Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00075

Full Text







ornal Pessoal
E D ITOR R ESPONSA V EL L U C IO AV PINTO

Ano VI N 100 2a Quinzena de Outubro de 1992 Cr$ 3.000,00

ELEIQAO



O poder dividido

O ex-governador H6lio Gueiros foi o grande

vencedor na eleiqao de outubro. Mas nio foi uma

vit6rla tao consagradora. Agora os inimigos

Irio preparar uma guerra ainda malor, a de 1994.


- _,_ ---;7~--~--
a~ --~---~---
~
;-----~-
-~--


Opoder polftico no Para fi-
cou mais dividido depois
das eleig6es de outubro e
algumas tfmidas promessas de op-
gao surgiram no horizonte. Mas
tao logo.os prefeitos e vereadores
assumam seus cargos, a 12 de ja-
neiro do prdximo ano, estara
aberta a dispute para as eleig6es
de 1994. Nos p6los extremes des-
sa guerra que se anuncia estarao
outra vez Jader Barbalho e Hdlio
Gueiros.


O ex-governador foi o grande
vencedor na dispute em Bel6m. O
mais votado em todos os bairros
da capital paraense, conseguiu
impor uma definiqao ja no primei-
ro turno. Mostrou que ter identi-
dade eleitoral e recomp6s seu de-
sarticulado grupo polftico, crian-
do condig6es para reapresentar-se
como candidate ao governor do
Estado dentro de dois anos.
Mas a vit6ria de Gueiros ad-
mite diversos enfoques. Apesar


de ganhar no 12 turn, sua vanta-
gem sobre os demais candidates
foi estreita: menos de 1%. Foi
tambdm uma queda expressive em
relagao a votacao alcangada por
Sahid Xerfan quatro anos antes:
50,8% contra 82%. Afora as ine-
giveis qualidades do ex-governa-
dor para lidar com o eleitorado
paraense, A mercer de sua dema-
gogia barata, os erros de seus ad-
versarios facilitaram sua tarefa.
Os cometidos pelo governador )








2 Jornal Pessoal


Jader Barbalho e sua equipe ex-
trapolaram as expectativas. Eles
montaram a campanha de sua
candidate, a deputada federal So-
corro Gomes, sem prestar atengao
ao clima na cidade e sem acom-
panhar as inteligentes mudanqas
na imagem bem trabaihada de
H6lio Gueiros.
Socorro comegou cjm quase
um quarto dos votos, na primeira
pesquisa de opiniao, realizada
apenas uma semana depois que
ela se tornou realmente candida-
ta. No final, estava reduzida a
pouco mais da metade das inten-
g6es de voto dos eleitores, abaixo
de Cipriano Sabino e apenas dois
pontos percentuais acima de Fer-
nando Velasco em 1986.
A queda livre pode ser atri-
bufda a virios fatores. Em pri-
meiro lugar, a prdpria fraqueza
da candidate, revelada sem dis-
farces no primeiro debate pela
televisAo. Em segundo lugar, A
indefinigao dos seus programs
eleitorais, que nio conseguiram
imprimir uma marca forte & sua
candidatura. As interveng6es dos
seus principals aliados tambem
foram desastrosas, a comegar pelo
governador, que tocou os brios
do eleitorado quando ameagou
rudemente cancelar o maior pro-
grama urban de Belem nos ilti-
mos anos, o de macrodrenagem
das baixadas (no valor de 210
milh6es de ddlares) e retaliar a
administraiao municipal se H6lio
Gueiros fosse o vencedor. A apa-
rirqo de Xerfan tambCm foi des-
favoravel e Almir Gabriel poderia
ter continuado em seu auto-exflio
em Brasflia.
A ilusao de que o control da
maquina official 6 o suficiente pa-
ra eleger qualquer candidate foi
fatal para o esquema situacionis-
ta. O prefeito Augusto Rezende
foi queimando sucessivas alter-
nativas achando que elegeria
quem quisesse. Quando restava
unicamente Socorro Gomes, todos
apostaram na redundante belico-
sidade da candidate, que nio con-
seguiu ir aldm de palavras de or-
dem, ineficientes em debates ou
nos programs de televisao.
S6 & dltima hora o clientelis-
mo official foi usado em favor de
Socorro, quando uma das raz6es
do sucesso de HWlio Gueiros (a-
lem de set um atestado da espan-
tosa pobreza que caracteriza a
maior cidade da Amaz6nia) foi
justamente o program "cami-
nhando cor o povo". Atropelan-


do as cautelas legais e favorecen-
do uma aqao entire amigos forne-
cedores, esse program consa-
grou a eterna divisa popular do
"rouba, mas faz", que leva a po-
pulagdo a anistiar corruptos, des-
de que eles dividam o produto de
sua agdo.
O "boca de urna" no dia 3 ti-
rou Socorro da linha descendente,
permitindo-lhe distanciar-se um
pouco mais do candidate do PT,
Josd Carlos Lima. Mas foi um
crescimento de apenas 20%, insu-
ficiente para assegurar um segun-
do turno. Na linha do fisiologis-
mo, que ainda C o fator determi-
nante das eleig6es em col6gios
eleitorais pobres como o de Be-
14m, o investimento teria maior
retorno se aplicado em Cipriano
Sabino, o candidate da coligacao
PDS-PL.
O pai dele, o empresdrio Sa-
bino Oliveira, ficou esperando
pelos 2,9 bilh6es de cruzeiros
que o governador Jader Barbalho
autorizou o Estado pagar I Sana-
ve, por conta dos services de tra-
vessia de Bel6m para Barcarena,
realizados pela empresa logo que
a concessao dada A Rodomar foi
cancelada. Mas a autorizacgo fi-
cou retida na Secretaria do Pla-
nejamento, a quatro dias da elei-
glo, quando o fundo de campanha
de Cipriano estava praticamente
esgotado. A secretiria Maria Eu-
genia, uma das que mais apoiou
Socorro Gomes dentro do gover-
no, achava que a candidatura da
deputada do PC do B poderia
ainda crescer. O "boca-de-urna"
de Cipriano foi abalado pela falta
de dinheiro.
O epis6dio era lembrado por
seus correigiondrios com o mes-
mo ar de desolaqAo dos que
apoiaram a candidatura de Sahid
Xerfan ao governor em 1990. Eles
ficaram convencidos de que se o
entAo governador H6lio Gueiros
tivesse antecipado de alguns dias
o pagamento de aumento aos ser-
vidores estaduais, o resultado da
eleigio teria sido diferente. Por
que esse "pauzinho" nAo foi me-
xido, eles nao sabem explicar,
mas dessa perplexidade nasceu a
discdrdia pds-eleitoral entire Xer-
fan e Gueiros, aliados do passado
que hoje nao conseguem mais
nem se ver.
Helio Gueiros na prefeitura
de Bel6m e Jader Barbalho no
governor do Estado, poderia haver
uma composigio entire os dois?
Os polfticos tradicionais, que nao


se cansam de citar a paribola do
boi voador (em polftica ja viram
tudo, ate boi voar), nio se atre-
vem a negar essa possbilidade,
mas ela 6 muito mais do que re-
mota. O governador disse de pd-
blico que nem pretend cumpri-
mentar o future prefeito. Prome-
teu desistir da implantagao do
program de baixada, que depen-
de do Estado.
Essa afirmativa 6 temeriria
por varios fatores. Agora, o prin-
cipal 6 que talvez o program nAo
se viabilize por outro motive: a
Uniao nao dara seu aval ao em-
pr6stimo do Banco Interamerica-
no de Desenvolvimento (de 145
milh6es de d6lares) enquanto o
governor do Pard nio acertar corn
o Banco do Brasil uma pendencia
no valor de pouco mais de US$
30 milh6es. Essa C a parte de um
emprdstimo maior, de US$ 102
milh6es, que nio foi repactuada
juntamente com a dfvida externa
brasileira. O emprestimo foi
aprovado ainda na primeira ges-
tAo de Jader Barbalho, mas o di-
nheiro entrou durante o governor
Hdlio Gueiros (e teria "sumido",
segundo o novo governor .
As relac6es entire o governa-
dor e o prefeito da capital deve-
rao ser diffceis e irao provocar
um desgaste na gestao dos negd-
cios pdblicos. P provavel que Ja-
der consiga former maioria na
Camara Municipal, complicando a
situacio de Gueiros. Certamente
ter& ampla maioria no interior,
mesmo prejudicado nos municf-
pios de maior densidade eleitoral,
atrav6s dos tries partidos que usou
para abrigar correligion4rios e
aliados, o PMDB, o PDC e o
PST, al6m das ades6es alcang4-
veis em outros partidos, desde
que o governador de demonstra-
c6es de forga.
Ao assumir o governor, Jader
tinha apenas um quarto da As-
sembl6ia Legislativa e hoje, na
metade de seu mandate, a con-
trola. Ele pode achar que esse re-
sultado 6 consequAncia apenas de
sua habilidade e argdcia, mas na
verdade 6 um efeito do poder.
Daf essa dispute obsessive pelo
control da miquina official e o
prejufzo que essa guerra causa ao
Estado e ao governor pelos que
deles querem se apossar apenas
para se servir. A meteorologia
polftica avisa: o Para vai conti-
nuar andando para trAs nos pr6-
ximos anos.








Jonal Pessoal 3

COLLOR



Propaganda amazonica


Fernando Collor de Mello
prometia mudar a face da
Amaz6nia. Numa perspecti-
va quinquenal, de 1991 a 1995,
ele assegurava que iria investor
na regiao 45 bilhe6s de ddlares,
US$ 9 bilh6es a cada ano, mais
do que a soma do valor gasto nos
grandes projetos ate entao im-
plantados na regiAo. Uma ordem
de grandeza sem paralelo, mesmo
cor a era do "Brasil Grande",
que engendrou o sistema rodovid-
rio e todas as suas impressionan-
tes consequencias e sequelas.
Mas o governor Collor nAo
pretendia ser apenas uma repeti-
gAo desse grandiosismo irrefleti-
do. Ele determinou a suspensAo
da colaboragAo financeira da
UniAo para as fazendas de gado.
Mil delas receberam dinheiro dos
incentives fiscais para implantar
sete milh6es de hectares de pas-
tagem e former um rebanho de
tries milh6es de cabegas. Mas nAo
menos de 70% dos US$ 1,5 bi-
Ihio a elas destinados se perdeu.
Ficou a devastacio de milh6es de
hectares do que antes era floresta
densa, riqufssima em diversidade
de vida animal e vegetal, pratica-
da por esses projetos agropecud-
rios e por milhares de outros em-
preendimentos nAo incentivados,
que eles atrafram cor seu efeito
multiplicador.
Collor dizia que iria apostar
na modernizag&o da fronteira. A
Amaz6nia, entregue & sanha do
banditismo, passaria a ter um
piano de desenvolvimento preo-
cupado com a ecologia, com tec-
nologia mais sofisticada e com a
qualidade de vida. Ela se desvin-
cularia do process industrial
traditional e saltaria para uma era
pds-industrial, com investimento
em tecnologia de ponta, cor a
preocupagio qualitativa na rela-
cgo social de produigo e na rela-
g o dos homes cor a natureza.
Promessas e pap6is foram
despachados dos laborat6rios
ideoldgicos de Brasflia. Mas nlo
o dinheiro, nem mesmo o docu-
mento formal. O Piano de Desen-
volvimento da Amaz6nia
(1991/1995) ainda nio foi con-
clufdo, mais de dois anos depois
de ter sido iniciado, quando o
Congress Nacional j[ deveria t6-


lo aprovado para que passasse
a ter a forga de lei.
Fiel a seu compromisso retd-
rico de modernizagio, o presi-
dente tinha uma diretriz para a
Amaz6nia. A regiao deveria con-
tinuar crescendo mais acelerada-
mente do que o prdprio pafs,
voltada para o mercado externo.
Mas seu parceiro preferencial
deixaria de ser os Estados Uni-
dos, cujo mercado consumidor
esta bastante afetado, para ser o
Japao. Nao foi por mero acaso
que esse foi o dnico pafs mencio-
nado explicitamente por Collor
em seu discurso de posse. E 6
menos casual ainda a presenga do
ex-presidente da Companhia Vale
do Rio Doce e seu principal ted-
rico, o engenheiro Eliezer Bap-
tista, a frente da SAE (Secretaria
de Assuntos Estrategicos), que
substituiu o SNI com a missAo de
fazer inteligencia para valer ao
inves de bisbilhotagem.
Collor mandou que a linha de
frente dos assuntos amaz6nicos
deixasse de ser constitufda por
tecnoburocratas do apparatchik e
ficasse cor os empresarios, os
verdadeiros agents da moderni-
dade e da economic que valeria a
pena, a de mercado. Gerente des-
se modelo, a CVRD passou a im-
plementi-lo atrav6s do program
de pdlos florestais projetado para
o eixo da ferrovia de Carajas,
870 quil6metros de extenslo en-
tre a mina, na serra paraense, e o
super-porto de embarque no lite-
ral maranhense. Fabricas de ce-
lulose, grandes plantios florestais
e usinas siderdrgicas deveriam
pipocar ao long da linha, absor-
vendo uns US$ 15 bilh6es nos
prdximos anos.

Indiana Collor

Para mudar o visual do go-
verno na region, Collor atraiu pa-
ra o seu lado dois personagens
emblematicos da suposta moder-
nidade: o ex-reitor da Universi-
dade de SAo Paulo, Jose Goldem-
berg, para cuidar da ciencia, e o
militant ecoldgico JosE Lutzen-
berger para a Area de meio am-
biente. Os dois estavam ao lado
do president quando, uma sema-
na depois de tomar posse, ele fez


a primeira viagem para fora de
Brasflia.
Collor foi a Roraima, onde
explodia uma guerra entire garim-
peiros de ouro e defensores da
maior populagAo indfgena ainda
nAo aculturada do continent, a
dos Yanomami. O president
fantasiou-se de uniform military
de campanha, camuflado, e jul-
gou-se, como em nenhum outro
local e moment, um legftimo In-
diana Jones, o herdi que mataria
o tigre da inflagio com um dnico
tiro. Mas se acreditou na propa-
ganda que fez de si mesmo, Col-
lor aos poucos foi mostrando &
opiniAo pdblica que era mesmo
personagem de celuldide.
O marketing funcionou o su-
ficiente para tirar das costas dele
a pressio de dois problems ama-
z6nicos. Em sua administration
foi finalmente demarcada p reser-
va dos Yanomami, a maior do
pafs, com mais de nove milhoes
de hectares. Os fndices de des-
matamento tamb6m cafram mais
de quatro vezes desde o ano re-
corde de 1987. Assim, duas va-
riaveis que entravavam a era da
modernizagAo na Amaz6nia foram
ao menos contornadas. Mas Col-
lor nao conseguiu construir nada.
Na sua histdria de quase mil dias
restaram apenas algumas estacas
do que deveria ser uma grande
construglo, sem alicerce, nem
cobertura, uma miragem da nova
era que ele pretendia inaugurar.



Ambiguidade


Segundo a apuragio dos re-
p6rteres da Agencia Estado
(de O Estado de S. Paulo), o de-
putado federal (PTB-PA) Carlos
Kayath faz o jogo do empresario
Wagner Canhedo na CPI da Vasp,
que tenta apurar na Camara irre-
gularidades na privatizagio da
empresa de aviagao paulista. JA
a Folha de S. Paulo enquadrou o
filho do ex-superintendente da
Sudam como um dos "vidvos do
governor Collor", que nao compa-
receu "a dnica reuniao que a CPI
fez" depois do afastamento do
president.







4


INDUSTR1A


Journal 'essoal


Crise ou falencia


A SPVEA (Superintend6ncia
do Piano de Valorizagaio
Econ6mica da Amaz6nia)
foi criada em 1953 corn a missAo
de promover a industrializa.ao da
regiAo. Em seus 13 anos de vida
deu prioridade a empress que
produziriam no prdprio local bens
destinados a substituir os que,
antes, cram importados. Quase
80% dessas inddstrias se instala-
ram em Bel6m, a maior cidade
amaz6nica.
Passados quase 40 anos, as
atividades industrials nio conse-
guem sustentar nem 20% da renda
na capital paraense, cada vez
mais dependent do setor tercid-
rio, especialmente da burocracia
official e do com6rcio. O sonho da
industrializagAo, que esteve na
base da primeira experi6ncia de
planejamento regional no pafs, 6
corrofdo em duas frentes. Os que
olham para o future gostariam
que a Amaz6nia ficasse marcada
por uma economic quaternaria,
intensive em tecnologia, mais
apta a usar inteligentemente os
recursos naturais. Os que pensam
no passado acham que a Amaz6-
nia tert que ser mesmo uma su-
pridora de mat6rias primas e in-
sumos basicos aos centros mais
adiantados. A regiAo, de qualquer
maneira, teria perdido o trem da
contemporaneidade.
Entre ficar estagnada a meio
caminho do beneficiamento de


seus recursos naturais pela via
traditional da inddstria e dar um
salto para a era da informagAo,
abandonando as ilus6es do mo-
delo classico de desenvolvimento,
a Amaz6nia parece sem rumo
prdprio (a dnica diregio clara-
mente estabelecida vem de fora,
com o novo extrativismo mine-
ral). Mais perdido encontra-se o
Estado do Par&, que estabelece
suas polfticas residualmente, co-
mo sub-produto de decis6es maio-
res. Atua assim apenas no varejo,
sem f6lego para um planejamento
criativo.
A dnica polftica que o gover-
no estadual parece capaz de ma-
nejar 6 a tributaria. Quer sempre
mais impostos, embora o ganho
marginal seja reduzido por causa
dos incrfveis canais de sangra-
mento da receita, que se alimen-
tam dos vfcios da maquina pdbli-
ca. O Estado vem sustentando um
contencioso cor a Companhia
Vale do Rio Doce em torno de
incid6ncia e alfquota de imposto,
as vezes cobrado de atividades
econ6micas sabidamente de pouco
efeito multiplicador sobre a eco-
nomia, como a mineragAo. Sem
polftica industrial, o Estado quer
tirar leite de pedra, sem compe-
tencia e sem criatividade.
A crise que quase chega so
limited da falencia do setor in-
dustrial no Pard exige reflexAo
mais profunda e attitude mais con-


sequente. A implantagAo da Zona
Franca em Macapt 6 um novo
element que reforga a perda do
poder de competitividade do Es-
tado. Sem investimento em ci6n-
cia e tecnologia, o Para nao pode
dar-se ao luxo de pensar em re-
cuperar o tempo perdido e alcan-
gar uma frente de produgio.
Infelizmente questionamentos
como esse nao aparecem nas pla-
taformas polfticas, nem nas rei-
vindicag6es dos integrantes do
prdprio setor. O empresariado
6 tamb6m uma massa abdlica, in-
forme, que nAo consegue ir alem
dos interesses mais paroquiais.
Durante 40 anos a Federaglo das
Inddstrias do Part foi presidida
por um polftico, o ex-senador
Gabriel Hermes, quando muito
representante empresarial do co-
m6rcio. Para se manter quase
perpetuamente, ele criou organi-
zagdes satelitizadas, meras esco-
ras ao seu poder. Panificadores
de esquina adquiriram o status de
industrials.
Talvez essa representagio
fosse um retrato do setor, mas
certamente era uma expresslo al-
terada, piorada. Finalmente os
empresarios remanescentes que-
braram essa estrutura viciada,
mas ainda nio chegaram a uma
representagio adequada e talvez
nunca cheguem, se 6 que existe
um ponto de chegada satisfat6rio
para os integrantes dessa comiti-
va sem rumo definido.


Um caso de excegao ?


toque no meu ombro 6 tfmi-
do. Levanto os olhos e ve-
jo, por trAs da cabelereira
que me tosquia, o empresario
Antonio Farah, dono da Facepa
(Fabrica de Celulose e Papel do
Par&).
Voce tem uma hora para me
ouvir? pergunta ele.
Penso nos compromissos que
mp aguardam depois do barbeiro,
paquela tarde do dia 5. Tento en-
contrar uma desculpa, mas ele in-
siste, edqcadamente:
Vai ser si uma hora.
Ok, vocb venceu tenho a
teatagio de dizer, mas nio digo.


Apenas aceito o convite. Quase
quatro horas depois, ja a noite
avangando, Farah me deixa em
casa. Mostrou-me, orgulhoso,
uma das maiores fibricas instala-
das em Belem, das poucas que
ainda conseguem sobreviver. No
mes passado tornou-se o maior
client da Celpa no Estado: a
conta de luz da Facepa passou de
um bilhao de cruzeiros. Essa meta
tambem foi ultrapassada pela fa-
tura dos impostos, onerada espe-
cialmente pelo IPI e o ICMS,
mais do que o dinheiro consumi-
do pela folha de pagamento dos
quase 600 empregados, todos re-


crutados no local.
Mais de 30 anos atras, Farah
chegou hquele trecho da Sacra-
menta, um dos bairros mais po-
bres de Bel6m, para ver um rudi-
mentar equipamento de fabricagAo
de papel grosso. Um m6dico esta-
va disposto a se Hvrar do proble-
ma em que se envolvera ao long
de 10 anos. Bastava que o com-
prador assumisse a dfvida que ele
fizera junto a um banco.
Atd algum tempo antes o pa-
pel produzido era secado so sol.
Farah, que comegou a carreira de
empresario na inddstria de refri-
gerantes, saiu atras de socorro








Journal Pessoal 5


para reativar a fibrica. Quando
p6s as m4quinas para funcionar,
elas eram pouco mais do que um
artesanato, cor 30 empregados
produzindo tr6s toneladas ao dia.
Neste ano, cor tr6s unidades em
linha (a quarta, a pioneira, se
tornard um sfmbolo), alcangard
100 toneladas difrias. Fechard o
exercfcio cor faturamento mensal
de dois milh6es de ddlares.
Somos os terceiros princi-
pais fornecedores de papdis finos
do pals, garante Farah, enquanto
aponta para uma enorme maquina
Voith, fabricada pelos alemries
em Slo Paulo: "6 a mais modern
do pafs; aqui estamos no primeiro
mundo".
A razio para o convite, a vi-
sita a fabrica e a long conversa
a dois esti na dltima pigina do
ndmero 95 deste Jornal Pessoal
(da primeira quinzena de agosto).
Farah nio gostou de eu ter estra-
nhado que a Facepa voltasse a
Sudam pela 13" vez para pedir
colaboracAo financeira do gover-
no federal, 28 anos depois de ter
conseguido a primeira aprova&io
(quando os incentives fiscais ain-
da cram aplicados pela SPVEA,
antecessora da Sudam). Nesse pe-
rfodo, a Facepa conseguiu apro-
vabio para seis atualizag6es, cin-
co ampliag6es e uma reformula-
gao, com a media de um novo
projeto praticamente a cada dois
anos.
Farah nega que sua empresa
possa, assim, ser apontada como
"um dos maiores exemplos do
capitalism de muletas praticado
na fronteira amaz6nica, no qual o
subsfdio estatal reduz ao mfnimo
a margem de risco do empreendi-
mento privado, anulando a funfio
reguladora do mercado".
Ele admite que a situagAo
realmente existed. Seu esforgo 6
para me convencer que a Facepa
deve ser enquadrada nas exceg6es
e nAo na regra de desperdfcio de
dinheiro pdblico, irracionalidade
de projeto e inefici6ncia admi-
nistrativa. Se fosse vendida hoje,
a fabrica, geminada a uma unida-
de de producgo de plastico, vale-
ria nlo menos do que 35 milh6es
de ddlares. A colaboragAo finan-
ceira dos incentives fiscais repre-
sentaria de 8 a 9 milh6es de ddla-
res. "O restante foi agregado por
muito trabalho no gerenciamento
da fabrica, na negociagio dos
contratos de venda, nos ganhos
obtidos so comprar insumos e
matdrias primas", assegura Farah.


Os incentives fiscais, para
ele, sio o dnico fator de atraggo
para implantar uma fabrica em
Belem. Todas as vezes em que
precisou investor na ampliag~o e
melhoria da Facepa ele recorreu a
Sudam, "mas os resultados estlio
af, visfveis, para quem quiser
ver". Sua fibrica compete corn
inddstrias que funcionam em Sio
Paulo com uma escala de produ-
gio varias vezes maior, o que di-
minui o custo de produgbo de ca-
da unidade, tornando-a mais
competitive. Tambdm concorre
com fibrica ainda mais incentiva-
da na Zona Franca de Manaus,
uma perspective que se tornard
aguda, diz ele, cor a ZF de Ma-
capd.
E impossfvel nAo reconhecer
que manter essa fabrica funcio-
nando durante 30 anos 6 uma fa-
ganha. Os tftulos da Facepa sio
mantidos em carteira. A empresa
nAo recorre a bancos para finan-
ciar seu capital de giro. A amor-
tizagio da terceira unidade esti
em curso. A da quarta e dltima,
que comegou agora a operar, esta
enquadrada. Farah conseguiu rea-
ver todas as ag6es preferenciais
que fora obrigado a emitir em
contrapartida aos recursos dos in-
centivos fiscais que recebeu (ho-
je, com a mudanga da legislagAo,
sio debentures).
Tirar as ag6es das mAos do
Banco do Brasil, que chegou a ter
20% do capital da empresa, foi
uma batalha. Dono de uma mo-
numental conta com o imposto de
renda, o banco possufa muitos
certificados de investimento, um
desses muitos "papeis podres"
que a burocracia official espalha.
Podia dar-se ao luxo de pagar
duas ou tres vezes o "valor de
face" (ou valor nominal) das
ag6es da Facepa. Esses papeis
eram normalmente comercializa-
dos, pela esmagaora maioria dos
"projetos Sudam" (em sua bolsa
de valores especffica, criagio que
seria aberrante se o regime fosse
um capitalism para valer), por
valor bem abaixo do declarado no
papel. Farah chegou a ameagar
descapitalizar a empresa, como
tem sido pratica comum nos em-
pereendimentos incentivados na
Amaz6nia, se nio pudesse reaver
as acses. O banco cedeu, nego-
ciaram e o desfecho foi feliz.
Farah nAo pode near que o
dinheiro do imposto de renda 6
desviado por varias formas de
sangria, sempre recriadas con-


forme as circunstancias. Mas ele
tem uma proposta que consider
eficaz para corrigir essas distor-
9ces: ao inves de participar dos
investimentos dos projetos priva-
dos, distribuindo entire eles part
da receita do imposto de renda, o
governor passaria a conceder isen-
g o de IPI as empresas aprovadas
pela Sudam.
Assim, sd teria beneffcio
quem produzisse. O especulador
seria eliminado do mercado pro-
fetiza.
Para compensar os Estados,
privados de parte de sua receita,
a Uniio distribuiria entire eles a
receita de um novo fund, que
continuaria a existir porque ape-
nas seria reduzido o limited de de-
dugio que os devedores do im-
posto de renda podem fazer,
quando optam por aplicar seu di-
nheiro em regi6es ou stores in-
centivados. Os atuais 24% cai-
riam para, por exemplo, 20% do
montante que, sem os incentives,
seria recolhido ao tesouro nacio-
nal como dfvida para cor o
"leIo" da receita federal. Quanto
so investimento na implantagAo
do projeto, seus proprietirios po-
deriam recorrer as linhas de crd-
dito disponfveis, principalmente o
Finame, do BNDES (Banco Na-
cional do Desenvolvimento Eco-
n6mico-Social).
A demorada conversa mostrou
que o empresdrio esti consciente
dos erros e distorg6es da polftica
de incentives fiscais. Reconhece
a validade das crfticas. Mas diz-
se convencido de que sem esse
incentive ninguem mais se insta-
laria em Beldm, onde as condi-
6des de competitividade slo des-
favoriveis. Uma inddstria em
Manaus nio paga 12% de IPI e de
12 a 17% conforme a operagAo)
de ICMS, impostos calculados
sobre o prego de venda e nAo so-
bre o prego de produgio. Uma in-
ddstria de Sio Paulo, por sua es-
cala, coloca em Beldm seu pro-
duto mais barato do que a da
concorrente estabelecida na ca-
pital paraense.
A Facepa estA entire os rema-
nescentes de um erodido surto de
industrializagAo que podem ser
contados nos dedos das mAos e
nada aldm disso. A sobrevivencia
nio 6 atestado de qualidade, mas
sem ddvida 6 um dado a ser ana-
lisado, sem a condescendencia
que abona os maus empresdrios,
mas cor atengio para sua cir-
cunstAncia.








6 Jornal Pessoal


CARTAS


A voz do leitor


Depois de completar cinco
anos de vida, o Jornal Pes-
soal registra outra data para
sua hist6ria: alcanga o ndmero
100, ultrapassando a barreira dos
dois dfgitos, que tem sido fatal
para mais de 80% dos periddicos
da imprensa alternative, segundo
o levantamento de Bernardo Ku-
cinski (divulgado no livro Jorna-
listas e Revoluciondrios). A mar-
ca talvez possa ser considerada
uma faganha, mas nio atesta a
consolidagio deste journal, nem
garante que ele vb sobreviver at6
outras datas comemorativas. Seu
future continue sendo tAo impon-
deravel quanto desconcertante 6 o
seu passado e precdrio o seu pre-
sente.
Journal feito por uma s6 pes-
soa, por isso mesmo o JP imp6e
varias desvantagens e cobra pe-
sados sacriffcios. Num journal
conventional, o reporter tem
atris de si a empresa, entidade
an6nima, cor a qual pode ou nio
estar identificado. Quando os
personagens que entrevista Ihe
cobram uma posigio, pode trans-
ferir a responsabilidade por de-
terminadas decis6es editorials pa-
ra sua retaguarda e livrar-se de
situag6es inc6modas, como estao
cansados de saber, por exemplo,
os jornalistas da Rede Globo.
Al6m disso, os autores dos
textos mais agressivos ou incisi-
vos nem sempre vao para a rua.
SAo editorialists, articulistas ou
colunistas que se servem mais do
telefone ou de conversas de gabi-
nete para produzir seu material.
Raramente precisam enfrentar,
"ao vivo", os alvos de suas crfti-
cas ou desafetos, poupando-se de
desgastes e constrangimentos.
Num journal de uma pessoa s6,
como o JP, faz-se jornalismo co-
mo o motociclista, que ter no
rosto o verdadeiro para-choque
da mdquina. E num journal como
este, que recusou desde o infcio a
publicidade e nao tem qualquer
intermedidrio entire a informagao
coletada e aquela que vai para o
papel impresso, o ever de publi-
car tudo represent um encargo
pesadfssimo.
Um leitor desavisado pode
pensar que por trAs de textos
agressivos deve estar um redator


inconsequente. Ja ouvi a acusa-
glo, de "viva voz". No entanto,
cada vez mais pago um prego
doloroso por essa absolute liber-
dade que tenho me proporcionado
neste journal. Quando fago sua dl-
tima e solitAria revisio, antes de
entrega-lo ao impressor, a anteci-
pag[o das previsfveis reag6es a
determinados artigos me enche de
angdstia. Assim tenho perdido
bons amigos. NAo podendo argu-
mentar contra minhas informag6es
e andlises, alguns recorrem r re-
laqgo pessoal como instAncia ar-
bitral. Mas eu nao iria reeditar,
neste espago tAo diminuto e tio
caro para mim, as praticas de
compadrio da grande imprensa.
0 acdmulo de experiencias
traumAticas, entretanto, tem me
feito pensar se vale mesmo a pena
manter um journal como este. A
omissao as vezes inteiramente
injustificAvel da grande impren-
sa tern feito do JP, com frequen-
cia maior do que me seria possf-
vel suportar, uma espdcie de ca-
nal dnico de drenagem do sujo da
sociedade. Muitos personagens
poderosos logo percebem que
determinados assuntos s6 saem
aqui e sAo assuntos terrivel-
mente sdrios, como a penetragao
do narcotrAfico, a corrupgAo na
administragro pdblica, as mano-
bras das elites no jogo pelo po-
der, etc. Detectar esses temas,
apurd-los e dar-lhes o tratamento
adequado 6 tarefa capaz de con-
sumir toda uma equipe de bons
jornalistas. A sinal alarmante da
mediocridade jornalfstica que a
reprodugao dessa alucinante ri-
queza de fatos amaz6nicos seja
tAo pobre.
Todos os que jA me ouviram
falar e escrever sobre jornalismo
sabem da minha imensa admira-
qgo por I. F. Stone. Durante 19
anos ele fez um journal parecido
com este, o I. F. Stone's Weekly.
Aos poucos fui tendo uma avalia-
gio mais profunda do que ele de-
ve ter passado para sustentar seu
semandrio, mas Stone estava em
Washington, nao era obrigado a
defrontar-se diretamente com os
personagens do cotidiano e tinha
a seu favor uma sociedade efeti-
vamente sensfvel a mfstica da im-
prensa livre. Nenhuma dessas


vantagens comparativas diminui
os mdritos de seu journal, mas po-
de atenuar as carencias de outras
publicag6es, como esta.
Se elas morrem, apds uma
trajet6ria nobre, 6 porque seus
destinos independeram em grande
media da vontade de seus res-
ponsdveis. Ao mesmo tempo em
que procuram registrar a histdria,
elas sfo tambmr um produto his-
tdrico, como nota o advogado Jo-
sd Maria Alencar, em uma das
cinco cartas escritas por leitores
especialmente para esta edigbo (e
reproduzidas a seguir).
O Jornal Pessoal, como escre-
veu Haroldo Maranhao em um ar-
tigo para A Provincia do Pard,
parece ter chegado ao seu ponto
de exaustAo. Nao consegue am-
pliar o pdblico, formando novos
leitores, nem abrir canais de di-
vulgagio. Muitas pessoas das
classes A e B, que constituem seu
pdblico principal, perdem exem-
plares simplesmente por nio pro-
curarem mais as bancas de revis-
tas. A safda natural para resolver
esse problema seria a volta das
assinaturas, mas este 6 um es-
quema que se tornou inacessfvel
para um journal de uma pessoa s6.
Assim, o JP marca-passo para
manter o registro dos tempos em
sintonia com uma parcel menor
(ainda que influence) da socieda-
de coisa, talvez, de confrarias,
mas ao menos um sinal vivo da
resistencia.
Por quanto tempo ele conti-
nuard vive, rem o autor deste
journal pode responder. Mas se
defender da amostragem de leito-
res reunida nestes depoimentos,
jamais faltarlo motives para que
uma publicagio como esta per-
sista teimosamente na busca da
sobrevivAncia.


Do advogado Jod6 Maria Quadr s do
Alaecar:
"Atendendo a convocaglo publicada
sob o tftulo Ndmero 100, oferecemos as
seguintes respostas as quest6es ali propos-
tas:
0 Joral Pesoal nio se exauriu, em-
bora seu editor possa estar exausto fisica-
mente (pois intelectualmente esta em plena
ascens[o, na fase que reputamos justa-
mente a mais produtiva e amadurecida de
sua carreira).
a verdade que as possbilidades de
crescimento do journal slo restritas. Acre-
ditamos que o journal segue a sina de quase )









Journal Pessoal 7


tudo o que se contem na Amaz6nia: seu
crescimento depend do exterior (no senti-
do extermo I Amaz6nia). Ele, como os
produtos amaz6nicos, depend do mercado
externo para crescer. Internamente, do que
conhecemos, atingiu seu limited miximo.
Nao temos mesmo como fazer crescer seu
mercado interno. Nio hi concentrag~o de
massa cinzenta na Regilo capaz de au-
mentar o crescimento do experiment.
Essa 6, pelo menos, a sensagio que temos
(dizemos sensaglo por faltar-nos dados
quantitativos para avangar algo mais que
apenas isso).
O journal esta condenado. Condenado a
sobreviver. Mante-lo chega a ser um im-
perativo que transcende ao dever pura-
mente intellectual do editor e seus leitores,
para alcangar outras culminAncias, inclusi-
ve As que se relacionam & etica e I Polftica
(mas tamb6m & Poetica).
Tendo roubado o fogo, dando-o aos
amaz6nidas, o editor do journal esta conde-
nado a ficar acorrentado A Amaz6nia. Cada
pedago do ffgado que Ihe tiram os abutres,
cresce em seguida, e na quinzena seguinte
aparece nas bancas, em form de journal.
Sem vestfgio de sangue ou bflis, embora as
vezes marcado pelo tom amargo e travoso.
Temos no journal um instrument de
navegag&o, de uso indispenslvel para quem
se aventura na Amaz6nia, onde mais que
nunca navegar 6 precise. Da bdssola ao
girosc6pio, do olho nu ao radar, do astro-
libio ao satelite, da poita ao sonar, da pena
ao editor de texto, todos permitem uma
visada da Amaz6nia, quase sempre parcial.
S6 a potent intelig8ncia do home e
nisto o editor do journal esta bem equipado
- permit integrar todas essas mdltiplas
visoes, fazendo mais segura a navegagio e
a travessia. Travessia que mais uma vez
nos coloca no meio da borrasca. Neste fi-
nal de milenio tememos e sofremos corn
a possibilidade ver a Amaz6nia condena-
da a um neoextrativismo (ou extrativismo
avangado como prefer chamar a Sudam)
que nos leva ao ponto de partida de cinco
centdrias atrls.
Afinal, a biodiversidade pode ser a
droga do sertio deste final de mil8nio.
O ferro (brasileiro) e o carvio (co-
lombiano) nao servirlo para levar a Ama-
z6nia no rumo de uma sociedade industrial
e modern (exceto um ou outro nicho de
modernidade cercado de pr6-modernidade
por todos os lados). Estamos escrevendo
uma histdria cotidiana que arrisca a nos
levar rumo a prd-histdria e h barbarie. Isso
tudo enquanto part do mundo jS caminha
velozmente para a p6s-modernidade.
O fascinante nisso tudo 6 que conti-
nuamos aptos a estabelecer enlaces e in-
terfaces com esse mundo pds-moderno,
enquanto continuamos prd-modernos.
O journal ele pr6prio uma interface -
6 o instrument que rastreia e checa o fun-
cionamento dos enlaces e interfaces, e nele
lemos os indicadores mais importantes da
realidade amaz6nica, cor elevada preci-
slo. De bonificagao, ainda recebemos uma
analise inicial, inteligente e imediata, dos
dados assim disseminados".




De Marcelo Silva da Crz:
"Venho, por meio desta, parabeni-
za-lo pelo centesimo ndmero do Jorual
Pessoal. Bern sei o quanto deve ser dificil
manter uma ediglo independent numa
terra de gente semi-analfabeta como a
nossa, principalmente quando a conduta
editorial da mesma 6 pautada pela infor-
magio real, analisada de form crftica e
inteligente. Numa terra que nao esti acos-
tumada a pensar por si, sendo geralmente
conduzida por caciques polfticos e por
monstruosas campanhas dos meios de co-


municaglo, manter um trabalho de im-
prensa alternative 6 uma faganha admirl-
vel.
Deixando de lade os proleg6menos,
gostaria de lhe falar sobre fates que estio
me preocupando bastante. O mundo parece
assistir a um crescimento significativo do
nacionalismo, particularmente na Europa e
aqui mesmo no Brasil, onde os Estados do
Sul se unem no desejo de emancipag~o.
Enquanto isso, o Pard se v8 na iminencia
de ser desmembrado em dois (ou tr6s, ate)
Estados. Vejo nisso apenas a velha question
dos interesses econ6micos, que moveria
essa campanha sutil da qual o povo se en-
contra totalmente alienado.
Hd muito o Par& vem sendo aviltado
em suas riquezas. O Mato Grosso 6 um dos
maiores comerciantes de ouro do pafs,
ouro roubado do ParS. Nossa madeira 6 le-
vada para o Sul e depois revendida para
nds na form de mercadorias diversas, a
pregos exorbitantes, sd pelo fato de vir do
Sul. Nosso porto ja esteve, virias vezes,
ameagado de perder sua importincia por
causa de projetos para a criagio de um
grande porto de cargas no Maranhbo -
particularmente no governor Sarney. Os ja-
poneses devoram os nossos mindrios e, dos
lucros dessas transaq6es, nenhum centavo
parece ser aplicado no prdprio Estado. Os
neo-nazistas do Sul tratam os nordestinos
e nortistas como ragas inferiores e perni-
ciosas, apesar de ter sido o brago de nossa
gente que ergueu Slo Paulo e Rio. O sul do
Pard permanece esquecido pelos nossos
governantes corruptos, incompetents e
oportunistas. A nossa cultural nao tem o
menor apoio de entidades governamentais,
esta se perdendo. Que valor tem o Estado
do Par& no context national, aldm do evi-
dente interesse por suas riquezas? Querem
nos fazer de depdsito de lixo radioativo!
Sinto nio haver sentido nos seus co-
mentirios finals da ediglo de ndmero 99
do Jornal Pesoal. Afinal, se o senhor acha
que o seu journal nao tern future (ou que jA
exauriu seus recursos), cor a abrangbncia
e o peso politico que possui, imagine os
obscures "fazedores" de periddicos xero-
cados, em tiragens nio excedentes a 50
exemplares (os chamados fanzines)? 0 re-
torno deles 6 quase inexistente e, ainda
assim, eles insisted na produgio dresses
periddicos.
A meu ver, nesses quatro anos de
existencia (na verdade 1so cinco. N. da
R.), o Jornal Pesoal vem cumprindo seu
papel de fazer uma imprensa alternative
corajosa e, principalmente, coerente. Mas
devo concordar que a saturagio, ate mesmo
pela falta de um feedback maior desse tra-
balho, pode ser mesmo deprimente. Eu
acompanhei, ainda que esporadicamente, a
sua batalha contra a eleiglo do politiqueiro
canalha e desequilibrado que 6 H6lio
Gueiros e, no entanto, o mesmo 6 consa-
grado pela massa ddcil e servil. Oh tern-
pore! Oh mores!
Talvez seja a hora de assumir uma
postura mais agressiva na sua conduta co-
mo jornalista. O Pard precisa resgatar sua
identidade e criar uma nogao de amor pa-
trio. Para isso, penso eu, 6 precise desen-
volver uma consciencia nacionalista na
populagbo, visando a valorizagio do nosso
espago, da nossa terra, da nossa cultural, da
nossa identidade, nao numa acomodaglo
passiva e alienada de home amazdnida
para turista ver, mas na criagio de um po-
vo forte e independent.
Independencia pode ser a palavra-
chave. Os Estados do Norte tem potential
para se manterem sozinhos (nbo agora, mas
a mddio prazo, atrav6s de um intense tra-
balho de esclarecimento). Nesse context,
o Joral Peossoal pode ser uma arma pode-
rosa.
Este assunto 6 por demais extenso,
complex e delicado, nbo send possfvel


discutf-lo, em sua totalidade, numa sim-
ples carta. Mas gostaria de ter a sua opi-
nibo a respeito.
No mais, desejo que o Jormal Pcusoal
continue incomodando aos mafiosos da ci-
dade. Nesse desert de informag6es vicia-
das, o Jornal Peosoal 6 um verdadeiro ob-
sis".





De Lanurtie Carvalho:
"Parabens pelo 100 JP. Imagine que
nao deve ter sido fbcil para voc8 ter che-
gado ao n 100 contra tudo e contra todos,
uma vez que a imprensa normal tem outros
objetivos. Parab6ns.
Respondendo sua pergunta: a fungio
do JP, para mim, 6 a certeza da informag&o
correta cor a crftica necessaria e isenta de
bajulaqao costumeira em outros periddi-
cos. Eu pediria apenas que voc8 continue
cor as anblises sobre as coisas da Amaz6-
nia, como tambr m comentirios sobre seus
principals lfderes, como, por exemplo, so-
bre Cipriano Sabino, sua trajetdria polfti-
ca, o que ele fez na Cmrara de Vereadores
e na Assembl6ia Legislativa".


0

Da estudante Bdineide Santo. Cocllo:
"Considero inquestionvvel a necessa-
ria sobrevivencia desta autentica fonte de
pesquisa. E 6 justamente isso que me leva a
seguinte questio: por que uma circulagao
tio restrita para um journal tio abrangente e
tbo important?
Obviamente, essa pergunta nbo deve
ser e nem estd sendo dirigida a voce, mas
sim a todos que conhecem o Jornal Pesoal
e, principalmente, aos que t6m o "poder"
(mas, talvez, nao o interesse) de faz8-lo
circular em todos os locals que prop6em
um intercAmbio de aprendizagem e uma
formagio polftico-cultural mais ampla.
Obrigado, Ldcio, por este journal al-
ternative e independent (em todos os sen-
tidos), que nos permit o confivvel acesso
&s informac6es.
Parabnns por estes 100 ndmeros de
reflexio crftica, que expressam sua indig-
nag o, sua coragem, seu conhecimento e
sua rica vivencia slo, portanto, 100 nd-
meros que dio vazlo a uma voz, que nao
pode deixar de ser ouvida".


0

O leitor Laerto Gomes Fragoso desen-
volveu sua carta em torno de tres pergun-
tas. A primeira ("o JP se exauriu, esgotan-
do suas possibilidades de crescimento, ou
ainda deve sobreviver?"), responded: "E-
xauriu, ficou velho, acho que nbo cor re-
laglo a voces, pois compare ao bom vinho.
Esgotando suas possibilidades de
crescimento, depend muito do objetivo de
crescimento, enquanto ser modern 6 ser
micro e nio macro. Tudo vale se tiver
qualidades e v-c8s tem atd demais.
Ou ainda deve sobreviver. Navegar 6
precise e muito important no vosso ca-
so".
A outra pergunta ("Que funglo ele
desempenha para os seus leitores?"), res-
pondeu: "Informag6es objetivas, verda-
deiras, sem vfnculo pessoal, partiddrio ou
personalista. Continuando assim tenho
certeza de que voc6s contarlo com o apoio
das pessoas que querem bem a este pafs, a
este Estado e a este tabldide".
Quanto ao future para o JP, escreve
Laerte: "Uns esperam Godot, outros
Cristo. Voces, a quem esperam?".








Equilibrio

O governor Jader Barbalho vai
consumer dois tergos de seu
mandate tentando manter a ma-
quina pdblica estadual em equilf-
brio. As grandes obras, previstas
no piano plurianual (1992/95),
deverAo ficar apenas no papel,
como a hidrel6trica de Aparaf, o
porto de Vila do Conde, a alga
rodoviaria ligando Beldm ao bai-
xo Tocantins e a hidrjvia Ara-
guaia-Tocantins. Malmente o Es-
tado tentara dar conta dos princi-
pais servings de infraestrutura
necessArios a vida coletiva nor-
mal nos principals ndcleos urba-
nos. Naturalmente, a dltima parte
do quatri8nio sera usada para
transformer pequenas obras,
inauguradas cor toda a festivida-
de possfvel, em votos para o su-
cessor que Jader Barbalho ira in-
dicar.
A proposta de lei orgamenta-
ria para o pr6ximo ano, no valor
global de 5,8 trilh6es de cruzei-
ros, por ele encaminhada no final
do mes passado a Asssembl6ia
Legislative, 6 um desses docu-
mentos que fazem a alegria dos
tribunals de contas. As rubricas
estao todas bem enquadradas nu-
ma repartiAio harmoniosa que
prevC 60% da receita utilizada
nas despesas cor pessoal, 15%
para custeio, 15% para investi-
mento e 10% para a amortizagio
da dfvida estadual. A receita pr6-
pria responded por mais de metade
dos recursos do Estado, que conta
cor mais 10% dos 6rgAos da ad-
ministracio indireta e obt6m ou-
tros 6,7% atrav6s de operag6es
de crddito, dependendo em pouco
menos de 32% de transferencias
federais.
Esse belo desenho contabil,
no entanto, ter pouco valor fora
de sua moldura. A administracAo
pdblica continuara na retaguarda
dos problems que sao criados no
Para pela migragio acelerada e a
abertura de frentes econ6micas
em Areas pioneiras. O piano plu-
rianual prev8 para o perfodo
1992/95 um crescimento de 4,1%
ao ano da economic national
contra 2,7% da economic esta-
dual. Seu crescimento mais acele-
rado sd poderia ser retomado pe-
los "projetos vitais" relacionados
no prdprio piano (ao custo de um
investimento de mais de um bi-
lhAo de ddlares), mas que estio
fora do alcance do Estado.
Mesmo assim a mensagem do
governador prev8 um crescimento


de 12% ao ano para a arrecadagao
do ICMS, a principal fonte de re-
ceita do Estado (quase 60% da
arrecadagio pr6pria), para este
ano e 1993, "em decorrencia do
esforgo de arrecadag4o, moderni-
zagao do sistema fazendArio e re-
dugao da sonegaago".
Mas 6 pouco provavel que as
raras e anemicas polfticas de in-
dugao de investimentos que o go-
verno vem promovendo sejam ca-
pazes de compensar a retracAo da
atividade econ6mica, fazendo-a
refletir-se, mais do que sobre o
caixa do tesouro, sobre os ndme-
ros da produgAo, da geragao de
renda e da absorgao de mao-de-
obra. Sem essa visao mais ampla,
o Estado continuard cavando um
fosso que o separa da sociedade
e, mesmo fortalecendo-o, torna-o
mindsculo para enfrentar os pro-
blemas colocados sob sua jurisdi-
g o e responsabilidade.


A volta

P ela quarta vez consecutive o
Para faz, sem problems, o
superintendent da Sudam, que jA
foi o cargo federal mais impor-
tante e disputado na Amaz6nia.
Depois de Elias Sefer, Henry Ka-
yath e Alcyr Meira, 6 a vez de
Oziel Carneiro. Meira teve a
vantage adicional de contar, na
maior parte de sua gestao, de
mais de dois anos, cor superin-
tendentes adjuntos indicados por
ele, todos paraenses tamb6m.
Mas, al6m de enfrentar uma Su-
dam esvaziada, acabou aceitando
as interferencias do secretario de
desenvolvimento regional, Eg-
berto Batista. O saldo do balance
6 negative.
O desafio diante de Oziel 6
enorme. Ele 6 um dos mais expe-
rimentados homes pdblicos pa-
raenses, depois de passar pelo
Banco do Brasil, Banco da Ama-
z6nia e secretaria do Programa
Grande CarajAs, al6m de ter dis-
putado o governor do Estado e
exercido a senatoria na suplAncia
de Jarbas Passarinho. Tambim 6
empresario, divindo parceria corn
o irmio, Armando Carneiro, que
da polftica atravessou para a in-
ddstria, fazendo caminho inverso.
Os negdcios da famflia entra-
ram em crise e um dos maiores, o
principal a remanescer, o do
Hilton Bel6m, gerou uma dfvida
expressive junto ao Banco da
Amaz6nia, para cuja mais recent
diregao, a de Anivaldo Vale, a
indicagAo de Oziel (na 6poca se-


nador) foi decisive. Agora ele se-
rA responsAvel pela principal
fonte de recursos do banco, os
incentives fiscais, gragas a lem-
branga do ministry do Interior,
Alexandre Costa, que sugeriu o
nome de Oziel ao president Ita-
mar Franco (Passarinho, consul-
tado por Itamar, depois, apro-
vou).
Oziel volta, assim, a uma
instAncia do poder atrav6s do Ma-
ranhAo, sua terra de origem, ge-
ralmente apontado como algoz do
Pard na dispute regional.


A pontaria

W ilson Martins 6 um clarAo de
lucidez, densidade e solidez
na pasmaceira geral dos resenha-
dores (de orelha) de livro no
pafs, bitolados por um noticiaris-
mo de ocasiAo. Sustentado por
longos anos de apurada leitura,
Wilson Martins nao 6 o crftico-
gregario, que empresta linguagem
e id6ias da patota para manifestar
sua opiniAo. Raciocina de moto
pr6prio, mas em companhia de
uma vasta retaguarda de consult.
Em artigo para o suplemento
Livros & Ensaios, do Jornal do
Brasil, Wilson faz uma precisa
avaliagio da carreira de escritor
de Chico Buarque de Hollanda,
escrevendo o que certamente
muita gente diz e reserve para
conversas ao p6-do-ouvido. O
primeiro livro de Chico, Fazenda
Modelo, "6, na verdade, uma pa-
rdfrase pura e simples" do aleg6-
rico A Revolugio dos Bichos
(Animal Farm), de George Or-
well. Ja a Opera do Malandro foi
um "recozimento" de John Gay,
por sua vez retrabalhado por
Bertold Brecht, "ou seja, imita-
cAo de uma imitagio". E o mais
recent cometimento, Estorvo, 6
"pardfrase de uma obra literaria-
mente muito mais vigorosa e ori-
ginal": o romance Zero, de Igna-
cio de Loyola BrandAo.
Os faniticos defensores do
excelente compositor Chico
Buarque de Hollanda dirAo que se
trata de despeito do crftico. Bo-
bagem. E uma crftica poderosa e
certeira, das raras que se pode ler
na imprensa brasileira.

Journal Pessoal
Editor responsavel: Lucio Flivio Pinto
IlustraCqio Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone 223-1929
OpCao Editoral