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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO ANO/X No 134 Ia QUINZENA DE JANEIRO DE 1996 R$ 2,00 BELEM Aceitando o pouco A capital paraense faz 380 anos, comemorados com bugigangas que sao vendidas ao grande puiblico como se fossem grandes obras. Ninguem pergunta quanto pagou pela festa. No final do ano passado o Banco Interamericano de Desenvol- vimento (BID) aprovou um emprnstimo de 180 milhoes de d6lares para o Projeto Favela-Bairro do Rio de Janeiro. E para urbanizar um tergo das favelas cariocas, realizando a infra- estrutura de 150 loteamentos clandesti- nos, onde moram 340 mil pessoas. Para complementary o investimento, a prefei- tura do Rio de Janeiro entrara corn US$ 120 milh5es de recursos pr6prios. Com o pacote, fechado em novembro, o BID somou US$ 568 milhoes de empresti- mos a ex-capital federal. Veja-se, em comparaqio, o caso de Bel6m, cidade quatro vezes menor. O BID aprovou financiamento de US$ 145 milh6es para o program de sana- mento das baixadas da cidade, para uma contrapartida de US$ 80 milh8es do Estado, somando US$ 225 milhoes. t o maior investimento public em de- cadas da hist6ria da capital paraense. Proporcionalmente, 6 bem mais do que o BID destinou ao Rio de Janeiro para um program que, territorialmente, nio ter a mesma expression do que sera executado no Rio de Janeiro porque as baixadas slo concentradas espacialmen- te, assim como sua populagio. Essa comparaao mostra que Belem teria uma oportunidade rara para resol- ver seu principal problema urban e partir para um crescimento planejado e mais racional. No maior investimento public da cidade, sua prefeitura nao entra praticamente com recurso algum, limitando-se a ajudar no remanejamento da populagio. O Program de Macrodrenagem das Baixadas de Belem 6 ainda um resqui- cio da 6poca em que o prefeito da cida- de nio era muito mais do que -e gado do governador par assutoss mu- nicipais e este, na verdade, o adminis- trador principal da maior cidade do Estado. Mesmo num projeto menor, como o do Ver-o-Peso, foi esse o es- quema que funcionou. Hoje, o Macrodrenagem estA atrasa- do um ano, a contrapartida do Estado aos recursos do BID defasou, hA d6lares retidos e o Estado paga o custo de um dinheiro que nao usou. O prefeito mu- nicipal, que nada tem a ver diretamente com o program, apresenta como um dos empreendimentos mais importantes do seu final de gestio um arranjo vare- jista costumeiro para ganhar votos nas areas alagadas da cidade. Belem comemorou seus 380 anos de fundac~o cada vez menos exigente, menos audaciosa, menos i altura da solucgo para os seus problems. 0 pre- feito Helio Gueiros imp6s A coletividade os antolhos de uma viseira que visa apenas obras imediatas, de curto folego, isoladas e que, por isso, n5o formal um todo, um piano. O uiltimo deles, ainda que setorial, deixado por consultores japoneses, 6 ironizado pelo alcaide como sendo ape- nas ex6tico, sem que o julgador tenha lido uma de suas paginas sequer. Os globais remontam a decade de 70 e ao inicio dos anos 80. Permanecem virgens nas prateleiras, embora tenham tido um custo razoAvel para o erario. Beldm gastou 5,5 milhoes de reais corn duas obras paisagisticas e aplicara outros RS 7 bilh5es em um terminal psqueiro de configuraqo polemica, alem de outros tantos milhies no reves- timento das mesmas vias de trifego periodicamente asfaltadas e, em segui- das, deixadas por conta das intemperies do tempo, nos containers de lixo arren- dados, como alugadas sio as ambulin- cias do service 192 e os abrigos de 6ni- bus, todos em ferro, naturalmente, que e para agradar a parentela & agregados. A soma disso tudo, ninguem sabe. A serventia, esta a midia inflaciona, fa- zendo ignorar os aspects critics, mo- vida a verbas publicitirias por quem sabe trazer para si a imprensa, premi- ando atW mesmo inimigos, desde que nro se mantenham ao largo e reserve algum espaco para divulgar as grandes obras municipals. Ninguem desaprovara o que foi rea- lizado, com dedicag o e esmero, no Bosque Rodrigues Alves. A inducio da midia havera de sufocar o c6ro dos descontentes com o custo da obra (oficialmente, R$ 1,2 milhao), onerado por novas grades de ferro, claro per- feitamente dispensaveis (as anteriores ainda eram da administraio Coutinho Jorge). Da mesma maneira, e bom ter um novo cartAo postal corn as obras na Doca, mas ao preco official, ressalte-se - de R$ 4 milhoes? O resultado nao 6 satisfat6rio por nenhum fingulo. Como via de rolamento, excede de muito a demand, ja que o grosso do trinsito apenas cruza a avenida, fluindo pelas > 2 Jornal Pessoal transversais. Como centro de lazer, 6 mesquinha, reservando nesgas a pedes- tres e cndidatos a atletas que circulam em torno de un esgoto a c6u aberto, tendo mon6xido de carbon a vontade para aspirar a partir do avanco do dia. No entanto, gragas a manipulao ele- tr6nica, muita gente posta-se na Doca como se estivesse no Hyde Park, em Londres, ou no Central Park, em Nova York. Amarga e onerosa ilusao, que a magia do video adorna. Bel6m perdeu os terms de referen- cia e os par~metros de avaliago. Exige pouco, contenta-se corn menos ainda, nao faz perguntas, nAo canaliza suas insias e necessidades. Fica estrangulada entire dois movimentos antag6nicos. Demograficamente (e institucionalmen- te) 6 uma metr6pole em expansion, mas corn pes de barro econ6mico. Nio con- segue mais competir como centro de services, vive de funcmes institucionais do passado e no reencontrou sua voca- Vao produtiva. Seguramente 6 a capital brasileira que teve seu padrio de vida mais deteriorada nas duas 61timas d6ca- das. Mas esti disposta a esquecer tudo isso ao menor afago propagandistico, como o que fez o sabio em marketing - prefeito H6lio Gueiros na comemoraqo dos 380 anos, de olho na cidade como um instrument de perpetuacgo de po- der e de arranjo familiar e clientelistico. O que seri de Bel6m nos 400 anos? 0 sorriso oportuno D epois de quatro meses de distanci- amento, o governador Almir Ga- briel esteve no mesmo local com seu vice, H6lio Gueiros Jr.. Foi na solenida- de de comemoraqio dos 380 anos de Bel6m, promovida pela prefeitura no reinaugurado Bosque Rodrigues Alves. Nenhuma mencAo na imprensa a esse fato. Apesar de tantos rep6rteres presents, a opiniAo public ficou sem saber se os dois se cumprimentaram, se ficaram juntos por algum moment, se conversaram e outras banalidades que sempre interessam e, as vezes, valem mais do que os fatos grandiosos, dos quais sAo simbolo e sinal. O govemador Almir Gabriel poderia ter inventado uma desculpa e se ausen- tado do ato. Mas l1 compareceu, levou assessores e foi pr6digo em palavras e sorrisos ao lado do anfitriAo, que o ha- via convidado dias antes, para isso in- terrompendo uma abstinEncia de conta- tos pessoais que ja demorava meses tamb6m. A felicidade estampada no rosto do governador parecia indicar que ele con- siderava insignificant o fato de estar prestigiando algu6m ou um grupo que o enfraquecia. Afinal, como testemunhou seu lider na Assembl6ia Legislativa, deputado estadual Luiz Otavio Campos, toda a confusao preparada pelo vice, em setembro, ao assumir o lugar do titular, foi, no minimo, acompanhada pelo pai, que, depois, publicamente, a apoiou. Por causa desse desentendimento, o governador do Para ter se privado de viajar, deixando de comparecer a encon- tros importantes que tnm sido realizados em Brasilia, desatendendo, em algumas ocasi6es, ao chamamento do lider maior de seu partido, o PSDB, o president Fernando Henrique Cardoso. Tudo porque sao imprevisiveis os atos que H6lio Gueiros Jr. poderia adotar se novamente ficar no lugar de Almir. Sem troco Al6m dessas circuns- tincias mais graves, que ja causam danos a gestio do Estado, hi outros components tipicos da forma de H6lio Gueiros fazer political. Ele ja desmarcou um encontro cor o governador, deixan- do-o consternado, e tern viajado sempre que um ato do interesse do govemo do Estado se realize, como aconteceu com a visit de Fernando Henrique a Bel6m e Barcarena. No entanto, ao aproximar-se a data da solenidade dos 380 anos, H6lio Guei- ros tratou de buscar o apoio do gover- nador, mesmo que na solenidade fosse medalhar seu filho, o autor das moleca- gens que tanta contrariedade causaram a Almir Gabriel (al6m de medalhar a cunhada, num convescote quase famili- ar que define os modos e costumes mu- nicipais de hoje). E o governador, indiferente a tudo, pos no rosto o seu melhor sorriso official e foi ao Bosque abrilhantar a tertilia dos Gueiros. O chefe da troupe aprovei- tou para anunciar que, nas suas obras futuras, at6 o final do mandate, realiza- ra ainda mais, como o viaduto do Co- queiro e o saneamento das baixadas, com o dinheiro do Estado, 6 claro. Seri que, na berlinda, s6 Almir Ga- briel nio viu e ouviu? Govemo sem a esperanga 0 goverador Almir Gabriel estA perdendo o que era o seu princi- pal capital de candidate: a esperanga do povo. E o que mostra uma das facetas da pesquisa realizada entire os dias 28 e 29 de dezembro do ano passado pela Opcio Pesquisa Marketing e Comuni- ca&o Ltda para o journal Diario do Pa- ra. No inicio de seu govemo, apenas 7% das pessoas previam que sua adminis- tracao seria ruim ou pessima; hoje sao 25%, quase quatro vezes mais. Quase 69% dos entrevistados no inicio da gestao achavam que ela seria excelente ou boa; hoje esse indice 6 de 22%. E enquanto 22% a consideravam inicial- mente regular, agora esse contingent abriga 45% dos entrevistados. 0 governor, portanto, esti perdendo de goleada a batalha da opiniao public, pois ja ha mais gente achando-o ruim ou p6ssimo (25%) do que excelente ou bom (22%), enquanto a massa do regular (que tanto pode cambar para o bom quanto para o ruim) passou de 22% para 45%. O governor, com trabalho e aplica- 9,o, ainda tern tempo para reveter esse quadro crescentemente desfavoravel, mas nao muito mais do que isso. Em un ano, foi muito desgaste. Banpara sobrevive 0 Banco do Estado do Par*, que chegou ao primeiro semestre de 1995 corn lucro de 740 mil reais, fechara o ano comr prejuizo, ainda nao definido porque falta concluir o balango annual. 0 lucro do primeiro semestre, porem, foi mais contibil do que real e o banco, mesmo no vermelho, esti mais s6lido do que a maioria dos integrantes da rede bancAria estadual, podendo ter afastado de vez o risco de desaparecer. O grande problema do Banpara 6 de definigio. Embora tenha um elevado potential de clientele com os 130 mil servidores piblicos, o banco ainda nio conseguiu transformar senio uma pe- quena parcela desse universe em cor- rentistas. E dificil que consiga e talvez nao seja rentAvel. A funqio de banco commercial 6 com- prometida pela pouca presence do Banpara no mercado de depositantes populares, algo semelhante ao que o Banco da Amaz6nia enfrenta. Nesse caso, o melhor seria fortaleci-lo como banco de desenvolvimento, repassador e aplicador de funds, um gestor das political de desenvolvimento das ativi- dades produtivas, mesmo que para isso, como providencia indispensivel, seja necessario diminuir-lhe o tamanho e azeita-lo, como, alias, vem sendo feito nestes ultimos anos. Jornal Pessoal /o TESTEMUNHO Mestre da Amazonia No calor infernal de inicio de tarde em Belem muitas vezes eu vi uma senhora bem vesti- da, toda produzida, como se diz hoje, atravessar a Presidente Vargas para pegar um taxi do outro lado da avenida, em frente ao Palacio do RAdio, pr6dio hibrido de escrit6rios, consult6rios e residencias. Logo depois a doutora Clara Mar- tins Pandolfo estava em seu gabinete, no terceiro andar do pr6dio da Super- intndancia do Desenvolvimento da Amaz6nia, onde chefiava o Departa- mento de Recursos Naturais, o DRN. Ela talvez tenha sido a primeira mulher a subir tanto na burocracia t6cnica ofi- cial, corn tanto respeito. Clara Pandolfo faz parte de um clu- be restrito de mulheres pioneiras no Par, raramente lembradas quando as feministas de hoje fazem suas liba;es ou perpetram andlises a respeito do avanqo da mulher na sociedade local. Estio no mesmo time Angelita Silva, primeira engenheira civil do Estado, leda Chaves, primeira engenheira agr6- noma, e Anunciada Chaves, a eterna mestra de hist6ria, que formou tantas geraoqes e deixou como patrimrnio tao pouco material escrito (sua these de cate- dra no Paes de Carvalho, numa 6poca em que professor secundirio tinha que fazer a sua, acho que jamais foi publi- cada). Posilio singular Mas Clara Pan- dolfo foi imica. Na Sudam, a principal agencia regional, s6 nio foi superinten- dente e talvez porque nio tenha queri- do ser, nem se disposto a sujeitar-se ao que o cargo imp6e. Tinha, porem, uma voz autorizada na suprintendencia. Quando se dizia que a declaragio tinha vindo da "doutora Clara", a entonagvo era diferente. A dona da opiniio tinha hist6ria, muita. Ela se formou na antiga Escola de Quimica (hoje Nfcleo de Arte da UFPa, na Praca da Repiblica) com o legendA- rio Paul Le Cointe, urn dos mais impor- tantes naturalistas da Amaz6nia. Deve ter sido tambem a primeira quimica do Estado, deixando marcas em seus alu- nos e em alguns discipulos que formou. Um deles me contou ter sido reprovado porque a dra. Clara tornou-se sua pro- fessora no final do curso, quando des- cobriu que o primeiro professor sim- plesmente desconhecia a mat6ria. Ela conhecia e nio teve comiseracao: repro- vou quem nao sabia e, a partir dal, passou pelo menos a saber que nada sabia, a primeira das attitudes filos6ficas diante do conhecimento. Do magistdrio, onde ficaram algu- mas de suas companheiras de viagem, a dra. Clara prosseguiu a carreira como t6cnica e chefa, no que sua trajet6ria passou a ser solitaria. Criou algumas plataformas de acio. Sanem ela o Para provavelmente nao estraria produzindo tanto 61eo de denda como agora. Clara Pandolfo apoiou as primeiras experiin- cias conduzidas pela Sudam na estrada do Mosqueiro, das quais resultou a Denpasa e, a partir dai, os plantios e usinas que estao levando o Pari a uma posigio de lideranga no setor. Clara Pandolfo tambem ten sua presenga na origem ainda irrealizada - da siderurgia no Park. Apostou tudo na possibilidade de combinar o minerio de ferro de Carajs com o cario infe- lizmente antracitico, inadequado do rio Fresco. Nao deu certo, no por falta de empenho dela, desejosa de agregar valor a mera mineraco que se estabeleceria em Carajas, sem transformar o vale do Tocantins num novo Rhur tropicaliza- do. Da agriculture para a mineracgo e, dai, para a atividade florestal se expan- diria o talent e a criatividade da "doutora Clara", como todos a cha- mam. Apadrinhou a interessante pro- posta de criar as florestas de rendimen- to, extensao, as florestas, dos contratos de risco de petr6leo, sem serem exata- mente isso. A id6ia original veio da FAO (a organizacio das Naqes Unidas para agriculture e alimenta&o, que foi important na formaClo de engenheiros florestais na Amaz6nia), mas veio numa epoca errada e acabou, por confusio corn a proposta inspiradora, sendo combatida apaixonadamente, quando, primeiro, deveria ter sido entendida. Atuando em vArios campos do que se transformaria progressivamente em especializacio t6cnica, como uma ver- dadeira herdeira do naturalista Le Coin- te (de visao holistica, seria o jargio atual), Clara Pandolfo sempre foi, so- bretudo, envolvida pelo aproveitamento das florestas. Durante certo tempo, talvez deniasi- ado, participou ou aceitou teses salvaci- onistas oficiais sobre a ocupaqAo da Amaz6nia pela pata do boi. Ao serem formuladas, no inicio da d6cada de 60, elas ignoravam o potential da floresta - e no s6, nem principalmente, como fonte de madeira s6lida, conform agora sabemos (mas os viajantes pioneiros ji sabiam desde dois s6culos antes). A dra. Clara tentou uma combinacio de id6ias, da corrente eco6gica e dos assim chamados pragmticos ate o inicio da d6cada de 80, quando passou pela Sudam uma onda de selvageria intellectual, so podemos assim defini-la. Atrav6s de seu departamento, ela con- tribuiu muito para que fosse impedida a implantaio de fazendas em area de mata densa, reservando-se para elas as faixas de cerrado, cerradao e mata final na faixa de transitio do Centro-Oeste para o Norte, itens de uma trilogia de alivio que ela recitaria durante anos, procurando demonstrar que o dano da bovinizaiao nAo fora tao grave quanto parecia. Mas acho que sua paciencia esgo- tou-se quando novas fazendas foram aprovadas para o Acre, a despeito de parecer contrArio do seu DRN. Ja can- sada por tantos anos de dedicaqco ao servigo p6blico, Clara Pandolfo preferiu aposentar-se, nAo tendo recebido uma fracao das homenagens que sua longs militincia em favor da Amaz6nia a tomavam credora, ainda que pudesse- mos discordar e nos opor a algumas de suas id6ias. Mas, enquanto esteve no seu cargo, a Sudam teve id6ias, enfren- tando os torquemadas locals e garantin- do, no seu gabinete, urn lugar tao unico e especial para discutir quanto era, nas ruas calorentas, ver aquela senhora aplicadamente trajada e cuidada para exercer a sua func9o e, em toda ela, nunca deixando de ser mulher. Afastada hi vrios anos da atividade funcional, Clara Pandolfo continue a escrever e a se interessar pelo que ocor- re na Amaznia, um exemplo entire tAo poucos que as mulheres e os amaz6ni- das em geral tnm para nele se mirar. De ferias Jornal Pessoal s6 voltara a circu- lar na segunda quinzena de feve- reiro. Durante esse period estarei fora de Bel6m e, depois, do pais. 3 4Jornal Pessoal A corrida para chegar a PMB U ma nova alianca PMDB-PPB, com a chapa Elcione Barbalho- Cipriano Sabino, poderi veneer a elei- Cgo para a prefeitura de Bel6m ainda no primeiro turno, desde que haja dinheiro para promove-la e ela resista a um bombardeio contrario. Essa 6 uma das principals conclu- s6es apresentadas pela terceira pesquisa de opiniIo realizada na capital paraen- se. A analise tern que ser relativizada pelo fato de que a responsivel pela pesquisa, a Opcgo Pesquisa Marketing e Comunicacio Ltda., nao tem experi- 8ncia consolidada ou reconhecida nesse tipo de trabalho. E o encomendador ser o joral "Ditrio do Pari", do qual um dos politicos diretamente interessados, a deputada federal Elcione Barbalho, ser um dos proprietarios. No entanto, essa pesquisa guard alguma coerencia com outras duas executadas pelo Ibope, a mais acreditada das instituiCoes de pes- quisa de opiniAo pfiblica do pais. Antagonismo consolidado Elcione Barbalho 6 a preferida do piblico (ouvido entire 28 e 29 de dezembro), tanto na pesquisa espontinea quanto na estimulada. Na espontinea, ela tern apenas um voto de vantage sobre o prefeito H6io Gueiros, que at6 radical e improvavel reform constitutional 6 inelegivel, mas seri o principal eleitor na capital. No entanto, se sustenta a diminuta margem de um ponto percentual sobre o atual alcaide, Elcione Barbalho abre larga diferena sobre Hl6io Gueiros Jr. (32% a 14%,), que 6 o segundo coloca- do na pesquisa estimulada (quando o nome dos candidates 6 apresentado ao entrevistado). O senador e ex-prefeito Fernando Coutinho Jorge, o segundo colocado virtual na pesquisa espontanea (admitindo-se a inelegibilidade de Helio Gueiros), baixa para terceiro na consul- ta induzida, abaixo de Gueiros Jr.. Coutinho apenas dobra sua votacio da espontanea para a induzida, enquanto o crescimento de Elcione e de mais de 300% (indice s6 equiparado pelo depu- tado estadual Cipriano Sabino, mas crescendo de 2% para 7%). A favor do senador do PSDB deve ser observado que ele vem declarando n5o ser candida- to (embora poucos acreditem na firmeza dessa declarago). Ja o crescimento do ex-prefeito Sahid Xerfan, entire a espontinea e a estimulada, 6 de apenas 50%, baixando de 40 para 5 lugar, o que indica o baixo grau de tendEncia expansionist dos votos do empresario, sobretudo porque ele 6 o segundo candidate mais rejeita- do, depois do ex-govemador Carlos Santos (que nio 6 candidate a prefeito e, esperamos, nio o seri mais a nada na political paraense). O deputado federal Vic Pires Fran- co, que ter tido a mais agressiva cam- panha pr-eleitoral at6 Agora, permane- ce cor o mesmo indice de preferancia nas duas formas de pesquisa, mas cain- do de 5* lugar na espontinea para 7 na estimulada. Esse indice 6 quase um atestado de 6bito da candidatura dele. Nenhum eleitor escolheu Benedicto Monteiro, mesmo Ihe send apresentado o nome do candidate, que s6 teve regis- tro na part de avalias o das rejeiges. Vic Pires Franco 6 o terceiro mais rejei- tado e, abaixo de dois digitos, v6m, pela ordem, Hlio Gueiros Jr., Elcione Bar- balho e Coutinho Jorge. A pesquisa ten falhas claras. Nio apresenta o nome de H6lio Gueiros na estimulada, embora o faa na esponti- nea. O mesmo acontece com Jader Bar- balho, tamb6m nio incluido nas rejei- coes (dado que permitiria dizer se ele faz campanha pela ex-esposa ficando em Brasilia melhor do que vindo a Be- l~m, o que parece mais provAvel). 0 deputado estadual Zenaldo Couti- nho, candidate declarado a candidate, nio lembrado pelos entrevistados na espontinea, estranhamente nio teve seu nome arrolado na pesquisa estimulada. As interpretaoes dos dados forneci- dos pela Opcio, portanto, tnm que ser feitas com reserves. Cor elas, por6m, ji se pode prever mais uma eleiqio ple- biscitaria entire os Gueiros e os Barba- lho, pesar de ambos os nomes sofrerem um crescent process de rejeicao. Pa- radoxo, mais um, tipico da political fisiol6gica praticada no Parn. 0 ministry e os indios E m 1991 o advogado Nelson Jobim, chefe de um dos mais famosos escrit6rios de advocacia de Brasilia, recebeu 50 mil dolares do go- vero do Para administrationo Jader Barbalho) por um parecer que suscitava a inconstitucionalidade do decreto 22, naquele ano assinado pelo entio presi- dente Fernando Collor de Mello. O parecer sustentava que a Funai (Fundaio Nacional do indio) nao podia definir unilateralmente a delimitag o de reserves indigenas nos territ6rios esta- duais sem ferir o principio federativo brasileiro e o principio do contradit6rio que define o direito processual. Dois anos depois o Supremo Tribu- nal Federal reconheceu a constituciona- lidade do decreto, argumentando que o process administrative difere do judi- cial e que o Estado 6 soberano ao agir administrativamente. Quem nao concor- dar cor seus atos que recorra a via judicial. Dois anos depois de perder a causa em juizo, o advogado Nelson Jobim pode vence-la pela via administrative pelo simples fato de que pulou a cerca e, de antagonista da Funai, virou seu superior, na qualidade de ministry da Justica. Foi como ministry que Jobim, indife- rente aos aspects 6ticos da situaco, aconselhou o president Fernando Hen- rique Cardoso a assinar, no dia 8, o decreto 1.775, praticamente incorpo- rando ao texto legal a essencia do pare- cer que vendera ao governor Jader Bar- balho. Contradit6rio administrative - Cor o decreto, as pessoas contrariadas com a delimitacAo de territ6rios indige- nas poderio contestar sua demarcacao, para isso apresentando seus titulos de dominio ou alegando a posse exercida sobre a Area. O que antes era um ato absolutista da autoridade piblica legal- mente competent, agora passara a defender de um contradit6rio sujeito a arbitramento, surgindo uma terceira figure na question. Outra inovagio, esta ainda mais grave, 6 que mesmo as reserves demar- cadas pela Funai e homologadas pelo president da Repiblica poderao ser contestadas, caso uma formalidade burocritica o registro das terms no Servigo de Patrim6nio da UniSo ou em cart6rio de im6veis ainda nio tiver sido cumprida. Nesta ultima hip6tese se encontrari- am 344 das 554 Areas indigenas conhe- cidas no Brasil, ou 70% do total, se- gundo dados apresentados por entidades indigenistas. Uma situacao em vias de consolidacqo se reabriria, assim, ao litigio, com as consequencias previsiveis em relago aos conflitos. Os defensores dos indios ja expres- saram sua indignaq~o com a iniciativa do governor federal e anunciaram a pro- positura de uma aco direta de inconsti- tucionalidade. O debate deveri se tornar 4 4 Jornal Pessoal Jornal Pessoal 5 ainda mais passional e antag6nico, mas conv6m fazer algumas reflexes a res- peito. Inegavelmente a Unilo decidiu per- petrar um golpe contra si mesma, tor- nando contradit6rio um process que era essencialmente administrative e, por isso, unilateral. A Funai providen- ciava um laudo antropol6gico e, com base nele, recomendava ao president da Reptiblica a reserve da area assinalada em favor de tribes indigenas. Agora, particulares, prefeituras e governor estaduais poderio questioner as descrigces da irea e impedir que se consume sua inscrigio no SPU ou no cart6rio imobiliArio como terras indige- nas incorporadas ao patrim6mio da UniAo. O ministry Jobim, como, antes, o advogado Jobim, diz que a unilaterali- dade 6 violaao de direito e ante-sala de erros ou abusos cometidos pela Funai. Os indigenistas retrucam que os insatis- feitos 6 que devem procurar o bispo no caso, umjuiz. A parte a discussAo de merito, hi um dado de natureza 6tica e moral: todas as terras brasileiras foram, originalmente, de dominio dos indios, da mesma ma- neira como nio hA terrs particulares que nAo tenham sido, antes, do poder public. Aplicado literalmente, esse principio levaria A devolucAo do Brasil aos tupi- nambas e congEneres, hip6tese tao ab- surda quanto a de querer negar-lhes o direito dominial. O indice de sabedoria esti justamente no equilibrio da compa- tibilizagAo do direito originArio A situa- cao atual, na qual os indios sao das menos expressivas das minorias raciais do pais. Nossos antepassados indigenas ja possuem direitos sobre 10% do territ6- rio national, o que 6 uma porcio consi- derivel e at6 mesmo just (ou mais que justa. No entanto, nem todo esse terri- t6rio se encontra perfeitamente legaliza- do. Em 85 anos de political indigenista republican, iniciada cor o SPI (Servigo de Proteio ao indio) dos mili- tares positivistas do inicio do s6culo, o govemo nio assegurou a legalizagIo de mais do que 30% dessa dominialidade tribal. O insucesso das metas, constan- temente prorrogadas, deve-se, em parte, ao contact sucessivo de tribes at6 en- tao isoladas ou desconhecidas. Mas tamb6m pode ser atribuida i inefici8n- cia, burocratizaClo e corrup Ao do 6r- gao tutelar dos indios, que 6 a Funai. Muitos dos critics que hoje defen- dem o poder informative e arbitral abso- luto da Funai sAo os mesmos que criti- caram e cor razao a atuacio da fundag~o, um cabide de empregos, con- veniencias e interesses dificil de concili- ar cor o ideal romrntico criado por Rondon. No entanto, a solugio pode estar na desinfec~io e fortalecimento da Funai, consolidando-a como 6rgao t6cnico de excelncia, despido de seu espirito mer- cantilista e de seu instinto militarista, ao inv6s de enfraquec6-la. Para que isso ocorra, por6m, nio contribui apenas ser a favor dos indios. Nem sempre os indios estio certos, como a verdade nio 6 um patrim6nio natural, uma virtude imanente de antro- p6logos e associados. E um erro o governor transformer um process administrative em process judicial, que requer arbitramento de terceiro, quando o 6rgao competent 6 - ou deveria ser a Funai, Arbitro em ultimo grau na instincia governmental. Mas, internamente, ter que fazer uma revisio conscenciosa e corajosa do pa- trim6nio indigena a consolidar, nao abrindo mio, no entanto, do que jA foi conquistado e conquistado ao custo de muito sangue, sem que seja esse sangue uma figure de ret6rica, como nos dis- cursos de politicos clientelistas e buro- cratas intermediarios. Quem manda O Pard 6 o terceiro maior produtor de energia do pais e, de muitissimo lounge, o maior na area de jurisdiqAo da Eletro- norte. A sede da empresa de energia el6trica da regiio Norte, no entanto, continue em Brasilia desde que a em- presa foi criada, em 1973. P um dado da fraqueza do Pari. O outro: M tres administraoes o senador Jose Sarney 6 quern indica o president da Eletronorte, embora gran- de parte da energia consumida pelo Maranhio seja oriunda do Para. A forqa de Sarney neste aspect 6 tanta que mesmo depois do estrago causado por seu afilhado, Aluisio GuimarAes Men- des, demitido no mes passado por haver favorecido a Construtora Andrade Guti- errez num pagamento pelas obras da hidrel6trica de Balbina, ainda vai poder indicar o successor de Mendes. Diz a imprensa que Samey vai poder repetir o apadrinhamento por bom com- portamento: "o senador nio procurou evitar a demissao, nAo interferiu em socorro do protegido e, cor isso, ficou no cr6dito", com diz o "Informe JB", do "Jornal do Brasil". Ora, comb diria o alcaide H6lio Gueiros, Sarney n~o mugiu e n~o tossiu porque seu afilhado era indefensivel. O sil8ncio, assim, deixa de ser demonstra- cqo de integridade para se tornar sinal de esperteza. Corn a qual ele vai levan- do os paraenses na flauta, talvez porque por aqui at6 de Sameys estamos caren- tes. Deus nos valha. 0 record do manganes D esde que a ICOMI reduziu sua escala de produqio, na passage dos anos 70 a 80, nunca se tera produ- zido tanto manganes quanto neste ano em Carajas. Devera ser batido o record de 1995, que foi de 1,2 milhlo tonela- das, com as 1,5 milhAo de toneladas previstas para 1996, volume inimagina- vel quando a exploraqAo da jazida do Azul comeou, 10 anos atras. Assim como era imprevisivel a reali- dade iniciada hA uma d6cada, parecem esquecidas as lies dadas a partir do final dos anos 40, quando, no Amapa, comegou o primeiro dos grandes proje- tos da nova era da Amaz6nia. Durante tres d6cadas e meia man- damos manganes para o mercado inter- nacional, ajudando o maior dos com- pradores, os Estados Unidos, a former estoques estrat6gicos e se precaver con- tra o antigo fornecedor quase exclusive, o GabSo, na Africa. 0 manganes do Amapa perdeu o seu filio e Agora co- meca a ser museu sem que tivesse sido formado um parque sidernrgico ou qualquer integraaio economica, ficando literalmentd um buracxo fisico, mental e de hist6ria no antigo territ6rio. Vai ser a mesma coisa em CarajAs? Hipnose bancaria O gerente de uma instituiiao finan- ceira federal estabelecida em Be- lem vai entrar para o Guiness4 da cria- tividade. Flagrado em sindicincia con- cedendo financiamento bem acima de sua alcada e sem garantias reais, nao se perturbou. Explicou que o procedimento, con- tririo As normas bancirias, tinha uma causa: o client o havia hipnotizado. Isso mesmo: o dinheiro fora arrancado da instituigio gracas a um poderoso ato de hipnotismo. Zero em seriedade, 10 em imagina- gio, nAo o bastante, por6m, para poupi- lo de ser afastado da funglo. Incorrigi- vel o ceticismo human, deve ter pensa- do. 6 Jornal Pessoal A cultural: para que? D urante dois anos duros de estudos em Sao Paulo, os negrissimos tempos de 1969-70, passava horas qua- se diarias na Biblioteca P6blica Mario de Andrade, pr6xima i sede do jomal onde trabalhava, na rua Sete de Abril. Tornei-me client cativo. 0 dinheiro dava para comprar apenas uma parcel menor das minhas necessidades de leitu- ra. Li obras valiosas na biblioteca pu- blica da praca Dom Jos6 e passei a respeitar a importincia desses centros de saber. Serei eternamente grato a "MArio de Andrade". Lembro bem dessa 6poca sempre que precise ir a Biblioteca Publica do Para, o que, hoje, 6 raro (felizmente tenho a minha, razoavelmente equipa- da). Cruzo com dezenas de aflitos estu- dantes, sem alternative para suas em- bora ineficazes pesquisas escolares. Quase todos acabam ali mesmo, aglo- merados como sardinhas nos piques de procura. Penso tamb6m no drama das aten- dentes, lembrando um senhor encaneci- do ("seu" Greg6rio) que me atendia, pobre e solicito, um verdadeiro conhe- cedor de livros, em Sao Paulo. Bibliotecas publicas t6m que ser prioridade em qualquer pais, em qual- quer cultural, em qualquer area onde- existam. Slo, no minimo, o respiradou- ro local de cultural, a oportunidade que se di a pessoas sem dinheiro suficiente para saciar sua sede de cultural e infor- maq~o. Cultural pra qua? Chocam-me, por isso, as declaraqes do secretArio adjunto de Cultura do Estado, o arquite- to Jaime Bibas, que sei uma pessoa sensivel. Ele deu iracunda entrevista a um reporter de "O Liberal" que foi entrevistA-lo no Centur, transformado em autEntico Saara por um estouro de canos de agua que atingiu e inutilizou o sistema de refrigeracao. Talvez o calor esteja na raiz das infelizes palavras usadas por Bibas para justificar o des- caso da administraqo Almir Gabriel pela cultural em geral. Entende-se que nAo haja verba para trazer Pavarotti ou o Bolshoi. Esta 6 a cultural sobrenadante. Quem gosta pode ir atras, ou esperar que a montanha venha a Maom6. Mas crianga precisa ter condic6es minimas para ler e estu- dar. Naquela estufa de vidro e concrete chamada Centur, o ar condicionado e essential (para os usuirios e, por exten- so, para os funcionarios tamb6m), infelizmente, como 6 essencial aproxi- mar as jovens geraqCes do livro e das bibliotecas. A concorrencia dos games eletrr6nicos e da multimedia & despro- porcional. Contra um meio que faz suar is bicas, sera um massacre. 0 Century foi feito para ser, apenas e tio somente (o que ji seria bastante, consideradas suas caracteristicas arqui- tet6nicas), biblioteca. Mas como autori- dades, a semelhana de Bibas, jogam a indiscriminada cultural para escanteio, outros segments foram se apossando do pr6dio e acabaram deixando menos da metade do espaco para sua destina- Cao original e, a despeito da ma von- tade dos pragmiticos, a mais nobre. Era indispensivel ter mais espaao, mais gente e mais recursos para impedir a constant depredago que a biblioteca p6blica do Estado sofre por conta de professors (e mandantes em geral) que encomendam pesquisas sem qualquer preocupacSo corn a sua execucio e as condiges de trabalho dos alunos- tarefeiros (funcionando mais como des- carga de consciencia do que procedi- mento pedag6gico). S6 assim se poderia poupar os livros das rasuras, das muti- lacqes e das incompreens6es de toda a ordem, formando pessoas cultas e nio depredadores do conhecimento. Ler 6 uma arte, a meu ver a mais prazeirosa de todas. Um apreciador, antes de penetrar no texto propriamente dito, havera de usufruir do trabalho grifico (e, para os compradores de pri- meira mio, ate do gozo olfativo que a tinta e o papel proporcionam). Mas nas condicqes normais oferecidas pelo Centur, mesmo cor ar condicionado, ler nio 6 muito mais do que cumprir uma tarefa macante. No Saara atual, 6 um martirio. Nio, caro Bibas: cultural nio 6 coisa de elite, nAo 6 ornament de curriculos, nao 6 mote academico, nem verniz de cart6es de apresentagao. Pela cultural mede-se a civilidade e a civilizacao de um povo. Por ela mede-se o nosso nivel, que, aliAs, estA muito mais baixo do que seria de se esperar. NAo o abaixe ainda mais, carissimo Bibas. A privatizagao da CVRD D esencadeado o process de priva- tizac~ o da Companhia Vale do Rio Doce, empresa que responded por quase 20% de tudo o que se arrecada de impostos no Para e por 70% da receita de exportaiao do Estado, alguns pontos m parecem cruciais seguir: 1 0 prazo dado pelo governor para a privatizacao exageradamente consul- to. Nio basta inventariar o ativo da empresa e modelar a forma de venda. Essas sio as informaces preliminares a serem forncidas a opiniAo p6blica para um debate amplo e profundo, sem que a alienagio da empresa estatal seja um clausula petrea, imutavel. 2 Para que essa garantia seja obti- da, 6 precise excluir a CVRD do pro- grama de privatizacAo do BNDES, sem que isso signifique deixar de, no future, vender a empresa. A Vale nio onera o tesouro, nio atua em setor monopolista (ao menos na forma classica) e 6 renti- vel. Logo, nao se enquadra na filosofia da privatizago. Por outro lado, o apelo para vende-la logo esti nas dificuldades de caixa do governor, que nio serio significativamente aliviadas pela transa- cao. 3. A parte do capital da CVRD sob control da UniAo, de pouco mais de 50% das acSes, se for vendida, tera que ser pulverizada, evitando que un s6 comprador adquira mais do que 3 ou 1,5% das ac6es, nesse total ji computa- das as aq6es hoje em poder de particula- res. 4. A CVRD s6 poderi ser vendida por inteiro. FracionA-la significaria enfraquecer sua posiqgo de verdadeira empresa p6blica, que seria o objetivo mais nobre da pulverizaago das suas agoes. De minha parte, continue sendo contra a privatizaqao, principalmente porque a Vale, sendo uma empresa de direito privado que incorporou todas as vantagens de mercado, 6 uma fonte de pensamento e posigio estrat6gica para o povo brasileiro. Suas deficiencias pode- rio ser resolvidas, pondo fim a suas amarras burocriticas, com um estatuto juridico semelhante ao que 6 proposto para a Petrobaris. Acho que, nestas condices, todos sairiamos bem servidos. A ameaga N a Rep6blica, pouco tempo atras, o grande problema era o primeiro irmAo. No Estado, se nao houver aten- cao e cuidados, em breve podera ser o segundo filho. Jornal Pessoal 7 Um jurista de verdade M uita gente no Para se consider ou 6 tratada como se fosse juris- ta. Qualquer advogado mais destacado logo recebe o titulo. Jurista para valer, por6m, hA muito poucos no Estado. Certamente Silvio de Bastos Meira, que morreu no ultimo dia do ano passado, em Londres, estava entire essa minoria. Era, de fato, um jurista, romanista como poucos houve no pais, capaz de atravessar fronteiras deixando para tras os favors declarat6rios da provincia. Mas dai a considera-lo o maior ro- mancista paraense, maior do que Dal- cidio Jurandir, 6 um desprop6sito. A ficcqo era uma faceta menor de Silvio Meira, como a pintura. Seus tres ro- mances valem como documentacio de 6poca e de region, mas tem pouco valor literirio. Nio hA como eleva-los aos niveis que Dalcidio alcanqou, nao por uma, mas pelo conjunto de obras do "Ciclo do Norte", sem igual na literatu- ra national. E uma pena que o registro de morte se transform, frequentemente, numa bajulaqo sem medidas. Ningu6m vira perfeito s6 porque more. E precise respeitar o desaparecimento das pesso- as, sentindo-lhes a ausencia, sem per- der, entretanto, o juizo critic sobre elas, que, artificialmente engrandecidas, logo estario sujeitas a revises fulmi- nantes. E precise olhar cada personali- dade em sua inteireza, feita de coisas boas e mis, virtudes e defeitos, simpatia e antipatia. Silvio Meira foi uma grande perso- nalidade, talvez afetada por uma vaida- de sem peias, mas marcante nio s6 nos limits da provincia. Pertence a um tipo de gente que consegue desenvolver-se intelectualmente e, ao mesmo tempo, realizar uma certa carreira public, algumas vezes political. E a familiar Meira, o maior clA do Pari republican entire alguns poucos, que se transferiram ou se extinguiram localmente, como os MacDowell, 6 uma estufa e uma encu- badora intelectuais formidAveis, a espe- ra tanto do historiador de families como do romancista dos dramas. Agao decidida A juiza da 16' Vara Civel do forum de Belem, Eliana Daher Abufaiad, decidiu extinguir o process atrav6s do qual Rosangela Maiorana Kzan, direto- ra administrative do grupo Liberal, por meio de uma agio cautelar inominada, tentava me proibir de cita-la neste jor- nal. A media significaria, se concedi- da, censurar por via judicial um 6rgao da imprensa peri6dica, o que a Constitu- icao Federal nio permit. Na sua decision, a juiza declarou a autora da cautelar "carecedora do direi- to de aco por faltar-lhe uma das condi- ices para o seu exercicio (possibilidade juridica do pedido)". Em terms juridi- cos, Rosingela Kzan estava pretenden- do o impossivel. Em consequEncia, a juiza condenou-a "no pagamento das custas processuais e honorarios advo- caticios". Esta foi uma das cinco aces (as outras quatro sio penais) ajuizadas pela diretora do SRM contra mim no f6rum da capital em funcgo de artigos publi- cados neste journal, entire 1992 e 1993, sobre as cisoes familiares no grupo Liberal. A decisao da juiza Eliana Abu- faiad foi a primeira, em quatro, que me foi favorivel. As outras tres, todas da juiza Ruth do Couto Gurjio, me conde- naram. Zona sugadora U m nimero impressionante: a Amaz6nia, com 6,2% da popula- co brasileira, absorve 38,43% da re- nuncia fiscal do Tesouro national. Este 6 o peso da Zona Franca de Manaus, por seu mais exato retrato. Logo, nao 6 questAo exclusive da capi- tal amazonense. Os brasileiros, que abrem mio de uma larga parcela da receita tributiria em favor da ZFM, devem ao menos dar palpite sobre sua melhor configuragAo que, evidente- mente, nio 6 a atual. Rede fraca A situago da rede bancAria no interior do Estado (como, de resto, de quase todos os services, publi- cos ou privados), merece uma atencro especial. Segundo dados do pr6prio govemo, 42% dos municipios paraenses (antes do mais recent surto de criaqao) n~o disp6em de agencia bancaria. A situacio pode se tomar ainda mais grave com a compactaio das redes particulares e o encolhimento dos ban- cos publicos, que, neste aspect, preci- sam realmente de uma political de servi- 9o public (mas sem clientelismo politi- co), que a rede particular nio pode ofe- recer. Maos a obra. Sem elite S e houvesse elite esclarecida no Para, ela teria se unido para com- prar o predio da "Paris n'America", transformando-a num clube, mesmo que de funcionamento exclusivamente no- turno, cor seguranca particular e um entendimento cor o poder public para assegurar a tranquilidade da area do entorno. Mas a famosa loja, um dos biscuits arquitet6nicos da cidade, foi comprada por Bechara Mattar, cujo tipo de neg6- cio 6 um dos nossos soberanos varejis- tas, o rei dos fogos alarmou os preser- vacionistas da hist6ria e da mem6ria. Ao contrario do que se pior se temia, o novo proprietArio tratou ben do im6- vel. Ou vinha tratando bem, ate anunci- ar um projeto de "popularizacAo do estabelecimento, alterando o perfil dos produtos". Definitivamente, nio se pode elogi- ar? Greve previa E m materia de greve, a que os fun- cion'rios da Secretaria de Educa- co pretendiam realizar foi demais: iria ocorrer no mesmo dia do pagamento. Se o dinheiro nio saisse, o sindicato co- mandaria a imediata paralisaio e ainda contando errado os cinco dias uteis previstos em lei como limited para o pagamento. Como a Seduc ter mais de 55 mil funcionarios, convenhamos que a greve seria um pouco de intolerincia. Feliz- mente, nao saiu. Concentrapio os 120 milh6es de reais de cr6di- tos que o Banco do Brasil estA tentando reaver na praca de Bel6m, 70 milh6es sao devidos pela Rodomar, do grupo A. R. Cabral, cujos bens, ofere- cidos em garantia, jamais daro para cobrir o debito. A pergunta tem procedencia: como o BB permitiu uma tal concentraio? E como o financiamento chegou a esse volume? As explicac6es bem que poderiam ser dadas de public. Rede de brilho Ste algum tempo atrAs as farmicias fechavam as portas. Agora elas se multiplicam e ganham uma midia antes impensavel. Tudo por causa do incrivel florescimento da rede Big SBen nos iltimos dois anos, chegando a 17 pontos de venda, inferior em lojas A rede concorrente que se formou, a "Menor Prego", esta, no entanto, constituida por diversas empresas enfrentando uma outra, agigantada. Numa cidade alertada para o surgimento de empresas de fachada destinadas a lavar dinheiro sujo, o surto da Big Ben, sem paralelo na hist6ria do comdrcio farmaceutico de Bel6m, asustou e ainda intriga. Os 1 donos tem uma explicagao simples: passaram de atacadistas para varejistas, podendo oferecer mais opq6es e por menores pregos. Tanto havia gordura exagerada no setor que os concorrentes tambem passaram a dar descontos mddios de 20%, o que tern sido bom para o consumidor. Persistem as dividas quanto a origem do capital, a serem respondidas quando a imprensa se interessar por elas de maneira mais consequente. Mas o surgimento da Big Ben, com toda a sua aura de mistdrio, deu brilho a esse setor do comercio. Depois de beneficiary o consumidor, tambem comega a favorecer o Estado. Afinal, ja nao 6 mais heresia nessas lojas pedir a nota fiscal. Os fiscais D en6ncias sobre a a9go de "encostados" e parents nas delegacias fiscais do interior do Estado sao tAo antigas quanto as lendas sobre o enriquecimento de alguns fiscais, todos os anos indicados para atuar sobre as mesmas e rentaveis empresas. Age corretamente o Sindicato do Grupo Ocupacional Tributag9o, ArrecadagAo e Fiscalizailo da Secretaria da Fazenda apontando os varios casos mais flagrantes que se conhece no interior. Mas tambem nao estava na hora de pedir a apuraalo na capital? Assim nAo iria parecer A opiniao publica que 6 corporativismo. 0 paquiderme As informaraes at6 agora divulgadas sobre o "caso Sivam" sao o bastante para qualquer observador descomprometido concluir que o Sistema de Vigilincia da Amazonia, bichado at6 a raiz, deve ser restabelecido nos padres de uma sociedade democrdtica e civilizada. Um investimento de 1,4 bilhAo de d6lares nio pode ser decidido atrav6s de carta- convite, a partir de um estudo de gabinete de um 6rgAo de inteligancia associado a uma das tras Forgas Armadas e suas extens6es civis. Uma concorrencia piblica aberta, no ritmo recomendAvel pelo -interesse pfiblico, expurgara o Rograma de seus vicios e poderA mostrar que, ao inv6s de 1,4 bilhlo de d6lares, pode-se gastar US$ 500 milhoes para fazer a mesma coisa. O que o governor brasileiro quer fazer com o Sivam s6 se equivale ao que a Marinha dos Estados Unidos ira realizar corn o JPATS, um sistema englobando 750 avi6es, contrato de US$ 1,7 bilhao que deveria sobrar para a Embraer e acabou nas maos da mesma Raytheon que abocanhou o nosso Sivam. Parar o Sivam nao 6 attitude geopolitica ou outros esoterismos. t media da mais absolute economic e de interesse piiblico. O resto 6 conversa fiada para ganhar a adesio do Toninho Malvadeza e fazer passar o paquiderme pela goela do Congress. Corregao C omo deve ter ficado claro aos mais atentos, estejornaierrou ao se referir a Amaro Klautau como secretario de Obras. Ele 6 secretdrio de Transportes. No mais, o raciocinio nio foi afetado, como nio hA o que mudar na matdria de andlise do primeiro ano do governor Almir Gabriel, mesmo quando se informou que o 130 salArio ficou para 1996, quando o correto 6 que o saldrio de dezembro comegou a ser pago no ano seguinte, ainda referente ao exercicio anterior, enquanto o 130 foi quitado antes. O candidate S e a pesquisa divulgada pelo "Diario do Pard" for correta b Vs tendencias nela apontadas \se mantiverem, apenas dois candidates seriam capazes de unir H~lio Gueiros e Almir Gabriel numa nova coligaAio eleitoral: Fernando Coutinho Jorge e Sahid Xerfan. Mas, pelos nimeros da pesquisa, Coutinho leva a vantage de estar na frente e de enfrentar menos rejeigao. Vai continuar dizendo que nao concorrerd? 0 alcaide or tras do desejo de realizar o carnaval na avenida 25 de Setembro, sobre o qual o prefeito Holio Gueiros tanto insisted, deve star a intengio de represilia. Os moradores nAo aceitaram os pianos da prefeitura para aquela art6ria e, de castigo, nio receberam o asfalto espalhado por todo o Marco. Agora, vIo ter que conviver com alguns dias de muito barulho e sujeira. O alcaide 6 a lei. Seguranga Slouvivel a iniciativa da Secretaria de Seguranca de criar um sistema orginico para a policia paraense, corn a inteligencia na retaguarda e uma van- guarda mais preparada. E a primeira vez que se tern para valer um piano de seguranqa no Estado, cujo conte6do ainda merece melhor andlise. Alem de faz--la, ji que o document caiu de surpresa na Assenbl6ia Legislativa, a opiniao public deve acompanhar corn atenao a execuqio do que foi delineado e prometido. Editor: Lucio Flivio Pinto' RedagAo: Av. Goverador Jose Malcher, Passagem Bolonha, 60/B, 66.053-040 Fones: 2231929-2237690-2243728 Belem Pari |
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