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Jomal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO ANO IX No 129 2" QUINZENA DE OUTUBRO DE 1995 R$ 2,00 DROGA 0 rei da Amazonia Ant6nio Mota Graga, o Curica, e dono de uma fortune no valor de um bilhao de d6lares. A origem: trifico de cocaine. ral apreendeu 670 quilos de cocaine em Mato Grosso do Sul que iam ser embarcados para a Franga, Ho- landa e ItAlia. A droga pertencia a Ant6nio Mota Graga, mais conheci- do como Curica, que, da Col6mbia, onde estd foragido, continue co- mandando a maior rede do narco- trifico na Amazonia. Um irmao de Curica, Jorge Mota Graga, foi preso e, junto com ele, mais nove inte- grantes da gangue. No intervalo de algumas sema- nas, foram dois resultados positives obtidos pela PF. Vicente Wilson Ramos Filho, o Jinior, foi transferi- do da penitenciaria de Manaus para a penitenciaria de Brasilia, onde os policiais esperam que ele nio consi- ga cumprir as ameagas de fugir, destino que parecia praticamente inevitivel na capital amazonense. Filho de um dos mais poderosos chefes do cartel colombiano, Jfnior 6 a maior baixa causada ao narco- trffico no Brasil pela Policia Fede- ral. Sua familiar, os Gusman Ramos Graga, formada por brasileiros e colombianos que transitam indife- rentemente entire os dois paises, na fronteira amaz6nica, 6 responsivel pelo transport de mais de 20 tone- ladas de cloridrato de cocaine que a PF apreendeu no Brasil e no exteri- or. Entregue ao consumidor final, a mercadoria valeria um bilhao de d61ares, mais ou menos a dimensao do patrimonio da familiar binacional, comandada por Curica. A maior rede Graga ter mui- tos neg6cios no Amazonas, no topo dos quais estA o transport de com- bustiveis. Mas todo o imp6rio foi congelado quando a policia desven- dou seus neg6cios paralelos com a cocaine. Hoje, agindo cor total desenvoltura do lado colombiano, ele 6 um foragido para nao cumprir as penas que a justiga brasileira lhe aplicou. Mas nio controlou a ousa- dia. Curica montou uma nova rede, a partir de Manaus, em diregao a Mato Grosso do Sul, com o apoio do ex-prefeito de Maracaju, Jair do Couto, transformado em gerente das operac6es. Elas incluiam o transpor- te de cocaine a partir da Col6mbia, em avioes teco-teco que desciam numa fazenda entire Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. A, droga era misturada cor cafe e levada para o porto de Santos, de onde era embar- cada para a Turquia em nome de uma firma fantasma de exportaaio cor sede em Manaus. A desenvoltura do lider da rede se fazia sentir nas pr6prias condi- 6oes em que Jinior vivia na peni- tenciaria de Manaus. Tinha telefone cellular, fazia programs corn mu- Iheres e bebida A vontade. Na mesma penitenciaria estive- ram, at6 recentemente, Hamilton Bezerra, ex-prefeito de Marabi, e Carlos Alberto Penedo Salheb, da familiar proprietAria da cadeia de lojas Cagula, soltos cor habeas corpus obtido na justica. Mas la ainda estao Paulo Torres, Atila Morbach (irmio de Augusto Mor- bach, o mais celebre personagem do grupo), o comerciante Raimundo Tupan e o piloto Raul Boretto, membros de uma outra rede desba- ratada pela PF a partir da apreensio de 200 quilos de caocaina em Maues (ver Jornal Pessoal 128). O bando se formou em janeiro do ano passado para fazer chegar a Espanha os 200 quilos da droga. Ela havia sido obtida a apenas sete qui- 18metros da fronteira brasileira, numa pista clandestine do cartel. Boretto a levaria num pequeno avi- &o, adquirido um pouco antes, ate Brasilia, de onde seria embarcada num jatinho para o espanhol Alex Valentin Jos6 Stroiazzi Mougin. Mas a Policia Federal, numa operagao que durou 15 meses, en- volvendo cinco superintendencias, acompanhava todos os passes dos traficantes. Prendeu o aviao de Bo- retto, com a cocaine, em Mau6s, no interior do Amazonas. E colocou todos os integrantes da quadrilha na cadeia, exceto Fernando Pimentel, que morreu de cancer, e Marcio Aurdlio da Silva, ainda foragido. As baixas sofridas pelo narco- trafico t6m sido grandes nos quatro ) 2 Jornal Pessoal Altimos anos. Ha pelo menos oito colombianos press em varios pon- tos do pais, um deles, Jos6 Hamilton Gusman Quinteros, na penitenciaria de Americano, com a maior de to- das as penas: 32 anos de prisao. Nos dois ltimos anos a PF apreendeu duas toneladas de coca no Amazonas. S6 em Tocantins foram sete toneladas, a maior apre- ensao de todos os tempos. Redes internal Os n6meros indicam que tanto cresceu a efici- 8ncia da policia, agora mais apare- lhada, como se ampliou a rede de trafico de drogas no pais e particu- larmente na AmazOnia. Por enquan- to, nao hA laborat6rios de refino instalados no pais, ou, se hA algum, nao tem expressAo. Mas crescem os plantios de epadu, a droga amaz6ni- ca, nas zonas de fronteira. Para possibilitar a passage de cocaine oriunda do Peru, da Bolivia e da Colbmbia (que nao 6 a maior produtora, mas 6 quem mais refina), os cart6is formam esp6cies de su- cursais ou se associam a redes lo- cais, submetendo-as a um crescente monitoramento, talvez por causa das complicates e insucessos dos par- ceiros brasileiros. No Amazonas, por exemplo, al6m da familiar Gusman Ramos Graca, a PF identificou uma organi- zagCo semelhante, a Sapateiro (apelido de seu chefe, Carlos Zapa- ter Zarak, que se aproveita da influ- Encia do sogro, Jorge Arce Carlin, general da Policia Nacional Perua- na), e varios pequenos grupos isola- dos locais, que distribuem a droga em Manaus e mantem um esquadrao da morte para defender seus pode- res. Os arquivos dos 6rg~os de segu- ranga tem informagqes de que mui- tos politicos na AmazOnia foram eleitos com dinheiro e apoio do nar- cotrafico. Todos os prefeitos do Alto Solim6es, por exemplo, no Estado do Amazonas, encontram-se nessa situagqo. O prefeito de uma das mais anti- gas cidades do Para aparece nos inqudritos policiais como membro direto de uma das quadrilhas, que a policia espera ser a pr6xima a "cair". Empresas de fachada, que existem apenas no. papel ou atuam simbolicamente, sao usadas para a lavagem do dinheiro ilicito, atuando em garimpos, mineragao, exporta- 9ao, importagao, transport adreo, corretagem de im6veis, titulos e valores, turismo e cAmbio. Os traficantes chegaram a constituir um territ6rio autonomo, nos garimpos do Castelo dos So- nhos, no extreme sudoeste do Pard. Os garimpos eram comandados manu military por um piloto, MAr- cio Martins da Costa, que dispunha de uma pista de pouso com dois mil metros de extensao. Por seu isola- mento e pela ausencia de control official, essa pista servia de apoio a v8os clandestinos. Mas Mdrcio ampliou tanto seus neg6cios que se tornou perigoso demais. Foi prati- camente executado durante uma espalhafatosa operaqao de guerra da Policia Militar, em 1992, que mobi- lizou 200 homes, a pretexto de restabelecer a ordem pfiblica na area. Um pistoleiro contratado por MArcio "Rambo", apelido que ga- nhou por causa de seus atos de vio- l8ncia, conhecido como Polaco, teria sido o autor dos 15 tiros de metralhadora que mataram o sena- dor Olavo Pires, quando ele partici- pava de um comicio em Porto Ve- lho, em 1990. Pires era o candidate favorite ao govemo de Rond6nia, mas sua morte nao foi por motiva~io politi- ca. t que ele tentara vender 760 quilos de cocaine sem o conheci- mento do cartel. Mas deu azar: o aviao que transportava a droga foi preso em Sao Paulo. A vinganga foi fulminante, como costume ser nos dominios do narcotrAfico. As quedas foram em onda. O deputado federal Jades Rabelo, in- tegrante da quadrilha, foi cassado pela Camara Federal. Seu irmao, Abdiel, seria preso, tamb6m em Sao Paulo, cor 554 quilos de cocaine e uma falsa carteira funcional da CA- mara que Jades lhe havia dado. Se essas vit6rias inibiram os narcotraficantes, a policia nao sabe muito bem. Mas tamb6m nao co- memora. As apreensoes de droga se tornaram tao frequentes e volumo- sas, medidas em centenas de quilos, que a opinito pdblica despreza quando a agao envolve "apenas" algumas dezenas de quilos. Mas 20 quilos, por exemplo, ja significam faturamento,a na ponta da linha do trafico, de um milhao de d6lares. Um milhao de d6lares, ali- As, 6 a verba reservada neste ano pelo DEA, a agencia americana de combat As drogas, para seu conv6- nio corn a Policia Federal brasileira. DA uma idWia da dimensao dos con- tendores nesta guerra. Lembranga O senador Jader Barbalho foi muito discreto como acompanhante do president Fernando Henrique Cardoso nos atos que marcaram a inauguragio da Alunorte, mas nio deixou de reivindicar para si alguma gl6ria pelo event. Lembrou que seu governor, diferindo o ICMS a ser pago pela Alunorte pelo prazo de 10 anos, contribuiu para viabilizar o empreendimento, que opera cor uma baixa taxa de retorno do capi- tal. O senador bem que podia apro- veitar para fazer a presta9qo de contas dos 14 milh6es de d6lares (ou seriam 16 milh6es?) que a Alu- norte antecipou por conta do diferi- mento. Certamente a operagao foi proveitosa para a empresa. Mas tera sido tambem proveitosa para os paraenses? Perfis Pretendo, a partir deste nuimero, ter sempre um perfil de personali- dade ao alcance do tiro dado na provincia. O primeiro da sdrie e o president Fernando Henrique Car- doso, escolhido pelo gancho opor- tuno da visit a Barcarena. Mas o objetivo principal 6 tratar de gente da terra. Sei que posso estar me metendo num vespeiro, mas espero me defender corn a desculpa do in- teresse pfblico. Journal Pessoal 3 PERFIL 0 intellectual e o monstro Q euem conviveu com Fernando Henrique Cardoso no seu il1- timo period como professor da Universidade de Sao Paulo, no final a ddcada de 60, antes da cassagdo, ou como organizador do Cebrap (Centro Brasileiro de Pesquisa), no retorno do exilio, jamais deve ter pensado na hip6tese da transforma- 9q0 do intellectual pedante e seguro de si daquela dpoca no politico nd- mero um do Brasil de hoje. As esfe- ras do intellectual e do politico pou- co se tocam. A interpenetraiao, en- tao, 6 rara. Esse paralelismo tem uma face boa e uma face ruim. A face boa 6 a preservaAio de cabegas bem pensan- tes a serving da sociedade, numa postura independent, do livre atira- dor, que faz falta ao equilibrio do jogo democrAtico. A face ruim 6 quase uma exensao da primeira, s6 que em sentido contrario: a pritica political fica privada daquele perso- nagem que age corn reflexao, aquele que domina os significados dos seus atos. Poucos intelectuais tem conse- guido juntar as duas esferas. A mai- oria dos que o fazem acaba sacrifi- cando uma dessas dimens6es. 0 poderoso intellectual costuma se transformar em tirano, ou num si- mulacro de si mesmo, nivelando-se por baixo ao tomar como arqu6tipo o modelo que at6 entao recusara. Lenin talvez seja, agora que esti sendo revisto A luz de documents mais completes, o paroxismo desse exemplo padrao. Matutava eu cor meus botoes algo semelhante enquanto acompa- nhava o desempenho do president Fernando Henrique Cardoso na meia hora que o tive diante do cam- po visual na inauguraqdo da Alu- norte. Era aquele o mesmo profes- sor que chegava i sala de aula pontualmente, mesmo quefosse uma hora precoce da manha paulistana, corn seu palet6 impecdvel, exigindo e usufruindo de todo o ritual aca- demico? Era aquele o autor dos textos tortuosos sobre os quais nos debrudcvamos, deixando de lado o estilo confuso do sociologues e pro- curando as ideias originals, o espi- caqamento intellectual? Sim, o professor ja avisou para esquecerem esse passado, mas 6 impossivel, at6 mesmo para ele. Fernando Henrique foi um dos pri- meiros e, at6 hoje, dos poucos - intelectuais brasileiros que realmen- te leram todo "O Capital", o enten- deram por inteiro e o vulgarizaram para a compreensao dos que nao tem tanta capacidade. Claro: penso na opera maxima de Karl Marx nao como um cate- cismo ou fonte de dogmas (se isso e marxismo, entdo ndo sou marxista, disse ele, ainda nao completamente afogado pelo narcisismo, virus con- tra o qual raros intelectuais, incluido FHC, possuem anti-corpos), mas como um notivel trabalho de erudi- 9ao do pensador complete que Marx foi em seu tempo (fil6sofo, politic6- logo, economist, ensaista, critic de cultural, jornalista e, infelizmente, profeta, esta filtima condicao um subproduto que seus seguidores erigiram a falsa condidao de quin- tessencia). Esse passado de leituras e refle- xoes, de militincia exclusive no mundo das iddias, di a Fernando Henrique a privilegiada condidao de poder entender seus pr6prios atos, contextualizando-os. Esta 6 a altura alcangada apenas por homes de program, pelos estadistas, capazes de discernis nos seus atos o que 6 poeira do tempo do que 6 hist6ria. Nao 6 o varejo da political. Temos, portanto, o perfil de um estadista na presidencia da nossa maltratada Repiblica. Os america- nos nao tem a mesma possibilidade quando encaram Bill Clinton. Os franceses, no fundo, sabem que tem uma versao chinfrim de Charles de Gaulle, inspirada nao no original, mas na versao aqucarada de Georges Pompidou. Os ingleses, estes ji nem sabem o que tem. Todos gostariam de dispor de uma estampa como a de Fernando Henrique Cardoso, um intellectual para valer, um ser que sabe pensar, e nao essas infladas decoracges de academia, como Jose Sarey. Mas um pais nao consegue re- solver seus graves problems apenas com uma estampa, ou uma moldura. Se nao fosse o president do Brasil, Fernando Henrique talvez ja tivesse assegurado seu lugar no panteao. Nao precisaria estar participando de atos paroquiais, se entendendo com pracistas da political, como os que constituem a maioria do nosso con- gresso. Sem d6vida, 6 o president mais pr6ximo do ideal de globalizacqo que ha no planet, o home piblico talhado para fazer a oraao principal na festa do cinquentendrio da ONU. Poliglota fluente, capaz de arreme- dar at6 sotaques nas linguas estran- geiras que fala (o portenho, por exemplo, que fascinou Buenos Ai- res), viveu em tres continents e conviveu com alguns dos persona- gens que vale a pena conhecer nesse mundo. Comparado a ele, Clinton nao 6 muito mais do que um caipira do Arkansas, envernizado pela li- turgia da Casa Branca. Entretanto, como lembrou anos atris Antonio Callado no "Bar Don Juan", o Brasil 6 um paquiderme, que s6 consegue se mover lentamen- te, atacado por contradic6es dilace- rantes, refratario as mudangas, em- bora elas constituam seu caminho natural, seu talvegue. 0 president de perfil primeiro mundo tem, diante de seu palanque, tres dezenas de pessoas que gritam a plenos pulmoes, fazendo-se ouvir por sobre os decibdis do sistema de amplificaado da voz official. "Para que inaugurar, se vai pri- 4 Jornal Pessoal vatizar? ", d o que gritam. Um bom arranjo para funcionar como slo- gan. Mas nao e verdadeiro. A Alu- norte jd e uma empresa privada. A Companhia Vale do Rio Doce tern menos da metade do capital da em- presa (para ser exato: 48,7% das aqdes). Um quarto estd nas maos de multinacionais. 0 maior grupo pri- vado national ter quase 8%. E uma composi~do acion4ria mais comple- xa, portanto. Se a CVRD for priva- tizada, a essincia da Alunorte nao serd afetada A esquerda militant projetou a imagem de FHC (tratado cada vez mais como ums sigla, talvez para gaudio dele pr6prio, sempre com JK na cabega) como um titere do neo- liberalismo, abre-alas do conserva- dorismo, quinta coluna dos coveiros do Estado. S6 falta trazer dos gl6i- dos arquivos coisas como cao-de- fila do imperialismo ianque, corifeu da rearao, aulico do poder e outros jargoes gerados outrora pela radio de Pequim e, mais recentemente, de Tirana. Sem palavras de ordem nao ha massa em agao. Mas as vanguardas precisam refletir sobre a base for- madora dos slogans. Sem isso, po- dem mais uma vez provocar re- trocessos, imaginando serem os arautos dos novos tempos. A Petro- bras, por exemplo, um dos cavalos de batalha dos que se op6em a FHC, foi mais um produto da UDN (Uniao Democritica Nacional) do que do nacionalismo de Vargas. Basta ir aos anais do congress para verificar. Mas quem esta realmente interessado na verdade? O president se equilibra na cor- da bamba e desliza sobre ur faca s6 lamina. Pode deixar-se levar por seu indisfargivel nascisismo e por sua incontrolada busca de poder, tro- cando os fins pelos meios e esque- cendo, a custa de inibidores quimi- cos, que 6 um ser pensante com o rarissmo privildgio de decidir sobre transforma6es coletivas em pro- fundidade. Os erros que ja cometeu sao vi- siveis e nao slo nada despreziveis. Os riscos de engendrar monstros estao presents. Mas, 10 meses de- pois de assumir a presidencia, tem ainda um potential de mudangas ao alcance de suas maos como nenhum outro president teve antes dele. E um razoavel acervo de acertos. Obviamente, o saldo a realizar ultrapassa de muito o ja realizado, mas comparar Fernando Henrique a Sarney ou Collor 6 um desprop6si- to. Pode atd ser que ele se tenha tornado um cavalo de Tr6ia, carre- gando inimigos nos vastos est6ma- gos do poder, mas, ao isolA-lo, a esquerda e os intelectuais enquan- to categoria estao colocando-o como ref6m de seus erros, tirando- Ihe a possibilidade de optar. O president tem caminhos A sua frente e ainda pode desfrutar da prerrogativa da escolha. Pode ser a consumagao do possivel, mas pode resultar tamb6m numa frustra~ao do tamanho de um Felipe Gonziles na Espanha ou Alan Garcia no Peru (Vargas Llosa foi involuntariamente poupado e pode continuar a teorizar sobre utopias). 0 president fica impaciente confrontado com as vaias e as pala- vras de ordem hostis. Comega a responder saindo do discurso ofi- cial de inauguradao (como faria, depois, na sessao da ONU em Nova York; de olho na hist6ria), mas e evidence o mal-estar. Termina de falar e desce do palanque. Rompe o protocolo para abragar uma crian- Ca que estd no meio da multiddo, bem junto ao grupo da CUT (Cenral Unica dos Trabalhadores, dominada pelo P.T), que comanda as palavras de ordem. Volta a falar com gente do povo, para desespero dos seguranqas. Depois vai em frente, resolute, meio dobrado so- bre o pr6prio corpo por causa do desvio de coluna e pelo peso acima do recomenddvel. Fernando Henri- que Cardoso ter carisma e ideias, mas o Brasil, mais do que o paqui- derme de Callado, parece-se d Mo- by Dick de Melville. Serd FHC o nosso capitdo Ahab? Nosso cobre U ma fonte graduada da Compa- nhia Vale do Rio Doce assegu- ra que a empresa nunca pensou em se associar A Caraiba Metais, a 6ni- ca metalfrgica de cobre do Brasil, para levar o concentrado de Carajas para ser industrializado na Bahia. Essa hip6tese, que chegou a ser de- nunciada pelo deputado estadual Bira Barbosa, do PMDB, faz parte de um jogo de presses da Caraiba e de stores do BNDES. Com a nova metalfrgica, a ser instalada em MarabA ou Parauape- bas, a Caraiba perderA, de imediato, o equivalent a 70 milhies de d61a- res em subsidies que o governor lhe paga por conta das importa98es que o pafs precisa fazer. Corn a Salobo Metais, o Brasil vai, finalmente, se tornar auto-suficiente em cobre. Da parte de stores do BNDES, ha tamb6m o desejo de se livrar de qualquer maneira do rombo sofrido corn as irregularidades do projeto da Carafba, sonho megalomaniaco do miliontrio (e playboy) Baby Pigna- tary, que o govemo military endos- sou. O projeto de cobre em Carajas, pordm, foi definido sem qualquer relagao corn a Carafba e s6 poderA existir, de forma sadia, se dessa ma- neira for implantado. Do contrdrio, pode se transformar numa nova Ca- raiba, que tern atrAs de si um 6nus para o pais do tamanho de um bi- lhao de d61ares, dinheiro que saiu dos cofres piblicos e a eles nao mais retornou, como devia. Inegociavel p orta-voz do PMDB jura que o partido nao reivindicou ainda nenhum lugar no primeiro escalao do governor, nem mesmo sua lide- ranga na Assembleia Legislativa. Mas admite que a participa9go no governor inevitavelmente faz part da agenda do acordo. O governador apenas teria excluido de qualquer barganha tres postos: a secretaria da Fazenda, a secretaria de Seguranga Piblica e o comando da Policia Military. Journal Pessoal 5 Cobre em Carajas: questao defimda 0 principal problema para a implantagao do Projeto Cobre Salobo, em CarajAs, foi resolvido nos l6timos dias: o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Eco- n8mico e Social) acertou corn a Companhia Vale do Rio Doce a avalia9eo das jazidas de cobre e, indo aldm, decidiu participar como acionista do empreendimento da Salobo Metais, fruto da associa9ao da CVRD cor a multinational sul- africana Anglo-American, a maior mineradora do planet. O BNDES 6 dono de um tergo dos direitos sobre a maior jazida desse mindrio que ha no pais, mas o valor, a ser contabilizado como capital, vinha sendo questionado pela Anglo American, que deveria cobrir o equivalent cor recursos pr6prios (jA que apenas BNDES e Vale participaram dessa fase ini- cial). Por fim, foi acertado um valor entire 420 e 450 milhoes de d6oares, que eram os limits definidos de um lado pela Anglo e, de outro, pelo BNDES. Acertada essa primeira etapa, a direq o do banco surpreendeu a Salobo ao manifestar a disposi9ao de tamb6m entrar como cotista da empresa, uma posi9ao aparentemen- te contriria A diretriz de retirar o Estado das atividades produtivas. A contradig9o, por6m, 6 apenas apa- rente, segundo porta-vozes do setor: e que o BNDES ficarA somente corn a9qes preferenciais, que dao prima- zia no recebimento dos dividends, mas nao a participag9o na adminis- trag o da empresa. Segundo o acerto que foi feito, cada uma das parties entrara corn 200 milhOes de d6lares de recursos pr6prios e, incorporado o valor dos direitos minerarios, o aporte deixard um saldo de US$ 400 milh6es para ser completado atravds de financia- mentos, fechando o custo total em US$ 1,4 bilhao. O pr6prio BNDES poderd ser um dos agents financei- ros, o que facilitaria ainda mais a complementagao em outras fontes do sistema bancario. Isto quer dizer que, do ponto de vista das fontes de recursos, o proje- to Salobo ji esta inteiramente es- quematizado, permitindo o inicio de sua implantagao em janeiro do pr6- ximo ano, para atingir sua plena produiAo em quatro anos, na transi- 9Ao de um s6culo para o outro. Em janeiro serb anunciada a lo- calizagIo da fibrica, se em Paraua- pebas ou em Maraba, detalhe que os responsaveis pelo projeto conside- ram menor. Preocupados em agra- dar o governador Almir Gabriel, com quem dizem ter contado para superar problems, nAo vio anteci- par a decisao e sugerem que ela po- dera favorecer Marabi, a opqAo pre- referencial do governador. Mas tudo indica que a concentragao e a meta- lurgia do cobre ficarao mesmo em Parauapebas, no que jA 6 um distrito mineral em fase de industrializagao, em Caraj6s. Tucurui ficara' corn empresas ACompanhia Vale do Rio Doce, junto cor suas coligadas e controladas, mais a Alcoa e a Dow Quimica, poderAo assumir a cons- trugio da segunda etapa da hidrel6- trica de Tucurui, que preve investi- mento de US$ 1,5 bilhao e a dupli- caCio da capacidade de geragao de energia, atualmente de quatro mil megawatts (ou quatro milh6es de kilowatts). O "pool"de empresas se aprovei- tard da abertura constitutional As concess6es de energia para, o setor ptivado, investindo na ampliagAo de Tucurui para disporem de auto- suprimento de energia. S6 os em- preendimentos da CVRD na drea de influencia da hidrel6trica irao exigir 1,8 mil mw at6 o final da ddcada. A principal demand 6 a da Al- brds, beneficiada por um contrato que comegou a vigorar em 1984, mantendo-se por 20 anos. Mas tenm sido fortes as presses para rever esse contrato, que ter acarretado um 6nus quase insuportAvel A Ele- tronorte. Responsabilizando-se pela duplica9ao da usina, os concessio- narios serao auto-supridores. Eles sabem que dificilmente os terms estabelecidos nos subsidies energd- ticos, que ja deram prejuizo de mais de um bilhao de d61ares A Eletronor- te com seus clients eletrointensi- vos, poderAo ser mantidos por mais tempo. A opcqo 6 construir sua pr6pria hidreletrica ou ficar com a amplia- 91o de Tucurui. Para a primeira op- Aio ha um inconvenient: nenhum agent financeiro intemacional esti disposto a financial qualquer obra hidrel6trica capaz de criar proble- mas ecol6gicos. Ja a duplicagao de Tucurui nao tera esse inconvenient, porque nenhum efeito iri causar sobre a natureza, usando o mesmo lago formado pelo barramento ori- ginal. A defini9lo da concessao priva- da para Tucurui ja esti em fase fi- nal. Confusao A Odebrecht, a 61tima das pres- L tadoras de servigo a publicar anincio na imprensa de Belm ho- menageando a Alunorte, cometeu um erro crasso em sua peCa. Saudou a inaugura9ao da mais modern fibrica de aluminio do mundo. Queria dizer alumina. Confusao de poucas palavras, mas de muito si- gnificado. A empreiteira baiana talvez s6 tenha se apercebido da necessidade do anincio depois que o president Fernando Henrique Cardoso cum- primentou mais efusivamente o re- presentante da empresa durante a inauguraaio. Feito "s pressas, o anincio acabou claudicando. Errata O marido de Roberta Maiorana Xerfan nao 6 filho do ex- prefeito Salhid Xerfan, como, por um lapso, saiu publicado no nimnero anterior deste jomal. E sobrinho, duplamente sobrinho, alias. 6 Jornal Pessoal Uma festa muito cara E m 1980 comegaram, em Barca- rena, as obras de construcao da fibrica da Alunorte, irma-gemea da Albris no acordo nipo-brasileiro para a montagem de um grande p6lo de alumina e aluminio na Amaz6nia. Em 1983 as obras na Alunorte foram reduzidas, as da Albrfs prosseguiram. Em 1985 a Albras comecou a funcionar co- mercialmente. Em 1986 a precaria frente de servigos na Alunorte parou de vez. A Companhia Vale do Rio Doce, jA entAo sozinha na empreita- da, por causa da desistencia de seus s6cios japoneses, havia aplicado na Alunorte o equivalent a 200 mi- lhWes de d61ares. Em 1993, quando as obras da Alunorte foram retomadas, corn um novo acordo de acionistas, depois de sete anos de congelamento, o inves- timento realizado havia dobrado. A fibrica nAo produzira uma grama de alumina, mas as imobilizag6es pula- ram para US$ 400 milh6es por cau- sa dos juros devidos aos financiado- res, os mesmos japoneses que havi- am said da sociedade corn a CVRD. Peso de bilh6es A retomada do projeto era uma tarefa quase ag6nica para a Vale, obrigada a cobrir o bu- raco sem ter como transformar em fonte de rendimentos o acervo de obras inacabadas onde deveria estar a Alunorte, ao lado da Albris. Du- rante 10 anos a fabrica de aluminio funcionou com alumina importada, embora o Para tenha a terceira mai- or jazida de bauxita do mundo, em Oriximina, e condig6es excepcio- nais para fabricar alumina. A Alunorte, a partir do pr6ximo ano, vai permitir ao Brasil um in- gresso de divisas do tamanho de US$ 250 milhoes. Era quanto se transferia para fora do pais por ela ter ficado parada. Somados os 10 anos, num cAlculo rudimentar, mas exemplificativo, foram US$ 2,5 bilh6es que deixaram de circular dentro do pais e particularmente no Para para terem efeito multipli- cador nos paises dos quais impor- tamos a alumina. Ainda que o valor real, por um calculo mais cuidadoso, deva ser um pouco menor (nunca, por6m, abaixo de US$ 2 bilh6es), avaliar a dimen- sao dessa perda congela a espinha de quem tem, da hist6ria, uma no- cao mais rigorosa. A Alunorte, en- fim inaugurada no dia 20, vai elimi- nar as perdas a partir de agora, mas nio recuperard o que ji se perdeu no passado. A inauguragio da nova fabrica em operagao no distrito de Barcare- na (onde, dentro em pouco, chega- rao as fibricas de caulim da Pard Pimentos e da Caulim do Pari), foi saudada ao custo de uma festa calculada em um milhao de d61ares como o fechamento do ciclo com- pleto de aluminio. De OriximinA a Mineraqao Rio do Norte mandarin um quinto da sua produqAo total de bauxita para Bar- carena. O valor de cada tonelada recebida no porto da Ponta Grossa se multiplicard quase quatro vezes em valor agregado ao ser transfor- mada em alumina, multiplicada, por sua vez, 17 ou 18 vezes (dependendo das flutuaB6es do mer- cado intemacional) na metalurgia da Albris, infelizmente ainda a ponta final da transformagao industrial no nosso territ6rio (por quantas vezes se multiplica quando chega ao terri- t6rio dos compradores?). Tempo perdido Completar esse ciclo custou um investimento de US$ 3 bilhoes, realizado ao lon- go de 20 anos. O p6lo inicial desse ciclo, o da bauxita, estA operando ha mais de 25 anos. O do aluminio passou de 10 anos. O "gap" foi pre- enchido agora pela Alunorte, aca- bando corn o vacuo aberto entire a minerag o primdria e a metalurgia (neste mundo, tornado pela "quarta onda", nao menos primaria). A partir do pr6ximo ano, esse investimento realizado vai permitir um faturamento entire 800 e 900 milh6es de d61ares por ano (bauxita, alumina e aluminio). E uma quantia fantastica para um Estado que, antes de comegar o ciclo do aluminio, faturava US$ 300 milhoes corn a exporta9go de produtos extraidos principalmente de sua cobertura vegetal, submetidos a uma infima transformagao pelo home. Mas 6 um valor baixo para um Estado que, de per si e junto com o pais do qual faz parte, gostaria de ganhar espago e valor nas relaq6es de troca inter- nacionais. Para quem consegue ver, todas as potencialidades e, tamb6m, todas as limita96es colocadas diante do present e do future do Estado do Para estlo plenamente assinaladas na hist6ria recent e ji tAo pungen- te, para nao dizer indigente do ciclo do aluminio. Qual o vigor criativo (ou mesmo simplesmente participation) de um Estado que, ao long de mais de 10 anos, conviveu corn o congelamento da Alunorte e foi incapaz de implan- tar para valer um p61o industrial a partir do lingote fundido pela Albras em Barcarena, a custa de milh8es de kW/hora subsidiados, coisa de um bilhao de d61ares transferidos para o passive pdblico? Age o cartel Quando, para implantar seu ciclo complete em Sao Luis, no Maranhao, a Alcoa ofereceu A Albras alumina a prego inferior ao que a Alunorte produzi- ria, os paraenses teriam que dispor de conhecimento e densidade de opiniao pfiblica para nAo permitir que, por uma circunstancial dificul- dade de caixa, a CVRD atrasasse por anos, ao custo de bilh6es de d61ares, o que s6 agora se p8de ma- terializar. Gragas a essa manobra, a Alcoa recuperou o tempo perdido na frente do aluminio, saiu na frente na raia da alumina e acabou se integrando ao emergir na composiglo acionaria da Mineragao Rio do Norte. Por falta de inteligencia, o Para, que surgia ap6s a crise de energia, eclodida no inicio dos anos 70, como uma altemativa ao cartel, foi totalmente submetido ao control desse mesmo cartel e agregando a ele os japoneses, que deveriam ser o piv6 de um novo tempo no setor de aluminio. Journal Pessoal 7 A agiotagem vai continuar E m 1990 Terezinha Moraes Gueiros, entao secretaria de educa9ao do Estado no governor do marido, Helio Gueiros, mandou sustar os descontos feitos nos pa- gamentos de funcionarios da Seduc em favor da Upasp (Uniao Paraense dos Servidores Pdblicos). Como razao para seu ato, a secretaria ale- gou que os descontos eram feitos sem autorizagao e estavam deixando em mi situagdo os funcionirios, vitimas de uma autdntica agiotagem. Cinco anos depois, o filho de Terezinha (hoje primeira dama do municipio de Beldm, secretiria de educa9~ o e president da Funverde), H6lio Gueiros Jr., vice-governador do Estado, mandou que os descon- tos feitos em favor da Upasp, que haviam sido novamente sustados, voltassem a ser feitos. O que a mae queria fazer em 1990, o filho nao permitiu em 1995. Em 1991, atrav6s de ordem ju- dicial, a Upasp derrubou o ato da secretaria de Educaq9o e voltou a retirar do salario mensal de seus associados servidores piblicos a parte que lhe cabia. Mas em abril essa vantagem foi derrubada pelo secretario de administra9ao, Carlos Kayath, segundo ele para cumprir "diretrizes fixadas pelo govera- dor". Agiotagem protegida Ao anunciar a suspensao das consigna- 95es, Kayath revelou que mais de 20 mil servidores puiblicos (portanto, mais de 15% de todo o efettivo estadual) recorriam a em- prdstimos semelhantes aos que a Upasp concede, tendo que pagar taxas m6dias de juros acima de 20% ao mes. Com isso, haveria casos de fun- cionarios comprometendo mais de 30% de seus vencimentos com esses descontos, que nao sao compuls6ri- os, o que contraria determina9ao constitutional. E que o Estado, para fazer 200 tipos de consignagqes em folha, estava gastando de seu pr6- prio orgamento e mobilizando pes- soal em beneficio dessas entidades particulares, supostamente benefi- centes, mas, na verdade, instrumen- tos de agiotagem. Sem conseguir retomar as con- signaoqes em folha, a Upasp, dirigi- da pelo administrator Alziro Silva Gralha desde que foi criada, em 1983, voltou a recorrer justiga. No front judicial estA ganhando: primei- ro um mandado de seguranga e, em seguida, derrubando um embargo declarat6rio oposto pela Procurado- ria Geral do Estado. Mas os descon- tos nao voltaram a ser efetuados porque a Secretaria de Administra- 9io apresentou alguns problems t6cnicos para sua operacionaliza9go. Nada indica, entretanto, que o resultado dessa pendencia vi diferir do que houve entire 1990/91. A SE- AD suspended unilateralmente as consignac9es em favor da Upasp, sem dar-lhe o prazo de 30 dias, ne- cessario ap6s um long period em que o Estado atuou como verdadeiro secretArio-executivo da entidade para fins dos descontos mensais. Al6m disso, foi ignorado um contrato assinado entire a Upasp e o Prodepa, no ano passado, para a execu9Ao do desconto em disquete de computador fornecido pela enti- dade particular, sem que ela fizesse acompanhar c6pia da autorizagao dos funcionarios, relaqao nominal dos consignadores, com os valores a consignar, informarges que garan- tissem ao Estado o conhecimento do que fazia. Era uma verdadeira caixa- preta e uma escandalosa omissao ao dever pelas autoridades pfiblicas. Nos bastidores Repetida mais uria vez a tentative de acabar corn essas consignag6es, a pergunta imediata que se faz 6: por que o Estado nao procede regularmente, corn as cautelas legais, para desfazer de vez esses elos? Os antecedentes mostram que a a9ao voluntariosa 6 apenas um pas- so para a consignadora voltar A fo- lha de pagamentos, pela via judicial. Ou 6 isso o que se pretend? t evident que o barnab6 esta- dual toma-se vitima de um eng6do. Essas organizaq6es o atraem com ofertas de serviqos que nao reali- zam, que prestam precariamente, que sao superfluos (salao de beleza, por exemplo), que manipulam, tudo isso apenas para o que interessa: emprestar a juros extorsivos. Trata-se de um neg6cio altamen- te rentAvel. A Upasp, cor quase 7.300 associados, arrecada mensal- mente 48 mil reais. Em abril apre- sentou a justiqa recibos (nem todos confidveis) de despesas no valor de 11 mil reais. Apesar de toda a evidencia de golpe, essas entidades s6 existem porque os funcionarios piblicos dependem delas. E eles s6 depen- dem dessa agiotagem porque o Es- tado nao cumpre sua obrigaqao de proteger seu servidor e atender-lhe as necessidades bisicas. As Upasps da vida s6 prosperam porque os Ipaseps sao inacessiveis ao comum dos servidores e se tornaram um esquema de arranjo politico. Eis um tema que os parlamentares, supos- tamente os representantes politicos do povo, poderiam transformar em alvo de investiga9ao, poupando-se a opiniao pfblica o espetAculo de tantas incoerencias praticadas ao long do tempo por govemantes que nao pensam no que falam e s6 falam o que nao pensam. O prefeito esta em campanha O prefeito Hilio Gueiros ji esta em campanha para eleger o seu successor. Tem um nome para trabalhar, o do deputado federal (de seu partido, o PFL) Vic Pires Fran- co. Ter obras eleitoreiras para inaugurar ao long dos pr6ximos meses. Disp6e de um fundo de re- cursos, formado pela arrecadaqao tributaria e gragas ao arrocho do funcionalismo pfiblico municipal. Conta com empreiteiros de obras agradecidos. E, agora, criou um canal pr6prio. de comunicag~o com o president Fernando Henrique Cardoso. 0 prefeito de Belem esti mon- tando uma estrutura para nAo de- pender do governador Almir Gabriel - e at6 dispensi-lo, se for o caso. A deifiniIAo dessa parte da estrat6gia vai defender do comportainento do pr6prio governador. Hl6io Gueiros parece disposto a testar at6 onde vai a inseguranga de Almir. A sucessao de recados hostis culminou quando o prefeito decidiu sair de Bel6m, levando o filho, vice- governador, dois dias antes da che- gada do president Fernando Henri- que Cardoso a Bel6m para a inaugu- raqao da Alunorte. Os dois ficaram no Rio de Janeiro durante quase uma semana, com a agenda absolu- tamente livre. Foi um ato para mar- car posiqAo, ou remarca-la, A manei- ra dos Gueiros. No entanto, enquanto os Hdlios Gueiros 1 e 2 iam embora, vinha com o president, atras dele em to- dos os enquadramentos de fot6gra- fos e cinegrafistas, o deputado fede- ral Vic Pires Franco. A imprensa amiga divulgou que, ao long das tr6s horas de v6o com o president ate Bel6m, Vie teria feito uma ex- posiqao convencendo Femando Henrique sobre a conveniencia de dar apoio a algumas das bandeiras reivindicat6rias do Park, como as eclusas de Tucurui. A hist6ria temr tudo para ser desses fen6menos provocados pela altitude. Imediatamente a propaganda official do prefeito na televisao, que atende pelo nome de "caminhando com o povo", divulgou entrevista com Vie e, logo em seguida, a audi- Encia telegrifica que conseguiu com FHC em Brasilia. Quase que para se desvencilhar de um compromisso, o president deu apoio a duas obras nas quais o prefeito pretend gastar 20 milh6es de reais: um viaduto na entrada da cidade, no entroncamen- to, e passarelas de concrete nas - sempre f6rteis em votos baixadas da capital paraense. O president ainda telefonou para Gueiros garantindo presenga quando as obras forem inauguradas, atrav6s de um esquema de financi- amento ainda nao detalhado. Viadu- to e passarelas entrarAo na agenda, que ji incluiu, ao custo de R$ 4 milhoes, o mero cartao postal urba- no da Doca de Souza Franco, e terd ainda o terminal' pesqueiro (no mi- nimo R$ 7 milh6es), as grades do Bosque Rodrigues Alves (R$ 1,5 milhAo), a calgada da avenida Por- tugal, muito verde em pragas e muito ferro nas ruas, o varejo bem trabalhado por produtores de voto que dispensa pianos globais, como os que continuam, pagos, nas gave- tas e prateleiras. O governador Almir Gabriel passou a ser detalhe, embora is vezes de forma inc6moda. O gover- nador ainda tenta, como se fosse possivel, apaziguar os animos, mas sua posigao vai se tornando nao s6 dificil, como insustentAvel. Ele esta simplesmente sendo deslocado do eixo de poder. Se nao reagir a tem- po, com os meios que estao ao seu alcance, sera figure decorative mais cedo do que costuma ser um gover- nador, no period pr6-eleitoral. 0 discurso do tucano U m veteran e consagrado jor- nalista national que, ao meu lado, assistia a inaugurago da Alu- norte, ao ouvir as primeiras palavras do governador Almir Gabriel de refer8ncia A Companhia Vale do Rio Doce, tentou profetizar: "agora ele vai critical o Fernando Henrique". A deduc~o era 16gica, tal a for- mulagio da primeira parte da oraqao no discurso do governador. Mas Almir tateou pela vacuidade, fez referncias em tese, entrou naquela conversa de cerca lourengo, e ficou s6 nisso. O resume da 6pera: presi- dente, a Vale 6 important; pense nisso antes de decidir privatizi-la; sou contra, mas nao tenho nada com isso. A "Gazeta Mercantil" de tres di- as ap6s colocou o governador em rota de colisao com o tucano maior do Planalto em assuntos de privati- zagdo de CVRD, mas exagerou na dose. Ou nao entendeu as sutilezas do discurso tucano. Por isso, Almir deu todo o apoio, em tese, as manifesta9~es contra a privatizagao realizadas em Bel6m no dia 27. Mas nao compare- ceu aos atos e desta vez com a boa explica9ao de que neles estavam adversarios do PSDB, e nao propri- amente divergentes intemos. A posigdo do govemador fica complicada porque ele nao tem di- mensao national, nem tem trabalha- do para suprir essa lacuna. Os poli- ticos mais sagazes ja perceberam a limitagdo de v6o do tucano paraense e agora fazem contatos diretos com Brasilia, abolindo uma representa- 9ao que deveria ser do governador. O pior 6 que essa situacao tende a se agravar em fungio da crescente incompatibilidade corn o vice- governador. Almir Gabriel vai ter que pensar muitas vezes antes de deixar H61io Gueiros Jr. no seu lu- gar, ao menos enquanto nao provi- denciar uma emenda para poupd-lo de passar o cargo. E, nao viajando, esti ameagado de se tornar o ref6m do palicio de meia sola que Jader Barbalho Ihe deixou. Enervantemente lento e desaten- to continue a ser o PSDB do Pard. * Uma leitora escreVe para recla- mar dos muitos erros de digita- 9do do Jornal Pessoal. Eu poderia arrolar todas as dificuldades que se antep6em a produg~o deste jomal e com isso construir meu martiriol6- gico. Mas nao vou fazer. A leitora ter toda a razao: deve-se estabele- cer uma relaq9o absolutamente pro- fissional no trato entire a imprensa e a opiniao piiblica. O leitor nao quer saber o que hi por tris de erros t6c- nicos. O que ele quer 6 facilidade e comodidade na leitura. Lamento declarar, por6m, que o Jornal Pessoal nao poderd dar ao seu leitor a qualidade grifica e in- dustrial que ele merece. Nem pode- ra, ao menos de imediato, voltar ao padr2o do nfimero 126, que marcou sua retomada na atual fase. Vai continuar graficamente feio e sujeito a erros de digitagio e revisdo por mais algum tempo. Editor: L6cio Flivio Pinto Redagao: Av. Governador Jos6 Malcher, Passagem Bolonha, 60/B, 66.053-040 Fones: 2231929-2237690-2243728 Belim Pari SImpressao: Grafica Falangola |
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