Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00079

Full Text





Journal Pessoal
E EDITOR RESPONSAVEL: L CIO FLAVIO PINTO

Ano VI 0 NO 104 2" Quinzena de Dezembro de 1992 Cr$ 5.000,00

SUCESSAO



Foi dada a largada


As eleiqoes praticamente nao tem mais

intervalo. Quando Helio Gueiros

se tornar prefeito, comegara a dispute

pela sucessao de Jader Barbalho em 1994.


A o assumir a prefeitura de
Beldm, no dia 1, Hl1io
Gueiros nao estA apenas
marcando sua volta ao epicentro
do poder polftico no Pard: tam-
b6m desencadeia a corrida visan-
do a escolha do governador do
Estado, em 1994. Desde ja, o
primeiro candidate a esse cargo 6
o pr6prio Gueiros, que tentard
repetir a faganha de seu ex-irmio
afetivo e hoje pior inimigo, na
dobradinha antfpoda que tern
marcado cor monotonia e pobre-
za o mais recent perfodo na vida
polftica paraense.
0 perfil do Hl1io Gueiros 92
6 um retrato bem retocado do po-
lftico que, por forga do acaso e
da vontade de terceiros, chegou
pela primeira vez ao governor do
mais important Estado da Ama-
z6nia em 1987. Derrotado pelo
regime military no final da d6cada
de 60, Gueiros sd voltou a cena
polftica, 15 anos depois, porque a
mAquina official que o apoiou
permitiu-lhe ter mais votos do
que o outro candidate da sub-le-
genda do PMDB para o Senado,
Joao Menezes, e porque a adigao
de votos do terceiro candidate
peemedebista, Itair Silva, deu ao
partido mais votos do que o con-
corrente dnico do PDS, o senador
Jarbas Passarinho.
Nio foi o desempenho de
Gueiros no Senado que o fez ele-
ger-se governador em 1986. Foi
novamente a maquina official,
usada sem reserves por Jader
Barbalho para veneer uma dispute
que gravitava em torno dele. Mas


o Hdlio Gueiros que se tornou
prefeito de Belem logo no 12 tur-
no, em outubro, pode reivindicar
para si crdditos por essa vitdria,
dividindo ao meio os mdritos corn
outra fonte de poder no Estado, o
grupo Liberal.

A imagem do sucesso

Tendo ao seu inteiro dispor os
vefculos que monopolizam e
manipulam a comunicaaio de
massa, sobretudo em Belem,
Gueiros usou competentemente a
televisio (cor a incondicional
adesio do journal O Liberal) para
exibir uma image ao gosto do
pdblico. Um home para o qual o
grupo Liberal deu atestado de
probidade total, de competencia e
de transparencia. O retoque que
faltava conferiu ao ex-goverador
uma aura de santidade: nao reagiu
aos ataques dos adversdrios corn
o deboche costumeiro, mas corn
humor e ironia; abusou das cita-
qges bfblicas, mas cor o ar cor-
dato; e ate leu letra de mdsica e
poesia. Quis mostrar que estava
ali apenas para ser confirmado e
nio propliamente para disputar
cor outros candidates um lugar
que ja considerava seu. O am-
biente de "jd ganhou" foi fatal.
O outro component da vitd-
ria de Hdlio Gueiros foi forneci-
do involuntariamente por seu
maior rival. O governador Jader
Barbalho, que nunca perdeu uma
eleigio de que participou, mas
tambdm nfo conseguiu eleger ne-
nhum de seus candidates a cargos


majoritarios desde a ascensao de
Gueiros (uma e.videncia de seu
individualism visceral), abusou
do direito de cometer erros. Es-
colheu mal o candidate que o
PMDB apoiaria depois da fuga do
senador Almir Gabriel e deixou
que amadores auto-suficientes,
convencidos de poder manobrar o
gosto do povo a partir de gabi-
netes refrigerados, conduzissem o
process sucess6rio. Mas tambdm
acreditou nos incensos cor os
quais adornou-se e achou que
elegeria quem quisesse, presun-
gao falsa que tamb6m fez Helio
Gueiros perder em 1991.
O desastre final tern a autoria
de Jader. Ele consumou a vit6ria
de Gueiros ao ameagar o eleitor
de represalias por votar no inimi-
go e promoter trat4-lo a pao e
Agua, arrematando cor a santifi-
cagao a beatifical figure que o
bom ator desempenhou diante das
cAmaras. Esse desempenho sagaz
transformou a panfletagem feita
pelo governador da horrfvel carta
a mim enderegada pelo ex-gover-
nador num instrument a favor
dele, ao invds de ser, como deve-
ria ocorrer em sociedades civili-
zadas (ou nas quais tambem nio
houvesse iniciativas tao equivo-
cadas), a pd de terra na sua se-
pultura polftica.
Para credenciar-se como o
mais forte candidate a volta ao
palfcio Lauro Sodrd, Helio Guei-
ros tern o segundo orgamento pd-
blico do Estado, a audiencia de
um quarto do eleitorado do Esta-
do e o poder de repercussao da






Jornal Pessoal


maior corporagao de informaio.
Precisa preservar a imagem que ja
projetou, do estadista que na ver-
dade nada faz para merecer a
classificagio, mas aparenta tudo
nesse sentido (contradigao que
explica a indigencia mental do
Estado, sujeita menos h condena-
gao dos expectadores, por ser um
resultado, do que a provocar es-
panto e preocupagao).
Com as cautelas devidas para
nao cair do humor e da ironia no
simples deboche, nem deixar que
o verniz bfblico deixe mostrar a
sordidez dos mdtodos que usa pa-
ra veneer, Hdlio Gueiros vai ex-
plorar um fator que explica o su-
cesso de seu ex-aliado Sahid Xer-
fan: sugerir que pode fazer mais
do que fez, nao tendo realizado
por carencia de tempo ou por-
que forga superior o bloqueou. O
bode expiat6rio ideal para o pre-
feito Hdlio Gueiros e o governa-
dor Jader Barbalho, que parece
ter safdo da letargia em que os
intensos problems pessoais o fi-
zeram imergir e percebeu a situa-
gio.
Nas dltimas declarag6es pd-
blicas Jader ji nao diz que nao
pretend nem cumprir obrigag6es
protocolares junto ao prefeito da
capital ou que vai cancelar o pro-
grama de macrodrenagem das
baixadas, o dnico investimento de
vulto na cidade em d6cadas, por
causa da ma companhia. Ao con-
trfrio, garante que respeitard a
autoridade do inimigo e que con-
tinuard trabalhando por Beldm
independentemente das idiossin-
crasias pessoais. Ou seja, nio
quer ajudar a tecer a imagem de
vftima que aumentaria ainda mais
a possibilidade de Gueiros ele-
ger-se governador em 1994. Se
ele nada fizer no ano e meio de
mandate municipal que tern antes
de sair novamente candidate, seri
porque nao foi capaz e nao por
culpa alheia, o refrio que Xerfan
usou duas vezes, numa delas com
absolute sucesso.
Por essa dupla estrat6gia, as
previs6es sobre a transformaaio
de Belem numa Beirute polftica,
cor a guerra declarada entire o
governador e o prefeito, nio de-
verio confirmar-se. Gueiros e
Barbalho vao comportar-se com
aquela cautela que marca o de-
sempenho dos lutadores de boxe
nos primeiros rounds, quando "se
estudam" mutuamente. Pode ha-
ver sangue depois, nio agora.
Esse evidence clima de disten-


sao levou o prefeito Augusto Re-
zende a acreditar na possibilidade
de sair candidate ao governor co-
mo um "tertius" pacificador, um
"pombo-correio" mantendo por
tabela a comunicagio entire dois
polfticos que nao querem nem se
ver, mas precisam de didlogo in-
corp6reo.
Rezende deve ter deixado a
preteitura de Bel6m com uma
sensaaio de confianga e realiza-
gao semelhante A de Ajax d'Oli-
veira. Um dos raros prefeitos de
safras recentes que conseguiu
modificar a paisagem de parte da
cidade, Ajax estava certo de que
se elegeria com tranqfiilidade e
consagraaio deputado federal de-
pois da passage pela PMB. Mas
foi derrotado e, desiludido, aban-
donou a polftica. Os bons resul-
tados que Rezende pode contabi-
lizar a seu favor decorreram de
algumas ag6es isoladas de valor e
capazes de render dividends,
mas tambr m da mesma arma que
Hdlio Gueiros utilizou: uma ma-
ciga campanha publicitAria atra-
vCs do grupo Liberal.

0 vicuo at6 94

O tempo e a dist&ncia atd a
abertura official da campanha
eleitoral para o governor, entre-
tanto, sio desgastantes. Na festa
de confraternizagio organizada
pelos amigos para a despedida do
prefeito nao compareceu nenhum
dos Maiorana, que sequer se de-
ram ao trabalho de mandar repre-
sentante. Mesmo assim, Rezende
ainda programou um caderno no
journal O Liberal para difundir
suas obras, boa parte das quais se
realizaram tendo nio a ele como
intermediario, mas seu mais do
que bem-sucedido irmao, Berna
Rezende, o canal de acesso dos
empresarios diante da contumaz
circunstancia (talvez nio tao cir-
cunstancial quanto parecia) de
que o prefeito nunca era achado.
Berna, sempre A mio, foi, mais
do que a eminancia parda, o pre-
feito de bastidores e isto ainda
vai pesar sobre o future de Au-
gusto.
Ele precisard impedir que for-
faits como o dos Maiorana se
multipliquem, ou que a ironia
contida do seu successor se trans-
forme em atos de hostilidade.
Al6m de comentArios desfavora-
veis que ter feito para pessoas
mais prdximas, Gueiros desmon-
tou a equipe de Rezende e vai


desfazer algumas de seus eixos de
influencia e poder na prefeitura,
como as empresas Terraplena e
Papa-Lixo. Outra dessas empresas
que poderia servir de proteago
contra o inverno polftico que co-
mega agora para Rezende, a So-
tel, depend do Estado e nio do
Municfpio. O equilibrismo entire
os dois p6los sera fundamental
para v6os de maior amplitude e
Rezende nao demonstrou ter essa
capacidade. Nao estA immune a
uma sorte como a de Ajax,
Um indicador dos combates
que se aproximam r o langamento
soft da candidatura do empresirio
Oziel Carneiro, do PDS, que ago-
ra talvez apareca como aliado do
adversario que o derrotou 10 anos
atras, o governador Jader Barba-
Iho. Geralmente enquadrado no
rol dos polfticos mastod6nicos,
diffceis de carregar por seu peso,
Oziel ter, no entanto, um perfil
que nao se encaixa na formula do
adversArio que H6lio Gueiros
gostaria de ter contra si.
Oziel, evidentemente, nada
tem de semelhante com Socorro
Gomes. Entre a elite local e da-
queles personagens apontados
como s6rio, que estuda antes de
se manifestar sobre qualquer te-
ma, com uma apreciAvel expe-
ri8ncia, sem n6doas pessoais na
biografia que nAo possam ser re-
tocadas pelo marketing ou expli-
caveis por boa orat6ria. Ele ate
poderia ser colocado em igualda-
de de condig6es potenciais com
Hdlio Gueiros se tivesse atrAs de
si a miquina official, que, na his-
t6ria do Pard, s6 6 derrotada em
circunstfncias especiais ou pela
imperfcia dos que a manobram,
como ocorreu em 1991.
Jaaer vai aguardar o desem-
penho do senador Fernando Cou-
tinho Jorge no minist6rio do Meio
Ambiente, sua principal alternati-
va dentro do PMDB, antes de de-
finir sua opgio, mas ja esta con-
vencido de que s6 conseguird fa-
zer seu successor permanecendo
no governor atd o fim e, mais
uma vez, cancelando a inclusion
da senatoria em seu currfculo,
al6m de expor-se a falta de um
guarda-chuva parlamentar para
imuniza-lo dos ataques dos inimi-
gos.
No horizonte do Pa-
rd atd o final do s6culo slo tS-
nues os sinais de renovagao. A
lideranga polftica do Estado con-
tinuari sendo uma redoma do
passado.


2


__









CRIME


A quem interessa


U m ano depois de ter sido
cometido, o assassinate do
empresirio Bruno Marinho
de Meira Mattos ainda nio tern
autor identificado, mas a polfcia
pelo menos conseguiu apontar
"os dnicos a se beneficiarem
materialmente" cor a morte do
filho do secretdrio de Justiqa do
Estado: sua mulher, Milene Xer-
fan Haber de Meira Mattos, seu
sogro, Michel Homci Haber, e
seu cunhado, Gustavo Xerfan
Haber.
Os nomes dos tr&s surpreen-
dentes personagens, todos fre-
quentadores de colunas sociais de
Beldm e personagens da elite lo-
cal, estao citados com todas as
letras no relatdrio do delegado
Cl6vis Martins, director da Divi-
slo de Crimes contra a Pessoa e o
segundo policial a presidir o in-
qudrito, instaurado no mesmo dia
da morte de Bruno, a 10 de de-
zembro do ano passado.
Cl6vis, por falta de provas,
nao indiciou ningudm. Essa etapa
ainda esti "em apuragio", como
diz na abertura de seu extenso
relat6rio, remetido A jufza de
Ananindeua e a espera de provi-
dencias, ate agora nio adotadas.
Admite que as investigag6es es-
tAo tendo pouco sucesso, mas de-
bita o fato "tanto a Polfcia, que
deixou de adotar medidas ime-
diatas apds o conhecimento da
morte de Bruno, como a interdi-
gio de seus escritdrios e sua resi-
dencia para preservaqio dos do-
cumentos ali existentes, bem co-
mo dos computadores por ele uti-
lizados; como tambem A famflia e
amigos do morto pela oculta;o e
sonegagAo de informaq6es de vi-
tal importAncia que somente vie-
ram a tona extrafdas quase a for-
9a".

Prova do crime

O delegado cita como exem-
plo dessa obstruglo deliberada
uma carta que Bruno escreveu
pouco tempo antes de ser assassi-
nado com um tiro certeiro, dispa-
rado do interior de um carro que
emparelhou cor o dele a 30 qui-
16metros de Beldm, na BR-316,
as 18 horas, quando ele retornava
de uma misteriosa viagem. Na


carta, Bruno anuncia a possibili-
dade de se suicidar se nio conse-
guisse resolver os problems que
estava enfrentando, principal-
mente financeiros. Milene, acom-
panhada do pai, entregou a carta
A polfcia e divulgou-a, atravds de
matdria encomendada a grande
imprensa, como se fosse a prova
do suicfdio final concretizado
pelo marido.
Milene apresentou essa carta
A polfcia quatro meses depois do
crime, como se a tivesse desco-
berto casualmente na v6spera, ao
mexer num blaser do marido. No
entanto, afirma o delegado que
"tanto a vidva Milene e sua ta-
mflia, assim como o pai e irmaos
de Bruno, sabiam existir (a carta)
e omitiram o fato". Michel Ha-
ber, pai de Milene, fez referencia
a carta "pela primeira vez ao Dr.
Adherbal Meira Mattos no prddio
do I. M. L. (Instituto Mddico-Le-
gal), quando o corpo de Bruno
ainda se encontrava sendo ne-
cropsiado". Mas. "matreiro",
Michel decidiu guardar a carta,
"pois, sem data, poderia ser usa-
da em qualquer ocasiao".
A ocasiao se ofereceu quando
a polfcia comegou a desconfiar
que das pessoas mais prdximas a
Bruno e nio dos marginais do
narcotrdfico, com os quais nego-
ciava poderia retirar as melho-
res pistas para elucidar o crime, e
nio apenas porque estavam sone-
gando informaq6es preciosas.
Mas af um circulo de ferro se fe-
chou e a polfcia, sem meios equi-
valentes, nio p6de romper essa
barreira.
O "caso Bruno", que esteve
prestes a ser resolvido, caminha
celeremente para o arquivo mor-
to. Talvez porque, nele, nio se
possa langar a culpa sobre um
providencial mordomo, embora os
maiores suspeitos tenham condi-
g6es de sustentar mordomos. Pelo
andamento da apuragio, e quase
certo que consigam manter a apa-
rencia limpa de seas colarinhos
brancos.
Milene, ao inv6s de se empe-
nhar pela revelagio da verdade
ou em defender a honra do mari-
do, d acusada de obstruir o inqu6-
rito. Tres meses e meio depois da
morte de Bruno ela compareceu


espontaneamente pela primeira
vez a Divisio de Crimes contra a
Pessoa, acompanhada do pai, do
irmfo e do advogado Edmundo
Oliveira, para retificar o depoi-
mento que havia prestado. Disse
ter-se lembrado de que autorizara
a retirada do computador privati-
vo do marido na agencia de c&m-
bio Carajds, "alegando que em
seu primeiro depoimento estava
praticamente 'dopada' e nio se
recordava do fato". O pai foi in-
diciado porque Josd Ricardo
Raymundo e S6rgio Mendes de-
clararam ter tirado o computador
por ordem de Michel.
E evidence diz o delegado
em seu relatdrio que essa decla-
raqAo teve o dnico objetivo de li-
vrar seu pai da acusagIo de furto
ou receptaago, pois, conforme se
pode concluir, foi Michel quem
mandou Josd Ricardo retirar o
computador de Bruno e condu-
zi-lo A sua casa.
Com evidence ironia, relata o
delegado que "passados cinco
dias do depoimento 'esclarecen-
do' o episddio envolvendo o
computador de Bruno, fomos no-
vamente surpreendidos corn uma
segunda apresentagao espontanea
de Milene; desta vez, coinciden-
temente, no dia 12 de abril, oca-
siao em que a mesma nos fez a
entrega de uma carta escrita por
Bruno e dirigida a seu pai, Mi-
chel Haber, na qual o mesmo re-
latava uma sdrie de dificuldades e
anunciava que iria se matar".
A carta e autentica, mas, ao
escrev6-la, a intengio real de
Bruno nio seria a de suicidar-se,
mas, como opina o delegado, tal-
vez "sensibilizar seu sogro,
chantageando-o emocionalmente,
chegando inclusive a conseguir
do mesmo um emprdstimo de se-
tenta milh6es de cruzeiros".
Ainda que a intengio de ma-
tar-se fosse sincera, Bruno jamais
poderia te-la executado nas cir-
cunstAncias em que morreu,
"pois, alem de o teste de parafina
ter dado negative, provando que
Bruno nao fez uso de anna de fo-
go, seria impossfvel, tanto pela
dist&ncia como pela precision do
Angulo de tiro", ele ter atirado
em si mesmo.
A simples admissao dessa hi-


5


m


nro al Pessoal






4 Jornal Pessoal


p6tese, que levou os jornais de
Bel6m a dar em manchete que o
empresario havia se suicidado,
evidencia a grotesca e tosca ten-
tativa de despistamento. "0 que
salta aos olhos neste caso", afir-
ma o delegado, "6 que quase to-
das as pessoas envolvidas mentem
descaradamente".
Ele diz ser o caso de Michel
Haber, dono da corretora e agen-
cia de turismo Monop6lio, que te-
ria mentido ao declarar nunca ter
visto a carta de Bruno antes da
"descoberta" da .filha e tamb6m
desconhecer a existencia de uma
sacola com 300 mil d6lares, di-
nheiro vivo, que Jos6 Ricardo
Monteiro Raymundo retirou da
agnncia de cambio e Ihe entregou
(sem revelar esse "detalhe" A
polfcia).
Essa condigao de inseguranga
fez o delegado registrar o "fato
inusitado de Milene, como vftima,
e seus parents haverem contrata-
do um Criminalista para defen-
de-los de que?". Defend6-los de
suas consciencias, evidentemente,
nio 6 tarefa ao alcance do bem
relacionado advodado Edmundo
Oliveira.
Mente tamb6m Jos6 Ricardo,
amigo de infAncia de Bruno e
o dnico com acesso a todos os
neg6cios dele, inclusive os ile-
gais, que "lavavam" os ddlares
do narcotrafico e financiavam
uma rede de com6rcio de cocafna.
Jos6 Ricardo era o dnico,
al6m de Bruno, que operava um
computador no qual eram regis-
tradas as transag6es do "caixa
2", onde nomes codificados es-
condiam traficantes de cocafna,
compreendendo um vasto espectro
que ia de delinquentes comuns a
empresarios; de Guajara-Mirim,
em Rond6nia, a Amsterdam, na
Holanda, passando por Paramari-
bo, no Suriname; muita fachada
com aparencia sadia atris do qual
se praticava crimes como estelio-
nato, evasao de divisas e trafico
international de drogas; cor um
fluxo intense de dinheiro que se
beneficiava da coniv6ncia ou
mesmo participaaio de algumas
ag8ncias bancarias.
Fiel & moda da 6poca, Bruno
tamb6m tinha seus "fantasmas",
em ndmero de quatro, para manter
& distAncia do vesgo leao da re-
ceita federal o dinheiro sujo que
precisava ingressar em contas
bancArias.
Chega a ser desconcertante
constatar que foi desvendada uma


parte desse mundo illegal, cada
vez mais insinuante no Pard, mas
o crime em si permanece um
complete mist6rio. Nenhuma das
testemunhas do acontecimento
conseguiu sequer identificar o
carro usado pelo motorist e o
pistoleiro para matar Bruno corn
um dnico tiro, disparado quando
os dois carros emparelharam, a
100 quil6metros por hora. Hd
evid6ncias suficientes para sus-
tentar o convencimento de que no
^ia 10 de dezembro a rede de trg-
fico de cocafna que tinha Bruno
como eixo estava mobilizada por
conta da chegada de um carrega-
mento de droga, fato real ou isca
criada para atrair o empresario
para uma cilada. Pelo menos tres
personagens estavam diretamente
relacionados a esse event. Um
deles, Izid6rio Izfdio de Oliveira
Filho, chegou a ser preso, mas foi
solto por ordem judicial porque
nenhuma das muitas evidencias
obtidas na investigaqao transfor-
mou-se em prova.

Enredo sofisticado

Se o crime envolvesse apenas
os frequentadores do sub-mundo
que torna possfvel a cocafna sair
dos centros produtores na Col6m-
bia, Peru e Bolfvia e chegar aos
consumidores mais sofisticados,
nas grandes cidades europdias ou
nos Estados Unidos, talvez o as-
sassinato de Bruno Meira Mattos
pudesse vir a ter desfecho divers
do que nAo ameaga consumar-se.
Mas o enredo de sua ascensio e
queda envolve muitos complica-
dores. Puxar o fio de sua morte
pode desvendar todo um corpus
criminoso, cor o risco de ocorrer
como numa ponta de novelo pu-
xada sem temor.
Bruno comegou a ter seus ne-
g6cios apenas 10 anos atras, tra-
balhando primeiro com o sogro e
o cunhado na compra e venda de
ouro, atividade traumatizada pelo
envolvimento de Gustavo no ar-
rombamento da residencia do
procurador regional da Repdbli-
ca, Paulo Meira, e roubo de jdias
de sua famflia. Em 1986 Bruno
tornou-se corretor de cAmbio, mas
logo sua ag6ncia passou a servir
"tanto como financiadora do tra-
fico de cocafna como 'lavadora'
do dinheiro arrecadado no exte-
rior proveniente desse com6rcio",
burlando a fiscalizaglo official,
que as vezes, como observa o
delegado Cl6vis Martins, "nao


consegue detectar certas irregula-
ridades que essas empresas cos-
tumam cometer, embora bastante
frequentes".

Participagio dos bancos

Entre essas irregularidades
est& a abertura de contas banca-
rias frias, celebrizadas cor os
"fantasmas" do president afas-
tado Fernando Collor de Mello.
Bruno abria contas usando docu-
mentos de identificagAo de fun-
cionarios da corretora CarajAs ou
mesmo de pessoas humildes que
Ihe haviam prestado algum servi-
go. Conseguia movimentar somas
elevadas em nome desses corren-
tistas porque os gerentes de ban-
cos lhe entregavam cadastros e
fichas de aut6grafo em branco.
que ele preenchia conforme sua
conveni6ncia, e abonavam todos
os seus atos com a velha "filoso-
fia" de que ainheiro 6 dinheiro,
independentemente de sua origem
(o que fez o poeta e dramaturge
alemio Bertolt Brecht observer,
sardonicamente, que mais renti-
vel do que assaltar um banco 6
fundar um). Os supostos corren-
tistas nem suspeitavam de que por
suas contas as vezes passavam
valores diarios superiores a mui-
tas vezes o que eles poderiam ga-
nhar trabalhando a vida toda.
As contas fraudulentas eram
necessArias para que o volume
inexplicAvel de dinheiro nao apa-
recesse em nome de Bruno (mas
os sinais de um enriquecimento
fulminante, como a mansio na
qual morava, saltavam aos olhos).
"t evidence que esse ato ilfcito
nao teria existencia se nao con-
tasse corn o concurso dos geren-
tes dos bancos envolvidos", diz o
delegado Cl6vis Martins, que
apontou alguns desses gerentes.
enquanto se espera pelas provi-
dencias que cab-ria ao Banco
Central adotar para nao dar moti-
vos a Collor de queixar-se de que
s6 os "fantasmas" dele slo com-
batidos. Os de Bruno transitavam
sem causar sustos em agencies
dos bancos Safra, Econ6mico e
Bamerindus. ;
Diz-se que no moment em
que uma bala de pistol ainda nao
satisfatoriamente identificada
atravessava a cabega de Bruno
Meira Mattos. matando-o instan-
taneamente, Gustavo Haber parti-
cipava de uma reuni&o em agen-
cia do Banco Econ6mico justa-
mente para tratar dessas contas






Journal Pessoal 5


fraudulentas do cunhado. Foi la
que Michel Haber localizou o fi-
Iho e informou-o do crime.

Foi tamb6m para Michel que
Jose Ricardo telefonou para dar a
primeira notfcia do epis6dio. Mi-
chel "nao manifestou nenhuma
preocupagAo, como se aquilo fos-
se normal", estranha o delegado
em seu relat6rio, ressaltando que
o relacionamento entire Bruno e o


sogro "vinha se distanciando,
circunstAncia que Jos6 Ricardo
tinha conhecimento". Nesse caso,
"o mais correto" seria ele comu-
nicar a demora do retorno de
Bruno (que anunciara chegar a
Bel6m as 12 horas) "aos pais ou
irmaos da vftima".
Por causa desse detalhe, Cld-
vis Martins acredita ter apresen-
tado indfcios de que a participa-
ago de Michel Haber e Jos6 Ri-


cardo "nao esteja apenas no en-
volvimento de retirada do com-
putador". 0 delegado nao desen-
volve a hip6tese que permeia seu
relat6rio: de que o crime pode ter
sido provocado pela concorr8ncia
entire duas fachadas montadas pa-
ra a "lavagem" de dinheiro illegal
em Bel6m, duas entire muitas ou-
tras em plena atividade e atd
fotografadas, louvadas e celebra-
das na cidade.


IMPRENSA


A marca da prepotencia


enino danado, eu s6 me
aquietava cor pap6is nas
maos. Af desaparecia para
o mundo da leitura, como virias
vezes aconteceu na casa do amigo
Jos6 Maria Matos, em Santar6m.
Na hora de comer, andavam atrAs
de mim e me descobriam entire li-
vros e revistas. A minha favorite,
no final daqueles anos 50, evi-
dentemente, eia O Cruzeiro, a re-
vista de maior sucesso de venda
em toda a hist6ria da imprensa
brasileira.
Nas paginas de O Cruzeiro,
da qual, para meu melhor usu-
fruto, meu tio, Aurdlio Rocha,
era o distribuidor em Santardm,
eu demorava mais no artigo de
David Nasser. Sem a malfcia e a
compreensio que a quilometra-
gem in folios da corn o tempo, eu
achava que David Nasser era o
maior jornalista vivo do pafs
(quem sabe morto, tamb6m?). Aos
13 anos, por causa dele, vi-me
diante de um epis6dio que repre-
sentaria o primeiro questiona-
mento sobre a profissio que jA
entfo me atrafa.
David Nasser produzira um
daqueles seus terrfveis (e, como
viria a saber algum tempo depois,
nem sempre muito morais, corre-
tos, justos ou desinteressados) li-
belos. A vftima era o ex-governa-
dor do Rio Grande do Sul e (en-
tio) deputado federal pela Gua-
nabara (hoje Estado do Rio, que
voltou a governor) Leonel Brizo-
ia. Os ataques, impiedosos, se
multiplicariam. Aiguns me fize-
ram perguntar se o jornalista nio
estava se excedendo. O pior e
que o estilo ocultava e se sobre-
punha A falta de arguments, ou a
aig-mentos nem toi convincentes


quanto a arte de manobrar pala-
vras e faze-las servir a um prop6-
sito. Quando Brizola se encon-
trou casualmente cor David Nas-
ser no aeroporto de Santos Du-
mont e o esmurrou, tive que me
socorrer de orientaiao externa
para tcntar saber quem estava
cor a razao. O conflito que se
estabeleceu entire as duas parties
estava al6m da minha capacidade
de discernimento na 6poca.
Recordando esse moment da
minha vida antes da opqao que,
tres anos e meio depois, faria
pelo jornalismo, para toda a vida,
convengo-me de que foi exata-
mente at que comegou a se con-
solidar a minha consci&ncia etica.
E que a dtica ter sido a base de
tudo o que faqo, dentro e fora das
redaq6es, filho reconhecido de
uma tradicgo fundada em Baruch
Spinoza, meu primeiro e insupe-
iado mestre.

Primeia agressio

Cor a mesma dtica coloco-me
diante de outro epis6dio traumi-
tico, que me foi dado experimen-
tar pela primeira vez no dltimo
dia 16, 27 anos depois da entrada
inaugural na redaqio de um jor-
nal. Algu6m citado por um de
meus artigos reagiu tentando me
agredir e pessoalmente me amea-
gou de morte; Ja fui ameagado de
morte por carta e telefone. Ja re-
cebi recado atrevido. VArias ve-
zes tive que enfrentar bate-bocas.
Mas considered normais todas as
situag6es. Afinal, meu jornalismo
ataca e prejudice interesses pode-
rosos, e inimigos, como alerta
aquela famosa pega de teatro, nio
mandam flores. Mas tamb6m nio


entregam bombas em maos.
Entretanto, a situagao criada
pelo advogado Calilo Kzan Neto,
marido de uma das proprietarias
do Sistema Romulo Maiorana de
Comunicagao, Rosangela Maiora-
na Kzan, eu nao posso considerar
normal. Repilo-a e a repelirei
sempre como um ato ignominioso
de violencia, seja eu ou qualquer
outro a vftima da torpe agressao.
Embora Calilo seja faixa-
preta de karate, o que agrava
muito sua investida contra mim,
do ponto de vista estritamente le-
gal e criminal, jai enfrentei gente
muito mais temfvel do que ele.
Credito, por6m, a meus adversa-
rios e inimigos, ao menos aos que
at6 aqui se apresentaram, ainda
que por vias sinuosas, um m6rito:
todos me respeitaram. Mesmo nos
moments em que nos defronta-
mos cor maior 8nfase, eles parti-
ram de um pressuposto: estavam
diante de um jornalista sdrio, ho-
nesto e competent, nio de um
difamador, injuriador ou calunia-
dor da honra alheia, de algu6m
que se deixa levar pela primeira
informacgao ou por uma andlise
superficial, de algudm que p6e A
venda sua pena (computador, para
ser atual)
Foi por exercer cor dedica-
gao, aplicaaio e dignidade minha
profissao que cheguei onde estou.
Passei por muitas provas, mas em
todas acho que me comportei cor
a estatura mfnima que impede os
homes de se curvarem ou serem
curvados e faz seus contendores
respeitarem-nos, sem o que eu jA
estaria desmoralizado (ou, o que
seria pior, morto) ha muito tem-
po.
I tamb6m para defender mi- W






6 Jornal Pessoal


nha vida, inibindo no nascedouro
apetites que poderiam se inspirar
no treslocaudo ataque de Calilo,
que reajo. Ao consumer o que
nenhum outro adversario ousara
fazer, ele tornou-se um habeas
corpus preventive e uma costa
larga (ou bode expiatdrio) para
apetites violentos em exercfcio ou
disponfveis no mercado, o que 6
ruim para a reputaqgo dele e pds-
simo para minha integridade.

Ato irresponsvel

Calilo Kzan achou de me
tratar como se eu fosse um levia-
no, como se das paginas deste
journal tivessem safdo revelag6es
escabrosas, impertinentes ou
mentirosas, deliberadamente fal-
sas, sobre a vida privada e a hon-
ra pessoal de sua esposa (ou, de
resto. de quem quer que fosse: a
reaqAo de Calilo 6 a primeira e,
espero, ditima ). A dnica intfmia
que ha nesse epis6dio e a dele
pidprio, advogado que agride e
ameaga dar um tiro na parte con-
trAria do iitfgio judicial exata-
mente nas escadarlas do Palacio
da Justiga, que jurou, por sua 1W,
honrar.
A dnica leviandade que hd 6 o
comportamento de uma empresa
jornalfstica que se recusa a dar
contas de acontecimentos ao seu
pdblico leitor, convencida de seu
status superior, acima da socie-
dade como um todo. A dnica coi-
sa a lamentar 6 essa infantil sen-
sagio de poder e impunidade que
faz Calilo. marido de uma Maio-
rana, gritar sem a menor preo-
cupaq~o cor as abundantes tes-
temunhas no local que iiia me
matar quando me encontrasse de
novo ou se a Justica nio Ihe der o
que ele, auto-presumida tonte
primiiia do direito, est, cobran-
do.
Ainda que nio tosse o jorna-
lista que sem falsa presung~o,
nem cabotinismo sou, cor jus-
tos motives, fincados em minha ji
longa carreira, para exigir o re-
conhecimento desse pressuposto
como algo manso e pacffico, pd-
blico e not6rio, nada justificaria
a agressao de Calilo Kzan. Fiel a
meus princfpios, entretanto, me
questioned seriamente se ele, afi-
nal, nao teria algum motive para
se indignar com meu comporta-
mento. A reflexio me fez voltar
ao epis6dio David Nasser versus
Brizola, fresco na minha memdria
(acho que para sempre). E dela


salo convencido de que Calilo,
meu companheiro de Paes de
Carvalho, nro tem a mais remota
das raz6es. Razio tenho eu para
apaga-lo da minha mem6ria, em-
bora nao do dever de faz&-lo pa-
gar pelo que fez, ainda que tenha
ido A delegacia reconhecer seu
ato (talvez mais para eximir-se de
iesponsabilidade do que para re-
misslo de culpa).
Pedi a instauraqao de inqud-
rito policial e tomarei ainda ou-
tras provid&ncias adequadas ao
"aso nao para me vingar pessoal-
mente, mas para reagir, como
sempre fiz, contra todos os aten-
tados A vida e A dignidade da
pessoa humana. Depois de 27
anos de jornalismo profissional
nao permit a ningudm me tirar
de uma posiaio que ocupo sem
favor algum. Isto d, a de um jor-
nalista que deve ser combatido
pelas informaq6es que transmite e
as iddias que express. Nao es-
crevo para defender interesse
pr6prio, nem me move outro pro-
pdsito que nao o de informar a
opinilo pdblica Nio admito que.
por qualquer pietexto. se tente
impedir o desempenho dessa mis-
sio que a sociedade confere A
imprensa e a legitima.
Tenho procurado cumprir essa
funiio tio eievadamente que,
olhando deste Jornal Pessoal para
a tigura de Calilo e a entourage
que o cerca posso v6-los na sua
exata dimensfio de an6es e conti-
nuar minha tarefa sem me deixar
abalar por esse s6rdido epis6dio,
que diz apenas sobre seus carate-
res e nio sobre o meu. Calilo nao
chega a sei propriamente um Bri-
zola e eu, seguramente, nio sou o
David Nasser que admirei antes
que a idade da razio me fizesse
avalii-lo cor equilfbrio, a mesma
razio que orienta meus atos
diante dos falsos donos desta ci-
dade que amo e A qual pretend
continual a servir por muito tem-
po ainda, apesar dos mosquitos
nio-anofelinos que a infestam
como pragas de ocasiAo.


Retifica ao

0 Journal Pessoal errou: Ro-
s&ngela Maiorana Kzan nao 6 jor-
nalista professional, formada pela
Universidade Federal do Pard.
Ela se matriculou no curso de
Comunicagao da UFPa no final da
ddcada de 70, mas teve seus vfn-
culos rompidos no ano passado
porque nao prosseguiu os estu-


dos. Ate entio, vinha se matri-
culando, mas nio cursava o ano.
Essa corregio, entretanto, nio
invalida a andlise que fiz. RosAn-
gela estagiou na redagio de O
Liberal e filiou-se ao Sindicato
dos Jornalistas. Tinha, portanto,
a intenlAo se seguir a carreira.
Devia estar em condig6es de ava-
liar o significado de seu ato ao
levar-me A Justica por injdria, di-
famagio e caldnia. O principal
resultado de sua iniciativa foi o
de quase inviabilizar a continui-
dade do JP. Ele se mantdm por
uma questao de honra, mas o lei-
tor verificard a precariedade das
condic6es em que 6 produzido
pela quantidade de erros que en-
contrard nesta ediq~o. Sem recur-
sos financeiros, tenho sido obri-
gado a me dedicar quase total-
mente aos processes instaurados,
me desdobrando com meu advo-
gado para nio perder prazos e
responder A altura (na verdade,
alm) dos questionamentos feitos.
Carlos Lamario Correa estd na
causa mais por compulsio da s6-
lida amizade que nos une. Sd ga-
nha problems tendo-me como
seu client.
Por causa dessa convocaco,
todas as minhas outras obrigac6es
e compromissos estio prejudica-
dos, inclusive o tempo e a aten-
qio requeridos por este journal.
Pego desculpas aos leitores. On
Maiorana, que nao fazem jorna-
lismo em suas empresas, querem
me impedir de fazer jornalismo
neste meu mindsculo espago. As-
sim, sabotam duplamente a opi-
niao pdblica. Sio punidos tendo
que ver a verdade sobre eles
continuar a ser estampada aqui,
apesar deles.



Posigao


Com o artigo publicado nesta
edigio consider suficiente-
mente definida minha posiglo
diante dos Maiorana e ramifica-
96es. 0 assunto so voltard a este
journal para o registro do anda-
mento dos processes judiciais, o
que, infelizmente, s6 pode ser
feito neste espago. A nao ser que
meus contendores se superem na
tarefa de cometer arbitrariedades
sobre arbitrariedades, obrigando-
me a defender-me.
Quanto ao grupo de comuni-
cagio, ele aparecerd aqui quando
for notfcia.






Journal Pessoal 7

FRONTEIRA


A doutrina ainda vive


reze bilh6es de d6lares 6
dinheiro suficiente para
promover um program de
desenvolvimento regional de
grande f61ego em qualquer parte
do mundo. Represent quase tres
vezes a colaborafio financeira
dada pelo governor federal a pro-
jetos incentivados na Amaz6nia,
aprovados pela Sudam, ao long
de um quarto de s6culo, como
parte da polftica de incentives
fiscais.

Fisiologismo
extravagant

Se dependesse do deputado
federal Jolo Fagundes, do PMDB
de Roraima, esses US$ 13 bilh6es
seriam aplicados num s6 ano em
um dnico projeto official, o Calha
Norte. E valor equivalent a mais
de seis anos de exportac6es do
Estdo, o principal da Amaz6nia
e o quarto maior em comdrcio
exterior do pafs.
O deputado pode ter praticado
apenas fisiologismo inconse-
quente, jd que o Projeto Calha
Norte atua principalmente em Ro-
raima. Pode tambem nio ter a
mais remota dimensio do abalo
que sofreria o orgamento da
Unifo cor a aprovaaio de sua
emenda, sensatamente rejeitada
pelo relator da mat6ria na Camara
Federal, deputado JoAo Faustino,
do PSDB do Rio Grande do Nor-
te. Apesar de todas essas ressal-
vas, entretanto, 6 pouco provivel
que o pariamentar esteja sozinho
em seu delfrio orcamentario.
O Projeto Calha Norte tem
cinco anos de vida. Foi concebi-
do no infcio do governor Sarney
como uma esp6cie de compensa-
g o pelo reconhecimento official
de que a doutrina de seguranga
national, leitmotiv de 20 anos de
regime military, perdera sua efici-
cia. Mas se a partir de 1985 o
pafs caminhou no rumo da nor-
malidade institutional e da ple-
nitude democrAtica, em mat6ria
de Amaz6nia manteve os ritos do
passado. Mas nem mesmo a opo-
sifio e a esquerda se importaram
muito: a fronteira, final, 6 o lo-
cus do atraso.
A doutrina da seguranga na-
cional foi requentada, recebeu um


brilho de ocasiAo e impulsionou o
iangamento do Calha Norte. A
princfpio seria apenas uma ampla
aviventagio de fronteiras. Mesmo
cor toda a fantasmagoria suces-
sivamente reativada a prop6sito
das ameagas de cubanos invasores
ou dos guerrilheiros dos movi-
mentos M-19 e Sendero Lumino-
so, ou em funaio do livre transito
de grupos indfgenas, que vAo e
vem indiferentes As fronteiras,
demarcadas pelos colonizadores
europeus muito tempo depois que
eles se haviam estabelecido nes-
sas remotas paragens, as extensas
linhas divis6rias amaz6nicas
sempre se mantiveram em paz.
Entretanto, na 6tica dos geo-
polfticos, aquelas regi6es ofere-
ciam risco potential. Eram consi-
deradas "espagos vazios", sus-
cetfveis de cobiga e ocupagio por
nac6es que estivessem entrentan-
do problems de exigiiidade ter-
ritorial ou excedente demogrdfico
(as duas condig6es isoladamente
ou em conjunto). Teoricamente,
uma faixa de 150 quil6metros de
largura ao long dos 11 mil qui-
16metros de extensio das frontei-
ras amaz6nicas jd constitufa zona
de seguranca national, sob a tu-
tela do Estado-Maior das Forgas
Armadas.


Roupa nova,
mesmo model

O Calha Norte, pordm, dotado
de um melhor "status", aduziria
A presenga military um process de
colonizagio que avivaria a fron-
teira, garantindo a soberania do
pafs sobre essas Breas passfveis
de serem atingidas pela cobiqa
international. Os militares conti-
nuariam no comando da expansion
da maior fronteira do pafs, mesmo
num moment em que a sociedade
Ihes cobrava (ou impunha) um
retorno as tarefas profissionais,
no interior dos quart6is.
O Calha Norte deveria induzir
uma corrida a novas terras de al-
guma maneira semelhante A que
se registiara do lado sul da calha
do rio Amazonas, produzindo em
seu curso fen6menos como o da
Serra dos Carajas, hoje uma das
mais importantes provfncias mi-


nerais do planet. Mas faltou dis-
posilio e dinheiro para reeditar,
nas areas mais setentrionais do
Brasil, essa loucura que foi a
"Operacio Amaz6nia", deflagra-
da com pompa pelo marechal
Castelo Branco em 1966. Um de
seus resultados mais impressio-
nantes foi ter feito o desmata-
mento pular, em 25 anos, de 0,8%
para 11% da superffcie amaz6ni-
ca.
A vinculaqio orgamentaria
que o deputado de Roraima que-
ria estabelecer 6 tanto mais ab-
surda quando se sabe que o Calha
Norte 6, atualmente, pouco mais
do que a construcio de algumas
pistas de pouso e quartdis de ba-
talh6es militares avangados.
Mesmo esses poucos investimen-
tos ja foram o suficiente para
criar problems muito mais gra-
ves do que aqueles que o projeto
pretendia resolver, como a inva-
sio da reserve dos fndios Yano-
mami, em Roraima, por garimpei-
ros, e o incident military com
colombianos no rio Trafra, no
Amazonas.
A iniciativa do deputado Joio
Fagundes demonstra que os fm-
petos grandiloqientes dos que
conceberam a ocupafio da Ama-
z6nia tal como ela ter ocorrido
permanecem muito vivos. S6 que
agora voltaram aos subterraneos,
alias, seu local de origem.


E o Para, uai?

s Schettino, membros de uma
diligente famflia mineira,
chegaram ao topo da Companhia
Vale do Rio Doce, depois de
ocuparem algumas de suas posi-
q6es intermediarias. Francisco
Schettino 6 o novo president da
empresa, com a missfo, dada por
seu conterrfneo, o president
Itamar Franco (o mais mineiro
dos baianos), de gerar o maximo
de lucro para aplicar verbas em
obras de sentido social em Mi-
nas Gerais, naturalmente, benefi-
ciada, juntamente cor o Espfrito
Santo, pelo fundo de desenvolvi-
mento da CVRD.
Quanto ao Para, 6 um detalhe,
que nem os paraenses lembram de
destacar.





JARI


Uma
D urante os 15 anos em que
foi o proprietario do Pro-
jeto Jari, o maior empreen-
dimento econ6mico conduzido
por uma dnica pessoa na Amaz6-
nia, o milionario norte-americano
Daniel Keith Ludwig investiu 700
milh6es de ddlares no complex
agroindustrial que inclufa uma
fabrica de celulose, refloresta-
mento, plantio de arroz, extragdo
e beneficiamento de caulim, e
uma infraestrutura montada ao
redor de Monte Dourado, a sede
de sua possessAo de 1,6 milhao
de hectares entire o Pard e o
Amapd.
Quando Ludwig deixou o Jari,
em 1982, a mfdia lamentou em
unfssono retumbante que ele ti-
vesse enterrado na selva amaz6-
nica mais da metade de sua le-
gendaria fortune. Ledo engano.
Todo o dinheiro que o excentrico
milionario, falecido em agosto
deste ano, aos 92 anos, havia ti-
rado do pr6prio bolso nio chega-
ra a US$ 180 milh6es. O resto do
investimento safra dos cofres de
bancos ou de outras empresas es-
trangeiras, especialmente dos ja-
poneses, construtores das duas
enormes plataformas sobre as
quais foram montadas a fdbrica
de celulose e a usina de energia.
Essas embarcag6es hfbridas nave-
garam 23 mil quil6metros antes
de ancorarem no porto de Mon-
guba, dando rendosa publicidade
ao estaleiro Ishikawajima (no
qual Ludwig tinha interesses).
A crise que levou a nacionali-
zaqio do Jari, cor a substituicio
do milionario americano por 22
empresas brasileiras, a frente o
grupo Caemi, de Augusto Antu-
nes, resultou exatamente da recu-
sa de Ludwig em pagar as presta-
q6es do empr6stimo por ele con-
trafdo para a construgio da fAbri-
ca de celulose e sua estrutura au-
xiliar. Esse financiamento foi de-
finitivamente amortizado no ano
passado, mas graqas ao Banco do
Brasil e ao Banco Nacional do
Desenvolvimento Econ6mico e
Social, o BNDES. Os dois bancos
estatais tiraram de seus cofres
US$ 500 milh6es para saldar os
compromissos de Ludwig, trans-
feridos aos seus sucessores bra-
sileiros, mas por eles nao incor-
porados em funglo do capitalism
de muletas que se pratica no Bra-
sil.


conta simb6lica


O investimento de US$ 500
milh6es em nove anos, um dos
mais pesados que o governor bra-
sileiro ji realizou em beneffcio
de um dnico empreendimento
particular, foi retribufdo corn
aq6es preferenciais sem direito a
voto nas decis6es da empresa.
Seu privil6gio 6 o de ter priori-
dade no recebimento dos dividen-
dos. Mas o Jari, que funciona em
escala commercial desde 1979, ain-
da nio deu lucro logo, nao p6-
de distribuir dividends.
A diregio da empresa, atrav6s
de reportagem publicada no jor-
nal Folha de S. Paulo, promete
que em 1922 a inddstria de celu-
lose, pela primeira vez, ird apre-
sentar resultado lucrative, "irri-
s6rto", admite o. president da
Companhia Florestal Monte Dou-
rado, Eduardo Netto Alves Bar-
reto, "mas simb6lico". JA lucro
operacional, como o previsto para
este ano, de US$ 13 milh6es, o
Jari ja tem ha alguns anos, mas
lucro Ifquido, mesmo que irris6-
ro, nio houve at6 agora, em 13
anos de operagio commercial. O
enorme custo financeiro, resul-
tante do endividamento oneroso
feito por Ludwig, tem absorvido
os efeitos da atividade produtiva.
Se realmente ocorrer (o que
s6 serd confirmado quando o ba-
lango annual for divulgado. no inf-
cio de 1993, ou se a empresa
aceitar antecipar o resultado com
mais detalhes), o lucro sera epi-
s6dico e ainda nio permitird
qualquer ressarcimento aos dois
bancos estatais, obrigados a efe-
tuar a operagfo, a contragosto,
pelas tais "determinag6es su-
preiores". Nem ha perspective de
que lucro possa haver ainda neste
s6cuio. Para poder expandir a ca-
pacidade de produgio de celulose
e pensar em produzir papel, a Jari
tera que gastar 100 milh6es de
d6lares em uma hidrel6trica. Sem
essa usina, a nova unidade, a ba-
se de pasta termomecinica (e nao
mais qufmica, como a primeira),
nao podera funcionar. Sem gera-
(go pr6pria de caixa, a empresa
recorrera a novo financiamento.
Parte do dinheiro ja ter sua ori-
gem definida: o BNDES, nova-
mente.
E evidence que nem todas as
atividades na Area do Jari slo de-
ficitarias. O caulim e a bauxita
refrataria, por exemplo, dio bons


lucros. Mas esses dois empreen-
dimentos, que ja eram bom neg6-
cio na 6poca de Ludwig, percen-
cem apenas a Azevedo Antunes.
NAo se solizarizam cor as obri-
gadoes das empresas irmis e vizi-
nhas. O resultado vai para os bol-
sos de seus donos.
Obviamente, a questfo 6 mais
complex do que seu enredo su-
marizado, mas sua essencia revela
uma an6mala forma de associacio
entire o Estado e o capital priva-
do, que s6 nio espanta mais por-
que o Jari saiu da agenda da mf-
dia e do foco de interesse da opi-
nifo pdblica. Imotivadamente,
contudo, porque se antes quem
tinha que pagar a conta era Lud-
wig, agora ela 6 apresentada, por
vias e travessas, ao cidadio bra-
sileiro. Que paga, nao chia e nem
sabe o que esta pagando 6, as-
sim, o traditional pato dos contos
populares.


Enviado cego

Folha de S. Paulo mandou seu
enviado especial ao Jari. 0
reporter Fernando Canzian voltou
cor uma mat6ria, retalhada em
quatro retrancas de dimensAo ho-
meopatica, como convdm ao re-
ceitudrno da casa, e um box, a
maior atrarao do jornalismo mi-
nimalista que se pratica no journal
de maior tiragem do pafs. Ne-
nhuma novidade, exceto pelas
cinco linhas (em 160 linhas apro-
ximadamente) que falam do andn-
cio do lucro "irris6rio, mas sim-
b6lico". O reporter nio conse-
guiu arrancar um ndmero sobre
esse lucro, nem mostrou a dife-
renga entire o lucro operacional e
o lucro lfquido ou outras infor-
mag6es que ajudariam o leitor a
entender por que a matdria ga-
nhou chamada de primeira pagina
e uma capa de caderno.
Cor esse tipo de jornalismo,
a Folha esta conseguindo uma fa-
ganha: reportagem de enviado es-
pecial ja pode ser produzida na
redacio.


Journal Pessoal
editorr rcsxpon, vel: Ldcio FInvio Pinto
IlustraR9o: I.uiz Pinto
Rua Canmps Sales. 268/03 66.020
Fone: 223-1929 Opiao Editorial
Impraso nas oicinas de Agranell Fditora,
travels Alferes Costa, 1690. Belem.