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Joral Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO ANO IX No 128 la QUINZENA DE OUTUBRO DE 1995 R$ 2,00 A aranha do p6 O narcotraifico international ja conseguiu se estabelecer no Para, montando neg6cios de fachada e lavanderias para legalizar o dinheiro ilicito Haverkate, da Corte de Haia, na Holanda, enviou uma carta rogat6ria ao pre- sidente do Supremo Tribunal Federal, em Brasilia. Pedia autorizagio judicial para busca e apreensao de certos do- cumentos, interrogat6rio de emprega- dos e a quebra do sigilo bancirio da Casa Piano, na 6poca a terceira maior casa de cambio do Rio de Janeiro. A justiga holandesa tinha fundados moti- vos para acreditar que a Piano estava envolvida num amplo esquema de la- vagem de dinheiro do narcotrafico international. A principal prova em poder da jus- tiga holandesa era um lote de cheques emitidos em nome de Nasseif Cury Azouge, um traficante boliviano que operava com os "doleiros" Moeniper- sad Baidjnah Misier e Richard Ronald Lowes, os agents locais que lidavam cor o dinheiro sujo e faziam a cocaine chegar aos consumidores holandeses. A quadrilha foi desbaratada, mas as autoridades holandesas tentavam ar- rancar suas raizes mais profundas, situadas fora do pais. As mais distantes estavam planta- das em Guayara-Mirim, na Bolivia. Mas seus elos intermediarios passavam - e ainda passam pela outrora pacata Bel6m do Para, a maior cidade da Amaz6nia. Tres cheques do lote enviado ao Brasil pela justiga holandesa para obter a6 colaboragao da justiga brasileira estavam endossados por outro bolivia- no, Adrian Ribera e por um certo Bruno, que os holandeses pensavam tratar-se de algum funcionArio da Casa Piano. O lavador Na verdade, o nome complete do endossante 6 Bruno Mari- nho Meira Mattos, assassinado dois anos e meio antes do pedido holandes ao STF. Bruno, morto em dezembro de 1991, quando tinha 32 anos, fazia parte de uma das mais tradicionais families da sociedade paraense. Tinha lugar garantido nas colunas sociais atW apa- recer, muito meteoricamente, nas pagi- nas policiais da imprensa. Seu neg6cio de fachada era uma empresa de cambio e turismo, a Carajds, instalada no cen- tro de Bel6m. Em cinco anos de funcionamento, a pequena empresa teve sucesso inco- mum, permitindo ao seu dono instalar- se numa mansdo, comprar carros, via- jar constantemente para o exterior e ter um padrio de vida ostentat6rio. Parte desse sucesso podia ser atri- buido As virtudes de "doleiro"de Bru- no, mas depois de sua morte, ate hoje nao esclarecida, o Jornal Pessoal mostrou que ele se tornara o maior lavador de dinheiro do narcotrafico no ParA. Pelo registro de seu computador passaram, ao long de 1991, 100 mi- Ihoes de d6lares, permitindo-lhe cobrar de 2 a 3% desse valor a titulo de co- missao. Um dos principals clients de Bru- no era justamente Adrian Ribera Per- rogon, dono de uma cadeia de lojas e um hotel do outro lado da fronteira do Brasil com a Bolivia, e assiduo fre- quentador de Guajard-Mirim, onde tinha a conta corrente 2597-32, na agencia local do Bamerindus. Perrogon, cor Nasseif (ou Nassif), Ayub e Escalante, outros bolivianos que negociavam com Bruno em uma rede que incluia ainda quatro brasilei- ros em Abaetetuba, os dois holandeses press, um agent da Policia Federal (que funcionava como informante, um ex-agente da PF (que se transformou em seguranga particular de Bruno), comerciantes e delinquentes menores, dois dos quais press e condenados posteriormente por trafico, em Minas Gerais e no Pari. Nossa Medellin O esquema de funcionamento da rede era simples. "Mulas" (mensageiros) traziam a coca- ina da Bolivia para Belem ou um ponto pr6ximo em territ6rio paraense, de onde era recambiada, principalmente de barco, para Paramaribo, no Surina- me (hoje o principal entreposto inter- nacional de cocaine), seguindo dai para os Estados Unidos e a Europa, tendo Amsterdam como porta de entrada. Pequenos comerciantes, que ha muitos anos se aproveitam da complexidade geografica da Amaz6nia para fazer contrabando pela costa norte, a partir de pontos situados no baixo Tocantins paraense, precisam apenas reciclar seus produtos, ou "enriquec6-los": ao inv6s de (apenas) pimenta-do-reino, caf6 ou cacau na viagem de ida, passaram a levar cocaine, 'trazendo uisque e per- fume. A receita dessa nova atividade pas- sou a ser tao grande que um desses comerciantes, Jos6 Afonso Sarges da Rocha, simplesmente construiu, sozi- nho, o estidio de futebol de Abaetetu- ba, usando como neg6cio de fachada um supermercado. E deu o estadio de present a municipalidade. Tornou-se tao popular quanto Manoel Ferreira Soares, majs conhecido como Juvico, outro dos comerciantes do p6 numa cidade que os policiais da repressao a o 2 Jornal Pessoal entorpecentes ji chamam de Meddlin do Pari. Confirmada a entrega da droga no ponto de destiny, 6 feito o cr6dito do pagamento em contas bancirias abertas numa sucessdo de cadeias para tentar apagar sua origem ilicita. Para isso Bruno Meira Mattos mantinha contas especiais, algumas numeradas, em Paramaribo, Martinica, Miami, Nova York, Amsterdam, Roma e Genebra. Em Nova York, por exemplo, ele usava a conta da Casa Piano no City Bank nimero 369776/49 e a conta ABA 021 0000 89. Para acompanhar as entregas e pa- gamentos, Bruno requisitava passagens em agnncias de turismo de Bel6m para "mulas" e traficantes em permanent trinsito para Guajara-Mirim, Tabatinga (na divisa do Amazonas com a Co- 16mbia), Paramaribo e mesmo para a Europa. Joao Lobato, por exemplo, fez uma viagem Belm-Rio-Amsterdam-Rio- Bel6m, em outubro de 1991, dois me- ses antes da morte de Bruno, demoran- do-se poucos dias na capital holandesa, sem se intimidar com o detalhe de que a 6nica lingua com a qual possui algum tipo de intimidade 6 o portugu6s. Suspeita A desenvoltra suspeita de Bruno Meira Mattos atraiu a aten- 9ao do DEA, a agencia de repressao a droga dos Estados Unidos, que come- gou a rastrear os fluxos de dinheiro. Talvez tenha sido uma dessas pistas que levou a justica americana, em fe- vereiro de 1992, a bloquear 30 milh6es de d6lares depositados numa conta da Piano International em NovaYork (e, mais de tres meses depois, a interditar a empresa). Um dia antes de ser assas- sinado, Bruno contabilizara d6bito A Piano de 500 mil francos franceses e 1.249 d6lares americanos, uma infima parcela do que movimentava perma- nentemente com a corretora de cAmbio. Da mesma maneira como a dupla Misier/Lowes mantinha seis contas no banco ABN/AMRO em nome de "laranjas", com dep6sitos diArios de mais de 100 mil d6lares entiree novem- brb de 1989 e outubro de 1992 a soma alcangou US$ 44 milhoes), Bruno tinha contas milionarias em agencies de Be- 16m dos bancos Safra, Bamerindus e Econ6mico, todas igualmente de "laranjas". Dois deles, Grimoaldo Rodrigues Pamplona e Pedro do RosArio Maia, trabalharam para ele como pedreiros, cedendo os documents de identifica- 9do para a abertura das contas, movi- mentadas por Bruno com assinaturas falsas. Numa cidade onde a economic informal se expand celeremente e as rotas marginais sAo tAo ou mais fre- quentadas do que as legais, nao s6 por narcotraficantes, mas tambem por po- liticos e dirigentes piblicos corruptos, al6m de detentores de numerosos cai- xas 2, a facilidade para o narcotrifico plantar suas bases de apoio e interme- dia9go foi grande. Os gerentes de bancos nem presta- ram aten9io ao "detalhe"de que Bruno arranjara como "laranjas" trabalhado- res humildes, semi-analfabetos, que mal ganhavam o salArio minimo. t a mesma naturalidade que afasta a curi- osidade piblica de neg6cios estranhos existentes na cidade, sem explicagao 16gica para sua manutengAo ou amplia- 9Ao desenfreada. Ningudm quer se incomodar per- guntando pela origem desse dinheiro milagroso, que se multiplica como por toque divino. Por isso, nos computado- res de Bruno conviviam dep6sitos lici- tos em moeda estrtangeira com dinhei- ro que seus donos nAo poderiam expli- car de onde vieram, sem que a policia tivesse tido contig9es de fazer a neces- saria e profilitica separaq~o do joio e do trigo. Nessa promiscua seara con- viviam aplicai6es de um empresArio da irea grifica, comerciante de lojas de tecidos, fiscal da receita estadual com conta international e padrao de vida anos-luz A frente de seu salArio official, e uma legiAo de nomes que rotineira- mente apenas as colunas sociais cos- tumam agrupar e nio, como nos computadores de Bruno, com os nomes codificados indicando o desejo ao anonimato e nao A badalaiio caracte- ristica dos "coluniveis". O risco Como pioneiro nos ne- g6cios de lavagem dos narcod6lares, Bruno parece ter relaxado o control de suas transages. Nos iltimos meses de 1991 suas contas comegaram a averme- lhar e os neg6cios se tornaram perigo- sos. No dia 10 de dezembro daquele ano, quando deveria chegar uma re- messa de cocaine a Bel6m, ele saiu sozinho da cidade no inicio da manha para um encontro sigiloso. JA estava voltando, pouco depois das 18 horas, quando um carro emparelhou cor o dele, na BR-316, e de IA partiu um inico e certeiro disparo arrebentando- Ihe a cabega e matando-o instaneamen- te. Desde entao, as ji desfalecidas in- vestigag6es policiais, esbarrando numa parede de dificuldades e mi vontade precariamente disfa9adas, nao foram capazes sequer de identificar a marca do carro usados pelos assassinos (certamente dois: o que atirou e o mo- torista). Apesar do impact causado pelo assassinate em tais circunstancias de um nome do grand-monde paraense, corn a revela9go de sua face delinquen- te, o narcotrifico continuous a expandir- se, deixando A mostra os elos de liga- 9ao entire elements aparentemente isolados e as peas de um quebra- cabecas que comega a mostrar-se as- sustador. Em 1989 a Policia Federal fizera a sua primeira grande apreensao de coca- ina no Para: 417 quilos. A apreensao foi casual: o aviio que transportava a droga caiu no municipio de Porto de Moz, na embocadura do rio Amazonas, por causa de uma pane seca. Os orga- nizadores da empreitada foram incapa- zes de prever a quantidade certa de gasoline para o v6o. O responsavel pelo carregamento, Francisco Gui- Iherme Souza Pereira, conseguiu sal- var-se, mas foi preso e cumpre pena na penitenciAria de Americano. O irmao de Guilherme, Renato Souza Pereia, o Renatinho, no ano seguinte venderia a Bruno Meira Mattos, com quem tinha liga9ges, uma fazenda de 871 hectares, na ilha de Maraj6, que iria servir de base para o recebimento de cocaine boliviana e colombiana, dai sendo reembarcada para o Suriname. Em abril de 1993, quando a fazen- da ji havia voltado para Renatinho, com a anulagao de uma atrapalhada operagao de compra e venda, ali pou- sou um monomotor Cessna Azteca, procedente de Alta Floresta, em Mato Grosso. Agentes da Policia Federal ji esperavam, ocultos, a chegada dos 631 quilos de cocaine que vinham no apare- lho. Simultaneamente haviam apreen- dido outros 420 quilos no Amazonas, da mesma quadrilha, no que foi o mais duro golpe at6 entio aplicado aos trafi- cantes no Brasil: 1.051 quilos de droga perdidos de uma s6 vez, mat6ria prima que Ihes teria permitido faturar 34 mi- lh6es de d6lares. A mesma quadrilha tivera perda ainda maior um pouco antes, mas fora do territ6rio brasileiro: em novembro > Jornal Pessoal 3 de 1991 um Leart-Jet da Transamdrica TAxi Adreo caiu no M6xico com 1.180 quilos de cocaine embarcada na Amaz6nia. A desconcertante causa da queda: falta de combustivel. Figura controversy Depois que a droga fosse deixada num ponto do desert mexicano, o aviao deveria continuar viagem at6 Madrid, onde embarcaria o autodenominado empre- sArio paraense Augusto Morbach, de 32 anos, que havia comprado o jatinho, mas nAo chegaria a concluir o paga- mento A Transam6rica. Poucos dias depois desse acidente, Morbach seria preso em Slo Paulo por agents da Policia Federal ao chegar da capital espanhola. Os policiais ja o consideravam envolvido em contra- bando, trafico de drogas e ingresso ilicito de divisas. Ele admitiu apenas o iltimo dos crimes, atrav6s do qual entrou para o Guiness brasileiro: a PF apreendeu corn ele US$ 3,95 milh6es, em notas de 10 e 20 d6lares. Infor- malmente, Morbach chegou a admitir que seriam, na verdade, US$ 6 mi- lh6es, mas que US$ 2 milh6es haviam sido "confiscados"pelos policiais. Ele negou que o dinheiro tivesse origem no com6rcio de t6xicos. Alegou que o conseguira numa venda de pe- dras preciosas no Oriente, por onde ji havia andado como uma esp6cie de pracista aut6nomo da Engesa, passando em frente armamentos brasileiros para os arabes. Nem a versio sobre misseis e equi- valentes, nem a hist6ria sobre t6xicos foi comprovada, mas Morbach cumpre pena ja em regime aberto por crime de "colarinho branco", como sonega- dor de imposto, capitulagCo, alias, fre- quente nesse tipo de personagem. Mas se Morbach livrou-se do en- quadramento em crime hediondo por traficar droga, seu irmao, Atila, foi apanhado pela Policia Federal, junta- mente com outros integrantes brasilei- ros de uma ramificacao do cartel de Calli. A engrenagem ligava um ex- prefeito de Maraba, Hamilton Bezerra, s6cio de Augusto Morbach em uma empresa de mineragao que, a partir de 1981, dera partida ao seu rapido enri- quecimento, o comerciante Carlos Sa- Iheb, de uma familiar local proprietAria do Caculio, rede de lojas de material de construgdo, e Paulo T6rres, outro paraense intitulado empresArio. Hamilton Bezerra e Carlos Salheb, gragas a habeas corpus deferidos pela justiga, conseguiram sair da penitenci- Aria de Manaus, onde permaneceram os outros integrantes da quadrilha, sujei- tos a penas pesadas, semelhantes As que foram aplicadas a Izid6rio Costa de Oliveira Filho e Celso Gomes, sus- peitos de terem participado do assassi- nato de Bruno Meira Mattos (o primei- ro preso em penitenciaria de Juiz de Fora e o segundo, em Bel6m, ambos por trifico de drogas). Future? Embora Augusto Mor- bach esteja em situagao melhor, po- dendo dormir em sua pr6pria casa, sem provas materials de ligago com outros traficantes, um seu ex-s6cio, Joaquim de Jesus Bittencourt, diz que ele, na verdade, esta muito mal. Feola, como 6 mais conhecido, ga- rante que Morbach deve US$ 9,2 mi- lhWes ao cartel de Calli. Iria quitar a divida com a entrega de uma fazenda de 70 mil hectares que Feola lhe passa- ra em confianga (e ele teria se "esquecido" de devolver). A operagAo nSo deu certo porque o banco de Mi- ami que Ihe emprestaria US$ 15 mi- lhWes tendo as terras como garantia achou a documentag o de dominio imobiliArio inconfiAvel. Nem poderia chegar a outra con- clusAo. A documentacgo foi aprontada por Jacyntho Castro Filho, outro "colunivel"de Bel6m. Jacyntho 6 o substitute do pai no cart6rio Diniz, que se transformou numa esp6cie de QG informal para suas opera96es paralelas. De lA a policia ja registrou numerosos telefonemas para Calli. Jacyntho che- gou a ser preso como envolvido com a quadrilha dos 1.051 quilos de cocaine, juntamente com um tenente-coronel reformado da AeronAutica, Nelson Leite da Silva. Mas acabou solto, ale- gadamente por falta de provas. Mesmo sob discreta vigilAncia po- licial, Jacyntho "preparou"a documen- tagIo das terras e a transagio de venda de Morbach para os colombianos Ro- drigo Ivam Caceres Duque e Rodrigo Velez Suarez, todos os pap6is devida- mente carimbados, como se fossem legais, mas jamais levados ao registro nos livros de assentamento do cart6rio Diniz. Para os neg6cios obscuros, Ja- cyntho parece ter criado um cart6rio pessoal. No entanto, os elos paraenses da rede colombiana nao parecem adotar os models de Calli e Medellin. Em todos os casos em que foi bem sucedida ate agora, a policia contou com a desunido e a falta do minimo de organizagio dos parceiros paraenses desse crescente com6rcio, que fez do Pari o ponto ni- mero um de passage de cocaine pelo Brasil, transformado nm component relevant do com6rcio interacional. Mas os policiais sabem que o muito que conseguiram 6 apenas um pouco do que estA sendo relizado nos subterraneos. Uma id6ia dessa ampli- tude 6 vislumbrivel quando as pontas da rede (ou "aranha", como diz o jar- gAo especializado) aparecem a partir de fora, como ocorreu agora, com a solici- tagao da justiga holandesa. AliAs, at6 agora nao atendida. Helio e Almir: o rompimento O distanciamento entire o governa- dor Almir Gabriel e o prefeito H6lio Gueiros 6 um caminho sem volta no rumo do rompimento politico. O prefeito tomou a iniciativa de demarcar as novas posigoes ao recusar, no final do mes passado, participar de um en- contro na Granja do Icui. Ainda procu- rou manter alguma aparencia enviando a chefa de seu gabinete, Maria de Na- zar6 Marques, corn a tosca explica9go de que estava adoentado. Mas o recado foi mais do que claro: Nazard chegou exatamente na hora prevista para o encontro comegar e nao ficou na Granja nem cinco minutes, deixando o governador, que havia proposto a Gueiros a reuniao para que pudessem ter uma conversa franca, sem reagao. Se quiser embarcar na canoa furada do restabelecimento das antigas rela- 96es de parceria, o governador tera que se humilhar, refazendo o convite, com o risco de receber uma outra desfeita. Ao que parece, H61io Gueiros esta disposto a apostar no confront ou na rendicio incondicional, o que, para Almir Gabriel, significaria renfncia branca ao cargo que ocupa. Para valer Talvez apostando em que tem mais lideranga no Estado do que o seu aliado da eleigio do ano passado, o prefeito da capital desistiu do papel de dissimulador que parecia inclinado a exercer a partir do regresso de Almir Gabriel da MalAsia. Passou a assumir posigio ao lado do filho, en- dossando os atos praticados durante a internidade no governor, e mandando sinais de revanche. Gueiros faltou seguidamente a so- 4 Jornal Pessoal lenidades nas quais sua presenga fora anunciada e era esperada, como a posse do novo desembargador Benedito Al- varenga, do procurador geral de Justi- ca, Manoel Santino, a reinauguragdo da sede da OAB/PA e a assinatura do contrato para a construgao do novo aeroporto de Beldm. Na solenidade no Tribunal de Justiga do Estado, a manu- teng9o de uma cadeira vazia entire o governador e o secretario municipal de Justiga, Frederico Coelho de Souza, chegou a ser constrangedora para Al- mir. Nao content, o prefeito cedeu es- pago no seu program de televisao (propaganda political pessoal com di- nheiro do contribuinte) para o deputado federal Vic Pires Franco atacar o acor- do do governador com o PMDB e iro- nizar as preocupac6es de Almir com a pacificag9o political do Estado. O vice, H6lio Gueiros Jr., tamb6m apareceu no program do pai, como se ele fosse um reduto da oposigao e nao do aliado eleitoral de poucos meses atris. Agora, o governador vai precisar demonstrar se tem realmente condig9es de criar uma densidade pr6pria de po- der, estabelecendo um novo p6lo poli- tico no Estado. Do contrario, ou virard marionete de Hl6io Gueiros ou acabari caindo no control de Jader Barbalho. E a hora de o governador sentir na pr6pria pele como 6 verdadeiro aquele ditado popular: dize-me com quem andas e te direi quem 6s. Em janeiro Helio escolhe Em janeiro o prefeito H6lio Guei- ros encomendara, provavelmente ao Ibope, uma pesquisa de opiniAo sobre os candidates A prefeitura de Bel6m. Quem, dentre os politicos de seu gru- po, estiver com o maior indice de po- pularidade deverA ser o escolhido para suced6-lo. Se for convenient, o se- gundo melhor posicionado, desde que no esteja distanciado do primeiro, servird de alternative. Esta, segundo fontes da PMB, 6 a estrat6gia jA montada por Gueiros. Pela preferencia pessoal, o deputado federal Vic Pires Franco 6 a bola da vez, substituindo o deputado estadual Luiz Otavio Campos. Pepeca foi punido com a perda da primazia em fungio da reconstituigio que fez de toda a hist6ria da aproxima- 9do e do acordo feito pelo governador Almir Gabriel com o PMDB, reconsti- tuicao que deixou o prefeito em posi- 9do inc6moda. Agora, Luiz Otavio nao 6 mais visto nos encontros de fim de tarde na Granja Modelo, quando um papo molhadissimo reine os membros da c6rte gueirista. Falcko criado Vic esti em plena articulagao para consolidar seu papel de favorite. Foi o 6nico dos 20 inte- grantes da bancada federal paraense a nao subscrever as emendas ao Piano Plurianual do govemo federal acerta- das pelo governador em um encontro geral realizado em B rasilia. A ausencia indica claramente que a bandeira de campanha de Vic, se ele for candidate, A semelhanca do que fez para eleger-se deputado (em relago a Jarbas Passarinho), sera a do opositor solitirio A reaproximagco com Jader Barbalho, fazendo desse ponto mono- c6rdio o seu cavalo de batalha. Al6m da indicagio de H6lio Guei- ros, Vic espera contar com o patrocinio do Grupo Liberal, afastando-o de qual- quer possibilidade de comprometimen- to corn o ex-prefeito Sahid Xerfan. Um filho de Sahid 6 marido de Roberta Maiorana, diretora da Fundag9o Romu- lo Maiorana. Essa relagio familiar reforgou os elos de ligag~o estabeleci- dos no passado, mas que podem nao ser decisivos para a mobilizagio da corporagao de comunicag9o se o pr6- prio Sahid mantiver seu nome afastado dos movimentos pr6-eleitorais. Reasfaltando as mesmas ruas de sempre, preparando na Doca de Souza Franco um cartio postal para repercutir junto A opiniao pfiblica, apoiando-se em outras obras de impact semelhan- te, como a recuperagio da Avenida Portugal, e inaugurando o pol8mico terminal pesqueiro ao lado do Ver-o- Peso, al6m de pavimentar com o caixa paralelo a via eleitoral montada com empreiteiros, aderentes & agregados, H6lio Gueiros pretend ser o grande eleitor do pr6ximo ano. Dai a impor- tfncia do nome que vai escolher para tentar colocar em seu lugar no PalAcio Antonio Lemos (e na Granja Modelo, seu mais frequent paradeiro), dispon- do, assim, da estrutura para usar na dispute maior de 1998. Political de enervante e velho mo- vimento pendular, essa dos paraenses. O tamanho do buraco 6 1 gua!", exclamou o deputado .E Ronaldo Passarinho, fazendo o governador Almir Gabriel interromper por segundos os comentArios que vinha fazendo A margem da mensagem A Assembl6ia Legislativa que lia da tri- buna da casa. 0 governador, naquele ji distant 15 de fevereiro, dizia que a divida do Estado poderia variar entire 200 milhoes e 2,4 bilh6es de reais, um grau de variagao tao descomunal que fez sair da boca do entao lider do PPR (hoje PPB), sem censura regimental, a expressao de espanto tipicamente para- ense. Imediatamente Ronaldo formulou um pedido de informag6es para dirimir as muitas dfividas que tinha sobre o endividamento estadual. Passados oito meses, a resposta finalmente chegou ao legislative. Ela 6 bem mais precisa do que a informagao initial dada pelo governador, mas ainda nao 6 suficiente para colocar o preto sobre o branco nas maltratadas contas paraenses. Surpreende logo a extensao de tempo necessaria para tender o pedido do deputado. E mais ainda porque as estatisticas enviadas pela Secretaria da Fazenda no dia 9 estavam prontas des- de 17 de agosto. Produzir informag es ainda 6 um parto nos escaninhos do governor. E s6 uma cesariana ou um parto com ferros extrai esse filho dos interiores da maquina official para o conhecimento da sociedade. Desalento A divida do Estado apontada pela Sefa 6 de 3,1 bilhBes de reais. Para pagi-la, o governor precisa- ria de quase dois anos e meio de arre- cadagdo liquid, sem pagar ninguem senao seus credores. Visto por essa 6tica, o quadro 6 de desalento, de fa- lencia. Mas a mAquina pfiblica ainda nao pode responder integralmente nem pelos nfmeros que apresenta, como se fossem aquele tipo de estatistica capaz de encantar americano. Sobre os R$ 2,2 bilh6es de despe- sas acumuladas em exercicios anterio- res, por exemplo, pesam indiscrimina- damente R$ 776 milhoes de d6bitos por desapropriag6es e cobrangas judi- ciais. Mas sem que o governor explique o que 6 divida ja em cobranga, o que 6 ato exprorpriat6rio finalizado, quais sao os direitos regressivos criados e outros detalhes necessAros para distin- - Journal Pessoal 5 guir o que 6 divida realizada do que 6 ato anulavel sem maiores 6nus, 6 im- possivel incluir esse valor na somat6- ria, sob pena de inflaciona-la e artifi- cializA-la. Nessa mesma rubrica, quase R$ 170 milh6es sumiram, entire margo e junho, sob a justificativa de "ajustes apresentados pelos 6rgdos", sem que a Sefa tenha explicado o tipo de ajustes feitos./ Ainda mais porque as grandes diferengas foram sentidas entire emprei- teiros e fornecedores (quase R$ 140 milh6es em "ajustes"). Da mesma forma, 6 um tanto for- gada a inclusao por inteiro do empr6s- timo de 145 milh6es de d6lares do Banco 18nteramericano de Desenvol- vimento para as baixadas de Bel6m. Apenas uma pequena parcela dessa soma foi efetivamente desembolsada. O restante pode ser cancelado se nao houver contrapartida estadual, gerando efeitos apenas sobre a parcela ja usada pelo governor. Duvidas Essas ressalvas servem ao menos para mostrar que uma inter- pretagao segura das estatisticas divul- gadas pela Sefa requer um trabalho qualitative de enriquecimento que a pr6pria secretaria nao forneceu. As contas estaduais continuam A espera de um arbitrariamento ao mesmo tempo rigoroso e criativo, capaz de responder a perguntas que, ano ap6s ano, perma- necem no ar. A d6vida tem sido meio de conivencia corn o enriquecimento ilicito e, tamb6m, embora por exce9ao, de condenagao leviana de administra- dores piblicos. De fato, o governador Almir Ga- briel iniciou sua gestio com mais difi- culdades do que seus antecessores. Precisou pagar, de imediato, quase R$ 90 milhoes de despesas passadas, sen- do obrigado a comprometer nessas operagoes bancirias de curto prazo (os "papagaios") quase o dobro das anteci- pa96es orgamentirias realizadas em 1994. O atual governor tamb6m ja come- 9ou a amortizar parcelas mais expres- sivas das dividas em moeda estrangei- ra, o que significou um grau de com- prometimento maior no orgamento. Mas, por dificuldade intransponivel ou por falta de competencia especifica, o governor nAo tem conseguido criar um eficiente fluxo de caixa (o tal do cash flow dos economistss. Dinheiro toma- do a juro extorsivo tem dormido nos cofres p6blicos para ficar como saldo para as despesas mais prementes no inicio do m8s seguinte, por entraves no cronograma da arrecadagao ou por falta de uma melhor abordagem operative dessa questao. Um exame da algaravia estatistica disponivel tambdm di a impressAo de que o governor, por ainda nao ter um dominio real dos nfimeros, escolheu previamente um pilatos para o credo: o funcionalismo piblico. E a reserve tdcnica, por assim dizer, para o mo- mento em que se tirar a prova dos nove sobre a capacidade de investimento e de custeio do Estado. Espera-se que esse moment nao demore a chegar tanto como nas administra9oes anterio- res, que fechavam as contas na fase pr6-eleitoral, sempre pouco propicia A retiddo de a96es. Parque do Goeldi: vitima do tempo SMuseu Paraense Emilio Goeldi esti festejando seus 129 anos de existencia. Nao 6 uma data redonda. A data redonda sao os 100 anos do par- que zoobotinico, criado em 1895. Mas esta data especifica nIo esta sendo comemorada. A razao do esquecimen- to deve estar no acidente ocorrido a 13 de julho, do qual resultou a morte de aproximadamente 120 tartarugas. A hist6ria desse epis6dio aparen- temente foi encerrada a 1 de setembro, qando o procurador regional da Re- piblica, Jos6 Augusto Torres Potiguar, pediu o arquivamento do process instaurado em BelBm para apurar os fatos. O procurador concluiu inexistir resoponsabilidade civil a apurar pela morte dos animals, tanto da parte dos tecnicos envolvidos, como da institui- 9do. O caso, entretanto, ainda nao mere- ceu todas as reflexes necessarias para que dele a sociedade paraense pudesse extrair as lic6es adequadas. Ao que parece, nem o Museu, o mais direta- mente envolvido, parece disposto a fazer essa avaliagIo, talvez porque ela o leve a sangrar a pr6pria came. LicGes A primeira li9go diz res- peito ao Ministdrio P6blico estadual. Como a mais dinamica, em tese, das instituig6es da estrutura judicidria do pais, o MP foi a primeira instancia a ser procurada pelos que procuraram uma resposta para o acidente fora dos muros do museu, as vezes exagerada- mente altos e grossos. Depois de sustentarem durante se- manas uma polemica atravds da im- prensa, e tambdm com ela, sendo o foco dos refletores e cameras de teleyi- sao,. os promotores de justiga conclui- ram pela incompetencia da justiCa es- tadual, remetendo os autos para o Mi- nist6rio P6blico federal. A constatagao de competencia fe- deral poderia ter sido feita desde que os documents chegaram ao MP esta- dual. Afinal, o Museu Emilio Goeldi, mesmo de origem estadual, esta vincu- lado, por forga de um conv6nio, ao Ministerio da Ciencia e da Tecnologia, sendo subsidiado financeiramente cor verbas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tec- nol6gico). Mais ainda: o crime que ento se procurava deslindar, o ecol6- gico, relative A fauna, 6 federal. O MP estadual s6 se apercebeu dis- so quando ji estava afogado pelos da- dos polemicos da question, sem conse- guir apresentar um parecer consistent a respeito, engendrando uma contro- v6rsia da qual estava ameacado de nio sair sendo corn escoriag6es generaliza- das. Os integrantes do Ministerio Pfibli- co ganhariam e a instituigao, mais que todos se fizessem uma reflexlo critical sobre como se tem posicionado diante de quest6es mais exigentes do que a manuten9ao da integridade de um mural dentro de uma agencia ban- ciria. O Museum Mas quem precisa re- ver urgentemente o significado do epi- s6dio e o pr6prio Museu. Claro que ningubm foi responsabilizado criminal e civilmente por inexistir responsabili- dade penal no caso, pela absolutea falta de tipicidade" a que se referiu o procu- rador federal e pela "ausancia de agAo dolosa" por ele constatada. A evidence negligencia, pouco apuro t6cnico e irresponsabilidade dos agents s6 seri- am alcangaveis a nivel administrative, onde as puni9oes ocorreram por indrcia (um deles nao teve renovada a bolsa) e acomodagao (o outro perdeu a chefia). Mais do que a indivylualizagao dos atos, e necessario considerar a signifi- cacgo institutional do acidente. A pri- meira reagao de algumas pessoas a divulgagdo do fato foi a absqouta incre- dulidade. Todos, na remota infincia, aprenderam nos bancos escolares que o sal se troca por Agua. As seis toneladas de sal despejadas no tanque das tarta- r Jorr IA lal Pessoal rugas tera que acabar com as reserves de agua no organismo dos animals e causar-lhes violent crise renal, matan- do-os. Tal quantidade de sal daria para mineralizar um rebanho de mil cabegas de gado durante todo um ano, o que di uma id6ia mais nitida do volume da agressAo. Nao interessa tanto saber quem deu a ordem para ser despejado o sal, se a exeugao foi realizada sem o acompa- nhamento t6cnico necessArio, se houve um desencontro de turnos dos t6cnicos e pesquisadores, se havia uma dispute de poder por tris do epis6dio ou qual- quer outra circunstincia que se puder apurar (ou que a comissao designada pela dire9ao do "Goeldi" apurou). O que impression 6 a inexistencia de um dispositivo de alarme capaz de ser acionado a tempo, seja la por quem, e impedir a consumagao do lamentivel acidente. Algu6m, em alguma instancia, nem que fosse por reminisc6ncia das li9~es de quimica e biologia do primi- rio (hoje aprisionado pela designagao le 10 grau), deveria ter-se alarmado zom a quantidade fisica de sal e susta- do, mesmo que por ind6bita intromis- sao, o cometimento da sandice. Perde- ria a hierarquia e a boa ordem funcio- nal burocratica. Ganharia, por6m, a ciencia. Infelizmente, em epis6dios anAlogos, a burocracia costuma falar mais alto e forte do que a ciencia nas institui9ges declaradas cientificas. Nao houve essa instincia salvadora no "Goeldi". A fatura passou por es- caninhos administrativos sem a menor demonstragao de espanto. Os seis mil quilos foram colocados ao lado do tanque sem um sinal de escandalo. E assim consumou-se um ato de barba- ismo inadmissivel em um museu de :i6ncias naturais como o "Goeldi". Mais ainda inaceitavel para um parque :oobotanico. Chega-se, entio, ao cerne da ques- io: o parque 6 o primo pobre do Goeldi", ou o filho enjeitado, ou o leijao que se carrega com constrangi- lento. Desde quando, na d6cada de 50, .ecebeu o "Goeldi"do governor paraen- e, o CNPq olha com desinteresse atra- 6s do parque para mirar com firmeza s colecges que recebeu (hoje ja nem anto) e o nome que passaria a esgrimir como canto de sereia da sedug~o das verbas nacionais e internacionais. O parque seria sempre a contrapartida de dor de cabega a enfrentar para assegu- rar o comodato do que era realmente de valor para a administragao federal. Essa vesguice, ou esse vies cienti- ficista dos homes de Brasilia e seus teleguiados satelitizados, nunca lhes permitiu encarar a s6rio a legend de um parque anualmente visitado por 500 mil pessoas. Mais do que legend, esse feito, valorizAvel em qualquer lugar do mundo, era uma lenda, um mito, a ser colocado com enfado nos relat6rios anuais da diregao do museu. Muitos dos pesquisadores e diri- gentes da instituigao consideram o parque, al6m de dor de cabega, um estorvo A pesquisa, um deleterio desvio de suas finalidades superiores. E assim a sociedade paraense tem sido punida. E assim tem sido obrigada a contentar- se com as migalhas que lhe do, em troca do uso de um cartao postal cieni- fico de altissima rentabilidade, raras vezes contabilizada integralmente ih- tra-muros da instituicao. Ano ap6s ano os visitantes tem que agradecer por mediocres melhorias feitas no parque, sem tocar-lhe a es- sencia, sem atualizi-lo As possibilida- des de um mundo inteligente que usa parques nao como dep6sito de plants e animals, mas como reprodug6es vi- vas e integras da natureza, contribuin- do para restabelecer a ponte na relagao do home com ela, da urbes com a mata. O parque 6 mais para esconder do que para mostrar. Por tudo isso, as comemoragoes foram transferidas (a expressao pode ser usada ate no seu significado psicanilito, de transferen- cia) para uma data de p6 quebrado e esqueceu-se de um centenario porten- toso, que aqui, mais do que em outras cidades, se deveria comemorar. Quan- do nada, para lembrar, nem que a lem- branga seja mais fonte de amarguras do que de alegrias. A batalha na Celpa Ogoverno esta travando na Celpa uma de suas principals batalhas pela eficikncia e o reconhecimento piblico. Ningu6m consegue entender (ou no quer procurar entender para valer) como pode ser problemitica uma empresa que compra sua mat6ria prima por um tergo do valor cor que a vende no caso, a energia el6trica. Qualquer empresa, puiblica ou privada, medianamente equilibrada, tem que dar certo com essa equacao bAsica. Mas a Celpa, de modelar no siste- ma eletrico ate o inicio da d6cada de 80, esta tecnicamente falida hoje. To- dos reconhecem que a ma gestao 6 a causadora dessa situa9io. Se o passado pudesse ser apagado e a Celpa recome- gasse do zero, pagando o que paga a Eletronorte, fornecedora da energia, e impondo aos seus clients a terceira maior tarifa national, poderia voltar ao conceito de um passado mais remote. Mas isso nao 6 mais possivel. A Celpa, para se salvar, precisa cortar a pr6pria came. Seus 2.973 funcionirios na ativa tem salArio m6dio de 2.180 reais, que, no caso dos 14 advogados do quadro, chega a R$ 4.421. A folha mensal somou, em agosto, R$ 6,2 mi- lhoes. O custo administrative se tornou insuportAvel, tanto pelo clientelismo das contratag6es exageradas, como pelo corporativismo na negocia lo dos acordos salariais, com a incorporagao de vantagens no asseguradas em fon- tes identificadas e, o que 6 pior: pela criag~o de uma mentalidade perdulAria que hoje 6 dificil eliminar. Mas esses vicios administrativos s6 se tornaram de corregao problemitica por causa da political de custeio e in- vestimento ruinosa em algumas admi- nistraq.es, pr6digas na remuneragao de empreiteiros e fornecedores, tanto quanto em aplica96es delet6rias (como os R$ 8 milh6es na sede). Um capitulo especial desse conjun- to de batalhas que vem sendo travados em torno da recupera~ao ou liquidagao da Celpa esta sendo vivido pelos apo- sentados. VArios deles procuraram este journal relatando situag6es dramiticas que passaram a viver a partir de feve- reiro deste ano, quando seus rendimen- tos foram corroidos pela redug~o e posterior eliminag~o da supleementa- 9ao que a Celpa vinha pagando. A questao 6 complex e as parties, que ja transferiram suas divergencias para o litigio judicial, tnm fortes razoes a apresentar. A Celpa questionando a legalidade de suplementar aposentado- rias que ja sao complementadas pelo fundo de pensao, decisao adotada sem base legal, segundo a atual diretoria - pelos diretores de 1989. Os aposenta- dos argumentando que esse e um direi- to adquirido que incorporaram a suas vidas quando aceitaram a indugao da empresa para se aposentarem, sendo um reconhecimento pela adesio volun- o Jornal Pessoal 7 taria ao program instituido pela Celpa. Com apenas uma excegco, a Celpa esti perdendo as demands na justiga trabalhista. A luta 6 tao desfavorAvel que a empresa contratou o advogado Roberto Santos, ex-juiz e ex-presidente do TRT, provocando os mais variados tipos de comentArios entire os funcio- ndrios, espantados com os valores do contrato e com o fato de disporem de um setor juridico cor 14 advogados (mas que nao costumam ser eficientes na defesa da empresa, segundo asses- sores do governor, irritados com esse tipo de comportamento de servidores bem pagos no quadro de um Estado como o Pard). Uma pessoa da estatura de Roberto Santos acaba sofrendo desgastes por entrar nesse torvelinho de interesses e paix6es. Mas o governor, que fixou uma estrat6gia de endurecimento nas rela- o9es com os seus servidores, indepen- dentemente do dign6stico que tenha sobre as gest6es anteriores, nao deveria ignorar a impessoalidade da adminis- tragco p6blica e respeitar o direito ad- quirido, principalmente quando ele se estabeleceu a partir de um acordo de cavalheiros. Afinal, o que ainda nos livra da barbArie nesse mundo em que as palavras costumam ser olimpica- mente ignoradas, 6 crer que algum cavalheiro havera de se salvar para manter o compromisso firmado ao acariciar de seu bigode, mesmo que ele seja uma fic9~o sobre os labios. Mao de ferro Ochefe da Casa Civil do governor do Estado, Paulo Elcidio Noguei- ra, enviou no dia 24 de agosto, a todos os stores da administragIo p6blica estadual indireta, um oficio-circular com uns 30 anos de atraso, pelo me- nos. Os militares que assumiram em escala crescente o poder a partir de 1964 bem que gostariam de ter usufru- ido dessa contribuigdo t6cnica. Certa- mente com base nas instruc6es dadas aos dirigentes das empresas piblicas, autarquias e funda96es paraenses os governor militares poderiam adotar uma political durissima em relacio aos servidores pfiblicos, sem descambar para a violEncia aberta e a ilegalidade formal. Atrav6s do document o governor Almir Gabriel manda dizer aos nave- gantes que o timio sera conduzido com mao fire e pesada. Nada de recupera- 9 o das perdas apuradas antes de 10 de janeiro deste ano. Quem estiver ga- nhando acima das faixas equivalentes na administragio direta terA reajuste zero. Nenhum acr6scimo de custeio deve existir. Os temporArios contrata- dos depois da Constitui9go de 1988 serao mandados embora, sem qualquer indenizagao,. A inica coisa a proper na negocia- 9,o coletiva 6 a "clausula de paz", pela qual os servidores aceitam abrir mao do direito de greve, constitucionalmen- te assegurado, em troca da melhoria da qualidade e da produtividade da em- presa, "com a redug~o de seus custos, cor o combat ao desperdicio e com o respeito aos seus clients e a socieda- de", conforme a carta. Evidentemente, a sociedade civil, que sobrevive enfrentando as duras condi9ges de mercado, aplaudira as iniciativas da administragdo para en- frentar e acabar com as mazelas parasi- tirias do servigo p6blico, muitas e pro- fundas. Mas como controlar a sangria cortando com tanta forga a pr6pria came? E como reconstituir o governor depois de hav6-lo destruido? O governor quer introduzir a quali- dade total em seus servigos, mas tiran- do dos que os realizam os poucos esti- mulos que ainda tnm e suspendendo, at6 segunda ordem, que ningu6m pode dizer quando vira, a vigencia de alguns direitos do trabalho. Um modelo desse ou nao dara certo, ou, se der, acabarA em tirania de bop mot. A salvagao de um banco uem participou da procissao do Cirio de Nazar6, no segundo domngo do m6s, teve a oportunidade de afastar o calor abanando-se corn ventarolas patrocinadas por entidades patronais, como a Federa9go da Agri- cultura e a Associag9o Comercial, e associag9es de trabalhadores, como a CUT e o Sindicato dos BancArios. O autentico milagre da consubs- tanciagdo, capaz de unir organiza95es que costumam tratar-se como adversa- rios ou mesmo inimigos, foi consegui- do nao pela padroeira dos paraenses, mas pelo Banco da Amaz6nia. Para defend&-lo da ameaga pressentida de exting9o, foi constituido o Comit8 pelo Desenvolvimento da Amaz6nia e For- talecimento do Basa. As ventarolas foram um dos recursos usados para divulgar a campanha. O que uniu entidades tao dispares foi o FNO, o fundo constitutional para a regi.o Norte, administrado pelo Basa, que movimenta, em m6dia, o equiva- lente a 150 milhoes de d6lares por ano. Ele se constitui na melhor fonte de credito A atividade produtiva, pratica- mente a 6nica acessivel a pequenos e m6dios produtores, sobretudo rurais, mas tamb6m a produtores urbanos inclinados A diversifica9go. O FNO conseguiu romper a letar- gia da sociedade local diante de um tema que, at6 ento, parecia nao sen- sibiliza-la. O interessante dessa cam- panha 6 que ela trata o Basa como uma ag6ncia de desenvolvimento e nao como um banco commercial, como uma instituig~o important apenas para o segment da populag9o que trata cor ela, dando assim uma resposta A velha irrespondida indagag9o sobre a espe- cializag9o do banco. Parece muito claro que o Basa nao voltara a ter a expressao ou a amplitu- de que ainda agora possui, tentando conciliar sua face de banco commercial com a de banco de desenvolvimento, ja sem os funds compativeis cor esse papel (que, necessariamente, precisam ter custo zero). Hoje, basta perquirir sobre quem possui ura conta ou mo- vimenta cheques no Basa para chegar a constatagao de que a via commercial parece definitivamente bloqueada a instituig9o, que pode sobreviver, mas tera que mudar. Lingua complicada s mis linguas atribuiam a demora do ex-presidente Itamar Franco em assumir a embaixada do Brasil em Lisboa a necessidade que ele teria sen- tido de fazer um curso para dominar a lingua do pais estrangeiro no qual iria servir. S6 quando alertado pelos fi6is amigos de Juiz de Fora de que em Portugal se fala o portugu6s 6 que o monoglota Itamar decidiu-se pela via- gem, levando (a contragosto, segundo as mesmas mas linguas) a imperturbi- vel June Drummond a tiracolo. Agora que o ex-presidente anuncia a disposigao de abandonar a terra lusi- tana, mal nela se acha acomodado, 6 o caso de perguntar-se se o curso nao Ihe fez falta. A ida de Itamar, alias, 6, para o Brasil, o classico caso em que a au- sencia preenchera uma lacuna. Um testemunho Era uma quarta-feira, dia 4, inicio da tarde. Circunstancialmente, eu estava no gabinete do delegado Gil- vandro Furtado, na Divisio de Investi- gag6es e Opera9qes Especiais da Secre- taria de Seguranga Plblica. Um telefo- nema interrompe nossa conversa. E a juiza Maria de Nazar6 Saavedra Gui- maraes do outro lado da linha. A juiza esta furiosa. Reclama que o delegado nio cumpriu sua ordem, dada na tarde da v6spera. E para ele entregar os documents que foram apreendidos junto corn Marinho Gomes de Figuei- redo, um r6stico especulador de terras, eixo de uma quadrilha que grilou 8% das terras do Estado do Para. O delegado, que apreendeu os do- cumentos quando, cor ordem judicial, foi prender Marinho no Novotel, tenta argumentar que os pap6is estdo guar- dados no cofre do director da DIOE, Cl6vis Martins. O problema 6 que, desde a v6spera, Cl6vis nao foi locali- zado por seus pr6prios subordinados para abrir o cofre, que fica em seu ga- binete, e cumprir a decisao judicial.. Gilvandro explica que esti fazendo cudo para contactar seu superior, mas at6 mesmo o advogado de Marinho, aguardando no primeiro andar do pr6- dio, verificou que as buscas ao director da DIOE foram infrutiferas. E precise aguardar por ele. De onde estou posso ouvir a voz da juiza ao telefone. Ela esta furiosa. Acha que sua autoridade esta send questionada. Em tal situacgo sempre vem a lembranca do brocado: decisao de juiz nao se discute, cumpre-se. A juiza quer que o delegado arrombe o cofre. Gilvandro retruca que nao pode e ainda defended a legalidade do ato de apreensao, ja que os documents se referem A grilagem de terras. A juiza insisted em que o cofre seja arrombado. O delegado resisted; diz que cumprirA a ordem se ela vier por escri- to. A juiza bate o telefone. A ordem nao vem. Testemunha involuntario do epi- s6dio, despego-me do delegado e vou embora, convencido de haver presenci- ado uma cena do interesse p6blico. Por isso, deixo de tender o pedido do de- legado, para nada escrever sobre o que, por acaso, vi. a fi N a epo- Vi9)6 -8 i'emn- que foi reitorda niverii sidade deBrasilia, o capitao da Mrinha Jos6 Carlos Aze- vedo era acusado de ter um passado de truculencia, que levou para o exercicio do cargo. Nunca consegui me conven- cer da ligagao do capitao Azevedo com a repressdo. Mesmo nesse period, ele era o meu direitista de estimacio. Acompanhava o reitor (que sobre- viveu A passage do governor Geisel para com perdao da palavra o go- verno Figueiredo) tanto atrav6s de sua agao administrative, como, meio sim- bolicamente, pelo que publicava a Editora da UnB. A linha editorial conservadora era evidence, mas tdo evidence era tambem a sua qualidade editorial.Perdi poucos dos livros editados na administragdo Azevedo, ajudado a recuperar as per- das por outro amigo A direita, o coronel Jose Lopes de Oliveira. Conservadorismo nao e, necessari- amente, nome de mae. Minha (em boa hora?) abandonada dissertago de mestrado na Universidade de Sdo Paulo (orientada por Oliveiros S. Fer- reira, ontro conservador inovador, admirador de Trotsky e Rosa Luxem- burgo) seria sobre os intelectuais assim chamados de direita (pelos que os ve- em da outra margem do rio, 6 claro) que, militando na d6cada de 30, ajuda- ram a ventilar intelectualmente o Bra- sil, olhando-o sob prismas enriquece- dores. Esses intelectuais deram a compre- ensao do pais contribuigao igual ou maior do que a dos intelectuais de es- querda. Falo de gente como Oliveira Viana, Azevedo Amaral, OctAvio de Faria (autor de estudo antol6gico sobre Maquiavel, escrito quando ainda nao tinha 25 anos), Lourival Fontes e por ai afora, nio esquecendo, naturalmente, o fantistico Gilberto Freyre. Minha admiragCo pelo ex-reitor Azevedo renovou-se ao ler o artigo com o qual, pela "Folha de S. Paulo", retrucou a outro reitor da UnB (e seu criador), o sempre vivaz, alegre, pers- picaz e desigual (ou irregular) Darcy Ribeiro. Aos 61 anos, Azevedo continue manejando uma ironia superior, fato tanto mais surpreendente para um mili- tar, aferrado a c6digos raramente carac- terizaveis por racionalismo e bom sen- so. Se no confront de id6ias e infor- ma96es Azevedo saiu-se melhor, no langamento de veneno nao ficou em desvantagem diante de um intellectual mordaz como Darcy, cuja rapidez de raciocinio e brilho ret6rico nao 6 acompanhada pela mesma profundida- de na analise. Se me perguntassem quem ganhou no confront, responderia que foi mesmo Azevedo. De vez em quando o brilho superficial tem que esbarrar na consistencia de id6ias para testar-se. Com isso ficamos em condi96es de distinguir os que fazem cultural dos que simplesmente a desnatam. Atraso econ6mico A inauguraao da Alunorte no dia 20 represent a retomada de um em- preendimento econ6mico atrasado de 11 anos. A fibrica de alumina deveria ter en- trado em operagAo pelo menos um ano antes de sua irmn-gemea, a Albras, se o cronograma tivesse mantido seu sentido l6gico. E que a Albras s6 poderia fun- cionar cor um estoque de alumina, a matdria prima para a transformagao em metal. Mas em 1985 a Albris deu a par- tida sem ter a Alunorte na retaguarda. E durante todo esse long period obteve a mat6ria-prima atravds de importagao - pagando em d6lar, naturalmente. Para os paraenses, havia o desolador espeticulo de exportar bauxita do Trombetas e im- portar a alumina do exterior, cor a perda de valor multiplicada cinco ou seis vezes. Quando finalmente temos os efeitos economicos para tras, corn a integracgo a partir do aluminio, A custa de investi- mento de 870 milh6es de d6lares, a con- quista perde importancia. E que de ha muito deveriamos ter conseguido os efei- tos para a frente, com o uso do lingote na transformag~o de produtos de maior valor economic agregado, como laminados, perfilados e bens finals panelsa, papel aluminizado, etc.).O incrivel 6 que a Al- bras ja alcangou metade da sua vida itil de projeto, engolindo quase um bilhio de d6lares de subsidio energ6tico, e ela ainda represent uma plataforma de lang- amento de riquezas de baixo valor agre- gado num mercado international violen- tamente competitive, que pune os paises incapazes de estabelecer relagbes de troca vantajosas. O setor de aluminio ja represent in- vestimento acumulado de US$ 3 bilhoes. Com tudo isso, por6m, ndo conseguimos nos transformar em opqio contra os cart6is. A hist6ria mal comecou e parece ja estar definitivamente escrita. Editor: L6cio Flivio Pinto Redag o: Av. Governador Jos6 Malcher, Passagem Bolonha, 64/B, 66.053-040 Fones: 2231929-2237690-2243728 Belim Pari |
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