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Journal Pessoal EDITOR RESPONSIVE L LUCIO FLAVIO PINTO Ano VI 0 N' 98 2a Ouinzena de Setembro de 1992 Cr$ 2.000,00 ELEI4(AO Um deus de lama Helio Gueiros apresentou-se na TV como se fosse um Deus, expulsando o anjo que o traiu. Mas a historia verdadeira e muito diferente. Este e o personagem mais cinico do enredo. -~ ------- - - -< 7 '1 - L etor primdrio da Bfblia, H6lio Mota Gueiros poderia ser mais explfcito em uma de suas aparig6es no program eleitoral gratuito da televisio, na semana passada, se dissesse que se consider o representante divi- no na Terra. Praticaria um absur- do incomensurAvel, mas a dema- gogia seria menor. Apelando para o mais rudimentar, tentou con- vencer o eleitor que fora vftima de uma ign6bil traigio: acreditara em Jader Barbalho, da mesma maneira como Deus crera em Ld- cifer, o anjo da luz; mas depois constatou que ele era o dem6nio e o expulsou de snu convfvio, mantendo a pureza no reino ce- lestial. Enquanto com6dia pastel, sua especialidade, H61io Gueiros pode divertir corn essa descabida parAbola. Mas a incrfvel hist6ria foi contada em um program eleitoral, atrav6s do qual o can- didato reivindica a conquista de um cargo pdblico. Como sempre, a Bfblia foi invocada despropo- sitadamente pelo mau leitor. E a versao que forjou 6 uma fantasia, incompatfvel corn a realidade. Nos quatro anos em que Jader Barbalho exerceu seu primeiro mandate de governador, H6lio Gueiros foi senador do PMDB. Em Brasflia, defended todos os atos de Jader, chegando a obs- truir sess6es apenas para garantir a aprovagio de emprdstimo exter- no solicitado pelo Estado. Mas nao apenas era um representante parlamentar do governador: co- nhecia a intimidade do exercfcio do poder e suas ramificaq6es pa- 2 _Jornal Pessoal ralelas, turvas, clandestinas. 0 principal agent de Jader nesse esquema era o medico Hen- ry Kayath, seu conselheiro finan- ceiro e o maior parceiro de Hdlio Gueiros antes e, principalmente, depois que ele assumiu o gover- no. Pelas mros de Kayath passava dinheiro pdblico retirado de con tas regulars atrav6s de manobrns inteligentes, como os cheques administrativos do Banco do Es- *tado do Pard, ou rdsticas, como a caderneta de poupanga do fictfcio Joio Silva. Era Kayath o autor de aplica6ges financeiras, como as que eram efetuadas nas corretoras cariocas Mafra e Etica, a dltima sob intervenqao do Banco Cen- tral. Kayath movimentava uma conta secret na agencia do Ban- co Itad no Jardim Botanico, Rio de Janeiro. Nas conversas informais, o senador As vezes se preocupava em dourar a pflula. Dizia, por exemplo, que a poupanga fictfcia em nome de um certo Joao Silva servira para viabilizar o comfcio em favor das eleig6es diretas, em 1984, que trouxe a Belem o can- didato Tancredo Neves. Mas o entio deputado estadual Fernando Ribeiro admitira ter tirade 35 mil ddlares desses funds soturnos para ajudar as despesas do casal Gueiros na visit feita ao Japlo antes da posse. 0 valor 6 contro- verso, mas que Hl1io foi para o Japlo levando ddlares de origem incerta e nao sabida nao ha ddvi- da. Sua concepgio de moral, es- tabelecida A margem dos labora- t6rios baratistas, sempre foi sufi- cientemente elastica para absor- ver esse tipo de situagao. 0 entAo senador sabia muito bem que muito dinheiro sem ca- rimbo corria por trAs das rubricas dos orgamentos oficiais. Ele par- ticipou da negociaago do maior emprestimo feito pelo governor Jader Barbalho, de 102 milhoes de d6lares, que o Senado autori- zou a ser contrafdo em setembro de 1986, um pouco antes da elei- qio que fez de Gueiros governa- dor. A Construtora Andrade Gu- tierrez fora a responsavel pela obtengao desse dinheiro junto As agencies do Banco do Brasil em Grand Cayman e em Nassau. Dos US$ 102 milh6es, US$ 47,2 mi- lh6es seriam para as obras das rodovias BR-222 (de Maraba & Belem-Brasflia) e PA-150, bene- ficiando a Andrade Gutierrez. Os restantes US$ 55 milh6es servi- riam para a construg~o da hidre- 16trica de Aparaf, na margem es- querda do rio Amazonas, onde a Gutierrez provavelmente tamb6m entraria. Uma parcela de 20% se- ria reservada ao uso pessoal do governador. Aprovado o emprdstimo em setembro de 1986, a primeira par- cela do dinheiro, de US$ 30,5 milh6es, s6 saiu em agosto de 1987, quando H61lio Gueiros jA era o governador. Ele aplicou US$ 26,2 milh6es na PA-150 e transferiu para um fundo sob seu control pessoal US$ 4,3 mi- lh6es. A segunda parcela foi libe- rada em abril de 1988, mas ape- nas US$ 44,7 milh6es, do total de US$ 71,6 milh6es, foram usados em obras rodoviarios. Os restan- tes US$ 26,9 milh6es primeira- mente foram aplicados no merca- do fir anceiro, onde renderam ju- ros, e depois usados de forma se- creta, que ningu6m no governor ate hoje conseguiu identificar. Neste fundo paralelo de US$ 30,7 milh6es esta a origem de to- dos os comentarios sobre desvios de dinheiro pdblico (talvez ate a cabulosa hist6ria do cheque em nome de Helio Gueiros Jr) e a verba polftica para a eleigao de 1990. Tamb6m af pode-se encon- trar a explicacio para a primeira colisao seria entire Jader Barbalho e Hl1io Gueiros, tendo nos basti- dores a Construtora Andrade Gu- tierrez. Mais uma vez, Helio nAo honrou um compromisso assumi- do. JA fizera isso antes com ou- tros ex-amigos ou ex-aliados, como Romulo Maiorana. Ao inv6s de ser um deus que pune traidores quando descobre seus erros, Hd- lio Gueiros 6 um tipo de mafioso que nao segue nem mesmo a lei da "ormetta", a lei do silencio, que estabelece um c6digo de hon- ra entire as "famiglias", quando isso lhe 6 convenient. A arte do engOdo Gueiros sabia perfeitamente que nAo estava dizendo a verdade quando, no discurso de posse, a 15 de margo de 1987, saudou seu antecessor (sem o qual jamais te- ria sido eleito senador em 1982 e governador em 1986) como "umrn estadista", e garantiu estar rece- bendo o governor de "maos hon- radas, eficientes, zelosas". Hdlio Gueiros conhecia muito bem as sujeiras da administragao Jader Barbalho, tanto que, depois de silenciar sobre todas elas en- quanto foi senador (mais do .que isso, defendendo os atos de Ja- der, em relaqAo a maioria dos quais tinha sido, no mfnimo, tes- temunha), repetiu-as ao se tornar governador. Mas Ihe era convenient in- censar quem ainda nio podia de- safiar, embora ciente de que, mais cedo ou mais tarde, have- riam de brigar. Como disse no discurso, feito na sacada do pald- cio Lauro Sodr6, Hdlio havia re- cebido de Jader "o privilegio da intimidade", como se fosse um "irmao mais velho", tratamento de alcova que Ihe dera Romulo Maiorana e que ele aceitara ate expor essa intimidade como se nAo fosse tambdm um produto dela, sabendo que sd alguem mais s6rdido poderia expor suas entra- nhas de pdblico. Ninguem, na polftica paraense, consegue ser mais falso, cfnico e se vale a expressao diab6lico do que Hd- lio Gueiros. Radiografia do home Em abril do ano passado, nu- ma coluna que escrevia em A Provfncia do Par&, publiquei uma entrevista corn o governador Ja- der Barbalho, fiel a um princfpio jornalfstico de tantos anos de ou- vir o governador antes de passar a avaliar sua gestao e criticA-la. 0 ex-governador Helio Gueiros era criticado por Jader, mas nada havia no texto ao qual ele nao pudesse reagir corn uma contra- argumentagio, que eu e o journal abrigarfamos sem problems, es- tabelecendo polemica favoravel ao esclarecimento pdblico. Mas H61io Gueiros produziu o que, sem ddvida, 6 o mais triste e sdr- dido document da histdria polf- tica jd niao digo nem paraense, mas brasileira. Em uma carta de 65 linhas, o home que um m8s antes deixara o mais alto post da administragAo pdblica estadual, juntou 28 expresses chulas, vul- gares ou rasteiramente pornogrd- ficas, num texto tortuoso que co- megava corn este espantoso pard- grafo: "Por que tu nao vais chu- par o cd da puta que te pariu?". Quem leu a carta deduziu lo- go que Helio Gueiros a deveria ter produzido bebado. Nao, ele nao estava, como em muitas ou- tras ocasi6es, embriagado. Embo- ra aparentasse um estado de des- controle absolute, a carta fora es- > Journal Pessoal 3 wn crita .friamente, corn um propdsi- to: o de me intimidar e, por ta- bela, o journal A Provfncia do Pa- rd. Pois Hdlio Gueiros, ao invds de me enderecar a carta, como se- ria normal, mandou-a dentro de um envelope destinado ao supe- rintendente de A Provfncia, Ro- berto Jares Martins, que tamb6m recebeu outro cartAo, este intei- ramente manuscrito e no mesmo estilo, para me encaminhar. Ofendendo-me e assustando o journal, Hdlio Gueiros imaginava imobilizar uma das poucas pes- soas neste Estado que podia re- velar a verdadeira personalidade que se esconde sob sua mascara bfblica, sem que contra mim ele pode apresentar as alegaq6es que faz contra seu ex-parceiro Jader Barbalho. A carta, publicada depois de tanta reflexao angustiada, teve um mdrito: mostrou exatamente quem era Hdlio Gueiros, persona- gem do passado que ressucitou anacronismos insensfvel aos pa- dr6es modernos da sociedade. De Niter6i, onde mora, o almirante Mario Jorge da Fonseca Hermes, ex-comandante do IV Distrito Naval (quando conviveu corn o governador Hdlio Gueiros) e ex- comandante da Armada (o segun- do principal cargo da Marinha), o mais brilhante official da Marinha que jA conheci, reagiu lamentan- do que o pafs e o Estado tenham entiree os que os representam in- divfduo moralmente tio desquali- ficado". A carta, para ele, expressava "um estado de demencia, que me- rece compaixao e cuidados mddi- cos urgentes". 0 almirante, ca- rioca de nascimento, cidadAfo pa- raense honorario, descendence do marechal Hermes da Fonseca, sem qualquer vinculaqao pessoal corn o Para, entendeu que Gueiros "nao mais tern a condigio de apresentar-se na qualidade de home pdblico ao povo do Para. Se houver um pouco de decencia no meio de seus correligionarios, cabera a eles alijA-lo do convfvio polftico". No entanto, Hdlio Gueiros apresentou-se como candidate, foi aceito por uma coligagao de partidos e aparece nas pesquisas como favorite para ocupar a mais important prefeitura paraense. Faz um discurso sagaz, mas to- talmente falso, inteiramente de- satualizado, retrato do passado imposto ao present que compro- mete o future. Faz o povo acre- ditar que ser opositor do gover- nador pode atd ser bom. Curitiba nio saiu ganhando por ter um prefeito nio afinado corn o go- vernador do Parana? Ganhou, sim, mas o exemplo nio se aplica a Beldm. Em primeiro lugar, Helio Gueiros nao 6 Jaime Lerner. Sua administraaio no Estado, antece- dida por tao boas expectativas, foi desastrosa, pior do que a do (hoje) odiado antecessor. Suas iddias sobre a gestio municipal nao passam de um lugar comum mal sustentado. Diz que vai bene- ficiar os desfavorecidos e estar atento ao meio ambiente, mas apresenta como modelo a urbani- zacao da Doca de Souza Franco, que agrediu a paisagem, expulsou os moradores tradicionais, eliti- zou o uso do solo, incorporou-o desbragadamente A especulagao imobiliaria e repetiu a mesmice conventional, que desconsidera as peculiaridades locais. A boa a divergencia entire autoridades, mas quando o que as separa sao iddias e nio o caniba- lismo primario. Nao 6 o caso da relagao entire Gueiros e Barbalho. Eles nio tem program, querem apenas o usufruto do poder por eles mesmos e suas entourages (para nao voltar a falar em gan- gues). A diferenga principal entire os dois esta no grau de cinismo, maior em Hdlio Gueiros, a ponto de fazelo adotar como slogan de campanha uma de suas mais s6r- didas realizag6es administrativas, o program caminhando corn o povo. Mais ainda do que o lema de trabalho de Jader, 6 a consagra- gao do princfpio de roubar, mas fazer, do qual a nagao quer se li- vrar. Hl61io Gueiros tenta justifi- car a aboligio de todos os proce- dimentos cautelares A administra- gao p6blica, como a licitagio ou a tomada de pregos, com o resul- tado de sua agao: a distribuigao de bens (na verdade, quinquilha- rias) aos menos favorecidos. No entanto, depois de gastar milh6es de cruzeiros adquirindo material "para pronta assistencia As pes- soas carentes" (a tfpica manobra eleitoreira que garante a compra de votos), ele viu o tamanho do erro cometido, que o expunha a uma punigao, e tentou remedia-lo: assinou um decreto para autorizar a dispensa de licitagAo corn data falsa, retardada para 11 meses antes, como se o ato, de 13 de dezembro de 1990 (quando o ca- minhando comn o povo ja se tinha consumado), tivesse sido adotado a 20 de janeiro. Este 6 o verdadeiro Helio Gueiros, um mestre na arte dos disfarces e da manipulagio, um home sem princfpios, exceto o de servir-se e aos seus, como se fosse um deus, delfrio no qual pa- rece cada vez mais crer, um caso para analistas da alma e do espf- rito que se acoberta em eleig6es tAo pobremente disputadas. Bel6m pagard caro, e chorara muito o seu erro, se resuscitA-lo, ao inv6s de dar-lhe o destino apontado pelo honrado e ilustre almirante Mario Hermes: o arquivo da his- t6ria e o lixo da vida cotidiana. De olho em 1994 D ificilmente H6lio Gueiros deixarA de vencer no pri- meiro turno das eleig6es municipals em Bel6m, mas ainda nao esti totalmente garantida uma definicio jA nessa etapa No se- gundo turno ele devera enfrentar a deputada federal Socorro Go- mes, corn o segundo lugar con- firmado em meio As instabilidades da campanha da Alianga Popular e a sua pr6pria fraqueza pessoal. Se conseguir encurtar a margem de votos que a separa de Gueiros, Socorro podera atd alcangar a condigio de favorite As v6speras da segunda votagio para a pre- feitura da capital paraense. 0 prego a pagar por essa faganha sera a descaracterizag(o de sua candidatura, que se transformara num apendice do governador Ja- der Barbalho. Eleita vereadora belenense e deputada federal corn a maior das votag6es gragas A sua ret6rica de frente de luta, Socorro Gomes serd prefeita por obra e graga da manquina que sempre corabateu. 0 quadro da dispute eleitoral em Bel6m, a tr&s semanas da elei- gao, pode ser delineado da se- guinte maneira: 4 Jornal Pessoal H6lio Gueiros Favorito, comr mais votos do que todos os seus concorrentes reunidos, segundo a dnica pesquisa com credibilidade que se conhece (feita pelo Gallup para a TV Liberal), sua orienta- gao 6 a de poupar-se. Pode estar exagerando nessa linha soft, ex- cessivamente confiante na vitdria. Nas poucas incurs6es eficientes, os produtores do PMDB e da Alianga Popular conseguiram abalar a image de seriedade e honestidade que o ex-governador construiu com a conivencia da grande imprensa. Seu nome pe- netra em todas as camadas so- ciais, mas pode receber um golpe decisive se Jader carregar Socor- ro pela periferia da cidade reali- zando obras, mesmo que eleito- reiras. A sustetragio financeira da campanha do ex-governador nao 6 tio boa como se poderia esperar. 0 filho mais bem sucedido em sua passage pelo governor, o ad- vogado Paulo Gueiros, se recusou a abater part de seu multiplicado patrim6nio para ajudar as despe- sas eleitorais do pai. "Paulo s6 entra na hora de arrecadar. Quan- do 6 para gastar ele some", ga- rante um dos assessores mais pr6ximos de Hdlio Gueiros. Por isso, no segundo turno, ele pode perder gas. Socorro Gomes Mulher de primeiro combat, adestrada no uso de palavras de ordem cunha- das pelo PC do B, deixou exposto seu despreparo para enfrentar programs de televisAo e debates com os outros candidates. Come- teu um erro incrfvel ao admitir que nAo sabia qual era a divisao de responsabilidades entire o governor do Estado e o BID no financiamento do program de macrodrenagem das baixadas, o carro-chefe de Jader e, par ex- tensio, de seus aliados para Bel6m. Qualquer assessor de marketing orientaria a candidate a expurgar a expressAo "nao sei" de sua linguagem televisiva, mas Socorro deixou seus assessores de campanha esperando horas num bar ao lado do pr6dio onde mora, na rua Jose Bonificio, en- quanto conversava com o gover- nador Jader Barbalho. Foi para o debate cheia de fichas, mas sem habilidade para consult&-las. Foi a mais prejudicada. Tern, no entanto, uma vanta- gem: 6 a dnica candidate que po- dera ir para a periferia da cidade, reduto de dois tergos dos votos da capital, levando mais do que promessas e caravanas de pedes- trianistas. 0 governador teria um estoque de dinheiro e de peque- nas mas providenciais obras para levantar o peso da candidate e compensar sua falta de estofo. Ademir Andrade Ter menos de dois minutes de tempo na tele- visao lhe esta sendo fatal, tanto quanto os ecos do mal explicado acordo que fez em 1990, trocando a frente de oposigao pelo apoio ostensivo do grupo Liberal e do entAo governador Hdlio Gueiros, revelando no segundo turno o que os mais bem informados sabiam desde o primeiro turno: o senador coragem passara para o lado de Xerfan, o que lhe permitira rou- bar milhares de votos do candi- data official mas nao oficioso - do PDS ao Senado, Jorge Arbage. O mais eficiente dos candidates A prefeitura na atual campanha nao tem o que seria essencial para fa- ze-lo disputar para valer o segun- do lugar a 3 de outubro: credibi- lidade. Cipriano Sabino Aluno apli- cado dos orientadores de sua campanha, decorando os ndmeros que lhe apresentam e incorporan- do a ret6rica pr6-ajustada, apare- ce como a verdadeira zebra na corrida eleitoral, um tfpico pro- duto de marketing. Depois do de- bate na TV Liberal, ameagava passar A frente de Ademir Andra- de e se aproximar de Socorro. Continue, por6m, a ser uma zebra gragas As manipulag6es da opi- niAo pdblica. Na essencia, nao 6 a mensagem que decorou, mas tern tido o pdblica. Tern apresen- tado, apesar disso (ou justamente por isso), a maior dos cresci- mentos nas duas dltimas semanas. Jos6 Carlos Lima A marca do zorro foi um bom achado de propaganda, mas a candidatura nao convenceu como alternative. 0 PT, no Pard, melhora um pouco a cada eleigao enquanto partido, mas sua possibilidade de vit6ria nas disputes majoritarias ainda 6 devaneio o que nao chega a ser propriamente ruim. Lopo de Castro Mera figura- gAo. Sua maior faganha, se a al- cangar, sera a de ajudar a volta de Agostinho Linhares A Crimara Municipal. A provavel que H6lio Gueiros e Socorro Gomes ainda percam posig6es at6 o dia 3 de outubro. 0 segredo de uma definigao no primeiro turno estA em saber quem perderi mais; se Cipriano, Ademir e Z6 Carlos irio tirar mais votos de um ou de outro. Disputar os votos dos indecisos sera tao important quando refa- zer os acordos e coligag6es. Evitando investor mais expli- citamente contra Hdlio Gueiros, ainda assim Ademir Andrade ca- taliza votos de esquerda no pri- meiro turno gragas a linguagem anti-corrupcao. Mas nao levard grande parte desses votos se, mais uma vez, abandonar a apa- rente independencia pela compa- nhia do ex-governador no segun- do turno, uma hip6tese perfeita- mente factfvel (sem mandate e sem grupo no poder, Ademir ird querer participagao no governor municipal para tentar sobreviver politicamente). Socorro Gomes poderd herdar a maior fatia desse eleitorado desiludido, aprovei- tando o voto dtil. Assim, ela tern uma tend8ncia a crescer mais do que Gueiros. Por causa dessa perspective, a candidate do PC do B cometeu um erro primArio ao atacar os demais candidates, que poderia atrair para o seu lado no segundo turno sem defender das articula- 96es pessoais de Jader Barbalho, a dnica maneira de recuperar apoios que amaeqa par a perder corn seu panfletarismo vazio. OIho comprido Ningu6m tem ddvida de que a eleigdo municipal deste ano re- presentard o primeiro movimento na, diregfo da dispute geral de 1994. Para Jader Barbalho, eleger Socorro para a prefeitura de Be- l6m sera garantir uma parcela es- trat6gica de poder e votos na ca- pital, onde suas aspirac6es no moment nao vao al6m de um ter- go do eleitorado (que, par sua vez, represent 25% do coldgio eleitoral do Estado). Vitorioso em Bel6m, derro- tando novamente H6lio Gueiros, Jader estard em melhores condi- 96es para deixar o governor e candidatar-se ao Senado, sem a desagradavel perspective de ver um inimigo no palAcio Lauro So- dr6. Prefeito eleito (e ainda mais se tiver uma ampla votafio), Gueiros serd outra vez candidate ao governor em 1994. E mesmo que nio o seja, formard um novo ndcleo de poder, paralelo ao de Jader, o dnico vislumbrdvel no o Journal Pessoal S horizonte. 0 Pard verd a reedigio dessa p6ssima novela quantas ve- zes? Essa bipolaridade do poder d um dos fen6menos mais constan- tes na histdria paraense, que se interrompe nao por causa de op- g6es alternatives, mas pela gend- tica perverse que faz criatauras se voltarem contra criadores. H6lio Gueiros e Jader Barbalho sao campe6es de votos, mas nao dis- p6em de equipes para as quais poderiam repassf-los. Se puder confiar em seu esquema na pre- IMPRENSA feitura, caso eleito, H6lio se de- sincompatibilizard, voltando a ser uma fonte real de poder no Esta- do. Mas quem indicari se nio pu- der larger a PMB? A mesma pergunta se aplica a Jader. Apesar de todos os perigo- sos antecedentes, 6 pouco provA- vel que ele se disponha a deixar o governor se H6lio for candidate em 1994. Os peemedebistas acham que Jader apoiaria o sena- dor Coutinho Jorge, que voltou As ruas para ajudar a candidatura de Socorro Gomes. Fontes de fora do partido, no entanto, apostam no ex-prefeito Sahid Xerfan. Apesar de terem sido inimigos em 1990, Jader e Xerfan ja conversa- ram varias vezes e se encontraram pessoalmente nos dltimos meses, num desses, sempre falando de polftica. Nao sera surpresa se, mais uma vez, Jader for procurar uma safda fora do PMDB. Na po- Iftica paraense, a dnica surpresa 6 quando se escolhe os melhores. Boi voando 6 rotina nessa zoolo- gia. Jornalista de vitrine O ditimo ndmero da revista Interview dedica 44 parg- grafos e 317 linhas de texto a uma reportagem assinada por Palmdrio Ddria e Paulo Sflber, a dupla Pepe do jornalismo paraen- se, contumaz em seus cometi- mentos a dois. Desta vez o alvo 6 o cacique Paulinho Payakan (Paiakan, segundo a revista, que incorporou pela metade as su- gest6es de grafia correta de no- mes indfgenas feitas por antro- p6logos e linguiistas). 0 mote da mat6ria 6 o estupro Sflvia Letfcia da Luz Ferreira, praticado em ju- nho por Payakan cornm a colabora- 9ao de sua mulher, Irekran. Em um dos 44 paragrafos, tries linhas alvejam este Jornal Pessoal corn o que Palmdrio et Paulo de- vem ,considerar boa pontaria. Di- zem: "A festa na floresta de Paiakan e a incredulidade gene- ralizada da fauna e da flora cria- ram uma nova esp6cie no mundo verde,.que ja nasce condeuada A extingAo: os ecobabacas. 0 habi- tat deles pode ser tanto uma po- derosa CNN, maior rede de TV a cabo do mundo, vista em mais de cem pauses, quanto um inexpres- rivo boletim que circula em meia dilzia de bancas de Beldm, o 'Jornal Pessoal', que sustenta que o lado mais fraco 6 o estuprador e nao a estuprada". Este trecho 6 exemplar do ar- tiffcio que certos tipos de jorna- listas utilizam para fazer do jor- nalismo um instrument de acer- tos pessoais. A referencia ao Jor- nal Pessoal em comparacio A CNN 6 descabida, por qualquer angulo, mesmo o de uma vaidade exacerbada. Palmdrio e Paulo sa- biam muito bem disso, mas que- riam fazer uma maldade, vingar- se do que escrevi neste JP a pro- p6sito de outra reportagem, de Sflber e Laurentino Gomes, em Veja, que desencadeou todo o ca- so Payakan. Resposta atravessada Depois de publicar uma ava- liagao da p6ssima reportagem (p6ssima nAo por atacar Payakan, mas por ser ruim mesmo como jornalismo), fui A sala em que Palmdrio e Paulo trabalham na TV Cultural. Perguntei-lhes o que haviam achado. Sflber, direta- mente afetado, responded que meu artigo era "uma merda", ponteando a linguagem de sur- fista que costume caracterizar os escritos dele e do parceiro (na Interview, confeitado por expres- s6es como pra, fuzue, badalo, ti na cara e outros cometimentos guturais neolfticos que cabem no miximo em conversa de rua ou em reportagens que as documen- tem). Pedi para Sflber se expli- car, mostrando meus erros. Nao foi al6m de "6 uma merda". A resposta veio, oblfqua, como de seu estilo, na Interview. Imagino a angdstia do leitor sofisticado da vistast, encastela- do principalmente nos points paulistanos, para tentar encontrar um elo de ligagao entire a famosa CNN e meu obscuro Jornal Pes- soal, lembrado freudianamente pelos autores da mat6ria. Se ele nao tem significAncia e nao serve para esclarecer a comparaqao, por que citA-lo? 0 paralelo nao faz qualquer sentido para 99,9% dos leitores de Interview. Pode signi- ficar alguma coisa para os que ao mesmo tempo leem a revista e este journal. Mas 6 sobretudo para tentar me atingir que D6ria & Sflber me dedicaram 1% do texto. Possufdos pela voldpia da vinganga, escolheram a via errada e, nela, erraram mais do que mi- nha vasta compreensAo me per- mitiria tolerar. 0 JP circula em 47 bancas de Beldm e nio em "meia ddzia". Tern, de fato, uma pequena circulagio, de dois mil exemplares, dos quais 1.500 vto para as bancas; nelas, entire 1.300 e 1.380 sAo vendidos regular- mente. E uma vendagem limitada, portanto. Mas nao 6 t&o inexpres- siva. 0 president da Companhia Vale do Rio Doce 6 leitor assfduo e atento do JP em seu gabinete, no Rio de Janeiro. A CVRD, a maior empresa em atuagao no Pa- ri, consider o JP um tfpico "formador de opiniao". Vende pouco, mas de qualquer forma in- flui. Palmdrio e Paulo podem li- gar para o sr. Wilson Brunmer ou qualquer dos diretores da CVRD ligados a Amaz6nia e verificar a informaqao. Podem fazer a mesma checagem em outros in- questioniveis formadores de opi- niao no Para (o governador Jader Barbalho, por exemplo) e pedir- lhes uma opiniao sobre o JP. Mas os dois nao estao interes- sados em jornalismo de verdade. Lembram-me um amigo de infAn- cia e juventude em Santar6m, o Sulanca. Antes dos nossos jogos de futebol ele fazia "embaixa- das", prendia a bola na nuca, mantinha-a na testa em plena cor- rida e praticava outras faganhas semelhantes. Na hora do jogo, era uma nulidade. Ningu6m o queria > 6 lornal Pessoal para o seu time. Palm6rio e Paulo sabem fazer muito bem essas fi- rulas, mas na hora de ir para a rua, enfrentar os acontecimentos aldm da quadratura de seus gabi- netes, mostram-se liliputianos. Sao jornalistas de vitrine e na- da mais. Escreveram eles que o Jornal Pessoal "sustenta que o lado mais fraco 6 o estupradbr e nAo a estu- prada". Em minha defesa vou pe- dir apenas que os leitores leiam ou releiam meu artigo no ndmero 92, da 2L quinzena de junho, con- frontando-o corn o que Sflber & Gomes escreveram na famosa edi- qAo de Veja corn o "selvagem" Payakan na capa. Os mais exi- gentes podem ler ainda o n2 93 do JP e o inqu6rito da polfcia so- bre o estupro. Certamente pode- rao constatar quem est& mentindo. Opiniao 6 opiniAo. Pode-se discutf-Ja, mas nem sempre pode- se muda-la. JA fatos sao fatos. Podem ser ocultados, mas sempre estAo A disposigAo da revelagio. Os dois dizem que a cidade de Redenqao, palco do aconteci- mento, tern 150 mil habitantes. Segundo o censo do IBGE de 1990, tern 44 mil. Nao 6 propria- mente a mesma coisa. A reporta- gem garante que a Transamaz6ni- ca serve apenas de "rali de on- ga", frase tao verdadeira e origi- nal quanto batizar a Beldm-Bra- silia de "caminho de onga" duas d6cadas atrds. A Transamaz6nica tern muitos problems, mas as on- gas nao sao um deles. Paulo Sflber e Palm6rio D6- ria, corn a criatividade que os fez usar sem aspas a. express&o "eco- bababacas", cunhada por milita- res para tentar desmoralizar o entao secretirio do Meio Am- biente, Jose Lutzenberger, veem uma concatenagio l6gica e linear costurando desde o process contra Payakan e Posey em 1988 ate o I Encontro dos Povos Indf- genas e a Eco-92. Dizem que o encontro de Altamira "rendeu pelo menos o namoro do outro caiap6, Raoni, corn o roqueiro Sting", um fato anterior, como fartamente poderiam mostrar os arquivos dos jornais se os dois se dispusessem a checar as informa- g6es que espalham irresponsa- velmente em seus textos. A colegiao do JP est& & dispo- sigio dos que quiserem verificar se procede a acusagAo dos dois de que sou um "ecobabaca". A uma acusagAo feita corn o mesmo ci- nismo inculto corn o qual se refe- rem ao trucidamento da atriz Sha- ron Tate, na epoca grAvida de um filho do cineasta Roman Polans- ki, por membros da "famflia" do "hippie" Charles Mason, na Cali- fdrnia, como "dssassinatozinho". Ou ao registiarem que a jovem Sflvia estava "milagrosamente" virgem quando foi estuprada por Payakan, embora morasse em uma cidade "povoada por garimpeiros e guerreiros caiap6s desgarra- dos", como se a crueldade ca- racterfstica dos sert6es amazoni- cos fosse uma condigio inevitAvel da degradagio das pessoas. Paulo Sflbei e Palmdrio Ddria fazem da arte de escrever textos para massas um brinquedo e dois e um meio de transmitir recados amolecados. Merecem a compa- nhia, na autoria e no consume do que cada um deles escreve. 0 dedo gigante De todas as pessoas que se ma- nifestaram sobre a carta oue o ex-governador Hdlio Gueiros me mandou, apenas uma a apoiou. E um veteran jornalista, que deve ter seus motivos, embora jamais revelados e que nio cito justa- mente porque, de pdblico, nio confirm o que confidencia a al- guns interlocutores. A unanimi- dade das pessoas que se mani- festaram repudiou a obra de H61io Gueiros. Mas apenas uma pequena par- cela da opiniao pdblica, aquela corn acesso aos jornais locais, tomou conhecimento da carta. E somente os que obtiveram algum dos cinco mil exemplares do Bandeira 3, que editei em maio do ano passado, puderam ler o inteiro teor do cometimento do ex-governador. A carta provocou um grande dano no conceito dele junto & classes media..Mas faltava medir a reagao da maioria da po- pulagio. Alguns achavam que o povio apludiria a iniciativa de H6lio Gueiros como prova de sua cora- gem, da forma desabrida que usa para enfrentar desafetos, adversA- rios ou inimigos. De minha parte, nunca concordei corn essa visio: o senso da honra e da dignidade nao 6 privil6gio dos mais bem in- formados, ou dos mais ricos - muito pelo contrario, frequente- mente. Como o almirante Mario Her- mes, sempre achei que aquela carta se havia transformado na principal pedra no caminho para H6lio Gueiros voltar ao poder. No fntimo, ele tamb6m sabe dis- so, o que o tem levado a evitar o tema. Apresentada conveniente- mente A maioria da sociedade, atraves do rAdio e da televisao, a carta mostraria definitivamente ao mais incredulo a alma (se exis- tente) de Helio Gueiros, desmas- carando-o. Mas o PMDB acabou dando a esse triste document um uso nao apenas incompetent e burro, mas igualmente sujo. Jamais uma pega como aquela deveria ser lida, mesmo corn a omissio das expres- s6es mais chulas (de resto indtil porque havia ressonincia do som e o sentido da frase ficava pre- servado). Era para ser filmada ou historiada. Exibida no vfdeo, quem quisesse a leria. 0 audio apenas situaria o telespectador no context daquela pega. Apresen- tada grosseiramente, sem sua moldura, lida descaracterizada- mente, a carta atingiu mais o destinatario do que o remetente, passando ao largo do entendi- mento do eleitor e, em conse- qudncia, de sua sensibilidade. Quem montou aquela pega do program eleitoral do PMDB, na intengio de alvejar o ex-governa- dor, atingiu efeito contrario. 0 pr6prio juiz Paulo Frota, ao vetar a reprodug o da carta, partiu do pressuposto de que ela 6 porno- grafica, o que de fato 6, mas omitiu quem 6 o seu autor. Nao 6 o PMDB, evidentemente, mas por sua esfupidez o partido levou a responsabilidade, perdendo a grande oportunidade de colocar o verdadeiro H61lio Gueiros diante da opiniio pdblica. A insensatez, segundo fontes oficiais, foi dos produtores do program do PMDB, a CA e o chefe de reportagem da TV RBA. Fontes mais seguras, entretanto, garantem que o pr6prio governa- dor determinou aquela utilizagio da carta, embora nio tivesse visto o produto final. Ele achava que o juiz eleitoral proibiria a divulga- gqo e quis antecipar-se, Nem a candidate da Alianga Popular, Socorro Gomes, procu- rou redimir esse crasso erro. No debate na TV Liberal, ela nio quis provocar o tema, que na- quele moment seria adequado, fazendo-o depois, numa rApida refer8ncia, em seu program gra- vado. Um desastre a mais nessa sucessio de infelicidades. Journal Pessoal 7 Planta maltratada A justiga eleitoral nAo 6 aut6- noma no Brasil. Sua estrutura humana permanent 6 mfnima, en- riquecida apenas durante os pe- rfodos eleitorais. As normas tam- b6m mudam a cada eleigAo, sazo- nalidade que permit terrfveis "i- novag6es", como a Lei Falcio, que reduziu a propaganda eleito- ral gratuita a uma estatica exibi- iao em 3 x 4. As regras sofrem assim a contingencia dos interes- ses de moment e os seus execu- tores agem de ma-vontade, sem se sentir incorporados organica- mente ao process eleitoral en- quanto indipensivel etapa da consolidaiAo democritica, sempre transferida para calendas gregas. Nio surpreende, neste quadro de improvisalao contfnua, que os principals responsiveis pelo en- quadramento legal das eleig6es imprimam nela a marca da intole- rAncia. Regidos pela rigidez de princfpios formais categdricos, sAo incapazes de absorver o tom contestdrio, controversy, tenso e pluralista que deve constituir a caracterfstica essential da dispute eleitoral. Querem sempre cercear, comprimir, censurar e vetar, im- pondo a essa realidade multifa- cetada (e mesmo conflituosamente facetada) a unicidade da ordem. 0 juiz Paulo Frota, o coman- dante da eleigio em Beldm, cos- tuma ser apontado como um ma- gistrado correto, honest e apli- cado, qualidades autorizadas por sua biografia. Mas nem com todo esse acervo favordvel consegue escapar do registro autorit4rio da justiga eleitoral. Primeirc quis definir o melhor marketing para os candidates, sugerindo algu.is caminhos e desaconselhando ou- tros, como se nio estivesse exor- bitando de suas fung6es. Depois, com a propaganda nas radios e TVs, comegou a cortar passagens consideradas contrarias a lei, ba- seando-se num pressuposto vago para praticar um claro atentado b liberdade de expressAo, ressusci- tando com sutileza a censura pr6- via. A tempo o juiz voltou atris e decidiu transferir para o direito de resposta o papel de mediador, mantendo-se apenas como Arbitro dos pedidos. Mas ampliou tanto o entendimento de injdria, caldnia e difamaiao que acabou afogado num mar de solicitag6es, sem es- tabelecer um princfpio de aplica- 0Ao geral e razoavelmente segu- ro. Sua safda significou uma volta ao ponto de origem: sus- pendeu tries dos programs, exer- cendo o poder de polfcia da Jus- tiqa. Como outros jufzes, Frota po- de alegar que sua a&io tem fun- damento na letra dos periddicos regulamentos que, criados para disciplinary eleig6es, acabam co- locando-as em camisa-de-forga. ArgumentarA tamb6m que o hord- rio 6 do TRE e nio dos candida- tos ou partidos. NAo exatamente, pordm. A lei ranzinza precisa de uma inter- pretaiao mais arejada. 0 TRE, por sua vez, nao 6 o dono da eleiiao, mas apenas o intermedid- rio institutional entire o eleitor e o candidate. Quem ve e ouve os programs 6 que deve ser o drbi- tro. Se se sentir ofendido, basta desligar o aparelho de rAdio ou televisAo. Se resisted a esse gesto elementary, 6 porque quer fazer um julgamento. Inadmissfvel, numa democracia, que esse mo- mento necessario seja eliminado por um 6rgao tutelar. A por excess de tutela que a plantinha da democracia nunca deixou de ser tenra no Brasil, murchando tAo logo as condig6es ambientais se tornam desfavord- veis. Cartas O Advogado OclAvio Avertano Rocha enviou a seguinie carta: "Men caro Ldcio Fldvio: Li, coin emnodo, o que escreveste sobrec o DKL. Hd homens que ultrapassam os limits do human. DKL foi um deles e talvez o ltimno de- les. Apesar das tuas divergencias, no que signifi- cou para o mundo o Projeto Jari e todas as bata- Ihas que (surdainente) travel contigo d 6poca, into, pelo que escreveste, que tua ahna sensivel foi toca- da pela grandeza do DKL Corno fui pane an6- nima e modest no grande sonho desse homemn, sinto-me orgulhoso de te tr defrontado ndo como inimnigo, mas itcido crttico de wn moment mdgi- co de nossa Hist6ria". 0 leilor Jorge Moreira Juliao enviou a seguinte cartn: "llustrejomalista: Adquri o livro de sua autoria, "AMAZ6NIA FRONTEIRA DO CAOS", umn libelo da verdde. Meus comentaios ndo expressariam o verdadeiro valor que ele representa para a Amazonia. Apesar deste sec trabatho incansdvel que proditz uina expressiva fonte de infonnaq6es, dcemincias e esclarecimentos, um fato nos causa indignada admirafdo. t que os goverantes dos es- tados amazOnicos, preocupados coin politically de aldeia, ndo se mostram sensiveis e interessados, pe- lo menos ndo se ouve ndao s sabc que algum deles, declarasse guen'a a tanta erploragdo, saque, des- inentelo, erros que causam males iepardveis a Amazonia, conseqiientemente, tanto as atuais co- mo as fituras geraq6es. Tenho medo que, em ftituro, muitas regies da Amazonia venhamn padecer o que padecem al- gwnas regi6es da Africa, vitimas de um colonialis- mio cplorador de riquezas naturais e dirano das culturas dos povos colonizados. Noueors tinos e condiq es, processa-se na Amaz6nia, outro mdtodo de colonialismo, modemo, mas iguamnente devas- tador. Todo seu trabalho jonallstico desenvolve-se tanto como acimna mencionei, mas tambnm como advenbncia. Tempos virdo, que govemnntes mais hicidtos hdo de acordar, talvez, tardianente". Aproximaqao Companhia Vale do Rio Doce diz-se disposta a implantar de vez o projeto Alunorte, ao custo de 530 milh6es de d6dlares, para a produgAo de alumina, e promover a vertilicalizagio da Albr4s, fa- zendo-a ir al6m da simples pro- dugio de lingotes de alumfnio, produto que consome muita ener- gia e tem baixa remunerarAo no mercado. A CVRD jA estaria em entendimentos corn a Alcan para instalar uma inddstria de lamina- dos de alumfnio no distrito de Barcarena, apoiando outras fibri- cas que transformariam a mat6ria- prima. Atualmente o porto da Ponta Grossa serve de embarca- douro para o lingote ser exporta- do, principalmente para o JapAo, deixando beneffcios reduzidos na regiao. Por enquanto, os entendi- mentos nesse sentido vAm sendo conduzidos com certo sigilo e na dependencia de um fator que a Vale quer definir junto ao gover- no: a question tributiria. Alega a empresa estar sofren- do uma forte carga de imposto com a alfquota do ICMS, afetan- do sua competitividade no merca- do, situagio que se estende a mi- neragio de ferro de Carajds. A CVRD quer que o governor do Pa- rd adeque essa alfquota ao fndice que vem sendo praticado no Espf- rito Santo e em Minas Gerais, outras bases operacionais de es- tatal. A mudanga poderia ser feita atravds de simples acerto entire os secretarios de Fazenda dos tres Estados. A question deveria ter sido tratada no dltimo fim-de-semana, mas a conjuntura polftica nacio- nal a adiou. Mas a CVRD a con- sidera de urgencia. Para beneffcio coletivo, deveria extrapolar dos gabinetes para alcangar a discus- sio pdblica. 0 LIBERAL As vesperas da implosao? Q uem, nas ditimas tries sema- nas, telefonasse para 0 Li- beral atrAs do vice-presi- dente da empresa, Romulo Maio- rana Jr., seria informado de que ele estava viajando. De fato, Ro- minho passou mais de duas sema- nas fora de Bel6m, sem motive declarado, tendo Sao Paulo no rumo. Mas deixou de ir ao seu gabinete, no dltimo andar do prd- dio de 0 Liberal, mesmo quando jd estava em Bel6m. Nem mesmo as telefonistas foram informadas de seu regresso. A viagem fora decidida subi- tamente e por um motive explosi- vo: Rominho havia travado a mais violent de todas as discusses ate entao mantidas corn a irma, Rosingela Maiorana Kzan, dire- tora administrative do grupo. De- pois de apurar a existencia de um rombo na empresa, na qual era apontado como envolvido o ge- rente de circulagao do journal, Romulo Jr. descobrira que a irma e Ariovaldo Santos haviam for- mado uma empresa em Macap4 justamente no moment em que 0 Liberal estA instalando ali uma sucursal, pass inicial para rodar um journal amapaense. A empresa de RosAngela e Ariovaldo iria pleitear colaboraqAo financeira da Sudam e incentives da Zona Franca de Macapf para uma gra- fica corn ponto alto na impressao de formulArios contfnuos. 0 gru- po Liberal ficava de fora desse empreendimento. Da discussao acalorada Romi- nho saiu corn a disposigao de deixar a empresa, mas a fuga para SAo Paulo teria o sentido de pres- sionar a mAe para apoid-lo contra Rosangela e duas das irmas que ficaram do lado dela. Dea Maio- rana tern sido o ponto de equilf- brio nas conflituosas relag6es entire os sete irmAos (cinco mu- lheres e dois homess. Eles par- tilham metade dos bens deixados pelo pai, Romulo Maiorana. A outra metade 6 da vidva. Neg6cios paralelos A divisio seria equilibrada se cada um dos Maiorana nao usasse os vefculos de comunicacAo do grupo para neg6cios individuals. Gragas ao esquema de permuta (andncios gratuitos no journal, nas radios e na televisao), Rominho ampliou seu patrim6nio imobilia- rio, trocando apartamentos por andincios. RosAngela, Rose e An- gela tornaram-se as maiores em- presdrias da noite em virtude da maciga divulgagao de suas pro- moc6es, que nenhum concorrente poderia imitar sob o risco de quebrar. Ronaldo Maiorana for- mou a Budget e ficou com a ca- deia de lojas de disco Tok Aqui da mesma maneira. Quando dao retorno lfquido, o que nem sempre acontece, esses negdcios nAo significam receita para as empresas do grupo porque os andncios e mensagens sao vei- culados gratuitamente. Algumas vezes sequer sao faturados. 0 di- nheiro cai nos bolsos dos donos, permitindo declarar, A maneira do general Medici, que enquanto 0 Liberal comega a ir mal, os Maio- rana vao muito bem, obrigado. Em algumas edig6es, at6 me- tade dos andincios que aparecem em 0 Liberal sao frios. Na nobre pagina tries (a mais valorizada depois da capa) ha um andncio cativo do restaurant Cristal, de propriedade de Rominho e Ma- noel Mauds. Tres outros andncios chamam o pdblico para promo- g6es de Rose no Ole-Old (onde ela fica corn 40% da venda de in- gressos, receita lfquida) e no Grog. A locadora de carros Bud- get e as lojas de discos de Ronal- do tambem se fazem present. Ha ainda permutas nao diretamente vinculadas aos neg6cios paralelos dos irmaos, como um grande andncio da Veritate, que faz pes- quisas de opiniao. Moment delicado Esses sangramentos se amid- dam justamente no moment em que o grupo precisa faturar mais para cobrir despesas crescentes. 0 investimento na nova sede (cuja inaugurarao foi adiada mais uma vez, agora para dezembro) nao ficou abaixo de 10 milh6es de d6dlares, inclufda a modern rotativa Rolland, que acarretou financiamento em d6lar (ao redor de US$ 5 milh6es). Alguns em- preiteiros se queixam de atraso de pagamento e prev8em que a obra nao ficard pronta neste ano. Os cart6rios de protest recebem um volume regular de tftulos nao quitados da empresa, que conta com a extrema boa vontade e pa- ciencia do cartorArio Salvio de Miranda Correa, por onde passa a maioria dos protests. A instabilidade econ6mico-fi- nanceira e a tensdo administrative sao complementadas por uma acirrada dispute internal. 0 jorna- lista ClAudio Sa Leal, um fact6- tum na empresa desde a morte de Romulo Maiorana, resisted a uma reform a princfpio total, agora grdfica que Walmir Botelho prepare, a pedido de Rominho, para ser posta em prdtica quando o journal comegar a ser impresso na nova oficina. Com a resisten- cia de Leal, artifice da posigao polftica extremada que 0 Liberal assumiu na eleiqao de 1990, Walmir 6 redator-chefe de 0 Li- beral apenas no expediente do journal. Leal tern o apoio de Ro- singela e, naturalmente, torce para que ela venga a dispute com o irmrio. A unidade da empresa e sua forga transformam-se, cada vez mais, em produto para con- sumo externo, amplamente ven- davel numa 6poca de falta de concorrencia capaz, como a atual. Este journal jd estava comple- tamente fechado quando foi di- vulgado o resultado da mais re- cente pesquisa eleitoral do Gal- lup, mostrando que H6lio Gueiros avangou, Socorro Gomes recuou e Cipriano Sabino dobrou na prefe- rencia do eleitor entrevistado. 0 ex-governador aumentou as pos- sibilidades de decidir ja no pri- meiro turno, mas o quadro geral ainda cabe na andlise feita pelo JP. 0 sofrfvel desempenho da candidate da Alianqa Popular fez corn que ela perdesse votos para os concorrentes em posigao infe- rior, situaqao que serd muito diff- cil de reverter se sua campanha persistir sem uma marca forte, sem direqao, restringindo-se a atacar os adversArios. Joral Pessoal Editor responsavel: Lucio Flavio Pinto llustraqao: Luti Pinto Rua Campos Sales. 268/803 66.020 Fone: 223-1929 Opao Editoral |
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