas e a realidade, um div6rcio nitido entire as dinimicas po- litica e social. O municipio de Nova Esperanga do Pirii, um dos cenarios do confli- to, foi criado em 1991, quan- do a litigincia ja estava ar- mada e se alimentava de uma longa hist6ria de omissao. official. Gestado pela industria municipalista, que age em escala national para tirar proveito politico, econ6mi- co e pessoal das redivisaes efetivadas, o novo municipio do extreme nordeste do Pari foi criado com Area de 2.192 quil6metros quadrados, 70% dos quais ou 1.534 km2 - fazendo parte da Reserva In- digena Alto Rio Guama, in- teiramente fora dajurisdig o municipal. Como os indios sdo clien- tes federal e nao municipals, exceto quando a aculturacio permit uma complete inte- gragao econ6mica, o poder politico local, at6 mesmo por uma questAo de sobreviv6n- cia, tomou o partido dos co- lonos. Sem duvida eles t6m seus direitos, que foram se cristalizando a media que a intrusao em territ6rio indige- na foi permitida. No podem ser simplesmente colocados para fora, embora esta seja uma possibilidade legal. Mas os indios do Alto Guami se cansaram de fazer expedi- 96es a Belem em busca da protegao institutional que lhes era devida. Invariavel- mente recebiam nada al6m do que promessas. O sambu- rd que as armazenava have- ria de estourar, como final estourou. O desfecho era pre- visivel, mas os moralistas de dedo em riste no moment final sao os mesmos que apostavam na regra das aco- modar6es naturais, passiveis de tantas excegfes que qua- se nao sao regras. O oportunismo, que tem sido a marca maior dos des- membramentos intraestadu- ais, atesta, nesse caso, como pode vir a faz6-lo em nume- rosos outros exemplos, a ir- responsabilidade na gestdo territorial no Para. Nova Es- peranga do Piria nio foi pre- parada para conviver e resol- ver o gargalo territorial em que foi deixada pelo legisla- dor irresponsavel. Outras bombas semelhantes poderdo explodir no future. * com verbas publicas. Ela ainda 6 Barbalho pessoal e politicamente, mas jA esta em fase de separagqo le- gal do marido, vivendo o dificil mo- mento de apartar os bens e procurar identidade pr6pria. i um moment arriscado para v6os solos: ainda usa marca alheia. Ela continue dependent do apoio do ex-marido, que tem posiq o mais nitida no mercado politico, mas para o public, especialmente para o elei- torado da capital, precisara transmi- tir uma image pr6pria. Nascida politicamente de Jader Barbalho, precisa mostrar que sera, cada vez mais, Elcionc Zaluth. Fez um movi- mento ousado: anunciou-se como continuadora de Hl6io Gueiros, uma conti- - nuadora hlcida, ca- paz de dar prossegui- mento ao que o atual prefeito possa estar fa- zendo de bom e corri- V gindo onde ele tenha er- rado. Al6m de eficiente opAo de marketing, 6 uma tentative de pre- venir-se contra o rebaixamento da lin- guagem de campanha, tentando evi- tar que ela chegue ate a sua alcova. Se conseguira, as definicges a serem feitas em future imediato responde- rio. Mais uma vez, portm, a eleiqAo na maior cidade amaz6nica da a sen- sagdo de que nao ha novidade sob o sol e que a luz projetada 6 ilus6ria.* JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA/JUNHO/1996 3 0 duro teste para o enclave Pela primeira vez a Companhia Vale do Rio Doce montou uma matriz social para um empreendimento eco- n6mico seu no Pari. Nas ocasi6es an- teriores, a empresa a mais impor- tante do Estado -limitava-se a im- plantar a base produtiva e o n6cleo de apoio, estabelecendo o canal de esco- amento quando o centro de comercia- lizag~ o se encontrava a dist~ncia, num porto litorfneo. Mas no caso do pro- jeto Serra Leste, destinado ao aprovei- tamento da maior jazida de ouro do pais, em Curion6polis, no sul do Pari, a CVRD esta disposta a oferecer com- pensa96es para os antigos ocupantes da Area na qual vai se instalar. Para poder fazer a lavra subterri- nea do dep6sito, avaliado em 150 to- neladas at6 a profundidade de 430 metros (podendo crescer com as no- vas sondagens, que deverao chegar a 1.500 metros), a Vale ofereceu o pa- gamento de indenizagao aos 6.600 moradores de Serra Pelada, pelas ben- feitorias que criaram na area e a cons- trug.o de casas para os que estiverem dispostos a participar de uma permu- ta, al6m de dar prioridade a contrata- gao de mao-de-obra local. O problema 6 que a oferta se res- tringe A populagao resident de Serra Pelada, que sobreviveu no local aos filtimos anos de peniria que se segui- ram ao esgotamento do garimpo. Nao atinge as outras 16 mil pessoas, prin- cipalmente do Maranhao, cadastradas pela Cooperativa dos Garimpeiros de Serra Pelada. Elas haviam se retirado quando o filao se esgotou, mas retor- naram com o anuncio de que cada um poderia receber o equivalent a 30 quilos de ouro, mais de 350 mil reais "per capital . Para alimentar a mobilizagao, algu- mas liderangas sustentam que a Vale nao e a detentora plena dos direitos de lavra. Nao 6 verdade: antes de ser conhecida como Serra Pelada, a Area era a Serra Leste, incluida no decreto de lavra concedido a empresa em 1974, seis anos antes da formagao do garimpo. A principio a unica substan- cia indicada para pesquisa era o ferro, mas logo depois da corrida ao ouro houve o aditamento para essa subs- tincia. O direito da Vale foi reconhe- cido em todas as instancias adminis- trativas competentes. O unico questi- onamento possivel a partir dai 6 o ju- dicial. Na justiga, a pendencia dos garim- peiros 6 com o govemo e pelo paga- mento do palidio recolhido pela Cai- xa Econ6mica Federal. Sio 32 mi- Ihoes de reais, mas parcela preponde- rante desse valor 6 divida da Coomi- gasp junto a terceiros. Depois de tan- ta confusao na gestao do garimpo, 6 inevitivel que os neg6cios ali estejam muito long da clareza. Para manter o jogo camuflado de interesses, muita gente prefer continuar a apostar no conflito. Para o municipio de Curion6polis, a vantagem da proposta da CVRD sobre os prop6sitos de algumas lide- rangas de Serra Pelada 6 evidence. Obrigada a renunciar a attitude costu- meiramente arrogante que adota no Park, a Vale teve que ir um pouco al6m do enclave usual, pensando na popu- lagao ao redor, mesmo que tenha sido para enfrentar as liderangas do garim- po no quebra-de-brago diante da opi- niao ptiblica. Mas terd a empresa apre- sentado a proposta mais just? Apurar a dimensao social desses grandes projetos costuma ser um enig- ma indecifravel diante de sua conta- bilidade fechada. Para um investimen- to de 250 milhies em Serra Leste, re- alizavel ao long de tres anos, o orga- mento da matriz social talvez nao vi al6m de 2 ou 3%. Em alguns casos essa proporgao pode ser alta, como no caso da Alunorte, com taxa de apenas 7% de retomo de capital. Mas em ou- tro exemplo, mais apropriado, como o da exploracao do ouro do igarap6 Bahia, e pouquissimo. 0 faturamento da mina no ano passado, de 130 mi- lhWes, equivaleu a todo o investimen- to feito ali. E claro que se trata de fa- turamento bruto, mas ainda assim 6 uma ordem de grandeza invejavel. Com o impasse de Serra Leste a Vale estA tendo muita dor de cabega desnecessAria e vem sendo injustiga- da. Mas tem a oportunidade de come- gar a aprender que tao important quanto seus parceiros e clients inter- nacionais, para os quais se volta qua- se completamente com seus projetos- enclaves, 6 a populag9o local. Ao menos numa sociedade com regime politico aberto. A capacidade de geragao de ener- gia no Brasil 6 atualmente de 56 mil megawatts. Em 20 anos tera que che- gar a 80 mil megawatts para poder tender o consume que o governor pro- jeta para 2004. Mais 42 usinas terao que ser construidas dentro do plane- jamento da EletrobrAs. Como o pais pouco avangou em fontes altemativas de energia e parou na frente nuclear, esse acr6scimo de 24 mil MW terA que ser buscado mesmo nos rios, respon- sAveis por 93% da oferta disponivel. De toda a Agua que existe no Brasil equivalent a 20% do planet, 70% esta na Amazonia. E o ParA 6 o mais favorecido para produzir energia. Um indicador desse rumo foi a as- sinatura, em Brasilia, no mes passa- do, de um protocolo de inten9ges en- tre a Eletronorte e seis empresas alta- mente consumidoras de energia para a duplicagao da hidreletrica de Tucu- rui, a maior inteiramente national. Cor investimento de 1,5 bilhao de d6lares, a usina receberia mais 10 mAquinas e poderia chegar a 8 mil MW, uma s6tima parte da capacidade atualmente instalada em todo o Bra- sil. As empresas dividiriam entire si as turbines de acordo com as suas neces- sidades e conforme a aplicagio de ca- pital que tiverem feito, liberando para a Eletronorte as maquinas ja instala- das. Empresas como a Albras, a Alu- mar e a Camargo Corr6a passariam a suprir-se diretamente de energia, dei- xando de ser clients da Eletronorte. Essa mudanga viria em boa hora: os contratos da Albris e da Alumar, res- ponsaveis por 3% do consume de energia de todo o pais, termminam em 2004. E improvavel que as tarifas em uso, estabelecidas em 1984 para te- rem vigencia de 20 anos, possam ser renovadas. O subsidio, de 200 milh6es de d6lares ao ano, tera que ser encer- rado, sob pena de liquidar de vez com a Eletronorte, a segunda empresa bra- sileira mais deficitaria. * 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA/JUNHO/1996 TESTEMUNHO Civilizayio na jungle" O ano era de 1972. Eu atravessava urn dos corredores do Ipea, o Instituto de Pesquisa Economica la Secretaria de Planejamento da PresidEncia da Repiu- blica. A porta de uma das salas estava entreaberta. Na passage por ela ouvi algu6m falar em Marx. Parei. Um sinal de alerta disparou na consciencia. Naque- les anos de chumbo era heresia grave falar ou ouvir aquele nome. Um intelec- tual tivera apreendido seu exemplar de A Capital, do infelizmente ji pouco lido portugu8s Ega de Queiroz. A Cau- sa? Confusio, na mente do policial re- pressor, cor O Capital, do ingitado Karl Marx, o home que se servia de crian- cinhas em seu breakfast. O mesmo aconteceria com um exemplar de O Ver- melho e o Negro, do maravilhoso Sten- dhal. Tudo o que era vermelho necessa- riamente deveria dizer respeito a comu- nistas. Tempos em que a inteligdncia era praticada nas madrugadas caladas. Pois dentro daquela sala, em um dos coraqces do poder, t6cnicos pagos pelo govemo discutiam Marx como se esti- vessem em buc6lico piquenique. Apro- ximei-me, pedi para entrar e fiquei as- sistindo ao debate. Depois fui embora sem dar explica.9es, que, aliAs, nem fo- ram pedidas. Tinha a sensagio de que acabara de passar por um territ6rio alheio ao Brasil, embora encravado em seus li- mites. O Estado policial sufocara a con- trov6rsia intellectual fora de ilhas como aquela. Quem patrocinava semelhante cena de liberdade de pensamento explicit? O piauiense Joiio Paulo dos Reis Veloso, secretario de Planejamento da Presiden- cia da Republica, que equivalia ao mi- nistro de hoje. Reis Veloso era um dos mais fortes entalhes da engrenagem bu- rocritica que se aliara aos tutores milita- res para sustentar o chamado milagre econ6mico daqueles tempos. Os militares pouco entendiam de eco- nomia, uma grave deficiencia reconhe- cida por um dos principals escribas fo- renses (embora de esquerda), o general Nelson Werneck Sodrd. Os tecnocratas, na maioria economists, precisavam da espada para fazerem-se aceitos e, no caso, conquistarem a hegemonia politi- ca no Brasil. Em outros paises eram des- tratados: a economic, por 1l, era assunto muito sdrio para ser deixado nas maos deles (como tamb6m as guerras, entre- gues a ministros da defesa invariavel- mente civis) Reis Veloso era o que Platdo chama- ria de intellectual organico, conceito ar- redondado pelo italiano Antonio Grams- ci. Estava cor os militares nio abria. Mas se preocupava com a hist6ria. Man- tinha-se a distfncia do banho de sangue da luta armada e atraira para a sua ilhar- ga cabegas pensantes da tecnocracia de esquerda. Algumas delas estavam na sala pela qual passei. Elas assegurariam nas futuras cr6nicas que Reis Veloso, pelo menos, era um despota esclarecido. O Ipea, por isso, se transformou na consciencia critical do sistema. Nas pra- teleiras do institute podiam ser encon- tradas pesquisas que eram a pura aplica- 5o da teoria marxista, inclusive com suas bases metodol6gicas. N~o eram consideradas na acAo pratica, claro, mas estavam ali a disposigao dos iniciados e dos que viessem a consulta-las para se admirarem do Principe piauiense. O Ipea era um dos components do populismo de novo tipo, A maneira dejovens turcos tropicalizados, montado a 6poca dos militares, especialmente no governor de Garrastazu M6dici. Os sucessores de Reis Veloso, a prin- cipio o baritone etilico Mario Henrique Simonsen, nao tiveram esses pruridos caleidosc6picos. A consciencia critical voou para muito long. Foi pousar em Washington, na pesada arquitetura do Banco Mundial. O BIRD, chamado, na decada de 70, a fianciar o asfaltamento da mais important rodovia de penetra- 9ao na Amaz6nia depois da Beldm-Bra- silia, a BR-364 (Cuiabi-Porto Velho), olhou o prospect e advertiu: nio havia nada no projeto sobre o impact da obra sobre o meio ambiente. S6 daria o di- nheiro se a papelada, em relagao a cuja gestarao o regime military sempre foi pro- lifico, incluisse um capitulo sobre acio ecol6gica. A humanidade jA havia passado pela primeira Conferencia Mundial sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, re- alizada em Estocolmo, em 1972. Des- cobriu-se que a Terra era um orgnismo vivo e que n6s a estavamos ferindo gra- vemente. Reis Veloso, por6m, mandou dizer pelo delegado brasileiro, o general Costa Cavalcanti, ministry do Interior, que os ecologistas segurassem no pin- cel: primeiro teriamos que importar a industrializacio, da qual eramos caren- tes. Depois 6 que pensariamos nos seus males. Iriamos percorrer o mesmo cami- nho dos ent~o industrializados, na espe- ranqa de que a mimese produzisse os mesmos resultados. Mas o Banco Mundial fincou p6 e o capitulo ecol6gico foi providenciado. Nao adiantou muito diante do hAbito bem luso-tropicalista de produzir muito pa- pel para emoldurar prateleiras e s6. Serviu, no entanto, para prevenir o in- gresso do BIRD na jungle da acusagqo de barbarie que viria pelo caminho. A selvageria das frentes econ6micas em Rond6nia teria sido ainda maior se o banco 1 n~o tivesse estado. O BIRD tamb6m aplicou seu sinete em Carajis. O governor brasileiro espe- rava ansioso o empr6stimo do banco. Nao era muito, quantitativamente, dian- te do volume de recursos necessarios para dar a partida na exploraqo damaior pro- vincia mineral do planet: seriam 10%, ou 300 milh6es de d61ares em US$ 3 bilh6es. Mas serviria de aval para fechar muitos outros contratos mais volumosos, tanto de empr6stimos quanto de venda de produto. Compensaria com folgas a said do empreendimento da maior si- der6rgica do planet, a norte-americana United States Steel. O banco leu a nova papelada e feriu um novo ponto: a ajuda as populaq6es indigenas colhidas pelo trem de min6- rio. Nada estava previsto na concepqao original. Mas a Companhia Vale do Rio Doce, uma estatal que nao se ajustara ao mundo tropical (do qual permanece de- sajustada at6 hoje), foi obrigada a reser- var 12 milh6es de d61ares para um pro- grama de assistencia as tribes entire o Parf e o Maranhao. Novamente houve descompasso entire a teoria e a pritica, entire o papel e a rali- dade. A maior parte do dinheiro foi apli- cada em atividades-meio, na pantagrue- lica burocracia official. Outra parcela es- vaiu-se por canais diversionistas e nao foi recuperada. Diretamente para os in- dios nao sobrou muito. Mas o banco as- segurou a assepsia na sua segunda gran- de incursao amaz6nica: tentara adequar pianos econdmicos a preocupac6es hu- manitrias universais. O Brasil, oisis in- sular em um oceano de problems mun- diais, nao dava atendio a essas quest6es. Ficariam para depois do milagre, se hou- vesse depois (o estamento tecnocrata- militar talvez tivesse ambigco maior do que os mil anos do Reich). O BIRD era, entAo, a vanguard. Sa- biamos, por ouvir dizer, que seus t6cni- JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/JUNHO/1996 5 cos ou "oficiais", conforme o jargao, vi- nham em mission ao Brasil, como os deu- ses-astronautas inventados por Van Da- niken, e retomavam aos Estados Unidos com o Santo Graal da verdade. Seus es- tudos nos permitiriam ver o que estava interditado aos nossos olhos dentro do pr6prio pais. Seria uma sensaiAo tio re- veladora quanto, em noites bem prote- gidas, sintonizar a Voz da America e ficar sabendo do que a propaganda ofi- cial nos ocultava naqueles dias. Os ame- ricanos, que apoiaram decididamente a ascensio dos militares ao poder total, se transmudavam em relicrios da liberda- de, posta em quarentena pela criatura criada no laborat6rio misto. S6 17 anos depois do epis6dio brasi- liense no Ipea pude alcangar a Meca do World Bank, na 1818 H Street, em Wa- shington. Foi uma sensaqgo semelhante a que experimentei quando vi chegar ao Jari as plataformas com a fibrica de ce- lulose e a usina de energia mandadas construir no Japio, a 20 mil quil6metros de distfncia, por Daniel Ludwig. A cena se materializava diante dos meus olhos oito anos depois do primeiro contato corn o Jari (e outros seis ainda transcorreriam ate o milionArio americano abandonar seu imp6rio amaz6nico). Eramos adver- sArios, mas havia um intimo respeito mituo entire n6s, o gigante do mundo de neg6cios dos EUA e um pigmeu das sel- vas jomalisticas. Foi corn emocgo que sobrevoei as duas enomes estruturas metAlicas navegando pelo Jari recorta- das no verde da mata ao fundo, depois de terem passado por trds mares. Nem sempre ganhar 6 o mais important quan- do se tem consci8ncia da grandiosidade da batalha. Na sede do BIRD, minha batalha era para ler o relat6rio de avaliaco que tor- nara possivel o empr6stimo a Carajas. Ja era, entio, um document hist6rico. Mas houve relutfncia na autorizaqco. Afinal ela veio, mas sob condigoes: eu nio po- deria fazer anotarbes sobre o que iria ler. Entrei com mios rigorosamente limpas numa sala pequena e li o document. Memorizei e depois registrei alguns da- dos relevantes, antes que a ansiosa tic- nica que autorizara a consult voltasse atras e encerrasse a sessAo. Fora um ato de gentileza e, ate, de coragem dela, mas as regras do banco impunham limits. O dado de maior significarao naque- le relat6rio: o minerio de ferro de Cara- jas teria que ser vendido a 36 d6lares a tonelada para que o projeto se tornasse auto-suficiente. Do contrArio, a CVRD teria que transferir recursos de outras fontes para mante-lo em funcionamen- to. Operaria no vermelho por virios anos e o retorno seria mais demorado do que o recomendivel. O preco atual estA em toro de 15 d6lares a tonelada. Na semana passada, John Garrison II, consultor permanent do Banco Mundi- al, garantiu que hoje eu poderia ler sem sobressaltos uns 70% de todos os docu- mentos produzidos pela instituigAo. Ape- nas trabalhos que dependem da libera- g9o de govemos nacionais ndo podem ser consultados pelo piiblico. O BIRD ade- A hist6ria de volta riu A moda nem sempre mais do que modismo da transparEncia (produto tan- to do desejo de se mostrar quanto do fato de n~o ter o que mostrar). O Banco Mundial ndo quer mais ter apenas como interlocutores os goveros nacionais. Quer dialogar com outras re- presenta96es da sociedade, entire as quais as ONGs (Organizaq6es Nio-Governa- mentais). Na semana passada Garrison comandou uma reuniao em Bel6m com 13 representantes de ONGs paraenses, que poderiam ser mais se mais houvesse ou se algumas nao tivessem adotado uma ati- tude c6tica diante da surpreendente inici- ativa. O BIRD diz que nio apenas quer criar um canal de voz extra-governos, mas ab- sorver algumas das necessidades da soci- edade que vinham sendo mantidas fora de suajurisdicao. Na reuniao, Garrison, criado no Brasil por pais americanos, sur- preendeu-se corn a afabilidade local, con- trastante com um tom mais duro ou ideo- 16gico nas pracas nordestinas ou do Sul- Maravilha. Os amaz6nidas tem critics a fazer ao banco e partilham visSes de ou- tros paises quanto ao papel da instituicgo na assim chamada nova ordem econ6mi- ca interacional. Mas um balango realista destas tres d6cadas podera levar A con- clusao de que os governor locals tem sido ainda piores do que o banco criado hA 50 anos para promover a reconstrugo e o desenvolvimento interacionais. Portan- to, come here, BIRD, nmas A nossa moda. Ou serA que o banco tem uma nova sur- presa a apresentar? 0 Historiadores acostuma dos a lidar cor fontes primnrias de documentagaio sempre destacaram a preci- osidade do acervo existente no Arquivo Ptblico do Para. E uma mina sobre hist6ria colonial do Brasil A espera de diligentes pesquisadores. Poucos deles aproveitaram esse manancial at6 o inicio da decada de 80, nao s6 por falta de uma tradig~o histo- riografica sdria, como pelas pr6prias condi9des da guar- da da vasta documentacgo. armazenada em Beldm sobre os seculos 17 a 19. Ate a sadde dos eventuais pesqui- sadores estava ameagada quando se dispunham a ir al6m dos documents orga- nizados por Arthur Viana no inicio deste s6culo, mesmo estes nem sempre acessiveis. As condig6es fisicas do pr6dio neoclissico do Arqui- vo Piblico no centro da ci- dade e o tratamento dado A documentag~o melhoraram extraordinariamente desde a gestao da bibliotecaria Alda Mendes Gongalves, que ti- rou a instituigio da triste condiaio em que foi manti- da, durante anos, de dep6si- to de papel velho e sonolen- ta fonte de consult (quan- do tamb6m ali funcionava a Biblioteca Piblica, transfe- rida depois para o Centur). Agora, com o antrop6logo Mdrcio Meira, o Arquivo passa a ser um centro de ati- vismo cultural. MArcio conseguiu refor- gar a equipe tccnica que foi se estruturando a partir da diregao de Alda Gongalves e comega a atrair pesquisa- dores para dar forma A ma- teria-prima existente no Ar- quivo. Um important repo- sit6rio desse material esta nos Anais, que voltaram a circular na semana passada, com o relangamento official realizado no Museu do Es- tado. Por enquanto, sera apenas uma ediaio annual (o nmne- ro langado ainda se refere a 1995), cor tiragem de 1.500 exemplares, mas podera ter periodicidade mais curta no future. A nova s6rie dos Anais, com origem em 1902, quando a riqueza da borra- cha animava os empreendi- mentos culturais, tem uma qualidade grafica sem para- lelo no passado. Sua sobre- vivencia medira nossa capa- cidade de preservar a mem6- ria e escrever a pr6pria hi t6ria. 6 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/JUNHO/1996 As facetas da cultural Aprefeitura de Bel6m gastou 550 mil reais para editar um album de 180 pdginas, "Os Caminhos de Be- 16m", com fotos de Jos' de Paula Ma- chado e Nelson Monteiro, impresso pela Agir Editora, do mesmo Paula Machado. Nao houve concorrencia para a realizaao do trabalho. Os al- buns estao sendo distribuidos gratui- tamente. O govemo do Estado gastou R$ 150 mil para editar um album de 260 pd- ginas, "Bel6m da Saudade", reunin- do cart6es-postais do inicio do s6cu- lo, cedidos para serem reproduzidos por seus colecionadores. O album, impresso pela Pancrom, sem concor- rencia, estd sendo vendido a R$ 100 a unidade. Os dois albuns foram langados corn intervalo de apenas um dia, permitin- do A opinion piblica comparar as duas iniciativas. Sao duas publicagOes lu- xuosas e de bom gosto, tendo como motive a- por outros meios que ntao o grAfico maltratada capital do ParA. A prefeitura optou por contratar dire- tamente dois profissionais de fora do Estado para registrarem alguns dos pontos mais expressivos da cidade e de sua Area de influencia, dando aos historiadores Geraldo Coelho e Ruth Moraes (esta, cunhada do prefeito Hd- lio Gueiros) a tarefa de sustentar as imagens com textos minimamente ex- plicativos. Bel6m jd dispoe de pares equiva- lentes de fot6grafos habilitados para um serving da qualidade de Machado & Monteiro, ou talvez at6 melhor. Sur- preende que a prefeitura nem tenha se dado ao trabalho de convocar inte- ressados em uma cidade onde a foto- grafia tem se desenvolvido tanto que alguns de seus profissionais jd parti- cipam de exposig6es intemacionais. Talvez a escolha direta possa ser ex- plicada pelo fato de que Paula Ma- chado 6 dono da Agir Editora, que im- primiu o album. O que explica, mas nao justifica a decisao muito pelo contr-rio, exige que se explique o em- pacotamento complete da edigao nas maos de um fot6grafo-editor. Seria para que o livro ganhasse melhor divulgagao fora do circulo lo- cal? De fato, a iniciativa foi registra- da extra-muros, mas seus melhores efeitos foram sentidos em Belem mesmo. O lancamento do album municipal foi muito mais concorri- do do que o estadual e exatamente porque a distribuigao seria risonha e franca. Convidados foram vistos car- regando dois, tres ou mais exempla- res. JA no lancamento da Secretaria de Cultura houve ranger de dentes quando o prego da publicacao foi anunciado: quase um salArio minimo. Se a idWia do album tinha finali- dade political, a prefeitura faturou mais dividends A custa, natural- mente, do precioso dinheiro do con- tribuinte. Mas essa sagacidade nao impede que se consider o aspect de estrita polftica cultural, sem seus derivatives e aplicativos politicos ou politiqueiros, que a edicao de um li- vro envolve. O que 6 dado nao tem valor, diz a sabedoria popular. Mas a sagacida- de dos sobas paroquiais assegura que o povo s6 aceita a cultural quando ela 6 gratuita. i precise tutela-lo e mi- moseA-lo, quando necessario, para que ele vA aldm do universe da teli- nha eletr6nica. A verdade 6 ditada ca- tegoricamente, mas quem questio- nou-a obteve resultados surpreenen- tes. Um exemplo positive: a revela- qCo de jovens vocagoes musicals en- tre filhos de families pobres aos quais o Conservat6rio Carlos Gomes con- seguiu ter acesso. Um exemplo ne- gativo: as encenaqOes de classicos da dramaturgia pela Escola de Teatro da Universidade, entire as decadas de 60 e 70, em espetAculos abertos ao pu- blico, mas que nao formavam publi- co. Meses, ensaio e dinheiro aplica- do se esvaiam em tres dias de apre- sentaiao. A formagao do gosto e o aprendi- zado visando o entendimento podem ser gratuitos. Essa 6 a funcao especi- fica do Estado. Mas ele nao 6 o Pa- pai Noel da cultural, que retribui com present a simples vontade onirica do destinatArio. Vista A maneira da PMB, a cultural seria uma aTAo entire amigos, aqueles que sao convidados para os langamentos e vIo A festa para receber o present, al6m do co- quetel, indo a conta tambem para o excluido da confraria. Mas tambem 6 equivocada a visao do Estado como agent commercial da cultural, dela ex- traindo o custo integral do empreen- dimento. Se for assim, o que deveria ser investimento de desenvolvimen- to passa a ser aplicacao commercial de capital. A taxa de retorno da cultural 6 lenta, mas 6 assim na maioria das vezes, principalmente em um pais como o nosso. O album municipal 6 um portfolio turistico, sem maior densidade cul- tural. Jd a publicaao da Secult tern uma proposta reflexiva, envolvendo um trabalho de maior participagao coletiva. Pode-se questioner a solu- gao encontrada para o tratamento edi- torial dos cart6espostais. O escanea- mento por computador permitiria tra- balhar melhor as imagens e reprodu- zi-las ampliadas. Algumas, reduzidas demais, deixam de transmitir boa parte das informao6es que carregam consigo. A consult ao "Bel6m da Saudade" 6 utilissima para quem quer saber da trajet6ria da cidade (ver matkria a respeito nesta ediolo), mas a R$ 100 o exemplar o acesso fica muito difi- cil. O apoio cultural obtido (de AlbrAs, Montemil, Asssociaao Comercial e Minist6rio da Cultura) deveria ter pos- sibilitado reduqao do preco de venda e dos custos de produgao, atraves da ampliagao da tiragem. Algumas pes- soas que foram ao BLT da prefeitura e compraram o album da Secult de- vem ter o prop6sito de fazer neg6cio. Sendo de tiragem reduzida e tendo circulado entire poucas pessoas, as duas publicacaes logo serao raridades e valerao bem mais do que custaram. Mas, como sempre, a cultural conti- nuara a ser uma refer6ncia vaga para muitos, um deleito para poucos e um neg6cio rentAvel para raros. Terd que ser sempre assim? * JOURNAL PESSOAL '" QUINZENA/JUNHO/1996 7 0 satlite esta de volta a AM Ao contrArio do que prometeu, o go- verno federal acabou nlo anuncian- do os dados sobre o desmatamento na Amazonia nos periods de 1992/93 e 1993/94, que seriam revelados durante a semana comemorativa ao meio ambi- ente. Os filtimos resultados oficiais co- nhecidos sGo relatives a 1991, mas, como ocorreu cor as apuracqes de boa part da d6cada de 80, foram muito questio- nados. Eles indicam que, depois do pi- que registrado em 1987, quando o Bra- sil bateu, na Amaz6nia, o record mun- dial de queimadas em todos os tempos, a progressAo do desflorestamento se de- sintensificou. A media de 20 mil quil6- metros quadrados destruidos a cada ano teria baixado para bem menos da meta- de. A Amazonia entrou para a recent era de monitoramento de recursos naturais atrav6s de sat6lite na segunda metade da d6cada de 70. T6cnicos da Nasa, a agen- cia espacial americana, detectaram um grande incendio no sul do Para Era a Volkswagen que estava queimando qua- se 10 mil hectares para a formaqao de pastagens em sua fazenda em Santana do Araguaia, a Vale do Rio Cristalino. Um cientista brasileiro, Varwick Kerr, que na 6poca dirigia o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia, de Manaus), chegou a denunciar que o desmatamen- to abrangia um milhao de hectares, 100 vezes mais do que a area efetivamente atingida. Cor a advertEncia da Nasa, o gover- no brasileiro fez o primeiro levantamen- to da alteracao da cobertura vegetal da Amaz6nia usando o sat6lite Skylab, ji desativado. O monitoramento foi reali- zado a seguir corn o Landsat, mas, por economic, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, instalado em Sao Jos6 dos Campos, Sao Paulo) passou a utilizar o NOAA. O NOAA, um satelite meteorol6gico, identifica os pontos de fogo, mas nio a amplitude do seu alcance. Pode dizer quantos pontos de fogo estao ativos em determinada Area, sem permitir, entretan- to, fazer a soma da sua extensao. Por isso, quando o Inpe revelou o incrivel dado de que em 1987 haviam sido destruidos 200 mil quil6metros de floresta prima- ria na Amaz6nia, logo surgiram muitas contesta6es. A metodologia nao possi- bilitaria chegar ao resultado apresenta- do. A s6rie annual sobre desmatamento (conceito que os t6cnicos do governor preferem substituir por desflorestamen- to) permaneceu precariamente at6 1991, quando foi interrompida. Agora o Inpe usou a versao mais modern do Landsat para o levantamento dos dois iltimos periods. E o governor ainda comunica a parceria corn a pr6pria Nasa para fazer a cobertura sistemitica da regiao amaz6- nica atris dos que estAo derrubando a flo- resta, utilizando um aviso conveniente- mente equipado para fazer a localizagdo por coordenadas geogrificas. Em materia de promessas, um avango consideravel. Faltam agora os fatos. * As mfusicas de uma epoca Ahist6ria da mais musical das famili- as do interior do Estado 6 o testemu- nho de uma 6poca. Na decada de 20 o maestro Jos6 Agostinho da Fonseca mandava suas misicas para concorrer no Rio de Janeiro, que era a capital da Re- p6blica, e tinha algum reconhecimento. Na d6cada seguinte era seu filho, Wil- son, mais conhecido como Isoca, quem aparecia no concorrido scenario national, causando surpresa pela qualidade do produto, vindo de tao long. A capital do Estado quase nio conhecia os Fon- seca, mas todos, na Santar6m daquela 6poca, sabiam de cor pelo menos algu- ma de suas muitas composicSes, fre- quentemente ingmnuas e grandiloquen- tes, mas nunca simpl6rias. Os Fonseca conheciam muito misica. Sabiam ate ler partituras, como os conterrineos des- tacavam, orgulhosos. Santar6m gostava de mfisica e de cul- tura em geral. Tinha pretensSes autono- mistas. Se nAo conseguia elevar-se a con- diaio de Estado, vivia as ilus6es de pro- duzir seus hinos, ter material pr6prio para serenatas sem fim, buscar inspiragao nos antepassados indigenas ou nas linhagens nobilifrquicas, escrever uma hist6ria que comegava e terminava no vale do Tapa- j6s, como se Belim fosse tAo distant que nem valia a pena parar nela quando a ca- minho de horizontes maiores, na capital do pais. Mesmo porque Bel6m era a pe- dra no caminho da ascensao. A trajet6ria de Wilson Fonseca reflete bem as aspirarSes santarenas. Em 65 anos de constant criagao, acumulando 800 composiqoes musicals, mestre Isoca fez de quase tudo, aberto a todas as ins- pirag9es, mas sobretudo aos eflivios da terra. O CD em homenagem a ele, lanca- do no inicio do mes pela Secretaria de Cultura, document essa riqueza estilis- tica e garante audin&cia para um moment da hist6ria cultural do Estado. Talvez ele ji tenha efetivamente passado, mas s6 seri saudavelmente superado se for in- corporado ao patrimOnio de realizaqaes, sem o qual o avanqar no tempo nao & muito mais do que construir nas areas das praias, praias pelas quais mestre Iso- ca passou cor seu didatismo musical e sua vontade de ser maior do que o tem- po. Vontade tAo f6rrea que os Fonsecajia chegaram a terceira geraiao com bem6is e sibem6is no sangue. 0 Na mem6ria Mais uma vez o gover- nador Almir Gabriel nao compareceu A reuniAo do Conselho Deliberati- vo da Sudam, mesmo sendo ela realizada no- vamente em Bel6m. A ausencia do govemador da cidade sede do encontro serviu para esvaziar o Con- del. Apenas o governador de Rond6nia, Valdir Rau- pp, esteve present. A ausencia do govema- dor, apesar dos reiterados convites que Ihe faz o su- perintendente da Sudam, Frederico Andrade, tern uma explicaio: o candida- to de Almir, o empresArio Fernando Flexa Ribeiro, president da Federagao das Ind6strias do Estado e suplete de senador, deu en- trevista como superinten- dente indicado, mas nAo assumiu o cargo. Foi ve- tado. De lI para ca se pas- saram 17 meses e Frede- rico continue a ser o su- perintendente. 0 gover- nador nao esquece, nem perdoa. Sgrimas pela cidade o inicio deste seculo Bel6m era uma ci- dade macigamente portuguesa plantada nos tr6picos que comegava a experimentar variances de estilo, iniportados, como o ne- oclassico, ou recriados, como o Imp6rio bra- sileiro. Algumas caracteristicas dessa cida- de nio eram nada adaptadas, ou ecol6gi- cas, como se diria hoje. A construnio ge- minada de casas, por exemplo, cirnplice da agressao ambiental, mas que era um ajuste A carn&cia de material. No entanto, a cida- de tinha alma forte, clara, maicante. Uma cidade encantadora, mesmo que algumas de suas chagas, s6 momentaneamente exibidas, quase por descuido, deixassem bem claro que n~o era o paraiso. Nao para os nordes- tinos, sobretudo cearenses, nao alcangados a tempo pela urbanizagco de Ant6nio Le- mos. Passados 80 anos dessas imagens, regis- tradas no album "Bel6m da Saudade", edi- tado pela Secretaria de Cultura do Estado, o que se v6, mesmo atrav6s da maquiada lente de um fot6grafo sensivel, 6 uma cida- de que perdeu sua identidade e val sendo progressivamente arrasada, tendo que sem- pre buscar refrigerio nas ilhas que sobrevi- veram do passado. t o que se conclui da consult a outro Album, "Os Caminhos de Bel6m", editado pela prefeitura. 0 future do jomal Aceitei uma proposta da "Gazeta Mer- cantil" para ser reporter do jomal na Amaz6nia. Volto assim plenamente a im- prensa dihria. Antes, ja havia aceitado um convite de Giancarlo Sartorelo para fazer um comentArio diArio no TJ Para, o telejomalismo do SBT que voltou ao Estado ha um mes e meio, depois de cin- co anos de ausencia. Eu pr6prio retorno A grande imprensa oito anos ap6s ter dei- xado "O Estado de S. Paulo", onde tra- balhei durante 17 anos. A "Gazeta" represent um grande de- safio para mim. Desde 1988, quando che- gou ao fim minha colaboragao de 15 anos em "O Liberal" e deixei "O Estado", jor- nalismo para mim tem sido este Jornal Pessoal, um acompanhamento meio a distAncia dos fatos, por forga da limita- iAo de meios em uma pobre publicagao alternative como esta, mas que me obri- gou a muita reflexro sobre as conjuntu- ras que As vezes afogam o jornalismo. Atitude analitica que, a despeito de tudo, Uma cidade luxuriante em luz, cores e cheiros 6 um destropo arquitet6nico, um simulacro urbanistico. Sabemos que os encantos da "belle 6poque", extremamente cars, s6 foram' possiveis porque a Amaz6nia tinha uma mina fabulosa, a borracha. Ningu6m mais, durante 40 anos, teve essa precio- sidade para oferecer a nascente industri- alizagao mundial. Gastou-se muito para fazer de Bel6m uma metr6pole de sabor europeu enfiada na jungle. O dinheiro teria sido melhor aplicado se, ao inv6s de financial palacetes, pracas suntuosas e es- petaculos artisticos, tivesse ido preparar o cultivo da borracha para enfrentar seu inimigo biol6gico ou dar-lhe altemativas produtivas. A borracha nao conseguiu fazer pela Amaz6nia o que o cafe reali- zou por SAo Paulo. Por fatalidade? As respostas ainda nao slo plenamen- te satisfat6rias, mas o fato 6 que tinha- mos uma cidade preciosa quando fomos deslocados do mercado international e passamos a viver nossa Idade M6dia en- tre as d6cadas de 20 e 40, um period mui- to menos desinteressante e desfavorAvel do que parece a primeira vista. Ao final da Segunda Guerra Bel6m ja nao era faus- tosa, mas era gostoso de viver nela. O que a estA liquidando foi ter-se submetido ir- reflexivelmente A fungAo sub-colonial que a Universidade Federal do Para me esti- mulou a desenvolver com o cargo de pro- fessor visitante. Quase me tomei acade- mico, declaraglo que pode ser feita com entonacao ora positive, ora negative. De qualquer maneira, sou profundamente grato a UFPA por sua receptividade e pelo nicho que me proporcionou. A "Gazeta Mercantil", que j A se apro- ximou muito do modelo "Financial Ti- mes", hoje ruma mais claramente para a boa ancoragem no "Wall Street Journal", umjomal pesadAo (sem fotos e sem cor), especializado em economic e neg6cios, mas que da tudo o que acontece de rele- vante no mundo, sabe situar os fatos em seu context explicativo, tem uma preo- cupa~lo national e a maior tiragem (1,9 milhao de exemplares) entire os jornais americanos. Depois de sete anos dono do meu na- riz, embora sem conseguir sustenta-lo com o conforto que a idade ja comega a exigir, tento a readaptagio a uma corpo- racAo de produgio de noticias, na qual sou apenas uma das peas, mas da qual se exigira a plena integragdo ao esforco Journal Pessoal Editor Responsivel: LIcio FIlvio Pinto Redaco: Pass. Bolonha, 60-B -Fones: 223-7690 e 223-1929 Ilustragfo e editoragAo eletr6nica: Luiz Pinto lhe impuseram os estrategistas de Brasi- lia, desde quando abriram as comportas e fizeram das rodovias os canais de avanqo de hordas de hunos colonizadores ao in- terior da floresta. Enormes fontes de succqo de recursos foram entronizadas no sertao e para a ca- pital passaram a sobrar migalhas. Miga- lhas de recursos, mas legi6es de migran- tes. O crescimento vegetative da cidade foi afogado pelos fluxos migrat6rios de outros Estados e do interior, este abando- nado por gente que nao entendia, nAo es- tava prevista e nao conseguia integrar-se a esses mastodontes de exportaqgo que foram implantados pela alianga metropo- litana avalizada em Brasilia. Os deserda- dos do modelo foram instalar-se nas peri- ferias e fazem seu com6rcio de sobrevi- vencia nas ruas, fora da economic formal e do estabelecimento regular. Bel6m vi- rou um vasto acampamento do salve-se- quem-puder-como-puder, neste espetAcu- lo de selvageria e deterioraqgo que se re- nova, multiplicado, a cada dia. A saudade faz bem A alma, mas nao impulsiona o corpo. Bel6m perdeu a ba- talha do passado. Estara condenada a per- der a luta do future? Motivos para lagri- mas nao faltam. Mas chorar nunca foi a attitude de chegada. Bel6m ainda merece mais do que isso. * comum. Esta a dimensko pessoal do de- safio. O que interessa aqui 6 saber se o Jornal Pessoal podera ou devera sobre- viver a esse novo tempo professional. Eu pr6prio tenho minhas duvidas, tantas quanto minha angitstia quanto ao future de uma publicadio na qual invest tan- tos anos de sacrificios e alegrias, cuja im- portfncia aleg6rica 6 para mim superior at6 mesmo a significaqao pritica. Nao gostaria de tomar uma decisdo exclusivamente pessoal a respeito deste jomal, embora ela necessariamente aca- be sendo individual mesmo finala, sou toda a redagao e administrag~o do JP). Na maior parte do tempo a partir de 1988 ele foi minha inica janela para o mun- do. Tornou-se para mim, portanto, uma fonte de oxigenio. Ja nao 6 a inica e pode vir a perder cada vez mais importincia quanto a esse aspect proximamente. Mas tera tamb6m a sua relevincia para a opiniAo piiblica local. E 6 essa serven- tia que gostaria de medir antes que o de- sempenho das minhas novas fun9~es es- tabelega as regras profissionais em rela- gio as quais manter o JP talvez se tome impossivel. Ao mesmo tempo que j advirto o lei- tor para a nova situacgo, pego-lhe por esta via a gentileza de me ajudar a tomar uma decisao just e ponderada. 0 |
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