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ornal Pessoal E D ITOR R ESPONSA V EL L U C IO AV PINTO Ano VI N 100 2a Quinzena de Outubro de 1992 Cr$ 3.000,00 ELEIQAO O poder dividido O ex-governador H6lio Gueiros foi o grande vencedor na eleiqao de outubro. Mas nio foi uma vit6rla tao consagradora. Agora os inimigos Irio preparar uma guerra ainda malor, a de 1994. - _,_ ---;7~--~-- a~ --~---~--- ~ ;-----~- -~-- Opoder polftico no Para fi- cou mais dividido depois das eleig6es de outubro e algumas tfmidas promessas de op- gao surgiram no horizonte. Mas tao logo.os prefeitos e vereadores assumam seus cargos, a 12 de ja- neiro do prdximo ano, estara aberta a dispute para as eleig6es de 1994. Nos p6los extremes des- sa guerra que se anuncia estarao outra vez Jader Barbalho e Hdlio Gueiros. O ex-governador foi o grande vencedor na dispute em Bel6m. O mais votado em todos os bairros da capital paraense, conseguiu impor uma definiqao ja no primei- ro turno. Mostrou que ter identi- dade eleitoral e recomp6s seu de- sarticulado grupo polftico, crian- do condig6es para reapresentar-se como candidate ao governor do Estado dentro de dois anos. Mas a vit6ria de Gueiros ad- mite diversos enfoques. Apesar de ganhar no 12 turn, sua vanta- gem sobre os demais candidates foi estreita: menos de 1%. Foi tambdm uma queda expressive em relagao a votacao alcangada por Sahid Xerfan quatro anos antes: 50,8% contra 82%. Afora as ine- giveis qualidades do ex-governa- dor para lidar com o eleitorado paraense, A mercer de sua dema- gogia barata, os erros de seus ad- versarios facilitaram sua tarefa. Os cometidos pelo governador ) 2 Jornal Pessoal Jader Barbalho e sua equipe ex- trapolaram as expectativas. Eles montaram a campanha de sua candidate, a deputada federal So- corro Gomes, sem prestar atengao ao clima na cidade e sem acom- panhar as inteligentes mudanqas na imagem bem trabaihada de H6lio Gueiros. Socorro comegou cjm quase um quarto dos votos, na primeira pesquisa de opiniao, realizada apenas uma semana depois que ela se tornou realmente candida- ta. No final, estava reduzida a pouco mais da metade das inten- g6es de voto dos eleitores, abaixo de Cipriano Sabino e apenas dois pontos percentuais acima de Fer- nando Velasco em 1986. A queda livre pode ser atri- bufda a virios fatores. Em pri- meiro lugar, a prdpria fraqueza da candidate, revelada sem dis- farces no primeiro debate pela televisAo. Em segundo lugar, A indefinigao dos seus programs eleitorais, que nio conseguiram imprimir uma marca forte & sua candidatura. As interveng6es dos seus principals aliados tambem foram desastrosas, a comegar pelo governador, que tocou os brios do eleitorado quando ameagou rudemente cancelar o maior pro- grama urban de Belem nos ilti- mos anos, o de macrodrenagem das baixadas (no valor de 210 milh6es de ddlares) e retaliar a administraiao municipal se H6lio Gueiros fosse o vencedor. A apa- rirqo de Xerfan tambCm foi des- favoravel e Almir Gabriel poderia ter continuado em seu auto-exflio em Brasflia. A ilusao de que o control da maquina official 6 o suficiente pa- ra eleger qualquer candidate foi fatal para o esquema situacionis- ta. O prefeito Augusto Rezende foi queimando sucessivas alter- nativas achando que elegeria quem quisesse. Quando restava unicamente Socorro Gomes, todos apostaram na redundante belico- sidade da candidate, que nio con- seguiu ir aldm de palavras de or- dem, ineficientes em debates ou nos programs de televisao. S6 & dltima hora o clientelis- mo official foi usado em favor de Socorro, quando uma das raz6es do sucesso de HWlio Gueiros (a- lem de set um atestado da espan- tosa pobreza que caracteriza a maior cidade da Amaz6nia) foi justamente o program "cami- nhando cor o povo". Atropelan- do as cautelas legais e favorecen- do uma aqao entire amigos forne- cedores, esse program consa- grou a eterna divisa popular do "rouba, mas faz", que leva a po- pulagdo a anistiar corruptos, des- de que eles dividam o produto de sua agdo. O "boca de urna" no dia 3 ti- rou Socorro da linha descendente, permitindo-lhe distanciar-se um pouco mais do candidate do PT, Josd Carlos Lima. Mas foi um crescimento de apenas 20%, insu- ficiente para assegurar um segun- do turno. Na linha do fisiologis- mo, que ainda C o fator determi- nante das eleig6es em col6gios eleitorais pobres como o de Be- 14m, o investimento teria maior retorno se aplicado em Cipriano Sabino, o candidate da coligacao PDS-PL. O pai dele, o empresdrio Sa- bino Oliveira, ficou esperando pelos 2,9 bilh6es de cruzeiros que o governador Jader Barbalho autorizou o Estado pagar I Sana- ve, por conta dos services de tra- vessia de Bel6m para Barcarena, realizados pela empresa logo que a concessao dada A Rodomar foi cancelada. Mas a autorizacgo fi- cou retida na Secretaria do Pla- nejamento, a quatro dias da elei- glo, quando o fundo de campanha de Cipriano estava praticamente esgotado. A secretiria Maria Eu- genia, uma das que mais apoiou Socorro Gomes dentro do gover- no, achava que a candidatura da deputada do PC do B poderia ainda crescer. O "boca-de-urna" de Cipriano foi abalado pela falta de dinheiro. O epis6dio era lembrado por seus correigiondrios com o mes- mo ar de desolaqAo dos que apoiaram a candidatura de Sahid Xerfan ao governor em 1990. Eles ficaram convencidos de que se o entAo governador H6lio Gueiros tivesse antecipado de alguns dias o pagamento de aumento aos ser- vidores estaduais, o resultado da eleigio teria sido diferente. Por que esse "pauzinho" nAo foi me- xido, eles nao sabem explicar, mas dessa perplexidade nasceu a discdrdia pds-eleitoral entire Xer- fan e Gueiros, aliados do passado que hoje nao conseguem mais nem se ver. Helio Gueiros na prefeitura de Bel6m e Jader Barbalho no governor do Estado, poderia haver uma composigio entire os dois? Os polfticos tradicionais, que nao se cansam de citar a paribola do boi voador (em polftica ja viram tudo, ate boi voar), nio se atre- vem a negar essa possbilidade, mas ela 6 muito mais do que re- mota. O governador disse de pd- blico que nem pretend cumpri- mentar o future prefeito. Prome- teu desistir da implantagao do program de baixada, que depen- de do Estado. Essa afirmativa 6 temeriria por varios fatores. Agora, o prin- cipal 6 que talvez o program nAo se viabilize por outro motive: a Uniao nao dara seu aval ao em- pr6stimo do Banco Interamerica- no de Desenvolvimento (de 145 milh6es de d6lares) enquanto o governor do Pard nio acertar corn o Banco do Brasil uma pendencia no valor de pouco mais de US$ 30 milh6es. Essa C a parte de um emprdstimo maior, de US$ 102 milh6es, que nio foi repactuada juntamente com a dfvida externa brasileira. O emprestimo foi aprovado ainda na primeira ges- tAo de Jader Barbalho, mas o di- nheiro entrou durante o governor Hdlio Gueiros (e teria "sumido", segundo o novo governor . As relac6es entire o governa- dor e o prefeito da capital deve- rao ser diffceis e irao provocar um desgaste na gestao dos negd- cios pdblicos. P provavel que Ja- der consiga former maioria na Camara Municipal, complicando a situacio de Gueiros. Certamente ter& ampla maioria no interior, mesmo prejudicado nos municf- pios de maior densidade eleitoral, atrav6s dos tries partidos que usou para abrigar correligion4rios e aliados, o PMDB, o PDC e o PST, al6m das ades6es alcang4- veis em outros partidos, desde que o governador de demonstra- c6es de forga. Ao assumir o governor, Jader tinha apenas um quarto da As- sembl6ia Legislativa e hoje, na metade de seu mandate, a con- trola. Ele pode achar que esse re- sultado 6 consequAncia apenas de sua habilidade e argdcia, mas na verdade 6 um efeito do poder. Daf essa dispute obsessive pelo control da miquina official e o prejufzo que essa guerra causa ao Estado e ao governor pelos que deles querem se apossar apenas para se servir. A meteorologia polftica avisa: o Para vai conti- nuar andando para trAs nos pr6- ximos anos. Jonal Pessoal 3 COLLOR Propaganda amazonica Fernando Collor de Mello prometia mudar a face da Amaz6nia. Numa perspecti- va quinquenal, de 1991 a 1995, ele assegurava que iria investor na regiao 45 bilhe6s de ddlares, US$ 9 bilh6es a cada ano, mais do que a soma do valor gasto nos grandes projetos ate entao im- plantados na regiAo. Uma ordem de grandeza sem paralelo, mesmo cor a era do "Brasil Grande", que engendrou o sistema rodovid- rio e todas as suas impressionan- tes consequencias e sequelas. Mas o governor Collor nAo pretendia ser apenas uma repeti- gAo desse grandiosismo irrefleti- do. Ele determinou a suspensAo da colaboragAo financeira da UniAo para as fazendas de gado. Mil delas receberam dinheiro dos incentives fiscais para implantar sete milh6es de hectares de pas- tagem e former um rebanho de tries milh6es de cabegas. Mas nAo menos de 70% dos US$ 1,5 bi- Ihio a elas destinados se perdeu. Ficou a devastacio de milh6es de hectares do que antes era floresta densa, riqufssima em diversidade de vida animal e vegetal, pratica- da por esses projetos agropecud- rios e por milhares de outros em- preendimentos nAo incentivados, que eles atrafram cor seu efeito multiplicador. Collor dizia que iria apostar na modernizag&o da fronteira. A Amaz6nia, entregue & sanha do banditismo, passaria a ter um piano de desenvolvimento preo- cupado com a ecologia, com tec- nologia mais sofisticada e com a qualidade de vida. Ela se desvin- cularia do process industrial traditional e saltaria para uma era pds-industrial, com investimento em tecnologia de ponta, cor a preocupagio qualitativa na rela- cgo social de produigo e na rela- g o dos homes cor a natureza. Promessas e pap6is foram despachados dos laborat6rios ideoldgicos de Brasflia. Mas nlo o dinheiro, nem mesmo o docu- mento formal. O Piano de Desen- volvimento da Amaz6nia (1991/1995) ainda nio foi con- clufdo, mais de dois anos depois de ter sido iniciado, quando o Congress Nacional j[ deveria t6- lo aprovado para que passasse a ter a forga de lei. Fiel a seu compromisso retd- rico de modernizagio, o presi- dente tinha uma diretriz para a Amaz6nia. A regiao deveria con- tinuar crescendo mais acelerada- mente do que o prdprio pafs, voltada para o mercado externo. Mas seu parceiro preferencial deixaria de ser os Estados Uni- dos, cujo mercado consumidor esta bastante afetado, para ser o Japao. Nao foi por mero acaso que esse foi o dnico pafs mencio- nado explicitamente por Collor em seu discurso de posse. E 6 menos casual ainda a presenga do ex-presidente da Companhia Vale do Rio Doce e seu principal ted- rico, o engenheiro Eliezer Bap- tista, a frente da SAE (Secretaria de Assuntos Estrategicos), que substituiu o SNI com a missAo de fazer inteligencia para valer ao inves de bisbilhotagem. Collor mandou que a linha de frente dos assuntos amaz6nicos deixasse de ser constitufda por tecnoburocratas do apparatchik e ficasse cor os empresarios, os verdadeiros agents da moderni- dade e da economic que valeria a pena, a de mercado. Gerente des- se modelo, a CVRD passou a im- plementi-lo atrav6s do program de pdlos florestais projetado para o eixo da ferrovia de Carajas, 870 quil6metros de extenslo en- tre a mina, na serra paraense, e o super-porto de embarque no lite- ral maranhense. Fabricas de ce- lulose, grandes plantios florestais e usinas siderdrgicas deveriam pipocar ao long da linha, absor- vendo uns US$ 15 bilh6es nos prdximos anos. Indiana Collor Para mudar o visual do go- verno na region, Collor atraiu pa- ra o seu lado dois personagens emblematicos da suposta moder- nidade: o ex-reitor da Universi- dade de SAo Paulo, Jose Goldem- berg, para cuidar da ciencia, e o militant ecoldgico JosE Lutzen- berger para a Area de meio am- biente. Os dois estavam ao lado do president quando, uma sema- na depois de tomar posse, ele fez a primeira viagem para fora de Brasflia. Collor foi a Roraima, onde explodia uma guerra entire garim- peiros de ouro e defensores da maior populagAo indfgena ainda nAo aculturada do continent, a dos Yanomami. O president fantasiou-se de uniform military de campanha, camuflado, e jul- gou-se, como em nenhum outro local e moment, um legftimo In- diana Jones, o herdi que mataria o tigre da inflagio com um dnico tiro. Mas se acreditou na propa- ganda que fez de si mesmo, Col- lor aos poucos foi mostrando & opiniAo pdblica que era mesmo personagem de celuldide. O marketing funcionou o su- ficiente para tirar das costas dele a pressio de dois problems ama- z6nicos. Em sua administration foi finalmente demarcada p reser- va dos Yanomami, a maior do pafs, com mais de nove milhoes de hectares. Os fndices de des- matamento tamb6m cafram mais de quatro vezes desde o ano re- corde de 1987. Assim, duas va- riaveis que entravavam a era da modernizagAo na Amaz6nia foram ao menos contornadas. Mas Col- lor nao conseguiu construir nada. Na sua histdria de quase mil dias restaram apenas algumas estacas do que deveria ser uma grande construglo, sem alicerce, nem cobertura, uma miragem da nova era que ele pretendia inaugurar. Ambiguidade Segundo a apuragio dos re- p6rteres da Agencia Estado (de O Estado de S. Paulo), o de- putado federal (PTB-PA) Carlos Kayath faz o jogo do empresario Wagner Canhedo na CPI da Vasp, que tenta apurar na Camara irre- gularidades na privatizagio da empresa de aviagao paulista. JA a Folha de S. Paulo enquadrou o filho do ex-superintendente da Sudam como um dos "vidvos do governor Collor", que nao compa- receu "a dnica reuniao que a CPI fez" depois do afastamento do president. 4 INDUSTR1A Journal 'essoal Crise ou falencia A SPVEA (Superintend6ncia do Piano de Valorizagaio Econ6mica da Amaz6nia) foi criada em 1953 corn a missAo de promover a industrializa.ao da regiAo. Em seus 13 anos de vida deu prioridade a empress que produziriam no prdprio local bens destinados a substituir os que, antes, cram importados. Quase 80% dessas inddstrias se instala- ram em Bel6m, a maior cidade amaz6nica. Passados quase 40 anos, as atividades industrials nio conse- guem sustentar nem 20% da renda na capital paraense, cada vez mais dependent do setor tercid- rio, especialmente da burocracia official e do com6rcio. O sonho da industrializagAo, que esteve na base da primeira experi6ncia de planejamento regional no pafs, 6 corrofdo em duas frentes. Os que olham para o future gostariam que a Amaz6nia ficasse marcada por uma economic quaternaria, intensive em tecnologia, mais apta a usar inteligentemente os recursos naturais. Os que pensam no passado acham que a Amaz6- nia tert que ser mesmo uma su- pridora de mat6rias primas e in- sumos basicos aos centros mais adiantados. A regiAo, de qualquer maneira, teria perdido o trem da contemporaneidade. Entre ficar estagnada a meio caminho do beneficiamento de seus recursos naturais pela via traditional da inddstria e dar um salto para a era da informagAo, abandonando as ilus6es do mo- delo classico de desenvolvimento, a Amaz6nia parece sem rumo prdprio (a dnica diregio clara- mente estabelecida vem de fora, com o novo extrativismo mine- ral). Mais perdido encontra-se o Estado do Par&, que estabelece suas polfticas residualmente, co- mo sub-produto de decis6es maio- res. Atua assim apenas no varejo, sem f6lego para um planejamento criativo. A dnica polftica que o gover- no estadual parece capaz de ma- nejar 6 a tributaria. Quer sempre mais impostos, embora o ganho marginal seja reduzido por causa dos incrfveis canais de sangra- mento da receita, que se alimen- tam dos vfcios da maquina pdbli- ca. O Estado vem sustentando um contencioso cor a Companhia Vale do Rio Doce em torno de incid6ncia e alfquota de imposto, as vezes cobrado de atividades econ6micas sabidamente de pouco efeito multiplicador sobre a eco- nomia, como a mineragAo. Sem polftica industrial, o Estado quer tirar leite de pedra, sem compe- tencia e sem criatividade. A crise que quase chega so limited da falencia do setor in- dustrial no Pard exige reflexAo mais profunda e attitude mais con- sequente. A implantagAo da Zona Franca em Macapt 6 um novo element que reforga a perda do poder de competitividade do Es- tado. Sem investimento em ci6n- cia e tecnologia, o Para nao pode dar-se ao luxo de pensar em re- cuperar o tempo perdido e alcan- gar uma frente de produgio. Infelizmente questionamentos como esse nao aparecem nas pla- taformas polfticas, nem nas rei- vindicag6es dos integrantes do prdprio setor. O empresariado 6 tamb6m uma massa abdlica, in- forme, que nAo consegue ir alem dos interesses mais paroquiais. Durante 40 anos a Federaglo das Inddstrias do Part foi presidida por um polftico, o ex-senador Gabriel Hermes, quando muito representante empresarial do co- m6rcio. Para se manter quase perpetuamente, ele criou organi- zagdes satelitizadas, meras esco- ras ao seu poder. Panificadores de esquina adquiriram o status de industrials. Talvez essa representagio fosse um retrato do setor, mas certamente era uma expresslo al- terada, piorada. Finalmente os empresarios remanescentes que- braram essa estrutura viciada, mas ainda nio chegaram a uma representagio adequada e talvez nunca cheguem, se 6 que existe um ponto de chegada satisfat6rio para os integrantes dessa comiti- va sem rumo definido. Um caso de excegao ? toque no meu ombro 6 tfmi- do. Levanto os olhos e ve- jo, por trAs da cabelereira que me tosquia, o empresario Antonio Farah, dono da Facepa (Fabrica de Celulose e Papel do Par&). Voce tem uma hora para me ouvir? pergunta ele. Penso nos compromissos que mp aguardam depois do barbeiro, paquela tarde do dia 5. Tento en- contrar uma desculpa, mas ele in- siste, edqcadamente: Vai ser si uma hora. Ok, vocb venceu tenho a teatagio de dizer, mas nio digo. Apenas aceito o convite. Quase quatro horas depois, ja a noite avangando, Farah me deixa em casa. Mostrou-me, orgulhoso, uma das maiores fibricas instala- das em Belem, das poucas que ainda conseguem sobreviver. No mes passado tornou-se o maior client da Celpa no Estado: a conta de luz da Facepa passou de um bilhao de cruzeiros. Essa meta tambem foi ultrapassada pela fa- tura dos impostos, onerada espe- cialmente pelo IPI e o ICMS, mais do que o dinheiro consumi- do pela folha de pagamento dos quase 600 empregados, todos re- crutados no local. Mais de 30 anos atras, Farah chegou hquele trecho da Sacra- menta, um dos bairros mais po- bres de Bel6m, para ver um rudi- mentar equipamento de fabricagAo de papel grosso. Um m6dico esta- va disposto a se Hvrar do proble- ma em que se envolvera ao long de 10 anos. Bastava que o com- prador assumisse a dfvida que ele fizera junto a um banco. Atd algum tempo antes o pa- pel produzido era secado so sol. Farah, que comegou a carreira de empresario na inddstria de refri- gerantes, saiu atras de socorro Journal Pessoal 5 para reativar a fibrica. Quando p6s as m4quinas para funcionar, elas eram pouco mais do que um artesanato, cor 30 empregados produzindo tr6s toneladas ao dia. Neste ano, cor tr6s unidades em linha (a quarta, a pioneira, se tornard um sfmbolo), alcangard 100 toneladas difrias. Fechard o exercfcio cor faturamento mensal de dois milh6es de ddlares. Somos os terceiros princi- pais fornecedores de papdis finos do pals, garante Farah, enquanto aponta para uma enorme maquina Voith, fabricada pelos alemries em Slo Paulo: "6 a mais modern do pafs; aqui estamos no primeiro mundo". A razio para o convite, a vi- sita a fabrica e a long conversa a dois esti na dltima pigina do ndmero 95 deste Jornal Pessoal (da primeira quinzena de agosto). Farah nio gostou de eu ter estra- nhado que a Facepa voltasse a Sudam pela 13" vez para pedir colaboracAo financeira do gover- no federal, 28 anos depois de ter conseguido a primeira aprova&io (quando os incentives fiscais ain- da cram aplicados pela SPVEA, antecessora da Sudam). Nesse pe- rfodo, a Facepa conseguiu apro- vabio para seis atualizag6es, cin- co ampliag6es e uma reformula- gao, com a media de um novo projeto praticamente a cada dois anos. Farah nega que sua empresa possa, assim, ser apontada como "um dos maiores exemplos do capitalism de muletas praticado na fronteira amaz6nica, no qual o subsfdio estatal reduz ao mfnimo a margem de risco do empreendi- mento privado, anulando a funfio reguladora do mercado". Ele admite que a situagAo realmente existed. Seu esforgo 6 para me convencer que a Facepa deve ser enquadrada nas exceg6es e nAo na regra de desperdfcio de dinheiro pdblico, irracionalidade de projeto e inefici6ncia admi- nistrativa. Se fosse vendida hoje, a fabrica, geminada a uma unida- de de producgo de plastico, vale- ria nlo menos do que 35 milh6es de ddlares. A colaboragAo finan- ceira dos incentives fiscais repre- sentaria de 8 a 9 milh6es de ddla- res. "O restante foi agregado por muito trabalho no gerenciamento da fabrica, na negociagio dos contratos de venda, nos ganhos obtidos so comprar insumos e matdrias primas", assegura Farah. Os incentives fiscais, para ele, sio o dnico fator de atraggo para implantar uma fabrica em Belem. Todas as vezes em que precisou investor na ampliag~o e melhoria da Facepa ele recorreu a Sudam, "mas os resultados estlio af, visfveis, para quem quiser ver". Sua fibrica compete corn inddstrias que funcionam em Sio Paulo com uma escala de produ- gio varias vezes maior, o que di- minui o custo de produgbo de ca- da unidade, tornando-a mais competitive. Tambdm concorre com fibrica ainda mais incentiva- da na Zona Franca de Manaus, uma perspective que se tornard aguda, diz ele, cor a ZF de Ma- capd. E impossfvel nAo reconhecer que manter essa fabrica funcio- nando durante 30 anos 6 uma fa- ganha. Os tftulos da Facepa sio mantidos em carteira. A empresa nAo recorre a bancos para finan- ciar seu capital de giro. A amor- tizagio da terceira unidade esti em curso. A da quarta e dltima, que comegou agora a operar, esta enquadrada. Farah conseguiu rea- ver todas as ag6es preferenciais que fora obrigado a emitir em contrapartida aos recursos dos in- centivos fiscais que recebeu (ho- je, com a mudanga da legislagAo, sio debentures). Tirar as ag6es das mAos do Banco do Brasil, que chegou a ter 20% do capital da empresa, foi uma batalha. Dono de uma mo- numental conta com o imposto de renda, o banco possufa muitos certificados de investimento, um desses muitos "papeis podres" que a burocracia official espalha. Podia dar-se ao luxo de pagar duas ou tres vezes o "valor de face" (ou valor nominal) das ag6es da Facepa. Esses papeis eram normalmente comercializa- dos, pela esmagaora maioria dos "projetos Sudam" (em sua bolsa de valores especffica, criagio que seria aberrante se o regime fosse um capitalism para valer), por valor bem abaixo do declarado no papel. Farah chegou a ameagar descapitalizar a empresa, como tem sido pratica comum nos em- pereendimentos incentivados na Amaz6nia, se nio pudesse reaver as acses. O banco cedeu, nego- ciaram e o desfecho foi feliz. Farah nAo pode near que o dinheiro do imposto de renda 6 desviado por varias formas de sangria, sempre recriadas con- forme as circunstancias. Mas ele tem uma proposta que consider eficaz para corrigir essas distor- 9ces: ao inves de participar dos investimentos dos projetos priva- dos, distribuindo entire eles part da receita do imposto de renda, o governor passaria a conceder isen- g o de IPI as empresas aprovadas pela Sudam. Assim, sd teria beneffcio quem produzisse. O especulador seria eliminado do mercado pro- fetiza. Para compensar os Estados, privados de parte de sua receita, a Uniio distribuiria entire eles a receita de um novo fund, que continuaria a existir porque ape- nas seria reduzido o limited de de- dugio que os devedores do im- posto de renda podem fazer, quando optam por aplicar seu di- nheiro em regi6es ou stores in- centivados. Os atuais 24% cai- riam para, por exemplo, 20% do montante que, sem os incentives, seria recolhido ao tesouro nacio- nal como dfvida para cor o "leIo" da receita federal. Quanto so investimento na implantagAo do projeto, seus proprietirios po- deriam recorrer as linhas de crd- dito disponfveis, principalmente o Finame, do BNDES (Banco Na- cional do Desenvolvimento Eco- n6mico-Social). A demorada conversa mostrou que o empresdrio esti consciente dos erros e distorg6es da polftica de incentives fiscais. Reconhece a validade das crfticas. Mas diz- se convencido de que sem esse incentive ninguem mais se insta- laria em Beldm, onde as condi- 6des de competitividade slo des- favoriveis. Uma inddstria em Manaus nio paga 12% de IPI e de 12 a 17% conforme a operagAo) de ICMS, impostos calculados sobre o prego de venda e nAo so- bre o prego de produgio. Uma in- ddstria de Sio Paulo, por sua es- cala, coloca em Beldm seu pro- duto mais barato do que a da concorrente estabelecida na ca- pital paraense. A Facepa estA entire os rema- nescentes de um erodido surto de industrializagAo que podem ser contados nos dedos das mAos e nada aldm disso. A sobrevivencia nio 6 atestado de qualidade, mas sem ddvida 6 um dado a ser ana- lisado, sem a condescendencia que abona os maus empresdrios, mas cor atengio para sua cir- cunstAncia. 6 Jornal Pessoal CARTAS A voz do leitor Depois de completar cinco anos de vida, o Jornal Pes- soal registra outra data para sua hist6ria: alcanga o ndmero 100, ultrapassando a barreira dos dois dfgitos, que tem sido fatal para mais de 80% dos periddicos da imprensa alternative, segundo o levantamento de Bernardo Ku- cinski (divulgado no livro Jorna- listas e Revoluciondrios). A mar- ca talvez possa ser considerada uma faganha, mas nio atesta a consolidagio deste journal, nem garante que ele vb sobreviver at6 outras datas comemorativas. Seu future continue sendo tAo impon- deravel quanto desconcertante 6 o seu passado e precdrio o seu pre- sente. Journal feito por uma s6 pes- soa, por isso mesmo o JP imp6e varias desvantagens e cobra pe- sados sacriffcios. Num journal conventional, o reporter tem atris de si a empresa, entidade an6nima, cor a qual pode ou nio estar identificado. Quando os personagens que entrevista Ihe cobram uma posigio, pode trans- ferir a responsabilidade por de- terminadas decis6es editorials pa- ra sua retaguarda e livrar-se de situag6es inc6modas, como estao cansados de saber, por exemplo, os jornalistas da Rede Globo. Al6m disso, os autores dos textos mais agressivos ou incisi- vos nem sempre vao para a rua. SAo editorialists, articulistas ou colunistas que se servem mais do telefone ou de conversas de gabi- nete para produzir seu material. Raramente precisam enfrentar, "ao vivo", os alvos de suas crfti- cas ou desafetos, poupando-se de desgastes e constrangimentos. Num journal de uma pessoa s6, como o JP, faz-se jornalismo co- mo o motociclista, que ter no rosto o verdadeiro para-choque da mdquina. E num journal como este, que recusou desde o infcio a publicidade e nao tem qualquer intermedidrio entire a informagao coletada e aquela que vai para o papel impresso, o ever de publi- car tudo represent um encargo pesadfssimo. Um leitor desavisado pode pensar que por trAs de textos agressivos deve estar um redator inconsequente. Ja ouvi a acusa- glo, de "viva voz". No entanto, cada vez mais pago um prego doloroso por essa absolute liber- dade que tenho me proporcionado neste journal. Quando fago sua dl- tima e solitAria revisio, antes de entrega-lo ao impressor, a anteci- pag[o das previsfveis reag6es a determinados artigos me enche de angdstia. Assim tenho perdido bons amigos. NAo podendo argu- mentar contra minhas informag6es e andlises, alguns recorrem r re- laqgo pessoal como instAncia ar- bitral. Mas eu nao iria reeditar, neste espago tAo diminuto e tio caro para mim, as praticas de compadrio da grande imprensa. 0 acdmulo de experiencias traumAticas, entretanto, tem me feito pensar se vale mesmo a pena manter um journal como este. A omissao as vezes inteiramente injustificAvel da grande impren- sa tern feito do JP, com frequen- cia maior do que me seria possf- vel suportar, uma espdcie de ca- nal dnico de drenagem do sujo da sociedade. Muitos personagens poderosos logo percebem que determinados assuntos s6 saem aqui e sAo assuntos terrivel- mente sdrios, como a penetragao do narcotrAfico, a corrupgAo na administragro pdblica, as mano- bras das elites no jogo pelo po- der, etc. Detectar esses temas, apurd-los e dar-lhes o tratamento adequado 6 tarefa capaz de con- sumir toda uma equipe de bons jornalistas. A sinal alarmante da mediocridade jornalfstica que a reprodugao dessa alucinante ri- queza de fatos amaz6nicos seja tAo pobre. Todos os que jA me ouviram falar e escrever sobre jornalismo sabem da minha imensa admira- qgo por I. F. Stone. Durante 19 anos ele fez um journal parecido com este, o I. F. Stone's Weekly. Aos poucos fui tendo uma avalia- gio mais profunda do que ele de- ve ter passado para sustentar seu semandrio, mas Stone estava em Washington, nao era obrigado a defrontar-se diretamente com os personagens do cotidiano e tinha a seu favor uma sociedade efeti- vamente sensfvel a mfstica da im- prensa livre. Nenhuma dessas vantagens comparativas diminui os mdritos de seu journal, mas po- de atenuar as carencias de outras publicag6es, como esta. Se elas morrem, apds uma trajet6ria nobre, 6 porque seus destinos independeram em grande media da vontade de seus res- ponsdveis. Ao mesmo tempo em que procuram registrar a histdria, elas sfo tambmr um produto his- tdrico, como nota o advogado Jo- sd Maria Alencar, em uma das cinco cartas escritas por leitores especialmente para esta edigbo (e reproduzidas a seguir). O Jornal Pessoal, como escre- veu Haroldo Maranhao em um ar- tigo para A Provincia do Pard, parece ter chegado ao seu ponto de exaustAo. Nao consegue am- pliar o pdblico, formando novos leitores, nem abrir canais de di- vulgagio. Muitas pessoas das classes A e B, que constituem seu pdblico principal, perdem exem- plares simplesmente por nio pro- curarem mais as bancas de revis- tas. A safda natural para resolver esse problema seria a volta das assinaturas, mas este 6 um es- quema que se tornou inacessfvel para um journal de uma pessoa s6. Assim, o JP marca-passo para manter o registro dos tempos em sintonia com uma parcel menor (ainda que influence) da socieda- de coisa, talvez, de confrarias, mas ao menos um sinal vivo da resistencia. Por quanto tempo ele conti- nuard vive, rem o autor deste journal pode responder. Mas se defender da amostragem de leito- res reunida nestes depoimentos, jamais faltarlo motives para que uma publicagio como esta per- sista teimosamente na busca da sobrevivAncia. Do advogado Jod6 Maria Quadr s do Alaecar: "Atendendo a convocaglo publicada sob o tftulo Ndmero 100, oferecemos as seguintes respostas as quest6es ali propos- tas: 0 Joral Pesoal nio se exauriu, em- bora seu editor possa estar exausto fisica- mente (pois intelectualmente esta em plena ascens[o, na fase que reputamos justa- mente a mais produtiva e amadurecida de sua carreira). a verdade que as possbilidades de crescimento do journal slo restritas. Acre- ditamos que o journal segue a sina de quase ) Journal Pessoal 7 tudo o que se contem na Amaz6nia: seu crescimento depend do exterior (no senti- do extermo I Amaz6nia). Ele, como os produtos amaz6nicos, depend do mercado externo para crescer. Internamente, do que conhecemos, atingiu seu limited miximo. Nao temos mesmo como fazer crescer seu mercado interno. Nio hi concentrag~o de massa cinzenta na Regilo capaz de au- mentar o crescimento do experiment. Essa 6, pelo menos, a sensagio que temos (dizemos sensaglo por faltar-nos dados quantitativos para avangar algo mais que apenas isso). O journal esta condenado. Condenado a sobreviver. Mante-lo chega a ser um im- perativo que transcende ao dever pura- mente intellectual do editor e seus leitores, para alcangar outras culminAncias, inclusi- ve As que se relacionam & etica e I Polftica (mas tamb6m & Poetica). Tendo roubado o fogo, dando-o aos amaz6nidas, o editor do journal esta conde- nado a ficar acorrentado A Amaz6nia. Cada pedago do ffgado que Ihe tiram os abutres, cresce em seguida, e na quinzena seguinte aparece nas bancas, em form de journal. Sem vestfgio de sangue ou bflis, embora as vezes marcado pelo tom amargo e travoso. Temos no journal um instrument de navegag&o, de uso indispenslvel para quem se aventura na Amaz6nia, onde mais que nunca navegar 6 precise. Da bdssola ao girosc6pio, do olho nu ao radar, do astro- libio ao satelite, da poita ao sonar, da pena ao editor de texto, todos permitem uma visada da Amaz6nia, quase sempre parcial. S6 a potent intelig8ncia do home e nisto o editor do journal esta bem equipado - permit integrar todas essas mdltiplas visoes, fazendo mais segura a navegagio e a travessia. Travessia que mais uma vez nos coloca no meio da borrasca. Neste fi- nal de milenio tememos e sofremos corn a possibilidade ver a Amaz6nia condena- da a um neoextrativismo (ou extrativismo avangado como prefer chamar a Sudam) que nos leva ao ponto de partida de cinco centdrias atrls. Afinal, a biodiversidade pode ser a droga do sertio deste final de mil8nio. O ferro (brasileiro) e o carvio (co- lombiano) nao servirlo para levar a Ama- z6nia no rumo de uma sociedade industrial e modern (exceto um ou outro nicho de modernidade cercado de pr6-modernidade por todos os lados). Estamos escrevendo uma histdria cotidiana que arrisca a nos levar rumo a prd-histdria e h barbarie. Isso tudo enquanto part do mundo jS caminha velozmente para a p6s-modernidade. O fascinante nisso tudo 6 que conti- nuamos aptos a estabelecer enlaces e in- terfaces com esse mundo pds-moderno, enquanto continuamos prd-modernos. O journal ele pr6prio uma interface - 6 o instrument que rastreia e checa o fun- cionamento dos enlaces e interfaces, e nele lemos os indicadores mais importantes da realidade amaz6nica, cor elevada preci- slo. De bonificagao, ainda recebemos uma analise inicial, inteligente e imediata, dos dados assim disseminados". De Marcelo Silva da Crz: "Venho, por meio desta, parabeni- za-lo pelo centesimo ndmero do Jorual Pessoal. Bern sei o quanto deve ser dificil manter uma ediglo independent numa terra de gente semi-analfabeta como a nossa, principalmente quando a conduta editorial da mesma 6 pautada pela infor- magio real, analisada de form crftica e inteligente. Numa terra que nao esti acos- tumada a pensar por si, sendo geralmente conduzida por caciques polfticos e por monstruosas campanhas dos meios de co- municaglo, manter um trabalho de im- prensa alternative 6 uma faganha admirl- vel. Deixando de lade os proleg6menos, gostaria de lhe falar sobre fates que estio me preocupando bastante. O mundo parece assistir a um crescimento significativo do nacionalismo, particularmente na Europa e aqui mesmo no Brasil, onde os Estados do Sul se unem no desejo de emancipag~o. Enquanto isso, o Pard se v8 na iminencia de ser desmembrado em dois (ou tr6s, ate) Estados. Vejo nisso apenas a velha question dos interesses econ6micos, que moveria essa campanha sutil da qual o povo se en- contra totalmente alienado. Hd muito o Par& vem sendo aviltado em suas riquezas. O Mato Grosso 6 um dos maiores comerciantes de ouro do pafs, ouro roubado do ParS. Nossa madeira 6 le- vada para o Sul e depois revendida para nds na form de mercadorias diversas, a pregos exorbitantes, sd pelo fato de vir do Sul. Nosso porto ja esteve, virias vezes, ameagado de perder sua importincia por causa de projetos para a criagio de um grande porto de cargas no Maranhbo - particularmente no governor Sarney. Os ja- poneses devoram os nossos mindrios e, dos lucros dessas transaq6es, nenhum centavo parece ser aplicado no prdprio Estado. Os neo-nazistas do Sul tratam os nordestinos e nortistas como ragas inferiores e perni- ciosas, apesar de ter sido o brago de nossa gente que ergueu Slo Paulo e Rio. O sul do Pard permanece esquecido pelos nossos governantes corruptos, incompetents e oportunistas. A nossa cultural nao tem o menor apoio de entidades governamentais, esta se perdendo. Que valor tem o Estado do Par& no context national, aldm do evi- dente interesse por suas riquezas? Querem nos fazer de depdsito de lixo radioativo! Sinto nio haver sentido nos seus co- mentirios finals da ediglo de ndmero 99 do Jornal Pesoal. Afinal, se o senhor acha que o seu journal nao tern future (ou que jA exauriu seus recursos), cor a abrangbncia e o peso politico que possui, imagine os obscures "fazedores" de periddicos xero- cados, em tiragens nio excedentes a 50 exemplares (os chamados fanzines)? 0 re- torno deles 6 quase inexistente e, ainda assim, eles insisted na produgio dresses periddicos. A meu ver, nesses quatro anos de existencia (na verdade 1so cinco. N. da R.), o Jornal Pesoal vem cumprindo seu papel de fazer uma imprensa alternative corajosa e, principalmente, coerente. Mas devo concordar que a saturagio, ate mesmo pela falta de um feedback maior desse tra- balho, pode ser mesmo deprimente. Eu acompanhei, ainda que esporadicamente, a sua batalha contra a eleiglo do politiqueiro canalha e desequilibrado que 6 H6lio Gueiros e, no entanto, o mesmo 6 consa- grado pela massa ddcil e servil. Oh tern- pore! Oh mores! Talvez seja a hora de assumir uma postura mais agressiva na sua conduta co- mo jornalista. O Pard precisa resgatar sua identidade e criar uma nogao de amor pa- trio. Para isso, penso eu, 6 precise desen- volver uma consciencia nacionalista na populagbo, visando a valorizagio do nosso espago, da nossa terra, da nossa cultural, da nossa identidade, nao numa acomodaglo passiva e alienada de home amazdnida para turista ver, mas na criagio de um po- vo forte e independent. Independencia pode ser a palavra- chave. Os Estados do Norte tem potential para se manterem sozinhos (nbo agora, mas a mddio prazo, atrav6s de um intense tra- balho de esclarecimento). Nesse context, o Joral Peossoal pode ser uma arma pode- rosa. Este assunto 6 por demais extenso, complex e delicado, nbo send possfvel discutf-lo, em sua totalidade, numa sim- ples carta. Mas gostaria de ter a sua opi- nibo a respeito. No mais, desejo que o Jormal Pcusoal continue incomodando aos mafiosos da ci- dade. Nesse desert de informag6es vicia- das, o Jornal Peosoal 6 um verdadeiro ob- sis". De Lanurtie Carvalho: "Parabens pelo 100 JP. Imagine que nao deve ter sido fbcil para voc8 ter che- gado ao n 100 contra tudo e contra todos, uma vez que a imprensa normal tem outros objetivos. Parab6ns. Respondendo sua pergunta: a fungio do JP, para mim, 6 a certeza da informag&o correta cor a crftica necessaria e isenta de bajulaqao costumeira em outros periddi- cos. Eu pediria apenas que voc8 continue cor as anblises sobre as coisas da Amaz6- nia, como tambr m comentirios sobre seus principals lfderes, como, por exemplo, so- bre Cipriano Sabino, sua trajetdria polfti- ca, o que ele fez na Cmrara de Vereadores e na Assembl6ia Legislativa". 0 Da estudante Bdineide Santo. Cocllo: "Considero inquestionvvel a necessa- ria sobrevivencia desta autentica fonte de pesquisa. E 6 justamente isso que me leva a seguinte questio: por que uma circulagao tio restrita para um journal tio abrangente e tbo important? Obviamente, essa pergunta nbo deve ser e nem estd sendo dirigida a voce, mas sim a todos que conhecem o Jornal Pesoal e, principalmente, aos que t6m o "poder" (mas, talvez, nao o interesse) de faz8-lo circular em todos os locals que prop6em um intercAmbio de aprendizagem e uma formagio polftico-cultural mais ampla. Obrigado, Ldcio, por este journal al- ternative e independent (em todos os sen- tidos), que nos permit o confivvel acesso &s informac6es. Parabnns por estes 100 ndmeros de reflexio crftica, que expressam sua indig- nag o, sua coragem, seu conhecimento e sua rica vivencia slo, portanto, 100 nd- meros que dio vazlo a uma voz, que nao pode deixar de ser ouvida". 0 O leitor Laerto Gomes Fragoso desen- volveu sua carta em torno de tres pergun- tas. A primeira ("o JP se exauriu, esgotan- do suas possibilidades de crescimento, ou ainda deve sobreviver?"), responded: "E- xauriu, ficou velho, acho que nbo cor re- laglo a voces, pois compare ao bom vinho. Esgotando suas possibilidades de crescimento, depend muito do objetivo de crescimento, enquanto ser modern 6 ser micro e nio macro. Tudo vale se tiver qualidades e v-c8s tem atd demais. Ou ainda deve sobreviver. Navegar 6 precise e muito important no vosso ca- so". A outra pergunta ("Que funglo ele desempenha para os seus leitores?"), res- pondeu: "Informag6es objetivas, verda- deiras, sem vfnculo pessoal, partiddrio ou personalista. Continuando assim tenho certeza de que voc6s contarlo com o apoio das pessoas que querem bem a este pafs, a este Estado e a este tabldide". Quanto ao future para o JP, escreve Laerte: "Uns esperam Godot, outros Cristo. Voces, a quem esperam?". Equilibrio O governor Jader Barbalho vai consumer dois tergos de seu mandate tentando manter a ma- quina pdblica estadual em equilf- brio. As grandes obras, previstas no piano plurianual (1992/95), deverAo ficar apenas no papel, como a hidrel6trica de Aparaf, o porto de Vila do Conde, a alga rodoviaria ligando Beldm ao bai- xo Tocantins e a hidrjvia Ara- guaia-Tocantins. Malmente o Es- tado tentara dar conta dos princi- pais servings de infraestrutura necessArios a vida coletiva nor- mal nos principals ndcleos urba- nos. Naturalmente, a dltima parte do quatri8nio sera usada para transformer pequenas obras, inauguradas cor toda a festivida- de possfvel, em votos para o su- cessor que Jader Barbalho ira in- dicar. A proposta de lei orgamenta- ria para o pr6ximo ano, no valor global de 5,8 trilh6es de cruzei- ros, por ele encaminhada no final do mes passado a Asssembl6ia Legislative, 6 um desses docu- mentos que fazem a alegria dos tribunals de contas. As rubricas estao todas bem enquadradas nu- ma repartiAio harmoniosa que prevC 60% da receita utilizada nas despesas cor pessoal, 15% para custeio, 15% para investi- mento e 10% para a amortizagio da dfvida estadual. A receita pr6- pria responded por mais de metade dos recursos do Estado, que conta cor mais 10% dos 6rgAos da ad- ministracio indireta e obt6m ou- tros 6,7% atrav6s de operag6es de crddito, dependendo em pouco menos de 32% de transferencias federais. Esse belo desenho contabil, no entanto, ter pouco valor fora de sua moldura. A administracAo pdblica continuara na retaguarda dos problems que sao criados no Para pela migragio acelerada e a abertura de frentes econ6micas em Areas pioneiras. O piano plu- rianual prev8 para o perfodo 1992/95 um crescimento de 4,1% ao ano da economic national contra 2,7% da economic esta- dual. Seu crescimento mais acele- rado sd poderia ser retomado pe- los "projetos vitais" relacionados no prdprio piano (ao custo de um investimento de mais de um bi- lhAo de ddlares), mas que estio fora do alcance do Estado. Mesmo assim a mensagem do governador prev8 um crescimento de 12% ao ano para a arrecadagao do ICMS, a principal fonte de re- ceita do Estado (quase 60% da arrecadagio pr6pria), para este ano e 1993, "em decorrencia do esforgo de arrecadag4o, moderni- zagao do sistema fazendArio e re- dugao da sonegaago". Mas 6 pouco provavel que as raras e anemicas polfticas de in- dugao de investimentos que o go- verno vem promovendo sejam ca- pazes de compensar a retracAo da atividade econ6mica, fazendo-a refletir-se, mais do que sobre o caixa do tesouro, sobre os ndme- ros da produgAo, da geragao de renda e da absorgao de mao-de- obra. Sem essa visao mais ampla, o Estado continuard cavando um fosso que o separa da sociedade e, mesmo fortalecendo-o, torna-o mindsculo para enfrentar os pro- blemas colocados sob sua jurisdi- g o e responsabilidade. A volta P ela quarta vez consecutive o Para faz, sem problems, o superintendent da Sudam, que jA foi o cargo federal mais impor- tante e disputado na Amaz6nia. Depois de Elias Sefer, Henry Ka- yath e Alcyr Meira, 6 a vez de Oziel Carneiro. Meira teve a vantage adicional de contar, na maior parte de sua gestao, de mais de dois anos, cor superin- tendentes adjuntos indicados por ele, todos paraenses tamb6m. Mas, al6m de enfrentar uma Su- dam esvaziada, acabou aceitando as interferencias do secretario de desenvolvimento regional, Eg- berto Batista. O saldo do balance 6 negative. O desafio diante de Oziel 6 enorme. Ele 6 um dos mais expe- rimentados homes pdblicos pa- raenses, depois de passar pelo Banco do Brasil, Banco da Ama- z6nia e secretaria do Programa Grande CarajAs, al6m de ter dis- putado o governor do Estado e exercido a senatoria na suplAncia de Jarbas Passarinho. Tambim 6 empresario, divindo parceria corn o irmio, Armando Carneiro, que da polftica atravessou para a in- ddstria, fazendo caminho inverso. Os negdcios da famflia entra- ram em crise e um dos maiores, o principal a remanescer, o do Hilton Bel6m, gerou uma dfvida expressive junto ao Banco da Amaz6nia, para cuja mais recent diregao, a de Anivaldo Vale, a indicagAo de Oziel (na 6poca se- nador) foi decisive. Agora ele se- rA responsAvel pela principal fonte de recursos do banco, os incentives fiscais, gragas a lem- branga do ministry do Interior, Alexandre Costa, que sugeriu o nome de Oziel ao president Ita- mar Franco (Passarinho, consul- tado por Itamar, depois, apro- vou). Oziel volta, assim, a uma instAncia do poder atrav6s do Ma- ranhAo, sua terra de origem, ge- ralmente apontado como algoz do Pard na dispute regional. A pontaria W ilson Martins 6 um clarAo de lucidez, densidade e solidez na pasmaceira geral dos resenha- dores (de orelha) de livro no pafs, bitolados por um noticiaris- mo de ocasiAo. Sustentado por longos anos de apurada leitura, Wilson Martins nao 6 o crftico- gregario, que empresta linguagem e id6ias da patota para manifestar sua opiniAo. Raciocina de moto pr6prio, mas em companhia de uma vasta retaguarda de consult. Em artigo para o suplemento Livros & Ensaios, do Jornal do Brasil, Wilson faz uma precisa avaliagio da carreira de escritor de Chico Buarque de Hollanda, escrevendo o que certamente muita gente diz e reserve para conversas ao p6-do-ouvido. O primeiro livro de Chico, Fazenda Modelo, "6, na verdade, uma pa- rdfrase pura e simples" do aleg6- rico A Revolugio dos Bichos (Animal Farm), de George Or- well. Ja a Opera do Malandro foi um "recozimento" de John Gay, por sua vez retrabalhado por Bertold Brecht, "ou seja, imita- cAo de uma imitagio". E o mais recent cometimento, Estorvo, 6 "pardfrase de uma obra literaria- mente muito mais vigorosa e ori- ginal": o romance Zero, de Igna- cio de Loyola BrandAo. Os faniticos defensores do excelente compositor Chico Buarque de Hollanda dirAo que se trata de despeito do crftico. Bo- bagem. E uma crftica poderosa e certeira, das raras que se pode ler na imprensa brasileira. Journal Pessoal Editor responsavel: Lucio Flivio Pinto IlustraCqio Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone 223-1929 OpCao Editoral |
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