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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL L CI F AV O PINTO Ano VI No 107 1P Quinzena de Fevereiro de 1993 Cr$ 5.000,00 EXCLUSIVE 0 arquivo mudo James Vita Lopes, acusado de organizer o assassinate de Paulo Fonteles, diz que 6 inocente. Garante que nfo mudara essa historic, nem podera virar arquivo. I lpgl*W****^I^W^rr J^pn '///5i~~~~ Todos os caminhos visfveis do assassinate do ex-depu- tado Paulo Fonteles, come- tido ha quase seis anos, condu- zem a James Vita Lopes, conde- nado no m8s passado a 21 anos de prisao pelo Tribunal do Jdri de Ananindeua. Se a sentenga for confirmada em novo julgamento ou se vier a ser ratificada em ou- tra instancia judicial, a perspecti- va de uma condenagAo definitive nAo fara o mais notdrios dos de- tentos do Para fornecer informa- g6es que ajudem a revelar a identidade do mandante do crime ou detalhes de sua execugio. Pre- so, solto ou eliminado, James nio 6 um arquivo. t um bode expiatd- rio. Isso pelo menos foi o que ele sustentou firmemente durante mais de tr8s horas de conversa na sala do comando do 62 batalhio da Polfcia Militar, em Beldm, on- de esta preso ha sete meses, duas semanas ap6s o julgamento mais esperado dos dltimos anos. James diz que nio est6 protegendo nin- gu6m, nem omitindo informag6es. "Do caso Fonteles eu nao sei na- da aldm do que jA saiu na impren- sa e do que jA declare de pdbli- co. Se querem arrancar alguma coisa de novo nfo vao conseguir porque eu nio tenho o que procu- ram. NAo sou nem mesmo um ar- quivo que valha a pena queimar", garante. Ao final da entrevista, James reconheceu que nao havia conse- guido me convencer de sua nar- rativa porque varios detalhes lhe slo desfavoraveis ou soam inve- rossfmeis na sua versao. Mas 2 JoIPesso tamb6m saio do encontro com a conviccAo reforgada de que o jul- gamento nio representou un ponto final da histdria. Ponto e vfrgula, quando muito. Agente especial? Ele argument que se fosse realmente um element de expres- slo na assim chamada comanida- de de inform~ 6es ou estivesse t frente de poderosos propriet4rios de terras envolvidos no atentado contra Fonteles nAo estaria preso: ou porque teria fugido para outro pafs ou se escondido em outro Estado, ou porque disporia de ex- celentes advogados e de dinheiro para manter os seus. Diz que sua famflia, as de pa- rentes e alguns amigos tiveram que se mobilizar para garantir o pagamento dos servings do advo- gado Djalma Farias. As despesas absorveram o carro que ele adqui- rira algum tempo antes, depois de tres anos num cons6rcio, as jdias da esposa e outros poucos bens de um patrim6nio que nAo inclui casa prdpria ("pago aluguel onde moro"). JA disse para o advogado que estou sem dinheiro. LA em Slo Paulo estio examinando o que fazer para manter a defesa - assegura. Se tivesse realizado os servi- gos que lhe sAo atribufdos, acres- centa, "eu teria os 20 mil ddlares que os advogados me cobraram para me defender logo depois que men nome foi associado ao crime. Mas de onde eu iria tirar esse di- nheiro? Por isso nAo pude acei- tar". James reconstitui o que ocor- reu naqueles dias de junho de 1987. Uma incrfvel combinacio de coincidencias fez com que, mesmo sem provas concretas, o nome dele aparecesse como o or- ganizador do bem planejado e executado assassinate. Pela pri- meira vez ele havia recrutado homes de fora do Estado para trabalhar num esquema de segu- ranga de propriedade rural. Os dois agents de seguranga (como ter o cuidado de trati-los, assegurando nio serem pistoleiros porque apresentavam prova de inexistencia de antecedentes cri- minais e estariam corn suas do- cumentag6es legalizadas) foram colocados no Hotel Milano por- que o don6, um frances, lhe dava desconto e prazo para pagamento, alem do que a localizagAo do ho- tel no centro da cidade era con- veniente. Ali James costumava ir quase diariamente, quando estava em Belem, para tomar cafe e con- versar cor amigos. O frances do- no do Milano, Jean Frangois Le Cornec, era amigo de outro fran- ces, proprietirio de uma drea de terras em Capanema, que disputa- va cor Jose Fonteles, irmro de Paulo. No dia 11 Paulo iria & Comarca justamente para uma au- dibncia a propdsito do litfgio, atendendo pedido do irmso. Um ou dois dias antes do as- sassinato, James foi & agencia da Transbrasil e marcou viagem para SAo Paulo. Embarcou seis horas antes do crime. Mas teria sido mero acaso: ele costumava viajar pelo menos uma vez por mes para Sao Paulo (desta vez tentaria fa- zer uma venda de madeiras para amigos de Braganga Paulista) e aproveitava para passar o fim-de- semana cor a famflia. Em fungao da viagem, a sede da sua recem-fundada empresa de seguranga ficaria vaga. James de- cidiu transferir os dois homes do hotel para a ag6ncia, economi- zando dinheiro durante sete ou 10 dias e garantindo a seguranga do escritdrio. Os dois empregados de James safram do hotel quase ao mcsmo tempo em que os dois as- sassinos. Deram A polfcia a im- pressAo de que o objetivo era despistar, estabelecendo uma cortina de fumaga para confundir a investigagro. Essa interpretafio foi refor- qada pela descrigio que a guard de trbnsito (hoje sargenta) do Detran fez do home que a abor- dou pedindo para cancelar a multa que ela aplicara justamente contra o carro que seria usado no atentado e estava estacionado na v6spera do crime bem em frente ao Hotel Milano. Podia ser James, mas podia ser um auxiliar barbudo e careca que trabalhava cor ele. A origem da carreira Quem visse quase seis anos antes James Vita Lopes, queixo alteado, aparencia agressiva, um ar de auto-suficiencia, nao o re- conheceria como o home preco- cemente envelhecido que a guar- da da PM trouxe na manha do dia 8 para conversar comigo na sala do comando, sem a barba (que nao pode cuidar na estreita e quente cela onde estA preso), ma- gro, aparAncia abatida, palido, olhar que nAo se sustenta. Os sete meses de prisao fizeram James aparentar uns 10 anos mais do que os seus 45, mas agora ele ter o jeito de professor e nao o de um home apontado como o ter- ror de posseiros em algumas das mais tensas areas de conflito de terras no interior do Pard. James nunca foi official do Exdrcito. Apenas serviu o antigo Tiro de Guerra em sua cidade natal, Braganga Paulista. Ali se formou advogado, mas nunca ad- quiriu qualquer cacoete da pro- fissio. Ganhou mesmo os melho- res servings em Penapolis, 500 quil6metros a oeste da capital paulista, porque seus amigos ad- vogados nio queriam viajar para cumprir mandados de reintegra- gAo ou manutengio de posse. Ele ia. Gostava de mato. Cedo apren- dera a atirar, frequentando caga- das e pescarias. Era-lhe agrad4vel ir a fazendas no atual Mato Gros- so do Sul, extensio da expansAo da fronteira paulista. Observou que o cumprimento das sentengas judiciais nio ga- rantia o domfnio dos fazendeiros. As invas6es prosseguiam depois. James comerou a deixar pequenos plans de defesa, incluindo ini- ciativas como colocar places, construir guaritas ou reforgar marcos de demarcagio. Ele diz que depois de quatro anos atuan- do como advogado, sua principal atividade passou a ser a de procu- rador de Penapolis, cujo prefeito era amigo seu. Chefiando a Defe- sa Civil do municfpio, foi algu- mas vezes ao Palicio do Morumbi na dpoca em que o governador de Sio Paulo era Paulo Maluf. Tal- vez por isso tenham surgido as histdrias sobre o seu envolvi- mento com a Oban (Operagio Bandeirantes) e o DOI-CODI, dois bragos violentos da repres- slo military que agiam tambdm na clandestinidade. Tudo casual e sem maior sig- nificancia, como sua alegada amizade cor o delegado Romeu Tuma, que durante algum tempo alimentou a esperanga de ser para a Polfcia Federal o que J. Edgar Hoover representou para o FBI americano, um dono. James diz que uma vez foi & DOPS paulista e 14 um amigo o apresentou a Tuma. NAo trocaram mais do que um aperto de mAo e meia ddzia de palavras. Foi assim anos depois, Journal Pesoa 3 quando Vita Lopes almocava no Hilton Belem e Tuma passou pelo hall. James levantou-se de sua mesa e apresentou-se. Tuma nAo o reconheceu. Ele se identificou, referindo-se ao amigo comum. Trocaram cumprimentos e outra meia ddzia de palavras, "sd isso e nada mais, pode crer", diz corn enfase. A mesma enfase ele usa para negar que tenha sido alguma vez ou ainda seja informant dos dr- glos de seguranga, como o ex- tinto SNI ou a 2S Sei&o do Ex6r- cito (o servigo secreto. Diz que a relaaio mais sistem&tica que te- ve foi com a DOPS paraense, na dpoca comandada pelo delegado Mdrio Malato, depois secretArio de Seguranga Pdblica, que foi & area da gleba Cidapar em missao ("e ate tivemos um pequeno atrito"). Mas a frequentava para trocar informag5es, o nmesmo im- palso que o atraiu para o SNI. Estava em outro restaurant quando conheceu o coronel (da AeronAutica) Ely, que durante va- rios anos dirigiu a agencia local do Servigo Nacional de Informa- cges. James garante que nao este- ve no SNI mais do que tr6s vezes, sempre informalmente. 0 epis6dio das granadas Na 22 seglo da 8E Regi&o Mi- litar ele afirma que s6 esteve uma vez, quando orientado pelo co- ronel Ely foi, um mes antes da morte de Fonteles, registrar o de- saparecimento de uma mochila sua na qual havia varias armas, entire as quais duas granadas, roubada de dentro de uma das se- des da fazenda do empresario Joaquim Fonseca, na Belem-Bra- sflia, onde estava trabalhando na ocasiao. As granadas foram dadas a James em 1974 por um capitio do Exdrcito, Airton, cujo sobre- nome nio lembra. O official cui- dava do dep6sito de munirAo e talvez, por ter retirado ftens do estoque sem autorizag&o, foi pro- cessado depois, lembra James, um -tanto vagamente. Mas ele nio v8 nada de anor- 'anal no episddio. 'O capital tinha acesso ao paiol, me ofereceu as granadas, que talvez ate jA tives- sem recebido baixa. Eu gostava de armas e munig6es e aceitei. Tenho amigos que penduram coi- sas assim em suas salas ou escri- tdrios. Quem quiser pode comprar uma granada. Eu nem mesmo testei para ver se elas funciona- vam". Durante 13 anos James andou com as duas granadas de um lado para outro ("nunca as exibi ou usei em meu trabalho"), tendo apenas o cuidado de embrulhA-las cor seguranca. Quando elas de- sapareceram, do jeito como esta- vam ao serem recebidas, fez o re- gistro na DOPS e depois no Exdrcito, "para resguardar res- ponsabilidades". Mas admite im- plicitamente que 6 uma histdria um tanto confusa porque sim- plesmente poderia ignorar o rou- bo. 1 evidence que o ladrao nio iria denunciA-lo. A fama de violent Ele tambdm fica sem argu- mentos para contraditar sua fama de truculencia. Agora a aparencia e suas palavras estao distantes desse passado recent, mas pare- ce ter cultivado a image ate co- mo recurso de marketing para atrair clients. Ele insisted em afirmar que nunca atilizou pisto- leiros e jamais aceitou servigos que exigissem o uso de violencia, mas sAo indmeros os depoimentos a respeito de seus impulses. Des- de o seguranga do Hilton, que ouviu comentArios dele sobre a melhor maneira de dispersar ma- nifestag6es de protest na rua com tropa de choque e bombas de gAs lacrimogeneo ("mas nAo & as- sim que a polfcia age?", defende- se), ate o jornalista Paulo Ro- berto Ferreira, que foi impedido por James de entrar na sede da fazenda Propara, em Viseu. James ameagou destruir a cAmara do companheiro de Paulo, o fotdgra- fo Raimundo Favacho, se ele tentasse fotografar o famoso ca- pitio. Se military nao 6 e nunca foi, James apesar do depoimento em contrArio que da hoje deixou que o concerto se espalhasse. Nio 6 tao ingenuo seu rito de selva: andava cor bota ou coturno, ca- miseta de campanha, calga verde oliva, arma de grosso calibre. Era diferente dos pistoleiros de alu- guel. Diz que era diferente por- que procurava fazer um servigo limpo, realmente de seguranga empresarial, "sem sujeira". Nio fosse assim, nio teria organizado uma empresa regular, que faliu quando ele foi apontado como o organizador do assassinate de Fonteles. Apesar desse discurso profis- sional, James sabia que caminha- va sobre terreno falso, pantanoso. Sua hist6ria 6 narrada corn firme- za, mas ele nao pode exigir do ouvinte que a endosse completa- mente. Seguranga rural, mesmo quando se parega muito a segu- ranga urbana, difere pelo espago de semi-tons e escuridio plena que envolve, principalmente nu- ma area de fronteira selvagem como a Amaz6nia. James reconhece o erro de de nio ter vindo se defender logo que surgiu a acusagfo contra ele. "Eu sabia que seria linchado e nio quis me arriscar", mas ad- mite que o resultado acabou sen- do o mesmo, mais de cinco anos depois. Quando a primeira ordem de prisio foi revogada, o advoga- do de Beldm garantiu que o risco havia desaparecido e o process contra ele seria arquivado. James jura que continuou sua vida nor- mal, entire Jundiaf e Slo Paulo, fazendo servigos de seguranga empresarial e morando sempre na mesma casa, corn a mulher e dois filhos, um adotivo. Diz que a po- lfcia nAo o prendeu porque nAo quis. Meu enderego constava do meu cartio de crddito. A polfcia tinha a placa do meu carro, de Jundiaf. Tinha tambdm o meu CIC e minha carteira de identidade. Mas ningu6m foi me procurar no meu enderego, que sempre foi o mesmo. Como isso se explica? Depois de muito relutar, James arrisca: - Algudm pode ter argumentado: 'o James nAo tern dinheiro, nio vai conseguir se defender; 6 melhor deixar que ele fique livre, sendo acusado. Nesse caso, quem sugeriu es- se tipo de comportamento a polf- cia poderia ser o mandante do crime. Mas James nio arrisca, "porque eu nio sei mesmo de na- da, estou apenas raciocinando diante da situagio" Mas admit que sd alguem corn poder conse- guiria praticar essa manobra di- versionista. Pego nomes, ele diz que nio tem. Retruco que pessoas como ele nio raciocinam abstra- tamente, mas pensando em casos concretos. Cito carta que mandou de Sao Paulo para Belem, quando ainda era considerado foragido. 0 segredo da carta Ele acha que cometeu outro grande erro quando, nessa carta, que remeteu para o jornalista Jofo Malato, ja falecido, pai do entAo secretario Mario Malato, citou o nome de Josiel Rodrigues e perguntou por que a polfcia nio safa atras dele, que era uma esp6- cie de senhor medieval em Capa- nema, justamente para onde se di- rigia Paulo Fonteles quando foi morto. "Foi apenas um palpite, um daqueles erros que a gente compete em cinco minutes e dura para today a vida. Eu estava ba- tendo & maquina quando me veio o nome de Josiel, fiz a associagao e escrevi". A carta era pessoal para Ma- lato, que deveria utiliza-la para sua pr6pria investigagAo e nio para transcrev6-la integralmente, como fez, "porque eu nio tive essa intenglo, ate coloquei meus dados pessoais nela". James repete varias vezes que nada pode fazer para apontar per- sonagens abaixo ou acima dele porque ignora totalmente o aten- tado a Paulo Fonteles. Diz, por exemplo, jamais ter ouvido Joa- quim Fonseca, o dono da Jonasa, falar com algum prop6sito em Paulo ou em Jolo Batista, o de- putado estadual do PSB que seria assassinado em seguida. "Havia apenas referencias vagas", como as que o pr6prio James diz que fazia nos contatos com drgAos de informagio e seguranga. Se nio foi alguem que delibe- radamente manteve a polfcia & distincia de seu endrego em Jun- dial, James nio sabe explicar por que viveu normalmente durante cinco anos sem ser incomodado. Sd sentiu o perigo reaparecer quando seu advogado anterior, Lucas Almeida, avisou-o um pouco antes de ser preso de que o nome dele fora envolvido corn o narcotrifico. James ri um riso amargo. Afirma nunca ter safdo de Sao Paulo nos cinco anos que se seguiram ao crime e ter se restringido & seguranga empresa- riai. Mas os oito policiais que o prenderam a 100 metros de sua casa, quando ele caminhava de- pois do jantar, "para fazer a di- gestio", eram da delegacia de re- pressio a entorpecentes da Polf- cia Fedeial de Sao Paulo, chefia- da pelo delegado Roberto Precio- so. Os agents cercaram James e Ihe deram ordem de prison. Ele pediu a identificagqo dos poli- ciais. Mostraram-lhe uma carteira velha e suja. Ele tentou escapar e foi atacado. Puxou a pistola que carregava, uma 7.65, mas foi ati- rado ao chdo. Na luta, acabou disparando involuntariamente. A bala raspou uma de suas mdos. A outra ficou ferida ao ser pisada por um agent federal. Durante 24 horas James per- maneceu preso na sede da PF em Sao Paulo por desacato a autori- dade, um crime afiangavel. Mas depois chegou a ordem de prisao de Bel6m e ele ficou mais 15 dias, atd ser trTzido para Bel6m por agents ad equipe que o nrendeu e que o entregaram a po- lfcia civil paraense. Por que uma polfcia que permanecera indife- rente durante cinco anos foi afi- nal acionada e o prendeu tAo fa- cilmente, James diz nao saber. Ouve as refer6ncias & dispute in- terna na PF, entire o delegado Galdino que subia e o delegado (de fora, dos quadros da DOPS paulista) Tuma que cafa, mas diz nada ter a ver com isso. Na versio do prdprio James, ele 6 peixe pequeno, que caiu na malha por interesse do pescador, ou um "laranja" que foi espremi- do, para usar o c6digo do meio onde atuou. "Se fosse o que di- zem que sou, eu estaria na situa- glo em que estou, sem dinheiro, passando mal nesta cela, sem po- der mudar a situagAo?". James diz que sua condigao se agravou porque ele e seu advoga- do estavam inteiramente certos da absolvigio, tanto que um dos em- pregados que hospedou no hotel Milano, Jos6 Roberto Vasconce- los, o "Betio", nAo foi apresen- tado como testemunha de defesa, embora tivesse viajado de Bra- ganga Paulista e estivesse no gi- nisio de esportes onde se reali- zou o julgamento. Djalma Farias dispensou o testemunho. Sua pre- visAo era de absolvigio, por sete a zero. Por via das ddvidas, porem, James mandou a esposa trazer de Sdo Paulo um fino colete & prova de bala que tinha comprado al- gum tempo antes. Foi o colete que usou e que impressionou os PMs, obrigados a usar um model mais velho e muito menos sofisti- cado. "Voc estA espantado? Mas qualquer um pode comprar colete igual em lojas especializadas, sem problemss, diz James. Mas nem mesmo corn explica- g6es tao simples ele nao conse- guira se livrar da fama e das his- itrias que o acompanham. Um an6nimo, por exemplo, telefonou para a PM uma semana depois do julgamento anunciando que tres pistoleiros iriam invadir o quartel do 6- batalhdo para executar o preso mais controvertido do Esta- do, acrescentando detalhes que fizeram a polfcia acreditar que nao se tfatava de um trote. A guard foi reforqada. O ataque nio aconteceu. Fala-se tambnm que uma pa- tente da Iaea de informag6es e seguianga andou perguntando so- bre qualificago e prego de outros advogados para substituir Djama Farias. A comunidade estaria preocupada corn o pr6ximo jul- gamento, desfeitas as expectati- vas otimistas em relagdo ao pri- meiro. Se, quando nega perempto- riamente essas histdrias, James estA blefando, blefa cor compe- tencia. 0 prego, por6m, podera ser alto demais. Uma confirmagAo da atual sentenga so o deixard sair da pris&o aos 55 anos, para uma vida sob control por mais 10 anos, mas provavelmente sem continuidade cor a que teve ate sete meses atras, quando era o home mais procurado no Pard e ningudm sabia disso a menos de quatro mil quil6metros de distAn- cia, na pr6spera e pacata Jundiaf, onde ele era um cidadio acima de qualquer suspeita, cumprindo dia- riamente suas obrigag6es e usu- fruindo de seus direitos. As hist6rias de James Vita Lopes e do assassinate de Paulo Fonteles nio terminaram. Com o home colocado na pequena e desconfortavel cela do quarter da PM, com direito a uma visit por semana e sem ter tomado banho de sol uma s6 vez, quando muito, encerrou-se um capftulo e deve- ria ter comerado outro, com a as- sinatura dele. Mas James jura que nada tem a acrescentar. Agito na fronteira A notfcia mereceu telegrafica referencia na desatenta im- prensa national. Em 10 linhas, diz o Jornal do Brasil que a partir de agora, at6 o ano 2015, termo de seu piano de ag o, o Ex6rcito brasileiro vai dar prioridade A ocupagAo estrat6gica da regiao Norte, para onde estao sendo deslocadas unidades militares. "Ou nds ocupamos a Amaz6- nia, ou corremos o risco de per- dd-la", disse ao JBo general Gil- berto Serra, do Centro de Comu- nicaio do Exercito. Boatos, verses e interpreta- c6es a respeito dessa intengio jd havia em abundancia, mas esse foi o primeiro andncio concrete, official. O Ex6rcito de Rondon desapareceu na Amaz6nia, mas o do general Thaumaturgo, feliz- mente, ainda 6 uma ameaga, agora em process de concretizagdo. Uma boa hora para afastar preconceitos de todos os lados, sentar A mesa e discutir os con- ceitos geopolfticos que estao por tras e por baixo dessa estratdgia, O Exercito pode estar corn a me Ihor das inteng6es, mas tamb6m pode star equivocado e, desse equfvoco, fazer o mal quando pensa star praticando o bem. 4 Jomaless --- -----------rrraj, -snr- ~e*L-~..,~-- -k----r omrnleassoal 5 IMPRENSA Modernidade cara Aedigio dominical de O Li- beral do dia 7 trouxe mais uma novidade para os seus leitores: uma pigina inteira pu- blicada duas vezes no mesmo ca- dero. A inddita lomlada, como esse tipo de erro 6 definido nas redag6es, atestava as dificuldades que o journal estava enfrentando para implantar seu novo parque grafico. A primeira edigio im- pressa pela nova maquina, uma Uniman da Rolland considerada de dltima geragbo, exibira suas cores uma semana antes, ao custo de um tal atraso que s6 permitiu a chegada de O Liberal aos leitores do meio para o final da manhb. Outras falhas e problems se seguiram & hist6rica ediaio do dia 31 de janeiro, que marcou a introducgo definitive da poli- cromia na imprensa diaria paraen- se, e promoveu a reducAo do for- mato do journal, a adogio de seis colunas (em substituigAo As oito anteriores) e de nova tipologia grifica. Para desespero dos teles- pectadores, a edigio dominical do dia 7 nio trouxe a "Revista da Tev6", produzida por O Globo (encartada, sem parte de suas pa- ginas, no dia seguinte), e houve a troca do caderno de vestibulares (saiu o de uma semana antes). Os tradicionais leitores teriam motives para queixar-se do aban- dono da logomarca de O Liberal na primeira pagina (trocada por um novo tftulo, muito parecido corn o de O Globe) e pela nova aparencia do "Rep6rter 70". Mais leve e mais solto cor a no- va diagramagao, o journal, entre- tanto, passou a ser um labirinto para a identificasgo das seg6es, embaralhadas em cadernos que, para observadores mais bem in- formados, traem a dbvia inspira- gao em models como O Glo- bo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, e Correio Brazilien- se. Mesmo com a imprecisao no ajuste de cores e cor o caleidos- c6pio dos assuntos, o balango poderia ser considerado positive pelo leitor, agora corn a perspec- tiva de ter ao seu alcance um jor- nal formalmente parecido cor os mais modernos que circulam no sul do pals ou no primeiro mun- do. Mas por tras do cendrio montado para marcar uma nova revolucio tecnol6gica promovida pelo grupo Liberal, 21 anos apds a introduqlo do off-set (impres- sAo a frio, muito mais limpa, de melhor qualidade e corn maiores recursos do que a traditional ti- pografia que a antecedeu, possi- bilitando o uso de computadores), havia muito mais problems do que poderia imaginar a desatenta filosofia dos leitores. Muitos desses problems re- sultaram da press em colocar em agco o novo parque grafico, sem maior planejamento, como se fos- se uma tarefa simples. Os grafi- cos tiveram apenas uma semana para treinar os novos equipa- mentos, com a agravante de que os t6cnicos americanos mandados pela Rolland (e acompanhados por enviados da Folha de S. Paulo, que ter o mesmo equipa- mento, mas ainda nao o usou) nao falavam portugu8s e nAo havia int6rprete entire as duas equipes, obrigadas a se entender por mf- mica. Desatengao aos recursos humans, alias, 6 uma caracterfs- tica tio marcante no grupo Libe- ral quanto sua ousadia tecnoldgi- ca. Numa corporasAo mimetica- mente fascinada por maquinas, o material human quase nAo conta. Enquanto o journal fazia festa pela nova era, seus funcionarios amargavam os pores salaries do mercado. Cor o reajuste quatri- mestral que comegou a vigorar a partir de 12 de fevereiro, os jor- nalistas de O Liberal ganham apenas um pouco mais da metade dos salaries de seus colegas dos outros jornais. Os da TV Liberal seriam os mais mal pagos de toda a Rede Globo de Televisao. O grupo Liberal foi o dnico da grande imprensa paraense que nao fechou acordo cor o sindi- cato, obrigado a ajuizar dissfdio na justiga trabalhista para tirar os funcionarios da empresa da triste situagao em que se encontram. Para distanciar-se industrial- mente anos-luz de seus concor- rentes, o grupo Liberal fez um investimento equivalent a 10 miih6es de d6lares (180 bilh6es de cruzeiros aproximadamente) no novo parque grafico e nas no- vas instalagces. Esse valor ainda ird crescer porque, desconcer- tantemente, a empresa nAo adqui- riu o sistema de esteiras para acoplar a impressora e assim tirar proveito de sua alta velocidade operational. Cor esse adendo, a mAquina poderia aprontar a edi- glo dominical, a mais volumosa e de maior tiragem, em apenas uma hora. Sem a coleta automatizada deve estar funcionando muito aqudm de sua capacidade nominal. Apesar de todos os proble- mas, o pdblico reagiu cor extre- ma tolerAncia as modificages que a empresa introduziu, sem preparar-se adequadamente para tornar menos desgastante essa transigio. O domfnio do grupo Liberal no mercado 6 tAo amplo que leitores de outros jornais (que nao sejam assinantes) estio tendo que se contentar em recebe- los cor atraso porque os gazetei- ros s6 saem as ruas cor O Libe- ral nas mAos. Mas a consolidagao dessa primazia exigirf muito da empre- sa nos pr6ximos meses, em cir- cunstAncias desfavoraveis A amortizaaio de investimentos mais pesados. Pode ter sido por coincidencia, mas trata-se entao de uma dessas casualidades de significado ricamente simbdlico: enquanto 0 Liberal chegava ao pdblico em sua nova roupagem, um Maiorana posava, pela primei- ra vez em muitos anos, ao lado de Jader Barbalho. A faranha foi de Ronaldo Maiorana, o responsavei pela irea das radios entire os ir- mios e o menos desgastado junto ao atual esquema governmental. A pretexto de convidar o go- vernador para uma palestra no Conjove, o conselho que redne jovens empresarios paraenses, que preside, Ronaldo passou qua- se duas horas no gabinete de Ja- der. Dos seis diretores do Conjo- ve que foram A audi8ncia, por eles solicitada, dois sAo do giupo Liberal (aldm de Ronaldo, Gua- rany Jdnior). O Liberal publicou foto do encontro, mas nio ficou sozinho nas gentilezas: excepcio- nalmente, o governador recebeu os jovens empresarios no horario marcado, 11 horas, fugindo ao seu rotineiro atraso, e a eles se referiu elogiosamente em seu program radiof6nico, cedendo- Ihes um tempo incomum. Estaria comegando um tempo de negociagio? ~; - -- - - -I et --- -~ULI~LI---IUI.-~,..,. 6 Joral Pessoal BAIXADAS Mais um tira-pobre? E m 1979 o entAo ministry do Interior, coronel Mario An- dreazza (uma espdcie de Juscelino fardado, cor a mesma obstinagio por obras pdblicas), veio a Bel6m langar um program habitacional destinado aos mais pobres habitantes das cidades brasileiras, o Promorar. Ganha- riam financiamento em condicges vantajosas as tamilias enquadra- das na faixa de renda entire um e tres salaries mfnimos. A pompa que marcou a solenidade de lan- camento national desse program, no PalAcio Lauro Sodr6, foi com- prometida por uma informagio que tirou do ar por moments o eterno sorriso exibido por An- dreazza diante das c&maras que sempre o acompanhavam. Disseram para o ministry, no exato moment em que ele iria discursar, que dois tergos dos moradores da area visada pelo Promorar ganhavam menos de um salArio mfnimo por m8s. Nao se tratava apenas de informagio verbal: estava, com todos os nd- meros, no document t6cnico ela- borado pela Codem, responsavel pelo planejamento na area metro- politana de Bel6m. Ou seja: o program official destinado aos mais pobres estava fora do alcan- ce dos miseraveis, a categoria so- cial de maior expansao no meio urban. Os deserdados da vida, que sobrevivem de rendimentos abai- xo do elementary, se concentram nas terras sujeitas a constantes alagamentos na capital paraense, as baixadas. Sio terrenos situa- dos geralmente na cota quatro do nfvel do mar, tomados pelas Aguas quando a mar6 sobe, fen6- meno que adquire contornos dra- maticos em alguns moments, mas que tem sua rotina diaria. Ali a Agua da chuva se empoca, a dre- nagem quando existe 6 um esgoto natural a c6u aberto, Agua tratada para a maioria s6 em tor- neiras coletivizadas, as casas sao erguidas sobre palafitas e todos os indicadores sociais adquirem tonalidade negra. Mas 6 onde vi- ver custa o que os moradores po- dem pagar. Quando vistas em conjunto e sem detalhamento. as baixadas podem ser apresentadas como a maior favela que existe nas areas metropolitanas brasileiras. Seus habitantes sao, mais do que todos os outros, sacrificados pela evi- dente deterioragAo dos servigos urbanos de Bel6m, maltratada por seguidas administrag6es de visio curta e disposigao para o trabalho mais curta ainda. Program inovador? No final do m6s passado o governador Jader Barbalho anun- ciou, de Washington, que ainda no primeiro trimestre deste ano comegarA a executar o mais ambi- cioso projeto em beneffcio da Area que deixou o Promarar de Andreazza de .pd quebrado e tem sido safra certa para polftico es- perto em dpoca de eleigao. O go- verno conseguiu do Banco Inte- ramericano de Desenvolvimento 145 milh6es de ddlares de em- pr6stimo para pagar em condic6es favorecidas em 25 anos, peso ajustado & capacidade de endivi- damento do Estado. Aos US$ 145 bilh6es, a serem liberados gradualmente ao long dos prdximos quatro anos, serAo acrescidos mais US$ 80 milh6es (a princfpio cram US$ 65 mi- lh6es, mas a ampliagio em 15% do universe de beneficiados do program exigiu mais dinheiro) de recursos pr6prios do Estado. No total, os US$ 225 milh6es (ou mais de quatro trilh6es de cruzei- ros) equivalem praticamente ao orgamento estadual previsto para 1993 e slo 10 vezes o orgamento de Beldm. A contrapartida do go- verno 6 igual a um tergo do or- gamento do Estado, dinheirAo concentrado em uma sd obra, ain- da que a mais important, de um dnico dentre os 128 municfpios paraenses. O investimento estA desper- tando fafscas de cobiga entire as empreiteiras, assoladas pela mais grave crise que enfrentam em muitos anos. Poucas, entretanto, poderao desfrutar da obra. O fi- nanciamento do BID exige que a concorrencia pdblica para a exe- cuqAo dos serviqos seja de am- plitude international, cor requi- sitos de tecnologia, habilitacio e capital que afastario as pequenas ou mesmo m6dias empresas. Me- nos mal se o rigor do banco com- pensar a concentragao dos bene- ffcios cor a correqao e seriedade na realizagao da obra. Mesmo que menos facam, mais poderao se beneficiary. Mas at comeram os questio- namentos sobre o program. Ven- dido ao BID, que o defended junto as organizag6es nao-gover- namentais americanas que o pres- sionaram em Washinton, como inovador, ele pode ser a repetigAo de outras iniciativas que incorpo- raram areas urbanas de pouco valor a especulac~o imobiliaria. Uma certa concepcgo de engenha- rla faz corn que os antigos cursos d'Agua se transformed em sistema vidrio, cor canais concretados e vias pavimentadas, uma incompa- tibilidade ambiental. Uma das principals metas quantitativas do program 6 a pavimentagio de quase 15 mil quil6metros de ruas, distfncia equivalent a sete vezes e meia a extensio da rodovia Beldm-Brasflia, uma das maiores do pafs. A intervenqao nas baixadas, por outro lado, tornou-se mais complicada e delicada por forga de transformag6es que vem ocor- rendo nessas areas totalmente sem control. Entre elas, os aterra- mentos irracionais de perfodo eleitoral e as urbanizag6es sem regra, feitas para render voto e nao um bem viver. Apenas um tergo dos 534 mil moradores dos nove bairros atin- gidos pelo projeto de macrodre- nagem, numa area de 3,6 mil hectares sob a influencia da bacia do igarapd do Una, moram em terrenos que efetivamente ainda s-o alagados. Basta percorrer as margens do pr6prio Una para constatar a transformaiao provo- cada pelos aterros individuals. O projeto preve que tr6s mil das 4,8 mil famflias que tiveram seus imdveis desapropriados (por estarem no leito do igarapd) serao remanejadas, mas o ponto de re- manejamento nao poderd ir al6m de um quil6metro e meio de dis- tancia da moradia primitive. Essa preocupaqao 6 para permitir que os remanejados possam voltar a ..._, Jonasl m 7 Area recuperada (e, naturalmente, valorizada), ao inv6s de serem expulsos, como sempre ter ocor- rido. 0 BID foi alertado para a substituiqio da paisagem que as grandes obras de engenharia aca- bam realizando e cobrou tamb6m a participagAo comunitaria na gest&o do projeto. A um element novo em empreendimentos desse tipo. Todos estAo perfettamente alertas, assim, para o risco de que o projeto funcione nAo como uma recuperaqAo de areas degradadas em beneffcio de seus sacrificados moradores originals, mas como mais um instrument de expulsion da populacio de baixa renda dos terrenos nos quais ela conseguia manter-se porque eles eram sub- valorizados. Muitos dos trechos de baixadas estAo encravados em pontos centrais da cidade, que sd nio foram absorvidos pela espe- culaqAo imobilibria porque neles ainda nio haviam penetrado os servigos urbanos. O saneamento e a drenagem podem ser essa via de abertura que estava faltando, se a dimenslo social nio for a mais important no projeto. Cor esse investimento de US$ 225 milh6es, o mais caro desde a dpoca Aurea da borracha, no infcio do sdculo, quando Be- l1m era um dos mais importantes entrepostos extrativos do mundo, as baixadas podem desaparecer da topografia da cidade, enquanto fato ffsico, mas seus agregados humans podem apenas sofrer um estratdgico deslocamento, como tem ocorrido nas cidades moder- nas desde a Comuna de Paris, de 1871. Muito foguete, portanto, mas sem novidade no front. A empreitada tem ainda um significado polftico especial para o governador Jader Barbalho. Po- dendo estar sendo otimista, ele admite ter apenas um tergo dos votos na capital, agora governada por seu maior inimigo. Uma obra como o projeto de macrodrena- gem pode ajudar a recompor ou ampliar aliangas empresariais, criando reserves para o future, inclusive para o moment de fi- nanciar a campanha eleitoral. No entanto, ela deve dar tambdm (e, neste caso, acima de tudo) divi- dendos sociais. Comerando em marco a exe- cuqao do projeto, Jader poderd concluir apenas metade, nos dois anos que lhe faltarao, do que esta previsto nos cronogramas. Serd muito, mas talvez nio o bastante para reverter a image desfavo- rivel junto a populacio belenen- se. Jader precisard eleger um su- cessor que divida cor ele os melhores rendimentos, os da inauguraclo das obras e seu ar- remate social, para ajudar no prosseguimento de sua carreira polftica e a manutencgo do seu esquema de poder. Um projeto bem realizado en- quanto obra de engenharia, sem os sangramentos. financeiros que essas obras pdblicas costumam sofrer, tecnicamente bem ajustado e socialmente just poderia redu- zir o prefeito H6lio Gueiros a um tamanho menor e marginaliza-lo de um empreendimento que, fi- nalmente, mudard em profundida- de a face de Beldm, se o prefeito nAo se dispuser ou nio conseguir transformer seu isolamento numa fonte de atribulag6es junto ao BID (que exige apenas uma parti- cipagio institutional da prefeitu- ra). Mas esperar tudo isso pode nio ser mais do que irrefletida utopia? Obras milionarias ACompanhia Vale do Rio Doce investira quase dois bilh6es de ddlares no Pard, ao long dos prdximo quinquenio, a comegar deste ano, para colocar em fun- cionamento tr&s projetos de gran- de porte. O maior deles 6 o da Alunorte, paralisado ha cinco anos, que exigirA US$ 875,6 mi- lh6es para estar em condig6es de comegar a produzir no primeiro semestre de 1995. De 1,1 milhao de toneladas de alumina que ira gerar anualmente, 700 mil tonela- das destinam-se A sua vizinha, a Albras, onde a Vale 6 sdcia de 32 empresas japonesas. A condiago de fornecedora cativa de um grande client, que necessariamente ficard cor dois tergos da produgao, tirou atrati- bilidade da Alunorte. Para reto- mar o projeto, sem o qual a Al- bras continuard indefinidamente capenga, a CVRD vai aumentar significativamente seu endivida- mento. Aldm de precisar oferecer US$ 244 milh6es em novas ages ao mercado, aumentando seu ca- pital, ira emprestar US$ 433 mi- lh6es e terd que aportar, como capital de risco, quase US$ 90 milh6es. O BNDES sd poderd oferecer US$ 100 milh6es. A de- cisAo, portanto, oferece risco, que aumentarh se o mercado de alumina nAo melhorar. Mas a de enorme valor estratdgico, princi- palmente para os paraenses. Eles tamb6m devem se inte- ressar pelo outro projeto, quase do mesmo porte do da Albrds, que a Vale pretend colocar em operaVgo atd 1997, nele investin- do US$ 780 milh6es: a o do cobre de Carajas. A produglo, de 152 mil toneladas de cobre metalico, muda completamente o panorama desse setor no Brasil e abre uma perspective de industrializagao potencialmente tAo ampla quanto a da Albras para o alumfnio. Co- mo subprodutos, a CVRD vai obter ainda 8,1 toneladas de ouro (aumentando em uma vez e meia sua atual produgio em Carajas) e 20 toneladas de prata. Sd em Ca- rajas o faturamento da empresa ird passar de US$ 1 bilhao anuais. A terceira linha de grandes investimentos serd na area do caulim, onde US$ 295 milh6es irio permitir iniciar dentro de dois anos a produgio de 500 mil toneladas de caulim (30% mais do que a produgAo do Jari) extrafdo da jazida de Paragominas. A ex- portagdo serd atrav6s de um porto vizinho ao da Albras, onde o caulim chegard atrav6s de um mi- neroduto cor 180 quil6metros de extensao. Casa de ferreiro A RBA, ainda sob o nome de TV CarajAs, da mau exemplo. Em valores histdricos, ela deve 500 milh6es de cruzeiros a Celpa por nao ter pago 12 contas de luz entire setembro de 1991 e janeiro deste ano. O ditimo pagamento efetuado, de 100 milh6es, quitou apenas duas contas pendentes nesse perfodo. Os clieltes co- muns estao ameagados de ficar sem luz a partir de 15 dias do vencimento de suas contas. O maximo de tolerfncia da Celpa d de dois ou tres meses, para grandes clients. A Copala, de Josd Maria Mendonga, que foi o principal financiador da campa- nha de Jader Barbalho em 1982, mas agora esta afastado do go- verno, teve sua luz cortada. Mas a televisao do governador foi poupada e continue recebendo um favor mais do que especialfs- simo. Maravilha humana O governador Jader Barbalho aproveitou a eleigio (na ver- dade, ratificagao) da nova execu- tiva regional do PMDB, na sema- na passada, para praticamente abrir a campanha para sua suces- sio. Citou os nomes de dois can- didatos potenciais, o ministry Fernando Coutinho Jorge e o se- cretario Manoel Ribeiro, mas fez questAo de ressaltar que ainda nfo escolheu nenhum deles, nem tem nomes definidos. Quem qui- ser ser candidate que se eviden- cie. As opg6es sAo magras e talvez por isso o governador tenha co- brado do partido que se renove e recicle. "Temos que festejar o passado, mas e hora de se fazer uma reciclagem", convocou o governador, president de honra do PMDB paraense, recomendan- do aos correligionarios "nao car- regar fardos pesados" porque "antiguidade 6 para museu". Mas que escolhas novas e aut6nomas pode o PMDB fazer? Os dirigentes referendados na semana passalla por uma eleigao muito parecida As que se realiza- vam na antiga UniAo Sovidtica nao apenas passaram pelo crivo seletivo do governador, como comp6em seu esquema pessoal de poder. Jader parece querer que a renovagio peemedebista tenha a ele mesmo como inevitavel ponto de passage e origem, um des- pota que se julga indispensAvel porque o dnico esclarecido, um instrument de modernizagAo, no entanto, eficaz mais como pro- messa do que como realizagao. Ao induzir seus secretArios a filiarem-se ao PMDB e abrir as portas do partido ao seu governor, Jader estA reforgando uma estru- tura que responded automatica- mente ao seu comando, convenci- do de que sd assim serd escolhido o melhor e ele sera eleito. Tudo porque ningu6m faz melhor do que Jader Fontenelle Barbalho. Ave rasteira A guns fotdgrafos e cinegra- fistas faziam de prop6sito: era s6 apontar suas cAmaras na dire- g o do coronel (da reserve do Exdrcito) SebastiAo Rodrigues de Moura para ele, imediatamente, ajeitar sua bem cuidada cabeleira. Foi um jornalista que percebeu a nem sempre discreta reagAo como prova da vaidade do home que se tornou mais conhecido por seu apelido, Curid, e nao escondia seu significado: ave que voa ras- teiro e canta muito, talvez ate demais. Mesmo praticando algumas empreitadas decididamente rastei- ras, ou sujas, e falando larga- mente diante de rep6rteres comr seus instruments de populariza- gao e fetiche, o ex-deputado fe- deral, ex-coordenador do garimpo de Serra Pelada e ex-agente de informag6es do Ex6rcito no com- bate A guerrilha do Araguaia nun- ca foi tAo impulsive quanto no infcio do m8s. Fiel a seu velho estilo de an- tepassado de Rambo, ele colocou- se A frente de dois policiais civis para carar, & noite, contumazes assaltantes das granjas da Area onde mora, nos arredores de Bra- sflia. Dois deles teriam ameagado o filho de Curi6, que decidiu as- sumir um comando que nAo lhe cabe legalmente. Da cacada re- sultou um menor morto e outro ferido, num epis6dio ainda em apuragAo, mas que sugere aquela conhecida situaaio em que o agressor primeira atira e depois procura saber no que atirou. Se ainda fosse o todo-podero- so home do SNI, provavelmente Curi6 conseguisse livrar-se dos problems mais satisfatoriamente do que socorrendo as duas vfti- mas de seus tiros e apresentando- se A delegacia para depor, dando sua versao antes de todos. Mas o que poderia ser elementary provi- dencia preventive passou a ser problemitica reparagAo do erro cometido. Curid meteu-se numa encrenca. das boas. Foi a melhor oportunidade que deu a seus indmeros e bem diversificados adversarios ou inimigos, desde os revanchistas da esquerda aos inquietos da di- reita, que o veem como arquivo e gostariam de entregA-lo a um in- cendiozinho bem convenient, Grupos de defesa dos direitos humans logo passaram a interes- sar-se por detalhes do episddio, como o ndmero de tiros dispara- dos, por onde penetraram no me- nor Laercio Xavier da Silva, de 17 anos, ou se a versao de Curi6 6 verdadeira. Outros poderAo interessar-se por saber como o coronel refor- mado consegue ser proprietario de uma chacara de oito hectares na valorizada cercania da capital federal, habitada por outros inte- grantes da comunidade de segn- ranga e informag6es. A chacara ja tivera dias de esplendor alguns anos atris, quando Cari6 abrigou e alimentou dois mil garimpeiros que foram fazer lobby junto ao Congress Nacional. Mas em Brasilia detalhes como esse nio costumam parecer o que slo, em sua extravagAncia. A morte do menor, com dois tiros (de trAs disparados por Carid), pode mu- dar essa abordagem. Artes mineiras Eficiente, embora & moda mi- neira, o president Itamar Franco ter sido. Quanto i 6tica, por6m, 8 outra coisa. 9 possfvel que Itamar tenha pretendido mesmo demitir o opa- co president do Incra (Instituto Nacional de Colonizaaio e Re- lorma Agraria), Renato Simplf- cio, quando recebeu do Movi- mento Nacional dos Trabalhado- res Sem Terra um pedido para afastar Simplfcio. Recebeu, apa- receu na foto da audiencia em Brasilia para os jornais e tratou cordialmente os dirigentes do movimento. E nada mais disse. Mas se era recado, Simplfcio entendeu-o: imediatamente pediu demissao, acrescentando na carta apresentada ao ministry LAzaro Barbosa, seu superior, que "nun- ca daria, a ningu6m, a oportuni- dade de demitir-me de cargo de confianca". Ponto em eficiencia para Ita- mar e em 6tica para Simplfcio. Velho estilo sta 4 a dnica novidade que surgiu entire a dpoca em que Hdlio Gueiros era governador e homologava o aumento das tarifas dos 6nibus urbanos de Bel6m e agora que 6 prefeito e ter o mesmo poder, gragas A sua muni- cipalizagio: a diferenga entire o valor estabelecido pela comissAo t6cnica (antes EMTU, agora CT- BEL) e o que ele final determine diminuiu. O que aumentou foi o palavrdrio e as promessas, uma cortina de fumaga adensada ou um boi de piranha mais robusto para fazer a opiniio pdblica e os usuArios aceitarem melhor o fato consumado. De fatos consumados Helio Gueiros entende muito bem. Jomal Pessoa I editor rcsponsrvel: 1ucio F1Mvio Pinto Ilustra(qo: .uiz Pinto Run Campos Sales. 268/803 66.020 Fonc: 223-1929 Op io Editorial Impresso nas oficinas de Agranell FEditora, travessa Alferes Coaa, 1690. Bel6m. |
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