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ornal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL L I F AVI PINTO Ano VI 0 NO 106 2a Quinzena de Janeiro de 1993 Cr$ 5.000,00 JUSTICE Por linhas tortas O julgamento que condenou James Vita Lopes nao encerra o "caso Fonteles". Alem da nova sessao, muitas perguntas ainda estao a esoera de resoosta e do interesse Dublico. An Quando Maria Benedita Bor- ges da Silva virou-se na di- reAio de James Silvio Vita Lopes, olhou-o e disse que ele nAo era o home que, cinco anos e meio antes, Ihe pedira para anular uma multa contra um Fus- ca estacionado em frente ao hotel Milano, que no dia seguinte con- duziria dois homes para o assas- sinate do ex-deputado Paulo Fonteles, um silencio nervoso tomou conta do gindsio de es- portes de Marituba. Desmoronava ali o dnico elo material de liga- gio de James corn o crime. A as- sociagfo, a partir desse moment, teria que ser sustentada cor indf- cios e evidencias, elements de acusagao mais frAgeis. Onze horas depois, entretan- to, o corpo de jurados da Comar- ca de Ananindeua condenava Ja- mes Vita Lopes, paulista, 45 anos, e a jufza Maria Soares Pa- Iheta estabelecia contra ele a pe- na de 21 anos de prisio por ser o organizador do atentado contra Fonteles, exatamente a metade entire os limits extremes previs- tos no C6digo Penal brasileiro (12 e 30 anos) para esse tipo de crime. A condenagio foi obtida sem provas materials capazes de ga- rantir a inquestionabilidade da sentenga A extensio da pena permitiu logo a garantia de um novo julgamento Ao contrario do que todos esperavam, a sessao de 20 horas nAo p6s fim ao "caso Fonteles" Mas se enganariam tanto os que a consideraram a atirmagio da verdade definitive, como os que a subestimaram. Ela ) 2 _Joralessoal foi um acontecimento hist6rico e um marco nos registros contra a impunidade no Para. Aparentemente, apenas a Po- lfcia Militar e o aparelho official que a tinha como centro fizeram uma avaliagio correta do signifi- cado da sessio. O esquema de se- guranga mobilizou 400 homes uniformizados, mais de 10 pelo- t6es, al6m de agents A paisana, 25 dos quais alunos da academia da PM que ocuparam lugares na plat6ia Dentro do inadequado gi- nasio havia em certo moment 80 PMs para menos de 250 expecta- dores, ndmero mdximo de civis (exclufdos os jornalistas) ao lon- go do julgamento. Os 20 quil6metros de distin- cia de Bel6m e os cinco anos e meio que se passaram desde que o crime foi cometido afetaram o interesse pdblico. O gin6sio de esportes ficou grande demais, exageradamente quente e oferece um risco para o segundo julga- mento em pleno inverno: chuvas fortes tornam impossfvel ouvir o que se diz 14 dentro por causa do barulho das gotas de agua nas chapas metAlicas da cobertura. O cendrio era rdstico e sua pobreza singular era realgada pela ausen- cia de personagens de dimension national. Apenas o advogado MArcio Thomaz Bastos. que presidia a OAB na epoca do assassinate, podia ser considerado como um element de atraglo (o outro, o ex-vice-prefeito de Sio Paulo. Luis Eduardo Greenhaigh, prefe- riu participar de um seminArio do PT sobre presidencialismo e par- lamentarismo). Mas nada se com- parava ao julgamento dos assas- sinos do lfder seringueiro Chico Mendes, no qual atuou tambem como acusador A grande impren- sa tinha no local uma dnica equi- pe. Ninguam se lembrou de gra- var em vfdeo-tape toda a session Raros perceberam tudo o que foi dito, ou principalmente as sutile- zas e detalhes que permitiriam. A falta de provas objetivas, deduzir de indfcios e evid8ncias a real participagfo de James Vita Lopes no crime de encomenda de maior impact no Pard. O desatento e enfadado corpo de jurados nio podia ser enquadrado nessa mino- ria. Deve ter decidido por intui- gfo, mais subjetivamente do que o normal. Maria Benedita era o grande trunfo da defesa para Higar lamcts a Antonio Pereira Sobrinho e Os- valdo Pereira, os executores do atentado contra Fonteles. No dia 10 de julho de 1987 a entio guard de trAnsito foi procurada por um home que Ihe pediu para anular a multa que, moments antes, aplicara contra o Fusca estacionado na avenida president Vargas, em frente ao hotel Mila- no, de onde safram Antonio e Os- valdo para matar o ex-deputado num posto de gasoline na safda de Bel6m, usando o mesmo vef- culo. Presenga maior Maria Benedita foi a Brasilia e de sua descrigio saiu o retrato falado desse home, muito pare- cido cor James Vita Lopes. Era um home de estatura media, cla- ro, de barba, cabelos lisos e com calvfcie. Mas James tinha uma barba mais rala, era mais alto e mais claro. O retrato-falado se parecia mais cor o original do que o home diante de Benedita. Mesmo que tivesse sido James quem pedira o cancelamento da muita, final a dnica falha invo- luntiria no bem preparado atenta- do, o reconhecimento seguro se- ria diffcil. Seis meses numa cela especial de um quartel da PM fizeram-no emagrecer bastante, aumentaram a calvicie, embranqueceram os ca- belos, envelheceram-no e lhe de- ram a aparancia de um professor. O olhar agressivo e assustado que cram sua marca registrada na chegada havia desaparecido. Se- guro. o advogado de defesa, Djalma Batista (o mesmo que, 10 anos antes, acusara os padres franceses Aristide Camio e Fran- cois Gouriou, no mais polemico process no Para nos dltimos anos), lembrou os atenuantes, agindo como advogado do diabo. Ainda assim, Maria Benedita re- novou a negative: James nao era o home que ela descrevera para o retrato-falado. Tensa, mas sob control, ela toi escoitada de volta a viatura da PM, que imediatamente a retihou do local. Soidada na epoca do crime, Maria Benedita 6 agora sargenta, brilhante carreira para cinco anos e meio. Depots que ela deu seu rapido e contundente testemunho, a acu- sagio que mobilizava ainda o advogado Egydio Salles Filho e o promoter Clodomir Aradjo sd nio passou a esperar pelo pior poique a exibigio de um vfdeo- tape contundente sobre a morte de Fonteles parece ter conseguido tirar os jurados da letargia sua- renta. O impact nao foi quebra- do pela sustentagio oral de Djal- ma Farias. Surpreendentemente, ele pas- sou ao largo do depoimento da sargenta da PM. Parecia conven- cido de que os jurados tinham percebido adequadamente o sen- tido daquelas declarac6es, dis- pensando explicagqes, o que pro- vavelmente foi um erro, fatal. Tamb6m claudicou na instrugio quanto A votagio dos quesitos, falha compensada pelo erro que a acusacio diz que a jufza cometeu ao definir a pena. Se ela fosse de menos de 20 anos, como parecia mais plausfvel, a defesa teria que recorrer ao Tribunal de Justiga do Estado ao inv6s de obter automa- ticamente a realizagio de um no- vo jdri. O novo julgamento s6 nio ocorrera se o recurso que o promoter e os advogados da fa- miia Fonteles apresentario con-. tra a pena for aceito pela jufza Maria Palheta. Nio falta razAo ao advogado Djalma Farias quando alega que o julgamento foi definido emocio- nalmente. Nio ha, nos autos, provas do envolvimento de James Vita Lopes no atentado. Os indf- cios e evidencias tamb6m nio formam uma hist6ria bem fecha- da, sem furos. Mas tamb6m nio hA ddvida de que ele mente quan- do narra sua inoc6ncia. Infeliz- mente, a investigagio policial iniciada no mesmo dia do assas- sinato foi interrompida em various moments e as vezes at6 pela compulsive (e perfeitamente aceitavel) participagio dos pa- rentes de Paulo Fonteles. Boas pistas foram abandonadas e res- postas essenciais permanecem ate hoje irrespondidas. Algumas dessas falhas sAo fruto das contradig6es da maqui- na official, surgidas de moto pr6- prio ou pelos desafios que surgi- ram no curso da investigagAo. A vontade de ir fundo na busca da verdade e dar aos investigadores os meios adequados para cumprir essa tarefa foi esmaecendo com o tempo. Por via indireta, James Vita Lopes chegou mesmo a in- terferir no trabalho policial atra- v6s de uma enigmatica carta en- viada ao jornalista Joio Malato (ja falecido), pai do entio secre- 1 ornal Pssoal 3 trio de Seguranga Pdblica, Mario Malato, que se tornou amigo de Vita Lopes quando dirigia a DOPS Na carta, James insinuava que o mandante do crime era Josiel Martins, um violent senhor feu- dal em Capanema, para onde Fonteles se dirigia na manhA de 11 de junho de 1987, quando foi morto. Poucos meses depois sur- gia uma hist6ria complete do ho- micfdio centralizada em Josiel. mas que desde o inicio, embora tivesse seduzido a famflia Fonte- les, se mostrara absurda. Mio oculta Era (e continue sendo) muito ditfcii aceitar a iddia de que Ja- mes Vita Lopes tosse um operoso cidadio injustigado, que s6 nio p6de defender-se e provar sua inocencia porque a policia nao Ihe deu garantias ou quis toma-lo como bode expiat6rio, ou "la- ranja", para usar a expressao que utiliza (um jargio na linguagem dos drgios de seguranca e poli- ciais). Na dnica defesa que apre- sentou, atrav6s do advogado pau- lista Sidney Gongalves (que, es- tranhamente, nao participou do juigamento), James diz-se vftima da guerra ideoldgica, a esquerda querendo fazer um acerto de contas com um representante da direita auto-assumido. Uma mAo invisfvel parece ter impedido a polfcia de chegar aos assassinos e organizadores do crime. A Polfcia Federal do Rio de Janeiro deixou inc6lume o do- no do Fusca, condenado por ho- micfdio em Minas Gerais e viven- do fora do domicflio de culpa, que disse ter vendido o carro nu- ma operaaio contusa um pouco antes do crime. O emprestrio (tambdm ja falecido) Jair Bernar- dino de Souza nAo foi incomoda- do, embora tivesse sido dele a ordem para apagar o registro do pagamento que a Jonasa fazia do carro Santana usado por James, mesmo quando as relag6es comer- ciais entire ambos ji tinham sido desteitas e depois do assassi- nato. O empresario Joaquim Fon- seca foi flagrado em contradig6es nos seus depoimentos, mas tam- b6m ficou I margem porque a fa- mflia Fonteles teimava em apon- ta-lo, sem provas, como o man- dante do crime (quando, na ver- dade, ele era um bem informado observador de acontecimentos que ocorriam A sua volta) Dos pistoleiros. a litima pist- que se teve foi quando, cinco me- ses depois do crime, Antonio Pe- reira Sobrinho toi receber sua part no "servigo" numa fazenda localizada a 70 quii6metros de Redenqao e nenhum policial foi atd IA, a tempo, checar a informa- qafo. Como dado fundamental a seu favor, James diz ter permanecido 12 anos no mesmo domicflio, em Jundiaf, no interior de Sao Paulo, sem jamais ter sido procurado pela policia. Como suas outras histdrias, esta e uma combinagio de sofismas e inverdades. Atd o surgimento do inquerito paralelo centralizado em Josiel Martins, ele se escondeu, como admitiu na carta enviada a Malato. Revogada a prisio preventive, p6de se de- dicar desembaragadamente aos seus neg6cios de seguranga, sem ser importunado pelos policiais, mas tambdm sem se preocupar em defender-se, como se estivesse al6m do alcance do Estado. Erros da defesa Sua prisio, final, s6 ocorreu seis meses depois da expedigio do novo mandado judicial por uma combinagio de fatores atd agora nio esclarecidos satisfato- ramente: a briga internal na Polf- cia Federal, que enfraqueceu seu amigo, Romeu Tuma (cor quem almoqou no Hilton Belem); a in- terferencia de um primo de Paulo Fonteles, sub-procurador da Re- pdblica, a abertura polftica e o reforgo de instituig6es como o Ministerio Pdblico; e o acaso, que o fez cair inesperadamente numa malha final anti-droga da PF em Jundiaf. Na hipdtese que lhe 6 mais favoravel, se James Vita Lopes nAo organizou o assassinate de Paulo Fonteles, como diz, este acontecimento nio lhe foi estra- nho. Ele 6 um personagem dnico: um advogado de passado nebulo- so, que passa por entidades so- turnas como a Oban (Operagao Bandeirantes, o brago mais vio- lento da repressio nos anos ne- gros do regime military a Rota (o sanguinario agent da polfcia ci- vil paulista) e o governor Paulo Maluf, durante 11 anos se dedica a "dar seguranga" a empresas ru- rais, montando esquemas com- pletes de proteg9o a propriedades e agressio a adversaries. As rudimentares quadrilhas de pistoleiros, aos rdsticos arranjos da morte, James deu o toque da sua inteligencia, de sua experien- cia em s6t5os e cavernas. Poderia ter profissionalizado e transfor- mado em empresa uma atividade que, mal organizada ainda. ja 6 bastante tenebrosa para provocar grandes danos humans e sociais O corpo de jurados que o conde- nou na madrugada do dia 22 pode nio ter visto exatamente no que atirou, mas acertou num alvo po- deroso. Solid o Sjornal O Liberal cometeu dois erros incrfveis na cobertura do julgamento de James Vita Lo- pes. Numa materia de apresenta- gio afirmou que Djalma Farias, defensor do r6u, era, "parado- xalmente", tamb6m advogado do PT, relag9o nio s6 inexistente, como inimaginavel. Em materia sobre o julga- mento, o journal disse que o pr - motor Clodomir Aradjo acusou Djalma de te-lo ameagado de morte em plena sessao do jdri. A acusaAo foi feita, entretanto, contra James, que olhava firme e fixamente para o promoter. Clo- domir interpretou essa attitude como ameaga de more e a denun- ciou, corn estardalhago, no final dos depoimentos das testemunhas. Para nio fazer a retificacao (normal e simples), o journal in- ventou que a imaginaria acusagio havia sido "amplamente divulga- da pela imprensa escrita e fala- da". Pelo menos quanto I escrita, 0 Liberal errou sozinho. Sil6ncio oportuno No dia 23 de mar o do ano pas- sado o Supermercado Lfder foi notificado pela Secretaria da Fazenda de que receberia um "procedimento de fiscaliza9io em profundidade" por causa de so- negagio fiscal, que serta uma das maiores da praga. Se quisesse realmente morali- zar a fiscaiizaqao fazendiria, o governador Jader Barbalho deve- ria abrir a consult esses proces- sos. A corrupgAo se tornaria bem menor se os cidadios pudessem checar o trabalho que serventud- rios pdblicos executam em nome do interesse pdblico. 4 JaLRoal LOTERIA Tempo do oportunismo ual seria a reacao da opi- niao pdblica se os banquei- ros do jogo do bicho anun- ciassem o apoio da Aqao Social Integrada do Governo do Estado A sua atividade? De uma forma mais sutil, mas com o mesmo sig- nificado, foi o que aconteceu no final da administragao passada na prefeitura de Beldm. A Funpapa (Fundaaio Papa Joao XXIII), responsdvel pela agao social mu- nicipal na capital paraense, pa- trocinou uma contravengao penal ao ceder seu nome a Loteria Ins- tantinea Tempo da Sorte sem es- perar que a Receita Federal lega- lizasse a promogio. Nio apenas a autorizagco nao veio, como a delegada substitute da Receita, Fatima Rocha, enviou offcio comunicando que a loteria era irregular. Ela nao se enqua- drava entire as modalidades de jo- gos envolvendo sorteio, vales- brinde, concurso ou "operaq6es assemelhadas" definidas na lei 5.768, de 1971, nem tivera regu- lamentag&o prdpria. Logo, pode- ria ser incluida no mesmo tipo de contravencgo que enquadra o jo- go do bicho, sujeitando seus promotores aos rigores da lei. Indiferente a esses "deta- Ihes", a entio president da Fun- papa, Ruth Veiga de Miranda Correa, primeira-dama do muni- cfpio, esposa do prefeito Augusto Resende, assinou o contrato 009/92 corn Sebastiao Jos6 Soa- ies Albuquerque. Sebastiao, um pernambucano sem domicflio em Bel6m (se hospedava no Hilton), havia realizado promog6es seme- lhantes na cidade contando com o apoio da mfdia do Grupo Liberal. Era uma esp6cie de contrato de franquia, atravds do qual a Funpapa cedia seu nome para fa- cilitar (como coisa oficiosa. de seriedade e cor beneffcio social) a comercializagio dos 2,2 mi- lh6es de bilhetes da ioteria ins- tantinea (mais conhecida como "raspadinha" porque o ndmero aparece quando o papel metalico 6 raspado), cada um no valor de cinco mil cruzeiros. A receita possfvel seria de 11 bilh6es de cruzeiros, dos quais 10% ficariam com a Funpapa. O promoter daria ainda milhares de premios, sendo os mais valiosos dois Fiats Uno Mille e duas cadernetas de pou- panga no valor de 50 milh6es de cruzeiros cada. Tudo isso teria que ser feito em apenas 15 dias: assinado a 15 de dezembio, o contrato sd vale- ria atW o dia 31, quando tambdm terminaria o mandate de Resende na PMB. Talvez as duas parties imaginassem que o successor manteria a relagio, mas isso se Lornou impossfvel quando a Re- ceita Federal reiterou o comuni- cado sobre a irregularidade da loteria. O primeiro offcio perdeu- se nos desvAos da administracgo municipal, sendo recuperado quando Adelayde Soares assumiu a Funpapa. No dia 8 o prefeito Hdlio Gueiros divulgou comuni- cado official suspendendo a lote- ria, ato que tinha o sentido de es- clarecimento ptblico porque, a rigor, o contrato perdera sua vi- gencia no dia 31 de dezembro. Quando isso ocorreu, Sebas- tifo Albuquerque ja nfo era en- contrado nem em seu apartamento no Hilton Bel6m. Deixara uma conta nio paga junto A IBF (In- ddstria Brasileira de Formulbrios) de Cr$ 118 milhdes, pelos 300 mil bilhetes que haviam sido im- pressos. Uma das notas promissd- rias estava sendo cobrada no cart6rio Vale Veiga, de proprie- dade da famflia da ex-primeira dama. A nova diregio da Funpapa recusou-se a assumir a dfvida, re- portando-se ao contrato, que no- mina a responsabilidade do (su- posto) empresario, mas, do ponto de vista jurfdico, nio elide a so- lidariedade da fundacgo Adelayde Soares mostrou-se surpresa e chocada ao constatar que, apesar dos terms bastante claros do contrato quanto a res- ponsabilidades, o ex-diretor geral da Funpapa (atualmente consultor jurfdico da CAmara Municipal), Gilson Oliveira Faciola de Souza, havia encaminhado um offcio A IBF garantindo que a fundagio assumiria as despesas cor a pro- duc.o dos bilhetes da "raspadi- nha. Apesar das caracterfsticas es- cabrosas da operagio, concreta- mente as responsabilidades nio haviam sido definidas e muito menos cobradas. Se apenas 300 mil bilhetes foram distribufdos, do total de 2.2 milh6es que esta- vam previstos, a transaiio envol- veu 1,5 bilhao de cruzeiros, cuja aplica~io ningudm sabe dizer co- mo foi feita. Sabe-se que alguns premios foram entregues nas lojas Y Yamada e suspeita-se que mi- lhares de bilhetes podem ter en- trado no circuit por outra via que nio a da IBF, permitindo ga- nhos paralelos. A Funpapa, que deveria receber semanalmente seus 10%, sd teve prejufzos, que poderio crescer se, al6m da em- presa que imprimiu os bilhetes, outros prejudicados se apresenta- rem com suas contas. O Minist6rio Ptblico, que po- deria denunciar os fatos A polfcia, iniciando a fase de apuragio ofi- cial, parece nio ter-se interessado pelo assunto. Alguns cambistas tamb6m manifestam surpreendente resignac~ o com seus prejufzos. Todos garantem que a venda es- tava sendo fAcil e poderia absor- ver toda a produgio de bilhetes. Eles eram distribufdos aos reven- dedores (que tinham direit" a co- missfo de 15% sobre o valor de face), em caixas contend oito mil cart6es cada uma, na locadora de carros Budget, na avenida Gentil Bittencourt, por Aldo Al- buquerque ou ClAudia. A locadora Budget 6 de pro- priedade de Ronaldo Maiorana, um dos herdeiros do Sistema Ro- mulo Maiorana de Comunicacio, que cuida da RAdio Liberal. Ro- naldo nAo aparece no contrato (um rdstico document, que se- quer a assinatura de testemunhas continha), nem nas outras promo- g6es A frente das quais apareceu Sebastiao Albuquerque. Mas sem a maciga divulgacio feita no gru- po Liberal as promog6es do ilus- tre desconhecido pernambucano nio teriam sido possfveis em Be- i6m. A Loteria InstantAnea Tempo da Sorte. certamente inspirada no slogan do ex-preteito Augusto Resende (Tempo de agio), per- manecera tAo ilustre, esconheci- da e inimputivel quanto seu author se os bragos permanecerem cru- zados e as responsabilidades continuarem a se evaporar. JoREal a5 5 RECEITA Uma figure decorative N a melhor das hip6teses, apenas metade do que de- vem os contribuintes & re- colhido aos cofres do governor pa- raense. A perda, de algo em torno de 400 milh6es de ddlares ao ano, deve-se sobretudo a sonegagio fiscal. Paga-se pouco imposto, entire outros motives porque boa parte dos devedores acerta-se com o fiscal antes de chegar (quando chega) ao fisco. MA fiscalizaaio torna-se, des- sa maneira, a mais nociva forma de sangria de recursos que deve- riam destinar-se ao Estado e uma das mais evidentes fontes de corruppco pessoal na administra- glo pdblica. No Pard, como em outros Es- tados que ainda nao conseguiram estabelecer um padrao digno de gestio do dinheiro pdblico, os mais bem informados sabem que as fraudes fiscais proliferam co- mo praga violent. Desde que as- sumiu pela segunda vez o gover- no paraense, o governador Jader Barbalho ter reiterado seu pro- p6sito de combater a evasio de recursos tributbrios como uma maneira de enfrentar a crise eco- n6mica e realizar obras pdblicas. Uma das ac6es que poderia render bons efeitos numa ofensi- va 6 a intimidadao dos sonegado- res, varios dos quais tao notdrios e bem sucedidos que frequentam charmosamente as colunas so- ciais. Aparentemente, um pass important nessa direcao foi dado em outubro de 1991, quando o secretArio da Fazenda, Roberto Ferreira, pediu a entao procura- dora geral de Justiga do Estado, Marilia Crespo, a designaaio de um representante do Ministdrio Pdblico especialmente para acompanhar o levantamento e a apuragio da sonegadio de im- postos que os fiscais tributarios realizam e promover as agdes pe- nais cabfveis. A fraude 6 praticada atrav6s de manobras como o uso de notas fiscais calgadas (cor o valor real em uma das vias da nota de ven- da, a que 6 entregue ao compra- dor, e outro, muito menor, na via remetida a Secretaria da Fazen- da), o sub-faturamento, o estouro de caixa ou passive fictfcio, a di- ferenga de estoque ou as omis- s6es de entradas ou saidas. Deze- nas de notificac6es slo expedidas semanalmente, mas o resultado da fiscalizagio ou 6 nulo, ou muito aqudm das expectativas. S"bicho-papio" A presenga nas fiscalizag6es do representante do Ministerio Pdblico, que pode iniciar ime- diatemente os procedimentos cri- minais contra o infrator indepen- dentemente do curso administra- tive da ac.o tributaria, deveria impor maior respeito ao fisco le- sado e mais receio ao contri- buinte faltoso, cor resultados melhores para os cofres pdblicos. Para surpresa de alguns stores da prdpria Secretaria, no entanto, apenas um ano depois de ter sido instalado na Sefa 6 que o promo- tor de Justica Estevam Alves Sampaio Filho recebeu um pro- cesso para analisar. Mas nesse caso o seu trabalho seria sup6r- fluo. Segundo uma fonte da dire- qao fazenddria, o delito do con- tribuinte nesse process jA estava prescrito (isto 6, nio poderia mais ser punido, por perda de prazo para o ajuizamento da acao contra ele). Logo depois da instalagao do promoter, em novembro de 1991, foi organizada uma grande opera- qao de fiscalizagio em Paragomi- nas, inclusive com cobertura de tropa military. Alguns meses antes um fiscal do municipio tinha sido assassinado, num tfpico crime de encomenda que criou um clima de tensio na area. Mas tres dias apds o infcio da agio o entio diretor- geral de fiscalizagio, Bicharia Fraiha Neto, determinou o retor- no de todos os participants, ale- gando a necessidade de rediscutir a operagio, que seria a primeira acompanhada pelo representante do Ministerio Pdblico. Sd em ja- neiro deste ano foi realizada a segunda fiscalizag~o, mas sem operagio de campo. O Ministdrio Pdblico ter si- do, assim, figure decorative. Ou nem tanto. Nas notificac6es ex- pedidas pela fiscalizagio, 6 des- tacada a advertencia de que o in- frator deve se manifestar no pra- zo de 24 horas, "sob pena de ser denunciado pelo Ministerio Pd- blico". Como nAo recebe as pro- vas dessas fraudes para encami- nhar a Justiga, o Ministdrio Pd- blico funciona como uma esp6cie de "bicho-papio", assustando os devedores e, talvez, melhorando as condiq6es para um acordo marginal entire o contribuinte e o fiscal. Enquanto a presenga do pro- motor continuar a ser apenas no- minativa, essa possibilidade gra- vosa permanecerA como suspeita, suspeigao alimentada ainda pela falta de transparencia nesse setor, o mais nervoso na estrutura da Secretaria da Fazenda. Apesar de sua designaqao para o cargo ter sido revogada pelo governador Jader Barbalho no desdobramento da crise em que a Sefa se viu re- centemente envolvida, Bichara Fraiha Neto ainda e quem coman- da de fato embora nio de di- reito a fiscalizagao da secreta- ria. Ela parece ainda estar al6m da capacidade de interfer6ncia da retdrica dos discuisos sobre efi- ci8ncia e moralizagio fazendaria. Figura de retdrica e nada mais. Palavra Inutil O senator Almir Gabriel volta neste final de semana a Belem para langar a Frente Parlamenta- rista Ulysses Guimaraes sem cumprir uma promessa que assu- miu diante dos jornalistas na sua ditima viagem ao Para: explicar as raz6es reais de sua rendncia A candidatura a prefeito de Beldm por uma coligagao de partidos li- derada pelo PSDB. Ele mesmo deu um prazo: ate o natal. O natal passou, o senador tucano conti- nuou mudo. Nenhum dos companheiros de partido, correligionarios ou ami- gos cobrou a palavra do senador, que os ignorou completamente. Todos parecem ter conc-rdado tacitamente em passar o apagador nesse epis6dio. Fariam bem se apagassem nio apenas a palavra do ilustre senador. O que ele fez se explica sem precisar de suas palavras. Melhor ainda: dispensa- as. Tornal Pessal INDIOS Fim do paraiso O s tres mil fndios kayapd que vivem entire o sul do Pard e o norte de Mato Grosso disp6em para si de uma Area de 11 milh6es de hectares (ou 110 mil quil6metros quadra- dos, o equivalent a quatro vezes a area do Estado de Alagoas de Fernando Coilor de Mello). Sio quatro das maiores reserves indf- genas do pafs agiupadas. Tr8s delas ja foram demarcadas e se mterligam, com mais de nove milh6es de hectares. A ditima demarcagao foi da maior delas, a de Mekragnoti, com 4,9 milh6es de hectares. A demarcagio dessa reserve toi executada num tempo record, de 74 dias, e custou 650 mil ddla- res (mais de 7,5 bilh6es de cru- zeiros). Pela primeira vez o di- nheiro para a demarcacao de ter- ras indfgenas nio saiu do bolso do governor, atravds da Funai. A conta desta vez foi paga pela Fundagqo Mata Virgem, que con- cluiu o serving no final do ano passado. Quando o cantor ingles de rock Sting, ao lado dos caciques kayap6 Raoni e Megaron, anun- ciou a disposiiio de promover a demarcagao, mais de quatro anos atrds, diante do entio president Jos6 Sarney, muitos viram no ato do fdolo pop nao mais do que manobra promocional Sendo ou nao um instiumento de auto-pro- mogao, garantiram que a promes- sa nio iria al6m das palavras por- que os fazendeiros da regiao e as correntes de opinilo pdblica que o ap6iam nio permitiriam a unifi- cagao dos territ6rios kayap6 nu- ma reserve dnica. Assim consti- tufda, ela seria um "quisto ra- cial" encravado bem no centro geogrfico do Brasil. Terra ociosa? Mas o trabalho foi realizado e a dnica rearao efetiva contra ele acabou sendo do governor do Pard e de alguns politicos dele cauda- tdrios 0 governor anunciou e ainda nio ajuizou uma agao contra o que ciassiticou de esbu- Iho territorial Os fazendeiros e mineradores ameagaram muito, mas concretamente pouco fizeram ainda. Paia que todas as terras kayap6 former um s6 territ6rio falta apenas demarcar a Area In- digena Capoto, a mais setentrio- nal de todas, quase integralmente dentro de Mato Grosso, com pou- co menos de dois milh6es de hectares. A revelacAo do fim da demar- caaio da reserve Mekragnoti, que abriga as aldeias Pukanu e Ku- benkokre, devera provocar algum debate sobre a "conveniencia" de permitir que uma Area tio grande seja "imobilizada" por pessoas que nio Ihe podem, por sua cultu- ra "inferior", dar-lhes o rendi- mento que a sociedade modern permitiria a outros grupos so- ciais. Lembrar que o conjunto de reserves kayapd reunidas equi- vale a um terqo do territ6rio de Sao Paulo, que dele extrai 40% da riqueza national, ajudard a sustentar esse raciocfnio. Mas ele pode ser relativizado. A partilha "per capital" do terri- tdrio kayapd resultaria em menos de quatro mil hectares para cada fndio, propriedade de dimens6es apreciaveis em muitas regi6es brasileiras, mas um im6vel de ta- manho mndio na Amaz6nia (os improdutivos projetos agropecua- rios incentivados pela Sudam tem, em m6dia, 20 mil hectares). O uso quo os fndios fazem da ter- ra, ademais, 6 extensive. Sua principal atividade produtiva s6 pode ser extrativa, de baixa pro- dutividade pelos parimetros da economic conventional, mas atraentes para modos alternatives Af entraria o interesse comer- cial de par com os prop6sitos humanitkrios de instituic6es como a Fundaaio Mata Virgem. Os fn- dios sio a garantia de que elas disporio da mat6ria-prima ade- quada para manter os nascentes circuitos especiais de comerciali- zagio, baseados no marketing dos povos da floresta (mais puros, mais pr6ximos das origens melho- res do home, na eterna busca do "bom selvagem"). Mas se de um lado esses gru- pos aiternativos saem na frente, seu sucesso nao impede que os tradicionais exploradores dos in- dios tambdm sejam bem sucedi- dos, mais ainda do que seus ad- versarios Af certamente se pode encontrar a explicagao para a surpreendente passividade desses grupos. particularmente dos ma- deireiros e mineradores (os fa- zendeiros e lavradores ainda per- manecem na situagio anterior). Eles jA nio se sentem tio agredi- dos pela consolidagio da proprie- dade indfgena porque continuario negociando com os Indios. Os fndios poderao obter o re- conhecimento de seu domfnio so- bre as terras, mas tamb6m conti- nuarao a aceitar que os antigos invasores, contra os quais entra- vam em conflito, penetrem pacifi- camente em suas reserves demar- cadas para extrair ouro e madeira. As taxas por eles pagas funciona- rio como ja estio funcionando a maneira de um vfrus da pos- sessividade e do consumismo. Inoculado, ele nio permitird mais o retorno as condig6es anteriores de isolamento. Nova attitude Esta nova situagco 6 um pro- duto da penetraio do dinheiro nas sociedades indfgenas e da vinculagio que ela passou a esta- belecer com mercados externos, todos monetarizados. Possuir ter- ra de fndio ainda 6 um objetivo de fazendeiros ou agricultores--, mas nio de madeireiros e minera- dores, que querem mesmo 6 con- tratos. Este 6 o pano de fundo que explica a reacio nio em rela- aio a conclusao da demarcamao, mas em torno do interdito judicial a manutengio dos contratos de exploraiao de recursos naturals em areas indfgenas. Embora a margem da Constituiago, esses contratos estavam em vigencia porque interessavam as duas par- tes, embora o grande beneficihrio s6 fosse uma delas. A proibiaio da Justiga 6 um lance dtico que s6 terA efeito prAtico se os interesses mais fortes forem sufocados. Os fndios, com suas terras demarcadas, estarao tAo ameaCa- dos quanto os troianos da lenda, depois que levaram para dentro das muralhas de Trdia o cavalo de madeira que os gregos Ihes deixaram. O dos Indios ja estd no interior das aldeias. 6 JornalPbssoal 6 Journal Pessoal 7 Amigos do peito M ais de 150 pessoas circularam no leilio de obras de arte realizado na Galeria Elf pelo marchand Gileno Miiler Chaves em beneffcio do Jornal Pessoal, no dia 22. Embora nio tenha po- dido ir a exposicio (acompanhava o julgamento de James Vita Lo- pes, relatado nesta edigio), os que dela participaram considera- ram-na um sucesso, que deve ser creditado A iniciativa de Gileno, totalmente pessoal, e A adesio de artists, amigos e leitores deste journal. Muito mais do que a receita da venda (da qual prestarei con- tas na pr6xima edigio, quando os ndmeros finals jf estario apura- dos), o apoio de tantas e tAo dis- tintas pessoas serve de estfmulo para manter a circulagio de um produto que elas consideram ne- cessaiio. Doaram seus trabalhos para a exposigio os artists Geraldo Teixeira, Paulo Andrade, Valdir Sarubbi de Medeiros (que mandou gentil telegrama de Sao Paulo), Roberto de La Rocque Soares, Emmanuel Nassar, Walter Bandei- ra (que cor essa reagio ao artigo me comove mais um pouco), Leila Reis, Rosangela Brito, Jorge Ei- r6, Marinaldo Santos, Ana Maria Alfonso, Emanoel Franco, Paulo Santos, Walter Pinto, J. Bosco, Biratan Porto, Ropi, Paulo Em- manuel. Tamb6m cederam obras de sua propriedade Iramar Rocha, Irawaldyr e Lafra Rocha, Elna Trindade, Paulo Martins, Otavio Aguiar Martins Gomes, Dulcelia Correa, Osvaldo Nasser Tuma, Maria Helena Barata, Angela Sa- les, Flavia Almeida, Paulo Elcf- dio, Tadeu Lobato, Rubens Silva, Fernando Castro Jr. e Vera, Cliudio Barradas, Andrea Feij6. Um journal que tem ao seu la- do pessoas como essas estA mais do que bem acompanhado: esta iluminado. Obrigado a todos voces. Busca do rastro O s dois comerciantes e os dois funcionirios pdblicos envol- vidos no epis6dio que resultou na more do fiscal de tributes Daniel Lira Mourio, em margo do ano passado, em Maraba, ja foram de- nunciados pelo Ministdrio Pdbli- co. Os comerciantes Roberto Raimundo de Alvarenga e Edfsio Brito da Mota e os fiscais Benja- min Valente do Couto Filho e Eu- ripedes da Costa Fonseca foram enquadiados nos crimes dc foi- magio de quadriiha e de sonega- g'o fiscal. Eles usavam carlmbos faisos para fazer passar gado pelo posto fiscal da Secretaria da Fazenda sem pagar imposto. O valor do tribute sonegado era dividido en- tre os fiscais Mas essa pratica rotineira nfo deu certo na passa- gem de uma partida de 21 reses porque Daniel estranhou (se 6 que desconhecia a manobra) a singeleza do carimbo, apreendeu o gado e mandou verificar a au- tenticidade dos documents. Aca- bou sendo morto, a mando do ex- deputado estadual (cassado) VavA Mutran. Com a remessa do process A Justiga, espera-se que perguntas amda nao respondidas sejam elu- cidadas em relacao k part pro- priamente tributAria do crime. E possfvel que as mesmas traudes continue a ser praticadas pela coincidencia de interesses que, no caso do fiscal Daniel Lira, entraram em confito. Volta positive A pesar da persegui~io aos seus editors, o journal Folha do Amap&, a mais important publi- cagio periddica do Estado, voltou a circular na primeira quinzena deste mns. A um absurdo que El- son Martins da Silveira e Antonio Correa Neto, seus editors, este- jam pagando um prego indevido apenas por fazer jornalismo, o que sempre foi muito diffcil no Amap6, satrapia do governor fede- ral que apenas teoricamente se tornou um Estado aut6nomo. Aqueles que exercem cargos pdblicos e alegam agir em nome da coletividade, ao se sentirem contrariados ou atingidos pelo noticiario da imprensa deveriam perguntar-se, antes de mais nada, com que tipo de journal e jorna- listas estio lidando. A biografia de cada um deveria ser o aval de seu valor. Jack Anderson, um dos prin- cipais jornalistas contempori- neos, alertava que a mAquina da democracia nio funciona bem quando nao soa o zumbido da oposigio. Esse barulho impede a falsidade de um silencio conve- niente e conivente, que deserve aos cidadios e alimenta as tira- nias. Conviver com a imprensa crftica deveria ser obrigagio im- posta As autoridades cor o mes- mo rigor do trato com o dinheiro pdblico. Infelizmente as duas condig6es tem sido desprezadas no Brasil. Ganha o AmapA com a volta A circulacio do journal de Elson e Antonio Correa. Mesmo quando errarem, estario prestando um servigo A sociedade local porque sio daqueles jornalistas que ten- tam acertar. AI6, leitor Os leitores tem se mantido ao largo dos dltimos ndmeros do Jornal Pessoal, mas as cartas continuam a ser bem recebidas na redagio. O JP circular na pr6xi- ma quinzena, mas nio na segunda quinzena de fevereiro. Rende-se B soberana dominacAo do rei Mo- mo, primeiro e dnico, a monar- quia que deu certo no Brasil, e aproveita para tratar da conzinha. Voltara na primeira quinzena de margo. Raz6es finals ames Vita Lopes ter toda a razAo num ponto da sua defe- sa: a investigagao policial nio esgotou a apuragao das informa- g6es indispensaveis A elucidagio do assassinate de Paulo Fonteles; e a Justiga nAo providenciou as diligencias necessArias para com- plementar o trabalho da polfcia. HA lacunas importantes na re- constituigio do epis6dio e na de- finigio da participagio dos per- sonagens principals. Na verdade, o process teria permanecido em providencial hi- bernagio naa Comarca de Ana- nindeua se James nao tivesse sido preso. Ele disse que se nio fosse inocente nao estaria no banco dos rdus do Tribunal do Jdri. NAo 6 verdade. Ele foi obrigado a vir para o distrito da culpa porque a Polfcia Federal foi obrigada a prend6-lo porque um procurador a acionou porque... Enfim, nada foi voluntArio, mas algumas circuns- tancias se materializaram casual- mente. Todos, exceto, natural- mente, os Fontelles, imaginavam que a hist6ria estava encerrada. ALUMINIO 0 metal aviltado uas fabricas em funciona- mento na Area incentivada do Program Grande Cara- jAs slo hoje responsiveis por 60% da produgio brasileira de alumfnio, que chega a 1,2 milhio de toneladas anuais. Slo duas unidades industrials de porte equivalent: a Alumar, de pro- priedade da maior empresa mun- dial de alumfnio, a americana Al- coa, cor uma das seiss irmis" do petr6leo, a Shell (por meio de sua subsidiaria, a Billiton), esti instalada em Slo Luls, no Mara- nhio, tendo produzido 358 mil toneladas de metal primirio em 1992; a Albris, fruto da associa- g o da Companhia Vale do Rio Doce cor o consdrcio japonds Naac, esta As proximidades de Bel6m e produziu 335 mil tonela- das no ano passado. Ambas as fabricas s6 comera- ram a operar na metade da ddcada de 80, competindo entire si para larger em primeiro lugar. Teori- camente, a Alcoa a princfpio sozinha em seu empreendimento - enfrentaria uma desvantagem: suas instalag6es estio tres vezes mais distantes da hidrel6trica de Tucuruf do que as da Albris, o que oneraria o custo de constru- gio da linha de transmission de energia, o principal insumo do negdcio. Mas esse inconvenient foi superado por uma providen- cial media adotada pelo entio ministro-chefe do Conselho In- terministerial do Programa Gran- de Carajs, o hoje deputado fede- ral Delfim Neto. Ele permitiu que as empreiteiras aplicassem ate 80% do que deviam de imposto de renda em projetos instalados na regilo. Foi a sopa no mel. A Cons- trutora Camargo Correa, respon- savel pelas obras de Tucuruf (custo de 5,4 bilh6es de ddlares, nio inclufdos os juros de em- pr6stimos), teve um lucro de aproximadamente 500 milh6es de d6lares. P6de desviar US$ 180 milh6es para a fibrica de alumf- nio de Sao Lufs. Mesmo sem ter qualquer patticipacio na socieda- de Alcoa/Shell, deu uma injegqo de Animo financeiro (A base da insuficiente poupanga national, transferida para ricas multinacio- nais) que nio s6 fez o empreen- dimento andar mais rapido, como possibilitou-lhe financial a cons- trucio, pela Eletronorte, de uma linha de energia de 900 quil6me- tros e se ressarcir desse gasto num encontro de contas cor sua fornecedora, aumentando a dife- renga de tarifa, a segunda menor do pafs. S6 nao 6 a primeira porque a Albras ocupa essa posigAo. A fat- brica de Barcarena ter desconto maior no fornecimento de energia (subsfdio que atingird um bilhio de ddlares em 20 anos de vigen- cia, dando de volta ao empreen- dedor mais de meia fibrica intei- ramente grdtis). A redugAo de ta- rifa proporciona outra vantagem: estA vinculada ao prego interna- cional do alumfnio. Se ele cai, para compensar o subsfdio sobe. Como a flexio de pregos ter sido sistematicamente negative no mercado mundial desde que as duas fdbricas comeraram a fun- cionar, o peso recai sobre o con- sumidor e poupador brasileiro, que nada pode fazer contra essa depressao, mantida por quem control efetivamente o mercado - e que nAo sAo os produtores. Sete anos atras, quando a Al- bras comerou a funcionar comer- cialmente, ainda havia cotaAio para a tonelada de alumfnio pri- mario em 1.800 ddlares. Atual- mente ela esta abaixo de US$ 1.300, diferenga reforgada pelo peso da inflagio mundial. Por is- so, embora o volume ffsico das exportac6es cresga, o retorno fi- nanceiro tenm sid menor nos dl- timeos tries anos. Na outra ponta da linha esta a tarifa: a Eletronorte recebe da Albris menos da metade do que Ihe custa gerar cada kw forneci- do. Inclufdo o custo financeiro, essa relagao passa a ser de um tergo. Jeitinho brasileiro A soma dos subsfdios dados aos japoneses associados A CVRD na Albras represent a devolugio de todo o capital de risco aplica- do no empreendimento, o maior na histdria do capital estrangeiro no pafs (menos de US$ 200 mi- ih6es) a cada dois anos. Nada mau, principalmente sabendo-se que a Amaz6nia cor energia de fonte hidrdulica abundante, a ter- ceira maior jazida de bauxita do planet, espago territorial dispo- nfvel e mao-de-obra barata ofe- rece condig6es de competitivida- de que rarfssima outra regiio apresenta. O alumfnio constitui a peCa- chave para a elucidagAo do papel que a Amaz6nia pode desempe- nhar numa economic industrial de dimens6es internacionais. De 750 mil toneladas de metal primario que o Brasil exportou no ano pas- sado (valendo pouco menos de um bilhio de ddlares), 45% se- guiram rumo ao Japio. Quase metade dessas 350 mil toneladas destinadas ao Japfo foi obtida na fibrica amaz6nica, supridora de praticamente 10% das necessida- des japonesas do metal. No fun- do, por6m, esse atraente neg6cio represent apenas o atendimento das carencias e lacunas do Japao. Impossibilitado de gerar energia adequada as fundi96es de metal, os japoneses buscam essa fonte a 23 mil quil6metros de distancia e conseguem um atendimento em condig6es at6 melhores do que nos vizinhos satdlites asiaticos. Para que essa relacio seja tio favordvel aos japoneses 6 neces- sdrio que seu parceiro saia per- dendo no balango final das contas (nio aquele dos r6seos discursos oficiais, evidentemente). No mo- mento em que a Amazonia se tor- na a principal fonte de supri- mento de alumfnio no Brasil, este 6 um tema que poderia interessar ao menos as elites e provocar al- go mais do que respostas para in- gles ver. 0 panorama de uma imensa fabrica que vende apenas lingotes de alumfnio, trocando empregos e divisas proporcionalmente meno- res por subsfdios cada vez mais pesados, abastecendo-se de um seus principals insumos, a alum, na. atravds de importacao, en- quanto ao lado envelhece o pro- jeto de uma outra fabrica capaz de tender essa necessidade, 6 uma realidade que agride a inteli- g&ncia dos paraenses, sua capaci- dade de mobilizagio para veneer situag6es adversas e compromete o que deveria ser o seu mais pro- missor future industrial. Journal Pssoa ititor respon~vel: Iucio Flvio Pinto Ilustraio: I ,uiz Pinio Rua Campos Sales. 2680.3 66.020 Fone: 223-1929 OpCSo Editorial Impreaso nas ocinasde Agranell Fditora, travels Alferes Costa, 1690. Belm. |
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