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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00074

Full Text





Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL L C FI AV P INTO

Ano VI No 99 a Quinzena de Outubro de 1992 Cr$ 2.000,00

ELEICAO



0 retrato piorado
Qualquer que seja o resultado da eleigqo
do dia 3, o maior derrotado sera Jader
Barbalho. Mas a long prazo Belem e que
estara em sua fase de inferno zodiacal.


P ela terceira eleigio conse-
cutiva, mesmo tendo sido
candidate em apenas uma
delas, Jader Barbalho sera o
grande derrotado na votacgo do
dia 3. Atd comegar a campanha
pela prefeitura de Belm, tres
meses atrds, ele pretendia ser
apenas um espectador engajado,
poupando-se de desgastes para o
future. Mas na dltima semana foi
obrigado a aparecer no program
gratuito da television para reco-
mendar o nome da deputada fede-
ral Socorro Gomes, candidate de


uma coligagao de partidos da qual
o PMDB nem participa formal-
mente. Era a desesperada tentati-
va de evitar a queda livre de So-
corro e tirA-la da melanc6lica po-
sicao a que se viu reduzido o dl-
timo candidate de Jader a prefei-
tura da capital, Fernando Velas-
co, que teve seis vezes menos
votos do que seu entio competi-
dor, Sahid Xerfan.
Triste contradicgo cor as
quatro eleig6es que Jader Barba-
Iho travou at6 1978. Em todas
elas a capital Ihe dava maciga


prefer6ncia, permitindo-lhe lide-
rar a oposiqAo e mant6-la na linha
d'Agua contra os redutos conser-
vadores do interior. Ja em 1982,
quando se tornou governador pela
primeira vez, Jader teve a adver-
tencia dos votos em Beldm, mas
achou que poderia mais do que
compensar o desgaste na cidade
historicamente oposicionista pela
enxurrada de votos que seu aliado
da 6poca, o governador Alacid
Nunes, drenou para sua candida-
tura. Em 1990 o contrast, real-
qado pelas acusag6es de corrup- )







2 Jornal Pessoal


g~o, jA era gritante, mas ao menos
ele p6de assegurar um tergo dos
votos gragas ao seu populismo de
periferia. Foi o bastante para
vencer.
Sera outra vez o suficiente
para definir a dispute em 1994,
quando do interior virAo 80% dos
votos paraenses, mas desta vez
nio sera apenas um col6gio
eleitoral qualificado o que Jader
Barbalho vai perder: ele deixari
de ter o macigo poder polftico no
Estado, passando a dividir, ainda
que uma fatia menor, com seu
pior inimigo. Para Helio Gueiros,
a prefeitura de Bel6m serd o nd-
cleo de resistencia a partir do
qual poderd reagrupar suas for-
gas, desbaratadas na eleigio de
1990, para retomar o ataque em
1994, provavelmente candidatan-
do-se novamente ao governor es-
tadual, na velha e desgastante la-
dainha que tern sido uma das cau-
sas da trag6dia deste Estado.
O desespero fez o governador
trocar os bastidores pela frente
das cameras. A cota de Socorro,
que comegara cor um quarto dos
votos validos, cafra a menos da
metade na pesquisa de maior
prestfgio, a do Instituto Gallup,
encomendada pela TV Liberal por
exigencia da Rede Globo. Peeme-
debistas e dirigentes da Alianga
Popular apontavam sinais de ma-
nipulagio na pesquisa. Mas nio
conseguiram apresentar provas
a tempo, nem impedir ou des-
qualificar a divulgagio dos re-
sultados. Se foi fraudada para fa-
vorecer H6lio Gueiros, a pesquisa
produziu resultados concretos: o
revigoramento da candidatura do
ex-governador e o naufragio de
Socorro.
Aparentemente, o esforgo fi-
nal concentrado em favor da can-
didata visava menos elege-la do
que impedir uma vit6ria de Guei-
ros jA no primeiro turno. Mesmo
coloca-la no segundo lugar pare-
cia um resultado muito diffcil de
alcangar diante do "fen6meno"
Cipriano Sabino. Sem currfculo
polftico e cor um passado em
branco na carreira polftica, ini-
ciada com o mandate de deputado
estadual, Cipriano tem um perfil
de mero produto de "marketing",
como daqueles cendrios hollywo-
odianos que t6m apenas fachada,
sem interior. Mas o produto de
"marketing" deu certo.
Atd a dltima pesquisa do
Gallup ele atd servia aos propd-
sitos do ex-governador porque


estava tirando votos apenas dos
concorrentes dele, sobretudo de
Socorro e Ademir Andrade. Mas
tudo indica que comegou a abo-
canhar tamb6m o patrim6nio
eleitoral do ex-governador, o que
logo levou Gueiros ao revide e
fez surgirem na cidade boatos de
que Jader jA estava por tras do
candidate da coligaqgo PDS-PL.
Cipriano poderia vir a ser um
novo Fernando Collor de Mello,
passaram a garantir os dois lados
da gangorra. HA munigdo para
sustentar esse tiroteio, mas mui-
tas balas estao ricocheteando na
vontade de parcela crescente do
eleitorado, que comegou a se
transferir para o barco de Cipria-
no. Atras dele estao velhos polf-
ticos do PDS e empresarios. Nio
6 nada improvAvel que, depois de
uma surpreendente vit6ria, Ci-
priano se disponha a compor com
o governador Jader Barbalho,
mesmo porque acordos informais
alicerqam pontes entire o PDS e o
PMDB. Nesse caso, a pluralidade
de poder seria menos tensa do
que no caso da previsfvel eleigAo
de H6lio Gueiros.
Ela 6 o produto de diversas
circunstancias, entire as quais er-
ros clamorosos do grupo do go-
vernador Jader Barbalho. Fre-
quentador da escola baratista, ele
acredita que o important 6 ven-
cer, independentemente dos re-
cursos a usar. Assim, para apres-
sar a condenagio de seu anteces-
sor, fez o Tribunal de Contas do
Estado rejeitar as contas de Hl6io
Gueiros, mudando parecer, cer-
ceando o direito de defesa, com-
primindo os prazos. Depois, co-
locou um sobrinho na presidencia
da comissfo t6cnica que examina-
ria essas contas na Assembl6ia
Legislative. Conseguiu o objeti-
vo, mas & custa de primiarios er-
ros processuais, que o Tribunal
Superior Eleitoral apontou, der-
rubando as etapas anteriores, sem
sequer analisar o m6rito da ques-
tao.
O ego inflamado por uma vi-
t6ria realmente impressionante, a
de 1990, fez Jader Barbalho su-
pervalorizar sua capacidade. Jul-
gou e os aulicos circundantes
trataram de reforgar esse julga-
mento superficial e precipitado -
que poderia eleger qualquer um,
mesmo que fosse uma militant de
linha de frente de um partido co-
munista que ainda consider a
Albania sua meca. A campanha
de Socorro Gomes foi um desas-


tre, que comegou cor seu com-
portamento vaziamente agressivo,
martelando num repddio redun-
dante a Collor e em ataques deso-
rientados a Helio Gueiros, culmi-
nando por ferir candidates com os
quais nao estava competindo di-
retamente.
Estancar a sangria de votos
era o esforgo derradeiro de Jader
para evitar uma definigao no pri-
meiro turno, cor o que o prestf-
gio de Helio Gueiros tera resso-
nancia maior do que sua simples
tradugao eleitoral. Qualquer que
venha a ser o desfecho, entre-
tanto, o governador terd que mu-
dar seus pianos originals para
1994 e, talvez, aposentar a busca
do Senado. O surgimento de uma
segunda forga cor real poder de
fogo faria muito bem a polftica
paraense se essa "entourage" nao
fosse comandada por Gueiros.
Como ressaltou o senador
Almir Gabriel, a intengao do ex-
governador A a de servir a seu
grupo e nao a de implantar um
program alternative, embora te-
nha distribufdo uma publicaqao
com um arremedo de piano na dl-
tima semana de campanha. O que
Bel6m comegara a assistir a partir
de janeiro, se Gueiros for o ven-
cedor, sera urna atttentica rixa de
rua, para a qual o ex-governador
esta se preparando cor armas
deixadas por seus prdprios adver-
sarios. Se nao fizer nada, poderd
alegar que foi boicotado e prepa-
rar a image de vftima para o
eleitorado & 1994.
Ha alterdatiua para essa pers-
pectiva sombria? Talvez nao. Fa-
zendo.uma analise sadia e positi-
va da lista de candidates, nio
pelo criterio do "menos pior", o
eleitor poderd chegar a urna de
votagdo sem condig6es de exercer
uma opqao conscience. A pobreza
dos candidates 6 proporcional A
pobreza de uma cidade que retira
80% da sua renda do setor terciA-
rio, ter um em cada tres habi-
tantes em idade de trabalhar so-
brevivendo no mercado informal,
um quarto da mao-de-obra ativa
reduzida a pobreza e um hori-
zonte de esperangas praticamente
nulo. As esquerdas, que sabem
diagnosticar com precisao a
doenga, mostraram-se mais uma
vez, nestas eleig6es, incapazes de
trata-la. Se a meteorologia polfti-
ca confirmar os maus agouros das
pesquisas de opiniao, Bel6m vai
iniciar um perfodo de inferno zo-
diacal a partir de janeiro.






Journal Pessoal 3


PERFIL


0 tamanho do rato


Q uando, em maio do ano
passado, decidi publicar
uma carta que Hdlio Mota
Gueiros me mandou, apenas um
mrs depois de ter deixado o go-
verno do Estado, achei que meu
desgaste pessoal, como vftima de
uma das mais torpes e injustificA-
veis agress6es que um ser huma-
no poderia sofrer, seria um prego
compensador pelo fim da carreira
de home pdblico de um home
indigno dessa condigco. Achei, e
minha opiniao foi partilhada por
pessoas como o almirante Mario
Jorge da Fonseca Hermes, que o
povo paraense jamais iria permitir
que o autor daquela canalhice
voltasse a um cargo de direcao
coletiva. Se ele descera a tanto
por tio pouco, o que nio faria se
dispusesse novamente de poder
para usar contra adversaries ou
desafetos?
No entanto, Helio Gueiros
esta a alguns passes de eleger-se
prefeito de Bel6m, a segunda
fungdo pdblica mais important
no Estado. Evidentemente, uma
publicaqao como este Jornal Pes-
soal, de circulaqao restrita, nao
tem a pretensao de poder bar-
rar-lhe o caminho. A guerra 6 de-
sigual: criada pelo poder de ma-
nipulaqao do grupo Liberal, a
imagem do ex-governador conti-
nua recebendo o mesmo retoque
poderoso. O pdblico a v8 na tele-
visao e a encontra no journal como
a expressao de uma dignidade, de
uma integridade e de uma hones-
tidade que os donos do velho
pr6dio da Gaspar Viana sabem,
no fntimo, que nao existem. Al-
gum dia haverao de pagar pela
criacao desse monstro nao pela
primeira vez, alias, porque ja ex-
perimentaram de seu fel, e nao
quiseram (nao Ihes foi mais con-
veniente) aprender.
H~lio Gueiros tamb6m sabe,
no que sobrevive de sua alcooli-
zada consciencia, o tamanho da
aberragao que praticou cor o in-
tuito exclusive de intimidar crfti-
cos como eu e antigos aliados que
dele se desgarraram, como o jor-
nal A Provfncia do Pard. O ex-
governador nao apenas jamais as-
sumiu de pdblico a autoria da
carta, como, sutilmente, seguindo
seu estilo, melffluo, procurou


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desvincular-se daquele s6rdido
document.
Muitos cidadaos honrados, al-
canqados pela primeira vez e
inesperadamente pela carta s6r-
dida, interpretaram-na como mera
manobra eleitoreira do governa-
dor Jader Barbalho. VArios nem a


leram, nao querendo sujar-se cor
o que julgaram ser criagao espd-
ria dos peemedebistas. Mas
aquele texto imundo saiu real-
mente do cerebro de H6lio Guei-
ros, como mostrei ao fotografar o
original do document, tal como
o ex-governador o datilografou,->


" d

6"~"


sc~


114S
e,4 fte^


Ct MjU P-

'0 b n







4 Jornal Pessoal


no Bandeira 3 de maio do ano
passado.
Para que nao paire mais qual-
quer ddvida sobre essa autoria,
public agora a reproducao dos
dois bilhetes manuscritos por
H6lio Gueiros. O primeiro, de 18
de abril de 1991, apenas acompa-
nha a carta ao superintendent de
A Provfncia do Par&, Roberto Ja-
res Martins (o maquiavelsmo
doentio de Gueiros o fez mandar
seu papelucho para Jares, que o
encaminharia em seguida mas
depois de ler, assombrado, aquele
texto doentio a mim). Diz o
texto desse bilhete: "Jares, Rogo
a fineza de fazeres chegar ao
destinatario esta carta, que 6
aberta. Grato".
O segundo bilhete nao pode
ser transcrito na fntegra neste
journal porque 6 pornografico.
Gueiros escreveu-o ao receber
minha resposta a sua agressao,
que Ihe mandei no mesmo dia em
que recebi de Jares a carta, a 21
de abril. Mentirosamente, H6lio
Gueiros diz que nio abriu o en-
velope, simplesmente devolvendo
seu conteddo. No entanto, o en-
velope apresentava visfveis sinais
de violaaio. Sua tatica era a de
aparecer para o destinatario (e,
posteriormente, o pdblico) como
valentao, capaz de intimidar
qualquer um.
Diz o bilhete: "Jares, Sinto
cheio de f(*) da p(*) de long.
De modo que, sem abrir, devolvo
para o grande f(*) da p(*) o ex-
pediente que ele me endererou.
Se ele quiser responder alguma
coisa, vai ter que me dizer pes-
soalmente quando me encontrar.
Eu fico preparado. Grato. P. S. -


Se, por acaso no que nfo acre-
dito meu faro tiver falhado, es-
quece".
Como se explica tanto 6dio?
Muitos dos que conhecem inti-
mamente Hdlio Gueiros atribuf-
ram suas agress6es ao alcool.
Mas ele escreveu a carta, numa
manhi de sexta-feira, aparente-
mente s6brio, depois de ler os
jornais do dia ao lado da esposa,
Terezinha Gueiros. Chegou a co-
mentar tranquilamente a razao de
seu cometimento, uma entrevista
que fiz com o entao rec6m-em-
possado governador Jader Bar-
balho, publicada na coluna que
eu tinha em A Provfncia do Parm
(e perderia, alguns dias depois,
justamente por critical Jader,
perda que me forgou a voltar a
editar este Jornal Pessoal).
Tambdm o ex-governador es-
tava s6brio quando Roberto Jares
ligou para ele, as 10 horas da
manha de uma segunda-feira, tres
dias depois do envio da carta.
Confirmou a autoria da carta,
acrescentando que a havia escrito
nao para prestar explicag6es,
"mas para agredir mesmo".
No entanto, ao contrario do
que declarou na carta e no bilhe-
te, H6lio Gueiros nao espalhou
c6pias xerox de sua monstruosa
criagao. Ele, mais uma vez, como
costuma fazer em ocasi6es seme-
lhantes, estava blefando. Nao
pretendia divulgar a carta. Ela
era apenas um instrument de
pressdo, para me intimidar e ao
superintendent de A Provfncia
(que se enquadrou corn Jader de-
pois de ter apoiado Gueiros at6 as
v6speras da eleicgo de 1990).


H6lio jamais pensou que eu iria
publicar aquela coisa. Quando a
viu impressa, tambdm deve ter
julgado que aquele era o seu
atestado de 6bito. Mas o tempo e,
em seguida, a estupidez do
PMDB na utilizagao tamb6m
suja do document anularam
aquela poderosa arma.

H6lio pode vir a ser prefeito
de Beldm, mas posso conferir-lhe,
neste journal, um tftulo que Ihe fi-
ca muito bem e que julgo poder
atribuir-lhe corn todo o respaldo
moral: 6 o politico mais canalha
em toda a hist6ria da vida pdblica
paraense. Enquanto no bilhete me
chamava para briga de rua como
se fosse um moleque sexagenario,
cercava-se de capangas em suas
aparig6es pdblicas. Atirava con-
tra mim a pior lama que p6de en-
contrar em vernAculo de bordel,
imitando (a sua maneira, isto 6, A
distancia) seus professors bara-
tistas, que juntaram fezes de le-
prosario para despejar sobre a
cabeca pensante de Paulo Mara-
nhao. Gueiros estava certo de que
mesmo contra esse tipo de detra-
tor minha rea~ao seria com pala-
vras, duras, sim, mas jamais mer-
gulhadas na lama f6tida de sua
inspiraqio. E palavras, infeliz-
mente, as vezes sao armas efi-
cientes apenas na perspective
mais larga da histdria. Nela, rato
que 6, H6lio Gueiros nAo cabe.
Sua vit6ria 6 daquelas que os
acasos da hist6ria e as aberracqes
da natureza conseguem produzir,
mas que duram menos do que os
ossos do beneficiario ou bem
menos ainda que seus instantes de
lucidez nio-alco6lica.


IMPRENSA



Os paralelos se chocam


Q uem trocaria o melhor ne-
gdcio na Area de comunica-
C6es em todo o Norte do
pafs, que, alem de dar dinheiro,
rende poderosa influencia, por
patrocfnio de espetaculos musi-
cais, venda de discos, agencia-
mento de seguros e equivalentes?
Apesar de todas as evidencias in-
dicarem no sentido contrario, os
filhos do empresario Romulo
Maiorana estao fazendo a troca
da lebre por gato. Ou, para usar
outra image zooldgica, matando
a galinha dos ovos de ouro.


Tendo num dos extremes o
vice-presidente do Sistema Ro-
mulo Maiorana de Comunicagao,
Romulo Maiorana Jr., e no outro
a diretora administrative, RosAn-
gela Maiorana Kzan, os sete her-
deiros vem sustentando uma dis-
puta que culminou no m6s passa-
do com o desentendimento entire
os dois (ver Jornal Peasoal n
98). Durante tres semanas Romi-
nho Maiorana abandonou seu ga-
binete, no ldtimo andar da sede
do journal O Liberal, ameagou re-
tirar seu nome do expediente e


sair da empresa. Mas na terCa-fei-
ra da semana passada, dia 22,
reasumiu suas fung6es.
Aparentemente cumpriu-se a
previsao de que Rominho, ao
viajar para Sao Paulo e, depois,
evitar retornar ao seu gabinete,
nio estava rompendo de verdade
cor o grupo Liberal, do qual 6 o
principal executive, mas mano-
brando no jogo de presses para
conquistar maior poder. Mas sua
volta nao significa que a paz se
tenha restabelecido na famflia.
Ao que parece, havera mais um







Journal Pessoal 5


perfodo de tr6gua na sucessao de
escaramuras que tem marcado os
dltimos anos na cdpula do grupo
Liberal.
O elenco de divergencias en-
tre os irmios 6 amplo. Alguns sao
de natureza polftica. Rosangela,
por exemplo, nao teria ingressado
completamente na campanha para
governador de Sahid Xerfan, em
1990, como decidiu Rominho,
contra a opinido dela. Vencida
entao, Loloca, como 6 conhecida
na intimidade, reagiu neste ano A
repetigio do mesmo comporta-
mento do grupo Liberal e tentou
convencer a mae a manter a em-
presa a certa distancia da dispute
eleitoral. Essa postura foi sus-
tentada at6 o retorno de Rominho,
na semana passada, quando O Li-
beral comegou a publicar andn-
cios promocionais de H6lio Guei-
ros, indicando que Rominho pode
ter vencido mais uma batalha,
embora sem a garantia de con-
quistar a vitdria final.
Na area commercial, Rosangela
nio concordou com a decisao do
irmAo de usar a logomarca do
Sistema Romulo Maiorana de
Comunicacao em sua empresa de
seguros. Responsavel pelas prin-
cipais decis6es da empresa na
area operational, Loloca nao es-
condia sua inquietagAo cor o
crescimento dos negdcios para-
lelos dos irmAos e sua repercus-
sio sobre o orgamento da empre-
sa, mas acabou seguindo o mesmo
caminho.
A quantidade de andncios
gratuitos no journal e veiculag6es
nas emissoras de radio e televisao
cresceu a tal ponto que, em certas
edig6es de O Liberal, as permutas
chegam a representar metade de
toda a publicidade do journal. As
irmis passaram a faturar bastante
na Area de promog6es da noite e
Rominho se tornou um grande
proprietario de im6veis de Bel6m,
trocando andncios por aparta-
mentos.

Atrito no AmapA

A colisAo mais sdria entire os
dois principals executives do
grupo Liberal, por6m, ocorreria
no AmapA. Rosangela, associada
a Angela Maiorana Martins, que
atua na televisio, decidiu organi-
zar duas empresas para atuarem
no novo Estado na importaqAo e
exportagCo e no setor grafico.
Sem saber da iniciativa das irmis,
e tamb6m sem avisr-las de sua


prdpria agio, Rominho montou
empresas nesses mesmos stores -
e uma terceira para produzir
plasticos. Em todas elas partici-
pa, com percentage simbdlica, o
director industrial do journal, Poju-
cam de Moraes.
O responsdvel pela organiza-
qio das cinco empresas era Ario-
valdo Santos, gerente de circula-
~go de O Liberal. Ele manteve
segredo sobre sua dupla e para-
lela funlio atd Rominho desco-
brir que Ariovaldo estava servin-
do tanto a ele como as irmas. Sd
entio teria decidido investor con-
tra o assessor, usando-o por ta-
bela para atingir Rosingela e An-
gela, competidoras num setor no
qual o journal tambem iria entrar.
As duas negam que o motivo
da explosAo do irmAo tenha sido
um rombo ocorrido na empresa,
no qual Rominho diz que Ario-
valdo estaria envolvido, acusagAo
que nio aceitam, que Rominho
nio teria comprovado e da qual
s6 ficaram sabendo quando suas
empresas jA estavam montadas.
Depois do bate-boca pdblico corn
Rominho, Ariovaldo entrou de f6-
rias.
Da mesma maneira como saiu,
Romiaho voltou, mas seu gesto
pode indicar que a dispute pelo
poder no grupo Liberal chegou ao
seu ponto mdximo de tensAo. Os
negdcios paralelos dos irmaos re-
presentam um 6nus muito pesado
para a empresa-mae e, de tao in-
trincados, levaram a um conflito
aberto de interesses. Se eles vio
ser conciliados e a empresa man-
tera sua forca atual, ameaqada
muito mais por esses litfgios in-
ternos do que por agress6es ex-
ternas, tudo vai defender da aqao
de um personagem que se mant6m
mudo, apesar de sua forga: a mie,
Dea Maiorana, detentora do con-
trole absolute das aq6es do grupo
Liberal.


Erro fatal?

Sjornal O Estado de S. Paulo
quase quebrou, na metade da
d6cada de 70, quando decidiu
substituir seu sistema de impres-
sAo conventional, tipogrifico,
por um sistema, o naylon print,
que apenas um outro journal em
todo o Brasil, o Dihrio do Co-
m6rcio, de Sdo Paulo, tamb6m
utilizaria. Foi uma troca desastro-
sa, que contribuiu decisivamente
para o Estadio perder a tradicio-


nal lideranqa no mercado de jor-
nais para a Folha de S. Paulo.
O Liberal pode ter embarcado
na mesma decision errada, que Ihe
custard muito caro, quando deci-
diu implantar um novo parque
grAfico. A empresa optou por ad-
qurir uma mdquina, a Man Rol-
land, modelo Uniman 4/2, pouco
usada no mercado brasileiro e so-
bre a qual tem sido apresentadas
muitas objeq6es t6cnicas. Uma
dessas mdquinas havia sido ven-
dida pelo fabricante alemao para
um milionario australiano, que
desistiu da transagio. A mdquina
ficou entio disponfvel para en-
trega imediata, fato nio muito
frequent porque a fabrica;io s6
6 feita por encomenda e requer
tempo para o fornecimento.
O prego tamb6m era convida-
tivo: de 5,7 milh6es de d6lares,
foi reduzido para algo em torno
de 4 a 4,5 milh6es. Gracas A sua
influencia polftica, o grupo Libe-
ral tambem conseguiu beneficiar-
se da isenqio de imposto para
a importaqgo e da autorizadio pa-
ra trazer a maquina do exterior.
Parecia um excelente neg6cio. O
primeiro grande erro de avaliafgo
foi o de considerar que o equipa-
mento poderia ser instalado na
sede do journal, na rua Gaspar
Viana, o que logo se revelou im-
praticAvel. A empresa teve que
buscar outro local. At6 conse-
gui-lo, a mrquina permaneceu no
porto de Bel6m, pagando em d6-
lar por nio ter dado entrada le-
galmente no pafs A liberaggo
acarretou novos problems e
prejufzos.
Mas ao comprar a rotativa,
com seis unidades, a maior das
que entrardo em operagqo no
Norte do pafs, com capacidade
para imprimir 60 mil exemplares
por hora, os executives responsA-
veis pela operaqao simplesmente
se esqueceram de uma parte in-
dispens6vel: o sistema de esteiras
para a safda e empacotamento dos
jornais. Por causa de sua alta
velocidade, a impressora precisa
de um complement automatiza-
do, sem o qual perde sua grande
vantagem. Operd-la manualmente
a partir da impressio, como 6 a
caracterfstica atual de O Liberal,
seria um desprop6sito.
As pressas a empresa pediu
um orgamento ao representante da
Rolland no Brasil, cor urgencia
na fabricacqo do sistema de dis-
tribuigqo e empacotamento, mas
limitando seu orcamento a nio







SJornal Pessoal


mais do que 200 mil ddlares, uma
concilia&io diffcil de fazer, se-
gundo tdcnicos do setor. Por falta
de recursos compatfveis, a empre-
sa nao vai promover a duplicac&o
da impressora e tamb6m terd uma
linha singular de safda de jornais
da boca da mdquina. Isto signifi-
ca que, por um acidente que im-
possibilite o funcionamento das
esteiras, o journal estard ameagado
de nio sair.
Um gigante, como 0 Liberal,
na hora crucial de fazer seu maior
investimento industrial de todos
os tempos, que Ihe acarretar,4 in-
vestimento em torno de US$ 10
milh6es, agiu como pigmeu, ama-
doristicamente. Esses erros pode-
rio ter um efeito ainda mais am-
pliado por causa da crise national
e da delicada posigco econ6mico-
financeira da empresa.

Origem do sujo

O governador Jader Barbalho
passou direto do aeroporto de
Belem, na noite do dia 19, no
retorno de Redengao, no sul do
Estado, para a casa de seu secre-
tario dos Transportes, Antonio
Brasil, no sofisticado condomfnio
do Lago Azul, em Ananindeua.
Desde a manha o local era fre-
quentado por alguns de seus au-
xiliares de primeiro escalao, que
se dividiam entire envelopar uma
correspondencia e consumer um
alentado buffet encomendado
pelo anfitri&o.
O governador foi conferir
pessoalmente a execucgo de um
trabalho que nada tinha a ver com
a administraqao estadual: o pre-
paro para expedigao de uma cor-
respondencia que seguiria para
todos os donos de telefones de
Belem, a partir de uma listagem
da Telepara, extenuante trabalho
que se estenderia pelo domingo,
ji sem a presenga de Jader Bar-
balho. A "mala direta" era um
folheto, atribufdo a uma certa
Uniao Paraense pela Atica Polfti-
ca, reproduzindo a capa da edigao
do journal Bandeira 3, que editei
em maio do ano passado, uma
carta a mim enderegada pelo ex-
governador Hdlio Gueiros e a
resposta que Ihe mandei em rela-
gao a sua torpe agressdo.
Era a segunda investida do
grupo do governador para ampliar
a divulgaqao desse triste docu-
mento. Antes, ele fora simples-
mente lido durante o program
eleitoral da coligagao PMDB-


PDC, provocando minha indigna-
gao (ver Jornal Pessoal n 98).
Desta vez, o tratamento nao era
tio sensacionalista, mas o resul-
tado nao foi mais eficiente, me
atingindo mais do que o cfnico
autor daquela carta.
Quando a publiquei original-
mente, tive o cuidado de tingir de
preto a capa do Bandeira 3, aler-
tando os leitores para o conteddo.
Tambdm nio mandei compor a
carta nos tipos do journal, apenas
fotografando-a em seu tamanho
natural, com todas as suas incor-
rec6es, cercando de restrig6es sua
leitura. Reproduzi ainda a entre-
vista que fiz com Jader Barbalho,
publicada em A Provfncia do Pa-
ra, motivo alegado para a despro-
positada reag9o de Gueiros. E
narrei todas as circunstAncias que
originaram o epis6dio. O journal
nao era uma publicaqio an6nima
ou anddina, mas um journal com
responsavel indicado no expe-
diente. Nao tinha outro propdsito
que nao o de informer a opiniao
pdblica paraense
No folheto espalhado na se-
mana passada, a carta foi super-
ampliada, fazendo cor que suas
28 expresses chulas, vulgares ou
pornogrAficas alcangassem a di-
mensao de uma agressao, que nem
permit a percepcao do que efeti-
vamente 6 ou o significado do
que represent, agravada ainda
mais porque a correspondencia
foi enviada para residencias par-
ticulares, sem qualquer consult
prdvia, sem alerta, com origem
difusa.
Para complicar, a iniciativa
ocorreu as vesperas de uma elei-
gao da qual Hdlio Gueiros parti-
cipa como o grande favorite,
contaminando-a com essa cir-
cunstincia, fazendo-a parecer
oportunista, como de fato 6 e
depois da desastrada apresentagao
no hordrio gratuito da propaganda
eleitoral. Impressionou mais a
pornografia em si do que o seu
autor, impressao que a dificulda-
de natural de percepgao em various
segments da populafio reforga,
principalmente por falta de um
tratamento didAtico e sdrio do as-
sunto.
Quando decidi publicar a
carta, duas semanas ap6s rece-
be-la, no curso de um dos mais
atormentados perfodos da minha
vida, tinha a intengio de, com sa-
criffcio pessoal, deixando de lado
meu senso de pudor, revelar aos
paraenses a face verdadeira de


Hdlio Gueiros. Um ano e meio
depois, a reproducio desse ver-
gonhoso document em um pan-
fleto eleitoreiro antecipa a que
ponto deveri baixar o nfvel da
guerra que serf travada em Be-
lem, a partir de janeiro, se Hdlio
Gueiros for eleito prefeito da po-
bre capital dos paraenses.

Mesma posigao

M ais de um mes depois de ter
renunciado traumaticamente a
candidatura de prefeito de Beldm
por uma coligagio de sete parti-
dos, a maior na eleiaio deste ano
na capital paraense, o senador
Almir Gabriel preferiu nao apro-
veitar uma entrevista dada ao
program Cartas na Mesa, da TV
Cultural, para explicar seu gesto
tAo pol8mico. Admite dever essa
explicagdo a opiniao pdblica, mas
como seu ato foi solitirio julga-
se no direito de escolher "o mo-
mento oportuno" para falar a res-
peito.
O senador tucano reconhece
que sua safda "pode ter repre-
sentado um traumatismo muito
grande", mas diz-se convencido
de que ela nio poderia ser res-
ponsabilizada por uma "eventual
vit6ria" de H1lio Gueiros. Inves-
tiu contra o ex-governador, acu-
sando-o de pretender retomar a
prefeitura de Belem "como uma
trincheira para a luta, para a
guerra em favor de um determi-
nado grupo, e nao na busca de um
interesse em resolver os proble-
mas da populagio". Desistente de
luta na v6spera, por6m, a forga
moral do senador pode ter sido
erodida pelo tom que seu pronun-
ciamento adquiriu, de cabo-elei-
toral da deputada Socorro Gomes.
Numa compensag~o, a consider
"a pessoa que redne a melhor
qualificacgo para assumir agora a
prefeitura de Beldm".
Ou seja: quando deveria ser
um corajoso analista de sua deci-
sdo e do que ela representou para
a dispute eleitoral deste ano, o
senador voltou ao locus tfpico
dos tucanos: o alto do muro. De
l talvez pense em voar de retor-
no h polftica paraense em 1994
pelas asas de um lugar no minis-
tdrio de Itamar Franco ou de um
novo acordo favordvel com patro-
cinadores potenciais. Mas pode
ter grudado de vez no muro bra-
siliense, onde representantes des-
sa fauna costumam condenar-se a
extincao.






Journal Pessoal


governor federal gastou 700
milh6es de ddlares para
construir uma hidrel6trica,
a menos de 200 quil6metros de
Manaus, que resolveria o cr6nico
problema de suprimento de ener-
gia a capital amazonense. A usina
demorou sete anos para ser con-
clufda. Com os juros durante a
construgao, deve ter representado
investimento em torno de um bi-
lhAo de ddlares. Mas hoje 90% do
consume de energia de Manaus, a
segunda maior cidade da Amaz6-
nia, cor 1,2 milhAo de habitan-
tes, esti sendo atendido pelo an-
tigo parque gerador. Essas velhas
maquinas t6rmicas haviam sido
desativadas a partir de 1989, comr
o infcio da operagAo commercial da
hidreldtrica de Balbina.
O "deficit" entire a geragio
hidraulica e o consume tornou-se
tfAo grande por causa de "El Ni-
io", um fen6meno cimatoldgico
de dimens6es planetArias que tem
afetado particularmente o Norte
do Brasil. A vazio media do rio
UatumA, cujas Aguas acionam as
turbines de Balbina, baixou do
fndice normal, de quase 700 me-
tros cdbicos por segundo nessa
epoca do ano, para os atuais 270
metros cdbicos de Agua. O reser-
vatdrio esta sendo operado na
cota mfnima, de 48 metros. Nes-
sas condig6es, apenas uma das
cinco maquinas da usina esta em
atividade e mesmo assim tra-
balhando sa oito horas por dia.
Esta grave situaqAo ira se ate-
nuando a partir de agora, quando
a estiagem na regiAo se reduz e
vai passando a influencia de "El
Niflo", mas o problema continua-
ri evoluindo ano apds ano. Ape-
nas quatro anos depois de ser
inaugurada, Balbina, a segunda
mais cara hidrel6trica da Amaz6-
nia, jA nao atende nem 70% do
consume de Manaus, em seus
moments de "pique", quando
alcanga 280 mil kw (a capacidade
nominal de geragio da usina,
nunca alcangada, e de 250 mil
kw).
As desgastadas maquinas ter-
micas, que deveriam ser aposen-
tadas cor a nova usina, continua-
rAo ainda em funcionamento,
participando em proporKio cada
vez maior, a media em que a ca-
pacidade real de Balbina for se
reduzindo. Nao 6 improvavel que


jA no final desta decada ela nio
atenda sequer um tergo das ne-
cessidades da capital do Amazo-
nas. Nem sera ficqAo cientffica
prever que em mais tempo ela
seja abandonada compulsoria-
mente.
O "El Nifio" apenas dramati-
za o que 6 uma tendencia natural
da hidreletrica. Ela foi construfda
num terreno muito plano. Para
que as Aguas do UatumA pudes-
sem movimentar as turbines, foi
precise elevar as Aguas do rio pa-
ra permitir um desnfvel mfnimo
operacional. Com isso, uma imen-
sa Area ficou submersa. Com ape-
nas 7% da potencia da hidreletri-
ca de Tucuruf, a maior da regilo,
Balbina inundou Area equivalen-
te, formando o terceiro maior la-
go artificial do pals.
A paisagem provocada por es-
sa interveng~o 6 cada vez mais
desoladora: milhares de Arvores
mortas, ambient lacustre, de
Aguas paradas ou mortas, que de-
moram muito a se renovar, e as-
soreamento do fundo do lago. A
persistirem esses fen6menos, em
breve o desnfvel na tomada de
Agua nao garantird condig6es
operacionais para a usina. Ela fi-
card indtil antes que a Eletronorte
consiga pagar os financiamentos
contrafdos para construf-la.
Balbina se revelou anacr6nica
antes mesmo de ter sido inaugu-
rada, quiaado ficou claro que o
local da barragem era inadequado
e que seu porte, limitado pelas
condig6es ffsicas, nAo estaria no
nfvel da demand que deveria
tender. Para suprir a lacuna,
imediatamente a Eletronorte co-
megou a planejar a construgao de
outra hidrel6trica, tr6s vezes mais
distant de Manaus do que Balbi-
na (o que acarretaria a instalagio
de uma linha de transmissAo de
energia mais extensa e cara), corn
outro bilhao de ddlares para in-
vestir (no padrAo dos orcamentos
pdblicos brasileiros, que sempre
se multiplicam no curso da obra).
Esses pianos s6 nao se consuma-
ram por causa da crise brasileira,
que tambdm contribuiu para ate-
nuar as dificuldades da Eletro-
norte ao comprimir o consume de
energia em Manaus, poupando a
cidade de sofrer racionamento.
A crise poder6 ainda ser be-
ndfica se forgar o governor a ser


7


A lihao das aguas


mais criativo, abandonando os
esquemas viciados de grandes
obras e a bitola do convenciona-
lismo, que liva & construgao de
hidrel6tricas apenas como con-
seuencia Idgica da existencia de
rios caudalosos (mas de pouca
declividade), abstraindo as difi-
culdades especfficas e o engenho
prdprio que gerar energia na
Amaz6nia imp6e.


Caso de policia

No mes passado a Inspetoria
da Polfcia Federal apreendeu
duas carretas no porto privativo
da Sanave, em Belem. Dentro
delas havia cinco unidades de
uma maquina de imprimir journal.
O vendedor era Umberto Caldera-
ro, dono do journal A Crftica, o
mais important de Manaus. O
comprador era o ex-senador e ex-
governador do Maranhao, JoIo
Castelo, que pretendia relangar o
seu Jornal de Hoje com essas md-
quinas.
Mas a transaqgo entire Calde-
raro e Castelo fora completa-
mente irregular. As maquinas ti-
nham sido despachadas de Ma-
naus por uma pessoa fictfcia,
Francisca Ferreira. Na nota fis-
cal, a carga fora declarada como
sendo "sucata de ferro", com
valor avaliado em 20 milh6es de
cruzeiros, embora o seguro decla-
rado tenha sido de Cr$ 2 bilh6es,
100 vezes mais.
Caracterizado o ilfcito penal,
o caso foi repassado para a Polf-
cia Federal, que instaurou inqu6-
rito, nao apenas para apurar as
responsabilidades envolvendo as
duas carretas, como para desco-
brir o paradeiro de uma terceira,
que safra na mesma ocasiAo de
Manaus. Logo se espalhou o
boato de que essa carreta condu-
zia outra mAquina do mesmo
porte adquirida pelo Dirio do
ParA, de propriedade do governa-
dor Jader Barbalho. Realmente
o Dilrio fez uma transag o se-
melhante com Umberto Calderaro,
aproveitando o antigo parque gra-
fico de A Crftica, que o renovou.
Mas as maquinas destinadas ao
journal de Jader ainda permane-
ciam em Manaus, sem sequer es-
tarem desmontadas, quando as de
Jolo Castelo foram apreendidas
no porto da Sanave, empresa que
pertence a Sabino Oliveira, pai
do candidate do PDS & prefeitura
de Belem, Cipriano Sabino.


jornal Pessoal


1






ICVRD


Questao de grandeza


Companhia Vale do Rio
Doce faturard neste ano
mais de um bilhio de ddla-
res (em torno de seis trilh6es de
cruzeiros) cor a venda de mind-
rio de ferro, manganes, ouro e
bauxita produzidos no Pard. Esse
valor represent mais de um tergo
das exporta6ges amaz6nicas e faz
cor que a empresa tenha um po-
der econ6mico superior ao do
prdprio Estado no qual se esta-
beleceu. Em nenhum outro, dos
quatro que constituem sua base
operacional, ela tem influencia
maior. Ao long da ddcada de 90
o Sistema Norte (praticamente re-
duzido ao Para e, secundaria-
mente, o Maranhio) devera ad-
quirir maior peso que o Sistema
Sul (formado por Minas Gerais,
Espfrito Santo e Rio de Janeiro),
reduto de origem e ainda o prin-
cipal da empresa.
O deslocamento da CVRD pa-
ra a Amaz6nia, com seu ndcleo
mais forte no Pard, 6 um dos fe-
n6menos marcantes no process
de ocupagAo da regiao. Ele pro-
voca reag6es nao apenas exter-
nas, mas no interior da prdpria
empresa estatal, a maior vendedo-
ra de min6rio de ferro do planet
(6 responsAvel por um quarto do
min6rio que circula entire os
oceanos). Embora sabendo que o
future aponta no rumo Norte, a
cdpula da Vale tenta preservar
a influencia polftica do Sistema
Sul, fazendo da Amaz6nia uma
drbita, ainda que de maior densi-
dade relative.

Vislo estrat6gica

A CVRD pretend moldar os
caminhos da maior fronteira mun-
dial de recursos naturais de acor-
do com sua estrat6gia. Esses ob-
jetivos sAo facilitados pela cir-
cunstancia de que no drgio espe-
cffico do governor encarregado do
planejamento de maior f6lego, a
SAE (Secretaria de Assuntos Es-
trat6gicos, que substituiu o SNI e
tenta enterrar os ossos do ante-
cessor), esta o engenheiro Eliezer
Baptista, um dos grandes tedricos
da CVRD.
Baptista, e o que ele repre-
senta no amplo conjunto de inte-
resses da empresa, por ele jd pre-
sidida, esta convencido de que a


Amaz6nia sd se modernizard,
conquistando um lugar no concor-
rido sol da competigao interna-.
cional, associada a um bem sele-
cionado grupo de grandes proje-
tos conectados a mercados no
exterior. O principal parceiro se-
ria o Japao e seus sat6lites asihti-
cos.
Eliezer Baptista 6 considerado
o ocidental que mais vezes esteve
em territdrio japones (mais de
uma centena de viagens feita para
la, segundo a mitologia). O re-
corde foi alcangado a servigo de
negociag6es que resultaram na
maior hidrel6trica inteiramente
national, a de Tucuruf; na maior
fibrica de alumfnio do continent
sul-americano, a da Albras; e que
abriu um corredor o de CarajAs
para escoar min6rios atd os vo-
razes consumidores japoneses,
e tudo isso em territdrio paraen-
se, cor drenagem para o super-
porto da Ponta da Madeira, em
Sao Lufs.
Categdrica no estabelecimento
e execugao de seus objetivos, a
Vale nao consegue, entretanto,
manter sob seu absolute domfnio
os desdobramentos de seus atos,
que v6m alterando drasticamente
a paisagem econ6mica do Pard. A
empresa acredita que um dos fa-
tores determinantes da moderni-
zagao da regiao 6 o fim dos ga-
rimpos, que desperdigam uma
grande quantidade de ouro (alem
de causar danos ambientais e so-
ciais) com seus mdtodos primiti-
vos de extragao. Em 1984 os ga-
rimpeiros de Serra Pelada se
amotinaram e quase destrufram a
sede da mineragAo, no alto da
Serra de Carajas. Ali, a Vale vi-
nha sendo considerada quase co-
mo inimigo pdblico ndmero um,
para o que contribuiu a versIo -
espalhada pelo coronel SebastiAo
Curid de que 6 uma multinacio-
nal e nao uma estatal.


Outros alvos

Preocupada tanto com o risco
de se transformer em alvo dnico
dos ataques e agress6es e cor as
tens6es que esse modelo de de-
senvolvimento atrav6s de encla-
ves engendra, a CVRD esteve por
tris do governor na formulaqio do
Program Grande Carajds, que


procura atrair novos investidores
e diversificar as atividades eco-
n6micas. Na semana passada,
reabriu as negociaq6es cor o go-
verno paraense para reiniciar a
implantagio da fibrica de alumi-
na da Alunorte, um projeto g6meo
do da Albrds, e verticalizar o
process produtivo em Barcarena,
que sa teoricamente 6 um distrito
industrial, limitando-se a produ-
zir lingotes de metal.
Mas a prdpria grandeza a im-
pede de deixar de ser o foco de
todas as ateng6es. Ngo por acaso,
6 acusada de, no mfnimo, estar
estimulando os sentiments sepa-
ratistas dos que querem criar o
Estado de Carajas, desmembrado
do que 6 hoje o Estado do Pard.
Nessa nova unidade federativa,
ao menos inicialmente, a Vale
nio seria maior do que o Estado,
como ocorre atualmente no Pard.
Ela passaria a ser o prdprio Esta-
do.

Numero 100

O Journal Pessoal chegard ao
cent6simo ndmero na prdxima
edigAo, conquistando a marca dos
tres dfgitos, rara na imprensa al-
ternativa. Alguns amigos trn
apresentado sugest6es para co-
memorar a data, mas acho que a
melhor maneira de gravd-la, den-
tro das limitantes circunstAncias
nas quais o journal 6 produzido,
seria atraves do leitor. Abro as
paginas do pr6ximo JP aos que
quiserem avaliar o percurso des-
ses 99 ndmeros editados em cinco
anos e para as perspectives do
journal.
A reflexao pode ser feita a
partir da seguinte questao: o JP
se exauriu, esgotando suas possi-
bilidades de crescimento, ou ain-
da deve sobreviver? Que fungao
ele desempenha para os seus lei-
tores? Os prdprios podem escre-
ver. As cartas serio benvindas e
representarao a melhor sinaliza-
qao para o future, se future ha.

Journal Pessoal
Editor responsavel: Lucio Flavio Pinto
llustragqo: Luiz Pinto
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Fone 223-1929
Opiao Editoral