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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00076

Full Text






Journal Pessoal
EDITOR R ESPONSA EL L C F LAVIO PINTO


Ano VI No 101 1l Quinzena de Novembro de 1992 *


Cr$ 3.000,00


JUSTIQA



A roleta viciada

Toda a cidade se pergunta: por que as quest6es
dos empresfrios quase sempre vio parar nas
mros do desembargador Calistrato Alves
de Matos? Quem souber que procure responder.


Nos dltimos dias, atd a sema-
na passada, o nome do de-
sembargador Calistrato Al-
ves de Matos foi o mais comenta-
do n cidade. Apareceu tanto num
panfleto dos estudantes universi-
tarios, que circulou intensamente
pelo campus do Guama, como na
irreverente coluna do comendador
Raymundo Mario Sobral. Todos
estranhavam, sem reticencias, que
as causes de valor econ6mico,
envolvendo interesses de alguns
grupos empresariais especfficos,
quase sempre, ao serem sorteadas
para distribuigio, caiam nas mAos
do polemico magistrado.


O Tribunal de Justiga do Es-
tado ter a seu servigo 21 desem-
bargadores, razao pela qual todas
as teorias de probabilidades tem
sido desmoralizadas pela contu-
maz persistencia da destinagio
dos casos controversos para o
normalmente questionavel julga-
mento de Calistrato. Em Direito,
qualquer ne6fito esta cansado de
saber que o que 6 pdblico e not6-
rio dispensa provas. Por isso,
tanto os dirigentes do DCE
quanto o colunista de A Provfncia
do Par& nAo titubearam em colo-
car em letra de f6rma suas sus-
peitas sobre a seriedade do pro-


cesso de escolha do relator de
matdrias explosives e a honesti-
dade do prdprio julgamento. Nin-
gudm se preochpa mais em pro-
var, nem teme se arriscar assumir
comentirios, que, ainda mais pe-
sados, centenas fazem sobre Ca-
listrato Matos em mesas de papo
ou nos corredores do F6rum de
Belem.
A reaqAo atingiu o paroxismo
da indignagio quando, no infcio
do mes passado, o desembargador
simplesmente estendeu aos donos
dos 6nibus urbanos de Belem o
privildgio, suspeitamente conce-
dido apenas aos proprietarios dos >






2 Jornal Pessoal


6nibus intermunicipais, autores
de um mandado de seguranga, de
nio mais deixarem idosos maiores
de 65 alunos e policiais em servi-
go usarem gratuitamente os 6ni-
bus e serem obrigados a aceitar a
carteirinha de meia-passagem de
estudantes. Para tender os em-
presarios, o desembargador atro-
pelou prazos, espancou ritos,
desprezou princfpios, fulminou
processes e provocou estupefaAio
em todos os que nAo concordam
em que o Direito seja um produto
arbitrario da vontade pessoal.
O consultor-geral do Estado,
Roberto Cavaleiro de Macedo,
reagiu declarando que "certos
magistrados me causam repug-
nAncia". Foi a frase mais forte,
mas outras de identica envergadu-
ra apareceram nos recursos que
proliferaram a partir daf, acelera-
dos pelas manifestac6es de rua
dos estudantes, indignados cor a
decisao do desembargador, que
provocaram danos materials e
humans durante toda uma sema-
na. A revolt aumentou porque no
dia seguinte ao do despacho, Ca-
listrato Matos viajou para o Rio
de Janeiro, hospedando-se no ca-
ro Copacabana PAlace Hotel.


Ficha limpa

Os estudantes tinham todos os
motives para acreditar que o au-
tor de uma das mais polemicas
decis6es do Judiciario nos dlti-
mos anos tivesse fugido & sua
responsabilidade. Mas na verdade
o desembargador desfrutava de
uma designagao de seus pares pa-
ra representar o Tribunal de Jus-
tiga do Para num encontro que se
realizaria na capital carioca, uma
esp6cie de honraria. O ato pode
surpreender os que conhecem a
Justiga estadual por seus bastido-
res e corredores, mas 6 plena-
mente justificAvel pela ficha fun-
cional de Calistrato Alves de
Matos.
Ele estA na magistratura h& 36
anos, 6 juiz hA 32 e subiu para o
dltimo posto em 1979, promovido
por antiguidade, mas sem um s6
registro desabonador em sua ficha
(mas tratou de atacar, no discurso
de posse, o president do TJE,
que, segundo entendia, protelara
sua ascensao). Pode at6 reivindi-
car, como tem feito, embora sem
eco, assumir a presidencia de um
tribunal que lhe pass certidAo
negative.


Provavelmente nem mesmo o
mais recent e escabroso episddio
manchard o currfculo formal do
desembargador. De volta da tem-
porada carioca, que coincidiu
cor a aqao do "arrastao" pelas
praias do Rio, Calistrato nAo se
vexou: com um lac6nico despacho
revogou seu prdprio despacho,
restabelecendo a situaqao ante-
rior, e mandou ouvir os interes-
sados na acao, o que deveria sen-
satamente ter feito antes de dar
aos donos de 6nibus uma liminar
que resultou em economic de
custos durante 10 dias, valor
equivalent ao de alguns carros
de luxo.

Ouvidos moucos

A revisAo pode ter poupado o
desembargador Calistrato de ser
um dos temas da reuniio que seus
colegas realizaram na quarta-feira
da semana passada, em sessao se-
creta, a portas fechadas. Como j&
nao havia o esbulho, o Pleno pre-
feriu ignorar o dano causado, nAo
sd aos diretamente prejudicados,
como A combalida image do Ju-
diciario, cada vez mais privado
de motives para reclamar (inclu-
sive o salarial, eterna referencia
no passado) e sempre mais defi-
citario nos servings prestados &
comunidade. Os desembargadores
deram seguimento a dendncias
apresentadas contra os jufzes de
CametA e Itaituba, jA enquadrados
em sindicAncia administrative que
pode evoluir para inqudrito, trata-
ram de seus salaries e, quanto ao
affaire Calistrato, comegaram a
preparar uma nota em repddio as
declaragdes do consultor geral do
Estado.
Os desembargadores poderiam
bem poupar-se o trabalho de per-
guntar a Cavaleiro de Macedo a
qual magistrado se referia. Calis-
trato Alves de Matos 6 citagAo
obrigatdria quando se pensa numa
Justiga de conveniencia, utilita-
ria. Pode-se lembrar sua inter-
vengao para livrar da cadeia o
empresario Augusto Nogueira,
que matou um empregado, em
tempos mais remotos. Ou algo re-
cente: a constant participagio de
Calistrato para manter A distAncia
dos policiais o traficante colom-
biano Pastor Delgado Garcia,
preso em 1989 pela Polfcia Fede-
ral como o mais important mem-
bro do cartel international colo-
cado atras das grades no Brasil.
Da dltima vez, o desembargador,


not6rio A porta de xadrez, foi ao
aeroporto de Val-de-Cans tirar
Pastor, que chegava preso de SAo
Paulo, das maos de agents fede-
rais, que, a custo, aceitaram o al-
vard de soltura, fresquinho.
A situagAo nao seria tao grave
se o "caso" Calistrato fosse sin-
gular, mas os desembargadores
sabem muito bem que hA outros,
talvez nao tAo not6rios, mas nio
menos danosos, espalhados pelos
tres andares do F6rum de Belem e
em suas ramificag6es interiora-
nas. O desembargador Humberto
Castro, por exemplo, chegou a
trocar um despacho que ji havia
dado em um process envolvendo
a madeireira Xylo, substituindo-o
por outro e quebrando, assim, um
dos princfpios sagrados do Di-
reito, a integridade dos autos.
Exemplos numerosos podem ser
coletados numa simples passage
pelos corredores do F6rum, mas
eles seriam muito mais reduzidos
e, quem sabe, desaparecessem, se
a distribuigio dos processes fosse
limpa e correta e os transgresso-
res graves punidos. O dltimo caso
de porte foi o do juiz Armando
BrAulio Paul da Silva, preso pela
Polfcia Federal num flagrante ato
de corrupgao e punido apenas de-
pois de certa relutancia corpora-
tiva, ainda a causa maior da im-
punidade.
Tro inigmAtico quanto res-
ponder por que os processes one-
rosos caem nas mAos que seus
autores julgam convenient 6 sa-
ber o motive que impede a infor-
matizacAo da distribuigio de su-
bir um lance de escadas no pr6dio
da Justica. Enquanto para as va-
ras do jufzo singular a distribui-
gAo 6 feita por computador (ainda
que em alguns moments ele
"saia do ar"), em relaglo aos de-
sembargadores ela ainda depend
de uma roleta, que os funcionA-
rios dizem ser "esfriada", num
process manual que da poderes
imensos ao manipulador desse
process.
Enquanto escAndalos como o
mais recent do desembargador
Calistrato Alves de Matos forem
seguidos por silencios conve-
nientes, a Justiga continuard me-
recendo o sabio mas melanc61i-
co ditado popular: quem ter
jufzo nao vai a Jufzo.
A prop6sito: o juiz Werther
Benedito Coelho estA na agulha
para, como seu par, Calistrato,
ser promovido a desembargador
por antiguidade.









SUDAM



Dentro 0do bt"or


Q uando 0 ministry da Inte-
gralgo Naeional, Alexandre
Costa, telefonou para o
president Itamar Franco, na se-
gunda-feira da semana passada, o
Paldcio do Planalto ja havia re-
mwtido para o Didrio Oficial da
Unigl o decreto de nomeango de
Oziel Carneiro para a superinten-
d6ncia da Sudam. O pr6prio pre-
sidente teve que mandate sustar
seo ato ao ser informado pelo mi-
nistro que Oziel desistira do car-
go.
A desistancia nio foi sdbita,
come podia ser interprtado do
nstits rio da grande .imprensa.
Quando o senador Jarbas Passari-
aho fe~ao prmeiro coatato corm o
ex-pasidnte do Banco da Ama-
z6nia, uma' semana antes, Oziel
Carneiro relatou atd ser conven-
tde:,a saeetter a iadicsgBo. Ele
acheva que a Sudam se esvaziara
tanto que nom valia a pena ocu-
parwlm cOg que, Mates, o atrafa.
Mas resolve espear pola refor-
ma admiaistrativa prosetida polo
praeidente.
Corn a medida provis6ria do
novo governor, Oziel viu a conso-
lidagwo e at6 o agravaimento da
estrutura que havia tirado a forga
dos drglos rogionais. Sudam e
Basa toeiam que se entender com
urna secretaria, nao msais ligads
diretamente i presidncia. da Re-
pdblica, mas a ministdrios. A Su-
dam continuaria corn o substitute
do. Minter e o Basa voltaria so
redil do ministdrio da Fazenda. 0
ministry anterior, Marcflio Mar-
ques Moreira, tinha uma opiniilo
categdrica sobre o future do Ba-
sa: o banco teria que ser extinto.
Oziel deve ter presentido que
seria apenas um ordenador de
despesas e cumpridor do ordens
de Brasfla. Bstaria ainda sujeito
a uma sarie do interpretag6es des-
favordveis, entire as quais boats
como a que circulou logo em
Belem: -de que senu ome teria si-
do vetado porque empresas liga-
das a ele exam devedoras do Ban-
eo da Amazonia e da pr6pria Su-
dam. As especulag6es eram feitas
em torno do Hilton Belem, corn
ama pesada conta em aberto junto
ao Basa, e a TAxi AEieo Kovacs,


projeto incentivado .vrios anos
atrAs pela Sudam para adquirir
una frota do helic6pteros. Em
ambos os casos os negdcios foram
conduzidos polo irm&o de Oziel,
Armando Carneiro, recentemente
falecido. A pend6ncia ativa 6 a
do Hilton.
Nenhum dresses fatores pesou
na decisao official, que ja havia
sido tomada quando a nomeagio
foi sobrestada por causa da de-
sistencia de Oziel. 0 senador
Jarbas Passarinho, responsivel
pela indicagco, p6de ainda nego-
ciar o nome do substitute, apre-
sentando como opg6es o econo-
mista paraense Frederico Andra-
de, amigo do governador do
Amazonas, Gilberto Mestrinho, e
o advogado Floriano Barbosa,
superintendeate adjunto da Su-
dam. A opaio escoihida acabou
sendo a de Andrade, apoiada ain-
da pelo govemrador Jader Barba-
lho.
O arquiteto Alcyr Meira ten-
too manter-se no cargo de supe-
rintendente. Adotou como padri-
nho o senador ex-presidente Jo-
se Sarney, que procurou ganhar a
adesoe do oenador Jarbas Passa-
rinho, soem xito. Passarinho e
Jader Barbalho, al6m de pouco
simp ticos, ao. nome de Alcyr
Moira, tinamn informao6es sobre
a aso paralela que o filho dele,
o tamb6m. arquiteto Cesar Meira,
estaria realizando junto a projetos
incentivados na Sudam. Tambem
ouviam crfticas sobre o compor-
tamento do superintendent, que
submeteu-se ao.jogo de influncia
do entio secretdrio do desenvol-
vimento regional, Egberto' Bap-
tista, e do seu successor, Angelo
Calmon de SA. As pautas das reu-
ni6es do Conselho Deliberative
da Sudam eram montadas em Bra-
sflia.
Essas restri96es foam apre-
sentadas ao ministry Alexandre
Costa. No vacuo, ele tentou aju-
dar seu amigo Sarney, mas nio
p6de resistir ao acesso direto dos
governadores da regiao e de Pas-
sarinho ao president Itamar
Franco. 0 destino da Sudam esta-
va selado. O future do 6rgao, so
que tudo indica, estA no passado.


A fundases fos ob s
e. m side criada *ar des-
contar imposto do ro*da, abrir
drenagem para algum caixa 2,
aproveitar incentivosr oq iate
cultural, apoiar atividaia de pas-
co apelo commercial Avore r
stores vanguardistas da mcscda-
de e, entire maitas outie fls-i-
dades, fazer relaqdes pdblics.
Raras conseguem ainda dar luoro
aos sens donos. A FundaWgo Ro-
mulo Maiorana estc agora entire
estas dlthnas. Ela conseguiu fazer
do Sallo Arte Par umna aprecid-
vel fonte de receita para o sea
mantenedor, o Sistema Romarlo
Maiorana de Comanicagro.
De cinco patrociaadores, a
Fundagao conseguia em torno do
400 milh6es de crazeires. Timro
50 mitlhes de cruzeiros para pa-
gar os artists prouimads (o pr-.
mio maior, de 1.300 'ddlars,
equivaleone & bolse paga a Lwfs
Perreira para uma luta de box am
Beldim, livre de despaeo). O
restanto sustentou as deepasu do
event, as principal 4M quis
relatives & farta divulges o pio-
mocioaal nos vefculos do pdrprio
Sistema Romulo Maltraua de
Comunicaglo. 0 quo sigafifca
que uma instancia da emworeWsa
pass o dinheiro a outm iallatn-
cia, cobrindo um pouco o ."btia-
co'" abert polo irmnos nos con-
tas do grupo Libe al cxa suas
constanters pormutas giMiriu .
As cotas dos patreatidores,
entrtauto; alao sio a didw fore
de renda da Fundaglo no Arte Pa-
rd. Os artistas nio proiatdoi que
comercializam souas traSalhos no
sal&o t6m- que pagar urma. coni-
slo de 30% i fnndalao, que fun-
ciona come antentico ammbid.
Infelizmente, as vendas t6m side
cada vez menos exprossivas. 0.
salto acaba sendo uma galeria
commercial, para a qual os artists
cedem s"as obras a presos infe-
riores, tendo como compeasaglo
a divulgagAo de seus nomes. A
inexpressividade dos prnmios po-
de ser me'dida comparando-os ao.
que ganha uma rainha do caraa-
val, em promoglo do grapo Libe-
ral: um carro Santana erot qil-.
metro, pelo menos 20 vezeos mat
do que o grande venceder do Arte
Pard.
Neste context, quem mais
ganha 6 o Sistema -Ronmulo Maio-
rana de Comunicago, espertfssi-
mo.


~orrlE~l ... a







4 Jornal Pessoal

POLITICAL



0 fim dos Mutran?


T era chegado ao fim o reina-
do de uma das mais podero-
sas e violente.s oligarquias
do interior do Pard? Esta per-
gunta comerou a .er feita a partir
do moment em que o engenheiro
Haroldo Bezerra venceu o ex-de-
putado Plfnio Pinheiro Neto na
dispute pela sucessio de Nagib
Mutran na prefeitura de Marabi,
o principal col6gio eleitoral do
sul do Estado. O que prometia ser
uma guerra renhida entire o can-
didato de uma coligafio de sete
partidos oposicionistas e o candi-
dato dos Mutran e do governador
Jader Barbalho transformou-se
numa vit6ria folgada. Haroldo re-
cebeu 56% dos votos, abrindo
uma vantage de oito mil votos
sobre seu adversario.
O resultado expressava, em
boa media, o repddio da popula-
g~o de Marabd aos Mutran. De
volta ao poder politico local de-
pois de um certo ostracismo,
o cabeca da oligarquia, Osvaldo
Reis Mutran, envolveu-se no as-
sassinato do fiscal de tributes
estaduais Daniel Lira Mourao.
Foi preso, teve seu mandate de
deputado estadual cassado pela
Assembldia Legislativa, em deci-
sao inddita, pela segunda vez (na
primeira, por corrupqAo, ainda
nos governor militares) e respon-
de a process judicial acusado de
co-autor da morte.
A surpreendente punigAo de
Vav4 Mutran serviu de estfmulo
para a reacAo contra os atos de
arbitrariedade e violencia de uma
famflia tipicamente oligarca. O
principal cabo eleitoral da cam-
panha foi a vidva do fiscal, que
acompanhava sempre Haroldo
Bezerra, chorando nos comfcios e
nas visits particulares. Ela tam-
b6m esteve na "boca-de-urna",
distribuindo panfletos que asso-
ciavam a candidatura de Plfnio
Pinheiro A continuidade dos Mu-
tran, o grande mote da campanha
("Plfnio eleito, Vavd prefeito",
dizia o jargao).
Passada a euforia pela derrota
dos Mutran, entretanto, comegam
a surgir ddvidas sobre a elimina-
gao dessa oligarquia feroz ou o
surgimento de perspectives mais
saudaveis, civilizadas e produti-
vas para o municfpio, que 6 o


centro nervoso de Carajas e do
novo Estado em delineamento,
mas nao consegue traduzir essa
fungao estrat6gica em benfeito-
rias.
Embora os Mutran tenham
apoiado o ex-deputado Plfnio Pi-
nheiro, alguns observadores nota-
ram uma retragio da mAquina mu-
nicipal a partir de certo moment
da campanha. Apesar das cons-
tantes acusag6es e dendncias de
fraude e corrupgio que os corre-
ligiondrios de Plfnio faziam con-
tra os de Haroldo, o prefeito Na-
gib Mutran nao reagiu. Sua dnica
participacao acabou sendo atrav6s
de pronunciamentos em comfcios,
as v8zes b8bado. Uma fonte bem
situada no governor do Estado du-
vida que Nagib tenha repassado
para Plfnio os recursos transferi-
dos de Bel6m pelo governador
Jader Barbalho. Nagib parecia
mais empenhado em atuar junto a
cinco outros candidates a prefeito
que apoiou (tres dos quais foram
eleitos).
Vendo a reagao pdblica contra
seu pai, Nagib talvez tenha racio-
cinado que seria melhor sair tem-
porariamente de cena, nao resis-
tindo como poderia, se realmente
quisesse, a ascensao de Haroldo
Bezerra. Pode estar apostando no
insucesso da nova administragao
e em suas contradig6es internal,
que poderiam ser exploradas na
campanha eleitoral de 1994,
quando Nagib pretend concorrer
a uma vaga de deputado estadual
ou mesmo federal (daf seu inte-
resse em outros municfpios). Esta
alternative seria melhor do que
ter na prefeitura algu6m que aju-
dou a eleger, mas no qual nao
mandaria como pretendia.
Embora tenha conseguido
reunir uma ampla frente, incluin-
do partidos de esquerda, Haroldo
Bezerra nao ter um perfil bern
definido, nem uma trajetdria reti-
Ifnea. Ele foi prefeito nomeado,
entire 1975 e 1978, quando Mara-
bd era municfpio de seguranga
national, condigao imposta pelo
regime military. Em 1982 conse-
guiu eleger-se deputado estadual
gragas aos currais de votos mon-
tados pelo "major Curi6", o in-
terventor do SNI no garimpo de
Serra Pelada.


Em 1986 reelegeu-se, mas jd
sem a mesma forga. Dois anos
depois foi derrotado por Nagib
Mutran na eleigio para a prefeitu-
ra de Marabd e em 1990 perdeu o
mandate de deputado cor uma
votaqAo inexpressiva, de 1.300
votos, no municfpio, que ajudou a
retalhar, formando do antigo ter-
ritdrio novos municfpios que gra-
vitam em torno da provfncia mi-
neral de Carajds, a mais impor-
tante do planet, controlada pela
Companhia Vale do Rio Doce.
Os correligiongrios de Plfnio
Pinheiro dizem que a ampla vit6-
ria de Haroldo nao 6 apenas um
produto da reag o a Vava Mutran.
Atribuem a grande diferenga tam-
b6m a fraudes na votaqAo, espe-
cialmente atrav6s de mapismo, e
ao volume de dinheiro colocado A
disposiaio do candidate. Neste
ponto entraria um novo persona-
gem na hist6ria: a famflia Morba-
ch. 0 principal personagem, Au-
gusto Morbach, ter sido acusado
de envolvimento com o cartel de
Calli, o segundo do narcotrifico
mundial. Uma irma de Haroldo 6
casada cor um irmao de Augusto,
Wilson Morbach, que, juntamente
com outro irmao, Atila, partici-
pou da campanha. Dos Morbach
teria safdo boa parte dos funds
de campanha para Haroldo.
A associagio pode nio passar
de mera relacgo familiar, mas 6
um dado a mais (outro 6 o vice de
Haroldo, o madeireiro Reinaldo
Zucatelli) que langa ddvida sobre
o future de Maraba. O municfpio
ter sofrido mudangas traumaticas
em fung~o de sua posigio, cir-
cunstancialmente estratdgica, no
meio de um jogo de poder e de
interesses que o transcende de
muito.
Quando intervieram na regiAo
para nela montar um enclave eco-
n6mico associado a parceiros in-
ternacionais, os militares ali
plantaram suas representag6es di-
retas, como o Getat, um grupo
executive de agAo fundidria, o
SNI, Curid e outras extens6es. 0
mundo do passado, que os inco-
modava, foi colocado abaixo, nio
porque se opusesse a eles, mas
porque nao tinha condig6es de
acompanha-los. A primeira cassa-
glo de Vavd Mutran e a margina- ,







ornal Pessoal 5


lizagio de sua oligarquia familiar
se explica nesse context. Con-
solidada a satrapia federal de Ca-
rajas, a agao direta de Brasflia
afrouxou e os Mutran retornaram.
Agora rest saber quais sao os
personagens e a que necessidade
atendem. Quem conseguir res-
ponder a essas quest6es saberd
dizer se a pior oligarquia do inte-
rior do Pard acabou ou apenas
retrocedeu para voltar mais
adiante e quem realmente a su-
bitui, ou substituira. MarabA
continue sendo um precario
acampamento de interesses
alheios aos seus.

Jogo sujo

Q uase 80 candidates as prefei-
turas do interior recorreram a
Justiga para-tentar anular as elei-
c6es nos seus municfpios. Uma
pequena parte deles foi movida
apenas pelo sentiment de derro-
ta, mas a maioria podia apresen-
tar provas de fraude eleitoral ou
de abuso do poder econdmico,
dois dos principals crimes come-
tidos numa das mais sujas dispu-
tas polfticas dos dltimos anos no
Para. I certo que em outras elei-
g6es houve tantos crimes quanto
agora, mas a melhoria dos meios
de comunicagao permitiu, a quem
quisesse ver, constatar o atraso
do Estado em mat6ria de lisura
eleitoral.
Quem menos quis ver foi o
pr6prio Tribunal Regional Eleito-
ral, a instancia a que recorreram
os candidates sem obter respos-
tas. Casos escabrosos, como os
de Ananindeua, Maraba, Barcare-
na ou Conceigio do Araguaia, ate
hoje aguardam decisao. Todos os
partidos derrotados em Ananin-
deua pediram a anulagio da elei-
gio por inteiro, mas a Polfcia Fe-
deral ainda nem conseguiu con-
cluir a instrugAo do inqu6rito
instaurado ha dois anos para apu-
rar dendncias semelhantes, num
tfpico caso de repetigao estimula-
da pela impunidade.
No interior, vitdrias que se
tornaram surpreendentes por cau-
sa da elastica vantage do ven-
cedor, quando tudo indicava dis-
puta acirrada, nao foram comemo-
radas na media dos resultados
exatamente por causa da perple-
xidade geral. Ate os vencedores
pareceram ter tido pudor diante
de suas facanhas. Em Maraba, o
fiscal de uma segfo em Morada
Nova, impotente para impedir


uma candidate a vereadora de as-
sumir a presidencia da mesa, pre-
encher cedulas e coloca-las na
urna no lugar de eleitores, sim-
plesmente sentou-se sobre a urna.
Em Conceicgo do Araguaia,
cabos-eleitorais do mddico e ex-
deputado Carlos Cavalcante tran-
sitavam livremente pelo interior
das seg6es corn camisetas de pro-
paganda do candidate. Especifi-
camente no municfpio, o ato, em
todos os demais crime eleitoral,
foi avalizado pela jufza, Eva do
Amaral Coelho, atrav6s de medi-
da baixada dois dias antes das
eleic6es. Os partidos oposicio-
nistas recorreram as pressas ao
TRE, mas o tribunal nao se dig-
nou responder. Tanto a jufza co-
mo os promotores abandonaram o
municfpio antes do resultado fi-
nal, viajando para Belem, talvez
para evitar reag6es, algo como o
dono da bola leva-la no meio do
jogo, deixando aos demais joga-
dores apenas o jus esperneandi.
Em ConceigAo do Araguaia,
como em numerosos outros muni-
cfpios, muitas cedulas eram dadas
ao eleitor jA preenchidas, as re-
gras foram alteradas e a fiscaliza-
gro obstrufda ou simplesmente
afastada, como aconteceu com o
deputado federal (PDT) Geovanni
Queiroz, que a jufza de Concei-
gio mandou prender p rque pro-
testava contra decis6es dela. Os
relates, detalhados e documenta-
dos, formal um retrato acusador
de um Estado primitive em pro-
cesso eleitoral, retrato que nao
chega a opiniao pdblica porque o
TRE preferiu apostar no fato con-
sumado, ao inv6s de impor a jus-
tiga, e a imprensa ignorou o que
aconteceu de fato no Estado.



Olho em 1994


A o governador Jader Barbalho
foi dado o direito de indicar o
ministry dos Transportes do go-
verno Itamar Franco, desde que o
nome se enquadrasse nas exig8n-
cias do PMDB de Sao Paulo, que
tinha o poder de veto: o candi-
date a vaga teria que ser parla-
mentar, engenheiro e ligado ao
setor de transport. As exigencias
se ajustavam como luva ao chefe
da Casa Civil do governor, o de-
putado federal Manoel Ribeiro,
engenheiro civil e donor da Cons-
trutora Nazard, uma das mais fa-


vorecidas em obras estaduais, di-
reta ou indiretamente.
Mas Manoel Ribeiro nao foi
indicado e o PMDB paulista ficou
cor a prerrogativa de colocar o
deputado Alberto Goldmann no
minist6rio. Para Jader ficou o no-
vato Ministerio do Meio Am-
biente e a indicacgo foi imediata:
ele apontou o senador Fernando
Coutinho Jorge. Para alguns po-
Ifticos, essa movimentagio de pe-
gas indicaria que o ex-prefeito de
Beldm podera vir a ser o candi-
date de Jader A sua sucessao, em
1994. Tudo passaria a defender
da capacidade de Coutinho atrair
dinheiro, sobretudo do exterior,
para seu combalido setor e ter um
desempenho capaz de projeta-lo
national e estadualmente. Nesse
caso, o ministdrio teria eco maior
do que o Senado.
Os que defended a candidatu-
ra de Manoel Ribeiro, entretanto,
garantem que ela nao esta des-
cartada. Mais important do que
ter um cargo em Brasflia seria
continuar a contar corn obras a
realizar no interior do Estado e,
nesse particular, o deputado tern
sido ativo. Mas seu nome n&o o
bem absorvido em areas impor-
tantes do PMDB, nem parece ca-
paz de suscitar entusiasmos,
mesmo que seu caixa de campa-
nha, jA em formagio, possa ser
considerado bem fornido. Os
adeptos de Coutinho Jorge estao
confiantes de que ele saira na ho-
ra certa do ministerio para a cam-
panha governmental no Pard, se
o governor Itamar nao descarrilhar
pelo caminho, e claro.
Mas se Jader Barbalho estA
cor um nome em cogitagco na
cabega, ainda nio abriu o jogo,
ou s6 o revelou aos frequentado-
res de sua mesa privativa. Parece
claro que ele seguird pela mesma
trilha na qual tambr m estara o
senador Jarbas Passarinho, ou pa-
ra fechar as duas vagas para o
Senado dentro de dois anos, ou
para em hip6tese bem mais re-
mota fazer o ex-ministro dis-
putar o governor do Estado.
Qualquer que seja a alternati-
va, pordm, ela terd que se enqua-
drar num esquema de alianga Ja-
der-Jarbas, reforgado para en-
frentar a possibilidade de Hdlio
Gueiros deixar a prefeitura de
Belem para tentar voltar ao go-
verno ou apoiar a candidatura de
um nome de suposta densidade,
como o do deputado federal Ala-
cid Nunes.






6 Jornal Pessoal

GOVERNOR


No contrape
H uma caracterfstica in- governor militares a part
quietante no governor Ita- neral Mddici.
mar Franco: ele 6 o produto A estrutura do mini!
de uma coalizio de partidos polf- Itamar se assemelha mais
ticos e nio propriamente de um dos militares do que o di
pacto social, como querem defini- A dnica diferenga 6 que
lo alguns analistas mais genero- os militares nomeavam
sos. Como os partidos, embora militares e tecnoburocra
represented a sociedade, perma- os cargos pdblicos, Itai
necem a grande distlncia da di- recrutando politicos p
namica social, o governor, bitola- nais. Deve achar (e af,
do por sua composigio, pode per- monta ao populismo delij
der o rumo ou o faro. Constituig~o de 1946) qu
Um desempenho sofrfvel do co sintoniza mais cor o
governor Itamar representaria o que 6 verdade quando se
passaporte de retorno ao poder area especffica de cor
e corn direito a consagracgo do deles, a polftica eleitora
president Fernando Collor de sentativa.
Mello, principalmente se antes Olhando o governor Ii
nAo for estabelecido o sistema perspective regional, ess&
parlamentarista. Quem duvida tude se torna mais forte
dessa possibilidade deve lembrar- nejamento foi devolvido
se que, durante o governor Sar- secretaria da presidencia
ney, cresceram as saudades do pdblica, desmembrada di
general Figueiredo, que, ao dei- minist6rio geral da e
xar a presidencia, tivera, final, a criado por Collor. O
sensatez de pedir ao povo para mento volta a ser uma at
esquece-lo. A diferenga, agora, 6 pessoal do president. FB
que ao menos como hip6tese no governor do general
Collor pode voltar, enquanto Fi- em que o piauiense Jol
gueiredo, felizmente, ja tinha ido dos Reis Velloso funcior
embora de vez quando a mfdia fez mo o valete do preside
eco ao lobby dos saudosistas. verdade, do todo-poder
Alguns preocupados analistas nistro Delfim Neto).
temem que o governor Itamar sig- As quest6es region
nifique um retorno ao populismo sob o governor Collor tinh
prd-64, marcado por um naciona- entregues a uma secret
lismo de viseira que se tornou presid6ncia, voltaram a ti
anacr6nico em plena 6poca de al- diqAo ministerial, exatami
deia global planetaria. O risco 6 mo nos governor milita
visfvel, mas as dificuldades con- que, ao inv6s da vaga de
junturais, especialmente para ago de Ministdrio do Int
manter sob razoavel control a batismo agora envolve ul
danada da inflagio, nao permitem tade mais categ6rica e un
esse retorno pleno. Itamar nem vo fechado: 6 o Ministdri
pode pensar no desenvolvimento tegragAo Nacional, sem
a tout-court de seu conterraneo palavras.
Juscelino Kubitscheck. Seu maior Para comandar o pess
desafio d o de perenizar-se. nico das instAncias in
Mas se esta havendo volta desse minist6rio (de atua
atras, seu alvo nio 6 tio remote. ampla quanto dilufda), c
O ponto de chegada nio parece tro-senador Alexandre Cc
estar na ddcada de 50, quando as velho polftico de carreira
iddias econ6micas dominantes vi- belece quadros do passed
nham do laborat6rio da Cepal, o se pudessem fazer uma
drgAo da ONU criado para ajudar magica.
os pafses da Am6rica Latina a se I uma simbiose estra
desenvolverem substituindo suas resultado duvidoso e
importag6es atrav6s da industria- exageradamente temerdria
lizaaio internal. O mote inspira- perimental, para uma fi
dor, ao menos o da administra- crftica da histdria brasile
qao, pode estar nos anos 70, dos resolver assumf-la, o


do tempo
ir do ge- Itamar nao anula suas boas inten-
96es, mas pode estar revelando
stdrio de sinais de desatualizaiao e defasa-
a 6poca gem para nao dizer alienaqao,
SCollor. usando-se a expressao em seu
enquanto significado clfnico da realidade
Soutros do pafs. Quem pagar, verd.
tas para
mar esta Droga livre
rrofissio- trAfico de drogas comeca a se
sim, re- tornar uma important fonte
neado na de renda e de poder politico no
ie polfti- baixo Tocantins. Segundo dendn-
povo, o cias encaminhadas ao long deste
trata da ano ao Ministdrio da Justiga, tra-
.petencia ficantes estiveram por trAs da
il repre- campanha eleitoral em pelo me-
nos dois dos principals municf-
:amar da pios do vale, Barcarena e Came-
a simili- td, conseguindo a vitdria para os
. O pla- seas candidates.
a uma Acionada, a Polfcia Federal
da Re- organizou, de Brasflia, uma ope-
o antigo ragao-rel&mpago em Barcarena,
conomia no infcio do ano, com alvos espe-
planeja- cificados previamente. Mas os
ribuicio cabegas do trafico foram avisados
01oi im antes da chegada dos agents e
Mddici, safram da cidade. Nao ocorreu
o Paulo uma dnica prisao. Segundo outras
lava co- dendncias apresentadas poste-
-nte (na riormente, houve atA distribuigao
oso mi- gratuita de cocafna durante a
campanha eleitoral. Haveria qua-
.is, que tro mil viciados em drogas ca-
lam sido dastrados pelos traficantes na re-
aria da giao de influencia de Barcarena.
er juris- O entao ministry Jarbas Pas-
ente co- sarinho recebeu, de um polftico
res. Sd local, um alentado dossi6 sobre a
nomina- relagao de polfticos e comercian-
erior, o tes com traficantes na area de
na von- Cameta. A questio foi encami-
i objeti- nhada ao delegado Romeu Tuma,
o da In- que examinou o material e consi-
meias- derou-o grave. Mas desta vez nao
houve nenhuma iniciativa da PF.
oal tec- Os traficantes foram os mais ge-
iferiores nerosos contribuintes da caixinha
.gao tao eleitoral.
Sminis-
A polfcia ji sabe que cocafna
sta, um proveniente do Peru, Bolfvia e
L, resta- Col6mbia A transportada para Pa-
o, como ramaribo e Caiena nas pequenas
mutagao
Sembarcag6es que trafegam pelo
baixo Tocantins, experiences em
nha, de outra atividade illegal realizada
talvez ali ha bastante tempo: o contra-
,ou ex- bando. A indrcia official neste
ase tao moment de expansao da ativida-
ira. Ao de vai tornar ainda mais remote o
governo seu control no future.






ornal Pessoal 7


Como pin6quio
Durante muito tempo a diregio
do Sistema Romulo Maiorana
de ComunicagAo mentiu a opiniao
pdblica sobre a tiragem do journal
O Liberal. Recorrendo a stispeitas
pesquisas da empresa Controbel,
o grupo Liberal chegou a afirmar
que seu journal tirava, aos domin-
gos, 120 mil exemplares e a me-
tade nos dias de semana, tiragem
que o equiparava a A Tarde, de
Salvador, o maior journal no Norte
e Nordeste do pafs.
O dltimo ndmero da revista
Imprensa, editada em Sao Paulo,
revela em seu "mapa da mfdia" a
verdadeira tiragem de O Liberal:
sAo 64.866 exemplares aos do-
mingos, 30.466 nas segundas-fei-
ras e a mddia de 30.227 entire ter-
qa-feira e sabado. A fonte da in-
formaco 6 o IVC (Instituto de
Verificacio de Circulacao), a
dnica base realmente segura sobre
a tiragem dos drgaos da imprensa
brasileira.
Os dados publicados pela Im-
prensa sAo baseados no levanta-
mento feito pelo IVC em junho,
que registrou uma queda na tira-
gem de O Liberal em relacao a
primeira apuragao, de abril. Con-
tratado pelo pr6prio grupo Libe-
ral para auditar a tiragem, o IVC
comegou seu trabalho confiando
na informacAo jurada do editor. A
tiragem aparecia, entfo, de 30 a
40% maior do que aquela cons-
tatada em junho. A que o IVC,
fiel ao seu rigoroso mdtodo de
apuragAo, descartou a circulacao
nio paga, centrada principal-
mente nas assinaturas de cortesia,
que os dirigentes do grupo Libe-
ral inflacionaram para tentar se
aproximar da falsa tiragem apre-
sentada nas "pesquisas" da Con-
trobel, levadas ao pdblico atrav6s
de espalhafatosas peas publicita-
rias de auto-promocio.
Essa fantasia teria que se des-
fazer cor a auditagem do IVC.
Contratar o institute, talvez por
pressAo de anunciantes e agencies
nacionais, pordm, foi uma attitude
louvfvel (dos 92jornais inclufdos
no mapa de Imprensa, apenas 31
tem sua tiragem auditada). O Li-
beral tornou-se o dnico journal da
Amaz6nia a poder apresentar de
pdblico informagAo confitvel so-
bre sua tiragem. Mesmo estando
muito abaixo do que apregoavam
os Maiorana, ela 6 respeitavel.
0 dnico journal do Norte-Nor-
deste inquestionavelmente maior


do que O Liberal em todos os as-
pectos 6 A Tarde, de Salvador
(mas a cidade na qual est4 basea-
di 6 muito mais populosa do que
Belem). O Diirio de Pernambuco,
de Recife (tamb6m com quase o
dobro da populagio de Beldm),
circula mais aos domingos (com
72 mil exemplares), mas perde
nos dias de semana. O Liberal ti-
ra mais jornais do que todos os
de Fortaleza, cidade um pouco
maior do que Beldm. Ganha de O
Popular, de Goi&nia, e s6 perde,
aos domingos, e por pouco, para
o Correio Braziliense, o mais in-
fluente journal de Brasflia.
Cor sua bela tiragem, tres ou
quatro vezes maior do que a de
seus dois concorrentes didrios, O
Liberal nao teria precisado forjar
uma circulacgo onfrica, nao fosse
a vazia megalomania de seus do-
nos. S6 essa megalomania e tam-
b6m capaz de explicar um inves-
timento de 10 milh6es de ddlares
para dar ao journal um parque grd-
fico muito acima de sua necessi-
dade real, por um projeto conce-
bido para faze-lo saltar sobre
seus competidores e coloca-lo em
posicao inatingfvel, mas talvez
mal concebido. De tanto menti-
rem sobre a tiragem, talvez os
Maiorana tenham acreditado no
que diziam.

0 prego da poesia

Em 1952, Max Martins foi
obrigado a tirar dinheiro do
pr6prio bolso para publicar seu
primeiro livro, O Estranho, que
pagou "a duras penas em m6dicas
e espagadas prestag6es", como
atesta seu amigo, o fildsofo Be-
nedito Nunes. Quarenta anos de-
pois, amigos de Max, o maior
poeta paraense deste sdculo, se
cotizaram para possibilitar o lan-
gamento de seu Para ter onde ir,
o livro mais recent.
Felizmente, nio foi precise
submeter o poeta a novo sacriff-
cio para reunir toda a sua obra
publicada em quatro ddcadas.
Nio para consolar (Edig6es Ce-
jup, 351 paginas) esta a altura de
um artist que nio pode, como
outros vates que gorgeiam por
aqui, ser marcado pela abundan-
cia criativa, muitas vezes sin6ni-
mo de narcisismo vazio, mas que
conquistou definitivamente um
lugar especial pela densidade da
sua obra. Nenhuma das que foram
geradas neste Estado se equipara
a de Max Martins.


O belo livro preparado pelo
parceiro Age de Carvalho (tam-
bem o responsavel por Para ter
onde ir) deve ser lido exatamente
como foi editado: das obras mais
recentes as mais antigas. Aos 66
anos de idade, 50 dos quais pro-
duzindo poesia, Max parece estar
mais vivo A media em que o
tempo vai passando, incorporando
influencias, arriscando experi-
mentos, renovando-se. Algumas
dessas novidades foram sendo
deixadas pelo caminho, assim
como no passado foram recupera-
das prAticas abandonadas. Max
nio chega a ser propriamente
o mestre que Ezra Pound teorizou
e ele prdprio foi porque suas fer-
ramentas tedricas slo voltadas
exclusivamente para o artesanato
dos versos, raramente ultrapas-
sando a porta da carpintaria da
linguagem. Mas sua poesia se
equilibra entire a fruigio do es-
pontaneo (que faz sempre emergir
a temitica erotica) e um burilar
do c6rebro exigente e capaz. Por
isso 6 uma poesia que emociona,
surpreende e alegra, send tam-
b6m um jogo de palavras (que se
sofisticou na renga cor Age de
Carvalho).
Numa provfncia acostumada a
absorver sem ressonancia qual-
quer produg o em verso como se
fosse produto acabado, o livro de
Max Martins 6 uma p6rola atirada
a esmo. D6i ver o livro pousar
nas prateleiras das livrarias e nAo
alcangar sequer os registros dos
sism6grafos das artes no Brasil.
Escrevendo para si, Max escreve
para um future que, talvez, Ihe
faga a justiga que os contempori-
neos mostram-se incapazes de Ihe
dar, como 6 de seu merecimento.

Na frente

N uma 6poca de astros em con-
fusao, os vices e suplentes
estao se saindo melhor do que os
titulares. Nao gastam ou se des-
gastam, chegam por acaso onde
estao, mas acabam usufruindo do
poder. O ex-deputado e ex-diri-
gente do Banco da Amaz6nia, Ju-
vencio Dias, entrou a dltima hora
na chapa para o Senado do
PMDB, como companheiro de
Fernando Coutinho Jorge, em
substituigio ao ex-deputado Fer-
nando Ribeiro, secretario parti-
cular de Jader Barbalho. Era o
ajuste da composicao do PMDB
cor o tateante PST do future vi-
ce-governador Carlos Santos.







ACRE



Autoria distant


Vitorioso ou corn destacada
presenga nas maiores capi-
tais do pafs, o PT s6 con-
seguiu eleger o prefeito de uma
das capitals da Amaz6nia. Foi em
Rio Branco, capital do Acre. Co-
mo possui apenas 104 mil eleito-
res, Rio Branco nAo teve segundo
turno.
Localizado na fronteira cor a
Bolfvia e o Peru, o Acre anexa-
do ao Brasil no infcio do s6culo
atraves de uma prosaica transagAo
commercial com os bolivianos, so
fim de escaramugas armadas entire
os dois lados 6 geralmente con-
siderado um Estado de fim de li-
nha. Pouco lembrado, padece do
isolamento e da distancia, que
encarecem a vida dos seus mora-
dores. NAo contando demografi-
camente, nAo pesa politicamente.
Tamb6m nAo 6 um Estado de
consciencia contestat6ria, a ponto
de justificar uma eleicAo petista.
As rafzes da vitdria do engenhei-
ro florestal Jorge Viana estio
plantadas tanto nos seringais, re-
manescentes de um mundo em
rufnas, quanto nos gabinetes da
militancia ecol6gica em Nova
York ou Washington. Afinal, o
Acre 6 a terra de Chico Mendes,
cujo assassinate desencadeou uma
romaria de personalidades para
Xapuri, antes ocasionalmente
lembrada como a terra de Jarbas
Passarinho, do jornalista Arman-
do Nogueira ou do humorist Jose
Vasconcelos.
Chico Mendes foi enterrado
como o mnrtir de uma causa des-
tinada a mudar a face do Acre.
Revigoradas pela mfstica do lfder
seringueiro, organizag6es am-
bientalistas de todo o mundo, mas
sobretudo dos Estados Unidos,
sentiram-se em condig6es de im-
pedir que a principal via de aces-
so ao territ6rio acreano, a
BR-364, seja asfaltada no trecho
Porto Velho-Rio Branco. Com o
revestimento primirio tipicamente
amaz6nico, a estrada estd em uso,
mas ele nao 6 pleno: no inverno
de chuvas pesadas, o trafego se
torna precario. Com isso, os
ecologistas acham que diminui
a intensidade da migragao e arre-
fece o appetite destruidor dos des-
bravadores. Sobra um pouco de
tregua para tentar plantar as ba-
ses de uma forma de ocupagAo da


terra menos predatdria e mais
rentavel do que a agropecuaria: o
extrativismo.
Durante varios anos, a partir
de 1970, as exuberantes florestas
do Acre vieram abaixo porque o
novo ocupante queria instalar sua
fazenda onde, antes, era seringal.
A borracha dalf extrafda fez fama
como a Acre final, a de melhor
qualidade. Mas os donos dos se-
ringais nAo vacilaram em passar
em frente suas propriedades para
fazendeiros e abandonar o neg6-
cio, que ja consideravam falido.
Os seringueiros, pordm, fica-
ram. Eles continuavam a viver
como haviam sido observados no
infcio do sdculo por Euclides da
Cunha. O autor de Os Sert6es fi-
cou escandalizado: os seringuei-
ros viviam para se escravizar.
Quanto mais produzissem, mais
ficariam a dever no "barracAo"
do seringalista, que pagava prego
insignificant pela borracha rece-
bida na sede do seringal e cobra-
va pregos extorsivos dos serin-
gueiros pelo que Ihes fornecia
(alimentos, equipamentos, armas,
etc.). Nio havia forga de trabalho
capaz de alterar essa aritmitica
viciada.
O seringalista caiu porque
outro tipo de proprietario o subs-
tituiu. Para os seringueiros dei-
xou de haver alternative: comba-
ter o novo dono era a dnica form
de sobreviver porque o fazendei-
ro derrubava as Arvores de borra-
cha. A luta pela sobrevivencia ff-
sica tinha que ser, ao mesmo
tempo, um movimento ecoldgico.
NAo admira que os militants de
outras paragens fizessem do Acre
sua Meca, o mdvel de suas uto-
pias.
HA conteddo de realidade nes-
ses sonhos? Esta, por enquanto, 6
uma incdgnita. A eleigfo do pri-
meiro prefeito de capital da Ama-
z6nia pelo Partido dos Trabalha-
dores, identificado corn a causa
ecol6gica, poderia dar alento para
uma resposta positive. O fato tem
sua import&ncia, mas ela pode ser
simbdlica. Sfmbolos, em memen-
tos importantes da histdria, con-
tribuem para as mudangas, reali-
mentando utopias. Mas podem
nAo ser nada al6m de sfmbolos,
um fogo-fatuo que impression e
da prazer, mas que se desfaz tao
rapidamente como surgiu. Espera-
se que o Acre tenha ao menos a
condigio de responder, com sua
pr6pria voz, a esse desafio, sem
ser apenas o eco de uma voz


Cartas
A Pda am fcaglo do dmaro 100 do
Joral Pusoal, 10 funciontrios do
Banco da Amaz6nia (Gisdlia Filgueiras,
Maria de Fatima Amador, Alexandre Ro-
drigues, Maria Adelaide Santos, Jolo Ba-
tista Bastos, Maria Conceiglo Freitas, Jos6
Luiz d'Avila, Olivia Diana Figueiredo e
Rostngela Almeida) onviaram a seguinte
carta:
"Leitores assfduos e sistemiticos de
suas publicag6es, livrosm, artigos a prin-
cipalmente do Jeral Peaoal, do qual em
sou dltimo ndmero, 99, coloca o Senhor as
seguintes reflexes:
'0 Joral Penal se exauriu, esgotan-
do suas possibilidades do crescimento, ou
ainda dove sobreviver? Que funglo ele
desempenha para os seus leitores?' Finali-
zando diz que 'as carts serlo benvindas a
representargo a melhor sinalizagio para
o future, so future hd'.
Caro Ldcio FlAvio, dizer que nio hd
future para uma publicagio do quilate do
Jorml Pemasl 6 como so diz 'entregar os
pontos' a ficar somente cor o jornalismo
meramente informative, sem nenhum
aprofundamento das questOes que existem
em Bel6m, a em toda a regilo amaz6nica.
O Jormal Pemoal nio s6 preenche esta
lacuna, como vai mais al6m por ter uma
posture crftica, quectionadora a corn os
olhos voltados para um future melhor da
Regiio, do Estado a desta Cidade.
Somente um journal como o sou, sam
comprometimento polftico, sem atrela-
mentos, pode ter posture corajoass, com-
prometidas corn a verdade.
Viver isto deve ser diffcil. Fica-se h
merc8 dos invojosos, incomodados a sam
postura dtica alguma, como o caso "carta
Gueiros" o "Palm6rios da vida", que so-
monte conseguem espagos em publicag6es
medfocres.
Caro Senhor, 6 diffcil, mas mantenha
o Jormal Poeoal, por ser propagador de
iddias renovadoras e, mais do que isso, por
ser questionador e mais formador. Al6m
disso, o Senhor ja tem um comptometi-
mento com a sociedade como fonte do in-
formag6es e divulgaglo de notfcias que,
muitas vezes, nao passam na grande im-
prensa. Chegar ao ndmero 100 6 uma vitd-
ria, A hist6rico e merece urma ediglo espe-
cial.


O post mais important para o
Para no segundo escalAo da
administragao federal nem 6 lem-
brado na hora da partilha: a pre-
sidencia da Companhia Vale do
Rio Doce. A CVRD fatura, no
Estado, mais do que arrecada o
seu pr6prio governor.
No entanto, apenas os lobbies do
sul estio no pareo para a indica-
gao do president da Vale.
O Pard vai assistir a essa de-
finicao de bragos cruzados, ouvi-
dos fechados e mente imobiliza-
da?


Journal Pessoal

Editor responsAvel: Lucio Fldvio Pinto
Ilustraqao: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone: 223-1929
Opgao Editorial