Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00080

Full Text






Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAV E L L C O F LAV PI NTO

Ano VI 0 N" 105 I1" Quinzena de Janeiro de 1993 Cr$ 5.000,00

DROGA


Veio para ficar

A Policia Federal de Sao Paulo conclui
que a rota da droga passa agora pelo
Norte e Nordeste. Mas o governor apenas
observa este novo grande negocio.


A dltima vez em que a polfcia
fez uma grande apreensio
de cocafna em Slo Paulo,
atd entio o principal ponto de
passage da droga pelo Brasil,
foi em julho de 1991. Os agents
federal encontraram 554 quilos
de cocafna dentro de um cami-
nhAo origindrio de Rond6nia. A
carga pertencia a um grupo su-
postamente liderado por Abdiel
Rabelo, irmfio do deputado Jabes
Rabelo, que perdeu o mandate
por ter dado irregularmente uma
carteira funcional da Camara ao
irmao.


Em dezembro de 1991 o em-
presario Bruno Meira Mattos foi
assassinado e a polfcia, A cata
dos criminosos, descobriu a rede
de traficantes escondida atras da
empresa de cAmbio de Bruno, ca-
paz de movimentar 100 milh6es
de d6lares ao ano.
Alguns meses depois a Polfcia
Federal fez a maior apreensio de
d6lares ilegais da histdria do
pafs: foram 3,95 milh6es, que
estavam dentro de um jatinho, em
Sio Paulo, fretado pelo paraense
Augusto Morbach. Logo depois
outro jatinho da mesma empresa


caiu no Mexico. Dentro dele ha-
via 1,1 tonelada de cocafna, a
maior apreensio da droga de to-
dos os tempos. Morbach apareceu
novamente na hist6ria. A Polfcia
Federal o acusou de lavar entire
200 e 300 milh6es de ddlares do
narcotrafico, mas nio consegue
impedir seus constantes v6os para
o exterior.
No ano passado, no Ceara, em
duas ocasi6es, foram apreendidos
quase 1.300 quilos de cocafna,
transportados em caminh6es.
Depois de todos esses regis-
tros, finalmente a Polfcia Federal






2 Jornal Pessoal


(a de Slo Paulo) chega a conclu-
sio de que a rota da cocafna pelo
Brasil mudou. Em vez de passar
por SAo Paulo, ela agora transit
pelos Estados do Norte e Nor-
deste antes de seguir para a Eu-
ropa e os Estados Unidos, vindo
da Col6mbia, do Peru e da Bolf-
via. A PF ja nio ter mais ddvida
de que os carteis de Medellfn e
de Cali estabeleceram conex6es
definitivas nessas duas regi6es.
Ou seja: ja nao se utilizam episo-
dicamente de intermediarios, mas
disp6em de associados perma-
nentes. A cocafna virou um neg6-
cio na Amaz6nia e o Pard parece
estar liderando-o, deslocando
Rond6nia.

Apesar da gravidade e da im-


portancia dessa situaqgo, as polf-
cias estadual e federal disp6em
de apenas 10 homes em suas di-
vis6es especializadas de combat
ao narcotrifico no Pard, que se
iimitam a fazer apreens6es isola-
das e dar combat a traficantes de
subdrbio. A PF, mais aparelhada,
inclusive cor lancha, doada pelo
DEA, fica imobilizada por nio
dispor de meios, as vezes nem
mesmo gasoline, para se deslocar.
A Marinha atua mais intensa-
mente no litoral, ponto constant
de passage dos traficantes, mas
nao se orienta a agir contra o tra-
fico de drogas e o contrabando,
que atuam juntos.

A investigation do "caso Bru-
no" ficou restrita ao assassinate,


sem nenhuma prova concrete de
autoria. Aparentemente, o Banco
Central nAo se interessou pela re-
velafio das contas fantasmas do
empresario em tr&s bancos parti-
culares, nem a Receita Federal
rastreou o fluxo de dinheiro para
o exterior, que poderia identificar
uma rede international. Tambdm
nao houve qualquer avanqo em
relagio aos fornecedores da dro-
ga, bolivianos estabelecidos em
Porto Velho e GuajarA-Mirim. A
polfcia e o governor como um todo
agem como se a droga ainda esti-
vesse no nfvel das "bocas-de-fu-
mo" da esquina. Por despreparo
ou malfcia, s6 vio tomar cons-
ciencia da amplitude do problema
quando ele jA esiver definitiva-
mente incrustrado na vida social.


BRASIL


Limpeza apenas parcial


A o contrdrio do que vive re-
petindo um comentarista de
televisio, o Brasil nao foi
passado a limpo cor a puniio de
Fernando Afonso Collor de Mel-
lo. Ficou impossfvel ele nio per-
der o mandate. Demorou tanto a
deixar-se convencer que nem
mesmo seu ato de rendncia, que
em outras circunstancias, atravds
de acordo polftico, poderia fun-
cionar como uma anistia informal,
conseguiu interromper o desejo
de cobrar suas responsabilidades
(ainda que sob o risco de atrope-
lar um princfpio de direito). Nun-
ca um president da Repdblica
cercou-se de pessoas tio inescru-
pulosas e incompetentes. A qua-
drilha de Alagoas montada no
Palacio do Planalto esta sendo
processada pelo que fez e, so-
bretudo, por ter feito mal.
Se as ilicitudes e ilegalidades
cometidas sob o manto (que ele
tentou fazer crer a opinifo pdbli-
ca ser alvo) do president foram
apontadas, estao sendo cobradas
e promete-se que serio punidas,
Collor nio estara sem razio se
perguntar a seus algozes: e os
outros, nio irio juntos? Sd ele
dilapida os cofres pdblicos? S6
ele serve de biombo para arrom-
badores do patrim6nio da naqio?
S6 o nome dele 6 usado no mer-
cado de agenciamento de trafi-


cantes de influencia?
Talvez Collor tivesse imagi-
nado que fazer tais questiona-
mentos seria o bastante para imu-
nizA-lo. Ignorou o grau de revolta
que as cfnicas intermediag6es da
troupe de Paulo C6sar Farias pro-
vocou na sociedade, como se esse
estado de espfrito nada mais fosse
do que manipulaqio, especialida-
de do ex-presidente. O fim (ao
menos temporario; o inconsciente
coletivo brasileiro 6 uma insupe-
ravel fonte de surpresas) jd esta-
va escrito ha bastante tempo nas
estrelas, que Collor nio via, pro-
vavelmente ofuscado pelo seu
prdprio brilho de estrela que ima-
ginava ser.

Mas depois dessa original re-
ndncia, o povo brasileiro bem que
poderia olhar para os escal6es
intermedifrios da administration
pdblica e repetir, cor legitimida-
de, a pergunta de Collor. Muitos
esquemas de assalto ao dinheiro
do contribuinte continuam nao
apenas intocados, mas em plena
atividade. Os mais not6rios, como
o das empreiteiras, terio que pas-
sar por uma reclusio compuls6ria
temporaria. Mas esquemas de me-
nor amplitude e de dimens6es lo-
calizadas passam ao largo dessa
revisio complete que o jornalista
Boris Casoy vive anunciando,


como se fosse um bordio de tele-
visao.
Os "fantasmas" que interme-
diavam o ingresso e a safda de
dinheiro ilfcito para financial
despesas do president e seu gru-
po foram materializados pelos es-
quadr6es parlamentar e policial.
Mas esse nAo era um recurso ex-
clusivo da alianca Collor/PC.
Enquanto o president renuncia-
va, completava um ano o assassi-
nato de um jovem empresarios pa-
raense que comandava "fantas-
mas" em tres agencies bancarias
em Belrm.
O negdcio de Bruno nao era
trafico de influencia, mas de dro-
ga mesmo, uma atividade que
neste ano devera render, em toda
a Amaz6nia, entire 400 e 500 mi-
lh6es de d6lares, valor equiva-
lente ao do comdrcio clandestine
de ouro. Assim, o rendimento do
esquema PC em dois anos e meio
de usufruto equivale ao fatura-
mento dos dois principals neg6-
cios paralelos da Amaz6nia.
Nio por acaso, o ano termi-
nou na regifo cor a renovagio de
um de seus acontecimentos mais
traumaticos: os garimpeiros volta-
ram a invadir a reserve dos fndios
Yanomami, em Roraima, atras de
ouro.
0 pafs pode ter melhorado,
mas nio foi todo passado a limpo.






lornal Pessoal 3


POLITICAL


Velho estilo na PMB


E m meio a alguns fogos de
artiffcio que andou dispa-
rando, de efeito meramente
pictdrico, o ato de maior impact
dos primeiros 15 dias de Helio
Gueiros na prefeitura de Beldm
foi a intervencgo no Pronto So-
corro Municipal. Um antigo di-
retor do PSM, o mddico Cl6vis
Meira, vencendo o foguet6rio
promovido no pr6prio journal onde
escreveu, 0 Liberal, em torno da
providencia, reduziu-a a seu
exato significado ao comentar
que "nao cabia intervir, mas exo-
nerar quem estava na diregio e
nomear" outro director.
Teria que ser assim se a in-
tervencio nAo tivesse outros ob-
jetivos alem dos identificados por
Meira em seu artigo dominical.
Uma intervenqio ter mais reper-
cussio sobre a opinido pdblica do
que uma mera troca de diretores.
Homem de marketing, o ex-go-
vernador quis conquistar simpatia
popular para um suposto ato de
moralizacio.
Aparentemente, a decision de
Gueiros de intervir no PSM teria
surgido no moment em que vi-
sitou o local e se disse escandali-
zado corn o descalabro ali exis-
tente. O secretario de sadde,
Willy Trindade, s6 soube da me-
dida quando ela jA havia sido
anunciada pessoalmente pelo pre-
feito. Mas o ex-governador con-
tactara previamente cor o coro-
nel Walter Monteiro, que assumiu
logo em seguida ao andncio. Nio
foi reacio sdbita, mas aqio de ca-
so pensado para ganhar aprova-
9go popular.

0 estilo e o home

Nao sd isso, pordm. A inter-
venglo ter um apelo emotional
mais forte, favorecendo a capta-
gdo de recursos junto a fontes
externas. E possui um glamour
que fascina Hdlio Gueiros: afasta
procedimentos burocrAticos, justi-
ficando a dispensa de licitafio
pdblica por se tratar de situaqio
de emergencia. Uma das princi-
pais caracterfsticas da adminis-
tragio Gueiros no Estado foi
justamente essa informalidade,
que lhe permitiu agir mais rapido
(e tambbm favorecer empresas
amigas).


A situaqgo de pendria do PSM
nao foi um efeito repentino de um
fen6meno de dltima hora, mas o
produto inevitAvel e absoluta-
mente previsfvel da falta de
atenqio da secretaria de sadde do
municfpio na gestio August- Re-
zende. Minimamente informado
sobre a condigio da prefeitura
que iria receber, Hl6io Gueiros
estava mais do que ciente da ne-
cessidade de modificar o trata-
mento em relagio ao PSM, a en-
grenagem municipal de maior
sentido social no cotidiano da ci-
dade. Mas se o espalhafato deu
certo no governor do Estado, terd
que oferecer os mesmos efeitos
na prefeitura para um polftico que
jA esta de olho na prdxima elei-
qao.
Foi assim quando Gueiros as-
sumiu o governor do Estado e de-
signou um military sisudo para ser
o interventor na Fbesp (Fundaqio
do Bem-Estar Social do Para),
como se ele fosse um salvador,
um divisor de Aguas. Corn acui-
dade, o m6dico Cl6vis Meira dis-
se que seus colegas e todas as
pessoas do PSM deveriam 6 ser
elogiadas pela disposiqio de tra-
balhar em uma instituiqio hospi-
talar inteiramente desaparelhada
"e nio mandadas embora atravis
de um ato de intervenqao corn
nomeaqio de ex-militar, embora
m6dico, para ocupar o cargo 'ma-
nu military"'.
O novo director, um coronel da
reserve, criou nome ao adminis-
trar o hospital do Ex6rcito em
Beldm, mas as circunstfncias de
sua indicango para o novo cargo e
as naturezas distintas das duas
instituiq6es podem servir de com-
plicador A sua tarefa, como ocor-
reu em relaqio ao coronel Her-
cules Silva, da reserve da Polfcia
Military, em relaqio A Fbesp.
A image pode ter mudado A
custa de bastante maquilagem,
mas o estilo Hdlio Gueiros per-
manece o mesmo "pesporren-
to", segundo os adversarios, "di-
reto", segundo o ex-governador.
u um estilo nada modern, apesar
das tinturas providenciadas por
sua assessoria, mas tem seus
efeitos numa sociedade pobre,
quase indigente, como a paraen
se.


Gueiros, por exemplo, tratou
de dispensar todos os ocupantes
de cargos de assessoramento su-
perior do municfpio, gerando um
princfpio de panico entire os que
nio estAo acostumados a esse es-
tilo caudilhesco de exercer cargos
pdbiicos. Qualquer um dos deses-
perados funcionirios podera vol-
tar para seu cobicado lugar, des-
de que se enquadre sob o novo
comando e Ihe faga um simbdlico
juramento de fidelidade.

Alianqa compuls6ria

Hdlio Gueiros quer montar
uma mdquina fiel para servi-lo na
dispute eleitoral que estA em sua
cogitaqio para dentro de um ano
e meio. Se nAo tern o Estado, tern
o segundo maior bulldozzer ofi-
cial, que A a PMB. Assim, foi
buscar junto aos antigos auxilia-
res os integrantes da linha de
frente municipal, dividindo zonas
de influencia entire seus maiores
aliados, dentre os quais pontifica,
cada vez mais eminencia parda, o
filho, Paulo Gueiros, que conse-
guiu deslocar um pouco o advo-
gado Frederico Coelho de Souza,
uma das raras pessoas que conse-
guem se fazer ouvir por HOlio
Gueiros.
Mas o ex-governador colocou
uma pessoa de sua confianga, re-
putada de sdria, na estrat6gica
Ctbel, a companhia municipal de
transport coletivo, que lida cor
os donos de um dos maiores ne-
g6cios da cidade, o dos 6nibus.
Nesta seara nervosa (e rendosa),
o prefeito vai comandar pessoal-
mente as engrenagens.
Talvez ele tivesse que quedar-
se imobilizado se seu antecessor
nio lhe tivesse transferido um ra-
zoavel saldo de caixa, de 41 bi-
lh6es de cruzeiros. A heranga po-
deria ser considerada uma prova
da harmonia entire o prefeito que
saiu e o que entrou, mas nao foi
bem assim.
Dinheiro aflorou em maior
quantidade porque superou as ex-
pectativas o fluxo de contribuin-
tes que saldaram no dltimo mo-
mento seus ddbitos corn o IPTU,
a principal fonte de receita tri-
butgria de Beldm. Mas tambrm A
dltima hora o governador Jader






4 J ornal Pessoal


Barbalho transferiu para a conta
municipal 13 bilh6es, segundo
algumas verses, ou 20 bilh6es
de cruzeiros, de acordo com ou-
tras fontes, de pendencias entire
os dois governor. O prefeito Au-
gusto Rezende ja nao teve mais
tempo para gastar esse dinheiro,
deixando-o no cofre. P6de entao
declarar que o fez espontanea-
mente.
A transferencia da verba do
Estado suscitou especulaq6es. O
governador Jader Barbalho soltou
o dinheiro porque nio tinha al-
ternativa melhor (a outra, a de
fazer o repasse diretamente para
Gueiros, era pior)? Ou o objetivo
foi mesmo o de emitir um sinal de
boa vontade na diregio do ex-
amigo e atual inimigo, por provi-
denciais linhas indiretas, que nio
comprometem? Se a segunda hi-


pdtese deve ser a escolhida, ou-
tros indfcios nesse sentido se se-
guiram. Gueiros e Barbalho repe-
tiram declarag6es de entendi-
mento, a disposicao de trabalhar
coletivamente apesar de suas
abissais diferengas pessoais -
uma inovagao em relagio ao cli-
ma de campanha.
O entendimento d justificado
pelo program de macrodrenagem
das baixadas. O Banco Interame-
ricano de Desenvolvimento sd da-
rd o sinal verde para o infcio da
liberag~o de 145 milh6es de d61a-
res (naturalmente, quando a
Unilo avalizar a operagao, o que
depend da renegociacao de dfvi-
da estadual no valor de US$ 80
milh6es junto ao Banco do Bra-
sil) se o trabalho for conduzido a
quatro maos por Estado e Muni-
cfpio. A contrapartida national 6


totalmente de responsabilidade
estadual, mas a filosofia do pro-
grama exige a harmonia das duas
administrag6es pdblicas. Sem ela,
faltard dinheiro para fazer obras
- e, naturalmente, combastfvel
para manter as empreiteiras ami-
gas em funcionamento.
A aproximagio pode ser, as-
sim, apenas utilitaria para o fim
de internalizar os preciosos d61a-
res. Mas cesteiro que faz um
cesto faz um cento. Depois que (e
se) voltarem a conversar, Jader
Barbalho e H6lio Gueiros podem
chegar A concluslo de que pouca
coisa os separa e que a velha ma-
xima das raposas polfticas deve
ser post em agio: se nfo se pode
veneer o inimigo, o melhor 6
aliar-se a ele. E mais uma vez o
boi estara voando sobre o trans-
Idcido cdu dos paraenses.


SEPARATISM


A Federaqao ficticia


O s parlamentares convocados
pelo entio president Josd
Sarney para elaborar a nova
Constituigio brasileira receberam
uma pauta que exclufa previa-
mente de sua apreciagao um tema:
a Federacio. Os constituintes po-
deriam mexer em tudo, menos na
forma federativa em que o Brasil
se acha administrativamente or-
ganizado. Estranhamente, nio
houve qualquer reagio contra es-
sa attitude imperial, talvez pelo
pr6prio carter da Assembl6ia
Nacional Constituinte, derivada
do poder executive.
Mas ja na 6poca a Federagao
brasileira claudicava. Desde en-
tao, suas insuficiencias e inade-
quag6es vem se manifestado corn
enfase crescente. E tudo indica
que o tema sera ainda mais can-
dente em 1993, um ano de refor-
ma constitutional cor a perspec-
tiva de ampliar-se tanto a ponto
de poder gerar quase uma nova
Constituicgo, agora seletiva (os
pontos verdadeiramente impor-
tantes 6 que serao tocados).

Condiges desiguais

O princfpio federative, en-
tretanto, nao estard apenas na
agenda do parlamento. O gover-
nador do Rio Grande do Sul, Al-
ceu Collares, recorreu ao Supre-


mo Tribunal Federal, no final do
ano passado, suscitando a in-
constitucionalidade do artigo 45
da Constituiaio de 1988. Esse
dispositivo estabelece um mfnimo
de oito e um maximo de 70 repre-
sentantes por Estado na Camara
dos Deputados. Por causa dessa
norma, diz o governador gadcho
em um document ("A Federacio
Mutilada") que sustentou sua
agao judicial, enquanto apenas
9.128 votos elegem um deputado
federal em Roraima (ou 14.768
votos no Amapa), no Rio Grande
do Sul sao necessarios 183.866
votos para assegurar ao Estado
uma cadeira na Camara Federal.
Segundo Collares, tal situaaio
colide com o artigo 5 da mesma
Constituigio, que garante a
igualdade de todos perante a lei,
e o 142, que estabelece que a so-
berania popular "serd exercida
pelo sufragio universal e pelo
voto direto e secret, com valor
igual para todos". Entende assim
que a limitaaio de 70 deputados 6
inconstitucional e injusta, impe-
dindo os Estados mais populosos
e mais ricos de ter uma bancada
parlamentar que express fiel-
mente sua grandeza relative.
O document do governador
gadcho argument que enquanto
as regi6es Norte, Nordeste e
Centro-Oeste, cor um PIB de 86


bilh6es de ddlares e populacAo de
61 milh6es de habitantes, con-
trolam 54,2% da Camara, o Sul e
Sudeste, com PIB de US$ 291
bilh6es e populagao de 84 mi-
lh6es de habitantes, tnm que se
contentar cor 55,8% das cadeiras
de deputados federal.
Por causa desse desbalancea-
mento, o Rio Grande do Sul, com
8% do PIB national e 6% da po-
pulagao brasileira, s6 obteve 3%
dos investimentos nacionais. A
Bahia recebeu, do orgamento fis-
cal e de seguridade social, oito
vezes mais recursos do que o Rio
Grande do Sul, relagao de dois
para um em mat6ria de verbas ro-
doviarias destinadas aos dois Es-
tados.

Questionamento ampliado

Embora o Rio Grande do Sul
tenha sido at6 aqui o dnico a re-
clamar em jufzo do que classifica
de distorq6es do federalismo (a-
proveitando, muito gauchamente,
para lembrar que em 1835 e em
1930 se insurgiu exatamente por
causa de situagao analoga, amea-
gando desencadear uma seces-
sao), muitos outros Estados pode-
riam fazer queixa semelhante.
Comegando pelo crit6rio da
representatividade polftica, esse
tipo de raciocfnio, apesar de de-






Journal Pessoal 5


fender a isonomia, esquece que
desiguais tem que ser tratados de-
sigualmente, ja que a igualdade,
nao sendo uma realidade, 6 uma
meta, princfpio tao universal
quanto a igualdade de todos pe-
rante a lei. A eliminaqfo do li-
mite maximo de cadeiras por Es-
tado proporcionaria o agrava-
mento das distorg6es ja existen-
tes, que nao permitem a todos
dispor de iguais condig6es porque
o ponto de partida de alguns esta
muito al6m do da maioria.
Os desnfveis regionais tem 6
se acentuado, contrariando o ob-
jetivo estabelecido nas dltimas
Constituig6es, formalmente ino-
vadoras na apreciagao da chama-
da questiono regional". Cresce,
apesar de tudo, a distancia entire
os mais ricos e os mais pobres
Estados da Federacao, ainda que
efetivamente as regi6es Norte,
Nordeste e Centro-Oeste dispo-
nham, a nfvel polftico, de peso
muito maior do que desfrutam em
qualquer outra forma de partici-
paaio na vida national.

Visio curta

O problema 6 o despreparo
das elites polfticas dessas re-
gi6es, marcadas pelo fisiologismo
e a visAo curta, por um vfnculo
que raramente vai alem do cfrculo
mais fntimo que viabiliza suas
eleig6es. Aldm disso, o governa-
dor Alceu Collares e outros de-
fensores da mesma tese criam
uma falsa unidade quando se re-
ferem ao Norte, Nordeste e Cen-
tro-Oeste como se formassem um
bloco s6, monolftico e harm6nico.
Essa 6 uma ideia bem distant da
realidade, escamoteando as riva-
lidades e dissenc6es que existem
entire e mesmo intra as areas mais
pobres do pafs.
Norte e Centro-Oeste estio
sempre a reclamar do panzer nor-
destino, cuja agressividade e efi-
ciencia fez o Brasil dual de Jac-
ques Lambert se dividir mais um
pouco, distanciando a fronteira
da zona intermediaria nordestina,
ja capaz de desempenhar uma
fungao complementary entire o
Centro-Sul e as areas de expan-
sao econ6mica e, no piano po-
lftico, em diversos moments
quebrando a hegemonia da vonta-
de sulista (cujo calo, af sim, d6i
muito).
A Federaago, num pafs conti-
nental como o Brasil, artificial-
mente unificado por essa abstra-


gio que d a lfngua national, de-
veria ser post em questao na re-
visao que os parlamentares fario
na Constituigio. Poderiam expur-
ga-la do veto presidential que,
como em outras circunstancias,
manchou sua legitimidade e auto-
nomia.
O Brasil tem que dispor de
maturidade para ver a realidade e
coragem para buscar uma solucao
que nio a conventional, ou tradi-
cional. A uniao de pontos extre-
mos, do setentriao amaz6nico a
zona meridional gadcha, 6 possf-
vel apenas no pano da bandeira e
nas imagens da ret6rica. A ini-
ciativa dos gadchos pode servir
para acabar com a letargia, mas
s6 sera saudavel se nao permane-
cer solitaria.



0 grande

negocio


e as coisas seguirem os rumos
que algumas fontes anunciam,
o governador Jader Barbalho po-
deria consumer neste ano a maior
realizagqo de sua administragao:
a obtengao de um bilhio de ddla-
res para obras de investimento no
Estado. O dinheiro viria de ban-
cos arabes, que estariam preci-
sando descarregar lucros para
evitar o pagamento de imposto de
renda, na inacreditavel forma de
recursos a fundo perdido (que,
portanto, nao serao devolvidos
pelo beneficiario ao aplicador).
Toda a negociaqio com os
agents internacionais estaria
sendo conduzida por uma empresa
de assessoria de Brasflia, que
ofereceu o neg6cio aos governa-
dores que tomaram posse em
1991. Jader Barbalho teria sido o
dnic- a se interessar, embora nao
esteja afastada a possibilidade de
participaqgo do ex-governador de
Sao Paulo, Orestes Qu6rcia, na
intermediaaio.
O dinheiro serviria para per-
mitir a interligagio rodoviaria
dos municfpios paraenses da mar-
gem esquerda do rio Amazonas, a
construgao das pontes de con-
creto da PA-150, o asfaltamento
da Transamaz6nica, da Santar6m-
Cuiaba e da BelCm-Brasflia/Ma-
raba, a hidrel6trica de Aparaf e
outras obras. O peso rodoviario
colocou A frente dos entendi-
mentos o secretario Antonio Bra-
sil.


Um crime

no escuro


ram 12 horas do dia 11 de de-
zembro quando Pedro Paulo
da Silva Macedo Jr., 20 anos,
estudante, estacionou seu Santana
85 bege na Oficina Auto Desem-
penadora Iraja. Ao seu lado esta-
va Andrd Pires Margalho, tambem
estudante, de 17 anos. Eles cha-
maram Carlo Rodrigo, de 16, que
trabalhava na oficina. Carlo en-
trou no carro e foram embora.
Meia hora depois Pedro e Andrd
voltaram para informar Alcenir
Lima da Conceigao, dono da ofi-
cina, que seu sobrinho morrera.
Ao praticar a roleta russa, Carlo
teria se matado cor um tiro de
revolver.
Essa mesma hist6ria foi con-
tada aos policiais da Divisao de
Crimes contra a Pessoa, mas nin-
gu6m acreditou nela.. O tiro que
matou Carlo partiu de cima para
baixo, toi disparado de uma dis-
tancia mfnima de 60 centfmetros e
o atingiu de frente. Essas caracte-
rfsticas, levantadas pela perfcia,
nao se ajustam a um suicfdio.
Mas a mesma perfcia, feita pelo
Institute Medico Legal, plantou o
paradoxo ao concluir, pelo exame
de parafina, inexistirem marcas
de pdlvora nos tres rapazes que
estavam no carro.
Da investiga~ao resultou co-
mo muito mais plausfvel a hip6te-
se do homicfdio. Mas se Pedro e
Andr6 nao fizeram os disparos,
quem matou Carlo Rodrigo? E se
alguma das fontes de informag6es
nao express a verdade, quem
estarA mentindo? E por que?
O caso poderia ser apenas
mais um de adolescents que
tentam conseguir vida mais facil
e divertida sem maior esforgo, as
vezes atropelando princfpios 6ti-
cos e morais, ocorrencia tao co-
mum na realidade quanto nas no-
velas com padrAo global. Mas a
hist6ria pode envolver tambdm
tentative de usar influencia para
prejudicar a aglio da polfcia ou
dirigi-la para finals convenientes.
De qualquer maneira, ha um de-
talhe de valor instrutivo nesse en-
redo de tragddia: talvez houvesse
testemunhas da morte se o carro
nao tivesse pelfcula escurecendo
seus vidros. Um bom motive para
o Detran cumprir imediatamente a
lei.






6 Jornal Pessoal


Um agent

especial

O advogado James Silvio de
Vita Lopes, paulista, 45 anos,
que ird a julgamento no dia 22,
em Ananindeua, acusado de ter
organizado o atentado que resul-
tou na morte do ex-deputado es-
tadual Paulo Fonteles, em 1987,
era informant do extinto SNI
(Serviqo Nacional de Informa-
96es) e da 8V Regiio Militar, em
Beldm. Ele era um informant
"A-3".
No "sistema de avaliaqio da
fonte e da veracidade do Infor-
me" que o SNI adotava, a letra A
era o indicative de "fonte abso-
lutamente id6nea" e o ndmero 3 o
indicative de "Informe possivel-
mente verdadeiro". Jd para o
Exdrcito, o informed codificado
como A-3 "6 aquele tido como
possivelmente verdadeiro, mas
nro confirmado".
A revelag~o da condigio de
informant de Vita Lopes s6 foi
possfvel porque ele, atravds de
seu advogado, solicitou ao juiz
responsavel pelo inqudrito sobre
a morte de Fonteles para que,
entire as dilig6ncias, a Secretaria
de Assuntos Estratdgicos (SAE,
que substituiu o SNI) e a 8- Re-
giao Militar fossem consultadas
para esclarecer se "os informed
que foram emitidos cor a codifi-
cagdo alfanum6rica A-3, pelos
diversos 6rgios de seguranqa,
significava informede nio-confir-
mado"'. A consult foi um artiff-
cio para o advogado insinuar sua
condicio, sem precisar declard-la
-xplicitamente.
Tanto o SNI quanto o Exdr-
cito consideravam Vita Lopes
uma fonte preciosa de informed
sobre a situaqio no meio rural no
ParA e quest6es de seguranga no
Estado. Certamente essa condiqio
o estimulou a prestar muitos ser-
vigos aos dois 6rgios e, em se-
guida, a criar uma empresa de se-
guranga, a J. V. Seguranca Priva-
da, utilizada por fazendeiros e
empresas de mineragio para
manter o control sobre areas co-
bigadas ou litigiosas.
A seguranga de Vita Lopes
era tao ampla que ele nio titu-
beou em procurar o Comando da
8V Regiio Militar para reclamar
do roubo que havia sofrido de
uniforms de campanha e grana-
das, um pouco antes do assassi-


nato de Fonteles. Comunicou a
ins6lita ocorrancia, pediu provi-
dencias e saiu tranquilamente do
quarter, como um frequentador
usual do local. Personagem me-
nos considerado talvez tivesse fi-
cado ali para explicar o porte de
arma privativa das Forgas Arma-
das.
Vita Lopes, por6m, tinha
consciencia de que era algudm
especial. Nio apenas por ser ad-
vogado atuando num meio marca-
do por personagens rdsticos, co-
mo por suas ligaq6es e relacio-
namentos. JA preso no 6" Bata-
lhio da Polfcia Militar, em Be-
16m, ele conseguiu juntar aos
autos do process 110 declara-
;6es de 6tima conduta moral e
funcional, arrecadadas sobretudo
em Braganga Paulista, interior de
Sao Paulo, sua terra de origem,
no comdrcio, nos centros de ensi-
no e atd mesmo na Igreja.
Contra ele hd muitas evid6n-
cias, mas nenhuma prova material
diretamente acusatdria, o que tal-
vez seja o element chave da de-
fesa que um escritdrio de advoca-
cia de conceito monitor a partir
de Sio Paulo. A acusaqio feita
contra ele nio o caracterizaria
como executor, nem como man-
dante. Ele seria um organizador,
dotado de capacidade suficiente
para apagar os elos de compro-
metimento com as duas etapas ne-
cessArias de um atentado.
Nas peas acusat6rias, Vita
Lopes aparece como um interme-
didrio volatizdvel, d- natureza
especial. Certamente por isso nio
estard s6 quando sentar perante o
Tribunal do Jdri de Ananindeua
no dia 22.


A justiqa

adequada

ano de 1993 comega no Forum
de Belem com uma notfcia al-
vissareira: a distribuigio de pro-
cessos no Tribunal de Justiqa do
Estado passard a ser feita por
computador, como ji ocorre em
relagio as varas cfveis e crimi-
nais. Corn o sistema criado pelos
tdcnicos subordinados A diretora
do Forum, Maria Helena Ferreira,
acaba a manipulag~o dos proces-
sos, mais conhecida nos bastido-
res forenses por "efeito Calis-
trato", que ainda permanecia co-
o uma fonte paralela de poder
no TJE. Apenas o acaso (e a sor-


te) influird no caminho que as
demands judiciais irio seguir
entire os 21 desembargadores,
como jA acontece cor os demair
jufzes.
Durante mais de uma hora vi
e pude questioner & vontade a in-
formatizagio do Forum, numa de-
ferencia da jufza Maria Helena e
de seus auxiliares. O sistema pa-
rece ser o melhor do pafs, equipa-
rdvel a seu modelo, do Rio Gran-
de do Sul. Nio apenas garante a
rapidez no funcionamento da
Justiga, como Ihe dA a condigio
basica de lisura e respeito para
que as aq6es tramitem sem vfcio
j& na origem. A manutengao des-
sas saneadoras caracterfsticas de-
pende, a partir daf, dos pr6prios
magistrados.
Eles j4 nao podem mais se
queixar de falta das condic6es
elementares para trabalhar mais e
melhor. Sio os funcionarios pd-
blicos mais bem pagos do Pard,
disp6em de uma carreira e de uma
estrutura que ja & razodvel. A so-
ciedade, responsavel, em dltimo
caso, por existirem essas condi-
c6es, deve cobrar cor rigor para
que se fara a seleaio dos melho-
res.
Mas sd bem informada a opi-
niao pdblica poderA fazer a co-
branga. A imprensa, important
nessa tarefa, cobre intensamente
a eleiaio do governador, o chefe
de um dos tres poderes, mas dd
bisonha atengao A eleigio do pre-
sidente do TJE, chefe de outro
poder. Quando nio funciona, a
Justiga emperra os demais pode-
res e ter sido uma das causes
principals da descrenqa dos cida-
dios em solug6es arbitradas, a
espinha dorsal das democracies
(como Franz Neumann mostrou,
brilhante e exaustivamente, no li
vro classico sobre a ascensao do
nazismo, Behemoth). Mesmo boi-
cotada, a Justiga pode sobreviver.
Mas se boicota aniquila as possi-
bilidades de uma vida decent
entire cidadios.

A lembranga
Foram poucos, mas foram sin-
ceros e varios gentis aldm
da conta. A eles, sem indicagio
de nomes, a retribuigio dos de-
sejos de boas festas de natal e
ano novo, com a esperanga e, tal-
vez, a convicfio de que o regis-
tro da lembranga 6 um atestado da
perman8ncia da amizade. O muito
obrigado do Jornal Pessoal.







ornal Pessoal 7


Walter:

procura-se
Smaior intdrprete de mdsica
popular no Pard fez fama,
deitou na cama e, nos dltimos
anos, tem se dedicado a desman-
chA-la por enfado ou capricho. JA
foi-se o tempo em que se podia
desfrutar da voz poderosa, da
criatividade e da sensibilidade de
Walter Bandeira, gratuitamente
ou pagando. Agora, esses raros
atributos do cantor sAo sovina-
mente oferecidos em fugazes mo-
mentos intervalares de seus co-
metimentos musicals, quando ele
se permit despojar-se da mascara
que incorporou como auto-defesa
ou arma de ataque ou quando
escapa A confusa autoria (griffe?)
que decidiu assumir como margi-
nal em relagio a uma margem que
ja nio parece conseguir identifi-
car.
No seu dltimo espetaculo, 50
Caetanos, apresentado em duas
temporadas at6 o final do ano
passado no Teatro Margarida
Schiwazzappa, Walter Bandeira
conseguiu ser o mais Walter dos
Caetanos, tio desligado da inspi-
ragio que talvez tenha feito seus
fieis admiradores concluirem que
a apresenta-io esteve mais para
Cauby Peixoto do que propria-
mente para Caetano Veloso.
Cauby, ao menos, 6 uma voz. In-
felizmente, no caso, Walter 6
mais do que isso: d uma pessoa
inquieta, disposta a ultrapassar
barreiras, como faz agora, lan-
gando-se e bem A pintura.
Mas ser criativo, radical ou re-
belde por compulsio enrijece o
que deveria ser espont&neo, flui-
do, natural. Cria o tipo e talvez
nio deixe nada atrAs desse tftulo
por lamentavel mutilagio pessoal.
Nas 21 interpretag6es, emba-
lado por arranjos muitas vezes
equivocados, Walter fez emposta-
gio de voz, descain pelas notas
musicals, voou pelas dissonantes,
mas nio realizou a revisit que
maravilhosamente Caetano cos-
tuma fazer pelo assim chamado
cancioneiro musical, emprestando
a velhos e surrados models uma
roupagem que tanto 6 nova, co-
mo, sobretudo, 6 melhor. Em
Walter o ator parece predominar
sobre o cantor e este vai i mar-
gem da margem, uma temeridade
quando se trata de Caetano.
Obrigado a permanecer em
Bel6m, quando suas exigencias


mais fntimas e seu talent exube-
rante exigiam fronteiras mais lar-
gas (mas tamb6m testes mais rigo-
rosos, dos quais fugiu por ama-
z6nica leseira), Walter Bandeira
fez do pdblico um detalhe. O pd-
blico, ciente da qualidade do ar-
tista por tabela, sem saber como
comportar-se diante da estreia
acabou refletindo-a, cor empo-
brecimento mdtuo, numa desas-
trada relaqio entire vanguard e
audit6rio.
JA que os outros nao conse-
guem quebrar esse cfrculo vicio-
so, tecido pela mfdia e costurado
pela ruminante postura provincia-
na que a maioria adota, resta-nos
a esperanga de que o pr6prio
Walter encontre o descanso do
guerreiro, jogue fora a mascara e
recomece, ouvindo mais a si
mesmo do que ao pdblico que nao
o interessa. Talvez se isso ocor-
rer o prazer de ouvir e ver Walter
Bandeira volte a se tornar pleno e
natural.
Num espetAculo de alto nfvel
professional, no qual a estrela
mAxima nao exp6s ao risco de
ruina a cuidada producho, cabe
um registro indispensavel: final-
mente a mdsica brasileira tem um
sax de qualidade soprado por uma
mulher. Edilza 6 a autora da fa-
ganha. Que o mimo dos paraenses
nio limited o percurso que certa-
mente ela precisard fazer, 6 o de-
sejo de quem passou a admira-la
tanto quanto gosta e espera con-
tinuar a admirar Walter Bandeira.

Uma regiao

sem hist6ria

E pecializada em assuntos
ecol6gicos, a jornalista Liana
John, de O Estado de S. Paulo,
escreveu a seguinte resenha sobre
meu livro Amaz6nia, a fronteira
do caos, que o Jornal do Brasil
arrolou entire "os livros mais in-
teressantes com que as editors
hrindaram o pdblico em 92":

R aramente a Amaz6nia e retra-
tada pelos amaz6nidas. Na
*-fdia e nos livros prevalecem as
descriq6es dos "estrangeiros". de
outros pafses ou de outros Esia-
dos do Brasil. "Amaz6nia. a
fronteira do caos" 6 uma exce-
qio. O livro recupera algumas das
centenas de palestras proferidas
entire 1970 e 1990 pelo jornaiista
paraense Ldcio Flavio Pinto,
editor do Jornal Pessoal, uma


newsletter quinzenal sobre a
Amaz6nia, cujo editorial tambdm
6 distribufdo pela Agencia Esta-
do.
Ldcio Flavio fala cor a pro-
priedade de quem viveu seus 42
anos envolvido cor os problems
da regiio. Ele comecou na carrei-
ra jornalfstica como reporter, em
1966, e foi correspondent em
Bel6m de O Estado de S. Paulo,
Veja e Realidade, al6m de outros
jornais regionais. Gradualmente,
a indignaqio transformou suan
reportagens em editorials e ele
passou a ser requisitado para fa-
lar em seminarios, cursos e con-
gressos, inclusive no exterior.
0 texto do livro agora lancado
reflete a indignagio que o levou A
militincia em prol de um destiny
menos destrutivo para a Amaz6-
nia.
O estorgo do Governo Federal
e dos empresirios de outras re-
gides em adaptar a Amaz6nia as
necessidades do Centro-Sul ou ao
modelo econ6mico exportador 6
criticado pelo autor com ndmeros
e uma versao hist6rica diferente
da official. Ldcio FlAvio insere as
crises da borracha, a implantagio
das grandes minerag6es, a cons-
trugio das grandes hidreldtricas,
as grandes quest6es amaz6nicas
num context social dificilmente
abordado nos pianos regionais de
desenvolvimento. Chega a apon-
tar, em algumas pAginas, solug6es
mais integradas a hist6ria e ao
conhecimento dos moradores da
floresta.
Mas transmite tambdm a sen-
saqio de impotencia de quem as-
siste a mudangas inevitaveis sem
poder alterar os vetores de trans-
formaqio. Nas palavras do prd-
prio autor, "Alguns dizem que eu
sou uma das pessoas que melhor
conhece a Amaz6nia... Mas ne-
nhum ano seguinte foi melhor que
o anterior na Amaz6nia. E daf?
Mirar o ap6s ter sido fonte de
martfrios. Mas projetar o future
nio consegue alimentar nossas
esperanqas..."




Como os leitores sabem,
o Journal Pessoal tem sido produ-
zido precariamente. Essa condi-
cqo, entretanto, nao deve ser con-
siderado um atenuante A qualida-
de da publicaqio. Para mim 6 de
grande vaiha recebei a apreciagao
dos leitores.








Na pauta do seculo


U m tema candente preceded a
realizagAo da primeira con-
ferencia mundial sobre de-
senvolvimento e meio ambiente,
promovida pela ONU em Esto-
colmo, em 1972: a floresta ama-
z6nica funcionava realmente co-
mo o pulmio do mundo, absor-
vendo o gas carb6nico da atmos-
fera e liberando metade do oxige-
nio oferecido aos terraqueos?
A questao era falsa, produzi-
da por ma assimilagio de algumas
pesquisas que estavam sendo
conduzidas, na Alemanha e na
prdpria Amazdnia brasileira, por
pesquisadores alemies de van-
guarda. Eles estavam atras de
comprovaqio cientffica para suas
premissas de que a vasta floresta
tropical amaz6nica funcionava
como uma espdcie de espelho re-
fletor das areas temperadas do
planet, atuando saudavelmente
no saneamento dos efeitos noci-
vos da atividade humana, sobre-
tudo em relaago A poluigio.
O element fundamental des-
sas pesquisas, no entanto, era
demonstrar que a densa e exube-
rante massa verde deveria ser
mantida, nao s6 por sua riqueza
intrfnseca, mas tambdm porque a
persistencia do process de sui
destruifio, atravds da multisecu-
lar queima de arvores, elevaria a
proporglo de carbon na atmosfe-
ra. Nenhum desses cientistas ja-
mais pensou em considerar a
Amaz6nia como um monumental
pulmAo, iddia difundida por jor-
nalistas apressados e, na 6poca,
despreparados.
Oportunisticamente, os repre-
sentantes brasileiros na conferen-
cia de Estocolmo, mesmo sabendo
ser falsa a question post em de-
bate junto a opiniao pdblica, uti-
lizaram-na como escudo protetor
para a manutenqao do modell"
de desenvolvimento econ6mico
quantitative a qualquer preco.
Pela ironia paiuiense do econo-
mista Jolo Paulo dos Reis Vello-
so, secundada pelo estilo mais
rdstico do general Costa Caval-
canti, chefe da delegacAo brasi-
leira, o governor argumentou que
se os pafses ricos quisessem
manter o puulmio em funciona-
mento deveriam pagar uma deter-
minada taxa pela limpeza do ar
que a floresta amaz6nica execu-
tava ou entio nos deixar cres-
cer tambem a maneira deles, isto


6, destruindo a natureza. Uma
6tica danadamente perverse, mas
que funcionou como fator inibi-
dor do aprofundamento da discus-
sao ecol6gica que entao se ini-
ciava.
O ano de 1992 se encerrou,
quanto a Amaz6nia e ecologia,
marcado pela segunda conferen-
cia da ONU, sediada no Rio de
Janeiro. Os terms dos debates
travados e das conclus6es pode-
riam ter sido muito melhores e
mais produtivos se o Brasil, com
sua doidivana abertura a indus-
trializaaio "tout court" dos anos
70, tivesse aceitado o desafio de
promover um "modelo" mais in-
teligente do que o feroz darwi-
nismo social implantado na fron-
teira amaz6nica.
A Rio 92 foi um sucesso de
relac6es pdblicas, tfpico do go-
verno Collor, mas concretamente
tem se mostrado tao pouco pro-
dutiva quanto a Estocolmo 72.
Encerradas as solenidades e fe-
chado o livro de atas, o que ha de
categdrico 6 a crise geral da eco-
nomia mundial. Gastar em ecolo-
gia ainda 6 considerado desperdf-
cio, uma aiao entire amigos que
s6 se justifica em epoca de caixa
folgado. A tal da cobiga interna-
cional, que tao compulsivamente
frequent discursos nacionalista A
esquerda e A direita do espectro
ideoldgico, nio sera exercida -
ao menos preponderantemente -
atravds da ciencia, porque o di-
nheiro s6 esta saindo dos cofres
mais bem abastecidos sob a ga-
rantia de retorno abundante e ra-
pido, ou com menos riscos.
A verborragia da soberania
national, muito facil de ser es-
grimida em ambientes civilizados,
exige capacidade de saber en-
frentar e resolver uma legilo de
problems novos impostos pela
ocupagio de uma area tao grande
e mal conhecida como a Amaz6-
nia. Essa capacidade, ao invds de
crescer para se embater cor o
interesse commercial sobre os re-
cursos naturals da regigo, que
realmente cresce, contraiu-se ain-
da mais.
Por ironia, percebe-se agora,
nesta dpoca de vacas magras, que
se nao houver o ingresso de di-
nheiro de fora, o pafs nio tera
condig6es de enfrentar inteligen-
temente (ou seja, tirando proveito
para si) a cobiga estrangeira. Pa-


radoxo que garante, por mais al-
guns anos, talvez atd a pr6xima
conferencia mundial, tanta ret6ri-
ca e tio poucos resultados na
meta de todos os homes bem in-
tencionados em reiaSao a Amaz6-
nia: o tal do desenvolvimento
auto-sustentado, algo como
aquela Conceigio da mdsica, que
ningu6m sabe, ninguem viu, mas
dela todos ouviram falar.

Os peixes:

um detalhe

ASuperintendencia de Meio
Ambiente da Itaipu Binacio-
nal levou cinco anos para conse-
guir financiamento para uma rds-
tica escada de cimento destinada
a impedir que os peixes desapare-
r'am do rio Parand. Desde a
construfio do enorme paredao de
concrete que represa as aguas do
rio para a geragao de energia, o
process natural de reprodugao
dos peixes foi interrompido por-
que eles nio podem mais nadar
contra a corrente para amadurecer
seus drgaos reprodutores. Ha um
mes o sistema artificial de passa-
gem esta em funcionamento, cor
resultados ainda incomparaveis a
situagao original, mas que dao
esperanga em relagio ao future.
Desde que, ha 40 anos, o rio
Coldmbia foi bloqueado por uma
barragem de hidreldtrica, amea-
gando a sobrevivencia do valioso
salmao, os Estados Unidos exi-
gem a construgao de escadas para
peixes. No Brasil, essa providen-
cia elementary s6 6 adotada, e com
relutAncia, em areas mais desen-
volvidas, como o Parana, onde
Itaipu se localiza, mas a total-
mente ignorada em areas conside-
radas pioneiras, como a Amaz6-
nia.
Os peixes, como os sedimen-
tos, continuam sendo bloqueados
pela barragem de Tucuruf. Mas
isso 6 detalhe.


Journal Pessoal
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