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Journal Pessoal E D I TO R R E S P O N SAV E L: L U C I O F LAV I O P I N TO ANO IX No 138 2* QUINZENA DE ABRIL DE 1996* R$ 2,00 MASSACRE A tragedia dos erros 0 governador Almir Gabriel comegou a pagar um duro prego pelos erros cometidos. Eles refletem uma maneira de administrar o Estado que est6 se esgotando. "Contra os pequenos, se acaso se agasta, 6 o rei sempre excessive" (Homero, Iliada) A 30 de dezembro de 1987 a Policia Militar do governador H61io Gueiros chocou a opi- niio ptblica national e inter- nacional ao desalojar entire 1.500 e dois mil garimpeiros de Serra Pelada, que in- terditavam a ponte rodoferrovibria so- bre o rio Tocantins, em Maraba. Sob o impact da selvage- ria da aq&o, entida- L des de direitos hu- manos calcularam que de 26 a 133 pessoas poderiam ter morrido, mas oficialmente apenas / dois cadaveres fo- ram identificados e 20 civis sairam fe- ridos. Nenhum po- licial foi atingido. Em nenhum mo- mento o entio go- vernador admitiu ter agido errado. Oito anos depois, a mesma PM sob o mesmo comando de Marabi investiu contra um grupo de dimensdo semelhante do movimento sem-terra em Eldorado de Carajas. De- pois de um confront que nao ultrapas- sou os 15 minutes de duraqio da ofensi- va da ponte sobre o Tocantins, deixou um saldo de 19 mortos e 45 feridos do lado dos lavradores e de seis feridos en- tre os 265 policiais mobilizados. Essa simples correlag&o de nimeros desautoriza a versAo official inicial de um combat. De fato, alguns garimpeiros in- vestiram contra um grupo de PMs, ati- rando paus, pedras, foices, machados e fazendo disparos com armas de fogo (dois rev6lveres apareceram nas imagens captadas "ao vivo" pelo cinegrafista Jo- nias Cardoso, da TV Parauapebas, inau- gurada tres dias antes). Mas se um ou outro manifestante at6 poderia sair mor- to desse primeiro choque, o que se se- guiu a partir dai, justamente quando a massa jA estava passivel de ser domina- da, foi um massacre selvagem. As images e fotos do resultado da ago dos dois pelot6es da PM, que investiram a partir das duas extremidades da rodo- via, nao deixa d6vida de que a forca pti- blica transmudou-se em horda particular ou uma jagungada official. A tropa cacou manifestantes para um ajuste pessoal de contas, sem nada mais a ver corn a causa public. E presumivel crer que muitos dos policiais envolvidos tivessem o que acer- tar com os sem-terra ap6s um convivio continue de semanas de confront pacifi- co em posiq6es opostas, cuja tensto s6 nao explodiu exatamente porque vinha sendo contida pela autoridade superior. Nao se harmoniza cor a biografia do governador Almir Gabriel a acusaao de que ele deliberadamente mandou os poli- ciais agirem com violncia contra os ma- nifestantes que obstruiam o trife- go pela PA-275, que liga a PA-150 a CarajAs, ou que tenha tomado a ini- ciativa sob o peso de compromisso assumido com os fazendeiros da re- giSo, que com ele se reuniram duas semanas antes, em Bel6m. Os erros de co- mando cometidos pelo governador, entretanto, revelam S cristalinamente sua forma de agir. O governador limitou-se a reunir o secretA- rio de seguranga public, Paulo Sette Ca- mara, o comandante da Policia Militar, Fa- biano Lopes, e o president do Iterpa, Ro- naldo Barata, para former seujuizo, sem trazer ningu6m de campo. A ordem foi dada diretamente, sem passar, por exem- plo, pelo Estado-Maior da PM, onde po- deriam ser introduzidos questionamentos t6cnicos. 2 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996 Quando a determinagAo foi procrasti- nada em 24 horas (do dia 16 para o dia 17), o govemador considerou a sua au- toridade arranhada e reforcou, corm en- fase perigosa, o que jA havia determina- do: a desobstrucgo da estrada. A partir desse moment, soldados e oficiais que at6 entAo eram usados para distribuir ali- mentos, rem6dios e atengio aos sem-ter- ra, fora, assim, de sua missAo profissio- nal (ou de como a concebem), foram li- berados para o que julgam saber fazer como ningudm: reprimir. Esse erro foi fatal. A tropa acumulava desrespeitos e humilhag6es que conside- rava terem sido cometidos pelos sem-ter- ra, senhores das aq6es at6 entao. Por ou- tro lado, os manifestantes, acostumados a serem atendidos, nao esperavam uma mudanca tAo subita e radical de papel dos policiais. Ainda mais porque os primei- ros tiros foram dados para o alto ou com balas de festim, sentiram-se estimulados (ou induzidos?) a pensar que tudo aca- baria como na primeira interdicao da es- trada, feita na semana anterior, ou nos outros moments da escalada a partir da ocupagao da fazenda Macaxeira, seis meses antes. Pensavam que tudo acaba- ria no grito ou, no maximo, em escoria- c6es generalizadas. Os sem-terra comegaram a recuar e a tentar se dispersar quando os primeiros tiros foram dados e a tropa vinda de Maraba, 200 homes comandados pelo coronel Mirio Colares Pantoja, recuara e se refugiara atras de um caminhao. No moment dos tiros, a tropa de Parauape- bas, de 65 homes comandados pelo ma- jor Jose Maria de Oliveira, e que se en- contrava no local hi mais tempo, man- tendo-se at6 entio a uma certa distincia, avangou: o tiroteio era o sinal implicito de que a resistencia armada e a agressi- vidade dos sem-terra autorizavam vio- lencia ainda maior dos policiais. Foi a carnificina. O desastre era previsivel. O coronel Pantoja e a secio de inteligencia da PM haviam relatado o estado de animo dos manifestantes, estimulados por suas vi- t6rias parciais, a ponto de, no iltimo acerto para a primeira desinterdi~&o da PA-257, terem exigido 55 6nibus, al6m de alimento e rem6dio, uma tarefa difi- cil de executar em qualquer das cidades da regiao e mesmo em Bel6m. Outra vez o interlocutor, que era o major Oliveira (e nao um negociador qualificado ou cor delegagAo de pode- res para essa dificil tarefa), ndo pode cumprir o prometido. O desgaste natu- ral indicava que, dessa vez, os sem-terra nao sairiam da estrada com converse. O recomendAvel seria o governor deslocar um grande contingent de Bel6m, sobre- tudo da tropa de choque. Soldados bern equipados, inclusive cor cfles ejatos de Agua, em nimero em alguma media proporcional ao dos manifestantes, em uma manobra ordenada, poderiam nAo evitar violencias, mas certamente pou- pariam mortes. Os inconvenientes de uma interdicao mais prolongada teriam que ser absorvi- dos em proveito de uma manobra com- pleta. Uma tropa que chega ordenada e faz a exibiqio de sua forga, antes de co- loca-la em prAtica, costuma produzir efeitos psicol6gicos favoriveis. Mas os dois pelot6es chegaram desordenada- mente e nem sequer entraram em forma. A falta de tropa de choque, desligada de envolvimento emotional e do desgaste com os manifestantes, o que apareceu dos dois lados da estrada, encurralando os manifestantes, foram soldadosji mo- tivados para o revide aos inimigos, ago- ra perfeitamente caracterizados em vir- tude da rea9&o e do contra-ataque reali- zados. A retirada das tarjas de iden- tificaqio que o policial mili- tar e obrigado a usar na farda (a "biriba") e a quantidade de muniqao, normalmente racio- nada na PM, sdo dados inquie- tadores. Um outro 6 a possibilidade de pessoas interessadas, como os fazen- deiros da regiao, terem pago o frete dos 6nibus usados na opera~io. Normalmen- te os envolvidos se responsabilizam por essas despesas, as vezes simplesmente porque a corporagio nao tem dinheiro para realizA-las. Do estado de necessi- dade ao de conivencia e parceria 6 um pass que raramente nAo 6 dado. Os PMs nAo estavam irritados apenas por se considerarem joguete nas maos dos. sem-terra, alguns dos quais conhe- cem bem (e, por isso, respeitam ou nao respeitam). Estao cada vez mais insatis- feitos cor a atual administraqao do Es- tado. Algumas motivates sao simb6li- cas ou menores, como a aus6ncia do go- vernador As comemora96es do ano pas- sado no dia de Tiradentes, patrono da PM. Outras t6m mais substancia, como a perda de vantagens funcionais e redu- 9ao de contingent (de 13 mil para 11 mil homess. Cada um dos soldados mobilizados para reprimir os sem-terra re- cebe aproximadamente 180 reais brutos. Cor seujeito imperial de agir e uma auto-suficiencia sem sustentagAo real, o governador Almir Gabriel cometeu er- ros sucessivos no trato cor o movimen- to dos sem-terra. Em primeiro lugar por ter assumido fung8es que nao pode exer- cer. Os lavradores e suas extens6es, nem sempre realmente vinculadas a posse de uma Brea tem reivindicado terras que pertencem a particulares ou estio sob a jurisdiclo da Uniso. No primeiro caso, s6 o govero fede- ral pode desapropriar, quando se trata de im6veis improdutivos, ou estabelecer a distingAo legal para tentar outro tipo de transaqAo quando a propriedade 6 pro- dutiva. No caso de terras devolutas, o dominion 6 federal porque a devolugio ainda 6 um parto em serving. O Estado tem aparecido para contemporizar e pro- telar, nos moments de negociagao, ou parabaixar a mao armada, nos desfechos de repressao. Tanto no exercicio das prerrogativas que se atribuiu sem compet6ncia legal, como no desempenho de sua funcgo po- litica, o governor do Pari se mostra inefi- ciente. At6 o massacre de Eldorado de Carajas a presenga do Movimento dos Sem-Terra era localizada e de pouca ex- pressao no Estado. Cor 19 cadaveres e uma hist6ria de causar indignao a qual- quer cidadio, deve crescer. Mas tem ou- tra caracteristica que aumenta a apreen- sao dos observadores independents: se antes o trago principal dos conflitos ru- rais no Pari era a violtncia (item no qual tem a primazia national), agora essa vio- lencia pode extrapolar todos os limits. O bloqueio do acesso ajazida de ouro de Serra Leste pelos garimpeiros, no domin- go passado, 6 um sinal nesse sentido. O governador tucano do Pari ndo tem conseguido, por6m, do president tuca- no da Republica, uma atengao que, se o Estado ja nao merecesse, o correligiona- rio deveria receber. Total insensibilida- de de Fernando Henrique Cardoso ou, tamb6m, falta de densidade political do governador? Qualquer que seja a respos- ta, o que nao sai bem dessa pergunta 6 a social-democracia e tudo o que ela re- presenta atualmente no Brasil, um pais que socialmente se tornou ref6m de uma political econ6mica monetariamente bem sucedida. Os tucanos nao tmr ouvidos para o barulho dos sem-terra, fraqAo dos des- camisados que s6 entraram na moda co- lorida da boca para fora. 0 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996 3 Os caminhos da reform No mesmo dia em que o coronel Mario Pantoja saiu com sua tro- pa de Marabi para reprimir os sem-terra em Eldorado, estava na cida- de o superintendent do Incra, Walter Cardoso. Ele tinha ido discutir com os representantes do movimento uma solu- 9o para a ocupacgo da fazenda Maca- xeira, de propriedade da familiar do ex- deputado estadual Plinio Pinheiro Neto. Walter acabou ficando sem interlocutor. Dois dias antes do choque o presiden- te do Iterpa, Ronaldo Barata, tentara por telefone convencer um dos principals li- deres dos lavradores, mais conhecido como "Fusquinha", a ter um pouco de pacidncia porque a said para o impasse na Macaxeira ji estava sendo encaminha- da em Brasilia. A providencia a com- pra de 5,8 mil hectares da fazenda por 1,8 milhio de reals esti sendo formali- zada. Para o MST, por6m, ela s6 saiu do vasto e inf6rtil terreno das promessas porque ocorreram as mortes. E uma perigosa moral da hist6ria, mas pode nio ter exatamente o enredo que Ihe confere o MST. Dar para os lavrado- res exatamente a terra que eles ocupam nem sempre 6 possivel; e, mesmo quan- do possivel, nem sempre 6 recomenda- vel. Ocupar terras pode ser uma maneira eficiente de se apossar da Area visada, mas nio consiste num program de re- forma agraria no rigor do term. A fazenda Rio Branco, pr6xima da Macaxeira, foi adquirida pelo Incra em outubro do ano passado, mas nao vai re- solver nem mesmo o problema das 700 families ali assentadas. Como a proprie- dade era produtiva nto podia ser desa- propriada. O Incra teve que adquiri-la atrav6s da prosaica operailo de compra e venda. Pelos 18 mil hectares de terras da familiar Lunardelli, de Sio Paulo, uma das maiores proprietarias do Estado, o Incra pagou R$ 14 milhoes. Cada hecta- re saiu por aproximadamente R$ 777. Na Macaxeira, de uma familiar local, cada hectare sairA por R$ 330. Por que tanta diferenga? A compra sempre deixa esse tipo de divida, que permanece sem resposta porque a press de dar solugao a uma tensAo explosive afasta as cautelas regu- lares. O problema que enquanto a Rio Branco 6 uma propriedade plenamente privada, a Macaxeira foi formada a par- tir de aforamento estadual. A relacioju- ridica 6 mais complex e o Estado, en- quanto senhorio, precisa dar sua aprova- Cio a transadco. Mas ainda, que a situaio juridica fos- se mais simples e nao houvesse exigen- cias burocriticas regulamentares, a so- lugdo induzida pela ocupago pode nio ser eficiente. Muitos lavradores foram as- sentados em pastagens ja formadas na fazenda Rio Branco. Elimini-las exigi- ra tempo, trabalho e dinheiro e pode at6 ser impossivel, tal o enraizamento do capim. No caso da Macaxeira, dois mil de seus 5,8 mil hectares constituem o il- timo castanhal native da regido, que de- veria ser preservado. Oito anos atras, dizendo-se impelido por tensao social semelhante, o senador Jader Barbalho, que na 6poca dirigia o Ministdrio da Reforma Agraria, realizou uma operaglo como a que agora se faz com a Macaxeira, s6 que ampliada para 230 mil hectares. Nessa 6poca o Po- ligono dos Castanhais de Maraba ainda tinha metade de sua area original, de 800 mil hectares. Agora o que resta 6 o que existe na Macaxeira. Bern orientados, os pos- seiros poderiam ter obtido renda maior na exploraao dos castanhais remanes- centes, mas sua pritica agricola 6 incompativel com esse tipo de ativi- dade. Eles precisariam ser reciclados e ter apoio para suportar a inovagio. De- pois da festa da entrega do titu- j lo, quando titu- lo hi, sao dei- xados a pr6- pria sorte. Mui- tos dAo-se mal e acabam vendendo a terra recebida. O ciclo dos insucessos faz com que haja sempre clientele para os movimen- tos de ocupaq o, nos uiltimos tempos engrossados por desempregados que co- megam a ser expulsos das cidades, em movimento inverso ao que muitos deles experimentaram em etapa anterior. A ne- cessidade de sobrevivencia continue a ser o principal m6vel dessas empreitadas reivindicat6rias, mas o caldo de cultural que a alimentaji 6 mais complex. En- volve, especialmente no caso do Para, comerciantes inescrupulosos, madeirei- ros e lideres oportunistas. O governor, por6m, tern sido incom- petente para lidar corn essa massa de in- teresses que transborda o ordenamento legal ou institutional. Desde que os mi- litares se desinteressaram pela coloniza- 9io official dirigida como instrument preferential de ocupag~o da fronteira, em 1973, desviando todos os recursos para a consolidagio de enormes propriedades rurais, a maioria delas improdutivas ou especulativas, o hoje chamado sem-ter- ra foi deixado ao relento das political oficiais. Quem primeiro se interessou por ele foi a Igreja. Padres, bispos e agents pas- torais foram perseguidos em funimo de terem abrigado homes rdsticos e lega- listas que a burocracia governmental deixava do lado de fora dos gabinetes, estivessem eles em Brasilia ou numa pe- quena cidade do hinterland. .A sucesslo de desenganos, minando a confianga nas auto- ridades, continuamente fla- gradas na mentira, foi jo- gando essa legiAo de despossuidos nas mAos de liderangas mais radi- cais e muito menos ra- cionais, como a do MST, mas dotadas de uma organizaiao devo- cional ainda mais aguer- rida do que a da Igreja. O carter confessional de seita pode tirar do MST a capacidade de encontrar solug6es reais para os graves proble- -- mas rurais braslileiros, S mas lhe deu a autorida- de de lideranga efetiva sobre a massa de desas- sistidos no campo. Ig- norar essa realidade pode implicar ceder terreno nas duas frentes, tanto para tirar a tensao no interior do pais como preve- nir a consolidagao de um movimento messiinico de desdobramentos imprevi- siveis. O governor age desastradamente nes- se universe complicado porque nao tern, rigorosamente, uma political agraria. Age por espasmos a media em que as ondas se quebram A sua porta. Deu, sem que- rer, a liiao de que alguma coisa s6 ocor- re quando tingida de sangue, corn fatos consumados. Sdo saidas emergenciais, de) 4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996 circunstincia, que ndo recomporAo o te- cido social, nao melhorarlo os indices de produqAo e nao assegurarAo o fim das explos6es socials. Falta-lhe vontade de fazer. Se na area financeira os auxilios sao contabilizado em bilh6es de reals, no campo social e particularmente no agra- rio ha uma usura revoltante. A Abra (As- socia9go Brasileira de Reforma Agraria) garante que cor R$ 4 bilh6es seria pos- sivel assentar 400 mil families, gastando muito menos do que a dinheirama despe- jada em favor das families Calmon de Sa e Magalhies Pinto. Seria o suficiente para beneficiary o atual nuimero de families acampadas por todo o pais (37 mil) mul- tiplicado por 10. Mas, para fazer um as- sentamento mambembe, que inclui urn ridicule kit com bicicleta, o Incra gasta tres vezes mais por familiar, o que, para a mesma meta, exigiria R$ 12 bilhoes. 0 dinheiro acrescido por conta da incom- petencia sai pelo ralo do descaminho. Nao 6 facil reformar a estrutura agra- ria de um pais como o Brasil, mas nao 6 impossivel. 0 Estatuto da Terra, de novembro de 1964, continue a ser o re- gulamento da reform. Ele estabelece que toda propriedade agropecuaria aci- ma de 60rmil hectares pode e deve ser desa-propriada, quando necessario. A propriedade produtiva 6 intocavel. La- tifiindios por exploragao, corn areas in- feriores ao limited de 600 vezes o m6- dulo rural, mas com utilizagio de par- cela insignificant de sua extensAo, tam- bem devem ser desapropriados. Deles sairao terras para serem esto- cadas e usadas para o assentamento, fundo que tamb6m pode ser enriqueci- do por terras ainda devolutas, geral- mente mais distantes, desde que dota- das de infraestrutura para favorecer a sobrevivencia dos assentados. O Incra 6 lerdo e viciado, mas nao existe maquina azeitada sem dinhei- ro. O governor esti convencido de que o pais nao pode viver sem sua estru- tura financeira, mas nao tem a mesma convic9So em relagao a sua estrutura agriria. A advertEncia manchada de sangue dos sem-terra serviu para tirar os escaninhos oficiais da modorra, mas ainda nao 6 suficiente para colo- car o pais na trilha da reform. Mais sangue seri necessario? * Problem a vista Problema "a vista OIterpa (Instituto de Ter- ras do Para) devera pe- dir A justiga o cancelamento dos registros imobiliarios fei- tos no cart6rio Moreira, em Altamira, em favor da Indus- tria, Com6rcio, Exportaq~o e Navegagao do Xingu (Incen- xil). Os registros se referem a 10 glebas, formando a Fazen- da Rio Curui, entire os rios Curua e Iriri, cor 4,7 milhies de hectares. A Area correspon- de a 4% de todo o territ6rio paraense e 6 do tamanho de um pais como a Holanda. Cor- responde a tres vezes a Area reivindicada pela Jari, de 1,6 milhAo de hectares, a maior propriedade rural do Estado. Essas terras foram ofereci- das em dezembro de 1994, atraves de anuncio publicado nojornal "O Estado de S. Pau- lo", por 40 milh6es de reais. O suposto procurador de um grupo de 70 empresas, Jolo Batista, dizia tratar-se da mai- or fazenda do mundo, contan- do com 60 milh6es de metros cubicos de 37 diferentes espe- cies florestais, ja inventaria- das, e cor 28 rios, alguns de- les navegiveis. Em junho do ano passado os tres donos da Incenxil (Umbelino Jos6 de Oliveira Filho, Carlos Alberto Melo de Oliveira e Humberto Esteves Melo de Oliveira) se compro- meteram a vender a area a Rondon AgropecuAria, do empresArio Cecilio do Rego Almeida, da C. R. Almeida Engenharia e Constru9Ses. A Rondon pagou no ato apenas 100 mil reais, outros 500 mil reais seriam quitados em par- celas sucessivas e os restan- tes 5,4 milhSes, de um total de R$ 6 milhoes, atrav6s da ces- sdo de creditos que a empresa compradora dizia possuir, "contra a regularizagAo da gleba de terras compromissa- da junto ao-Iterpa". Cecilio Almeida, paraense de Obidos hA muito tempo es- tabelecido no Parana corn sua pol6mica empreiteira, consti- tuiu com as terras uma Reser- va Particular de Patrim6nio Natural, registrada no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Na- turais Renovaveis), em Brasi- lia, e tratou de fazer a divul- agao de um projeto de ma- nejo racional dos recursos na- turais. Fez a apresentaqlo, em Bel6m, para o goverador Al- mir Gabriel e Nilson Pinto de Oliveira, secretArio de Cien- cia, Tecnologia e Meio Ambi- ente. A confirmagAo da reserve garantiria para o empresArio o dominio perp6tuo das terras. O problema 6 que, apesar de todos os registros efetuados no cart6rio de Altamira, nao esti demonstrado o dominio priva- do das glebas. Provavelmente trata-se de uma "grilagem" de terras devolutas, feita grossei- ramente. Todos os registros re- montam a 1923, quando a Di- retoria de Obras, Terras e Via- 9do do Estado teria titulado as 10 glebas em favor de explo- radores de seringais no vale dos rios Iriri e Curud, em Al- tamira. Mas os registros se re- ferem apenas a "titulo hibil" como a documentagio origi- nAria, sem especificar qual o tipo de titulaqIo ou a data cer- ta da sua expedi~io. Na ver- dade, ningu6m apresentou ate agora esses "titulos hdbeis", que, provavelmente, nao exis- tem. Em certiddo fornecida ao Iterpa no dia 12, a official de registro do cart6rio Moreira, Eugenia Silva de Freitas, diz que nAo hi, nos seus assentos, o registro das 10 posses. No entanto, ela mesma forneceu certiddes sobre os registros iniciados em 1923, cor cadeia sucess6ria estabelecida a par- tir dos vagos "titulos hibeis". Apesar de alertados para a fragilidade da documentaqAo, os compradores hipotecaram a Area, em outubro do ano pas- sado, A firma Grand Pacific Financial Corporation, estabe- lecida no Colorado, nos Esta- dos Unidos, pela quantia de 6,6 milh6es de d6lares, cor o compromisso de quiti-la em 61 meses, at6 o ano 2000. Os registros cartoriais de- feituosos, assim, estAo pro- porcionando a realizaq~o de transac6es que poderAo vir a representar um edificio cons- truido sem alicerces. Embo- ra a Area tenha sido ofereci- da por R$ 40 milh6es, o Iter- pa acha que ela vale em tor- no de R$ 180 milh6es, po- dendo permitir um retorno rapido e multiplicado. Nao s6 pela madeira de lei exis- tente nesses 4,7 milh6es de hectares, situados entire o rio Iriri e a BR-163 (rodovia Santarem-Cuiabi), como porque ali ja existem garim- pos de ouro em atividade. O empresArio Cecilio Al- meida, alias, anunciou que contratara jagungos para re- tirar todos os ocupantes das terras, que consider suas, parcialmente superpostas a uma reserve indigena (Bau/ Mekranotire) e a um campo military (do Cachimbo). Res- ta saber se o governor, mais uma vez, chegara atrasado a esse novo problema fundiA, rio em formalao. 0 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA/ABRIL/1996 5 TESTEMUNHO Guilhon: doce e breve E ra um fim de tarde na redaAlo de "A Provincia do Para", em 1972. Do outro lado da ligagio telef6ni- ca estava Joaquim Antunes, assessor de imprensa do governor, autor dos mais an- tol6gicos trocadilhos da praga. O gover- nador Fernando Guilhon perguntava se eu podia dar um pulo ao palacio Lauro So- dr6 para conversarmos. Quando cheguei no antigo gabinete, que dava de funds para outro palicio, o Antonio Lemos, estavam o governador Fernando Guilhon, o vice, Newton Bar- reira, e Joaquim Antunes. O clima era ten- so. A revista "Veja", da qual era corres- pondente em BelIm, dera destaque A ma- t6ria sobre a crise no governor. Auxiliares do primeiro escalAo entregavam seus car- gos. O secretario de Seguranga P6blica saira atirando. A situagao sugeria falta de comando. Guilhon achava que meu noticiario es- tava prejudicando nao apenas o governor, mas o pr6prio Para. Como, sendo eu pa- raense, poderia fazer isso contra o meu Estado? Nao estava desservindo-o?, argu- mentava o governador. Retruquei que era pago pela revista para escrever sobre fa- tos. A crise no secretariado era fato e tinha relevancia. Se servia ou nao a inte- resses do Estado ou do governor no caso - era irrelevant. Eu tinha que fazer jor- nalismo e nao patriotada. O vice, coronel (da reserve da Aero- nautica) Newton Barreira era hostile. Acha- va que eu escrevia aquilo porque meu pai havia sido cassado. Deveria ser a forra. De costas, eu ouvia essas observag6es e, depois, continuava a conversa cor o go- vernador. Guilhon deve ter percebido que nao iria adiantar nada insistir naquela la- dainha. Pegou-me pelo brago e levou-me para ver as obras de restauraqao do Pali- cio Lauro Sodre que estava conduzindo pessoalmente, cor todo o zelo. Ai mudou o home. Aquela roupagem de desagrado e autoritarismo, pr6pria para o figuring da 6poca, desvaneceu-se. Per- corri o palacio ao lado de um fino cava- Iheiro, um home entusiasmado com o que estava fazendo, de fina sensibilidade. Esse era o verdadeiro Guilhon, que a car- ranca do cargo As vezes escondia, o mais encantador dos governadores que jA pas- sou pela Republica paraense. Fernando Jos6 de Leao Guilhon foi pouco lembrado neste mes em que com- pletou 20 anos de morto. A melhor das homenagens que se prestou A sua mem6- ria nIo foi dar seu nome a um trecho de uma rodovia estadual, mas tirar o nome dele da penitenciaria de Americano. Li- gar o nome de Guilhon a uma casa de re- clusio de press foi, mais do que prova de humor negro, injustiga, uma dentre virias cometidas contra ele. At6 hoje me pergunto se Fernando Gui- lhon nao duraria muito mais tempo caso nao tivesse sido indicado para governa- dor do Estado. Dizem alguns que o can- cer se instalara nele 10 anos antes da morte e que, por isso, o exercicio do governor apenas encurtara o tempo, abreviando o destiny fatal. Nao tenho melhores infor- macqes a respeito, mas tenho duvida. O encargo a que Guilhon foi submetido nos quatro anos, entire 1971 e 1975, foi tao pesado que sua sobrevida depois da trans- missio foi curta, malignamente curta para os tantos amigos que ainda esperavam usufruir de sua encantadora companhia. Nas minhas pesquisas sobre o Jari de Daniel Ludwig encontrei um document confidencial que me causou impact. Era um pedido feito ao milionArio americano para que o ji entao ex-governador pudes- se ser favorecido pela FundagAo Ludwig de Combate ao Cancer, indo receber tra- tamento especializado nos Estados Uni- dos. Secamente, Daniel Ludwig vetou a ajuda. Uma fonte da Jari explicou o gesto de, no minimo, descortesia de Ludwig: Guilhon ja estaria condenado, send inui- til qualquer coisa que se fizesse em favor dele. Antes de poupar desperdicio, por6m, a attitude de Daniel Ludwig foi descortes e desumana. Fernando Guilhon nio fez um bom go- verno, mas tentou, ate o derradeiro mo- mento, nao ser governador. Na v6spera da sacramentacAo de seu nome, no Rio de Ja- neiro, ainda procurou desviar o alvo para Stelio Maroja, ex-deputado federal e ex- prefeito de Belem. Stelio chegara mesmo a ser cogitado inicialmente, mas seu nome foi afastado porque ja apresentava serious problems mentais. Guilhon teria que aceitar. No esquema do entao ministry Jarbas Passarinho, nao havia opcio melhor. Gui- lhon criara image de bom administrator na sua passage pela CDP (Companhia de Docas do ParA) e DER (Departamento de Estradas de Rodagem). Era honest, leal e trabalhador. Como administrator dos dois 6rgaos, Guilhon nAo precisava se respon- sabilizar por nenhum arranjo politico, nem arbitrar interesses conflitantes. Podia per- mitir-se o prazer de constantes viagens pelo interior e adotar um padrao absolutamente informal de gestio. O governor tinha segre- dos e mistdrios que escapavam i compre- ensao cartesiana de Guilhon, cor suas ori- gens familiares tragadas entire a Franga e a mestigagem indigena, e ao molde do seu carter. Durante os quatro anos como governa- dor s6 se sentia realmente feliz quando li- dava cor assuntos culturais ou quando, no interior, podia ser simples, espontineo, na- tural. Dai as constantes fugas para Santa- rem, onde deliciava os companheiros de se- resta, especialmente em Alter-do-Chao, por ele adotada. As vezes a capital estava em efervescdncia political e o governador ron- dava pelo interior A procura de um ambi- ente mais de acordo cor a sua personali- dade. Numa das vezes, por pressao da familiar Mutran, Guilhon viu-se obrigado a demitir o interventor de Maraba, Elmano Melo. Fez a comunicagao por telefone. Irado, o coro- nel Elmano pulou num carro e veio o mais ripido que p6de para Bel6m cobrar expli- caces. Nao foi recebido. Pude testemunhar o profundo sentiment do governador dian- te da situacAo, normal para um politico pro- fissional, mas nAo para ele. Contrariedades como essa devem ter influido sobre a doen- 9a que o atingiria de forma tAo fulminante. No governor, Guilhon era o home erra- do para a hora errada. Nao percebeu, por exemplo, que estava entregando de bandeja ao governor federal as terras devolutas do Park, sacramentando o famigerado decreto- lei 1.164, que transferiu para o dominion da UniAo 100 quil6metros de cada lado das grandes estradas de penetragao na Amaz6- nia. Foi um dos mais terriveis golpes dados a federagAo brasileira desde a Proclamacao da Repfiblica. O govemador, gentil, brindou os algozes. Incapaz de malicia ou ate mes- mo de maldade, Guilhon estava indefeso no novo jogo que Ihe entregaram, acabando es- magado pelo exercicio de regras que nao ti- nha condic6es de entender. Foi-se rapida- mente, mas para os que tiveram o privil6gio de conviver com ele fora da camisa-de-for- Ca que Ihe impuseram entire 1971-75, dei- xou lembrangas definitivas, todas boas. E, por elas, sera sempre lembrado. * 6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996 A confusao no "campus" O s juristas e politicos adoram fa- zer a distinglo entire o legal o legitimo. 0 legal estA na lei, en- quanto o legitimo depend do endosso da sociedade, cujas transformag6es re- querem a mudanga nas leis. O governa- dor Almir Gabriel escolheu para dirigir a Universidade Estadual do ParA nao a pessoa mais votada, mas o segundo nome da list triplice que Ihe foi submetida, 6 um ato perfeitamente legal. Mas sera le- gitimo? Nas ondas de irracionalidade que se seguiram ao anincio de que a professo- ra Maria Izabel Castro Amazonas e nio o professor Mario Cardoso era a nova reitora da UEPa, a discussao sobre a le- gitimidade nao chegou a haver. A enfu- recida reagdo questionou o que deveria estar fora de qualquer duvida: a legali- dade do ato. O debate passou a ser tra- vado como se a causa estivesse num cam- po de futebo, entire torcidas organizadas. A confusao cortamente serviu ao jogo de poder, mas nao deve ter favorecia a Uni- versidade. Em mat6ria de autonomia, a UEPa foi concebida alguns passes adiante da Uni- versidade Federal do Para. O process de fornnago da lista triplice 6 mais s6li- do, inclusive por despir-se do falso igua- litarismo iluminista que abstrai as desi- gualdades na composicgo de uma Uni- versidade entire docentes, discentes e ser- vidores. O voto, na UEPa, 6 proporcio- nal, tratando desigualmente os desiguais, como tem que ser. Isso 6 positive. Mas o nome do reitor continue nao sa- indo diretamente da pr6pria eleigco. Ela serve para submeter ao governador os no- mes dos tres candidates mais votados, evitando o livre arbitrio.do chefe do Exe- cutivo e nao chegando ao leque mais am- plo das listas s6xtuplas antes predomi- nantes. Em metade das iltimas quatro es- colhas de reitor na UFPa o escolhido nio foi o mais votado e, num caso, foi mes- mo o menos votado. Ha espago para os protests e as insatisfaqes, mas as re- gras existiam antes do jogo comecar. No caso da UEPa os Animos ficaram mais inflamados em virtude de uma cir- cunstfncia particular: a nova reitora ha- via assinado um document se compro- metendo a renunciar caso o mais votado nio fosse escolhido pelo governador. Izabel Amazonas defende-se alegando ter desistido desse acordo ainda na campa- nha, quando sua candidatura foi impug- nada por concorrentes. Ha n6doa visivel nessa hist6ria, que a explicaao n~o consegue apagar. Mas uma incoer&ncia pessoal nWo 6 motivo suficiente para as cenas de deselegincia e selvageria registradas para a opinion public pela imprensa na cobertura dos protests contra a nova reitora. Princi- palmente num campus universitario, es- pera-se que seus frequentadores guiem- se mais pela razdo do que pelo irracio- nalismo. Se a falta de palavra da nova reitora pode ter contribuido para tensionar o cli- ma p6s-escolha, a falta de tato da chapa adversaria tamb6m deu sua contribuicqo para esse ambiente de paix6es incontro- ladas. O professor Mirio Cardoso noo 6 apenas um militant do PT. Nilson Pinto era militant do PT ao ser escolhido rei- tor da UFPa e o PT nao estava no po- der. A diferenga 6 que, o professor Car- doso e vereador do PT. Nessa condicgo, 6 obrigado a seguira linha programitica do seu partido, que 6 adversario da ad- ministra;ao estadual. N&o 6 coerente. O vereador poderia renunciar antes de assumir a reitoria, mas das duas, uma: ou deixaria de ser fiel ao que vinha fazendo ate entVo, ou a renincia seria apenas para ingles ver. O grupo do professor Mario Cardoso errou ao escolhe-lo como candi- dato a reitor da UEPa, tendo ele mandate eletivo e sujeiao a diretriz political do seu partido. Qual o governador que escolhe- ria um adversario para ocupar cargo de relevincia na administraqAo estadual se a lei Ihe da outra alternative? Estando no poder, o PT agiria de outra forma? O imbr6glio foi, entIo, o produto de uma sucessko de erros, mas a guerra pro- priamente eleitoral sufocou a necessaria discussio sobre o alcance da autonomia universitaria. Antes da atual crise, outra marcou no ano passado a vida da UEPa porque o entao reitor nao tinha a confian- ca do governador, embora dispusesse de mandate. Vitor Moutinho ficou no cargo, mas foi fritado e sabotado. Acabou pe- dindo para ir embora. Se resistisse mais tempo, sacrificaria ainda mais a Univer- sidade, sem compensi-la com a forga de sua lideranga, jd contestada intemamen- te. O mesmo caminho aguardava o pro- fessor Mario Cardoso se ele conseguisse ser o reitor. A autonomia s6 pode comegar a afir- mar-se para valer a partir da base finan- ceira. A Universidade de SAo Paulo vive autonomamente gracas a sua aliquota do ICMS paulista. O reitor pode sair de uma sele~lo feita pelo governador, a partir de uma list triplice mas, em seguida, pode dar-lhe uma magnifica banana. Por aqui, o jogo ainda 6 na base do rabo de arraia, que pode derrubar o contender, mas der- ruba, antes de mais nada, a Universidade a qual deveriam servir. * --------------------------------------------- Por tris da emenda Odedutado federal Morei- ra Franco, ex-govemador do Rio de Janeiro, apresentou uma emenda no projeto de re- forma administrative em tra- mita~io no parlamento extre- mamente perigosa. Ele quer suprimir a Policia Federal da citayAo feita no artigo 144 da Constituicoo, que trata da se- guranga public. As atribui- 96es da PF seriam definidas em legislaio ordinaria. Aparentemente, a Policia Federal continuaria a existir, mas, desconstitucionalizada, perderia forga e status. Seria o primeiro pass para des- mantela-la e, no future, extin- gui-la, transferindo suas atri- bui96es para Estados e muni- cipios. O sindicato de polici- ais de alguns Estados do Nor- deste garante que a estrategia dos inimigos da PF seria a de retirar a corporagco do texto constitutional. depois des- membrarem-na e, por fim, "simplesmente a extinguem, da forma menos perceptivel", diz uma nota official, assina- da pelos delegados Antonio Gois e Antonio Albuquerque Filho. A justificativa de Moreira Franco para a emenda que ex- clui a PF da Constituiqao tem o pe quebrado, ou como su- gerem alguns policiais pode esconder o dedo do gigante. A PF, criada pelos militares em 1964, foi um dos bracos, mais atuantes da repressed political na 6poca em, que o govemo era o Estado e a sociedade ha- via sido imobilizada. Com a abertura political e a redemo- cratizaAo, a Policia Federal foi se profissionalizando e a absorvendo novas func6es. Nos iltimos tempos, foi deci- siva no combat ao narcotra- fico e na elucidacao de crimes do colarinho branco. Mostra resultados, apesar da precaria estrutura de que dispbe. Criou muitos inimigos, portanto. A julgar pela emenda Moreira Franco, poderosos. * JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA/ABRIL/1996 7 Das suspeitas aos fatos E m abril de 1990 Abrahao Patruni Junior, inspector do Banco Central, encaminhou ao Departamento de Fiscalizaaio (Defis) da institugiio um re- lat6rio sob o titulo "Banco do Estado do Para S/A x Jader Barbalho Utilizacio indevida de recursos e manipulacao de procedimentos operacionais e contabeis, caracterizando fraude contabil". O relatorio se referia a fatos ocorridos seis anos antes, em 1984, quando Jader era governador do Estado. Cheques ad- ministrativos do Banco do Estado do Para, supostamente para reforco de caixa e pa- gamento de despesas eventuais, foram emitidos ao portador e aplicados em titu- los de renda fixa em beneficio do corren- tista n 96.650-4 da agencia 0532 do Ban- co Itau, no Jardim Botanico, Rio de Ja- neiro. O dono da conta seria o pr6prio govemador Jader Barbalho. No trecho mais explosive do seu rela- torio, diz o inspector do BC: "No decorrer das pesquisas, baseado em tecnica de au- ditoria, tendo em vista que as sucessivas aplicar6es em Titulos de Renda Fixa fo- ram realizados sistematicamente na for- ma 'ao portador' junto as agincias Jar- dim Botanico do Banco Itau S.A. e As- sembleia do Citibank, N. A., na praca do RJ". O desvio teria dado ao Banpara pre- juizo de um milhAo de reais, em valores de hoje, porque as aplicag6es do dinhei- ro do banco nio retomaram. So em outubro de 1992 o Banco Cen- tral encaminhou o process ao Ministe- rio Publico para apuraaio, contend 400 folhas de documents. Mas no dossi jii nao constava o nome do ex-governador. Segundo fonte do Banco Central ouvida pelo journal "0 Estado de S. Paulo", que reabriu o caso cor material de primeira pagina no dia 14, a exclusio do senador foi por causa o sigilo bancario. O BC s6 revelaria essas informac6es a pedido do Ministerio Publico. O problema e que o Ministerio Puiblico nio poderia acionar o ex-governador porque seu nome nio constava do document enviado para a formulaqio da denuncia. O senador Jader Barbalho reagiu indig- nado. Para ele, o influence jomal paulis- ta agiu de encomenda, para servir aos seus adversarios material para ser usado na proxima campanha electoral. Mas tambem teria sido usado por banqueiros e dirigen- tes do Banco Central, contra os quais o lider do PMDB no senado diz haver in- vestido. Jader assegura que a hist6ria, desde o inicio, nio passa de uma arma- g o para coloca-lo em situagio dificil. Quando os cheques foram descobertos, migrando do Banpard para a ag6ncia do Itau no Rio de Janeiro, sabia-se apenas que a explicacio dada pela diregco do banco nio era convincente. A revelagio feita no relatorio divulgado pelo "Esta- dao", requentando uma hist6ria parcial- mente conhecida ha mais de 10 anos, e que a conta para a qual fluiram as aplica- 96es fraudulentas seria do senador Jader Barbalho. Para encerrar de vez essa poldmica, esclarecendo a verdade e sepultando a tra- ma na qual o senador sejulga vitima, bas- taria fazer duas perguntas ao Banco Cen- tral. A primeira: por que as infornac6es apuradas pelo fiscal nAo foram incorpo- radas ao dossier enviado ao Ministerio Publico. A segunda: quem era mesmo o dono da conta 96.650-4 da ag6ncia 0532 do Banco Itau? Se o MP nao tomar essa iniciativa, e o caso de o proprio senador requer&-la. Seria mais produtivo para ele e esclarecedor para a opiniao p6blica do que todas as comoventes solidariedades que obteve de seus pares ao fazer um lon- go discurso na tribune, onde defendeu-se dos presumiveis inimigos e tangenciou os fatos em si. 0 Fora do tom SUniao, os Estados e os municipios nao podem continuar a ter deficits e a se endividar indefinidamente. Nenhum piano de estabiliza- cio econ6mica dara certo sem tender a esse pressuposto. Mas qual a maneira de impor contengAo e equilibrio ao po- der pfblico no Brasil? Os militares responderam ao desafio centralizando o poder em Brasilia. O Brasil viveu sob um Estado unitario durante 20 anos. O control central nAo impediu, entretan- to, o salto da divida exterma e, depois, do endividamento intemo. A Uniao controlava os Estados, mas ningu6m con- trolava a Uniaio. A Constituicgo de 1988 procurou restabelecer o fede- ralismo e fortalecer a base municipal, mas como a soci- edade permanece enfraqueci- da em todos os niveis de re- presentacio, o resultado tern sido a faldncia quase genera- lizada do poder pfblico. No- vamente volta-se ao control centralizado, mas, em 6poca de democracia, ele nao pode seguir o modelo autoritario dos militares. A said 6 usar o poder do dinheiro, vinculan- do a liberag~o de recursos do tesouro A contrapartida de re- sultados de acordo com as metas estabelecidas. Por outro caminho, portan- to, estA havendo a quebra do principio federativo cada vez que um Estado-membro, para receber verba federal, tem que se comprometer a colocar as despesas com pessoal abaixo do limited alias, constitucio- nal de 60% das receitas li- quidas correntes, a enxugar o funcionalismo, a nao con- ceder reajustes salariais aci- ma da inflacio e varias ou- tras medidas (num total de 32, conforme o receituario international de emagreci- mento da maquina piblica). A necessidade de alcan9ar essas metas 6 imperiosa, mas, se a democracia esta azeitada, 6 possivel chegar a elas sem sacrificar a clareza median dos atos oficiais. E exagera- da a afirmativa de deputados estaduais do PT de que o go- vernador Almir Gabriel ven- deu o Estado pelos 53 mi- lh6es de reais que, neste m&s, a Caixa Econ6mica Federal aceitou liberar para o Pard em troca da adesao ao Programa de Apoio A Restauragdo e aO Ajuste Fiscal de Estados. Chega a ser, de fato, uma intervengio branca da Uniao no Para, mas ela seria perfei- tamente dispensavel se o pr6- prio governor estadualja tives- se conseguido sair das pran- chetas da tal reform adminis- trativa, concebida a quatro maos com o Banco Mundial e encaminhada num ritmo in- teiramente dissociado de sua necessidade. O governor nao 6 apenas lento: ele nAo sabe dialogar. Se reformar (revolu- cionar seria ainda melhor) o Estado 6 condicao indispen- savel para investor em favor de toda a populag o, entao nAo faltario arguments ao govemo para enfrentar os ad- versarios politicos e a frente corporativa do funcionalismo. Quem nao tem (ou nao quer ter) forca para impor seu pro- grama, deve discuti-lo com as representaQoes da sociedade para convenc6-las e, se possi- vel, faze-las aderir a iniciati- va. Esse 6 o fnico tipo de he- gemonia que faz bem A demo- cracia. A administration Almir Ga- briel continue a ser uma tec- nocracia mambembe de gabi- nete, obrigada a ir ao salao e dangar com pares que nao Ihe agradam e, por isso, dangan- do muito mal a valsa da poli- tica. Quando nao fica a noite inteira sentada, a fazer tric6, como se diz nas festas. 0 Palavras "Nas condigoes pioneiras da Ama- z6nia, o Estado torna-se raquitico para a defesa do cidadlo e delega A violencia privada, embora nao ex- pressamente, o arbitrio nas relacoes entire os homes. Capitalismo selva- gem, dir-se-A, que combine em sua estrutura formas de exploranao e de imposigao que simultaneamente su- poem o Estado leviata (protetor, para os ricos) e a coergao privada para center a emergdncia de eventuais (e improvAveis) primitivos rebeldes e para center reagoes mais ou menos organizadas que evidenciam aqui e ali o potential da aqAo da massa dos ex- plorados" (Fernando Henrique Car- doso, em livro escrito em 1977 sobre a Amaz6nia, quando era baladeira - ou estilingue e nao vidraQa; e quan- do era soci61ogo). O "xis" da palavra Por um desses milagres inver- tidos da tecnologia, a "Estra- nha Xicara" de Haroldo Maranhao foi metamorfosea- da, na iMltima edigao do Jor- nal Pessoal, para "Estranha Chicara". Faz-se a correClo para que a xicara referida tenha sua serventia. r ------------ -- ---- ---m- --. I I S Mao cheia A vida deu a Paulo Martins o privildgio de escolher titulos e caminhos. E um arquiteto criativo. Quando pedem sua opiniao, e um secretd- Srio da Fazenda imaginoso. Dc assessoria I aos que vao abrir restaurants, bares e Sbotequins. E, sem contestaqdo, um res- tauranter. Mas agora ele ganhou o titulo que melhor Ihe cabe: o de chef de cuisine, o minico do Norte do pais I com reconhecimento internacio- Snal. N6s, seus amigos, sabemos Sdo que o Paulo d capaz numa Icozinha e sempre respeitamos Sessa invejdvel capacidade de misturar tempers e criar pratos. Vamos continuar respeitando, agora cor obrigaFdo de respeitar cor acento em francOs. Osfrequentadores do Ld em Casa/ Outro j que saem ganhando. N6s, junto. aL.- I----. --mmm-m-----I. Bt... Imagem O massacre de Eldorado p6s a per- der a campanha publicitaria que o go- verno havia desencadeado na midia para mudar, uma imagem negative, que comecava a ser criada na opiniao pfi- blica. Muito dinheiro escasso foi pra- ticamentejogado fora pelo impact das mortes de sem-terra. E o governor ain- da teve que gastar quase meio milhao de reais publicando nota de esclareci- mento na imprensa. Para quem havia economizado (erradamente, alias) di- nheiro com o deslocamento de tropa de Beldm, um desastre. Atitude Apesar do discurso de critics que fez ao governador Almir Gabriel, o senador Ademir Andrade, presiden- te regional do PSB, preferiu nao romper cor o governor. O Ipasep, presidido por Antonio Fonteles, a principal base de apoio para as in- cursoes de Ademir ao interior do Es- tado, na intense campanha que ele jA esta fazendo para ser candidate em 1998 ao governor. Ademir havia rom- pido com Jader Barbalho e H6lio Gueiros em circunstancias seme- lhantes no passado. - -- -- --------- --- ----- -- --- -- -- -- ----- 0 "nao veio" Um pouco antes da meia-noite do dia 11 o president do Incra mandou avisar o governador Almir Gabriel, que estava em Brasilia: nao iria mais a Tu- cumA e Sio Felix do Xingu para entre- gar titulos de terra e inaugural uma unidade avangada do institute. Antes, o pr6prio ministro da Agricultura, Eduardo Andrade Vieira, havia cance- lado sua participaoio nas solenidades. Seus promotores s6 ficaram sabendo que nenhuma das autoridades estaria present horas antes dos events que foram Torm' realizados assim mes- Rd Redacg mo porque era impos- sivel cancela-los. O governador Almir Gabriel, que sairia de Brasilia diretamente para Maraba, tambrn deixou de ir alegan- do que o anfitriio era o Incra. No en- tanto, al6m dos 1.300 titulos definiti- vos obtidos atrav6s do Proterra e da unidade do Incra, estava incluida a inauguraglo de um escrit6rio da Ema- ter, que 6 estadual. Duas li96es do epis6dio. O gover- nador, quando pegar carona em festa federal, deve se assegurar de poder pressionar os anfitri6es para nao de- serdarem pelo caminho. Ou seja: pre- l PeSSOal Editor Responsvel: Ltcih Lo: Pass. Bolonha, 60-B *Fones: 223-76qate llustragao e editora"go eletr6nica: Lui-Pin cisa ter forga em Brasilia finala, do mesmo partido do president da Re- publica). Segunda ligio: se quiser go- vernar para valer um Estado das dimen- sOes do Para, Almir Gabriel nio pode continuar a ser um ausente do interior. Desgasta esse hibito sedentirio do governador, cada vez mais fechado no assim chamado palacio de despachos da Augusto Montenegro. No Para ji houve um governador que de tanto vi- ajar (para fora do Estado) quando cir- culava pela cidade era recebido por estudantes com um c6ro de "li vai ele". Almir Gabriel pode ficar sendo conhe- SFlvio Pinto cido no interior 2-a 23-^. (n2:9 como aquele que |
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