Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00073

Full Text





Journal Pessoal
EDITOR RESPONSIVE L LUCIO FLAVIO PINTO

Ano VI 0 N' 98 2a Ouinzena de Setembro de 1992 Cr$ 2.000,00

ELEI4(AO



Um deus de lama

Helio Gueiros apresentou-se na TV como se fosse
um Deus, expulsando o anjo que o traiu.
Mas a historia verdadeira e muito diferente.
Este e o personagem mais cinico do enredo.


-~
------- -
-

-< 7
'1 -


L etor primdrio da Bfblia,
H6lio Mota Gueiros poderia
ser mais explfcito em uma
de suas aparig6es no program
eleitoral gratuito da televisio, na
semana passada, se dissesse que
se consider o representante divi-
no na Terra. Praticaria um absur-
do incomensurAvel, mas a dema-
gogia seria menor. Apelando para
o mais rudimentar, tentou con-
vencer o eleitor que fora vftima
de uma ign6bil traigio: acreditara
em Jader Barbalho, da mesma
maneira como Deus crera em Ld-


cifer, o anjo da luz; mas depois
constatou que ele era o dem6nio e
o expulsou de snu convfvio,
mantendo a pureza no reino ce-
lestial.
Enquanto com6dia pastel,
sua especialidade, H61io Gueiros
pode divertir corn essa descabida
parAbola. Mas a incrfvel hist6ria
foi contada em um program
eleitoral, atrav6s do qual o can-
didato reivindica a conquista de
um cargo pdblico. Como sempre,
a Bfblia foi invocada despropo-
sitadamente pelo mau leitor. E a


versao que forjou 6 uma fantasia,
incompatfvel corn a realidade.
Nos quatro anos em que Jader
Barbalho exerceu seu primeiro
mandate de governador, H6lio
Gueiros foi senador do PMDB.
Em Brasflia, defended todos os
atos de Jader, chegando a obs-
truir sess6es apenas para garantir
a aprovagio de emprdstimo exter-
no solicitado pelo Estado. Mas
nao apenas era um representante
parlamentar do governador: co-
nhecia a intimidade do exercfcio
do poder e suas ramificaq6es pa-







2 _Jornal Pessoal


ralelas, turvas, clandestinas.
0 principal agent de Jader
nesse esquema era o medico Hen-
ry Kayath, seu conselheiro finan-
ceiro e o maior parceiro de Hdlio
Gueiros antes e, principalmente,
depois que ele assumiu o gover-
no. Pelas mros de Kayath passava
dinheiro pdblico retirado de con
tas regulars atrav6s de manobrns
inteligentes, como os cheques
administrativos do Banco do Es-
*tado do Pard, ou rdsticas, como a
caderneta de poupanga do fictfcio
Joio Silva. Era Kayath o autor de
aplica6ges financeiras, como as
que eram efetuadas nas corretoras
cariocas Mafra e Etica, a dltima
sob intervenqao do Banco Cen-
tral. Kayath movimentava uma
conta secret na agencia do Ban-
co Itad no Jardim Botanico, Rio
de Janeiro.
Nas conversas informais, o
senador As vezes se preocupava
em dourar a pflula. Dizia, por
exemplo, que a poupanga fictfcia
em nome de um certo Joao Silva
servira para viabilizar o comfcio
em favor das eleig6es diretas, em
1984, que trouxe a Belem o can-
didato Tancredo Neves. Mas o
entio deputado estadual Fernando
Ribeiro admitira ter tirade 35 mil
ddlares desses funds soturnos
para ajudar as despesas do casal
Gueiros na visit feita ao Japlo
antes da posse. 0 valor 6 contro-
verso, mas que Hl1io foi para o
Japlo levando ddlares de origem
incerta e nao sabida nao ha ddvi-
da. Sua concepgio de moral, es-
tabelecida A margem dos labora-
t6rios baratistas, sempre foi sufi-
cientemente elastica para absor-
ver esse tipo de situagao.
0 entAo senador sabia muito
bem que muito dinheiro sem ca-
rimbo corria por trAs das rubricas
dos orgamentos oficiais. Ele par-
ticipou da negociaago do maior
emprestimo feito pelo governor
Jader Barbalho, de 102 milhoes
de d6lares, que o Senado autori-
zou a ser contrafdo em setembro
de 1986, um pouco antes da elei-
qio que fez de Gueiros governa-
dor. A Construtora Andrade Gu-
tierrez fora a responsavel pela
obtengao desse dinheiro junto As
agencies do Banco do Brasil em
Grand Cayman e em Nassau. Dos
US$ 102 milh6es, US$ 47,2 mi-
lh6es seriam para as obras das
rodovias BR-222 (de Maraba &
Belem-Brasflia) e PA-150, bene-
ficiando a Andrade Gutierrez. Os
restantes US$ 55 milh6es servi-


riam para a construg~o da hidre-
16trica de Aparaf, na margem es-
querda do rio Amazonas, onde a
Gutierrez provavelmente tamb6m
entraria. Uma parcela de 20% se-
ria reservada ao uso pessoal do
governador.
Aprovado o emprdstimo em
setembro de 1986, a primeira par-
cela do dinheiro, de US$ 30,5
milh6es, s6 saiu em agosto de
1987, quando H61lio Gueiros jA
era o governador. Ele aplicou
US$ 26,2 milh6es na PA-150 e
transferiu para um fundo sob seu
control pessoal US$ 4,3 mi-
lh6es. A segunda parcela foi libe-
rada em abril de 1988, mas ape-
nas US$ 44,7 milh6es, do total de
US$ 71,6 milh6es, foram usados
em obras rodoviarios. Os restan-
tes US$ 26,9 milh6es primeira-
mente foram aplicados no merca-
do fir anceiro, onde renderam ju-
ros, e depois usados de forma se-
creta, que ningu6m no governor
ate hoje conseguiu identificar.
Neste fundo paralelo de US$
30,7 milh6es esta a origem de to-
dos os comentarios sobre desvios
de dinheiro pdblico (talvez ate a
cabulosa hist6ria do cheque em
nome de Helio Gueiros Jr) e a
verba polftica para a eleigao de
1990. Tamb6m af pode-se encon-
trar a explicacio para a primeira
colisao seria entire Jader Barbalho
e Hl1io Gueiros, tendo nos basti-
dores a Construtora Andrade Gu-
tierrez. Mais uma vez, Helio nAo
honrou um compromisso assumi-
do. JA fizera isso antes com ou-
tros ex-amigos ou ex-aliados,
como Romulo Maiorana. Ao inv6s
de ser um deus que pune traidores
quando descobre seus erros, Hd-
lio Gueiros 6 um tipo de mafioso
que nao segue nem mesmo a lei
da "ormetta", a lei do silencio,
que estabelece um c6digo de hon-
ra entire as "famiglias", quando
isso lhe 6 convenient.

A arte do engOdo

Gueiros sabia perfeitamente
que nAo estava dizendo a verdade
quando, no discurso de posse, a
15 de margo de 1987, saudou seu
antecessor (sem o qual jamais te-
ria sido eleito senador em 1982 e
governador em 1986) como "umrn
estadista", e garantiu estar rece-
bendo o governor de "maos hon-
radas, eficientes, zelosas". Hdlio
Gueiros conhecia muito bem as
sujeiras da administragao Jader
Barbalho, tanto que, depois de


silenciar sobre todas elas en-
quanto foi senador (mais do .que
isso, defendendo os atos de Ja-
der, em relaqAo a maioria dos
quais tinha sido, no mfnimo, tes-
temunha), repetiu-as ao se tornar
governador.
Mas Ihe era convenient in-
censar quem ainda nio podia de-
safiar, embora ciente de que,
mais cedo ou mais tarde, have-
riam de brigar. Como disse no
discurso, feito na sacada do pald-
cio Lauro Sodr6, Hdlio havia re-
cebido de Jader "o privilegio da
intimidade", como se fosse um
"irmao mais velho", tratamento
de alcova que Ihe dera Romulo
Maiorana e que ele aceitara ate
expor essa intimidade como se
nAo fosse tambdm um produto
dela, sabendo que sd alguem mais
s6rdido poderia expor suas entra-
nhas de pdblico. Ninguem, na
polftica paraense, consegue ser
mais falso, cfnico e se vale a
expressao diab6lico do que Hd-
lio Gueiros.

Radiografia do home

Em abril do ano passado, nu-
ma coluna que escrevia em A
Provfncia do Par&, publiquei uma
entrevista corn o governador Ja-
der Barbalho, fiel a um princfpio
jornalfstico de tantos anos de ou-
vir o governador antes de passar
a avaliar sua gestao e criticA-la.
0 ex-governador Helio Gueiros
era criticado por Jader, mas nada
havia no texto ao qual ele nao
pudesse reagir corn uma contra-
argumentagio, que eu e o journal
abrigarfamos sem problems, es-
tabelecendo polemica favoravel
ao esclarecimento pdblico. Mas
H61io Gueiros produziu o que,
sem ddvida, 6 o mais triste e sdr-
dido document da histdria polf-
tica jd niao digo nem paraense,
mas brasileira. Em uma carta de
65 linhas, o home que um m8s
antes deixara o mais alto post da
administragAo pdblica estadual,
juntou 28 expresses chulas, vul-
gares ou rasteiramente pornogrd-
ficas, num texto tortuoso que co-
megava corn este espantoso pard-
grafo: "Por que tu nao vais chu-
par o cd da puta que te pariu?".
Quem leu a carta deduziu lo-
go que Helio Gueiros a deveria
ter produzido bebado. Nao, ele
nao estava, como em muitas ou-
tras ocasi6es, embriagado. Embo-
ra aparentasse um estado de des-
controle absolute, a carta fora es- >






Journal Pessoal 3
wn


crita .friamente, corn um propdsi-
to: o de me intimidar e, por ta-
bela, o journal A Provfncia do Pa-
rd. Pois Hdlio Gueiros, ao invds
de me enderecar a carta, como se-
ria normal, mandou-a dentro de
um envelope destinado ao supe-
rintendente de A Provfncia, Ro-
berto Jares Martins, que tamb6m
recebeu outro cartAo, este intei-
ramente manuscrito e no mesmo
estilo, para me encaminhar.
Ofendendo-me e assustando o
journal, Hdlio Gueiros imaginava
imobilizar uma das poucas pes-
soas neste Estado que podia re-
velar a verdadeira personalidade
que se esconde sob sua mascara
bfblica, sem que contra mim ele
pode apresentar as alegaq6es que
faz contra seu ex-parceiro Jader
Barbalho.
A carta, publicada depois de
tanta reflexao angustiada, teve
um mdrito: mostrou exatamente
quem era Hdlio Gueiros, persona-
gem do passado que ressucitou
anacronismos insensfvel aos pa-
dr6es modernos da sociedade. De
Niter6i, onde mora, o almirante
Mario Jorge da Fonseca Hermes,
ex-comandante do IV Distrito
Naval (quando conviveu corn o
governador Hdlio Gueiros) e ex-
comandante da Armada (o segun-
do principal cargo da Marinha), o
mais brilhante official da Marinha
que jA conheci, reagiu lamentan-
do que o pafs e o Estado tenham
entiree os que os representam in-
divfduo moralmente tio desquali-
ficado".
A carta, para ele, expressava
"um estado de demencia, que me-
rece compaixao e cuidados mddi-
cos urgentes". 0 almirante, ca-
rioca de nascimento, cidadAfo pa-
raense honorario, descendence do
marechal Hermes da Fonseca, sem
qualquer vinculaqao pessoal corn
o Para, entendeu que Gueiros
"nao mais tern a condigio de


apresentar-se na qualidade de
home pdblico ao povo do Para.
Se houver um pouco de decencia
no meio de seus correligionarios,
cabera a eles alijA-lo do convfvio
polftico".
No entanto, Hdlio Gueiros
apresentou-se como candidate,
foi aceito por uma coligagao de
partidos e aparece nas pesquisas
como favorite para ocupar a mais
important prefeitura paraense.
Faz um discurso sagaz, mas to-
talmente falso, inteiramente de-
satualizado, retrato do passado
imposto ao present que compro-
mete o future. Faz o povo acre-
ditar que ser opositor do gover-
nador pode atd ser bom. Curitiba
nio saiu ganhando por ter um
prefeito nio afinado corn o go-
vernador do Parana? Ganhou,
sim, mas o exemplo nio se aplica
a Beldm.
Em primeiro lugar, Helio
Gueiros nao 6 Jaime Lerner. Sua
administraaio no Estado, antece-
dida por tao boas expectativas,
foi desastrosa, pior do que a do
(hoje) odiado antecessor. Suas
iddias sobre a gestio municipal
nao passam de um lugar comum
mal sustentado. Diz que vai bene-
ficiar os desfavorecidos e estar
atento ao meio ambiente, mas
apresenta como modelo a urbani-
zacao da Doca de Souza Franco,
que agrediu a paisagem, expulsou
os moradores tradicionais, eliti-
zou o uso do solo, incorporou-o
desbragadamente A especulagao
imobiliaria e repetiu a mesmice
conventional, que desconsidera
as peculiaridades locais.
A boa a divergencia entire
autoridades, mas quando o que as
separa sao iddias e nio o caniba-
lismo primario. Nao 6 o caso da
relagao entire Gueiros e Barbalho.
Eles nio tem program, querem
apenas o usufruto do poder por
eles mesmos e suas entourages


(para nao voltar a falar em gan-
gues). A diferenga principal entire
os dois esta no grau de cinismo,
maior em Hdlio Gueiros, a ponto
de fazelo adotar como slogan de
campanha uma de suas mais s6r-
didas realizag6es administrativas,
o program caminhando corn o
povo.
Mais ainda do que o lema de
trabalho de Jader, 6 a consagra-
gao do princfpio de roubar, mas
fazer, do qual a nagao quer se li-
vrar. Hl61io Gueiros tenta justifi-
car a aboligio de todos os proce-
dimentos cautelares A administra-
gao p6blica, como a licitagio ou
a tomada de pregos, com o resul-
tado de sua agao: a distribuigao
de bens (na verdade, quinquilha-
rias) aos menos favorecidos. No
entanto, depois de gastar milh6es
de cruzeiros adquirindo material
"para pronta assistencia As pes-
soas carentes" (a tfpica manobra
eleitoreira que garante a compra
de votos), ele viu o tamanho do
erro cometido, que o expunha a
uma punigao, e tentou remedia-lo:
assinou um decreto para autorizar
a dispensa de licitagAo corn data
falsa, retardada para 11 meses
antes, como se o ato, de 13 de
dezembro de 1990 (quando o ca-
minhando comn o povo ja se tinha
consumado), tivesse sido adotado
a 20 de janeiro.
Este 6 o verdadeiro Helio
Gueiros, um mestre na arte dos
disfarces e da manipulagio, um
home sem princfpios, exceto o
de servir-se e aos seus, como se
fosse um deus, delfrio no qual pa-
rece cada vez mais crer, um caso
para analistas da alma e do espf-
rito que se acoberta em eleig6es
tAo pobremente disputadas. Bel6m
pagard caro, e chorara muito o
seu erro, se resuscitA-lo, ao inv6s
de dar-lhe o destino apontado
pelo honrado e ilustre almirante
Mario Hermes: o arquivo da his-
t6ria e o lixo da vida cotidiana.


De olho em 1994


D ificilmente H6lio Gueiros
deixarA de vencer no pri-
meiro turno das eleig6es
municipals em Bel6m, mas ainda
nao esti totalmente garantida uma
definicio jA nessa etapa No se-
gundo turno ele devera enfrentar
a deputada federal Socorro Go-
mes, corn o segundo lugar con-
firmado em meio As instabilidades
da campanha da Alianga Popular


e a sua pr6pria fraqueza pessoal.
Se conseguir encurtar a margem
de votos que a separa de Gueiros,
Socorro podera atd alcangar a
condigio de favorite As v6speras
da segunda votagio para a pre-
feitura da capital paraense. 0
prego a pagar por essa faganha
sera a descaracterizag(o de sua
candidatura, que se transformara
num apendice do governador Ja-


der Barbalho. Eleita vereadora
belenense e deputada federal corn
a maior das votag6es gragas A sua
ret6rica de frente de luta, Socorro
Gomes serd prefeita por obra e
graga da manquina que sempre
corabateu.
0 quadro da dispute eleitoral
em Bel6m, a tr&s semanas da elei-
gao, pode ser delineado da se-
guinte maneira:






4 Jornal Pessoal


H6lio Gueiros Favorito, comr
mais votos do que todos os seus
concorrentes reunidos, segundo a
dnica pesquisa com credibilidade
que se conhece (feita pelo Gallup
para a TV Liberal), sua orienta-
gao 6 a de poupar-se. Pode estar
exagerando nessa linha soft, ex-
cessivamente confiante na vitdria.
Nas poucas incurs6es eficientes,
os produtores do PMDB e da
Alianga Popular conseguiram
abalar a image de seriedade e
honestidade que o ex-governador
construiu com a conivencia da
grande imprensa. Seu nome pe-
netra em todas as camadas so-
ciais, mas pode receber um golpe
decisive se Jader carregar Socor-
ro pela periferia da cidade reali-
zando obras, mesmo que eleito-
reiras.
A sustetragio financeira da
campanha do ex-governador nao 6
tio boa como se poderia esperar.
0 filho mais bem sucedido em
sua passage pelo governor, o ad-
vogado Paulo Gueiros, se recusou
a abater part de seu multiplicado
patrim6nio para ajudar as despe-
sas eleitorais do pai. "Paulo s6
entra na hora de arrecadar. Quan-
do 6 para gastar ele some", ga-
rante um dos assessores mais
pr6ximos de Hdlio Gueiros. Por
isso, no segundo turno, ele pode
perder gas.
Socorro Gomes Mulher de
primeiro combat, adestrada no
uso de palavras de ordem cunha-
das pelo PC do B, deixou exposto
seu despreparo para enfrentar
programs de televisAo e debates
com os outros candidates. Come-
teu um erro incrfvel ao admitir
que nAo sabia qual era a divisao
de responsabilidades entire o
governor do Estado e o BID no
financiamento do program de
macrodrenagem das baixadas, o
carro-chefe de Jader e, par ex-
tensio, de seus aliados para
Bel6m. Qualquer assessor de
marketing orientaria a candidate a
expurgar a expressAo "nao sei"
de sua linguagem televisiva, mas
Socorro deixou seus assessores
de campanha esperando horas
num bar ao lado do pr6dio onde
mora, na rua Jose Bonificio, en-
quanto conversava com o gover-
nador Jader Barbalho. Foi para o
debate cheia de fichas, mas sem
habilidade para consult&-las. Foi
a mais prejudicada.
Tern, no entanto, uma vanta-
gem: 6 a dnica candidate que po-
dera ir para a periferia da cidade,


reduto de dois tergos dos votos
da capital, levando mais do que
promessas e caravanas de pedes-
trianistas. 0 governador teria um
estoque de dinheiro e de peque-
nas mas providenciais obras
para levantar o peso da candidate
e compensar sua falta de estofo.
Ademir Andrade Ter menos
de dois minutes de tempo na tele-
visao lhe esta sendo fatal, tanto
quanto os ecos do mal explicado
acordo que fez em 1990, trocando
a frente de oposigao pelo apoio
ostensivo do grupo Liberal e do
entAo governador Hdlio Gueiros,
revelando no segundo turno o que
os mais bem informados sabiam
desde o primeiro turno: o senador
coragem passara para o lado de
Xerfan, o que lhe permitira rou-
bar milhares de votos do candi-
data official mas nao oficioso -
do PDS ao Senado, Jorge Arbage.
O mais eficiente dos candidates A
prefeitura na atual campanha nao
tem o que seria essencial para fa-
ze-lo disputar para valer o segun-
do lugar a 3 de outubro: credibi-
lidade.
Cipriano Sabino Aluno apli-
cado dos orientadores de sua
campanha, decorando os ndmeros
que lhe apresentam e incorporan-
do a ret6rica pr6-ajustada, apare-
ce como a verdadeira zebra na
corrida eleitoral, um tfpico pro-
duto de marketing. Depois do de-
bate na TV Liberal, ameagava
passar A frente de Ademir Andra-
de e se aproximar de Socorro.
Continue, por6m, a ser uma zebra
gragas As manipulag6es da opi-
niAo pdblica. Na essencia, nao 6
a mensagem que decorou, mas
tern tido o pdblica. Tern apresen-
tado, apesar disso (ou justamente
por isso), a maior dos cresci-
mentos nas duas dltimas semanas.
Jos6 Carlos Lima A marca
do zorro foi um bom achado de
propaganda, mas a candidatura
nao convenceu como alternative.
0 PT, no Pard, melhora um pouco
a cada eleigao enquanto partido,
mas sua possibilidade de vit6ria
nas disputes majoritarias ainda 6
devaneio o que nao chega a ser
propriamente ruim.
Lopo de Castro Mera figura-
gAo. Sua maior faganha, se a al-
cangar, sera a de ajudar a volta
de Agostinho Linhares A Crimara
Municipal.
A provavel que H6lio Gueiros
e Socorro Gomes ainda percam
posig6es at6 o dia 3 de outubro.
0 segredo de uma definigao no


primeiro turno estA em saber
quem perderi mais; se Cipriano,
Ademir e Z6 Carlos irio tirar
mais votos de um ou de outro.
Disputar os votos dos indecisos
sera tao important quando refa-
zer os acordos e coligag6es.
Evitando investor mais expli-
citamente contra Hdlio Gueiros,
ainda assim Ademir Andrade ca-
taliza votos de esquerda no pri-
meiro turno gragas a linguagem
anti-corrupcao. Mas nao levard
grande parte desses votos se,
mais uma vez, abandonar a apa-
rente independencia pela compa-
nhia do ex-governador no segun-
do turno, uma hip6tese perfeita-
mente factfvel (sem mandate e
sem grupo no poder, Ademir ird
querer participagao no governor
municipal para tentar sobreviver
politicamente). Socorro Gomes
poderd herdar a maior fatia desse
eleitorado desiludido, aprovei-
tando o voto dtil. Assim, ela tern
uma tend8ncia a crescer mais do
que Gueiros.
Por causa dessa perspective, a
candidate do PC do B cometeu
um erro primArio ao atacar os
demais candidates, que poderia
atrair para o seu lado no segundo
turno sem defender das articula-
96es pessoais de Jader Barbalho,
a dnica maneira de recuperar
apoios que amaeqa par a perder
corn seu panfletarismo vazio.

OIho comprido

Ningu6m tem ddvida de que a
eleigdo municipal deste ano re-
presentard o primeiro movimento
na, diregfo da dispute geral de
1994. Para Jader Barbalho, eleger
Socorro para a prefeitura de Be-
l6m sera garantir uma parcela es-
trat6gica de poder e votos na ca-
pital, onde suas aspirac6es no
moment nao vao al6m de um ter-
go do eleitorado (que, par sua
vez, represent 25% do coldgio
eleitoral do Estado).
Vitorioso em Bel6m, derro-
tando novamente H6lio Gueiros,
Jader estard em melhores condi-
96es para deixar o governor e
candidatar-se ao Senado, sem a
desagradavel perspective de ver
um inimigo no palAcio Lauro So-
dr6. Prefeito eleito (e ainda mais
se tiver uma ampla votafio),
Gueiros serd outra vez candidate
ao governor em 1994. E mesmo
que nio o seja, formard um novo
ndcleo de poder, paralelo ao de
Jader, o dnico vislumbrdvel no o






Journal Pessoal S


horizonte. 0 Pard verd a reedigio
dessa p6ssima novela quantas ve-
zes?
Essa bipolaridade do poder d
um dos fen6menos mais constan-
tes na histdria paraense, que se
interrompe nao por causa de op-
g6es alternatives, mas pela gend-
tica perverse que faz criatauras se
voltarem contra criadores. H6lio
Gueiros e Jader Barbalho sao
campe6es de votos, mas nao dis-
p6em de equipes para as quais
poderiam repassf-los. Se puder
confiar em seu esquema na pre-

IMPRENSA


feitura, caso eleito, H6lio se de-
sincompatibilizard, voltando a ser
uma fonte real de poder no Esta-
do. Mas quem indicari se nio pu-
der larger a PMB?

A mesma pergunta se aplica a
Jader. Apesar de todos os perigo-
sos antecedentes, 6 pouco provA-
vel que ele se disponha a deixar o
governor se H6lio for candidate
em 1994. Os peemedebistas
acham que Jader apoiaria o sena-
dor Coutinho Jorge, que voltou As
ruas para ajudar a candidatura de


Socorro Gomes. Fontes de fora
do partido, no entanto, apostam
no ex-prefeito Sahid Xerfan.
Apesar de terem sido inimigos em
1990, Jader e Xerfan ja conversa-
ram varias vezes e se encontraram
pessoalmente nos dltimos meses,
num desses, sempre falando de
polftica. Nao sera surpresa se,
mais uma vez, Jader for procurar
uma safda fora do PMDB. Na po-
Iftica paraense, a dnica surpresa 6
quando se escolhe os melhores.
Boi voando 6 rotina nessa zoolo-
gia.


Jornalista de vitrine


O ditimo ndmero da revista
Interview dedica 44 parg-
grafos e 317 linhas de texto
a uma reportagem assinada por
Palmdrio Ddria e Paulo Sflber, a
dupla Pepe do jornalismo paraen-
se, contumaz em seus cometi-
mentos a dois. Desta vez o alvo 6
o cacique Paulinho Payakan
(Paiakan, segundo a revista, que
incorporou pela metade as su-
gest6es de grafia correta de no-
mes indfgenas feitas por antro-
p6logos e linguiistas). 0 mote da
mat6ria 6 o estupro Sflvia Letfcia
da Luz Ferreira, praticado em ju-
nho por Payakan cornm a colabora-
9ao de sua mulher, Irekran.
Em um dos 44 paragrafos, tries
linhas alvejam este Jornal Pessoal
corn o que Palmdrio et Paulo de-
vem ,considerar boa pontaria. Di-
zem: "A festa na floresta de
Paiakan e a incredulidade gene-
ralizada da fauna e da flora cria-
ram uma nova esp6cie no mundo
verde,.que ja nasce condeuada A
extingAo: os ecobabacas. 0 habi-
tat deles pode ser tanto uma po-
derosa CNN, maior rede de TV a
cabo do mundo, vista em mais de
cem pauses, quanto um inexpres-
rivo boletim que circula em meia
dilzia de bancas de Beldm, o
'Jornal Pessoal', que sustenta que
o lado mais fraco 6 o estuprador e
nao a estuprada".
Este trecho 6 exemplar do ar-
tiffcio que certos tipos de jorna-
listas utilizam para fazer do jor-
nalismo um instrument de acer-
tos pessoais. A referencia ao Jor-
nal Pessoal em comparacio A
CNN 6 descabida, por qualquer
angulo, mesmo o de uma vaidade
exacerbada. Palmdrio e Paulo sa-
biam muito bem disso, mas que-


riam fazer uma maldade, vingar-
se do que escrevi neste JP a pro-
p6sito de outra reportagem, de
Sflber e Laurentino Gomes, em
Veja, que desencadeou todo o ca-
so Payakan.

Resposta atravessada

Depois de publicar uma ava-
liagao da p6ssima reportagem
(p6ssima nAo por atacar Payakan,
mas por ser ruim mesmo como
jornalismo), fui A sala em que
Palmdrio e Paulo trabalham na
TV Cultural. Perguntei-lhes o que
haviam achado. Sflber, direta-
mente afetado, responded que
meu artigo era "uma merda",
ponteando a linguagem de sur-
fista que costume caracterizar os
escritos dele e do parceiro (na
Interview, confeitado por expres-
s6es como pra, fuzue, badalo, ti
na cara e outros cometimentos
guturais neolfticos que cabem no
miximo em conversa de rua ou
em reportagens que as documen-
tem). Pedi para Sflber se expli-
car, mostrando meus erros. Nao
foi al6m de "6 uma merda". A
resposta veio, oblfqua, como de
seu estilo, na Interview.
Imagino a angdstia do leitor
sofisticado da vistast, encastela-
do principalmente nos points
paulistanos, para tentar encontrar
um elo de ligagao entire a famosa
CNN e meu obscuro Jornal Pes-
soal, lembrado freudianamente
pelos autores da mat6ria. Se ele
nao tem significAncia e nao serve
para esclarecer a comparaqao, por
que citA-lo? 0 paralelo nao faz
qualquer sentido para 99,9% dos
leitores de Interview. Pode signi-
ficar alguma coisa para os que ao


mesmo tempo leem a revista e
este journal. Mas 6 sobretudo para
tentar me atingir que D6ria &
Sflber me dedicaram 1% do texto.
Possufdos pela voldpia da
vinganga, escolheram a via errada
e, nela, erraram mais do que mi-
nha vasta compreensAo me per-
mitiria tolerar. 0 JP circula em
47 bancas de Beldm e nio em
"meia ddzia". Tern, de fato, uma
pequena circulagio, de dois mil
exemplares, dos quais 1.500 vto
para as bancas; nelas, entire 1.300
e 1.380 sAo vendidos regular-
mente. E uma vendagem limitada,
portanto. Mas nao 6 t&o inexpres-
siva.
0 president da Companhia
Vale do Rio Doce 6 leitor assfduo
e atento do JP em seu gabinete,
no Rio de Janeiro. A CVRD, a
maior empresa em atuagao no Pa-
ri, consider o JP um tfpico
"formador de opiniao". Vende
pouco, mas de qualquer forma in-
flui. Palmdrio e Paulo podem li-
gar para o sr. Wilson Brunmer ou
qualquer dos diretores da CVRD
ligados a Amaz6nia e verificar
a informaqao. Podem fazer a
mesma checagem em outros in-
questioniveis formadores de opi-
niao no Para (o governador Jader
Barbalho, por exemplo) e pedir-
lhes uma opiniao sobre o JP.
Mas os dois nao estao interes-
sados em jornalismo de verdade.
Lembram-me um amigo de infAn-
cia e juventude em Santar6m, o
Sulanca. Antes dos nossos jogos
de futebol ele fazia "embaixa-
das", prendia a bola na nuca,
mantinha-a na testa em plena cor-
rida e praticava outras faganhas
semelhantes. Na hora do jogo, era
uma nulidade. Ningu6m o queria >







6 lornal Pessoal


para o seu time. Palm6rio e Paulo
sabem fazer muito bem essas fi-
rulas, mas na hora de ir para a
rua, enfrentar os acontecimentos
aldm da quadratura de seus gabi-
netes, mostram-se liliputianos.
Sao jornalistas de vitrine e na-
da mais.
Escreveram eles que o Jornal
Pessoal "sustenta que o lado mais
fraco 6 o estupradbr e nAo a estu-
prada". Em minha defesa vou pe-
dir apenas que os leitores leiam
ou releiam meu artigo no ndmero
92, da 2L quinzena de junho, con-
frontando-o corn o que Sflber &
Gomes escreveram na famosa edi-
qAo de Veja corn o "selvagem"
Payakan na capa. Os mais exi-
gentes podem ler ainda o n2 93
do JP e o inqu6rito da polfcia so-
bre o estupro. Certamente pode-
rao constatar quem est& mentindo.
Opiniao 6 opiniAo. Pode-se
discutf-Ja, mas nem sempre pode-
se muda-la. JA fatos sao fatos.
Podem ser ocultados, mas sempre
estAo A disposigAo da revelagio.
Os dois dizem que a cidade de
Redenqao, palco do aconteci-
mento, tern 150 mil habitantes.
Segundo o censo do IBGE de
1990, tern 44 mil. Nao 6 propria-
mente a mesma coisa. A reporta-
gem garante que a Transamaz6ni-
ca serve apenas de "rali de on-
ga", frase tao verdadeira e origi-
nal quanto batizar a Beldm-Bra-
silia de "caminho de onga" duas
d6cadas atrds. A Transamaz6nica
tern muitos problems, mas as on-
gas nao sao um deles.
Paulo Sflber e Palm6rio D6-
ria, corn a criatividade que os fez
usar sem aspas a. express&o "eco-
bababacas", cunhada por milita-
res para tentar desmoralizar o
entao secretirio do Meio Am-
biente, Jose Lutzenberger, veem
uma concatenagio l6gica e linear
costurando desde o process
contra Payakan e Posey em 1988
ate o I Encontro dos Povos Indf-
genas e a Eco-92. Dizem que o
encontro de Altamira "rendeu
pelo menos o namoro do outro
caiap6, Raoni, corn o roqueiro
Sting", um fato anterior, como
fartamente poderiam mostrar os
arquivos dos jornais se os dois se
dispusessem a checar as informa-
g6es que espalham irresponsa-
velmente em seus textos.
A colegiao do JP est& & dispo-
sigio dos que quiserem verificar
se procede a acusagAo dos dois de
que sou um "ecobabaca". A uma
acusagAo feita corn o mesmo ci-


nismo inculto corn o qual se refe-
rem ao trucidamento da atriz Sha-
ron Tate, na epoca grAvida de um
filho do cineasta Roman Polans-
ki, por membros da "famflia" do
"hippie" Charles Mason, na Cali-
fdrnia, como "dssassinatozinho".
Ou ao registiarem que a jovem
Sflvia estava "milagrosamente"
virgem quando foi estuprada por
Payakan, embora morasse em uma
cidade "povoada por garimpeiros
e guerreiros caiap6s desgarra-
dos", como se a crueldade ca-
racterfstica dos sert6es amazoni-
cos fosse uma condigio inevitAvel
da degradagio das pessoas.
Paulo Sflbei e Palmdrio Ddria
fazem da arte de escrever textos
para massas um brinquedo e dois
e um meio de transmitir recados
amolecados. Merecem a compa-
nhia, na autoria e no consume do
que cada um deles escreve.

0 dedo gigante
De todas as pessoas que se ma-
nifestaram sobre a carta oue o
ex-governador Hdlio Gueiros me
mandou, apenas uma a apoiou. E
um veteran jornalista, que deve
ter seus motivos, embora jamais
revelados e que nio cito justa-
mente porque, de pdblico, nio
confirm o que confidencia a al-
guns interlocutores. A unanimi-
dade das pessoas que se mani-
festaram repudiou a obra de H61io
Gueiros.
Mas apenas uma pequena par-
cela da opiniao pdblica, aquela
corn acesso aos jornais locais,
tomou conhecimento da carta. E
somente os que obtiveram algum
dos cinco mil exemplares do
Bandeira 3, que editei em maio
do ano passado, puderam ler o
inteiro teor do cometimento do
ex-governador. A carta provocou
um grande dano no conceito dele
junto & classes media..Mas faltava
medir a reagao da maioria da po-
pulagio.
Alguns achavam que o povio
apludiria a iniciativa de H6lio
Gueiros como prova de sua cora-
gem, da forma desabrida que usa
para enfrentar desafetos, adversA-
rios ou inimigos. De minha parte,
nunca concordei corn essa visio:
o senso da honra e da dignidade
nao 6 privil6gio dos mais bem in-
formados, ou dos mais ricos -
muito pelo contrario, frequente-
mente.
Como o almirante Mario Her-
mes, sempre achei que aquela
carta se havia transformado na


principal pedra no caminho para
H6lio Gueiros voltar ao poder.
No fntimo, ele tamb6m sabe dis-
so, o que o tem levado a evitar o
tema. Apresentada conveniente-
mente A maioria da sociedade,
atraves do rAdio e da televisao, a
carta mostraria definitivamente ao
mais incredulo a alma (se exis-
tente) de Helio Gueiros, desmas-
carando-o.
Mas o PMDB acabou dando a
esse triste document um uso nao
apenas incompetent e burro, mas
igualmente sujo. Jamais uma pega
como aquela deveria ser lida,
mesmo corn a omissio das expres-
s6es mais chulas (de resto indtil
porque havia ressonincia do som
e o sentido da frase ficava pre-
servado). Era para ser filmada ou
historiada. Exibida no vfdeo,
quem quisesse a leria. 0 audio
apenas situaria o telespectador no
context daquela pega. Apresen-
tada grosseiramente, sem sua
moldura, lida descaracterizada-
mente, a carta atingiu mais o
destinatario do que o remetente,
passando ao largo do entendi-
mento do eleitor e, em conse-
qudncia, de sua sensibilidade.
Quem montou aquela pega do
program eleitoral do PMDB, na
intengio de alvejar o ex-governa-
dor, atingiu efeito contrario. 0
pr6prio juiz Paulo Frota, ao vetar
a reprodug o da carta, partiu do
pressuposto de que ela 6 porno-
grafica, o que de fato 6, mas
omitiu quem 6 o seu autor. Nao 6
o PMDB, evidentemente, mas por
sua esfupidez o partido levou a
responsabilidade, perdendo a
grande oportunidade de colocar o
verdadeiro H61lio Gueiros diante
da opiniio pdblica.
A insensatez, segundo fontes
oficiais, foi dos produtores do
program do PMDB, a CA e o
chefe de reportagem da TV RBA.
Fontes mais seguras, entretanto,
garantem que o pr6prio governa-
dor determinou aquela utilizagio
da carta, embora nio tivesse visto
o produto final. Ele achava que o
juiz eleitoral proibiria a divulga-
gqo e quis antecipar-se,
Nem a candidate da Alianga
Popular, Socorro Gomes, procu-
rou redimir esse crasso erro. No
debate na TV Liberal, ela nio
quis provocar o tema, que na-
quele moment seria adequado,
fazendo-o depois, numa rApida
refer8ncia, em seu program gra-
vado. Um desastre a mais nessa
sucessio de infelicidades.







Journal Pessoal 7


Planta maltratada
A justiga eleitoral nAo 6 aut6-
noma no Brasil. Sua estrutura
humana permanent 6 mfnima, en-
riquecida apenas durante os pe-
rfodos eleitorais. As normas tam-
b6m mudam a cada eleigAo, sazo-
nalidade que permit terrfveis "i-
novag6es", como a Lei Falcio,
que reduziu a propaganda eleito-
ral gratuita a uma estatica exibi-
iao em 3 x 4. As regras sofrem
assim a contingencia dos interes-
ses de moment e os seus execu-
tores agem de ma-vontade, sem se
sentir incorporados organica-
mente ao process eleitoral en-
quanto indipensivel etapa da
consolidaiAo democritica, sempre
transferida para calendas gregas.
Nio surpreende, neste quadro
de improvisalao contfnua, que os
principals responsiveis pelo en-
quadramento legal das eleig6es
imprimam nela a marca da intole-
rAncia. Regidos pela rigidez de
princfpios formais categdricos,
sAo incapazes de absorver o tom
contestdrio, controversy, tenso e
pluralista que deve constituir a
caracterfstica essential da dispute
eleitoral. Querem sempre cercear,
comprimir, censurar e vetar, im-
pondo a essa realidade multifa-
cetada (e mesmo conflituosamente
facetada) a unicidade da ordem.
0 juiz Paulo Frota, o coman-
dante da eleigio em Beldm, cos-
tuma ser apontado como um ma-
gistrado correto, honest e apli-
cado, qualidades autorizadas por
sua biografia. Mas nem com todo
esse acervo favordvel consegue
escapar do registro autorit4rio da
justiga eleitoral. Primeirc quis
definir o melhor marketing para
os candidates, sugerindo algu.is
caminhos e desaconselhando ou-
tros, como se nio estivesse exor-
bitando de suas fung6es. Depois,
com a propaganda nas radios e
TVs, comegou a cortar passagens
consideradas contrarias a lei, ba-
seando-se num pressuposto vago
para praticar um claro atentado b
liberdade de expressAo, ressusci-
tando com sutileza a censura pr6-
via.
A tempo o juiz voltou atris e
decidiu transferir para o direito
de resposta o papel de mediador,
mantendo-se apenas como Arbitro
dos pedidos. Mas ampliou tanto o
entendimento de injdria, caldnia e
difamaiao que acabou afogado
num mar de solicitag6es, sem es-
tabelecer um princfpio de aplica-


0Ao geral e razoavelmente segu-
ro. Sua safda significou uma
volta ao ponto de origem: sus-
pendeu tries dos programs, exer-
cendo o poder de polfcia da Jus-
tiqa.
Como outros jufzes, Frota po-
de alegar que sua a&io tem fun-
damento na letra dos periddicos
regulamentos que, criados para
disciplinary eleig6es, acabam co-
locando-as em camisa-de-forga.
ArgumentarA tamb6m que o hord-
rio 6 do TRE e nio dos candida-
tos ou partidos.
NAo exatamente, pordm. A lei
ranzinza precisa de uma inter-
pretaiao mais arejada. 0 TRE,
por sua vez, nao 6 o dono da
eleiiao, mas apenas o intermedid-
rio institutional entire o eleitor e
o candidate. Quem ve e ouve os
programs 6 que deve ser o drbi-
tro. Se se sentir ofendido, basta
desligar o aparelho de rAdio ou
televisAo. Se resisted a esse gesto
elementary, 6 porque quer fazer
um julgamento. Inadmissfvel,
numa democracia, que esse mo-
mento necessario seja eliminado
por um 6rgao tutelar.
A por excess de tutela que a
plantinha da democracia nunca
deixou de ser tenra no Brasil,
murchando tAo logo as condig6es
ambientais se tornam desfavord-
veis.

Cartas
O Advogado OclAvio Avertano Rocha enviou a
seguinie carta:

"Men caro Ldcio Fldvio:
Li, coin emnodo, o que escreveste sobrec o
DKL.
Hd homens que ultrapassam os limits do
human. DKL foi um deles e talvez o ltimno de-
les.
Apesar das tuas divergencias, no que signifi-
cou para o mundo o Projeto Jari e todas as bata-
Ihas que (surdainente) travel contigo d 6poca, into,
pelo que escreveste, que tua ahna sensivel foi toca-
da pela grandeza do DKL Corno fui pane an6-
nima e modest no grande sonho desse homemn,
sinto-me orgulhoso de te tr defrontado ndo como
inimnigo, mas itcido crttico de wn moment mdgi-
co de nossa Hist6ria".

0 leilor Jorge Moreira Juliao enviou a seguinte
cartn:

"llustrejomalista:
Adquri o livro de sua autoria, "AMAZ6NIA
FRONTEIRA DO CAOS", umn libelo da verdde.
Meus comentaios ndo expressariam o verdadeiro
valor que ele representa para a Amazonia.
Apesar deste sec trabatho incansdvel que
proditz uina expressiva fonte de infonnaq6es,
dcemincias e esclarecimentos, um fato nos causa
indignada admirafdo. t que os goverantes dos es-
tados amazOnicos, preocupados coin politically de
aldeia, ndo se mostram sensiveis e interessados, pe-
lo menos ndo se ouve ndao s sabc que algum deles,


declarasse guen'a a tanta erploragdo, saque, des-
inentelo, erros que causam males iepardveis a
Amazonia, conseqiientemente, tanto as atuais co-
mo as fituras geraq6es.
Tenho medo que, em ftituro, muitas regies
da Amazonia venhamn padecer o que padecem al-
gwnas regi6es da Africa, vitimas de um colonialis-
mio cplorador de riquezas naturais e dirano das
culturas dos povos colonizados. Noueors tinos e
condiq es, processa-se na Amaz6nia, outro mdtodo
de colonialismo, modemo, mas iguamnente devas-
tador.
Todo seu trabalho jonallstico desenvolve-se
tanto como acimna mencionei, mas tambnm como
advenbncia. Tempos virdo, que govemnntes mais
hicidtos hdo de acordar, talvez, tardianente".


Aproximaqao

Companhia Vale do Rio Doce
diz-se disposta a implantar de
vez o projeto Alunorte, ao custo
de 530 milh6es de d6dlares, para a
produgAo de alumina, e promover
a vertilicalizagio da Albr4s, fa-
zendo-a ir al6m da simples pro-
dugio de lingotes de alumfnio,
produto que consome muita ener-
gia e tem baixa remunerarAo no
mercado. A CVRD jA estaria em
entendimentos corn a Alcan para
instalar uma inddstria de lamina-
dos de alumfnio no distrito de
Barcarena, apoiando outras fibri-
cas que transformariam a mat6ria-
prima. Atualmente o porto da
Ponta Grossa serve de embarca-
douro para o lingote ser exporta-
do, principalmente para o JapAo,
deixando beneffcios reduzidos na
regiao.
Por enquanto, os entendi-
mentos nesse sentido vAm sendo
conduzidos com certo sigilo e na
dependencia de um fator que a
Vale quer definir junto ao gover-
no: a question tributiria.
Alega a empresa estar sofren-
do uma forte carga de imposto
com a alfquota do ICMS, afetan-
do sua competitividade no merca-
do, situagio que se estende a mi-
neragio de ferro de Carajds. A
CVRD quer que o governor do Pa-
rd adeque essa alfquota ao fndice
que vem sendo praticado no Espf-
rito Santo e em Minas Gerais,
outras bases operacionais de es-
tatal. A mudanga poderia ser feita
atravds de simples acerto entire os
secretarios de Fazenda dos tres
Estados.
A question deveria ter sido
tratada no dltimo fim-de-semana,
mas a conjuntura polftica nacio-
nal a adiou. Mas a CVRD a con-
sidera de urgencia. Para beneffcio
coletivo, deveria extrapolar dos
gabinetes para alcangar a discus-
sio pdblica.







0 LIBERAL



As vesperas da implosao?


Q uem, nas ditimas tries sema-
nas, telefonasse para 0 Li-
beral atrAs do vice-presi-
dente da empresa, Romulo Maio-
rana Jr., seria informado de que
ele estava viajando. De fato, Ro-
minho passou mais de duas sema-
nas fora de Bel6m, sem motive
declarado, tendo Sao Paulo no
rumo. Mas deixou de ir ao seu
gabinete, no dltimo andar do prd-
dio de 0 Liberal, mesmo quando
jd estava em Bel6m. Nem mesmo
as telefonistas foram informadas
de seu regresso.
A viagem fora decidida subi-
tamente e por um motive explosi-
vo: Rominho havia travado a mais
violent de todas as discusses
ate entao mantidas corn a irma,
Rosingela Maiorana Kzan, dire-
tora administrative do grupo. De-
pois de apurar a existencia de um
rombo na empresa, na qual era
apontado como envolvido o ge-
rente de circulagao do journal,
Romulo Jr. descobrira que a irma
e Ariovaldo Santos haviam for-
mado uma empresa em Macap4
justamente no moment em que 0
Liberal estA instalando ali uma
sucursal, pass inicial para rodar
um journal amapaense. A empresa
de RosAngela e Ariovaldo iria
pleitear colaboraqAo financeira da
Sudam e incentives da Zona
Franca de Macapf para uma gra-
fica corn ponto alto na impressao
de formulArios contfnuos. 0 gru-
po Liberal ficava de fora desse
empreendimento.
Da discussao acalorada Romi-
nho saiu corn a disposigao de
deixar a empresa, mas a fuga para
SAo Paulo teria o sentido de pres-
sionar a mAe para apoid-lo contra
Rosangela e duas das irmas que
ficaram do lado dela. Dea Maio-
rana tern sido o ponto de equilf-
brio nas conflituosas relag6es
entire os sete irmAos (cinco mu-
lheres e dois homess. Eles par-
tilham metade dos bens deixados
pelo pai, Romulo Maiorana. A
outra metade 6 da vidva.

Neg6cios paralelos
A divisio seria equilibrada se
cada um dos Maiorana nao usasse
os vefculos de comunicacAo do
grupo para neg6cios individuals.
Gragas ao esquema de permuta
(andncios gratuitos no journal, nas
radios e na televisao), Rominho


ampliou seu patrim6nio imobilia-
rio, trocando apartamentos por
andincios. RosAngela, Rose e An-
gela tornaram-se as maiores em-
presdrias da noite em virtude da
maciga divulgagao de suas pro-
moc6es, que nenhum concorrente
poderia imitar sob o risco de
quebrar. Ronaldo Maiorana for-
mou a Budget e ficou com a ca-
deia de lojas de disco Tok Aqui
da mesma maneira.
Quando dao retorno lfquido, o
que nem sempre acontece, esses
negdcios nAo significam receita
para as empresas do grupo porque
os andncios e mensagens sao vei-
culados gratuitamente. Algumas
vezes sequer sao faturados. 0 di-
nheiro cai nos bolsos dos donos,
permitindo declarar, A maneira do
general Medici, que enquanto 0
Liberal comega a ir mal, os Maio-
rana vao muito bem, obrigado.
Em algumas edig6es, at6 me-
tade dos andincios que aparecem
em 0 Liberal sao frios. Na nobre
pagina tries (a mais valorizada
depois da capa) ha um andncio
cativo do restaurant Cristal, de
propriedade de Rominho e Ma-
noel Mauds. Tres outros andncios
chamam o pdblico para promo-
g6es de Rose no Ole-Old (onde
ela fica corn 40% da venda de in-
gressos, receita lfquida) e no
Grog. A locadora de carros Bud-
get e as lojas de discos de Ronal-
do tambem se fazem present. Ha
ainda permutas nao diretamente
vinculadas aos neg6cios paralelos
dos irmaos, como um grande
andncio da Veritate, que faz pes-
quisas de opiniao.

Moment delicado

Esses sangramentos se amid-
dam justamente no moment em
que o grupo precisa faturar mais
para cobrir despesas crescentes.
0 investimento na nova sede
(cuja inaugurarao foi adiada mais
uma vez, agora para dezembro)
nao ficou abaixo de 10 milh6es
de d6dlares, inclufda a modern
rotativa Rolland, que acarretou
financiamento em d6lar (ao redor
de US$ 5 milh6es). Alguns em-
preiteiros se queixam de atraso de
pagamento e prev8em que a obra
nao ficard pronta neste ano. Os
cart6rios de protest recebem um
volume regular de tftulos nao
quitados da empresa, que conta


com a extrema boa vontade e pa-
ciencia do cartorArio Salvio de
Miranda Correa, por onde passa a
maioria dos protests.
A instabilidade econ6mico-fi-
nanceira e a tensdo administrative
sao complementadas por uma
acirrada dispute internal. 0 jorna-
lista ClAudio Sa Leal, um fact6-
tum na empresa desde a morte de
Romulo Maiorana, resisted a uma
reform a princfpio total, agora
grdfica que Walmir Botelho
prepare, a pedido de Rominho,
para ser posta em prdtica quando
o journal comegar a ser impresso
na nova oficina. Com a resisten-
cia de Leal, artifice da posigao
polftica extremada que 0 Liberal
assumiu na eleiqao de 1990,
Walmir 6 redator-chefe de 0 Li-
beral apenas no expediente do
journal. Leal tern o apoio de Ro-
singela e, naturalmente, torce
para que ela venga a dispute com
o irmrio. A unidade da empresa e
sua forga transformam-se, cada
vez mais, em produto para con-
sumo externo, amplamente ven-
davel numa 6poca de falta de
concorrencia capaz, como a atual.



Este journal jd estava comple-
tamente fechado quando foi di-
vulgado o resultado da mais re-
cente pesquisa eleitoral do Gal-
lup, mostrando que H6lio Gueiros
avangou, Socorro Gomes recuou e
Cipriano Sabino dobrou na prefe-
rencia do eleitor entrevistado. 0
ex-governador aumentou as pos-
sibilidades de decidir ja no pri-
meiro turno, mas o quadro geral
ainda cabe na andlise feita pelo
JP. 0 sofrfvel desempenho da
candidate da Alianqa Popular fez
corn que ela perdesse votos para
os concorrentes em posigao infe-
rior, situaqao que serd muito diff-
cil de reverter se sua campanha
persistir sem uma marca forte,
sem direqao, restringindo-se a
atacar os adversArios.


Joral Pessoal
Editor responsavel: Lucio Flavio Pinto
llustraqao: Luti Pinto
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Fone: 223-1929
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