Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00090

Full Text





Jomal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO
ANO IX No 129 2" QUINZENA DE OUTUBRO DE 1995 R$ 2,00


DROGA



0 rei da Amazonia


Ant6nio Mota Graga, o Curica,
e dono de uma fortune no valor
de um bilhao de d6lares.
A origem: trifico de cocaine.


ral apreendeu 670 quilos
de cocaine em Mato
Grosso do Sul que iam
ser embarcados para a Franga, Ho-
landa e ItAlia. A droga pertencia a
Ant6nio Mota Graga, mais conheci-
do como Curica, que, da Col6mbia,
onde estd foragido, continue co-
mandando a maior rede do narco-
trifico na Amazonia. Um irmao de
Curica, Jorge Mota Graga, foi preso
e, junto com ele, mais nove inte-
grantes da gangue.
No intervalo de algumas sema-
nas, foram dois resultados positives
obtidos pela PF. Vicente Wilson
Ramos Filho, o Jinior, foi transferi-
do da penitenciaria de Manaus para
a penitenciaria de Brasilia, onde os
policiais esperam que ele nio consi-
ga cumprir as ameagas de fugir,
destino que parecia praticamente
inevitivel na capital amazonense.
Filho de um dos mais poderosos
chefes do cartel colombiano, Jfnior
6 a maior baixa causada ao narco-
trffico no Brasil pela Policia Fede-
ral. Sua familiar, os Gusman Ramos
Graga, formada por brasileiros e
colombianos que transitam indife-
rentemente entire os dois paises, na
fronteira amaz6nica, 6 responsivel
pelo transport de mais de 20 tone-
ladas de cloridrato de cocaine que a
PF apreendeu no Brasil e no exteri-
or. Entregue ao consumidor final, a
mercadoria valeria um bilhao de


d61ares, mais ou menos a dimensao
do patrimonio da familiar binacional,
comandada por Curica.
A maior rede Graga ter mui-
tos neg6cios no Amazonas, no topo
dos quais estA o transport de com-
bustiveis. Mas todo o imp6rio foi
congelado quando a policia desven-
dou seus neg6cios paralelos com a
cocaine. Hoje, agindo cor total
desenvoltura do lado colombiano,
ele 6 um foragido para nao cumprir
as penas que a justiga brasileira lhe
aplicou. Mas nio controlou a ousa-
dia.
Curica montou uma nova rede,
a partir de Manaus, em diregao a
Mato Grosso do Sul, com o apoio
do ex-prefeito de Maracaju, Jair do
Couto, transformado em gerente das
operac6es. Elas incluiam o transpor-
te de cocaine a partir da Col6mbia,
em avioes teco-teco que desciam
numa fazenda entire Mato Grosso do
Sul e Mato Grosso. A, droga era
misturada cor cafe e levada para o
porto de Santos, de onde era embar-
cada para a Turquia em nome de
uma firma fantasma de exportaaio
cor sede em Manaus.
A desenvoltura do lider da rede
se fazia sentir nas pr6prias condi-
6oes em que Jinior vivia na peni-
tenciaria de Manaus. Tinha telefone
cellular, fazia programs corn mu-
Iheres e bebida A vontade.
Na mesma penitenciaria estive-
ram, at6 recentemente, Hamilton


Bezerra, ex-prefeito de Marabi, e
Carlos Alberto Penedo Salheb, da
familiar proprietAria da cadeia de
lojas Cagula, soltos cor habeas
corpus obtido na justica. Mas la
ainda estao Paulo Torres, Atila
Morbach (irmio de Augusto Mor-
bach, o mais celebre personagem do
grupo), o comerciante Raimundo
Tupan e o piloto Raul Boretto,
membros de uma outra rede desba-
ratada pela PF a partir da apreensio
de 200 quilos de caocaina em
Maues (ver Jornal Pessoal 128).
O bando se formou em janeiro
do ano passado para fazer chegar a
Espanha os 200 quilos da droga. Ela
havia sido obtida a apenas sete qui-
18metros da fronteira brasileira,
numa pista clandestine do cartel.
Boretto a levaria num pequeno avi-
&o, adquirido um pouco antes, ate
Brasilia, de onde seria embarcada
num jatinho para o espanhol Alex
Valentin Jos6 Stroiazzi Mougin.
Mas a Policia Federal, numa
operagao que durou 15 meses, en-
volvendo cinco superintendencias,
acompanhava todos os passes dos
traficantes. Prendeu o aviao de Bo-
retto, com a cocaine, em Mau6s, no
interior do Amazonas. E colocou
todos os integrantes da quadrilha na
cadeia, exceto Fernando Pimentel,
que morreu de cancer, e Marcio
Aurdlio da Silva, ainda foragido.
As baixas sofridas pelo narco-
trafico t6m sido grandes nos quatro )






2 Jornal Pessoal


Altimos anos. Ha pelo menos oito
colombianos press em varios pon-
tos do pais, um deles, Jos6 Hamilton
Gusman Quinteros, na penitenciaria
de Americano, com a maior de to-
das as penas: 32 anos de prisao.
Nos dois ltimos anos a PF
apreendeu duas toneladas de coca
no Amazonas. S6 em Tocantins
foram sete toneladas, a maior apre-
ensao de todos os tempos.
Redes internal Os n6meros
indicam que tanto cresceu a efici-
8ncia da policia, agora mais apare-
lhada, como se ampliou a rede de
trafico de drogas no pais e particu-
larmente na AmazOnia. Por enquan-
to, nao hA laborat6rios de refino
instalados no pais, ou, se hA algum,
nao tem expressAo. Mas crescem os
plantios de epadu, a droga amaz6ni-
ca, nas zonas de fronteira.
Para possibilitar a passage de
cocaine oriunda do Peru, da Bolivia
e da Colbmbia (que nao 6 a maior
produtora, mas 6 quem mais refina),
os cart6is formam esp6cies de su-
cursais ou se associam a redes lo-
cais, submetendo-as a um crescente
monitoramento, talvez por causa das
complicates e insucessos dos par-
ceiros brasileiros.
No Amazonas, por exemplo,
al6m da familiar Gusman Ramos
Graca, a PF identificou uma organi-
zagCo semelhante, a Sapateiro
(apelido de seu chefe, Carlos Zapa-
ter Zarak, que se aproveita da influ-
Encia do sogro, Jorge Arce Carlin,
general da Policia Nacional Perua-
na), e varios pequenos grupos isola-
dos locais, que distribuem a droga
em Manaus e mantem um esquadrao
da morte para defender seus pode-
res.
Os arquivos dos 6rg~os de segu-
ranga tem informagqes de que mui-
tos politicos na AmazOnia foram
eleitos com dinheiro e apoio do nar-
cotrafico. Todos os prefeitos do
Alto Solim6es, por exemplo, no
Estado do Amazonas, encontram-se
nessa situagqo.
O prefeito de uma das mais anti-
gas cidades do Para aparece nos
inqudritos policiais como membro
direto de uma das quadrilhas, que a


policia espera ser a pr6xima a
"cair". Empresas de fachada, que
existem apenas no. papel ou atuam
simbolicamente, sao usadas para a
lavagem do dinheiro ilicito, atuando
em garimpos, mineragao, exporta-
9ao, importagao, transport adreo,
corretagem de im6veis, titulos e
valores, turismo e cAmbio.
Os traficantes chegaram a
constituir um territ6rio autonomo,
nos garimpos do Castelo dos So-
nhos, no extreme sudoeste do Pard.
Os garimpos eram comandados
manu military por um piloto, MAr-
cio Martins da Costa, que dispunha
de uma pista de pouso com dois mil
metros de extensao. Por seu isola-
mento e pela ausencia de control
official, essa pista servia de apoio a
v8os clandestinos. Mas Mdrcio
ampliou tanto seus neg6cios que se
tornou perigoso demais. Foi prati-
camente executado durante uma
espalhafatosa operaqao de guerra da
Policia Militar, em 1992, que mobi-
lizou 200 homes, a pretexto de
restabelecer a ordem pfiblica na
area.
Um pistoleiro contratado por
MArcio "Rambo", apelido que ga-
nhou por causa de seus atos de vio-
l8ncia, conhecido como Polaco,
teria sido o autor dos 15 tiros de
metralhadora que mataram o sena-
dor Olavo Pires, quando ele partici-
pava de um comicio em Porto Ve-
lho, em 1990.
Pires era o candidate favorite ao
govemo de Rond6nia, mas sua
morte nao foi por motiva~io politi-
ca. t que ele tentara vender 760
quilos de cocaine sem o conheci-
mento do cartel. Mas deu azar: o
aviao que transportava a droga foi
preso em Sao Paulo. A vinganga foi
fulminante, como costume ser nos
dominios do narcotrAfico.
As quedas foram em onda. O
deputado federal Jades Rabelo, in-
tegrante da quadrilha, foi cassado
pela Camara Federal. Seu irmao,
Abdiel, seria preso, tamb6m em Sao
Paulo, cor 554 quilos de cocaine e
uma falsa carteira funcional da CA-
mara que Jades lhe havia dado.
Se essas vit6rias inibiram os


narcotraficantes, a policia nao sabe
muito bem. Mas tamb6m nao co-
memora. As apreensoes de droga se
tornaram tao frequentes e volumo-
sas, medidas em centenas de quilos,
que a opinito pdblica despreza
quando a agao envolve "apenas"
algumas dezenas de quilos.
Mas 20 quilos, por exemplo, ja
significam faturamento,a na ponta
da linha do trafico, de um milhao de
d6lares. Um milhao de d6lares, ali-
As, 6 a verba reservada neste ano
pelo DEA, a agencia americana de
combat As drogas, para seu conv6-
nio corn a Policia Federal brasileira.
DA uma idWia da dimensao dos con-
tendores nesta guerra.

Lembranga

O senador Jader Barbalho foi
muito discreto como acompanhante
do president Fernando Henrique
Cardoso nos atos que marcaram a
inauguragio da Alunorte, mas nio
deixou de reivindicar para si alguma
gl6ria pelo event. Lembrou que seu
governor, diferindo o ICMS a ser
pago pela Alunorte pelo prazo de 10
anos, contribuiu para viabilizar o
empreendimento, que opera cor
uma baixa taxa de retorno do capi-
tal.
O senador bem que podia apro-
veitar para fazer a presta9qo de
contas dos 14 milh6es de d6lares
(ou seriam 16 milh6es?) que a Alu-
norte antecipou por conta do diferi-
mento. Certamente a operagao foi
proveitosa para a empresa. Mas tera
sido tambem proveitosa para os
paraenses?

Perfis
Pretendo, a partir deste nuimero,
ter sempre um perfil de personali-
dade ao alcance do tiro dado na
provincia. O primeiro da sdrie e o
president Fernando Henrique Car-
doso, escolhido pelo gancho opor-
tuno da visit a Barcarena. Mas o
objetivo principal 6 tratar de gente
da terra. Sei que posso estar me
metendo num vespeiro, mas espero
me defender corn a desculpa do in-
teresse pfblico.






Journal Pessoal 3


PERFIL


0 intellectual e o monstro


Q euem conviveu com Fernando
Henrique Cardoso no seu il1-
timo period como professor da
Universidade de Sao Paulo, no final
a ddcada de 60, antes da cassagdo,
ou como organizador do Cebrap
(Centro Brasileiro de Pesquisa), no
retorno do exilio, jamais deve ter
pensado na hip6tese da transforma-
9q0 do intellectual pedante e seguro
de si daquela dpoca no politico nd-
mero um do Brasil de hoje. As esfe-
ras do intellectual e do politico pou-
co se tocam. A interpenetraiao, en-
tao, 6 rara.
Esse paralelismo tem uma face
boa e uma face ruim. A face boa 6 a
preservaAio de cabegas bem pensan-
tes a serving da sociedade, numa
postura independent, do livre atira-
dor, que faz falta ao equilibrio do
jogo democrAtico. A face ruim 6
quase uma exensao da primeira, s6
que em sentido contrario: a pritica
political fica privada daquele perso-
nagem que age corn reflexao, aquele
que domina os significados dos seus
atos.
Poucos intelectuais tem conse-
guido juntar as duas esferas. A mai-
oria dos que o fazem acaba sacrifi-
cando uma dessas dimens6es. 0
poderoso intellectual costuma se
transformar em tirano, ou num si-
mulacro de si mesmo, nivelando-se
por baixo ao tomar como arqu6tipo
o modelo que at6 entao recusara.
Lenin talvez seja, agora que esti
sendo revisto A luz de documents
mais completes, o paroxismo desse
exemplo padrao.
Matutava eu cor meus botoes
algo semelhante enquanto acompa-
nhava o desempenho do president
Fernando Henrique Cardoso na
meia hora que o tive diante do cam-
po visual na inauguraqdo da Alu-
norte. Era aquele o mesmo profes-
sor que chegava i sala de aula
pontualmente, mesmo quefosse uma
hora precoce da manha paulistana,
corn seu palet6 impecdvel, exigindo


e usufruindo de todo o ritual aca-
demico? Era aquele o autor dos
textos tortuosos sobre os quais nos
debrudcvamos, deixando de lado o
estilo confuso do sociologues e pro-
curando as ideias originals, o espi-
caqamento intellectual?
Sim, o professor ja avisou para
esquecerem esse passado, mas 6
impossivel, at6 mesmo para ele.
Fernando Henrique foi um dos pri-
meiros e, at6 hoje, dos poucos -
intelectuais brasileiros que realmen-
te leram todo "O Capital", o enten-
deram por inteiro e o vulgarizaram
para a compreensao dos que nao
tem tanta capacidade.
Claro: penso na opera maxima
de Karl Marx nao como um cate-
cismo ou fonte de dogmas (se isso e
marxismo, entdo ndo sou marxista,
disse ele, ainda nao completamente
afogado pelo narcisismo, virus con-
tra o qual raros intelectuais, incluido
FHC, possuem anti-corpos), mas
como um notivel trabalho de erudi-
9ao do pensador complete que Marx
foi em seu tempo (fil6sofo, politic6-
logo, economist, ensaista, critic
de cultural, jornalista e, infelizmente,
profeta, esta filtima condicao um
subproduto que seus seguidores
erigiram a falsa condidao de quin-
tessencia).
Esse passado de leituras e refle-
xoes, de militincia exclusive no
mundo das iddias, di a Fernando
Henrique a privilegiada condidao de
poder entender seus pr6prios atos,
contextualizando-os. Esta 6 a altura
alcangada apenas por homes de
program, pelos estadistas, capazes
de discernis nos seus atos o que 6
poeira do tempo do que 6 hist6ria.
Nao 6 o varejo da political.
Temos, portanto, o perfil de um
estadista na presidencia da nossa
maltratada Repiblica. Os america-
nos nao tem a mesma possibilidade
quando encaram Bill Clinton. Os
franceses, no fundo, sabem que tem
uma versao chinfrim de Charles de


Gaulle, inspirada nao no original,
mas na versao aqucarada de Georges
Pompidou. Os ingleses, estes ji nem
sabem o que tem.
Todos gostariam de dispor de
uma estampa como a de Fernando
Henrique Cardoso, um intellectual
para valer, um ser que sabe pensar, e
nao essas infladas decoracges de
academia, como Jose Sarey.
Mas um pais nao consegue re-
solver seus graves problems apenas
com uma estampa, ou uma moldura.
Se nao fosse o president do Brasil,
Fernando Henrique talvez ja tivesse
assegurado seu lugar no panteao.
Nao precisaria estar participando de
atos paroquiais, se entendendo com
pracistas da political, como os que
constituem a maioria do nosso con-
gresso.
Sem d6vida, 6 o president mais
pr6ximo do ideal de globalizacqo
que ha no planet, o home piblico
talhado para fazer a oraao principal
na festa do cinquentendrio da ONU.
Poliglota fluente, capaz de arreme-
dar at6 sotaques nas linguas estran-
geiras que fala (o portenho, por
exemplo, que fascinou Buenos Ai-
res), viveu em tres continents e
conviveu com alguns dos persona-
gens que vale a pena conhecer nesse
mundo. Comparado a ele, Clinton
nao 6 muito mais do que um caipira
do Arkansas, envernizado pela li-
turgia da Casa Branca.
Entretanto, como lembrou anos
atris Antonio Callado no "Bar Don
Juan", o Brasil 6 um paquiderme,
que s6 consegue se mover lentamen-
te, atacado por contradic6es dilace-
rantes, refratario as mudangas, em-
bora elas constituam seu caminho
natural, seu talvegue.
0 president de perfil primeiro
mundo tem, diante de seu palanque,
tres dezenas de pessoas que gritam
a plenos pulmoes, fazendo-se ouvir
por sobre os decibdis do sistema de
amplificaado da voz official.
"Para que inaugurar, se vai pri-






4 Jornal Pessoal


vatizar? ", d o que gritam. Um bom
arranjo para funcionar como slo-
gan. Mas nao e verdadeiro. A Alu-
norte jd e uma empresa privada. A
Companhia Vale do Rio Doce tern
menos da metade do capital da em-
presa (para ser exato: 48,7% das
aqdes). Um quarto estd nas maos de
multinacionais. 0 maior grupo pri-
vado national ter quase 8%. E uma
composi~do acion4ria mais comple-
xa, portanto. Se a CVRD for priva-
tizada, a essincia da Alunorte nao
serd afetada
A esquerda militant projetou a
imagem de FHC (tratado cada vez
mais como ums sigla, talvez para
gaudio dele pr6prio, sempre com JK
na cabega) como um titere do neo-
liberalismo, abre-alas do conserva-
dorismo, quinta coluna dos coveiros
do Estado. S6 falta trazer dos gl6i-
dos arquivos coisas como cao-de-
fila do imperialismo ianque, corifeu
da rearao, aulico do poder e outros
jargoes gerados outrora pela radio
de Pequim e, mais recentemente, de
Tirana.
Sem palavras de ordem nao ha
massa em agao. Mas as vanguardas
precisam refletir sobre a base for-
madora dos slogans. Sem isso, po-
dem mais uma vez provocar re-
trocessos, imaginando serem os
arautos dos novos tempos. A Petro-
bras, por exemplo, um dos cavalos
de batalha dos que se op6em a FHC,
foi mais um produto da UDN
(Uniao Democritica Nacional) do
que do nacionalismo de Vargas.
Basta ir aos anais do congress para
verificar. Mas quem esta realmente
interessado na verdade?
O president se equilibra na cor-
da bamba e desliza sobre ur faca s6
lamina. Pode deixar-se levar por seu
indisfargivel nascisismo e por sua
incontrolada busca de poder, tro-
cando os fins pelos meios e esque-
cendo, a custa de inibidores quimi-
cos, que 6 um ser pensante com o
rarissmo privildgio de decidir sobre
transforma6es coletivas em pro-
fundidade.
Os erros que ja cometeu sao vi-
siveis e nao slo nada despreziveis.
Os riscos de engendrar monstros


estao presents. Mas, 10 meses de-
pois de assumir a presidencia, tem
ainda um potential de mudangas ao
alcance de suas maos como nenhum
outro president teve antes dele. E
um razoavel acervo de acertos.

Obviamente, o saldo a realizar
ultrapassa de muito o ja realizado,
mas comparar Fernando Henrique a
Sarney ou Collor 6 um desprop6si-
to. Pode atd ser que ele se tenha
tornado um cavalo de Tr6ia, carre-
gando inimigos nos vastos est6ma-
gos do poder, mas, ao isolA-lo, a
esquerda e os intelectuais enquan-
to categoria estao colocando-o
como ref6m de seus erros, tirando-
Ihe a possibilidade de optar.

O president tem caminhos A sua
frente e ainda pode desfrutar da
prerrogativa da escolha. Pode ser a
consumagao do possivel, mas pode
resultar tamb6m numa frustra~ao do
tamanho de um Felipe Gonziles na
Espanha ou Alan Garcia no Peru
(Vargas Llosa foi involuntariamente
poupado e pode continuar a teorizar
sobre utopias).

0 president fica impaciente
confrontado com as vaias e as pala-
vras de ordem hostis. Comega a
responder saindo do discurso ofi-
cial de inauguradao (como faria,
depois, na sessao da ONU em Nova
York; de olho na hist6ria), mas e
evidence o mal-estar. Termina de
falar e desce do palanque. Rompe o
protocolo para abragar uma crian-
Ca que estd no meio da multiddo,
bem junto ao grupo da CUT
(Cenral Unica dos Trabalhadores,
dominada pelo P.T), que comanda
as palavras de ordem. Volta a falar
com gente do povo, para desespero
dos seguranqas. Depois vai em
frente, resolute, meio dobrado so-
bre o pr6prio corpo por causa do
desvio de coluna e pelo peso acima
do recomenddvel. Fernando Henri-
que Cardoso ter carisma e ideias,
mas o Brasil, mais do que o paqui-
derme de Callado, parece-se d Mo-
by Dick de Melville. Serd FHC o
nosso capitdo Ahab?


Nosso cobre
U ma fonte graduada da Compa-
nhia Vale do Rio Doce assegu-
ra que a empresa nunca pensou em
se associar A Caraiba Metais, a 6ni-
ca metalfrgica de cobre do Brasil,
para levar o concentrado de Carajas
para ser industrializado na Bahia.
Essa hip6tese, que chegou a ser de-
nunciada pelo deputado estadual
Bira Barbosa, do PMDB, faz parte
de um jogo de presses da Caraiba e
de stores do BNDES.
Com a nova metalfrgica, a ser
instalada em MarabA ou Parauape-
bas, a Caraiba perderA, de imediato,
o equivalent a 70 milhies de d61a-
res em subsidies que o governor lhe
paga por conta das importa98es que
o pafs precisa fazer. Corn a Salobo
Metais, o Brasil vai, finalmente, se
tornar auto-suficiente em cobre.
Da parte de stores do BNDES,
ha tamb6m o desejo de se livrar de
qualquer maneira do rombo sofrido
corn as irregularidades do projeto da
Carafba, sonho megalomaniaco do
miliontrio (e playboy) Baby Pigna-
tary, que o govemo military endos-
sou.
O projeto de cobre em Carajas,
pordm, foi definido sem qualquer
relagao corn a Carafba e s6 poderA
existir, de forma sadia, se dessa ma-
neira for implantado. Do contrdrio,
pode se transformar numa nova Ca-
raiba, que tern atrAs de si um 6nus
para o pais do tamanho de um bi-
lhao de d61ares, dinheiro que saiu
dos cofres piblicos e a eles nao
mais retornou, como devia.

Inegociavel
p orta-voz do PMDB jura que o
partido nao reivindicou ainda
nenhum lugar no primeiro escalao
do governor, nem mesmo sua lide-
ranga na Assembleia Legislativa.
Mas admite que a participa9go no
governor inevitavelmente faz part
da agenda do acordo. O governador
apenas teria excluido de qualquer
barganha tres postos: a secretaria da
Fazenda, a secretaria de Seguranga
Piblica e o comando da Policia
Military.






Journal Pessoal 5


Cobre em Carajas:
questao defimda

0 principal problema para a
implantagao do Projeto Cobre
Salobo, em CarajAs, foi resolvido
nos l6timos dias: o BNDES (Banco
Nacional de Desenvolvimento Eco-
n8mico e Social) acertou corn a
Companhia Vale do Rio Doce a
avalia9eo das jazidas de cobre e,
indo aldm, decidiu participar como
acionista do empreendimento da
Salobo Metais, fruto da associa9ao
da CVRD cor a multinational sul-
africana Anglo-American, a maior
mineradora do planet.
O BNDES 6 dono de um tergo
dos direitos sobre a maior jazida
desse mindrio que ha no pais, mas o
valor, a ser contabilizado como
capital, vinha sendo questionado
pela Anglo American, que deveria
cobrir o equivalent cor recursos
pr6prios (jA que apenas BNDES e
Vale participaram dessa fase ini-
cial). Por fim, foi acertado um valor
entire 420 e 450 milhoes de d6oares,
que eram os limits definidos de um
lado pela Anglo e, de outro, pelo
BNDES.
Acertada essa primeira etapa, a
direq o do banco surpreendeu a
Salobo ao manifestar a disposi9ao
de tamb6m entrar como cotista da
empresa, uma posi9ao aparentemen-
te contriria A diretriz de retirar o
Estado das atividades produtivas. A
contradig9o, por6m, 6 apenas apa-
rente, segundo porta-vozes do setor:
e que o BNDES ficarA somente corn
a9qes preferenciais, que dao prima-
zia no recebimento dos dividends,
mas nao a participag9o na adminis-
trag o da empresa.
Segundo o acerto que foi feito,
cada uma das parties entrara corn
200 milhOes de d6lares de recursos
pr6prios e, incorporado o valor dos
direitos minerarios, o aporte deixard
um saldo de US$ 400 milh6es para
ser completado atravds de financia-
mentos, fechando o custo total em
US$ 1,4 bilhao. O pr6prio BNDES
poderd ser um dos agents financei-
ros, o que facilitaria ainda mais a


complementagao em outras fontes
do sistema bancario.
Isto quer dizer que, do ponto de
vista das fontes de recursos, o proje-
to Salobo ji esta inteiramente es-
quematizado, permitindo o inicio de
sua implantagao em janeiro do pr6-
ximo ano, para atingir sua plena
produiAo em quatro anos, na transi-
9Ao de um s6culo para o outro.
Em janeiro serb anunciada a lo-
calizagIo da fibrica, se em Paraua-
pebas ou em Maraba, detalhe que os
responsaveis pelo projeto conside-
ram menor. Preocupados em agra-
dar o governador Almir Gabriel,
com quem dizem ter contado para
superar problems, nAo vio anteci-
par a decisao e sugerem que ela po-
dera favorecer Marabi, a opqAo pre-
referencial do governador. Mas tudo
indica que a concentragao e a meta-
lurgia do cobre ficarao mesmo em
Parauapebas, no que jA 6 um distrito
mineral em fase de industrializagao,
em Caraj6s.

Tucurui ficara'
corn empresas

ACompanhia Vale do Rio Doce,
junto cor suas coligadas e
controladas, mais a Alcoa e a Dow
Quimica, poderAo assumir a cons-
trugio da segunda etapa da hidrel6-
trica de Tucurui, que preve investi-
mento de US$ 1,5 bilhao e a dupli-
caCio da capacidade de geragao de
energia, atualmente de quatro mil
megawatts (ou quatro milh6es de
kilowatts).
O "pool"de empresas se aprovei-
tard da abertura constitutional As
concess6es de energia para, o setor
ptivado, investindo na ampliagAo de
Tucurui para disporem de auto-
suprimento de energia. S6 os em-
preendimentos da CVRD na drea de
influencia da hidrel6trica irao exigir
1,8 mil mw at6 o final da ddcada.
A principal demand 6 a da Al-
brds, beneficiada por um contrato
que comegou a vigorar em 1984,
mantendo-se por 20 anos. Mas tenm
sido fortes as presses para rever
esse contrato, que ter acarretado
um 6nus quase insuportAvel A Ele-


tronorte. Responsabilizando-se pela
duplica9ao da usina, os concessio-
narios serao auto-supridores. Eles
sabem que dificilmente os terms
estabelecidos nos subsidies energd-
ticos, que ja deram prejuizo de mais
de um bilhao de d61ares A Eletronor-
te com seus clients eletrointensi-
vos, poderAo ser mantidos por mais
tempo.
A opcqo 6 construir sua pr6pria
hidreletrica ou ficar com a amplia-
91o de Tucurui. Para a primeira op-
Aio ha um inconvenient: nenhum
agent financeiro intemacional esti
disposto a financial qualquer obra
hidrel6trica capaz de criar proble-
mas ecol6gicos. Ja a duplicagao de
Tucurui nao tera esse inconvenient,
porque nenhum efeito iri causar
sobre a natureza, usando o mesmo
lago formado pelo barramento ori-
ginal.
A defini9lo da concessao priva-
da para Tucurui ja esti em fase fi-
nal.

Confusao

A Odebrecht, a 61tima das pres-
L tadoras de servigo a publicar
anincio na imprensa de Belm ho-
menageando a Alunorte, cometeu
um erro crasso em sua peCa. Saudou
a inaugura9ao da mais modern
fibrica de aluminio do mundo.
Queria dizer alumina. Confusao de
poucas palavras, mas de muito si-
gnificado.
A empreiteira baiana talvez s6
tenha se apercebido da necessidade
do anincio depois que o president
Fernando Henrique Cardoso cum-
primentou mais efusivamente o re-
presentante da empresa durante a
inauguraaio. Feito "s pressas, o
anincio acabou claudicando.


Errata

O marido de Roberta Maiorana
Xerfan nao 6 filho do ex-
prefeito Salhid Xerfan, como, por
um lapso, saiu publicado no nimnero
anterior deste jomal. E sobrinho,
duplamente sobrinho, alias.






6 Jornal Pessoal


Uma festa
muito cara
E m 1980 comegaram, em Barca-
rena, as obras de construcao da
fibrica da Alunorte, irma-gemea da
Albris no acordo nipo-brasileiro
para a montagem de um grande p6lo
de alumina e aluminio na
Amaz6nia. Em 1983 as obras na
Alunorte foram reduzidas, as da
Albrfs prosseguiram. Em 1985 a
Albras comecou a funcionar co-
mercialmente. Em 1986 a precaria
frente de servigos na Alunorte parou
de vez. A Companhia Vale do Rio
Doce, jA entAo sozinha na empreita-
da, por causa da desistencia de seus
s6cios japoneses, havia aplicado na
Alunorte o equivalent a 200 mi-
lhWes de d61ares.
Em 1993, quando as obras da
Alunorte foram retomadas, corn um
novo acordo de acionistas, depois de
sete anos de congelamento, o inves-
timento realizado havia dobrado. A
fibrica nAo produzira uma grama de
alumina, mas as imobilizag6es pula-
ram para US$ 400 milh6es por cau-
sa dos juros devidos aos financiado-
res, os mesmos japoneses que havi-
am said da sociedade corn a
CVRD.
Peso de bilh6es A retomada do
projeto era uma tarefa quase ag6nica
para a Vale, obrigada a cobrir o bu-
raco sem ter como transformar em
fonte de rendimentos o acervo de
obras inacabadas onde deveria estar
a Alunorte, ao lado da Albris. Du-
rante 10 anos a fabrica de aluminio
funcionou com alumina importada,
embora o Para tenha a terceira mai-
or jazida de bauxita do mundo, em
Oriximina, e condig6es excepcio-
nais para fabricar alumina.
A Alunorte, a partir do pr6ximo
ano, vai permitir ao Brasil um in-
gresso de divisas do tamanho de
US$ 250 milhoes. Era quanto se
transferia para fora do pais por ela
ter ficado parada. Somados os 10
anos, num cAlculo rudimentar, mas
exemplificativo, foram US$ 2,5
bilh6es que deixaram de circular
dentro do pais e particularmente
no Para para terem efeito multipli-


cador nos paises dos quais impor-
tamos a alumina.
Ainda que o valor real, por um
calculo mais cuidadoso, deva ser um
pouco menor (nunca, por6m, abaixo
de US$ 2 bilh6es), avaliar a dimen-
sao dessa perda congela a espinha
de quem tem, da hist6ria, uma no-
cao mais rigorosa. A Alunorte, en-
fim inaugurada no dia 20, vai elimi-
nar as perdas a partir de agora, mas
nio recuperard o que ji se perdeu no
passado.
A inauguragio da nova fabrica
em operagao no distrito de Barcare-
na (onde, dentro em pouco, chega-
rao as fibricas de caulim da Pard
Pimentos e da Caulim do Pari), foi
saudada ao custo de uma festa
calculada em um milhao de d61ares
como o fechamento do ciclo com-
pleto de aluminio.
De OriximinA a Mineraqao Rio
do Norte mandarin um quinto da sua
produqAo total de bauxita para Bar-
carena. O valor de cada tonelada
recebida no porto da Ponta Grossa
se multiplicard quase quatro vezes
em valor agregado ao ser transfor-
mada em alumina, multiplicada, por
sua vez, 17 ou 18 vezes
(dependendo das flutuaB6es do mer-
cado intemacional) na metalurgia da
Albris, infelizmente ainda a ponta
final da transformagao industrial no
nosso territ6rio (por quantas vezes
se multiplica quando chega ao terri-
t6rio dos compradores?).
Tempo perdido Completar
esse ciclo custou um investimento
de US$ 3 bilhoes, realizado ao lon-
go de 20 anos. O p6lo inicial desse
ciclo, o da bauxita, estA operando ha
mais de 25 anos. O do aluminio
passou de 10 anos. O "gap" foi pre-
enchido agora pela Alunorte, aca-
bando corn o vacuo aberto entire a
minerag o primdria e a metalurgia
(neste mundo, tornado pela "quarta
onda", nao menos primaria).
A partir do pr6ximo ano, esse
investimento realizado vai permitir
um faturamento entire 800 e 900
milh6es de d61ares por ano (bauxita,
alumina e aluminio). E uma quantia
fantastica para um Estado que, antes
de comegar o ciclo do aluminio,


faturava US$ 300 milhoes corn a
exporta9go de produtos extraidos
principalmente de sua cobertura
vegetal, submetidos a uma infima
transformagao pelo home. Mas 6
um valor baixo para um Estado que,
de per si e junto com o pais do qual
faz parte, gostaria de ganhar espago
e valor nas relaq6es de troca inter-
nacionais.
Para quem consegue ver, todas
as potencialidades e, tamb6m, todas
as limita96es colocadas diante do
present e do future do Estado do
Para estlo plenamente assinaladas
na hist6ria recent e ji tAo pungen-
te, para nao dizer indigente do
ciclo do aluminio.
Qual o vigor criativo (ou mesmo
simplesmente participation) de um
Estado que, ao long de mais de 10
anos, conviveu corn o congelamento
da Alunorte e foi incapaz de implan-
tar para valer um p61o industrial a
partir do lingote fundido pela Albras
em Barcarena, a custa de milh8es de
kW/hora subsidiados, coisa de um
bilhao de d61ares transferidos para o
passive pdblico?
Age o cartel Quando, para
implantar seu ciclo complete em
Sao Luis, no Maranhao, a Alcoa
ofereceu A Albras alumina a prego
inferior ao que a Alunorte produzi-
ria, os paraenses teriam que dispor
de conhecimento e densidade de
opiniao pfiblica para nAo permitir
que, por uma circunstancial dificul-
dade de caixa, a CVRD atrasasse
por anos, ao custo de bilh6es de
d61ares, o que s6 agora se p8de ma-
terializar.
Gragas a essa manobra, a Alcoa
recuperou o tempo perdido na frente
do aluminio, saiu na frente na raia
da alumina e acabou se integrando
ao emergir na composiglo acionaria
da Mineragao Rio do Norte. Por
falta de inteligencia, o Para, que
surgia ap6s a crise de energia,
eclodida no inicio dos anos 70,
como uma altemativa ao cartel, foi
totalmente submetido ao control
desse mesmo cartel e agregando a
ele os japoneses, que deveriam ser o
piv6 de um novo tempo no setor de
aluminio.






Journal Pessoal 7


A agiotagem

vai continuar

E m 1990 Terezinha Moraes
Gueiros, entao secretaria de
educa9ao do Estado no governor do
marido, Helio Gueiros, mandou
sustar os descontos feitos nos pa-
gamentos de funcionarios da Seduc
em favor da Upasp (Uniao Paraense
dos Servidores Pdblicos). Como
razao para seu ato, a secretaria ale-
gou que os descontos eram feitos
sem autorizagao e estavam deixando
em mi situagdo os funcionirios,
vitimas de uma autdntica agiotagem.
Cinco anos depois, o filho de
Terezinha (hoje primeira dama do
municipio de Beldm, secretiria de
educa9~ o e president da Funverde),
H6lio Gueiros Jr., vice-governador
do Estado, mandou que os descon-
tos feitos em favor da Upasp, que
haviam sido novamente sustados,
voltassem a ser feitos. O que a mae
queria fazer em 1990, o filho nao
permitiu em 1995.
Em 1991, atrav6s de ordem ju-
dicial, a Upasp derrubou o ato da
secretaria de Educaq9o e voltou a
retirar do salario mensal de seus
associados servidores piblicos a
parte que lhe cabia. Mas em abril
essa vantagem foi derrubada pelo
secretario de administra9ao, Carlos
Kayath, segundo ele para cumprir
"diretrizes fixadas pelo govera-
dor".
Agiotagem protegida Ao
anunciar a suspensao das consigna-
95es, Kayath revelou que mais de
20 mil servidores puiblicos
(portanto, mais de 15% de todo o
efettivo estadual) recorriam a em-
prdstimos semelhantes aos que a
Upasp concede, tendo que pagar
taxas m6dias de juros acima de 20%
ao mes.
Com isso, haveria casos de fun-
cionarios comprometendo mais de
30% de seus vencimentos com esses
descontos, que nao sao compuls6ri-
os, o que contraria determina9ao
constitutional. E que o Estado, para
fazer 200 tipos de consignagqes em
folha, estava gastando de seu pr6-


prio orgamento e mobilizando pes-
soal em beneficio dessas entidades
particulares, supostamente benefi-
centes, mas, na verdade, instrumen-
tos de agiotagem.
Sem conseguir retomar as con-
signaoqes em folha, a Upasp, dirigi-
da pelo administrator Alziro Silva
Gralha desde que foi criada, em
1983, voltou a recorrer justiga. No
front judicial estA ganhando: primei-
ro um mandado de seguranga e, em
seguida, derrubando um embargo
declarat6rio oposto pela Procurado-
ria Geral do Estado. Mas os descon-
tos nao voltaram a ser efetuados
porque a Secretaria de Administra-
9io apresentou alguns problems
t6cnicos para sua operacionaliza9go.
Nada indica, entretanto, que o
resultado dessa pendencia vi diferir
do que houve entire 1990/91. A SE-
AD suspended unilateralmente as
consignac9es em favor da Upasp,
sem dar-lhe o prazo de 30 dias, ne-
cessario ap6s um long period em
que o Estado atuou como verdadeiro
secretArio-executivo da entidade
para fins dos descontos mensais.
Al6m disso, foi ignorado um
contrato assinado entire a Upasp e o
Prodepa, no ano passado, para a
execu9Ao do desconto em disquete
de computador fornecido pela enti-
dade particular, sem que ela fizesse
acompanhar c6pia da autorizagao
dos funcionarios, relaqao nominal
dos consignadores, com os valores a
consignar, informarges que garan-
tissem ao Estado o conhecimento do
que fazia. Era uma verdadeira caixa-
preta e uma escandalosa omissao
ao dever pelas autoridades pfiblicas.
Nos bastidores Repetida mais
uria vez a tentative de acabar corn
essas consignag6es, a pergunta
imediata que se faz 6: por que o
Estado nao procede regularmente,
corn as cautelas legais, para desfazer
de vez esses elos?
Os antecedentes mostram que a
a9ao voluntariosa 6 apenas um pas-
so para a consignadora voltar A fo-
lha de pagamentos, pela via judicial.
Ou 6 isso o que se pretend?
t evident que o barnab6 esta-
dual toma-se vitima de um eng6do.


Essas organizaq6es o atraem com
ofertas de serviqos que nao reali-
zam, que prestam precariamente,
que sao superfluos (salao de beleza,
por exemplo), que manipulam, tudo
isso apenas para o que interessa:
emprestar a juros extorsivos.
Trata-se de um neg6cio altamen-
te rentAvel. A Upasp, cor quase
7.300 associados, arrecada mensal-
mente 48 mil reais. Em abril apre-
sentou a justiqa recibos (nem todos
confidveis) de despesas no valor de
11 mil reais.
Apesar de toda a evidencia de
golpe, essas entidades s6 existem
porque os funcionarios piblicos
dependem delas. E eles s6 depen-
dem dessa agiotagem porque o Es-
tado nao cumpre sua obrigaqao de
proteger seu servidor e atender-lhe
as necessidades bisicas. As Upasps
da vida s6 prosperam porque os
Ipaseps sao inacessiveis ao comum
dos servidores e se tornaram um
esquema de arranjo politico. Eis um
tema que os parlamentares, supos-
tamente os representantes politicos
do povo, poderiam transformar em
alvo de investiga9ao, poupando-se a
opiniao pfblica o espetAculo de
tantas incoerencias praticadas ao
long do tempo por govemantes que
nao pensam no que falam e s6 falam
o que nao pensam.

O prefeito esta
em campanha

O prefeito Hilio Gueiros ji esta
em campanha para eleger o
seu successor. Tem um nome para
trabalhar, o do deputado federal (de
seu partido, o PFL) Vic Pires Fran-
co. Ter obras eleitoreiras para
inaugurar ao long dos pr6ximos
meses. Disp6e de um fundo de re-
cursos, formado pela arrecadaqao
tributaria e gragas ao arrocho do
funcionalismo pfiblico municipal.
Conta com empreiteiros de obras
agradecidos. E, agora, criou um
canal pr6prio. de comunicag~o com
o president Fernando Henrique
Cardoso.
0 prefeito de Belem esti mon-
tando uma estrutura para nAo de-






pender do governador Almir Gabriel
- e at6 dispensi-lo, se for o caso. A
deifiniIAo dessa parte da estrat6gia
vai defender do comportainento do
pr6prio governador. Hl6io Gueiros
parece disposto a testar at6 onde vai
a inseguranga de Almir.
A sucessao de recados hostis
culminou quando o prefeito decidiu
sair de Bel6m, levando o filho, vice-
governador, dois dias antes da che-
gada do president Fernando Henri-
que Cardoso a Bel6m para a inaugu-
raqao da Alunorte. Os dois ficaram
no Rio de Janeiro durante quase
uma semana, com a agenda absolu-
tamente livre. Foi um ato para mar-
car posiqAo, ou remarca-la, A manei-
ra dos Gueiros.
No entanto, enquanto os Hdlios
Gueiros 1 e 2 iam embora, vinha
com o president, atras dele em to-
dos os enquadramentos de fot6gra-
fos e cinegrafistas, o deputado fede-
ral Vic Pires Franco. A imprensa
amiga divulgou que, ao long das
tr6s horas de v6o com o president
ate Bel6m, Vie teria feito uma ex-
posiqao convencendo Femando
Henrique sobre a conveniencia de
dar apoio a algumas das bandeiras
reivindicat6rias do Park, como as
eclusas de Tucurui. A hist6ria temr
tudo para ser desses fen6menos
provocados pela altitude.
Imediatamente a propaganda
official do prefeito na televisao, que
atende pelo nome de "caminhando
com o povo", divulgou entrevista
com Vie e, logo em seguida, a audi-
Encia telegrifica que conseguiu com
FHC em Brasilia. Quase que para se
desvencilhar de um compromisso, o
president deu apoio a duas obras
nas quais o prefeito pretend gastar
20 milh6es de reais: um viaduto na
entrada da cidade, no entroncamen-
to, e passarelas de concrete nas -
sempre f6rteis em votos baixadas
da capital paraense.
O president ainda telefonou
para Gueiros garantindo presenga
quando as obras forem inauguradas,
atrav6s de um esquema de financi-
amento ainda nao detalhado. Viadu-
to e passarelas entrarAo na agenda,
que ji incluiu, ao custo de R$ 4
milhoes, o mero cartao postal urba-
no da Doca de Souza Franco, e terd


ainda o terminal' pesqueiro (no mi-
nimo R$ 7 milh6es), as grades do
Bosque Rodrigues Alves (R$ 1,5
milhAo), a calgada da avenida Por-
tugal, muito verde em pragas e
muito ferro nas ruas, o varejo bem
trabalhado por produtores de voto
que dispensa pianos globais, como
os que continuam, pagos, nas gave-
tas e prateleiras.
O governador Almir Gabriel
passou a ser detalhe, embora is
vezes de forma inc6moda. O gover-
nador ainda tenta, como se fosse
possivel, apaziguar os animos, mas
sua posigao vai se tornando nao s6
dificil, como insustentAvel. Ele esta
simplesmente sendo deslocado do
eixo de poder. Se nao reagir a tem-
po, com os meios que estao ao seu
alcance, sera figure decorative mais
cedo do que costuma ser um gover-
nador, no period pr6-eleitoral.

0 discurso
do tucano

U m veteran e consagrado jor-
nalista national que, ao meu
lado, assistia a inaugurago da Alu-
norte, ao ouvir as primeiras palavras
do governador Almir Gabriel de
refer8ncia A Companhia Vale do Rio
Doce, tentou profetizar: "agora ele
vai critical o Fernando Henrique".
A deduc~o era 16gica, tal a for-
mulagio da primeira parte da oraqao
no discurso do governador. Mas
Almir tateou pela vacuidade, fez
referncias em tese, entrou naquela
conversa de cerca lourengo, e ficou
s6 nisso. O resume da 6pera: presi-
dente, a Vale 6 important; pense
nisso antes de decidir privatizi-la;
sou contra, mas nao tenho nada com
isso.
A "Gazeta Mercantil" de tres di-
as ap6s colocou o governador em
rota de colisao com o tucano maior
do Planalto em assuntos de privati-
zagdo de CVRD, mas exagerou na
dose. Ou nao entendeu as sutilezas
do discurso tucano.
Por isso, Almir deu todo o
apoio, em tese, as manifesta9~es
contra a privatizagao realizadas em
Bel6m no dia 27. Mas nao compare-
ceu aos atos e desta vez com a boa
explica9ao de que neles estavam


adversarios do PSDB, e nao propri-
amente divergentes intemos.
A posigdo do govemador fica
complicada porque ele nao tem di-
mensao national, nem tem trabalha-
do para suprir essa lacuna. Os poli-
ticos mais sagazes ja perceberam a
limitagdo de v6o do tucano paraense
e agora fazem contatos diretos com
Brasilia, abolindo uma representa-
9ao que deveria ser do governador.
O pior 6 que essa situacao tende
a se agravar em fungio da crescente
incompatibilidade corn o vice-
governador. Almir Gabriel vai ter
que pensar muitas vezes antes de
deixar H61io Gueiros Jr. no seu lu-
gar, ao menos enquanto nao provi-
denciar uma emenda para poupd-lo
de passar o cargo. E, nao viajando,
esti ameagado de se tornar o ref6m
do palicio de meia sola que Jader
Barbalho Ihe deixou.
Enervantemente lento e desaten-
to continue a ser o PSDB do Pard.
*
Uma leitora escreVe para recla-
mar dos muitos erros de digita-
9do do Jornal Pessoal. Eu poderia
arrolar todas as dificuldades que se
antep6em a produg~o deste jomal e
com isso construir meu martiriol6-
gico. Mas nao vou fazer. A leitora
ter toda a razao: deve-se estabele-
cer uma relaq9o absolutamente pro-
fissional no trato entire a imprensa e
a opiniao piiblica. O leitor nao quer
saber o que hi por tris de erros t6c-
nicos. O que ele quer 6 facilidade e
comodidade na leitura.
Lamento declarar, por6m, que o
Jornal Pessoal nao poderd dar ao
seu leitor a qualidade grifica e in-
dustrial que ele merece. Nem pode-
ra, ao menos de imediato, voltar ao
padr2o do nfimero 126, que marcou
sua retomada na atual fase. Vai
continuar graficamente feio e sujeito
a erros de digitagio e revisdo por
mais algum tempo.


Editor: L6cio Flivio Pinto
Redagao: Av. Governador Jos6
Malcher, Passagem Bolonha, 60/B,
66.053-040
Fones: 2231929-2237690-2243728
Belim Pari
SImpressao: Grafica Falangola