Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00077

Full Text





ornal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL LUCL O FLAVIO PINTO


Ano VI N0 102 2" Quinzena de Novembro de 1992 0


Cr$ 3.000,00


IMPRENSA


A guerra dos Maiorana

Os monopolistas da comunicaago de massa no Para
acham que sao donos do Para. Querem punir o
JP com a morte porque cometeu um crime
imperdoavel: falou da familiar Maiorana.


N o final do mas passado o
consultor geral do Estado,
Roberto Cavalleiro de Ma-
cedo, divulgou uma nota official,
paga, em resposta a uma outra
nota de desembargadores do Tri-
bunal de Justiga. O document do
consultor foi publicado em A
Psovfncia do Par e no DiArio do
Pa, mas nio em 0 Libeal. A
diregio do journal recusou a pu-
blicagco porque Cavalleiro de
Macedo fazia referencia ao Jormal
Para a famflia Maiorana este
journal deve morrer porque come-
teou m -rcriiam tratou de mn


tema que incomoda os donos da
comunicaglo social no Pard. No
mns passado, quase simultanea-
mente, mas como se fossem ini-
ciativas aut6nomas, o Sistema
Romulo Maiorana de Comunica-
cio e RosAngela Maiorana Kzan,
diretora administrative da corpo-
ragio, recorreram ao Ministdrio
Pdblico e A Justica para desfechar
golpes que parecem considerar
mortais a este JP.
Atrav6s do advogado Jorge
Borba, o Sistema Romulo Maio-
rana representou I procuradora de
Justiga, Marflia Crespo Maia, pe-
dindo-lhe para me former a decla-


rar o nome da grafica que impri-
me o Jemal PessoaL Os Maiorana
sabem muito bem que essa grafica
6 a Falangola. A intengio, por
tr6s da preocupagio com o for-
malismo da lei, 6 a que foi alcan-
cada: criar um constrangimento
mdtuo que inviabilizasse a ma-
nutenglo da relagio commercial
deste journal cor a Grafica Falan-
gola.
0 dono da empresa, Giorgio
Falangola, era amigo fntimo de
Romulo Maiorana, una ligacAo
que remontava aos pais de ambos,
imigrantes italianos que vieram
juntos para o Brasil. Eu nio po- )






2 Jornal Pessoal


deria pedir a Falangola, um ami-
go a quem tanto prezo, que conti-
nuasse imprimindo o journal num
moment em que os Maiorana me
declaram guerra. Agindo assim,
eu o colocaria entire a cruz e a
espada, um dilema sentimental e
emotional que ele nAo consegui-
ria resolver. Preferi sair. Este
ndmero do Jornal Pessoal ja esta
sendo editado em outra grafica,
citada no expediente, conforme a
exigencia legal, que o Ministdrio
Pdblico, acionado pelos Maiora-
na, cobrou.

Os "fatos inverfdicos"

JA Ros&ngela Maiorana Kzan,
atraves de Calilo Kzan (seu mari-
do) e Pojucan Tavares, apresen-
tou uma queixa-crime, distribufda
para a 14s Vara Criminal do F6-
rum de Beldm. Ela diz que cometi
crime de caldnia, difamacao e
injdria "e outras violag6es cons-
titucionais" por ter afirmado e
atribufdo "fatos inverfdicos"
contra ela, como "discussio corn
o irmio Rominho", "vinculagao
societiria com suposto autor de
'rombo' praticado por Ariovaldo,
no Liberal", "concorrencia des-
leal com o 'Liberal"', envolven-
do-a em "cizania cor seus ir-
mAos".
A petiqAo seria graciosa, nio
fosse antes de clara mi-fd. Su-
gestivamente, seus advogados di-
zem que afirmei e atribuf "fatos
inverfdicos", como se fatos nio
fossem fatos, coisas que ocorrem
independentemente de nosso co-
nhecimento ou interpretagAo, es-
tes, sim, verfdicos ou nio. Trata-
se de ato falho, a ser apontado na
Justiga, que procurei esponta-
neamente, sem esperar citagio,
para ter conhecimento voluntArio
do ataque que me faz Rosangela.
E muito facil desfaze-lo por-
que os Maiorana nfo agem de
boa-fe. Como prova de meus
"crimes", indicados ou apenas
sugeridos, cor furor bfblico (uma
inspiragio que talvez indique
certas motivag6es da iniciativa),
na referencia vaga e gendrica a
"outras violag6es constitucio-
nais", Rosangela, conhecida tam-
bdm como "Loloca", anexa um
exemplar do ndmero 98 do Jornal
Pessoal, da 2a quinzena de se-
tembro.
E estranho, mas sintomatico,
que a diretora administrative de
0~B&Taiben naoi ttenha inclufdo
Stamam 'cbmbapiva s~sexemplar


seguinte deste journal, o 99, que
continuous e ampliou a question
por ela considerada crime. Tanto
a petigio como a procuragio pas-
sada aos advogados nao especifi-
cam o dia de outubro em que fo-
ram preparadas (primeiro deslize
formal cometido). Mas sem ddvi-
da isso ocorreu na segunda quin-
zena do mes porque o reconheci-
mento da assinatura foi feito no
dia 21 e o primeiro apontamento
no process em cartdrio, no dia
30.
No ndmero 99 enriqueci a
matdria anterior com o produto de
minha apuraqio pessoal de fatos e
de uma conversa que tive com
Calilo Kzan, diante de seu sdcio,
Pojucan Tavares. Calilo, um
companheiro de bancos colegiais,
me telefonou para dizer que Lo-
loca ficara revoltada cor a minha
mat6ria e se sentira atingida. De-
cidi procurar Calilo, no escritdrio
dele, para conversarmos. Ele fez
uma serie de reparos e acrdscimos
ao meu texto e pediu-me para ter
acesso prdvio antes de publicar o
que iria escrever.
Nio concordei, evidentemen-
te, como nenhum jornalista sdrio
concordaria. Mas garanti-lhe que
em relagio a um ponto pelo me-
nos ele e sua esposa poderiam ter
certeza: eu nAo tinha qualquer in-
formario de que RosAngela sou-
bera da acusagio de rombo que
seu irmfio, Romulo Maiorana Jr.,
teria feito ao gerente de circula-
gio do journal, Ariovaldo Santos,
durante uma Aspera discussion que
os dois tiveram em agosto, con-
forme minha fonte me havia dito,
imediatamente apds o incident.
Em nenhum moment da primeira
reportagem eu dissera isso, mas
RosAngela se declarava magoada
exatamente por ter visto no texto
insinuag6es que a dariam como
conivente com a irregularidade.
Aceitei que o texto poderia
ficar mais incisive. Num paragra-
fo da edigio seguinte, escrevi:
"As duas (Rosangela e sea irmn e
sdcia, Angela Maiorana Martins)
negam que o motive da explosio
do irmio tenha sido um rombo
ocorrido na empresa, no qual
Rominho diz que Ariovaldo esta-
ria envolvido, acusagio que nio
aceitam, que Rominho nao teria
comprovado e da qual s6 ficaram
sabendo quando suas empresas ja
estavam montadas".
O condicional nio 6 malicio-
so, para fugir a uma responsabili-
dade em Jufzo, mas.paraqser field


natureza da informagio, que e
testemunhal. Uma fonte da dis-
cussao entire Ariovaldo e Romi-
nho, ponteada por gritos, murros
na mesa (em cima da qual havia
um revolver Rossi, calibre 38,
com balas) e um choro convulsive
do principal executive do grupo,
disse ter ouvido no meio do bate-
boca troca de acusag6es sobre
lealdade, honestidade, competen-
cia e outros atributos pessoais.
Mas a comprova&io documental
do rombo s6 poderA ser feita
quando um perito auditar as con-
tas da empresa, o que pedirei no
moment oportuno A Justiga, para
verificar o balango e rastrear a
existencia de caixa 2, uma lenda
pdblica e notdria em 0 Liberal.

Clareza da verdade

Na segunda materia eu tam-
bem deixei fartamente claro que
n8o estava me referindo a uma
sociedade entire Rosangela e
Ariovaldo quando escrevi, no
primeiro texto, que "a irma (de
Rominho) e Ariovaldo haviam
formado uma empresa em Macapa
justamente no moment em que O
Liberal esta instalando ali uma
sucursal, pass inicial para rodar
um journal amapaense". Na edigao
99 (que tambem por isso mesmo
Rosangela nao anexou a sua
queixa-crime), escrevi: "A coli-
slo mais seria entire os dois prin-
cipais executives do grapo Libe-
ral, porem, ocorreria no Amapi.
RosAngela, associada a Angela
Maiorana Martins, que atua na
television, decidiu organizer duas
empresas para atuarem no novo
Estado na importagio e exporta-
geo e no setor grdfico. Sem saber
da iniciativa das irmis, e tambdm
sem avisd-las de sua prdpria
agio, Rominho monton empress
nesses mesmos stores e uma
terceira para produzir plisticos,
Em todas elas participa, com per-
centagem simbdlica, o director in-
dustrial do journal, Pojucam de
Moraes".
No parfgrafo seguinte, afir-
mei: "O responsavel pela organi-
zaglo das cinco empress era
Ariovaldo Santos, gerente de cir-
colaqgo de O Liberal. Ele mante-
ve segredo sobre sua dupla e pa-
ralela fungio ate Rominho desco-
brir que Ariovaldo estava servin-
do tanto a ele como as irmas. Sd
entao teria decidido investor con-
tra o assessor, usando-o por ta-
bela. para atingir Rosfngela e An- >






omral Pessoal 3


gela, competidoras num setor no
qual o journal tambdm iria entrar".
Esses dois trechos sao meri-
dianamente cristalinos para des-
montar a tese de RosAngela de
que a acusei de ter vinculacao
societaria cor Ariovaldo e de ter
conhecimento pr6vio do suposto
rombo que ele teria praticado,
como escrevi no artigo. E de md-
fd, portanto, a exclusAo da se-
gunda matdria de sua queixa, da
qual ela ja tinha conhecimento
quando recorreu a Justiga. Queria
colocar no meu texto uma caldnia
que nunca Ihe fiz, como jamais
fiz a qualquer outra pessoa em 27
anos de jornalismo professional.
Mas nao 6 esta a dnica sone-
gacao ardilosa e calculada feita
ao julgamento da Justiga. Como
testemunhas contra mim, os ad-
vogados de Rosfngela apontam
Rominho e dois diretores da em-
presa, Pojucam de Moraes, res-
ponsavel pela area industrial, e
Edson Salame, relag6es pdblicas,
que ocupam cargos de confianca.
Mas nao indicaram Ariovaldo
Santos, o piv6 do rompimento
entire os dois irmAos, em torno
dos quais dividiram-se os irmaos
(as mulheres cor Rosangela e
Ronaldo com Rominho) e a mae,
que ainda procura salvar a unida-
de da famflia. Ariovaldo foi obri-
gado a tirar tres meses de f6rias
e, em seguida, demitido. Nao esta
mais, portanto, ao menos formal-


mente, sob a subordinagao dos
Maiorana. Talvez por isso o te-
nham ignorado.

A razio da crise

A crise desencadeou-se exa-
tamente porque Ariovaldo, que
Rominho considerava ser "um
brago" da irma dentro do journal,
organizou as cinco empresas sem
avisar os lados antag6nicos. Em
abril foram registradas as tres
firmas de Rosangela e Angela em
Macapa. No mes seguinte foram
legalizadas as duas firmas de
Rominho. Mas enquanto as dele
existiam apenas no papel, as duas
irmas estavam muito na frente: as
duas sdcias haviam obtido tries
terrenos em Macapa, dois dos
quais doados pela prefeitura, e
prepararam para apresentar a Su-
dam carta-consulta para implantar
projeto no valor de 20 milh6es de
d6lares, que Ihes daria a segunda
maior grafica do pafs em sua es-
pecialidade.
Sentindo-se lesado ao saber,
por seu director industrial, Poju-
cam de Moraes, que Ariovaldo
tambdm estava a frente das firmas
das irmas, Rominho tirou-o da
festa de aniversario do colunista
social Isaac Soares, que se co-
memorava no predio de O Libe-
ral, e levou-o para seu gabinete,
no dltimo andar, tratando-o aos
gritos, ouvidos pelo deputado


estadual Nelson Chaves e o cu-
nhado de Rominho, Cafto Mar-
tins, que estavam na ante-sala,
pela secretaria Socorro e pelo
boy Zezinho. Depois da discus-
sao, desceu pelo elevador priva-
tivo e foi para o apartamento da
mAe, Dea, enquanto Rosangela
chegava ao predio de O Liberal.
Acompanhado de seu fiel
amigo SA Pereira, tambdm director
do journal, Rominho voltou ao
pr6dio apenas para apanhar sua
pasta. Seguiu para o aeroporto e
viajou para Manaus, de onde
voltou, quase uma semana depois,
com uma motocicleta nova, exibi-
da pelas ruas de Beldm atd o mo-
mento de viajar novamente, por
duas semanas, para Sao Paulo.
Ao retornar a seu gabinete, que-
brando a ameaga de desligar-se
da empresa, que havia feito, Ro-
minho mandou instalar um cir-
cuito intern de televisao. Seria
para preveni-lo, conforme seu
gesto foi interpretado na empresa,
da presenga de Rosangela, com a
qual nao voltou mais a conversar.
Nao fui eu, assim, quem criou
"cizania" (adoravel expressao
que costuma ser colhida em pro-
nunciamentos castrenses) entire os
irmaos: eles e que estao brigando
- mas nao querem que a opiniao
pdblica saiba disso, como se fos-
sem seus proprietarios vitalicios,
corn o direito de origem eterna
reivindicado pelos reis.


0 triste papel


S d uma vez recorri & odienta
lei de imprensa: foi no ano
passado, para tentar forgar
O Liberal a publicar uma carta
minha. Cor espalhafato, o journal
- e sua extensao ja extinta, a
desvirtuada Folha do Norte di-
vulgara declarag6es do vereador
(nao reeleito) Raul Meireles le-
vantando suspeig6es sobre um
contrato meu cor a Funtelpa. Le-
vei em maos a carta e a entreguei
ao factotum do journal, Claudio
Augusto de Sa Leal. O journal se
recusou a reconhecer meu direito
de resposta. Sem qualquer outra
alternative diante daquele ato de
violencia e autoritarismo, tentei
pela Justiga a prerrogativa ele-
mentar de um cidadao, mas o juiz
referendou o ato de arbftrio sob o
argument de que se desencadea-
ria uma discussao sem fim entire o
vereador e eu, como se estabele-


cer tal tipo de discussao nao
constitufsse uma das fung6es mais
nobres da imprensa.

Casa de intolerancia

Nao foi a primeira attitude de
intolerancia de O Liberal. Antes,
o journal tambdm nao aceitara pu-
blicar minha carta em resposta a
um artigo do filho do entio go-
vernador Hdlio Gueiros, no qual
eu aparecia como Pilatos no Cre-
do. Mas, como aconteceu em ou-
tras ocasi6es em que me vi ataca-
do injustamente por jornais, fi-
quei a distfncia da lei de impren-
sa, uma excrescencia que ainda
subsiste (projeto substitutivo, ca-
paz de restabelecer nosso nfvel
civilizatdrio na mat6ria, tramita
no Congresso.
A lei de imprensa, de 1967, e
um produto tfpico do regime mi-


litar. Ao contrArio da famosa
primeira emenda a Constituifio
americana, supostamente redigida
pelo pr6prio Thomas Jefferson,
que foi criada para garantir que a
imprensa sobreviveria a governor
intolerantes, a nossa foi forjada a
espada para estabelecer o con-
trole e o cerceamento da liberda-
de de informagao pelo governor.
Um de seus dispositivos mais
exemplares exige de jornais e pe-
riddicos a identificagao da grafi-
ca em que sao impresses, nAo s6
no expediente da publicagAo, co-
mo no registry em cart6rio. O
objetivo 6 claro: manter um ca-
dastro da imprensa para atingi-la
em seu ponto mais vulneravel, o
da oficina. O alvo eram, sobretu-
do, os pequenos jornais, editados
cor muita dificuldade, porem os
mais independents, os mais ca-
pazes de critical o governor.






4 Jornal Pessoal


O instrument existiu sempre
no texto da lei, mas, ao que sai-
ba, o Sistema Romulo Maiorana
de Comunicaclo foi o primeiro a
utiliza-lo e contra um outro
journal. Quando comecei a editar o
Journal Pessoal, eu sabia que ca-
minhava paralelamente A lei n&o
identificando a grifica impresso-
ra, mas n&o tinha outra opgao.

0 alvo visado

A primeira oficina que usei
foi justamente a de O Liberal.
Das rotativas do journal saiu o
ndmero um do JP, dedicado a in-
vestigar o assassinate do ex-de-
putado estadual Paulo Fonteles de
Lima. O nome da grafica nao saiu
e isso nio interessou a ningu6m.
O que importava era o conteddo
da reportagem do novo jornalzi-
nho (com ela ganhei um dos pre-
mios da Federagio Nacional dos
Jornalistas, no primeiro ano em
que eles foram distribufdos). O
segundo ndmero tamb6m rodou na
oficina de O Liberal, mas foi o
ldtimo: os Maiorana pediram para
eu procurar outra grifica. O mo-
tivo: a matdria principal denun-
ciava um rombo equivalent a 30
milh6es de ddlares (270 bilh6es
de cruzeiros de hoje) no Banco
da Amaz6nia. O principal envol-
vido era Augusto Barreira Perei-
ra, director do bancoq procurador
do grupo Liberal, amigo da famf-
lia.
Segui entao minha "via cru-
cis" por sete grificas atd chegar,
no ndmero 9, A Grifica Falango-


la, onde, sete anos antes, fizera
um de meus experiments alter-
nativos, o Informe Amaz6nico.
Na Falangola rodei mais de 90
edig6es do Jornal Peasoal, que
nAo teria completado seus cinco
anos de vida se Giorgio Falan-
gola nao tivesse uma virtude:
distinguir um negdcio commercial
de um empreendimento editorial.
Pagava-lhe para me devolver
pronto o journal e ele cumpria sua
tarefa sem querer saber o conted-
do da publicagco. Eu sabia que
algumas vezes amigos dele eram
atingidos e ate clients impor-
tantes. Mas nunca reclamou, nem
pediu para ver o texto antes de
impress. Foi sempre um leitor
como outro qualquer, de uma
atengfo atd inc6moda porque me
flagrava com cochilos de (ma) re-
visAo minha, naturalmente.

N i .v, v_.,mos nos surpre-
ender com esse comportamento,
padrAo em qualquer sociedade ci-
vilizada. Mas nio somos uma,
como os Maiorana fazem questAo
de nos lembrar, e Falangola e
uma figure quase solitdria. Aos
81 anos e ainda a frente de sua
empresa em um moment muito
delicado, ele merece que eu nao o
constranja a estar em posigao
contrAria a de uma famflia tao li-
gada a ele pelo passado. Ao me-
nos desta vez os Maiorana apren-
deram as (mas, por sinal) lig6es
do florentino Maquiavel, se 6 que
a inspiragao por um ato tao sagaz
e tAo melancdlico foi deles mes-
mo.


Durante os anos de existencia
do Journal Pessoal temi que esse
ato partisse de algum sultao polf-
tico, desses muitos que ficam
contrariados com o que escrevo.
Mas todos eles, conscientemente
ou por desconhecimento legal,
partiram da premissa que garante
a liberdade de imprensa (e, por
ela, o aprimoramento da socieda-
de) do lado civilizado do mundo:
o que interessa 6 saber se o res-
ponsavel pela publicargo estA le-
galmente habilitado e se o que
diz 6 verdade. O resto e sofisma
para tiranizar, como fez o regime
military quando editou a lei de im-
prensa.
Os Maiorana estao sozinhos
nessa faganha, que Ihes garantird
um lugar na histdria, embora na
triste figure do delator de compa-
nheiro, do traidor da classes, do
algoz de confrades, daquele que
ousou usar sem compostura o que
mesmo os tiranos tiveram pudor
de aplicar. Se a matdria que es-
crevi depois da conversa com
Calilo Kzan nAo foi satisfatdria,
Rosangela ou qualquer dos
Maiorana poderiam escrever
uma carta, como eu fiz e qualquer
cidadao faria quando a situag o
era inversa. Neste journal, o di-
reito de resposta 6 sagrado, como
tenho demonstrado A exaustio.
Ao invds disso, a diretora de O
Liberal optou por uma queixa-
crime capciosa, cujo objetivo 6
intimidar-me. Se os Maiorana nio
me conhecem, posso mandar-lhes
este recado: nao me intimidarfo.


0 crime deste reu


E m 1976 eu tinha 27 anos de
idade e 11 de profissao
quando fui processado pela
Lei de Seguranca Nacional em
Belem, para onde tinha regressa-
do dois anos antes, depois de uma
long temporada em Sao Paulo.
Meu crime tinha sido o de publi-
car uma reportagem de Paulo Ro-
naldo Albuquerque (jornalista ji
falecido) sobre violencia policial
no suplemento Encarte, que eu
havia criado e entao editava em O
Liberal. Paulo denunciava o es-
pancamento de foragidos da polf-
cia, que haviam escapado da lan-
cha Marta da ConceigAo no mo-
mento em que estavam sendo le-
vados para a ilha de Cotijuba, em
frente a Belem. Ali, provavel-


mente, seriam torturados. A caga-
da dos criminosos mobilizara a
polfcia em exibig6es de violencia
documentadas fotograficamente.
O entAo governador Aloysio
Chaves mandou apurar as dendn-
cias. Mas no curso do inqudrito o
foco do investigator mudou: ao
inv6s de verificar os atos de vio-
lencia dos policiais, not6rios,
passou a investor sobre os jorna-
listas que cobriram o episddio.
Foi estimulado pelo comporta-
mento de alguns jornalistas: pres-
sionados, eles aceitaram admitir
que haviam montado a cena para
as fotografias ou seja, haviam
encenado o que foi publicado
como acontecimento real.
Um official da PM me disse,


quando prestei meu depoimento
no inqu6rito, que bastaria nao as-
sumir a responsabilidade pelo ar-
tigo para livrar-me de imputag~o.
Era Paulo Ronaldo, um notdrio
desafeto da polfcia, quem eles
queriam alcangar para coloca-lo
outra vez atras das grades (na
primeira ocasiao, Paulo perdeu
seu mandate de deputado esta-
dual, obtido com votagAo consa-
gradora). A matdria esatava assi-
nada por ele. Meu nome aparecia
apenas no cabegalho do suple-
mento. Mas assumi plenamente a
autoria do artigo. Se Paulo fosse
preso, eu iria junto. NAo era tem-
po de flores, evidentemente. Mas
havia lugar para dec6ncia.
Na Polfcia Federal, onde me






Journal Pessoal 5


apresentei sozinho, fui submetido
aquele ato vexat6rio de molhar os
dedos na almofada e ser fotogra-
fado cor ndmero colocado no
peito para a identificago crimi-
nal. Mas a Auditoria Militar des-
fez a arapuca: desqualificou o
crime e mandou o process para a
Justiga comum, onde o promoter
Amdrico Monteiro, em despacho
elogiando meu comportamento e
criticando os colegas ubfquos,
pediu o arquivamento do mons-
trengo.
Foi essa minha dnica expe-
riencia de r6u perante a Justiga.
Os leitores concordario que se
trata, ao inv6s de punicgo, de tro-
fdu para um jornalista que se es-
pecializou em enfrentar podero-
sos ao long de umna intense car-
reira de 27 anos. Pela primeira
vez vejo-me agora no constran-
gimento de responder a uma
queixa-crime, uma obra muito
mais digna dos autores, os Maio-
rana, do que de mim. Nada fiz
para merece-la. Tornei-me apenas
vftima de pessoas que se julgam
detentoras de direitos sobre toda
uma sociedade, simplesmente
pelo fato de terem nas maos uma
poderosa engrenagem de comuni-
cagco de massa.
Depois de cinco livros, quatro
pr8mios Esso, dois premios Fe-
naj, passage limpa por alguns
dos principals 6rgaos da imprensa
brasileira, a presidencia do sindi-
cato de classes, mais de quatro
centenas de palestras dentro e fo-
ra do pafs, bolsa de universidade
estrangeira e reconhecimento in-


0 ornal Pessoal nAo circular
em dezembro. As dificulda-
des pelas quais estou pas-
sando me obrigam a suspender
sua edigio no prdximo mes, espe-
rando poder reanimd-lo para que
sobreviva a partir de janeiro.
Desde que Haroldo Maranhio pu-
blicou um artigo em A Provfncia
do Para sugerindo-me tentar uma
tribune na Cimara Federal porque
o journal estava se exaurindo, vi-
nha pensando em parar com o JP.
At6 fisicamente minha capacidade
de manter o journal estava no li-
mite e encontra-se mais ainda
agora. Mas a guerra declarada
pelos Maiorana me obriga a tentar
inventor nova forga para evitar
que o prop6sito deles se consu-
ma. O JP precisa continuar,


ternacional, acho que posso rei-
vindicar o tftulo de pessoa s6ria,
honest e competent na minha
profissAo. No entanto, Rosfngela
Maiorana Kzan, diretora admi-
nistrativa do Sistema Romulo
Maiorana de Comunicagao, vai A
Justiga para acusar-me de ser ca-
luniador, injuriador e difamador.
A o pdblico e not6rio que uma vi-
sao estreita e obtusamente pes-
soal tenta desfazer.
Ela diz que, com a reportagem
do ndmero 98 deste journal, eu te-
ria devassado sua vida privada,
aquilo que constitui a intimidade
de uma pessoa. Em tom grandilo-
quente, mas postigo, sentenciam
seus advogados que discussess
e divergencias entire pessoas, com
ou sem lago de parentesco, nao
autoriza ningu6m a tornar o con-
teddo ou fato em si, de domfnio
pdblico, pois violaria frontal-
mente preceitos constitucionais
que visam resguardar e proteger a
reputagAo, a honra, a intimidade e
o respeito a vida privada e social
do cidadao".
Como se eu tivesse montado
escutas clandestinas ou entrado
sorrateiramente nos domicflios
dos Maiorana, os advogados,
tentando simploriamente impres-
sionar o juiz da causa, citam a
Carta da ONU, como se Rosan-
gela tivesse sido "objeto de inva-
s6es arbitrArias ou ilegais, em sua
vida privada", quando foi apenas
tema de uma reportagem escrita
com o rigor que se exige (e que
qualquer perito avalizard).
Mas nao emiti, sobre ela ou


quando nada para provar que nem
tudo os Maiorana podem.
A resistencia, entretanto, nao
vird atrav6s de milagres. O Jornal
Pessoal 6 a atividade que mais
exige de mim, e nao apenas em
tempo, o que ji 6 em si um
transtorno. Mas tenho que me en-
volver em varias outras ativida-
des para garantir a minha sobre-
vivencia, e a da famflia. Alem
disso, os meios de que disponho
para fazer o journal tornam-se ca-
da vez mais insatisfat6rios. O
prefeito eleito de MarabE, Harol-
do Bezerra, por exemplo, quei-
xou-se de que nio o ouvi ao es-
crever uma mat6ria no ndmero
anterior sobre a dispute no muni-
cfpio. Haroldo tem razao em parte
(deixo de examiner os outros mo-


qualquer de seus parents, um sd
jufzo de valor ou divulguei in-
formarao que nao estivesse rela-
cionada A empresa de comunica-
gao, que lida com a informag&o,
hoje a mat6ria de maior interesse
pdblico que ha na sociedade. Sem
se indagar sobre os direitos dos
outros, os Maiorana se permitiram
proibir a veiculagio, inclusive
como mat6ria paga, de uma nota
official de ningu6m menos que o
consultor geral do Estado, pelo
simples pecado mortal para eles
- de citar o Jornal Pessoal. Veta-
ram um artigo de seu colaborador
de 15 anos, o ffsico Jose Maria
Bassallo, pelo mesmo motivo,
forgando-o a abandonar O Libe-
ral. Dizendo-se detentor de 98%
do mercado de jornais e monopo-
lista da comunicagao por televi-
sao, o grupo decretou minha
morte em seus vefculos e quer
agora a morte deste frdgil Jornal
Pessoal.
A sociedade paraense, apesar
dos editos emanados do pr6dio da
Gaspar Viana, tem o direito de
saber que a segunda mais podero-
sa empresa jornalfstica da hist6ria
do Pard esta ameagada nao por
seus adversirios ou inimigos ex-
ternos, mas por suas disseng6es
internal, pela visao mfope e de-
sencontrada dos irmaos Maiorana.
Por ironia da hist6ria, prddiga em
crueldades, 6 quase a repetigao
de um drama vivido dentro da-
quele velho pr6dio antes de sua
modernosa remodelagAo arquite-
t6nica e seu atual enchimento
human.

tivos porque ele nao mandou a
carta que escreveria): eu o procu-
rei, mas poucas vezes, porque ate
uma ligagao telef6nica interurba-
na pesa nos custos do JP.
Sd quem acompanha o proces-
so de criagao e edigao do journal
tem uma ideia da precariedade
dos meios de que disponho.
Aceitei submeter-me a eles, e a
uma s6rie de outras contingencias
desfavoraveis, por achar que to-
dos esses meios justificam a fi-
nalidade de editar um journal ver-
dadeiramente independent, vin-
culado exclusivamente ao seu
leitor. Aprendi isso nas outras
malogradas tentativas de criar e
manter jornais alternatives. Mas a
guerra declarada pelos Maiorana,
obrigando-me a buscar novos es-
quemas viabilizadores, todos one-
rosos, me imp6e esta suspension,
que espero seja curta.


Destino do JP






SJornal Pessoal


Necessidade de informar


AFolha do Norte, o mais po-
deroso journal ate entAo, vi-
veu sua crise nos anos 60
porque nAo havia mais unidade e
solidez internal para enfrentar
mais uma adversidade vinda do
exterior, uma constant em sua
existencia. Antes de sucumbir ao
boicote e & desatualizagao, a Fo-
lha foi corrofda por litfgios fami-
liares, que ningu8m na epoca no-
ticiou para o registro da histdria
e a advertencia dos contemporl-
neos. Talvez um acompanhamento
jornalfstico alertasse melhor a
pr6pria famflia e a opiniao pdbli-
ca, salvando o journal, ainda que
para isso submetendo-o a um pur-
gamento doloroso. Desse crime
de omissao o Jornal Pessoal nao
podera ser acusado.
Quando escrevo sobre os
Maiorana nao estou pretendendo
estimular seus conflitos, que ja
slo suficientemente graves sem
provocagao de fora, mas cumprir
a funglo que ficou sem autoria no
moment decisive da hist6ria da
Folha do Norte. Nao me move
a intengAo de destuir o grupo Li-
beral, mesmo porque falta-me
condigao para alcanrar esse ob-
jetivo (que, volto a insistir, para
POLiTICA


Sprefeito Augusto Rezende
acredita mesmo que um boi,
por mais pesado que seja,
pode voar na polftica paraense.
HA fortes indfcios de que Rezen-
de vem se dedicando, nas dltimas
semanas, & diffcil tarefa de criar
um clima mais respiravel nas re-
laq6es entire o governador Jader
Barbalho e o prefeito eleito de
Beldm, o ex-governador Hdlio
Gueiros. Como produto dessa pa-
cificaglo, Rezende poderia fazer
companhia aos v6os bovinos, su-
bindo para a CAmara Federal ou,
quem sabe, ate apresentando-se
como candidate ao governor do
Estado, em 1993.
Rezende jA 8 o primeiro can-
didato lancado & dispute pelo
cargo. Seu nome foi lembrado
pelo empresario Junichiro Yama-
da, irmfo mais velho de Fernan-
do, que o atual prefeito, se pu-
desse, teria escolhido para ser
seu successor. Mas, em silAncio,


melhor entendimento dos Maiora-
na, nAo esta em meus pianos).
Quando escrevo, lA no fundo de
mim tenho a esperanga de poder
alcangar uma leitora privilegiada:
Dea Maiorana.
O grupo Liberal vive uma si-
tuaqio ineditamente crftica desde
a morte de Romulo Maiorana, hA
mais de seis anos. A empresa fez
um emprestimo de mais de quatro
milh6es de ddlares para adquirir
um novo parque grAfico, certa-
mente super-dimensionado e de
implantagio problemAtica. Desde
o ano passado as prestac6es tri-
mestrais, devidas ao Banco Boz-
zano Simonsen, v6m sendo pagas.
SAo parcelas de valor crescente,
em ddlar. Para honrar esse d6bi-
to, num compromisso que talvez
se alongue por oito anos, o grupo
comeqou a acumular pend6ncias
cor fornecedores. Ha informa-
g6es de que o debito jA estA em
torno de tres milh6es de ddlares,
incluindo compromissos para a
construg(o da nova sede. O grupo
Liberal tornou-se citaAio fre-
quente nas notas de protest de
seus credores. O faturamento caiu
muito, onerado pela polftica de
permutas graciosas dos irmAos.


0 boi vai voar?


hd um outro concorrente se mo-
vimentando: o ex-prefeito Sahid
Xerfan, que espera ser a opgAo de
Jader Barbalho. Sd que Xerfan
nAo pode contar com o que Re-
zende consider seu trunfo pes-
soal: a capacidade de transitar
entire H6lio e Jader.
Provavelmente para realgar
ainda mais essa vantage, Re-
zende tem aparecido cada vez
mais e sempre mais prdximo do
governador em solenidades pdbli-
cas, especialmente as fotografa-
veis. Antes, mantinha-se a certa
distfncia. Um assessor do gover-
nador garantiu, categoricamente,
que a possibilidade de um enten-
dimento entire Jader e HWlio nio
existe e que o assunto nao foi
provocado ate agora, "mesmo
porque nAo hA clima para isso",
ainda mais logo apds a eleiAio de
outubro. Uma outra fonte diz ter
ouvido do governador que ele nio
estendera a mao para cumpri-


Erros graves na contabilidade tem
sido cometidos, entire os quais a
apropriacgo do valor do empres-
timo, o que pode ser verificado
numa analise dos balangos (nio
publicados no prdprio journal .
Enfim, a situagio 6 bem mais
crftica do que pensam os verda-
deiros inimigos do journal e seus
desinformados leitores. Nio se
pode dizer que se trata de uma
crise terminal, mas ela s6 pode
ser vencida com um pass que os
irmAos se recusam a dar: a efetiva
profissionalizario da empresa,
com o afastamento daqueles que
exercem determinadas fungqes
armados exclusivamente de di-
reitos de heranga (e nio de com-
petencia especffica). A decision s6
poderA ser adotada se a mie, de-
tentora do control aciondrio,
abolir a attitude de avestruz da
famflia e encarar fatos como os
que este journal, sem caluniar, in-
juriar ou difamar, publicou, como
tem feito em relafio a todos os
outros assuntos de que trata: por-
que sao o retrato, mesmo se su-
jeito a retoques, da verdade que
sd incomoda mesmo aos que a
temem ou querem manipulA-la
conforme suas conveni6ncias.


mlentar o future prefeito, se por
acaso os dois se encontrarem em
algum lugar, por dever de offcio.
Mas o objetivo de Rezende
nAo seria exatamente o de fazer
os dois inimigos se darem as
mAos ou posarem sorridentes para
fotografias. Ele gostaria de apa-
recer como aquele que estabele-
ceu uma convivencia civilizada
entire a autoridade maior no mu-
nicfpio da capital e o governador
do Estado, o que talvez abrisse
espaco para oxigenar sua biogra-
fia nos meses de ostracismo que
se seguirao a 12 de janeiro, quan-
do transmitira o comando da PMB
a Hdlio Gueiros. Ainda est& fres-
ca na memdria a experiencia de
Ajax d'Oliveira, um prefeito que
se considerava bem sucedido e
que, deixando o cargo, nAo con-
seguiu eleger-se deputado federal
(principalmente pela traigio de
correligionArios), abandonando
entAo a polftica.







ormal Pessoal 7


Segundo outra fonte, Rezende
ja tratou do assunto com seu su-
cessor. Indagado sobre como ve-
ria esse entendimento, Hdlio
Gueiros teria dito que nao con-
versa com Jader, mas nao recusa-
ria um encontro cor o pai do go-
vernador, Laercio Barbalho, seu
amigo de muitos anos e correli-
giondrio do extinto PSD de Ma-
galhaes Barata. Fiel ao novo es-
tilo que adotou a partir da cam-
panha eleitoral deste ano, Guei-
ros quer apenas espago para con-
duzir sua administracao, sem se
preocupar com o que seu inimigo
estiver fazendo, mesmo porque o
pr6prio Rezende fez suas obras
sem contar corn dinheiro do Esta-
do.
Polfticos peemedebistas pas-


saram a raciocinar sobre essa hi-
p6tese a partir da attitude do go-
vernador no epis6dio que colocou
mais uma vez em campos antag6-
nicos o prefeito Rezende e o pre-
sidente da Camara Municipal de
Beldm, Carlos Augusto Barbosa.
O vereador do PMDB mandou
dois pedidos de audiencia ao go-
vernador, mas nao teve resposta.
A adesao da bancada peemede-
bista a sua posigio foi apenas
parcial. E o governador nao emi-
tiu qualquer sinal de que pretend
interferir no process de escolha
da nova mesa, que tera fungao
estrat6gica diante do prefeito ad-
versario. Seria alguma carta es-
condida na manga ou coelho em
cartola magica?
A sdbita ofensiva moralizante


do prefeito sobre a Camara, a
apenas dois meses de se extingui-
rem seus mandates, sugere, muito
mais do que preocupaaio com ri-
gor orgamentario e moralidade
pdblica, uma articulagio polftica
dentro do esquema de sucessio de
Carlos Augusto. Atravds de por-
ta-vozes, H6lio Gueiros fez saber
que nAo ira participar da eleigao
internal da Camara, mas 6 evi-
dente que a mesa sera important
em seus pianos. O governador Ja-
der Barbalho nAo sabe disso?

Em polftica, a resposta a
quest6es como essa nem sempre 6
direta, nem costuma ser cartesia-
namente 6Igica. Por enquanto,
anote-se ao menos as intenq6es.
O future 6 que falara por elas.


Contas

do caulim
Dez anos atras o grupo Caemi,
do empresario Augusto Traja-
no de Azevedo Antunes, um dos
homes mais ricos do pafs, nao
tinha qualquer relarao cor cau-
lim, uma argila que ter seu uso
mais nobre no revestimento de
papel. Dentro de tr8s anos a
Caemi alcancard a marca de um
milhao de toneladas de caulim,
tornando-se um dos maiores pro-
dutores mundiais.
A maior parte dessa producao,
de 750 mil toneladas, sera obtida
pela Cadam, adquirida do milio-
nario americano Daniel Ludwig
em 1982 como o fild-mignon do
indigesto patrim6nio. A Cadam
extrai caulim da mina do morro
do Felipe, no Amapa, e o benefi-
cia e embarca pelo porto de Mun-
guba, no Para. Outras 250 mil to-
neladas constituem a parte da
Caemi na Rio Capim Qufmica,
empresa formada em parceria corn
a Companhia Vale do Rio Doce
para explorer a mina do rio Ca-
pim, no Pard. Metade da produ-
g~o total, de 500 mil toneladas, 6
da firm de Antunes.
Hoje, com a produgao ainda
em 500 mil toneladas, toda ela
oriunda da mina amapaense, o
caulim ja 6 o segundo principal
negdcio da Caemi, sendo respon-
savel por 12% (ou 50 milh6es de
d6lares) do faturamento global da
Caemi Mineracao e Metalurgia, a
empresa criada no ano passado
para ser a "holding" do setor.
Tornando-se co-proprietario da
segunda mais rica jazida do mind-


rio, gragas a parceria com a
CVRD, o grupo Caemi ocupa uma
posifio privilegiada para enfren-
tar (ou afastar) eventuais concor-
rentes que tentarem se aventurar.
Diante desse quadro, nao sur-
preende que a empresa tenha rea-
lizado, em Bel6m e Monte Doura-
do, sua quinta reuniio com os
analistas de mercado da Abamec,
a primeira na Amaz6nia, tendo
como tema forte o caulim. A
Caemi patrocinou a viagem de
145 analistas, nao poupando des-
pesas, inclusive para fazer pousar
um Boeing pela primeira vez no
aeroporto da antiga sede do pro-
jeto Jari corn seus convidados. O
caulim 6 um dos raros bons neg6-
cios que uma empresa pode ini-
ciar agora no Pard. E Antunes sai
na frente.


Noticia dirigida

Ha um detalhe "t6cnico" na in-
vestida feita pelo Sistema
Romulo Maiorana de Comunica-
cgo junto ao Ministdrio Pdblico
que precisa ser registrado. A em-
presa poderia muito bem ter feito
diretamente a representaaio para
obrigar o Jornal Pessoal a publi-
car e registrar o nome da grafica
que o imprime. Seria uma aqgo
privada, perfeitamente cabfvel.
Mas os Maiorana preferiram acio-
nar o Ministdrio Pdblico. Corn
dois objetivos: fazer o fiscal da
lei punir-me, dando a notificagao
o carter official que faltaria a
aglo direta do SRM, mas tamb6m
para obter uma certidao de clan-
destinidade para usa-la na outra


agio, a queixa-crime movida por
Rosfngela Maiorana Kzan.
O primeiro problema eu pode-
ria logo resolver, como comego a
faze-lo nesta ediqao, publicando
o nome da grafica no expediente
da pagina 8. Mas para isso preci-
sei passar para a nona grafica na
hist6ria do JP, uma alteraqao que
me obriga a pedir tempo para
tentar refazer o esquema de edi-
,ao do journal, al6m de agregar
custos, insuportaveis nas atuais
condig6es de produ;ao e comer-
cializagao do journal (que volta a
ser deficitario).
Ou seja, perdi a primeira ba-
talha desta guerra e admito publi-
camente o fato. Como declarou
certa vez Edmundo Monteiro no
seu Correio da Manhi, ha certas
derrotas que sao gloriosas, em
oposiq&o a determinadas vit6rias
de Pirro, enganosas.
Al6m de querer o Minist6rio
Pdblico em seu lugar contra mim,
o grupo Liberal exigia press e
rigor. Que o faga atravds das vias
normais, por advogado ou mesmo
por seus diretores, mas na instan-
cia competent, entende-se. t at6
louvavel. Mas que comece a pres-
sionar por outros meios, 6 conde-
navel. Nao por coincidencia, en-
quanto a representaaio tramitava
no Ministdrio Pdblico, O Liberal
publicava uma notfcia de evidence
ma vontade sobre uma entrevista
da procuradora geral de Justiga,
Marflia Crespo Maia. A intencao
era de joga-la contra o Legislati-
vo, corn ou sem motivo, para al-
cangar objetivo inexistente na
mat6ria, mas abundante nos bas-
tidores do F6rum.






TRABALHO



0 eterno atraso


E m 1922 os moradores de
Slo Paulo assistiam as ma-
nifestag6es dos intelectuais
atualizando o pafs ao modernismo
cultural europeu. Nesse mesmo
ano os habitantes de Bel6m viam
chegar B cidade um grupo de tra-
balhadores bracais cearenses, os
"arig6s", esfarrapados e famin-
tos. Eles tinham conseguido es-
capar do cativeiro no seringal do
Jari, uma vasta propriedade do
"coronel" (de barranco) Jose Jd-
lio de Andrade. Ali trabalhavam
como se fossem escravos, em
condig6es que, entio reveladas,
escandalizariam os belenenses.
Alguns deles ainda desfrutavam
das dltimas migalhas do fausto
proporcionado pela explorag&o
monopolista da borracha durante
quatro decadas. Enquanto em
Belem o padrio de vida para os
que vendiam borracha ao mundo
era o melhor do infcio do s6culo,
a 400 quil6metros de distAncia as
pessoas viviam como se estives-
sem na escravidAo da Antiguida-
de.
Cinquenta anos depois da re-
volta dos "arigds", desmitifican-
do os seringais, o president da
Repdblica, general Garrastazu
Mddici, foi as terras do Jari, ja
entfo transferidas para o control
do milionario americano Daniel
Ludwig. Ali viu, "ao vivo", o
protest de pe6es recrutados
principalmente no Nordeste para
o duro trabalho de derrubar flo-
restas e plantar novas Arvores.
Ludwig pretendia montar um ver-
dadeiro impdrio industrial, capaz
de fornecer grAos e fibras para o
mundo. A maioria de seus empre-
gados, entretanto, sem vinculaglo
direta com a empresa (estavam
atrelados a empreiteiros, interme-
didrios na transagao), vivia como
os "brabos" dos tempos primiti-
vos do "coronel" Jos6 Jdlio. Mo-
dernidade e anacronismo convi-
viam no mesmo ambient, como
se nio estivessem separados por
s6culos de conquista civilizat6ria.

Atraso de s6culos

Outras duas d6cadas depois, a
Organizagio Internacional do
Trabalho constata, de Genebra,
q 0e nos sert6es amaz6nicos ainda
he sees humanos trabalhlado
coem se vivessem em ocas re-


motas. As hist6rias relatadas em
relat6rio da OIT nio constituem
novidade para os que vem acom-
panhando a expansao da fronteira
amaz6nica, principalmente se es-
tio na pr6pria regiao.
HA centenas de dendncias re-
gistradas nas delegacias do tra-
balho, Polfcia Federal, polfcias
civis, sindicatos e outras exten-
s6es da burocracia official, as ve-
zes atd da Justiga. A repeticio
dessas ocorrencias, intensificadas
nas decadas de 70 a 80, sem a
punigio dos responsvveis, trans-
formou em rotina o que, na es-
sencia, constitui aberracgo. Mas
s6 quando uma voz europeia on
norte-americana manifest seu
espanto diante da manuten;io
desse anacronismo, os brasileiros
slo tocados em sua sensibilidade
e le espantam tamb6m por ta-
bela, como de costume.
Nos dltimos anos, apenas um
fazendeiro da regilo de Parago-
minas, o municfpio que abriga a
maior quantidade de serrarias no
planet (fala-se de 300 a 400),
foi preso por manter peoes em
cativeiro e matar quem tentava
fugir. Mas morreu de causa
natural antes que o inquerito
policial tivesse sido conclufdo e a
Justiga pudesse se manifestar.
Nem mesmo quando cemitdrios
clandestinos sio descobertos no
interior de propriedades particu-
lares as engrenagens do poder se
mexem para estabelecer, a partir
de uma puni~io exemplar, o prin-
cfpio da responsabilidade. Em-
presas que em outras paragens
slo models de vanguard, na
Amaz6nia se travestem de feito-
res, capities-do-mato.
A secular organizaaio inglesa
Anti-Slavery encomendou um le-
vantamento do trabalho forgado
na Amaz6nia, em fase de conclu-
so. Quer divulgar os resultados
ate o final do ano, como forma de
chamar a atenaio do mundo para
o grave problema. A media mais
avancada seria a de confiscar os
im6veis privados nos quais a es-
cravizagio de trabalhadores fosse
constatada. A uma punigio drasti-
ca. Mas a reagio dos autores des-
ses atos ignominiosos poderia ser
a de fechar ainda mais os canais
de acesso I informag~o pelos tra-
balhadores.
Admite-se tambem que denda-


cias falsas poderiam ser apresen-
tadas para desmoralizar os de-
nunciantes e langar uma cortina
de fuma sa sobre am dos mais
graves problems da Amaz6nia.
Falar deles em gabinetes on re-
dutos civilizados difere muito de
vive-los in loco. O tempo da vida
na Amaz6nia esta defasado aetr
relagio ao tempo das capitals quo
cor ela se solidarizam, gragas
aos imediatos meios de comuni-
cagco, mas que nem sempre po-
dem ir al6m desse apoio moral.


Luis: unico

Belem ganhou foros de cidade
international com a exposigio
de fotografias de Luis Braga. O
maior fot6grafo paraense de todos
os tempos, Luis quebrou as bar-
reiras do provincianismo, venceu
as resistencias externas, ultrapas-
sou os limits da especialidade e
estA produzindo fotografias que
sio composi;6es plAsticas de
criatividade sem igual. Alguns
dos trabalhos parecem exigir a
terceira dimensio para serem
melhor apreciados. Outros suge-
rem que a maquina fotogrAfica vi-
rou pincel e o filme, tinta. O ar-
tista tornou-se complete, mas
continue evoluindo. Ver sua ex-
posigAo, al6m de uma alegria para
os sentiments e as emog6es, foi,
para mim, um dos mais ricos mo-
mentos culturais em Bel6m nos
dltimos tempos. O Luis 6 muito
caro, mas o Luis 6 dnico.


Nelson: o maior
E uqueria escrever uma alenta-
da resenha sobre o Anjo Por-
nogrifico, a biografia de Nelson
Rodrigues escrita pelo jornalista
Ruy Castro. Ruy estA recuperan-
do o prazer pela leitura de bio-
grafias, que os academicos liqui-
daram com sua sisudez escolAsti-
ca e sua ausencia de criatividade
pessoal. O livro nio 6 nem mais
nem menos do que uma vasta reu-
niio de informag6es costuradas
por um texto agradavel. Nada de
andlises, v6os mais altos on mer-
gulhos mais profundos. Mas quem
quiser ir I alma de Nelson jA tem
um excelente roteiro, uma irre-
sistfvel provocagio.

Jomal Pessol
Ftitor rrsponsmiw: lAcio FAvio Pinto
Iurram&iA: I kz Pinto
Rua Campus Sales. 2683 66.02
Fme 2Z3-1929 Opio Ewrial
lapres m as li de ApeHl FAs~ia,
uaNsr Aiekr Cmus, 10 BD