Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00091

Full Text






Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO

ANO/X No 134 Ia QUINZENA DE JANEIRO DE 1996 R$ 2,00


BELEM


Aceitando o pouco

A capital paraense faz 380 anos, comemorados

com bugigangas que sao vendidas ao grande puiblico

como se fossem grandes obras. Ninguem

pergunta quanto pagou pela festa.


No final do ano passado o Banco
Interamericano de Desenvol-
vimento (BID) aprovou um
emprnstimo de 180 milhoes de d6lares
para o Projeto Favela-Bairro do Rio de
Janeiro. E para urbanizar um tergo das
favelas cariocas, realizando a infra-
estrutura de 150 loteamentos clandesti-
nos, onde moram 340 mil pessoas. Para
complementary o investimento, a prefei-
tura do Rio de Janeiro entrara corn US$
120 milh5es de recursos pr6prios. Com
o pacote, fechado em novembro, o BID
somou US$ 568 milhoes de empresti-
mos a ex-capital federal.
Veja-se, em comparaqio, o caso de
Bel6m, cidade quatro vezes menor. O
BID aprovou financiamento de US$
145 milh6es para o program de sana-
mento das baixadas da cidade, para
uma contrapartida de US$ 80 milh8es
do Estado, somando US$ 225 milhoes.
t o maior investimento public em de-
cadas da hist6ria da capital paraense.
Proporcionalmente, 6 bem mais do que
o BID destinou ao Rio de Janeiro para
um program que, territorialmente, nio
ter a mesma expression do que sera
executado no Rio de Janeiro porque as
baixadas slo concentradas espacialmen-
te, assim como sua populagio.
Essa comparaao mostra que Belem
teria uma oportunidade rara para resol-
ver seu principal problema urban e
partir para um crescimento planejado e
mais racional. No maior investimento
public da cidade, sua prefeitura nao
entra praticamente com recurso algum,
limitando-se a ajudar no remanejamento
da populagio.


O Program de Macrodrenagem das
Baixadas de Belem 6 ainda um resqui-
cio da 6poca em que o prefeito da cida-
de nio era muito mais do que -e
gado do governador par assutoss mu-
nicipais e este, na verdade, o adminis-
trador principal da maior cidade do
Estado. Mesmo num projeto menor,
como o do Ver-o-Peso, foi esse o es-
quema que funcionou.
Hoje, o Macrodrenagem estA atrasa-
do um ano, a contrapartida do Estado
aos recursos do BID defasou, hA d6lares
retidos e o Estado paga o custo de um
dinheiro que nao usou. O prefeito mu-
nicipal, que nada tem a ver diretamente
com o program, apresenta como um
dos empreendimentos mais importantes
do seu final de gestio um arranjo vare-
jista costumeiro para ganhar votos nas
areas alagadas da cidade.
Belem comemorou seus 380 anos de
fundac~o cada vez menos exigente,
menos audaciosa, menos i altura da
solucgo para os seus problems. 0 pre-
feito Helio Gueiros imp6s A coletividade
os antolhos de uma viseira que visa
apenas obras imediatas, de curto folego,
isoladas e que, por isso, n5o formal um
todo, um piano.
O uiltimo deles, ainda que setorial,
deixado por consultores japoneses, 6
ironizado pelo alcaide como sendo ape-
nas ex6tico, sem que o julgador tenha
lido uma de suas paginas sequer. Os
globais remontam a decade de 70 e ao
inicio dos anos 80. Permanecem virgens
nas prateleiras, embora tenham tido um
custo razoAvel para o erario.


Beldm gastou 5,5 milhoes de reais
corn duas obras paisagisticas e aplicara
outros RS 7 bilh5es em um terminal
psqueiro de configuraqo polemica,
alem de outros tantos milhies no reves-
timento das mesmas vias de trifego
periodicamente asfaltadas e, em segui-
das, deixadas por conta das intemperies
do tempo, nos containers de lixo arren-
dados, como alugadas sio as ambulin-
cias do service 192 e os abrigos de 6ni-
bus, todos em ferro, naturalmente, que e
para agradar a parentela & agregados.
A soma disso tudo, ninguem sabe. A
serventia, esta a midia inflaciona, fa-
zendo ignorar os aspects critics, mo-
vida a verbas publicitirias por quem
sabe trazer para si a imprensa, premi-
ando atW mesmo inimigos, desde que
nro se mantenham ao largo e reserve
algum espaco para divulgar as grandes
obras municipals.
Ninguem desaprovara o que foi rea-
lizado, com dedicag o e esmero, no
Bosque Rodrigues Alves. A inducio da
midia havera de sufocar o c6ro dos
descontentes com o custo da obra
(oficialmente, R$ 1,2 milhao), onerado
por novas grades de ferro, claro per-
feitamente dispensaveis (as anteriores
ainda eram da administraio Coutinho
Jorge).
Da mesma maneira, e bom ter um
novo cartAo postal corn as obras na
Doca, mas ao preco official, ressalte-se
- de R$ 4 milhoes? O resultado nao 6
satisfat6rio por nenhum fingulo. Como
via de rolamento, excede de muito a
demand, ja que o grosso do trinsito
apenas cruza a avenida, fluindo pelas >






2 Jornal Pessoal


transversais. Como centro de lazer, 6
mesquinha, reservando nesgas a pedes-
tres e cndidatos a atletas que circulam
em torno de un esgoto a c6u aberto,
tendo mon6xido de carbon a vontade
para aspirar a partir do avanco do dia.
No entanto, gragas a manipulao ele-
tr6nica, muita gente posta-se na Doca
como se estivesse no Hyde Park, em
Londres, ou no Central Park, em Nova
York. Amarga e onerosa ilusao, que
a magia do video adorna.
Bel6m perdeu os terms de referen-
cia e os par~metros de avaliago. Exige
pouco, contenta-se corn menos ainda,
nao faz perguntas, nAo canaliza suas
insias e necessidades. Fica estrangulada
entire dois movimentos antag6nicos.
Demograficamente (e institucionalmen-
te) 6 uma metr6pole em expansion, mas
corn pes de barro econ6mico. Nio con-
segue mais competir como centro de
services, vive de funcmes institucionais
do passado e no reencontrou sua voca-
Vao produtiva. Seguramente 6 a capital
brasileira que teve seu padrio de vida
mais deteriorada nas duas 61timas d6ca-
das. Mas esti disposta a esquecer tudo
isso ao menor afago propagandistico,
como o que fez o sabio em marketing -
prefeito H6lio Gueiros na comemoraqo
dos 380 anos, de olho na cidade como
um instrument de perpetuacgo de po-
der e de arranjo familiar e clientelistico.
O que seri de Bel6m nos 400 anos?

0 sorriso

oportuno
D epois de quatro meses de distanci-
amento, o governador Almir Ga-
briel esteve no mesmo local com seu
vice, H6lio Gueiros Jr.. Foi na solenida-
de de comemoraqio dos 380 anos de
Bel6m, promovida pela prefeitura no
reinaugurado Bosque Rodrigues Alves.
Nenhuma mencAo na imprensa a
esse fato. Apesar de tantos rep6rteres
presents, a opiniAo public ficou sem
saber se os dois se cumprimentaram, se
ficaram juntos por algum moment, se
conversaram e outras banalidades que
sempre interessam e, as vezes, valem
mais do que os fatos grandiosos, dos
quais sAo simbolo e sinal.
O govemador Almir Gabriel poderia
ter inventado uma desculpa e se ausen-
tado do ato. Mas l1 compareceu, levou
assessores e foi pr6digo em palavras e
sorrisos ao lado do anfitriAo, que o ha-
via convidado dias antes, para isso in-
terrompendo uma abstinEncia de conta-
tos pessoais que ja demorava meses
tamb6m.


A felicidade estampada no rosto do
governador parecia indicar que ele con-
siderava insignificant o fato de estar
prestigiando algu6m ou um grupo que o
enfraquecia. Afinal, como testemunhou
seu lider na Assembl6ia Legislativa,
deputado estadual Luiz Otavio Campos,
toda a confusao preparada pelo vice, em
setembro, ao assumir o lugar do titular,
foi, no minimo, acompanhada pelo pai,
que, depois, publicamente, a apoiou.
Por causa desse desentendimento, o
governador do Para ter se privado de
viajar, deixando de comparecer a encon-
tros importantes que tnm sido realizados
em Brasilia, desatendendo, em algumas
ocasi6es, ao chamamento do lider maior
de seu partido, o PSDB, o president
Fernando Henrique Cardoso. Tudo
porque sao imprevisiveis os atos que
H6lio Gueiros Jr. poderia adotar se
novamente ficar no lugar de Almir.
Sem troco Al6m dessas circuns-
tincias mais graves, que ja causam
danos a gestio do Estado, hi outros
components tipicos da forma de H6lio
Gueiros fazer political. Ele ja desmarcou
um encontro cor o governador, deixan-
do-o consternado, e tern viajado sempre
que um ato do interesse do govemo do
Estado se realize, como aconteceu com
a visit de Fernando Henrique a Bel6m
e Barcarena.
No entanto, ao aproximar-se a data
da solenidade dos 380 anos, H6lio Guei-
ros tratou de buscar o apoio do gover-
nador, mesmo que na solenidade fosse
medalhar seu filho, o autor das moleca-
gens que tanta contrariedade causaram
a Almir Gabriel (al6m de medalhar a
cunhada, num convescote quase famili-
ar que define os modos e costumes mu-
nicipais de hoje).
E o governador, indiferente a tudo,
pos no rosto o seu melhor sorriso official
e foi ao Bosque abrilhantar a tertilia
dos Gueiros. O chefe da troupe aprovei-
tou para anunciar que, nas suas obras
futuras, at6 o final do mandate, realiza-
ra ainda mais, como o viaduto do Co-
queiro e o saneamento das baixadas,
com o dinheiro do Estado, 6 claro.
Seri que, na berlinda, s6 Almir Ga-
briel nio viu e ouviu?

Govemo sem

a esperanga
0 goverador Almir Gabriel estA
perdendo o que era o seu princi-
pal capital de candidate: a esperanga do
povo. E o que mostra uma das facetas
da pesquisa realizada entire os dias 28 e
29 de dezembro do ano passado pela


Opcio Pesquisa Marketing e Comuni-
ca&o Ltda para o journal Diario do Pa-
ra.
No inicio de seu govemo, apenas 7%
das pessoas previam que sua adminis-
tracao seria ruim ou pessima; hoje sao
25%, quase quatro vezes mais. Quase
69% dos entrevistados no inicio da
gestao achavam que ela seria excelente
ou boa; hoje esse indice 6 de 22%. E
enquanto 22% a consideravam inicial-
mente regular, agora esse contingent
abriga 45% dos entrevistados.
0 governor, portanto, esti perdendo
de goleada a batalha da opiniao public,
pois ja ha mais gente achando-o ruim ou
p6ssimo (25%) do que excelente ou bom
(22%), enquanto a massa do regular
(que tanto pode cambar para o bom
quanto para o ruim) passou de 22%
para 45%.
O governor, com trabalho e aplica-
9,o, ainda tern tempo para reveter esse
quadro crescentemente desfavoravel,
mas nao muito mais do que isso. Em un
ano, foi muito desgaste.

Banpara

sobrevive
0 Banco do Estado do Par*, que
chegou ao primeiro semestre de 1995
corn lucro de 740 mil reais, fechara o
ano comr prejuizo, ainda nao definido
porque falta concluir o balango annual.
0 lucro do primeiro semestre, porem,
foi mais contibil do que real e o banco,
mesmo no vermelho, esti mais s6lido do
que a maioria dos integrantes da rede
bancAria estadual, podendo ter afastado
de vez o risco de desaparecer.
O grande problema do Banpara 6 de
definigio. Embora tenha um elevado
potential de clientele com os 130 mil
servidores piblicos, o banco ainda nio
conseguiu transformar senio uma pe-
quena parcela desse universe em cor-
rentistas. E dificil que consiga e talvez
nao seja rentAvel.
A funqio de banco commercial 6 com-
prometida pela pouca presence do
Banpara no mercado de depositantes
populares, algo semelhante ao que o
Banco da Amaz6nia enfrenta. Nesse
caso, o melhor seria fortaleci-lo como
banco de desenvolvimento, repassador e
aplicador de funds, um gestor das
political de desenvolvimento das ativi-
dades produtivas, mesmo que para isso,
como providencia indispensivel, seja
necessario diminuir-lhe o tamanho e
azeita-lo, como, alias, vem sendo feito
nestes ultimos anos.






Jornal Pessoal /o


TESTEMUNHO


Mestre da Amazonia


No calor infernal de inicio de
tarde em Belem muitas vezes
eu vi uma senhora bem vesti-
da, toda produzida, como se diz hoje,
atravessar a Presidente Vargas para
pegar um taxi do outro lado da avenida,
em frente ao Palacio do RAdio, pr6dio
hibrido de escrit6rios, consult6rios e
residencias.
Logo depois a doutora Clara Mar-
tins Pandolfo estava em seu gabinete,
no terceiro andar do pr6dio da Super-
intndancia do Desenvolvimento da
Amaz6nia, onde chefiava o Departa-
mento de Recursos Naturais, o DRN.
Ela talvez tenha sido a primeira mulher
a subir tanto na burocracia t6cnica ofi-
cial, corn tanto respeito.
Clara Pandolfo faz parte de um clu-
be restrito de mulheres pioneiras no
Par, raramente lembradas quando as
feministas de hoje fazem suas liba;es
ou perpetram andlises a respeito do
avanqo da mulher na sociedade local.
Estio no mesmo time Angelita Silva,
primeira engenheira civil do Estado,
leda Chaves, primeira engenheira agr6-
noma, e Anunciada Chaves, a eterna
mestra de hist6ria, que formou tantas
geraoqes e deixou como patrimrnio tao
pouco material escrito (sua these de cate-
dra no Paes de Carvalho, numa 6poca
em que professor secundirio tinha que
fazer a sua, acho que jamais foi publi-
cada).
Posilio singular Mas Clara Pan-
dolfo foi imica. Na Sudam, a principal
agencia regional, s6 nio foi superinten-
dente e talvez porque nio tenha queri-
do ser, nem se disposto a sujeitar-se ao
que o cargo imp6e. Tinha, porem, uma
voz autorizada na suprintendencia.
Quando se dizia que a declaragio tinha
vindo da "doutora Clara", a entonagvo
era diferente. A dona da opiniio tinha
hist6ria, muita.
Ela se formou na antiga Escola de
Quimica (hoje Nfcleo de Arte da UFPa,
na Praca da Repiblica) com o legendA-
rio Paul Le Cointe, urn dos mais impor-
tantes naturalistas da Amaz6nia. Deve
ter sido tambem a primeira quimica do
Estado, deixando marcas em seus alu-
nos e em alguns discipulos que formou.
Um deles me contou ter sido reprovado
porque a dra. Clara tornou-se sua pro-
fessora no final do curso, quando des-
cobriu que o primeiro professor sim-


plesmente desconhecia a mat6ria. Ela
conhecia e nio teve comiseracao: repro-
vou quem nao sabia e, a partir dal,
passou pelo menos a saber que nada
sabia, a primeira das attitudes filos6ficas
diante do conhecimento.
Do magistdrio, onde ficaram algu-
mas de suas companheiras de viagem, a
dra. Clara prosseguiu a carreira como
t6cnica e chefa, no que sua trajet6ria
passou a ser solitaria. Criou algumas
plataformas de acio. Sanem ela o Para
provavelmente nao estraria produzindo
tanto 61eo de denda como agora. Clara
Pandolfo apoiou as primeiras experiin-
cias conduzidas pela Sudam na estrada
do Mosqueiro, das quais resultou a
Denpasa e, a partir dai, os plantios e
usinas que estao levando o Pari a uma
posigio de lideranga no setor.
Clara Pandolfo tambem ten sua
presenga na origem ainda irrealizada -
da siderurgia no Park. Apostou tudo na
possibilidade de combinar o minerio de
ferro de Carajs com o cario infe-
lizmente antracitico, inadequado do rio
Fresco. Nao deu certo, no por falta de
empenho dela, desejosa de agregar valor
a mera mineraco que se estabeleceria
em Carajas, sem transformar o vale do
Tocantins num novo Rhur tropicaliza-
do.
Da agriculture para a mineracgo e,
dai, para a atividade florestal se expan-
diria o talent e a criatividade da
"doutora Clara", como todos a cha-
mam. Apadrinhou a interessante pro-
posta de criar as florestas de rendimen-
to, extensao, as florestas, dos contratos
de risco de petr6leo, sem serem exata-
mente isso. A id6ia original veio da
FAO (a organizacio das Naqes Unidas
para agriculture e alimenta&o, que foi
important na formaClo de engenheiros
florestais na Amaz6nia), mas veio numa
epoca errada e acabou, por confusio
corn a proposta inspiradora, sendo
combatida apaixonadamente, quando,
primeiro, deveria ter sido entendida.
Atuando em vArios campos do que
se transformaria progressivamente em
especializacio t6cnica, como uma ver-
dadeira herdeira do naturalista Le Coin-
te (de visao holistica, seria o jargio
atual), Clara Pandolfo sempre foi, so-
bretudo, envolvida pelo aproveitamento
das florestas.
Durante certo tempo, talvez deniasi-


ado, participou ou aceitou teses salvaci-
onistas oficiais sobre a ocupaqAo da
Amaz6nia pela pata do boi. Ao serem
formuladas, no inicio da d6cada de 60,
elas ignoravam o potential da floresta -
e no s6, nem principalmente, como
fonte de madeira s6lida, conform agora
sabemos (mas os viajantes pioneiros ji
sabiam desde dois s6culos antes).
A dra. Clara tentou uma combinacio
de id6ias, da corrente eco6gica e dos
assim chamados pragmticos ate o
inicio da d6cada de 80, quando passou
pela Sudam uma onda de selvageria
intellectual, so podemos assim defini-la.
Atrav6s de seu departamento, ela con-
tribuiu muito para que fosse impedida a
implantaio de fazendas em area de
mata densa, reservando-se para elas as
faixas de cerrado, cerradao e mata final
na faixa de transitio do Centro-Oeste
para o Norte, itens de uma trilogia de
alivio que ela recitaria durante anos,
procurando demonstrar que o dano da
bovinizaiao nAo fora tao grave quanto
parecia.
Mas acho que sua paciencia esgo-
tou-se quando novas fazendas foram
aprovadas para o Acre, a despeito de
parecer contrArio do seu DRN. Ja can-
sada por tantos anos de dedicaqco ao
servigo p6blico, Clara Pandolfo preferiu
aposentar-se, nAo tendo recebido uma
fracao das homenagens que sua longs
militincia em favor da Amaz6nia a
tomavam credora, ainda que pudesse-
mos discordar e nos opor a algumas de
suas id6ias. Mas, enquanto esteve no
seu cargo, a Sudam teve id6ias, enfren-
tando os torquemadas locals e garantin-
do, no seu gabinete, urn lugar tao unico
e especial para discutir quanto era, nas
ruas calorentas, ver aquela senhora
aplicadamente trajada e cuidada para
exercer a sua func9o e, em toda ela,
nunca deixando de ser mulher.
Afastada hi vrios anos da atividade
funcional, Clara Pandolfo continue a
escrever e a se interessar pelo que ocor-
re na Amaznia, um exemplo entire tAo
poucos que as mulheres e os amaz6ni-
das em geral tnm para nele se mirar.

De ferias
Jornal Pessoal s6 voltara a circu-
lar na segunda quinzena de feve-
reiro. Durante esse period estarei
fora de Bel6m e, depois, do pais.


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4Jornal Pessoal


A corrida para

chegar a PMB

U ma nova alianca PMDB-PPB,
com a chapa Elcione Barbalho-
Cipriano Sabino, poderi veneer a elei-
Cgo para a prefeitura de Bel6m ainda no
primeiro turno, desde que haja dinheiro
para promove-la e ela resista a um
bombardeio contrario.
Essa 6 uma das principals conclu-
s6es apresentadas pela terceira pesquisa
de opiniIo realizada na capital paraen-
se. A analise tern que ser relativizada
pelo fato de que a responsivel pela
pesquisa, a Opcgo Pesquisa Marketing
e Comunicacio Ltda., nao tem experi-
8ncia consolidada ou reconhecida nesse
tipo de trabalho. E o encomendador ser
o joral "Ditrio do Pari", do qual um
dos politicos diretamente interessados, a
deputada federal Elcione Barbalho, ser
um dos proprietarios. No entanto, essa
pesquisa guard alguma coerencia com
outras duas executadas pelo Ibope, a
mais acreditada das instituiCoes de pes-
quisa de opiniAo pfiblica do pais.
Antagonismo consolidado Elcione
Barbalho 6 a preferida do piblico
(ouvido entire 28 e 29 de dezembro),
tanto na pesquisa espontinea quanto na
estimulada. Na espontinea, ela tern
apenas um voto de vantage sobre o
prefeito H6io Gueiros, que at6 radical
e improvavel reform constitutional 6
inelegivel, mas seri o principal eleitor
na capital.
No entanto, se sustenta a diminuta
margem de um ponto percentual sobre o
atual alcaide, Elcione Barbalho abre
larga diferena sobre Hl6io Gueiros Jr.
(32% a 14%,), que 6 o segundo coloca-
do na pesquisa estimulada (quando o
nome dos candidates 6 apresentado ao
entrevistado).
O senador e ex-prefeito Fernando
Coutinho Jorge, o segundo colocado
virtual na pesquisa espontanea
(admitindo-se a inelegibilidade de Helio
Gueiros), baixa para terceiro na consul-
ta induzida, abaixo de Gueiros Jr..
Coutinho apenas dobra sua votacio da
espontanea para a induzida, enquanto o
crescimento de Elcione e de mais de
300% (indice s6 equiparado pelo depu-
tado estadual Cipriano Sabino, mas
crescendo de 2% para 7%). A favor do
senador do PSDB deve ser observado
que ele vem declarando n5o ser candida-
to (embora poucos acreditem na firmeza
dessa declarago).
Ja o crescimento do ex-prefeito


Sahid Xerfan, entire a espontinea e a
estimulada, 6 de apenas 50%, baixando
de 40 para 5 lugar, o que indica o baixo
grau de tendEncia expansionist dos
votos do empresario, sobretudo porque
ele 6 o segundo candidate mais rejeita-
do, depois do ex-govemador Carlos
Santos (que nio 6 candidate a prefeito
e, esperamos, nio o seri mais a nada na
political paraense).
O deputado federal Vic Pires Fran-
co, que ter tido a mais agressiva cam-
panha pr-eleitoral at6 Agora, permane-
ce cor o mesmo indice de preferancia
nas duas formas de pesquisa, mas cain-
do de 5* lugar na espontinea para 7 na
estimulada. Esse indice 6 quase um
atestado de 6bito da candidatura dele.
Nenhum eleitor escolheu Benedicto
Monteiro, mesmo Ihe send apresentado
o nome do candidate, que s6 teve regis-
tro na part de avalias o das rejeiges.
Vic Pires Franco 6 o terceiro mais rejei-
tado e, abaixo de dois digitos, v6m, pela
ordem, Hlio Gueiros Jr., Elcione Bar-
balho e Coutinho Jorge.
A pesquisa ten falhas claras. Nio
apresenta o nome de H6lio Gueiros na
estimulada, embora o faa na esponti-
nea. O mesmo acontece com Jader Bar-
balho, tamb6m nio incluido nas rejei-
coes (dado que permitiria dizer se ele
faz campanha pela ex-esposa ficando
em Brasilia melhor do que vindo a Be-
l~m, o que parece mais provAvel).
0 deputado estadual Zenaldo Couti-
nho, candidate declarado a candidate,
nio lembrado pelos entrevistados na
espontinea, estranhamente nio teve seu
nome arrolado na pesquisa estimulada.
As interpretaoes dos dados forneci-
dos pela Opcio, portanto, tnm que ser
feitas com reserves. Cor elas, por6m,
ji se pode prever mais uma eleiqio ple-
biscitaria entire os Gueiros e os Barba-
lho, pesar de ambos os nomes sofrerem
um crescent process de rejeicao. Pa-
radoxo, mais um, tipico da political
fisiol6gica praticada no Parn.


0 ministry

e os indios

E m 1991 o advogado Nelson
Jobim, chefe de um dos mais
famosos escrit6rios de advocacia de
Brasilia, recebeu 50 mil dolares do go-
vero do Para administrationo Jader
Barbalho) por um parecer que suscitava
a inconstitucionalidade do decreto 22,
naquele ano assinado pelo entio presi-
dente Fernando Collor de Mello.


O parecer sustentava que a Funai
(Fundaio Nacional do indio) nao podia
definir unilateralmente a delimitag o de
reserves indigenas nos territ6rios esta-
duais sem ferir o principio federativo
brasileiro e o principio do contradit6rio
que define o direito processual.
Dois anos depois o Supremo Tribu-
nal Federal reconheceu a constituciona-
lidade do decreto, argumentando que o
process administrative difere do judi-
cial e que o Estado 6 soberano ao agir
administrativamente. Quem nao concor-
dar cor seus atos que recorra a via
judicial.
Dois anos depois de perder a causa
em juizo, o advogado Nelson Jobim
pode vence-la pela via administrative
pelo simples fato de que pulou a cerca
e, de antagonista da Funai, virou seu
superior, na qualidade de ministry da
Justica.
Foi como ministry que Jobim, indife-
rente aos aspects 6ticos da situaco,
aconselhou o president Fernando Hen-
rique Cardoso a assinar, no dia 8, o
decreto 1.775, praticamente incorpo-
rando ao texto legal a essencia do pare-
cer que vendera ao governor Jader Bar-
balho.
Contradit6rio administrative -
Cor o decreto, as pessoas contrariadas
com a delimitacAo de territ6rios indige-
nas poderio contestar sua demarcacao,
para isso apresentando seus titulos de
dominio ou alegando a posse exercida
sobre a Area. O que antes era um ato
absolutista da autoridade piblica legal-
mente competent, agora passara a
defender de um contradit6rio sujeito a
arbitramento, surgindo uma terceira
figure na question.
Outra inovagio, esta ainda mais
grave, 6 que mesmo as reserves demar-
cadas pela Funai e homologadas pelo
president da Repiblica poderao ser
contestadas, caso uma formalidade
burocritica o registro das terms no
Servigo de Patrim6nio da UniSo ou em
cart6rio de im6veis ainda nio tiver
sido cumprida.
Nesta ultima hip6tese se encontrari-
am 344 das 554 Areas indigenas conhe-
cidas no Brasil, ou 70% do total, se-
gundo dados apresentados por entidades
indigenistas. Uma situacao em vias de
consolidacqo se reabriria, assim, ao
litigio, com as consequencias previsiveis
em relago aos conflitos.
Os defensores dos indios ja expres-
saram sua indignaq~o com a iniciativa
do governor federal e anunciaram a pro-
positura de uma aco direta de inconsti-
tucionalidade. O debate deveri se tornar


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Jornal Pessoal






Jornal Pessoal 5


ainda mais passional e antag6nico, mas
conv6m fazer algumas reflexes a res-
peito.
Inegavelmente a Unilo decidiu per-
petrar um golpe contra si mesma, tor-
nando contradit6rio um process que
era essencialmente administrative e,
por isso, unilateral. A Funai providen-
ciava um laudo antropol6gico e, com
base nele, recomendava ao president da
Reptiblica a reserve da area assinalada
em favor de tribes indigenas.
Agora, particulares, prefeituras e
governor estaduais poderio questioner
as descrigces da irea e impedir que se
consume sua inscrigio no SPU ou no
cart6rio imobiliArio como terras indige-
nas incorporadas ao patrim6mio da
UniAo.
O ministry Jobim, como, antes, o
advogado Jobim, diz que a unilaterali-
dade 6 violaao de direito e ante-sala de
erros ou abusos cometidos pela Funai.
Os indigenistas retrucam que os insatis-
feitos 6 que devem procurar o bispo no
caso, umjuiz.
A parte a discussAo de merito, hi um
dado de natureza 6tica e moral: todas as
terras brasileiras foram, originalmente,
de dominio dos indios, da mesma ma-
neira como nio hA terrs particulares
que nAo tenham sido, antes, do poder
public.
Aplicado literalmente, esse principio
levaria A devolucAo do Brasil aos tupi-
nambas e congEneres, hip6tese tao ab-
surda quanto a de querer negar-lhes o
direito dominial. O indice de sabedoria
esti justamente no equilibrio da compa-
tibilizagAo do direito originArio A situa-
cao atual, na qual os indios sao das
menos expressivas das minorias raciais
do pais.
Nossos antepassados indigenas ja
possuem direitos sobre 10% do territ6-
rio national, o que 6 uma porcio consi-
derivel e at6 mesmo just (ou mais que
justa. No entanto, nem todo esse terri-
t6rio se encontra perfeitamente legaliza-
do.
Em 85 anos de political indigenista
republican, iniciada cor o SPI
(Servigo de Proteio ao indio) dos mili-
tares positivistas do inicio do s6culo, o
govemo nio assegurou a legalizagIo de
mais do que 30% dessa dominialidade
tribal. O insucesso das metas, constan-
temente prorrogadas, deve-se, em parte,
ao contact sucessivo de tribes at6 en-
tao isoladas ou desconhecidas. Mas
tamb6m pode ser atribuida i inefici8n-
cia, burocratizaClo e corrup Ao do 6r-
gao tutelar dos indios, que 6 a Funai.
Muitos dos critics que hoje defen-


dem o poder informative e arbitral abso-
luto da Funai sAo os mesmos que criti-
caram e cor razao a atuacio da
fundag~o, um cabide de empregos, con-
veniencias e interesses dificil de concili-
ar cor o ideal romrntico criado por
Rondon.
No entanto, a solugio pode estar na
desinfec~io e fortalecimento da Funai,
consolidando-a como 6rgao t6cnico de
excelncia, despido de seu espirito mer-
cantilista e de seu instinto militarista, ao
inv6s de enfraquec6-la.
Para que isso ocorra, por6m, nio
contribui apenas ser a favor dos indios.
Nem sempre os indios estio certos,
como a verdade nio 6 um patrim6nio
natural, uma virtude imanente de antro-
p6logos e associados.
E um erro o governor transformer um
process administrative em process
judicial, que requer arbitramento de
terceiro, quando o 6rgao competent 6 -
ou deveria ser a Funai, Arbitro em
ultimo grau na instincia governmental.
Mas, internamente, ter que fazer uma
revisio conscenciosa e corajosa do pa-
trim6nio indigena a consolidar, nao
abrindo mio, no entanto, do que jA foi
conquistado e conquistado ao custo de
muito sangue, sem que seja esse sangue
uma figure de ret6rica, como nos dis-
cursos de politicos clientelistas e buro-
cratas intermediarios.

Quem manda
O Pard 6 o terceiro maior produtor de
energia do pais e, de muitissimo lounge,
o maior na area de jurisdiqAo da Eletro-
norte. A sede da empresa de energia
el6trica da regiio Norte, no entanto,
continue em Brasilia desde que a em-
presa foi criada, em 1973. P um dado
da fraqueza do Pari.
O outro: M tres administraoes o
senador Jose Sarney 6 quern indica o
president da Eletronorte, embora gran-
de parte da energia consumida pelo
Maranhio seja oriunda do Para. A forqa
de Sarney neste aspect 6 tanta que
mesmo depois do estrago causado por
seu afilhado, Aluisio GuimarAes Men-
des, demitido no mes passado por haver
favorecido a Construtora Andrade Guti-
errez num pagamento pelas obras da
hidrel6trica de Balbina, ainda vai poder
indicar o successor de Mendes.
Diz a imprensa que Samey vai poder
repetir o apadrinhamento por bom com-
portamento: "o senador nio procurou
evitar a demissao, nAo interferiu em
socorro do protegido e, cor isso, ficou
no cr6dito", com diz o "Informe JB", do
"Jornal do Brasil".


Ora, comb diria o alcaide H6lio
Gueiros, Sarney n~o mugiu e n~o tossiu
porque seu afilhado era indefensivel. O
sil8ncio, assim, deixa de ser demonstra-
cqo de integridade para se tornar sinal
de esperteza. Corn a qual ele vai levan-
do os paraenses na flauta, talvez porque
por aqui at6 de Sameys estamos caren-
tes. Deus nos valha.

0 record

do manganes

D esde que a ICOMI reduziu sua
escala de produqio, na passage
dos anos 70 a 80, nunca se tera produ-
zido tanto manganes quanto neste ano
em Carajas. Devera ser batido o record
de 1995, que foi de 1,2 milhlo tonela-
das, com as 1,5 milhAo de toneladas
previstas para 1996, volume inimagina-
vel quando a exploraqAo da jazida do
Azul comeou, 10 anos atras.
Assim como era imprevisivel a reali-
dade iniciada hA uma d6cada, parecem
esquecidas as lies dadas a partir do
final dos anos 40, quando, no Amapa,
comegou o primeiro dos grandes proje-
tos da nova era da Amaz6nia.
Durante tres d6cadas e meia man-
damos manganes para o mercado inter-
nacional, ajudando o maior dos com-
pradores, os Estados Unidos, a former
estoques estrat6gicos e se precaver con-
tra o antigo fornecedor quase exclusive,
o GabSo, na Africa. 0 manganes do
Amapa perdeu o seu filio e Agora co-
meca a ser museu sem que tivesse sido
formado um parque sidernrgico ou
qualquer integraaio economica, ficando
literalmentd um buracxo fisico, mental e
de hist6ria no antigo territ6rio.
Vai ser a mesma coisa em CarajAs?

Hipnose bancaria
O gerente de uma instituiiao finan-
ceira federal estabelecida em Be-
lem vai entrar para o Guiness4 da cria-
tividade. Flagrado em sindicincia con-
cedendo financiamento bem acima de
sua alcada e sem garantias reais, nao se
perturbou.
Explicou que o procedimento, con-
tririo As normas bancirias, tinha uma
causa: o client o havia hipnotizado.
Isso mesmo: o dinheiro fora arrancado
da instituigio gracas a um poderoso ato
de hipnotismo.
Zero em seriedade, 10 em imagina-
gio, nAo o bastante, por6m, para poupi-
lo de ser afastado da funglo. Incorrigi-
vel o ceticismo human, deve ter pensa-
do.






6 Jornal Pessoal


A cultural:

para que?
D urante dois anos duros de estudos
em Sao Paulo, os negrissimos
tempos de 1969-70, passava horas qua-
se diarias na Biblioteca P6blica Mario
de Andrade, pr6xima i sede do jomal
onde trabalhava, na rua Sete de Abril.
Tornei-me client cativo. 0 dinheiro
dava para comprar apenas uma parcel
menor das minhas necessidades de leitu-
ra. Li obras valiosas na biblioteca pu-
blica da praca Dom Jos6 e passei a
respeitar a importincia desses centros
de saber. Serei eternamente grato a
"MArio de Andrade".
Lembro bem dessa 6poca sempre
que precise ir a Biblioteca Publica do
Para, o que, hoje, 6 raro (felizmente
tenho a minha, razoavelmente equipa-
da). Cruzo com dezenas de aflitos estu-
dantes, sem alternative para suas em-
bora ineficazes pesquisas escolares.
Quase todos acabam ali mesmo, aglo-
merados como sardinhas nos piques de
procura.
Penso tamb6m no drama das aten-
dentes, lembrando um senhor encaneci-
do ("seu" Greg6rio) que me atendia,
pobre e solicito, um verdadeiro conhe-
cedor de livros, em Sao Paulo.
Bibliotecas publicas t6m que ser
prioridade em qualquer pais, em qual-
quer cultural, em qualquer area onde-
existam. Slo, no minimo, o respiradou-
ro local de cultural, a oportunidade que
se di a pessoas sem dinheiro suficiente
para saciar sua sede de cultural e infor-
maq~o.
Cultural pra qua? Chocam-me,
por isso, as declaraqes do secretArio
adjunto de Cultura do Estado, o arquite-
to Jaime Bibas, que sei uma pessoa
sensivel. Ele deu iracunda entrevista a
um reporter de "O Liberal" que foi
entrevistA-lo no Centur, transformado
em autEntico Saara por um estouro de
canos de agua que atingiu e inutilizou o
sistema de refrigeracao. Talvez o calor
esteja na raiz das infelizes palavras
usadas por Bibas para justificar o des-
caso da administraqo Almir Gabriel
pela cultural em geral.
Entende-se que nAo haja verba para
trazer Pavarotti ou o Bolshoi. Esta 6 a
cultural sobrenadante. Quem gosta pode
ir atras, ou esperar que a montanha
venha a Maom6. Mas crianga precisa
ter condic6es minimas para ler e estu-
dar.
Naquela estufa de vidro e concrete
chamada Centur, o ar condicionado e


essential (para os usuirios e, por exten-
so, para os funcionarios tamb6m),
infelizmente, como 6 essencial aproxi-
mar as jovens geraqCes do livro e das
bibliotecas. A concorrencia dos games
eletrr6nicos e da multimedia & despro-
porcional. Contra um meio que faz suar
is bicas, sera um massacre.
0 Century foi feito para ser, apenas e
tio somente (o que ji seria bastante,
consideradas suas caracteristicas arqui-
tet6nicas), biblioteca. Mas como autori-
dades, a semelhana de Bibas, jogam a
indiscriminada cultural para escanteio,
outros segments foram se apossando
do pr6dio e acabaram deixando menos
da metade do espaco para sua destina-
Cao original e, a despeito da ma von-
tade dos pragmiticos, a mais nobre.
Era indispensivel ter mais espaao,
mais gente e mais recursos para impedir
a constant depredago que a biblioteca
p6blica do Estado sofre por conta de
professors (e mandantes em geral) que
encomendam pesquisas sem qualquer
preocupacSo corn a sua execucio e as
condiges de trabalho dos alunos-
tarefeiros (funcionando mais como des-
carga de consciencia do que procedi-
mento pedag6gico). S6 assim se poderia
poupar os livros das rasuras, das muti-
lacqes e das incompreens6es de toda a
ordem, formando pessoas cultas e nio
depredadores do conhecimento.
Ler 6 uma arte, a meu ver a mais
prazeirosa de todas. Um apreciador,
antes de penetrar no texto propriamente
dito, havera de usufruir do trabalho
grifico (e, para os compradores de pri-
meira mio, ate do gozo olfativo que a
tinta e o papel proporcionam). Mas nas
condicqes normais oferecidas pelo
Centur, mesmo cor ar condicionado,
ler nio 6 muito mais do que cumprir
uma tarefa macante. No Saara atual, 6
um martirio.
Nio, caro Bibas: cultural nio 6 coisa
de elite, nAo 6 ornament de curriculos,
nao 6 mote academico, nem verniz de
cart6es de apresentagao. Pela cultural
mede-se a civilidade e a civilizacao de
um povo. Por ela mede-se o nosso nivel,
que, aliAs, estA muito mais baixo do que
seria de se esperar. NAo o abaixe ainda
mais, carissimo Bibas.

A privatizagao

da CVRD

D esencadeado o process de priva-
tizac~ o da Companhia Vale do
Rio Doce, empresa que responded por
quase 20% de tudo o que se arrecada de


impostos no Para e por 70% da receita
de exportaiao do Estado, alguns pontos
m parecem cruciais seguir:
1 0 prazo dado pelo governor para
a privatizacao exageradamente consul-
to. Nio basta inventariar o ativo da
empresa e modelar a forma de venda.
Essas sio as informaces preliminares a
serem forncidas a opiniAo p6blica para
um debate amplo e profundo, sem que a
alienagio da empresa estatal seja um
clausula petrea, imutavel.

2 Para que essa garantia seja obti-
da, 6 precise excluir a CVRD do pro-
grama de privatizacAo do BNDES, sem
que isso signifique deixar de, no future,
vender a empresa. A Vale nio onera o
tesouro, nio atua em setor monopolista
(ao menos na forma classica) e 6 renti-
vel. Logo, nao se enquadra na filosofia
da privatizago. Por outro lado, o apelo
para vende-la logo esti nas dificuldades
de caixa do governor, que nio serio
significativamente aliviadas pela transa-
cao.
3. A parte do capital da CVRD sob
control da UniAo, de pouco mais de
50% das acSes, se for vendida, tera que
ser pulverizada, evitando que un s6
comprador adquira mais do que 3 ou
1,5% das ac6es, nesse total ji computa-
das as aq6es hoje em poder de particula-
res.
4. A CVRD s6 poderi ser vendida
por inteiro. FracionA-la significaria
enfraquecer sua posiqgo de verdadeira
empresa p6blica, que seria o objetivo
mais nobre da pulverizaago das suas
agoes.
De minha parte, continue sendo
contra a privatizaqao, principalmente
porque a Vale, sendo uma empresa de
direito privado que incorporou todas as
vantagens de mercado, 6 uma fonte de
pensamento e posigio estrat6gica para o
povo brasileiro. Suas deficiencias pode-
rio ser resolvidas, pondo fim a suas
amarras burocriticas, com um estatuto
juridico semelhante ao que 6 proposto
para a Petrobaris.
Acho que, nestas condices, todos
sairiamos bem servidos.


A ameaga


N a Rep6blica, pouco tempo atras, o
grande problema era o primeiro
irmAo. No Estado, se nao houver aten-
cao e cuidados, em breve podera ser o
segundo filho.






Jornal Pessoal 7


Um jurista

de verdade
M uita gente no Para se consider
ou 6 tratada como se fosse juris-
ta. Qualquer advogado mais destacado
logo recebe o titulo. Jurista para valer,
por6m, hA muito poucos no Estado.
Certamente Silvio de Bastos Meira, que
morreu no ultimo dia do ano passado,
em Londres, estava entire essa minoria.
Era, de fato, um jurista, romanista
como poucos houve no pais, capaz de
atravessar fronteiras deixando para tras
os favors declarat6rios da provincia.
Mas dai a considera-lo o maior ro-
mancista paraense, maior do que Dal-
cidio Jurandir, 6 um desprop6sito. A
ficcqo era uma faceta menor de Silvio
Meira, como a pintura. Seus tres ro-
mances valem como documentacio de
6poca e de region, mas tem pouco valor
literirio. Nio hA como eleva-los aos
niveis que Dalcidio alcanqou, nao por
uma, mas pelo conjunto de obras do
"Ciclo do Norte", sem igual na literatu-
ra national.
E uma pena que o registro de morte
se transform, frequentemente, numa
bajulaqo sem medidas. Ningu6m vira
perfeito s6 porque more. E precise
respeitar o desaparecimento das pesso-
as, sentindo-lhes a ausencia, sem per-
der, entretanto, o juizo critic sobre
elas, que, artificialmente engrandecidas,
logo estario sujeitas a revises fulmi-
nantes. E precise olhar cada personali-
dade em sua inteireza, feita de coisas
boas e mis, virtudes e defeitos, simpatia
e antipatia.
Silvio Meira foi uma grande perso-
nalidade, talvez afetada por uma vaida-
de sem peias, mas marcante nio s6 nos
limits da provincia. Pertence a um tipo
de gente que consegue desenvolver-se
intelectualmente e, ao mesmo tempo,
realizar uma certa carreira public,
algumas vezes political. E a familiar
Meira, o maior clA do Pari republican
entire alguns poucos, que se transferiram
ou se extinguiram localmente, como os
MacDowell, 6 uma estufa e uma encu-
badora intelectuais formidAveis, a espe-
ra tanto do historiador de families como
do romancista dos dramas.

Agao decidida
A juiza da 16' Vara Civel do forum
de Belem, Eliana Daher Abufaiad,
decidiu extinguir o process atrav6s do
qual Rosangela Maiorana Kzan, direto-
ra administrative do grupo Liberal, por


meio de uma agio cautelar inominada,
tentava me proibir de cita-la neste jor-
nal. A media significaria, se concedi-
da, censurar por via judicial um 6rgao
da imprensa peri6dica, o que a Constitu-
icao Federal nio permit.
Na sua decision, a juiza declarou a
autora da cautelar "carecedora do direi-
to de aco por faltar-lhe uma das condi-
ices para o seu exercicio (possibilidade
juridica do pedido)". Em terms juridi-
cos, Rosingela Kzan estava pretenden-
do o impossivel. Em consequEncia, a
juiza condenou-a "no pagamento das
custas processuais e honorarios advo-
caticios".
Esta foi uma das cinco aces (as
outras quatro sio penais) ajuizadas pela
diretora do SRM contra mim no f6rum
da capital em funcgo de artigos publi-
cados neste journal, entire 1992 e 1993,
sobre as cisoes familiares no grupo
Liberal. A decisao da juiza Eliana Abu-
faiad foi a primeira, em quatro, que me
foi favorivel. As outras tres, todas da
juiza Ruth do Couto Gurjio, me conde-
naram.

Zona sugadora
U m nimero impressionante: a
Amaz6nia, com 6,2% da popula-
co brasileira, absorve 38,43% da re-
nuncia fiscal do Tesouro national.
Este 6 o peso da Zona Franca de
Manaus, por seu mais exato retrato.
Logo, nao 6 questAo exclusive da capi-
tal amazonense. Os brasileiros, que
abrem mio de uma larga parcela da
receita tributiria em favor da ZFM,
devem ao menos dar palpite sobre sua
melhor configuragAo que, evidente-
mente, nio 6 a atual.


Rede fraca

A situago da rede bancAria no
interior do Estado (como, de
resto, de quase todos os services, publi-
cos ou privados), merece uma atencro
especial. Segundo dados do pr6prio
govemo, 42% dos municipios paraenses
(antes do mais recent surto de criaqao)
n~o disp6em de agencia bancaria.
A situacio pode se tomar ainda mais
grave com a compactaio das redes
particulares e o encolhimento dos ban-
cos publicos, que, neste aspect, preci-
sam realmente de uma political de servi-
9o public (mas sem clientelismo politi-
co), que a rede particular nio pode ofe-
recer.
Maos a obra.


Sem elite
S e houvesse elite esclarecida no
Para, ela teria se unido para com-
prar o predio da "Paris n'America",
transformando-a num clube, mesmo que
de funcionamento exclusivamente no-
turno, cor seguranca particular e um
entendimento cor o poder public para
assegurar a tranquilidade da area do
entorno.
Mas a famosa loja, um dos biscuits
arquitet6nicos da cidade, foi comprada
por Bechara Mattar, cujo tipo de neg6-
cio 6 um dos nossos soberanos varejis-
tas, o rei dos fogos alarmou os preser-
vacionistas da hist6ria e da mem6ria.
Ao contrario do que se pior se temia,
o novo proprietArio tratou ben do im6-
vel. Ou vinha tratando bem, ate anunci-
ar um projeto de "popularizacAo do
estabelecimento, alterando o perfil dos
produtos".
Definitivamente, nio se pode elogi-
ar?

Greve

previa

E m materia de greve, a que os fun-
cion'rios da Secretaria de Educa-
co pretendiam realizar foi demais: iria
ocorrer no mesmo dia do pagamento. Se
o dinheiro nio saisse, o sindicato co-
mandaria a imediata paralisaio e
ainda contando errado os cinco dias
uteis previstos em lei como limited para o
pagamento.
Como a Seduc ter mais de 55 mil
funcionarios, convenhamos que a greve
seria um pouco de intolerincia. Feliz-
mente, nao saiu.


Concentrapio

os 120 milh6es de reais de cr6di-
tos que o Banco do Brasil estA
tentando reaver na praca de Bel6m, 70
milh6es sao devidos pela Rodomar, do
grupo A. R. Cabral, cujos bens, ofere-
cidos em garantia, jamais daro para
cobrir o debito.
A pergunta tem procedencia: como o
BB permitiu uma tal concentraio? E
como o financiamento chegou a esse
volume?
As explicac6es bem que poderiam
ser dadas de public.







Rede de brilho
Ste algum tempo atrAs as farmicias
fechavam as portas. Agora elas
se multiplicam e ganham uma midia
antes impensavel. Tudo por causa do
incrivel florescimento da rede Big
SBen nos iltimos dois anos, chegando
a 17 pontos de venda, inferior em
lojas A rede concorrente que se
formou, a "Menor Prego", esta, no
entanto, constituida por diversas
empresas enfrentando uma outra,
agigantada.
Numa cidade alertada para o
surgimento de empresas de fachada
destinadas a lavar dinheiro sujo, o
surto da Big Ben, sem paralelo na
hist6ria do comdrcio farmaceutico de
Bel6m, asustou e ainda intriga. Os 1
donos tem uma explicagao simples:
passaram de atacadistas para
varejistas, podendo oferecer mais
opq6es e por menores pregos. Tanto
havia gordura exagerada no setor que
os concorrentes tambem passaram a
dar descontos mddios de 20%, o que
tern sido bom para o consumidor.
Persistem as dividas quanto a
origem do capital, a serem
respondidas quando a imprensa se
interessar por elas de maneira mais
consequente. Mas o surgimento da Big
Ben, com toda a sua aura de mistdrio,
deu brilho a esse setor do comercio.
Depois de beneficiary o consumidor,
tambem comega a favorecer o Estado.
Afinal, ja nao 6 mais heresia nessas
lojas pedir a nota fiscal.

Os fiscais
D en6ncias sobre a a9go de
"encostados" e parents nas
delegacias fiscais do interior do
Estado sao tAo antigas quanto as
lendas sobre o enriquecimento de
alguns fiscais, todos os anos
indicados para atuar sobre as mesmas
e rentaveis empresas. Age
corretamente o Sindicato do Grupo
Ocupacional Tributag9o,
ArrecadagAo e Fiscalizailo da
Secretaria da Fazenda apontando os
varios casos mais flagrantes que se
conhece no interior. Mas tambem nao
estava na hora de pedir a apuraalo
na capital? Assim nAo iria parecer A
opiniao publica que 6
corporativismo.


0 paquiderme


As informaraes at6 agora divulgadas
sobre o "caso Sivam" sao o bastante
para qualquer observador
descomprometido concluir que o
Sistema de Vigilincia da Amazonia,
bichado at6 a raiz, deve ser restabelecido
nos padres de uma sociedade
democrdtica e civilizada. Um
investimento de 1,4 bilhAo de d6lares nio
pode ser decidido atrav6s de carta-
convite, a partir de um estudo de gabinete
de um 6rgAo de inteligancia associado a
uma das tras Forgas Armadas e suas
extens6es civis.
Uma concorrencia piblica
aberta, no ritmo recomendAvel pelo
-interesse pfiblico, expurgara o
Rograma de seus vicios e poderA
mostrar que, ao inv6s de 1,4 bilhlo
de d6lares, pode-se gastar US$ 500
milhoes para fazer a mesma coisa. O
que o governor brasileiro quer fazer
com o Sivam s6 se equivale ao que a
Marinha dos Estados Unidos ira
realizar corn o JPATS, um sistema
englobando 750 avi6es, contrato de
US$ 1,7 bilhao que deveria sobrar
para a Embraer e acabou nas maos
da mesma Raytheon que abocanhou
o nosso Sivam.
Parar o Sivam nao 6 attitude
geopolitica ou outros esoterismos. t
media da mais absolute economic e
de interesse piiblico. O resto 6
conversa fiada para ganhar a adesio
do Toninho Malvadeza e fazer passar
o paquiderme pela goela do
Congress.


Corregao

C omo deve ter ficado claro aos
mais atentos, estejornaierrou ao
se referir a Amaro Klautau como
secretario de Obras. Ele 6 secretdrio
de Transportes. No mais, o raciocinio
nio foi afetado, como nio hA o que
mudar na matdria de andlise do
primeiro ano do governor Almir
Gabriel, mesmo quando se informou
que o 130 salArio ficou para 1996,
quando o correto 6 que o saldrio de
dezembro comegou a ser pago no ano
seguinte, ainda referente ao exercicio
anterior, enquanto o 130 foi quitado
antes.


O candidate

S e a pesquisa divulgada pelo
"Diario do Pard" for correta b Vs
tendencias nela apontadas \se
mantiverem, apenas dois candidates
seriam capazes de unir H~lio Gueiros
e Almir Gabriel numa nova coligaAio
eleitoral: Fernando Coutinho Jorge e
Sahid Xerfan. Mas, pelos nimeros da
pesquisa, Coutinho leva a vantage
de estar na frente e de enfrentar menos
rejeigao. Vai continuar dizendo que
nao concorrerd?

0 alcaide

or tras do desejo de realizar o carnaval
na avenida 25 de Setembro, sobre o
qual o prefeito Holio Gueiros tanto insisted,
deve star a intengio de represilia. Os
moradores nAo aceitaram os pianos da
prefeitura para aquela art6ria e, de castigo,
nio receberam o asfalto espalhado por
todo o Marco. Agora, vIo ter que
conviver com alguns dias de muito
barulho e sujeira. O alcaide 6 a lei.


Seguranga

Slouvivel a iniciativa da Secretaria
de Seguranca de criar um sistema
orginico para a policia paraense, corn a
inteligencia na retaguarda e uma van-
guarda mais preparada. E a primeira
vez que se tern para valer um piano de
seguranqa no Estado, cujo conte6do
ainda merece melhor andlise. Alem de
faz--la, ji que o document caiu de
surpresa na Assenbl6ia Legislativa, a
opiniao public deve acompanhar corn
atenao a execuqio do que foi delineado
e prometido.


Editor: Lucio Flivio Pinto'
RedagAo: Av. Goverador Jose
Malcher, Passagem Bolonha, 60/B,
66.053-040
Fones: 2231929-2237690-2243728
Belem Pari