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Journal Pessoal ED ITOR RESPONSAV EL L CI FLAVIO P INTO ANO VI NO 113 2a quinzena de maio de 1993 Cr$ 15.000,00 DROGA O cartel ja chegou Paraenses aparecem como personagens em hist6rias como as apreensoes de 2,2 toneladas de cocaine e 3,95 milh6es de d6lares. Seria tudo isso mera coincidencia mesmo? O s 1.051 quilos de cocafna que a Polfcia Federal apre- endeu de uma sd vez, no mes passado, no Pard e no Ama- zonas, pertencentes a uma dnica quadrilha, nao constituem apenas um record national. Esse volume represent 1% de todo o consume de drogas nos Estados Unidos, negdcio que envolve 120 bilh6es de ddlares a cada ano. No estado em que foi apreendida, na ilha de Maraj6 e em Manaus, a droga valeria, segundo os calculos da PF, US$ 2 milh6es. Mas, "enri- quecida" de aditivos, poderia render US$ 8 milh6es (ou 350 bilh6es de cruzeiros). u um calculo modesto. Co- mercializados na Europa, que se- ria seu destiny final, os 1.051 quilos de cocafna pura poderiam multiplicar seu valor 17 vezes, alcangando faturamento de US$ 34 milh6es (ou Cr$ 1,5 trilhao). A Polfcia Federal inter inpeu, portanto, um dos neg6cics mais rentAveis que se realizam atual- mente na Amaz6nia. A apreensao confirm que a regido tornou-se a principal via de escoamento de cocafna do Q-, pafs, intermediando o trAfico en- tre os p6los produtores e os con- sumidores em todo o mundo. Para colocar em funcionamento esse esquema, 17 pessoas participaram da operadio de recebimento e transport da cocafna enviada pelo Cartel de Calli, a segunda maior organizagAo do narcotrdfi- co international. Duas pessoas foram press no Amazonas e 15 estdo press ou indiciadas no Pa- rd, das quais cinco sio colombia- nos. A quadrilha gravitava em torno de Manuel Alonso Gonzal- > ftN _- 2 Jornal Pessoal les Parra. o tesoureiro do Cartel de Calli. Em Beldm, ele distri- buiu pelo menos 76 mil ddlares (mais de tries bilh6es de cruzei- ros) para custear as despesas ope- racionais. Elas inclufam o frete de um aviao bimotor que foi de Belem a Alta Floresta, em Mato Grosso, buscar a parte maior da remessa, 631 quilos, transportan- do-a at6 uma fazenda abandonada em Cachoeira do Arari, no Ma- raj6. Dali, a droga iria para La- gos, capital da Nigeria, em um barco de 50 toneladas construfdo pelos traficantes. Da Africa, che- garia & Europa atravds da Franga. A outra parte da remessa, de 420 quilos, seria transportada de bar- co tambem para o Maraj6, mas foi apreendida no meio do caminho, em Manaus. O esquema montado era qua- se rdstico. O avi&o, um Cessna Azteca, 6 considerado pouco con- fi4vel num v6o de mais longa du- ragdo, sem ponto de apoio. No fim da missao, acabou pousando Sem Benevides e nio Salinas, seu destino previsto, por falta de combustfvel. A fazenda Concei- c0o, de 871 hectares, jd estava na mira da polfcia. Os traficantes nao demonstraram maior preocu- pagio com sua seguranga. A fa- cilidade que encontraram para executar o serving deve ta-los feito negligenciar. Tudo indica que transporter cocafna pelo inte- rior da Amaz6nia ji havia se tor- nado rotineiro. A sensaqgo de impunidade parecia tao forte que Nelson Pe- rez, colombiano de 30 anos, sol- teiro, foi a uma delegacia da po- lfcia civil comunicar um assalto que disse ter sofrido na avenida President Vargas. Dois pivetes o imobilizaram, levando dois mi- lh6es de cruzeiros e seu passa- porte. Duas semanas depois de registrar a queixa, Perez foi morto a tiros pelos agents da Polfcia Federal qte invadiram a sede da fazenda Conceigio para prender outros tres colombianos (um dos quais ficaria ferido) e localizar os 631 quilos de cocaf- na. A PF contou cor a sorte que faltou aos traficantes. Uma das equipes nio p6de se deslocar de Belem para o Maraj6 simples- mente por nao ter dinheiro para pagar o frete de um aviao. Os agents que seguiram de lancha nio dispunham de comida, nem de armas e equipamentos para montar um cerco eficiente. Mas tudo deu certo, segundo os poli- ciais porque a operagio foi pre- parada diligentemente ao long de dois meses, a partir de Brasf- lia. HA fundadas suspeitas de que para o sucesso da empreitada te- nha contribufdo significativa- mente a delagio de uma quadrilha concorrente. A dispute de merca- do jd A intense e os golpes sujos constituem pritica usual. 0 circulo do p6 Renato Souza Pereira, o Re- natinho, dono da fazenda onde a cocafna ficaria escondida, fre- quenta os registros policiais hd mais de 10 anos. Do simple contrabando passou para o trafi- co. Em 1989 o irmio dele, Fran- cisco Guilherme Souza Pereira, foi preso cor 417 quilos de co- cafna. O aviio que usava caiu em Porto de Moz porque estava sem combustfvel, falha inacreditavel na logfstica de ladr6es de galinha que transacionam com ovos Je ouro. Francisco salvou-se, mas continue preso na Penitenciaria Fernando Guilhon, em America- no. Renatinho ficou esperando pela carga que nio apareceu, na Pousada Marajoara, em Soure. Ele poderia ter sido flagrado em setembro de 1991, na pr6pria fazenda de Cachoeira do Arari, se informaq6es sobre a operaaio policial nao tivessem "vazado" de dentro da PF. Dois meses an- tes Renatinho havia transferide o control da fazenda para Bruno Meira Matos em um contrato de confissio de dfvida. Para nio aparecer, Bruno que seria as- sassinado em dezembro daquele mesmo ano, quando se revelou sua funcgo de lavador dos d6lares do narcotrdfico colocou-se atras de um testa-de-ferro, seu empre- gado Roberto Benedito Rodrigues Machado. Mas quatro dias depois da confissio, o contrato foi des- feito porque Renatinho teria pago sua dfvida com Bruno, entlo de 14 milh6es de cruzeiros. Nessa 6poca a polfcia ja sa- bia duas coisas importantes: que volumes cada vez maiores de co- cafna passavam pelo Pard rumo a mercados internacionais e que pessoas not6rias, nio mais apenas personagens secundarias, partici- pavam das transag6es, inclusive esquentando dinheiro do trAfico. Em novembro de 1991 um Lear- Jet da TransamBrica Taxi Adreo caiu no Mexico com 1.180 quilos de cocafna. Mais uma vez faltara combustfvel e os pilots quase conseguiram realizar cor sucesso um pouso de emergencia no semi- drido mexicano. O v6o tinha sido fretado por Jacintho Vasconcelos Moreira de Castro Jdnior, filho do proprieta- rio do Cart6rio Diniz, em Belem, que aparecia frequentemente nas colunas sociais tamb6m por sua condiiao de president da federa- gao paraense de karate. Depois de deixar a droga, o jatinho iria apanhar em Madrid o marabaense Augusto Morbach Neto. Jacintho havia tentado conseguir visto de entrada para Nice, na Franca, ci- dade costumeiramente associada ao narcotrafico, mas o consulado frances em Belem nio concordou. O visto acabou sendo obtido para a Espanha, onde Morbach esta- beleceu seu domicflio. Ao voltar logo a seguir da Espanha, Morbach foi flagrado em Sao Paulo cor 3,95 milh6es de d6lares em notas vivas (se- gundo ele, seriam US$ 6 milh6es, mas a PF teria desviado a dife- renga), a maior apreensao desse tipo que a polfcia fez atd agora no Brasil. Morbach explicou que o dinheiro resultava de uma tran- sagao com pedras preciosas. A origem do neg6cio pode ser diverse, mas cada vez mais os personagens estio pr6ximos entire si e da cocafna. Jacintho Jdnior 6 uma das 15 pessoas denunciadas pelo procurador da Repdblica, Moacir Guimaraes Morais Filho, envolvidas no trdfico dos 631 quilos de cocafna apreendidos no Maraj6. O personagem de maior peso do lado national 6 o coronel (reformado) da Aeronautica Nel- son Leite da Silva, que estaria por trds da empresa de taxi adreo que cedeu o aviao para o trans- porte da droga. Coincidentemente, Jacintho e o coronel moram no mesmo lo- cal, um pr6dio de seis andares a travessa Ruy Barbosa, num ponto nobre da cidade. Na co- bertura esta Jacintho, que teria pago apenas US$ 70 mil dos US$ 200 mil acertados com o proprie- tdrio anterior do imdvel, Henri- que Montenegro Duarte, ja fale- cido. O coronel fica no segundo andar. No mesmo pr6dio esta o apartamento de Morbach. Se as acusac6es de envolvimento cor o trdfico feita contra eles forem verdadeiras, trata-se quase de > Jomal Pessoal 3 uma filial domiciliar do Cartel de Calli. Pelo local transitaram os colombianos press por envolvi- mento cor a cocafna, um ponto em comum na biografia dos tres c6lebres inquilinos do prddio. Eles tamb6m costumam ir & Fran- ga: Jacintho atris de lutas para promover e o coronel para vender grude de peixe, barbatana de tu- barao ou pimenta do reino. Ne- nhum dos dois admitiu a proce- dencia das acusag6es feitas con- tra eles pelo delegado Jos6 Sales, da Policia Federal, e reafirmadas pelo procurador Moacir Morais Filho. Todos sabem que as investi- gag6es apenas comegaram e so- PESQUISA meAte uma pontinha do enorme iceberg foi puxada. A hist6ria complete pode ser mais ou menos grave, conforme a 6tica pela qual for vista. Augusto Morbach Neto diz que seu sdbito enriquecimento nada ter a ver cor droga. Ele se declara vendedor de armas pesa- das da Engesa, que Ihe permitiria tamb6m transporter equipamentos belicos de pouco volume e grande valor, como controladores eletr6- nicos de mfsseis. O passaporte de Morbach re- gistra muitas entradas no Ira e no Iraque, no perfodo da guerra en- tre os dois pauses e de forneci- mento de armamento brasileiro em maior escala. Era quando atuava por all o coronel Oliver North, o articulador da operagio IrA-Contras na administragAo Reagan. Morbach diz ter voado com o coronel North. Seu nome tambdm aparece no registro de audiencia do general Leonidas Pi- res Goncalves, ministry do Exdr- cito no governor Sarney, em 1986. Pode haver fantasia nessas hist6rias reconstitufdas, mas nAo ha nada de fantasioso nas 2,2 to- neladas de cocafna e US$ 3,95 milh6es de ddlares em notas vivas que cafram no control policial nos dois dltimos anos vindas de Morbach, Jacintho & companhia ilimitada, com seus desdobra- mentos visfveis e invisfveis. O narcotrifico ji se estabeleceu no Pard. Quem quiser que nAo acre- dite. Ego em alta D eixando-se levar pela re- portagem que abriu a pri- meira pdgina do journal no dia 23 de maio, qualquer dos pre- sumfveis 300 mil leitores da edi- ;Ao dominical do journal "O Libe- ral" deve ter chegado A conclu- sAo de que Romulo Maiorana Jd- nior, mesmo sem ser politico, 6 o principal candidate em potential ao governor do Pard na eleicAo do prdximo ano. Uma pesquisa do Ibope, en- comendada pelo pr6prio Romi- nho, colocou-o em primeiro lugar entire os nomes apresentados ao pdblico como alternatives A su- cessAo do governador Jader Bar- balho. O vice-presidente do Sis- tema Romulo Maiorana de Comu- nicaqgo recebeu 38% das inten- g6es de voto. Um outro empresa- rio, Marcos Marcelino, dividiu o segundo lugar cor o prefeito de Bel6m, Hdlio Gueiros: ambos fo- ram escolhidos por 26% dos en- trevistados. O senador Almir Ga- briel, do PSDB, ficou cor 22%, enquanto o senador Jarbas Passa- rinho, do PPR, teve 14%. O vice- governador Carlos Santos veio atras, cor 12%,.e o ex-prefeito Sahid Xerfan nAo passoq de 8%. Apesar do destaque dado por "O Liberal", os resultados da pesquisa foram imediatamente contestados e nAo s6 por adver- sarios ou antipatizantes do journal. O prefeito Hl6io Gueiros sim- plesmente se recusou a dar uma declaraqAo ao journal, cujo esforgo para repercutir a pesquisa foi de curta duragao. O prefeito ficou irritado, e nio sem motives: nAo apenas apa- receu bem atrds de seu nedfito aliado polftico, como foi desas- tradamente derrotado no con- fronto de sua administragao corn a do arqui-inimigo, Jader Barba- Iho. Enquanto Jader jd enfrenta a desgastante segunda metade do mandate, o prefeito ainda usufrui (ou usfruiria, para ser fiel ao re- sultado da pesquisa) do namoro que costuma marcar as relag6es iniciais dos polfticos cor a opi- niAo pdblica. Mas enquanto 48% dos en- trevistados classificaram de boa a 6tima a administragao do gover- nador, apenas 25% deram essa classificagro ao prefeito. Em sentido inverso, enquanto 10% apontavam de p6ssimo a ruim o governor de Jader, 25% reduziam a esses padres a gestao de Hdlio Gueiros. Seu melhor resultado foi ser considerado regular por 45% dos entrevistados, enquanto Jader teve 40% nessa faixa. Cinco meses depois de ter assumido um cargo para o qual foi eleito sem precisar submeter- se a segundo turno, 6 um desem- penho desgastante. Significa que a opiniAo pdblica ainda nAo sabe a que veio o prefeito, mas nAo gostou do quase nada que ele fez. Os 51% de adesAo que H6lio Gueiros teve em outubro se redu- ziram r metade no infcio de maio, quando foi aplicada a pesquisa. t um capital furado para polftico que pretend, como outros pre- feitos da capital que o antecede- ram, abandonar no infcio o man- dato popular municipal para ten- tar outro, de maior expressao. Os precursores se esborracharam e Hdlio pode vir a ter o mesmo destino. O prefeito poderia queixar- se da inoportunidade da pesquisa e da decisAo de seus aliados de divulgar os resultados sem con- sulta-lo a respeito, o que diz al- guma coisa sobre o estado de de- terioragAo da alianca que eles ainda mantem, embora, jA agora, sem a consistencia anterior. Mas qualquer pessoa medianamente iniciada nos segredos da political e nos meandros de pesquisa de opiniAo poderia questioner a boa f6 do trabalho e as intenc6es do grupo Liberal ao divulgar apenas resultados parciais. Na verdade, os resultados sao menos importantes do que a vontade do principal executive do grupo, que encomendou pessoal- mente a tarefa ao Ibope, revelan- do seu gesto a pouqufssimas pes- soas. Como o Jornal Pessoal afirmou em edig6es anteriores, o propdsito de Rominho 6 estabele- cer um cacife para aumentar o poder de negociacio de sua em- presa (e dele pr6prio em particu- 4 Jornal Pessoal lar) na partilha do poder que re- sultard de uma nova alianga de forgas em formagio. A mosca azul ainda nAo 6 tao desenvolvida a ponto de convence-lo a lanqar- se sobre o principal cargo eletivo sem passar pelas etapas da inicia- qao polftica. Ego inflado, o que o executive do grupo Liberal quer 6 valorizar sua influencia (ou im- portancia) para aumentar o pre- mio de que se julga merecedor. Assim, a inclusao de seu nome na lista apresentada aos entrevistados nao 6 casual. Nem por acaso foi que o Ibope decidiu fazer a consult em duas etapas. Em primeiro lugar, ofereceu os nomes de empresarios; s6 em se- guida, o de polfticos militants (ou tradicionais). Com a mfdia de seu grupo, monopolista das co- municag6es no Estado, martelan- do seu nome (inclusive por causa do nome de fantasia da empresa, o Sistema Romulo Maiorana de Comunicaiao), s6 por esse moti- vo Rominho seria imbativel. Colocado diante da lista (pois tratou-se de pesquisa esti- mulada e nfo de pesquisa espon- tinea, na qual o entrevistado tern direito a revirar nomes na mem6- ria), o desavisado alvo reagiu pa- vlovianamente, referendando o nome mais comum, aquele que bate o sino da referencia no sub- consciente quando pronunciado. Nao por outro motivo o segundo colocado, em boa posicgo, foi Marcos Marcelino: sua empresa tamb6m leva seu nome. Lutfala Bitar, mais atuante, teve s6 3%; mas se a opgAo na c6dula fosse a Estacon, que 6 sua empresa, cer- tamente teria muito mais votos. Essa, entretanto, nao 6 a dnica fonte de distorqao do re- sultado da pesquisa. Como ne- nhum dos nomes da lista 6 de candidates em campanha ou se- quer cor intengAo de participar da dispute pelo cargo (o empresi- rio Marcos Marcelino reagiu A sua inclusao), todos se benefi- ciam dessa estatica. O que estava em causa para os entrevistados era a imagem de nomes poten- cialmente cogitados e nao do que eles efetivamente podem ser numa dispute paia va-Fer. Por is-so, nio- surpreende que 44% das mulheres tenham escolhido Rominho, con- tra 19% para Marcelino, uma cor- relagio atenuada na manifestagio dos homes (35% preferiram Marcos Marcelino e s6 32%, Ro- mulo Maiorana Jr.), mas nao o bastante para impedir o vi6s fi- nal. Assim, por causa da oportu- nidade (ou inoportunidade) da consult, o que Rominho pode ter certeza 6 de que, se o cargo em dispute fosse a substituicao de seu amigo Vic Pires Franco como locutor da TV Liberal, seu lugar estaria garantidfssimo. Outra coi- sa 6 o governor do Estado, que ele nao poderia disputar cor a bioni- cidade que a pesquisa do Ibope Ihe fornece em gabinete. Antes, teria que falar em pdblico sem protegio qufmica, visitar lugares sobre os quais nunca ouviu falar (e que dificilmente poderiam ser inclufdos em sua agenda), fazer contatos, negociar, articular po- liticamente e, apesar de tudo, li- derar. O problema 6 que a vontade caprichosa de um dono de journal virou notfcia de primeira pagina. Novamente o Ibope foi acusado de fabricar pesquisa, manipulan- do os resultados. A restriqao que pode ser feita ao institute 6 a de ter usado sua competencia t6cnica para acomodar um capricho, com- prometendo, assim, a fung-o so- cial (e mesmo polftica) da pesqui- sa, al6m de provocar uma legiao de suspeiq6es, nem sempre fun- dadas. Em sua reportagem sensa- cionalista e utilitaria, "O Libe- ral" sugere que a opiniao pdblica prefer um empresario a um polf- tico como future governador do Estado, quando nem isso foi per- guntado, nem respondido. A con- frontaglo dos resultados, obtidos separadamente, entire empresarios e polfticos, poderia levar a essa conclusao, mas nao houve cruza- mento. Objetivamente, o entrevista- do nao teve a oportunidade de comparar e decidir. Os formula- dores da pesquisa fizeram isso por ele. Mas 6 uma attitude teme- rdria, at8 mesmo porque 26% dos consultados nao sabiam, nao opi- niaram ou preferiram nao esco- lher nenhum dos empresarios apontados, proporcio de 11% entire os polfticos. Cruzar esse rubicao do acesso ao eleitor (e nao apenas ao pdblico, mais ao alcance do mercado) tem afogado muitos empresirios, dificuldade da qual 6 o maior exemplo o mais influence dos empresarios brasi- leiros, o paulista Antonio Ermfrio de Moraes, triderrotado. O dedo do gigante que se in- filtra e contamina a isengao da pesquisa estA na pr6pria selegao dos nomes. Enquanto o critdrio entire os empresarios foi a eleiaio promovida pelo journal "Gazeta Mercantil", entire os polfticos se- ria a evidencia dos que notoria- mente sao candidates ou aspiran- tes a candidates. No entanto, o ministry Fernando Coutinho Jorge nio foi inclufdo entire os possf- veis candidates ao governor, em- bora como "O Liberal" se in- cumbe de destacar constante- mente ele s6 tenha permanecido no comando do Meio Ambiente para salvar suas pretens6es em relagco ao comando estadual. Mas Coutinho Jorge 6 desa- feto do grupo Liberal, que costu- ma retirar do mundo os que co- metem esse sacril6gio, expurgan- do-os do noticiario de seus vef- culos de comunicaqao ou de co- metimentos como a pesquisa en- comendada ao Ibope, mais um brinquedo para fazer a vontade do dono e cativar a dnica coisa nele superlativa: seu ego. Fofoca D everia haver uma legislagao impondo determinadas regras para a realizag~o de pesquisas de opiniao. A que "O Liberal" en- comendou ao Ibope, por exemplo, embora viciada na origem, criou um fato polftico de impact na sociedade. Como os resultados foram divulgados apenas parcialmente e omitida a base metodol6gica, sur- giram muitas especulag6es. Co- mo, por exemplo, de que, al6m da pesquisa estimulada, o Ibope teria realizado uma sondagem esponti- nea. Nesta, entire os empresarios que poderiam ser candidates ao governor, Romulo Maiorana Jr. nem teria sido citado. Por ordem de votacgo, os lembrados espon- taneamente pelos entrevistados teriam sido Carlos Santos, Sahid Xerfan, Marcos Marcelino e Lut- falla Bitar. Foram aplicados 300 questiondrios. Se non 6 vero... Inspiragao Nada de novo no front. H6lio Gueiros arrocha o salArio dos funcionarios municipals, dissolve o Conselho de Sadde, quebra a ponte do diilogo, se isola e man- da recados. Para completar o per- fil, s6 falta um bigodinho, ainda que grisalho. Journal Pessoal 5 ELEIgAO Passarinho na muda A penas a famflia separa o senador Jarbas Passarinho da candidatura ao governor do Pard na eleiaio do pr6ximo ano. Por causa dela, o ex-minis- tro nio responded positivamente A sondagem de Jader Barbalho, na semana passada. Os dois almora- ,am juntos no dia 27, no gabinete Je despachos do governador, na antiga sede da Emater. Sabendo das resist6ncias de Passarinho, Jader nio chegou a fazer-lhe um convite, mas son- dou-o sobre a possibilidade de aceitar ser o candidate da coliga- gio do PMDB cor o PPR, partido que resultou da fusio do PDS cor o PDC, ainda em fase de ofi- cializagio. Passarinho responded ao seu estilo, cor uma blague: convidou o governador a repetir o convite num almogo de domingo em sua casa, em Brasflia, diante de cinco filhos e 14 netos. "O senhor serd linchado", profetizou Passarinho. A resistencia familiar 6 muito forte, mas o prdprio sena- dor reluta a tentaAio de chegar ao governor paraense por eleigio di- reta e para um mandate complete (em contrast com os 19 meses em que foi governador, no infcio de sua carreira polftica, 30 anos atras, eleito por deputados esta- duais). Em parte pela comodidade de que desfruta em Brasflia, en- quanto polftico de expression na- cional, mas tambem pela necessi- dade de tender de perto um filho mais problematico. No entanto, o coroamento da carreira political, no horizonte dos 80 anos, 6 um problema. Se o governador Jader Bar- balho sair candidate ao Senado, a hip6tese de Passarinho ficar corn a segunda vaga torna-se remota por causa da alianca dos dois partidos, ji decidida. Restaria a alternative da CAmara Federal, com auditdrio congestionado de- mais (ou exfguo demais) para o talent de Passarinho. Significa- ria um arremate da carreira por baixo, que o senador, sempre atento a prdpria biografia, gosta- ria de evitar. Ele sabe que a dispute pelo governor sera, pessoalmente, bas- tante onerosa. A consciencia des- ses entraves explica a exclusio desse tema dos dois encontros anteriores corn Jader Barbalho. Mas a pesquisa de "O Liberal", divulgada quatro dias antes do almoco, fez o governador avangar na primeira abordagem concrete. Mesmo na capital, o coldgio eleitoral mais desfavoravel a alianga cor o governor estadual, Passarinho aparece sempre como o terceiro mais votado. A pesqui- sa nio forneceu um dado funda- mental para a andlise: o fndice de rejeigio. Mas as opg6es em favor de Passarinho sugerem que seu nome, bem trabalhado, pode cres- cer na capital. No interior, o do- mfnio de Jader Barbalho 6 hege- m6nico. Ele precisa de um nome leve para apresentar na capital, cujo efeito de ressonincia faz crescer seu peso relative. As op- g6es de Jader, nesse sentido, slo apenas Passarinho e Almir Ga- briel. Fontes ligadas ao senador Jarbas Passarinho garantem que nada esta decidido e que ele con- tinua se recusando a aceitar a dispute para o governor. Mas hd um dado indicador de tendencia: as duas mais recentes passagens do senador do PPR por Beldm fo- ram as mais extensas dos dltimos tempos. Sinal de que ele, ao me- nos, j& estA pensando no assunto cor o prop6sito de resolv8-lo. Um dos frequentadores do cfrculo mais fntimo do governa- dor informava que Jader saird mesmo candidate ao Senado se for estabelecida a composic0o. No almoco cor Passarinho, o go- vernador declarou que permane- cerd at6 o final do seu mandate, argumentacio que ter repetido a outros interlocutores. Diz que a imunidade de um mandate eleti- vo, que o protegeria na eventua- lidade de apuraaio de irregulari- dades enm sua gestao (principal- mente no Ministdrio da Previden- cia Social), 6 relative porque po- de ser suspense a qualquer mo- mento. O principal, segundo Ja- der, 6 a continuidade no governor. Ele aponta para o exemplo da Bahia, onde Antonio Carlos Magalhies vem submetendo seu antecessor, Nilo Coelho, a devas- sa e execragAo pdblicas, indepen- dentemente de ter razio no que alega. Desta vez, Jader quer pas- sar ao successor a faixa que Helio Gueiros nio Ihe entregou, apesar de te-la recebido em mios. Candidate no espago A candidatura do ministry Fernando Coutinho Jorge ao governor do Pard naufra- gou nas aguas turbulentas da in- decisao. Durante duas semanas o senador recusou-se a seguir os conselhos de seu principal padri- nho, o governador Jader Barba- lho, para deixar o ministdrio Ita- mar Franco. Criou uma area de aresta cor Jader, difusa mas comprometedora, e nio ganhou a garantia de que poderA continuar no Ministdrio do Meio Ambiente. Por que Coutinho permane- ceu indiferente ao cheiro de fritu- ra que emanava do Palacio do Planalto e as indicag6es de Jader constitui mist6rio atd para os cor- religionArios do senador paraen- se. O ministry preferiu ignorar a escandalosa consult feita a Jai- me Lerner para substituf-lo (qu- o prefeito de Curitiba, prudente- mente, recusou) e optou pelos se- nadores Humberto Lucena e Mau- ro Benevides, cardeais nas deci- s6es do PMDB, mas sem base eleitoral no Pard. A decisao do desligamento amadureceu, apo- dreceu e Coutinho nio a tomou. Passou a ser figure duplamente decorative: em Brasflia, e no Pard. Alguns justificam a cega obstinafio como um trago da per- sonalidade de Coutinho Jorge: ele nio gostaria de sair rebaixado de um governor no qual entrou certo de alcangar projeAio national gragas ao emotivo tema do meio ambiente. Outros, sem descartar essa dimensio, agregam-lhe ou- tra, mais important: Coutinho jd nio teria mais ddvida de que nio 6 a alternative dos sonhos do go- W 6 ]oral Pessoal vernador para sua sucessAo. O ministdrio seria o dnico instru- mento capaz de garantir-lhe certa autonomia de v6o para chegar a convengQo por caminhos prd- prios, se o official Ihe fosse inter- ditado. Coutinho quis continuar a ser ministry para alimentar espe- rangas de vir a ser governador. Tamb6m nao queria ser nova- mente um instrument dos,proje- tos pessoais de Jader Barbalho. O governador pretendia dar uma demonstracAo de insatisfacio ao president Itamar Franco, sem assumir o 6nus do rompimento com o governor central. No infcio do ano Jader deixara com o pre- sidente uma relagAo de nomes pa- ra ocupar a chefia de representa- g6es da UniAo no Estado. NAo foi atendido. Pior: recentemente co- megaram as nomeag6es, de gente do PSDB e do PSB, mas nao do PMDB. O governador ficava sa- bendo dos atos como os pobres mortais: atrav6s da imprensa. A irritagAo ultrapassou as medidas quando o ministry do gabinete civil colocou compadres mineiros da Cemig, a empresa de energia de Minas Gerais, na dire- ;Ao da Eletronorte, que gera no Para 95% de sua energia. Rond6- nia foi o dnico Estado da Amaz6- nia que teve seu cargo. O gover- nador nao conseguiu nem impedir que desafetos, alguns dos quais aliados na primeira gestAo, se in- filtrassem em cargos que queria ver ocupados por correligiond- rios. De Sao Paulo, onde conver- sava com o ex-governador Ores- tes Qudrcia, Jader deu o primeiro telefonema recomendando a Cou- tinho que se demitisse. Reiterou pessoalmente em Brasflia a orientagAo. Uma carta de demis- sao chegou a ser preparada pela assessoria do ministry, mas ele foi procurar protegio junto a di- rigentes nacionais do PMDB. Ja- der lhe disse que o PMDB do Pa- ra romperia cor Itamar. Coutinho aguardou, mas o rompimento nio veio. O PMDB, como em outras ocasi6es recentes, optou por ne- gociar nos bastidores. Quanto ao ministry, por in- sistir em desafiar a lei da gravi- dade, talvez mais axiomatica em polftica do que em ffsica, nem caiu, nem subiu. Tornou-se uma referencia polida, o que talvez explique o comportamento ambi- valente do governador na semana passada. Jader mandou recados a amigos e correligionarios para que prestigiassem o jantar orga- nizado por adesAo para comemo- rar, no sAbado, o aniversario de Coutinho. Mas nao foi ao que os polfticos chamam de Agape. Sua ausAncia prencheu a lacuna que faltava para completar o recado. Bicho, nao A Princomar tera seu projeto cancelado pela Sudam se ficar comprovado que o control da empresa pertence ao deputado Joao Bosco Rufino Mois6s, o maior banqaeiro do jogo do bicho no Para. O superintendent da Sudam, Frederico Andrade, de- terminou a procuradoria jurfdica da Sudam para verificar as infor- mag6es divulgadas no Jornal Pes- soal, segundo as quais a aprova- 9ao do projeto de pesca, no valor (atualizado) de 240 bilh6es de cruzeiros, levara a transferencia do control da Princomar para Bosco. Aldm de passar a principal acionista da empresa, registrada em nome de dois testas-de-ferro, Bosco jA vinha transferindo para a Princomar dinheiro do jogo do bicho, que 6 uma contravengao penal, como comprovam os re- gistros da JB Loterias apreendi- dos pelo delegado Cl6vis Mar- tins. Frederico Andrade, ao co- municar a providencia que havia adotado, ressaltou que a Sudam nio pretend investor recursos dos incentives fiscais em um em- preendimento ligado A contraven- cAo. Se as informag6es forem confirmadas pelo servigo jurfdico da Sudam, o projeto da Princo- mar, aprovado na ditima reuniAo do Conselho Deliberativo da Su- dam, em abril, sera cancelado. Round O superintendent da Sudam, Frederico Andrade, parece ter ganho o primeiro round de uma guerra de bastidores travada corn o superintendent adjunto de ope- raL6es, Marcos Antonino Porto. Antonino gastou varios dias em Brasflia usando o prestfgio de seu padrinho, o senador Jdlio Cam- pos, de Mato Grosso (ao qual o JP se referiu na dltima edigio, equivocadamente, como secreta- rio da Camara Federal), para cortar a cabega da diretora do Departamento de Administra~ao de Incentives da Sudam, Ana Aml6ia Gouveia. O objetivo de Antonino, porem, era mais alto. Embora venha ten- tando, desde que assumiu a supe- rintendencia adjunta, controlar o estrategico DAI, pelo qual pas- sam os projetos credenciados a receber incentives fiscais, o ma- togrossense Antonino queria mesmo era atingir o superinten- dente geral. Frederico Andrade havia deixado bem claro que se demitiria se Ana Am6lia fosse afastada da diregao do DAI. Tdc- nica de carreira da Sudam, ela se- ria peca chave para a reform que Frederico vem fazendo no depar- tamento. O apoio do senador Jdlio Campos foi contrabalangado pela manifestagio das principals lide- rangas polfticas paraenses, entire as quais o governador Jader Bar- balho e o senador Jarbas Passari- nho, junto ao ministry da Integra- gao Regional, o tamb6m senador (maranhense) Alexandre Costa. Jdlio Campos teve que acenar com a bandeira branca, mas ainda nao se sabe se a guerra acabou ou se trata-se apenas de uma trdgua. Para valer? A parentemente o objetivo do grupo de trabalho criado no dia 10 de maio pelo Minist6rio da Fazenda 6 bastante claro: sugerir um piano de reestruturagAo e fortalecimento do Banco da Ama- z6nia. Mas quando, no dia 26, um dos cinco integrantes do grupo e dnico representante do pr6prio Basa, seu director financeiro, Carlos Gilberto Caetano, promo- veu a primeira reuniao de con- sulta junto a opiniao pdblica, ainda havia muita desconfianga quanto ao significado real da atuagao do GT. Outros jA surgiram bem in- tencionados, mas seus resultados foram sempre o enfraquecimento do Basa, Da dltima investida re- sultou o enxugamento das despe- sas administrativas do banco e a redugao do corpo funcional, mas nem por isso a situagro ficou melhor ou mais bem definida. Os empregados temem que o Ministd- rio da Fazenda, que nunca absor- veu o Basa, esteja tentando dou- rar a pflula fatal que fara banco engolir, simplesmente extinguin- do-o ou fazendo-o ser absorvido pelo Banco do Brasil. Jornal Pessoal 7 A direg~o do Basa, entre- tanto, assegura que desta vez o propdsito mesmo o de dar uma solugAo para o impasse que tern feito o Basa vegetar nos dltimos anos. Lembra que o banco voltou a ter assento e voto no Conselho Monetario Nacional, que logo ira enquadrar como excepcionais os d6bitos de cinco empresas esta- tais, poupando o Basa de provi- sionar parcelas vincendas dessas dfvidas. Cor isso, o banco volta- ria a ter patrim6nio Ifquido posi- tive, acabando com a novel dos balangos de 1991 atd hoje, que empacaram nos prejufzos conta- beis. Novamente com suas contas azuladas, o Basa poderia tentar, atraves de acesso a linhas de cr6- dito internacionais, definir um perfil de banco multilateral, dire- cionado para a abertura de novos neg6cios, capaz de financial e pensar o desenvolvimento da regifo. Aldm de reciclar o Fundo Constitutional Norte, o FNO, li- vrando-o da triste sina que o vem limitando A aqgo de varejo, para transforma-lo em um indutor de polfticas pdblicas, o Basa poderia se beneficiary da reformulagAo dos incentives fiscais que a Sudam esta propondo. Sua maior novida- de seria a substituiiio da rendn- cia fiscal, que favorece a con- centra&io e o desvio dos recursos da dedugdo do imposto de renda, pelo gasto fiscal, que possibilita- ria a constituicgo de um novo fund, especificamente orientado para obras de infraestrutura. A primeira reuniio, no mini- audit6rio do banco, que reuniu nove representantes da sociedade civil, foi um acontecimento ind- dito. Mas ainda nio 6 o suficiente para assegurar que os temores de todos sao infundados e este GT, final, vai cumprir o que diz ser sua missio. Ou seja: Brasflia, desta vez, nao esta blefando? Bitar, fora No infcio do ano o engenheiro Geraldo Bitar Pinheiro mani- festou ao governador Jader Bar- balho a intenrao de deixar a pre- sidencia da Celpa. Considerava encerrada sua missao no service pdblico e pretendia voltar A Esta- con. O pedido nao foi aceito na 6poca. Mas o governador teria concordado com a safda de Bitar quando ele, ha duas semanas, reiterou segundo algumas fon- tes, agora por escrito o desejo de deixar a direglo da Celpa. Apesar de alguns resultados positives que alcangou, Bitar mergulhou num clima de incom- patibilidade com o sindicato dos urbanitarios e uma parte conside- ravel do corpo funcional da Cel- pa. A dificuldade que o engenhei- ro revelava para acomodar seu temperament A negociacio com o sindicato e A necessidade de dia- logar, mesmo em ambiente tenso, que descambou para uma medigao de forcas, pode ser express no bate-boca que travou com o de- putado JosA Carlos Lima, do PT, durante seu depoimento na As- sembldia Legislativa, no dia 18 de maio. Bitar ouviu contido o discur- so que Jose Carlos leu da tribune, atacando-o pessoalmente. Quando o parlamentar se aproximou da mesa, ostentando um bottom que pedia a safda do president da Celpa, Bitar, tens, disse-lhe, entredentes: "covarde". 0 depu- tado, cor toda a sua bancada, iria se retirar do plenario, recu- sando-se a ouvir o depoimento do dirigente da empresa de energia eldtrica do Estado. Jose Carlos protestou e s6 nao se viu mais uma cena tipica do parlamento porque Geraldo reassumiu o control. 0 desgaste, por6m, ja se consumara. Carga burocratica o Pard, pouco mais de um milhao de seus cinco milh6es de habitantes nao disp6em de Agua em suas residencias, en- quanto 1,4 milhao nao contam cor esgoto sanitario. Ha tres milh6es de criangas e adolescen- tes fora da escola. Quase 600 mil pessoas estao sem casa para mo- rar. Estas sio algumas das prin- cipais carencias sociais que a administracao pdblica precisa tentar suprir. S6 pode fazer isso atrav6s de obras. Obras nao slo possfveis sem dinheiro. Por isso, o Executive precisa aumentar a fatia do orgamento pdblico desti- nada a investimentos. Cor essa enfase, o governador Jader Bar- balho encaminhou A Assembldia Legislative o projeto de lei que disp6e sobre as diretrizes orra- mentarias para o pr6ximo ano, a LDO. Em 1994 o Executivo pre- tende recuperar um pouco a sua participaCio no orcamento, pas- sando os 83,5% de 1993 para 84,72% no pr6ximo exercfcio. Ainda assim, 6 um fndice inferior ao de outros seis Estados aponta- dos, para efeito comparative, na exposicio de motives do gover- nador, que acompanhou a LDO. O Executive fica com 92,38% das verbas pdblicas em Sao Paulo, 91,05% no Amazonas e 90,69% em GoiAs, por exemplo. Sd que no Para, como nos Estados menos desenvolvidos em geral, o poder Legislativo pesa muito, mais ate do que o Judicia- rio. Enquanto em Sao Paulo o Legislative absorve apenas 0,7% do ornamento, no Pard vai a 6,5%. Em 1993 o Judiciario rece- beu 7%, inclufdos 2% destinados especificamente a instalagio de comarcas. Esse adicional foi su- primido na proposta orgamentAria para 1994, restando 5,5% a Justi- (a contra os mesmos 6,5% do parlamento estadual, um despro- p6sito se considerada a natureza e o funcionamento das duas ins- tituig6es. O Ministdrio Pdblico 6 ex- cepcionalmente favorecido no Pa- rd. Teve 3% no orgamento em vi- gor e terA 3,28% no pr6ximo, in- clufdas as dotag6es para sua re- presentagao junto aos dois tribu- nais de contas (0,58% do total), representaaio que simplesmente inexiste nos outros seis Estados citados. Em cinco deles tambdm nlo hA um Tribunal de Contas dos Municfpios, apenas o Tribu- nal de Contas do Estado. Goias 6 excegio, que acompanha o mau exemplo paraense. 1 tfpico de area subdesen- volvida que preciosos recursos pdblicos sejam desperdigados em atividades-meio (e em atividades intermediarias indcuas), enquanto falta dinheiro para realizar obras e servings dteis A comunidade. Se o Executive aplica mal essas ver- bas, 6 outra questAo, que compete b sociedade fiscalizar. Mas a bu- rocracia pesa demais como carga indtil sobre os ombros de quem nao ter sequer agua para consu- mir. Prego A galopante inflaglo, que o mi- nistro Fernando Henrique Cardoso promete controlar se o president Itamar Franco nao im- portunar, forga um novo reajuste do preco deste journal. Fronteira viva I ronias da histdria. Em 1964 os Estados Unidos ajudaram a derrubar Cheddi Jagan da presi- d8ncia da Guiana, a ex-col6nia inglesa que faz fronteira com o Brasil e a Venezuela. No final de abril deste ano Jagan autorizou tropas americanas a realizarem pela primeira vez manobras na floresta amaz6nica. Dando sempre destaque nu- ma cobertura que durou quatro dias, o journal "O Globo" foi o dnico da imprensa brasileira que noticiou as manobras militares, tratando-as um tanto sensaciona- listicamente. Foi uma manobra limitada, com duraqai de tres se- manas, que mobilizou 175 ho- mens. Os Estados Unidos, eviden- temente, nio estao planejando in- vadir a Amaz6nia, da mesma ma- neira que Cuba nio pretendia usar Guiana como trampolim para penetrar no territ6rio brasileiro. Esse receio se difundiu na ddcada de 70, quando a ex-col6nia ingle- sa apresentou-se como uma Re- pdblica cooperativista e entende- ram sua denominagqo como Re- pdblica comunista. Treinar na floresta amaz6ni- ca enriquece o adestramento dos boinas verdes americanos, que alimentavam esse desejo hd bas- tante tempo. Mas nao se trata, 0 claro, apenas de exercfcio acad6- mico, se podemos falar assim. Os EUA parecem interessados em atuar mais diretamente na region em funcio de sua estratdgia de combat ao narcotrAfico, uma va- riagio ao redor do mesmo big stick, o sfmbolo desastrado de uma certa diplomacia ianque. A causa pode at6 ser nobre, mas os meios nio sio os mais eficientes, ou clarividentes. A pedagogia do porrete nunca funciona. A posiCgo da Guiana 6 de- tectaivel. Os abalos polfticos na Venezuela devem aumentar o grau de inseguranga do governor guianense sobre a zona contesta- da de fronteira e as prdprias dis- seng6es internal. Os problems no Suriname tamb6m afetam a estabilidade da ex-col6nia. A presence americana deve ser um sinal de seguranga, ainda que apenas formal. Jagan tamb6m justificou sua aparente contradi- gao assegurando que nao autori- zaria a operacio americana se ela fosse mais substantial. Seria ape- nas ensaio. Tregua T odo o inegavel bem que pro- moveu em favor da causa in- dfgena, o cacique kayapd Pauli- nho Payakan estd desfazendo com seu comportamento em relacio ao process no qual 6 acusado de estuprar a estudante Sflvia Letf- cia da Luz Ferreira. Nio hd ddvi- da que alguns personagens dessa histdria estio tentando aproveitar a oportunidade para um ajuste de contas com os fndios. De certas peas dos autos destila o precon- ceito mal contido. A imparciali- dade de que algumas autoridades deveriam revestir-se 6 fictfcia. Mas Payakan nio estd acima das exigencias legais. Nio pode que- rer combater a imputagio do cri- me simplesmente tentando fazer de conta que ele inexiste. O estupro 6 uma question pessoal Nio estd em xeque a tal da causa indfgena, qualquer que ela seja. O cacique deve exigir que seu direito seja respeitado e possa ser processado regular- mente. Provas e indfcios reunidos no process nio slo conclusivos, mas hd material suficiente para a acusafio. Parece claro que gru- pos atrms dos bastidores utilizam- na conforme seus interesses, at6 agora nio inteiramente desvenda- dos porque a imprensa atua tam- b6m com prevenrio. Payakan nio 6 propriamente um desprotegido. Reagir escon- dendo-se na aldeia e inventando desajeitadas desculpas nio o li- vrard da responsabilidade crimi- nal e civil, ja que ele aceitou de- terminadas regras que o incorpo- raram A sociedade, mas deserve a maltratada imagem dos fndios, dos quais foi um lfder e um gran- de exemplo. A dime sdo social de seu drama esta na revelagio das armadilhas a que um fndio estd exposto, armadilhas de uma tec- nologia que desconhece, quando tenta passar da aldeia para a ci- dade e cai num vacuo jA exope- rimentado por outros fndios, co- mo Mario Juruna. Ensaio eterno Todas as vezes que vou A Fa- culdade de Ci8ncias Agrdrias do Pard participar de debates fico observando a arquitetura do enorme auditdrio, com suas colu- nas estilizadas do grego antigo. A novidade quando la cheguei, no dia 15, estava nas janelas. Elas tinham sido pintadas de preto. A luz natural ficava 1a fora, como para simbolizar ainda mais o dis- tanciamento da FCAP da realida- de. A Faculdade ainda preza o seu isolamento. Pensa, ingenua- mente, ser atestado de excelencia, conferindo-se uma notoriedade que nao atravessa seus muros. A FCAP ficou ao largo da hist6ria recent de uma regiio para a qual teria que ser valiosa. Ignorou as quest6es agrdrias. Sua agronomia ter sucessos apenas localizados. Enquanto Daniel Ludwig afunda- va no seu arrozal de Sao Raimun- do, a FCAP persistia no seu mi- crosc6pico experimentalismo do Guama. Atenta ao menos ao sentido da hist6ria, a Embrapa tratou de acrescentar um agroflorestal e ecol6gico sua toponfmia. A FCAP permaneceu em sua auto- sufici8ncia vazia, de costas para o campus vizinho da UFPa. Tan- tos erros tem sua matriz no auto- ritarismo de gera6ces na direcgo da escola. Durante a I Semana Academica de Engenharia Flo- restal os alunos fizeram um co- movente apelo pelo diblogo, pela democracia internal, sem a qual nao hd esperanra e sem espe- ranga ningu6m avanra. Escalada O governador Jader Barbalho prometeu que as invas6es ur- banas cessariam a 15 de margo de 1991, data de sua posse, pela se- gunda vez, no governor do Estado. At6 entio, as invas6es eram ape- nas de terrenos ditos baldios. Com o tempo, passaram a ser tambdm de casas de conjuntos re- sidenciais perif6ricos. Agora, atingem prddios de apartamentos. Sao 130 mil pessoas envol- vidas nessas invas6es, mais do que o contingent de empregados da construgco civil. H4 aprovei- tadores no meio dessa gente, in- tegrantes de uma inddstria espe- culativa de dinheiro e de votos, ou das duas coisas combinadas. Mas a massa 6 formada por pes- soas que querem ter algo entire as laterais ou sobre suas cabegas pa- ra se abrigar e poder chamar de casa. Jomnal Nssoa lFdAildr rcpomsavw: lIAcio Flvio Pinin IluslraiiA: I jz Pinlo Rua ( amp Srljk. 26AW3 46.020 line: 223-1929 ()Opo Idiorial Impreao mn olicim de Agrell Flnma, traw AlIere QCta 1690. Bdem. |
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