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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00078

Full Text





Journal Pessoal
E EDITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO


Ano VI NO 103 1a Quinzena de Dezembro de 1992 *


Cr$ 5.000,00


RECEITA



Entre o gato e o rato


O governor diz que ha falhas mas nao um
"rombo" no tesouro do Estado. A oposihAo quer
checar a afirmativa. Por tras, quest6es
complexes que talvez nao sejam respondidas.


T ndos os meses o Estado do
ParA s6 recolhe metade do
que poderia arrecadar se
nio houvesse fraude e sonegadio
fiscal. Os tdcnicos.da area fazen-
daria sabem disso, mas dizem que
se trata de um fen6meno nacio-
nal, cada vez mais acentuado com
o agravamento da crise econ6mi-
ca. "Ate mesmo os impostos fe-
derais nao estAo mais sendo pa-
gos. E os estaduais impressionam
menos", ressalva um desses tdc-
nicos.


Bilh6es de cruzeiros s8o des-
viados dos cofres pdblicos todos
os meses. Uma parte permanece
em poder dos contribuintes omis-
sos. Outra parcel 6 apropriada
pelos que facilitam ou possibili-
tam essa irregularidade. Correm
de boca em boca hist6rias legen-
darias sobre fiscais de tributes
que vivem como marajas, apesar
de prosaicos salaries que rece-
bem. Tambdm nao sao menos nu-
merosos os rumors sobre desvio
de dinheiro que deveria ir para o


governor e acabaria em contas ca-
mufladas de autoridades.
Industriais e comerciantes,
sob garantia de sigilo, admitem o
pagamento de propinas e a pratica
da sonegagAo, mas foi precise
explodir escAndalo Collor/PC Fa-
rias para alguns dos mais famosos
se disporem a admitir de pdblico
a promfscua relacio que mantem
com escal6es graduados do poder.
Essa onda de compulsdria since-
ridade, lamentavelmente, ainda
nio quebrou no litoral do Para.





2 Jornal Pessoal


Desde setembro vinha se for-
mando em alguns horizontes pri-
vativos um panorama de tempes-
tade. Primeiro foram murmdrios.
Depois conversas abertas. Final-
mente, c6pias de documents ofi-
ciais circularam tAo intensamente
que a associacao e o sindicato
dos servidores do fisco acabaram
levando a questao, na forma de
dendncia, ao governador Jader
Barbalho. Outra vertente desem-
bocou na Assembldia Legislativa
e municiou o lfder do PT, depu-
tado Josd Carlos Lima, que con-
seguiu aprovar uma CPI para apu-
rar a existencia de irregularidades
na area da Fazenda estadual.
O governador afastou dos I
seus cargos toda a cdpula fazen-
daria, poupando apenas o prdprio
secretirio, Roberto Ferreira, en-
quanto ativava a comissao de au-
ditagem do Estado e um grupo de
servidores para realizar um in-
qudrito na Sefa. A Comissio
Parlamentar de Inqudrito da As-
sembl6ia Legislativa ouviu os
primeiros depoimentos e teve que
aplacar, ao menos por enquanto,
a expectativa de flagrar, desde
logo, um monumental escandalo
na administragao estadual. Os
primeiros depoimentos foram tao
categdricos quanto a manifesta-
cgo do governador.
Antes de terem sido concluf-
das as apurag6es das duas comis-
s6es, Jader Barbalho divulgou
nota official e complementou-a
cor declarag6es pdblicas de que
nao houve "rombo" nos cofres
pdblicos. Reconheceu apenas fa-
lhas no sistema de computagao
dos dados da arrecadagao esta-
dual, moroso ou ineficiente em
alguns casos. Mas assegurou que
todo o dinheiro recolhido pelos
contribuintes foi escrupulosa-
mente depositado na conta dnica
que o Estado mant6m no Banpard.
De 14, nenhum centavo saiu inde-
vidamente como para aplicacao
financeira paralela, tendo seus
rendimentos apartados para uma
conta particular, por exemplo, ou
dormir em um caixa dois monu-
mental, como se especulou.

Boa novidade?

Desde novembro do ano pas-
sado um novo sistema implantado
por uma equipe chefiada pelo di-
retor geral de administration tri-
butAria, o polemico economist
Armando Nod Moura (originArio
da Secretaria de Planejamento),


privou a Secretaria da Fazenda de
tocar no dinheiro dos tributes.
Ele 4 recolhido diretamente em
ag8ncias credenciadas, que o re-
passam semanalmente ao Banco
do Estado do Para, onde trabalha
uma equipe da Sefa nas totaliza-
g6es e balancetes. O dinheiro dos
contribuintes fica indisponfvel a
partir do moment em que o caixa
do banco recedor registra o re-
colhimento. A partir daf, s6 ha
movimentagio pela autoridade
responsavel, que segue a bfblia
orgamentiria. Fraudes podem
ocorrer, mas antes do recolhi-
mento (no caso, sonegagao) ou
depois que a Sefa transfer as
verbas para o agent aplicador (af
seria o "rombo").
A desconfianga sobre o des-
vio comerou a se solidificar
quando apareceram discrepancias
entire o control dos delegados (e
fiscais) e os mapas produzidos
atravds de computador. Um caso
escandaloso parecia se desenhar
firmemente quando se verificou
que durante muito tempo 4,2 bi-
lh6es de cruzeiros recolhidos a 8
de maio pela AlbrAs, a maior
contribuinte individual do Esta-
do, nao apareciam nos registros
do computador.
Se verdadeiro, seria um golpe
muito grosseiro porque a Albras,
como os 150 maiores contribuin-
tes estaduais, foi autorizada por
portaria do secretario Roberto
Ferreira a pagar seu imposto di-
retamente na agencia especializa-
da do Banpard, na avenida Sena-
dor Lemos. O dinheiro realmente
foi depositado, engordando a
conta dnica, um avango na gestio
dos recursos pdblicos introduzido
pelo governor do Parand e copiado
no Para (sem a incorporagao, en-
tretanto, da outra face da media,
o cheque-saldrio).
Mas o program preparado
pelo Prodepa, por media de se-
guranga, rejeitou a inclusao da
guia de recoihimento da AlbrAs
porque antes havia chegado, corn
a mesma numeraago, o pagamento
de contribuintes nao especiais de
Barcarena. Por que o document
demorou tanto tempo para voltar
ao sistema, ja saneado, 6 a ddvida
ainda nao esclarecida.
Provavelmente muitas ficarao
irrespondidas. Ao depor na CPI,
o consultor-geral do Estado, Ro
berto Cavalleiro de Macedo, se
recusou a responder a algumas
perguntas do deputado Jose Car-
los porque elas fugiam ao tema da


comissao. O consultor estava
formalmente certo: a CPI foi con-
vocada apenas para investigar
tres situag6es, a do recolhimento
da Albras, a incoincidencia de
recursos da 2V Regiao Fiscal e o
recolhimento de IPVA da 16- Re-
giao Fiscal. O consultor e o di-
retor afastado da administragao
fazenddria da Sefa explicaram
convincentemente os tries casos,
cujas incongruencias devem-se a
caracterfsticas do sistema de in-
formatica e nao a desvio de re-
cursos.
Mas essas falhas revelam que
o mais important investimento
do atual governor no setor tributa-
rio nao esta proporcionando os
resultados que dele poderiam re-
sultar. A informatica nio esta
fornecendo ainda a administragao
estadual as armas de que ela po-
deria dispor para combater a eva-
sao e a sonegaafo e assim aca-
bar corn as lendas sobre o fatura-
mento paralelo de fiscais e auto-
ridades, tao persistentes que essa
6 uma das profiss6es mais dispu-
tadas (nio s6 no Estado, mas em
todo o pa(s).

Resposta lenta

Essa pequena capacidade de
antecipagao deixou o governor
surpreso e indefeso diante de um
fato concrete: a arrecadagao esta-
dual caiu tanto, em termos reais,
que o governador precisou lancar
mao de uma drastica media de
emergencia, o corte, em 60%, nas
despesas de custeio do final do
exercfcio. Segundo alguns tdcni-
cos, a queda se explica tanto pela
recessao econ6mica do pafs
quanto pela maturacao do efeito
multiplicador do ICMS. A admi-
nistracao anterior foi melhor fa-
vorecida pelo fato de que a im-
plantag~o do sistema tributbrio
criado pela Constituigio de 1988
provocou um salto na receita dos
Estados, antes maltratados na
distribuigao dos impostos que a
Uniao concentrava.
Mas outros t6cnicos acham
que ao menos em parte esse de-
crescimo se explica pela desaten-
gao e ineficacia no acompanha-
mento do desempenho da mdquina
pdblica, a comegar pelo pr6prio
governador. Por estilo pessoal,
calcado na improvisaago e n
gestao do caos, e pelo surgimento
de problems pessoais, o gover-
nador 6 considerado um tanto
alheado de stores estrategicos da )






lornal Pessoal 3


administragao estadual. Segundo
uma fonte credenciada, os primei-;
ros sinats de alerta foram emiti-
dos em maio, mas apenas em se-
tembro o governador parece ter
finalmente se convencido do que
estava demonstrado: a receita es-
tava crescendo que nem rabo de
cavalo; para baixo.
Na esteira de uma acirrada
dispute internal pelo poder, que


coloca de um lado fiscais e dele-
gados e, de outro, t6cnicos de
outras areas que ocuparam fun-
g6es vitais na Sefa, e tamb6m dos
problems de entendimento e ab-
sorgdo do novo sistema de reco-
lhimento e control de tributes,
alguns polfticos se convenceram
de ter encontrado o calcanhar de
aquiles do atual governor. Mas ou
nao conseguiram ver o alvo certo


ou atiraram sem boa pontaria.
Depois de acuado, o governor re-
tomou a dianteira. Mas ningudm
ainda venceu, nem a verdade foi
claramente colocada diante do
pdblico. As perguntas certas ape-
nas comegaram a ser ensaiadas e
responde-las sera daqueles bem
vindos atos que fazem o bem de
todos e a felicidade geral da na-
qao.


IMPRENSA



Impertinencia autoritaria


R osAngela Maiorana Kzan
6 jornalista, formada pelo
curso de Comunicaqao So-
cial da Universidade Federal do
Para. Tentou exercer a profissao,
mas nio deve ter-se dado bem.
Acabou ocupando a diretoria ad-
ministrativa do Sistema Romulo
Maiorana de Comunicago. Nio
se conhece um texto dela publi-
cado no pr6prio journal da famflia,
O Liberal. Nem quando morreu o
pai, Romulo Maiorana, Ros&ngela
tentou registrar seus sentiments,
mesmo que fosse em um artigo
simples.
O principal. publicado no jor-
nal no dia do enterro de Romulo,
fui eu que escievi. Ocupou a 6l-
tima pagina, nao assinado. O que
assinei saiu ao lado do Rep6rter
70, na pagina nobre. E nio era
um panegfrico: ao contrario, assi-
nalava divergencias cor o dono
da empresa, louvando-lhe, no
entanto, a sensibilidade para a
pratica, mesmo quando bissexta,
do bom jornalismo.
Dois dos sete filhos de Ro-
mulo obtiveram diplomas de jor-
nalistas. Quando muito, esses di-
plomas sio peas decorativas. Na
pratica, a redacgo constitui um
terreno interdito a segunda gera-
gAo Maiorana. Talvez por isso,
Rosfngela Maiorana Kzan nio
sentiu qualquer constrangimento
em recorrer duas vezes a Lei de
Imprensa para tentar atingir um
confrade, a forma de tratamento
que usavam os jornalistas mais
antigos quando se referiam a co-
legas (e alguns ainda usam). Seu
irmlo, Romulo Maiorana Jr., fez
o terceiro uso da Lei 5.250, de
uma forma in6dita, mas ao menos
ele nem tftulo de jornalista pos-
sui.
Com essas tres investidas os
,Maiorana queriam:


1 Obrigar-me a revelar a
grAfica que imprimia este Jornal
Pessoal.
2 Condenar-me a prisAo e
multa pecuniaria por ter calu-
niado, injuriado e difamado Ro-
sangela.
3 Proibir-me de voltar a ci-
tar o nome dela ou tratar de as-
suntos que lhe dizem respeito
neste journal, ameagando ainda
cobrar-me indenizaqgo por perdas
e danos supostamente sofridos.

Sem bom senso

Na malfadada Lei de Impren-
sa, forjada pelos militares em
1967 para destruir a melhor im-
prensa sugida no Brasil a partir
da democratic Constituigao de
1946, hA dispositivos capazes de
sustentar ag6es como as intenta-
das por Rosangela Maiorana
Kzan. Sua condigao de jornalista,
pordm, deveria constrang8-la um
pouco de recorrer a uma lei de
tao ma origem e conteddo, que o
Congress, ja cor atraso, cuida
de p6r abaixo. Uma lei que jor-
nais e jornalistas repudiam.
Mas se faltasse tal pudor a
Ros&ngela, deveria haver nela um
pouco mais de bom senso antes
de tomar uma iniciativa que,
pretextando uma questao domrs-
tica, acaba representando o mais
grave atentado praticado nos dl-
timos anos no Para a liberdade de
imprensa por cruel ironia, pro-
movido por uma das dirigentes do
maior grupo de comunica&go de
massa do Estado.
Se Sflvio Santos imitasse
Loloca, O Liberal perderia um
assunto que noticiou cor chama-
da de primeira pagina exatamente
no moment em que sua diretora
tentava, pela Justiga, proibir-me
de falar nela. O conflito conjugal


do empresario e apresentador de
televisao tambem 6 questao fnti-
ma, mas nem ele e nem a impren-
sa suscitaram uma proibiSao ao
noticiario.
O ex-governador de Sao
Paulo, Orestes Quercia, reagiu a
uma mat6ria de capa da revista
Veja, acusando-o de enriqueci-
mento ilfcito, cor uma nota paga
na qual exp6s sua defesa. Sequer
passou pela cabega do president
afastado Fernando Collor de
Mello recorrer a Justiga para
proibir a imprensa de relatar seus
desacertos cor a primeira dama
(tambem afastada) Rosane.
Eventualmente a liberdade -
constitucionalmente assegurada -
que ter a imprensa de tudo tratar
as vezes leva a abuses, mas eles
podem e devem ser cobrados
quando se materializarem, nao
por interditos previamente asse-
gurados. Alem de censurar, tal
media significaria intimidar e
constranger a imprensa. Rarfssi-
mos personagens neste pafs estao
dispostos a faze-lo involuir a uma
tal situagao como a que levou ao
surgimento da Lei de Imprensa,
em 1967, uma preparaqAo juridi-
camente depravada do que viria
em dezembro de 1968, cor o AI-
5, o canto de cisne da liberdade
de pensamento e de expressAo
desde o renascimento da demo-
cracia, em 1946. Em Belem
acantona-se um desses persona-
gens obscurantistas: 6 exatamente
Rosangela Maiorana Kzan.

Lin.iagem autoritria

Ela, embora dirigente de uma
empresa jornalfstica, acha que
reivindicar a liberdade de im-
prensa pela qual vem lutando os
jornalistas "para expressao de
qualquer iddia seria estimular as >


--






4 Jornal Pessoal


narrag6es escandalosas para satis-
fagio de uma curiosidade malsa".
Numa postura tutelar tfpica do
Grande Irmao orwelliano (ou do
Grande Inquisidor dostoiewskia-
no), Loloca sentencia, atrav6s de
seus advogados na agao cautelar:
"as informag6es que se destinam,
exclusivamente, & satisfag&o de
uma curiosidade qualquer, estario
exclufdas da liberdade que se
confere a imprensa para manifes-
taaio de id6ias".
Lembrando que a Constituicao
confere direitos, mas ressalva
abusos, Rosangela dix: "A divul-
gag o de notfcias desprovidas de
relevancia social, portanto, cons-
titui um abuso da liberdade de
manifestagco do pensamento e,
como tal, vetada pelo direito". E
complement logo, irritada: "Nio
se venha alegar que, cor isto, as
pilastras da democracia estarao
ameagadas. Constitui lugar co-
mum a enunciario de que uma
coletividade estd ameagada quan-
do se viola a liberdade de im-
prensa. Mas o exercfcio abusive
desta liberdade produz conse-
quencias nio menos chocantes
que aquela violagio".
Sem citar a origem da citagio,
Rosangela arremata corn esta pre-
ciosidade do pensamento autorita-
rio: "A liberdade de informer nao
vem assegurada para que cada um
saiba tudo dos demais, mas para
que cada um saiba dos demais o
necessario que o possibility opi-
nar acerca de assuntos que o
afetem como cidadao, como mem-
bro de uma coletividade".
Para tentar pintar cor um
verniz de dignidade sua encardida
petigio, RosAngela recorre a
pactos, tratados e conveng6es, ar-
rolados insensatamente. Seu do-
micflio nunca foi invadido, sua
correspondencia nio foi violada,
ningu6m de sua famflia foi im-
portunado, nao houve escuta
clandestine de suas conversas e
nenhum detalhe de sua vida pri-
vada foi tocado na reportagem
que pretextou seu recurso a justi-
ga. Este reporter apenas coletou
informag6es sobre uma ameaca de
implosio do Grupo Liberal, que 6
um dos eixos de poder no Para -
e por isso interessa a opiniao pd-
blica.

Ponto nevrhlgico

Quando, logo ap6s circular o
n 98 do Jornal Pessoal, na 2L
quinzena de setembro, o marido


de RosAngela, o advogado Calilo
Kzan, telefonou para protester
contra parte do que fora noticia-
do, espontaneamente fui ao es-
crit6rio dele e conversamos a
respeito. Esta simples iniciativa
jA seria suficiente para demons-
trar a inexistencia do Animo de
injuriar, difamar ou caluniar.
Na converse, Calilo admitiu
que eu havia tocado no problema
mais grave enfrentado pelo Grupo
Liberal: a dissengao entire os ir-
maos. Concordou que a falta de
profissionalizaqAo poderia agra-
var as dificuldades da empresa,
ressentida da pratica dos Maiora-
na de criar empresas-filhotes da
principal e usa-las para fatura-
mentos paralelos, onerando o jor-
nal, a televisfo e a radio cor pu-
blicidade gratuita de permuta.
Calilo sustentou que eu fora
injusto cor Loloca e "fizera o
jogo" de Rominho. Loloca acha-
va que meu texto havia insinuado
que ela poderia ter participado do
suposto "rombo" na empresa e de
fazer concorrencia desleal ao
SRM. A tentative de ligar a re-
portagem a Rominho, como se ela
o favorecesse, revelava a profun-
didade da dissenglo entire os ir-
mios, que nio parou de se apro-
fundar, a ponto de at6 impedir-
lhes o prosaico dialogo.
O principal da reportagem foi
confirmado pela conversa com
Calilo. O que faltava era enfati-
zar que Rosangela nio era s6cia
de Ariovaldo Antunes, desconhe-
cia a existencia de qualquer
"rombo" em sua empresa e muito
menos supunha o envolvimento
de Ariovaldo em qualquer irre-
gularidade, o que fiz no n 99 do
journal. Quanto a Loloca e o irmao
estarem organizando empresas
particulares em Macapa, que
atuariam em areas nas quais o
Sistema Romulo Maiorana pode-
na concorrer, nao era uma acusa-
gAo, mas a deduqio l6gica e natu-
ral dos fatos, havendo ou nao in-
tengio dolosa nas ages.
O que foi escrito no n2 99 era
suficiente para incorporar as re-
clamag6es de Rosangela, mas ela
ainda poderia escrever uma carta
de esclarecimento ao Jornal Pes-
soal ou retifica-lo pelas paginas
de O Liberal (se nio se permitis-
se o mau habito de censurar no-
mes inconvenientes ou indeseja-
veis, dando-lhes morte em vida).
Ao inv6s disso, apresentou a
queixa-crime e ajuizou a acio
cautelar para proibir-me de in-


cluf-la como tema deste journal.
Na contestaqio dessa caute-
lar, argument que a idoneidade
ou nAo da notfcia por mim divul-
gada "6 mat6ria cuja averiguagio
necessariamente envereda pelo
chamado contraditdrio proces-
sual, onde as provas 6 que dirio
se houve ou nio abuso no exercf-
cio dessa liberdade constitucio-
nalmente assegurada. Se se trata
de mat6ria, como demonstrado,
dirimfvel apenas em vias ordina-
rias, impertinente 6 cogitar de
prote~io de natureza acautelat6-
ria porque nao se acautela o que
ainda nfo se ter por largamento
demonstrado e provado".
As ag6es cautelares, como o
mandado de seguranga, "se desti-
nam a prover garantia do direito
insuscetfvel de qualquer contro-
vdrsia, isto 6, o direito lfquido e
certo", o que significa dizer que
"s6 5 legftima a pretensfo de es-
cudar-se em acfo cautelar para
protegio inicial e imediata do di-
reito que se encontra na iminen-
cia de ser violado, se esse mesmo
direito, de forma transparent, A
absolutamente incontestavel".
No entanto, a legitimidade
e juridicidade do interesse que
RosAngela Maiorana Kzan quis
acautelar ainda estio por serem
demonstradas e provadas. Mas o
que ainda piora sua situagio: a
aglo principal que pretend ajui-
zar s6 caberia, obrigando-me a
nio fazer (isto 6, a nfo citar o
nome dela e seus interesses), se
decorresse de um contrato, ja que
6 uma agao fundada no princfpio
da legalidade.

Atentado A liberdade

Na contestagio, argument
que "como nem mesmo da lei se
logra inferior obrigagio de nao
publicar matdria ofensiva a al-
guam, pois a liberdade de im-
prensa 6 amplamente assegurada,
de modo a s6 encontrar fronteiras
no abuso, atd que se prove este,
prevalece em sua plenitude
aquele.
Limitar ou restringir, ou
mesmo condicionar, o exercfcio
do direito de imprensa, 6 violar
nfo apenas um direito individual,
mas inalienavel direito da socie-
dade de ser informada acerca do
quanto vem ocorrendo em ambito
social".
O pedido de Rosingela, as-
sim, teria que ser considerado
"juridicamente impossfvel, ja






ornal Pessoal


que, em nenhuma hip6tese, se
pode deixar de noticiar fato a
respeito de algu6m, tendo isto
como preceito, que 6 sempre ge-
n6rico e definitive, quando aqui,
ali ou acold esse algu6m pode dar
ensejo, por aago ou omissao, ao
surgimento de um fato social re-
levante, suscetfvel de mobilizar o
interesse social".
Se aceita, a iniciativa de Ro-
sangela Maiorana Kzan criaria um


perigosfssimo precedent para a
estabilidade democrAtica do pafs,
lembro na minha contesta(ao: se
outras pessoas igualmente pode-
rosas, irresponsaveis e capricho-
sas seguissem seu exemplo, a
imprensa perderia boa parte das
notfcias que diariamente veicula,
inclusive os 6rg&os que perten-
cem A famflia dela. Um cidadio
que cometesse um crime nio po-
ideria ter seu ato revelado, obten-


do um absurdo "habeas corpus"
contra tudo e todos, de vigencia
perp6tua.
A Justiga, querendo, podera
fazer a diretora do Grupo Liberal
perceber que a dpoca do obscu-
rantismo e da intolerincia ja pas-
sou ou, ao menos, nao esta em
vigor nas regi6es melhor ilumina-
das deste pafs. Por esta luz que
tarda, na conivencia e omissao de
todos, esperamos.


A cronologia da guerra


No lJia 8 de outubro Romulo
Maiorana Jr., em nome da
Delta Publicidade, oficiou
a chefa do Ministdrio Pdblico,
Marflia Crespo, atrav6s do advo-
gado Jorge Borba. O objetivo de-
clarado do requerimento: que eu
fosse notificado a apresentar e
fazer publicar onde estava sendo
impresso meu Jornal Pessoal,
"citando o nome da empresa e
seu respective proprietArio".
Segundo a desajeitada peti-
qao, atravds do meu journal eu es-
taria me portando "inadequada-
mente", narrando "fatos inverf-
dicos, ferindo a honra de tercei-
ros sem quaisquer escrdpulo (erro
de concordincia conform o ori-
ginal), em total desrespeito a Lei
(erro de acentuag~o no original)
que estd subordinado (supressio
da preposigio), cor isso, sujeita-
se as penas que a mesma imp6e"
(erros de pontuagio e acentuagio
do autor).
Acionado pelo promoter
ClAudio Mello, para quem a
questao foi transferida, publiquei
o nome da editor no expediente
do ndmero 102 do Jornal Pessoal
e fiz o devido registro no cartdrio
Valle Chermont, tornando-me um
dos poucos jornais de Beldm in-
teiramente legalizado. Mas jA ha-
via perdido a grafica na qual
o Journal Pessoal foi impresso du-
rante quase cinco anos, cor pre-
jufzos consideraveis para mim.
Esse era o verdadeiro objetivo
da interpelagao de Rominho ao
Ministdrio Pdblico: dificultar, se-
nao inviabilizar, a continuidade
do journal que mais incomoda o
Grupo Liberal. O resto era mero
pretexto, inclusive a defesa da
honra alheia, que os Maiorana
jamais haviam demonstrado ser
mat6ria de seu interesse.
Embora Rominho tivesse assi-
nado a petigao, dizendo que eu


narro "fatos inverfdicos, ferindo
a honra de terceiros sem quais-
quer escrdpulo", atd os Maiorana
irem A Justica eu continuava in-
victo nesse tipo de situarao: em
27 anos de carreira professional
de jornalista ningudm me inter-
pelou a prop6sito da honra ferida
ou alegando "fatos inverfdicos"
(no tortuoso raciocfnio de Romi-
nho e seu advogado, que acredi-
tam haver fatos inverfdicos).
Nesse perfodo, nao faltaram
polemicas, assuntos explosives e
dendncias graves no meu currf-
culo. Faltava apenas personagens
com a insensatez dos Maiorana.
Agora minha biografia esti com-
pleta, embora nela os Maiorana
entrem sem permission e sem me-
recimento.

Queixa-crime

Duas semanas depois do compa-
recimento de Rominho Maiorana
no Minist6rio Pdblico cor sua
rocambolesca petifao, a primeira
que uma empresa jornalfstica
apresentou na hist6ria da impren-
sa brasileira, litigando contra
outra empresa jornalfstica corn
base num dos mais odientos dis-
positivos da ditatorial Lei de Im-
prensa, imposta pelos militares
em 1967, foi a vez de sua irma,
Rosfngela Maiorana Kzan, dire-
tora administrative do Sistema
Romulo Maiorana de Comunica-
qao, valer-se da mesma Lei de
Imprensa.
Atravds do marido, Calilo Kzan
Neto, e do s6cio dele, Pojucan
Tavares Jr., Rosingela ofereceu
uma queixa-crime contra mim por
causa da reportagem que escrevi
no Journal Pessoal n 98, relatan-
do as cis6es internal no Grupo
Liberal. A queixa foi distribufda
para a 142 Vara Criminal do F6-
rum de Beldm, ocupada interina-


mente pelo juiz Raimundo Holan-
da Reis, que substitufa o titular,
Otavio Marcelino Maciel. Ouvida
pelo juiz, a representante do Mi-
nisterio Pdblico nao aceitou o
enquadramento em crime de cald-
nia, mas opinou para que o pro-
cesso fosse instrufdo como injdria
e Jifamagao.
Nao esperei ser citado pelo ofi-
cial de justiga. Compareci ao
cart6rio e assinei a intimaago. No
prazo legal, atravds do advogado
Carlos Alberto Lamarao Correa,
apresentei minha defesa prdvia. O
juiz nao aceitou as minhas ra-
z6es, recebeu a queixa-crime e
me enquadrou em caldnia, injdria
e difamaqao, mas nio marcou a
data de audi8ncia, como manda a
Lei de Imprensa. Alegou falta de
data na sua agenda. A tarefa fica-
ria para o titular da Vara, quando
ele voltasse do recesso, em feve-
reiro de 1993.
Imediatamente represented contra
o despacho ao corregedor geral
de Justiga, Wilson de Jesus Mar-
ques da Silva, enquanto prepara-
va o recurso em sentido estrito e
um mandado de seguranga para
dar efeito suspensivo a esse re-
curso, a ser apreciado pelo Tri-
bunal de Justiga.

Acio cautelar

No dia 12 de novembro Rosin-
gela Maiorana Kzan voltou ao
ataque. Os advogados que assina-
ram sua medievalesca agio de
perdas e danos cumulada com
agio de obrigaoao de nao fazer, e
preceito cominatdrio eram os
Tesmos, o marido e o s6cio dele.
Is era outra a mdquina na qual
foi tilografada a petiaio, a es-
t6tica do trabalho mudara e, so-
bretudo, a inspiraqao do raciocf-
nio e da argumentaqao pareciam
de outra origem, talvez buscada





6 Jornal Pessoal


em local distinto do escrit6rio de
Kzan & Pojucan.
Nessa nova investida, em plena
dpoca de democratizagio e de
fortalecimento da liberdade de in-
formar, Loloca (como tambdm
Rosangela 6 conhecida) queria
simplesmente que a jufza da 8
Vara Cfvel, para a qual o proces-
so foi distribufdo, me proibisse
de "divulgar novas ou repetidas
mat6rias" sobre os "bens e di-
reitos" da diretora administrative
do SRM.
Nao satisfeita corn essa censura,
pr6via e perp6tua, a respeito de
seu nome e patrim6nio, algo ab-
solutamente inddito na histdria
judicial brasileira, Rosangela pe-
diu que a jufza Marneide Merabet
concedesse liminarmente a medi-
da cautelar, "sem audiencia da
parte contrAria" (ou seja, sem me
ouvir). Se esse pedido fosse
atendido e eu nao o cumprisse,
estaria sujeito A apreensdo de
meu journal e a uma multa de 500
salaries minimos (hoje, mais de
250 milh6es de cruzeiros).


Liminar recusada


A jufza substitute da 8V Vara foi
A mesma Lei de Imprensa lembrai
e grifar que "6 livre a manifesta-
g[o do pensamento e a procura, o
recebimento e a difusio de infor-
maq6es ou iddias, por qualquer
meio, e sem dependencia de cen-
sura, respondendo cada um, nos
terms da Lei, pelos abusos que
cometer".
Preliminarmente, a jufza disse
nao entender "a exist6ncia dos
requisitos bMsicos para a conces-
sao 'initio litis' da media, pois
nao se verifica de imediato, 'in
casu', o fundado receio de ocor-
rencia de lesdo grave e diffcil re-
paragqo ao direito da requerente,
bem como inexiste justificado re-
ceio de ineficdcia do provimento
final". Assim, rejeitou a liminar
pedida e mandou o feito prosse-
guir.
Novamente sem esperar a citaqio
regular pelo official de justiqa,
apresentei minha contestag o.
Na cautelar, os advogados de Ro-
sangela jd anunciaram que a agio
principal cobrard indenizacgo por
perdas e danos de que se julga
merecedora por ter sua honra pes-
soal e sua privacidade alcangadas
pela reportagem do n2 98 do Jor-
nal Pessoal.


A uma defesa pr6via de 14 pAgi-
nas, impressa por computador,
o juiz substitute da 140 Vara
Criminal, Raimundo Holanda
Reis, responded com um despa-
cho de 14 linhas manuscritas,
aceitando a queixa-crime de Ro-
sangela Maiorana Kzan. A fntegra
de seu despacho, dado no dia 3,
conforme foi escrito:
"As alegac6es deduzidas em de-
fesa previa nao levam a nosso
ver, A rejeigao da queixa-crime.
Cor efeito, embora nao se possa
aprofundar a andlise de todas as
quest6es, a esta altura, assinale-
se que, o querelado protestou
pela comprovagao de todos os
fatos constantes da reportagem
em questoo.
E necessario, portanto, o segui-
mento do caso, at6 julgamento de
todas as quest6es, a esta altura,
incabfvel e somente sendo possf-
vel, por setenga final.
Recebo a queixa aditada pelo M.
P. oferecida contra Lucio Flavio
Pinto, dando-o como incurso nos
arts. 20, 21 e 22 da Lei de Im-
prensa.
Aguarde-se o retorno do Juiz ti-
tular p/ designer audi6ncia de
instrugao e julgamento, jd que
nao contamos cor vaga p/ este
ano".
No dia 9 protocolei na Correge-
doria Geral de Justiga a seguinte
representacio contra o juiz Rai-
mundo Holanda Reis:
"1. RosAngela Maiorana Kzan
ofereceu queixa-crime contra
o impetrante, alegando ter sido
caluniada, ofendida e difamada
por reportagem publicada na edi-
gao n 98 do JORNAL PES-
SOAL, de responsabilidade do
requerente. O pedido foi distri-
bufdo para a 14a Vara Criminal
do Fdrum de Belm. O requerente
apresentou-se voluntariamente em
cart6rio para ser notificado e,
dentro do prazo legal, ofereceu
sua defesa pr6via, expondo pre-
liminares pelo nio recebimento
da aq~o e, no mdrito, pela impro-
cedencia da media criminal in-
tentada. Ouvido, o representante
do Ministdrio Pdblico recusou o
cometimento de crime de caldnia,


opinando pelo prosseguimento do
feito.
2. Apesar de todas as s6lidas
raz6es apresentadas pelo reque-
rente, o sr. Juiz em exercfcio da
140 Vara Criminal decidiu rece-
ber a queixa-crime, fazendo-o,
contudo, sem a designaqao, no
pr6prio despacho, da data para
audiencia de instruqao e julga-
mento destinada A oitiva das tes-
temunhas arroladas naquela quei-
xa-crime, conforme preceito con-
tido no art. 45 da Lei 5.250/67
(Lei de Imprensa).
3. Essa omissio do Sr. Juiz,
sem ddvida, manifesta e injustifi-
cada negative de vigencia ao alu-
dido dispositivo de lei, senao ate,
o que mais propriamente parece,
grosseiro erro de offcio, por fazer
prolongar, de maneira indevida, a
oportunidade de o r6u, ora reque-
rente, demonstrar, pelo contradi-
t6rio, a improced&ncia da media
intentada.
Embora seja, em tese, recorrf-
vel a decision, mediante a interpo-
siqao de recurso em sentido es-
trito, conforme norma consubs-
tanciada no art. 581 do C6digo de
Process Penal, combinado cor o
art. 44, in fine, da Lei 5.250/67,
isso, em hip6tese alguma, esvazia
a fundamentacao legal da pre-
sente media correctional, pois re-
formAvel seria a decisao por via
de recurso se ela estivesse for-
malmente perfeita, mas substan-
cialmente em desacordo cor as
provas dos autos. Isso, todavia,
nao aconteceu. Nem mesmo por
via de recurso em sentido estrito
seria de reparar o imperdodvel
equfvoco cometido pelo eminente
Magistrado, cujo ato se pretend
ver corrigido. Afinal de contas,
nao se proverd ou improverd re-
curso para manter decisao imper-
feita ou reformd-la por imperfei-
gao de forma.
4. Deve, assim, ser julgada
procedente a media correctional
aqui pretendida".
A Lei de Imprensa determine
ao juiz que receber queixa-crime
para, desde logo, marcar o dia e a
hora da audi8ncia de instrucao
e julgamento.


0 despacho



do juiz






Journal Pessoal 7


Carta do leitor

No n9 101 do Jornal Pessoal escrevi um
artigo para registrar a importfncia do
resultado da eleicio em Maraba. Poderfa-
mos star testemunhando o final da mais
violent oligarquia existente no interior do
Parr, a dos Mutran. Neste journal e em ou-
tras publicag~es eu me empenhara em de-
nunciar a aqgo nefasta dessa famflia sobre
os destinos de um dos mais sofridos muni-
cfpios paraenses, embora ele pudesse ter
uma perspective brilhante. Na carta que
escreveu em resposta ao artigo, o prefeito
eleito de Maraba, Haroldo Bezerra, parece
ter lido em entrelinhas que nao escrevi.
Em nenhum moment sequer pensei que a
vit6ria de seu adversario, Plfnio Pinheiro,
fosse melhor para MarabA. Plfnio seria a
continuidade do esquema Mutran, ainda
que com variantes. Haroldo era a promessa
de mudanqa, mas turvada por alguns as-
pectos, entire os quais o seu prdprio passa-
do, em certo moment ligado ao nio me-
nos nocivo major Curid (um produto do
SNI), e o aparecimento dos Morbach, cuja
histdria comegou a mudar cor o papel
agora desempenhado por Augusto Neto.
A carta de Haroldo 6 um compromisso
formal cor o amadurecimento que ele diz
ter experimentado ao long do tempo e
cor um destiny melhor para Marabi. Ob-
ter esse compromisso era um dos objetivos
maiores do artigo. Infelizmente sou obri-
gado a publicar a carta do prefeito num
corpo pequeno. Foi a dnica maneira de
abrigar o texto por inteiro sem me privar
do precioso espaqo que criei para mim
mesmo neste journal. Mas tive que sacrifi-
car minha resposta para nio prejudicar
ainda mais a carta de Haroldo, nem muti-
li-la. Dei prioridade ao prefeito sobre sua
vice, Adelina Braglia, que escreveu carta
ainda maior para protestar contra o meu
artigo (que, no confront, virou minifdn-
dio diante do vasto latifdndio epistolar de
Adelina). Mesmo sem pretender agradar
aos gregos, espero nio ter levado os troia-
nos ao furor.




"Leitor assfduo do seu Jornal Pessoal,
fiquei desagradavelmente surpreso e mes-
mo chocado cor o teor da andlise sobre
a sucessio em Maraba, publicada no nd-
mero 101, sob o tftulo 'O fim dos Mu-
tran?', que, acredito, tenha sido baseado
em informa6ges incorretas. Por isso, gos-
taria de esclarecer alguns pontos nela
abordados.
01. Qualquer ligaqio do Sr. Augusto
Morbach Neto cor minha campanha a
prefeitura de Manarba 6 fruto meramente
da fantasia de seu informant. O sr. Au-
gusto Morbach nao financiou a campanha e
nem dela participou, em moment algum.
Seu irmfo Wilson, meu cunhado, casado
cor minha irml Concita ha mais de 8
anos, trabalhou sim em minha campanha,
como jd fizera em vezes anteriores, na
qualidade de voluntirio. Quanto ao sr.
Atila Morbach, tamb6m citado em sua
analise, de fato participou da campanha de
Maraba mas apoiando seu irmlo, Luis
Morbach, candidate a vereador pela alian-
ca que apoiou a candidatura do sr. Plfnio
Pinheiro.
02. Ao contrario do que da a entender
sua anflise, o 'volume de dinheiro coloca-
do a disposiqAo do candidate' (eu, no caso)
nao foi tao grande e nio chegou na reali-
dade, a trezentos milh6es de cruzeiros, di-
nheiro arrecado junto a varios simpati-
zantes, de acordo cor o permitido pela
Legislagio Eleitoral. Fizemos uma campa-
nha modest, o que pode ser exemplifica-
do:


a) Enquanto nosso adversirio Plfnio
Pinheiro utilizou 22 carros-som em toda a
campanha, percorrendo as ruas de Maraba,
nds usamos apenas dois; nao havia recursos
para mais do que isto.
b) Nossos comfcios eram animados
por um cantor, um instrumentista e pelo
grupo Banda do Divino, todos de Maraba.
JA os do nosso principal adversirio, pela
Banda Click, de Sio Paulo, que custou
mais de trezentos milh6es de cruzeiros nos
dois meses que passou em Marabd. De
nossa parte, apenas os tres dltimos comf-
cios contaram cor a participagio de um
grupo de fora, a banda 'Fruta Quente', de
Belem, que alids foi transportada para
Marabd de 6nibus.
b) Fui eu, juntamente cor os candi-
dates da 'Frente pela Vida' e do PDT, que
propus o acordo suspendendo o program
eleitoral na televislo, mesmo consciente
que seria o maior prejudicado. Motivo da
proposta: absolute falta de recursos finan-
ceiros para garantir sua realizalao, algo
que nio se coaduna cor uma campanha
que dispunha de um grande volume de di-
nheiro.
03. A participaqio da vidva do fiscal
assassinado em Maraba na minha campanha
foi uma participagio voluntaria e, acima
de tudo, digna. Nio houve, como deixa
implfcito a analise, uma utilizagio indevi-
da e sensacionalista dos sentiments de
uma mulher que reagiu cor coragem ae
brutal assassinate de seu marido. Apareci-
da Mourlo nio me acompanhava em cada
pass e dos trinta e oito comfcios que rea-
lizamos falou apenas em quatro deles, na-
turalmente cor emoqio e revolt.
Fiquei sim orgulhoso de te-la a meu
lado pois hi decadas venho continuamente
denunciando os crimes e arbitrariedades
dos Mutran e seus comparsas em Maraba e
poucas vezes consegui, tal o horror infun-
dido pela famflia, o apoio dos parents das
vftimas de seus crimes.
04. Nio consegui entender por que a
presenqa do empresario Reinaldo Zucatelli
na chapa, como meu vice, 'langa ddvida
sobre o future de Marabd'. Membro de um
partido que, ao lado de outros quatro, in-
tegrou a 'Frente pela Libertafio de Mara-
ba', da qual fui candidate, Zucatelli que
na eleigio de 1988 apoiou Nagib Mutran-
reavaliou sua posicio, como aliis aconte-
ceu cor indmeras outras personalidades do
municfpio, e aceitou, mais do que a candi-
datura a vice, o program basico que des-
taca o 'exercfcio da cidadania' como prio-
ridade, atraves da criagio e instalagio de
conselhos populares, justamente cor ob-
jetivo de evitar o ressurgimento de velhas
ou aparecimento de novas oligarquias no
municfpio.
05. Sua analise fala de dendncias de
fraudes e corrupgdo contra os integrantes
de minha campanha. Estranho. Como ji
disse, fizemos uma campanha modest, e
nio distribufmos alimentos, consultas,
6culos e outras coisas assim. Nio fomos
n6s que transformamos a sede da Agio So-
cial de Marabd em ponto de distribuigio de
alimentos para eleitores, o que foi presen-
ciado pelo deputado Wandenkolk Gongal-
ves. Corrupcqo sim, parece-me, 6 o fato do
governor do Estado transferir recursos para
a Prefeitura de Marabi para que fossem
entregues ao candidate do PMDB, o que
voce cita na analise sem comentar que esta
6 uma pritica viciada e illegal que favorece
cor um enorme volume de recursos os
candidates do partido da autoridade maior
do Estado.
Em relag fo as fraudes e, principal-
mente, ao 'mapismo' citado em sua analise
gostaria de ressaltar alguns fatos.
a) Quando me elegi deputado, em
1982, meu diploma nio computou os votos
de nenhuma das secg6es de Serra pelada, o


principal reduto do 'major Curi6'.
b) Em 1986 fui reeleito e, ao contrl-
rio do que diz a andlise, cor quase o dobro
dos votos conseguidos em 82. Neste mes-
mo ano, ressalto, Nagib Mutran foi tam-
bdm candidate a deputado e nao conseguiu
eleger-se. Esta eleigio foi presidida pelo
juiz Enivaldo Gama.
c) Em 1988, talvez voc6 nao lembre,
as eleig6es em Marabd ji eram presididas
pela jufza Ezilda Pastana, casada cor um
dos filhos de Vavd e irmao de Nagib Mu-
tran, entao candidate a prefeito. Perdi a
eleigio para Nagib cor uma diferenqa in-
ferior a 4.000 votos e o process foi carre-
gado de dendncias de pessoas que dispu-
nham de mais de um tftulo e votavam va-
rias vezes.
d) Em 1990, ano em que perdi a elei-
iao para deputado e na qual Vava Mutran
elegeu-se folgadamente, continuavam as
dendncias de tftulos falsos e estava ainda
na presid&ncia do process a jufza Ezilda
Pastana.
e) Em fungao de indmeras dendncias
de irregularidades o TRE afastou a jufza
Ezilda Pastana, nomeou o juiz Ronaldo
Vale para presidir o process eleitoral em
Marabd e determinou a realizagio de uma
correigio eleitoral no municfpio, depois da
qual o pr6prio TRE, constatando o desa-
parecimento inexplicavel de 4.000 tftulos
do f6rum de Maraba, baixou determinaglo
segundo a qual as pessoas que tivessem tf-
tulo expedido entire 1987 e 1990 s6 vota-
riam cor a apresentaqio da carteira de
identidade. Ao que se sabe, apenas um
candidate protestou contra a media sa-
neadora do TRE: o sr. Plfnio Pinheiro.
06. Minha vitdria nio foi surpreen-
dente (a nio ser, talvez, para meu adver-
sdrio e seus correligionarios, que aposta-
vam mais uma vez no poder de intimidacgo
dos Mutran). Durante a campanha foram
realizadas pesquisas de opiniao que apon-
tavam minha vitdria. A dltima inclusive
dava para mim 48% das inteng6es de voto
contra 23% para Plfnio Pinheiro. O resul-
tado foi coerente. Tive 52% dos votos e
Plfnio 25%. Festejamos a vitdria sim, ao
contririo do que diz a mat6ria 'Jogo sujo',
que segue sua analise. Mas festejamos de
acordo cor os recursos de que dispdnha-
mos, cor uma passeata e carreata em Ma-
rabd e alguns foguetes. Nio havia dinheiro
para mais do que isto.
07. Sobre meu perfil e minha trajetd-
ria, gostaria de enfatizar que entire minha
nomeagio para a prefeitura de Marabi, em
1975, e a eleigio para prefeito se passaram
quase 20 anos. Neste tempo aprendi, ama-
dureci. E me orgulho disso. Minha vision
do mundo, da vida, 6 hoje mais acurada.
Estranho seria o contrario. Apesar disso,
algumas coisas nio mudaram, como o
combat a oligarquia dos Mutran, denun-
ciando seus desmandos contra today a po-
pulacao de Maraba, luta que mantive on-
tem e mantenho hoje.
08. Em relagio ao future de Maraba,
nio posso, obviamente, visualizd-lo. Nem
afirmar cor garantia se a oligarquia Mu-
tran retornard ou nao. NAo sio os Mutran
que me preocupam. O que quero, Telo que
trabalharei cor afinco nestes quatro anos,
6 construir uma base para o desenvolvi-
mento de Maraba. Mas o desenvolvimento
integral, que se assenta na conscientizaaio
da sociedade de seus direitos, de suas ne-
cessidades e de sua forqa para pressionar e
conseguf-los. Se alcangarmos esta meta
nao havera, de agora em diante Mutran ou
qualquer outra oligarquia capaz de intimi-
dar e dobrar Maraba. Existem pianos e
programs setoriais, 6 claro, mas slo as-
sunto para outra oportunidade.
Agora, espero muito, cor todas as
minhas forgas, que daqui a quatro anos vo-
ce possa escrever um artigo intitulado
'Maraba traca e segue seu prdprio rumo'".














N o perfodo de um ano, entire
novembro de 1991 e outubro
de 1992, o Grupo Liberal faturou
quase 23 milh6es de ddlares e te-
ve um lucro Ifquido de pouco
mais de US$ 2 milh6es, segundo
um levantamento ao qual o Jornal
Pessoal teve acesso. O grupo fe-
chou suas contas no vermelho em
apenas quatro desses 12 meses.
As maiores dificuldades foram
enfrentadas em novembro, quando
a empresa precisou amortizar uma
parcela de US$ 510 mil do finan-
ciamento para a compra de seu
novo parque grifico. Para inves-
timentos na complementagao da
rotativa e em computagao grifica,
o grupo precisou emprestar mais
US$ 600 mil ao Eximbank. Obte-
ve ainda uma carta de crddito no
valor de um milhao de d6lares pa-
ra a importagao de duas mil to-
neladas de papel e US$ 500 mil
para capital de giro.
Apesar de suas crescentes
despesas, o grupo estaria em boa
situagao econ6mico-financeira se
nlo tivesse realizado o pesado
investimento na nova sede e nas
novas mAquinas de impressao. O
apreciavel saldo de caixa (de
quase 25 bilh6es de cruzeiros em
um ano) naturalmente suscita a
questao: qual o destiny desse lu-
cro, se ele realmente 6 apontado
no balance contAbil da empresa?
Seria um fundo de reserve, apli-
cado financeiramente, para pre-
venir as amortizag6es do finan-
ciamento de US$ 4,4 milh6es,
contrafdo para a compra da mo-
derna impressora e seus acessd-
rios?
Os ndmeros da movimentagao
do grupo contrastam cor as cada
vez mais visfveis dificuldades
apresentadas pela empresa para
saldar seus compromissos com
fornecedores e credores, ou para
manter uma razoAvel polftica de
pessoal. O Liberal, que ji foi o
carro-chefe na imprensa local,
hoje 6 o que pior paga seus jor-
nalistas entire os tres didrios. Nao
se disp6s sequer a fechar um
acordo salarial cor o sindicato
da categoria. Os gastos com mao-
de-obra absorvem, em m6dia, um
quarto do faturamento da empre-
sa, estabilizando-se em US$ 440
mil por mes. Constituem o princi-


pal ftem das despesas, mas em al-
guns meses sao superados pelos
gastos cor fornecedores.
O balango desse ano mostra
que a televisao ja superou o jor-
nal em faturamento, invertendo
uma relacao que se mantivera du-
rante muitos anos (agravando a
situagao do journal, que tern renta-
bilidade bem menor do que a da
televisao e deve estar operando
no vermelho). Tambhm um dado
interessante: a venda avulsa do
journal equivale a quase dois ter-
gos do faturamento publicitArio e
6 o suficiente para cobrir as des-
pesas corn papel, situacao que
desfaz o mito sobre a desimpor-
tancia do leitor.

Aviso aos

navegantes

Estou tirando este ndmero do
Journal Pessoal na maior precarie-
dade. Desde outubro minha vida
ter sido andar pelo F6rum, ler
tratados jurfdicos e participar da
elaboracgo de minhas interven-
6oes em tris demands dos Maio-
rana na Justiga e no Ministdrio
Pdblico. Aldm do prejufzo mate-
rial que me causaram pela perda
da grafica traditional que usava,
tornaram simplesmente impossfvel
o exercfcio de minha profissao.
Falta-me tempo para acompa-
nhar adequadamente tantos temas
que entraram na minha agenda
para este ndmero e dela safram no
moment de editar este ndmero.
Naturalmente, a maior parte do
espago 6 ocupada pelos Maiorana
e suas querelas. Nio por rixa,
mas porque, irresponsavelmente,
eles criaram um caso grave de
atentado A liberdade de imprensa.
Parte vital do espago tive que ce-
der ao prefeito eleito de Maraba,
Haroldo Bezerra, para manter
meu compromisso de reproduzir
integralmente as cartas que me
enviam, ao contrdrio do procedi-
mento da maioria da imprensa.
Haroldo, pordm, exagerou: escre-
veu duas vezes mais do que eu,
que nao sou famoso por ser con-
ciso.
O preco de capa deste journal
aumentou para Cr$ 5.000,00. E
uma tentative de mante-lo vivo.
Ao mesmo tempo, abri a conta n2.


0 faturamento


do grupo


012054 ha agencia 127 do banco
Nacional, da rua 15 de Novem-
bro, para os que quiserem fazer
dep6sitos voluntarios e modes-
tos em favor do Jornal Pessoal.
Espero que, livrando-me dos ca-
prichos intolerantes dos Maiora-
na, possa voltar a me dedicar ao
JP e ainda tirar um ndmero antes
que o ano se acabe. Apesar de
tudo, a periodicidade deste journal
foi mantida.

Liberdade que d6i
Acondir-o de rdu d6i. Mesmo
quando somos vftimas de uma
injustica e de um ato irresponsd-
vel, nao 6 confortavel ser acusa-
do, principalmente se o mote da
acao agride tamb6m todo um pas-
sado. Ainda assim, o espago dado
nesta ediago ao litfgio judicial
provocado por Rosangela Maio-
rana nao 6 um acerto de contas. I
por ser mesmo um fato grave, in-
felizmente ignorado pela grande
imprensa, cuja lacuna este Jornal
Pessoal tenta suprir,
O capricho de uma das pro-
prietarias do mais poderoso grupo
de comunicaAio do norte do pafs
pode resultar num cerceamento A
liberdade de imprensa. Para ela
pode ser apenas o atendimento de
sua vontade pessoal. Para o jor-
nalismo, por6m, 6 uma ofensa.
Thomas Jefferson, autor da
primeira emenda A Constituigio
americana, aditada justamente pa-
ra colocar a imprensa acima do
governor (um avanqo de dois sd-
culos atrds em relagioa nossa
atual mas felizmente moribunda
- Lei de Imprensa), observou corn
sabedoria:
"O caminho mais eficiente atd
hoje encontrado (para fazer os
homes "ser governados pela ra-
zio e pela verdade") 6 a liberda-
de de imprensa. Por isso, 6 o
primeiro a ser fechado por aque-
les que receiam a investigation de
suas ag6es".
Espero nao poder voltar a este
tema senao para noticiar que as
palavras do pai da democracia
americana sensibilizaram aqueles
que, nio querendo ajudar a im-
prensa a revelar a verdade, ao
menos nao atrapalham os que fa-
zem jornalismo para valer

Journal Pessoal
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Iluslraqao: Luiz Pinto
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Fone: 223-1929 Opglfo Editorial
Impresso nas oficinas de Agranell Editora,
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