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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL L C FI AV P INTO Ano VI No 99 a Quinzena de Outubro de 1992 Cr$ 2.000,00 ELEICAO 0 retrato piorado Qualquer que seja o resultado da eleigqo do dia 3, o maior derrotado sera Jader Barbalho. Mas a long prazo Belem e que estara em sua fase de inferno zodiacal. P ela terceira eleigio conse- cutiva, mesmo tendo sido candidate em apenas uma delas, Jader Barbalho sera o grande derrotado na votacgo do dia 3. Atd comegar a campanha pela prefeitura de Belm, tres meses atrds, ele pretendia ser apenas um espectador engajado, poupando-se de desgastes para o future. Mas na dltima semana foi obrigado a aparecer no program gratuito da television para reco- mendar o nome da deputada fede- ral Socorro Gomes, candidate de uma coligagao de partidos da qual o PMDB nem participa formal- mente. Era a desesperada tentati- va de evitar a queda livre de So- corro e tirA-la da melanc6lica po- sicao a que se viu reduzido o dl- timo candidate de Jader a prefei- tura da capital, Fernando Velas- co, que teve seis vezes menos votos do que seu entio competi- dor, Sahid Xerfan. Triste contradicgo cor as quatro eleig6es que Jader Barba- Iho travou at6 1978. Em todas elas a capital Ihe dava maciga prefer6ncia, permitindo-lhe lide- rar a oposiqAo e mant6-la na linha d'Agua contra os redutos conser- vadores do interior. Ja em 1982, quando se tornou governador pela primeira vez, Jader teve a adver- tencia dos votos em Beldm, mas achou que poderia mais do que compensar o desgaste na cidade historicamente oposicionista pela enxurrada de votos que seu aliado da 6poca, o governador Alacid Nunes, drenou para sua candida- tura. Em 1990 o contrast, real- qado pelas acusag6es de corrup- ) 2 Jornal Pessoal g~o, jA era gritante, mas ao menos ele p6de assegurar um tergo dos votos gragas ao seu populismo de periferia. Foi o bastante para vencer. Sera outra vez o suficiente para definir a dispute em 1994, quando do interior virAo 80% dos votos paraenses, mas desta vez nio sera apenas um col6gio eleitoral qualificado o que Jader Barbalho vai perder: ele deixari de ter o macigo poder polftico no Estado, passando a dividir, ainda que uma fatia menor, com seu pior inimigo. Para Helio Gueiros, a prefeitura de Bel6m serd o nd- cleo de resistencia a partir do qual poderd reagrupar suas for- gas, desbaratadas na eleigio de 1990, para retomar o ataque em 1994, provavelmente candidatan- do-se novamente ao governor es- tadual, na velha e desgastante la- dainha que tern sido uma das cau- sas da trag6dia deste Estado. O desespero fez o governador trocar os bastidores pela frente das cameras. A cota de Socorro, que comegara cor um quarto dos votos validos, cafra a menos da metade na pesquisa de maior prestfgio, a do Instituto Gallup, encomendada pela TV Liberal por exigencia da Rede Globo. Peeme- debistas e dirigentes da Alianga Popular apontavam sinais de ma- nipulagio na pesquisa. Mas nio conseguiram apresentar provas a tempo, nem impedir ou des- qualificar a divulgagio dos re- sultados. Se foi fraudada para fa- vorecer H6lio Gueiros, a pesquisa produziu resultados concretos: o revigoramento da candidatura do ex-governador e o naufragio de Socorro. Aparentemente, o esforgo fi- nal concentrado em favor da can- didata visava menos elege-la do que impedir uma vit6ria de Guei- ros jA no primeiro turno. Mesmo coloca-la no segundo lugar pare- cia um resultado muito diffcil de alcangar diante do "fen6meno" Cipriano Sabino. Sem currfculo polftico e cor um passado em branco na carreira polftica, ini- ciada com o mandate de deputado estadual, Cipriano tem um perfil de mero produto de "marketing", como daqueles cendrios hollywo- odianos que t6m apenas fachada, sem interior. Mas o produto de "marketing" deu certo. Atd a dltima pesquisa do Gallup ele atd servia aos propd- sitos do ex-governador porque estava tirando votos apenas dos concorrentes dele, sobretudo de Socorro e Ademir Andrade. Mas tudo indica que comegou a abo- canhar tamb6m o patrim6nio eleitoral do ex-governador, o que logo levou Gueiros ao revide e fez surgirem na cidade boatos de que Jader jA estava por tras do candidate da coligaqgo PDS-PL. Cipriano poderia vir a ser um novo Fernando Collor de Mello, passaram a garantir os dois lados da gangorra. HA munigdo para sustentar esse tiroteio, mas mui- tas balas estao ricocheteando na vontade de parcela crescente do eleitorado, que comegou a se transferir para o barco de Cipria- no. Atras dele estao velhos polf- ticos do PDS e empresarios. Nio 6 nada improvAvel que, depois de uma surpreendente vit6ria, Ci- priano se disponha a compor com o governador Jader Barbalho, mesmo porque acordos informais alicerqam pontes entire o PDS e o PMDB. Nesse caso, a pluralidade de poder seria menos tensa do que no caso da previsfvel eleigAo de H6lio Gueiros. Ela 6 o produto de diversas circunstancias, entire as quais er- ros clamorosos do grupo do go- vernador Jader Barbalho. Fre- quentador da escola baratista, ele acredita que o important 6 ven- cer, independentemente dos re- cursos a usar. Assim, para apres- sar a condenagio de seu anteces- sor, fez o Tribunal de Contas do Estado rejeitar as contas de Hl6io Gueiros, mudando parecer, cer- ceando o direito de defesa, com- primindo os prazos. Depois, co- locou um sobrinho na presidencia da comissfo t6cnica que examina- ria essas contas na Assembl6ia Legislative. Conseguiu o objeti- vo, mas & custa de primiarios er- ros processuais, que o Tribunal Superior Eleitoral apontou, der- rubando as etapas anteriores, sem sequer analisar o m6rito da ques- tao. O ego inflamado por uma vi- t6ria realmente impressionante, a de 1990, fez Jader Barbalho su- pervalorizar sua capacidade. Jul- gou e os aulicos circundantes trataram de reforgar esse julga- mento superficial e precipitado - que poderia eleger qualquer um, mesmo que fosse uma militant de linha de frente de um partido co- munista que ainda consider a Albania sua meca. A campanha de Socorro Gomes foi um desas- tre, que comegou cor seu com- portamento vaziamente agressivo, martelando num repddio redun- dante a Collor e em ataques deso- rientados a Helio Gueiros, culmi- nando por ferir candidates com os quais nao estava competindo di- retamente. Estancar a sangria de votos era o esforgo derradeiro de Jader para evitar uma definigao no pri- meiro turno, cor o que o prestf- gio de Helio Gueiros tera resso- nancia maior do que sua simples tradugao eleitoral. Qualquer que venha a ser o desfecho, entre- tanto, o governador terd que mu- dar seus pianos originals para 1994 e, talvez, aposentar a busca do Senado. O surgimento de uma segunda forga cor real poder de fogo faria muito bem a polftica paraense se essa "entourage" nao fosse comandada por Gueiros. Como ressaltou o senador Almir Gabriel, a intengao do ex- governador A a de servir a seu grupo e nao a de implantar um program alternative, embora te- nha distribufdo uma publicaqao com um arremedo de piano na dl- tima semana de campanha. O que Bel6m comegara a assistir a partir de janeiro, se Gueiros for o ven- cedor, sera urna atttentica rixa de rua, para a qual o ex-governador esta se preparando cor armas deixadas por seus prdprios adver- sarios. Se nao fizer nada, poderd alegar que foi boicotado e prepa- rar a image de vftima para o eleitorado & 1994. Ha alterdatiua para essa pers- pectiva sombria? Talvez nao. Fa- zendo.uma analise sadia e positi- va da lista de candidates, nio pelo criterio do "menos pior", o eleitor poderd chegar a urna de votagdo sem condig6es de exercer uma opqao conscience. A pobreza dos candidates 6 proporcional A pobreza de uma cidade que retira 80% da sua renda do setor terciA- rio, ter um em cada tres habi- tantes em idade de trabalhar so- brevivendo no mercado informal, um quarto da mao-de-obra ativa reduzida a pobreza e um hori- zonte de esperangas praticamente nulo. As esquerdas, que sabem diagnosticar com precisao a doenga, mostraram-se mais uma vez, nestas eleig6es, incapazes de trata-la. Se a meteorologia polfti- ca confirmar os maus agouros das pesquisas de opiniao, Bel6m vai iniciar um perfodo de inferno zo- diacal a partir de janeiro. Journal Pessoal 3 PERFIL 0 tamanho do rato Q uando, em maio do ano passado, decidi publicar uma carta que Hdlio Mota Gueiros me mandou, apenas um mrs depois de ter deixado o go- verno do Estado, achei que meu desgaste pessoal, como vftima de uma das mais torpes e injustificA- veis agress6es que um ser huma- no poderia sofrer, seria um prego compensador pelo fim da carreira de home pdblico de um home indigno dessa condigco. Achei, e minha opiniao foi partilhada por pessoas como o almirante Mario Jorge da Fonseca Hermes, que o povo paraense jamais iria permitir que o autor daquela canalhice voltasse a um cargo de direcao coletiva. Se ele descera a tanto por tio pouco, o que nio faria se dispusesse novamente de poder para usar contra adversaries ou desafetos? No entanto, Helio Gueiros esta a alguns passes de eleger-se prefeito de Bel6m, a segunda fungdo pdblica mais important no Estado. Evidentemente, uma publicaqao como este Jornal Pes- soal, de circulaqao restrita, nao tem a pretensao de poder bar- rar-lhe o caminho. A guerra 6 de- sigual: criada pelo poder de ma- nipulaqao do grupo Liberal, a imagem do ex-governador conti- nua recebendo o mesmo retoque poderoso. O pdblico a v8 na tele- visao e a encontra no journal como a expressao de uma dignidade, de uma integridade e de uma hones- tidade que os donos do velho pr6dio da Gaspar Viana sabem, no fntimo, que nao existem. Al- gum dia haverao de pagar pela criacao desse monstro nao pela primeira vez, alias, porque ja ex- perimentaram de seu fel, e nao quiseram (nao Ihes foi mais con- veniente) aprender. H~lio Gueiros tamb6m sabe, no que sobrevive de sua alcooli- zada consciencia, o tamanho da aberragao que praticou cor o in- tuito exclusive de intimidar crfti- cos como eu e antigos aliados que dele se desgarraram, como o jor- nal A Provfncia do Pard. O ex- governador nao apenas jamais as- sumiu de pdblico a autoria da carta, como, sutilmente, seguindo seu estilo, melffluo, procurou '-AAp) L~P ~z I- I U_ Oyql S4AJ , rex.. cl Lt'o J - Tc) c ' Lh(M o0 ,a k "&A kfeA- cv 4g'04. ^ ot~va< ^M^ l^''4 < WU >iL~c ULA OYtL' a ou^U^ SaeLc^ Lej4 BLaeiL-, OtI UC4L -- L2 J- V vteIt z _6A 4vt'v x 'O desvincular-se daquele s6rdido document. Muitos cidadaos honrados, al- canqados pela primeira vez e inesperadamente pela carta s6r- dida, interpretaram-na como mera manobra eleitoreira do governa- dor Jader Barbalho. VArios nem a leram, nao querendo sujar-se cor o que julgaram ser criagao espd- ria dos peemedebistas. Mas aquele texto imundo saiu real- mente do cerebro de H6lio Guei- ros, como mostrei ao fotografar o original do document, tal como o ex-governador o datilografou,-> " d 6"~" sc~ 114S e,4 fte^ Ct MjU P- '0 b n 4 Jornal Pessoal no Bandeira 3 de maio do ano passado. Para que nao paire mais qual- quer ddvida sobre essa autoria, public agora a reproducao dos dois bilhetes manuscritos por H6lio Gueiros. O primeiro, de 18 de abril de 1991, apenas acompa- nha a carta ao superintendent de A Provfncia do Par&, Roberto Ja- res Martins (o maquiavelsmo doentio de Gueiros o fez mandar seu papelucho para Jares, que o encaminharia em seguida mas depois de ler, assombrado, aquele texto doentio a mim). Diz o texto desse bilhete: "Jares, Rogo a fineza de fazeres chegar ao destinatario esta carta, que 6 aberta. Grato". O segundo bilhete nao pode ser transcrito na fntegra neste journal porque 6 pornografico. Gueiros escreveu-o ao receber minha resposta a sua agressao, que Ihe mandei no mesmo dia em que recebi de Jares a carta, a 21 de abril. Mentirosamente, H6lio Gueiros diz que nio abriu o en- velope, simplesmente devolvendo seu conteddo. No entanto, o en- velope apresentava visfveis sinais de violaaio. Sua tatica era a de aparecer para o destinatario (e, posteriormente, o pdblico) como valentao, capaz de intimidar qualquer um. Diz o bilhete: "Jares, Sinto cheio de f(*) da p(*) de long. De modo que, sem abrir, devolvo para o grande f(*) da p(*) o ex- pediente que ele me endererou. Se ele quiser responder alguma coisa, vai ter que me dizer pes- soalmente quando me encontrar. Eu fico preparado. Grato. P. S. - Se, por acaso no que nfo acre- dito meu faro tiver falhado, es- quece". Como se explica tanto 6dio? Muitos dos que conhecem inti- mamente Hdlio Gueiros atribuf- ram suas agress6es ao alcool. Mas ele escreveu a carta, numa manhi de sexta-feira, aparente- mente s6brio, depois de ler os jornais do dia ao lado da esposa, Terezinha Gueiros. Chegou a co- mentar tranquilamente a razao de seu cometimento, uma entrevista que fiz com o entao rec6m-em- possado governador Jader Bar- balho, publicada na coluna que eu tinha em A Provfncia do Parm (e perderia, alguns dias depois, justamente por critical Jader, perda que me forgou a voltar a editar este Jornal Pessoal). Tambdm o ex-governador es- tava s6brio quando Roberto Jares ligou para ele, as 10 horas da manha de uma segunda-feira, tres dias depois do envio da carta. Confirmou a autoria da carta, acrescentando que a havia escrito nao para prestar explicag6es, "mas para agredir mesmo". No entanto, ao contrario do que declarou na carta e no bilhe- te, H6lio Gueiros nao espalhou c6pias xerox de sua monstruosa criagao. Ele, mais uma vez, como costuma fazer em ocasi6es seme- lhantes, estava blefando. Nao pretendia divulgar a carta. Ela era apenas um instrument de pressdo, para me intimidar e ao superintendent de A Provfncia (que se enquadrou corn Jader de- pois de ter apoiado Gueiros at6 as v6speras da eleicgo de 1990). H6lio jamais pensou que eu iria publicar aquela coisa. Quando a viu impressa, tambdm deve ter julgado que aquele era o seu atestado de 6bito. Mas o tempo e, em seguida, a estupidez do PMDB na utilizagao tamb6m suja do document anularam aquela poderosa arma. H6lio pode vir a ser prefeito de Beldm, mas posso conferir-lhe, neste journal, um tftulo que Ihe fi- ca muito bem e que julgo poder atribuir-lhe corn todo o respaldo moral: 6 o politico mais canalha em toda a hist6ria da vida pdblica paraense. Enquanto no bilhete me chamava para briga de rua como se fosse um moleque sexagenario, cercava-se de capangas em suas aparig6es pdblicas. Atirava con- tra mim a pior lama que p6de en- contrar em vernAculo de bordel, imitando (a sua maneira, isto 6, A distancia) seus professors bara- tistas, que juntaram fezes de le- prosario para despejar sobre a cabeca pensante de Paulo Mara- nhao. Gueiros estava certo de que mesmo contra esse tipo de detra- tor minha rea~ao seria com pala- vras, duras, sim, mas jamais mer- gulhadas na lama f6tida de sua inspiraqio. E palavras, infeliz- mente, as vezes sao armas efi- cientes apenas na perspective mais larga da histdria. Nela, rato que 6, H6lio Gueiros nAo cabe. Sua vit6ria 6 daquelas que os acasos da hist6ria e as aberracqes da natureza conseguem produzir, mas que duram menos do que os ossos do beneficiario ou bem menos ainda que seus instantes de lucidez nio-alco6lica. IMPRENSA Os paralelos se chocam Q uem trocaria o melhor ne- gdcio na Area de comunica- C6es em todo o Norte do pafs, que, alem de dar dinheiro, rende poderosa influencia, por patrocfnio de espetaculos musi- cais, venda de discos, agencia- mento de seguros e equivalentes? Apesar de todas as evidencias in- dicarem no sentido contrario, os filhos do empresario Romulo Maiorana estao fazendo a troca da lebre por gato. Ou, para usar outra image zooldgica, matando a galinha dos ovos de ouro. Tendo num dos extremes o vice-presidente do Sistema Ro- mulo Maiorana de Comunicagao, Romulo Maiorana Jr., e no outro a diretora administrative, RosAn- gela Maiorana Kzan, os sete her- deiros vem sustentando uma dis- puta que culminou no m6s passa- do com o desentendimento entire os dois (ver Jornal Peasoal n 98). Durante tres semanas Romi- nho Maiorana abandonou seu ga- binete, no ldtimo andar da sede do journal O Liberal, ameagou re- tirar seu nome do expediente e sair da empresa. Mas na terCa-fei- ra da semana passada, dia 22, reasumiu suas fung6es. Aparentemente cumpriu-se a previsao de que Rominho, ao viajar para Sao Paulo e, depois, evitar retornar ao seu gabinete, nio estava rompendo de verdade cor o grupo Liberal, do qual 6 o principal executive, mas mano- brando no jogo de presses para conquistar maior poder. Mas sua volta nao significa que a paz se tenha restabelecido na famflia. Ao que parece, havera mais um Journal Pessoal 5 perfodo de tr6gua na sucessao de escaramuras que tem marcado os dltimos anos na cdpula do grupo Liberal. O elenco de divergencias en- tre os irmios 6 amplo. Alguns sao de natureza polftica. Rosangela, por exemplo, nao teria ingressado completamente na campanha para governador de Sahid Xerfan, em 1990, como decidiu Rominho, contra a opinido dela. Vencida entao, Loloca, como 6 conhecida na intimidade, reagiu neste ano A repetigio do mesmo comporta- mento do grupo Liberal e tentou convencer a mae a manter a em- presa a certa distancia da dispute eleitoral. Essa postura foi sus- tentada at6 o retorno de Rominho, na semana passada, quando O Li- beral comegou a publicar andn- cios promocionais de H6lio Guei- ros, indicando que Rominho pode ter vencido mais uma batalha, embora sem a garantia de con- quistar a vitdria final. Na area commercial, Rosangela nio concordou com a decisao do irmAo de usar a logomarca do Sistema Romulo Maiorana de Comunicacao em sua empresa de seguros. Responsavel pelas prin- cipais decis6es da empresa na area operational, Loloca nao es- condia sua inquietagAo cor o crescimento dos negdcios para- lelos dos irmAos e sua repercus- sio sobre o orgamento da empre- sa, mas acabou seguindo o mesmo caminho. A quantidade de andncios gratuitos no journal e veiculag6es nas emissoras de radio e televisao cresceu a tal ponto que, em certas edig6es de O Liberal, as permutas chegam a representar metade de toda a publicidade do journal. As irmis passaram a faturar bastante na Area de promog6es da noite e Rominho se tornou um grande proprietario de im6veis de Bel6m, trocando andncios por aparta- mentos. Atrito no AmapA A colisAo mais sdria entire os dois principals executives do grupo Liberal, por6m, ocorreria no AmapA. Rosangela, associada a Angela Maiorana Martins, que atua na televisio, decidiu organi- zar duas empresas para atuarem no novo Estado na importaqAo e exportagCo e no setor grafico. Sem saber da iniciativa das irmis, e tamb6m sem avisr-las de sua prdpria agio, Rominho montou empresas nesses mesmos stores - e uma terceira para produzir plasticos. Em todas elas partici- pa, com percentage simbdlica, o director industrial do journal, Poju- cam de Moraes. O responsdvel pela organiza- qio das cinco empresas era Ario- valdo Santos, gerente de circula- ~go de O Liberal. Ele manteve segredo sobre sua dupla e para- lela funlio atd Rominho desco- brir que Ariovaldo estava servin- do tanto a ele como as irmas. Sd entio teria decidido investor con- tra o assessor, usando-o por ta- bela para atingir Rosingela e An- gela, competidoras num setor no qual o journal tambem iria entrar. As duas negam que o motivo da explosAo do irmAo tenha sido um rombo ocorrido na empresa, no qual Rominho diz que Ario- valdo estaria envolvido, acusagAo que nio aceitam, que Rominho nio teria comprovado e da qual s6 ficaram sabendo quando suas empresas jA estavam montadas. Depois do bate-boca pdblico corn Rominho, Ariovaldo entrou de f6- rias. Da mesma maneira como saiu, Romiaho voltou, mas seu gesto pode indicar que a dispute pelo poder no grupo Liberal chegou ao seu ponto mdximo de tensAo. Os negdcios paralelos dos irmaos re- presentam um 6nus muito pesado para a empresa-mae e, de tao in- trincados, levaram a um conflito aberto de interesses. Se eles vio ser conciliados e a empresa man- tera sua forca atual, ameaqada muito mais por esses litfgios in- ternos do que por agress6es ex- ternas, tudo vai defender da aqao de um personagem que se mant6m mudo, apesar de sua forga: a mie, Dea Maiorana, detentora do con- trole absolute das aq6es do grupo Liberal. Erro fatal? Sjornal O Estado de S. Paulo quase quebrou, na metade da d6cada de 70, quando decidiu substituir seu sistema de impres- sAo conventional, tipogrifico, por um sistema, o naylon print, que apenas um outro journal em todo o Brasil, o Dihrio do Co- m6rcio, de Sdo Paulo, tamb6m utilizaria. Foi uma troca desastro- sa, que contribuiu decisivamente para o Estadio perder a tradicio- nal lideranqa no mercado de jor- nais para a Folha de S. Paulo. O Liberal pode ter embarcado na mesma decision errada, que Ihe custard muito caro, quando deci- diu implantar um novo parque grAfico. A empresa optou por ad- qurir uma mdquina, a Man Rol- land, modelo Uniman 4/2, pouco usada no mercado brasileiro e so- bre a qual tem sido apresentadas muitas objeq6es t6cnicas. Uma dessas mdquinas havia sido ven- dida pelo fabricante alemao para um milionario australiano, que desistiu da transagio. A mdquina ficou entio disponfvel para en- trega imediata, fato nio muito frequent porque a fabrica;io s6 6 feita por encomenda e requer tempo para o fornecimento. O prego tamb6m era convida- tivo: de 5,7 milh6es de d6lares, foi reduzido para algo em torno de 4 a 4,5 milh6es. Gracas A sua influencia polftica, o grupo Libe- ral tambem conseguiu beneficiar- se da isenqio de imposto para a importaqgo e da autorizadio pa- ra trazer a maquina do exterior. Parecia um excelente neg6cio. O primeiro grande erro de avaliafgo foi o de considerar que o equipa- mento poderia ser instalado na sede do journal, na rua Gaspar Viana, o que logo se revelou im- praticAvel. A empresa teve que buscar outro local. At6 conse- gui-lo, a mrquina permaneceu no porto de Bel6m, pagando em d6- lar por nio ter dado entrada le- galmente no pafs A liberaggo acarretou novos problems e prejufzos. Mas ao comprar a rotativa, com seis unidades, a maior das que entrardo em operagqo no Norte do pafs, com capacidade para imprimir 60 mil exemplares por hora, os executives responsA- veis pela operaqao simplesmente se esqueceram de uma parte in- dispens6vel: o sistema de esteiras para a safda e empacotamento dos jornais. Por causa de sua alta velocidade, a impressora precisa de um complement automatiza- do, sem o qual perde sua grande vantagem. Operd-la manualmente a partir da impressio, como 6 a caracterfstica atual de O Liberal, seria um desprop6sito. As pressas a empresa pediu um orgamento ao representante da Rolland no Brasil, cor urgencia na fabricacqo do sistema de dis- tribuigqo e empacotamento, mas limitando seu orcamento a nio SJornal Pessoal mais do que 200 mil ddlares, uma concilia&io diffcil de fazer, se- gundo tdcnicos do setor. Por falta de recursos compatfveis, a empre- sa nao vai promover a duplicac&o da impressora e tamb6m terd uma linha singular de safda de jornais da boca da mdquina. Isto signifi- ca que, por um acidente que im- possibilite o funcionamento das esteiras, o journal estard ameagado de nio sair. Um gigante, como 0 Liberal, na hora crucial de fazer seu maior investimento industrial de todos os tempos, que Ihe acarretar,4 in- vestimento em torno de US$ 10 milh6es, agiu como pigmeu, ama- doristicamente. Esses erros pode- rio ter um efeito ainda mais am- pliado por causa da crise national e da delicada posigco econ6mico- financeira da empresa. Origem do sujo O governador Jader Barbalho passou direto do aeroporto de Belem, na noite do dia 19, no retorno de Redengao, no sul do Estado, para a casa de seu secre- tario dos Transportes, Antonio Brasil, no sofisticado condomfnio do Lago Azul, em Ananindeua. Desde a manha o local era fre- quentado por alguns de seus au- xiliares de primeiro escalao, que se dividiam entire envelopar uma correspondencia e consumer um alentado buffet encomendado pelo anfitri&o. O governador foi conferir pessoalmente a execucgo de um trabalho que nada tinha a ver com a administraqao estadual: o pre- paro para expedigao de uma cor- respondencia que seguiria para todos os donos de telefones de Belem, a partir de uma listagem da Telepara, extenuante trabalho que se estenderia pelo domingo, ji sem a presenga de Jader Bar- balho. A "mala direta" era um folheto, atribufdo a uma certa Uniao Paraense pela Atica Polfti- ca, reproduzindo a capa da edigao do journal Bandeira 3, que editei em maio do ano passado, uma carta a mim enderegada pelo ex- governador Hdlio Gueiros e a resposta que Ihe mandei em rela- gao a sua torpe agressdo. Era a segunda investida do grupo do governador para ampliar a divulgaqao desse triste docu- mento. Antes, ele fora simples- mente lido durante o program eleitoral da coligagao PMDB- PDC, provocando minha indigna- gao (ver Jornal Pessoal n 98). Desta vez, o tratamento nao era tio sensacionalista, mas o resul- tado nao foi mais eficiente, me atingindo mais do que o cfnico autor daquela carta. Quando a publiquei original- mente, tive o cuidado de tingir de preto a capa do Bandeira 3, aler- tando os leitores para o conteddo. Tambdm nio mandei compor a carta nos tipos do journal, apenas fotografando-a em seu tamanho natural, com todas as suas incor- rec6es, cercando de restrig6es sua leitura. Reproduzi ainda a entre- vista que fiz com Jader Barbalho, publicada em A Provfncia do Pa- ra, motivo alegado para a despro- positada reag9o de Gueiros. E narrei todas as circunstAncias que originaram o epis6dio. O journal nao era uma publicaqio an6nima ou anddina, mas um journal com responsavel indicado no expe- diente. Nao tinha outro propdsito que nao o de informer a opiniao pdblica paraense No folheto espalhado na se- mana passada, a carta foi super- ampliada, fazendo cor que suas 28 expresses chulas, vulgares ou pornogrAficas alcangassem a di- mensao de uma agressao, que nem permit a percepcao do que efeti- vamente 6 ou o significado do que represent, agravada ainda mais porque a correspondencia foi enviada para residencias par- ticulares, sem qualquer consult prdvia, sem alerta, com origem difusa. Para complicar, a iniciativa ocorreu as vesperas de uma elei- gao da qual Hdlio Gueiros parti- cipa como o grande favorite, contaminando-a com essa cir- cunstincia, fazendo-a parecer oportunista, como de fato 6 e depois da desastrada apresentagao no hordrio gratuito da propaganda eleitoral. Impressionou mais a pornografia em si do que o seu autor, impressao que a dificulda- de natural de percepgao em various segments da populafio reforga, principalmente por falta de um tratamento didAtico e sdrio do as- sunto. Quando decidi publicar a carta, duas semanas ap6s rece- be-la, no curso de um dos mais atormentados perfodos da minha vida, tinha a intengio de, com sa- criffcio pessoal, deixando de lado meu senso de pudor, revelar aos paraenses a face verdadeira de Hdlio Gueiros. Um ano e meio depois, a reproducio desse ver- gonhoso document em um pan- fleto eleitoreiro antecipa a que ponto deveri baixar o nfvel da guerra que serf travada em Be- lem, a partir de janeiro, se Hdlio Gueiros for eleito prefeito da po- bre capital dos paraenses. Mesma posigao M ais de um mes depois de ter renunciado traumaticamente a candidatura de prefeito de Beldm por uma coligagio de sete parti- dos, a maior na eleiaio deste ano na capital paraense, o senador Almir Gabriel preferiu nao apro- veitar uma entrevista dada ao program Cartas na Mesa, da TV Cultural, para explicar seu gesto tAo pol8mico. Admite dever essa explicagdo a opiniao pdblica, mas como seu ato foi solitirio julga- se no direito de escolher "o mo- mento oportuno" para falar a res- peito. O senador tucano reconhece que sua safda "pode ter repre- sentado um traumatismo muito grande", mas diz-se convencido de que ela nio poderia ser res- ponsabilizada por uma "eventual vit6ria" de H1lio Gueiros. Inves- tiu contra o ex-governador, acu- sando-o de pretender retomar a prefeitura de Belem "como uma trincheira para a luta, para a guerra em favor de um determi- nado grupo, e nao na busca de um interesse em resolver os proble- mas da populagio". Desistente de luta na v6spera, por6m, a forga moral do senador pode ter sido erodida pelo tom que seu pronun- ciamento adquiriu, de cabo-elei- toral da deputada Socorro Gomes. Numa compensag~o, a consider "a pessoa que redne a melhor qualificacgo para assumir agora a prefeitura de Beldm". Ou seja: quando deveria ser um corajoso analista de sua deci- sdo e do que ela representou para a dispute eleitoral deste ano, o senador voltou ao locus tfpico dos tucanos: o alto do muro. De l talvez pense em voar de retor- no h polftica paraense em 1994 pelas asas de um lugar no minis- tdrio de Itamar Franco ou de um novo acordo favordvel com patro- cinadores potenciais. Mas pode ter grudado de vez no muro bra- siliense, onde representantes des- sa fauna costumam condenar-se a extincao. Journal Pessoal governor federal gastou 700 milh6es de ddlares para construir uma hidrel6trica, a menos de 200 quil6metros de Manaus, que resolveria o cr6nico problema de suprimento de ener- gia a capital amazonense. A usina demorou sete anos para ser con- clufda. Com os juros durante a construgao, deve ter representado investimento em torno de um bi- lhAo de ddlares. Mas hoje 90% do consume de energia de Manaus, a segunda maior cidade da Amaz6- nia, cor 1,2 milhAo de habitan- tes, esti sendo atendido pelo an- tigo parque gerador. Essas velhas maquinas t6rmicas haviam sido desativadas a partir de 1989, comr o infcio da operagAo commercial da hidreldtrica de Balbina. O "deficit" entire a geragio hidraulica e o consume tornou-se tfAo grande por causa de "El Ni- io", um fen6meno cimatoldgico de dimens6es planetArias que tem afetado particularmente o Norte do Brasil. A vazio media do rio UatumA, cujas Aguas acionam as turbines de Balbina, baixou do fndice normal, de quase 700 me- tros cdbicos por segundo nessa epoca do ano, para os atuais 270 metros cdbicos de Agua. O reser- vatdrio esta sendo operado na cota mfnima, de 48 metros. Nes- sas condig6es, apenas uma das cinco maquinas da usina esta em atividade e mesmo assim tra- balhando sa oito horas por dia. Esta grave situaqAo ira se ate- nuando a partir de agora, quando a estiagem na regiAo se reduz e vai passando a influencia de "El Niflo", mas o problema continua- ri evoluindo ano apds ano. Ape- nas quatro anos depois de ser inaugurada, Balbina, a segunda mais cara hidrel6trica da Amaz6- nia, jA nao atende nem 70% do consume de Manaus, em seus moments de "pique", quando alcanga 280 mil kw (a capacidade nominal de geragio da usina, nunca alcangada, e de 250 mil kw). As desgastadas maquinas ter- micas, que deveriam ser aposen- tadas cor a nova usina, continua- rAo ainda em funcionamento, participando em proporKio cada vez maior, a media em que a ca- pacidade real de Balbina for se reduzindo. Nao 6 improvavel que jA no final desta decada ela nio atenda sequer um tergo das ne- cessidades da capital do Amazo- nas. Nem sera ficqAo cientffica prever que em mais tempo ela seja abandonada compulsoria- mente. O "El Nifio" apenas dramati- za o que 6 uma tendencia natural da hidreletrica. Ela foi construfda num terreno muito plano. Para que as Aguas do UatumA pudes- sem movimentar as turbines, foi precise elevar as Aguas do rio pa- ra permitir um desnfvel mfnimo operacional. Com isso, uma imen- sa Area ficou submersa. Com ape- nas 7% da potencia da hidreletri- ca de Tucuruf, a maior da regilo, Balbina inundou Area equivalen- te, formando o terceiro maior la- go artificial do pals. A paisagem provocada por es- sa interveng~o 6 cada vez mais desoladora: milhares de Arvores mortas, ambient lacustre, de Aguas paradas ou mortas, que de- moram muito a se renovar, e as- soreamento do fundo do lago. A persistirem esses fen6menos, em breve o desnfvel na tomada de Agua nao garantird condig6es operacionais para a usina. Ela fi- card indtil antes que a Eletronorte consiga pagar os financiamentos contrafdos para construf-la. Balbina se revelou anacr6nica antes mesmo de ter sido inaugu- rada, quiaado ficou claro que o local da barragem era inadequado e que seu porte, limitado pelas condig6es ffsicas, nAo estaria no nfvel da demand que deveria tender. Para suprir a lacuna, imediatamente a Eletronorte co- megou a planejar a construgao de outra hidrel6trica, tr6s vezes mais distant de Manaus do que Balbi- na (o que acarretaria a instalagio de uma linha de transmissAo de energia mais extensa e cara), corn outro bilhao de ddlares para in- vestir (no padrAo dos orcamentos pdblicos brasileiros, que sempre se multiplicam no curso da obra). Esses pianos s6 nao se consuma- ram por causa da crise brasileira, que tambdm contribuiu para ate- nuar as dificuldades da Eletro- norte ao comprimir o consume de energia em Manaus, poupando a cidade de sofrer racionamento. A crise poder6 ainda ser be- ndfica se forgar o governor a ser 7 A lihao das aguas mais criativo, abandonando os esquemas viciados de grandes obras e a bitola do convenciona- lismo, que liva & construgao de hidrel6tricas apenas como con- seuencia Idgica da existencia de rios caudalosos (mas de pouca declividade), abstraindo as difi- culdades especfficas e o engenho prdprio que gerar energia na Amaz6nia imp6e. Caso de policia No mes passado a Inspetoria da Polfcia Federal apreendeu duas carretas no porto privativo da Sanave, em Belem. Dentro delas havia cinco unidades de uma maquina de imprimir journal. O vendedor era Umberto Caldera- ro, dono do journal A Crftica, o mais important de Manaus. O comprador era o ex-senador e ex- governador do Maranhao, JoIo Castelo, que pretendia relangar o seu Jornal de Hoje com essas md- quinas. Mas a transaqgo entire Calde- raro e Castelo fora completa- mente irregular. As maquinas ti- nham sido despachadas de Ma- naus por uma pessoa fictfcia, Francisca Ferreira. Na nota fis- cal, a carga fora declarada como sendo "sucata de ferro", com valor avaliado em 20 milh6es de cruzeiros, embora o seguro decla- rado tenha sido de Cr$ 2 bilh6es, 100 vezes mais. Caracterizado o ilfcito penal, o caso foi repassado para a Polf- cia Federal, que instaurou inqu6- rito, nao apenas para apurar as responsabilidades envolvendo as duas carretas, como para desco- brir o paradeiro de uma terceira, que safra na mesma ocasiAo de Manaus. Logo se espalhou o boato de que essa carreta condu- zia outra mAquina do mesmo porte adquirida pelo Dirio do ParA, de propriedade do governa- dor Jader Barbalho. Realmente o Dilrio fez uma transag o se- melhante com Umberto Calderaro, aproveitando o antigo parque gra- fico de A Crftica, que o renovou. Mas as maquinas destinadas ao journal de Jader ainda permane- ciam em Manaus, sem sequer es- tarem desmontadas, quando as de Jolo Castelo foram apreendidas no porto da Sanave, empresa que pertence a Sabino Oliveira, pai do candidate do PDS & prefeitura de Belem, Cipriano Sabino. jornal Pessoal 1 ICVRD Questao de grandeza Companhia Vale do Rio Doce faturard neste ano mais de um bilhio de ddla- res (em torno de seis trilh6es de cruzeiros) cor a venda de mind- rio de ferro, manganes, ouro e bauxita produzidos no Pard. Esse valor represent mais de um tergo das exporta6ges amaz6nicas e faz cor que a empresa tenha um po- der econ6mico superior ao do prdprio Estado no qual se esta- beleceu. Em nenhum outro, dos quatro que constituem sua base operacional, ela tem influencia maior. Ao long da ddcada de 90 o Sistema Norte (praticamente re- duzido ao Para e, secundaria- mente, o Maranhio) devera ad- quirir maior peso que o Sistema Sul (formado por Minas Gerais, Espfrito Santo e Rio de Janeiro), reduto de origem e ainda o prin- cipal da empresa. O deslocamento da CVRD pa- ra a Amaz6nia, com seu ndcleo mais forte no Pard, 6 um dos fe- n6menos marcantes no process de ocupagAo da regiao. Ele pro- voca reag6es nao apenas exter- nas, mas no interior da prdpria empresa estatal, a maior vendedo- ra de min6rio de ferro do planet (6 responsAvel por um quarto do min6rio que circula entire os oceanos). Embora sabendo que o future aponta no rumo Norte, a cdpula da Vale tenta preservar a influencia polftica do Sistema Sul, fazendo da Amaz6nia uma drbita, ainda que de maior densi- dade relative. Vislo estrat6gica A CVRD pretend moldar os caminhos da maior fronteira mun- dial de recursos naturais de acor- do com sua estrat6gia. Esses ob- jetivos sAo facilitados pela cir- cunstancia de que no drgio espe- cffico do governor encarregado do planejamento de maior f6lego, a SAE (Secretaria de Assuntos Es- trat6gicos, que substituiu o SNI e tenta enterrar os ossos do ante- cessor), esta o engenheiro Eliezer Baptista, um dos grandes tedricos da CVRD. Baptista, e o que ele repre- senta no amplo conjunto de inte- resses da empresa, por ele jd pre- sidida, esta convencido de que a Amaz6nia sd se modernizard, conquistando um lugar no concor- rido sol da competigao interna-. cional, associada a um bem sele- cionado grupo de grandes proje- tos conectados a mercados no exterior. O principal parceiro se- ria o Japao e seus sat6lites asihti- cos. Eliezer Baptista 6 considerado o ocidental que mais vezes esteve em territdrio japones (mais de uma centena de viagens feita para la, segundo a mitologia). O re- corde foi alcangado a servigo de negociag6es que resultaram na maior hidrel6trica inteiramente national, a de Tucuruf; na maior fibrica de alumfnio do continent sul-americano, a da Albras; e que abriu um corredor o de CarajAs para escoar min6rios atd os vo- razes consumidores japoneses, e tudo isso em territdrio paraen- se, cor drenagem para o super- porto da Ponta da Madeira, em Sao Lufs. Categdrica no estabelecimento e execugao de seus objetivos, a Vale nao consegue, entretanto, manter sob seu absolute domfnio os desdobramentos de seus atos, que v6m alterando drasticamente a paisagem econ6mica do Pard. A empresa acredita que um dos fa- tores determinantes da moderni- zagao da regiao 6 o fim dos ga- rimpos, que desperdigam uma grande quantidade de ouro (alem de causar danos ambientais e so- ciais) com seus mdtodos primiti- vos de extragao. Em 1984 os ga- rimpeiros de Serra Pelada se amotinaram e quase destrufram a sede da mineragAo, no alto da Serra de Carajas. Ali, a Vale vi- nha sendo considerada quase co- mo inimigo pdblico ndmero um, para o que contribuiu a versIo - espalhada pelo coronel SebastiAo Curid de que 6 uma multinacio- nal e nao uma estatal. Outros alvos Preocupada tanto com o risco de se transformer em alvo dnico dos ataques e agress6es e cor as tens6es que esse modelo de de- senvolvimento atrav6s de encla- ves engendra, a CVRD esteve por tris do governor na formulaqio do Program Grande Carajds, que procura atrair novos investidores e diversificar as atividades eco- n6micas. Na semana passada, reabriu as negociaq6es cor o go- verno paraense para reiniciar a implantagio da fibrica de alumi- na da Alunorte, um projeto g6meo do da Albrds, e verticalizar o process produtivo em Barcarena, que sa teoricamente 6 um distrito industrial, limitando-se a produ- zir lingotes de metal. Mas a prdpria grandeza a im- pede de deixar de ser o foco de todas as ateng6es. Ngo por acaso, 6 acusada de, no mfnimo, estar estimulando os sentiments sepa- ratistas dos que querem criar o Estado de Carajas, desmembrado do que 6 hoje o Estado do Pard. Nessa nova unidade federativa, ao menos inicialmente, a Vale nio seria maior do que o Estado, como ocorre atualmente no Pard. Ela passaria a ser o prdprio Esta- do. Numero 100 O Journal Pessoal chegard ao cent6simo ndmero na prdxima edigAo, conquistando a marca dos tres dfgitos, rara na imprensa al- ternativa. Alguns amigos trn apresentado sugest6es para co- memorar a data, mas acho que a melhor maneira de gravd-la, den- tro das limitantes circunstAncias nas quais o journal 6 produzido, seria atraves do leitor. Abro as paginas do pr6ximo JP aos que quiserem avaliar o percurso des- ses 99 ndmeros editados em cinco anos e para as perspectives do journal. A reflexao pode ser feita a partir da seguinte questao: o JP se exauriu, esgotando suas possi- bilidades de crescimento, ou ain- da deve sobreviver? Que fungao ele desempenha para os seus lei- tores? Os prdprios podem escre- ver. As cartas serio benvindas e representarao a melhor sinaliza- qao para o future, se future ha. Journal Pessoal Editor responsavel: Lucio Flavio Pinto llustragqo: Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone 223-1929 Opiao Editoral |
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