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Journal Pessoal EDITOR R ESPONSA EL L C F LAVIO PINTO Ano VI No 101 1l Quinzena de Novembro de 1992 * Cr$ 3.000,00 JUSTIQA A roleta viciada Toda a cidade se pergunta: por que as quest6es dos empresfrios quase sempre vio parar nas mros do desembargador Calistrato Alves de Matos? Quem souber que procure responder. Nos dltimos dias, atd a sema- na passada, o nome do de- sembargador Calistrato Al- ves de Matos foi o mais comenta- do n cidade. Apareceu tanto num panfleto dos estudantes universi- tarios, que circulou intensamente pelo campus do Guama, como na irreverente coluna do comendador Raymundo Mario Sobral. Todos estranhavam, sem reticencias, que as causes de valor econ6mico, envolvendo interesses de alguns grupos empresariais especfficos, quase sempre, ao serem sorteadas para distribuigio, caiam nas mAos do polemico magistrado. O Tribunal de Justiga do Es- tado ter a seu servigo 21 desem- bargadores, razao pela qual todas as teorias de probabilidades tem sido desmoralizadas pela contu- maz persistencia da destinagio dos casos controversos para o normalmente questionavel julga- mento de Calistrato. Em Direito, qualquer ne6fito esta cansado de saber que o que 6 pdblico e not6- rio dispensa provas. Por isso, tanto os dirigentes do DCE quanto o colunista de A Provfncia do Par& nAo titubearam em colo- car em letra de f6rma suas sus- peitas sobre a seriedade do pro- cesso de escolha do relator de matdrias explosives e a honesti- dade do prdprio julgamento. Nin- gudm se preochpa mais em pro- var, nem teme se arriscar assumir comentirios, que, ainda mais pe- sados, centenas fazem sobre Ca- listrato Matos em mesas de papo ou nos corredores do F6rum de Belem. A reaqAo atingiu o paroxismo da indignagio quando, no infcio do mes passado, o desembargador simplesmente estendeu aos donos dos 6nibus urbanos de Belem o privildgio, suspeitamente conce- dido apenas aos proprietarios dos > 2 Jornal Pessoal 6nibus intermunicipais, autores de um mandado de seguranga, de nio mais deixarem idosos maiores de 65 alunos e policiais em servi- go usarem gratuitamente os 6ni- bus e serem obrigados a aceitar a carteirinha de meia-passagem de estudantes. Para tender os em- presarios, o desembargador atro- pelou prazos, espancou ritos, desprezou princfpios, fulminou processes e provocou estupefaAio em todos os que nAo concordam em que o Direito seja um produto arbitrario da vontade pessoal. O consultor-geral do Estado, Roberto Cavaleiro de Macedo, reagiu declarando que "certos magistrados me causam repug- nAncia". Foi a frase mais forte, mas outras de identica envergadu- ra apareceram nos recursos que proliferaram a partir daf, acelera- dos pelas manifestac6es de rua dos estudantes, indignados cor a decisao do desembargador, que provocaram danos materials e humans durante toda uma sema- na. A revolt aumentou porque no dia seguinte ao do despacho, Ca- listrato Matos viajou para o Rio de Janeiro, hospedando-se no ca- ro Copacabana PAlace Hotel. Ficha limpa Os estudantes tinham todos os motives para acreditar que o au- tor de uma das mais polemicas decis6es do Judiciario nos dlti- mos anos tivesse fugido & sua responsabilidade. Mas na verdade o desembargador desfrutava de uma designagao de seus pares pa- ra representar o Tribunal de Jus- tiga do Para num encontro que se realizaria na capital carioca, uma esp6cie de honraria. O ato pode surpreender os que conhecem a Justiga estadual por seus bastido- res e corredores, mas 6 plena- mente justificAvel pela ficha fun- cional de Calistrato Alves de Matos. Ele estA na magistratura h& 36 anos, 6 juiz hA 32 e subiu para o dltimo posto em 1979, promovido por antiguidade, mas sem um s6 registro desabonador em sua ficha (mas tratou de atacar, no discurso de posse, o president do TJE, que, segundo entendia, protelara sua ascensao). Pode at6 reivindi- car, como tem feito, embora sem eco, assumir a presidencia de um tribunal que lhe pass certidAo negative. Provavelmente nem mesmo o mais recent e escabroso episddio manchard o currfculo formal do desembargador. De volta da tem- porada carioca, que coincidiu cor a aqao do "arrastao" pelas praias do Rio, Calistrato nAo se vexou: com um lac6nico despacho revogou seu prdprio despacho, restabelecendo a situaqao ante- rior, e mandou ouvir os interes- sados na acao, o que deveria sen- satamente ter feito antes de dar aos donos de 6nibus uma liminar que resultou em economic de custos durante 10 dias, valor equivalent ao de alguns carros de luxo. Ouvidos moucos A revisAo pode ter poupado o desembargador Calistrato de ser um dos temas da reuniio que seus colegas realizaram na quarta-feira da semana passada, em sessao se- creta, a portas fechadas. Como j& nao havia o esbulho, o Pleno pre- feriu ignorar o dano causado, nAo sd aos diretamente prejudicados, como A combalida image do Ju- diciario, cada vez mais privado de motives para reclamar (inclu- sive o salarial, eterna referencia no passado) e sempre mais defi- citario nos servings prestados & comunidade. Os desembargadores deram seguimento a dendncias apresentadas contra os jufzes de CametA e Itaituba, jA enquadrados em sindicAncia administrative que pode evoluir para inqudrito, trata- ram de seus salaries e, quanto ao affaire Calistrato, comegaram a preparar uma nota em repddio as declaragdes do consultor geral do Estado. Os desembargadores poderiam bem poupar-se o trabalho de per- guntar a Cavaleiro de Macedo a qual magistrado se referia. Calis- trato Alves de Matos 6 citagAo obrigatdria quando se pensa numa Justiga de conveniencia, utilita- ria. Pode-se lembrar sua inter- vengao para livrar da cadeia o empresario Augusto Nogueira, que matou um empregado, em tempos mais remotos. Ou algo re- cente: a constant participagio de Calistrato para manter A distAncia dos policiais o traficante colom- biano Pastor Delgado Garcia, preso em 1989 pela Polfcia Fede- ral como o mais important mem- bro do cartel international colo- cado atras das grades no Brasil. Da dltima vez, o desembargador, not6rio A porta de xadrez, foi ao aeroporto de Val-de-Cans tirar Pastor, que chegava preso de SAo Paulo, das maos de agents fede- rais, que, a custo, aceitaram o al- vard de soltura, fresquinho. A situagAo nao seria tao grave se o "caso" Calistrato fosse sin- gular, mas os desembargadores sabem muito bem que hA outros, talvez nao tAo not6rios, mas nio menos danosos, espalhados pelos tres andares do F6rum de Belem e em suas ramificag6es interiora- nas. O desembargador Humberto Castro, por exemplo, chegou a trocar um despacho que ji havia dado em um process envolvendo a madeireira Xylo, substituindo-o por outro e quebrando, assim, um dos princfpios sagrados do Di- reito, a integridade dos autos. Exemplos numerosos podem ser coletados numa simples passage pelos corredores do F6rum, mas eles seriam muito mais reduzidos e, quem sabe, desaparecessem, se a distribuigio dos processes fosse limpa e correta e os transgresso- res graves punidos. O dltimo caso de porte foi o do juiz Armando BrAulio Paul da Silva, preso pela Polfcia Federal num flagrante ato de corrupgao e punido apenas de- pois de certa relutancia corpora- tiva, ainda a causa maior da im- punidade. Tro inigmAtico quanto res- ponder por que os processes one- rosos caem nas mAos que seus autores julgam convenient 6 sa- ber o motive que impede a infor- matizacAo da distribuigio de su- bir um lance de escadas no pr6dio da Justica. Enquanto para as va- ras do jufzo singular a distribui- gAo 6 feita por computador (ainda que em alguns moments ele "saia do ar"), em relaglo aos de- sembargadores ela ainda depend de uma roleta, que os funcionA- rios dizem ser "esfriada", num process manual que da poderes imensos ao manipulador desse process. Enquanto escAndalos como o mais recent do desembargador Calistrato Alves de Matos forem seguidos por silencios conve- nientes, a Justiga continuard me- recendo o sabio mas melanc61i- co ditado popular: quem ter jufzo nao vai a Jufzo. A prop6sito: o juiz Werther Benedito Coelho estA na agulha para, como seu par, Calistrato, ser promovido a desembargador por antiguidade. SUDAM Dentro 0do bt"or Q uando 0 ministry da Inte- gralgo Naeional, Alexandre Costa, telefonou para o president Itamar Franco, na se- gunda-feira da semana passada, o Paldcio do Planalto ja havia re- mwtido para o Didrio Oficial da Unigl o decreto de nomeango de Oziel Carneiro para a superinten- d6ncia da Sudam. O pr6prio pre- sidente teve que mandate sustar seo ato ao ser informado pelo mi- nistro que Oziel desistira do car- go. A desistancia nio foi sdbita, come podia ser interprtado do nstits rio da grande .imprensa. Quando o senador Jarbas Passari- aho fe~ao prmeiro coatato corm o ex-pasidnte do Banco da Ama- z6nia, uma' semana antes, Oziel Carneiro relatou atd ser conven- tde:,a saeetter a iadicsgBo. Ele acheva que a Sudam se esvaziara tanto que nom valia a pena ocu- parwlm cOg que, Mates, o atrafa. Mas resolve espear pola refor- ma admiaistrativa prosetida polo praeidente. Corn a medida provis6ria do novo governor, Oziel viu a conso- lidagwo e at6 o agravaimento da estrutura que havia tirado a forga dos drglos rogionais. Sudam e Basa toeiam que se entender com urna secretaria, nao msais ligads diretamente i presidncia. da Re- pdblica, mas a ministdrios. A Su- dam continuaria corn o substitute do. Minter e o Basa voltaria so redil do ministdrio da Fazenda. 0 ministry anterior, Marcflio Mar- ques Moreira, tinha uma opiniilo categdrica sobre o future do Ba- sa: o banco teria que ser extinto. Oziel deve ter presentido que seria apenas um ordenador de despesas e cumpridor do ordens de Brasfla. Bstaria ainda sujeito a uma sarie do interpretag6es des- favordveis, entire as quais boats como a que circulou logo em Belem: -de que senu ome teria si- do vetado porque empresas liga- das a ele exam devedoras do Ban- eo da Amazonia e da pr6pria Su- dam. As especulag6es eram feitas em torno do Hilton Belem, corn ama pesada conta em aberto junto ao Basa, e a TAxi AEieo Kovacs, projeto incentivado .vrios anos atrAs pela Sudam para adquirir una frota do helic6pteros. Em ambos os casos os negdcios foram conduzidos polo irm&o de Oziel, Armando Carneiro, recentemente falecido. A pend6ncia ativa 6 a do Hilton. Nenhum dresses fatores pesou na decisao official, que ja havia sido tomada quando a nomeagio foi sobrestada por causa da de- sistencia de Oziel. 0 senador Jarbas Passarinho, responsivel pela indicagco, p6de ainda nego- ciar o nome do substitute, apre- sentando como opg6es o econo- mista paraense Frederico Andra- de, amigo do governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, e o advogado Floriano Barbosa, superintendeate adjunto da Su- dam. A opaio escoihida acabou sendo a de Andrade, apoiada ain- da pelo govemrador Jader Barba- lho. O arquiteto Alcyr Meira ten- too manter-se no cargo de supe- rintendente. Adotou como padri- nho o senador ex-presidente Jo- se Sarney, que procurou ganhar a adesoe do oenador Jarbas Passa- rinho, soem xito. Passarinho e Jader Barbalho, al6m de pouco simp ticos, ao. nome de Alcyr Moira, tinamn informao6es sobre a aso paralela que o filho dele, o tamb6m. arquiteto Cesar Meira, estaria realizando junto a projetos incentivados na Sudam. Tambem ouviam crfticas sobre o compor- tamento do superintendent, que submeteu-se ao.jogo de influncia do entio secretdrio do desenvol- vimento regional, Egberto' Bap- tista, e do seu successor, Angelo Calmon de SA. As pautas das reu- ni6es do Conselho Deliberative da Sudam eram montadas em Bra- sflia. Essas restri96es foam apre- sentadas ao ministry Alexandre Costa. No vacuo, ele tentou aju- dar seu amigo Sarney, mas nio p6de resistir ao acesso direto dos governadores da regiao e de Pas- sarinho ao president Itamar Franco. 0 destino da Sudam esta- va selado. O future do 6rgao, so que tudo indica, estA no passado. A fundases fos ob s e. m side criada *ar des- contar imposto do ro*da, abrir drenagem para algum caixa 2, aproveitar incentivosr oq iate cultural, apoiar atividaia de pas- co apelo commercial Avore r stores vanguardistas da mcscda- de e, entire maitas outie fls-i- dades, fazer relaqdes pdblics. Raras conseguem ainda dar luoro aos sens donos. A FundaWgo Ro- mulo Maiorana estc agora entire estas dlthnas. Ela conseguiu fazer do Sallo Arte Par umna aprecid- vel fonte de receita para o sea mantenedor, o Sistema Romarlo Maiorana de Comanicagro. De cinco patrociaadores, a Fundagao conseguia em torno do 400 milh6es de crazeires. Timro 50 mitlhes de cruzeiros para pa- gar os artists prouimads (o pr-. mio maior, de 1.300 'ddlars, equivaleone & bolse paga a Lwfs Perreira para uma luta de box am Beldim, livre de despaeo). O restanto sustentou as deepasu do event, as principal 4M quis relatives & farta divulges o pio- mocioaal nos vefculos do pdrprio Sistema Romulo Maltraua de Comunicaglo. 0 quo sigafifca que uma instancia da emworeWsa pass o dinheiro a outm iallatn- cia, cobrindo um pouco o ."btia- co'" abert polo irmnos nos con- tas do grupo Libe al cxa suas constanters pormutas giMiriu . As cotas dos patreatidores, entrtauto; alao sio a didw fore de renda da Fundaglo no Arte Pa- rd. Os artistas nio proiatdoi que comercializam souas traSalhos no sal&o t6m- que pagar urma. coni- slo de 30% i fnndalao, que fun- ciona come antentico ammbid. Infelizmente, as vendas t6m side cada vez menos exprossivas. 0. salto acaba sendo uma galeria commercial, para a qual os artists cedem s"as obras a presos infe- riores, tendo como compeasaglo a divulgagAo de seus nomes. A inexpressividade dos prnmios po- de ser me'dida comparando-os ao. que ganha uma rainha do caraa- val, em promoglo do grapo Libe- ral: um carro Santana erot qil-. metro, pelo menos 20 vezeos mat do que o grande venceder do Arte Pard. Neste context, quem mais ganha 6 o Sistema -Ronmulo Maio- rana de Comunicago, espertfssi- mo. ~orrlE~l ... a 4 Jornal Pessoal POLITICAL 0 fim dos Mutran? T era chegado ao fim o reina- do de uma das mais podero- sas e violente.s oligarquias do interior do Pard? Esta per- gunta comerou a .er feita a partir do moment em que o engenheiro Haroldo Bezerra venceu o ex-de- putado Plfnio Pinheiro Neto na dispute pela sucessio de Nagib Mutran na prefeitura de Marabi, o principal col6gio eleitoral do sul do Estado. O que prometia ser uma guerra renhida entire o can- didato de uma coligafio de sete partidos oposicionistas e o candi- dato dos Mutran e do governador Jader Barbalho transformou-se numa vit6ria folgada. Haroldo re- cebeu 56% dos votos, abrindo uma vantage de oito mil votos sobre seu adversario. O resultado expressava, em boa media, o repddio da popula- g~o de Marabd aos Mutran. De volta ao poder politico local de- pois de um certo ostracismo, o cabeca da oligarquia, Osvaldo Reis Mutran, envolveu-se no as- sassinato do fiscal de tributes estaduais Daniel Lira Mourao. Foi preso, teve seu mandate de deputado estadual cassado pela Assembldia Legislativa, em deci- sao inddita, pela segunda vez (na primeira, por corrupqAo, ainda nos governor militares) e respon- de a process judicial acusado de co-autor da morte. A surpreendente punigAo de Vav4 Mutran serviu de estfmulo para a reacAo contra os atos de arbitrariedade e violencia de uma famflia tipicamente oligarca. O principal cabo eleitoral da cam- panha foi a vidva do fiscal, que acompanhava sempre Haroldo Bezerra, chorando nos comfcios e nas visits particulares. Ela tam- b6m esteve na "boca-de-urna", distribuindo panfletos que asso- ciavam a candidatura de Plfnio Pinheiro A continuidade dos Mu- tran, o grande mote da campanha ("Plfnio eleito, Vavd prefeito", dizia o jargao). Passada a euforia pela derrota dos Mutran, entretanto, comegam a surgir ddvidas sobre a elimina- gao dessa oligarquia feroz ou o surgimento de perspectives mais saudaveis, civilizadas e produti- vas para o municfpio, que 6 o centro nervoso de Carajas e do novo Estado em delineamento, mas nao consegue traduzir essa fungao estrat6gica em benfeito- rias. Embora os Mutran tenham apoiado o ex-deputado Plfnio Pi- nheiro, alguns observadores nota- ram uma retragio da mAquina mu- nicipal a partir de certo moment da campanha. Apesar das cons- tantes acusag6es e dendncias de fraude e corrupgio que os corre- ligiondrios de Plfnio faziam con- tra os de Haroldo, o prefeito Na- gib Mutran nao reagiu. Sua dnica participacao acabou sendo atrav6s de pronunciamentos em comfcios, as v8zes b8bado. Uma fonte bem situada no governor do Estado du- vida que Nagib tenha repassado para Plfnio os recursos transferi- dos de Bel6m pelo governador Jader Barbalho. Nagib parecia mais empenhado em atuar junto a cinco outros candidates a prefeito que apoiou (tres dos quais foram eleitos). Vendo a reagao pdblica contra seu pai, Nagib talvez tenha racio- cinado que seria melhor sair tem- porariamente de cena, nao resis- tindo como poderia, se realmente quisesse, a ascensao de Haroldo Bezerra. Pode estar apostando no insucesso da nova administragao e em suas contradig6es internal, que poderiam ser exploradas na campanha eleitoral de 1994, quando Nagib pretend concorrer a uma vaga de deputado estadual ou mesmo federal (daf seu inte- resse em outros municfpios). Esta alternative seria melhor do que ter na prefeitura algu6m que aju- dou a eleger, mas no qual nao mandaria como pretendia. Embora tenha conseguido reunir uma ampla frente, incluin- do partidos de esquerda, Haroldo Bezerra nao ter um perfil bern definido, nem uma trajetdria reti- Ifnea. Ele foi prefeito nomeado, entire 1975 e 1978, quando Mara- bd era municfpio de seguranga national, condigao imposta pelo regime military. Em 1982 conse- guiu eleger-se deputado estadual gragas aos currais de votos mon- tados pelo "major Curi6", o in- terventor do SNI no garimpo de Serra Pelada. Em 1986 reelegeu-se, mas jd sem a mesma forga. Dois anos depois foi derrotado por Nagib Mutran na eleigio para a prefeitu- ra de Marabd e em 1990 perdeu o mandate de deputado cor uma votaqAo inexpressiva, de 1.300 votos, no municfpio, que ajudou a retalhar, formando do antigo ter- ritdrio novos municfpios que gra- vitam em torno da provfncia mi- neral de Carajds, a mais impor- tante do planet, controlada pela Companhia Vale do Rio Doce. Os correligiongrios de Plfnio Pinheiro dizem que a ampla vit6- ria de Haroldo nao 6 apenas um produto da reag o a Vava Mutran. Atribuem a grande diferenga tam- b6m a fraudes na votaqAo, espe- cialmente atrav6s de mapismo, e ao volume de dinheiro colocado A disposiaio do candidate. Neste ponto entraria um novo persona- gem na hist6ria: a famflia Morba- ch. 0 principal personagem, Au- gusto Morbach, ter sido acusado de envolvimento com o cartel de Calli, o segundo do narcotrifico mundial. Uma irma de Haroldo 6 casada cor um irmao de Augusto, Wilson Morbach, que, juntamente com outro irmao, Atila, partici- pou da campanha. Dos Morbach teria safdo boa parte dos funds de campanha para Haroldo. A associagio pode nio passar de mera relacgo familiar, mas 6 um dado a mais (outro 6 o vice de Haroldo, o madeireiro Reinaldo Zucatelli) que langa ddvida sobre o future de Maraba. O municfpio ter sofrido mudangas traumaticas em fung~o de sua posigio, cir- cunstancialmente estratdgica, no meio de um jogo de poder e de interesses que o transcende de muito. Quando intervieram na regiAo para nela montar um enclave eco- n6mico associado a parceiros in- ternacionais, os militares ali plantaram suas representag6es di- retas, como o Getat, um grupo executive de agAo fundidria, o SNI, Curid e outras extens6es. 0 mundo do passado, que os inco- modava, foi colocado abaixo, nio porque se opusesse a eles, mas porque nao tinha condig6es de acompanha-los. A primeira cassa- glo de Vavd Mutran e a margina- , ornal Pessoal 5 lizagio de sua oligarquia familiar se explica nesse context. Con- solidada a satrapia federal de Ca- rajas, a agao direta de Brasflia afrouxou e os Mutran retornaram. Agora rest saber quais sao os personagens e a que necessidade atendem. Quem conseguir res- ponder a essas quest6es saberd dizer se a pior oligarquia do inte- rior do Pard acabou ou apenas retrocedeu para voltar mais adiante e quem realmente a su- bitui, ou substituira. MarabA continue sendo um precario acampamento de interesses alheios aos seus. Jogo sujo Q uase 80 candidates as prefei- turas do interior recorreram a Justiga para-tentar anular as elei- c6es nos seus municfpios. Uma pequena parte deles foi movida apenas pelo sentiment de derro- ta, mas a maioria podia apresen- tar provas de fraude eleitoral ou de abuso do poder econdmico, dois dos principals crimes come- tidos numa das mais sujas dispu- tas polfticas dos dltimos anos no Para. I certo que em outras elei- g6es houve tantos crimes quanto agora, mas a melhoria dos meios de comunicagao permitiu, a quem quisesse ver, constatar o atraso do Estado em mat6ria de lisura eleitoral. Quem menos quis ver foi o pr6prio Tribunal Regional Eleito- ral, a instancia a que recorreram os candidates sem obter respos- tas. Casos escabrosos, como os de Ananindeua, Maraba, Barcare- na ou Conceigio do Araguaia, ate hoje aguardam decisao. Todos os partidos derrotados em Ananin- deua pediram a anulagio da elei- gio por inteiro, mas a Polfcia Fe- deral ainda nem conseguiu con- cluir a instrugAo do inqu6rito instaurado ha dois anos para apu- rar dendncias semelhantes, num tfpico caso de repetigao estimula- da pela impunidade. No interior, vitdrias que se tornaram surpreendentes por cau- sa da elastica vantage do ven- cedor, quando tudo indicava dis- puta acirrada, nao foram comemo- radas na media dos resultados exatamente por causa da perple- xidade geral. Ate os vencedores pareceram ter tido pudor diante de suas facanhas. Em Maraba, o fiscal de uma segfo em Morada Nova, impotente para impedir uma candidate a vereadora de as- sumir a presidencia da mesa, pre- encher cedulas e coloca-las na urna no lugar de eleitores, sim- plesmente sentou-se sobre a urna. Em Conceicgo do Araguaia, cabos-eleitorais do mddico e ex- deputado Carlos Cavalcante tran- sitavam livremente pelo interior das seg6es corn camisetas de pro- paganda do candidate. Especifi- camente no municfpio, o ato, em todos os demais crime eleitoral, foi avalizado pela jufza, Eva do Amaral Coelho, atrav6s de medi- da baixada dois dias antes das eleic6es. Os partidos oposicio- nistas recorreram as pressas ao TRE, mas o tribunal nao se dig- nou responder. Tanto a jufza co- mo os promotores abandonaram o municfpio antes do resultado fi- nal, viajando para Belem, talvez para evitar reag6es, algo como o dono da bola leva-la no meio do jogo, deixando aos demais joga- dores apenas o jus esperneandi. Em ConceigAo do Araguaia, como em numerosos outros muni- cfpios, muitas cedulas eram dadas ao eleitor jA preenchidas, as re- gras foram alteradas e a fiscaliza- gro obstrufda ou simplesmente afastada, como aconteceu com o deputado federal (PDT) Geovanni Queiroz, que a jufza de Concei- gio mandou prender p rque pro- testava contra decis6es dela. Os relates, detalhados e documenta- dos, formal um retrato acusador de um Estado primitive em pro- cesso eleitoral, retrato que nao chega a opiniao pdblica porque o TRE preferiu apostar no fato con- sumado, ao inv6s de impor a jus- tiga, e a imprensa ignorou o que aconteceu de fato no Estado. Olho em 1994 A o governador Jader Barbalho foi dado o direito de indicar o ministry dos Transportes do go- verno Itamar Franco, desde que o nome se enquadrasse nas exig8n- cias do PMDB de Sao Paulo, que tinha o poder de veto: o candi- date a vaga teria que ser parla- mentar, engenheiro e ligado ao setor de transport. As exigencias se ajustavam como luva ao chefe da Casa Civil do governor, o de- putado federal Manoel Ribeiro, engenheiro civil e donor da Cons- trutora Nazard, uma das mais fa- vorecidas em obras estaduais, di- reta ou indiretamente. Mas Manoel Ribeiro nao foi indicado e o PMDB paulista ficou cor a prerrogativa de colocar o deputado Alberto Goldmann no minist6rio. Para Jader ficou o no- vato Ministerio do Meio Am- biente e a indicacgo foi imediata: ele apontou o senador Fernando Coutinho Jorge. Para alguns po- Ifticos, essa movimentagio de pe- gas indicaria que o ex-prefeito de Beldm podera vir a ser o candi- date de Jader A sua sucessao, em 1994. Tudo passaria a defender da capacidade de Coutinho atrair dinheiro, sobretudo do exterior, para seu combalido setor e ter um desempenho capaz de projeta-lo national e estadualmente. Nesse caso, o ministdrio teria eco maior do que o Senado. Os que defended a candidatu- ra de Manoel Ribeiro, entretanto, garantem que ela nao esta des- cartada. Mais important do que ter um cargo em Brasflia seria continuar a contar corn obras a realizar no interior do Estado e, nesse particular, o deputado tern sido ativo. Mas seu nome n&o o bem absorvido em areas impor- tantes do PMDB, nem parece ca- paz de suscitar entusiasmos, mesmo que seu caixa de campa- nha, jA em formagio, possa ser considerado bem fornido. Os adeptos de Coutinho Jorge estao confiantes de que ele saira na ho- ra certa do ministerio para a cam- panha governmental no Pard, se o governor Itamar nao descarrilhar pelo caminho, e claro. Mas se Jader Barbalho estA cor um nome em cogitagco na cabega, ainda nio abriu o jogo, ou s6 o revelou aos frequentado- res de sua mesa privativa. Parece claro que ele seguird pela mesma trilha na qual tambr m estara o senador Jarbas Passarinho, ou pa- ra fechar as duas vagas para o Senado dentro de dois anos, ou para em hip6tese bem mais re- mota fazer o ex-ministro dis- putar o governor do Estado. Qualquer que seja a alternati- va, pordm, ela terd que se enqua- drar num esquema de alianga Ja- der-Jarbas, reforgado para en- frentar a possibilidade de Hdlio Gueiros deixar a prefeitura de Belem para tentar voltar ao go- verno ou apoiar a candidatura de um nome de suposta densidade, como o do deputado federal Ala- cid Nunes. 6 Jornal Pessoal GOVERNOR No contrape H uma caracterfstica in- governor militares a part quietante no governor Ita- neral Mddici. mar Franco: ele 6 o produto A estrutura do mini! de uma coalizio de partidos polf- Itamar se assemelha mais ticos e nio propriamente de um dos militares do que o di pacto social, como querem defini- A dnica diferenga 6 que lo alguns analistas mais genero- os militares nomeavam sos. Como os partidos, embora militares e tecnoburocra represented a sociedade, perma- os cargos pdblicos, Itai necem a grande distlncia da di- recrutando politicos p namica social, o governor, bitola- nais. Deve achar (e af, do por sua composigio, pode per- monta ao populismo delij der o rumo ou o faro. Constituig~o de 1946) qu Um desempenho sofrfvel do co sintoniza mais cor o governor Itamar representaria o que 6 verdade quando se passaporte de retorno ao poder area especffica de cor e corn direito a consagracgo do deles, a polftica eleitora president Fernando Collor de sentativa. Mello, principalmente se antes Olhando o governor Ii nAo for estabelecido o sistema perspective regional, ess& parlamentarista. Quem duvida tude se torna mais forte dessa possibilidade deve lembrar- nejamento foi devolvido se que, durante o governor Sar- secretaria da presidencia ney, cresceram as saudades do pdblica, desmembrada di general Figueiredo, que, ao dei- minist6rio geral da e xar a presidencia, tivera, final, a criado por Collor. O sensatez de pedir ao povo para mento volta a ser uma at esquece-lo. A diferenga, agora, 6 pessoal do president. FB que ao menos como hip6tese no governor do general Collor pode voltar, enquanto Fi- em que o piauiense Jol gueiredo, felizmente, ja tinha ido dos Reis Velloso funcior embora de vez quando a mfdia fez mo o valete do preside eco ao lobby dos saudosistas. verdade, do todo-poder Alguns preocupados analistas nistro Delfim Neto). temem que o governor Itamar sig- As quest6es region nifique um retorno ao populismo sob o governor Collor tinh prd-64, marcado por um naciona- entregues a uma secret lismo de viseira que se tornou presid6ncia, voltaram a ti anacr6nico em plena 6poca de al- diqAo ministerial, exatami deia global planetaria. O risco 6 mo nos governor milita visfvel, mas as dificuldades con- que, ao inv6s da vaga de junturais, especialmente para ago de Ministdrio do Int manter sob razoavel control a batismo agora envolve ul danada da inflagio, nao permitem tade mais categ6rica e un esse retorno pleno. Itamar nem vo fechado: 6 o Ministdri pode pensar no desenvolvimento tegragAo Nacional, sem a tout-court de seu conterraneo palavras. Juscelino Kubitscheck. Seu maior Para comandar o pess desafio d o de perenizar-se. nico das instAncias in Mas se esta havendo volta desse minist6rio (de atua atras, seu alvo nio 6 tio remote. ampla quanto dilufda), c O ponto de chegada nio parece tro-senador Alexandre Cc estar na ddcada de 50, quando as velho polftico de carreira iddias econ6micas dominantes vi- belece quadros do passed nham do laborat6rio da Cepal, o se pudessem fazer uma drgAo da ONU criado para ajudar magica. os pafses da Am6rica Latina a se I uma simbiose estra desenvolverem substituindo suas resultado duvidoso e importag6es atrav6s da industria- exageradamente temerdria lizaaio internal. O mote inspira- perimental, para uma fi dor, ao menos o da administra- crftica da histdria brasile qao, pode estar nos anos 70, dos resolver assumf-la, o do tempo ir do ge- Itamar nao anula suas boas inten- 96es, mas pode estar revelando stdrio de sinais de desatualizaiao e defasa- a 6poca gem para nao dizer alienaqao, SCollor. usando-se a expressao em seu enquanto significado clfnico da realidade Soutros do pafs. Quem pagar, verd. tas para mar esta Droga livre rrofissio- trAfico de drogas comeca a se sim, re- tornar uma important fonte neado na de renda e de poder politico no ie polfti- baixo Tocantins. Segundo dendn- povo, o cias encaminhadas ao long deste trata da ano ao Ministdrio da Justiga, tra- .petencia ficantes estiveram por trAs da il repre- campanha eleitoral em pelo me- nos dois dos principals municf- :amar da pios do vale, Barcarena e Came- a simili- td, conseguindo a vitdria para os . O pla- seas candidates. a uma Acionada, a Polfcia Federal da Re- organizou, de Brasflia, uma ope- o antigo ragao-rel&mpago em Barcarena, conomia no infcio do ano, com alvos espe- planeja- cificados previamente. Mas os ribuicio cabegas do trafico foram avisados 01oi im antes da chegada dos agents e Mddici, safram da cidade. Nao ocorreu o Paulo uma dnica prisao. Segundo outras lava co- dendncias apresentadas poste- -nte (na riormente, houve atA distribuigao oso mi- gratuita de cocafna durante a campanha eleitoral. Haveria qua- .is, que tro mil viciados em drogas ca- lam sido dastrados pelos traficantes na re- aria da giao de influencia de Barcarena. er juris- O entao ministry Jarbas Pas- ente co- sarinho recebeu, de um polftico res. Sd local, um alentado dossi6 sobre a nomina- relagao de polfticos e comercian- erior, o tes com traficantes na area de na von- Cameta. A questio foi encami- i objeti- nhada ao delegado Romeu Tuma, o da In- que examinou o material e consi- meias- derou-o grave. Mas desta vez nao houve nenhuma iniciativa da PF. oal tec- Os traficantes foram os mais ge- iferiores nerosos contribuintes da caixinha .gao tao eleitoral. Sminis- A polfcia ji sabe que cocafna sta, um proveniente do Peru, Bolfvia e L, resta- Col6mbia A transportada para Pa- o, como ramaribo e Caiena nas pequenas mutagao Sembarcag6es que trafegam pelo baixo Tocantins, experiences em nha, de outra atividade illegal realizada talvez ali ha bastante tempo: o contra- ,ou ex- bando. A indrcia official neste ase tao moment de expansao da ativida- ira. Ao de vai tornar ainda mais remote o governo seu control no future. ornal Pessoal 7 Como pin6quio Durante muito tempo a diregio do Sistema Romulo Maiorana de ComunicagAo mentiu a opiniao pdblica sobre a tiragem do journal O Liberal. Recorrendo a stispeitas pesquisas da empresa Controbel, o grupo Liberal chegou a afirmar que seu journal tirava, aos domin- gos, 120 mil exemplares e a me- tade nos dias de semana, tiragem que o equiparava a A Tarde, de Salvador, o maior journal no Norte e Nordeste do pafs. O dltimo ndmero da revista Imprensa, editada em Sao Paulo, revela em seu "mapa da mfdia" a verdadeira tiragem de O Liberal: sAo 64.866 exemplares aos do- mingos, 30.466 nas segundas-fei- ras e a mddia de 30.227 entire ter- qa-feira e sabado. A fonte da in- formaco 6 o IVC (Instituto de Verificacio de Circulacao), a dnica base realmente segura sobre a tiragem dos drgaos da imprensa brasileira. Os dados publicados pela Im- prensa sAo baseados no levanta- mento feito pelo IVC em junho, que registrou uma queda na tira- gem de O Liberal em relacao a primeira apuragao, de abril. Con- tratado pelo pr6prio grupo Libe- ral para auditar a tiragem, o IVC comegou seu trabalho confiando na informacAo jurada do editor. A tiragem aparecia, entfo, de 30 a 40% maior do que aquela cons- tatada em junho. A que o IVC, fiel ao seu rigoroso mdtodo de apuragAo, descartou a circulacao nio paga, centrada principal- mente nas assinaturas de cortesia, que os dirigentes do grupo Libe- ral inflacionaram para tentar se aproximar da falsa tiragem apre- sentada nas "pesquisas" da Con- trobel, levadas ao pdblico atrav6s de espalhafatosas peas publicita- rias de auto-promocio. Essa fantasia teria que se des- fazer cor a auditagem do IVC. Contratar o institute, talvez por pressAo de anunciantes e agencies nacionais, pordm, foi uma attitude louvfvel (dos 92jornais inclufdos no mapa de Imprensa, apenas 31 tem sua tiragem auditada). O Li- beral tornou-se o dnico journal da Amaz6nia a poder apresentar de pdblico informagAo confitvel so- bre sua tiragem. Mesmo estando muito abaixo do que apregoavam os Maiorana, ela 6 respeitavel. 0 dnico journal do Norte-Nor- deste inquestionavelmente maior do que O Liberal em todos os as- pectos 6 A Tarde, de Salvador (mas a cidade na qual est4 basea- di 6 muito mais populosa do que Belem). O Diirio de Pernambuco, de Recife (tamb6m com quase o dobro da populagio de Beldm), circula mais aos domingos (com 72 mil exemplares), mas perde nos dias de semana. O Liberal ti- ra mais jornais do que todos os de Fortaleza, cidade um pouco maior do que Beldm. Ganha de O Popular, de Goi&nia, e s6 perde, aos domingos, e por pouco, para o Correio Braziliense, o mais in- fluente journal de Brasflia. Cor sua bela tiragem, tres ou quatro vezes maior do que a de seus dois concorrentes didrios, O Liberal nao teria precisado forjar uma circulacgo onfrica, nao fosse a vazia megalomania de seus do- nos. S6 essa megalomania e tam- b6m capaz de explicar um inves- timento de 10 milh6es de ddlares para dar ao journal um parque grd- fico muito acima de sua necessi- dade real, por um projeto conce- bido para faze-lo saltar sobre seus competidores e coloca-lo em posicao inatingfvel, mas talvez mal concebido. De tanto menti- rem sobre a tiragem, talvez os Maiorana tenham acreditado no que diziam. 0 prego da poesia Em 1952, Max Martins foi obrigado a tirar dinheiro do pr6prio bolso para publicar seu primeiro livro, O Estranho, que pagou "a duras penas em m6dicas e espagadas prestag6es", como atesta seu amigo, o fildsofo Be- nedito Nunes. Quarenta anos de- pois, amigos de Max, o maior poeta paraense deste sdculo, se cotizaram para possibilitar o lan- gamento de seu Para ter onde ir, o livro mais recent. Felizmente, nio foi precise submeter o poeta a novo sacriff- cio para reunir toda a sua obra publicada em quatro ddcadas. Nio para consolar (Edig6es Ce- jup, 351 paginas) esta a altura de um artist que nio pode, como outros vates que gorgeiam por aqui, ser marcado pela abundan- cia criativa, muitas vezes sin6ni- mo de narcisismo vazio, mas que conquistou definitivamente um lugar especial pela densidade da sua obra. Nenhuma das que foram geradas neste Estado se equipara a de Max Martins. O belo livro preparado pelo parceiro Age de Carvalho (tam- bem o responsavel por Para ter onde ir) deve ser lido exatamente como foi editado: das obras mais recentes as mais antigas. Aos 66 anos de idade, 50 dos quais pro- duzindo poesia, Max parece estar mais vivo A media em que o tempo vai passando, incorporando influencias, arriscando experi- mentos, renovando-se. Algumas dessas novidades foram sendo deixadas pelo caminho, assim como no passado foram recupera- das prAticas abandonadas. Max nio chega a ser propriamente o mestre que Ezra Pound teorizou e ele prdprio foi porque suas fer- ramentas tedricas slo voltadas exclusivamente para o artesanato dos versos, raramente ultrapas- sando a porta da carpintaria da linguagem. Mas sua poesia se equilibra entire a fruigio do es- pontaneo (que faz sempre emergir a temitica erotica) e um burilar do c6rebro exigente e capaz. Por isso 6 uma poesia que emociona, surpreende e alegra, send tam- b6m um jogo de palavras (que se sofisticou na renga cor Age de Carvalho). Numa provfncia acostumada a absorver sem ressonancia qual- quer produg o em verso como se fosse produto acabado, o livro de Max Martins 6 uma p6rola atirada a esmo. D6i ver o livro pousar nas prateleiras das livrarias e nAo alcangar sequer os registros dos sism6grafos das artes no Brasil. Escrevendo para si, Max escreve para um future que, talvez, Ihe faga a justiga que os contempori- neos mostram-se incapazes de Ihe dar, como 6 de seu merecimento. Na frente N uma 6poca de astros em con- fusao, os vices e suplentes estao se saindo melhor do que os titulares. Nao gastam ou se des- gastam, chegam por acaso onde estao, mas acabam usufruindo do poder. O ex-deputado e ex-diri- gente do Banco da Amaz6nia, Ju- vencio Dias, entrou a dltima hora na chapa para o Senado do PMDB, como companheiro de Fernando Coutinho Jorge, em substituigio ao ex-deputado Fer- nando Ribeiro, secretario parti- cular de Jader Barbalho. Era o ajuste da composicao do PMDB cor o tateante PST do future vi- ce-governador Carlos Santos. ACRE Autoria distant Vitorioso ou corn destacada presenga nas maiores capi- tais do pafs, o PT s6 con- seguiu eleger o prefeito de uma das capitals da Amaz6nia. Foi em Rio Branco, capital do Acre. Co- mo possui apenas 104 mil eleito- res, Rio Branco nAo teve segundo turno. Localizado na fronteira cor a Bolfvia e o Peru, o Acre anexa- do ao Brasil no infcio do s6culo atraves de uma prosaica transagAo commercial com os bolivianos, so fim de escaramugas armadas entire os dois lados 6 geralmente con- siderado um Estado de fim de li- nha. Pouco lembrado, padece do isolamento e da distancia, que encarecem a vida dos seus mora- dores. NAo contando demografi- camente, nAo pesa politicamente. Tamb6m nAo 6 um Estado de consciencia contestat6ria, a ponto de justificar uma eleicAo petista. As rafzes da vitdria do engenhei- ro florestal Jorge Viana estio plantadas tanto nos seringais, re- manescentes de um mundo em rufnas, quanto nos gabinetes da militancia ecol6gica em Nova York ou Washington. Afinal, o Acre 6 a terra de Chico Mendes, cujo assassinate desencadeou uma romaria de personalidades para Xapuri, antes ocasionalmente lembrada como a terra de Jarbas Passarinho, do jornalista Arman- do Nogueira ou do humorist Jose Vasconcelos. Chico Mendes foi enterrado como o mnrtir de uma causa des- tinada a mudar a face do Acre. Revigoradas pela mfstica do lfder seringueiro, organizag6es am- bientalistas de todo o mundo, mas sobretudo dos Estados Unidos, sentiram-se em condig6es de im- pedir que a principal via de aces- so ao territ6rio acreano, a BR-364, seja asfaltada no trecho Porto Velho-Rio Branco. Com o revestimento primirio tipicamente amaz6nico, a estrada estd em uso, mas ele nao 6 pleno: no inverno de chuvas pesadas, o trafego se torna precario. Com isso, os ecologistas acham que diminui a intensidade da migragao e arre- fece o appetite destruidor dos des- bravadores. Sobra um pouco de tregua para tentar plantar as ba- ses de uma forma de ocupagAo da terra menos predatdria e mais rentavel do que a agropecuaria: o extrativismo. Durante varios anos, a partir de 1970, as exuberantes florestas do Acre vieram abaixo porque o novo ocupante queria instalar sua fazenda onde, antes, era seringal. A borracha dalf extrafda fez fama como a Acre final, a de melhor qualidade. Mas os donos dos se- ringais nAo vacilaram em passar em frente suas propriedades para fazendeiros e abandonar o neg6- cio, que ja consideravam falido. Os seringueiros, pordm, fica- ram. Eles continuavam a viver como haviam sido observados no infcio do sdculo por Euclides da Cunha. O autor de Os Sert6es fi- cou escandalizado: os seringuei- ros viviam para se escravizar. Quanto mais produzissem, mais ficariam a dever no "barracAo" do seringalista, que pagava prego insignificant pela borracha rece- bida na sede do seringal e cobra- va pregos extorsivos dos serin- gueiros pelo que Ihes fornecia (alimentos, equipamentos, armas, etc.). Nio havia forga de trabalho capaz de alterar essa aritmitica viciada. O seringalista caiu porque outro tipo de proprietario o subs- tituiu. Para os seringueiros dei- xou de haver alternative: comba- ter o novo dono era a dnica form de sobreviver porque o fazendei- ro derrubava as Arvores de borra- cha. A luta pela sobrevivencia ff- sica tinha que ser, ao mesmo tempo, um movimento ecoldgico. NAo admira que os militants de outras paragens fizessem do Acre sua Meca, o mdvel de suas uto- pias. HA conteddo de realidade nes- ses sonhos? Esta, por enquanto, 6 uma incdgnita. A eleigfo do pri- meiro prefeito de capital da Ama- z6nia pelo Partido dos Trabalha- dores, identificado corn a causa ecol6gica, poderia dar alento para uma resposta positive. O fato tem sua import&ncia, mas ela pode ser simbdlica. Sfmbolos, em memen- tos importantes da histdria, con- tribuem para as mudangas, reali- mentando utopias. Mas podem nAo ser nada al6m de sfmbolos, um fogo-fatuo que impression e da prazer, mas que se desfaz tao rapidamente como surgiu. Espera- se que o Acre tenha ao menos a condigio de responder, com sua pr6pria voz, a esse desafio, sem ser apenas o eco de uma voz Cartas A Pda am fcaglo do dmaro 100 do Joral Pusoal, 10 funciontrios do Banco da Amaz6nia (Gisdlia Filgueiras, Maria de Fatima Amador, Alexandre Ro- drigues, Maria Adelaide Santos, Jolo Ba- tista Bastos, Maria Conceiglo Freitas, Jos6 Luiz d'Avila, Olivia Diana Figueiredo e Rostngela Almeida) onviaram a seguinte carta: "Leitores assfduos e sistemiticos de suas publicag6es, livrosm, artigos a prin- cipalmente do Jeral Peaoal, do qual em sou dltimo ndmero, 99, coloca o Senhor as seguintes reflexes: '0 Joral Penal se exauriu, esgotan- do suas possibilidades do crescimento, ou ainda dove sobreviver? Que funglo ele desempenha para os seus leitores?' Finali- zando diz que 'as carts serlo benvindas a representargo a melhor sinalizagio para o future, so future hd'. Caro Ldcio FlAvio, dizer que nio hd future para uma publicagio do quilate do Jorml Pemasl 6 como so diz 'entregar os pontos' a ficar somente cor o jornalismo meramente informative, sem nenhum aprofundamento das questOes que existem em Bel6m, a em toda a regilo amaz6nica. O Jormal Pemoal nio s6 preenche esta lacuna, como vai mais al6m por ter uma posture crftica, quectionadora a corn os olhos voltados para um future melhor da Regiio, do Estado a desta Cidade. Somente um journal como o sou, sam comprometimento polftico, sem atrela- mentos, pode ter posture corajoass, com- prometidas corn a verdade. Viver isto deve ser diffcil. Fica-se h merc8 dos invojosos, incomodados a sam postura dtica alguma, como o caso "carta Gueiros" o "Palm6rios da vida", que so- monte conseguem espagos em publicag6es medfocres. Caro Senhor, 6 diffcil, mas mantenha o Jormal Poeoal, por ser propagador de iddias renovadoras e, mais do que isso, por ser questionador e mais formador. Al6m disso, o Senhor ja tem um comptometi- mento com a sociedade como fonte do in- formag6es e divulgaglo de notfcias que, muitas vezes, nao passam na grande im- prensa. Chegar ao ndmero 100 6 uma vitd- ria, A hist6rico e merece urma ediglo espe- cial. O post mais important para o Para no segundo escalAo da administragao federal nem 6 lem- brado na hora da partilha: a pre- sidencia da Companhia Vale do Rio Doce. A CVRD fatura, no Estado, mais do que arrecada o seu pr6prio governor. No entanto, apenas os lobbies do sul estio no pareo para a indica- gao do president da Vale. O Pard vai assistir a essa de- finicao de bragos cruzados, ouvi- dos fechados e mente imobiliza- da? Journal Pessoal Editor responsAvel: Lucio Fldvio Pinto Ilustraqao: Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone: 223-1929 Opgao Editorial |
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