Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00095

Full Text





Journal Pessoal

E D I TO R R E S P O N SAV E L: L U C I O F LAV I O P I N TO
ANO IX No 138 2* QUINZENA DE ABRIL DE 1996* R$ 2,00

MASSACRE


A tragedia dos erros

0 governador Almir Gabriel comegou a pagar
um duro prego pelos erros cometidos.
Eles refletem uma maneira de administrar
o Estado que est6 se esgotando.


"Contra os pequenos,
se acaso se agasta,
6 o rei sempre excessive"
(Homero, Iliada)

A 30 de dezembro de 1987 a
Policia Militar do governador
H61io Gueiros chocou a opi-
niio ptblica national e inter-
nacional ao desalojar entire 1.500 e dois
mil garimpeiros de Serra Pelada, que in-
terditavam a ponte rodoferrovibria so-
bre o rio Tocantins,
em Maraba. Sob o
impact da selvage-
ria da aq&o, entida- L
des de direitos hu-
manos calcularam
que de 26 a 133
pessoas poderiam
ter morrido, mas
oficialmente apenas /
dois cadaveres fo-
ram identificados e
20 civis sairam fe-
ridos. Nenhum po-
licial foi atingido.
Em nenhum mo-
mento o entio go-
vernador admitiu
ter agido errado.
Oito anos depois,
a mesma PM sob o mesmo comando
de Marabi investiu contra um grupo de
dimensdo semelhante do movimento
sem-terra em Eldorado de Carajas. De-
pois de um confront que nao ultrapas-
sou os 15 minutes de duraqio da ofensi-
va da ponte sobre o Tocantins, deixou
um saldo de 19 mortos e 45 feridos do
lado dos lavradores e de seis feridos en-
tre os 265 policiais mobilizados.


Essa simples correlag&o de nimeros
desautoriza a versAo official inicial de um
combat. De fato, alguns garimpeiros in-
vestiram contra um grupo de PMs, ati-
rando paus, pedras, foices, machados
e fazendo disparos com armas de fogo
(dois rev6lveres apareceram nas imagens
captadas "ao vivo" pelo cinegrafista Jo-
nias Cardoso, da TV Parauapebas, inau-
gurada tres dias antes). Mas se um ou
outro manifestante at6 poderia sair mor-
to desse primeiro choque, o que se se-


guiu a partir dai, justamente quando a
massa jA estava passivel de ser domina-
da, foi um massacre selvagem.
As images e fotos do resultado da ago
dos dois pelot6es da PM, que investiram
a partir das duas extremidades da rodo-
via, nao deixa d6vida de que a forca pti-
blica transmudou-se em horda particular
ou uma jagungada official. A tropa cacou
manifestantes para um ajuste pessoal de


contas, sem nada mais a ver corn a causa
public. E presumivel crer que muitos dos
policiais envolvidos tivessem o que acer-
tar com os sem-terra ap6s um convivio
continue de semanas de confront pacifi-
co em posiq6es opostas, cuja tensto s6
nao explodiu exatamente porque vinha
sendo contida pela autoridade superior.
Nao se harmoniza cor a biografia do
governador Almir Gabriel a acusaao de
que ele deliberadamente mandou os poli-
ciais agirem com violncia contra os ma-
nifestantes que
obstruiam o trife-
go pela PA-275,
que liga a PA-150
a CarajAs, ou que
tenha tomado a ini-
ciativa sob o peso
de compromisso
assumido com os
fazendeiros da re-
giSo, que com ele
se reuniram duas
semanas antes, em
Bel6m.
Os erros de co-
mando cometidos
pelo governador,
entretanto, revelam
S cristalinamente sua
forma de agir. O
governador limitou-se a reunir o secretA-
rio de seguranga public, Paulo Sette Ca-
mara, o comandante da Policia Militar, Fa-
biano Lopes, e o president do Iterpa, Ro-
naldo Barata, para former seujuizo, sem
trazer ningu6m de campo. A ordem foi
dada diretamente, sem passar, por exem-
plo, pelo Estado-Maior da PM, onde po-
deriam ser introduzidos questionamentos
t6cnicos.






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Quando a determinagAo foi procrasti-
nada em 24 horas (do dia 16 para o dia
17), o govemador considerou a sua au-
toridade arranhada e reforcou, corm en-
fase perigosa, o que jA havia determina-
do: a desobstrucgo da estrada. A partir
desse moment, soldados e oficiais que
at6 entAo eram usados para distribuir ali-
mentos, rem6dios e atengio aos sem-ter-
ra, fora, assim, de sua missAo profissio-
nal (ou de como a concebem), foram li-
berados para o que julgam saber fazer
como ningudm: reprimir.
Esse erro foi fatal. A tropa acumulava
desrespeitos e humilhag6es que conside-
rava terem sido cometidos pelos sem-ter-
ra, senhores das aq6es at6 entao. Por ou-
tro lado, os manifestantes, acostumados
a serem atendidos, nao esperavam uma
mudanca tAo subita e radical de papel dos
policiais. Ainda mais porque os primei-
ros tiros foram dados para o alto ou com
balas de festim, sentiram-se estimulados
(ou induzidos?) a pensar que tudo aca-
baria como na primeira interdicao da es-
trada, feita na semana anterior, ou nos
outros moments da escalada a partir da
ocupagao da fazenda Macaxeira, seis
meses antes. Pensavam que tudo acaba-
ria no grito ou, no maximo, em escoria-
c6es generalizadas.
Os sem-terra comegaram a recuar e a
tentar se dispersar quando os primeiros
tiros foram dados e a tropa vinda de
Maraba, 200 homes comandados pelo
coronel Mirio Colares Pantoja, recuara
e se refugiara atras de um caminhao. No
moment dos tiros, a tropa de Parauape-
bas, de 65 homes comandados pelo ma-
jor Jose Maria de Oliveira, e que se en-
contrava no local hi mais tempo, man-
tendo-se at6 entio a uma certa distincia,
avangou: o tiroteio era o sinal implicito
de que a resistencia armada e a agressi-
vidade dos sem-terra autorizavam vio-
lencia ainda maior dos policiais. Foi a
carnificina.
O desastre era previsivel. O coronel
Pantoja e a secio de inteligencia da PM
haviam relatado o estado de animo dos
manifestantes, estimulados por suas vi-
t6rias parciais, a ponto de, no iltimo
acerto para a primeira desinterdi~&o da
PA-257, terem exigido 55 6nibus, al6m
de alimento e rem6dio, uma tarefa difi-
cil de executar em qualquer das cidades
da regiao e mesmo em Bel6m.
Outra vez o interlocutor, que era o
major Oliveira (e nao um negociador
qualificado ou cor delegagAo de pode-
res para essa dificil tarefa), ndo pode
cumprir o prometido. O desgaste natu-


ral indicava que, dessa vez, os sem-terra
nao sairiam da estrada com converse. O
recomendAvel seria o governor deslocar
um grande contingent de Bel6m, sobre-
tudo da tropa de choque. Soldados bern
equipados, inclusive cor cfles ejatos de
Agua, em nimero em alguma media
proporcional ao dos manifestantes, em
uma manobra ordenada, poderiam nAo
evitar violencias, mas certamente pou-
pariam mortes.
Os inconvenientes de uma interdicao
mais prolongada teriam que ser absorvi-
dos em proveito de uma manobra com-
pleta. Uma tropa que chega ordenada e
faz a exibiqio de sua forga, antes de co-
loca-la em prAtica, costuma produzir
efeitos psicol6gicos favoriveis. Mas os
dois pelot6es chegaram desordenada-
mente e nem sequer entraram em forma.
A falta de tropa de choque, desligada de
envolvimento emotional e do desgaste
com os manifestantes, o que apareceu
dos dois lados da estrada, encurralando
os manifestantes, foram soldadosji mo-
tivados para o revide aos inimigos, ago-
ra perfeitamente caracterizados em vir-
tude da rea9&o e do contra-ataque reali-
zados.
A retirada das tarjas de iden-
tificaqio que o policial mili-
tar e obrigado a usar na farda
(a "biriba") e a quantidade de
muniqao, normalmente racio-
nada na PM, sdo dados inquie-
tadores. Um outro 6 a possibilidade
de pessoas interessadas, como os fazen-
deiros da regiao, terem pago o frete dos
6nibus usados na opera~io. Normalmen-
te os envolvidos se responsabilizam por
essas despesas, as vezes simplesmente
porque a corporagio nao tem dinheiro
para realizA-las. Do estado de necessi-
dade ao de conivencia e parceria 6 um
pass que raramente nAo 6 dado.
Os PMs nAo estavam irritados apenas
por se considerarem joguete nas maos
dos. sem-terra, alguns dos quais conhe-
cem bem (e, por isso, respeitam ou nao
respeitam). Estao cada vez mais insatis-
feitos cor a atual administraqao do Es-
tado. Algumas motivates sao simb6li-
cas ou menores, como a aus6ncia do go-
vernador As comemora96es do ano pas-
sado no dia de Tiradentes, patrono da
PM. Outras t6m mais substancia, como
a perda de vantagens funcionais e redu-
9ao de contingent (de 13 mil para 11
mil homess. Cada um dos soldados


mobilizados para reprimir os sem-terra re-
cebe aproximadamente 180 reais brutos.
Cor seujeito imperial de agir e uma
auto-suficiencia sem sustentagAo real, o
governador Almir Gabriel cometeu er-
ros sucessivos no trato cor o movimen-
to dos sem-terra. Em primeiro lugar por
ter assumido fung8es que nao pode exer-
cer. Os lavradores e suas extens6es, nem
sempre realmente vinculadas a posse de
uma Brea tem reivindicado terras que
pertencem a particulares ou estio sob a
jurisdiclo da Uniso.
No primeiro caso, s6 o govero fede-
ral pode desapropriar, quando se trata de
im6veis improdutivos, ou estabelecer a
distingAo legal para tentar outro tipo de
transaqAo quando a propriedade 6 pro-
dutiva. No caso de terras devolutas, o
dominion 6 federal porque a devolugio
ainda 6 um parto em serving. O Estado
tem aparecido para contemporizar e pro-
telar, nos moments de negociagao, ou
parabaixar a mao armada, nos desfechos
de repressao.
Tanto no exercicio das prerrogativas
que se atribuiu sem compet6ncia legal,
como no desempenho de sua funcgo po-
litica, o governor do Pari se mostra inefi-
ciente. At6 o massacre de Eldorado de
Carajas a presenga do Movimento dos
Sem-Terra era localizada e de pouca ex-
pressao no Estado. Cor 19 cadaveres e
uma hist6ria de causar indignao a qual-
quer cidadio, deve crescer. Mas tem ou-
tra caracteristica que aumenta a apreen-
sao dos observadores independents: se
antes o trago principal dos conflitos ru-
rais no Pari era a violtncia (item no qual
tem a primazia national), agora essa vio-
lencia pode extrapolar todos os limits.
O bloqueio do acesso ajazida de ouro de
Serra Leste pelos garimpeiros, no domin-
go passado, 6 um sinal nesse sentido.
O governador tucano do Pari ndo tem
conseguido, por6m, do president tuca-
no da Republica, uma atengao que, se o
Estado ja nao merecesse, o correligiona-
rio deveria receber. Total insensibilida-
de de Fernando Henrique Cardoso ou,
tamb6m, falta de densidade political do
governador? Qualquer que seja a respos-
ta, o que nao sai bem dessa pergunta 6 a
social-democracia e tudo o que ela re-
presenta atualmente no Brasil, um pais
que socialmente se tornou ref6m de uma
political econ6mica monetariamente bem
sucedida.
Os tucanos nao tmr ouvidos para o
barulho dos sem-terra, fraqAo dos des-
camisados que s6 entraram na moda co-
lorida da boca para fora. 0






JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996 3


Os caminhos da reform


No mesmo dia em que o coronel
Mario Pantoja saiu com sua tro-
pa de Marabi para reprimir os
sem-terra em Eldorado, estava na cida-
de o superintendent do Incra, Walter
Cardoso. Ele tinha ido discutir com os
representantes do movimento uma solu-
9o para a ocupacgo da fazenda Maca-
xeira, de propriedade da familiar do ex-
deputado estadual Plinio Pinheiro Neto.
Walter acabou ficando sem interlocutor.
Dois dias antes do choque o presiden-
te do Iterpa, Ronaldo Barata, tentara por
telefone convencer um dos principals li-
deres dos lavradores, mais conhecido
como "Fusquinha", a ter um pouco de
pacidncia porque a said para o impasse
na Macaxeira ji estava sendo encaminha-
da em Brasilia. A providencia a com-
pra de 5,8 mil hectares da fazenda por
1,8 milhio de reals esti sendo formali-
zada. Para o MST, por6m, ela s6 saiu do
vasto e inf6rtil terreno das promessas
porque ocorreram as mortes.
E uma perigosa moral da hist6ria, mas
pode nio ter exatamente o enredo que
Ihe confere o MST. Dar para os lavrado-
res exatamente a terra que eles ocupam
nem sempre 6 possivel; e, mesmo quan-
do possivel, nem sempre 6 recomenda-
vel. Ocupar terras pode ser uma maneira
eficiente de se apossar da Area visada,
mas nio consiste num program de re-
forma agraria no rigor do term.
A fazenda Rio Branco, pr6xima da
Macaxeira, foi adquirida pelo Incra em
outubro do ano passado, mas nao vai re-
solver nem mesmo o problema das 700
families ali assentadas. Como a proprie-
dade era produtiva nto podia ser desa-
propriada. O Incra teve que adquiri-la
atrav6s da prosaica operailo de compra
e venda. Pelos 18 mil hectares de terras
da familiar Lunardelli, de Sio Paulo, uma
das maiores proprietarias do Estado, o
Incra pagou R$ 14 milhoes. Cada hecta-
re saiu por aproximadamente R$ 777.
Na Macaxeira, de uma familiar local, cada
hectare sairA por R$ 330. Por que tanta
diferenga?
A compra sempre deixa esse tipo de
divida, que permanece sem resposta
porque a press de dar solugao a uma
tensAo explosive afasta as cautelas regu-
lares. O problema que enquanto a Rio
Branco 6 uma propriedade plenamente
privada, a Macaxeira foi formada a par-
tir de aforamento estadual. A relacioju-
ridica 6 mais complex e o Estado, en-


quanto senhorio, precisa dar sua aprova-
Cio a transadco.
Mas ainda, que a situaio juridica fos-
se mais simples e nao houvesse exigen-
cias burocriticas regulamentares, a so-
lugdo induzida pela ocupago pode nio
ser eficiente. Muitos lavradores foram as-
sentados em pastagens ja formadas na
fazenda Rio Branco. Elimini-las exigi-
ra tempo, trabalho e dinheiro e pode
at6 ser impossivel, tal o enraizamento do
capim. No caso da Macaxeira, dois mil
de seus 5,8 mil hectares constituem o il-
timo castanhal native da regido, que de-
veria ser preservado.
Oito anos atras, dizendo-se impelido
por tensao social semelhante, o senador
Jader Barbalho, que na 6poca dirigia o
Ministdrio da Reforma Agraria, realizou
uma operaglo como a que agora se faz
com a Macaxeira, s6 que ampliada para
230 mil hectares. Nessa 6poca o Po-
ligono dos Castanhais de Maraba
ainda tinha metade de sua area
original, de 800 mil hectares.
Agora o que resta 6 o que
existe na Macaxeira.
Bern orientados, os pos-
seiros poderiam ter obtido
renda maior na exploraao
dos castanhais remanes-
centes, mas sua pritica
agricola 6 incompativel
com esse tipo de ativi-
dade. Eles precisariam
ser reciclados e ter
apoio para suportar a
inovagio. De-
pois da festa da
entrega do titu- j
lo, quando titu-
lo hi, sao dei-
xados a pr6-
pria sorte. Mui-
tos dAo-se mal
e acabam vendendo a terra recebida.
O ciclo dos insucessos faz com que
haja sempre clientele para os movimen-
tos de ocupaq o, nos uiltimos tempos
engrossados por desempregados que co-
megam a ser expulsos das cidades, em
movimento inverso ao que muitos deles
experimentaram em etapa anterior. A ne-
cessidade de sobrevivencia continue a ser
o principal m6vel dessas empreitadas
reivindicat6rias, mas o caldo de cultural
que a alimentaji 6 mais complex. En-
volve, especialmente no caso do Para,
comerciantes inescrupulosos, madeirei-


ros e lideres oportunistas.
O governor, por6m, tern sido incom-
petente para lidar corn essa massa de in-
teresses que transborda o ordenamento
legal ou institutional. Desde que os mi-
litares se desinteressaram pela coloniza-
9io official dirigida como instrument
preferential de ocupag~o da fronteira, em
1973, desviando todos os recursos para
a consolidagio de enormes propriedades
rurais, a maioria delas improdutivas ou
especulativas, o hoje chamado sem-ter-
ra foi deixado ao relento das political
oficiais.
Quem primeiro se interessou por ele
foi a Igreja. Padres, bispos e agents pas-
torais foram perseguidos em funimo de
terem abrigado homes rdsticos e lega-
listas que a burocracia governmental
deixava do lado de fora dos gabinetes,
estivessem eles em Brasilia ou numa pe-
quena cidade do hinterland.
.A sucesslo de desenganos,
minando a confianga nas auto-
ridades, continuamente fla-
gradas na mentira, foi jo-
gando essa legiAo de
despossuidos nas mAos
de liderangas mais radi-
cais e muito menos ra-
cionais, como a do
MST, mas dotadas de
uma organizaiao devo-
cional ainda mais aguer-
rida do que a da Igreja.
O carter confessional
de seita pode tirar do
MST a capacidade de
encontrar solug6es reais
para os graves proble-
-- mas rurais braslileiros,
S mas lhe deu a autorida-
de de lideranga efetiva
sobre a massa de desas-
sistidos no campo. Ig-
norar essa realidade pode implicar ceder
terreno nas duas frentes, tanto para tirar
a tensao no interior do pais como preve-
nir a consolidagao de um movimento
messiinico de desdobramentos imprevi-
siveis.
O governor age desastradamente nes-
se universe complicado porque nao tern,
rigorosamente, uma political agraria. Age
por espasmos a media em que as ondas
se quebram A sua porta. Deu, sem que-
rer, a liiao de que alguma coisa s6 ocor-
re quando tingida de sangue, corn fatos
consumados. Sdo saidas emergenciais, de)






4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996


circunstincia, que ndo recomporAo o te-
cido social, nao melhorarlo os indices
de produqAo e nao assegurarAo o fim das
explos6es socials. Falta-lhe vontade de
fazer.
Se na area financeira os auxilios sao
contabilizado em bilh6es de reals, no
campo social e particularmente no agra-
rio ha uma usura revoltante. A Abra (As-
socia9go Brasileira de Reforma Agraria)
garante que cor R$ 4 bilh6es seria pos-
sivel assentar 400 mil families, gastando
muito menos do que a dinheirama despe-
jada em favor das families Calmon de Sa
e Magalhies Pinto. Seria o suficiente para
beneficiary o atual nuimero de families
acampadas por todo o pais (37 mil) mul-
tiplicado por 10. Mas, para fazer um as-
sentamento mambembe, que inclui urn


ridicule kit com bicicleta, o Incra gasta
tres vezes mais por familiar, o que, para a
mesma meta, exigiria R$ 12 bilhoes. 0
dinheiro acrescido por conta da incom-
petencia sai pelo ralo do descaminho.
Nao 6 facil reformar a estrutura agra-
ria de um pais como o Brasil, mas nao
6 impossivel. 0 Estatuto da Terra, de
novembro de 1964, continue a ser o re-
gulamento da reform. Ele estabelece
que toda propriedade agropecuaria aci-
ma de 60rmil hectares pode e deve ser
desa-propriada, quando necessario. A
propriedade produtiva 6 intocavel. La-
tifiindios por exploragao, corn areas in-
feriores ao limited de 600 vezes o m6-
dulo rural, mas com utilizagio de par-
cela insignificant de sua extensAo, tam-
bem devem ser desapropriados.


Deles sairao terras para serem esto-
cadas e usadas para o assentamento,
fundo que tamb6m pode ser enriqueci-
do por terras ainda devolutas, geral-
mente mais distantes, desde que dota-
das de infraestrutura para favorecer a
sobrevivencia dos assentados.
O Incra 6 lerdo e viciado, mas nao
existe maquina azeitada sem dinhei-
ro. O governor esti convencido de que
o pais nao pode viver sem sua estru-
tura financeira, mas nao tem a mesma
convic9So em relagao a sua estrutura
agriria. A advertEncia manchada de
sangue dos sem-terra serviu para tirar
os escaninhos oficiais da modorra,
mas ainda nao 6 suficiente para colo-
car o pais na trilha da reform. Mais
sangue seri necessario? *


Problem a vista
Problema "a vista


OIterpa (Instituto de Ter-
ras do Para) devera pe-
dir A justiga o cancelamento
dos registros imobiliarios fei-
tos no cart6rio Moreira, em
Altamira, em favor da Indus-
tria, Com6rcio, Exportaq~o e
Navegagao do Xingu (Incen-
xil). Os registros se referem a
10 glebas, formando a Fazen-
da Rio Curui, entire os rios
Curua e Iriri, cor 4,7 milhies
de hectares. A Area correspon-
de a 4% de todo o territ6rio
paraense e 6 do tamanho de
um pais como a Holanda. Cor-
responde a tres vezes a Area
reivindicada pela Jari, de 1,6
milhAo de hectares, a maior
propriedade rural do Estado.
Essas terras foram ofereci-
das em dezembro de 1994,
atraves de anuncio publicado
nojornal "O Estado de S. Pau-
lo", por 40 milh6es de reais.
O suposto procurador de um
grupo de 70 empresas, Jolo
Batista, dizia tratar-se da mai-
or fazenda do mundo, contan-
do com 60 milh6es de metros
cubicos de 37 diferentes espe-
cies florestais, ja inventaria-
das, e cor 28 rios, alguns de-
les navegiveis.
Em junho do ano passado
os tres donos da Incenxil
(Umbelino Jos6 de Oliveira
Filho, Carlos Alberto Melo de
Oliveira e Humberto Esteves


Melo de Oliveira) se compro-
meteram a vender a area a
Rondon AgropecuAria, do
empresArio Cecilio do Rego
Almeida, da C. R. Almeida
Engenharia e Constru9Ses. A
Rondon pagou no ato apenas
100 mil reais, outros 500 mil
reais seriam quitados em par-
celas sucessivas e os restan-
tes 5,4 milhSes, de um total de
R$ 6 milhoes, atrav6s da ces-
sdo de creditos que a empresa
compradora dizia possuir,
"contra a regularizagAo da
gleba de terras compromissa-
da junto ao-Iterpa".
Cecilio Almeida, paraense
de Obidos hA muito tempo es-
tabelecido no Parana corn sua
pol6mica empreiteira, consti-
tuiu com as terras uma Reser-
va Particular de Patrim6nio
Natural, registrada no Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Na-
turais Renovaveis), em Brasi-
lia, e tratou de fazer a divul-
agao de um projeto de ma-
nejo racional dos recursos na-
turais. Fez a apresentaqlo, em
Bel6m, para o goverador Al-
mir Gabriel e Nilson Pinto de
Oliveira, secretArio de Cien-
cia, Tecnologia e Meio Ambi-
ente.
A confirmagAo da reserve
garantiria para o empresArio o
dominio perp6tuo das terras.


O problema 6 que, apesar de
todos os registros efetuados no
cart6rio de Altamira, nao esti
demonstrado o dominio priva-
do das glebas. Provavelmente
trata-se de uma "grilagem" de
terras devolutas, feita grossei-
ramente. Todos os registros re-
montam a 1923, quando a Di-
retoria de Obras, Terras e Via-
9do do Estado teria titulado as
10 glebas em favor de explo-
radores de seringais no vale
dos rios Iriri e Curud, em Al-
tamira. Mas os registros se re-
ferem apenas a "titulo hibil"
como a documentagio origi-
nAria, sem especificar qual o
tipo de titulaqIo ou a data cer-
ta da sua expedi~io. Na ver-
dade, ningu6m apresentou ate
agora esses "titulos hdbeis",
que, provavelmente, nao exis-
tem.
Em certiddo fornecida ao
Iterpa no dia 12, a official de
registro do cart6rio Moreira,
Eugenia Silva de Freitas, diz
que nAo hi, nos seus assentos,
o registro das 10 posses. No
entanto, ela mesma forneceu
certiddes sobre os registros
iniciados em 1923, cor cadeia
sucess6ria estabelecida a par-
tir dos vagos "titulos hibeis".
Apesar de alertados para a
fragilidade da documentaqAo,
os compradores hipotecaram a
Area, em outubro do ano pas-


sado, A firma Grand Pacific
Financial Corporation, estabe-
lecida no Colorado, nos Esta-
dos Unidos, pela quantia de
6,6 milh6es de d6lares, cor
o compromisso de quiti-la em
61 meses, at6 o ano 2000.
Os registros cartoriais de-
feituosos, assim, estAo pro-
porcionando a realizaq~o de
transac6es que poderAo vir a
representar um edificio cons-
truido sem alicerces. Embo-
ra a Area tenha sido ofereci-
da por R$ 40 milh6es, o Iter-
pa acha que ela vale em tor-
no de R$ 180 milh6es, po-
dendo permitir um retorno
rapido e multiplicado. Nao
s6 pela madeira de lei exis-
tente nesses 4,7 milh6es de
hectares, situados entire o rio
Iriri e a BR-163 (rodovia
Santarem-Cuiabi), como
porque ali ja existem garim-
pos de ouro em atividade.
O empresArio Cecilio Al-
meida, alias, anunciou que
contratara jagungos para re-
tirar todos os ocupantes das
terras, que consider suas,
parcialmente superpostas a
uma reserve indigena (Bau/
Mekranotire) e a um campo
military (do Cachimbo). Res-
ta saber se o governor, mais
uma vez, chegara atrasado a
esse novo problema fundiA,
rio em formalao. 0






JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA/ABRIL/1996 5


TESTEMUNHO


Guilhon: doce e breve


E ra um fim de tarde na redaAlo de
"A Provincia do Para", em 1972.
Do outro lado da ligagio telef6ni-
ca estava Joaquim Antunes, assessor de
imprensa do governor, autor dos mais an-
tol6gicos trocadilhos da praga. O gover-
nador Fernando Guilhon perguntava se eu
podia dar um pulo ao palacio Lauro So-
dr6 para conversarmos.
Quando cheguei no antigo gabinete,
que dava de funds para outro palicio, o
Antonio Lemos, estavam o governador
Fernando Guilhon, o vice, Newton Bar-
reira, e Joaquim Antunes. O clima era ten-
so. A revista "Veja", da qual era corres-
pondente em BelIm, dera destaque A ma-
t6ria sobre a crise no governor. Auxiliares
do primeiro escalAo entregavam seus car-
gos. O secretario de Seguranga P6blica
saira atirando. A situagao sugeria falta de
comando.
Guilhon achava que meu noticiario es-
tava prejudicando nao apenas o governor,
mas o pr6prio Para. Como, sendo eu pa-
raense, poderia fazer isso contra o meu
Estado? Nao estava desservindo-o?, argu-
mentava o governador. Retruquei que era
pago pela revista para escrever sobre fa-
tos. A crise no secretariado era fato e
tinha relevancia. Se servia ou nao a inte-
resses do Estado ou do governor no caso
- era irrelevant. Eu tinha que fazer jor-
nalismo e nao patriotada.
O vice, coronel (da reserve da Aero-
nautica) Newton Barreira era hostile. Acha-
va que eu escrevia aquilo porque meu pai
havia sido cassado. Deveria ser a forra.
De costas, eu ouvia essas observag6es e,
depois, continuava a conversa cor o go-
vernador. Guilhon deve ter percebido que
nao iria adiantar nada insistir naquela la-
dainha. Pegou-me pelo brago e levou-me
para ver as obras de restauraqao do Pali-
cio Lauro Sodre que estava conduzindo
pessoalmente, cor todo o zelo.
Ai mudou o home. Aquela roupagem
de desagrado e autoritarismo, pr6pria para
o figuring da 6poca, desvaneceu-se. Per-
corri o palacio ao lado de um fino cava-
Iheiro, um home entusiasmado com o
que estava fazendo, de fina sensibilidade.
Esse era o verdadeiro Guilhon, que a car-
ranca do cargo As vezes escondia, o mais
encantador dos governadores que jA pas-
sou pela Republica paraense.
Fernando Jos6 de Leao Guilhon foi
pouco lembrado neste mes em que com-


pletou 20 anos de morto. A melhor das
homenagens que se prestou A sua mem6-
ria nIo foi dar seu nome a um trecho de
uma rodovia estadual, mas tirar o nome
dele da penitenciaria de Americano. Li-
gar o nome de Guilhon a uma casa de re-
clusio de press foi, mais do que prova
de humor negro, injustiga, uma dentre
virias cometidas contra ele.
At6 hoje me pergunto se Fernando Gui-
lhon nao duraria muito mais tempo caso
nao tivesse sido indicado para governa-
dor do Estado. Dizem alguns que o can-
cer se instalara nele 10 anos antes da morte
e que, por isso, o exercicio do governor
apenas encurtara o tempo, abreviando o
destiny fatal. Nao tenho melhores infor-
macqes a respeito, mas tenho duvida. O
encargo a que Guilhon foi submetido nos
quatro anos, entire 1971 e 1975, foi tao
pesado que sua sobrevida depois da trans-
missio foi curta, malignamente curta para
os tantos amigos que ainda esperavam
usufruir de sua encantadora companhia.
Nas minhas pesquisas sobre o Jari de
Daniel Ludwig encontrei um document
confidencial que me causou impact. Era
um pedido feito ao milionArio americano
para que o ji entao ex-governador pudes-
se ser favorecido pela FundagAo Ludwig
de Combate ao Cancer, indo receber tra-
tamento especializado nos Estados Uni-
dos. Secamente, Daniel Ludwig vetou a
ajuda. Uma fonte da Jari explicou o gesto
de, no minimo, descortesia de Ludwig:
Guilhon ja estaria condenado, send inui-
til qualquer coisa que se fizesse em favor
dele. Antes de poupar desperdicio, por6m,
a attitude de Daniel Ludwig foi descortes
e desumana.
Fernando Guilhon nio fez um bom go-
verno, mas tentou, ate o derradeiro mo-
mento, nao ser governador. Na v6spera da
sacramentacAo de seu nome, no Rio de Ja-
neiro, ainda procurou desviar o alvo para
Stelio Maroja, ex-deputado federal e ex-
prefeito de Belem. Stelio chegara mesmo
a ser cogitado inicialmente, mas seu nome
foi afastado porque ja apresentava serious
problems mentais. Guilhon teria que
aceitar.
No esquema do entao ministry Jarbas
Passarinho, nao havia opcio melhor. Gui-
lhon criara image de bom administrator
na sua passage pela CDP (Companhia de
Docas do ParA) e DER (Departamento de
Estradas de Rodagem). Era honest, leal e


trabalhador. Como administrator dos dois
6rgaos, Guilhon nAo precisava se respon-
sabilizar por nenhum arranjo politico, nem
arbitrar interesses conflitantes. Podia per-
mitir-se o prazer de constantes viagens pelo
interior e adotar um padrao absolutamente
informal de gestio. O governor tinha segre-
dos e mistdrios que escapavam i compre-
ensao cartesiana de Guilhon, cor suas ori-
gens familiares tragadas entire a Franga e a
mestigagem indigena, e ao molde do seu
carter.
Durante os quatro anos como governa-
dor s6 se sentia realmente feliz quando li-
dava cor assuntos culturais ou quando, no
interior, podia ser simples, espontineo, na-
tural. Dai as constantes fugas para Santa-
rem, onde deliciava os companheiros de se-
resta, especialmente em Alter-do-Chao, por
ele adotada. As vezes a capital estava em
efervescdncia political e o governador ron-
dava pelo interior A procura de um ambi-
ente mais de acordo cor a sua personali-
dade.
Numa das vezes, por pressao da familiar
Mutran, Guilhon viu-se obrigado a demitir
o interventor de Maraba, Elmano Melo. Fez
a comunicagao por telefone. Irado, o coro-
nel Elmano pulou num carro e veio o mais
ripido que p6de para Bel6m cobrar expli-
caces. Nao foi recebido. Pude testemunhar
o profundo sentiment do governador dian-
te da situacAo, normal para um politico pro-
fissional, mas nAo para ele. Contrariedades
como essa devem ter influido sobre a doen-
9a que o atingiria de forma tAo fulminante.
No governor, Guilhon era o home erra-
do para a hora errada. Nao percebeu, por
exemplo, que estava entregando de bandeja
ao governor federal as terras devolutas do
Park, sacramentando o famigerado decreto-
lei 1.164, que transferiu para o dominion da
UniAo 100 quil6metros de cada lado das
grandes estradas de penetragao na Amaz6-
nia. Foi um dos mais terriveis golpes dados
a federagAo brasileira desde a Proclamacao
da Repfiblica. O govemador, gentil, brindou
os algozes. Incapaz de malicia ou ate mes-
mo de maldade, Guilhon estava indefeso no
novo jogo que Ihe entregaram, acabando es-
magado pelo exercicio de regras que nao ti-
nha condic6es de entender. Foi-se rapida-
mente, mas para os que tiveram o privil6gio
de conviver com ele fora da camisa-de-for-
Ca que Ihe impuseram entire 1971-75, dei-
xou lembrangas definitivas, todas boas. E,
por elas, sera sempre lembrado. *





6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA/ABRIL/1996


A confusao

no "campus"
O s juristas e politicos adoram fa-
zer a distinglo entire o legal o
legitimo. 0 legal estA na lei, en-
quanto o legitimo depend do endosso
da sociedade, cujas transformag6es re-
querem a mudanga nas leis. O governa-
dor Almir Gabriel escolheu para dirigir
a Universidade Estadual do ParA nao a
pessoa mais votada, mas o segundo nome
da list triplice que Ihe foi submetida, 6
um ato perfeitamente legal. Mas sera le-
gitimo?
Nas ondas de irracionalidade que se
seguiram ao anincio de que a professo-
ra Maria Izabel Castro Amazonas e nio
o professor Mario Cardoso era a nova
reitora da UEPa, a discussao sobre a le-
gitimidade nao chegou a haver. A enfu-
recida reagdo questionou o que deveria
estar fora de qualquer duvida: a legali-
dade do ato. O debate passou a ser tra-
vado como se a causa estivesse num cam-
po de futebo, entire torcidas organizadas.
A confusao cortamente serviu ao jogo de
poder, mas nao deve ter favorecia a Uni-
versidade.
Em mat6ria de autonomia, a UEPa foi
concebida alguns passes adiante da Uni-
versidade Federal do Para. O process
de fornnago da lista triplice 6 mais s6li-
do, inclusive por despir-se do falso igua-
litarismo iluminista que abstrai as desi-
gualdades na composicgo de uma Uni-
versidade entire docentes, discentes e ser-
vidores. O voto, na UEPa, 6 proporcio-
nal, tratando desigualmente os desiguais,
como tem que ser. Isso 6 positive.
Mas o nome do reitor continue nao sa-
indo diretamente da pr6pria eleigco. Ela


serve para submeter ao governador os no-
mes dos tres candidates mais votados,
evitando o livre arbitrio.do chefe do Exe-
cutivo e nao chegando ao leque mais am-
plo das listas s6xtuplas antes predomi-
nantes. Em metade das iltimas quatro es-
colhas de reitor na UFPa o escolhido nio
foi o mais votado e, num caso, foi mes-
mo o menos votado. Ha espago para os
protests e as insatisfaqes, mas as re-
gras existiam antes do jogo comecar.
No caso da UEPa os Animos ficaram
mais inflamados em virtude de uma cir-
cunstfncia particular: a nova reitora ha-
via assinado um document se compro-
metendo a renunciar caso o mais votado
nio fosse escolhido pelo governador.
Izabel Amazonas defende-se alegando ter
desistido desse acordo ainda na campa-
nha, quando sua candidatura foi impug-
nada por concorrentes.
Ha n6doa visivel nessa hist6ria, que
a explicaao n~o consegue apagar. Mas
uma incoer&ncia pessoal nWo 6 motivo
suficiente para as cenas de deselegincia
e selvageria registradas para a opinion
public pela imprensa na cobertura dos
protests contra a nova reitora. Princi-
palmente num campus universitario, es-
pera-se que seus frequentadores guiem-
se mais pela razdo do que pelo irracio-
nalismo.
Se a falta de palavra da nova reitora
pode ter contribuido para tensionar o cli-
ma p6s-escolha, a falta de tato da chapa
adversaria tamb6m deu sua contribuicqo
para esse ambiente de paix6es incontro-
ladas. O professor Mirio Cardoso noo 6
apenas um militant do PT. Nilson Pinto
era militant do PT ao ser escolhido rei-
tor da UFPa e o PT nao estava no po-
der. A diferenga 6 que, o professor Car-
doso e vereador do PT. Nessa condicgo,
6 obrigado a seguira linha programitica


do seu partido, que 6 adversario da ad-
ministra;ao estadual. N&o 6 coerente.
O vereador poderia renunciar antes de
assumir a reitoria, mas das duas, uma: ou
deixaria de ser fiel ao que vinha fazendo
ate entVo, ou a renincia seria apenas para
ingles ver. O grupo do professor Mario
Cardoso errou ao escolhe-lo como candi-
dato a reitor da UEPa, tendo ele mandate
eletivo e sujeiao a diretriz political do seu
partido. Qual o governador que escolhe-
ria um adversario para ocupar cargo de
relevincia na administraqAo estadual se a
lei Ihe da outra alternative? Estando no
poder, o PT agiria de outra forma?
O imbr6glio foi, entIo, o produto de
uma sucessko de erros, mas a guerra pro-
priamente eleitoral sufocou a necessaria
discussio sobre o alcance da autonomia
universitaria. Antes da atual crise, outra
marcou no ano passado a vida da UEPa
porque o entao reitor nao tinha a confian-
ca do governador, embora dispusesse de
mandate. Vitor Moutinho ficou no cargo,
mas foi fritado e sabotado. Acabou pe-
dindo para ir embora. Se resistisse mais
tempo, sacrificaria ainda mais a Univer-
sidade, sem compensi-la com a forga de
sua lideranga, jd contestada intemamen-
te. O mesmo caminho aguardava o pro-
fessor Mario Cardoso se ele conseguisse
ser o reitor.
A autonomia s6 pode comegar a afir-
mar-se para valer a partir da base finan-
ceira. A Universidade de SAo Paulo vive
autonomamente gracas a sua aliquota do
ICMS paulista. O reitor pode sair de uma
sele~lo feita pelo governador, a partir de
uma list triplice mas, em seguida, pode
dar-lhe uma magnifica banana. Por aqui,
o jogo ainda 6 na base do rabo de arraia,
que pode derrubar o contender, mas der-
ruba, antes de mais nada, a Universidade
a qual deveriam servir. *


---------------------------------------------


Por tris

da emenda
Odedutado federal Morei-
ra Franco, ex-govemador
do Rio de Janeiro, apresentou
uma emenda no projeto de re-
forma administrative em tra-
mita~io no parlamento extre-
mamente perigosa. Ele quer
suprimir a Policia Federal da
citayAo feita no artigo 144 da
Constituicoo, que trata da se-
guranga public. As atribui-


96es da PF seriam definidas
em legislaio ordinaria.
Aparentemente, a Policia
Federal continuaria a existir,
mas, desconstitucionalizada,
perderia forga e status. Seria
o primeiro pass para des-
mantela-la e, no future, extin-
gui-la, transferindo suas atri-
bui96es para Estados e muni-
cipios. O sindicato de polici-
ais de alguns Estados do Nor-
deste garante que a estrategia
dos inimigos da PF seria a de
retirar a corporagco do texto
constitutional. depois des-


membrarem-na e, por fim,
"simplesmente a extinguem,
da forma menos perceptivel",
diz uma nota official, assina-
da pelos delegados Antonio
Gois e Antonio Albuquerque
Filho.
A justificativa de Moreira
Franco para a emenda que ex-
clui a PF da Constituiqao tem
o pe quebrado, ou como su-
gerem alguns policiais pode
esconder o dedo do gigante. A
PF, criada pelos militares em
1964, foi um dos bracos, mais
atuantes da repressed political


na 6poca em, que o govemo
era o Estado e a sociedade ha-
via sido imobilizada. Com a
abertura political e a redemo-
cratizaAo, a Policia Federal
foi se profissionalizando e a
absorvendo novas func6es.
Nos iltimos tempos, foi deci-
siva no combat ao narcotra-
fico e na elucidacao de crimes
do colarinho branco. Mostra
resultados, apesar da precaria
estrutura de que dispbe. Criou
muitos inimigos, portanto. A
julgar pela emenda Moreira
Franco, poderosos. *






JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA/ABRIL/1996 7


Das suspeitas aos fatos


E m abril de 1990 Abrahao Patruni
Junior, inspector do Banco Central,
encaminhou ao Departamento de
Fiscalizaaio (Defis) da institugiio um re-
lat6rio sob o titulo "Banco do Estado do
Para S/A x Jader Barbalho Utilizacio
indevida de recursos e manipulacao de
procedimentos operacionais e contabeis,
caracterizando fraude contabil".
O relatorio se referia a fatos ocorridos
seis anos antes, em 1984, quando Jader
era governador do Estado. Cheques ad-
ministrativos do Banco do Estado do Para,
supostamente para reforco de caixa e pa-
gamento de despesas eventuais, foram
emitidos ao portador e aplicados em titu-
los de renda fixa em beneficio do corren-
tista n 96.650-4 da agencia 0532 do Ban-
co Itau, no Jardim Botanico, Rio de Ja-
neiro. O dono da conta seria o pr6prio
govemador Jader Barbalho.
No trecho mais explosive do seu rela-
torio, diz o inspector do BC: "No decorrer
das pesquisas, baseado em tecnica de au-
ditoria, tendo em vista que as sucessivas
aplicar6es em Titulos de Renda Fixa fo-
ram realizados sistematicamente na for-
ma 'ao portador' junto as agincias Jar-
dim Botanico do Banco Itau S.A. e As-
sembleia do Citibank, N. A., na praca do


RJ". O desvio teria dado ao Banpara pre-
juizo de um milhAo de reais, em valores
de hoje, porque as aplicag6es do dinhei-
ro do banco nio retomaram.
So em outubro de 1992 o Banco Cen-
tral encaminhou o process ao Ministe-
rio Publico para apuraaio, contend 400
folhas de documents. Mas no dossi jii
nao constava o nome do ex-governador.
Segundo fonte do Banco Central ouvida
pelo journal "0 Estado de S. Paulo", que
reabriu o caso cor material de primeira
pagina no dia 14, a exclusio do senador
foi por causa o sigilo bancario. O BC s6
revelaria essas informac6es a pedido do
Ministerio Publico. O problema e que o
Ministerio Puiblico nio poderia acionar o
ex-governador porque seu nome nio
constava do document enviado para a
formulaqio da denuncia.
O senador Jader Barbalho reagiu indig-
nado. Para ele, o influence jomal paulis-
ta agiu de encomenda, para servir aos seus
adversarios material para ser usado na
proxima campanha electoral. Mas tambem
teria sido usado por banqueiros e dirigen-
tes do Banco Central, contra os quais o
lider do PMDB no senado diz haver in-
vestido. Jader assegura que a hist6ria,
desde o inicio, nio passa de uma arma-


g o para coloca-lo em situagio dificil.
Quando os cheques foram descobertos,
migrando do Banpard para a ag6ncia do
Itau no Rio de Janeiro, sabia-se apenas
que a explicacio dada pela diregco do
banco nio era convincente. A revelagio
feita no relatorio divulgado pelo "Esta-
dao", requentando uma hist6ria parcial-
mente conhecida ha mais de 10 anos, e
que a conta para a qual fluiram as aplica-
96es fraudulentas seria do senador Jader
Barbalho.
Para encerrar de vez essa poldmica,
esclarecendo a verdade e sepultando a tra-
ma na qual o senador sejulga vitima, bas-
taria fazer duas perguntas ao Banco Cen-
tral. A primeira: por que as infornac6es
apuradas pelo fiscal nAo foram incorpo-
radas ao dossier enviado ao Ministerio
Publico. A segunda: quem era mesmo o
dono da conta 96.650-4 da ag6ncia 0532
do Banco Itau? Se o MP nao tomar essa
iniciativa, e o caso de o proprio senador
requer&-la. Seria mais produtivo para ele
e esclarecedor para a opiniao p6blica do
que todas as comoventes solidariedades
que obteve de seus pares ao fazer um lon-
go discurso na tribune, onde defendeu-se
dos presumiveis inimigos e tangenciou os
fatos em si. 0


Fora do tom

SUniao, os Estados e os
municipios nao podem
continuar a ter deficits e a se
endividar indefinidamente.
Nenhum piano de estabiliza-
cio econ6mica dara certo sem
tender a esse pressuposto.
Mas qual a maneira de impor
contengAo e equilibrio ao po-
der pfblico no Brasil?
Os militares responderam
ao desafio centralizando o
poder em Brasilia. O Brasil
viveu sob um Estado unitario
durante 20 anos. O control
central nAo impediu, entretan-
to, o salto da divida exterma
e, depois, do endividamento
intemo. A Uniao controlava
os Estados, mas ningu6m con-
trolava a Uniaio.
A Constituicgo de 1988
procurou restabelecer o fede-
ralismo e fortalecer a base
municipal, mas como a soci-
edade permanece enfraqueci-
da em todos os niveis de re-


presentacio, o resultado tern
sido a faldncia quase genera-
lizada do poder pfblico. No-
vamente volta-se ao control
centralizado, mas, em 6poca
de democracia, ele nao pode
seguir o modelo autoritario
dos militares. A said 6 usar
o poder do dinheiro, vinculan-
do a liberag~o de recursos do
tesouro A contrapartida de re-
sultados de acordo com as
metas estabelecidas.
Por outro caminho, portan-
to, estA havendo a quebra do
principio federativo cada vez
que um Estado-membro, para
receber verba federal, tem que
se comprometer a colocar as
despesas com pessoal abaixo
do limited alias, constitucio-
nal de 60% das receitas li-
quidas correntes, a enxugar
o funcionalismo, a nao con-
ceder reajustes salariais aci-
ma da inflacio e varias ou-
tras medidas (num total de
32, conforme o receituario
international de emagreci-


mento da maquina piblica).
A necessidade de alcan9ar
essas metas 6 imperiosa, mas,
se a democracia esta azeitada,
6 possivel chegar a elas sem
sacrificar a clareza median
dos atos oficiais. E exagera-
da a afirmativa de deputados
estaduais do PT de que o go-
vernador Almir Gabriel ven-
deu o Estado pelos 53 mi-
lh6es de reais que, neste m&s,
a Caixa Econ6mica Federal
aceitou liberar para o Pard em
troca da adesao ao Programa
de Apoio A Restauragdo e aO
Ajuste Fiscal de Estados.
Chega a ser, de fato, uma
intervengio branca da Uniao
no Para, mas ela seria perfei-
tamente dispensavel se o pr6-
prio governor estadualja tives-
se conseguido sair das pran-
chetas da tal reform adminis-
trativa, concebida a quatro
maos com o Banco Mundial
e encaminhada num ritmo in-
teiramente dissociado de sua
necessidade. O governor nao


6 apenas lento: ele nAo sabe
dialogar. Se reformar (revolu-
cionar seria ainda melhor) o
Estado 6 condicao indispen-
savel para investor em favor
de toda a populag o, entao
nAo faltario arguments ao
govemo para enfrentar os ad-
versarios politicos e a frente
corporativa do funcionalismo.
Quem nao tem (ou nao quer
ter) forca para impor seu pro-
grama, deve discuti-lo com as
representaQoes da sociedade
para convenc6-las e, se possi-
vel, faze-las aderir a iniciati-
va. Esse 6 o fnico tipo de he-
gemonia que faz bem A demo-
cracia.
A administration Almir Ga-
briel continue a ser uma tec-
nocracia mambembe de gabi-
nete, obrigada a ir ao salao e
dangar com pares que nao Ihe
agradam e, por isso, dangan-
do muito mal a valsa da poli-
tica. Quando nao fica a noite
inteira sentada, a fazer tric6,
como se diz nas festas. 0






Palavras
"Nas condigoes pioneiras da Ama-
z6nia, o Estado torna-se raquitico
para a defesa do cidadlo e delega A
violencia privada, embora nao ex-
pressamente, o arbitrio nas relacoes
entire os homes. Capitalismo selva-
gem, dir-se-A, que combine em sua
estrutura formas de exploranao e de
imposigao que simultaneamente su-
poem o Estado leviata (protetor, para
os ricos) e a coergao privada para
center a emergdncia de eventuais (e
improvAveis) primitivos rebeldes e
para center reagoes mais ou menos
organizadas que evidenciam aqui e ali
o potential da aqAo da massa dos ex-
plorados" (Fernando Henrique Car-
doso, em livro escrito em 1977 sobre
a Amaz6nia, quando era baladeira -
ou estilingue e nao vidraQa; e quan-
do era soci61ogo).


O "xis" da

palavra
Por um desses milagres inver-
tidos da tecnologia, a "Estra-
nha Xicara" de Haroldo
Maranhao foi metamorfosea-
da, na iMltima edigao do Jor-
nal Pessoal, para "Estranha
Chicara". Faz-se a correClo
para que a xicara referida
tenha sua serventia.


r ------------ -- ---- ---m- --.
I I
S Mao cheia
A vida deu a Paulo Martins o
privildgio de escolher titulos e
caminhos. E um arquiteto criativo.
Quando pedem sua opiniao, e um secretd-
Srio da Fazenda imaginoso. Dc assessoria I
aos que vao abrir restaurants, bares e
Sbotequins. E, sem contestaqdo, um res-
tauranter. Mas agora ele ganhou o
titulo que melhor Ihe cabe: o de chef
de cuisine, o minico do Norte do pais I
com reconhecimento internacio-
Snal. N6s, seus amigos, sabemos
Sdo que o Paulo d capaz numa
Icozinha e sempre respeitamos
Sessa invejdvel capacidade de misturar tempers e criar pratos.
Vamos continuar respeitando, agora cor obrigaFdo de respeitar
cor acento em francOs. Osfrequentadores do Ld em Casa/
Outro j que saem ganhando. N6s, junto.
aL.- I----. --mmm-m-----I. Bt...


Imagem
O massacre de Eldorado p6s a per-
der a campanha publicitaria que o go-
verno havia desencadeado na midia
para mudar, uma imagem negative, que
comecava a ser criada na opiniao pfi-
blica. Muito dinheiro escasso foi pra-
ticamentejogado fora pelo impact das
mortes de sem-terra. E o governor ain-
da teve que gastar quase meio milhao
de reais publicando nota de esclareci-
mento na imprensa. Para quem havia
economizado (erradamente, alias) di-
nheiro com o deslocamento de tropa
de Beldm, um desastre.


Atitude
Apesar do discurso de critics que
fez ao governador Almir Gabriel, o
senador Ademir Andrade, presiden-
te regional do PSB, preferiu nao
romper cor o governor. O Ipasep,
presidido por Antonio Fonteles, a
principal base de apoio para as in-
cursoes de Ademir ao interior do Es-
tado, na intense campanha que ele
jA esta fazendo para ser candidate em
1998 ao governor. Ademir havia rom-
pido com Jader Barbalho e H6lio
Gueiros em circunstancias seme-
lhantes no passado.


- -- -- --------- --- ----- -- --- -- -- -- -----


0 "nao veio"
Um pouco antes da meia-noite do
dia 11 o president do Incra mandou
avisar o governador Almir Gabriel, que
estava em Brasilia: nao iria mais a Tu-
cumA e Sio Felix do Xingu para entre-
gar titulos de terra e inaugural uma
unidade avangada do institute. Antes,
o pr6prio ministro da Agricultura,
Eduardo Andrade Vieira, havia cance-
lado sua participaoio nas solenidades.
Seus promotores s6 ficaram sabendo
que nenhuma das autoridades estaria
present horas antes
dos events que foram Torm'
realizados assim mes- Rd
Redacg
mo porque era impos-
sivel cancela-los.


O governador Almir Gabriel, que
sairia de Brasilia diretamente para
Maraba, tambrn deixou de ir alegan-
do que o anfitriio era o Incra. No en-
tanto, al6m dos 1.300 titulos definiti-
vos obtidos atrav6s do Proterra e da
unidade do Incra, estava incluida a
inauguraglo de um escrit6rio da Ema-
ter, que 6 estadual.
Duas li96es do epis6dio. O gover-
nador, quando pegar carona em festa
federal, deve se assegurar de poder
pressionar os anfitri6es para nao de-
serdarem pelo caminho. Ou seja: pre-

l PeSSOal Editor Responsvel: Ltcih
Lo: Pass. Bolonha, 60-B *Fones: 223-76qate
llustragao e editora"go eletr6nica: Lui-Pin


cisa ter forga em Brasilia finala, do
mesmo partido do president da Re-
publica). Segunda ligio: se quiser go-
vernar para valer um Estado das dimen-
sOes do Para, Almir Gabriel nio pode
continuar a ser um ausente do interior.
Desgasta esse hibito sedentirio do
governador, cada vez mais fechado no
assim chamado palacio de despachos
da Augusto Montenegro. No Para ji
houve um governador que de tanto vi-
ajar (para fora do Estado) quando cir-
culava pela cidade era recebido por
estudantes com um c6ro de "li vai ele".
Almir Gabriel pode
ficar sendo conhe-
SFlvio Pinto cido no interior


2-a 23-^.
(n2:9


como aquele que