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Journal Pessoal E D I TOR R E S PO NSAVE L: L U C I F LAVIO PI NTO ANO IX Na 137 1 G QUINZENA DE ABRIL DE 1996 R$ 2,00 COBRE Quase o Para perde A Anglo American, uma das donas da Salobro Metais, tentou ate o final do mes passado mudar a metalurgia para Sdo Luis. A CVRD ndo deixou. Estaro assegurado para o Paro seu maior projeto? Para esteve bem pr6ximo de perder o maior dos seus inves- timentos, a metalurgica de cobre da Salobo Metais no va- lor de 1,5 bilhio de d6lares. Ate o final do mis passado a Anglo Ame- rican, socia da Companhia Vale do Rio Doce no empreendimento, tentou trans- ferir a usina para Sao Luis, deixando no Para apenas a concentracAo do min-rio, a parte menor do investimento. Al6m dis- so, a transferencia da plant industrial pri- varia o Para da produgco de ouro e prata, so recuperaveis na metalurgia. O director de desenvolvimento da CVRD, Ulysses de Freitas, disse ao go- verador Almir Gabriel, com quem con- versou reservadamente no final do m6s, que a Vale considerou clausula inegoci- avel de sua associacao cor o grupo sul- africano, o maior produtor de ouro do mundo, que a metalurgia fosse realizada no Pard mesmo, em Parauapebas ou em Maraba (o ponto que ainda vai ser acer- tado). Ap6s alguma resistencia, a Anglo American concordou com a posico da Vale. O assunto ainda vem sendo mantido sob reserve. Parece ser intengco da Sa- lobo Metals nao fazer qualquer anuncio ate a definitive constituigao da socieda- de, que, alCm da CVRD e da Anglo, vai envolver em parte igual, de 33% o BNDES, que financiou a fase de pesqui- sa do cobre. S6 depois de resolvida a questAo da composigio societaria e que sera tratada a localizagio da fabrica, dis- putada pelos dois municipios. No entanto, a sorte do projeto Salobo vem sendo discutida desde o surgimen- to da Companhia Brasileira de Metais NAo-Ferrosos, uma super-empresa a se- gunda maior companhia de mineragAo e metalurgia do Brasil que surgiu da aqui- sicio da Caraib:, Metais, Paranapanema, Paraibuna Metais e Eluma por um "pool" de funds de pensdo liderado pelo Pre- vi. Ao cons6rcio estao se juntando a CVRD e a Anglo American. Com essa mega-fusao, o setor de co- bre passou a ser de um unico dono, a CMBNF, conforme a desajeitada sigla da nova empresa. A Vale, entrando na cor- poraqCo atravCs da coinpra de 10% das ag6es da Paranapanem possibility a cri- agao da "holding" Pa anapanema-CB- MNF, que passa a conirolar 40 empre- sas, corn seis mil emprega- dos e fatu- ramento annual de 1,1 bilhl o de d6lares. O principal item do neg6cio 6 o da Ca- raiba Metais, a unica metalur- gia de cobre em atividade no pais, que produz 170 mil toneladas de metal, pre- vendo a expan- sao para 200 mil toneladas. Esse e justamente o tamanho da fd- brica que a Salobo Metais vai construir, aproveitando a jazida de 1,4 bilhao de toneladas de cobre de Carajas. Por ser tambem esse o tamanho do mercado na- cional de cobre, significa que o caminho reservado a Salobo seria o de disputar o mercado extemo ou servir de ponte para a expansao da Caraiba, localizada na Bahia. Alias, quando o BNDES entrou no projeto do cobre do Salobo, em 1985, ficando cor um tergo dos direitos mi- neririos, sua intengio era a de suprir a Caraiba, que importa concentrado do Chile e da Bolivia, com o minerio de Ca- rajas. A question 6 que o tratamento meta- lirgico desse minCrio 6 extremamente di- ficil e complex. O teor de fluor no con- centrado produzido a partir do minerio de Carajas 6 muito elevado, causando problems principalmente na limpeza dos gases na metalurgia. Na obtenqgo do metal seria necessario usar mais energia e consumer uma quantidade de reagen- tes acima da mCdia. Por isso, uma meta- lirgica que fosse usar o concentrado de C araj As precisaria dispor de uma torre de limpe- za, que : .:-.. .' :. nio consta do lay-out da t.. Caraiba, mas esti prevista para afi bricadaSalobo. Por causa dessas caracteristicas fisicas do min6rio, a Vale e a Anglo American haviam acertado a verticalizagco das operaqces da Salobo no Para, mas a nova formulagAo de interes- ses fez a multinational sul-africana inte- ressar-se por transferir a metalurgia para Sio Luis. O representante da CVRD as- segurou que esse risco foi afastado e que todas as atividades serao desenvolvidas no Park, mas seria sensato que a opiniao public paraense se interessasse por es- clarecer definitivamente como ficario os pianos para o mercado de cobre depois da mega-fusio que reforqou a posigio da Caraiba Metais. 0 2 JORNAI. PESSOAL -.1' QUINZENA/ABRIL/1996 Para conhecer o escritor maior Na semana passada a Universidade Federal do Para anunciou as leitu- ras obrigat6rias para seu pr6ximo con- curso vestibular. Entre elas estd o conto "Miguel, Miguel", de Haroldo Mara- nhao. E bom saber que centenas ou mi- ihares dejovens vaio 16-lo. E uma peque- na amostra da obra de Haroldo: um tex- to curtissimo (e que, portanto, nao as- sustard marinheiros de primeira viagem), mas tAo denso quanto surpreendente. DA para l1-lo como se fosse um game inteli- gente, um exercicio de sabedoria e ima- ginaq~o o produto de uma mente alta- mente criativa. Acho que a esmagadora maioria dos vestibulandos gostara. Foi uma inspiraqAo feliz da Co- missio Permanente do Concurso Vestibular, ainda mais porque Ha- roldo tem ao lado um companhei- ro de viagem, Max Martins, dono dos versos mais epidermica- . mente er6ticos que as letras pa- raenses ji criaram, um verso que e amaz6nico por condiCdo organica e nao porque junta pa- lavras de conotacio regional. Muita gente reconhece em, d Haroldo MaranhAo o maior es- critor vivo da Amaz6nia e um escritor de duas vidas entrelagadas. Na primeira etapa, fez parte da familiar Maranhao, a que mais influiu no Estado em grande par- te da Republica. Nas cartas que escreveu para o irmao unico, Ivan, durante os dias em que ele sofreu ate agonizar e morrer, Haroldo lembra com acuidade e temura o que foi crescer dentro de umjornal, uma situagio que atW agora escapou a inventi- vidade dos ficcionistas. Espero que as car- tas venham a ser publicadas para que os paraenses tenham o mais intimo e como- vente retrato de uma 6poca, entire o final da ddcada de 20 e os anos 60. Ela 6 vista de uma perspective inteiramente nova, por uma crianga que morou corn a familiar por 13 anos nos altos da "Folha do Norte", onde o patriarca se auto-exilou para esca- par ao seu tenaz.perseguidor, o general- interventor-goverador-caudilho Maga- lhaes Barata. A outra parte da vida Harol- do viveu fora de Bel6m, por longos anos no Rio de Ja- neiro e agora, num terceiro :, exilio, em Juiz de Fora. De- Spois das quatro d6cadas como oherdeiro natural A su- cessao de Paulo Maranhao S no comando do journal S mais poderoso em tres \ fases da Republica, STI...121 _-- * Haroldo, constatan- do que esse desig- nio nao se realiza- ria, foi refletir A distfncia sobre essa fase crucial da sua vida. Comecou a publicar livos so depois dos 40 anos, mas, a principio, parecia dis- posto a romper cor o passado. Seu pri- meiro livro, A Estranha Chicara, de 1968, reuniao de contos e hist6rias cur- tas, 6 uma obra de vanguard, mas nao 6 circunstancial. A intimidade de Haroldo com a lingua 6 antiga e remonta As prefe- r8ncias do av6 por classicos portugueses. Em cr6nicas que publicava na "Folha" em tomo de 1969 eleja demonstrava um agu- qado apuro formal e uma profunda capa- cidade de inovacgo, qualidade de que dera mostras quando editou o famoso suple- mento literario do jomal, entire o final dos anos 40 e o inicio da ddcada de 50, equi- parado aos melhores da imprensa brasi- leira. Atestada sua qualidade como autor de ficqao, Haroldo direcionou sua criativi- dade para o seu proprio passado. O que Dalcidio Jurandir fez com um trecho ru- ral da Amaz6nia, no Maraj6, Haroldo re- alizou com uma paisagem urbana em "Os An6es" e "Rio de Raivas", trazendo Be- lem para a melhor literature, numa rela- c9o de amor e rancor que guard alguma semelhanga entire Dublin e James Joyce. Certamente seria uma realizacao datada e circunscrita, condenada a envelhecer ra- pidamente, nAo fora a qualidade do texto de Haroldo e sua capacidade de dar vida As recordac6es, um "conteur" somado a um homo faber literario. Por isso, a decisao da comissao do ves- tibular de incluir Haroldo Maranhao no proximo concurso permitira aosjovens pa- raenses tomar conhecimento ainda em vida - e em vida muitissimo ativa do maior escritor da terra e um dos que melhor do- minou sua arte no Brasil dos nossos dias. * Quem governa e quem manda Em setembro do ano passado, ao vol tar da Malasia, o governador Almir Gabriel anulou todos os atos (de contes- taiao) de seu vice, Helio Gueiros Jr. Em margo deste ano, ao regressar de Brasi- lia, o govemador nao revogou os mes- mos atos que o Junior voltou a cometer. O vice manteve sua intransigencia. O go- vemador e que mudou. Na mudanga, entire uma data e a outra, pesou o encon- tro de tres horas que Almir Gabriel teve com o pai do Jinior, o prefeito de Be- lem, Helio Gueiros. A audiencia entire os dois foi solicita- da pelo prefeito e realizada no assim cha- mado palacio de despachos do Governo do Estado, na antiga e desalojada sede da Emater, obra do antecessor, Jader Barbalho. A said, o inico que falou foi o alcaide da capital. Tudo o que se sabe sobre o que conversaram saiu da boca do prefeito, que, embora nos redutos do outro, assumiu a condigio de anfitriao e mandatario. Desde esse dia, em terms definitivos, o alter-ego do atual govemo passou a se chamar HWlio Mota Gueiros. Entre os dois deve ter ficado acertada uma said ja sugerida seis meses antes pelo pr6prio Gueiros: de que os atos do filho fossem respeitados. Seria uma ma- neira de se restabelecer uma relaqAo de minimo respeito entire o titular e o reser- va do maior cargo pfiblico no Estado. Confirmados os atos que praticou em se- tembro, o vice nio repetiria suas malcri- aqces e o govemador poderia viajar, tran- qiiilo, sem precisar ameaar a coligacio partidaria que o elegeu com um projeto que vetaria a sucessao nos casos de au- s6ncia do titular. Mas para ter um padrio elementarmente decent cor seu suces- sor, a partir dos desentendimentos eclo- didos com menos de nove meses da as- sungao ao cargo, o governador abriu mao da sua autoridade. Afinal, qual a razdo aceitAvel para nao repetir no mrs passa- do os atos de seis meses antes, senao os da acomodagao de interesses politicos e pessoais? * Economia O deputado Jos6 Neto props, na semana passada, que a Assembleia Legislative do Estado nao funcione sexta-feira a tarde, como media de economic. Nesse caso, talvez possa proper a suspensao do expediente na sexta-feira de manhA, na quinta-feira a tarde, na quinta-feira de manha ... i JOURNAL PESSOAL P QUINZENA/ABRII/1996 3 A desmemoria utilitaria Nunca ouvi ningu6m testemunhar haver visto o prefeito H6lio Guei ros com um livro. Jornalista atu- ante durante decadas, pessoalmente ele jamais se referiu a uma leitura que ti- vesse feito. Leu muito jornais, mas nio formou arquivo. Sua mente atilada e seu raciocinio rapido, que o tornam um bom papo, nao foram preparados para me- morizar. Diz o que Ihe vem A cabega e do passado tem registros superficiais e imprecisos. Mas a desmem6ria do povo ter sido um dos principals instrumen- tos de sua carreira political. O que po- deria ser uma falha, se a nossa socieda- de tivesse mais rigor e cuidado na apu- raaio dos fatos, acaba passando desa- percebida. E ele vai vitoriosamente em frente, deixando atras um rastro de im- propriedades e absurdos. Graqas a essa desmem6ria coletiva, o alcaide de Belem usou seu program didrio de radio (pago pelos cofres pu- blicos) para assumir uma postura supe- rior de aconselhamento ao governador Almir Gabriel. Alertou-o para o perigo de ser enganado pelo governor federal na anunciada devolucao das terras de- volutas que passaram para o dominion da Uniao a partir de 1971 (ver matiria sobre a questio no JORNAL PESSO- AL n" 136). Como se fosse capaz de lembrar exatamente do passado, Guei- ros declarou ter sido vitima de um en- godo praticado em 1987 pelo entio pre- sidente Jos6 Sarney, que veio a Bel6m fazer o mesmo que agora se repete na administradao Fernando Henrique Car- doso: "Foi so embromaaio, tapeacio, para enganar a populagAo da Amaz6- nia". "Isso foi em 87, 88", tentou recor- dar-se o alcaide. Foi em outubro de 1987. Gueiros, governador, preparou uma festa no Centur para que nela Sar- ney assinasse um novo decreto, revo- gando o anterior, o famoso 1.1 64, de 1971, que dera a Uniao o control de 100 quil6metros de cada lado das es- tradas construidas, em construgAo ou simplesmente projetadas pela adminis- tragdo federal na Amaz6nia Legal. Gueiros, recorrendo a sua usual tec- nica de manipulai;ao, aparenta ser mag- ninimo: "Quero fazer justica ao Jader Barbalho. Na hora em que o Sarney che- gou aqui, ele me chamou e disse: 'Olhe, governador, nao esta sendo feito nada do que n6s estamos pensando que iam fazer. Na realidade, eles nAo estao de- volvendo nada. Eu jA me zanguei, mas eu tambnm nao quero estragar toda essa solenidade. O meu desejo 6 ir embora e nao participar dela"'. O prefeito fez somente agora essa re- velagio. At6 entao, a opiniao public desconhecia a conversa entire ele e Ja- der. Mas dois dias antes da solenidade, marcada festivamente para o Centur, fui chamado ao palacio Lauro Sodre e, a pedido do governador, fiz-lhe um rela- to sobre o novo decreto que Sarney as- sinaria. Fiz-lhe ver que era uma matrei- rice do entao ministry da Reforma Agrd- ria e do president da Republica. Pri- meiro porque se antecipava a uma pos- sivel e perfeitamente previsivel ar- giiigao de inconstitucionalidade que o Estado poderia fazer do decreto-lei 1.164, uma excresc6ncia juridica mes- mo na Federagio unitAria dos militares. O reconhecimento da inconstituciona- lidade pelo Supremo Tribunal Federal faria o Para se tomar credor da Uniao, com direito A indenizacio. Jader e Sar- ney queriam economizar essa perda. Em segundo lugar, a devolugco iria exigir muito do Estado, nao s6 para deslindar as situag6es criadas no Am- bito da federagilo, como para dar or- dem ao patrim6nio que Ihe era devol- vido na condigio de um caos fundid- rio. O governador, que ouviu atenta- mente uma exposicao razoavelmente longa e detalhada, concordou. Deu aquele risinho caracteristico e obser- vou: "Como esse Jader 6 esperto". Mas dois dias depois ignorou o que conver- saramos em "off" e fez um discurso vibrant para atestar o valor hist6rico do ato de que participou, uma orques- tragio popular manchada pelos protes- tos do PT, reprimidos cor violdncia tanto pela policia do president, quan- to do governador. Afora esse inciden- te, foi uma cerim6nia em absolute unis- sono, nivelados Sarney, Jader e Guei- ros. Durante os tres anos e meio se- guintes Helio Gueiros nada fez para desfazer a suposta fraude e assumir as terras paraenses. Nao foi a primeira demonstragao de dupla personaliade do hoje prefeito da capital. Tres meses depois de assumir o governor, em maio de 1987, ele me chamou e me mostrou um telex em que o Banco do Brasil comunicava a reten- 9co da parte do ICMS do Estado por conta da amortizacio de um empr6sti- mo que Jader contraira tres dias antes de passar o governor ao seu successor, sem avisA-lo, porem, do aut&ntico "pa- pagaio" (sem prazo de car6ncia e com vencimento em dois anos, em parcelas trimestrais). "V6 o que o teu amigo fez", dizia H61io, enquanto atirava na minha direcao c6pia do telex. Publiquei a informaaio, que era gra- ve, e continue a fazer os meus juizos critics sobre a gestao de Jader, mas Helio ignorava o linguajar das conver- sas informais que tinhamos em pala- cio e, de public, continuou a fazer os maiores elogios a Jader, ao menos en- quanto ele continuou sendo ministry (da Reforma AgrAria e da Previdencia) e foi possivel compor os interesses dos dois grupos (o rompimento definitive, extrapolando as picuinhas de bastido- res, veio com a demissao de Henry Kayath da Sudam). Portanto, a ligio que o prefeito de Bel6m quer dar ao governador do Es- tado nAo vale porque a hist6ria foi adul- terada. H61io Gueiros embaralha os fa- tos e cria as verses conforme o seu interesse de ocasido. E uma fonte de referencia sobre a hist6ria inconfiAvel, at6 quando trata de detalhes jA sob o dominion piblico. No seu program de radio ele disse que o governor federal "fez a Bel6m-Brasilia e pegou 100 qui- 1lmetros daqui e dali". NAo 6 verdade: no caso da Bel]m- Brasilia, a federalizagio foi de 10 qui- l6metros de cada lado da rodovia. A ampliacgio para 100 quil6metros foi obra dos militares, em 1971. Segundo a lenda, a multiplicagao por 10 teria sido -um erro da datil6grafa do decre- to, uma usurpagao tAo audaciosa quan- to espantosa foi a aceitag o dos gover- nos estaduais prejudicados, que, como diria o alcaide, nao mugiram e nem tugiram ao saque contra seu patrim6- nio. Um assessor do entAo president do Incra, Jos6 de Moura Cavalcanti (ja falecido), que se embebedava no co- quetel realizado no Hotel GrAo-Para, logo depois do anincio do ato, fez co- mentarios desairosos sobre a honra amaz6nica e o discernimento da sua elite. "Eles nao sabem nem o que es- tAo assinando", comentava o assessor, umjornalista que depois se tornaria es- critor. A inconsciencia daqueles dias per- manece praticamente intocada. E favo- rece a carreira de gente como H61io Mota Gueiros. 0 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA/ABRIL/1996 A palavra do chefe 4f0 Liberal" 6 o oitavo journal em L tiragem do Brasil. Domina o mercado de impresses em Bel6m como nenhuma outra publicaqao em qualquer das demais capitals do Brasil, onde a concorrencia 6 mais visivel. Tem par- ceria tom a maior rede de comunicaaio do pais, a Globo, mantendo com folga a lideranga nos demais segments do se- tor. Nao surpreende, assim, que o prin- cipal executive do grupo Liberal, Ro- mulo Maiorana Junior, esteja entire as personalidades mais influentes do Es- tado. O poder de Rominbo 6 mais desta- cado ainda porque nao tern escora ins- titucional, nAo dependendo de uma elei- SAo e nio tendo mandate fixo. Se sua empresa continuar s6lida, ele continua- ra a arrastar c6rtes em sua passage e a influir sobre a sociedade, mesmo que nao faca muita coisa parajustificar esse poder de influencia, que Ihe foi trans- mitido por heranga. Uma media do poder de Rominho foi dada por dois editorials que assinou em "O Liberal", no mes passado, o pri- meiro combatendo o rasteiro alcance dos politicos locals e o segundo pregan- do a uniao de todos em beneficio do ParA. As pessoas razoavelmente informa- das sabem que os Maiorana, apesar de possuirem um imperio jornalistico, nao t6m muita intimidade corn a arte (ou o oficio) de redigir. No caso de Romulo Jr., nem 6 precise porque sua funqcio nao 6 essa. Mas, sern abandonar sua ativi- dade de ganhar dinheiro, o executive do Sistema Romulo Maiorana de Comuni- caiao decidiu influir sobre a opiniao piu- blica. Para muitos dos que trataram de diri- gir suas mensagens de felicitacao para o autor dos dois editorials, importa menos o conteudo das peas do que agradar o personagem e fazer-se notado por ele - e a partir dele. Assim, foi ignorado o fato singelo de que a critical aos politicos que fazem de seu oficio um exercicio de pi- cuinhas nao sensibilizou nem mesmo um dos comensais de Rominho, o deputa- do Vic Pires Franco. Na mesma semana em que o amigo pregava a elevag~ o de prop6sitos, Vic retirava o apoio ao su- perintendente do INSS, Isaac Ramiro Bentes, por interesses politicos pessoais, nada da causa pfiblica em questAo. Como os que se apresentam como in- t6rpretes do regionalismo, Romulo Jr. quer que todos se unam abstratamente em favor do ParA, mas sem discernir a r- -------------------------------------- SI IC r t a im6veis e averbado ao lado da transcriIao SLopo de Castro Jdnior, director do dominion (art. 13 do DI. 25/3 7) fato que superintendent da Radio Guajari, nao ocorreu. Portanto, o dito "tombamen- maperintendoene d e a o Guataria to" 6 nulo de pleno direito. mafesando-se sore a matia 3 Assim sendo a attitude tomada violou os S"Urma moral bem triste", publicada no principios da ampla defesa (previsto no art. I n 136 do Jornal Pessoal, solicitou a 50 L.V. da CF 188), transgrediu o principio Spublicagdo da seguinte nota: do process legal, infringiu o Cap. do art. 59 da CF 188 que garante a inviolabilidade Tendo em vista o recent episodio envol- a propriedade privada, violou frontalmen- Ivendo o antigo Shopping Nazare, o Dr. te o art. 13 do DL-25/37, alem de ter sido Lopo de Castro Jr e a Policia Federal, es- constituida de abuso de autoridade desne- clarecemos: cessaria. 1 Nunca existiu ma-f de nossa part. Ma- Por todo o exposto esta movida compe- Sf esta o Sr. Promotor Jose Augusto Tor- tente agAo de ressarcimento por abalo de res Potiguar, tomando uma attitude arbitra- credit e danos morais ria, pois inexiste tombamento e portanto Quando um pais tenta punir, equivocada- I inexiste o fato gerador, assim a obra reali- mente, homes de bem, trabalhadores e I zada na av. Nazare, 489, nio contrariou empresarios ficando omisso perante bandi- Snenhum preceito legal, tampouco desobe- dos e corruptos, fartamente denunciados Ideceu ordem federal. pela imprensa, nAo pode ser considerado S2 O im6vel supra citado nunca foi tom- um pais s6rio, e pior, esta dando um "Tris- bado pelo Patrim6nio Publico, antigo te Exemplo" para futuras geraq~es, que SPHAN, pois o registro public e que ca- acharao mais c6modo corromper do que racteriza o process de tombamento, as- produzir sim, para que seja efetivado, deveria haver "Cada um deseja ter a verdade do seu lado, a transcri2;Ao para os devidos efeitos em mas poucos desejam estar do lado da ver- liNr,- P ';o dos oficiais do registro de dade". Richard Whateley pauta dessa mobiliza~go. E positive que ele de vez em quando procure uma par- ticipacqo direta em seu journal, empres- tando seu nome a defesa de uma posicao editorial que, em outras circunstincias, nao teria a mesma repercussdo. Mas 6 a pr6pria atuaq~io dos veiculos de comu- nicaqao de seu grupo que deveria fome- cer a sociedade os elements de analise para a aqCo. Nesse aspect, o papel do grupo Libe- ral 6 sofrivel. Ojoral nao esta qualifica- do para fazer um acompanhamento aten- to e analitico do que acontece no Para, traduzindo-o para o public. Industrial- mente, a empresa avancou em terms tec- nologicos anos-luz A frente dos concor- rentes, mas o investimento em recursos humans estA pr6ximo do zero. Sem ques- tionar os salaries, que ajudam a nivelar por baixo, faltam estimulos e motivaq6es para a redac~o, que foi informatizada mas nao tern banco de dados, cor rep6rteres ha muito sem estagios ou treinamentos. Espasmodicamente o jomal tenta sair da sua letargia, mas depois que cessar a onda de repercuss6es pela palavra do chefe tudo voltarA A rotineira cobertura do cotidia- no. "O Liberal" pode imensamente mais e o ParA precisa ter com o que responder a vagas palavras de ordem. * Salvar a memorial Dou uma pausa nesta edicgo na sdrie de testemunhos, que voltara no pr6xi- mo JP. VArias pessoas se manifestaram a respeito do testemunho sobre o pro- fessor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o mestre de virias geraq6es. Mas nao apareceram os que deveriam purgar o pecado de varias geragoes, agradecidas aos ensinamentos de Chico Mendes, mas sem dar-lhe o devido re- conhecimento. A personalidade introvertida e o jeito de ser do profes- sor podem ter mantido os interessados A distancia, mas 6 um dever dos paraenses prestar as homenagens mere- cidas. Talvez o pr6prio Mendes nao as queira, mas nesse caso independera da vontade dele. Um parlamentar mais imaginoso poderia prop6r-lhe o titulo de honra ao merito e a Universidade conceder-lhe o titulo de doutor honorss causa". No "Paes de Carvalho" ele po- deria tornar-se professor em6rito, como simbolo da dedicacao ao magist6rio. Tudo, menos essa omissao gl6ida dos acomodados. 0 JORNAL P'ESSOAL P QUINZENA/ABRII,/1996 5 Mais alumina, menos bauxita N este ano, pela primeira vez, a Mi neraqdo Rio do Norte a terceira maior produtora de bauxita do mundo - destinara mais mindrio para o mer- cado interno brasileiro do que para o exterior. Dos 9,6 milh6es de toneladas previstas, record de producqo na his- t6ria da empresa, iniciada em 1979, 5,5 milh6es de toneladas (ou 57%) irdo para a Alumar, em Sao Luis, e para a Alunorte, em Barcarena. Os outros 4,1 milhoes de toneladas se destinarao aos tradicionais clients estrangeiros. Exportar menos bauxita significa mandar para fora menos materia-pri- ma e transformA-la mais dentro do pais, agregando valor. A tonelada media de bauxita vendida pela MRN no ano pas- sado valeu 20,3 d6lares. A alumina consegue prego cinco vezes superior. Logo, a destinaqio de parcela maior de bauxita para beneficiamento interno significa uma evolucao, mesmo que sujeita a chuvas e trovoadas. Quando comeqou a operar em sua mina do Trombetas, 17 anos atras, a Rio do Norte era uma empresa exem- plarmente colonial. A Companhia Vale do Rio Doce tinha a maioria das ag6es, 40%, mas nao o control efetivo da comercializagio. Quem mandava eram os s6cios privados e estrangeiros reu- nidos, todos produtores de aluminio, mais interessados em conseguir bauxita boa e barata do que defender o prego do produto. Era como se raposas esti- vessem cuidando do galinheiro. O preco da bauxita ainda nao corresponde inteiramente a sua quali- dade. O minerio 6 submetido a seca- gem para agradar os compradores es- trangeiros, sobretudo a canadense Alcan, e esse beneficiamento nao e convenientemente remunerado. Mas nao e um prego vil. A MRN 6 o finico dos grandes projetos que se mant6m lu- crativo ha varios anos, tendo zerado seu endividamento. As contas de 1995, divulgadas na semana passada, mos- tram que o balango de pagamentos da empresa foi superavitario em US$ 118 milh6es, sinal nada desprezivel de vi- talidade. Para uma receita bruta de 170 milhoes de reals, o lucro liquid foi de quase R$ 10 milh6es. Gragas a verticalizagdo das fundidoras de aluminio ou das empre- sas a elas associadas, a Rio do Norte vai entrando no ciclo do metal ao in- ves de ser uma mera exportadora de materia-prima. Serdo 3 milhoes de to- neladas para a Alumar (Alcoa mais Shell) e 2,5 milhoes de toneladas a partir deste ano para a Alunorte. Para manter a retirada dos s6cios estrangei- ros, a MRN vai bater o record neste ano, produzindo 9,6 milhoes de tone- ladas, e superar 13 milhoes de tonela- das dentro de dois anos, gracas a um investimento de US$ 75 milh6es feito para abrir uma nova mina e transferir o britador do plat6 do Saracd. Garanti- ra sua privilegiada posigCo no merca- do international e a qualidade do seu produto em mat6ria de alumina aproveitAvel e silica reativa, mas nem tanto quanto a pregos, que experimen- taram uma queda relative no period. 0 desafio do Basa Ha 40 anos um valorizado terreno de 400 ou 500 metros quadrados, na esquina da avenida Presidente Vargas corn a Aristides Lobo, perma- nece murado e sem uso. Irrita os vizi- nhos e espanta o mercado imobiliario porque vira abrigo de desocupados e favorece ladroes, e porque poderia servir a construcdo de um edificio. O dono da drea 6 simplesmente o Banco da Amaz6nia, que planejava usa-la para sua sede. O predio da sede, um dos maiores de Bel6m, acabou surgin- do mais adiante, na pr6pria Presiden- te Vargas. O primeiro terreno foi dei- xado de lado. A hist6ria desse im6vel ilustra bem o que tem sido o Banco da Amaz6- nia: um personagem titubeantemente a procura de autor, ou de um enredo convincente. Um proprietario que fica quatro d6cadas sem dar um destiny a um simples bem patrimonial parece impossibilitado de definir a si pr6prio. A Amaz6nia tem mudado rapida- mente. Em cada uma das etapas de transformac~o o Basa desempenhou uma fungao. Na origem, foi o financiador da reativacao dos serin- gais natives para o esforco de guerra. Quando as potencias ocidentais vol- taram as suas tradicionais fontes de suprimento de borracha, o banco ten- tou prolongar a sobrevida dos serin- gais sustentando o preqo minimo do produto. Fracassou, claro. Mas foi usado em seguida por Brasilia para apoiar a expanslo da pecudria de cor- te na fronteira amaz6nica e para a tro- ca do control de algumas das princi- pais empresas regionais, al6m de ser- vir de biombo para a transfer6ncia de recursos financeiros do tesouro ou do exterior para os grandes projetos. O poder central ji nao tem mais uma necessidade vital ou estrat6gica do Basa. Extingui-lo ou reformula-lo parece defender da correlaqgo de for- gas atuantes. O problema e que o ban- co nao serd mais assistido por Brasilia. Tern que encontrar seu pr6prio cami- nho, desfazendo-se da roupagem do passado. Alguns acham que o melhor seria fundi-lo ao Banco do Brasil. Nao Sa melhor soluq~o para a Amaz6nia. O proprio banco parece querer man- ter seu estatuto autarquico. Assim, alem de cobrar taxas elevadas para ad- ministrar o Finam (Fundo de Investi- mentos da Amaz6nia), quer agora se apossar de 10% do FNO, o fundo constitutional para a Regiao Norte (0,6% da receita tributaria da Unido). Assim, o Basa, teria recursos de Ion- go prazo de custo barato ou custo zero. O perfil desses recursos, porem, coli- de corn a condi9do de banco misto do Basa e ai esti a principal incoer6ncia. Para viver de taxas de funds o Basa nao precisa ter a estrutura que ter, nem con- correr no mercado, do qual faz parte ape- nas nominalmente (quenm, alem de funci- onarios e beneficiarios de financiamen- tos, tem conta corrente no banco?). A sa- ida, portanto, esti em cortar na came e tornar-se um aut8ntico banco de desen- volvimento, cumprindo um papel que esta a descoberto na regiio. Teria que ser um banco sem gorduras, em alguns pontos se- melhante ao BNDES, operando com ou- tras redes bancarias capilares, uma insti- tuic~o voltada para o fomento atrav6s do cr6dito. Mas uma instituig~o que nao dd des- tino a um terreno pode responder a esse desafio? * 6 JORNAL PESSOAL 1' QUINZENA/ABRIL/1996 Liberdade tutelada Thomas Jefferson 6 considerado, corn toda a razlo, um dos fundadores dos Esta- dos Unidos da Am6rica. De sua privilegi- ada cabega saiu o fundamental da consti- tuiq o norte-americana, a 6nica em vigor em mais de 200 anos, cor duas dezenas de emendas. A primeira foi quase imedia- ta, do proprio Jefferson. Lembrou-se que a carta magna de seu pais nbo fora suficien- temente enfitica na defesa da liberdade de imprensa e tratou de sublinhar essa neces- sidade na primeira emenda, ainda hoje a base juridica sobre a qual repousa a ener- gia da imprensa dos EUA. Foi fundamen- tal para que o mais influence journal do pais, o "New York Times", continuasse publi- cando segredos do Pentagono num momen- to em que o governor americano ampliava seu envolvimento na guerra do sudeste asi- atico. "Se me coubesse decidir se deveriamos ter um governor sem jornas, ou jorais sem um governor, nao hesitaria um moment em preferir a uiltima soluco", escreveu Jeffer- son. Comprovando corn sua vida o que pen- sava, sempre acreditou que o mais eficien- te caminho para os homes serem gover- nados "pela razio e pela verdade" era o da liberdade de imprensa. "Por isso, 6 o pri- meiro a ser fechado por aqueles que recei- am a investigation de suas acess. Se ha mais de 200 anos Jefferson ja dava essas liqces aos seus compatriotas, n6s, bra- sileiros, continuamos teimando em nlo aprende-las. Sob o fluxo e o refluxo do oportunismo e das oportunidades, a Cimara Federal esta cor a responsabilidade de exa- minar e aprovar uma nova lei de imprensa. A em vigor, baixada pelos militares em 1967, tornou-se inconstitucional desde 1988, mas permanece em uso gracas a ina- 91o dos que nio se cansam de condenar esse "entulho autoritario" sem dar-se ao tra- balho pratico de acabar cor ele. Mas a solug o pode ser pior do que o soneto. Em 6poca de fechamento politico, os mi- litares foram claros no que pretendiam corn a lei de 1967. Agora que vivemo nessa fur- ta-cor democratic, o objetivo 6 visado corn insinuacao e malicia. Mas 6 o mesmo. Os deputados, just ou injustamente magoa- dos corn o tratamento da imprensa, tenta- ram dar o troco, passando a dar urgencia na tramitaiio do projeto de lei, que peram- bula pelas duas casas ha cinco anos. A pri- s&o para os crimes contra a honra seria mantida (injuria, calunia e difamaao), ao inves de se adotar a inovadora prestacao de services comunitarios. Para compensar, as empresas seriam solidarias nos crimes praticados pelos jornalistas. Mas a solida- riedade poderia custar ate 10% do fatura- mento bruto da empresa em cada acio im- petrada na justica, sem limita~go de acqes mdenizat6rias, o que poderia resultar em inviabilizaqco da empresa ou sua intima- 9lo previa, por via, cor o enrijecimento dos mecanismos de auto-controle, tAo ou mais danosos do que a censura external. Em materia de liberdade -de imprensa continuamos a ser macacos em loja de lou- ca. O fundamental na relagIo da imprensa corn o public, constituindo sua caracte- ristica especifica, 6 o exercicio do direito de resposta. A maioria das empresas jor- nalisticas o ignora ou destrata. Nio publi- ca a resposta, ou a public mal. Para esse caso deveria haver regulamentaglo em lei: prazo exiguissimo para a resposta, trami- taglo preferential dos pedidos de retifica- gio judicial, multa pesada para o desres- peito a esse direito, obrigagio de publicar nas mesmas condic6es (de espaco e desta- que) da materia original. Quanto ao mais, 6 assunto para o c6digo penal (no caso dos crimes contra a honra) ou civil (quando se tratar de indenizaglo). Todas as vezes as nossas autoridades ou instituic6es tentam tu- telar a liberdade de imprensa, tao valoriza- da por Jefferson, acabam destruindo essa vital component plantinha da democracia, como a ela se referia Otavio Mangabeira. A plant more e nos ficamos sem jardim. * 0 ouro em nova fase Em 1980, quando estourou a corrida ao ouro no garimpo de Serra Pelada, a Compa- nhia Vale do Rio Doce nio produzia uma grama do metal no Para. Hoje a CVRD ja esti produzindo 10 toneladas de ouro, ape- nas menos do que as 13 toneladas alcancadas por Serra Pelada em 1983, o ano record da garimpagem. No ano 2000 a empresa pode- ra chegar a 35 toneladas, mais do que a atual produ~io national, em tres minas do igarape Bahia, do Salobo e de Serra Leste. No ano passado, pela primeira vez as empresas pro- duziram tanto ouro quanto os garimpeiros, 10 toneladas cada grupo. A partir de agora a relacio sera cada vez mais favoravel as em- presas. A historia do ouro experiment uma mu- danca atualmente no Para, transformaTiio que devera ocorrer tambem em outros Estados da Amaz6nia o deslocamento da producao dos garimpos para as empresas. Nos princi- pais redutos de produ~io aurifera os veios superficiais estlo se esgotando e o mineio se aprofunda. Para recupera-lo e necessario fazer investimentos mais pesados e dispor de tecnologia que nio esti acessivel aos ga- rimpeiros. Essa tend6ncia nio anula a possibilidade de que novos aluvi6es sejam descobertos pela faiscagem dos garimpeiros, que conti- nuam circulando pela regiio e tendo acesso a areas novas. Mas significa que nas zonas ja produtoras a atividade garimpeira acabou e que a nova etapa deve ser urgentemente acompanhada e regulamentada. A area mais amplamente disponivel 6 a do Tapajos, produA,.r de ouro ha quase 40 anos. Para IA se deslocaram seis multinacionais, que estAo comprando direi- tos de garimpeiros e comegando a estudar a possibilidade de instalar plants industrials. Mas a question mais imediata a a area que tanto pode ser tratada como Serra Leste ou Serra Pelada (ver JORNAL PESSOAL n 135). No frustrante encontro na Assembleia Legislative do Estado, no final do mes pas- sado, o superintendent de Coordenailo Em- presarial da Companhia Vale do Rio Doce, Joio de Lima Teixeira Filho, anunciou que a empresa quer iniciar as primeiras obras de terraplenagem e de infra-estrutura dentro de tr6s meses para poder produzir ouro em Ser- ra Leste a partir de julho de 1996. Nesse period, a CVRD pretend inves- tir 250 milhaes de d6lares nessa primeira mina subterrinea da Amaz6nia, que alcan- cara profundidades alem de 400 metros. Fez quest de ressaltar tratar-se de um investi- mento de grandeza equivalent ao que a Volkswagen esta fazendo no municipio de Resende, no Rio de Janeiro, depois de uma briga intense entire Rio e Sio Paulo por essa fabrica. Em Serra Leste se produzira cinco tone- ladas a mais do que no igarape Bahia e no Salobo, mas nesta ultima unidade ha a van- tagem de o ouro ser obtido como subproduto da metalurgia do cobre, corn investimentos muito menores. E corn outra vantagem: en- quanto em Serra Leste a jazida ji cubada 6 de 150 toneladas (o que daria 10 anos de vida util a mina), no Salobo tern 530 toneladas. Esses nuimeros, inimaginaveis algum tem- po atras, devem conscientizar a opinifo pu- blica sobre essa nova fase do ouro. Em ter- mos tecnol6gicos a vantage da atividade empresarial sobre a garimpagem 6 enorme, o que lhe da tambem melhores condices de manejo em rela~io ao meio ambiente. Cor projetos adequadamente concebidos e fisca- liza~io eficiente, nio se tera mais a agresslo praticada pelo garimpo e as perdas, se hou- ver, serio minimas, apesar do risco maior da cianetacio sobre o mercurio. O problema e social. Para um investimento de US$ 250 milhoes, a CVRD diz que vai criar tres mil empregos diretos e indiretos - em Serra Leste durante a opera&io da jazi- da E um numero superestimado, mas ainda assim, socialmente insuficiente para tender a demand da pr6pria area. precise que o govemo crie condicoes para que ao menos uma parte do ouro produzido sirva a um mai- or beneficiamento local e que haja uma taxa de reinvestimento em diversificaalo de ati- vidades, sem o que a caracteristica de enclave desses empreendimentos estara ainda mais reforcada. O ouro, portanto, 6 o mesmo. A realidade 6 que vai mudando radicalmente. E precise tambem mudar as condutas para enfrenta-la nessa nova situaqAo. * IORNAL 'ESSOAL 1 QUINZENA/ABRIL/1996 7 & Uma nova categoria social de des possuido surgiu, no sul do Para: o sem-terra-produtiva. Ele nao quer apenas uma terra para se instalar: exi- ge que a area disponha de infra-estru- tura basica para poder alcancar o mer- cado. Como ha muito tempo o progra- ma de reform agraria do governor se limita ao assentamento de agricultores que se instalaram em terras alheias, este novo tipo de sem terra escolhe fazen- das em plena producio para se estabe- lecer. Esse novo grau de exigencia 6, tan- to o fruto da experidncia acumulada por posseiros, como de uma nova va- riedade professional, do estimulador de invasoes que age por motives ideol6- gicos ou com objetivos comerciais. Al- guns lideres de sem-terra estariam co- brando uma taxa (de at6 20%) para quando, assentado, o lavrador receber dinheiro do Procera ou do FNO, os dois funds ao alcance dos pequenos proprietarios. Outros estimuladores de invas6es querem vender implementos agricolas e outros implementos nAo tio agricolas assim (rev6lveres ou muni- qio, por exemplo). E ha os que que- rem ter acesso A madeira pagando o minimo possivel por ela. Qualquer que seja a causa (ou as cau- sas) dessa nova situadao, ela exige re- flexao corajosa. E ever do governor garantir o acesso A propriedade da ter- ra aos que a ela se habilitam. E uma determinaqCo constitutional. O gover- no tem que assegurar tambem a hipo- teca social que onera a propriedade privada. Ou seja: combater a formaaio de latiffindios (e de miniffindios tam- bem), os primeiros a serem desapro- priados, os segundos a serem submeti- dos a um estimulo para se expandirem. O governor precisa combater o uso es- peculativo da terra como reserve de va- lor e apoia-lo como fator de produgio. Cumprindo todas essas obrigac6es, o governor estarA fazendo reform agrA- ria para valer. O problema 6 que a re- forma agraria deixou de ser para valer ha bastante tempo. Simplesmente por- que nao ha vontade political para reali- za-la.e, nao havendo vontade, faltam por conseqti6ncia os recursos para co- loca-la em acgo. O governor, que nao exerce mais comando algum, esta dei- xando ate de ser intermediario. Pouco tempo atras o entao presiden- te do Incra, Jose Graziano, foi obriga- do a comprar uma fazenda produtiva, a Rio Branco,.para assentar sem-terra de Parauapebas. Por causa da urgencia da questao, foi dispensada a licitagao piblica, que sempre deve preceder as compras e vendas do governor. Foi um precedent perigoso. Perigoso tamb6m foi deixar de lado a tutela A proprieda- de produtiva. Por isso Graziano disse que aquela seria a iltima transagco de compra e venda que governor faria para tender os sem-terra. A conseqiiencia previsivel dessa de- cislo seria um program decent de as- sentamento. O governor cadastraria com rigor os que querem ocupar terra e ne- las se tornar proprietarios, seleciona- ria boas areas disponiveis e nela insta- laria a infra-estrutura bAsica sem a qual os colonos ficarao isolados e conde- nados a mingua. Uma outra alternative seria a desapropriacqo de latiffindios improdutivos em areas melhor situa- das. Ou, de forma inovadora, um en- tendimento com os proprietarios de grande areas para um program con- junto de melhoria do local e assenta- mento de lavradores. Nada disso 6 feito. Nao se menos- preza o desafio que 6 intervir na estru- tura agraria de um pais como o Brasil. Mas dificuldades, por maiores que se- jam, nao sao sin6nimo de impossibili- dade. Se reform agraria fosse mais do que esquadrinhar lotes e lA despejar pessoas, a situacqo nio estaria tao dra- matica, pelas causes em si dos proble- mas e por sua evidence manipulagao pelos atores no cenario. Entregues a pr6pria sorte, os lavrado- res efetivamente necessitados de um pe- daco de terra estao dispostos a seguir o que aparece, oferecendo-lhes sua lideran- ga. Na escalada de aaes, o avango se tornou incontrolavel. Lavradores foram assentados em pastos formados na fazen- da Rio Branco. Outros ficarao nas mes- mas condig6es se alguma das fazendas do complex Macaxeira for comprada pelo governor, caso a regra ditada por Graziano vier abaixo outra vez, dando continuidade aos pdssimos antecedentes As regras para o jogo da terra r-------------i Os caminhos da autonomia Na mesma semana em que a As- sembl6ia Legislativa, por 18 votos a 11, decidiu recusar endosso as pro- postas de desmembramento do Para para a criagco de dois novos Esta- dos, de Carajas e Tapaj6s, a Amat - a associagAo que reine os 32 muni- cipios do Araguaia-Tocantins assi- nou um convnio corn a Seicom para criar uma agencia de desenvolvimen- to para a regiAo. A coincid&ncia sugere uma refle- xio. Politicamente, nao hA clima fa- voravel ao separatismo, tanto a ni- vel estadual quanto federal. No con- junto dolegislativo estadual, 29 que- rem manter o Para como estA e s6 12 defendem aredivisAo. Na Cuna- ra Federal a relacio 6 dessa ordem degrandeza, tanto que sequer foi vo- tada, atW agora, a convoca~Ao do ple- biscito para a emancipagco, primei- ro pass de um long process de future incerto e nio sabido. Mas a Amat deu um pass concrete, naio diretamente para a criaco do Esta- do de Carajas, mas para criar uma op9ao de fato nesse sentido. A prin- cipal mission da agencia sera a de aju- dara materializar a hidrovia do Ara- Sguaia-Tocantins, em torno do qual Spodera surgir um p61o irradiador de Satividades capaz de amadurecer con- Icretamente as iddias separatists, tao Smaduras que serA impossivel igno- Ir-las. Nesse caminho sera precise levar mais tempo, mas os resultados serao melhores. L ------ ---------- J do passado. Assim vird abaixo tamb6m a ultima area de castanhais natives que ja foi o Poligono dos Castanhais de Ma- raba. Assim, os parAmetros do jogo de po- der no meio rural desaparecerAo. A pro- priedade produtiva tern a mesma tutela constitutional da posse. Logo, precisa ser respeitada. t atraves dela que se pode tentar modernizar as relagqes de produ- c9o no campo. Do outro lado do pendu- lo esta a pequena propriedade familiar, que democratiza o control da terra e cos- tuma dar-lhe melhor uso. No meio h& la- tifindios improdutivos, especuladores, aproveitadores e um governor que conti- nua achando melhor deixar como esta para ver como 6 que fica. Invariavelmen- te ter ficado cada vez pior. 0 Q uando se pegunta por quem entende de cerimonial no Para, a resposta 6 uma s6: Cleodon Gondim. Ele, corn alguma interrupcio sazonal, foi titular do cerimonial do Estado durante quatro administraq es. Mudava o artist, mas Cleodon permanecia firme nos bastidores. Sobreviveu ate a um desentendimento corn Heio Gueiros, quando o atual O peso da Albras Em pouco mais de 10 anos de opera~io, a Albris a maior ind6stria do Para acumulou quase 700 milh6es de reais de prejuizo por con- ta dos baixos precos do aluminio praticados no mercado international desde que foi inau- gurada em 1985, e pelo elevado custo finan- ceiro de seu investimento. Mas a situacIo era bem mais grave no inicio de 1994, quando os prejuizos ultrapassaram um bilhao de reais. Nesse ano a empresa conseguiu encerrar suas atividades com seu primeiro lucro, de R$ 91 milhoes. No ano passado, conforme o relato- rio agora divulgado, o lucro liquid baixou para menos de R$ 8 milh6es. O preco m6dio do aluminio de 1.805 d61a- res foi compensador, mas os resultados apon- tados no balance annual da Albris foram menos expressivos, segundo explicago da empresa, por causa da valorizacao do real em relacao ao d6lar americano (que passou a ser a moeda dos empr6stimos concedidos pelosjaponeses), pe- los aumentos das matdrias-primas, mno-de-obra e servings. As perdas foram neutralizadas pe- los efeitos inflacionarios liquidos de balango e por ganho de produtividade. Gracas a esses ganhos, a producto da Al- bras foi 21 mil toneladas alem da capacidade nominal instalada da fibrica, de 320 mil tone- ladas. A empresa esta tao confiante no seu pro- grama de modemizaglo que espera se situar, nos pr6ximos cinco anos, entire as cinco me- Ihores do setor de aluminio. Mas os problems para a Albras, fiuto da associaco da Compa- nhia Vale do Rio Doce com um cons6rcio ja- ponds, ainda sio grandes. O enorme endividamento externo esta, em sua maior parte, protegido, mas esse 6 um cus- to provavelmente alto que n&o foi possivel de- finir pela leitura do balanco. O comportamen- to dos precos do aluminio tambem preocupa. Em 1995 o preco maior foi emjaneiro e o me- norjustamente em dezembro, caindo, nesse pe- riodo, mais de 300 d6lares por tonelada. A Albras, por isso, teve que iniciar operaq6es de "hedge" para proteger-se contra uma previsi- vel queda de preco, onerando evidentemente seus encargos. Tamanho O deputado estadual Zeno Veloso ameacou puxar a orelha do president Fernando Jornal Henrique Cardoso. Se -Redagdo for apenas simbolica- I mente, tudo berm. prefeito mandava nolpalacio Lauro Sodre. Em setembro do 4no passado Cleodon foi exonerado, de birra, pelo vice- goverador Helio Gueiros Jr. Almir Gabriel recolocou o chefe de seu cerimonial no lugar. Nao havia motivo para demiti-lo. Mas agora Cleodon nio voltou i posipio, apos nova e impertinente exoneraiAo praticada pelo Na janela A decision sobre o lugar onde sera instalada a nova refinaria do Norte e Nordeste do Brasil vai ficar nas maos dosjaponeses. Seis das mai- ores empresas do Japao Mitsui, Mitsubishi, Marubeni, Sumitomo, Itochu e Tomen for- maram um consorcio atraves do qual preten- dem investor 520 milh6es de d6lares na nova refinaria, aproveitando a flexibilizaAo (pala- vrinha ordiniria) do monopolio do petr6leo. Espera-se que os paraenses nao permanecam estaticos na janela vendo a banda passar. Imprensa No m&s passado "O Liberal" publicou que o senador Sebastiao Rocha, eleito pelo PDT do Amapa, havia comprado a mansao do ex-pre- feito de Maraba, Hamilton Bezerra, em Salinas, por 350 mil reals, pagos a vista. A noticia tinha multiplas implicaq6es. Mostrava que Hamilton possuia um belissimo investimento litorineo, cor uma das mais belas casas de Salinas. Reve- lava o poder de compra do senador amapaense, que estaria transacionando com alguem que vem respondendo a process por envolvimento comr o narcotrifico international. O senador enviou uma carta ao journal, onde dizia que "nio conhe- co, nunca vi e nunca estabeleci qualquer transa- 9go cor o senador Amilton (na verdade, Hamil- ton) Bezerra, tampouco adquiri qualquer im6vel em Salin6polis-PA". O jomal nio publicou a car- ta e nSo voltou mais ao assunto. Conta mineral O valor da exportagio dos bens minerals ou de origem mineral pulou de 1,5 bilhao de d6la- res em 1994 para 1,9 bilhao no ano passado, um ganho de US$ 400 milhoes propiciado por me- lhores precos m&dios ao long de 1995. O do minerio de ferro, principal item do com6rcio exterior paraense, passou de US$ 14,49 para US$ 17,11, fazendo as vendas subirem de US$ 574 milh6es para US$ 770 milh6es entire 94 e 95. Menores foram os ganhos corn a bauxita (23,94 para 24,23) e o manganes, este experi- mentando ligeira queda (de 52,85 em 94 para 52,5 em 95). Precos melhores, mas muito abai- xo do que seria de esperar. No caso do ferro, por exemplo, o Banco Mundial recomendava um prero em torno de US$ 35 a tonelada, nivel que parece definitivamente descartado. atazanador vice. I que a cabeca de Cleodon ji havia adquirido o format da de Slo Joio Batista e foi oferecida na bandeja para o algoz. Daqui desta modest folha, Cleodon, minha solidariedade ao professional competent e ao amigo de todas as horas. Voce nro passari e eles nem slo passarinho. Sem urgencia No mes passado foi o radialista Carlos Castro: ele se queixou de pbblico da lenti- dio no atendimento do Servico 192 Urgente da prefeitura de Belem. Os profissionais que atenderam a mle de Castro explicaram a de- mora: havia poucos veiculos disponiveis. Nessa Cpoca, 12 ambulincias do 192, uma das mais imaginosas criag6es da administra- io Helio Gueiros, estavam imobilizadas num galplo na travessa Frederico Schneiptt, en- tre a Rodovia Snapp e a travessa Magno de Araujo. Os veiculos nao estavam em uso por falta de peas de reposiao. Uma part da frota, contratada pela prefeitura por aluguel a uma empresa privada, ji teria percorrido o dobro dos 60 mil quil6metros de vida 6til de suas peas. Como as ambulancias sao de fabricagao norte-americana, as peas precisam ser im- portadas. E como a prefeitura ngo estaria pagando em dia, a empresa nao esta fazendo a reposicio. A frota, portanto, encolheu: para tender os pedidos de socorro o pessoal tic- nico ter que redobrar o trabalho e a demora na prestagCo do servico cresce. Queixas como a de Carlos Castro tendem a se multi- plicar. Antes que o problema se agrave, bem que a Cmnara Municipal poderia fazer uma boa apuraiao em torno do 192. Marca oculta 0 fato de Almir Gabriel ter trazido para o seu govemo a assessora de imprensa da pri- meira dama da capital e o chefe do ceremonial da prefeitura de Belem nao significa que o pre- feito Hdio Gueiros tenha orquestrado a troca de nomes na midi-reforma do secretariado do Estado. O principal criterio para a troca de nomes foi a insatisfacio pessoal do govera- dor corn o desempenho de alguns de seus au- xiliares, que nao estavam dando resultados politicos. Ter razAo, assim, o govemador ao declarar que houve motivacio politico-administrativa nas mudancas e nao acomodagio politico-par- tidaria. Almir esta a procura de uma marca, ca- paz de dar-lhe vida pr6pria. Tenta escapar a cons- trangedora situaqAo de, ao projetar-se diante da opiniao public, exibir cada vez mais semelhan- ca e subordinaio a figure de Heio Gueiros. A mudanca do secretariado Pessoal Editor Responsdvel: Licio FlIvio Pinto : Pass. Bolonha, 60-B *Fones: 223-7690 e 223-1929 lustracao e editoracAo eletrbnica: Luiz Pinto tem a marca de Almir. O problema 6 que a marca de Almir parece, cada vez mais, a de Helio. |
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