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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO Ano Vile N 118 laquinzena de fevereiro de 1994 CR$300,00 ELEIQAO Quem e mesmo o n 1? Jader Barbalho e Jarbas Passarinho caminham para o mesmo lugar no palanque, ocupando lugares invertidos. Forma-se, assim, a mais poderosa coligagao para outubro. r r3 ^~, n r ^ ^^^^^^^Qo nn 1'~)/\1 'QCXnvs1i227-N C P arece cada vez mais prove- vel que Jader Barbalho e Jarbas Passarinho ocupem o mes- mo palanque pedindo votos para os dois cargos majoritfrios em dispute nas elei96es estaduais deste ano. Jader tentando pela primeira vez chegar ao Senado e Passarinho retornando ao governor do Para quase 30 anos depois de deixar o cargo. A coligagAo PMDB-PPR, a mais forte ate ago- ra formada, possibilitaria assim uma troca de posig6es: o atual governador tomando o lugar do senador e este como successor do governador. Uma pesquisa de opinifo, cujos ndmeros ainda slo conheci- dos apenas pelos muito prdximos a Jader, que a encomendou, co- megou a tornar mais real uma perspective que parecia remote. Segundo as informag6es filtradas da pesquisa que o institute Gal- lup teria feito em 80 cidades pa- raenses, entire os dias 5 e 12 de janeiro, o nome de Jarbas Passa- rinho aparece como o mais forte para o governor do Estado. Ele te- ria o dobro das preferencias em relagio ao empresario Sahid Xer- fan e ao prefeito de Belem, Helio Gueiros, quase empatados nas po- sig6es seguintes. Atris deles, como o primeiro nome do PMDB, o senador Fernando Coutinho Jorge. O ex-ministro do Meio Ambiente, em campanha para ser indicado, tem o console de mais quatro anos de mandate. Das tr6s vagas que cabem ao Pard, a dele sd estard em jogo em 1998. Para se prevenir contra pos- sfveis distorg6es, o governador teria encomendado tamb6m uma pesquisa ao Ibope, em tase de elaboragio. As pesquisas nio te- riam apenas a fung~o de dar satis- fagio aos polfticos que disputam o patrocfnio do governador. Jader 2 Jornal Pessoal Barbalho pretend apoiar um candidate cor autonomla e den- sidade electoral, que seja ficil de carregar e que possa resistir a imprevistos do jogo polftico. O governador estaria dis- posto a mais uma vez renunciar ao Senado e expor-se ao risco de ficar sem mandate politico, caso essa fosse a dnica alternative pa- ra garantir um aliado como suces- sor no comando estadual, que 6 o seu objetivo ndmero um. Jader Barbalho chegou a anunciar pu- blicamente que iri permanecer no cargo at6 o fim do mandate, mas essa disposigio parecia induzida pela conjuntura de algumas sema- nas atris. Imaginava-se entio que a candidatura de Helio Gueiros fos- se imbatfvel, exceto se a revision constitutional permitisse a de- tentor de cargo do Executivo dis- putar a reeleigio para a mesma fungAo. Apenas nessa circunstfn- cia a possibilidade de vitdria de HOlio Gueiros contra um opositor estaria descartada. Permanecendo no governor, podendo reeleger-se, Jader naio tem adversArio. A evolugio das negociaq6es dos partidos para viabilizar a re- visio da Constituigio ainda 6 uma incognita, de cuja decifraqio depend a definiaio do process sucessdrio. Mas a pesquisa do Gallup, se confirmadas as infor- maq6es vazadas por algumas tones, indicaria que, na pior das hipdteses, o governador poderia desincompatibilizar-se para con- correr ao Senado e ainda assim ter boa probabilidade de fazer seu candidate ao governor veneer, mesmo contra H6lio Gueiros. Se nio Ihe deu condig6es de disputar a presidencia da Repd- blica, sonho do qual se desliga definitivamente nesta eleiqAo, a atuagio do senador Jarbas Passa- rinho na CPI do Orgamento ser- viu para voltar a projeta-lo por Lodo o Estado. HA muitos anos o senador deixou de ser presenqa ffsica na maioria dos municfpios paraenses Mesmo na eleigio de 1986 ele nio precisou descer de Brasflia As bases Jader cumpriu por ele essa tarefa, dando-lhe votos sem que ele precisasse sair do lado da esposa, entao enferma, como faziam os donos de currais eleitorais nos tempos da Repdbli- ca Velha gragas a seus coron6is de barranco. O dado mais precioso da pesquisa do Gallup, se sAo cor- retos os vazamentos, senla o de demonstrar que o nome de Jarbas Passarinho ter mais envergadura do que o de Hdlro Gueiros Pode ser trabalhado cor altos dividen- dos mesmo que o successor no go- verno a partir de abril, quando Jader teria que se desincompati- bilizar (pelas regras atualmente em vigor) para disputar o Senado, se tornasse inconfiAvel, como re- lativamente inconfiavel 6 consi- derado o vice-governador Carlos Santos O element que complicava a candidatura de Passarinho ao governor era sua falta de disposi- glo para trocar Brasilia pelo ParA e a idade. No seu dltimo retorno, o senador foi entatico: quer dis- putar o governor Quanto A idade, o peso de um pouco mais de anos que carrega em relagio a H6lio Gueiros 6 compensado pela inap- tidio maior do prefeito da capital pelo trabalho e por idas ao inte- rior, trajeto que nio faz por suas prdprias pernas. E claro que esses arranjos estio condicionados pelo desfe- cho da revisio constitucional, mas agora a question 6 mais de detalhes cor a formagio dos dois grandes blocos que vio se digla- diar pelo poder polftico no Esta- do. Nao 6 & toa que H6lio Guei- ros, na coluna (nAo assinada) que escreve semanalmente, "Em cima do fato", invested sistematica- mente contra Jarbas Passarinho, Sahid Xerfan e, de uma forma bem mais leve, Coutinho Jorge. Sao os dnicos adversaries que vislumbra Al6m de contar corn seu prdprio carisma, rentavel so- bretudo diante da television para alcangar a populagio de mais baixa renda, Gueiros ter n dispo- sigio a segunda mais poderosa maquina de fazer votos e aposta nos descontentamentos contra Ja- der na base municipal. Assim, poderA liderar uma cohgagio tendo como aliado o senador Almir Gabriel, do PSDB Os dois teriam estabelecido um acerto tAcito: quem estiver A trente nas pesquisas serd o candi- dato ao governor, apoiando o ou- tro para o Senado, caso o prefeito decida mesmo abandonar a segu- ranca do mandate na capital esti- mulado pela confianca que alia- dos e assessores Ihe transmitem de que 6 o politico n 1 do ParA, mais encorpado e de mais alta do- sagem do que a assim dita Brah- ma. A, pelo menos, o que diz o marketing do dia. A polftica, alhis, como a cerveja, combine cor pizza neste pals Um faganha Sou dos primeiros clients do livreiro Raimundo Jinkings, dos que iam A casa dele, na rua Mun- durucus, sem saber distinguir os livros que estavam A venda dos que constitufam a biblioteca par- ticular do Ifder comunista, que buscara no comdrcio uma alter- nativa ao interdito polftico que os militares vitoriosos Ihe haviam imposto. Na primeira vez em que estive no acolhedor bangal6 de Jinkings guardava, no s6dto da memdria, a image do terrivel comandante geral da CGT no Pa- ra, que talvez tivesse, no fundo do terreno, uma criagAo de san- giiineas criangas para o desjejum matutino, como a imprensa da dpoca queria fazer crer a um adolescent aturdido pelos acon- tecimentos. Como a maioria dos mili- tantes do velho Partidio, Jin- kings era de uma paci8ncia quase ilimitada e de sovidtica capacida- de de resignagio a voldpia dos her6ticos clients. Do alto de quase 30 anos como consumidor dos livros comercializados por R. A Jinkings, nao posso deixar sem registry a vit6ria que ele conseguiu, de ser o livreiro do ano em todo o pafs atuando numa cidade que 16 cada vez menos. 0 artist B iratan Porto pertence a uma categoria de profissionais que, felizmente, estA crescendo no Pard: daqueles que t6m com- pet6ncia de nfvel national e in- ternacional. Seu quarto livro (Soltando as Hienas cartons ca- nalias, edifio do author, 100 pa- ginas, CR$ 1 500,00), rec6m-lan- gado, atesta que Biratan 6 o mais important cartunista paraense em atividade e, certamente, um dos mais criativos que ja trabalharam por aqui. Seu trago econ6mico destaca ainda mais suas iddias, brilhantes sobretudo ao retratar individuos isolados em situag6es de "non-sense" Operario do dia a dia, Biratan conseguiu livrar-se das amrras do cotidiano e da refe- rencia histdrica para produzir arte verdadeira. Jornal Pessoal 3 A historic envernizada De 1992 para 1993 o Para pu- lou da nona para a setima posigio entire os maiores exportadores brasileiros. Deve passar o Rio de Janeiro, que esti logo acima, ate meados desta decada e chegar ao quarto lugar no final do seculo, abaixo apenas de Sio Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. A contribuigio paraense para o co- mdrclo exterior do Brasil, que atualmente 6 de 1,7 bilhio de ddlares, ultrapassard US$ 2,5 bi- lh6es quando o ano 2000 chegar Essa e a mais important participagio de um Estado ama- z6nico nas contas nacionais. Quando comegou a decada de 70 o Para nao tinha qualquer expres- sdo na balanga comeicial do pafs. Agora ja ter alguma signilica~go em certos stores e deixou para tris Estados que, em outros indi- cadores econ6micos, tam maior peso, como Bahia, Pernambuco e GoiAs As exportaq6es paraenses ja representam 5% da receita do comercio exterior brasileiro e de- verfo dobrar nos prdximos anos Puxando a pauta estao mind- iios e produtos sfdero-metaldrgi- cos Gragas a isso, a Albris, a maior empresa da Amaz6nia, e a setima maior exportadora indivi- dual, com quase um terqo das vendas alcangadas pela Compa- nhia Vale do Rio Doce, que lide- ra o ranking dos exportadores A CVRD, aliAs, e uma das proprie- tarias da Albras, em associagqo corn um consdrcio japones. Sob certos aspects, por- tanto, a 6poca da Amaz6nia como uma reserve de recursos para o tuturo acabou Em certos circul- tos de comercializaqio ela ja e um produtor efetivo, que deve ser considerado como um element de regulaqio de mercado Ate o final desta decada, por exemplo, a Amaz6nia tera papel important em relagAo a bauxita, alumfnio, ouro e caulim, dos quais sera uma das maiores fontes produtoras A Mineragqo Rio do Norte, instalada a 900 quil6metros do litoial, ja 6 a maior mineradora individual de bauxita, o mindrio do alumfnio, chegando a marca de 10 milhdes de toneladas anuals. A Albras ter a maior tabrica de alumfnio do continent, forne- cendo metal principalmente para o Japao, que nela obt6m quase 10% de suas necessidades. Com a mina de Carajas, a CVRD fornece 15% do mindrio de ferro que ali- menta os altos-fornos do Japao, que adotou a estratdgia de manter um parceiro important fora do seu raio asiatico de influ6ncia pa- ra atenuar a dependencia de mate- rias-primas. Hoje ha apenas uma fabrica de caulim em atividade na Ama- z6nia, a que o milionario norte- americano Daniel Ludwig im- plantou no vale do Jari, atual- mente sob o control do grupo Antunes Mas em 1996 devera entrar em operagio uma unidade ainda maior, a da Jari em asso- ciagdo cor a CVRD, e talvez uma teiceira fabrica, tornando o Pard um dos maiores fornecedores dessa argila especial, usada prin- cipalmente no revestimento de papel Nessa epoca tambem ja de- verd estar em atividade a segunda flbrica de cobre eletrolftico do pafs, em Carajds. No Amazonas e em Rond6nia se extra quase um quarto de toda a cassiterita pro- duzida mundialmente, parte dela oriunda de mina organizada e outra parte de garimpo. O papel que a Bolivia desempenhou du- rante tanto tempo agora e do Bra- sil Apenas estes ndmeros, aos quais outros poderlam ser agre- gados, mostram que a Amaz6nia, ao menos quanto a bens de ori- gem mineral, deve ser tratada como um centro de producgo de importancia international e nao mais como um territ6rio em aberto, um papel em branco sobre o qual cabe apenas especular e imaginar Nao hA ddvida que a regiao ji ter importancia estrategica em relagao a ceitos bens, que fize- ram-na subir aceleradamente nas tabelas das exportaq6es brasilei- ras. Mas estatisticas que geral- mente sao vistas em tonalidades r6seas pela abordagem official ou trintalista devem ser examinadas tamb6m sob outro entoque. Se o extrativismo vegetal, que marcou boa patte da hist6ria da Amaz6nia, nao foi capaz de desenvolve-la plenamente ou dar- ihe autonomia, o extrativismo mi- neral nio tem condig6es de repre- sentai uma alternative diferente Confrontando os dados ffsicos da expoitagao cor os indicadores socials, 6 impossfvel nio perce- ber o abismo que separa o cres- cimento econ6mico do desenvol- vimento em seu sentido mais am- plo. Ou certas distorc6es desse modelo: a Zona Franca de Ma- naus, que produz apenas para o mercado interno com base em in- sumos importados sem o paga- mento de direitos, gera um pro- duto de valor quatro vezes supe- rior ao das exportaq6es paraen- ses, embora grande parte da renda apenas transit pela capital ama- zonense Assim, os personagens e as tramas podem ter mudado, mas o roteiro da histdria 6, basicamente, o mesmo. O tamanho da criatura O comrcio da cocafna fez do colombiano Pablo Escobar um dos homes mais ricos do plane- ta. Sua fortune, na mais modest das estimativas, ultrapassou a marca tantistica de cinco bilh6es de ddlares, quase cinco vezes su- perior A dos tres maiores miliond- jos brasileiros (Antonio Ermfrio de Moraes, Roberto Marinho e Sebastiio Camargo), que apenas tianspuseram o primeiro bilhio de ddlares. A more de Escobar, no ano passado, nio significou, entre- tanto, que o narcotrafico reduziu suas atividades Escobar era o mais rico dos narcotraficantes, mas a tama, a cuja sedug o nio reristiu, mesmo sabendo que essa sujei~ o Ihe seria fatal, progres- sivamente o deslocou do epicen- tro do neg6cio Sem Escobar, o cartel de Medellin deixou de existir en- quanto entidade organizada. So- breviveram apenas traficantes isolados. Mas desde algum tempo sua posig~o havia sido ocupada por outro cartel colombiano, o de Call. No Brasil, as principals iotas de passage da cocafna sAo controladas pelos homes de Calli, monopolistas nessa ativi- dade na regiao amaz6nica, que apiesenta o melhor cenhrio de operag6es. O previsfvel destiny de Es- cobar levou os estrategistas do cartel vizinho a alterar sua logfs- tica Fizeram o que normas de or- ganizagao & m6todos recomen- dam: segmentaram o neg6cio Agora o cartel trata apenas do fornecamento da matdria prima e da supervisor de seu transport 4 Jornal Pessoal atd o ponto de chegada Todas as etapas intermediarias sao execu- tadas por agents aut6nomos, na- tivos do prdprio local, que fun- cionam como se dispusessem de um contrato de leasing ou fran- chising, telaqio estabelecida com tal cuidado que atd a marca do cartel 4 impressa nas cargas de cocafna para assegurar sua quali- dade, ainda que transportada por terceiros Implantado na Amaz6nia, es- se negdcio segue a 6Igica dos in- vestimentos regulars, legais Os traficantes postados nos pontos de origem e de chegada da mer- cadoria ficam cor 80% ou atd mais da renda gerada pela extra- qao e comercializaqao da cocafna, negdcio que movimenta anual- mente mais de 100 bilh6es de d6lares Os agents aut6nomos que participam do circuit ficam corn uma pequena fraqao, aquela que 6 gasta nos locais cor o pagamento da mao-de-obra, dos meios de transport, dos representantes pdblicos omissos ou coniventes, despesas legais, etc Eventual- mente, conform o caso, a reten- gao de renda 6 maior quando o local oferece vantagens para a la- vagem do dinheiro obtido ilegal- mente. Apesar de representar uma fatia menor da renda do narcotra- fico, essa intermediaqao pode movimentar um volume expressi- vo de dinheiro, principalmente quando atua em ireas pobres, Uma parte considerivel da eco- nomia informal no Brasil tornou- se tambem illegal no mais ample sentido e nao apenas fiscal ou tributirio. A dura condirio de sobrevi- vencia para centenas de milhares de brasileiros tirou-lheSa motiva- gio para indagar sobre a origem do dinheito que garante suas fa- mflias, principalmente quando nAo 6 dinheiro carimbado. Nao espanta que cidadaos exclufdos do estreito circuit dos privile- giados tenham se habituado a li- dar cor as verdes notas da moeda americana, demonstrando desen- voltura no trato com o cambio. 9 diffcil avaliar a gravidade da presence e penetracio do narco- trifico no Brasil e particular- mente na Amaz6nia porque a questao nio 6 tratada de forma global. Ela segue, ao contririo, o varejo policial. Policiais cario- cas, os mais contumazes repre- sentantes do poder pdblico a lidar corn traficantes no Brasil, nio he- sitaram um s6 moment em man- dar um enviado a Col6mbia para consegulr atestado de bons ante- cedentes junto a Pablo Escobar. Em question de duas semanas o enviado estabeleceu contato corn o chefe do cartel de Medellin, encontrou-se cor ele, obteve sua declaracio de que nao estivera no Brasil (e, portanto, nio poderia ter sido chantageado pela polfcia brasileira, como dizia a denincia) e voltou, apenas alguns dias antes que a polfcia colombiana montas- se o cerco final ao home mais procurado naquele pafs. Aparentemente, a circulafio do policial brasileiro nio atrapa- lhou e nem beneficiou as opera- q6es da polfcia colombiana, sim- plesmente ignorando-a e sendo por ela ignorada. Ou seja: o poll- cial biasileiro circulou pelo cir- cuito dos traficantes, do qual era, pelo menos, iniciado. Veneer a batalha mais im- portante na guerra travada contra o narcotrafico custou muito caro ao mundo legal na Col6mbia, pafs que possui uma das mais extensas fronteiras cor o Brasil. Mas os brasileiros, apesar dos vdrios in- dicadores sobre o estabelecimento de fortes relag6es entire o podero- so narcotrafico colombiano e o crescente comrrcio da droga no pafs, parecem preterir achar que a morte de Pablo Escobar e um as- sunto interno do pafs vizinho e que o nosso problema deve conti- nuar a ser tratado, caso a caso, pela nossa polfcia Ou seja: estamos no estAgio em que se encontravam os colom- bianos quando comeraram a com- bater o biaqo visivel do narcotra- fico, sem saber que ele era ape- nas a part de um corpo asseme- lhado ao do polvo, Lio grande que era visivel como o animal mitoldgico que Jdlio Verne criou para ser liquidado pelo capitio Nemo, num confronto que tam- bmr levou a eliminaqao do herdi Evidentemente, ha formas mais s6bias e menos doloridas de apiender e de prevenir. A hist6ria A histdria da fraude no primeiro vestibular da recem-reconhecida Unama (Universidade da Amaz6- nia, particular, resultante da fu- slo da Unespa cor as Ficom) oferece multas lic6es ao aprendiz interessado. Depois de um infcio impetuoso, em que atrapalhou o bom senso prometendo apresentar resultados imediaios, a polfcia aceitou investigar em ritmo mais lento e cor diretriz menos nftida. O principal suspeito at6 ago- ra identificado, o professor Paulo S6rgio Martins Braga, foi preso com a voldpia de caso resolvido. Desinteressadamente, a jufza Ma- ria Palheta Alves, da 4a Vara Pe- nal, concede uma prisio tempo- raria que a polfcia nao podia pe- dir e I justiga nio cabia reconhe- cer. O cidadio foi retirado de dentro de seu carro, diante da fi- lha menor e da esposa, e levado para a delegacia e a cela, na en- trada e na safda submetido A cu- rosidade pdblica e a um trata- mento tambem desatento da im- prensa. Tres dias depois foi solto e ji se passaram duas semanas sem que a celeridade investigatd- ria se tivesse justificado. Nao ha ddvida de que os crit6rios eticos individuals do professor sao, no minimo, ques- tionaveis. Ele teria que ser um Catao (ou, em versao patoldgica, m6dico e monstro) para conseguir separar sua face de elaborador de testes do vestibular da de profes- sor de alunos de cursinho de ves- tibular. Mas os dirigentes da Unama estavam obrigados a saber que um dos preparadores do teste dave. aulas em um dos ramos conjugados da prdpria empresa, o Moderno. A exigencia de que formulador de vestibular nao po- de ser professor de cursinho ter um preqo, preso que as institui- g6es de ensino nao estao dispos- tas a pagar ou dizem nao estar em condig6es de pagar para dar um pouco mais de dignidade A profissao. O escandalo do vazamento, para nao acarretar prejufzo maior I Unama, ainda cor licenga pro- visdria de funcionamento, preci- sou ser contido Is pressas e a press, quando nio 6 inimiga da perfeigao, serve para esconder a tal da verdade verdadeira, aquela que s6 se apresenta quan- do se forca seu aparecimento. A prisao de um suposto fraudador isolado serviu de satisfaqio A opiniao pdublica e, atravds dela, aos que poderiam dar ao aconte- cimento suas dltimas consequen- cias O que se seguir a partir daf 6 lucro ou, como se diz na atual saison, e pizza. Journal Pessoal Sem copyright U m Estado pobre como o Para pode desperdigar um investimento privado no valor de 250 milh6es de ddlares? Esta pergunta come- cou a ser feita a partir do mo- mento em que a Rio Capim Quf- mica S/A, uma empresa formada em 1992 pela Companhia Vale do Rio Doce e o grupo Antunes, en- viou sinais de fumaga preta para indicar sua disposiaio de desistir de implantar em territdrio paiaen- se o maioi complex de produgio de caulim do pafs. A sinalizaiao culminou com seu primeiro anincio publicitario, publicado em meia pagina pelos jornais de Belem no dia 23 de ja- neiro. O tftulo jA dizia tudo sobre as inteni6es: "Estamos pedindo licenca para colocar o Pard no mercado mundial do caulim" Tudo porque a concessAo da licenca piovis6ria de implantacao pelo Conselho Estadual de Meio Amblente (cujos novos integran- tes tomaram posse nesta semana) ainda nio foi expedida. No dia 29 de janeiro a Secretaria de Ci6n- cia, Tecnologia e Meio Ambiente, responsavel pela elaboracao do parecer t6cnico que orientar6 a decision do Conselho, realizou a terceira audiencia pdblica para discutir o Relatdrio de Impacto Ambiental (Rima) apresentado pela RCQSA Nas duas audiencias anterio- res os participants apresentaram crfticas ao document, considera- do insatisfatdrio e superficial A empresa providenciou uma nova version do Rima, submetida a mais discusses no dia 29, sem satisfa- zer ainda todas as exigencias. Como tres audiencias pdblicas jA constituem um record nesse tipo de piocedimento no Para, a Sec- tam decidiu concluir o parecer cor as informag6es ja disponf- veis e as que serao entregues nos pidximos dias, permltindo colocar o Conselho em condig6es de de- cidir antes do final de fevereiro As notfcias veiculadas por algumas colunas de jornais, de que a Rio Capim estaria disposta a cancelar seu projeto por causa da protelafio na expedigio da li- cenga provisdria, podem ser ape- nas um jogo de pressio no cabo- de-guerra travado entire a empresa e grupos ecol6gicos. Os defensores da empresa alegam que os ambie talistas ul- trapassaram os limits do bom 5 senso para fazer exigencias des- cabidas ou preciosas Garantem que o process industrial, con- sistindo na extragAo da argila, sua lavagem e secagem e o trans- porte por mineroduto ate um porto onde sera estocada e em- barcada, nio oferece qualquer risco de agressAo a natureza, ex- ceto em casos de acidente. Mas, se ocorrerem, os acidentes pode- riam ser mantidos sob control gracas a mecanismos de seguran- 9a ja previstos O projeto. como diz a pega publicit6ria divulgada, "est& sendo concebido cor filo- sofia ambiental de pals de Primei- ro Mundo" Os ambientalistas retrucam que o Rima foi elaborado as pres- sas e sem maior atengro. A crfti- ca 6 admitida por algumas fontes da empresa, que sutilmente trans- ferem a culpa para o grupo Antu- nes, responsavel pela contratagAo de uma empresa de consultoria de Minas Gerais sem maior expe- riencia nesse tipo de trabalho Mas tamb6m asseguram que as falhas apontadas foram corrigidas e que a versAo apresentada du- rante a segunda audi6ncia pdblica cumpriu todas as exig6ncias le- gais, principalmente porque in- sistem o empreendimento nao 6 agressivo ao meio ambiente. Ale- gam ainda que certas cobrangas devem ser feitas a administrag&o pdblica e n&o ao investidor pri- vado. Na terceira audiencia foram repetidas as mesmas restrig6es e apresentadas propostas que difi- cilmente serao atendidas antes da licenga provisdria, mas nao 8 provavel que a empresa, diante da resist6ncia que ainda precisa en- frentar, cumpra a ameaga de le- vantar acampamento e procurar outro Estado para abrigar seu projeto. Tal hipdtese 6 pouco plausfvel, mas nessas horas sem- pre algu6m lembra um antece- dente, No infcio da decada de 80 a Alcoa, maior fabricante mundial de alumfnio, quis instalar uma fr- brica is proximidades de BelCm, mas seus dirigentes desistiram lo- go depois de terem recebido um prolongado "ch6 de cadeira" na Secretaria de Planejamento do Estado. Foram entio para Sio Lufs, onde hoje tunciona a Alu- mar, a segunda maior inddstria de alumfnio do pals. Po ta-vozes do governor contestam a seriedade dessa ver- sao. Garantem que a Alcoa estava apenas reconrendo a um meio de pressao para obter vantagens ina- ceitiveis. De qualquer maneira, ainda que a histdria espalhada pela empresa seja verdadeira, o resultado nio foi tAo ruim para o Pai. A 40 quil6metros de Bel6m esta a Albris, de porte um pouco maior do que a f4brica da Alcoa. As duas, em vizinhanga num es- tuArio tao complex quanto o do rio Para, poderiam trazer muitos problems a capital paraense. Tomar decis6es sensatas e vantajosas em situag6es tensas 6 muito diffcil. Falta ao Estado, sobretudo, informa96es que Ihe permitam ficat em pd de igualda- de cor empresas, principalmente multinacionais, que t6m nao ape- nas um melhor conhecimento do mercado, como, frequentemente, o manipulam. Em algumas cir- cunstAncias o poder de barganha do Estado 6 maior, mas o merca- do pode mudar bruscamente e, nessesmomentos, o melhor 6 ser menos exigente. O Para tinha condig6es de assumir um important papel na economic international do alumf- nio na d6cada de 70 se tivesse torado as decis6es certas. O Ja- plo teve que fechar suas fabricas e consumidores independents dos Estados Unidos tentaram es- capar as garras do cartel. Ambos se dirigiram para o Para, o Estado mais favorecido no pafs em riquezas minerals. Quanto aos japoneses, o governor paraense nio fez a pressio ade- quada para obter mais do que Ihe concederam e ganhou migalhas. Quanto aos produtores que nio faziam parte do cartel das seis "lrmis'", simplesmente tiveram as portas fechadas. Resultado: as multinacionais assumiram tambdm aqui o mercado de alumfnio. Como ja nao 6 possfvel pen- sar em certos minerals sem consi- derar as grandes reserves deles existentes no Para, cada vez mais esses moments vao se repetir, sem que no horizonte se apre- sente a perspective de melhores decis6es. O Para pagard caro por nio estar em condig6es de ser contemporaneo de uma histdria que 6 sua, mas 6 escrita a partir de fora. 6 Jornal Pessoal As terras dos indios No depoimento que prestou A Frente Parlamentar da Amaz6nia, em Brasflia, no final do m&s pas- sado, o ministro do Meio Am- biente e da Amaz6nia, embaixa- dor Rubens Ricdpero, disse que sabia da presenga de "poderosos lobbies" agindo nos bastidores da revisao constitutional para difi- cultar a demarcagio de terras in- dfgenas. Esses grupos de pressio teriam dois objetivos: transferir o controie do process do Executi- ve para o Legislative e da Uniao para os Estados, acabando ainda cor a autonomia da Funai, o dr- gao tutelar dos fndios. Ha arguments sedutores pa- ta vender essas alteraq6es no texto da Constituiaio de 1988 A incompetencia e, muitas vezes, a venalidade da Funai, 6 lendaria Transferida a jurisdiAio para o Congress, o control seria cole- tivo e democrdtco, possibilitando a filtragem dos anseios da opi- nmao pdblica Ja os Estados, mais prdximos da populaqio de care e osso do que a abstrata Unieo, que ter muita cabega mas nao base territorial, disporiam de maior le- gitlmidade para conduzir a ques- tao. Rubens Ricdpero, entretanto, parece vacinado contra esse tipo de vfrus insinuante. Ele acha que a demarcaiao se tornaria um pro- cesso tio buiocratizado que a demarcacqo das terras indfgenas "serra obstrufda eternamente". Nao 6 outro o alvo real do lobby, embora tambdm disfariado por outra cantilena: por tias da reser- va de areas para os fndios esta- riam interesses estrangeiros, eco- n6micos e geopolfticos, de um la- do querendo explorer as riquezas naturals amaz6nicas, de outro la- do visando impedir a consumarao da vocafio de grandeza do Bra- sil, um destine manifesto que nao sucumbe ao menos na ret6rica - nem as piores crises, como a dtual. Esse tipo de dendncia 6 sempre feita em voz soturna, o denunciante omitindo mis do que revelando, a pretexto de proteger- se das mesmas forqas ocultas in- vocadas por Janio Quadros para a rendncia de 1961 Em plena era da informarao, a incapacidade de expor a luz da raz&o interesses envolvidos em qualquer question relevant represent um atestado de fal6ncia national. Profissional de carreira, Ricdpero reagiu ao ardor dos provincianos parla- mentares amaz6nicos garantindo que a dendncia nio passa de "falicia" e que a ameaqa 6 um moinho de vento Pode haver, em realidade, jogo de interesses econ6micos e comerciais paralelamente A defi- niqao de territdrios reservados aos fndios, mas um nio anula o outro Se a adminiStrargo pdblica brasileira nao ter condig6es de detectar essas teias, dificilmente vai conseguir demonstrar sua ca- pacidade para tutelar sociedades que gravitam em torno da nossa, que se estabeleceu em territdrio national esmagando-as e impon- do-lhes uma condigio marginal A isso costuma-se chamar de hu- manismo e 6, de qualquer manei- la, um indispensavel traqo de ci- vilizagio A resistencia do ministry aos temores difusos das bancadas re- gionais nio quer dizer que ele esteja "do outro lado" por moti- ves altrufsticos. Ricdpero 6 bem pragmAtico Reservas indfgenas demarcadas constituem um pano de fundo fundidrio estavel para atividades produtivas regulars, o que 6 mais interessante para em- presas legalmente organizadas do que garimpeiros e firmas de pa- pel. Mineradores para valer nio se seduzem mais pelo domfnio imobilidrno do solo. Querem mesmo o que esto enterrado no subsolo. Disp6em-se a pagar mais do que os meros especuladores de ocasiao, desde que possam livrar- se deles, uma praga que, dissemi- nada, 6 muito ditfcil de controlar. Constituem categoria social dis- unta de fazendeiros e madeirei- ros, por exemplo, que ainda em- pacam na resist6ncia A formaliza- iao legal do dominion indfgena Acham-se numa escala mais atra- sada do piocesso histdrico A caracterizagio do territd- rio tribal, assim, nao 6 empeci- Iho. O problema 6 a ameaga de proibilqo ao desenvolvimento de atividades econ6micas por tercei- ros em reserves indigenas Esses agents (que talvez, no cenario amaz6nico, nio ficassem mal acomodados na roupagem de d6s- potas esclarecidos) nao v6em qualquer inconvenient na demar- caqgo de todas as reserves deli- mitadas pela Funai, espalhando- se por 8% do territdrio brasileiro, desde que os fndios possam per- mitir o ingresso de estranhos para jealizar a extragAo dos iecursos naturals existentes nessas areas Essa penetragio nio consti- tui novidade na relagio dos gru- pos indfgenas com a sociedade national, mas o fio condutor des- sa histdria sempre foi a fraud, a relagio estabelecida a margem da lei. As empresas de hoje querem realizar tal relacionamento atra- v6s de contrato assinado entire as parties, onde direitos e deveres estarAo definidos, talvez nao de forma tio clara quanto seria de- sejavel, nem em mutialismo rigo- rosamente harm6nico, mas, de qualquer maneira, contrato para valer para todos, a sombra do ar- tigo 231 da ConstituigAo. Imaginar que os fndios nao aceitam essas regras 6 imagind- los atrav6s das paginas de antro- pdlogos e nao da realidade atual, cada vez menos visfvel nos registros etnograficos. Os (ndios tiveram tAo pouco no trato cor o chamado home branco que o produto dos negdcios corn as cor- porag6es modernas parece um salto qualitative, o que efetiva- mente 6 em relagRo ao passado, ainda que nAo exatamente quando essa relaqio 6 situada no hori- zonte das relag6es de troca inter- nacionais. Apenas as bugigangas e balangadans sao agora eletr6ni- cos, fascinam mais. voz forte Uma informagAo poderia dar maior precisio ainda ao tiro que o ministry Rubens Ricdpero dis- parou verbalmente contra os lob- bies que se op6em A demarcagao das terras dos fndios O relator da revisAo constitutional, deputado Nelson Jobim, 6 tamb6m o autor de um parecer, preparado recen- temente, sob encomenda do go- verno do Para, que defended a in- constitucionalidade das demarca- o6es feitas unilateralmente pela Funai, exigindo a participaaio dos Estados. Sem isso, seria ofensa ao princfpio federativo que sustenta as relac6es entire as unidades brasileiras. O parecer nio 6 das melho- res produg6es t6cnicas a respeito, apesar de ter custado bom dinhei- ro, mas a posiqio de Jobim 6 forte. Journal Pessoal 7 Caixas pretas na floresta O dnico hidrante que havia atd recentemente em toda a Ama- z6nia fora instalado, no final da d6cada de 20, pelo milionario norte-americano Henry Ford em uma possession que lhe foi entre- gue pelo governor brasileiro no vale do Tapaj6s, a mais de 800 qull6metros de Bel6m, no interior da selva. Em Fordlindia, sede de uma fracassada tentative da Ford Company de se tornar auto-sufi- ciente em borracha cor uma plantagio formada no prdprio "habitat" da seringueira, nio ha- via apenas a novidade do hidran- te. A vila, tipicamente americana, tinha Agua tratada, esgoto, a pri- meira serraria inteiramente meca- nizada de todo o interior brasilei- ro e um padrio de vida bem for- dista, que levou os empregados natives a se rebelarem contra a comida que Ihes era servida nos refeitdrios. A dieta copiava as regras de Michigan. Evidente- mente, nio inclufa a farinha de mandioca. Sem sua farinha de to- dos os dias, os caboclos se re- voltaram e fizeram um quebra- quebra, cujos motives a Ford nunca entendeu. Fordlncia foi a primeira das caixas pretas de modernidade plantadas no solo amaz6nico neste s6culo, mas outros enclaves semelhantes v6m se repetindo desde entio. Rasga-se um espaqo na selva e ignora-se toda a Area em volta o entorno, para usar a linguagem do dia. Os beneffcios da modernidade nio se espraiam e, frequentemente, nerm se enraf- zam. Os visitantes que chegam a Fordlindia, quase 50 anos depois que Ford dali se retirou, chocam- se cor o contrast entire aquele resfduo de fordismo e a mis6ria circundante. Fordlindia permane- ce sendo um ponto de vanguard, ainda que para efeito meramente museol6gico, comparada ao que esta ao alcance dos nativos da Area. Os contrastes entire os gran- des projetos, implantados na Amaz6nia para dela extrair matd- rias-primas que vAo ser levadas ao mercado international, e todo o restante da regiio que ainda nao tern inteiesse para as relaq6es de troca externas, 6 brutal. A brutalidade dessa disparidade pa- rece nao sensibilizar a maioria, como se fosse uma situaqio natu- ral, inevitivel, como se fosse es- se o prego que a jungle ter que pagar para receber aplicag6es mais significativas de capital fo- raneo. No entanto, a prdpria histd- ria de alguns dos agents coloni- zadores sugere que as coisas po- deriam nio ser exatamente assim. Os ndcleos urbanos montados como bases de apoio para a reti- rada dos recursos naturais ama- z6nicos nio precisariam ser com- pletamente fechados ao mundo circundante, nem se tornar exclu- dente o circuit de circulacio de riqueza, incapaz de gerar beneff- cios sociais de alguma express&o A Amaz6nia esta hipotecando seu present contra a promessa de um future que inexistird se o atual modo de exploraiAo econ6mica nio for modificado desde jA. Esta linguagem meio codifi- cada pode se tornar mais clara se referida a casos concretos. No fi- nal do ano passado, por exemplo, a Eletronorte transferiu para o governor do Pard, em regime de comodato, a administration do hospital construfdo pela empresa na vila permanent da hidreletrica de Tucuruf Conclufdo em 1981, o hospital ainda 6 o maior e mais modern t' interior do Pard. Com seus 210 leitos, chegou a tender a um universe de 57 mil pessoas, o pique de empregos gerados pela obra da usina Mas ha pelo menos cinco anos o hospital funciona com 10% de sua capacidade, acompanhando a reduqio no qua- dro de empregados da Eletronorte e empreiteiras. A transfer6ncia, embora uma evid6nca Idgica ha muito tempo, toi protelada ao maximo pela Ele- tronorte, que tambdm se recusava a abnr mao das centenas de casas ociosas na vila, que, techadas, se deterioravam. A empresa achava que abnr o acesso ao hospital, co- mo abnr a prdpria vila, sigmticana baixar a qualidade de vida naquele oasis de conforto e modermdade. A apenas seis quil6metros de distfncia, a sede mumcipal de Tu- curuf 6 pouco mais do que uma fa- vela, sem Agua tratada, sem esgo- tos e corn todos os problems re- manescentes do rush de migrantes atraidos pela usina, a maior obra pdblica da histdria da Amaz6nia. Esses problems poderiam ter sido minorados se o entio president Ernesto Gelsel nio tivesse isenta- do, em 1974, a Eletronorte e suas empreiteiras do pagamento de im- postos, inclusive o ISS (Imposto Sobre Servicos) municipal, media inconstitucional mesmo naquela 6poca de Constituigio de meia-so- la. Toda a vila, com sua paisa- gem de cartio postal europeu, consumiu algo acima de 200 mi- Ih6es de ddlares, investimento que beneficia diretamente umas cinco mil pessoas, enquanto 10 vezes mais slo pnvadas de quase tudo. Sd o hospital, 12 anos atrds, ab- sorveu US$ 3,5 milh6es (segundo dados oficlais), mas nio foi de maior serventia quando surtos epi- d6micos eclodiram e provocaram mortes na sede municipal, cujos habitantes eram mantidos A distin- cia pela cerca metAlca, perma- nentemente guarnecida por segu- rancas, que isolava a vila perma- nente. A distincia entire o ndcleo ur- bano e a cidade de Tucuruf, fisica- mente de seis quil6metros, em terms de oevilizacao sempre foi de s6culos, o pnmeiro na Europa, a segunda na Africa. A transferencia do hospital, que se tornou um peso oneroso para a Eletronorte, dimi- nui um pouco esse fosso, mas nio o elimina. Voz do dono A bancada parlamentar amaz6nica 6 acusada de debilida- de na defesa de plataformas re- gionais quando comparada A aguerrida legifo nordestina. Em- bora a representagio parlamentar da Amaz6nia seja maior do que sua participagao demogrAfica ou econ6mica, a regiao nio consegue fazer-se ouvir e prevalecerem suas teses no Congresso. Esse 6 um ponto pacifico. Mas ha outro. Os politicos regio- nais estio sempre muito atras dos de outras regi6es e da burocracia federal mesmo quando o assunto 6 Amaz6nia Demonstram em ob- tuso provincianismo e uma per- cepcio refrataria a evoluqio his- t6rica, sempre tendendo a buscar inspiraqao num passado tenden- closamente interpretado Nao surpreende que nos ine- vitAvels encontros reivindicatd- rios cor representantes do go- verno seja possfvel pincar dos discuI us o mote dos interesses especificos. Querendo falar pela iegiAo, falam apenas pelo que estA aqu6m do pr6prio nariz. Grande jornalista Sjornalismo brasileiro perdeu, no ano passado, um de seus melhores textos (Narciso Kalili) e um dos mais competentes repdrte- res (Hamilton Almeida Filho) Estiveram juntos num dos mais brilhantes empreendimentos jor- nalistucos de todos os tempos no pafs, a revista Realidade, da Editor Abril (1966-1973). Realidade destruiu vdrios mitos De que o leitor brasileiro sd 6 capaz de absorver textos curtos, per exemplo. Ou de que a linguagem jornalfstica precise ser rebaixada para estar ao alcance do leitor medio, ou de que ha te- mas acessfveis apenas a inicia- dos, inabordaveis no tratamento jornalfstico. Em Realidade escrevia-se como se fosse literature, trazendo para a imprensa national as ino- varges do new journalism ameri- cano, da ddcada de 50. No en- tanto, os principals integrantes da redafio nio haviam conhecido um sd dos tedricos dessa nova forma de fazer jornalismo antes de criarem a revista. Nela, colo- caram em pratica o aprendizado feito diretamente pela leitura de escritores (jornalistas ou nio) como Ernest Hemingway, uma demonstragAo incontestavel de que se aprende mesmo a escrever 6 lendo e nao decorando regras gramaticais (ainda que algumas delays sejam indispensaveis) ou se atualizando com os tedricos (quem sabe faz, quem nao sabe ensina, diz um maldoso brocado) O Al-5, de 13 de dezembro de 1968, golpeou fundo Realida- de, ploduto da democracia que sd (onseguiria florescer em clims de liberdade. Mas a prdpria editor Abril 6 acusada de sabotar inter- namente sua revista mensal, na ppoca um absolute sucesso de crftica e pdblico, para favorecer Veja, semandrio que comegou a circular um pouco antes do Al-5. O ato de forga, pondo fim ao que sobrevivia da Repdblica de 1946, foi a lipide que sepultou o me- lhor perfodo da imprensa brasilei- ra. A equipe de Realidade era muito criativa, aut6noma e segura de suas qualidades para se sub- meter ao governor ou ao patrio, tragos que constituem a supreme qualidade dos jornalistas (e tam- b6m, per vivermos onde vivemos, sua desgraga) Profissionais como Kalili e Hamiltinho (que os mais intimos chamavam de HAF, prounciando as iniciais como se fosse em in- gles) ficaram subitamente no va- cuo. Constitufam a nata do jorna- lismo, mas, um dia apds o AI-5, viam-se obrigados a criar seu pr6prio modo de expressao e tamb6m de sobreviv6ncia Come- garam um trajeto marginal que foi se radicalizando e do qual alguns nao conseguiram mais sair, enre- dados numa crise da qual episo- dicamente emergiam para exibir as marcas de uma inventive que a castra&io polftica esmagou. Certo dia cheguei ao Hotel Jaragua, onde me hospedava nos bons tempos de O Estado de S Paulo, liguei a televisao e fui pa- ra o banheiro. De 14 ouvi uma voz familiar e saf correndo. Era o HAF, de paletd e gravata, como Ancora de um telejornal do SBT. Foi um cheque. Minha dltima imagem dele, no princfpio dos anos 70, era a de um cabeludo underground, que nos encantava com suas histdrias de reportagens em conversas que atravessavam as madrugadas. HAF se enqua- drou, pensei, eu que me desven- cilhara de meu paletd de todos os dias sem deixar, talvez, de pare- cer um tanto "careta" aos outsi- ders como Hamiltinho. Semanas atras, lendo journal no banheiro (cenario talvez o mais indicado para esse tipo de leitura, hoje), deparei cor a bre- ve e ins6ssa notfcia da morte de HAF, mal completados 47 anos, 30 dos quais em redac6es. Per- plexo tambdm fiquei cor a reve- laqgo da causa mortis: AIDS. Hamiltinho agonizara durante to- do um ano, mas amigos que se distanciaram dele, como eu, nada sabiam a respeito. Os que conti- nuavam prdximos ajudaram sua mulher, Regina Echevarria, tam- b6m jornalista, a carregar o cal- vario com o marido. No belo necroldgio que es- creveu no dltimo ndmero da re- vista Imprensa, Mylton Severiano da Silva (o Myltainho, outro dos companheiros de viagem de Ha- miltinho e Kalili) toca no assunto traumitico, mas nio esclarece a origem da AIDS. pouqufssimo provavel que tenha sido sexo. Mas se esse detalhe interessa ao leitor em geral, nada diz aos ami- gos de Hamiltinho, eternos admi- radores de sua arte de arrancar informag6es na pedra lisa dos de- sertos refratArios, como se elas apenas voltassem ao seu leito natural, no rumo da opiniAo pd- blica, pela qual Hamilton Almei- da Filho deu o melhor de si e nlo foi pouco. Que sua memdria sobreviva intacta e elevada a qualquer cir- cunstAncia passageira da morte, 6 o minimo que ele merece. A volta || A quilo que 6 noticiado passa a A fazer parte da agenda pdblica. O que nio 6 noticiado pode at6 nao estar perdido, mas pode estar perdido para adpoca em que 6 mais necessario". Andei pensando nestas pala- vras de Ben Bagdikian, veteran jornalista, professor numa das maiores universidades america- nas, a de Berkeley, na Calif6rnia, enquanto preparava, cor toda a precariedade, esta edigao que tenta assinalar o retorno do Jor- nal Pessoal. Nos cinco meses em que ele esteve fora de circulagio, enquanto tentava fazer prevalecer a verdade nos cinco processes ju- diciais que sou obrigado a res- ponder per obra e graca da dire- tora administrative do grupo Li- beral, senti a falta de muitas in- formag6es essenciais na grande imprensa, descomprometida, co- mo nunca vi antes com tanta gra- vidade em 30 anos de jornalismo, dos interesses da opiniao pdblica. Tento voltar a cumprir, ainda que apenas parcialmente, os deveres que se imp6em ao jornalismo nestes dias. Junto cor a edicao normal, um encarte para situar o leitor nos labirintos de uma perseguigao mesquinha e fdtil, sem prejudicar o que mais interessa: fazer um journal capaz de refletir a realida- de e impedir que as observag6oes do mestre Bagdkian se tornem amarga constatagao dos fatos e uma acusagao sem resposta a uma imprensa de rainhas & princess de fachada. Jornal Pessoa I'lujit rclaMWrlAi Ijmco FWno Pinlo llHwranib Iu jz Pinto Rua (ampr Salek. 26M.A1- 46.020 lime L2t1 1929 tOp) ol-asdlcwri ImprCs nar ofiWm de AgraMIl Fieora. trauma Alfrea Ciua. 16e. Bctm. |
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