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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00084

Full Text







Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO

Ano Vile N 118 laquinzena de fevereiro de 1994 CR$300,00

ELEIQAO


Quem e mesmo o n 1?
Jader Barbalho e Jarbas Passarinho caminham
para o mesmo lugar no palanque, ocupando
lugares invertidos. Forma-se, assim,
a mais poderosa coligagao para outubro.


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P arece cada vez mais prove-
vel que Jader Barbalho e
Jarbas Passarinho ocupem o mes-
mo palanque pedindo votos para
os dois cargos majoritfrios em
dispute nas elei96es estaduais
deste ano. Jader tentando pela
primeira vez chegar ao Senado e
Passarinho retornando ao governor
do Para quase 30 anos depois de
deixar o cargo. A coligagAo
PMDB-PPR, a mais forte ate ago-
ra formada, possibilitaria assim
uma troca de posig6es: o atual
governador tomando o lugar do
senador e este como successor do
governador.


Uma pesquisa de opinifo,
cujos ndmeros ainda slo conheci-
dos apenas pelos muito prdximos
a Jader, que a encomendou, co-
megou a tornar mais real uma
perspective que parecia remote.
Segundo as informag6es filtradas
da pesquisa que o institute Gal-
lup teria feito em 80 cidades pa-
raenses, entire os dias 5 e 12 de
janeiro, o nome de Jarbas Passa-
rinho aparece como o mais forte
para o governor do Estado. Ele te-
ria o dobro das preferencias em
relagio ao empresario Sahid Xer-
fan e ao prefeito de Belem, Helio
Gueiros, quase empatados nas po-


sig6es seguintes. Atris deles,
como o primeiro nome do PMDB,
o senador Fernando Coutinho
Jorge. O ex-ministro do Meio
Ambiente, em campanha para ser
indicado, tem o console de mais
quatro anos de mandate. Das tr6s
vagas que cabem ao Pard, a dele
sd estard em jogo em 1998.
Para se prevenir contra pos-
sfveis distorg6es, o governador
teria encomendado tamb6m uma
pesquisa ao Ibope, em tase de
elaboragio. As pesquisas nio te-
riam apenas a fung~o de dar satis-
fagio aos polfticos que disputam
o patrocfnio do governador. Jader






2 Jornal Pessoal


Barbalho pretend apoiar um
candidate cor autonomla e den-
sidade electoral, que seja ficil de
carregar e que possa resistir a
imprevistos do jogo polftico.
O governador estaria dis-
posto a mais uma vez renunciar
ao Senado e expor-se ao risco de
ficar sem mandate politico, caso
essa fosse a dnica alternative pa-
ra garantir um aliado como suces-
sor no comando estadual, que 6 o
seu objetivo ndmero um. Jader
Barbalho chegou a anunciar pu-
blicamente que iri permanecer no
cargo at6 o fim do mandate, mas
essa disposigio parecia induzida
pela conjuntura de algumas sema-
nas atris.
Imaginava-se entio que a
candidatura de Helio Gueiros fos-
se imbatfvel, exceto se a revision
constitutional permitisse a de-
tentor de cargo do Executivo dis-
putar a reeleigio para a mesma
fungAo. Apenas nessa circunstfn-
cia a possibilidade de vitdria de
HOlio Gueiros contra um opositor
estaria descartada. Permanecendo
no governor, podendo reeleger-se,
Jader naio tem adversArio.
A evolugio das negociaq6es
dos partidos para viabilizar a re-
visio da Constituigio ainda 6
uma incognita, de cuja decifraqio
depend a definiaio do process
sucessdrio. Mas a pesquisa do
Gallup, se confirmadas as infor-
maq6es vazadas por algumas
tones, indicaria que, na pior das
hipdteses, o governador poderia
desincompatibilizar-se para con-
correr ao Senado e ainda assim
ter boa probabilidade de fazer seu
candidate ao governor veneer,
mesmo contra H6lio Gueiros.
Se nio Ihe deu condig6es de
disputar a presidencia da Repd-
blica, sonho do qual se desliga
definitivamente nesta eleiqAo, a
atuagio do senador Jarbas Passa-
rinho na CPI do Orgamento ser-
viu para voltar a projeta-lo por
Lodo o Estado. HA muitos anos o
senador deixou de ser presenqa
ffsica na maioria dos municfpios
paraenses Mesmo na eleigio de
1986 ele nio precisou descer de
Brasflia As bases Jader cumpriu
por ele essa tarefa, dando-lhe
votos sem que ele precisasse sair
do lado da esposa, entao enferma,
como faziam os donos de currais
eleitorais nos tempos da Repdbli-
ca Velha gragas a seus coron6is
de barranco.
O dado mais precioso da
pesquisa do Gallup, se sAo cor-


retos os vazamentos, senla o de
demonstrar que o nome de Jarbas
Passarinho ter mais envergadura
do que o de Hdlro Gueiros Pode
ser trabalhado cor altos dividen-
dos mesmo que o successor no go-
verno a partir de abril, quando
Jader teria que se desincompati-
bilizar (pelas regras atualmente
em vigor) para disputar o Senado,
se tornasse inconfiAvel, como re-
lativamente inconfiavel 6 consi-
derado o vice-governador Carlos
Santos
O element que complicava
a candidatura de Passarinho ao
governor era sua falta de disposi-
glo para trocar Brasilia pelo ParA
e a idade. No seu dltimo retorno,
o senador foi entatico: quer dis-
putar o governor Quanto A idade,
o peso de um pouco mais de anos
que carrega em relagio a H6lio
Gueiros 6 compensado pela inap-
tidio maior do prefeito da capital
pelo trabalho e por idas ao inte-
rior, trajeto que nio faz por suas
prdprias pernas.
E claro que esses arranjos
estio condicionados pelo desfe-
cho da revisio constitucional,
mas agora a question 6 mais de
detalhes cor a formagio dos dois
grandes blocos que vio se digla-
diar pelo poder polftico no Esta-
do. Nao 6 & toa que H6lio Guei-
ros, na coluna (nAo assinada) que
escreve semanalmente, "Em cima
do fato", invested sistematica-
mente contra Jarbas Passarinho,
Sahid Xerfan e, de uma forma
bem mais leve, Coutinho Jorge.
Sao os dnicos adversaries que
vislumbra Al6m de contar corn
seu prdprio carisma, rentavel so-
bretudo diante da television para
alcangar a populagio de mais
baixa renda, Gueiros ter n dispo-
sigio a segunda mais poderosa
maquina de fazer votos e aposta
nos descontentamentos contra Ja-
der na base municipal.
Assim, poderA liderar uma
cohgagio tendo como aliado o
senador Almir Gabriel, do PSDB
Os dois teriam estabelecido um
acerto tAcito: quem estiver A
trente nas pesquisas serd o candi-
dato ao governor, apoiando o ou-
tro para o Senado, caso o prefeito
decida mesmo abandonar a segu-
ranca do mandate na capital esti-
mulado pela confianca que alia-
dos e assessores Ihe transmitem
de que 6 o politico n 1 do ParA,
mais encorpado e de mais alta do-
sagem do que a assim dita Brah-
ma. A, pelo menos, o que diz


o marketing do dia. A polftica,
alhis, como a cerveja, combine
cor pizza neste pals


Um faganha

Sou dos primeiros clients do
livreiro Raimundo Jinkings, dos
que iam A casa dele, na rua Mun-
durucus, sem saber distinguir os
livros que estavam A venda dos
que constitufam a biblioteca par-
ticular do Ifder comunista, que
buscara no comdrcio uma alter-
nativa ao interdito polftico que os
militares vitoriosos Ihe haviam
imposto. Na primeira vez em que
estive no acolhedor bangal6 de
Jinkings guardava, no s6dto da
memdria, a image do terrivel
comandante geral da CGT no Pa-
ra, que talvez tivesse, no fundo
do terreno, uma criagAo de san-
giiineas criangas para o desjejum
matutino, como a imprensa da
dpoca queria fazer crer a um
adolescent aturdido pelos acon-
tecimentos.
Como a maioria dos mili-
tantes do velho Partidio, Jin-
kings era de uma paci8ncia quase
ilimitada e de sovidtica capacida-
de de resignagio a voldpia dos
her6ticos clients. Do alto de
quase 30 anos como consumidor
dos livros comercializados por R.
A Jinkings, nao posso deixar
sem registry a vit6ria que ele
conseguiu, de ser o livreiro do
ano em todo o pafs atuando numa
cidade que 16 cada vez menos.


0 artist

B iratan Porto pertence a uma
categoria de profissionais
que, felizmente, estA crescendo
no Pard: daqueles que t6m com-
pet6ncia de nfvel national e in-
ternacional. Seu quarto livro
(Soltando as Hienas cartons ca-
nalias, edifio do author, 100 pa-
ginas, CR$ 1 500,00), rec6m-lan-
gado, atesta que Biratan 6 o mais
important cartunista paraense em
atividade e, certamente, um dos
mais criativos que ja trabalharam
por aqui. Seu trago econ6mico
destaca ainda mais suas iddias,
brilhantes sobretudo ao retratar
individuos isolados em situag6es
de "non-sense" Operario do dia
a dia, Biratan conseguiu livrar-se
das amrras do cotidiano e da refe-
rencia histdrica para produzir arte
verdadeira.







Jornal Pessoal 3


A historic

envernizada

De 1992 para 1993 o Para pu-
lou da nona para a setima posigio
entire os maiores exportadores
brasileiros. Deve passar o Rio de
Janeiro, que esti logo acima, ate
meados desta decada e chegar ao
quarto lugar no final do seculo,
abaixo apenas de Sio Paulo, Rio
Grande do Sul e Minas Gerais. A
contribuigio paraense para o co-
mdrclo exterior do Brasil, que
atualmente 6 de 1,7 bilhio de
ddlares, ultrapassard US$ 2,5 bi-
lh6es quando o ano 2000 chegar
Essa e a mais important
participagio de um Estado ama-
z6nico nas contas nacionais.
Quando comegou a decada de 70
o Para nao tinha qualquer expres-
sdo na balanga comeicial do pafs.
Agora ja ter alguma signilica~go
em certos stores e deixou para
tris Estados que, em outros indi-
cadores econ6micos, tam maior
peso, como Bahia, Pernambuco e
GoiAs As exportaq6es paraenses
ja representam 5% da receita do
comercio exterior brasileiro e de-
verfo dobrar nos prdximos anos
Puxando a pauta estao mind-
iios e produtos sfdero-metaldrgi-
cos Gragas a isso, a Albris, a
maior empresa da Amaz6nia, e a
setima maior exportadora indivi-
dual, com quase um terqo das
vendas alcangadas pela Compa-
nhia Vale do Rio Doce, que lide-
ra o ranking dos exportadores A
CVRD, aliAs, e uma das proprie-
tarias da Albras, em associagqo
corn um consdrcio japones.
Sob certos aspects, por-
tanto, a 6poca da Amaz6nia como
uma reserve de recursos para o
tuturo acabou Em certos circul-
tos de comercializaqio ela ja e
um produtor efetivo, que deve ser
considerado como um element
de regulaqio de mercado Ate o
final desta decada, por exemplo,
a Amaz6nia tera papel important
em relagAo a bauxita, alumfnio,
ouro e caulim, dos quais sera uma
das maiores fontes produtoras
A Mineragqo Rio do Norte,
instalada a 900 quil6metros do
litoial, ja 6 a maior mineradora
individual de bauxita, o mindrio
do alumfnio, chegando a marca de
10 milhdes de toneladas anuals.
A Albras ter a maior tabrica de
alumfnio do continent, forne-
cendo metal principalmente para


o Japao, que nela obt6m quase
10% de suas necessidades. Com a
mina de Carajas, a CVRD fornece
15% do mindrio de ferro que ali-
menta os altos-fornos do Japao,
que adotou a estratdgia de manter
um parceiro important fora do
seu raio asiatico de influ6ncia pa-
ra atenuar a dependencia de mate-
rias-primas.
Hoje ha apenas uma fabrica
de caulim em atividade na Ama-
z6nia, a que o milionario norte-
americano Daniel Ludwig im-
plantou no vale do Jari, atual-
mente sob o control do grupo
Antunes Mas em 1996 devera
entrar em operagio uma unidade
ainda maior, a da Jari em asso-
ciagdo cor a CVRD, e talvez
uma teiceira fabrica, tornando o
Pard um dos maiores fornecedores
dessa argila especial, usada prin-
cipalmente no revestimento de
papel
Nessa epoca tambem ja de-
verd estar em atividade a segunda
flbrica de cobre eletrolftico do
pafs, em Carajds. No Amazonas e
em Rond6nia se extra quase um
quarto de toda a cassiterita pro-
duzida mundialmente, parte dela
oriunda de mina organizada e
outra parte de garimpo. O papel
que a Bolivia desempenhou du-
rante tanto tempo agora e do Bra-
sil
Apenas estes ndmeros, aos
quais outros poderlam ser agre-
gados, mostram que a Amaz6nia,
ao menos quanto a bens de ori-
gem mineral, deve ser tratada
como um centro de producgo de
importancia international e nao
mais como um territ6rio em
aberto, um papel em branco sobre
o qual cabe apenas especular e
imaginar
Nao hA ddvida que a regiao
ji ter importancia estrategica em
relagao a ceitos bens, que fize-
ram-na subir aceleradamente nas
tabelas das exportaq6es brasilei-
ras. Mas estatisticas que geral-
mente sao vistas em tonalidades
r6seas pela abordagem official ou
trintalista devem ser examinadas
tamb6m sob outro entoque.
Se o extrativismo vegetal,
que marcou boa patte da hist6ria
da Amaz6nia, nao foi capaz de
desenvolve-la plenamente ou dar-
ihe autonomia, o extrativismo mi-
neral nio tem condig6es de repre-
sentai uma alternative diferente
Confrontando os dados ffsicos da
expoitagao cor os indicadores
socials, 6 impossfvel nio perce-


ber o abismo que separa o cres-
cimento econ6mico do desenvol-
vimento em seu sentido mais am-
plo. Ou certas distorc6es desse
modelo: a Zona Franca de Ma-
naus, que produz apenas para o
mercado interno com base em in-
sumos importados sem o paga-
mento de direitos, gera um pro-
duto de valor quatro vezes supe-
rior ao das exportaq6es paraen-
ses, embora grande parte da renda
apenas transit pela capital ama-
zonense
Assim, os personagens e as
tramas podem ter mudado, mas o
roteiro da histdria 6, basicamente,
o mesmo.

O tamanho

da criatura
O comrcio da cocafna fez do
colombiano Pablo Escobar um
dos homes mais ricos do plane-
ta. Sua fortune, na mais modest
das estimativas, ultrapassou a
marca tantistica de cinco bilh6es
de ddlares, quase cinco vezes su-
perior A dos tres maiores miliond-
jos brasileiros (Antonio Ermfrio
de Moraes, Roberto Marinho e
Sebastiio Camargo), que apenas
tianspuseram o primeiro bilhio de
ddlares.
A more de Escobar, no ano
passado, nio significou, entre-
tanto, que o narcotrafico reduziu
suas atividades Escobar era o
mais rico dos narcotraficantes,
mas a tama, a cuja sedug o nio
reristiu, mesmo sabendo que essa
sujei~ o Ihe seria fatal, progres-
sivamente o deslocou do epicen-
tro do neg6cio
Sem Escobar, o cartel de
Medellin deixou de existir en-
quanto entidade organizada. So-
breviveram apenas traficantes
isolados. Mas desde algum tempo
sua posig~o havia sido ocupada
por outro cartel colombiano, o de
Call. No Brasil, as principals
iotas de passage da cocafna sAo
controladas pelos homes de
Calli, monopolistas nessa ativi-
dade na regiao amaz6nica, que
apiesenta o melhor cenhrio de
operag6es.
O previsfvel destiny de Es-
cobar levou os estrategistas do
cartel vizinho a alterar sua logfs-
tica Fizeram o que normas de or-
ganizagao & m6todos recomen-
dam: segmentaram o neg6cio
Agora o cartel trata apenas do
fornecamento da matdria prima e
da supervisor de seu transport







4 Jornal Pessoal


atd o ponto de chegada Todas as
etapas intermediarias sao execu-
tadas por agents aut6nomos, na-
tivos do prdprio local, que fun-
cionam como se dispusessem de
um contrato de leasing ou fran-
chising, telaqio estabelecida com
tal cuidado que atd a marca do
cartel 4 impressa nas cargas de
cocafna para assegurar sua quali-
dade, ainda que transportada por
terceiros
Implantado na Amaz6nia, es-
se negdcio segue a 6Igica dos in-
vestimentos regulars, legais Os
traficantes postados nos pontos
de origem e de chegada da mer-
cadoria ficam cor 80% ou atd
mais da renda gerada pela extra-
qao e comercializaqao da cocafna,
negdcio que movimenta anual-
mente mais de 100 bilh6es de
d6lares
Os agents aut6nomos que
participam do circuit ficam corn
uma pequena fraqao, aquela que 6
gasta nos locais cor o pagamento
da mao-de-obra, dos meios de
transport, dos representantes
pdblicos omissos ou coniventes,
despesas legais, etc Eventual-
mente, conform o caso, a reten-
gao de renda 6 maior quando o
local oferece vantagens para a la-
vagem do dinheiro obtido ilegal-
mente.
Apesar de representar uma
fatia menor da renda do narcotra-
fico, essa intermediaqao pode
movimentar um volume expressi-
vo de dinheiro, principalmente
quando atua em ireas pobres,
Uma parte considerivel da eco-
nomia informal no Brasil tornou-
se tambem illegal no mais ample
sentido e nao apenas fiscal ou
tributirio.
A dura condirio de sobrevi-
vencia para centenas de milhares
de brasileiros tirou-lheSa motiva-
gio para indagar sobre a origem
do dinheito que garante suas fa-
mflias, principalmente quando
nAo 6 dinheiro carimbado. Nao
espanta que cidadaos exclufdos
do estreito circuit dos privile-
giados tenham se habituado a li-
dar cor as verdes notas da moeda
americana, demonstrando desen-
voltura no trato com o cambio.
9 diffcil avaliar a gravidade da
presence e penetracio do narco-
trifico no Brasil e particular-
mente na Amaz6nia porque a
questao nio 6 tratada de forma
global. Ela segue, ao contririo, o
varejo policial. Policiais cario-
cas, os mais contumazes repre-


sentantes do poder pdblico a lidar
corn traficantes no Brasil, nio he-
sitaram um s6 moment em man-
dar um enviado a Col6mbia para
consegulr atestado de bons ante-
cedentes junto a Pablo Escobar.
Em question de duas semanas o
enviado estabeleceu contato corn
o chefe do cartel de Medellin,
encontrou-se cor ele, obteve sua
declaracio de que nao estivera no
Brasil (e, portanto, nio poderia
ter sido chantageado pela polfcia
brasileira, como dizia a denincia)
e voltou, apenas alguns dias antes
que a polfcia colombiana montas-
se o cerco final ao home mais
procurado naquele pafs.
Aparentemente, a circulafio
do policial brasileiro nio atrapa-
lhou e nem beneficiou as opera-
q6es da polfcia colombiana, sim-
plesmente ignorando-a e sendo
por ela ignorada. Ou seja: o poll-
cial biasileiro circulou pelo cir-
cuito dos traficantes, do qual era,
pelo menos, iniciado.
Veneer a batalha mais im-
portante na guerra travada contra
o narcotrafico custou muito caro
ao mundo legal na Col6mbia, pafs
que possui uma das mais extensas
fronteiras cor o Brasil. Mas os
brasileiros, apesar dos vdrios in-
dicadores sobre o estabelecimento
de fortes relag6es entire o podero-
so narcotrafico colombiano e o
crescente comrrcio da droga no
pafs, parecem preterir achar que a
morte de Pablo Escobar e um as-
sunto interno do pafs vizinho e
que o nosso problema deve conti-
nuar a ser tratado, caso a caso,
pela nossa polfcia
Ou seja: estamos no estAgio
em que se encontravam os colom-
bianos quando comeraram a com-
bater o biaqo visivel do narcotra-
fico, sem saber que ele era ape-
nas a part de um corpo asseme-
lhado ao do polvo, Lio grande
que era visivel como o animal
mitoldgico que Jdlio Verne criou
para ser liquidado pelo capitio
Nemo, num confronto que tam-
bmr levou a eliminaqao do herdi
Evidentemente, ha formas mais
s6bias e menos doloridas de
apiender e de prevenir.


A hist6ria

A histdria da fraude no primeiro
vestibular da recem-reconhecida
Unama (Universidade da Amaz6-
nia, particular, resultante da fu-
slo da Unespa cor as Ficom)


oferece multas lic6es ao aprendiz
interessado. Depois de um infcio
impetuoso, em que atrapalhou o
bom senso prometendo apresentar
resultados imediaios, a polfcia
aceitou investigar em ritmo mais
lento e cor diretriz menos nftida.
O principal suspeito at6 ago-
ra identificado, o professor Paulo
S6rgio Martins Braga, foi preso
com a voldpia de caso resolvido.
Desinteressadamente, a jufza Ma-
ria Palheta Alves, da 4a Vara Pe-
nal, concede uma prisio tempo-
raria que a polfcia nao podia pe-
dir e I justiga nio cabia reconhe-
cer. O cidadio foi retirado de
dentro de seu carro, diante da fi-
lha menor e da esposa, e levado
para a delegacia e a cela, na en-
trada e na safda submetido A cu-
rosidade pdblica e a um trata-
mento tambem desatento da im-
prensa. Tres dias depois foi solto
e ji se passaram duas semanas
sem que a celeridade investigatd-
ria se tivesse justificado.
Nao ha ddvida de que os
crit6rios eticos individuals do
professor sao, no minimo, ques-
tionaveis. Ele teria que ser um
Catao (ou, em versao patoldgica,
m6dico e monstro) para conseguir
separar sua face de elaborador de
testes do vestibular da de profes-
sor de alunos de cursinho de ves-
tibular. Mas os dirigentes da
Unama estavam obrigados a saber
que um dos preparadores do teste
dave. aulas em um dos ramos
conjugados da prdpria empresa, o
Moderno. A exigencia de que
formulador de vestibular nao po-
de ser professor de cursinho ter
um preqo, preso que as institui-
g6es de ensino nao estao dispos-
tas a pagar ou dizem nao estar
em condig6es de pagar para dar
um pouco mais de dignidade A
profissao.
O escandalo do vazamento,
para nao acarretar prejufzo maior
I Unama, ainda cor licenga pro-
visdria de funcionamento, preci-
sou ser contido Is pressas e a
press, quando nio 6 inimiga da
perfeigao, serve para esconder
a tal da verdade verdadeira,
aquela que s6 se apresenta quan-
do se forca seu aparecimento. A
prisao de um suposto fraudador
isolado serviu de satisfaqio A
opiniao pdublica e, atravds dela,
aos que poderiam dar ao aconte-
cimento suas dltimas consequen-
cias O que se seguir a partir daf
6 lucro ou, como se diz na atual
saison, e pizza.







Journal Pessoal


Sem copyright

U m Estado pobre como o Para
pode desperdigar um investimento
privado no valor de 250 milh6es
de ddlares? Esta pergunta come-
cou a ser feita a partir do mo-
mento em que a Rio Capim Quf-
mica S/A, uma empresa formada
em 1992 pela Companhia Vale do
Rio Doce e o grupo Antunes, en-
viou sinais de fumaga preta para
indicar sua disposiaio de desistir
de implantar em territdrio paiaen-
se o maioi complex de produgio
de caulim do pafs.
A sinalizaiao culminou com
seu primeiro anincio publicitario,
publicado em meia pagina pelos
jornais de Belem no dia 23 de ja-
neiro. O tftulo jA dizia tudo sobre
as inteni6es: "Estamos pedindo
licenca para colocar o Pard no
mercado mundial do caulim"
Tudo porque a concessAo da
licenca piovis6ria de implantacao
pelo Conselho Estadual de Meio
Amblente (cujos novos integran-
tes tomaram posse nesta semana)
ainda nio foi expedida. No dia 29
de janeiro a Secretaria de Ci6n-
cia, Tecnologia e Meio Ambiente,
responsavel pela elaboracao do
parecer t6cnico que orientar6 a
decision do Conselho, realizou
a terceira audiencia pdblica para
discutir o Relatdrio de Impacto
Ambiental (Rima) apresentado
pela RCQSA
Nas duas audiencias anterio-
res os participants apresentaram
crfticas ao document, considera-
do insatisfatdrio e superficial A
empresa providenciou uma nova
version do Rima, submetida a mais
discusses no dia 29, sem satisfa-
zer ainda todas as exigencias.
Como tres audiencias pdblicas jA
constituem um record nesse tipo
de piocedimento no Para, a Sec-
tam decidiu concluir o parecer
cor as informag6es ja disponf-
veis e as que serao entregues nos
pidximos dias, permltindo colocar
o Conselho em condig6es de de-
cidir antes do final de fevereiro
As notfcias veiculadas por
algumas colunas de jornais, de
que a Rio Capim estaria disposta
a cancelar seu projeto por causa
da protelafio na expedigio da li-
cenga provisdria, podem ser ape-
nas um jogo de pressio no cabo-
de-guerra travado entire a empresa
e grupos ecol6gicos.
Os defensores da empresa
alegam que os ambie talistas ul-
trapassaram os limits do bom


5


senso para fazer exigencias des-
cabidas ou preciosas Garantem
que o process industrial, con-
sistindo na extragAo da argila,
sua lavagem e secagem e o trans-
porte por mineroduto ate um
porto onde sera estocada e em-
barcada, nio oferece qualquer
risco de agressAo a natureza, ex-
ceto em casos de acidente. Mas,
se ocorrerem, os acidentes pode-
riam ser mantidos sob control
gracas a mecanismos de seguran-
9a ja previstos O projeto. como
diz a pega publicit6ria divulgada,
"est& sendo concebido cor filo-
sofia ambiental de pals de Primei-
ro Mundo"
Os ambientalistas retrucam
que o Rima foi elaborado as pres-
sas e sem maior atengro. A crfti-
ca 6 admitida por algumas fontes
da empresa, que sutilmente trans-
ferem a culpa para o grupo Antu-
nes, responsavel pela contratagAo
de uma empresa de consultoria de
Minas Gerais sem maior expe-
riencia nesse tipo de trabalho
Mas tamb6m asseguram que as
falhas apontadas foram corrigidas
e que a versAo apresentada du-
rante a segunda audi6ncia pdblica
cumpriu todas as exig6ncias le-
gais, principalmente porque in-
sistem o empreendimento nao 6
agressivo ao meio ambiente. Ale-
gam ainda que certas cobrangas
devem ser feitas a administrag&o
pdblica e n&o ao investidor pri-
vado.
Na terceira audiencia foram
repetidas as mesmas restrig6es e
apresentadas propostas que difi-
cilmente serao atendidas antes da
licenga provisdria, mas nao 8
provavel que a empresa, diante da
resist6ncia que ainda precisa en-
frentar, cumpra a ameaga de le-
vantar acampamento e procurar
outro Estado para abrigar seu
projeto. Tal hipdtese 6 pouco
plausfvel, mas nessas horas sem-
pre algu6m lembra um antece-
dente,
No infcio da decada de 80 a
Alcoa, maior fabricante mundial
de alumfnio, quis instalar uma fr-
brica is proximidades de BelCm,
mas seus dirigentes desistiram lo-
go depois de terem recebido um
prolongado "ch6 de cadeira" na
Secretaria de Planejamento do
Estado. Foram entio para Sio
Lufs, onde hoje tunciona a Alu-
mar, a segunda maior inddstria de
alumfnio do pals.
Po ta-vozes do governor
contestam a seriedade dessa ver-


sao. Garantem que a Alcoa estava
apenas reconrendo a um meio de
pressao para obter vantagens ina-
ceitiveis. De qualquer maneira,
ainda que a histdria espalhada
pela empresa seja verdadeira, o
resultado nio foi tAo ruim para o
Pai. A 40 quil6metros de Bel6m
esta a Albris, de porte um pouco
maior do que a f4brica da Alcoa.
As duas, em vizinhanga num es-
tuArio tao complex quanto o do
rio Para, poderiam trazer muitos
problems a capital paraense.
Tomar decis6es sensatas e
vantajosas em situag6es tensas 6
muito diffcil. Falta ao Estado,
sobretudo, informa96es que Ihe
permitam ficat em pd de igualda-
de cor empresas, principalmente
multinacionais, que t6m nao ape-
nas um melhor conhecimento do
mercado, como, frequentemente,
o manipulam. Em algumas cir-
cunstAncias o poder de barganha
do Estado 6 maior, mas o merca-
do pode mudar bruscamente e,
nessesmomentos, o melhor 6 ser
menos exigente.
O Para tinha condig6es de
assumir um important papel na
economic international do alumf-
nio na d6cada de 70 se tivesse
torado as decis6es certas. O Ja-
plo teve que fechar suas fabricas
e consumidores independents
dos Estados Unidos tentaram es-
capar as garras do cartel.
Ambos se dirigiram para o
Para, o Estado mais favorecido
no pafs em riquezas minerals.
Quanto aos japoneses, o governor
paraense nio fez a pressio ade-
quada para obter mais do que Ihe
concederam e ganhou migalhas.
Quanto aos produtores que nio
faziam parte do cartel das seis
"lrmis'", simplesmente tiveram as
portas fechadas. Resultado: as
multinacionais assumiram tambdm
aqui o mercado de alumfnio.
Como ja nao 6 possfvel pen-
sar em certos minerals sem consi-
derar as grandes reserves deles
existentes no Para, cada vez mais
esses moments vao se repetir,
sem que no horizonte se apre-
sente a perspective de melhores
decis6es. O Para pagard caro por
nio estar em condig6es de ser
contemporaneo de uma histdria
que 6 sua, mas 6 escrita a partir
de fora.







6 Jornal Pessoal


As terras

dos indios

No depoimento que prestou A
Frente Parlamentar da Amaz6nia,
em Brasflia, no final do m&s pas-
sado, o ministro do Meio Am-
biente e da Amaz6nia, embaixa-
dor Rubens Ricdpero, disse que
sabia da presenga de "poderosos
lobbies" agindo nos bastidores da
revisao constitutional para difi-
cultar a demarcagio de terras in-
dfgenas. Esses grupos de pressio
teriam dois objetivos: transferir o
controie do process do Executi-
ve para o Legislative e da Uniao
para os Estados, acabando ainda
cor a autonomia da Funai, o dr-
gao tutelar dos fndios.
Ha arguments sedutores pa-
ta vender essas alteraq6es no
texto da Constituiaio de 1988 A
incompetencia e, muitas vezes, a
venalidade da Funai, 6 lendaria
Transferida a jurisdiAio para o
Congress, o control seria cole-
tivo e democrdtco, possibilitando
a filtragem dos anseios da opi-
nmao pdblica Ja os Estados, mais
prdximos da populaqio de care e
osso do que a abstrata Unieo, que
ter muita cabega mas nao base
territorial, disporiam de maior le-
gitlmidade para conduzir a ques-
tao.
Rubens Ricdpero, entretanto,
parece vacinado contra esse tipo
de vfrus insinuante. Ele acha que
a demarcaiao se tornaria um pro-
cesso tio buiocratizado que a
demarcacqo das terras indfgenas
"serra obstrufda eternamente".
Nao 6 outro o alvo real do lobby,
embora tambdm disfariado por
outra cantilena: por tias da reser-
va de areas para os fndios esta-
riam interesses estrangeiros, eco-
n6micos e geopolfticos, de um la-
do querendo explorer as riquezas
naturals amaz6nicas, de outro la-
do visando impedir a consumarao
da vocafio de grandeza do Bra-
sil, um destine manifesto que nao
sucumbe ao menos na ret6rica -
nem as piores crises, como a
dtual.
Esse tipo de dendncia 6
sempre feita em voz soturna, o
denunciante omitindo mis do que
revelando, a pretexto de proteger-
se das mesmas forqas ocultas in-
vocadas por Janio Quadros para a
rendncia de 1961 Em plena era
da informarao, a incapacidade de
expor a luz da raz&o interesses


envolvidos em qualquer question
relevant represent um atestado
de fal6ncia national. Profissional
de carreira, Ricdpero reagiu ao
ardor dos provincianos parla-
mentares amaz6nicos garantindo
que a dendncia nio passa de
"falicia" e que a ameaqa 6 um
moinho de vento
Pode haver, em realidade,
jogo de interesses econ6micos e
comerciais paralelamente A defi-
niqao de territdrios reservados
aos fndios, mas um nio anula o
outro Se a adminiStrargo pdblica
brasileira nao ter condig6es de
detectar essas teias, dificilmente
vai conseguir demonstrar sua ca-
pacidade para tutelar sociedades
que gravitam em torno da nossa,
que se estabeleceu em territdrio
national esmagando-as e impon-
do-lhes uma condigio marginal
A isso costuma-se chamar de hu-
manismo e 6, de qualquer manei-
la, um indispensavel traqo de ci-
vilizagio
A resistencia do ministry aos
temores difusos das bancadas re-
gionais nio quer dizer que ele
esteja "do outro lado" por moti-
ves altrufsticos. Ricdpero 6 bem
pragmAtico Reservas indfgenas
demarcadas constituem um pano
de fundo fundidrio estavel para
atividades produtivas regulars, o
que 6 mais interessante para em-
presas legalmente organizadas do
que garimpeiros e firmas de pa-
pel.
Mineradores para valer nio
se seduzem mais pelo domfnio
imobilidrno do solo. Querem
mesmo o que esto enterrado no
subsolo. Disp6em-se a pagar mais
do que os meros especuladores de
ocasiao, desde que possam livrar-
se deles, uma praga que, dissemi-
nada, 6 muito ditfcil de controlar.
Constituem categoria social dis-
unta de fazendeiros e madeirei-
ros, por exemplo, que ainda em-
pacam na resist6ncia A formaliza-
iao legal do dominion indfgena
Acham-se numa escala mais atra-
sada do piocesso histdrico
A caracterizagio do territd-
rio tribal, assim, nao 6 empeci-
Iho. O problema 6 a ameaga de
proibilqo ao desenvolvimento de
atividades econ6micas por tercei-
ros em reserves indigenas Esses
agents (que talvez, no cenario
amaz6nico, nio ficassem mal
acomodados na roupagem de d6s-
potas esclarecidos) nao v6em
qualquer inconvenient na demar-
caqgo de todas as reserves deli-


mitadas pela Funai, espalhando-
se por 8% do territdrio brasileiro,
desde que os fndios possam per-
mitir o ingresso de estranhos para
jealizar a extragAo dos iecursos
naturals existentes nessas areas
Essa penetragio nio consti-
tui novidade na relagio dos gru-
pos indfgenas com a sociedade
national, mas o fio condutor des-
sa histdria sempre foi a fraud, a
relagio estabelecida a margem da
lei. As empresas de hoje querem
realizar tal relacionamento atra-
v6s de contrato assinado entire as
parties, onde direitos e deveres
estarAo definidos, talvez nao de
forma tio clara quanto seria de-
sejavel, nem em mutialismo rigo-
rosamente harm6nico, mas, de
qualquer maneira, contrato para
valer para todos, a sombra do ar-
tigo 231 da ConstituigAo.
Imaginar que os fndios nao
aceitam essas regras 6 imagind-
los atrav6s das paginas de antro-
pdlogos e nao da realidade
atual, cada vez menos visfvel nos
registros etnograficos. Os (ndios
tiveram tAo pouco no trato cor o
chamado home branco que o
produto dos negdcios corn as cor-
porag6es modernas parece um
salto qualitative, o que efetiva-
mente 6 em relagRo ao passado,
ainda que nAo exatamente quando
essa relaqio 6 situada no hori-
zonte das relag6es de troca inter-
nacionais. Apenas as bugigangas
e balangadans sao agora eletr6ni-
cos, fascinam mais.


voz forte

Uma informagAo poderia dar
maior precisio ainda ao tiro que
o ministry Rubens Ricdpero dis-
parou verbalmente contra os lob-
bies que se op6em A demarcagao
das terras dos fndios O relator da
revisAo constitutional, deputado
Nelson Jobim, 6 tamb6m o autor
de um parecer, preparado recen-
temente, sob encomenda do go-
verno do Para, que defended a in-
constitucionalidade das demarca-
o6es feitas unilateralmente pela
Funai, exigindo a participaaio
dos Estados. Sem isso, seria
ofensa ao princfpio federativo
que sustenta as relac6es entire as
unidades brasileiras.
O parecer nio 6 das melho-
res produg6es t6cnicas a respeito,
apesar de ter custado bom dinhei-
ro, mas a posiqio de Jobim 6
forte.






Journal Pessoal 7


Caixas pretas

na floresta

O dnico hidrante que havia atd
recentemente em toda a Ama-
z6nia fora instalado, no final da
d6cada de 20, pelo milionario
norte-americano Henry Ford em
uma possession que lhe foi entre-
gue pelo governor brasileiro no
vale do Tapaj6s, a mais de 800
qull6metros de Bel6m, no interior
da selva.
Em Fordlindia, sede de uma
fracassada tentative da Ford
Company de se tornar auto-sufi-
ciente em borracha cor uma
plantagio formada no prdprio
"habitat" da seringueira, nio ha-
via apenas a novidade do hidran-
te. A vila, tipicamente americana,
tinha Agua tratada, esgoto, a pri-
meira serraria inteiramente meca-
nizada de todo o interior brasilei-
ro e um padrio de vida bem for-
dista, que levou os empregados
natives a se rebelarem contra a
comida que Ihes era servida nos
refeitdrios. A dieta copiava as
regras de Michigan. Evidente-
mente, nio inclufa a farinha de
mandioca. Sem sua farinha de to-
dos os dias, os caboclos se re-
voltaram e fizeram um quebra-
quebra, cujos motives a Ford
nunca entendeu.
Fordlncia foi a primeira das
caixas pretas de modernidade
plantadas no solo amaz6nico
neste s6culo, mas outros enclaves
semelhantes v6m se repetindo
desde entio. Rasga-se um espaqo
na selva e ignora-se toda a Area
em volta o entorno, para usar a
linguagem do dia. Os beneffcios
da modernidade nio se espraiam
e, frequentemente, nerm se enraf-
zam. Os visitantes que chegam a
Fordlindia, quase 50 anos depois
que Ford dali se retirou, chocam-
se cor o contrast entire aquele
resfduo de fordismo e a mis6ria
circundante. Fordlindia permane-
ce sendo um ponto de vanguard,
ainda que para efeito meramente
museol6gico, comparada ao que
esta ao alcance dos nativos da
Area.
Os contrastes entire os gran-
des projetos, implantados na
Amaz6nia para dela extrair matd-
rias-primas que vAo ser levadas
ao mercado international, e todo
o restante da regiio que ainda
nao tern inteiesse para as relaq6es
de troca externas, 6 brutal. A


brutalidade dessa disparidade pa-
rece nao sensibilizar a maioria,
como se fosse uma situaqio natu-
ral, inevitivel, como se fosse es-
se o prego que a jungle ter que
pagar para receber aplicag6es
mais significativas de capital fo-
raneo.
No entanto, a prdpria histd-
ria de alguns dos agents coloni-
zadores sugere que as coisas po-
deriam nio ser exatamente assim.
Os ndcleos urbanos montados
como bases de apoio para a reti-
rada dos recursos naturais ama-
z6nicos nio precisariam ser com-
pletamente fechados ao mundo
circundante, nem se tornar exclu-
dente o circuit de circulacio de
riqueza, incapaz de gerar beneff-
cios sociais de alguma express&o
A Amaz6nia esta hipotecando seu
present contra a promessa de um
future que inexistird se o atual
modo de exploraiAo econ6mica
nio for modificado desde jA.
Esta linguagem meio codifi-
cada pode se tornar mais clara se
referida a casos concretos. No fi-
nal do ano passado, por exemplo,
a Eletronorte transferiu para o
governor do Pard, em regime de
comodato, a administration do
hospital construfdo pela empresa
na vila permanent da hidreletrica
de Tucuruf Conclufdo em 1981,
o hospital ainda 6 o maior e mais
modern t' interior do Pard. Com
seus 210 leitos, chegou a tender
a um universe de 57 mil pessoas,
o pique de empregos gerados pela
obra da usina Mas ha pelo menos
cinco anos o hospital funciona
com 10% de sua capacidade,
acompanhando a reduqio no qua-
dro de empregados da Eletronorte
e empreiteiras.
A transfer6ncia, embora uma
evid6nca Idgica ha muito tempo,
toi protelada ao maximo pela Ele-
tronorte, que tambdm se recusava
a abnr mao das centenas de casas
ociosas na vila, que, techadas, se
deterioravam. A empresa achava
que abnr o acesso ao hospital, co-
mo abnr a prdpria vila, sigmticana
baixar a qualidade de vida naquele
oasis de conforto e modermdade.
A apenas seis quil6metros de
distfncia, a sede mumcipal de Tu-
curuf 6 pouco mais do que uma fa-
vela, sem Agua tratada, sem esgo-
tos e corn todos os problems re-
manescentes do rush de migrantes
atraidos pela usina, a maior obra
pdblica da histdria da Amaz6nia.
Esses problems poderiam ter sido
minorados se o entio president


Ernesto Gelsel nio tivesse isenta-
do, em 1974, a Eletronorte e suas
empreiteiras do pagamento de im-
postos, inclusive o ISS (Imposto
Sobre Servicos) municipal, media
inconstitucional mesmo naquela
6poca de Constituigio de meia-so-
la.
Toda a vila, com sua paisa-
gem de cartio postal europeu,
consumiu algo acima de 200 mi-
Ih6es de ddlares, investimento que
beneficia diretamente umas cinco
mil pessoas, enquanto 10 vezes
mais slo pnvadas de quase tudo.
Sd o hospital, 12 anos atrds, ab-
sorveu US$ 3,5 milh6es (segundo
dados oficlais), mas nio foi de
maior serventia quando surtos epi-
d6micos eclodiram e provocaram
mortes na sede municipal, cujos
habitantes eram mantidos A distin-
cia pela cerca metAlca, perma-
nentemente guarnecida por segu-
rancas, que isolava a vila perma-
nente.
A distincia entire o ndcleo ur-
bano e a cidade de Tucuruf, fisica-
mente de seis quil6metros, em
terms de oevilizacao sempre foi de
s6culos, o pnmeiro na Europa, a
segunda na Africa. A transferencia
do hospital, que se tornou um peso
oneroso para a Eletronorte, dimi-
nui um pouco esse fosso, mas nio
o elimina.

Voz do dono
A bancada parlamentar
amaz6nica 6 acusada de debilida-
de na defesa de plataformas re-
gionais quando comparada A
aguerrida legifo nordestina. Em-
bora a representagio parlamentar
da Amaz6nia seja maior do que
sua participagao demogrAfica ou
econ6mica, a regiao nio consegue
fazer-se ouvir e prevalecerem
suas teses no Congresso.
Esse 6 um ponto pacifico.
Mas ha outro. Os politicos regio-
nais estio sempre muito atras dos
de outras regi6es e da burocracia
federal mesmo quando o assunto
6 Amaz6nia Demonstram em ob-
tuso provincianismo e uma per-
cepcio refrataria a evoluqio his-
t6rica, sempre tendendo a buscar
inspiraqao num passado tenden-
closamente interpretado
Nao surpreende que nos ine-
vitAvels encontros reivindicatd-
rios cor representantes do go-
verno seja possfvel pincar dos
discuI us o mote dos interesses
especificos. Querendo falar pela
iegiAo, falam apenas pelo que
estA aqu6m do pr6prio nariz.








Grande jornalista



Sjornalismo brasileiro perdeu,
no ano passado, um de seus
melhores textos (Narciso Kalili) e
um dos mais competentes repdrte-
res (Hamilton Almeida Filho)
Estiveram juntos num dos mais
brilhantes empreendimentos jor-
nalistucos de todos os tempos no
pafs, a revista Realidade, da
Editor Abril (1966-1973).
Realidade destruiu vdrios
mitos De que o leitor brasileiro
sd 6 capaz de absorver textos
curtos, per exemplo. Ou de que a
linguagem jornalfstica precise ser
rebaixada para estar ao alcance
do leitor medio, ou de que ha te-
mas acessfveis apenas a inicia-
dos, inabordaveis no tratamento
jornalfstico.
Em Realidade escrevia-se
como se fosse literature, trazendo
para a imprensa national as ino-
varges do new journalism ameri-
cano, da ddcada de 50. No en-
tanto, os principals integrantes da
redafio nio haviam conhecido
um sd dos tedricos dessa nova
forma de fazer jornalismo antes
de criarem a revista. Nela, colo-
caram em pratica o aprendizado
feito diretamente pela leitura de
escritores (jornalistas ou nio)
como Ernest Hemingway, uma
demonstragAo incontestavel de
que se aprende mesmo a escrever
6 lendo e nao decorando regras
gramaticais (ainda que algumas
delays sejam indispensaveis) ou se
atualizando com os tedricos
(quem sabe faz, quem nao sabe
ensina, diz um maldoso brocado)
O Al-5, de 13 de dezembro
de 1968, golpeou fundo Realida-
de, ploduto da democracia que sd
(onseguiria florescer em clims de
liberdade. Mas a prdpria editor
Abril 6 acusada de sabotar inter-
namente sua revista mensal, na
ppoca um absolute sucesso de
crftica e pdblico, para favorecer
Veja, semandrio que comegou a
circular um pouco antes do Al-5.
O ato de forga, pondo fim ao que
sobrevivia da Repdblica de 1946,
foi a lipide que sepultou o me-
lhor perfodo da imprensa brasilei-
ra. A equipe de Realidade era
muito criativa, aut6noma e segura
de suas qualidades para se sub-
meter ao governor ou ao patrio,
tragos que constituem a supreme
qualidade dos jornalistas (e tam-
b6m, per vivermos onde vivemos,
sua desgraga)


Profissionais como Kalili e
Hamiltinho (que os mais intimos
chamavam de HAF, prounciando
as iniciais como se fosse em in-
gles) ficaram subitamente no va-
cuo. Constitufam a nata do jorna-
lismo, mas, um dia apds o AI-5,
viam-se obrigados a criar seu
pr6prio modo de expressao e
tamb6m de sobreviv6ncia Come-
garam um trajeto marginal que foi
se radicalizando e do qual alguns
nao conseguiram mais sair, enre-
dados numa crise da qual episo-
dicamente emergiam para exibir
as marcas de uma inventive que a
castra&io polftica esmagou.
Certo dia cheguei ao Hotel
Jaragua, onde me hospedava nos
bons tempos de O Estado de S
Paulo, liguei a televisao e fui pa-
ra o banheiro. De 14 ouvi uma
voz familiar e saf correndo. Era o
HAF, de paletd e gravata, como
Ancora de um telejornal do SBT.
Foi um cheque. Minha dltima
imagem dele, no princfpio dos
anos 70, era a de um cabeludo
underground, que nos encantava
com suas histdrias de reportagens
em conversas que atravessavam
as madrugadas. HAF se enqua-
drou, pensei, eu que me desven-
cilhara de meu paletd de todos os
dias sem deixar, talvez, de pare-
cer um tanto "careta" aos outsi-
ders como Hamiltinho.
Semanas atras, lendo journal
no banheiro (cenario talvez o
mais indicado para esse tipo de
leitura, hoje), deparei cor a bre-
ve e ins6ssa notfcia da morte de
HAF, mal completados 47 anos,
30 dos quais em redac6es. Per-
plexo tambdm fiquei cor a reve-
laqgo da causa mortis: AIDS.
Hamiltinho agonizara durante to-
do um ano, mas amigos que se
distanciaram dele, como eu, nada
sabiam a respeito. Os que conti-
nuavam prdximos ajudaram sua
mulher, Regina Echevarria, tam-
b6m jornalista, a carregar o cal-
vario com o marido.
No belo necroldgio que es-
creveu no dltimo ndmero da re-
vista Imprensa, Mylton Severiano
da Silva (o Myltainho, outro dos
companheiros de viagem de Ha-
miltinho e Kalili) toca no assunto
traumitico, mas nio esclarece a
origem da AIDS. pouqufssimo
provavel que tenha sido sexo.
Mas se esse detalhe interessa ao
leitor em geral, nada diz aos ami-
gos de Hamiltinho, eternos admi-
radores de sua arte de arrancar
informag6es na pedra lisa dos de-
sertos refratArios, como se elas


apenas voltassem ao seu leito
natural, no rumo da opiniAo pd-
blica, pela qual Hamilton Almei-
da Filho deu o melhor de si e
nlo foi pouco.
Que sua memdria sobreviva
intacta e elevada a qualquer cir-
cunstAncia passageira da morte, 6
o minimo que ele merece.


A volta

|| A quilo que 6 noticiado passa a
A fazer parte da agenda pdblica.
O que nio 6 noticiado pode
at6 nao estar perdido, mas pode
estar perdido para adpoca em que
6 mais necessario".
Andei pensando nestas pala-
vras de Ben Bagdikian, veteran
jornalista, professor numa das
maiores universidades america-
nas, a de Berkeley, na Calif6rnia,
enquanto preparava, cor toda a
precariedade, esta edigao que
tenta assinalar o retorno do Jor-
nal Pessoal. Nos cinco meses em
que ele esteve fora de circulagio,
enquanto tentava fazer prevalecer
a verdade nos cinco processes ju-
diciais que sou obrigado a res-
ponder per obra e graca da dire-
tora administrative do grupo Li-
beral, senti a falta de muitas in-
formag6es essenciais na grande
imprensa, descomprometida, co-
mo nunca vi antes com tanta gra-
vidade em 30 anos de jornalismo,
dos interesses da opiniao pdblica.
Tento voltar a cumprir, ainda que
apenas parcialmente, os deveres
que se imp6em ao jornalismo
nestes dias.
Junto cor a edicao normal,
um encarte para situar o leitor
nos labirintos de uma perseguigao
mesquinha e fdtil, sem prejudicar
o que mais interessa: fazer um
journal capaz de refletir a realida-
de e impedir que as observag6oes
do mestre Bagdkian se tornem
amarga constatagao dos fatos e
uma acusagao sem resposta a uma
imprensa de rainhas & princess
de fachada.


Jornal Pessoa
I'lujit rclaMWrlAi Ijmco FWno Pinlo
llHwranib Iu jz Pinto
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trauma Alfrea Ciua. 16e. Bctm.