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Jomal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LUCIO FLAVIO PINTO ANO IX No 127 2a QUINZENA DE SETEMBRO DE 1995 R$ 2,00 A pega dos Gueiros Helio Gueiros montou uma farsa para que o Juinior se torasse lider politico e opcao de poder para o future. E Almir Gabriel caiu na armadilha. H61io Gueiros Jr., at6 entdo obscure vice-govemador, posto no cargo pelas conveniEncias de terceiros, trans- formou-se em nome politico com a involuntaria colaborag~o de Almir Gabriel. Por ingenuidade ou desprepa- ro, o governador deu a H61io Gueiros, pai, a oportunidade de langar o filho como lider politico supostamente aut6- nomo, conquistando para a familiar mais um espago na luta pela partilha do poder paroquial. No dia 5 de setembro, As v6speras de sua ins6lita viagem de 14 dias A Malisia, o govemador comunicou ao seu vice o que os jornais ji haviam documentado tres dias antes: o acordo PSDB-PMDB. A comunicagdo foi feita no intervalo do desfile escolar do dia da raga e, segundo a reconstituicgo de Helio Jr., o vice reagiu dizendo ser contra o acordo com Jader Barbalho. Teria at6 antecipado que, para registrar seu protest, demitiria o chefe da Casa Military da Governadoria, coronel PM Roberto K6s. Almir tinha todos os motives para se surpreender com a reacgo. A apro- ximaCgo entire o governor e a bancada peemedebista comegara pouco depois de ter sido instalado o atual period legislative. A iniciativa partiu nao do governador, mas do deputado Luiz Otavio Campos, o home de confianga do prefeito H~lio Gueiros na Assem- blWia Legislativa. O deputado admitiu esse fato em entrevista a "O Liberal" do dia 24. Sabendo das dificuldades que a nova administrag9o estadual passou a en- frentar no parlamento (onde o PSDB contava cor apenas dois dos 41 depu- tados e a pr6pria coligagdo governista era minoritAria), "montei uma estra- t6gia: levar ao doutor Almir a possivel alianga cor o PMDB". O estimulo O primeiro politico que Luiz Otivio consultou foi o prefei- to Hl6io Gueiros, numa data (que ele nao precisa) entire fevereiro e margo deste ano. Gueiros recomendou ao deputado "que levasse ao doutor Almir a ideia, mas que deixasse claro ao governador que a ideia era minha", Problems Por problems tdcnicos, esta edipgo do Jornal Pessoal volta a circular precariamente, depois de ter apresenta- do aparencia grifica melhor na edicao anterior. Espero que o leitor nao se deixe levar apenas pelas aparencias. confessa o parlamentar, admitindo implicitamente ser mais fiel a Gueiros do que a Almir. A este u6ltimo vende- ria se pode-se usar a expressio neste caso em seu sentido nao literal a im- pressdo de que Gueiros nao tinha par- ticipagAo na proposta da alianga, mes- mo dando sua aprovagAo ao arranjo. Ao ser contactado por Luiz Otavio (tamb6m conhecido pelo apelido de Pepeca), "o doutor Almir disse imedia- tamente que, antes de qualquer coisa, ouviria o prefeito H6lio Gueiros", tes- temunha ainda o deputado do PFL. Almir, de fato, consultou o aliado, que o desanimou quanto a uma pers- pectiva de alianga cor o PPR e o in- centivou a se aproximar do PMDB, incluindo o principal lider (e, na ver- dade, quase dono) do partido, o sena- dor Jader Barbalho. Em abril, Luiz OtAvio provocou o primeiro encontro do governador corn o lider do PMDB, Bira Barbosa. Nessa conversa, no final de um simp6sio de Direito, Almir disse a Bira que jA contava corn o apoio de H6lio Gueiros. Em maio, as duas bancadas a da alianga de oito partidos liderada pelo PSDB, mas tendo no PFL o maior con- tingente de deputados, e a do PMDB, detentor da maior representagio jA trabalhavam afinadas na Assembl6ia, mas esperavam por um encontro entire Jader e Almir para formalizar o acerto. Em duas ocasi6es os dois politicos estiveram por reunir-se em Brasilia, mas houve desencontros. Pressionado por dificuldades administrativas e jul- gando contar com a retaguarda dos aliados eleitorais, Almir decidiu nao esperar pelo encontro com Jader (permanentemente informado por Bira Barboisa e Aloisio Chaves) e formali- zou o acordo cor o PMDB no dia 1 de setembro, posando para os fot6grafos em um abraco amistoso corn Bira Bar- bosa, que, logo depois, conseguiria a nomeaIao do irmAo para fiscal de tri- butos em Tucurui. Lapso Mas se jA havia conversado suficientemenmte corn Gueiros e os principals politicos do partido do pre- feito, o PFL, o governador se esqueceu de notificar seu vice, a quem, alias, sempre preferiu ignorar, forcado pelas conveniencias eleitorais a escolhe-lo numa lista triplice preparada pelo al- caide da capital com a 6bvia mensa- gem de preferEncia pelo pr6prio filho (as outras opq6es que deu a Almir fo- ram Luiz Otivio Campos e Henry Kayath). A seu favor, Almir podia alegar que se o JOnior ignorava os entendimentos era tanto pela falta de comunicacao do governador quanto do prefeito-pai- guru. A omissao do governador foi involuntAria; a do prefeito, foi tAcita. Assim, quando o Junior responded A comunicaago corn o seu protest e antecipou que aproveitaria a interini- dade para "marcar posigAo", o gover- nador deveria ter pensado duas vezes na confiabilidade do esquema de trian- gulaqAo implicita por trAs do entendi- mento direto com o prefeito, que exclu- ia o pelo menos at6 entao simb6lico vice. Simb6lico at6 entao (se 6 que ha al- gum valor simb6lico em H6lio Gueiros Jr.), mas crescente no vAcuo que, de mao beijada, o governador criou. Di- zem fontes palacianas que Almir Ga- briel ainda pensou em suspender ou encurtar a durag~o da viagem A MalA- sia, iniciada no dia 8. Mas o arquiteto da expedi9go, Fernando Flexa Ribeiro, nao deixou. Candidate derrotado ao Senado na filtima eleigao, president da Federagao das Industrias do Para e superintenden- te quase-nomeado da Sudam, Flexa pretendia, com a inexplicavelmente longa viagem A MalAsia, dar uma de- monstragao de forga, capaz de sensibi- lizar'Brasilia e outras pracas de poder (& algo mais). Al6m do recado a quem interessar pudesse, Flexa teria interes- ses mais terrenos na aproximaio com a MalAsia, sobretudo em fungio de compras ampliadas de madeira no Es- tado. O governador interino, ao assumir o cargo que lealmente Ihe foi transmitido como rotina administrative, para "marcar posigao" nao se contentou em anunciar sua repulsa ao acordo politico feito, As claras, ao long de meses, pelo titular da func9o. Al6m de fazer decla- raq6es no tom ranheta que constitui uma das marcas da familiar (por sinal, a mais estridente delas), achou de demi- tir o chefe da Casa Militar, alegando ser ele "a parte administrative da Go- vernadoria". O sentido mais conse- quente desse ato (o finico que ainda subsiste) foi um reforgo razoAvel A aposentadoria do substitute, coronel Heitor Watrin Junior, um dos represen- tantes do grupo Gueiros na Policia Military. Ao pedir a reform, logo de- pois, Watrin poderia requerer os ven- cimentos de secretArio de Estado, que 6 o nivel funcional do chefe da Casa Military, uma liberalidade que a admi- nistragao Almir Gabriel jA havia cance- lado. Molecagem J6nior tamb6m pro- meteu que nao faria "nenhuma mole- cagem, tirando as pessoas dos seus cargos administrativos", jA tentando responder ao inconciente coletivo ou, quem sabe, ao consciente individual, se existente. Mas fez muita molecagem. A parte o tatibitati das entrevistas, de um nivel mental assombroso, dei- xou um rastro de inconsequencias pra- ticadas no curso dos longuissimos 19 dias em que foi governador dos para- enses. Aumentou em mais cinco os cargos na vice-governadoria, para onde retor- naria. Mandou sua secretiria bi6nica, Madel Gongalves Moraes, assessora especial I da vice-governadoria, colo- car A disposig o da prefeitura do pai seis funcionArios estaduais, com 6nus para o 6rgao de origem. Na edicAo do dia 22 do DiArio Ofi- cial exonerou Madel "do cargo em comissao de SecretAria de Estado da Administrag9o", mas, ao ser lembrado que, 10 dias antes, nomeara Madel "para responder pelo expediente da Secretaria de Estado da Administrag~o, durante o impedimento occasional do seu titular", teve que, no dia 26 (quatro dias, portanto, ap6s a exoneragao), nomear a mesma Madel "para exercer o cargo em comissAo de SecretArio de Estado de Administragao, ate ulterior deliberagao". Ou seja: Gueirinhos exonerou quem para o cargo nao estava nomeada e nomeou quem jA deveria estar exone- rada, fazendo uma supina embrulhada, s6 possivel de entender, tratando-se de atos tao simples, por se saber quem 6 o autor. Finalmente, no dia 28, quando o governador ja estava no cargo, o DiArio Official publicou a iltima exoneragao de Madel, assinada pelo vice confuso. Atrabiliario Incapaz de entender o que seja ordenamento juridico- administrativo, H61io Gueiros Jr. resta- beleceu os tempos de chefes pesporren- tos e beleguins atrabiliArios, que o pai tao bem conhece e maneja. No dia em que assumiu o governor e nao encon- trou no posto o secretArio de Adminis- trag9o, naquele moment gozando f6rias no Caribe, com a ausencia justi- ficvada ao chefe efetivo, nomeou a sempre present e prestativa Madel 'para responder pela secretaria atW o retorno do titular. Carlos Kayath voltou numa segun- da-feira A noite e no dia imediato pas- sou 15 minutes com o novo chefe. Nao reassumiu. Madel continuou "respondendo pelo expediente", en- quanto o secretArio ficava ao largo. Uma semana e meia depois o secretArio se reapresenta e recebe o recado de que pode ,reassumir no dia seguinte, 22, uma sexta-feira. O primeiro ato do secrtario 6 des- credenciar uma firma de agiotagem que havia sido eliminada da folha de pessoal e nela fora reintroduzida pelo vice. Este volta de uma viagem ao in- terior e, notificado da exclusio, pega policiais armados (que deveriam pren- der o secretArio, caso ele fosse encon- trado) e vai ao Prodepa (a empresa de processamento de dados do Estado) mandar processar a fita magn6tica cor a relagdo de descontos dos servidores em d6bito cor os agiotas, mesmo sem > a autorizag~o individual dos devedores. Na volta, demite o secretArio, filho do maior amigo do pai, de quem 6 asses- sor especial na prefeitura e a quem inspirou tantos atos em epocas pret6ri-. tas ou recentes (futuras, talvez?). Bom, quem falou que uma Sicilia ao tucupi 6 coisa do passado? Hl6io Gueiros Jr. esti ai mesmo, por enquan- to na vice, pronto a nos trazer p6ssimas lembrangas e sobressaltos. Ao assumir, alias, fez logo uma ameaga, racioci- nando sobre maus augirios para o titu- lar do cargo: "Se vier a ocorrer alguma coisa, se ele se desinompatibilizar...", especulou o Jinior, para nosso terror. (Dr. Almir: ao menos pare de fu- mar tanto, por favor!) Ja o pai e mestre, provocado sobre sua posigao diante do acordo com o PMDB, disse como de praxe nao raciocinar sobre hip6teses, esperando os fatos para decidir: "At6 porque eu nao gosto de dizer essas coisas, porque elas podem parecer at6 ameaca, e nao tem por que ningu6m ameagar nin- gu6m. Entdo, as coisas acontecendo, cada um toma a attitude que deve to- mar". JA 6 o suficiente, ou ainda querem mais? "O papai e genio" O prefeito Helio Gueiros, chefe da mais recent oligarquia do Pard, que ele comecou a former em 1987, quando assumiu o governor do 'Estado, orienta sua estratigia political a partir de alguns principios. 0 pri- meiro, de que o exercicio do poder se sobrepoe is normas da lei, foi inspira- do pela tristementefamosafrase de seu guru, Magalhdes Barata, segundo a qual "lei e potoca". Gueiros nao chega a repetir a ex- pressdo, cuja crueza o passar dos anos ressaltou ainda mais, ao tirar o Parc do isolamento que lhe dava os nitidos contornos de uma Sicilia propicia 6 forma~io de mafias ao tucupi (quando nao, ao scotch mesmo). Mas adota a mdxima de que, aos amigos, osfavores da lei; aos inimigos, os rigores. 0 alcaide tambem parte do princi- pio de que o povo ndo tem mem6ria. 0 que importa e o iltimo fato, a mais recent iniciativa. Ndo interessa que a trajet6ria do home putblico seja sinu- osa, em ziguezague, como costuma ser a do bUbado de piada (e o da realida- de, tambem). 0 que o politico deve buscar todos os dias sio os atos afir- mativos, bomb6stios, de repercussdo. Se num primeiro moment o entdo governador Helio Gueiros ameaqava "escarrar "nos tecnicos do Banco Central que intervieram no Banco do Estado do Pard, nada o impediu de, num segundo moment, aplaudir o interventor que o BC mandou, j6 que ele ndo bloqueou as movimentaqoes do governador. Tambdm nao se vexou em forcar comparaqoes bajulat6rias entire o nome do entdo president da CNEN (Comissdo Nacional de Energia Nu- clear), Rex Nazareth, e a santa padro- eira dos paraenses, mesmo que um pouco antes tivesse dito, no seu capito- so tom de pilheria, que Rex e nome de cao. Vale-tudo Helio Mota Gueiros, filho de pastor protestante que marcou sua passage pela vida puzblica com o dificil sinete da correcbo, ndo tern apreco ias leis, desconsidera inteira- mente a moral, despreza a coerencia, nada sabe sobre palavra de honra e estd se lixando, como diria, para a mem6ria coletiva. 0 que ele quer e criar e manter poder para si e para sua talentosa e expansionista familiar, praticamente an6nima ate 1987, hoje pr6spera e desenvolta. Com tais principios, montou a ar- madilha para pegar o seu aliado da vispera, o governador Almir Gabriel, mais uma vez field d obsessdo de trair, trair & trair quando essa e a maneira de acumular poder. Aos incautos, tentou convencer so- bre sua isen0do nas molecagens perpe- tradas pela cria, que traem a fonte de origem pelos pr6prios contornos dos atos, pensados cor a malicia e o vene- no que aindafaltam ao Junior. Depois, como se partilhasse a surpresa (mas ndo o estupor) da opinido puiblica, foi visitar o vice-filho aboletado na titu- lariedade do cargo. E, de dentro do paldcio que tanto cobica, deu uma entrevista que revela a tortuosidade do seu raciocinio, maquavelismo tosco que se dd bem pelo nivel de atraso da horta mental na qual plant suas hi- bridas sementes e pela tolerdncia dos aliados. Disse o alcaide na entrevista, feliz- mente gravada por "0 Liberal", que "o negdcio do acordo"entre Almir Gabriel e o PMDB "j' azedou". Sim, mas imediatamente ap6s a provocaclo seguinte do entrevistador, tentando fazer aquela graca que tanto cativa os dulicos papagaios-de-pirata, pergunta: "Qual foi a alianca que o governador Almir fez atd agora? Eu desconhego. 0 que existe e a alianca feita na campa- nha, e essa continue prevalecendo ". Num primeiro moment a alianqa existe e jd azedou. Num segundo mo- mento, inexiste e o que existe e a uni- do eleitoral do ano anterior, que conti- nuaria integra. Mas em seguida Guei- ros diz ndo ser contra nem a favor do novo acordo do governador, ressaltan- do que os assuntos de sua competencia sao os do PFL, partido ao qual est6 filiado, e nio os do PSDB. Assim, embora profetize o jim de um acordo que diz inexistir e sobre o qual ndo teria o que fazer, vai ao pa- ldcio dar apoio ptblico ao filho, tam- bdm do PFL, contra um acordo fan- tasma que ndo Ihe diz respeito. Teatro de pissima qualidade para os aplausos de quem ndo sabe distinguir palco cenico de centro de picadeiro. Mas como dojoelho para cima tudo e canela, em pelada de futebol e jogo politico de igual qualidade, o alcaide ndo se vexou em desdizer que apoiava o acordo, naturalmente coincidindo a nova posidao com a volta do governa- dor ao cargo, como se desse dia em diante recomecasse tudo de novo. Os psiquiatras ddo a essefendmeno a qualificaQio ticnica de esquizofre- nia. Os antigos, menos tkcnicos, dizem que e mesmo falta de vergonha na cara. Voxpopuli. Vice: Go Home H 6lio Gueiros Jr. nao apenas "marcou posig~o". Na interinida- de, mexeu alguns cord6es do poder, adotou decis6es administrativas (como a retengdo do ICMS da energia feito pela Celpa), simulou posi9Oes political (como a abertura de negociag9o com os representantes dos servidores p6blicos, que fechou quatro dias depois), fez visiveis provocagoes aos secretarios de Educagdo (Jodo de Jesus Paes Lourei- ro), com a suspensdo da contratagco de tempordrios para a Seduc, e da Cultura (Paulo Chaves Femandes), cor a volta ao palAcio Lauro Sodr6, transformado em Museu do Estado, talvez querendo criar pretextos para demniti-los, e dei- xou a ameaga de transformar tudo no- vamente em pandega e circo se voltar a ocupar o cargo. O apaziguamento do governador Almir Gabriel no retorno apenas man- teve as aparencias. No dia-a-dia vaj ser muito dificil a conmviv6ncia dos dois, a nao ser que o governador de aos Gueiros o que eles pretenderam cor a encenagao: o control dos acertos para a tal da pacificag5o, naquilo que mais ) interessa, a partilha dos cargos (os dots mil de que fala imprensa, subestiman- do o universe). Neste caso, ao menos de modo simb6lico, Almir terA renun- ciado a chefia do governor, passando a ser fantoche. Retomando plenamente a fung o, omo sugeriu ao lembrar que apenas ele fora eleito (o vice vem a reboque, sem integrar a c6dula de votag~o usada pelo eleitor), o governador vai ter que pro- videnciar uma salvaguarda, semelhante A do ex-govemador Flaviano Melo, do Acre, envolvido com um vice do mes- mo naipe. Almir poderi retomar um projeto de emenda constitutional apresentado em 1979 pelo deputado Ronaldo Passari- nho, do PPR. Ele queria poupar o go- vernador da obrigagao de transferir o cargo nos casos em que sua viagem para fora do Estado (mas dentro do pais) fosse inferior a 15 dias. A inicjativa 6 16gica e de bom sen- so. Quando um govemador vai a Bra- silia tratar de quest6es do Estado e transmite o cargo ao vice, com que autoridade e legitimidade ele assina eventuais contratos, convenios ou quaisquer outros documents fora do tirrit6rio paraense, se o governador substitute ficou em Bel6m no exercicio do cargo? Evidentemente, o Estado passa a ter dois governadores, embora um tenha transferido o poder ao outro, seu substitute eventual. Nesse caso, corn uma emenda constitutional que certamente a maio- ria dos deputados aprovaria, o gover- nador se poupara dos dissabores do vice. E poupara a n6s todos novos es- petaculos de incivilidade e primitivis- mo. Q ual o pr6ximo lance dos Gueiros? Para alguns observadores politi- cos, seria o lancamento do Junior como candidate A sucessdo do pai na prefei- tura de Bel6m. Aponta-se como sinto- ma o empenho do prefeito, colocando sua assessoria de comunicq.o e alguns auxiliares (o mais constant foi o secre- tirio de Administragao, SAbato Ros- setti) ao lado do filho para orienti-lo e projetA-lo pela imprensa para o publi- co, escorando uma image dificil de trabalhar. Mas a candidatura de H61io Jr. nao 6 facil. O pai teria que renunciar seis meses antes da eleig o, sujeitando-se a um vice, Aldebaro Klautau, que s6 paossou a tratar melhor depois de muito tentar humilhar. O vice-prefeito de H61io, do PDT, 6'irmdo do secreti- rio dos Transportes de Almir, que, antes da vida p6blica, trabalhava na empresa de engenharia de Fernando Flexa Ribeiro. Mesmo o pai desincompatibilizado, o Junior ainda teria um problema pela frente: o Tribunal Superior Eleitoral, atendendo a uma consult em tese feita da Paraiba, firmou o entendimento de que parent nIo pode disputar cargo executive na jurisdi9go em que outro parent foi titular. desse cargo, nao valendo, nesse caso, a desincompatibi- lizagdo. Assim, Helinho seria inelegi- vel para a prefeitura. Como o TSE deu o parecer em tese, uma definigio para valer depend do surgimento de um caso concrete, sobre o qual a competencia, se provocado atrav6s de recurso, 6 do Supremo Tri- bunal Federal. Os Gueiros, entao, de- veriam arriscar-se a oferecer esse caso concrete e esperar que o STF estabele- 9a um entendimento favorivel, diferen- te do que o TSE manifestou. Se o objetivo 6 fazer de Helinho o successor do pai, o jogo 6 por demais arriscado. Mas se a intengAo 6 projetar o Junior para o govemo, em 1998, a impugnag o Ihe daria a aura de vitima, ainda que A custa do afastamento ante- cipado do pai da PMB, sem outro pre- juizo, entretanto, jA que Helinho nao precisaria renunciar ao cargo de vice- governador. Qualquer que seja a alternative adotada, nao hA d6vida: tem coelho nessa toca. Abutres a vista Pouco depois de se estabelecer, o novo governor do Estado mandou cancelar as deduq6es na folha de pa- gamento dos funcionArios publicos de empr6stimos a firmas particulares. Essa rotina consagrara, no servigo p6blico, a odiosa pratica da agiotagem, onerando o rendimento do trabalho de pais de familiar com os juros extorsivos de firmas de papel, abutres aproveitan- do-se das dificuldades alheias. Segundo uma fonte da Secretaria de AdministragIo, havia dezenas de agio- tas pendurados em autorizag6es para desconto em folha, de onde foram der- rubados pela primeira vez atrav6s de ato do entao secretArio Gileno Chaves. Feito o expurgo, algumas dessas firmas fantasmas voltaram a fazer parte da folha e diz-se que ha um funcionario federal graduado controlando part delas. A Upasp, que maliciosamente se institula Unido Paraense dos Servido- res Pliblicos, cor requintes de humor negrissimo, nao faz parte desse grupo mas parece ter muito acesso ao vice- governador Hl6io Gueiros Jr. Um de seus atos foi determinar a volta da Upasp A folha, provid6ncia que seria arrematada com o reconhe- cimento da utilidade p6blica da empre- sa pela Assembl6ia Legislativa, gragas a um projeto do president da casa, deputado Zenaldo Coutinho, que com- prou gato por lebre e, na und6cima hora, mudou de posigio e apoiou o veto do governador Almir Gabriel ao projeto de lei que apresentara. A Upasp acabou levando o vice a assinar o ato de exonerag~o de Carlos Kayath, que tinha sido preparado 10 dias antes e permaneceu na mesa de despachos do J6nior, entire os pap6is que la se acumulavam. Mas, ao inv6s de simplesmente fa- zer outra vez o expurgo da Upasp, o governador Almir Gabriel bem que poderia tirar de vez da folha de pessoal a n6doa nela langada por esses agiotas mal disfargados, mandando logo ins- taurar inqu6rito para apurar os fatos, que constituem crime, responsabilizan- do os envolvidos. Se o Executivo no fizer isso, que tal o Legislativo tomar a iniciativa atrav6s de CPI? Ao menos a opiniio pfiblica ficaria sabendo por que o vice fcou tA furioso e as razoes queestAo por tras dos desentendimentos na SEAD. 0 N o 6 verdade que a primeira dama do Estado, Socorro Gabriel, tenha tentado falar com o marido, que estava na Malasia, sem conseguir porque o ajudante de ordens nao passou a liga- 9 o, alegando que Almir Gabriel estava dormindo e nio poderia ser incomoda- do. "O Liberal" publicou a informag~o, como sendo verdadeira. Mas recusou- se a retifici-la ao saber que era falsa. Ah, ojornalismo. stranho: nunca a diretoria do Cirio de Nazar6 disp6s de tantas fontes de recursos e nunca houve tantas quei- xas sobre o custo da festividade. Al6m da venda de cartelas a cinco reais a unidade e de b6nus a um real, ha outras promoo9es, mas o que a imprensa tem destacado (ou sobre o que s6 tem fala- do) 6 a avolumacao das despesas. Nao caberia investigar sobre a par- ti9Fo das riquezas que v6m sendo cria- das corn a image de Nossa Senhora de Nazar6? Macrodrenagem: na marca fatal O maior projeto de Bel6m neste s6culo estA ameagado: agora em outubro o Banco Interamericano de Desenvolvimento se reunira, em Washington, para decidir se continuard a apoiar ou se suspenders a liberagao de recursos para o Programa de Ma- crodrenagem de Bel6m. O atraso no cronograma fisico ja 6 superior a seis meses e apenas 10% dos recursos pre- vistos, de 225 milh6es de d6lares, fo- ram aplicados at6 agora. O BID tem dinheiro pronto para re- passar. O problema 6 a contrapartida do governor do Estado, que esti atrasa- da. O representante do BID se cansou de ver renovada a promessa da Secre- taria de Planejamento de aplicar di- nheiro do Estado. Na iltima visit, na semana passada, o secretirio SimIo Jatene, chamado para assessorar o go- vernador Almir Gabriel em Brasilia, nao estava em Bel6m. Em marco o BID negou nova libe- rag o de dinheiro porque ainda nio havia recebido a prestalgo de contas do terceiro desembolso. 0 program de- veria ser concluido em janeiro de 1987, mas todos ja sabem que o prazo tera que ser dilatado por causa do atraso na obra em fungo da falta de recursos do Estado. O BID, entretanto, podera ir al6m da simples revisAo do projeto, cancelando-o se o governor nao de- monstrar empenho na execugao. Identidades falseadas A s agencies bancArias ji foram alertadas reservadamente: nio ha confiabilidade nas carteiras de identifi- cago civil expedidas pela Secretaria de Seguranga Piblica do Para at6 mais ou menos dois anos atris (cor n6mero ao redor de 1.200.000). A razio 6 tio simples quanto espantosa: os prontua- rios, que ficavam jogados num porio da antiga Central de Policia, no centro de Bel6m, foram destruidos por uma chuvarada. Toda a documentag~o ficou destruida porque nao havia c6pias e nada havia sido microfilmado. Como, at6 ha pouco tempo, as pape- larias vendiam livremente certidoes de nascimento, sem qualquer control, ficava ffcil para os que estavam in- formados do epis6dio criar identida- des falsas. Em sentido inverso, tornou- se impossivel checar a veracidade de informa96es contidas em antigas car- teiras de identidade, simplesmente pela impossibilidade de confrontA-las com as fichas originals dos prontuArios. Ningu6m esta em condi96es de es- timar a quantidade de carteiras de identidade falsas em circulagao, e se o desapaecimento do arquivo foi circuns- tancial ou premeditado e se algu6m aproveitou-se dessa incrivel deficiencia para criar fantasmas. O mais famoso atualmente 6 Carlos Medeiros, criado pelos integrantes de uma quadrilha de grileiros e especuladores para se apos- sar de 8% de todas as terras do Estado do Pari. A confiabilidade s6 podera ser res- tabelecida atrav6s de um recadastra- mento dos que receberam documents de identificagio civil at6 dois anos atras. Mas essa tarefa, al6m de demo- rada e inc6moda, suscita uma questao: quem a financial? O cidadio, que, pela Constituigao, tem direito A gratui- dade na primeira identificagao, e, de qualquer maneira, em nada contribuiu para o surgimento do problema, ou o Estado, que criou a situa~io com seu desleixo e desidia, mas diz nio ter dinheiro? Depois do espanto que a revelagAo certamente causara ao pfiblico, 6 preci- so comegar a enfrentar o problema. E, se possivel, resolve-lo. Um gigante ca dentro A Companhia Vale do Rio Doce ira virar, em 1997, uma pagina de sua hist6ria e da pr6pria hist6ria da mine- ragco no Brasil. Nesse ano, pela pri- meira vez, o Sistema Norte, baseado em CarajAs, no Para, produzira mais min6rio de ferro do que o Sistema Sul, que tem sua base em Minas Gerais, pondo fim a uma hegemonia de mais de meio s6culo. Segundo previsao da CVRD, dentro de dois anos Carajas pulari dos 43 milhaes de toneladas produzidos em 1994 (que jA representavam oito mihoes de toneladas alem da capacida- de nominal de -producgo de projeto) para 54 milhoes de toneladas/ano do min6rio de ferro de melhor teor no mercado international. Nesse mesmo ano a produgco de manganes ira para quase 1,8 milhAo de toneladas em CarajAs, niimero que ultrapassa o pique alcangado pela pro- dugco em Serra do Navio, no Amapa, a maior mina de manganes que ja houve no pais. Atualmente a produgco em Carajis 6 de 700 mil toneladas. Com essas amplia49es e o inicio das opera9oes, em 1998, da metalurgia de cobre da Salobo Metais, Carajis chega- ra ao final da ddcada faturando, sozi- nha, quase tanto quanto a CVRD ven- deu de produtos extraidos do Para no ano passado. Mas se incluir a Albris, a Mineragio Rio do Norte e a Para Pig- mentos, o grupo CVRD ultrapassari, entAo, a marca de US$ 2 bilhSes de faturamento no Estado, mais do que todo o atual com6rcio exterior paraen- se. Sdo nfimeros impressionantes, mas podem nio corresponder a uma gera- 9Ao de renda corresopondente A magni- tude dos neg6cios se todos esses em- preendimentos continuarem funcio- nando, de forma mais clissica ou mais difusa, como enclaves. O Sistema Norte ultrapassando o Sistema Sul, de onde a CVRD se originou, sera precise, agora, torni-lo paraense de fato e nao apenas no discurso. Os olhos fechados A cantilena usual do governor sobre sonegagao e fraudes fiscais nio parece ser suficiente para motivar a receita estadual a investor sobre co- nhecidos grupos organizados. Alem da quadrilha da cerveja, denunciada no nimero anterior deste journal (quadrilha que nao poderia prosperar sem a coni- vEncia do fabricante), ha o grupo do combustivel atuando de maneira ani- loga: declara a venda de combustivel para Macapa, por exemplo, e o vende aqui mesmo, principalmente para do- nos de onibus e de empresas de pesca, com aliquota zero de ICMS. A quadri- lha ji foi flagrada, mas o process tramita a pass de cagado na justi9a, se 6 que, a rigor, tramita. A impunidade, como sempre, estimula a continuagdo da ilicitude. Mas fala-se tamb6m no golpe dos supermercados e lojas de departamen- to.Nos finals de semana e feriados com movimento commercial, algumas estari- am substituindo as maquinas registra- doras que a Secretaria da Fazenda lacra por outras maquinas, estas sem o lacre, que 6 colocado para permitir ao fiscal levantar o faturamento e, assim, apurar o imposto devido. Algum tempo atras uma delegada flagrou a pritica da fraude num dos grandes supermercados de BelBm, mas tamb6m a puni9do acabou nao oorren- do. A pratica pode ter voltado, confor- me denincas feitas A pr6pria Sefa. E renda liquid e certa que se esvai aos olhos da fiscalizag9o. Carta A inda cono Procuradora-Geral de Justiva, Edith Marilia Maia Crespo enviou a este journal a seguinte carta: "Mandam-me, tanto que s6 hoje tomei conhecimento, o seu artigo inti- tulado "Mudou o MP?". Talvez porque sempre nutri uma admiraq.o muito grande pelos que fazem um jornalismo bem informado 6 que nao entendi o seu objetivo, que me coloca sob um enfoque que o mais Acido critic n~o faria. Desejo dar conhecimento a V. Sa. que, ao contrario do que Ihe foi repas- sado, ingressei no Ministerio Piblico como Promotora de Justiga dlo Interior em 24.05.61. Naquela dpoca, os Pro- motores de Justiga, como os juizes e demais funcionarios, eram nomeados independentemente de concurso. Nio tenho culpa disso. Fui promovida para a Capital no cargo de Assistente Juidiciirio Auxili- ar, em 09.12.64; depois, fui nomeada para o cargo de Secretaria Geral do Minist6rio Pfblico (privativo de mem- bro da Instituigio), em 14.02.66, na vaga aberta pela nomeagao do seu en- tio titular ao cargo de Desembargador, pelo quinto constitutional, Dr. Osvaldo Freire de Souza. Por forga da Lei Complementar 01/82 e nao por um "decreto casuistico"- foi esse cargo transformado em Procurador de Justi- 9a, resguardado meu direito adquirido, 6bvio. Dos dezessete membros do Minis- terio Piblico que passaram a constituir o primeiro Colegio de Procuradores de Justiga ocupava o oitavo lugar na lista- de antiguidade. Hoje sou, com muito orgulho e ap6s 34 anos de servigos, dos quais seis como Procuradora Geral, em dois periods alternados, e sempre por eleiqdo e mandate, a decana do Colegio de Procuradores. Nao me sinto derro- tada. Ao contrario, sou uma vitoriosa, ja que nao fui candidate no 6ltimo pleito, por vontade pr6pria, pois por muitos a isso fui instada, com grande temor de meus adversirios, que nunca estiveram ocultos, ja que nada os re- primia. Desejo que a era inaugurada de um Ministerio Publico aparelhado e com instala9oes adequadas, fruto de um gerenciamento correto e honest dos recursos piiblicos, voltado para os inte- resses maiores da Sociedade, possa ser consolidada, em beneficio de todos os que creem no fortalecimento do regime democritico neste Pais, em que os cidad~os t6m direito A protegao consti- tucional de sua honra e imagem (art. 5, X, CF). O direito e, mais que isso, o dever da imprensa de zelar pela moralidade p6blica nao pdem ser exercitados sem observincia dos limits impostos ao ordenamento juridico. Afinal, como ensina Kant, o direito 6 uma just restric o i liberdade de cada um para que todas as liberdades coexis- tam. E a honra e a imagem sio os bens juridicos mais preciosos do cidadio. Espero que V. Sa., nos seus escri- tos, quando baseados em informaq~es destituidas de seriedade e at6 indignas da audiencia de um jornalista do seu porte, leve em conta aqueles bens, que sao inalieniveis". N. da R. Por uma questio de es- pago, nao me alongarei, por enquanto, na resposta i carta da dra. Marilia Crespo. Por principio professional, abrigo integralmente seus esclareci- mentos e reparos, sublinhando, por6m, que em em nada modificam a essencia do que escrevi, antes atraindo o inte- resse para sua tAo rapida promoygo i capital triess anos apenas no interior, e onde, a dra. Marilia nao informa, infe- lizmente) e ascenslo na carreira. O meu objetivo foi apenas o de re- gistrar um moment important na hist6ria do Minist6rio Phblico. Nio sou amigo, nem inimigo da Procuradora Geral que chega ao fim de seu manda- to. Nas muitas vezes que fui a MP, ela distinguiu-me cor bom tratamento. Mas vi e sofri na came o que talvez seja a visio por ela fixada nos seus anos de gestao na instituigio. 'Presumo que a admiraio da dra. Marilia por meu jornalismo se deva i seriedade e competencia com que o pratico. Os longos anos de profissAo dispensam a renovagio de lies sobre o valor da honra e da image, que sempre respeitei, mesmo quando con- denado por mero capricho de quem possui, sobre esses bens, uma avalia9ao pessoal superdimensionada, ignorando que, acima de tudo, esti o interesse da sociedade, A qual todos devemos pres- tar contas e 6 quem, no final, nos legi- tima e avaliza, pesar de algumas men- tes autoritarias pensarem o contrArio. Nao hi o que mudar na opinion manifestada sobre a gestao da Procura- dora Geral Marilia Crespo, reconhe- cendo seus indiscutiveis m6ritos na construgao desse MinistBrio Pfblico que ai se encontra, A sua image e semelhanca, extensive mesmo a muitos dos que ela identifica como inimigos corporativos, entire os quais, evidente- mente, nao me incluo. Do MP tenho sido analista e, as vezes, vitima invo- luntaria e imerecida, acho. Maiores respostas, por6m, constituem matdria para outra oportunidade, que, certa- mente, nao faltari. Lavanderia? E ntre novembro de 1990 e janeiro de 1992 a Sudam liberou o equiva- lente a tres milh6es de d6lares para a Cartonbris, um projeto de US$ 20 milh6es para a produg~o de papel e embalagens. O ent~o proprietirio da empresa, o paraense Paulo Torres, encontra-se atualmente preso na peni- tenciiria de Manaus. E acusado de ser o c6rebro e o esteio de uma rede de narcotrifico, envolvida numa operaglo de 200 quilos de cocaine, estourada pela Policia Federal em Mau6s, no Amazonas, no ano passado. JA a Cartonbris nio passa de um galpao na rodovia Arthur Bernardes, em Icoaraci, que, provav8elmente, segundo suspeitam os 6rgios policiais, funcionva mesmo como biombo, des- viando dinheiro para o trifico de dro- gas. A atengdo sobre a Cartonbris foi reavivada pela publicaqao de atos da empresa no Diirio Oficial, atualizando os balangos e anunciando a constitui- qio de uma nova diretoria, que reto- maria o projeto, paralisado com a sus- pensdo das libera9ges pela Sudam hi tries anos, ao ficar constatada a defasa- gem do projeto e o desvio dos incenti- vos fiscais. Teria a Cartonbras passado por uma lavagem empresarial? Sem vermelho A Jari, depois de sofrer no verme- lho durante 15 anos e a Albris, por nove anos, finalmente coseguiram seu primeiro resultado positive em 1994. A Albris, que em 1993 teve um prejuizo de US$ 350 milh6es, no ano passado obteve lucro de US$ 88,5 mi- lhoes, gragas ao seguro contra o endi- vidamento em moeda japonesa que fez. O lucro da Jari foi bem menor, de apenas US$ 8 milh6es, mas interrom- peu uma longa serie de 15 anos de deficits seguidos desde que comegou a operar, em 1979. No seu setor, conse- guiu pular do 19lpara o 15lugar entire 1993 e 1994, mas seus indicadores - principalmente o do endividamento - ainda nao sdo bons. Uma ficqao eldtrica A Eletronorte 6 a terceira maior dentre todas as empresas brasilei- ras e a maior do setor el6trico pelo criterio do patrim6nio liquid, o prin- cipa medidor da riqueza de uma em- presa, segundo os dados da 61tima edi- 9ao annual da revista "Exame"sobre os maiores e melhores da economic brasi- leira. O patrim6nio liquid da Eletronorte 6 de praticamente 17 bilh6es de d61a- res, abaixo apenas da Petrobras (US$ 18,8 bilhoes) e da Rede Ferroviaria Federal (US$ 17,4 bilh6es). Ficou bern acima das demais empresas de energia eletrica, que ocupam do 40 ao 60 luga- res no ranking de "Exame": Chesf (US$ 14,1 bilhoes), Furnas (US$ 13,4 bilh6es) e Cesp (US$ 11,7 bilh6es). A Eletronorte ocupa tamb6m o ter- ceiro lugar em outra tabela, esta nada edificante, a das empresas com maiores prejuizos. O prejuizo liquid da Ele- tronorte em 1994 foi de US$ 513 mi- lh8es, inferior somente aos da Rede Ferroviaria Federal (US$ 1,4 bilhAo) e da Fepasa (US$ 695 milh6es). O preju- izo da Chesf, a empresa de energia mais pr6xima (em 70 lugar), foi de US$ 196 milhoes, tres vezes menor. Apenas consideradas as empresas estatais, agora pelo crit6rio de vendas, a Eletronorte baixa para 240 lugar no quadro national, com US$ 682 milh6es de faturamento, uma posi9go mais expressive ainda em terms regionais: no conjunto de empresas privadas e estatais da region, 6 a terceira em ven- das, atrAs da CCE da Amaz6nia (faturamento de US$ 878 milh6es) e da Phillips da Amaz6nia (US$ 706 mi- lhWes), ambas instaladas na Zona Fran- ca de Manaus, que domina amplamente a concorrencia com as empresas para- enses pela hegemonia econ8mica. Mas enquanto a Eletronorte, com um PL de US$ 17 bilhoes, contra US$ 14,1 bilh6es da Chesf (a empresa de energia el6trica do Nordeste), tem fatu- ramento de US$ 682 milh6es e um prejuizo de US$ 513 milh6es, a similar nordestina faturou bem mais (US$ 831 milhoes) e teve prejuizo muito menor (US$ 196 milh6es). Como todas as estatais do setor el6- trico,a Eletronorte enfrenta graves problems operacionais, incapaz de gerar receita suficiente para cobrir suas despesas correntes. Em 1994 ela preci- sou langar mao de quase US$ 3,5 bi- lhies de terceiros para tender suas necessidades de capital de giro. A li- quidez da empresa 6 baixisima: disp6e de apenas 11 centavos para cada d6lar que Ihe 6 exigido. E sua divida global ja ultrapassou US$ 3 bilh6es. Operadora da segunda maior hidre- 16trica do pais, a de Tucurui, a Eletro- norte tornou-se uma gigante empresa- rial cor p6s desproporcionalmente inferiores A pr6pria cabega. Fez o Para ocupar o quinto lugar em consume industrial de energia e o s6timo em demand geral, mas apenas por causa da fibrica de aluminio da Albras, sor- vedouro de 1,5% do consume national de energia contra um deficit insuportA- vel nas contas do fornecedor em fun- 9ao do subsidio tarifArio que recebeu, vilido atW o ano 2004. Os n6meros, dessa maneira, criam a fic9do de consume industrial em um Estado de uma s6 ind6stria eletroin- tensiva. Quase tio ficcional tora-se, em consequencia, a Eletronorte, cor o agravante de ser a 6nica das empresas el6tricas regionais a nao ter sua sede na regiAo onde atua. Baseada em Brasilia, a empresa continue a ser um tipico produto da tecnoburocracia federal, refratiria a uma reconcilliacao cor a geografia ainda hoje, 22 anos depois de ter sido criada. Maos a obra A t mesmo os assessores ji esta- vam cansados de ouvir o govema- dor Almir Gabriel repetir, como ladai- nha, que encontrou o Estado arrasado, cor divida de 2,4 bilh6es de d6lares, deixada pelos antecessores, que o im- pedia de trabalhar. Pois esse discurso foi abolido na reuniao do governador cor a bancada federal, no dia 26. Diante de Almir, o secretirio da Fazenda, Frederico Mon- teiro, elogiiou o perfil da divida, alon- gado atW o ano 2035, nao mais do que US$ 600 milhoes, com as melhores condig6es de pagamento possiveis de negociar. Dizem participants do encontro, em Brasilia, que o governador assentiu com a cabega, confirmando a declara- g9o. Mas felicissimo mesmo estava o senador Jader Barbalho, responsivel por mais de sete anos anteriores de gestao no Estado. Muitas das farpas desferidas por Almir Gabriel nos oito meses e tantos dias que antecederam a espontanea manifestagao do secretario da Fazenda tinham Jader como destina- tirio, mesmo nao sendo ele o alvo de- clarado explicitamente. Se, portanto, a divida esta bem equacionada no mddio e long prazos, havendo apenas pelo caminho algumas fogueiras vivas do curto prazo, entAo 6 mas do que hora de o governador Al- mir Gabriel arquivar o discurso recor- rente e tratar de executar um program de govero, se possivel com tintas mais nitidas do que o esmaecido matiz tucano. Se 6 que a unissona *nido do dia 26 nao foi coro afinado apenas para efeitos tAticos (estrat6gia 6 algo que ainda esti al6m do f6lego da atual administrao p6blica estadual). Um risco No ano passado o Fundo de Inves- timentos da Amazonia, adminis- trado pela Sudam, liberou 393 milh6es de reais para projetos incentivados na regilo. Neste ano deve ir um pouco alem de R$ 400 milhoes. Mas os t6cni- cos do Minist6rio da Fazenda estio estimando a receita do Finam para 1996 em US$ 630 milh6es, apesar de toda a crise econ8mica sugerir que deveria ocorrer uma queda ou, pelo menos, uma estabilizagdo nas opqies dos aplicadores. Seri que essa previsio otimista tem alguma coisa a ver com o ano eleito- ral? Ao menos parcialmente, a resposta poderA ser dada a partir do moment em que se souber quem estara dirigin- do a Sudam no pr6ximo ano. Concrete burro Simpossivel ir a Manaus e nio admirar o cais flutuante construido ali pelos ingleses no inicio do s6culo. A obra 6 o testemunho de que imperios do passado foram mais sabios do que os atuais. Tamb6m 6 a declaraaio da nossa pr6pria falta de auto- compreensdo e de percepaio do meio em que vivemos. Nossos colonizadores britanicos montaram um extenso cais para funci- onar o ano inteiro, independentemente de estar o rio subindo ou descendo, o que ocorre em intervalos semestrais. Passadas tantas d6cadas, os amaz6ni- das colonizados persisted no erro de construir atracadouros de concrete, fixos, como o de Oriximina, inaugura- do um mds atras. Esses portos s6 sdo plenamente uti- liziveis durante uma parte do ano. Com o tempo, acabam abandonados ou sub-utilizados. Quando nao acontece como em Obidos, onde o porto desa- bou ao receber o primeiro navio. A filtima floor dos pintanos nual a relagao que ha entire as dita- duras e a liberdade de imprensa? Quluer pessoa medianamente infor- mada respondera que hi uma relagao de incompatibilidade. A primeira pro- vid6ncia de um ditador de plantao costuma ser censurar a imprensa. Quer, assim, controlar a transmissao de in- forma9Bes A sociedade, impedindo ou manipulando a formagao da opiniao p6blica. NAo por mero acaso, no Brasil do s6culo 19, a criag9o de uma junta de censura se antecipou ao surgimento da pr6pria imprensa. Ela, aliAs, foi circu- lar primeiro fora do pais (o Correio Braziliense, de Hip61ito da Costa, em Londres) e teve que enfrentar 6rgaos oficiais e oficiosos para se estabelecer. Mas no Brasil o Estado (neste parti- cular, um macaco em loja de lougas) nao apenas combat e reprime a im- prensa critical, como se arvora a regu- lamentar a formalao dos quadros pro- fissionais. Morde no figado e ataca no c6rebro ao mesmo tempo. A primeira disposigao legal sobre a modern imprensa brasileira foi adota- da pelo Estado Novo um ano depois de ter-se estabelecido, em 1938, em plena 6poca de agitagao e radicalismo politi- cos. Foi uma regulamentagao especifi- ca (o decreto-lei 910), a pretexto de que ja havia disposiqges sobre "a mai- oria dos empregados, por meio de le- gisla9go especial". Quem quisesse ser jornalista teria que apresentar ao burocrata do Minis- t6rio do Trabalho uma "folha corrida", obtida na policia, e "prova de que nao responded a process ou nao sofreu condenagao por crime contra a segu- ranqa national". Ja na fase de democracia formal, o Estado nao se desviou muito da mesma inspiragqo ao reorganizar, atrav6s do secret 26.493, de 1949, o curso de jornalismo. Para frequenta-lo, o candi- dato precisaria provar "sanidade" e "idoneidade moral". A originalidade Mas at6 entao o Leviata brasileiro nIo inovara tanto na aplicagio dos principios de control e repressio dos jornalistas: os cursos de formagio ainda funcionavam no Ambi- to das faculdades de filosofia. A junta military demiurga, por6m, iria inovar no exercicio da tirania: inspirada no terri- vel AI-5, o mais 16gubre dos documen- ts da vida public republican, edita- o decreto 972, em 1969, para exigir que todos os jornalistas fossem forma- dos em cursos universitArios de comu- nicagao social. Mantendo a velha exig6ncia policia- lesca aos candidates ao registro pro- fissional, de provarem nao estarem denunciados ou condenados "pela pratica de ilicito penal", antecipando- se a condenar r6us com senten9a ainda pendente de recurso (e, portanto, comr execugao suspense), inovou corn essa exigencia. reinventava-se a roda para colocar o Brasil em posigio (nica no conjunto das nag6es ocidentais: s6 n6s exigiamos o monop6lio academico na formagao de jornalista. Preocupaqao da ditadura corn a boa qualidade da imprensa? Evidentemente que nao. Ao contrArio: a clara intengao de acabar cor a melhor geraaio de jornalistas brasileiros, formada nao por acaso durante o mais long perio- do de democracia e liberdade que teve o pais. Ao mesmo tempo, control sobre as mentes e as expectativas dos futures profissionais, colocando-as na linha de montagem intellectual padroni- zada. Nao causa espanto ou surpresa a de- formagao professional de hoje. Um de seus pontos de alarme principals 6 o acendrado narcisismo de profissionais tao auto-suficientes na pretensao quanto inacabados (ou seria envieza- dos?) na realidade, da qual se distanci- am pelo afastamento das ruas, no apri- sionamento das pautas e laborat6rios. Atrav6s de um livrinho precioso (Jornalistas sem diploma, Editora Cejup, Belem, 141 piginas), o juiz Jos6 Wilson Malheiros da Fonseca supre a falta de iniciativa dos pr6prios profisionais da imprensa e de seus 6rgaos representatives. Arbitro de uma sentenga pioneira na justi9a trabalhista de Bel6m, Jos6 Wilson criou, al6m da base argumentative, o caso concrete capaz de fazer o Supremo Tribunal Federal colocar abaixo toda essa legis- lacao eunuca que at6 agora ter sido imposta como cangalha sobre os om- bros da imprensa brasileira natural- mente, se a corte for provocada. Omissio E espantoso como essa tralha persista, apesar de sua flagrante inconstitucionalidade, demonstrada por Fonseca. O president da Rep6blica nao poderia tratar sobre a regulamenta- 9Ao professional, por faltar-lhe legiti- midade legislative. E, ainda que ela houvesse, o teor dos documents pro- duzidos nos laborat6rios do regime military era contrdrio aos interesses de uma imprensa independent. Combater os atos de arbitrio come- tidos era um dever de todo cidadio capaz de entender o significado, para a vida political do pais, de uma imprensa independent. Mas era dever de oficio dos sindicatos, que se omitiram por terem sido mimoseados pelos podero- sos, interessados em coopti-los. Era um sindicato "amarrado ao Es- tado e, por isso, instrument da polltica autoritiria e da maquina piblica de fiscalizagio intervencionista, retrato de um tempo em que sob a justificativa de colaboragao corn o Poder Piblico o sindicato present no decreto-lei n 972/69 6 uma entidade corporativista e, bem se pode dizer, instrument mais ou menos disfarcado de patrulha ideo- 16gica, bem ao gosto do regime politi- co brasileiro, na 6poca", sentencia Jos6 Wilson. Decidindo pela inconstitucionalida- de desse decreto e de seu regulamento, o juiz votou em favor dos chamados irregulares, aqueles que trabalham na imprensa sem o diploma do curso de comunicagao social e, por isso, sao perseguidos nacionalmente pelos sin- dicatos da clategoria. t claro que ningu6m quer retornar A 6poca de desregulamentacio profissio- nal, de uso do ex6rcito de reserve de colaboradores, do jornalismo como "bico". O curso superior evitou que os profissionais fossem nivelados r6s-o- chao pelos patr6es, em geral d6spotas raramente esclarecidos. Fonseca da a r6gua e o compasso para comegar a colocar abaixo o rebo- talho autoritario que ainda persiste, o 6nico, alias, o que da uma id6ia da prioridade que os democrats de verniz e os tiranos assumidos dio ao amorda- 9amento dos jornalistas dignos do ofi- cio. Criado o incident, agora 6 precise fazer o STF colocar abaixo esses re- manescentes das trevas, A frente a ter- rivel Lei de Imprensa, de 1967, que ainda pairam sobre os profissionais da imprensa. Ou sera que o corporativis- mo, nos sindicatos e na academia, ain- da 6 mais forte que a inteligEncia e a 6tica? lomal NCssos" Editor: Licio Flavio Pinto RedaqAo: Av. Goverador Jos6 Malcher, Passagem Bolonha, 64/B, 66.053-040 Fones: 2231929-2237690-2243728 Bel6m Pard |
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