<%BANNER%>
Jornal pessoal
ALL VOLUMES CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00083
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00083

Full Text






Journal Pessoal
ED ITOR RESPONSAV EL L CI FLAVIO P INTO

ANO VI NO 113 2a quinzena de maio de 1993 Cr$ 15.000,00

DROGA



O cartel ja chegou

Paraenses aparecem como personagens em

hist6rias como as apreensoes de 2,2 toneladas

de cocaine e 3,95 milh6es de d6lares.

Seria tudo isso mera coincidencia mesmo?


O s 1.051 quilos de cocafna
que a Polfcia Federal apre-
endeu de uma sd vez, no
mes passado, no Pard e no Ama-
zonas, pertencentes a uma dnica
quadrilha, nao constituem apenas
um record national. Esse volume
represent 1% de todo o consume
de drogas nos Estados Unidos,
negdcio que envolve 120 bilh6es
de ddlares a cada ano. No estado
em que foi apreendida, na ilha de
Maraj6 e em Manaus, a droga
valeria, segundo os calculos da
PF, US$ 2 milh6es. Mas, "enri-
quecida" de aditivos, poderia


render US$ 8 milh6es (ou 350
bilh6es de cruzeiros).
u um calculo modesto. Co-
mercializados na Europa, que se-
ria seu destiny final, os 1.051
quilos de cocafna pura poderiam
multiplicar seu valor 17 vezes,
alcangando faturamento de US$
34 milh6es (ou Cr$ 1,5 trilhao).
A Polfcia Federal inter inpeu,
portanto, um dos neg6cics mais
rentAveis que se realizam atual-
mente na Amaz6nia.
A apreensao confirm que a
regido tornou-se a principal via
de escoamento de cocafna do


Q-,

pafs, intermediando o trAfico en-
tre os p6los produtores e os con-
sumidores em todo o mundo. Para
colocar em funcionamento esse
esquema, 17 pessoas participaram
da operadio de recebimento e
transport da cocafna enviada
pelo Cartel de Calli, a segunda
maior organizagAo do narcotrdfi-
co international. Duas pessoas
foram press no Amazonas e 15
estdo press ou indiciadas no Pa-
rd, das quais cinco sio colombia-
nos.
A quadrilha gravitava em
torno de Manuel Alonso Gonzal- >


ftN _-








2 Jornal Pessoal


les Parra. o tesoureiro do Cartel
de Calli. Em Beldm, ele distri-
buiu pelo menos 76 mil ddlares
(mais de tries bilh6es de cruzei-
ros) para custear as despesas ope-
racionais. Elas inclufam o frete
de um aviao bimotor que foi de
Belem a Alta Floresta, em Mato
Grosso, buscar a parte maior da
remessa, 631 quilos, transportan-
do-a at6 uma fazenda abandonada
em Cachoeira do Arari, no Ma-
raj6. Dali, a droga iria para La-
gos, capital da Nigeria, em um
barco de 50 toneladas construfdo
pelos traficantes. Da Africa, che-
garia & Europa atravds da Franga.
A outra parte da remessa, de 420
quilos, seria transportada de bar-
co tambem para o Maraj6, mas foi
apreendida no meio do caminho,
em Manaus.
O esquema montado era qua-
se rdstico. O avi&o, um Cessna
Azteca, 6 considerado pouco con-
fi4vel num v6o de mais longa du-
ragdo, sem ponto de apoio. No
fim da missao, acabou pousando
Sem Benevides e nio Salinas, seu
destino previsto, por falta de
combustfvel. A fazenda Concei-
c0o, de 871 hectares, jd estava na
mira da polfcia. Os traficantes
nao demonstraram maior preocu-
pagio com sua seguranga. A fa-
cilidade que encontraram para
executar o serving deve ta-los
feito negligenciar. Tudo indica
que transporter cocafna pelo inte-
rior da Amaz6nia ji havia se tor-
nado rotineiro.
A sensaqgo de impunidade
parecia tao forte que Nelson Pe-
rez, colombiano de 30 anos, sol-
teiro, foi a uma delegacia da po-
lfcia civil comunicar um assalto
que disse ter sofrido na avenida
President Vargas. Dois pivetes o
imobilizaram, levando dois mi-
lh6es de cruzeiros e seu passa-
porte. Duas semanas depois de
registrar a queixa, Perez foi
morto a tiros pelos agents da
Polfcia Federal qte invadiram a
sede da fazenda Conceigio para
prender outros tres colombianos
(um dos quais ficaria ferido) e
localizar os 631 quilos de cocaf-
na.
A PF contou cor a sorte que
faltou aos traficantes. Uma das
equipes nio p6de se deslocar de
Belem para o Maraj6 simples-
mente por nao ter dinheiro para
pagar o frete de um aviao. Os
agents que seguiram de lancha
nio dispunham de comida, nem
de armas e equipamentos para


montar um cerco eficiente. Mas
tudo deu certo, segundo os poli-
ciais porque a operagio foi pre-
parada diligentemente ao long
de dois meses, a partir de Brasf-
lia. HA fundadas suspeitas de que
para o sucesso da empreitada te-
nha contribufdo significativa-
mente a delagio de uma quadrilha
concorrente. A dispute de merca-
do jd A intense e os golpes sujos
constituem pritica usual.

0 circulo do p6

Renato Souza Pereira, o Re-
natinho, dono da fazenda onde a
cocafna ficaria escondida, fre-
quenta os registros policiais hd
mais de 10 anos. Do simple
contrabando passou para o trafi-
co. Em 1989 o irmio dele, Fran-
cisco Guilherme Souza Pereira,
foi preso cor 417 quilos de co-
cafna. O aviio que usava caiu em
Porto de Moz porque estava sem
combustfvel, falha inacreditavel
na logfstica de ladr6es de galinha
que transacionam com ovos Je
ouro. Francisco salvou-se, mas
continue preso na Penitenciaria
Fernando Guilhon, em America-
no. Renatinho ficou esperando
pela carga que nio apareceu, na
Pousada Marajoara, em Soure.
Ele poderia ter sido flagrado
em setembro de 1991, na pr6pria
fazenda de Cachoeira do Arari, se
informaq6es sobre a operaaio
policial nao tivessem "vazado"
de dentro da PF. Dois meses an-
tes Renatinho havia transferide o
control da fazenda para Bruno
Meira Matos em um contrato de
confissio de dfvida. Para nio
aparecer, Bruno que seria as-
sassinado em dezembro daquele
mesmo ano, quando se revelou
sua funcgo de lavador dos d6lares
do narcotrdfico colocou-se atras
de um testa-de-ferro, seu empre-
gado Roberto Benedito Rodrigues
Machado. Mas quatro dias depois
da confissio, o contrato foi des-
feito porque Renatinho teria pago
sua dfvida com Bruno, entlo de
14 milh6es de cruzeiros.
Nessa 6poca a polfcia ja sa-
bia duas coisas importantes: que
volumes cada vez maiores de co-
cafna passavam pelo Pard rumo a
mercados internacionais e que
pessoas not6rias, nio mais apenas
personagens secundarias, partici-
pavam das transag6es, inclusive
esquentando dinheiro do trAfico.
Em novembro de 1991 um Lear-
Jet da TransamBrica Taxi Adreo


caiu no Mexico com 1.180 quilos
de cocafna. Mais uma vez faltara
combustfvel e os pilots quase
conseguiram realizar cor sucesso
um pouso de emergencia no semi-
drido mexicano.
O v6o tinha sido fretado por
Jacintho Vasconcelos Moreira de
Castro Jdnior, filho do proprieta-
rio do Cart6rio Diniz, em Belem,
que aparecia frequentemente nas
colunas sociais tamb6m por sua
condiiao de president da federa-
gao paraense de karate. Depois de
deixar a droga, o jatinho iria
apanhar em Madrid o marabaense
Augusto Morbach Neto. Jacintho
havia tentado conseguir visto de
entrada para Nice, na Franca, ci-
dade costumeiramente associada
ao narcotrafico, mas o consulado
frances em Belem nio concordou.
O visto acabou sendo obtido para
a Espanha, onde Morbach esta-
beleceu seu domicflio.
Ao voltar logo a seguir da
Espanha, Morbach foi flagrado
em Sao Paulo cor 3,95 milh6es
de d6lares em notas vivas (se-
gundo ele, seriam US$ 6 milh6es,
mas a PF teria desviado a dife-
renga), a maior apreensao desse
tipo que a polfcia fez atd agora
no Brasil. Morbach explicou que
o dinheiro resultava de uma tran-
sagao com pedras preciosas.
A origem do neg6cio pode
ser diverse, mas cada vez mais os
personagens estio pr6ximos entire
si e da cocafna. Jacintho Jdnior 6
uma das 15 pessoas denunciadas
pelo procurador da Repdblica,
Moacir Guimaraes Morais Filho,
envolvidas no trdfico dos 631
quilos de cocafna apreendidos no
Maraj6. O personagem de maior
peso do lado national 6 o coronel
(reformado) da Aeronautica Nel-
son Leite da Silva, que estaria
por trds da empresa de taxi adreo
que cedeu o aviao para o trans-
porte da droga.
Coincidentemente, Jacintho
e o coronel moram no mesmo lo-
cal, um pr6dio de seis andares
a travessa Ruy Barbosa, num
ponto nobre da cidade. Na co-
bertura esta Jacintho, que teria
pago apenas US$ 70 mil dos US$
200 mil acertados com o proprie-
tdrio anterior do imdvel, Henri-
que Montenegro Duarte, ja fale-
cido. O coronel fica no segundo
andar. No mesmo pr6dio esta o
apartamento de Morbach. Se as
acusac6es de envolvimento cor o
trdfico feita contra eles forem
verdadeiras, trata-se quase de >







Jomal Pessoal 3


uma filial domiciliar do Cartel de
Calli.
Pelo local transitaram os
colombianos press por envolvi-
mento cor a cocafna, um ponto
em comum na biografia dos tres
c6lebres inquilinos do prddio.
Eles tamb6m costumam ir & Fran-
ga: Jacintho atris de lutas para
promover e o coronel para vender
grude de peixe, barbatana de tu-
barao ou pimenta do reino. Ne-
nhum dos dois admitiu a proce-
dencia das acusag6es feitas con-
tra eles pelo delegado Jos6 Sales,
da Policia Federal, e reafirmadas
pelo procurador Moacir Morais
Filho.

Todos sabem que as investi-
gag6es apenas comegaram e so-

PESQUISA


meAte uma pontinha do enorme
iceberg foi puxada. A hist6ria
complete pode ser mais ou menos
grave, conforme a 6tica pela qual
for vista. Augusto Morbach Neto
diz que seu sdbito enriquecimento
nada ter a ver cor droga. Ele se
declara vendedor de armas pesa-
das da Engesa, que Ihe permitiria
tamb6m transporter equipamentos
belicos de pouco volume e grande
valor, como controladores eletr6-
nicos de mfsseis.
O passaporte de Morbach re-
gistra muitas entradas no Ira e no
Iraque, no perfodo da guerra en-
tre os dois pauses e de forneci-
mento de armamento brasileiro
em maior escala. Era quando
atuava por all o coronel Oliver
North, o articulador da operagio


IrA-Contras na administragAo
Reagan. Morbach diz ter voado
com o coronel North. Seu nome
tambdm aparece no registro de
audiencia do general Leonidas Pi-
res Goncalves, ministry do Exdr-
cito no governor Sarney, em 1986.

Pode haver fantasia nessas
hist6rias reconstitufdas, mas nAo
ha nada de fantasioso nas 2,2 to-
neladas de cocafna e US$ 3,95
milh6es de ddlares em notas vivas
que cafram no control policial
nos dois dltimos anos vindas de
Morbach, Jacintho & companhia
ilimitada, com seus desdobra-
mentos visfveis e invisfveis. O
narcotrifico ji se estabeleceu no
Pard. Quem quiser que nAo acre-
dite.


Ego em alta


D eixando-se levar pela re-
portagem que abriu a pri-
meira pdgina do journal no
dia 23 de maio, qualquer dos pre-
sumfveis 300 mil leitores da edi-
;Ao dominical do journal "O Libe-
ral" deve ter chegado A conclu-
sAo de que Romulo Maiorana Jd-
nior, mesmo sem ser politico, 6 o
principal candidate em potential
ao governor do Pard na eleicAo do
prdximo ano.
Uma pesquisa do Ibope, en-
comendada pelo pr6prio Romi-
nho, colocou-o em primeiro lugar
entire os nomes apresentados ao
pdblico como alternatives A su-
cessAo do governador Jader Bar-
balho. O vice-presidente do Sis-
tema Romulo Maiorana de Comu-
nicaqgo recebeu 38% das inten-
g6es de voto. Um outro empresa-
rio, Marcos Marcelino, dividiu o
segundo lugar cor o prefeito de
Bel6m, Hdlio Gueiros: ambos fo-
ram escolhidos por 26% dos en-
trevistados. O senador Almir Ga-
briel, do PSDB, ficou cor 22%,
enquanto o senador Jarbas Passa-
rinho, do PPR, teve 14%. O vice-
governador Carlos Santos veio
atras, cor 12%,.e o ex-prefeito
Sahid Xerfan nAo passoq de 8%.
Apesar do destaque dado por
"O Liberal", os resultados da
pesquisa foram imediatamente
contestados e nAo s6 por adver-
sarios ou antipatizantes do journal.
O prefeito Hl6io Gueiros sim-
plesmente se recusou a dar uma


declaraqAo ao journal, cujo esforgo
para repercutir a pesquisa foi de
curta duragao.
O prefeito ficou irritado, e
nio sem motives: nAo apenas apa-
receu bem atrds de seu nedfito
aliado polftico, como foi desas-
tradamente derrotado no con-
fronto de sua administragao corn
a do arqui-inimigo, Jader Barba-
Iho. Enquanto Jader jd enfrenta a
desgastante segunda metade do
mandate, o prefeito ainda usufrui
(ou usfruiria, para ser fiel ao re-
sultado da pesquisa) do namoro
que costuma marcar as relag6es
iniciais dos polfticos cor a opi-
niAo pdblica.
Mas enquanto 48% dos en-
trevistados classificaram de boa a
6tima a administragao do gover-
nador, apenas 25% deram essa
classificagro ao prefeito. Em
sentido inverso, enquanto 10%
apontavam de p6ssimo a ruim o
governor de Jader, 25% reduziam
a esses padres a gestao de Hdlio
Gueiros. Seu melhor resultado foi
ser considerado regular por 45%
dos entrevistados, enquanto Jader
teve 40% nessa faixa.
Cinco meses depois de ter
assumido um cargo para o qual
foi eleito sem precisar submeter-
se a segundo turno, 6 um desem-
penho desgastante. Significa que
a opiniAo pdblica ainda nAo sabe
a que veio o prefeito, mas nAo
gostou do quase nada que ele fez.
Os 51% de adesAo que H6lio


Gueiros teve em outubro se redu-
ziram r metade no infcio de maio,
quando foi aplicada a pesquisa. t
um capital furado para polftico
que pretend, como outros pre-
feitos da capital que o antecede-
ram, abandonar no infcio o man-
dato popular municipal para ten-
tar outro, de maior expressao. Os
precursores se esborracharam e
Hdlio pode vir a ter o mesmo
destino.
O prefeito poderia queixar-
se da inoportunidade da pesquisa
e da decisAo de seus aliados de
divulgar os resultados sem con-
sulta-lo a respeito, o que diz al-
guma coisa sobre o estado de de-
terioragAo da alianca que eles
ainda mantem, embora, jA agora,
sem a consistencia anterior. Mas
qualquer pessoa medianamente
iniciada nos segredos da political
e nos meandros de pesquisa de
opiniAo poderia questioner a boa
f6 do trabalho e as intenc6es do
grupo Liberal ao divulgar apenas
resultados parciais.
Na verdade, os resultados
sao menos importantes do que a
vontade do principal executive do
grupo, que encomendou pessoal-
mente a tarefa ao Ibope, revelan-
do seu gesto a pouqufssimas pes-
soas. Como o Jornal Pessoal
afirmou em edig6es anteriores, o
propdsito de Rominho 6 estabele-
cer um cacife para aumentar o
poder de negociacio de sua em-
presa (e dele pr6prio em particu-





4 Jornal Pessoal


lar) na partilha do poder que re-
sultard de uma nova alianga de
forgas em formagio. A mosca
azul ainda nAo 6 tao desenvolvida
a ponto de convence-lo a lanqar-
se sobre o principal cargo eletivo
sem passar pelas etapas da inicia-
qao polftica. Ego inflado, o que o
executive do grupo Liberal quer 6
valorizar sua influencia (ou im-
portancia) para aumentar o pre-
mio de que se julga merecedor.
Assim, a inclusao de seu
nome na lista apresentada aos
entrevistados nao 6 casual. Nem
por acaso foi que o Ibope decidiu
fazer a consult em duas etapas.
Em primeiro lugar, ofereceu os
nomes de empresarios; s6 em se-
guida, o de polfticos militants
(ou tradicionais). Com a mfdia de
seu grupo, monopolista das co-
municag6es no Estado, martelan-
do seu nome (inclusive por causa
do nome de fantasia da empresa,
o Sistema Romulo Maiorana de
Comunicaiao), s6 por esse moti-
vo Rominho seria imbativel.
Colocado diante da lista
(pois tratou-se de pesquisa esti-
mulada e nfo de pesquisa espon-
tinea, na qual o entrevistado tern
direito a revirar nomes na mem6-
ria), o desavisado alvo reagiu pa-
vlovianamente, referendando o
nome mais comum, aquele que
bate o sino da referencia no sub-
consciente quando pronunciado.
Nao por outro motivo o segundo
colocado, em boa posicgo, foi
Marcos Marcelino: sua empresa
tamb6m leva seu nome. Lutfala
Bitar, mais atuante, teve s6 3%;
mas se a opgAo na c6dula fosse a
Estacon, que 6 sua empresa, cer-
tamente teria muito mais votos.
Essa, entretanto, nao 6 a
dnica fonte de distorqao do re-
sultado da pesquisa. Como ne-
nhum dos nomes da lista 6 de
candidates em campanha ou se-
quer cor intengAo de participar
da dispute pelo cargo (o empresi-
rio Marcos Marcelino reagiu A
sua inclusao), todos se benefi-
ciam dessa estatica. O que estava
em causa para os entrevistados
era a imagem de nomes poten-
cialmente cogitados e nao do que
eles efetivamente podem ser numa
dispute paia va-Fer. Por is-so, nio-
surpreende que 44% das mulheres
tenham escolhido Rominho, con-
tra 19% para Marcelino, uma cor-
relagio atenuada na manifestagio
dos homes (35% preferiram
Marcos Marcelino e s6 32%, Ro-
mulo Maiorana Jr.), mas nao o


bastante para impedir o vi6s fi-
nal.
Assim, por causa da oportu-
nidade (ou inoportunidade) da
consult, o que Rominho pode ter
certeza 6 de que, se o cargo em
dispute fosse a substituicao de
seu amigo Vic Pires Franco como
locutor da TV Liberal, seu lugar
estaria garantidfssimo. Outra coi-
sa 6 o governor do Estado, que ele
nao poderia disputar cor a bioni-
cidade que a pesquisa do Ibope
Ihe fornece em gabinete. Antes,
teria que falar em pdblico sem
protegio qufmica, visitar lugares
sobre os quais nunca ouviu falar
(e que dificilmente poderiam ser
inclufdos em sua agenda), fazer
contatos, negociar, articular po-
liticamente e, apesar de tudo, li-
derar.
O problema 6 que a vontade
caprichosa de um dono de journal
virou notfcia de primeira pagina.
Novamente o Ibope foi acusado
de fabricar pesquisa, manipulan-
do os resultados. A restriqao que
pode ser feita ao institute 6 a de
ter usado sua competencia t6cnica
para acomodar um capricho, com-
prometendo, assim, a fung-o so-
cial (e mesmo polftica) da pesqui-
sa, al6m de provocar uma legiao
de suspeiq6es, nem sempre fun-
dadas.
Em sua reportagem sensa-
cionalista e utilitaria, "O Libe-
ral" sugere que a opiniao pdblica
prefer um empresario a um polf-
tico como future governador do
Estado, quando nem isso foi per-
guntado, nem respondido. A con-
frontaglo dos resultados, obtidos
separadamente, entire empresarios
e polfticos, poderia levar a essa
conclusao, mas nao houve cruza-
mento.
Objetivamente, o entrevista-
do nao teve a oportunidade de
comparar e decidir. Os formula-
dores da pesquisa fizeram isso
por ele. Mas 6 uma attitude teme-
rdria, at8 mesmo porque 26% dos
consultados nao sabiam, nao opi-
niaram ou preferiram nao esco-
lher nenhum dos empresarios
apontados, proporcio de 11%
entire os polfticos. Cruzar esse
rubicao do acesso ao eleitor (e
nao apenas ao pdblico, mais ao
alcance do mercado) tem afogado
muitos empresirios, dificuldade
da qual 6 o maior exemplo o mais
influence dos empresarios brasi-
leiros, o paulista Antonio Ermfrio
de Moraes, triderrotado.
O dedo do gigante que se in-


filtra e contamina a isengao da
pesquisa estA na pr6pria selegao
dos nomes. Enquanto o critdrio
entire os empresarios foi a eleiaio
promovida pelo journal "Gazeta
Mercantil", entire os polfticos se-
ria a evidencia dos que notoria-
mente sao candidates ou aspiran-
tes a candidates. No entanto, o
ministry Fernando Coutinho Jorge
nio foi inclufdo entire os possf-
veis candidates ao governor, em-
bora como "O Liberal" se in-
cumbe de destacar constante-
mente ele s6 tenha permanecido
no comando do Meio Ambiente
para salvar suas pretens6es em
relagco ao comando estadual.
Mas Coutinho Jorge 6 desa-
feto do grupo Liberal, que costu-
ma retirar do mundo os que co-
metem esse sacril6gio, expurgan-
do-os do noticiario de seus vef-
culos de comunicaqao ou de co-
metimentos como a pesquisa en-
comendada ao Ibope, mais um
brinquedo para fazer a vontade
do dono e cativar a dnica coisa
nele superlativa: seu ego.

Fofoca
D everia haver uma legislagao
impondo determinadas regras
para a realizag~o de pesquisas de
opiniao. A que "O Liberal" en-
comendou ao Ibope, por exemplo,
embora viciada na origem, criou
um fato polftico de impact na
sociedade.
Como os resultados foram
divulgados apenas parcialmente e
omitida a base metodol6gica, sur-
giram muitas especulag6es. Co-
mo, por exemplo, de que, al6m da
pesquisa estimulada, o Ibope teria
realizado uma sondagem esponti-
nea.
Nesta, entire os empresarios
que poderiam ser candidates ao
governor, Romulo Maiorana Jr.
nem teria sido citado. Por ordem
de votacgo, os lembrados espon-
taneamente pelos entrevistados
teriam sido Carlos Santos, Sahid
Xerfan, Marcos Marcelino e Lut-
falla Bitar. Foram aplicados 300
questiondrios.
Se non 6 vero...

Inspiragao
Nada de novo no front. H6lio
Gueiros arrocha o salArio dos
funcionarios municipals, dissolve
o Conselho de Sadde, quebra a
ponte do diilogo, se isola e man-
da recados. Para completar o per-
fil, s6 falta um bigodinho, ainda
que grisalho.





Journal Pessoal 5

ELEIgAO


Passarinho na muda


A penas a famflia separa o
senador Jarbas Passarinho
da candidatura ao governor
do Pard na eleiaio do pr6ximo
ano. Por causa dela, o ex-minis-
tro nio responded positivamente
A sondagem de Jader Barbalho, na
semana passada. Os dois almora-
,am juntos no dia 27, no gabinete
Je despachos do governador, na
antiga sede da Emater.
Sabendo das resist6ncias de
Passarinho, Jader nio chegou a
fazer-lhe um convite, mas son-
dou-o sobre a possibilidade de
aceitar ser o candidate da coliga-
gio do PMDB cor o PPR, partido
que resultou da fusio do PDS
cor o PDC, ainda em fase de ofi-
cializagio. Passarinho responded
ao seu estilo, cor uma blague:
convidou o governador a repetir o
convite num almogo de domingo
em sua casa, em Brasflia, diante
de cinco filhos e 14 netos. "O
senhor serd linchado", profetizou
Passarinho.
A resistencia familiar 6
muito forte, mas o prdprio sena-
dor reluta a tentaAio de chegar ao
governor paraense por eleigio di-
reta e para um mandate complete
(em contrast com os 19 meses
em que foi governador, no infcio
de sua carreira polftica, 30 anos
atras, eleito por deputados esta-
duais). Em parte pela comodidade
de que desfruta em Brasflia, en-
quanto polftico de expression na-
cional, mas tambem pela necessi-
dade de tender de perto um filho
mais problematico. No entanto, o
coroamento da carreira political,


no horizonte dos 80 anos, 6 um
problema.
Se o governador Jader Bar-
balho sair candidate ao Senado, a
hip6tese de Passarinho ficar corn
a segunda vaga torna-se remota
por causa da alianca dos dois
partidos, ji decidida. Restaria a
alternative da CAmara Federal,
com auditdrio congestionado de-
mais (ou exfguo demais) para o
talent de Passarinho. Significa-
ria um arremate da carreira por
baixo, que o senador, sempre
atento a prdpria biografia, gosta-
ria de evitar.
Ele sabe que a dispute pelo
governor sera, pessoalmente, bas-
tante onerosa. A consciencia des-
ses entraves explica a exclusio
desse tema dos dois encontros
anteriores corn Jader Barbalho.
Mas a pesquisa de "O Liberal",
divulgada quatro dias antes do
almoco, fez o governador avangar
na primeira abordagem concrete.
Mesmo na capital, o coldgio
eleitoral mais desfavoravel a
alianga cor o governor estadual,
Passarinho aparece sempre como
o terceiro mais votado. A pesqui-
sa nio forneceu um dado funda-
mental para a andlise: o fndice de
rejeigio. Mas as opg6es em favor
de Passarinho sugerem que seu
nome, bem trabalhado, pode cres-
cer na capital. No interior, o do-
mfnio de Jader Barbalho 6 hege-
m6nico. Ele precisa de um nome
leve para apresentar na capital,
cujo efeito de ressonincia faz
crescer seu peso relative. As op-
g6es de Jader, nesse sentido, slo


apenas Passarinho e Almir Ga-
briel.
Fontes ligadas ao senador
Jarbas Passarinho garantem que
nada esta decidido e que ele con-
tinua se recusando a aceitar a
dispute para o governor. Mas hd
um dado indicador de tendencia:
as duas mais recentes passagens
do senador do PPR por Beldm fo-
ram as mais extensas dos dltimos
tempos. Sinal de que ele, ao me-
nos, j& estA pensando no assunto
cor o prop6sito de resolv8-lo.
Um dos frequentadores do
cfrculo mais fntimo do governa-
dor informava que Jader saird
mesmo candidate ao Senado se
for estabelecida a composic0o.
No almoco cor Passarinho, o go-
vernador declarou que permane-
cerd at6 o final do seu mandate,
argumentacio que ter repetido a
outros interlocutores. Diz que
a imunidade de um mandate eleti-
vo, que o protegeria na eventua-
lidade de apuraaio de irregulari-
dades enm sua gestao (principal-
mente no Ministdrio da Previden-
cia Social), 6 relative porque po-
de ser suspense a qualquer mo-
mento. O principal, segundo Ja-
der, 6 a continuidade no governor.
Ele aponta para o exemplo
da Bahia, onde Antonio Carlos
Magalhies vem submetendo seu
antecessor, Nilo Coelho, a devas-
sa e execragAo pdblicas, indepen-
dentemente de ter razio no que
alega. Desta vez, Jader quer pas-
sar ao successor a faixa que Helio
Gueiros nio Ihe entregou, apesar
de te-la recebido em mios.


Candidate no espago


A candidatura do ministry
Fernando Coutinho Jorge
ao governor do Pard naufra-
gou nas aguas turbulentas da in-
decisao. Durante duas semanas o
senador recusou-se a seguir os
conselhos de seu principal padri-
nho, o governador Jader Barba-
lho, para deixar o ministdrio Ita-
mar Franco. Criou uma area de
aresta cor Jader, difusa mas
comprometedora, e nio ganhou a
garantia de que poderA continuar
no Ministdrio do Meio Ambiente.
Por que Coutinho permane-


ceu indiferente ao cheiro de fritu-
ra que emanava do Palacio do
Planalto e as indicag6es de Jader
constitui mist6rio atd para os cor-
religionArios do senador paraen-
se. O ministry preferiu ignorar a
escandalosa consult feita a Jai-
me Lerner para substituf-lo (qu-
o prefeito de Curitiba, prudente-
mente, recusou) e optou pelos se-
nadores Humberto Lucena e Mau-
ro Benevides, cardeais nas deci-
s6es do PMDB, mas sem base
eleitoral no Pard. A decisao do
desligamento amadureceu, apo-


dreceu e Coutinho nio a tomou.
Passou a ser figure duplamente
decorative: em Brasflia, e no Pard.
Alguns justificam a cega
obstinafio como um trago da per-
sonalidade de Coutinho Jorge: ele
nio gostaria de sair rebaixado de
um governor no qual entrou certo
de alcangar projeAio national
gragas ao emotivo tema do meio
ambiente. Outros, sem descartar
essa dimensio, agregam-lhe ou-
tra, mais important: Coutinho jd
nio teria mais ddvida de que nio
6 a alternative dos sonhos do go- W







6 ]oral Pessoal


vernador para sua sucessAo. O
ministdrio seria o dnico instru-
mento capaz de garantir-lhe certa
autonomia de v6o para chegar a
convengQo por caminhos prd-
prios, se o official Ihe fosse inter-
ditado. Coutinho quis continuar a
ser ministry para alimentar espe-
rangas de vir a ser governador.
Tamb6m nao queria ser nova-
mente um instrument dos,proje-
tos pessoais de Jader Barbalho.
O governador pretendia dar
uma demonstracAo de insatisfacio
ao president Itamar Franco, sem
assumir o 6nus do rompimento
com o governor central. No infcio
do ano Jader deixara com o pre-
sidente uma relagAo de nomes pa-
ra ocupar a chefia de representa-
g6es da UniAo no Estado. NAo foi
atendido. Pior: recentemente co-
megaram as nomeag6es, de gente
do PSDB e do PSB, mas nao do
PMDB. O governador ficava sa-
bendo dos atos como os pobres
mortais: atrav6s da imprensa.
A irritagAo ultrapassou as
medidas quando o ministry do
gabinete civil colocou compadres
mineiros da Cemig, a empresa de
energia de Minas Gerais, na dire-
;Ao da Eletronorte, que gera no
Para 95% de sua energia. Rond6-
nia foi o dnico Estado da Amaz6-
nia que teve seu cargo. O gover-
nador nao conseguiu nem impedir
que desafetos, alguns dos quais
aliados na primeira gestAo, se in-
filtrassem em cargos que queria
ver ocupados por correligiond-
rios.
De Sao Paulo, onde conver-
sava com o ex-governador Ores-
tes Qudrcia, Jader deu o primeiro
telefonema recomendando a Cou-
tinho que se demitisse. Reiterou
pessoalmente em Brasflia a
orientagAo. Uma carta de demis-
sao chegou a ser preparada pela
assessoria do ministry, mas ele
foi procurar protegio junto a di-
rigentes nacionais do PMDB. Ja-
der lhe disse que o PMDB do Pa-
ra romperia cor Itamar. Coutinho
aguardou, mas o rompimento nio
veio. O PMDB, como em outras
ocasi6es recentes, optou por ne-
gociar nos bastidores.
Quanto ao ministry, por in-
sistir em desafiar a lei da gravi-
dade, talvez mais axiomatica em
polftica do que em ffsica, nem
caiu, nem subiu. Tornou-se uma
referencia polida, o que talvez
explique o comportamento ambi-
valente do governador na semana
passada. Jader mandou recados a


amigos e correligionarios para
que prestigiassem o jantar orga-
nizado por adesAo para comemo-
rar, no sAbado, o aniversario de
Coutinho. Mas nao foi ao que os
polfticos chamam de Agape. Sua
ausAncia prencheu a lacuna que
faltava para completar o recado.

Bicho, nao

A Princomar tera seu projeto
cancelado pela Sudam se ficar
comprovado que o control da
empresa pertence ao deputado
Joao Bosco Rufino Mois6s, o
maior banqaeiro do jogo do bicho
no Para. O superintendent da
Sudam, Frederico Andrade, de-
terminou a procuradoria jurfdica
da Sudam para verificar as infor-
mag6es divulgadas no Jornal Pes-
soal, segundo as quais a aprova-
9ao do projeto de pesca, no valor
(atualizado) de 240 bilh6es de
cruzeiros, levara a transferencia
do control da Princomar para
Bosco.
Aldm de passar a principal
acionista da empresa, registrada
em nome de dois testas-de-ferro,
Bosco jA vinha transferindo para
a Princomar dinheiro do jogo do
bicho, que 6 uma contravengao
penal, como comprovam os re-
gistros da JB Loterias apreendi-
dos pelo delegado Cl6vis Mar-
tins.
Frederico Andrade, ao co-
municar a providencia que havia
adotado, ressaltou que a Sudam
nio pretend investor recursos
dos incentives fiscais em um em-
preendimento ligado A contraven-
cAo. Se as informag6es forem
confirmadas pelo servigo jurfdico
da Sudam, o projeto da Princo-
mar, aprovado na ditima reuniAo
do Conselho Deliberativo da Su-
dam, em abril, sera cancelado.

Round
O superintendent da Sudam,
Frederico Andrade, parece ter
ganho o primeiro round de uma
guerra de bastidores travada corn
o superintendent adjunto de ope-
raL6es, Marcos Antonino Porto.
Antonino gastou varios dias em
Brasflia usando o prestfgio de seu
padrinho, o senador Jdlio Cam-
pos, de Mato Grosso (ao qual
o JP se referiu na dltima edigio,
equivocadamente, como secreta-
rio da Camara Federal), para
cortar a cabega da diretora do
Departamento de Administra~ao


de Incentives da Sudam, Ana
Aml6ia Gouveia.
O objetivo de Antonino, porem,
era mais alto. Embora venha ten-
tando, desde que assumiu a supe-
rintendencia adjunta, controlar o
estrategico DAI, pelo qual pas-
sam os projetos credenciados a
receber incentives fiscais, o ma-
togrossense Antonino queria
mesmo era atingir o superinten-
dente geral. Frederico Andrade
havia deixado bem claro que se
demitiria se Ana Am6lia fosse
afastada da diregao do DAI. Tdc-
nica de carreira da Sudam, ela se-
ria peca chave para a reform que
Frederico vem fazendo no depar-
tamento.
O apoio do senador Jdlio
Campos foi contrabalangado pela
manifestagio das principals lide-
rangas polfticas paraenses, entire
as quais o governador Jader Bar-
balho e o senador Jarbas Passari-
nho, junto ao ministry da Integra-
gao Regional, o tamb6m senador
(maranhense) Alexandre Costa.
Jdlio Campos teve que acenar
com a bandeira branca, mas ainda
nao se sabe se a guerra acabou ou
se trata-se apenas de uma trdgua.


Para valer?

A parentemente o objetivo do
grupo de trabalho criado no
dia 10 de maio pelo Minist6rio da
Fazenda 6 bastante claro: sugerir
um piano de reestruturagAo e
fortalecimento do Banco da Ama-
z6nia. Mas quando, no dia 26, um
dos cinco integrantes do grupo e
dnico representante do pr6prio
Basa, seu director financeiro,
Carlos Gilberto Caetano, promo-
veu a primeira reuniao de con-
sulta junto a opiniao pdblica,
ainda havia muita desconfianga
quanto ao significado real da
atuagao do GT.
Outros jA surgiram bem in-
tencionados, mas seus resultados
foram sempre o enfraquecimento
do Basa, Da dltima investida re-
sultou o enxugamento das despe-
sas administrativas do banco e a
redugao do corpo funcional, mas
nem por isso a situagro ficou
melhor ou mais bem definida. Os
empregados temem que o Ministd-
rio da Fazenda, que nunca absor-
veu o Basa, esteja tentando dou-
rar a pflula fatal que fara banco
engolir, simplesmente extinguin-
do-o ou fazendo-o ser absorvido
pelo Banco do Brasil.








Jornal Pessoal 7


A direg~o do Basa, entre-
tanto, assegura que desta vez o
propdsito mesmo o de dar uma
solugAo para o impasse que tern
feito o Basa vegetar nos dltimos
anos. Lembra que o banco voltou
a ter assento e voto no Conselho
Monetario Nacional, que logo ira
enquadrar como excepcionais os
d6bitos de cinco empresas esta-
tais, poupando o Basa de provi-
sionar parcelas vincendas dessas
dfvidas. Cor isso, o banco volta-
ria a ter patrim6nio Ifquido posi-
tive, acabando com a novel dos
balangos de 1991 atd hoje, que
empacaram nos prejufzos conta-
beis.
Novamente com suas contas
azuladas, o Basa poderia tentar,
atraves de acesso a linhas de cr6-
dito internacionais, definir um
perfil de banco multilateral, dire-
cionado para a abertura de novos
neg6cios, capaz de financial e
pensar o desenvolvimento da
regifo. Aldm de reciclar o Fundo
Constitutional Norte, o FNO, li-
vrando-o da triste sina que o vem
limitando A aqgo de varejo, para
transforma-lo em um indutor de
polfticas pdblicas, o Basa poderia
se beneficiary da reformulagAo dos
incentives fiscais que a Sudam
esta propondo. Sua maior novida-
de seria a substituiiio da rendn-
cia fiscal, que favorece a con-
centra&io e o desvio dos recursos
da dedugdo do imposto de renda,
pelo gasto fiscal, que possibilita-
ria a constituicgo de um novo
fund, especificamente orientado
para obras de infraestrutura.
A primeira reuniio, no mini-
audit6rio do banco, que reuniu
nove representantes da sociedade
civil, foi um acontecimento ind-
dito. Mas ainda nio 6 o suficiente
para assegurar que os temores de
todos sao infundados e este GT,
final, vai cumprir o que diz ser
sua missio. Ou seja: Brasflia,
desta vez, nao esta blefando?

Bitar, fora

No infcio do ano o engenheiro
Geraldo Bitar Pinheiro mani-
festou ao governador Jader Bar-
balho a intenrao de deixar a pre-
sidencia da Celpa. Considerava
encerrada sua missao no service
pdblico e pretendia voltar A Esta-
con. O pedido nao foi aceito na
6poca. Mas o governador teria
concordado com a safda de Bitar
quando ele, ha duas semanas,
reiterou segundo algumas fon-


tes, agora por escrito o desejo
de deixar a direglo da Celpa.
Apesar de alguns resultados
positives que alcangou, Bitar
mergulhou num clima de incom-
patibilidade com o sindicato dos
urbanitarios e uma parte conside-
ravel do corpo funcional da Cel-
pa. A dificuldade que o engenhei-
ro revelava para acomodar seu
temperament A negociacio com o
sindicato e A necessidade de dia-
logar, mesmo em ambiente tenso,
que descambou para uma medigao
de forcas, pode ser express no
bate-boca que travou com o de-
putado JosA Carlos Lima, do PT,
durante seu depoimento na As-
sembldia Legislativa, no dia 18
de maio.
Bitar ouviu contido o discur-
so que Jose Carlos leu da tribune,
atacando-o pessoalmente. Quando
o parlamentar se aproximou da
mesa, ostentando um bottom que
pedia a safda do president da
Celpa, Bitar, tens, disse-lhe,
entredentes: "covarde". 0 depu-
tado, cor toda a sua bancada,
iria se retirar do plenario, recu-
sando-se a ouvir o depoimento do
dirigente da empresa de energia
eldtrica do Estado.
Jose Carlos protestou e s6
nao se viu mais uma cena tipica
do parlamento porque Geraldo
reassumiu o control. 0 desgaste,
por6m, ja se consumara.

Carga burocratica
o Pard, pouco mais de um
milhao de seus cinco milh6es
de habitantes nao disp6em de
Agua em suas residencias, en-
quanto 1,4 milhao nao contam
cor esgoto sanitario. Ha tres
milh6es de criangas e adolescen-
tes fora da escola. Quase 600 mil
pessoas estao sem casa para mo-
rar.
Estas sio algumas das prin-
cipais carencias sociais que a
administracao pdblica precisa
tentar suprir. S6 pode fazer isso
atrav6s de obras. Obras nao slo
possfveis sem dinheiro. Por isso,
o Executive precisa aumentar a
fatia do orgamento pdblico desti-
nada a investimentos. Cor essa
enfase, o governador Jader Bar-
balho encaminhou A Assembldia
Legislative o projeto de lei que
disp6e sobre as diretrizes orra-
mentarias para o pr6ximo ano, a
LDO.
Em 1994 o Executivo pre-
tende recuperar um pouco a sua


participaCio no orcamento, pas-
sando os 83,5% de 1993 para
84,72% no pr6ximo exercfcio.
Ainda assim, 6 um fndice inferior
ao de outros seis Estados aponta-
dos, para efeito comparative, na
exposicio de motives do gover-
nador, que acompanhou a LDO.
O Executive fica com 92,38% das
verbas pdblicas em Sao Paulo,
91,05% no Amazonas e 90,69%
em GoiAs, por exemplo.
Sd que no Para, como nos
Estados menos desenvolvidos em
geral, o poder Legislativo pesa
muito, mais ate do que o Judicia-
rio. Enquanto em Sao Paulo o
Legislative absorve apenas 0,7%
do ornamento, no Pard vai a
6,5%. Em 1993 o Judiciario rece-
beu 7%, inclufdos 2% destinados
especificamente a instalagio de
comarcas. Esse adicional foi su-
primido na proposta orgamentAria
para 1994, restando 5,5% a Justi-
(a contra os mesmos 6,5% do
parlamento estadual, um despro-
p6sito se considerada a natureza
e o funcionamento das duas ins-
tituig6es.
O Ministdrio Pdblico 6 ex-
cepcionalmente favorecido no Pa-
rd. Teve 3% no orgamento em vi-
gor e terA 3,28% no pr6ximo, in-
clufdas as dotag6es para sua re-
presentagao junto aos dois tribu-
nais de contas (0,58% do total),
representaaio que simplesmente
inexiste nos outros seis Estados
citados. Em cinco deles tambdm
nlo hA um Tribunal de Contas
dos Municfpios, apenas o Tribu-
nal de Contas do Estado. Goias 6
excegio, que acompanha o mau
exemplo paraense.
1 tfpico de area subdesen-
volvida que preciosos recursos
pdblicos sejam desperdigados em
atividades-meio (e em atividades
intermediarias indcuas), enquanto
falta dinheiro para realizar obras
e servings dteis A comunidade. Se
o Executive aplica mal essas ver-
bas, 6 outra questAo, que compete
b sociedade fiscalizar. Mas a bu-
rocracia pesa demais como carga
indtil sobre os ombros de quem
nao ter sequer agua para consu-
mir.

Prego

A galopante inflaglo, que o mi-
nistro Fernando Henrique
Cardoso promete controlar se o
president Itamar Franco nao im-
portunar, forga um novo reajuste
do preco deste journal.







Fronteira viva

I ronias da histdria. Em 1964
os Estados Unidos ajudaram a
derrubar Cheddi Jagan da presi-
d8ncia da Guiana, a ex-col6nia
inglesa que faz fronteira com o
Brasil e a Venezuela. No final de
abril deste ano Jagan autorizou
tropas americanas a realizarem
pela primeira vez manobras na
floresta amaz6nica.
Dando sempre destaque nu-
ma cobertura que durou quatro
dias, o journal "O Globo" foi o
dnico da imprensa brasileira que
noticiou as manobras militares,
tratando-as um tanto sensaciona-
listicamente. Foi uma manobra
limitada, com duraqai de tres se-
manas, que mobilizou 175 ho-
mens.
Os Estados Unidos, eviden-
temente, nio estao planejando in-
vadir a Amaz6nia, da mesma ma-
neira que Cuba nio pretendia
usar Guiana como trampolim para
penetrar no territ6rio brasileiro.
Esse receio se difundiu na ddcada
de 70, quando a ex-col6nia ingle-
sa apresentou-se como uma Re-
pdblica cooperativista e entende-
ram sua denominagqo como Re-
pdblica comunista.
Treinar na floresta amaz6ni-
ca enriquece o adestramento dos
boinas verdes americanos, que
alimentavam esse desejo hd bas-
tante tempo. Mas nao se trata, 0
claro, apenas de exercfcio acad6-
mico, se podemos falar assim. Os
EUA parecem interessados em
atuar mais diretamente na region
em funcio de sua estratdgia de
combat ao narcotrAfico, uma va-
riagio ao redor do mesmo big
stick, o sfmbolo desastrado de
uma certa diplomacia ianque. A
causa pode at6 ser nobre, mas os
meios nio sio os mais eficientes,
ou clarividentes. A pedagogia do
porrete nunca funciona.
A posiCgo da Guiana 6 de-
tectaivel. Os abalos polfticos na
Venezuela devem aumentar o
grau de inseguranga do governor
guianense sobre a zona contesta-
da de fronteira e as prdprias dis-
seng6es internal. Os problems
no Suriname tamb6m afetam a
estabilidade da ex-col6nia. A
presence americana deve ser um
sinal de seguranga, ainda que
apenas formal. Jagan tamb6m
justificou sua aparente contradi-
gao assegurando que nao autori-
zaria a operacio americana se ela
fosse mais substantial. Seria ape-
nas ensaio.


Tregua


T odo o inegavel bem que pro-
moveu em favor da causa in-
dfgena, o cacique kayapd Pauli-
nho Payakan estd desfazendo com
seu comportamento em relacio ao
process no qual 6 acusado de
estuprar a estudante Sflvia Letf-
cia da Luz Ferreira. Nio hd ddvi-
da que alguns personagens dessa
histdria estio tentando aproveitar
a oportunidade para um ajuste de
contas com os fndios. De certas
peas dos autos destila o precon-
ceito mal contido. A imparciali-
dade de que algumas autoridades
deveriam revestir-se 6 fictfcia.
Mas Payakan nio estd acima das
exigencias legais. Nio pode que-
rer combater a imputagio do cri-
me simplesmente tentando fazer
de conta que ele inexiste.
O estupro 6 uma question
pessoal Nio estd em xeque a tal
da causa indfgena, qualquer que
ela seja. O cacique deve exigir
que seu direito seja respeitado e
possa ser processado regular-
mente. Provas e indfcios reunidos
no process nio slo conclusivos,
mas hd material suficiente para a
acusafio. Parece claro que gru-
pos atrms dos bastidores utilizam-
na conforme seus interesses, at6
agora nio inteiramente desvenda-
dos porque a imprensa atua tam-
b6m com prevenrio.
Payakan nio 6 propriamente
um desprotegido. Reagir escon-
dendo-se na aldeia e inventando
desajeitadas desculpas nio o li-
vrard da responsabilidade crimi-
nal e civil, ja que ele aceitou de-
terminadas regras que o incorpo-
raram A sociedade, mas deserve
a maltratada imagem dos fndios,
dos quais foi um lfder e um gran-
de exemplo. A dime sdo social de
seu drama esta na revelagio das
armadilhas a que um fndio estd
exposto, armadilhas de uma tec-
nologia que desconhece, quando
tenta passar da aldeia para a ci-
dade e cai num vacuo jA exope-
rimentado por outros fndios, co-
mo Mario Juruna.


Ensaio eterno

Todas as vezes que vou A Fa-
culdade de Ci8ncias Agrdrias
do Pard participar de debates fico
observando a arquitetura do
enorme auditdrio, com suas colu-
nas estilizadas do grego antigo. A
novidade quando la cheguei, no
dia 15, estava nas janelas. Elas
tinham sido pintadas de preto.


A luz natural ficava 1a fora, como
para simbolizar ainda mais o dis-
tanciamento da FCAP da realida-
de.
A Faculdade ainda preza o
seu isolamento. Pensa, ingenua-
mente, ser atestado de excelencia,
conferindo-se uma notoriedade
que nao atravessa seus muros. A
FCAP ficou ao largo da hist6ria
recent de uma regiio para a qual
teria que ser valiosa. Ignorou as
quest6es agrdrias. Sua agronomia
ter sucessos apenas localizados.
Enquanto Daniel Ludwig afunda-
va no seu arrozal de Sao Raimun-
do, a FCAP persistia no seu mi-
crosc6pico experimentalismo do
Guama.
Atenta ao menos ao sentido
da hist6ria, a Embrapa tratou de
acrescentar um agroflorestal e
ecol6gico sua toponfmia. A
FCAP permaneceu em sua auto-
sufici8ncia vazia, de costas para
o campus vizinho da UFPa. Tan-
tos erros tem sua matriz no auto-
ritarismo de gera6ces na direcgo
da escola. Durante a I Semana
Academica de Engenharia Flo-
restal os alunos fizeram um co-
movente apelo pelo diblogo, pela
democracia internal, sem a qual
nao hd esperanra e sem espe-
ranga ningu6m avanra.


Escalada

O governador Jader Barbalho
prometeu que as invas6es ur-
banas cessariam a 15 de margo de
1991, data de sua posse, pela se-
gunda vez, no governor do Estado.
At6 entio, as invas6es eram ape-
nas de terrenos ditos baldios.
Com o tempo, passaram a ser
tambdm de casas de conjuntos re-
sidenciais perif6ricos. Agora,
atingem prddios de apartamentos.
Sao 130 mil pessoas envol-
vidas nessas invas6es, mais do
que o contingent de empregados
da construgco civil. H4 aprovei-
tadores no meio dessa gente, in-
tegrantes de uma inddstria espe-
culativa de dinheiro e de votos,
ou das duas coisas combinadas.
Mas a massa 6 formada por pes-
soas que querem ter algo entire as
laterais ou sobre suas cabegas pa-
ra se abrigar e poder chamar de
casa.

Jomnal Nssoa
lFdAildr rcpomsavw: lIAcio Flvio Pinin
IluslraiiA: I jz Pinlo
Rua ( amp Srljk. 26AW3 46.020
line: 223-1929 ()Opo Idiorial
Impreao mn olicim de Agrell Flnma,
traw AlIere QCta 1690. Bdem.