Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00082

Full Text




Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL L CI F AV O PINTO

Ano VI No 107 1P Quinzena de Fevereiro de 1993 Cr$ 5.000,00

EXCLUSIVE


0 arquivo mudo

James Vita Lopes, acusado de organizer
o assassinate de Paulo Fonteles, diz que 6
inocente. Garante que nfo mudara essa
historic, nem podera virar arquivo.
I lpgl*W****^I^W^rr J^pn '///5i~~~~


Todos os caminhos visfveis
do assassinate do ex-depu-
tado Paulo Fonteles, come-
tido ha quase seis anos, condu-
zem a James Vita Lopes, conde-
nado no m8s passado a 21 anos
de prisao pelo Tribunal do Jdri de
Ananindeua. Se a sentenga for
confirmada em novo julgamento
ou se vier a ser ratificada em ou-
tra instancia judicial, a perspecti-
va de uma condenagAo definitive
nAo fara o mais notdrios dos de-
tentos do Para fornecer informa-
g6es que ajudem a revelar a


identidade do mandante do crime
ou detalhes de sua execugio. Pre-
so, solto ou eliminado, James nio
6 um arquivo. t um bode expiatd-
rio.
Isso pelo menos foi o que ele
sustentou firmemente durante
mais de tr8s horas de conversa na
sala do comando do 62 batalhio
da Polfcia Militar, em Beldm, on-
de esta preso ha sete meses, duas
semanas ap6s o julgamento mais
esperado dos dltimos anos. James
diz que nio est6 protegendo nin-
gu6m, nem omitindo informag6es.


"Do caso Fonteles eu nao sei na-
da aldm do que jA saiu na impren-
sa e do que jA declare de pdbli-
co. Se querem arrancar alguma
coisa de novo nfo vao conseguir
porque eu nio tenho o que procu-
ram. NAo sou nem mesmo um ar-
quivo que valha a pena queimar",
garante.
Ao final da entrevista, James
reconheceu que nao havia conse-
guido me convencer de sua nar-
rativa porque varios detalhes lhe
slo desfavoraveis ou soam inve-
rossfmeis na sua versao. Mas






2 JoIPesso


tamb6m saio do encontro com a
conviccAo reforgada de que o jul-
gamento nio representou un
ponto final da histdria. Ponto e
vfrgula, quando muito.

Agente especial?

Ele argument que se fosse
realmente um element de expres-
slo na assim chamada comanida-
de de inform~ 6es ou estivesse t
frente de poderosos propriet4rios
de terras envolvidos no atentado
contra Fonteles nAo estaria preso:
ou porque teria fugido para outro
pafs ou se escondido em outro
Estado, ou porque disporia de ex-
celentes advogados e de dinheiro
para manter os seus.
Diz que sua famflia, as de pa-
rentes e alguns amigos tiveram
que se mobilizar para garantir o
pagamento dos servings do advo-
gado Djalma Farias. As despesas
absorveram o carro que ele adqui-
rira algum tempo antes, depois de
tres anos num cons6rcio, as jdias
da esposa e outros poucos bens
de um patrim6nio que nAo inclui
casa prdpria ("pago aluguel onde
moro").
JA disse para o advogado
que estou sem dinheiro. LA em
Slo Paulo estio examinando o
que fazer para manter a defesa -
assegura.
Se tivesse realizado os servi-
gos que lhe sAo atribufdos, acres-
centa, "eu teria os 20 mil ddlares
que os advogados me cobraram
para me defender logo depois que
men nome foi associado ao crime.
Mas de onde eu iria tirar esse di-
nheiro? Por isso nAo pude acei-
tar".
James reconstitui o que ocor-
reu naqueles dias de junho de
1987. Uma incrfvel combinacio
de coincidencias fez com que,
mesmo sem provas concretas, o
nome dele aparecesse como o or-
ganizador do bem planejado e
executado assassinate. Pela pri-
meira vez ele havia recrutado
homes de fora do Estado para
trabalhar num esquema de segu-
ranga de propriedade rural.
Os dois agents de seguranga
(como ter o cuidado de trati-los,
assegurando nio serem pistoleiros
porque apresentavam prova de
inexistencia de antecedentes cri-
minais e estariam corn suas do-
cumentag6es legalizadas) foram
colocados no Hotel Milano por-
que o don6, um frances, lhe dava
desconto e prazo para pagamento,


alem do que a localizagAo do ho-
tel no centro da cidade era con-
veniente. Ali James costumava ir
quase diariamente, quando estava
em Belem, para tomar cafe e con-
versar cor amigos. O frances do-
no do Milano, Jean Frangois Le
Cornec, era amigo de outro fran-
ces, proprietirio de uma drea de
terras em Capanema, que disputa-
va cor Jose Fonteles, irmro de
Paulo. No dia 11 Paulo iria &
Comarca justamente para uma au-
dibncia a propdsito do litfgio,
atendendo pedido do irmso.
Um ou dois dias antes do as-
sassinato, James foi & agencia da
Transbrasil e marcou viagem para
SAo Paulo. Embarcou seis horas
antes do crime. Mas teria sido
mero acaso: ele costumava viajar
pelo menos uma vez por mes para
Sao Paulo (desta vez tentaria fa-
zer uma venda de madeiras para
amigos de Braganga Paulista) e
aproveitava para passar o fim-de-
semana cor a famflia.
Em fungao da viagem, a sede
da sua recem-fundada empresa de
seguranga ficaria vaga. James de-
cidiu transferir os dois homes do
hotel para a ag6ncia, economi-
zando dinheiro durante sete ou 10
dias e garantindo a seguranga do
escritdrio. Os dois empregados de
James safram do hotel quase ao
mcsmo tempo em que os dois as-
sassinos. Deram A polfcia a im-
pressAo de que o objetivo era
despistar, estabelecendo uma
cortina de fumaga para confundir
a investigagro.
Essa interpretafio foi refor-
qada pela descrigio que a guard
de trbnsito (hoje sargenta) do
Detran fez do home que a abor-
dou pedindo para cancelar a
multa que ela aplicara justamente
contra o carro que seria usado no
atentado e estava estacionado
na v6spera do crime bem em
frente ao Hotel Milano. Podia ser
James, mas podia ser um auxiliar
barbudo e careca que trabalhava
cor ele.

A origem da carreira

Quem visse quase seis anos
antes James Vita Lopes, queixo
alteado, aparencia agressiva, um
ar de auto-suficiencia, nao o re-
conheceria como o home preco-
cemente envelhecido que a guar-
da da PM trouxe na manha do dia
8 para conversar comigo na sala
do comando, sem a barba (que
nao pode cuidar na estreita e


quente cela onde estA preso), ma-
gro, aparAncia abatida, palido,
olhar que nAo se sustenta. Os sete
meses de prisao fizeram James
aparentar uns 10 anos mais do
que os seus 45, mas agora ele ter
o jeito de professor e nao o de
um home apontado como o ter-
ror de posseiros em algumas das
mais tensas areas de conflito de
terras no interior do Pard.
James nunca foi official do
Exdrcito. Apenas serviu o antigo
Tiro de Guerra em sua cidade
natal, Braganga Paulista. Ali se
formou advogado, mas nunca ad-
quiriu qualquer cacoete da pro-
fissio. Ganhou mesmo os melho-
res servings em Penapolis, 500
quil6metros a oeste da capital
paulista, porque seus amigos ad-
vogados nio queriam viajar para
cumprir mandados de reintegra-
gAo ou manutengio de posse. Ele
ia. Gostava de mato. Cedo apren-
dera a atirar, frequentando caga-
das e pescarias. Era-lhe agrad4vel
ir a fazendas no atual Mato Gros-
so do Sul, extensio da expansAo
da fronteira paulista.
Observou que o cumprimento
das sentengas judiciais nio ga-
rantia o domfnio dos fazendeiros.
As invas6es prosseguiam depois.
James comerou a deixar pequenos
plans de defesa, incluindo ini-
ciativas como colocar places,
construir guaritas ou reforgar
marcos de demarcagio. Ele diz
que depois de quatro anos atuan-
do como advogado, sua principal
atividade passou a ser a de procu-
rador de Penapolis, cujo prefeito
era amigo seu. Chefiando a Defe-
sa Civil do municfpio, foi algu-
mas vezes ao Palicio do Morumbi
na dpoca em que o governador de
Sio Paulo era Paulo Maluf. Tal-
vez por isso tenham surgido as
histdrias sobre o seu envolvi-
mento com a Oban (Operagio
Bandeirantes) e o DOI-CODI,
dois bragos violentos da repres-
slo military que agiam tambdm na
clandestinidade.
Tudo casual e sem maior sig-
nificancia, como sua alegada
amizade cor o delegado Romeu
Tuma, que durante algum tempo
alimentou a esperanga de ser para
a Polfcia Federal o que J. Edgar
Hoover representou para o FBI
americano, um dono. James diz
que uma vez foi & DOPS paulista
e 14 um amigo o apresentou a
Tuma. NAo trocaram mais do que
um aperto de mAo e meia ddzia de
palavras. Foi assim anos depois,






Journal Pesoa 3


quando Vita Lopes almocava no
Hilton Belem e Tuma passou pelo
hall. James levantou-se de sua
mesa e apresentou-se. Tuma nAo
o reconheceu. Ele se identificou,
referindo-se ao amigo comum.
Trocaram cumprimentos e outra
meia ddzia de palavras, "sd isso
e nada mais, pode crer", diz corn
enfase.
A mesma enfase ele usa para
negar que tenha sido alguma vez
ou ainda seja informant dos dr-
glos de seguranga, como o ex-
tinto SNI ou a 2S Sei&o do Ex6r-
cito (o servigo secreto. Diz que
a relaaio mais sistem&tica que te-
ve foi com a DOPS paraense, na
dpoca comandada pelo delegado
Mdrio Malato, depois secretArio
de Seguranga Pdblica, que foi &
area da gleba Cidapar em missao
("e ate tivemos um pequeno
atrito"). Mas a frequentava para
trocar informag5es, o nmesmo im-
palso que o atraiu para o SNI.
Estava em outro restaurant
quando conheceu o coronel (da
AeronAutica) Ely, que durante va-
rios anos dirigiu a agencia local
do Servigo Nacional de Informa-
cges. James garante que nao este-
ve no SNI mais do que tr6s vezes,
sempre informalmente.


0 epis6dio das granadas

Na 22 seglo da 8E Regi&o Mi-
litar ele afirma que s6 esteve uma
vez, quando orientado pelo co-
ronel Ely foi, um mes antes da
morte de Fonteles, registrar o de-
saparecimento de uma mochila
sua na qual havia varias armas,
entire as quais duas granadas,
roubada de dentro de uma das se-
des da fazenda do empresario
Joaquim Fonseca, na Belem-Bra-
sflia, onde estava trabalhando na
ocasiao. As granadas foram dadas
a James em 1974 por um capitio
do Exdrcito, Airton, cujo sobre-
nome nio lembra. O official cui-
dava do dep6sito de munirAo e
talvez, por ter retirado ftens do
estoque sem autorizag&o, foi pro-
cessado depois, lembra James, um
-tanto vagamente.
Mas ele nio v8 nada de anor-
'anal no episddio. 'O capital tinha
acesso ao paiol, me ofereceu as
granadas, que talvez ate jA tives-
sem recebido baixa. Eu gostava
de armas e munig6es e aceitei.
Tenho amigos que penduram coi-
sas assim em suas salas ou escri-
tdrios. Quem quiser pode comprar
uma granada. Eu nem mesmo
testei para ver se elas funciona-
vam".


Durante 13 anos James andou
com as duas granadas de um lado
para outro ("nunca as exibi ou
usei em meu trabalho"), tendo
apenas o cuidado de embrulhA-las
cor seguranca. Quando elas de-
sapareceram, do jeito como esta-
vam ao serem recebidas, fez o re-
gistro na DOPS e depois no
Exdrcito, "para resguardar res-
ponsabilidades". Mas admite im-
plicitamente que 6 uma histdria
um tanto confusa porque sim-
plesmente poderia ignorar o rou-
bo. 1 evidence que o ladrao nio
iria denunciA-lo.

A fama de violent

Ele tambdm fica sem argu-
mentos para contraditar sua fama
de truculencia. Agora a aparencia
e suas palavras estao distantes
desse passado recent, mas pare-
ce ter cultivado a image ate co-
mo recurso de marketing para
atrair clients. Ele insisted em
afirmar que nunca atilizou pisto-
leiros e jamais aceitou servigos
que exigissem o uso de violencia,
mas sAo indmeros os depoimentos
a respeito de seus impulses. Des-
de o seguranga do Hilton, que
ouviu comentArios dele sobre a
melhor maneira de dispersar ma-
nifestag6es de protest na rua
com tropa de choque e bombas de
gAs lacrimogeneo ("mas nAo & as-
sim que a polfcia age?", defende-
se), ate o jornalista Paulo Ro-
berto Ferreira, que foi impedido
por James de entrar na sede da
fazenda Propara, em Viseu. James
ameagou destruir a cAmara do
companheiro de Paulo, o fotdgra-
fo Raimundo Favacho, se ele
tentasse fotografar o famoso ca-
pitio.
Se military nao 6 e nunca foi,
James apesar do depoimento em
contrArio que da hoje deixou
que o concerto se espalhasse. Nio
6 tao ingenuo seu rito de selva:
andava cor bota ou coturno, ca-
miseta de campanha, calga verde
oliva, arma de grosso calibre. Era
diferente dos pistoleiros de alu-
guel. Diz que era diferente por-
que procurava fazer um servigo
limpo, realmente de seguranga
empresarial, "sem sujeira". Nio
fosse assim, nio teria organizado
uma empresa regular, que faliu
quando ele foi apontado como o
organizador do assassinate de
Fonteles.
Apesar desse discurso profis-
sional, James sabia que caminha-
va sobre terreno falso, pantanoso.
Sua hist6ria 6 narrada corn firme-
za, mas ele nao pode exigir do
ouvinte que a endosse completa-
mente. Seguranga rural, mesmo
quando se parega muito a segu-


ranga urbana, difere pelo espago
de semi-tons e escuridio plena
que envolve, principalmente nu-
ma area de fronteira selvagem
como a Amaz6nia.
James reconhece o erro de de
nio ter vindo se defender logo
que surgiu a acusagfo contra ele.
"Eu sabia que seria linchado e
nio quis me arriscar", mas ad-
mite que o resultado acabou sen-
do o mesmo, mais de cinco anos
depois. Quando a primeira ordem
de prisio foi revogada, o advoga-
do de Beldm garantiu que o risco
havia desaparecido e o process
contra ele seria arquivado. James
jura que continuou sua vida nor-
mal, entire Jundiaf e Slo Paulo,
fazendo servigos de seguranga
empresarial e morando sempre na
mesma casa, corn a mulher e dois
filhos, um adotivo. Diz que a po-
lfcia nAo o prendeu porque nAo
quis.
Meu enderego constava do
meu cartio de crddito. A polfcia
tinha a placa do meu carro, de
Jundiaf. Tinha tambdm o meu CIC
e minha carteira de identidade.
Mas ningu6m foi me procurar no
meu enderego, que sempre foi o
mesmo.
Como isso se explica? Depois
de muito relutar, James arrisca: -
Algudm pode ter argumentado: 'o
James nAo tern dinheiro, nio vai
conseguir se defender; 6 melhor
deixar que ele fique livre, sendo
acusado.
Nesse caso, quem sugeriu es-
se tipo de comportamento a polf-
cia poderia ser o mandante do
crime. Mas James nio arrisca,
"porque eu nio sei mesmo de na-
da, estou apenas raciocinando
diante da situagio" Mas admit
que sd alguem corn poder conse-
guiria praticar essa manobra di-
versionista. Pego nomes, ele diz
que nio tem. Retruco que pessoas
como ele nio raciocinam abstra-
tamente, mas pensando em casos
concretos. Cito carta que mandou
de Sao Paulo para Belem, quando
ainda era considerado foragido.

0 segredo da carta

Ele acha que cometeu outro
grande erro quando, nessa carta,
que remeteu para o jornalista
Jofo Malato, ja falecido, pai do
entAo secretario Mario Malato,
citou o nome de Josiel Rodrigues
e perguntou por que a polfcia nio
safa atras dele, que era uma esp6-
cie de senhor medieval em Capa-
nema, justamente para onde se di-
rigia Paulo Fonteles quando foi
morto. "Foi apenas um palpite,
um daqueles erros que a gente
compete em cinco minutes e dura
para today a vida. Eu estava ba-








tendo & maquina quando me veio
o nome de Josiel, fiz a associagao
e escrevi".
A carta era pessoal para Ma-
lato, que deveria utiliza-la para
sua pr6pria investigagAo e nio
para transcrev6-la integralmente,
como fez, "porque eu nio tive
essa intenglo, ate coloquei meus
dados pessoais nela".
James repete varias vezes que
nada pode fazer para apontar per-
sonagens abaixo ou acima dele
porque ignora totalmente o aten-
tado a Paulo Fonteles. Diz, por
exemplo, jamais ter ouvido Joa-
quim Fonseca, o dono da Jonasa,
falar com algum prop6sito em
Paulo ou em Jolo Batista, o de-
putado estadual do PSB que seria
assassinado em seguida. "Havia
apenas referencias vagas", como
as que o pr6prio James diz que
fazia nos contatos com drgAos de
informagio e seguranga.
Se nio foi alguem que delibe-
radamente manteve a polfcia &
distincia de seu endrego em Jun-
dial, James nio sabe explicar por
que viveu normalmente durante
cinco anos sem ser incomodado.
Sd sentiu o perigo reaparecer
quando seu advogado anterior,
Lucas Almeida, avisou-o um
pouco antes de ser preso de que
o nome dele fora envolvido corn o
narcotrifico. James ri um riso
amargo. Afirma nunca ter safdo
de Sao Paulo nos cinco anos que
se seguiram ao crime e ter se
restringido & seguranga empresa-
riai. Mas os oito policiais que o
prenderam a 100 metros de sua
casa, quando ele caminhava de-
pois do jantar, "para fazer a di-
gestio", eram da delegacia de re-
pressio a entorpecentes da Polf-
cia Fedeial de Sao Paulo, chefia-
da pelo delegado Roberto Precio-
so.
Os agents cercaram James
e Ihe deram ordem de prison. Ele
pediu a identificagqo dos poli-
ciais. Mostraram-lhe uma carteira
velha e suja. Ele tentou escapar e
foi atacado. Puxou a pistola que
carregava, uma 7.65, mas foi ati-
rado ao chdo. Na luta, acabou
disparando involuntariamente. A
bala raspou uma de suas mdos. A
outra ficou ferida ao ser pisada
por um agent federal.
Durante 24 horas James per-
maneceu preso na sede da PF em
Sao Paulo por desacato a autori-
dade, um crime afiangavel. Mas
depois chegou a ordem de prisao
de Bel6m e ele ficou mais 15
dias, atd ser trTzido para Bel6m
por agents ad equipe que o
nrendeu e que o entregaram a po-
lfcia civil paraense. Por que uma
polfcia que permanecera indife-
rente durante cinco anos foi afi-


nal acionada e o prendeu tAo fa-
cilmente, James diz nao saber.
Ouve as refer6ncias & dispute in-
terna na PF, entire o delegado
Galdino que subia e o delegado
(de fora, dos quadros da DOPS
paulista) Tuma que cafa, mas diz
nada ter a ver com isso.
Na versio do prdprio James,
ele 6 peixe pequeno, que caiu na
malha por interesse do pescador,
ou um "laranja" que foi espremi-
do, para usar o c6digo do meio
onde atuou. "Se fosse o que di-
zem que sou, eu estaria na situa-
glo em que estou, sem dinheiro,
passando mal nesta cela, sem po-
der mudar a situagAo?".
James diz que sua condigao se
agravou porque ele e seu advoga-
do estavam inteiramente certos da
absolvigio, tanto que um dos em-
pregados que hospedou no hotel
Milano, Jos6 Roberto Vasconce-
los, o "Betio", nAo foi apresen-
tado como testemunha de defesa,
embora tivesse viajado de Bra-
ganga Paulista e estivesse no gi-
nisio de esportes onde se reali-
zou o julgamento. Djalma Farias
dispensou o testemunho. Sua pre-
visAo era de absolvigio, por sete
a zero.
Por via das ddvidas, porem,
James mandou a esposa trazer de
Sdo Paulo um fino colete & prova
de bala que tinha comprado al-
gum tempo antes. Foi o colete
que usou e que impressionou os
PMs, obrigados a usar um model
mais velho e muito menos sofisti-
cado. "Voc estA espantado? Mas
qualquer um pode comprar colete
igual em lojas especializadas,
sem problemss, diz James.
Mas nem mesmo corn explica-
g6es tao simples ele nao conse-
guira se livrar da fama e das his-
itrias que o acompanham. Um
an6nimo, por exemplo, telefonou
para a PM uma semana depois do
julgamento anunciando que tres
pistoleiros iriam invadir o quartel
do 6- batalhdo para executar o
preso mais controvertido do Esta-
do, acrescentando detalhes que
fizeram a polfcia acreditar que
nao se tfatava de um trote. A
guard foi reforqada. O ataque
nio aconteceu.
Fala-se tambnm que uma pa-
tente da Iaea de informag6es e
seguianga andou perguntando so-
bre qualificago e prego de outros
advogados para substituir Djama
Farias. A comunidade estaria
preocupada corn o pr6ximo jul-
gamento, desfeitas as expectati-
vas otimistas em relagdo ao pri-
meiro.


Se, quando nega perempto-
riamente essas histdrias, James
estA blefando, blefa cor compe-
tencia. 0 prego, por6m, podera
ser alto demais. Uma confirmagAo
da atual sentenga so o deixard
sair da pris&o aos 55 anos, para
uma vida sob control por mais
10 anos, mas provavelmente sem
continuidade cor a que teve ate
sete meses atras, quando era o
home mais procurado no Pard e
ningudm sabia disso a menos de
quatro mil quil6metros de distAn-
cia, na pr6spera e pacata Jundiaf,
onde ele era um cidadio acima de
qualquer suspeita, cumprindo dia-
riamente suas obrigag6es e usu-
fruindo de seus direitos.
As hist6rias de James Vita
Lopes e do assassinate de Paulo
Fonteles nio terminaram. Com o
home colocado na pequena e
desconfortavel cela do quarter da
PM, com direito a uma visit por
semana e sem ter tomado banho
de sol uma s6 vez, quando muito,
encerrou-se um capftulo e deve-
ria ter comerado outro, com a as-
sinatura dele. Mas James jura que
nada tem a acrescentar.

Agito na fronteira

A notfcia mereceu telegrafica
referencia na desatenta im-
prensa national. Em 10 linhas,
diz o Jornal do Brasil que a partir
de agora, at6 o ano 2015, termo
de seu piano de ag o, o Ex6rcito
brasileiro vai dar prioridade A
ocupagAo estrat6gica da regiao
Norte, para onde estao sendo
deslocadas unidades militares.
"Ou nds ocupamos a Amaz6-
nia, ou corremos o risco de per-
dd-la", disse ao JBo general Gil-
berto Serra, do Centro de Comu-
nicaio do Exercito.
Boatos, verses e interpreta-
c6es a respeito dessa intengio jd
havia em abundancia, mas esse
foi o primeiro andncio concrete,
official. O Ex6rcito de Rondon
desapareceu na Amaz6nia, mas o
do general Thaumaturgo, feliz-
mente, ainda 6 uma ameaga, agora
em process de concretizagdo.
Uma boa hora para afastar
preconceitos de todos os lados,
sentar A mesa e discutir os con-
ceitos geopolfticos que estao por
tras e por baixo dessa estratdgia,
O Exercito pode estar corn a me
Ihor das inteng6es, mas tamb6m
pode star equivocado e, desse
equfvoco, fazer o mal quando
pensa star praticando o bem.


4 Jomaless


--- -----------rrraj, -snr- ~e*L-~..,~-- -k----r






omrnleassoal 5


IMPRENSA



Modernidade cara


Aedigio dominical de O Li-
beral do dia 7 trouxe mais
uma novidade para os seus
leitores: uma pigina inteira pu-
blicada duas vezes no mesmo ca-
dero. A inddita lomlada, como
esse tipo de erro 6 definido nas
redag6es, atestava as dificuldades
que o journal estava enfrentando
para implantar seu novo parque
grafico. A primeira edigio im-
pressa pela nova maquina, uma
Uniman da Rolland considerada
de dltima geragbo, exibira suas
cores uma semana antes, ao custo
de um tal atraso que s6 permitiu a
chegada de O Liberal aos leitores
do meio para o final da manhb.
Outras falhas e problems se
seguiram & hist6rica ediaio do
dia 31 de janeiro, que marcou
a introducgo definitive da poli-
cromia na imprensa diaria paraen-
se, e promoveu a reducAo do for-
mato do journal, a adogio de seis
colunas (em substituigAo As oito
anteriores) e de nova tipologia
grifica. Para desespero dos teles-
pectadores, a edigio dominical do
dia 7 nio trouxe a "Revista da
Tev6", produzida por O Globo
(encartada, sem parte de suas pa-
ginas, no dia seguinte), e houve a
troca do caderno de vestibulares
(saiu o de uma semana antes).
Os tradicionais leitores teriam
motives para queixar-se do aban-
dono da logomarca de O Liberal
na primeira pagina (trocada por
um novo tftulo, muito parecido
corn o de O Globe) e pela nova
aparencia do "Rep6rter 70".
Mais leve e mais solto cor a no-
va diagramagao, o journal, entre-
tanto, passou a ser um labirinto
para a identificasgo das seg6es,
embaralhadas em cadernos que,
para observadores mais bem in-
formados, traem a dbvia inspira-
gao em models como O Glo-
bo, O Estado de S. Paulo, Folha
de S. Paulo, e Correio Brazilien-
se.
Mesmo com a imprecisao no
ajuste de cores e cor o caleidos-
c6pio dos assuntos, o balango
poderia ser considerado positive
pelo leitor, agora corn a perspec-
tiva de ter ao seu alcance um jor-
nal formalmente parecido cor os
mais modernos que circulam no
sul do pals ou no primeiro mun-


do. Mas por tras do cendrio
montado para marcar uma nova
revolucio tecnol6gica promovida
pelo grupo Liberal, 21 anos apds
a introduqlo do off-set (impres-
sAo a frio, muito mais limpa, de
melhor qualidade e corn maiores
recursos do que a traditional ti-
pografia que a antecedeu, possi-
bilitando o uso de computadores),
havia muito mais problems do
que poderia imaginar a desatenta
filosofia dos leitores.
Muitos desses problems re-
sultaram da press em colocar em
agco o novo parque grafico, sem
maior planejamento, como se fos-
se uma tarefa simples. Os grafi-
cos tiveram apenas uma semana
para treinar os novos equipa-
mentos, com a agravante de que
os t6cnicos americanos mandados
pela Rolland (e acompanhados
por enviados da Folha de S.
Paulo, que ter o mesmo equipa-
mento, mas ainda nao o usou) nao
falavam portugu8s e nAo havia
int6rprete entire as duas equipes,
obrigadas a se entender por mf-
mica. Desatengao aos recursos
humans, alias, 6 uma caracterfs-
tica tio marcante no grupo Libe-
ral quanto sua ousadia tecnoldgi-
ca. Numa corporasAo mimetica-
mente fascinada por maquinas, o
material human quase nAo conta.
Enquanto o journal fazia festa
pela nova era, seus funcionarios
amargavam os pores salaries do
mercado. Cor o reajuste quatri-
mestral que comegou a vigorar a
partir de 12 de fevereiro, os jor-
nalistas de O Liberal ganham
apenas um pouco mais da metade
dos salaries de seus colegas dos
outros jornais. Os da TV Liberal
seriam os mais mal pagos de toda
a Rede Globo de Televisao. O
grupo Liberal foi o dnico da
grande imprensa paraense que
nao fechou acordo cor o sindi-
cato, obrigado a ajuizar dissfdio
na justiga trabalhista para tirar os
funcionarios da empresa da triste
situagao em que se encontram.
Para distanciar-se industrial-
mente anos-luz de seus concor-
rentes, o grupo Liberal fez um
investimento equivalent a 10
miih6es de d6lares (180 bilh6es
de cruzeiros aproximadamente)
no novo parque grafico e nas no-


vas instalagces. Esse valor ainda
ird crescer porque, desconcer-
tantemente, a empresa nAo adqui-
riu o sistema de esteiras para
acoplar a impressora e assim tirar
proveito de sua alta velocidade
operational. Cor esse adendo, a
mAquina poderia aprontar a edi-
glo dominical, a mais volumosa e
de maior tiragem, em apenas uma
hora. Sem a coleta automatizada
deve estar funcionando muito
aqudm de sua capacidade nominal.

Apesar de todos os proble-
mas, o pdblico reagiu cor extre-
ma tolerAncia as modificages
que a empresa introduziu, sem
preparar-se adequadamente para
tornar menos desgastante essa
transigio. O domfnio do grupo
Liberal no mercado 6 tAo amplo
que leitores de outros jornais
(que nao sejam assinantes) estio
tendo que se contentar em recebe-
los cor atraso porque os gazetei-
ros s6 saem as ruas cor O Libe-
ral nas mAos.
Mas a consolidagao dessa
primazia exigirf muito da empre-
sa nos pr6ximos meses, em cir-
cunstAncias desfavoraveis A
amortizaaio de investimentos
mais pesados. Pode ter sido por
coincidencia, mas trata-se entao
de uma dessas casualidades de
significado ricamente simbdlico:
enquanto 0 Liberal chegava ao
pdblico em sua nova roupagem,
um Maiorana posava, pela primei-
ra vez em muitos anos, ao lado de
Jader Barbalho. A faranha foi de
Ronaldo Maiorana, o responsavei
pela irea das radios entire os ir-
mios e o menos desgastado junto
ao atual esquema governmental.
A pretexto de convidar o go-
vernador para uma palestra no
Conjove, o conselho que redne
jovens empresarios paraenses,
que preside, Ronaldo passou qua-
se duas horas no gabinete de Ja-
der. Dos seis diretores do Conjo-
ve que foram A audi8ncia, por
eles solicitada, dois sAo do giupo
Liberal (aldm de Ronaldo, Gua-
rany Jdnior). O Liberal publicou
foto do encontro, mas nio ficou
sozinho nas gentilezas: excepcio-
nalmente, o governador recebeu
os jovens empresarios no horario
marcado, 11 horas, fugindo ao
seu rotineiro atraso, e a eles se
referiu elogiosamente em seu
program radiof6nico, cedendo-
Ihes um tempo incomum.
Estaria comegando um tempo
de negociagio?


~; -- -I et --- -~ULI~LI---IUI.-~,..,.






6 Joral Pessoal

BAIXADAS


Mais um tira-pobre?


E m 1979 o entAo ministry do
Interior, coronel Mario An-
dreazza (uma espdcie de
Juscelino fardado, cor a mesma
obstinagio por obras pdblicas),
veio a Bel6m langar um program
habitacional destinado aos mais
pobres habitantes das cidades
brasileiras, o Promorar. Ganha-
riam financiamento em condicges
vantajosas as tamilias enquadra-
das na faixa de renda entire um
e tres salaries mfnimos. A pompa
que marcou a solenidade de lan-
camento national desse program,
no PalAcio Lauro Sodr6, foi com-
prometida por uma informagio
que tirou do ar por moments o
eterno sorriso exibido por An-
dreazza diante das c&maras que
sempre o acompanhavam.
Disseram para o ministry, no
exato moment em que ele iria
discursar, que dois tergos dos
moradores da area visada pelo
Promorar ganhavam menos de um
salArio mfnimo por m8s. Nao se
tratava apenas de informagio
verbal: estava, com todos os nd-
meros, no document t6cnico ela-
borado pela Codem, responsavel
pelo planejamento na area metro-
politana de Bel6m. Ou seja: o
program official destinado aos
mais pobres estava fora do alcan-
ce dos miseraveis, a categoria so-
cial de maior expansao no meio
urban.
Os deserdados da vida, que
sobrevivem de rendimentos abai-
xo do elementary, se concentram
nas terras sujeitas a constantes
alagamentos na capital paraense,
as baixadas. Sio terrenos situa-
dos geralmente na cota quatro do
nfvel do mar, tomados pelas
Aguas quando a mar6 sobe, fen6-
meno que adquire contornos dra-
maticos em alguns moments, mas
que tem sua rotina diaria. Ali a
Agua da chuva se empoca, a dre-
nagem quando existe 6 um
esgoto natural a c6u aberto, Agua
tratada para a maioria s6 em tor-
neiras coletivizadas, as casas sao
erguidas sobre palafitas e todos
os indicadores sociais adquirem
tonalidade negra. Mas 6 onde vi-
ver custa o que os moradores po-
dem pagar.
Quando vistas em conjunto e
sem detalhamento. as baixadas


podem ser apresentadas como a
maior favela que existe nas areas
metropolitanas brasileiras. Seus
habitantes sao, mais do que todos
os outros, sacrificados pela evi-
dente deterioragAo dos servigos
urbanos de Bel6m, maltratada por
seguidas administrag6es de visio
curta e disposigao para o trabalho
mais curta ainda.

Program inovador?

No final do m6s passado o
governador Jader Barbalho anun-
ciou, de Washington, que ainda
no primeiro trimestre deste ano
comegarA a executar o mais ambi-
cioso projeto em beneffcio da
Area que deixou o Promarar de
Andreazza de .pd quebrado e tem
sido safra certa para polftico es-
perto em dpoca de eleigao. O go-
verno conseguiu do Banco Inte-
ramericano de Desenvolvimento
145 milh6es de ddlares de em-
pr6stimo para pagar em condic6es
favorecidas em 25 anos, peso
ajustado & capacidade de endivi-
damento do Estado.
Aos US$ 145 bilh6es, a serem
liberados gradualmente ao long
dos prdximos quatro anos, serAo
acrescidos mais US$ 80 milh6es
(a princfpio cram US$ 65 mi-
lh6es, mas a ampliagio em 15%
do universe de beneficiados do
program exigiu mais dinheiro)
de recursos pr6prios do Estado.
No total, os US$ 225 milh6es (ou
mais de quatro trilh6es de cruzei-
ros) equivalem praticamente ao
orgamento estadual previsto para
1993 e slo 10 vezes o orgamento
de Beldm. A contrapartida do go-
verno 6 igual a um tergo do or-
gamento do Estado, dinheirAo
concentrado em uma sd obra, ain-
da que a mais important, de um
dnico dentre os 128 municfpios
paraenses.
O investimento estA desper-
tando fafscas de cobiga entire as
empreiteiras, assoladas pela mais
grave crise que enfrentam em
muitos anos. Poucas, entretanto,
poderao desfrutar da obra. O fi-
nanciamento do BID exige que a
concorrencia pdblica para a exe-
cuqAo dos serviqos seja de am-
plitude international, cor requi-
sitos de tecnologia, habilitacio e


capital que afastario as pequenas
ou mesmo m6dias empresas. Me-
nos mal se o rigor do banco com-
pensar a concentragao dos bene-
ffcios cor a correqao e seriedade
na realizagao da obra. Mesmo que
menos facam, mais poderao se
beneficiary.
Mas at comeram os questio-
namentos sobre o program. Ven-
dido ao BID, que o defended
junto as organizag6es nao-gover-
namentais americanas que o pres-
sionaram em Washinton, como
inovador, ele pode ser a repetigAo
de outras iniciativas que incorpo-
raram areas urbanas de pouco
valor a especulac~o imobiliaria.
Uma certa concepcgo de engenha-
rla faz corn que os antigos cursos
d'Agua se transformed em sistema
vidrio, cor canais concretados e
vias pavimentadas, uma incompa-
tibilidade ambiental. Uma das
principals metas quantitativas do
program 6 a pavimentagio de
quase 15 mil quil6metros de ruas,
distfncia equivalent a sete vezes
e meia a extensio da rodovia
Beldm-Brasflia, uma das maiores
do pafs.
A intervenqao nas baixadas,
por outro lado, tornou-se mais
complicada e delicada por forga
de transformag6es que vem ocor-
rendo nessas areas totalmente sem
control. Entre elas, os aterra-
mentos irracionais de perfodo
eleitoral e as urbanizag6es sem
regra, feitas para render voto e
nao um bem viver.
Apenas um tergo dos 534 mil
moradores dos nove bairros atin-
gidos pelo projeto de macrodre-
nagem, numa area de 3,6 mil
hectares sob a influencia da bacia
do igarapd do Una, moram em
terrenos que efetivamente ainda
s-o alagados. Basta percorrer as
margens do pr6prio Una para
constatar a transformaiao provo-
cada pelos aterros individuals.
O projeto preve que tr6s mil
das 4,8 mil famflias que tiveram
seus imdveis desapropriados (por
estarem no leito do igarapd) serao
remanejadas, mas o ponto de re-
manejamento nao poderd ir al6m
de um quil6metro e meio de dis-
tancia da moradia primitive. Essa
preocupaqao 6 para permitir que
os remanejados possam voltar a

..._,





Jonasl m 7


Area recuperada (e, naturalmente,
valorizada), ao inv6s de serem
expulsos, como sempre ter ocor-
rido. 0 BID foi alertado para a
substituiqio da paisagem que as
grandes obras de engenharia aca-
bam realizando e cobrou tamb6m
a participagAo comunitaria na
gest&o do projeto. A um element
novo em empreendimentos desse
tipo.
Todos estAo perfettamente
alertas, assim, para o risco de que
o projeto funcione nAo como uma
recuperaqAo de areas degradadas
em beneffcio de seus sacrificados
moradores originals, mas como
mais um instrument de expulsion
da populacio de baixa renda dos
terrenos nos quais ela conseguia
manter-se porque eles eram sub-
valorizados. Muitos dos trechos
de baixadas estAo encravados em
pontos centrais da cidade, que sd
nio foram absorvidos pela espe-
culaqAo imobilibria porque neles
ainda nio haviam penetrado os
servigos urbanos. O saneamento e
a drenagem podem ser essa via de
abertura que estava faltando, se a
dimenslo social nio for a mais
important no projeto.
Cor esse investimento de
US$ 225 milh6es, o mais caro
desde a dpoca Aurea da borracha,
no infcio do sdculo, quando Be-
l1m era um dos mais importantes
entrepostos extrativos do mundo,
as baixadas podem desaparecer da
topografia da cidade, enquanto
fato ffsico, mas seus agregados
humans podem apenas sofrer um
estratdgico deslocamento, como
tem ocorrido nas cidades moder-
nas desde a Comuna de Paris, de
1871. Muito foguete, portanto,
mas sem novidade no front.
A empreitada tem ainda um
significado polftico especial para
o governador Jader Barbalho. Po-
dendo estar sendo otimista, ele
admite ter apenas um tergo dos
votos na capital, agora governada
por seu maior inimigo. Uma obra
como o projeto de macrodrena-
gem pode ajudar a recompor ou
ampliar aliangas empresariais,
criando reserves para o future,
inclusive para o moment de fi-
nanciar a campanha eleitoral. No
entanto, ela deve dar tambdm (e,
neste caso, acima de tudo) divi-
dendos sociais.
Comerando em marco a exe-
cuqao do projeto, Jader poderd
concluir apenas metade, nos dois
anos que lhe faltarao, do que esta
previsto nos cronogramas. Serd


muito, mas talvez nio o bastante
para reverter a image desfavo-
rivel junto a populacio belenen-
se. Jader precisard eleger um su-
cessor que divida cor ele os
melhores rendimentos, os da
inauguraclo das obras e seu ar-
remate social, para ajudar no
prosseguimento de sua carreira
polftica e a manutencgo do seu
esquema de poder.
Um projeto bem realizado en-
quanto obra de engenharia, sem
os sangramentos. financeiros que
essas obras pdblicas costumam
sofrer, tecnicamente bem ajustado
e socialmente just poderia redu-
zir o prefeito H6lio Gueiros a um
tamanho menor e marginaliza-lo
de um empreendimento que, fi-
nalmente, mudard em profundida-
de a face de Beldm, se o prefeito
nAo se dispuser ou nio conseguir
transformer seu isolamento numa
fonte de atribulag6es junto ao
BID (que exige apenas uma parti-
cipagio institutional da prefeitu-
ra).
Mas esperar tudo isso pode
nio ser mais do que irrefletida
utopia?

Obras milionarias

ACompanhia Vale do Rio Doce
investira quase dois bilh6es
de ddlares no Pard, ao long dos
prdximo quinquenio, a comegar
deste ano, para colocar em fun-
cionamento tr&s projetos de gran-
de porte. O maior deles 6 o da
Alunorte, paralisado ha cinco
anos, que exigirA US$ 875,6 mi-
lh6es para estar em condig6es de
comegar a produzir no primeiro
semestre de 1995. De 1,1 milhao
de toneladas de alumina que ira
gerar anualmente, 700 mil tonela-
das destinam-se A sua vizinha, a
Albras, onde a Vale 6 sdcia de 32
empresas japonesas.
A condiago de fornecedora
cativa de um grande client, que
necessariamente ficard cor dois
tergos da produgao, tirou atrati-
bilidade da Alunorte. Para reto-
mar o projeto, sem o qual a Al-
bras continuard indefinidamente
capenga, a CVRD vai aumentar
significativamente seu endivida-
mento. Aldm de precisar oferecer
US$ 244 milh6es em novas ages
ao mercado, aumentando seu ca-
pital, ira emprestar US$ 433 mi-
lh6es e terd que aportar, como
capital de risco, quase US$ 90
milh6es. O BNDES sd poderd
oferecer US$ 100 milh6es. A de-


cisAo, portanto, oferece risco,
que aumentarh se o mercado de
alumina nAo melhorar. Mas a de
enorme valor estratdgico, princi-
palmente para os paraenses.
Eles tamb6m devem se inte-
ressar pelo outro projeto, quase
do mesmo porte do da Albrds,
que a Vale pretend colocar em
operaVgo atd 1997, nele investin-
do US$ 780 milh6es: a o do cobre
de Carajas. A produglo, de 152
mil toneladas de cobre metalico,
muda completamente o panorama
desse setor no Brasil e abre uma
perspective de industrializagao
potencialmente tAo ampla quanto
a da Albras para o alumfnio. Co-
mo subprodutos, a CVRD vai
obter ainda 8,1 toneladas de ouro
(aumentando em uma vez e meia
sua atual produgio em Carajas) e
20 toneladas de prata. Sd em Ca-
rajas o faturamento da empresa
ird passar de US$ 1 bilhao
anuais.
A terceira linha de grandes
investimentos serd na area do
caulim, onde US$ 295 milh6es
irio permitir iniciar dentro de
dois anos a produgio de 500 mil
toneladas de caulim (30% mais do
que a produgAo do Jari) extrafdo
da jazida de Paragominas. A ex-
portagdo serd atrav6s de um porto
vizinho ao da Albras, onde o
caulim chegard atrav6s de um mi-
neroduto cor 180 quil6metros de
extensao.


Casa de ferreiro

A RBA, ainda sob o nome de
TV CarajAs, da mau exemplo.
Em valores histdricos, ela deve
500 milh6es de cruzeiros a Celpa
por nao ter pago 12 contas de luz
entire setembro de 1991 e janeiro
deste ano. O ditimo pagamento
efetuado, de 100 milh6es, quitou
apenas duas contas pendentes
nesse perfodo. Os clieltes co-
muns estao ameagados de ficar
sem luz a partir de 15 dias do
vencimento de suas contas.
O maximo de tolerfncia da
Celpa d de dois ou tres meses,
para grandes clients. A Copala,
de Josd Maria Mendonga, que foi
o principal financiador da campa-
nha de Jader Barbalho em 1982,
mas agora esta afastado do go-
verno, teve sua luz cortada. Mas
a televisao do governador foi
poupada e continue recebendo
um favor mais do que especialfs-
simo.





Maravilha humana


O governador Jader Barbalho
aproveitou a eleigio (na ver-
dade, ratificagao) da nova execu-
tiva regional do PMDB, na sema-
na passada, para praticamente
abrir a campanha para sua suces-
sio. Citou os nomes de dois can-
didatos potenciais, o ministry
Fernando Coutinho Jorge e o se-
cretario Manoel Ribeiro, mas fez
questAo de ressaltar que ainda
nfo escolheu nenhum deles, nem
tem nomes definidos. Quem qui-
ser ser candidate que se eviden-
cie.
As opg6es sAo magras e talvez
por isso o governador tenha co-
brado do partido que se renove e
recicle. "Temos que festejar o
passado, mas e hora de se fazer
uma reciclagem", convocou o
governador, president de honra
do PMDB paraense, recomendan-
do aos correligionarios "nao car-
regar fardos pesados" porque
"antiguidade 6 para museu".
Mas que escolhas novas e
aut6nomas pode o PMDB fazer?
Os dirigentes referendados na
semana passalla por uma eleigao
muito parecida As que se realiza-
vam na antiga UniAo Sovidtica
nao apenas passaram pelo crivo
seletivo do governador, como
comp6em seu esquema pessoal de
poder. Jader parece querer que a
renovagio peemedebista tenha a
ele mesmo como inevitavel ponto
de passage e origem, um des-
pota que se julga indispensAvel
porque o dnico esclarecido, um
instrument de modernizagAo, no
entanto, eficaz mais como pro-
messa do que como realizagao.
Ao induzir seus secretArios a
filiarem-se ao PMDB e abrir as
portas do partido ao seu governor,
Jader estA reforgando uma estru-
tura que responded automatica-
mente ao seu comando, convenci-
do de que sd assim serd escolhido
o melhor e ele sera eleito. Tudo
porque ningu6m faz melhor do
que Jader Fontenelle Barbalho.

Ave rasteira
A guns fotdgrafos e cinegra-
fistas faziam de prop6sito: era
s6 apontar suas cAmaras na dire-
g o do coronel (da reserve do
Exdrcito) SebastiAo Rodrigues de
Moura para ele, imediatamente,
ajeitar sua bem cuidada cabeleira.
Foi um jornalista que percebeu a
nem sempre discreta reagAo como
prova da vaidade do home que
se tornou mais conhecido por seu


apelido, Curid, e nao escondia
seu significado: ave que voa ras-
teiro e canta muito, talvez ate
demais.
Mesmo praticando algumas
empreitadas decididamente rastei-
ras, ou sujas, e falando larga-
mente diante de rep6rteres comr
seus instruments de populariza-
gao e fetiche, o ex-deputado fe-
deral, ex-coordenador do garimpo
de Serra Pelada e ex-agente de
informag6es do Ex6rcito no com-
bate A guerrilha do Araguaia nun-
ca foi tAo impulsive quanto no
infcio do m8s.
Fiel a seu velho estilo de an-
tepassado de Rambo, ele colocou-
se A frente de dois policiais civis
para carar, & noite, contumazes
assaltantes das granjas da Area
onde mora, nos arredores de Bra-
sflia. Dois deles teriam ameagado
o filho de Curi6, que decidiu as-
sumir um comando que nAo lhe
cabe legalmente. Da cacada re-
sultou um menor morto e outro
ferido, num epis6dio ainda em
apuragAo, mas que sugere aquela
conhecida situaaio em que o
agressor primeira atira e depois
procura saber no que atirou.
Se ainda fosse o todo-podero-
so home do SNI, provavelmente
Curi6 conseguisse livrar-se dos
problems mais satisfatoriamente
do que socorrendo as duas vfti-
mas de seus tiros e apresentando-
se A delegacia para depor, dando
sua versao antes de todos. Mas o
que poderia ser elementary provi-
dencia preventive passou a ser
problemitica reparagAo do erro
cometido. Curid meteu-se numa
encrenca. das boas.
Foi a melhor oportunidade
que deu a seus indmeros e bem
diversificados adversarios ou
inimigos, desde os revanchistas
da esquerda aos inquietos da di-
reita, que o veem como arquivo e
gostariam de entregA-lo a um in-
cendiozinho bem convenient,
Grupos de defesa dos direitos
humans logo passaram a interes-
sar-se por detalhes do episddio,
como o ndmero de tiros dispara-
dos, por onde penetraram no me-
nor Laercio Xavier da Silva, de
17 anos, ou se a versao de Curi6
6 verdadeira.
Outros poderAo interessar-se
por saber como o coronel refor-
mado consegue ser proprietario
de uma chacara de oito hectares
na valorizada cercania da capital
federal, habitada por outros inte-
grantes da comunidade de segn-
ranga e informag6es. A chacara ja
tivera dias de esplendor alguns


anos atris, quando Cari6 abrigou
e alimentou dois mil garimpeiros
que foram fazer lobby junto ao
Congress Nacional. Mas em
Brasilia detalhes como esse nio
costumam parecer o que slo, em
sua extravagAncia. A morte do
menor, com dois tiros (de trAs
disparados por Carid), pode mu-
dar essa abordagem.

Artes mineiras
Eficiente, embora & moda mi-
neira, o president Itamar
Franco ter sido. Quanto i 6tica,
por6m, 8 outra coisa.
9 possfvel que Itamar tenha
pretendido mesmo demitir o opa-
co president do Incra (Instituto
Nacional de Colonizaaio e Re-
lorma Agraria), Renato Simplf-
cio, quando recebeu do Movi-
mento Nacional dos Trabalhado-
res Sem Terra um pedido para
afastar Simplfcio. Recebeu, apa-
receu na foto da audiencia em
Brasilia para os jornais e tratou
cordialmente os dirigentes do
movimento. E nada mais disse.
Mas se era recado, Simplfcio
entendeu-o: imediatamente pediu
demissao, acrescentando na carta
apresentada ao ministry LAzaro
Barbosa, seu superior, que "nun-
ca daria, a ningu6m, a oportuni-
dade de demitir-me de cargo de
confianca".
Ponto em eficiencia para Ita-
mar e em 6tica para Simplfcio.

Velho estilo
sta 4 a dnica novidade que
surgiu entire a dpoca em que
Hdlio Gueiros era governador e
homologava o aumento das tarifas
dos 6nibus urbanos de Bel6m e
agora que 6 prefeito e ter o
mesmo poder, gragas A sua muni-
cipalizagio: a diferenga entire o
valor estabelecido pela comissAo
t6cnica (antes EMTU, agora CT-
BEL) e o que ele final determine
diminuiu. O que aumentou foi o
palavrdrio e as promessas, uma
cortina de fumaga adensada ou
um boi de piranha mais robusto
para fazer a opiniio pdblica e os
usuArios aceitarem melhor o fato
consumado.
De fatos consumados Helio
Gueiros entende muito bem.

Jomal Pessoa
I editor rcsponsrvel: 1ucio F1Mvio Pinto
Ilustra(qo: .uiz Pinto
Run Campos Sales. 268/803 66.020
Fonc: 223-1929 Op io Editorial
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travessa Alferes Coaa, 1690. Bel6m.