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Journal Pessoal E EDITOR RESPONSAVEL: L CIO FLAVIO PINTO Ano VI 0 NO 104 2" Quinzena de Dezembro de 1992 Cr$ 5.000,00 SUCESSAO Foi dada a largada As eleiqoes praticamente nao tem mais intervalo. Quando Helio Gueiros se tornar prefeito, comegara a dispute pela sucessao de Jader Barbalho em 1994. A o assumir a prefeitura de Beldm, no dia 1, Hl1io Gueiros nao estA apenas marcando sua volta ao epicentro do poder polftico no Pard: tam- b6m desencadeia a corrida visan- do a escolha do governador do Estado, em 1994. Desde ja, o primeiro candidate a esse cargo 6 o pr6prio Gueiros, que tentard repetir a faganha de seu ex-irmio afetivo e hoje pior inimigo, na dobradinha antfpoda que tern marcado cor monotonia e pobre- za o mais recent perfodo na vida polftica paraense. 0 perfil do Hl1io Gueiros 92 6 um retrato bem retocado do po- lftico que, por forga do acaso e da vontade de terceiros, chegou pela primeira vez ao governor do mais important Estado da Ama- z6nia em 1987. Derrotado pelo regime military no final da d6cada de 60, Gueiros sd voltou a cena polftica, 15 anos depois, porque a mAquina official que o apoiou permitiu-lhe ter mais votos do que o outro candidate da sub-le- genda do PMDB para o Senado, Joao Menezes, e porque a adigao de votos do terceiro candidate peemedebista, Itair Silva, deu ao partido mais votos do que o con- corrente dnico do PDS, o senador Jarbas Passarinho. Nio foi o desempenho de Gueiros no Senado que o fez ele- ger-se governador em 1986. Foi novamente a maquina official, usada sem reserves por Jader Barbalho para veneer uma dispute que gravitava em torno dele. Mas o Hdlio Gueiros que se tornou prefeito de Belem logo no 12 tur- no, em outubro, pode reivindicar para si crdditos por essa vitdria, dividindo ao meio os mdritos corn outra fonte de poder no Estado, o grupo Liberal. A imagem do sucesso Tendo ao seu inteiro dispor os vefculos que monopolizam e manipulam a comunicaaio de massa, sobretudo em Belem, Gueiros usou competentemente a televisio (cor a incondicional adesio do journal O Liberal) para exibir uma image ao gosto do pdblico. Um home para o qual o grupo Liberal deu atestado de probidade total, de competencia e de transparencia. O retoque que faltava conferiu ao ex-goverador uma aura de santidade: nao reagiu aos ataques dos adversdrios corn o deboche costumeiro, mas corn humor e ironia; abusou das cita- qges bfblicas, mas cor o ar cor- dato; e ate leu letra de mdsica e poesia. Quis mostrar que estava ali apenas para ser confirmado e nio propliamente para disputar cor outros candidates um lugar que ja considerava seu. O am- biente de "jd ganhou" foi fatal. O outro component da vitd- ria de Hdlio Gueiros foi forneci- do involuntariamente por seu maior rival. O governador Jader Barbalho, que nunca perdeu uma eleigio de que participou, mas tambdm nfo conseguiu eleger ne- nhum de seus candidates a cargos majoritarios desde a ascensao de Gueiros (uma e.videncia de seu individualism visceral), abusou do direito de cometer erros. Es- colheu mal o candidate que o PMDB apoiaria depois da fuga do senador Almir Gabriel e deixou que amadores auto-suficientes, convencidos de poder manobrar o gosto do povo a partir de gabi- netes refrigerados, conduzissem o process sucess6rio. Mas tambdm acreditou nos incensos cor os quais adornou-se e achou que elegeria quem quisesse, presun- gao falsa que tamb6m fez Helio Gueiros perder em 1991. O desastre final tern a autoria de Jader. Ele consumou a vit6ria de Gueiros ao ameagar o eleitor de represalias por votar no inimi- go e promoter trat4-lo a pao e Agua, arrematando cor a santifi- cagao a beatifical figure que o bom ator desempenhou diante das cAmaras. Esse desempenho sagaz transformou a panfletagem feita pelo governador da horrfvel carta a mim enderegada pelo ex-gover- nador num instrument a favor dele, ao invds de ser, como deve- ria ocorrer em sociedades civili- zadas (ou nas quais tambem nio houvesse iniciativas tao equivo- cadas), a pd de terra na sua se- pultura polftica. Para credenciar-se como o mais forte candidate a volta ao palfcio Lauro Sodrd, Helio Guei- ros tern o segundo orgamento pd- blico do Estado, a audiencia de um quarto do eleitorado do Esta- do e o poder de repercussao da Jornal Pessoal maior corporagao de informaio. Precisa preservar a imagem que ja projetou, do estadista que na ver- dade nada faz para merecer a classificagio, mas aparenta tudo nesse sentido (contradigao que explica a indigencia mental do Estado, sujeita menos h condena- gao dos expectadores, por ser um resultado, do que a provocar es- panto e preocupagao). Com as cautelas devidas para nao cair do humor e da ironia no simples deboche, nem deixar que o verniz bfblico deixe mostrar a sordidez dos mdtodos que usa pa- ra veneer, Hdlio Gueiros vai ex- plorar um fator que explica o su- cesso de seu ex-aliado Sahid Xer- fan: sugerir que pode fazer mais do que fez, nao tendo realizado por carencia de tempo ou por- que forga superior o bloqueou. O bode expiat6rio ideal para o pre- feito Hdlio Gueiros e o governa- dor Jader Barbalho, que parece ter safdo da letargia em que os intensos problems pessoais o fi- zeram imergir e percebeu a situa- gio. Nas dltimas declarag6es pd- blicas Jader ji nao diz que nao pretend nem cumprir obrigag6es protocolares junto ao prefeito da capital ou que vai cancelar o pro- grama de macrodrenagem das baixadas, o dnico investimento de vulto na cidade em d6cadas, por causa da ma companhia. Ao con- trfrio, garante que respeitard a autoridade do inimigo e que con- tinuard trabalhando por Beldm independentemente das idiossin- crasias pessoais. Ou seja, nio quer ajudar a tecer a imagem de vftima que aumentaria ainda mais a possibilidade de Gueiros ele- ger-se governador em 1994. Se ele nada fizer no ano e meio de mandate municipal que tern antes de sair novamente candidate, seri porque nao foi capaz e nao por culpa alheia, o refrio que Xerfan usou duas vezes, numa delas com absolute sucesso. Por essa dupla estrat6gia, as previs6es sobre a transformaaio de Belem numa Beirute polftica, cor a guerra declarada entire o governador e o prefeito, nio de- verio confirmar-se. Gueiros e Barbalho vao comportar-se com aquela cautela que marca o de- sempenho dos lutadores de boxe nos primeiros rounds, quando "se estudam" mutuamente. Pode ha- ver sangue depois, nio agora. Esse evidence clima de disten- sao levou o prefeito Augusto Re- zende a acreditar na possibilidade de sair candidate ao governor co- mo um "tertius" pacificador, um "pombo-correio" mantendo por tabela a comunicagio entire dois polfticos que nao querem nem se ver, mas precisam de didlogo in- corp6reo. Rezende deve ter deixado a preteitura de Bel6m com uma sensaaio de confianga e realiza- gao semelhante A de Ajax d'Oli- veira. Um dos raros prefeitos de safras recentes que conseguiu modificar a paisagem de parte da cidade, Ajax estava certo de que se elegeria com tranqfiilidade e consagraaio deputado federal de- pois da passage pela PMB. Mas foi derrotado e, desiludido, aban- donou a polftica. Os bons resul- tados que Rezende pode contabi- lizar a seu favor decorreram de algumas ag6es isoladas de valor e capazes de render dividends, mas tambr m da mesma arma que Hdlio Gueiros utilizou: uma ma- ciga campanha publicitAria atra- vCs do grupo Liberal. 0 vicuo at6 94 O tempo e a dist&ncia atd a abertura official da campanha eleitoral para o governor, entre- tanto, sio desgastantes. Na festa de confraternizagio organizada pelos amigos para a despedida do prefeito nao compareceu nenhum dos Maiorana, que sequer se de- ram ao trabalho de mandar repre- sentante. Mesmo assim, Rezende ainda programou um caderno no journal O Liberal para difundir suas obras, boa parte das quais se realizaram tendo nio a ele como intermediario, mas seu mais do que bem-sucedido irmao, Berna Rezende, o canal de acesso dos empresarios diante da contumaz circunstancia (talvez nio tao cir- cunstancial quanto parecia) de que o prefeito nunca era achado. Berna, sempre A mio, foi, mais do que a eminancia parda, o pre- feito de bastidores e isto ainda vai pesar sobre o future de Au- gusto. Ele precisard impedir que for- faits como o dos Maiorana se multipliquem, ou que a ironia contida do seu successor se trans- forme em atos de hostilidade. Al6m de comentArios desfavora- veis que ter feito para pessoas mais prdximas, Gueiros desmon- tou a equipe de Rezende e vai desfazer algumas de seus eixos de influencia e poder na prefeitura, como as empresas Terraplena e Papa-Lixo. Outra dessas empresas que poderia servir de proteago contra o inverno polftico que co- mega agora para Rezende, a So- tel, depend do Estado e nio do Municfpio. O equilibrismo entire os dois p6los sera fundamental para v6os de maior amplitude e Rezende nao demonstrou ter essa capacidade. Nao estA immune a uma sorte como a de Ajax, Um indicador dos combates que se aproximam r o langamento soft da candidatura do empresirio Oziel Carneiro, do PDS, que ago- ra talvez apareca como aliado do adversario que o derrotou 10 anos atras, o governador Jader Barba- Iho. Geralmente enquadrado no rol dos polfticos mastod6nicos, diffceis de carregar por seu peso, Oziel ter, no entanto, um perfil que nao se encaixa na formula do adversArio que H6lio Gueiros gostaria de ter contra si. Oziel, evidentemente, nada tem de semelhante com Socorro Gomes. Entre a elite local e da- queles personagens apontados como s6rio, que estuda antes de se manifestar sobre qualquer te- ma, com uma apreciAvel expe- ri8ncia, sem n6doas pessoais na biografia que nAo possam ser re- tocadas pelo marketing ou expli- caveis por boa orat6ria. Ele ate poderia ser colocado em igualda- de de condig6es potenciais com Hdlio Gueiros se tivesse atrAs de si a miquina official, que, na his- t6ria do Pard, s6 6 derrotada em circunstfncias especiais ou pela imperfcia dos que a manobram, como ocorreu em 1991. Jaaer vai aguardar o desem- penho do senador Fernando Cou- tinho Jorge no minist6rio do Meio Ambiente, sua principal alternati- va dentro do PMDB, antes de de- finir sua opgio, mas ja esta con- vencido de que s6 conseguird fa- zer seu successor permanecendo no governor atd o fim e, mais uma vez, cancelando a inclusion da senatoria em seu currfculo, al6m de expor-se a falta de um guarda-chuva parlamentar para imuniza-lo dos ataques dos inimi- gos. No horizonte do Pa- rd atd o final do s6culo slo tS- nues os sinais de renovagao. A lideranga polftica do Estado con- tinuari sendo uma redoma do passado. 2 __ CRIME A quem interessa U m ano depois de ter sido cometido, o assassinate do empresirio Bruno Marinho de Meira Mattos ainda nio tern autor identificado, mas a polfcia pelo menos conseguiu apontar "os dnicos a se beneficiarem materialmente" cor a morte do filho do secretdrio de Justiqa do Estado: sua mulher, Milene Xer- fan Haber de Meira Mattos, seu sogro, Michel Homci Haber, e seu cunhado, Gustavo Xerfan Haber. Os nomes dos tr&s surpreen- dentes personagens, todos fre- quentadores de colunas sociais de Beldm e personagens da elite lo- cal, estao citados com todas as letras no relatdrio do delegado Cl6vis Martins, director da Divi- slo de Crimes contra a Pessoa e o segundo policial a presidir o in- qudrito, instaurado no mesmo dia da morte de Bruno, a 10 de de- zembro do ano passado. Cl6vis, por falta de provas, nao indiciou ningudm. Essa etapa ainda esti "em apuragio", como diz na abertura de seu extenso relat6rio, remetido A jufza de Ananindeua e a espera de provi- dencias, ate agora nio adotadas. Admite que as investigag6es es- tAo tendo pouco sucesso, mas de- bita o fato "tanto a Polfcia, que deixou de adotar medidas ime- diatas apds o conhecimento da morte de Bruno, como a interdi- gio de seus escritdrios e sua resi- dencia para preservaqio dos do- cumentos ali existentes, bem co- mo dos computadores por ele uti- lizados; como tambem A famflia e amigos do morto pela oculta;o e sonegagAo de informaq6es de vi- tal importAncia que somente vie- ram a tona extrafdas quase a for- 9a". Prova do crime O delegado cita como exem- plo dessa obstruglo deliberada uma carta que Bruno escreveu pouco tempo antes de ser assassi- nado com um tiro certeiro, dispa- rado do interior de um carro que emparelhou cor o dele a 30 qui- 16metros de Beldm, na BR-316, as 18 horas, quando ele retornava de uma misteriosa viagem. Na carta, Bruno anuncia a possibili- dade de se suicidar se nio conse- guisse resolver os problems que estava enfrentando, principal- mente financeiros. Milene, acom- panhada do pai, entregou a carta A polfcia e divulgou-a, atravds de matdria encomendada a grande imprensa, como se fosse a prova do suicfdio final concretizado pelo marido. Milene apresentou essa carta A polfcia quatro meses depois do crime, como se a tivesse desco- berto casualmente na v6spera, ao mexer num blaser do marido. No entanto, afirma o delegado que "tanto a vidva Milene e sua ta- mflia, assim como o pai e irmaos de Bruno, sabiam existir (a carta) e omitiram o fato". Michel Ha- ber, pai de Milene, fez referencia a carta "pela primeira vez ao Dr. Adherbal Meira Mattos no prddio do I. M. L. (Instituto Mddico-Le- gal), quando o corpo de Bruno ainda se encontrava sendo ne- cropsiado". Mas. "matreiro", Michel decidiu guardar a carta, "pois, sem data, poderia ser usa- da em qualquer ocasiao". A ocasiao se ofereceu quando a polfcia comegou a desconfiar que das pessoas mais prdximas a Bruno e nio dos marginais do narcotrdfico, com os quais nego- ciava poderia retirar as melho- res pistas para elucidar o crime, e nio apenas porque estavam sone- gando informaq6es preciosas. Mas af um circulo de ferro se fe- chou e a polfcia, sem meios equi- valentes, nio p6de romper essa barreira. O "caso Bruno", que esteve prestes a ser resolvido, caminha celeremente para o arquivo mor- to. Talvez porque, nele, nio se possa langar a culpa sobre um providencial mordomo, embora os maiores suspeitos tenham condi- g6es de sustentar mordomos. Pelo andamento da apuragio, e quase certo que consigam manter a apa- rencia limpa de seas colarinhos brancos. Milene, ao inv6s de se empe- nhar pela revelagio da verdade ou em defender a honra do mari- do, d acusada de obstruir o inqu6- rito. Tres meses e meio depois da morte de Bruno ela compareceu espontaneamente pela primeira vez a Divisio de Crimes contra a Pessoa, acompanhada do pai, do irmfo e do advogado Edmundo Oliveira, para retificar o depoi- mento que havia prestado. Disse ter-se lembrado de que autorizara a retirada do computador privati- vo do marido na agencia de c&m- bio Carajds, "alegando que em seu primeiro depoimento estava praticamente 'dopada' e nio se recordava do fato". O pai foi in- diciado porque Josd Ricardo Raymundo e S6rgio Mendes de- clararam ter tirado o computador por ordem de Michel. E evidence diz o delegado em seu relatdrio que essa decla- raqAo teve o dnico objetivo de li- vrar seu pai da acusagIo de furto ou receptaago, pois, conforme se pode concluir, foi Michel quem mandou Josd Ricardo retirar o computador de Bruno e condu- zi-lo A sua casa. Com evidence ironia, relata o delegado que "passados cinco dias do depoimento 'esclarecen- do' o episddio envolvendo o computador de Bruno, fomos no- vamente surpreendidos corn uma segunda apresentagao espontanea de Milene; desta vez, coinciden- temente, no dia 12 de abril, oca- siao em que a mesma nos fez a entrega de uma carta escrita por Bruno e dirigida a seu pai, Mi- chel Haber, na qual o mesmo re- latava uma sdrie de dificuldades e anunciava que iria se matar". A carta e autentica, mas, ao escrev6-la, a intengio real de Bruno nio seria a de suicidar-se, mas, como opina o delegado, tal- vez "sensibilizar seu sogro, chantageando-o emocionalmente, chegando inclusive a conseguir do mesmo um emprdstimo de se- tenta milh6es de cruzeiros". Ainda que a intengio de ma- tar-se fosse sincera, Bruno jamais poderia te-la executado nas cir- cunstAncias em que morreu, "pois, alem de o teste de parafina ter dado negative, provando que Bruno nao fez uso de anna de fo- go, seria impossfvel, tanto pela dist&ncia como pela precision do Angulo de tiro", ele ter atirado em si mesmo. A simples admissao dessa hi- 5 m nro al Pessoal 4 Jornal Pessoal p6tese, que levou os jornais de Bel6m a dar em manchete que o empresario havia se suicidado, evidencia a grotesca e tosca ten- tativa de despistamento. "0 que salta aos olhos neste caso", afir- ma o delegado, "6 que quase to- das as pessoas envolvidas mentem descaradamente". Ele diz ser o caso de Michel Haber, dono da corretora e agen- cia de turismo Monop6lio, que te- ria mentido ao declarar nunca ter visto a carta de Bruno antes da "descoberta" da .filha e tamb6m desconhecer a existencia de uma sacola com 300 mil d6lares, di- nheiro vivo, que Jos6 Ricardo Monteiro Raymundo retirou da agnncia de cambio e Ihe entregou (sem revelar esse "detalhe" A polfcia). Essa condigao de inseguranga fez o delegado registrar o "fato inusitado de Milene, como vftima, e seus parents haverem contrata- do um Criminalista para defen- de-los de que?". Defend6-los de suas consciencias, evidentemente, nio 6 tarefa ao alcance do bem relacionado advodado Edmundo Oliveira. Mente tamb6m Jos6 Ricardo, amigo de infAncia de Bruno e o dnico com acesso a todos os neg6cios dele, inclusive os ile- gais, que "lavavam" os ddlares do narcotrafico e financiavam uma rede de com6rcio de cocafna. Jos6 Ricardo era o dnico, al6m de Bruno, que operava um computador no qual eram regis- tradas as transag6es do "caixa 2", onde nomes codificados es- condiam traficantes de cocafna, compreendendo um vasto espectro que ia de delinquentes comuns a empresarios; de Guajara-Mirim, em Rond6nia, a Amsterdam, na Holanda, passando por Paramari- bo, no Suriname; muita fachada com aparencia sadia atris do qual se praticava crimes como estelio- nato, evasao de divisas e trafico international de drogas; cor um fluxo intense de dinheiro que se beneficiava da coniv6ncia ou mesmo participaaio de algumas ag8ncias bancarias. Fiel & moda da 6poca, Bruno tamb6m tinha seus "fantasmas", em ndmero de quatro, para manter & distAncia do vesgo leao da re- ceita federal o dinheiro sujo que precisava ingressar em contas bancArias. Chega a ser desconcertante constatar que foi desvendada uma parte desse mundo illegal, cada vez mais insinuante no Pard, mas o crime em si permanece um complete mist6rio. Nenhuma das testemunhas do acontecimento conseguiu sequer identificar o carro usado pelo motorist e o pistoleiro para matar Bruno corn um dnico tiro, disparado quando os dois carros emparelharam, a 100 quil6metros por hora. Hd evid6ncias suficientes para sus- tentar o convencimento de que no ^ia 10 de dezembro a rede de trg- fico de cocafna que tinha Bruno como eixo estava mobilizada por conta da chegada de um carrega- mento de droga, fato real ou isca criada para atrair o empresario para uma cilada. Pelo menos tres personagens estavam diretamente relacionados a esse event. Um deles, Izid6rio Izfdio de Oliveira Filho, chegou a ser preso, mas foi solto por ordem judicial porque nenhuma das muitas evidencias obtidas na investigaqao transfor- mou-se em prova. Enredo sofisticado Se o crime envolvesse apenas os frequentadores do sub-mundo que torna possfvel a cocafna sair dos centros produtores na Col6m- bia, Peru e Bolfvia e chegar aos consumidores mais sofisticados, nas grandes cidades europdias ou nos Estados Unidos, talvez o as- sassinato de Bruno Meira Mattos pudesse vir a ter desfecho divers do que nAo ameaga consumar-se. Mas o enredo de sua ascensio e queda envolve muitos complica- dores. Puxar o fio de sua morte pode desvendar todo um corpus criminoso, cor o risco de ocorrer como numa ponta de novelo pu- xada sem temor. Bruno comegou a ter seus ne- g6cios apenas 10 anos atras, tra- balhando primeiro com o sogro e o cunhado na compra e venda de ouro, atividade traumatizada pelo envolvimento de Gustavo no ar- rombamento da residencia do procurador regional da Repdbli- ca, Paulo Meira, e roubo de jdias de sua famflia. Em 1986 Bruno tornou-se corretor de cAmbio, mas logo sua ag6ncia passou a servir "tanto como financiadora do tra- fico de cocafna como 'lavadora' do dinheiro arrecadado no exte- rior proveniente desse com6rcio", burlando a fiscalizaglo official, que as vezes, como observa o delegado Cl6vis Martins, "nao consegue detectar certas irregula- ridades que essas empresas cos- tumam cometer, embora bastante frequentes". Participagio dos bancos Entre essas irregularidades est& a abertura de contas banca- rias frias, celebrizadas cor os "fantasmas" do president afas- tado Fernando Collor de Mello. Bruno abria contas usando docu- mentos de identificagAo de fun- cionarios da corretora CarajAs ou mesmo de pessoas humildes que Ihe haviam prestado algum servi- go. Conseguia movimentar somas elevadas em nome desses corren- tistas porque os gerentes de ban- cos lhe entregavam cadastros e fichas de aut6grafo em branco. que ele preenchia conforme sua conveni6ncia, e abonavam todos os seus atos com a velha "filoso- fia" de que ainheiro 6 dinheiro, independentemente de sua origem (o que fez o poeta e dramaturge alemio Bertolt Brecht observer, sardonicamente, que mais renti- vel do que assaltar um banco 6 fundar um). Os supostos corren- tistas nem suspeitavam de que por suas contas as vezes passavam valores diarios superiores a mui- tas vezes o que eles poderiam ga- nhar trabalhando a vida toda. As contas fraudulentas eram necessArias para que o volume inexplicAvel de dinheiro nao apa- recesse em nome de Bruno (mas os sinais de um enriquecimento fulminante, como a mansio na qual morava, saltavam aos olhos). "t evidence que esse ato ilfcito nao teria existencia se nao con- tasse corn o concurso dos geren- tes dos bancos envolvidos", diz o delegado Cl6vis Martins, que apontou alguns desses gerentes. enquanto se espera pelas provi- dencias que cab-ria ao Banco Central adotar para nao dar moti- vos a Collor de queixar-se de que s6 os "fantasmas" dele slo com- batidos. Os de Bruno transitavam sem causar sustos em agencies dos bancos Safra, Econ6mico e Bamerindus. ; Diz-se que no moment em que uma bala de pistol ainda nao satisfatoriamente identificada atravessava a cabega de Bruno Meira Mattos. matando-o instan- taneamente, Gustavo Haber parti- cipava de uma reuni&o em agen- cia do Banco Econ6mico justa- mente para tratar dessas contas Journal Pessoal 5 fraudulentas do cunhado. Foi la que Michel Haber localizou o fi- Iho e informou-o do crime. Foi tamb6m para Michel que Jose Ricardo telefonou para dar a primeira notfcia do epis6dio. Mi- chel "nao manifestou nenhuma preocupagAo, como se aquilo fos- se normal", estranha o delegado em seu relat6rio, ressaltando que o relacionamento entire Bruno e o sogro "vinha se distanciando, circunstAncia que Jos6 Ricardo tinha conhecimento". Nesse caso, "o mais correto" seria ele comu- nicar a demora do retorno de Bruno (que anunciara chegar a Bel6m as 12 horas) "aos pais ou irmaos da vftima". Por causa desse detalhe, Cld- vis Martins acredita ter apresen- tado indfcios de que a participa- ago de Michel Haber e Jos6 Ri- cardo "nao esteja apenas no en- volvimento de retirada do com- putador". 0 delegado nao desen- volve a hip6tese que permeia seu relat6rio: de que o crime pode ter sido provocado pela concorr8ncia entire duas fachadas montadas pa- ra a "lavagem" de dinheiro illegal em Bel6m, duas entire muitas ou- tras em plena atividade e atd fotografadas, louvadas e celebra- das na cidade. IMPRENSA A marca da prepotencia enino danado, eu s6 me aquietava cor pap6is nas maos. Af desaparecia para o mundo da leitura, como virias vezes aconteceu na casa do amigo Jos6 Maria Matos, em Santar6m. Na hora de comer, andavam atrAs de mim e me descobriam entire li- vros e revistas. A minha favorite, no final daqueles anos 50, evi- dentemente, eia O Cruzeiro, a re- vista de maior sucesso de venda em toda a hist6ria da imprensa brasileira. Nas paginas de O Cruzeiro, da qual, para meu melhor usu- fruto, meu tio, Aurdlio Rocha, era o distribuidor em Santardm, eu demorava mais no artigo de David Nasser. Sem a malfcia e a compreensio que a quilometra- gem in folios da corn o tempo, eu achava que David Nasser era o maior jornalista vivo do pafs (quem sabe morto, tamb6m?). Aos 13 anos, por causa dele, vi-me diante de um epis6dio que repre- sentaria o primeiro questiona- mento sobre a profissio que jA entfo me atrafa. David Nasser produzira um daqueles seus terrfveis (e, como viria a saber algum tempo depois, nem sempre muito morais, corre- tos, justos ou desinteressados) li- belos. A vftima era o ex-governa- dor do Rio Grande do Sul e (en- tio) deputado federal pela Gua- nabara (hoje Estado do Rio, que voltou a governor) Leonel Brizo- ia. Os ataques, impiedosos, se multiplicariam. Aiguns me fize- ram perguntar se o jornalista nio estava se excedendo. O pior e que o estilo ocultava e se sobre- punha A falta de arguments, ou a aig-mentos nem toi convincentes quanto a arte de manobrar pala- vras e faze-las servir a um prop6- sito. Quando Brizola se encon- trou casualmente cor David Nas- ser no aeroporto de Santos Du- mont e o esmurrou, tive que me socorrer de orientaiao externa para tcntar saber quem estava cor a razao. O conflito que se estabeleceu entire as duas parties estava al6m da minha capacidade de discernimento na 6poca. Recordando esse moment da minha vida antes da opqao que, tres anos e meio depois, faria pelo jornalismo, para toda a vida, convengo-me de que foi exata- mente at que comegou a se con- solidar a minha consci&ncia etica. E que a dtica ter sido a base de tudo o que faqo, dentro e fora das redaq6es, filho reconhecido de uma tradicgo fundada em Baruch Spinoza, meu primeiro e insupe- iado mestre. Primeia agressio Cor a mesma dtica coloco-me diante de outro epis6dio traumi- tico, que me foi dado experimen- tar pela primeira vez no dltimo dia 16, 27 anos depois da entrada inaugural na redaqio de um jor- nal. Algu6m citado por um de meus artigos reagiu tentando me agredir e pessoalmente me amea- gou de morte; Ja fui ameagado de morte por carta e telefone. Ja re- cebi recado atrevido. VArias ve- zes tive que enfrentar bate-bocas. Mas considered normais todas as situag6es. Afinal, meu jornalismo ataca e prejudice interesses pode- rosos, e inimigos, como alerta aquela famosa pega de teatro, nio mandam flores. Mas tamb6m nio entregam bombas em maos. Entretanto, a situagao criada pelo advogado Calilo Kzan Neto, marido de uma das proprietarias do Sistema Romulo Maiorana de Comunicagao, Rosangela Maiora- na Kzan, eu nao posso considerar normal. Repilo-a e a repelirei sempre como um ato ignominioso de violencia, seja eu ou qualquer outro a vftima da torpe agressao. Embora Calilo seja faixa- preta de karate, o que agrava muito sua investida contra mim, do ponto de vista estritamente le- gal e criminal, jai enfrentei gente muito mais temfvel do que ele. Credito, por6m, a meus adversa- rios e inimigos, ao menos aos que at6 aqui se apresentaram, ainda que por vias sinuosas, um m6rito: todos me respeitaram. Mesmo nos moments em que nos defronta- mos cor maior 8nfase, eles parti- ram de um pressuposto: estavam diante de um jornalista sdrio, ho- nesto e competent, nio de um difamador, injuriador ou calunia- dor da honra alheia, de algu6m que se deixa levar pela primeira informacgao ou por uma andlise superficial, de algudm que p6e A venda sua pena (computador, para ser atual) Foi por exercer cor dedica- gao, aplicaaio e dignidade minha profissao que cheguei onde estou. Passei por muitas provas, mas em todas acho que me comportei cor a estatura mfnima que impede os homes de se curvarem ou serem curvados e faz seus contendores respeitarem-nos, sem o que eu jA estaria desmoralizado (ou, o que seria pior, morto) ha muito tem- po. I tamb6m para defender mi- W 6 Jornal Pessoal nha vida, inibindo no nascedouro apetites que poderiam se inspirar no treslocaudo ataque de Calilo, que reajo. Ao consumer o que nenhum outro adversario ousara fazer, ele tornou-se um habeas corpus preventive e uma costa larga (ou bode expiatdrio) para apetites violentos em exercfcio ou disponfveis no mercado, o que 6 ruim para a reputaqgo dele e pds- simo para minha integridade. Ato irresponsvel Calilo Kzan achou de me tratar como se eu fosse um levia- no, como se das paginas deste journal tivessem safdo revelag6es escabrosas, impertinentes ou mentirosas, deliberadamente fal- sas, sobre a vida privada e a hon- ra pessoal de sua esposa (ou, de resto. de quem quer que fosse: a reaqAo de Calilo 6 a primeira e, espero, ditima ). A dnica intfmia que ha nesse epis6dio e a dele pidprio, advogado que agride e ameaga dar um tiro na parte con- trAria do iitfgio judicial exata- mente nas escadarlas do Palacio da Justiga, que jurou, por sua 1W, honrar. A dnica leviandade que hd 6 o comportamento de uma empresa jornalfstica que se recusa a dar contas de acontecimentos ao seu pdblico leitor, convencida de seu status superior, acima da socie- dade como um todo. A dnica coi- sa a lamentar 6 essa infantil sen- sagio de poder e impunidade que faz Calilo. marido de uma Maio- rana, gritar sem a menor preo- cupaq~o cor as abundantes tes- temunhas no local que iiia me matar quando me encontrasse de novo ou se a Justica nio Ihe der o que ele, auto-presumida tonte primiiia do direito, est, cobran- do. Ainda que nio tosse o jorna- lista que sem falsa presung~o, nem cabotinismo sou, cor jus- tos motives, fincados em minha ji longa carreira, para exigir o re- conhecimento desse pressuposto como algo manso e pacffico, pd- blico e not6rio, nada justificaria a agressao de Calilo Kzan. Fiel a meus princfpios, entretanto, me questioned seriamente se ele, afi- nal, nao teria algum motive para se indignar com meu comporta- mento. A reflexio me fez voltar ao epis6dio David Nasser versus Brizola, fresco na minha memdria (acho que para sempre). E dela salo convencido de que Calilo, meu companheiro de Paes de Carvalho, nro tem a mais remota das raz6es. Razio tenho eu para apaga-lo da minha mem6ria, em- bora nao do dever de faz&-lo pa- gar pelo que fez, ainda que tenha ido A delegacia reconhecer seu ato (talvez mais para eximir-se de iesponsabilidade do que para re- misslo de culpa). Pedi a instauraqao de inqud- rito policial e tomarei ainda ou- tras provid&ncias adequadas ao "aso nao para me vingar pessoal- mente, mas para reagir, como sempre fiz, contra todos os aten- tados A vida e A dignidade da pessoa humana. Depois de 27 anos de jornalismo profissional nao permit a ningudm me tirar de uma posiaio que ocupo sem favor algum. Isto d, a de um jor- nalista que deve ser combatido pelas informaq6es que transmite e as iddias que express. Nao es- crevo para defender interesse pr6prio, nem me move outro pro- pdsito que nao o de informar a opinilo pdblica Nio admito que. por qualquer pietexto. se tente impedir o desempenho dessa mis- sio que a sociedade confere A imprensa e a legitima. Tenho procurado cumprir essa funiio tio eievadamente que, olhando deste Jornal Pessoal para a tigura de Calilo e a entourage que o cerca posso v6-los na sua exata dimensfio de an6es e conti- nuar minha tarefa sem me deixar abalar por esse s6rdido epis6dio, que diz apenas sobre seus carate- res e nio sobre o meu. Calilo nao chega a sei propriamente um Bri- zola e eu, seguramente, nio sou o David Nasser que admirei antes que a idade da razio me fizesse avalii-lo cor equilfbrio, a mesma razio que orienta meus atos diante dos falsos donos desta ci- dade que amo e A qual pretend continual a servir por muito tem- po ainda, apesar dos mosquitos nio-anofelinos que a infestam como pragas de ocasiAo. Retifica ao 0 Journal Pessoal errou: Ro- s&ngela Maiorana Kzan nao 6 jor- nalista professional, formada pela Universidade Federal do Pard. Ela se matriculou no curso de Comunicagao da UFPa no final da ddcada de 70, mas teve seus vfn- culos rompidos no ano passado porque nao prosseguiu os estu- dos. Ate entio, vinha se matri- culando, mas nio cursava o ano. Essa corregio, entretanto, nio invalida a andlise que fiz. RosAn- gela estagiou na redagio de O Liberal e filiou-se ao Sindicato dos Jornalistas. Tinha, portanto, a intenlAo se seguir a carreira. Devia estar em condig6es de ava- liar o significado de seu ato ao levar-me A Justica por injdria, di- famagio e caldnia. O principal resultado de sua iniciativa foi o de quase inviabilizar a continui- dade do JP. Ele se mantdm por uma questao de honra, mas o lei- tor verificard a precariedade das condic6es em que 6 produzido pela quantidade de erros que en- contrard nesta ediq~o. Sem recur- sos financeiros, tenho sido obri- gado a me dedicar quase total- mente aos processes instaurados, me desdobrando com meu advo- gado para nio perder prazos e responder A altura (na verdade, alm) dos questionamentos feitos. Carlos Lamario Correa estd na causa mais por compulsio da s6- lida amizade que nos une. Sd ga- nha problems tendo-me como seu client. Por causa dessa convocaco, todas as minhas outras obrigac6es e compromissos estio prejudica- dos, inclusive o tempo e a aten- qio requeridos por este journal. Pego desculpas aos leitores. On Maiorana, que nao fazem jorna- lismo em suas empresas, querem me impedir de fazer jornalismo neste meu mindsculo espago. As- sim, sabotam duplamente a opi- niao pdblica. Sio punidos tendo que ver a verdade sobre eles continuar a ser estampada aqui, apesar deles. Posigao Com o artigo publicado nesta edigio consider suficiente- mente definida minha posiglo diante dos Maiorana e ramifica- 96es. 0 assunto so voltard a este journal para o registro do anda- mento dos processes judiciais, o que, infelizmente, s6 pode ser feito neste espago. A nao ser que meus contendores se superem na tarefa de cometer arbitrariedades sobre arbitrariedades, obrigando- me a defender-me. Quanto ao grupo de comuni- cagio, ele aparecerd aqui quando for notfcia. Journal Pessoal 7 FRONTEIRA A doutrina ainda vive reze bilh6es de d6lares 6 dinheiro suficiente para promover um program de desenvolvimento regional de grande f61ego em qualquer parte do mundo. Represent quase tres vezes a colaborafio financeira dada pelo governor federal a pro- jetos incentivados na Amaz6nia, aprovados pela Sudam, ao long de um quarto de s6culo, como parte da polftica de incentives fiscais. Fisiologismo extravagant Se dependesse do deputado federal Jolo Fagundes, do PMDB de Roraima, esses US$ 13 bilh6es seriam aplicados num s6 ano em um dnico projeto official, o Calha Norte. E valor equivalent a mais de seis anos de exportac6es do Estdo, o principal da Amaz6nia e o quarto maior em comdrcio exterior do pafs. O deputado pode ter praticado apenas fisiologismo inconse- quente, jd que o Projeto Calha Norte atua principalmente em Ro- raima. Pode tambem nio ter a mais remota dimensio do abalo que sofreria o orgamento da Unifo cor a aprovaaio de sua emenda, sensatamente rejeitada pelo relator da mat6ria na Camara Federal, deputado JoAo Faustino, do PSDB do Rio Grande do Nor- te. Apesar de todas essas ressal- vas, entretanto, 6 pouco provivel que o pariamentar esteja sozinho em seu delfrio orcamentario. O Projeto Calha Norte tem cinco anos de vida. Foi concebi- do no infcio do governor Sarney como uma esp6cie de compensa- g o pelo reconhecimento official de que a doutrina de seguranga national, leitmotiv de 20 anos de regime military, perdera sua efici- cia. Mas se a partir de 1985 o pafs caminhou no rumo da nor- malidade institutional e da ple- nitude democrAtica, em mat6ria de Amaz6nia manteve os ritos do passado. Mas nem mesmo a opo- sifio e a esquerda se importaram muito: a fronteira, final, 6 o lo- cus do atraso. A doutrina da seguranga na- cional foi requentada, recebeu um brilho de ocasiAo e impulsionou o iangamento do Calha Norte. A princfpio seria apenas uma ampla aviventagio de fronteiras. Mesmo cor toda a fantasmagoria suces- sivamente reativada a prop6sito das ameagas de cubanos invasores ou dos guerrilheiros dos movi- mentos M-19 e Sendero Lumino- so, ou em funaio do livre transito de grupos indfgenas, que vAo e vem indiferentes As fronteiras, demarcadas pelos colonizadores europeus muito tempo depois que eles se haviam estabelecido nes- sas remotas paragens, as extensas linhas divis6rias amaz6nicas sempre se mantiveram em paz. Entretanto, na 6tica dos geo- polfticos, aquelas regi6es ofere- ciam risco potential. Eram consi- deradas "espagos vazios", sus- cetfveis de cobiga e ocupagio por nac6es que estivessem entrentan- do problems de exigiiidade ter- ritorial ou excedente demogrdfico (as duas condig6es isoladamente ou em conjunto). Teoricamente, uma faixa de 150 quil6metros de largura ao long dos 11 mil qui- 16metros de extensio das frontei- ras amaz6nicas jd constitufa zona de seguranca national, sob a tu- tela do Estado-Maior das Forgas Armadas. Roupa nova, mesmo model O Calha Norte, pordm, dotado de um melhor "status", aduziria A presenga military um process de colonizagio que avivaria a fron- teira, garantindo a soberania do pafs sobre essas Breas passfveis de serem atingidas pela cobiqa international. Os militares conti- nuariam no comando da expansion da maior fronteira do pafs, mesmo num moment em que a sociedade Ihes cobrava (ou impunha) um retorno as tarefas profissionais, no interior dos quart6is. O Calha Norte deveria induzir uma corrida a novas terras de al- guma maneira semelhante A que se registiara do lado sul da calha do rio Amazonas, produzindo em seu curso fen6menos como o da Serra dos Carajas, hoje uma das mais importantes provfncias mi- nerais do planet. Mas faltou dis- posilio e dinheiro para reeditar, nas areas mais setentrionais do Brasil, essa loucura que foi a "Operacio Amaz6nia", deflagra- da com pompa pelo marechal Castelo Branco em 1966. Um de seus resultados mais impressio- nantes foi ter feito o desmata- mento pular, em 25 anos, de 0,8% para 11% da superffcie amaz6ni- ca. A vinculaqio orgamentaria que o deputado de Roraima que- ria estabelecer 6 tanto mais ab- surda quando se sabe que o Calha Norte 6, atualmente, pouco mais do que a construcio de algumas pistas de pouso e quartdis de ba- talh6es militares avangados. Mesmo esses poucos investimen- tos ja foram o suficiente para criar problems muito mais gra- ves do que aqueles que o projeto pretendia resolver, como a inva- sio da reserve dos fndios Yano- mami, em Roraima, por garimpei- ros, e o incident military com colombianos no rio Trafra, no Amazonas. A iniciativa do deputado Joio Fagundes demonstra que os fm- petos grandiloqientes dos que conceberam a ocupafio da Ama- z6nia tal como ela ter ocorrido permanecem muito vivos. S6 que agora voltaram aos subterraneos, alias, seu local de origem. E o Para, uai? s Schettino, membros de uma diligente famflia mineira, chegaram ao topo da Companhia Vale do Rio Doce, depois de ocuparem algumas de suas posi- q6es intermediarias. Francisco Schettino 6 o novo president da empresa, com a missfo, dada por seu conterrfneo, o president Itamar Franco (o mais mineiro dos baianos), de gerar o maximo de lucro para aplicar verbas em obras de sentido social em Mi- nas Gerais, naturalmente, benefi- ciada, juntamente cor o Espfrito Santo, pelo fundo de desenvolvi- mento da CVRD. Quanto ao Para, 6 um detalhe, que nem os paraenses lembram de destacar. JARI Uma D urante os 15 anos em que foi o proprietario do Pro- jeto Jari, o maior empreen- dimento econ6mico conduzido por uma dnica pessoa na Amaz6- nia, o milionario norte-americano Daniel Keith Ludwig investiu 700 milh6es de ddlares no complex agroindustrial que inclufa uma fabrica de celulose, refloresta- mento, plantio de arroz, extragdo e beneficiamento de caulim, e uma infraestrutura montada ao redor de Monte Dourado, a sede de sua possessAo de 1,6 milhao de hectares entire o Pard e o Amapd. Quando Ludwig deixou o Jari, em 1982, a mfdia lamentou em unfssono retumbante que ele ti- vesse enterrado na selva amaz6- nica mais da metade de sua le- gendaria fortune. Ledo engano. Todo o dinheiro que o excentrico milionario, falecido em agosto deste ano, aos 92 anos, havia ti- rado do pr6prio bolso nio chega- ra a US$ 180 milh6es. O resto do investimento safra dos cofres de bancos ou de outras empresas es- trangeiras, especialmente dos ja- poneses, construtores das duas enormes plataformas sobre as quais foram montadas a fdbrica de celulose e a usina de energia. Essas embarcag6es hfbridas nave- garam 23 mil quil6metros antes de ancorarem no porto de Mon- guba, dando rendosa publicidade ao estaleiro Ishikawajima (no qual Ludwig tinha interesses). A crise que levou a nacionali- zaqio do Jari, cor a substituicio do milionario americano por 22 empresas brasileiras, a frente o grupo Caemi, de Augusto Antu- nes, resultou exatamente da recu- sa de Ludwig em pagar as presta- q6es do empr6stimo por ele con- trafdo para a construgio da fAbri- ca de celulose e sua estrutura au- xiliar. Esse financiamento foi de- finitivamente amortizado no ano passado, mas graqas ao Banco do Brasil e ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econ6mico e Social, o BNDES. Os dois bancos estatais tiraram de seus cofres US$ 500 milh6es para saldar os compromissos de Ludwig, trans- feridos aos seus sucessores bra- sileiros, mas por eles nao incor- porados em funglo do capitalism de muletas que se pratica no Bra- sil. conta simb6lica O investimento de US$ 500 milh6es em nove anos, um dos mais pesados que o governor bra- sileiro ji realizou em beneffcio de um dnico empreendimento particular, foi retribufdo corn aq6es preferenciais sem direito a voto nas decis6es da empresa. Seu privil6gio 6 o de ter priori- dade no recebimento dos dividen- dos. Mas o Jari, que funciona em escala commercial desde 1979, ain- da nio deu lucro logo, nao p6- de distribuir dividends. A diregio da empresa, atrav6s de reportagem publicada no jor- nal Folha de S. Paulo, promete que em 1922 a inddstria de celu- lose, pela primeira vez, ird apre- sentar resultado lucrative, "irri- s6rto", admite o. president da Companhia Florestal Monte Dou- rado, Eduardo Netto Alves Bar- reto, "mas simb6lico". JA lucro operacional, como o previsto para este ano, de US$ 13 milh6es, o Jari ja tem ha alguns anos, mas lucro Ifquido, mesmo que irris6- ro, nio houve at6 agora, em 13 anos de operagio commercial. O enorme custo financeiro, resul- tante do endividamento oneroso feito por Ludwig, tem absorvido os efeitos da atividade produtiva. Se realmente ocorrer (o que s6 serd confirmado quando o ba- lango annual for divulgado. no inf- cio de 1993, ou se a empresa aceitar antecipar o resultado com mais detalhes), o lucro sera epi- s6dico e ainda nio permitird qualquer ressarcimento aos dois bancos estatais, obrigados a efe- tuar a operagfo, a contragosto, pelas tais "determinag6es su- preiores". Nem ha perspective de que lucro possa haver ainda neste s6cuio. Para poder expandir a ca- pacidade de produgio de celulose e pensar em produzir papel, a Jari tera que gastar 100 milh6es de d6lares em uma hidrel6trica. Sem essa usina, a nova unidade, a ba- se de pasta termomecinica (e nao mais qufmica, como a primeira), nao podera funcionar. Sem gera- (go pr6pria de caixa, a empresa recorrera a novo financiamento. Parte do dinheiro ja ter sua ori- gem definida: o BNDES, nova- mente. E evidence que nem todas as atividades na Area do Jari slo de- ficitarias. O caulim e a bauxita refrataria, por exemplo, dio bons lucros. Mas esses dois empreen- dimentos, que ja eram bom neg6- cio na 6poca de Ludwig, percen- cem apenas a Azevedo Antunes. NAo se solizarizam cor as obri- gadoes das empresas irmis e vizi- nhas. O resultado vai para os bol- sos de seus donos. Obviamente, a questfo 6 mais complex do que seu enredo su- marizado, mas sua essencia revela uma an6mala forma de associacio entire o Estado e o capital priva- do, que s6 nio espanta mais por- que o Jari saiu da agenda da mf- dia e do foco de interesse da opi- nifo pdblica. Imotivadamente, contudo, porque se antes quem tinha que pagar a conta era Lud- wig, agora ela 6 apresentada, por vias e travessas, ao cidadio bra- sileiro. Que paga, nao chia e nem sabe o que esta pagando 6, as- sim, o traditional pato dos contos populares. Enviado cego Folha de S. Paulo mandou seu enviado especial ao Jari. 0 reporter Fernando Canzian voltou cor uma mat6ria, retalhada em quatro retrancas de dimensAo ho- meopatica, como convdm ao re- ceitudrno da casa, e um box, a maior atrarao do jornalismo mi- nimalista que se pratica no journal de maior tiragem do pafs. Ne- nhuma novidade, exceto pelas cinco linhas (em 160 linhas apro- ximadamente) que falam do andn- cio do lucro "irris6rio, mas sim- b6lico". O reporter nio conse- guiu arrancar um ndmero sobre esse lucro, nem mostrou a dife- renga entire o lucro operacional e o lucro lfquido ou outras infor- mag6es que ajudariam o leitor a entender por que a matdria ga- nhou chamada de primeira pagina e uma capa de caderno. Cor esse tipo de jornalismo, a Folha esta conseguindo uma fa- ganha: reportagem de enviado es- pecial ja pode ser produzida na redacio. Journal Pessoal editorr rcsxpon, vel: Ldcio FInvio Pinto IlustraR9o: I.uiz Pinto Rua Canmps Sales. 268/03 66.020 Fone: 223-1929 Opiao Editorial Impraso nas oicinas de Agranell Fditora, travels Alferes Costa, 1690. Belem. |
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