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Journal Pessoal E EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO Ano VII* N- 119 e2Aquinzena de fevereiro de 1994 CR$ 300,00 CANDIDATE Lula viu a Amazonia Nenhum candidate a president esteve por tanto tempo na Amaz6nia como Luis Inicio Lula da Silva. Mas ele pode ter perdido o moment de mudar sua visao sobre a region. L uis Inacio Lula da, Silva talvez tenha se transforma- do no candidate & presid6n- cia da Repdblica que mais tempo esteve na Amaz6nia em campanha eleitoral em todos os tempos. Em tries etapas, peregri- nou durante mais de tres semanas por todas as unidades tederativas da regiao. No ultimo segment da viagem, conclufdo no infcio do mes, a frente de uma caravan composta por 100 pessoas, o can- didato do PT passou 10 dias na- vegando pelas aguas do rio Ama- zonas, parando em 26 cidades e vilas entire Manaus, ponto de partida, e Beldm, ponto de che- gada. A Amaz6nia toda nio vai muito aldm de 5% do col6gio eleitoral brasileiro. Nio decide vota;io, portanto. Se decidisse, Lula teria sofrido uma derrota muito mais dilatada para Fernan- do Collor de Mello, quatro anos atras. Foi na Amaz6nia que se re- gistrou a maior vantagem alcan- gada por Collor em todo o pafs. A situaqio pode ter mudado favoravelmente para Lula desde entio. Mesmo assim, ele nio vi- sou especificamente o eleitorado amaz6nico cor essa excursio. Buscava um sentido simb61ico, uma cai-a de ressonfncia capaz de miulitpiicar qualitativamente os efeit(s quantitativos que Ihe po- deria proporcionar a menos im- portante, demogrAfica ou eleito- ralmente falando, das regi6es brasileiras. Circunscrever a dltima etapa da excursio a bacia do rio Ama- zonas, nAo indo aldm de sua calha central, a mais extensa e caudalo- sa que hd na face do planet, se- ria mais simbdlico ainda. As vArzeas amaz6nicas nio sao apenas fracamente habitadas. Os polfticos da prdpria regilo 2 Jornal Pessoal andam cada vez menos pelo eixo central do grande rio e suas mar- gens alagaveis. Preferem cortejar as terras altas, cortadas por rodo- vias. Desde a d6cada de 70 elas experimental os mais expressi- vos crescimentos demograficos, gragas, sobretudo, a imigragio. Dali sai muito mais voto do que das varzeas. O eixo da polftica Na bus- ca dos mindrios sempre mais abundantes das terras altas, o pioneiro foi alterando a paisa- gem, pondo abaixo a floresta ori- ginal e substituindo-a por campos de pastagem, cultivos agrfcolas, cidades, hidrel6tricas, minas - enfim, o cenario do Brasil mais antigo, que ja ter pouca floresta O mundo tipicamente ama- z6nico, identificado com a hil6ia que o cientista alemao Alexandre von Humboldt batizou, sobrevive nas varzeas. Elas podem repre- sentar apenas 3% da Area ffsica da Amaz6nia Legal e sAo inex- pressivas demografica e economi- camente. Mas tem um potential fantastico, que sd se viabilizard, entretanto, se o process de inte- gragio econ6mica mudar de enfo- que. As varzeas slo as areas con- tTnuas mais ricas da Amaz6nia, adubadas naturalmente cor os nutrients que o Amazonas ar- rasta dos Andes e espalha pelas suas margens. Cor sua dimensio (nio menos que 150 mil quil6me- tros quadrados), sio as dnicas que podem contar para a produ- gio de alimentos em alta escala e com sustentabilidade. Sua utiliza- 4Ao mfnima talvez explique a pa- radoxal situagio da fronteira agrfcola do pafs (ao menos na retdrica) nio conseguir assegurar seu pr6prio abastecimento. Durante toda a dpoca mais recent de ocupacio, o dnico no- vo projeto realizado nas varzeas foi o arrozal do milionario norte- americano Daniel Ludwig. O projeto Jari foi uma bandeira na luta das esquerdas contra o capi- tal estrangeiro at6 1982, quando o empreendimento foi nacionali- zado is pressas. Desde entio o Interesse pelo tenma refluiu, apa- rentemente apenas pelos efeitos mAgicos da substituigio de Lud- wig (que morreu em 1992, corn 92 anos) por um cons6rcio for- mado por 22 dos maiores grupos empresariais brasileiros. No reino de Ludwig Lula, So olior lfder das esquerdas no moment, chegou ao Jari 11 anos ap6s a nacionalizagio e 29 anos depois que Ludwig se estabeleceu na area para produzir fibras e grios, que imaginava virem a ser as grandes demanadas da humani- dade faminta. O lider metaldrgico deveria ter parade no Jari durante o percurso fluvial, mas acabou sendo levado de aviio pela pr6- pria empresa. Nada diferente da visit de todos os outros polfticos ou dirigentes pdblicos. Atd um ano antes da safda de Daniel Ludwig d Jari era um mundo fechado, como se cons- tuitufsse um pafs menor dentro do pafs maior. Para chegar la o vi- sitante dependia do transport da empresa e ficava hospedado em seu hotel. Hoje, Monte Dourado 6 quase uma cidade aberta, empe- nhada em tornar-se distrito do municfpio de Almeirim. Se chegasse ao Jari pelo rio Amazonas, como estava nos pla- nos iniciais dos organizadores da caravan (nao tao ambiciosos, mas que acabaram levando a contratagio de um barco por 32 mil ddlares para dar a Lula o status de candidate presiden- cial), o Ifder do PT iria se depa- rar primeiro com o fracassado ar- rozal de Ludwig, que custou US$ 50 milh6es, deveria ser modelar e hoje nada mais 6 do que escom- bros. Erro de visao Mas 6 um equfvoco deduzir desse fracasso uma declaragio de insolvencia das varzeas para o sistema de produgAo modern. Essa Amaz6- nia que a caravan petista viu pode parecer anacr6nica, um quisto medieval na seara do p6s- moderno, mas se ha alguma di- mensio especifica ou especial nesta parte do globo terrestre, ela esta nas varzeas, que realmente representam um desafto a capaci- dade do home modern. Chegando de aviao, a via traditional dos fugazes visitantes do Jari, Lula trouxe da area as inevitiveis impresses do pri- meiro contato. Surpreendido corn o que viu, falou como se a histd- ria do Jari tivesse comerado no moment mesmo de sua visit, ignorando um vasto acervo de cultural (ou massa crftica) criada em torno do empreendimento. Lula declarou, ja em Beldm, que o Jari "nao 6 mais o enclave norte-americano na Amaz6nia" e elogiou os novos p~irepetarios. a trente o grupo Caemi to lualor parceiro brasileiro do capital es- trangeiro), por ter dado um mdl- tiplo aproveitamento a area, como se nela, antes, houvesse apenas monocultura. Na verdade, basicamente, o Jari continue o mesmo da 6poca de Ludwig: plant arvores ex6ti- cas para produzir celulose, extrai e process caulim, lavra bauxita retratcria e desenvolve algumas atividades de sustentacgo ou sub- sistancia, como a criagio de bd- talo. Certamente o empreendi- mento esta mais enxuto do que na epoca de Ludwig. O mando que o milionario americano exercia, extremamente verticalizado e in- dividualizado, era uma das causes da irracionalidade do projeto, de seus gastos excessivos. Mas as alterac6es introduzidas nao muda- ram a configuragio essential do projeto. Houve, sim, uma transforma- gao profunda, sobre a qual Lula nio se referiu (por nao saber ou por ser desinteressante em sua atual fase soft). Antes, o dinheiro que mantinha o Jari safa dos bol- sos de Ludwig ou dos banqueiros que o financiavam. Saiu tanto e tio descontroladamente que ele decidiu nAo pagar a primeira par- cela do emprdstimo japones de US$ 200 milh6es, que venceu em 1981. Essa recusa criou panico no governor e na iniciativa privada. Se Ludwig nao honrasse esse compromisso financeiro interna- cional, o famoso projeto teria que ser estatizado. E que o aval fora dado pelo BNDES, corn garantia do tesouro national. Para se res- sarcir, o banco ficaria corn toda a propriedade, dada em hipoteca. Para nao ocorrer a estatiza- gao, a privatizacgo foi providen- ciada, a toque de caixa. Mas, pa- ra cumprir os contratos, BNDES e Banco do Brasil tiveram que despejar algo como US$ 500 mi- lh6es no Jari, sem retorno, numa das maiores transferencias de di- nheiro pdblico para uma empresa privada na hist6ria do pals. Nao 6 provavel que esse mo- delo seja considerado inspirador para o program de governor do PT, mas Lula nada disse a res- peito, nem evidentemente Ihe foi perguntado. Se 6 assim que o PT pretend nacionalizar, entio 6 melhor deixar como esta. Sai mais barato. Jornal Pessoal 3 SEPARAQAO Um caso de amor no final O governador Jader Barbalho surpreendeu muitos dos convidados ao casamento da filha do chefe de sua Casa Civil, deputado Manoel Ri- beiro, no mes passado, aparecen- do sem a companhia de sua espo- sa, Elcione. Jader assumia de pd- blico, pela primeira vez, sem pre- cisar fazer qualquer declaragao formal, o que ja era realidade desde o mes anterior: o governa- dor e a primeira dama, apds 24 anos de casamento, haviam se se- parado. A iniciativa fora de Elcione, que deixou a resid6ncia official da granja do Icuf e passou a morar na cobertura do ediffcio A. M. Fidalgo, na rua 9 de Janeiro, ao lado do Museu Goeldi, proprie- dade particular do casal. Foi uma decisao que surpreendeu os ami- gos mais fntimos e, talvez, o prd- prio marido. Ao long de quatro anos, Elcione tentou absorver o impact de saber da paixao do marido por uma sobrinha dela, Mdrcia Centeno, 20 anos mais nova do que Jader, e reconquistar o companheiro de 30 anos. Reconhecida e admirada por sua personalidade forte, Elcione alternou moments de depression, que a prostravam no fund de uma rede, corn fases de recupera- gao e otimismo, que a levaram a fazer cirurgias plisticas e a bus- car a constant companhia do ma- rido para afastar a concorrente. Mas sua situagao nao apresentava melhoras. Ficava sabendo, at6 por parents da pr6pria MArcia, das viagens que ela fazia para en- contrar-se corn o governador fora do ParA e do espago que ia con- quistando na vida de Jader. No final do ano passado, quando jA fazia viagens solitarias no cumprimento de suas funq6es de primeira dama e responsavel pela agio social do governor, El- cione decidiu voltar para o lu- xuoso apartamento duplex, dei- xando o casal de filhos Jaderzi- nho e Helder no Icuf corn Jader (mas depois tendo a constant companhia de Helder). Explicou para os amigos que precisava ficar um tempo sozinha para decidir sua vida. No infcio recebia visits do marido, mas os contatos foram se espagando e ra- reando. Quando Jader foi ao ca- samento da filha de Manoel Ri- beiro, ele e a mulher jA estavam vivendo independentemente. Enfrentando a realidade - Para todos os efeitos legais, Jader e Elcione continuam casados, mas ela preferiu romper as falsas apa- rencias da vida em comum, que alguns casais preferem adotar pa- ra manter uma relagso contratual e familiar que Ihes interessa (co- mo ocorreu cor Alacid e Marilda Nunes). NAo que Elcione ja esteja preparada para enfrentar a nova situagdo: a menor refer6ncia a interesses da imprensa pelo caso a deprime e angustia. Ela ficou desesperada ao saber que o mari- do havia admitido para um jorna- lista sua separag~o e anunciado a disposigLo de assumir a nova companhia, mais um dentre os muitos boats que circulam pela cidade sem harmonia com a reali- dade, no velho process em que a version vale mais do que os fatos. Na verdade, tanto Jader quanto Elcione adotaram um pro- cedimento comum para preser- vd-los de maiores desgastes. A primeira dama interrompe qual- quer conversa que se dirija para crfticas ao marido. Pelo menos uma vez chegou a gritar corn amigas que Eentaram quebrar essa regra. Da mesma maneira, o go- vernador chega A rispidez quando provocado a se manifestar sobre seus problems conjugais. Foi assim que se comportou cor um enviado especial da re- vista Veja, que no ano passado o abordou a respeito durante uma entrevista na sede administrative do governor, na rodovia Augusto Montenegro. Sem esperar ouvir nova pergunta, Jader deu a entre- vista per encerrada. Nesse ponto, a posigao do casal ter dado bons resultados. Veja acabou nao publicando a mat6ria que motivara o desloca- mento do reporter do Nordeste para Bel6m, assim como a Folha de S. Paulo aparentemente perdeu o interesse pelo tema. Mas uma nota saiu no Correio Braziliense e constantemente o Jornal Popu- lar public notas debochadas so- bre o conflito triangular, que ali- mentam conversas de alcova e de gabinete recheadas de fantasias. Assim, se o assunto perma- nece praticamente interditado na grande imprensa, que parece in- capaz de aborda-lo com seriedade e respeito, mas tamb6m atendendo a parte legftima do interesse da opiniao pdblica, as fofocas cor- rem solto, talvez machucando mais do que um noticidrio produ- zido com rigor tdcnico. Crises conjugais envolvendo persona- gens pdblicos sAo notfcia em qualquer parte do mundo, do pri- meiro ao quarto nfvel, tanto pela imprensa considerada s6ria quanto e inevitavelmente pela marrom, sensacionalista. Quando Elcione decidiu-se pela separagao de corpos, que 6 a definigAo legal para sua relagao atual cor Jader, deu, ainda que por via indireta e involuntaria, a liberaago derra- deira para a imprensa noticiar os fatos, acabando cor o monop6lio da maledicencia. Hist6ria romantica O dra- ma vivido pelo casal tem compo- nentes que legitimam a curiosida- de pdblica. Jader e Elcione for- mavam o tfpico e cada vez mais raro casal perfeito, sem as as- pas que cabe apor a muitas rela- g6es que dessa maneira se apre- sentam a sociedade. A ligagao se estabeleceu ainda na primeira ju- ventude, quando os dois eram estudantes secundaristas. Um long namoro fluiu naturalmente para um casamento que se mante- ve cor poucas alterag6es no cur- so de duas d6cadas. Elcione fazia justiga ao ve- lho brocado segundo o qual um home nao consegue realizar-se e executar faganhas sem uma gran- de mulher por trAs de si. Boa parte do sucesso do polftico Jader Barbalho deve ser a ela credita- do, sobretudo nas dltimas elei- 96es para governador, quando ele jd estava de romance cor a so- brinha. Mas taib6m Jader era um exemplo de marido perfeito, atento e dedicado, que impressio- nava por essa fidelidade at6 no cfrculo mais fntimo. Um desses amigos conta que As vezes convi- davam o governador para algum program noturno, mas ele sem- pre recusava. Histdrias sobre re- lacionamentos extra-conjugais. 4 Jornal Pessoal um dos quais com a cantora Fafa de Beldm, nunca foram confirma- dos factualmente. "Jader sempre viveu para a Elcione", garante um dos amigos, hoje afastado do grupo in pectori. Desde os bancos escolares, a maior parte do tempo de Jader Barbalho sempre foi dedicada a polftica, diretriz que Elcione aceitou e incorporou a sua pr6- pria vida, transformando-a numa extensio das exigencias do mari- do. Demarcado por essa dedica- cgo exclusive, a polftica e a fa- mflia, Jader desenvolveu a argd- cia e a firmeza de vontade, mas permaneceu ne6fito em temas e situag6es frequentes na esfera de sua atuagio, a cdpula da elite. Para os mais proximos, sem- pre manifestou horror pela desen- voltura do atual deputado federal Alacid Nunes, que foi seu aliado no infcio da d6acada de 80 (e Ihe permitiu veneer a primeira elei- cio para o governor Jader consi- derava inaceitavel que Alacid ti- vesse uma vida extra-conjugal tAo agitada, s6 nio tornada mais pd- blica porque a esposa, Marilda, mantinha corn mao f6rrea o domf- nio da famflia e preferia nio ir aldm dos limits do lar, preser- vando-o dos dissabores da vida pdblica. No .pr6prio PSD (o extinto Partido Social Democratico), on- de estAo plantadas suas rafzes polfticas, Jader encontrou uma situagio que mereceria seu repd- dio. Magalhaes Barata, o polftico que por mais tempo deteve o po- der na repdblica paraense, viveu seus dltimos anos cor uma mu- Iher que nio era sua esposa, Da- lila Ohana, sem assumir oficial- mente essa relaqgo Quando mor- reu, Dalila, que acompanhara Ba- rata na fase mais diffcil, foi pra- ticamente expulsa da casa do companheiro para que a famflia legal a ocupasse e assim o gover- nador fosse enterrado sem pertur- bagdo as formalidades de estilo. Depois, Dalila escreveria um li- vro pat6tico e comovido ("Eu e as dltimas 72 horas de Magalhaes Barata") para defender seus di- reitos. Vulnerabilidade Mas se tudo indicava que o casal Jader- Elcione resistiria as intempdries do casamento, a realidade mostra- ria a incapacidade do governador de resistir a algo que nao consta- va de sua biografia, nem fazia parte de suas expectativas de vi- da: uma paixao inesperada. Para injustigar o padrao retilfneo que seguira at6 entao, Jader se apai- xonou pela filha de uma irma de sua mulher, que, segundo a nota publicada no "Correio Brazilien- se", foi dama de honra do casa- mento dos tios. A relaaio teria comegado quando Jader era ministry da Pre- videncia Social na administration Sarney (embora alguns insistam em data-la ainda no primeiro go- verno de Jader). Marcia Centeno estava separada do marido, corn quem casou muito cedo, e tinha uma filha (hoje corn sete anos). Asssessores particulares do governador faziam malabarismos para permitir encontros dos dois, mas logo a relaago foi descoberta por Elcione, tambem porque o marido foi se expondo. Jader em- penhou-se pessoalmente para que o projeto de um ranario, de pro- priedade de Marcia, fosse apro- vado pela Sudam. A criaqAo de ras, em Icoaraci, 6 a atividade econdmica de sustentagio de Marcia, que deixou a companhia dos pais e mora agora num apar- tamento proprio, de classes m6dia alta, no bairro do Jurunas. No final do ano passado, pela primeira vez Jader apareceu em pdblico na companhia de Mar- cia. Foi na praia do Atalaia ve- Iho, em Salinas, enquanto Elcione ficava do outro lado da praia, os dois no mesmo local, mas moran- do em casas distintas (o governa- dor na residencia official e a pri- meira dama na casa adquirida do tio de Jader, o m6dico Lourival Barbalho). Talvez tenha sido esse o fator derradeiro que levou El- cione a dar o pass que at6 entao vinha evitando, embora tudo in- dique que ela ainda nao desistiu de recompor o casamento. O abalo Jader, que at6 en- tao parecia seguro do caminho que estava seguindo para consti- tuir nova relacfo conjugal, deu sinais de abalo. As pessoas que tmr convivido cor ele nos dlti- mos tempos notam-no ora mais distrafdo, ora irritado, impacien- te, indisposto a absorver as des- gastantes conversas com polfticos interioranos, fundamentals nesse perfodo prd-eleitoral. No casamento da filha de Manoel Ribeiro o governador es- tava acabrunhado, mal acomoda- do na condiaio de solteiro, para todos os efeitos prAticos, o ,que nao foi atenuado muito pelo contrArio pela companhia do vi- ce-governador Carlos Santos, tamb6m separado da mulher, Agazil, de forma bern menos pa- cffica. Deve ter servido de alfvio para Jader o vice nao haver pas- sado da cerim6nia religiosa para a recepg~o. Um ex-casado costuma dizer, do alto de uma vasta experi8ncia, que nas separa;6es de casais quem perde, perde; quem ganha, nao leva. O principal casal do Pa- ra vive agora esse inc6modo lim- bo: apurar os danos e tentar deli- near os rumos. Elcione ja esta em campanha para a Camara Federal. O resultado vai defender menos da votaqAo do que da desincom- patibilizagao do marido. Caso Jader permanega no governor depois de 2 de abril, ela sd podera sair candidate se as atuais disposig6es legais forem modificadas. A hipdtese mais provavel de mudanra 6 a redugAo do prazo de desincompatibiliza- qAo dos ocupantes de cargos exe- cutivos, dos atuais seis meses pa- ra propostos tres meses, o que ainda daria tempo para Jader tra- balhar sua candidatura ao senado sem precisar desligar-se da ma- quina official. Se essa alteracao nao for feita e ele' no deixar o governor, Elcione nao poderA dis- putar a eleiqao de outubro. Os amigos que transitam corn mais desenvoltura entire os dois garantem que Jader ja decidiu ser candidate, ao governor (corn no- vas regras) ou ao senado (manti- das as atuais disposig6es). Pela primeira vez ele tera Elcione nao mais na retaguarda, mas na linha de frente e ja nao mais como a companheira de todos os mo- mentos. Ela podera inaugural uma nova lideranga polftica no Esta- do. Mas o que poderia ser uma trag6dia insanavel esta evoluindo corn um mfnimo de danos atd ago- ra gragas ao nfvel de entendi- mento e de respeito que Jader e Elcione tem conseguido manter, um equilibrio tanto mais diffcil por criar constrangimentos dentro de ambas as famflias. Confirmada a separacao (u- ma tendAncia sinalizada pela crescente influencia de Marcia Centeno, que agora 6 procurada pelos mais bem informados, que querem chegar ao governador por via direta), sera precise dar o pass seguinte: fazer a partilha de um grande patrim6nio dividido Journal Pessoal 5 ao meio (pelo casamento em co- munhio de bens), apesar de al- gumas sutilezas jurfdicas que a distribuigAo dos bens pode acar- retar. O grande teste- Essa evolu- cao pacffica vai enfrentar seu maior teste durante a campanha eleitoral. Os inimigos de Jader certamente aproveitarAo o tema como mote de ataque, utilizando a difusao de boatos sem respaldo nos fatos (como a morte de um PM atingido por tiro que Elcione teria disparado contra o governa- dor durante discussao na granja do Icuf, ou uma nova gravidez de Mdrcia). Mas cor sua decisao de tornar pdblica uma situagio que ji existia na intimidade, Elcione pode ter dado uma grande contri- buigAo para preservar o casal do lodagal em que dramas desse tipo costumam transformar-se em fases de paix6es exacerbadas como nas eleigo6es, ainda que venha a pa- gar um prego pessoalmente muito oneroso. Afinal, depois de tr6s d6ca- das de dedicagAo mdtua, Jader Barbalho e Elcione Zaluth tern o direito, se assim desejarem, a um final, senAo feliz, ao menos de- cente e digno. A political e a cultural Quem pode ser contra a recu- peragAo do PalAcio Lauro So- dr6, um dos mais preciosos pro- jetos arquitet6nicos do italiano Antonio Landi, construfdo no fi- nal do sdculo 18 em Beldm? Aparentemente, ningudm. Mas uma polemica mal posta colocou em extremes opostos o governor do Estado, dono do imdvel, e o Institute Brasileiro do Patrim6nio Cultural, responsivel pela inte- gridade do pr6dio, tombado hd 20 anos pelo prdprio IBPC (na 6po- ca, SPHAN). No dia 8 o coordenador regional do institute, Paulo Chaves Fer- nandes, fez pessoalmente a inter- dicio administrative do paldcio, que at6 recentemente serviu de sede ao governor estadual. Em se- guida, pediu ao Minist6rio Pdbli- co federal a interdi~io judicial, alegando que, sem acatar sua de- cis.o, a Secretaria de Viago e Obras Pdblicas prosseguira corn as obras. Paulo Chaves, polemica fi- gura de arquiteto e militant po- Iftico, declara que a intervencao do governor no palacio 6 illegal porque a obra esta sendo condu- zida sem obedecer a um projeto de restauracgo, "tanto de arqui- tetura quanto os complementa- res". O IBPC nao liberou as obras, sem o que elas nao pode- riam ser exeutadas, e o prdprio coordenador constatou os prejuf- zos causados ao prddio histdrico por servings realizados sem orientaago tecnica adequada. Na vistoria, Paulo Chaves verificou, entire vdrias aberra- 96es, que as pinturas originals estavam sendo sepultadas sob camadas de tinta acrflica, nao re- comendavel, vaos originals esta- vam sendo tapados, enquanto bu- racos eram abertos na parede para a construgio de banheiros, o piso estava sendo substituido com perda de qualidade, cimento foi colocado sobre o estuque original das paredes. Obra political As observa- g6es contidas no relat6rio de victoria atestam a press e a falta de uma visio geral da obra que caracterizariam a suposta recupe- raqgo do palacio. Os servigos nio poderiam permitir que ali passas- se a funcionar o museu do Esta- do, como pomposamente o gover- no declarou pretender usar o lo- cal. Paulo sustenta a ilegalidade da obra, descartando o document que o governor apresentou como prova de que contaria cor licen- ciamento desde 1991. 0 que hou- ve, na verdade, foi uma simples solicitaqio de vistoria apresenta- da pelo secretArio de obras, Paulo Sdrgio Nascimento, ao entao co- ordenador do IBPC, Jorge De- renji. O parecer tdcnico produzido na ocasiAo pelo arquiteto Cristd- vio Duarte atestou a existencia de problems, sobretudo no te- lhado do palacio, mas nao o bas- tante para justificar uma recupe- rag~o complete, nem significavam a aprovagio de um projeto, que nAo foi elaborado. Sugest6es fei- tas pelo arquiteto La Rocque Soa- res tambdm nao supriam essa la- cuna. O governor nfo podia tomar esses pap6is como liberagqo, nem utilizd-los para dispenser de lici- tagio ptblica um contrato no va- lor de 2 milh6es de d6lares, fir- mado corn a construtora Monte-, mil, que vai muito aldm de atacar os problems apontados paia ser uma ampla recuperagao. 0 governor interpretou a afio do coordenador regional do IBPC como um ato politico. Um dos as- sessores pessoais mais influentes junto ao senador Almir Gabriel, do PSDB, Paulo Chaves Fernan- des estaria querendo criar com- plicadores politicos para o gover- nador. O fator press Jader Bar- balho provavelmente pretend obter os dividends que o pre- feito Helio Gueiros conseguiu cor a reinaugraago do palacio Antonio Lemos, reabrindo o Lan- ro Sodrd a 15 de margo, quando comemora tres anos de mandate, e usando-o como museum. A ilaaio polftica seria ainda mais forte considerando-se a alianga entire Almir Gabriel e Helio Gueiros. Independentemente desse fator politico conjuntural, que te- ria levado Paulo Chaves a inves- tir contra as obras irregulares oito meses depois de assumir o IBPC, as quest6es por ele susci- tadas sao procedentes. Se a recu- peraq&o do Lauro Sodr6 continuar a ser feita como ate agora ter si- do, aumentard ainda mais a des- caracterizagio que o belo prddio ter sofrido, sobretudo a partir da administragio de Augusto Monte- negro, no infcio do s6culo. O prazo para a conclusao dos trabalhos, ate o dia 15 de margo, 6 exfguo demais para que eles se desenvolvam acataudo as normas t6cnicas e respeitando as linhas originals do palAcio. Fla- grado em falta, o governor decidiu simplesmente incorporar a inter- preta io polftica e atropelar o coordenador do IBPC, recorrendo diretamente a Brasflia e fazendo o president do institute, de 16, retirar o embargo judicial, sem ouvir seu representante local. Deixou de se interessar pelo me- rito da questio para mostrar forga num provinciano jogo de pressao. As obras prosseguem, os embargos podem cair de vez, o incdmodo (ou irritante, conforme a 6tica) coordenador, apontado como inimigo, poderA ser afasta- do do cargo e o prddio reinaugu- rado na data estabelecida, mas a vitdria poderA ser de Pirro. E claro que, depois do fo- guet6rio do Antonio Lemos, o governador pode se considerar no direito de nao ter sua festa com- prometida. Mas justamente por- que a reativagio do palacio muni- cipal, ao impressionante custo de 6 Jornal Pessoal US$ 8,3 milh6es, despertou as consciencias, depois que a fanta- sia caiu, para os inconvenientes das injung~es polfticas sobre as ag6es culturais (e estas decididas sem maior questionamento), o governor poderia mostrar que, apesar da tentagao populist e publicitaria, sabe aprender as li- q6es e corrigir os defeitos, agin- do cor seriedade e visando o in- teresse da coletividade e nio de seu eventual representante polfti- co. Infelizmente, ainda nAo sera desta vez que se tera um exemplo dignificante para apontar como saudavel exceg9o. Fil6sofo 6 poets O silencio de um frio fim de noite pelas ruas desertas de Barcelona parecia ser um cendrio adequado para o que o paulista Jos6 de Souza Martins, um dos mais festejados nomes da socio- logia rural no Brasil, estava me dizendo. Nio lembro exatamente por qu6 havfamos levado o nosso papo vadio at6 a figure de Martin Heidegger. Mas ambos partilhL- vamos. a dificuldade de enfrentar a leitura do fil6sofo alem&o, con- siderado um dos mais importantes deste s6culo. Ou nao estavamos suficien- temente adestrados nos mist6rios do filosofar, ou havia alguma coisa an6mala nas elucubrac6es de Heidegger que escapava a nos- sa percepgio. Na primeira hip6te- se, talvez estiv6ssemos nos con- dicionando pela fama do fil6sofo. Quanto a segunda, talvez fosse recomendavel manter a descon- fianga (ou o ceticismo, para ser mais rigoroso) e tratar de encon- trar sustentagao tedrica para nos- sa reacao. Nao 6 muito diffcil chegar a ela. Martins e eu, admiradores de Henri Lefebvre, jA navegamos pelas aguas mais calidas da Meta- filosofia desse fino intellectual, injustamente deixado de lado. A bibliografia a respeito 6 vasta, mas podemos percorr6-la e nio sair do "estado de sedugao em- baragosa, ou de embaraco sedu- cente" em que admite se encon- trar Benedito Nunes. Mas ao menos Benedito foi aldm da nossa condirao estatica para fazer de Heidegger o tema central de No tempo do niilismo - e outros ensaios (Editora Atica, Sio Paulo, 199 pAginas), seu mais recent livro, langado no fi- nal do ano passado. Sao textos curtos escritos ao long de 19 anos para tender distintas de- mandas (de publicag6es academi- caS a jornais estudantis), puxados por uma espdcie de p6s-escrito a Passagem para o podtico (filo- sofia e poesia em Heidegger), a mais profunda incursao de Bene- dito ao tema, publicada sete anos antes. Para garantir a consisten- cia de sua reflexio e sua capaci- dade de enfrentar qualquer pdbli- co, ele inspecionou uma biblio- grafia em seis lfnguas com sua costumeira acuidade e a vastidao de sua compet6ncia (al6m da filo- sofia, a literature e a est6tica for- neceram-lhe matdria-prima). Altura filosafica Trata-se de um tema inesgotavel, como modestamente Benedito trata de advertir, lembrando que Heideg- ger foi um pensador "que se ex- tremou no deslinde de um niesmo problema a questAo do ser - percorrendo uma s6 e embfgua trajet6ria entire a Filosofia da qual partiu e a nao-Filosofia & qual chegou". Apesar dessa unicidade te- matica, o pensamento de Heideg- ger 6 um "escarpado bloco" a desafiar a capacidade de quem possa escalar um pensamento ori- gindrio da metaffsica, mas que a transcendeu, ou renovou, indo muito al6m de suas fontes de ins- piragBo, remotas ou imediatas, para fundar as bases de um novo tipo de niilismo (o estado de es- pfrito da modernidade), ou, como diz Benedito, um "niilismo ati- vo" De sua base operacional em Bel6m do Pard, ele tenta separar o joio do trigo na analise dos ataques feitos a Heidegger por sua associaglo ao nazismo, ten- tando delimitar a compreensao pelo prdprio raciocfnio do fildso- fo, sem se empobrecer, entretan- to, numa mera exegese de defesa. Nem sempre os arguments de Benedito sao convincentes ou compreensfveis pelo nao-iniciado, mas seu texto eleva e enleva, al- gumas vezes dissociando-se de seu pr6prio nexo para chegar a culminancia sensorial do pensar que a2roxima a filosofia da poe- sia, uma realizagao rara que colo- ca o fil6sofo paraense num lugar especial, dos verdadeiros criado- res. Em baixa O senador Fernando Coutinho Jorge, que esta em campanha para ser o candidate do PMDB ao governor do Estado, pode ter per- dido pontos junto ao patrono da escolha, o governador Jader Bar- balho. No dia 3, Coutinho foi visto, no plenario do Congresso, abragando e tentando dar can- dentes explicag6es ao lfder do governor no Senado, Pedro Simon. Na v6spera o governador disparara um telegram atacando peemedebistas, como Simo que querem buscar um candidao a presidencia da Repdblica foray do partido. Ver o senador paraense tentando justificar-se junto ao al- vo do ataque foi interpretado pelo observador como jogo duplo, o mesmo de que Coutinho foi acu- sado por desafetos de praticar quando tentou continuar na ad- minstra&io Itamar Franco sem se indispor com o governador, que havia atacado o governor federal. Se age assim porque crA na independ6ncia, o senador Couti- nho Jorge esta em bom caminho. 0 autor Um membro da administragao estadual tern uma justifica na ponta da lfngua para explicar a aparente contradigio do governa- dor Jader Barbalho, que quer um nome do PMDB como candidate do partido a presid6ncia da Re- pdblica e vai buscar no PPR um nome para a dispute do governor do Estado: - E que aqui a situagao 6 bem di- ferente. A histdria 6 escrita pelos vence- dores. Ferro frio pesar de ser a maior vendedo- ra de mindrio de ferro do mundo, a Companhia Vale do Rio Doce teve que dar um desconto de 7,6% aos compradores de seu produto no Japao, forgada por uma concorrente australiana, a Hamersly Iron. Durante o ano- fiscal de 1994 (que comegard no dia 1" de abril e se estendera at6 31 de margo de 1995), o prego mrdio sera de US$ 15,43 (FOB), contra US$ 16,7 no ano anterior. Com essa redugao de preco, Carajas perdera US$ 26 milh6es. Journal Pessoal 7 A historic do cobre E m 1982 o Brasil inaugurou sua primcira fbrica de cobre eletrolf- tico. Iniciada pelo playboy milionlrio Baby Pignatary, que quebmon em 1974, foi conclufda pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ6mico Social), que entrou no ne- gdcio por ordem do general Ernesto Geisel, president da Repdblica na epoca. Quando passou em frente o em- preendimento, Pignatary justificou a estatizafo em geral rejeitada pelos empresarios dizendo que a fdbrica eliminaria a depend6ncia brasileira das importages de cobre, principal- mente do Chile e do Peru, e que a ja- zida, localizada no interior da Bahia, garantiria long vida & metaldrgica da Carafba Metals. Teria, portanto, im- portfncia estrategica, tornando-se questao de Estado. Mas a rica jazida apresentada pelo playbou ao BNDES era uma far- sa. A Carafba precisou importer 75% do concentrado de cobre de que preci- sava. 0 Brasil continuou comprando It fora tanto concentrado quanto me- tal. No dia da inauguraglo da fibrica, a 400 quil6metros de Salvador, o BNDES havia enterrado 1,3 bilhao de ddlares no empreendnmento, sendo US$ 700 milh6es na metalurgia e US$ 600 milh6es na minerac~o, ujma rela- gao de investimento claramente an6- mala. 0 negdcio, porm, nao apre- sentava qualquer horizonte de viabili- dade. Seis anos depois o governor Sar- ney decidiu privatizar a Carafba, mas para isso dividiu-a em duas. A parte industrial foi vendida a particulares, que, agora, tmn uma fdbrica capaz de operar corn lucro. A mineragro conti- nua nas maos do powder pdblico como uma batata quente que queima as re- servas do erdrio. Apresenta um saldo negative que ultrapassou a marca do bilhio de ddlares. Esse dinheiro ja- mais sera recuperado porque o tempo de vida da mina se esgotars ainda nesta ddcada de 90. A volta do Brasil a uma situagao de dependencia em relagro ao cobre semelhante & que existia antes do sur- gimento da Caraiba Metals sd ser6 evitada porque ainda nesta ddcada de- vera comegar a funcionar a segunda fabrica de cobre do pafs. Ela tambnm esta sendo implantada no sertro, nao do Leste brasileiro, mas no Pard, com capacidade nominal equivalent i da Caralba, mas corn uma jazida que lhe garante vida dtil de pelo menos 25 anos. O projeto, que prev6 investi- mento de US$ 765 milh6es, vinha sendo conduzido exclusivamente pela Companhia Vale do Rio Doce, na provfncia mineral de Carajds. Mas re- centemente a poderosa multinational Anglo American se associou ao negd- cio, atrafda tanto pelas condio6es pri- vilegiadas que o mercado de cobre oferece aos fornecedores finala, ape- nas dois para tender a pelo menos 150 mil consumidores), como pelo subproduto nobre da metalurgia: o ou- ro. Para uma produgio de 152 mil toneladas de cobre methlico, preve-se a extragio de 13 toneladas de ouro, fazendo da mina do Salobo a maior unidade individual de producao do pafs. Desbancard dessa posicio a tra- dicional mina de Morro Velho, em Minas Gerais, tambdm controlada pela Anglo American. Assim, a Anglo pu- lard para a primeira posicgo no mer- cado do ouro, muitos quilos acima da pr6pria CVRD. A metalurgia de cobre instalada no coragko da floresta amaz6nica (que esti sendo destrufda nessa regiao), a 900 quil6metros do literal, capaz de faturar US$ 400 milh6es anuais, 4 um fato expressive, mas pelo qual a opi- nibo pdblica nio ten manifestado qualquer interesse, indiferente ao sig- nificado desse fato. A evolugao do projeto Cobre tern sido descontfnua desde o final da ddcada de 70, entire moments de euforia e de depressAo, por conta de incertezas em relagio ao mercado international e da qualidade da jazida, a princfpio questionada co- me a de Pignatary. Temia-se que o cobre de Carajds fosse uma reedigio amaz6nica do conto baiano da Caralba, mas no mo- mento decisive de seu amadureci- mento surgiu a Anglo American, dis- posta a uma parceria com a estatal CVRD para consolidar sua posiggo no mercado do ouro e dividir o control do cobre. A histdria se parece ao que ocor- reu com o alumfnio, hoje responsavel pela principal atividade produtiva da regilo. O Brasil dispunha, na Amaz6- nia, de condig6es invejAveis para es- tabelecer um novo eixo de influencia no mercado mundial desse metal. Ti- nha a terceira major reserve de bau- xita, que 6 o mindrio do alumfnio, fonte de energia barata e abundante (na hidreldtrica de Tucuruf), espago ffsico para absorver os efeitos negati- vos do process industrial e mAo-de- bra para dar competitividade ao pro- duto. Mas hoje o mercado do alumf- nio, gragas sobretudo as contribuig6es dos novos empreendimentos estabele- cidos na area de jurisdigio do Pro- grama Grande Carajds, estA carteliza- do e sob o control de consumidores e produtores internacionais, que fre- quentemente se confundem na mesma empresa. O cobre pode ter o mesmo des- fecho. No entanto, este capftulo da ri- ca e dilacerante histdria recent da Amaz6nia estA apenas comegando. A no comego, pordm, que as coisas costumam definir-se de forma irreme- didvel. Sem uma radical alteragio de curso, o cobre ird parar na mesma po- sigio do alumfnio, ajudando a desba- lancear as relag6es de troca da Ama- z6nia com o mundo e cristalizando sua posigio colonial, ou neocolonial, como preferem os interpretes mais so- fisticados. O her6i de alem-mar N enhum personagem amaz6nico deste s6culo conseguiu maior notoriedade international do que o seringueiro acreano Chico Mendes. NAo bastou a fama, entretanto, para que sua vida fosse preserva- da. Seu assassinate, previamente anunciado, consumou-se & vista de dois soldados da Polfcia Militar que Ihe davam protegio. O man- dante e o executante do crime, pai e filho, foram press, levados a julgamento, condenados. Ficaram encarcerados durante 26 meses. HA quase um ano estAo foragidos, mas todas as pessoas bern informadas no Acre sabem que Darly e Darci Alves da Silva vivem na Bolivia, do outro lado da fronteira, de onde ainda comandam seus negdcios. Ambos slo migrants rdsticos e violentos. Para eles, pAo 6 pio e queijo 6 queijo. Chico Mendes era um caboldo metido a best que se opunha & derrubada da mata para a formagio de pastagem e roga, a dnica coisa que Darly e Darci sa- biam fazer na vida. Para os pa- dr6es da pequena Xapuri, eles eram poderosos e temidos pela violencia, trazida de Minas Gerais e do Parand, pelos caminhos bramios do sertAo. Novos donos da terra que chegavam ao Acre, uma floresta s6 at6 a nova corrida ao Oeste, esta- vam acostumados a fazer valer sua vontade. Mesmo porque sd come- gou a haver alguma resistencia quando, para os que haviam so- ~'A. brevivido do passado, os serin- gueiros, ver cairem as drvores da borracha significava aceitar passi- vamente a prdpria more. Chico Mendes era um cabodo astuto e valente. Queria ter condi- gdes de continuar a viver na sua Xapuri e para isso tinha que impe- dir o avango das queimadas. Nunca pretendeu ser herdi, nem liderar um movimento mais amplo. Tinha um senso da realidade muito me- Ihor apurado do que o de seus en- deusadores. Chico Mendes dizia aos ami- gos que sua more sd valeria a pe- na se realmente foitalecesse a luta dos seringueiros. Mas sua expe- ri6ncia lhe ensinava o contrdrio: "Ato pdblico e enterro numeroso nao salvario a Amaz6nia", admi- tia. Completados em dezembro cinco anos de seu assassinate, o que ele rendeu 6 glorioso apenas nas elaborag6es mfticas produzidas no exterior. As poucas reserves extrati- vistas legalmente reconhecidas sd sobrevivem porque os comprado- res de sua produqAo pagam al6m do que ela efetivamente vale. O prejufzo na relagdo commercial di- reta 6 compensado por ganhos promocionais e institucionais, a tal da mais-valia relative que conta cada vez mais no mundo das in- formag6es. Quando essa vantage desaparecer, as reserves extrati- vistas tambdm desaparecerio, se antes nio encontrarem uma outra base de apoio. mais sdlida, que nio seja a borracha. Os seringueiros, companhei- ros de Chico Mendes, talvez ainda possam manter-se como uma boa fonte de informag6es para ajudar a desvendar certos segredos da flo- resta, mas 6 pouco provavel que tenham condio6es de participar do novo process produtvo, intensive em tecnologia ou capital, para o qual mAo-de-obra nio especializa- da conta pouco, quando conta al- guma coisa. Podem servir de mas- cotes ou emblemas, mas apenas nessa exata media: por seu valor simbdlico e n&o pelo uso que obje- tivamente possam oferecer, exceto se um program subsidiado su- porte os custos e as does da tran- sic(o para uma nova auvidade produtiva, passage que eles, por seus prdpnos meios, nio podem promover. Essa serventia lica clara no pagamento antecipado dos direitos de uso da histdria de Chico Mendes no cinema, projeto que vem send adiado ano apds ano, por diferen- tes pretextos. O milhio de ddlares despejado por Hollywood em Xa- puri subverteu tanto a vida local quanto o avilo que a empresria inglesa Anita Novick doou ao caci- que kayapd Paulinho Payakan. A vidva de Chico Mendes, lUzamar, casou cor um dos melhores ami- gos do marido, chocando os ou- tros, e escandalizou ainda mais ao dissipar o dinheiro recebido, apro- priando-se de um titulo que os demais imaginavam coletivo. Mas estas sao as amarguras pessoais que o cheque entire duas cultures disuntas provoca. Chico Mendes 6 um sfmbolo muito mais dtil aos ativistas ecoldgicos inter- nacionais do que aos pr6prios amaz6nidas. Chico conhecia muito bem sua regiao e dominava a ativi- dade que praticou desde o nasci- mento. Mas, seguramente, esse 6 um mundo em extingio na Amaz6- na. Um observador mais atento ja poderia ter essa impressAo quando as remanescentes liderangas serin- gueiras se reuniram em 1985, em Brasilia, para fundar seu conseho national. Imaginavam ressuscitar a mfstica do Ex6rcito da Borracha, uma invenio publicitAria para disfarcar o trabalho semi-escravo imposto aos nordestnos nos altos rios amaz6nicos. Fizeram-nos ima- ginar que, produzindo borracha nos confins da selva, seria como se estivessem nas frentes de combat da Segunda Guerra Mundial. Ficou esse espirito guerreiro, mas foi s6 o que ficou. A histdria da borracha na Amaz6nia vira sua pigina derra- deira, perdendo a competigEo in- terna para outros centros nacionais que, por ironia, n&o foram castiga- dos pela biologia vegetal que con- dena o adensamento de serin- gueiras amaz6nicas A dizimaglo em seu habitat natural. Chico Men- des poderia ser a ponte entire esse capftulo e os novos, que estio sen- do escritos. Mas 6 dificil que con- siga esse f61ego senlo nas piginas e na retdrica de seus ahados es- trangeiros, nem sempre despren- didos ou desinteressados. Infeliz- mente ele tinha razio quando dis- pensava a aureola de herdi e pedia tempo para viver. Nao Ihe deram. As vozes da terra Um dos fatores que contribuiu mais decisivamente para apro- fundar a distAncia entire o Brasil e os Estados Unidos, pauses que comegaram suas histdrias quase ao mesmo tempo, foi a manuten- gio de uma estrutura agrAria ar- caica no primeiro e a moderniza- glo rural no segundo. Abraham Lincoln, um dos pais da patria americana, promo- veu, na segunda metade do s6culo 19, uma reform agrdria prdvia nas areas de expansion da produ- glo agricola do pafs, o Homstead Act, que permitiu a multiplicaglo e a demociatiza~io das proprie- dades. O Brasil sempre foi o pals dos latifdndios improdutivos. Significativo 6 o fato de que houve mais progress no campo brasileiro, algo assemelhavel ao que aconteceu nos EUA, durante o perfodo em que os solfcitos cdes de guard do patriarcado ru- ral, os advogados, nio inventa- ram leis para atrelar a dinAmica social ao juridicismo imobilizan- te. Foi entire 1822 e 1856, quando foi editada a primeira Lei de Ter- ras (enquanto Lincoln consagrava o princfpio da posse sobre a pro- priedade). O recent decreto que os de- putados estaduais aprovaram, obrigando a rede bancdria a de- volver correaio monetiria e juros mensais pagos por proprietarios rurais por crdditos que tomaram a partir de 1979, 6 uma prova da incrfvel persistencia dos privil6- gios de um sistema produtivo ob- soleto. O decreto representaria um 6nus de 127 bilh6es de ddla- res, o equivalent a toda a dfvida externa brasileira, a maior do planet, dos quais US$ 97 bilh6es sairiam dos cofres do Banco do Brasil (responsAvel por 75% do cr6dito rural), que, sacando tudo o que tem, inclusive valores in- disponfveis, sd obteria 2/3 do valor exigido. Diz-se que os deputados nio votaram para valer o decreto, que serd usado como instrument de pressio para forgar o BB a per- doar dfvida de US$ 1 bilhio de 30 mil produtores inadimplentes. Mas o resultado desse estratage- ma mostra a extension do poder dos homes do campo e o despre- paro dos politicos para serem re- presentantes de toda a sociedade (e nao apenas da parcel mais poderosa dela) e exercerem o po- der arbitral do legislative. Jornmal ssoal I Ajl lir I rc Juwr I Ano Fwoo PIn lutMUraWi I AIz Pio Rua ('amnpa Snri. 2M '4.OJO I.c 22111 9 (p5o IPOdilswir Inarcnn e lK dmi de AM Me FAimu. IrawM Ata CoIa. 16W. df. |
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