Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00086

Full Text






Journal Pessoal
E EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO

Ano VII* N- 119 e2Aquinzena de fevereiro de 1994 CR$ 300,00

CANDIDATE


Lula viu a Amazonia

Nenhum candidate a president esteve por tanto
tempo na Amaz6nia como Luis Inicio Lula
da Silva. Mas ele pode ter perdido o moment
de mudar sua visao sobre a region.


L uis Inacio Lula da, Silva
talvez tenha se transforma-
do no candidate & presid6n-
cia da Repdblica que mais
tempo esteve na Amaz6nia em
campanha eleitoral em todos os
tempos. Em tries etapas, peregri-
nou durante mais de tres semanas
por todas as unidades tederativas
da regiao. No ultimo segment da
viagem, conclufdo no infcio do
mes, a frente de uma caravan
composta por 100 pessoas, o can-
didato do PT passou 10 dias na-
vegando pelas aguas do rio Ama-
zonas, parando em 26 cidades e
vilas entire Manaus, ponto de


partida, e Beldm, ponto de che-
gada.
A Amaz6nia toda nio vai
muito aldm de 5% do col6gio
eleitoral brasileiro. Nio decide
vota;io, portanto. Se decidisse,
Lula teria sofrido uma derrota
muito mais dilatada para Fernan-
do Collor de Mello, quatro anos
atras. Foi na Amaz6nia que se re-
gistrou a maior vantagem alcan-
gada por Collor em todo o pafs.
A situaqio pode ter mudado
favoravelmente para Lula desde
entio. Mesmo assim, ele nio vi-
sou especificamente o eleitorado
amaz6nico cor essa excursio.


Buscava um sentido simb61ico,
uma cai-a de ressonfncia capaz
de miulitpiicar qualitativamente os
efeit(s quantitativos que Ihe po-
deria proporcionar a menos im-
portante, demogrAfica ou eleito-
ralmente falando, das regi6es
brasileiras.
Circunscrever a dltima etapa
da excursio a bacia do rio Ama-
zonas, nAo indo aldm de sua calha
central, a mais extensa e caudalo-
sa que hd na face do planet, se-
ria mais simbdlico ainda.
As vArzeas amaz6nicas nio
sao apenas fracamente habitadas.
Os polfticos da prdpria regilo





2 Jornal Pessoal


andam cada vez menos pelo eixo
central do grande rio e suas mar-
gens alagaveis. Preferem cortejar
as terras altas, cortadas por rodo-
vias. Desde a d6cada de 70 elas
experimental os mais expressi-
vos crescimentos demograficos,
gragas, sobretudo, a imigragio.
Dali sai muito mais voto do que
das varzeas.
O eixo da polftica Na bus-
ca dos mindrios sempre mais
abundantes das terras altas, o
pioneiro foi alterando a paisa-
gem, pondo abaixo a floresta ori-
ginal e substituindo-a por campos
de pastagem, cultivos agrfcolas,
cidades, hidrel6tricas, minas -
enfim, o cenario do Brasil mais
antigo, que ja ter pouca floresta
O mundo tipicamente ama-
z6nico, identificado com a hil6ia
que o cientista alemao Alexandre
von Humboldt batizou, sobrevive
nas varzeas. Elas podem repre-
sentar apenas 3% da Area ffsica
da Amaz6nia Legal e sAo inex-
pressivas demografica e economi-
camente. Mas tem um potential
fantastico, que sd se viabilizard,
entretanto, se o process de inte-
gragio econ6mica mudar de enfo-
que.
As varzeas slo as areas con-
tTnuas mais ricas da Amaz6nia,
adubadas naturalmente cor os
nutrients que o Amazonas ar-
rasta dos Andes e espalha pelas
suas margens. Cor sua dimensio
(nio menos que 150 mil quil6me-
tros quadrados), sio as dnicas
que podem contar para a produ-
gio de alimentos em alta escala e
com sustentabilidade. Sua utiliza-
4Ao mfnima talvez explique a pa-
radoxal situagio da fronteira
agrfcola do pafs (ao menos na
retdrica) nio conseguir assegurar
seu pr6prio abastecimento.
Durante toda a dpoca mais
recent de ocupacio, o dnico no-
vo projeto realizado nas varzeas
foi o arrozal do milionario norte-
americano Daniel Ludwig. O
projeto Jari foi uma bandeira na
luta das esquerdas contra o capi-
tal estrangeiro at6 1982, quando
o empreendimento foi nacionali-
zado is pressas. Desde entio o
Interesse pelo tenma refluiu, apa-
rentemente apenas pelos efeitos
mAgicos da substituigio de Lud-
wig (que morreu em 1992, corn
92 anos) por um cons6rcio for-
mado por 22 dos maiores grupos
empresariais brasileiros.
No reino de Ludwig Lula,
So olior lfder das esquerdas no


moment, chegou ao Jari 11 anos
ap6s a nacionalizagio e 29 anos
depois que Ludwig se estabeleceu
na area para produzir fibras e
grios, que imaginava virem a ser
as grandes demanadas da humani-
dade faminta. O lider metaldrgico
deveria ter parade no Jari durante
o percurso fluvial, mas acabou
sendo levado de aviio pela pr6-
pria empresa. Nada diferente da
visit de todos os outros polfticos
ou dirigentes pdblicos.
Atd um ano antes da safda de
Daniel Ludwig d Jari era um
mundo fechado, como se cons-
tuitufsse um pafs menor dentro do
pafs maior. Para chegar la o vi-
sitante dependia do transport da
empresa e ficava hospedado em
seu hotel. Hoje, Monte Dourado 6
quase uma cidade aberta, empe-
nhada em tornar-se distrito do
municfpio de Almeirim.
Se chegasse ao Jari pelo rio
Amazonas, como estava nos pla-
nos iniciais dos organizadores da
caravan (nao tao ambiciosos,
mas que acabaram levando a
contratagio de um barco por 32
mil ddlares para dar a Lula
o status de candidate presiden-
cial), o Ifder do PT iria se depa-
rar primeiro com o fracassado ar-
rozal de Ludwig, que custou US$
50 milh6es, deveria ser modelar e
hoje nada mais 6 do que escom-
bros.
Erro de visao Mas 6 um
equfvoco deduzir desse fracasso
uma declaragio de insolvencia
das varzeas para o sistema de
produgAo modern. Essa Amaz6-
nia que a caravan petista viu
pode parecer anacr6nica, um
quisto medieval na seara do p6s-
moderno, mas se ha alguma di-
mensio especifica ou especial
nesta parte do globo terrestre, ela
esta nas varzeas, que realmente
representam um desafto a capaci-
dade do home modern.

Chegando de aviao, a via
traditional dos fugazes visitantes
do Jari, Lula trouxe da area as
inevitiveis impresses do pri-
meiro contato. Surpreendido corn
o que viu, falou como se a histd-
ria do Jari tivesse comerado no
moment mesmo de sua visit,
ignorando um vasto acervo de
cultural (ou massa crftica) criada
em torno do empreendimento.
Lula declarou, ja em Beldm,
que o Jari "nao 6 mais o enclave
norte-americano na Amaz6nia" e
elogiou os novos p~irepetarios. a


trente o grupo Caemi to lualor
parceiro brasileiro do capital es-
trangeiro), por ter dado um mdl-
tiplo aproveitamento a area, como
se nela, antes, houvesse apenas
monocultura.
Na verdade, basicamente, o
Jari continue o mesmo da 6poca
de Ludwig: plant arvores ex6ti-
cas para produzir celulose, extrai
e process caulim, lavra bauxita
retratcria e desenvolve algumas
atividades de sustentacgo ou sub-
sistancia, como a criagio de bd-
talo.
Certamente o empreendi-
mento esta mais enxuto do que na
epoca de Ludwig. O mando que o
milionario americano exercia,
extremamente verticalizado e in-
dividualizado, era uma das causes
da irracionalidade do projeto, de
seus gastos excessivos. Mas as
alterac6es introduzidas nao muda-
ram a configuragio essential do
projeto.
Houve, sim, uma transforma-
gao profunda, sobre a qual Lula
nio se referiu (por nao saber ou
por ser desinteressante em sua
atual fase soft). Antes, o dinheiro
que mantinha o Jari safa dos bol-
sos de Ludwig ou dos banqueiros
que o financiavam. Saiu tanto
e tio descontroladamente que ele
decidiu nAo pagar a primeira par-
cela do emprdstimo japones de
US$ 200 milh6es, que venceu em
1981.
Essa recusa criou panico no
governor e na iniciativa privada.
Se Ludwig nao honrasse esse
compromisso financeiro interna-
cional, o famoso projeto teria que
ser estatizado. E que o aval fora
dado pelo BNDES, corn garantia
do tesouro national. Para se res-
sarcir, o banco ficaria corn toda a
propriedade, dada em hipoteca.
Para nao ocorrer a estatiza-
gao, a privatizacgo foi providen-
ciada, a toque de caixa. Mas, pa-
ra cumprir os contratos, BNDES
e Banco do Brasil tiveram que
despejar algo como US$ 500 mi-
lh6es no Jari, sem retorno, numa
das maiores transferencias de di-
nheiro pdblico para uma empresa
privada na hist6ria do pals.
Nao 6 provavel que esse mo-
delo seja considerado inspirador
para o program de governor do
PT, mas Lula nada disse a res-
peito, nem evidentemente Ihe
foi perguntado. Se 6 assim que o
PT pretend nacionalizar, entio 6
melhor deixar como esta. Sai
mais barato.






Jornal Pessoal 3


SEPARAQAO


Um caso de amor no final


O governador Jader Barbalho
surpreendeu muitos dos
convidados ao casamento
da filha do chefe de sua
Casa Civil, deputado Manoel Ri-
beiro, no mes passado, aparecen-
do sem a companhia de sua espo-
sa, Elcione. Jader assumia de pd-
blico, pela primeira vez, sem pre-
cisar fazer qualquer declaragao
formal, o que ja era realidade
desde o mes anterior: o governa-
dor e a primeira dama, apds 24
anos de casamento, haviam se se-
parado.
A iniciativa fora de Elcione,
que deixou a resid6ncia official da
granja do Icuf e passou a morar
na cobertura do ediffcio A. M.
Fidalgo, na rua 9 de Janeiro, ao
lado do Museu Goeldi, proprie-
dade particular do casal. Foi uma
decisao que surpreendeu os ami-
gos mais fntimos e, talvez, o prd-
prio marido. Ao long de quatro
anos, Elcione tentou absorver
o impact de saber da paixao do
marido por uma sobrinha dela,
Mdrcia Centeno, 20 anos mais
nova do que Jader, e reconquistar
o companheiro de 30 anos.
Reconhecida e admirada por
sua personalidade forte, Elcione
alternou moments de depression,
que a prostravam no fund de
uma rede, corn fases de recupera-
gao e otimismo, que a levaram a
fazer cirurgias plisticas e a bus-
car a constant companhia do ma-
rido para afastar a concorrente.
Mas sua situagao nao apresentava
melhoras. Ficava sabendo, at6 por
parents da pr6pria MArcia, das
viagens que ela fazia para en-
contrar-se corn o governador fora
do ParA e do espago que ia con-
quistando na vida de Jader.
No final do ano passado,
quando jA fazia viagens solitarias
no cumprimento de suas funq6es
de primeira dama e responsavel
pela agio social do governor, El-
cione decidiu voltar para o lu-
xuoso apartamento duplex, dei-
xando o casal de filhos Jaderzi-
nho e Helder no Icuf corn Jader
(mas depois tendo a constant
companhia de Helder).
Explicou para os amigos que
precisava ficar um tempo sozinha
para decidir sua vida. No infcio
recebia visits do marido, mas os
contatos foram se espagando e ra-


reando. Quando Jader foi ao ca-
samento da filha de Manoel Ri-
beiro, ele e a mulher jA estavam
vivendo independentemente.
Enfrentando a realidade -
Para todos os efeitos legais, Jader
e Elcione continuam casados, mas
ela preferiu romper as falsas apa-
rencias da vida em comum, que
alguns casais preferem adotar pa-
ra manter uma relagso contratual
e familiar que Ihes interessa (co-
mo ocorreu cor Alacid e Marilda
Nunes).
NAo que Elcione ja esteja
preparada para enfrentar a nova
situagdo: a menor refer6ncia a
interesses da imprensa pelo caso
a deprime e angustia. Ela ficou
desesperada ao saber que o mari-
do havia admitido para um jorna-
lista sua separag~o e anunciado a
disposigLo de assumir a nova
companhia, mais um dentre os
muitos boats que circulam pela
cidade sem harmonia com a reali-
dade, no velho process em que a
version vale mais do que os fatos.
Na verdade, tanto Jader
quanto Elcione adotaram um pro-
cedimento comum para preser-
vd-los de maiores desgastes. A
primeira dama interrompe qual-
quer conversa que se dirija para
crfticas ao marido. Pelo menos
uma vez chegou a gritar corn
amigas que Eentaram quebrar essa
regra. Da mesma maneira, o go-
vernador chega A rispidez quando
provocado a se manifestar sobre
seus problems conjugais.
Foi assim que se comportou
cor um enviado especial da re-
vista Veja, que no ano passado o
abordou a respeito durante uma
entrevista na sede administrative
do governor, na rodovia Augusto
Montenegro. Sem esperar ouvir
nova pergunta, Jader deu a entre-
vista per encerrada.
Nesse ponto, a posigao do
casal ter dado bons resultados.
Veja acabou nao publicando a
mat6ria que motivara o desloca-
mento do reporter do Nordeste
para Bel6m, assim como a Folha
de S. Paulo aparentemente perdeu
o interesse pelo tema. Mas uma
nota saiu no Correio Braziliense
e constantemente o Jornal Popu-
lar public notas debochadas so-
bre o conflito triangular, que ali-
mentam conversas de alcova e de


gabinete recheadas de fantasias.
Assim, se o assunto perma-
nece praticamente interditado na
grande imprensa, que parece in-
capaz de aborda-lo com seriedade
e respeito, mas tamb6m atendendo
a parte legftima do interesse da
opiniao pdblica, as fofocas cor-
rem solto, talvez machucando
mais do que um noticidrio produ-
zido com rigor tdcnico. Crises
conjugais envolvendo persona-
gens pdblicos sAo notfcia em
qualquer parte do mundo, do pri-
meiro ao quarto nfvel, tanto pela
imprensa considerada s6ria
quanto e inevitavelmente pela
marrom, sensacionalista. Quando
Elcione decidiu-se pela separagao
de corpos, que 6 a definigAo legal
para sua relagao atual cor Jader,
deu, ainda que por via indireta
e involuntaria, a liberaago derra-
deira para a imprensa noticiar os
fatos, acabando cor o monop6lio
da maledicencia.
Hist6ria romantica O dra-
ma vivido pelo casal tem compo-
nentes que legitimam a curiosida-
de pdblica. Jader e Elcione for-
mavam o tfpico e cada vez mais
raro casal perfeito, sem as as-
pas que cabe apor a muitas rela-
g6es que dessa maneira se apre-
sentam a sociedade. A ligagao se
estabeleceu ainda na primeira ju-
ventude, quando os dois eram
estudantes secundaristas. Um
long namoro fluiu naturalmente
para um casamento que se mante-
ve cor poucas alterag6es no cur-
so de duas d6cadas.
Elcione fazia justiga ao ve-
lho brocado segundo o qual um
home nao consegue realizar-se e
executar faganhas sem uma gran-
de mulher por trAs de si. Boa
parte do sucesso do polftico Jader
Barbalho deve ser a ela credita-
do, sobretudo nas dltimas elei-
96es para governador, quando ele
jd estava de romance cor a so-
brinha.
Mas taib6m Jader era um
exemplo de marido perfeito,
atento e dedicado, que impressio-
nava por essa fidelidade at6 no
cfrculo mais fntimo. Um desses
amigos conta que As vezes convi-
davam o governador para algum
program noturno, mas ele sem-
pre recusava. Histdrias sobre re-
lacionamentos extra-conjugais.






4 Jornal Pessoal


um dos quais com a cantora Fafa
de Beldm, nunca foram confirma-
dos factualmente. "Jader sempre
viveu para a Elcione", garante
um dos amigos, hoje afastado do
grupo in pectori.
Desde os bancos escolares, a
maior parte do tempo de Jader
Barbalho sempre foi dedicada a
polftica, diretriz que Elcione
aceitou e incorporou a sua pr6-
pria vida, transformando-a numa
extensio das exigencias do mari-
do. Demarcado por essa dedica-
cgo exclusive, a polftica e a fa-
mflia, Jader desenvolveu a argd-
cia e a firmeza de vontade, mas
permaneceu ne6fito em temas e
situag6es frequentes na esfera de
sua atuagio, a cdpula da elite.
Para os mais proximos, sem-
pre manifestou horror pela desen-
voltura do atual deputado federal
Alacid Nunes, que foi seu aliado
no infcio da d6acada de 80 (e Ihe
permitiu veneer a primeira elei-
cio para o governor Jader consi-
derava inaceitavel que Alacid ti-
vesse uma vida extra-conjugal tAo
agitada, s6 nio tornada mais pd-
blica porque a esposa, Marilda,
mantinha corn mao f6rrea o domf-
nio da famflia e preferia nio ir
aldm dos limits do lar, preser-
vando-o dos dissabores da vida
pdblica.
No .pr6prio PSD (o extinto
Partido Social Democratico), on-
de estAo plantadas suas rafzes
polfticas, Jader encontrou uma
situagio que mereceria seu repd-
dio. Magalhaes Barata, o polftico
que por mais tempo deteve o po-
der na repdblica paraense, viveu
seus dltimos anos cor uma mu-
Iher que nio era sua esposa, Da-
lila Ohana, sem assumir oficial-
mente essa relaqgo Quando mor-
reu, Dalila, que acompanhara Ba-
rata na fase mais diffcil, foi pra-
ticamente expulsa da casa do
companheiro para que a famflia
legal a ocupasse e assim o gover-
nador fosse enterrado sem pertur-
bagdo as formalidades de estilo.
Depois, Dalila escreveria um li-
vro pat6tico e comovido ("Eu e
as dltimas 72 horas de Magalhaes
Barata") para defender seus di-
reitos.
Vulnerabilidade Mas se
tudo indicava que o casal Jader-
Elcione resistiria as intempdries
do casamento, a realidade mostra-
ria a incapacidade do governador
de resistir a algo que nao consta-
va de sua biografia, nem fazia
parte de suas expectativas de vi-


da: uma paixao inesperada. Para
injustigar o padrao retilfneo que
seguira at6 entao, Jader se apai-
xonou pela filha de uma irma de
sua mulher, que, segundo a nota
publicada no "Correio Brazilien-
se", foi dama de honra do casa-
mento dos tios.
A relaaio teria comegado
quando Jader era ministry da Pre-
videncia Social na administration
Sarney (embora alguns insistam
em data-la ainda no primeiro go-
verno de Jader). Marcia Centeno
estava separada do marido, corn
quem casou muito cedo, e tinha
uma filha (hoje corn sete anos).
Asssessores particulares do
governador faziam malabarismos
para permitir encontros dos dois,
mas logo a relaago foi descoberta
por Elcione, tambem porque o
marido foi se expondo. Jader em-
penhou-se pessoalmente para que
o projeto de um ranario, de pro-
priedade de Marcia, fosse apro-
vado pela Sudam. A criaqAo de
ras, em Icoaraci, 6 a atividade
econdmica de sustentagio de
Marcia, que deixou a companhia
dos pais e mora agora num apar-
tamento proprio, de classes m6dia
alta, no bairro do Jurunas.
No final do ano passado,
pela primeira vez Jader apareceu
em pdblico na companhia de Mar-
cia. Foi na praia do Atalaia ve-
Iho, em Salinas, enquanto Elcione
ficava do outro lado da praia, os
dois no mesmo local, mas moran-
do em casas distintas (o governa-
dor na residencia official e a pri-
meira dama na casa adquirida do
tio de Jader, o m6dico Lourival
Barbalho). Talvez tenha sido esse
o fator derradeiro que levou El-
cione a dar o pass que at6 entao
vinha evitando, embora tudo in-
dique que ela ainda nao desistiu
de recompor o casamento.
O abalo Jader, que at6 en-
tao parecia seguro do caminho
que estava seguindo para consti-
tuir nova relacfo conjugal, deu
sinais de abalo. As pessoas que
tmr convivido cor ele nos dlti-
mos tempos notam-no ora mais
distrafdo, ora irritado, impacien-
te, indisposto a absorver as des-
gastantes conversas com polfticos
interioranos, fundamentals nesse
perfodo prd-eleitoral.
No casamento da filha de
Manoel Ribeiro o governador es-
tava acabrunhado, mal acomoda-
do na condiaio de solteiro, para
todos os efeitos prAticos, o ,que
nao foi atenuado muito pelo


contrArio pela companhia do vi-
ce-governador Carlos Santos,
tamb6m separado da mulher,
Agazil, de forma bern menos pa-
cffica. Deve ter servido de alfvio
para Jader o vice nao haver pas-
sado da cerim6nia religiosa para
a recepg~o.
Um ex-casado costuma dizer,
do alto de uma vasta experi8ncia,
que nas separa;6es de casais
quem perde, perde; quem ganha,
nao leva. O principal casal do Pa-
ra vive agora esse inc6modo lim-
bo: apurar os danos e tentar deli-
near os rumos. Elcione ja esta em
campanha para a Camara Federal.
O resultado vai defender menos
da votaqAo do que da desincom-
patibilizagao do marido.
Caso Jader permanega no
governor depois de 2 de abril, ela
sd podera sair candidate se as
atuais disposig6es legais forem
modificadas. A hipdtese mais
provavel de mudanra 6 a redugAo
do prazo de desincompatibiliza-
qAo dos ocupantes de cargos exe-
cutivos, dos atuais seis meses pa-
ra propostos tres meses, o que
ainda daria tempo para Jader tra-
balhar sua candidatura ao senado
sem precisar desligar-se da ma-
quina official. Se essa alteracao
nao for feita e ele' no deixar o
governor, Elcione nao poderA dis-
putar a eleiqao de outubro.
Os amigos que transitam corn
mais desenvoltura entire os dois
garantem que Jader ja decidiu ser
candidate, ao governor (corn no-
vas regras) ou ao senado (manti-
das as atuais disposig6es). Pela
primeira vez ele tera Elcione nao
mais na retaguarda, mas na linha
de frente e ja nao mais como a
companheira de todos os mo-
mentos. Ela podera inaugural uma
nova lideranga polftica no Esta-
do.
Mas o que poderia ser uma
trag6dia insanavel esta evoluindo
corn um mfnimo de danos atd ago-
ra gragas ao nfvel de entendi-
mento e de respeito que Jader e
Elcione tem conseguido manter,
um equilibrio tanto mais diffcil
por criar constrangimentos dentro
de ambas as famflias.
Confirmada a separacao (u-
ma tendAncia sinalizada pela
crescente influencia de Marcia
Centeno, que agora 6 procurada
pelos mais bem informados, que
querem chegar ao governador por
via direta), sera precise dar o
pass seguinte: fazer a partilha
de um grande patrim6nio dividido






Journal Pessoal 5


ao meio (pelo casamento em co-
munhio de bens), apesar de al-
gumas sutilezas jurfdicas que a
distribuigAo dos bens pode acar-
retar.
O grande teste- Essa evolu-
cao pacffica vai enfrentar seu
maior teste durante a campanha
eleitoral. Os inimigos de Jader
certamente aproveitarAo o tema
como mote de ataque, utilizando
a difusao de boatos sem respaldo
nos fatos (como a morte de um
PM atingido por tiro que Elcione
teria disparado contra o governa-
dor durante discussao na granja
do Icuf, ou uma nova gravidez de
Mdrcia). Mas cor sua decisao de
tornar pdblica uma situagio que
ji existia na intimidade, Elcione
pode ter dado uma grande contri-
buigAo para preservar o casal do
lodagal em que dramas desse tipo
costumam transformar-se em fases
de paix6es exacerbadas como nas
eleigo6es, ainda que venha a pa-
gar um prego pessoalmente muito
oneroso.
Afinal, depois de tr6s d6ca-
das de dedicagAo mdtua, Jader
Barbalho e Elcione Zaluth tern o
direito, se assim desejarem, a um
final, senAo feliz, ao menos de-
cente e digno.


A political

e a cultural

Quem pode ser contra a recu-
peragAo do PalAcio Lauro So-
dr6, um dos mais preciosos pro-
jetos arquitet6nicos do italiano
Antonio Landi, construfdo no fi-
nal do sdculo 18 em Beldm?
Aparentemente, ningudm. Mas
uma polemica mal posta colocou
em extremes opostos o governor
do Estado, dono do imdvel, e o
Institute Brasileiro do Patrim6nio
Cultural, responsivel pela inte-
gridade do pr6dio, tombado hd 20
anos pelo prdprio IBPC (na 6po-
ca, SPHAN).
No dia 8 o coordenador regional
do institute, Paulo Chaves Fer-
nandes, fez pessoalmente a inter-
dicio administrative do paldcio,
que at6 recentemente serviu de
sede ao governor estadual. Em se-
guida, pediu ao Minist6rio Pdbli-
co federal a interdi~io judicial,
alegando que, sem acatar sua de-
cis.o, a Secretaria de Viago e
Obras Pdblicas prosseguira corn
as obras.
Paulo Chaves, polemica fi-
gura de arquiteto e militant po-


Iftico, declara que a intervencao
do governor no palacio 6 illegal
porque a obra esta sendo condu-
zida sem obedecer a um projeto
de restauracgo, "tanto de arqui-
tetura quanto os complementa-
res". O IBPC nao liberou as
obras, sem o que elas nao pode-
riam ser exeutadas, e o prdprio
coordenador constatou os prejuf-
zos causados ao prddio histdrico
por servings realizados sem
orientaago tecnica adequada.
Na vistoria, Paulo Chaves
verificou, entire vdrias aberra-
96es, que as pinturas originals
estavam sendo sepultadas sob
camadas de tinta acrflica, nao re-
comendavel, vaos originals esta-
vam sendo tapados, enquanto bu-
racos eram abertos na parede para
a construgio de banheiros, o piso
estava sendo substituido com
perda de qualidade, cimento foi
colocado sobre o estuque original
das paredes.
Obra political As observa-
g6es contidas no relat6rio de
victoria atestam a press e a falta
de uma visio geral da obra que
caracterizariam a suposta recupe-
raqgo do palacio. Os servigos nio
poderiam permitir que ali passas-
se a funcionar o museu do Esta-
do, como pomposamente o gover-
no declarou pretender usar o lo-
cal.
Paulo sustenta a ilegalidade
da obra, descartando o document
que o governor apresentou como
prova de que contaria cor licen-
ciamento desde 1991. 0 que hou-
ve, na verdade, foi uma simples
solicitaqio de vistoria apresenta-
da pelo secretArio de obras, Paulo
Sdrgio Nascimento, ao entao co-
ordenador do IBPC, Jorge De-
renji.
O parecer tdcnico produzido
na ocasiAo pelo arquiteto Cristd-
vio Duarte atestou a existencia
de problems, sobretudo no te-
lhado do palacio, mas nao o bas-
tante para justificar uma recupe-
rag~o complete, nem significavam
a aprovagio de um projeto, que
nAo foi elaborado. Sugest6es fei-
tas pelo arquiteto La Rocque Soa-
res tambdm nao supriam essa la-
cuna.
O governor nfo podia tomar
esses pap6is como liberagqo, nem
utilizd-los para dispenser de lici-
tagio ptblica um contrato no va-
lor de 2 milh6es de d6lares, fir-
mado corn a construtora Monte-,
mil, que vai muito aldm de atacar
os problems apontados paia ser


uma ampla recuperagao.
0 governor interpretou a afio
do coordenador regional do IBPC
como um ato politico. Um dos as-
sessores pessoais mais influentes
junto ao senador Almir Gabriel,
do PSDB, Paulo Chaves Fernan-
des estaria querendo criar com-
plicadores politicos para o gover-
nador.
O fator press Jader Bar-
balho provavelmente pretend
obter os dividends que o pre-
feito Helio Gueiros conseguiu
cor a reinaugraago do palacio
Antonio Lemos, reabrindo o Lan-
ro Sodrd a 15 de margo, quando
comemora tres anos de mandate,
e usando-o como museum. A ilaaio
polftica seria ainda mais forte
considerando-se a alianga entire
Almir Gabriel e Helio Gueiros.
Independentemente desse
fator politico conjuntural, que te-
ria levado Paulo Chaves a inves-
tir contra as obras irregulares
oito meses depois de assumir o
IBPC, as quest6es por ele susci-
tadas sao procedentes. Se a recu-
peraq&o do Lauro Sodr6 continuar
a ser feita como ate agora ter si-
do, aumentard ainda mais a des-
caracterizagio que o belo prddio
ter sofrido, sobretudo a partir da
administragio de Augusto Monte-
negro, no infcio do s6culo.
O prazo para a conclusao
dos trabalhos, ate o dia 15 de
margo, 6 exfguo demais para que
eles se desenvolvam acataudo as
normas t6cnicas e respeitando as
linhas originals do palAcio. Fla-
grado em falta, o governor decidiu
simplesmente incorporar a inter-
preta io polftica e atropelar o
coordenador do IBPC, recorrendo
diretamente a Brasflia e fazendo
o president do institute, de 16,
retirar o embargo judicial, sem
ouvir seu representante local.
Deixou de se interessar pelo me-
rito da questio para mostrar forga
num provinciano jogo de pressao.
As obras prosseguem, os
embargos podem cair de vez, o
incdmodo (ou irritante, conforme
a 6tica) coordenador, apontado
como inimigo, poderA ser afasta-
do do cargo e o prddio reinaugu-
rado na data estabelecida, mas a
vitdria poderA ser de Pirro.
E claro que, depois do fo-
guet6rio do Antonio Lemos, o
governador pode se considerar no
direito de nao ter sua festa com-
prometida. Mas justamente por-
que a reativagio do palacio muni-
cipal, ao impressionante custo de






6 Jornal Pessoal


US$ 8,3 milh6es, despertou as
consciencias, depois que a fanta-
sia caiu, para os inconvenientes
das injung~es polfticas sobre as
ag6es culturais (e estas decididas
sem maior questionamento), o
governor poderia mostrar que,
apesar da tentagao populist e
publicitaria, sabe aprender as li-
q6es e corrigir os defeitos, agin-
do cor seriedade e visando o in-
teresse da coletividade e nio de
seu eventual representante polfti-
co. Infelizmente, ainda nAo sera
desta vez que se tera um exemplo
dignificante para apontar como
saudavel exceg9o.

Fil6sofo

6 poets

O silencio de um frio fim de
noite pelas ruas desertas de
Barcelona parecia ser um cendrio
adequado para o que o paulista
Jos6 de Souza Martins, um dos
mais festejados nomes da socio-
logia rural no Brasil, estava me
dizendo. Nio lembro exatamente
por qu6 havfamos levado o nosso
papo vadio at6 a figure de Martin
Heidegger. Mas ambos partilhL-
vamos. a dificuldade de enfrentar
a leitura do fil6sofo alem&o, con-
siderado um dos mais importantes
deste s6culo.
Ou nao estavamos suficien-
temente adestrados nos mist6rios
do filosofar, ou havia alguma
coisa an6mala nas elucubrac6es
de Heidegger que escapava a nos-
sa percepgio. Na primeira hip6te-
se, talvez estiv6ssemos nos con-
dicionando pela fama do fil6sofo.
Quanto a segunda, talvez fosse
recomendavel manter a descon-
fianga (ou o ceticismo, para ser
mais rigoroso) e tratar de encon-
trar sustentagao tedrica para nos-
sa reacao.
Nao 6 muito diffcil chegar a
ela. Martins e eu, admiradores de
Henri Lefebvre, jA navegamos
pelas aguas mais calidas da Meta-
filosofia desse fino intellectual,
injustamente deixado de lado. A
bibliografia a respeito 6 vasta,
mas podemos percorr6-la e nio
sair do "estado de sedugao em-
baragosa, ou de embaraco sedu-
cente" em que admite se encon-
trar Benedito Nunes.
Mas ao menos Benedito foi
aldm da nossa condirao estatica
para fazer de Heidegger o tema
central de No tempo do niilismo -
e outros ensaios (Editora Atica,


Sio Paulo, 199 pAginas), seu
mais recent livro, langado no fi-
nal do ano passado. Sao textos
curtos escritos ao long de 19
anos para tender distintas de-
mandas (de publicag6es academi-
caS a jornais estudantis), puxados
por uma espdcie de p6s-escrito
a Passagem para o podtico (filo-
sofia e poesia em Heidegger), a
mais profunda incursao de Bene-
dito ao tema, publicada sete anos
antes. Para garantir a consisten-
cia de sua reflexio e sua capaci-
dade de enfrentar qualquer pdbli-
co, ele inspecionou uma biblio-
grafia em seis lfnguas com sua
costumeira acuidade e a vastidao
de sua compet6ncia (al6m da filo-
sofia, a literature e a est6tica for-
neceram-lhe matdria-prima).
Altura filosafica Trata-se
de um tema inesgotavel, como
modestamente Benedito trata de
advertir, lembrando que Heideg-
ger foi um pensador "que se ex-
tremou no deslinde de um niesmo
problema a questAo do ser -
percorrendo uma s6 e embfgua
trajet6ria entire a Filosofia da
qual partiu e a nao-Filosofia &
qual chegou".
Apesar dessa unicidade te-
matica, o pensamento de Heideg-
ger 6 um "escarpado bloco" a
desafiar a capacidade de quem
possa escalar um pensamento ori-
gindrio da metaffsica, mas que
a transcendeu, ou renovou, indo
muito al6m de suas fontes de ins-
piragBo, remotas ou imediatas,
para fundar as bases de um novo
tipo de niilismo (o estado de es-
pfrito da modernidade), ou, como
diz Benedito, um "niilismo ati-
vo"
De sua base operacional em
Bel6m do Pard, ele tenta separar
o joio do trigo na analise dos
ataques feitos a Heidegger por
sua associaglo ao nazismo, ten-
tando delimitar a compreensao
pelo prdprio raciocfnio do fildso-
fo, sem se empobrecer, entretan-
to, numa mera exegese de defesa.

Nem sempre os arguments
de Benedito sao convincentes ou
compreensfveis pelo nao-iniciado,
mas seu texto eleva e enleva, al-
gumas vezes dissociando-se de
seu pr6prio nexo para chegar a
culminancia sensorial do pensar
que a2roxima a filosofia da poe-
sia, uma realizagao rara que colo-
ca o fil6sofo paraense num lugar
especial, dos verdadeiros criado-
res.


Em baixa

O senador Fernando Coutinho
Jorge, que esta em campanha
para ser o candidate do PMDB ao
governor do Estado, pode ter per-
dido pontos junto ao patrono da
escolha, o governador Jader Bar-
balho. No dia 3, Coutinho foi
visto, no plenario do Congresso,
abragando e tentando dar can-
dentes explicag6es ao lfder do
governor no Senado, Pedro Simon.
Na v6spera o governador
disparara um telegram atacando
peemedebistas, como Simo que
querem buscar um candidao a
presidencia da Repdblica foray do
partido. Ver o senador paraense
tentando justificar-se junto ao al-
vo do ataque foi interpretado pelo
observador como jogo duplo, o
mesmo de que Coutinho foi acu-
sado por desafetos de praticar
quando tentou continuar na ad-
minstra&io Itamar Franco sem se
indispor com o governador, que
havia atacado o governor federal.
Se age assim porque crA na
independ6ncia, o senador Couti-
nho Jorge esta em bom caminho.


0 autor

Um membro da administragao
estadual tern uma justifica na
ponta da lfngua para explicar a
aparente contradigio do governa-
dor Jader Barbalho, que quer um
nome do PMDB como candidate
do partido a presid6ncia da Re-
pdblica e vai buscar no PPR um
nome para a dispute do governor
do Estado:
- E que aqui a situagao 6 bem di-
ferente.
A histdria 6 escrita pelos vence-
dores.

Ferro frio

pesar de ser a maior vendedo-
ra de mindrio de ferro do
mundo, a Companhia Vale do Rio
Doce teve que dar um desconto
de 7,6% aos compradores de seu
produto no Japao, forgada por
uma concorrente australiana, a
Hamersly Iron. Durante o ano-
fiscal de 1994 (que comegard no
dia 1" de abril e se estendera at6
31 de margo de 1995), o prego
mrdio sera de US$ 15,43 (FOB),
contra US$ 16,7 no ano anterior.
Com essa redugao de preco,
Carajas perdera US$ 26 milh6es.





Journal Pessoal 7


A historic

do cobre

E m 1982 o Brasil inaugurou sua
primcira fbrica de cobre eletrolf-
tico. Iniciada pelo playboy milionlrio
Baby Pignatary, que quebmon em
1974, foi conclufda pelo BNDES
(Banco Nacional de Desenvolvimento
Econ6mico Social), que entrou no ne-
gdcio por ordem do general Ernesto
Geisel, president da Repdblica na
epoca.
Quando passou em frente o em-
preendimento, Pignatary justificou a
estatizafo em geral rejeitada pelos
empresarios dizendo que a fdbrica
eliminaria a depend6ncia brasileira
das importages de cobre, principal-
mente do Chile e do Peru, e que a ja-
zida, localizada no interior da Bahia,
garantiria long vida & metaldrgica da
Carafba Metals. Teria, portanto, im-
portfncia estrategica, tornando-se
questao de Estado.
Mas a rica jazida apresentada
pelo playbou ao BNDES era uma far-
sa. A Carafba precisou importer 75%
do concentrado de cobre de que preci-
sava. 0 Brasil continuou comprando
It fora tanto concentrado quanto me-
tal. No dia da inauguraglo da fibrica,
a 400 quil6metros de Salvador, o
BNDES havia enterrado 1,3 bilhao de
ddlares no empreendnmento, sendo
US$ 700 milh6es na metalurgia e US$
600 milh6es na minerac~o, ujma rela-
gao de investimento claramente an6-
mala. 0 negdcio, porm, nao apre-
sentava qualquer horizonte de viabili-
dade.
Seis anos depois o governor Sar-
ney decidiu privatizar a Carafba, mas
para isso dividiu-a em duas. A parte
industrial foi vendida a particulares,
que, agora, tmn uma fdbrica capaz de
operar corn lucro. A mineragro conti-
nua nas maos do powder pdblico como
uma batata quente que queima as re-
servas do erdrio. Apresenta um saldo
negative que ultrapassou a marca do
bilhio de ddlares. Esse dinheiro ja-
mais sera recuperado porque o tempo
de vida da mina se esgotars ainda
nesta ddcada de 90.
A volta do Brasil a uma situagao
de dependencia em relagro ao cobre
semelhante & que existia antes do sur-
gimento da Caraiba Metals sd ser6
evitada porque ainda nesta ddcada de-
vera comegar a funcionar a segunda
fabrica de cobre do pafs. Ela tambnm
esta sendo implantada no sertro, nao
do Leste brasileiro, mas no Pard, com
capacidade nominal equivalent i da
Caralba, mas corn uma jazida que lhe


garante vida dtil de pelo menos 25
anos.
O projeto, que prev6 investi-
mento de US$ 765 milh6es, vinha
sendo conduzido exclusivamente pela
Companhia Vale do Rio Doce, na
provfncia mineral de Carajds. Mas re-
centemente a poderosa multinational
Anglo American se associou ao negd-
cio, atrafda tanto pelas condio6es pri-
vilegiadas que o mercado de cobre
oferece aos fornecedores finala, ape-
nas dois para tender a pelo menos
150 mil consumidores), como pelo
subproduto nobre da metalurgia: o ou-
ro.
Para uma produgio de 152 mil
toneladas de cobre methlico, preve-se
a extragio de 13 toneladas de ouro,
fazendo da mina do Salobo a maior
unidade individual de producao do
pafs. Desbancard dessa posicio a tra-
dicional mina de Morro Velho, em
Minas Gerais, tambdm controlada pela
Anglo American. Assim, a Anglo pu-
lard para a primeira posicgo no mer-
cado do ouro, muitos quilos acima da
pr6pria CVRD.
A metalurgia de cobre instalada
no coragko da floresta amaz6nica (que
esti sendo destrufda nessa regiao), a
900 quil6metros do literal, capaz de
faturar US$ 400 milh6es anuais, 4 um
fato expressive, mas pelo qual a opi-
nibo pdblica nio ten manifestado
qualquer interesse, indiferente ao sig-
nificado desse fato. A evolugao do
projeto Cobre tern sido descontfnua
desde o final da ddcada de 70, entire
moments de euforia e de depressAo,
por conta de incertezas em relagio ao
mercado international e da qualidade
da jazida, a princfpio questionada co-
me a de Pignatary.
Temia-se que o cobre de Carajds
fosse uma reedigio amaz6nica do
conto baiano da Caralba, mas no mo-
mento decisive de seu amadureci-
mento surgiu a Anglo American, dis-
posta a uma parceria com a estatal
CVRD para consolidar sua posiggo no
mercado do ouro e dividir o control
do cobre.
A histdria se parece ao que ocor-
reu com o alumfnio, hoje responsavel
pela principal atividade produtiva da
regilo. O Brasil dispunha, na Amaz6-
nia, de condig6es invejAveis para es-
tabelecer um novo eixo de influencia
no mercado mundial desse metal. Ti-
nha a terceira major reserve de bau-
xita, que 6 o mindrio do alumfnio,
fonte de energia barata e abundante
(na hidreldtrica de Tucuruf), espago
ffsico para absorver os efeitos negati-
vos do process industrial e mAo-de-
bra para dar competitividade ao pro-
duto.


Mas hoje o mercado do alumf-
nio, gragas sobretudo as contribuig6es
dos novos empreendimentos estabele-
cidos na area de jurisdigio do Pro-
grama Grande Carajds, estA carteliza-
do e sob o control de consumidores e
produtores internacionais, que fre-
quentemente se confundem na mesma
empresa.
O cobre pode ter o mesmo des-
fecho. No entanto, este capftulo da ri-
ca e dilacerante histdria recent da
Amaz6nia estA apenas comegando. A
no comego, pordm, que as coisas
costumam definir-se de forma irreme-
didvel. Sem uma radical alteragio de
curso, o cobre ird parar na mesma po-
sigio do alumfnio, ajudando a desba-
lancear as relag6es de troca da Ama-
z6nia com o mundo e cristalizando
sua posigio colonial, ou neocolonial,
como preferem os interpretes mais so-
fisticados.

O her6i de

alem-mar
N enhum personagem amaz6nico
deste s6culo conseguiu maior
notoriedade international do que o
seringueiro acreano Chico Mendes.
NAo bastou a fama, entretanto,
para que sua vida fosse preserva-
da. Seu assassinate, previamente
anunciado, consumou-se & vista de
dois soldados da Polfcia Militar
que Ihe davam protegio. O man-
dante e o executante do crime, pai
e filho, foram press, levados a
julgamento, condenados. Ficaram
encarcerados durante 26 meses. HA
quase um ano estAo foragidos, mas
todas as pessoas bern informadas
no Acre sabem que Darly e Darci
Alves da Silva vivem na Bolivia, do
outro lado da fronteira, de onde
ainda comandam seus negdcios.
Ambos slo migrants rdsticos
e violentos. Para eles, pAo 6 pio e
queijo 6 queijo. Chico Mendes era
um caboldo metido a best que se
opunha & derrubada da mata para
a formagio de pastagem e roga,
a dnica coisa que Darly e Darci sa-
biam fazer na vida. Para os pa-
dr6es da pequena Xapuri, eles
eram poderosos e temidos pela
violencia, trazida de Minas Gerais e
do Parand, pelos caminhos bramios
do sertAo.
Novos donos da terra que
chegavam ao Acre, uma floresta s6
at6 a nova corrida ao Oeste, esta-
vam acostumados a fazer valer sua
vontade. Mesmo porque sd come-
gou a haver alguma resistencia
quando, para os que haviam so-

~'A.





brevivido do passado, os serin-
gueiros, ver cairem as drvores da
borracha significava aceitar passi-
vamente a prdpria more.
Chico Mendes era um cabodo
astuto e valente. Queria ter condi-
gdes de continuar a viver na sua
Xapuri e para isso tinha que impe-
dir o avango das queimadas. Nunca
pretendeu ser herdi, nem liderar
um movimento mais amplo. Tinha
um senso da realidade muito me-
Ihor apurado do que o de seus en-
deusadores.
Chico Mendes dizia aos ami-
gos que sua more sd valeria a pe-
na se realmente foitalecesse a luta
dos seringueiros. Mas sua expe-
ri6ncia lhe ensinava o contrdrio:
"Ato pdblico e enterro numeroso
nao salvario a Amaz6nia", admi-
tia. Completados em dezembro
cinco anos de seu assassinate, o
que ele rendeu 6 glorioso apenas
nas elaborag6es mfticas produzidas
no exterior.
As poucas reserves extrati-
vistas legalmente reconhecidas sd
sobrevivem porque os comprado-
res de sua produqAo pagam al6m
do que ela efetivamente vale. O
prejufzo na relagdo commercial di-
reta 6 compensado por ganhos
promocionais e institucionais, a tal
da mais-valia relative que conta
cada vez mais no mundo das in-
formag6es. Quando essa vantage
desaparecer, as reserves extrati-
vistas tambdm desaparecerio, se
antes nio encontrarem uma outra
base de apoio. mais sdlida, que
nio seja a borracha.
Os seringueiros, companhei-
ros de Chico Mendes, talvez ainda
possam manter-se como uma boa
fonte de informag6es para ajudar a
desvendar certos segredos da flo-
resta, mas 6 pouco provavel que
tenham condio6es de participar do
novo process produtvo, intensive
em tecnologia ou capital, para o
qual mAo-de-obra nio especializa-
da conta pouco, quando conta al-
guma coisa. Podem servir de mas-
cotes ou emblemas, mas apenas
nessa exata media: por seu valor
simbdlico e n&o pelo uso que obje-
tivamente possam oferecer, exceto
se um program subsidiado su-
porte os custos e as does da tran-
sic(o para uma nova auvidade
produtiva, passage que eles, por
seus prdpnos meios, nio podem
promover.
Essa serventia lica clara no
pagamento antecipado dos direitos
de uso da histdria de Chico Mendes
no cinema, projeto que vem send
adiado ano apds ano, por diferen-
tes pretextos. O milhio de ddlares


despejado por Hollywood em Xa-
puri subverteu tanto a vida local
quanto o avilo que a empresria
inglesa Anita Novick doou ao caci-
que kayapd Paulinho Payakan. A
vidva de Chico Mendes, lUzamar,
casou cor um dos melhores ami-
gos do marido, chocando os ou-
tros, e escandalizou ainda mais ao
dissipar o dinheiro recebido, apro-
priando-se de um titulo que os
demais imaginavam coletivo.
Mas estas sao as amarguras
pessoais que o cheque entire duas
cultures disuntas provoca. Chico
Mendes 6 um sfmbolo muito mais
dtil aos ativistas ecoldgicos inter-
nacionais do que aos pr6prios
amaz6nidas. Chico conhecia muito
bem sua regiao e dominava a ativi-
dade que praticou desde o nasci-
mento. Mas, seguramente, esse 6
um mundo em extingio na Amaz6-
na.
Um observador mais atento ja
poderia ter essa impressAo quando
as remanescentes liderangas serin-
gueiras se reuniram em 1985, em
Brasilia, para fundar seu conseho
national. Imaginavam ressuscitar a
mfstica do Ex6rcito da Borracha,
uma invenio publicitAria para
disfarcar o trabalho semi-escravo
imposto aos nordestnos nos altos
rios amaz6nicos. Fizeram-nos ima-
ginar que, produzindo borracha
nos confins da selva, seria como se
estivessem nas frentes de combat
da Segunda Guerra Mundial. Ficou
esse espirito guerreiro, mas foi s6
o que ficou.
A histdria da borracha na
Amaz6nia vira sua pigina derra-
deira, perdendo a competigEo in-
terna para outros centros nacionais
que, por ironia, n&o foram castiga-
dos pela biologia vegetal que con-
dena o adensamento de serin-
gueiras amaz6nicas A dizimaglo
em seu habitat natural. Chico Men-
des poderia ser a ponte entire esse
capftulo e os novos, que estio sen-
do escritos. Mas 6 dificil que con-
siga esse f61ego senlo nas piginas
e na retdrica de seus ahados es-
trangeiros, nem sempre despren-
didos ou desinteressados. Infeliz-
mente ele tinha razio quando dis-
pensava a aureola de herdi e pedia
tempo para viver. Nao Ihe deram.

As vozes

da terra
Um dos fatores que contribuiu
mais decisivamente para apro-
fundar a distAncia entire o Brasil e
os Estados Unidos, pauses que
comegaram suas histdrias quase
ao mesmo tempo, foi a manuten-


gio de uma estrutura agrAria ar-
caica no primeiro e a moderniza-
glo rural no segundo.
Abraham Lincoln, um dos
pais da patria americana, promo-
veu, na segunda metade do s6culo
19, uma reform agrdria prdvia
nas areas de expansion da produ-
glo agricola do pafs, o Homstead
Act, que permitiu a multiplicaglo
e a demociatiza~io das proprie-
dades. O Brasil sempre foi o pals
dos latifdndios improdutivos.
Significativo 6 o fato de que
houve mais progress no campo
brasileiro, algo assemelhavel ao
que aconteceu nos EUA, durante
o perfodo em que os solfcitos
cdes de guard do patriarcado ru-
ral, os advogados, nio inventa-
ram leis para atrelar a dinAmica
social ao juridicismo imobilizan-
te. Foi entire 1822 e 1856, quando
foi editada a primeira Lei de Ter-
ras (enquanto Lincoln consagrava
o princfpio da posse sobre a pro-
priedade).
O recent decreto que os de-
putados estaduais aprovaram,
obrigando a rede bancdria a de-
volver correaio monetiria e juros
mensais pagos por proprietarios
rurais por crdditos que tomaram a
partir de 1979, 6 uma prova da
incrfvel persistencia dos privil6-
gios de um sistema produtivo ob-
soleto. O decreto representaria
um 6nus de 127 bilh6es de ddla-
res, o equivalent a toda a dfvida
externa brasileira, a maior do
planet, dos quais US$ 97 bilh6es
sairiam dos cofres do Banco do
Brasil (responsAvel por 75% do
cr6dito rural), que, sacando tudo
o que tem, inclusive valores in-
disponfveis, sd obteria 2/3 do
valor exigido.
Diz-se que os deputados nio
votaram para valer o decreto, que
serd usado como instrument de
pressio para forgar o BB a per-
doar dfvida de US$ 1 bilhio de
30 mil produtores inadimplentes.
Mas o resultado desse estratage-
ma mostra a extension do poder
dos homes do campo e o despre-
paro dos politicos para serem re-
presentantes de toda a sociedade
(e nao apenas da parcel mais
poderosa dela) e exercerem o po-
der arbitral do legislative.




Jornmal ssoal
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