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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00072

Full Text





-Jornal Pessoal
ED ITOR RESPONSAVEL: LOCIO FLAVIO PINTO


Ano V N2 87


* 1 Quinzena de Abril de 1992


* Cr$ 1.000,00


ELEIQAO


A bomba do Planalto


A said de Jarbas Passarinho do ministerio de Collor
pode mudar a correlagao de forgas political para
a eleigao em Belem. Mas ainda e cedo para medir toda
a sua intensidade e os seus desdobramentos.


U m erro infantil custou a
Jarbas Passarinho o minis-
t6rio da Justiqa e voltou
a tumultuar a sucessio eleitoral
em Beldm, que o tinha como o ei-
xo principal de uma ampla arti-
culagdo para viabilizar a candi-
datura do sobrinho, o deputado
estadual Ronaldo Passarinho. 0
erro, cometido por um home de
72 anos, dono da maior experien-
cia em atividade na polftica pa-
raense, chega a ser inacreditAvel:
na melhor das hip6teses, que ele
pr6prio diz ser a verdadeira, Pas-


sarinho pediu ao ministry do
Ex6rcito, general Carlos Tinoco,
para mandar um portador conver-
sar corn um juiz de Foz do Igua-
qu, no Parana, sobre acusaaio de
corrupgao envolvendo um delega-
do da Polfcia Federal local e,
possivelmente, o director geral do
departamento, Romeu Tuma. Na
pior das hip6teses, Passarinho
conseguiu que o Centro de Intor-
mag6es do Exercito fizesse uma
investigagao paralela para saber
se Tuma teria mesmo participado
do contrabando de cafe corn o


delegado, reeditando um proce-
dimento que a redemocratizagqo
do pafs havia prometido abolir.
Qualquer que seja a versdo
correta, ela desabona a inteligen-
cia e a experiencia de Passarinho.
Ele poderia transformer em por-
tador alguem de sua estrita con-
fianga, se possfvel da estrutura
do minist6rio da Justiga, ou entdo
- o que seria mais correto cha-
maria o eterno deiegado Tuma,
final seu subordinado, para noti-
fica-lo da dendncia (que era an6-
nima) e, se fosse o caso, afastA-lo






2 Jornal Pessoal


da funcgo atd a elucidagqo da
hist6ria. Se nao agiu assim, tal-
vez Passarinho esperasse conse-
guir provas da participagio de
Tuma para surpreend6-lo e assim
conseguir seu afastamento da di-
reqgo da Polfcia Federal. E se o
rocambolesco epis6dio teve tanta
repercussao ao ser divulgado pelo
Journal do Brasil do dia 29 de
margo, sete meses depois da ocor-
rencia, 6 porque a intenqio real
toi logo percebida por trAs das
explicag6es derivatives que foram
apresentadas.
Ficou tdo claro que, ao abrir a
reuniio de terqa-feira com a
"turma da casa" no Palacio do
Planalto, o president Fernando
Collor manifesto sua irritacgo
corn as trapalhadas que vinham
comprometendo de vez seu go-
verno, a dltima das quais embo-
ra nao a mais grave da respon-
sabilidade do ministry da Justica.
A cobranga do president teria
levado a uma exoneracio solitd-
ria, a de Passarinho, se a avalan-
che de dendncias de corrupcaio
e irregularidades que vemn trans-
bordando diariamente pela im-
prensa nao desse o pretexto para
uma anunciada reform geral, na
verdade um parto montanhoso que
gerou o afastamento dos persona-
gens mais pol6micos ou que esta-
vam em situacio diffcil.
A inabilidade pueril poderia
ter ocasionado uma demissdo
mais vexaminosa para Passarinho
se Collor nio tivesse providen-
ciado imediatamente uma carta,
redigida de "pr6prio punho", pa-
ra garantir a safda honrosa do au-
xiliar e a manutengio de um alia-
do no cada vez mais estratdgico
Senado, para onde retorna mais
uma vez o ex-ministro, armado de
sua inteligencia e de sua ret6rica
para tentar superar a batalha se-
guinte, que vai interessar direta-
mente Z eleigio de outubro: ga-
rantir os recursos federais neces-
sarios para permitir ao prefeito de
Beldm realizar obras durante o
verdo eleitoral deste ano.

Transigio e incognita

A promessa de 100 bilh6es de
cruzeiros, oriundos dos cofres fe-
derais para serem aplicados em
Bel6m at a eleicgo, foi o argu-
mento final que levou o prefeito
Augusto Resende a aderir A can-
didatura do deputado Ronaldo
Passarinho e atracar o PTB A le-
genda do PDS, invertendo os


terms da coligafio derrotada na
eleiqio de 1990. Tres dias antes
de ver-se obrigado a deixar o mi-
nistdrio da Justiqa, Passarinho
cc-ntralizou a assinatura de con-
v6nios que resultariam em Cr$ 44
bilh6es para a PMB, dos quais
seis bilh6es jA estavam disponf-
veis naquele moment, 27 bilh6es
seriam logo empenhados e 11 bi-
lh6es ficariam para depois, utili-
zAveis na conclusdo da recupera-
cido do Palacio Antonio Lemos
(antiga sede municipal) e em
obras de educagqo e sadde. De-
pois viria dinheiro para asfaltar
boa parte da cidade.
A generosa carta de Collor
seria a garantia de que os com-
promissos de Passarinho seriam
respeitados, mas principalmente
diante da ciclotimia de Collor -
essa passa a ser uma incognita. 0
PFL foi o dnico partido a perma-
necer no governor e o deputado
federal Alacid Nunes tratava de
destacar esse detalhe, anunciando
que agora o poder de Passarinho
se exauriu e todo o esquema
montado em torno dele entrarA em
colapso.
Esse esquema 6 tio poderoso
que poderia retirar o nome do de-
putado Ronaldo Passarinho das
posiq6es mais baixas nas pesqui-
sas de opiniAo para a condiqio de
real postulante A PMB. Ao lado
dele estava o apoio federal, de
cuja vanguard participavam os
presidents do Banco do Brasil,
Lafayette Coutinho, e da Caixa
Econ6mica Federal, Alvaro Men-
donga. 0 governador Jader Bar-
balho garantia a aus6ncia do
PMDB da dispute majoritAria e a
atuacqo da mAquina estadual,
mantendo-se convenientemente A
margem do cenirio para trabalhar
ativamente nos bastidores sem
sua imagem, desgastada princi-
palmente junto & classes media. 0
prefeito Augusto Resende anteci-
pou-se A convengqo do PTB, onde
ha resistEncias ao nome de Ro-
naldo e ameagas reais de defec-
,6es, para criar um fato consu-
mado, com a aprovaqio do ex-
prefeito Sahid Xerfan, ainda o
maior apelo eleitoral petebista na
capital. 0 grupo Liberal tamb6m
aderiu, abrindo espaqo para uma
retaguarda empresarial onde pon-
tilica Lutfala Bitar, dono da Es-
tacon, a maior construtora regio-
nal.
Essa ampla frente resistiri A
queda de Passarinho? E impossf-
vel apre'sentar uma resposta ime-


diata porque o exercfcio do poder
A uma variavel fundamental sobre
a convicqfo dos polfticos. Talvez
por reconhecer esssa condicio-
nante, Ronaldo Passarinho fez
questio de destacar sua condicgo
de prd-candidato e dar uma sema-
na de tr6gua para avaliaq6es,
suspendendo duas entrevistas que
estavam programadas para a TV
Liberal e a TV Cultura. At6 1.
talvez seja possfvel definir se
Jarbas Passarinho teri, no Sena-
do, uma forga ao menos pr6xima
da que desfrutava no minist6rio
Collor, sustentando a estabilidade
do esquema pr6-Ronaldo.


0 day-after

Mesmo que o tio tenha cafdo
em desgraga, a candidatura do
sobrinho pode nao ter o mesmo
destino, principalmente se o ex-
ministro se dispuser efetivamente
a vir fazer campanha em Bel6m, o
que nio fez nem na dispute para
o Senado. 0 primeiro telefonema
que o president da Assembl6ia
Legislative recebeu no dia da
demissio do tio foi de Sahid Xer-
ian. 0 ex-prefeito fez uma decla-
racgo de it na continuidade do
trabalho para eleger Ronaldo e
nao deve ter sido encenaqio: Xer-
fan transformou quase em questao
de honra pessoal nio permitir que
Hdlio Gueiros se torne prefeito
de Beldm, o que o levou a rea-
proximar-se de Jader Barbalho
(os dois jA tiveram algumas con-
versas por telefone e o encontro
pessoal parece ser question de
tempo). 0 ex-prefeito se queixa
da deslealdade de correligiond-
rios do ex-governador, incluindo
o filho, Paulo Gueiros, que o for-
garam a assumir sozinho as pesa-
das despesas da campanha eleito-
ral de 1990.
Tamb6m nao haveria mais
outra alternative para o prefeito
Augusto Resende, que interrom-
peu as conversac6es que vinha
mantendo corn todos os grupos
participants da corrida eleitoral
e, sem notificA-los diretamente,
aderiu b candidatura de Ronaldo.
Apds a defecqio de Nelson Cha-
ves, a outra opgio dentro do PTB
6 o deputado Zenaldo Coutinho,
no atual esquema companheiro de
chapa do president da Assem-
bldia Legislativa. Na segunda-fei-
ra o ex-governador Hdlio Gueiros
ainda tentou seduzir os dirigentes
do PTB para aderirem ao seu no-






Jornal Pessoal 3


me, mas nao conseguiu resulta-
dos. Para Resende s6 haveria uma
opcio extrema: apoiar o senador
Almir Gabriel, do PSDB, se ele
vier a decidir-se pela dispute.
0 governador Jader Barbalho
tamb6m teria, no PDC, sigla de
aluguel que o irmrio, o deputado
Joercio Barbalho, assumiu, deslo-
cando o ex-senador Jodo Mene-
zes, uma possibilidade aberta pa-
ra escapar ao compromisso, mas
os jarbistas se dizem definitiva-
mente convencidos da sinceridade
do apoio do governador. Assim, a
candidatura de Ronaldo Passari-.
nho incorporou complicadores
corn a queda do ministry, mas
continuaria plenamente viAvel.
E diffcil nio concluir, entre-
tanto, que o mais favorecido pe-
los d1timos epis6dios foi H61io
Gueiros. Ainda que fragil, foi
aberta uma linha de comunicaqo
com o governor federal atrav6s do
PFL. Se Alacid Nunes conseguir
fazer algumas nomeag6es nessa
area, sera sinal de que o poder
anterior de Passarinho nao 6 mais
monolftico e podera atd desapare-
cer. Esse seria o escudo que falta
ao ex-governador para conseguir
mais do que os minguados tr6s
minutes que o PFL pode lhe ofe-
recer na propaganda eleitoral
gratuita e abrir uma cunha no es-
paqo que 0 Liberal Ihe reservou,
uma horta comparada ao latifdn-
dio propagandfstico que tinha
quando era governador.


A imagem do passado

Essa campanha sistematica
que o grupo Liberal fez ainda 6 a
responsAvel pela image de se-
riedade que ficou na mem6ria da
maior parte da populaqio em re-
lagio ao governor passado. Em to-
das as pesquisas realizadas at6
agora, H61io Gueiros 6 o primeiro
nas prefer8ncias, um fndice que
deverd cair corn o desgaste da
campanha (principalmente quando
o outro lado do seu governor e de
sua personalidade puder ser mos-
trado ao grande pdblico), mas 0 o
suficiente para mant6-lo como fa-
vorito na abertura da temporada
de caga ao voto. A mdquina pr6-
Ropaldo pode mudar essa corre-
lagqo de forgas, mas, natural-
mente, o nome mais pr6ximo des-
sa condig;o, ao menos atualmen-
te, 6 o do senador Almir Gabriel.
Uma pesquisa encomendada pela
diregqo national do PSDB ao


lbope, hd um mes, revelou que
Almir teria 20,2% das opq6es
contra 20,8% de H61io Gueiros,
resultado mais do que animador
diante das duas dltimas derrotas
do tucano, que deixou a prefeitu-
ra de Bel6m hA seis anos e nao
teve mais funq~o executive desde
entdo, permanecendo muito mais
tempo em Brasilia.


A esperanga dos tucanos

0 senador tucano continue di-
zendo que nao 6 candidate, mas,
na semana passada, aceitou amiu-
dar suas viagens a Bel6m e conti-
nuar aberto ao tema, sem fechar
qualquer acesso. Contra sua nova
participaqao eleitoral estio sua
esposa, o mandate de senador,
seu substitute na sequancia (o tio
do governador, Lucival Barbalho,
atualmente no Tribunal de Contas
do Estado), a transtormagao do
Congress em 6rgdo revisor da
Constituicao e a inexistencia de
uma estrutura de apoio remota-
mente compatfvel com as maqui-
nas do governor e da prefeitura
reunidas. Nenhum desses fatores,
no entanto, pesa mais na analise
dos dirigentes do PSDB do que o
risco de ter Hdlio Gueiros na pre-
feitura de Beldm e a perspective
de estarem num partido figurati-
vo, sern condic6es de disputar o
poder para valer. Nao descartam,
assim, a possibilidade de Almir
acabar aceitando ser candidate.
Se ele sair, nao uma frente
ampla, como sonham alguns
membros da esquerda, mas uma
meia frente se reunirA para apoli-
lo, composta pela ala majoritAria
do PT (outra parcela nao pretend
trabalhar pela eleicao majoritAria,
cuidando apenas dos vereadores),
o PPS e os partidos comunistas,
dos quais o PC do B se interessa-
ria em ceder a deputada federal
Socorro Gomes para companheira
de chapa. Sem Almir, a esquerda
se dividirA porque o outro nome
disponfvel, o do ex-deputado
Ademir Andrade, fraciona muito
mais do que une e talvez este
acabe sendo o resultado concrete
de seu esforgo para impor-se co-
mo candidate.
Nesse quadro, o abalo sfsmic'
que a precipitagqo do ex-ministro
Jarbas Passarinho desencadeou
ainda 6 demasiadamente recent
para que se possa medir a com-
pleta intensidade de sua acgo na
corrida & prefeitura de Beldm.


As terras da Jari
A parentemente o governor fede-
ral aplicou a primeira punicgo no
Projeto Jari desde que patrocinou
a transfer6ncia do control acio-
nArio da empresa das mrios do
milionario norte-americano Da-
niel Ludwig para um consdrcio de
22 empresas nacionais, liderado
por Augusto Trajano de Azevedo
Antunes. 0 Ibama (Instituto Bra-
sileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais RenovAveis)
requereu e o president Fernando
Collor de Mello baixou decreto,
no m8s passado, desapropriando
uma area de 400 mil hectares tida
como de dominio da Jari no Ama-
pA. Assim, o Ibama se consider
em condig6es de fazer a regulari-
zaqao fundiAria da reserve extra-
tivista do Cajari, criada ainda no
governor Sarney. 0 ato resultaria
na reduqgo, em 25%, da presumi-
da propriedade da Jari, que rei-
vindica 1,6 milhaio de hectares
(quando chegou & Area, em 1967,
Ludwig pensava ser dono de 3,6
milh6es de hectares).
A puniqio, entretanto, 6 s6
aparente. Como ocorre em reladio
a um quinto do total da area de
perensio da Jari, a dominialidade
desses 400 mil hectares nao ape-
nas 6 obscura, como francamente
questionavel. A questao foi sus-
citada no infcio da ddcada de 80
pelo jA extinto Gebam (Grupo
Executive de Terras do Baixo-
Amazonas), do contra-almirante
Roberto da Gama e Silva, e leva-
da a um litfgio judicial durante o
process de criaaio da reserve do
Cajari, uma das quatro que surgi-
ram na administracgo passada.
Antes da definicqo sobre a exis-
tencia ou nao de efetivo domfnio
particular, o governor, ao fazer a
desapropriagqo, parte de uma pre-
sungio fragil como se ela fosse
um fato, reconhecendo em favor
da Jari uma titulariedade de p6
quebrado.
E bom nio esquecer que o
process de definicqo do domfnio
da Jari sobre terras no Para e
Amapa, iniciado em 1976, "'per-
deu-se" por escaninhos burocra-
ticos do Conselho de Seguranga
Nacional, em Brasilia. Ao pedir a
legitimag o de seus velhos tftulos
de posse, a empresa pretendia ver
enfim regularizada sua proprieda-
de de 1,6 milhlo de hectares. 0
Iterpa (Instituto de Terras do Pa-
rd), que deveria definir a question,
s6 estava disposto a reconhecer
menos de 400 mil hectares.







4 Jornal Pessoal


SUDAM


0 vencedor esta oculto


Apauta de reuni6es do Con-
selho Deliberativo da Su-
dam costuma ser uma fonte
de surpresas e de escindalos para
leitores atentos, exigentes e bem
informados. Qualquer escolha
aleat6ria produziri efeitos de im-
pacto. A dltima "pdrola" foi o
projeto da Frigopesca Captura,
Inddstria e Com6rcio de Pesca-
dos. 0 journal Folha de S. Paulo,
o deputado federal, do PDT, Gio-
vanni Queiroz, e vdrias outras
pessoas ficaram chocadas ao veri-
ficarem que a empresa foi cons-
titufda um dia antes de ter seu
projeto aprovado pelo Condel, no
dia 15 de janeiro. Os ndmeros
utilizados pela equipe t6cnica da
Sudam para elaborar o parecer de
aprovagio do projeto foram co-
letados mais de um mes antes de
a empresa ser constitufda, a 2 de
dezembro do ano passado.
Os t6cnicos envolvidos no
trabalho e a empresa haverio de
dizer que a discrepincia nao
constitui propriamente uma irre-
gularidade, por nao haver nenhum
dispositivo legal proibindo-a, e
que o estudo de viabilidade do
empreendimento dispensa a cons-
tituigAo jurfdica da empresa que
vai implanti-lo. Ainda que o ar-
gumento nao fosse sofismdtico,
esse tipo de procedimento revela
o quanto sdo simplesmente for-
mais os estudos de mercado e os
exercfcios contabeis que dao res-
paldo aos projetos encaminhados
A Sudam, nio poucos deles elabo-
rados por tecnicos que, depois,
cruzam o balcao para assumir a
posirio de analistas das solicita-
g6es que prepararam.

Beneficiario oculto

Os denunciantes desses pon-
tos crfticos, inclusive o deputado
do PDT do Pard, que formalizou
uma aiAo na Justiga Federal, em
Bel6m, ficaram nos pontos talvez
mais gritantes, mas nao os mais
graves. 0 projeto de capture, be-
neficiamento e comercializacAo
de pescado da Frigopesca parece-
se mais a um artiffcio industrial
criado para possibilitar enormes
lucros a um agent oculto na ora-
gqo: o estaleiro que vai fabricar


os barcos a serem utilizados pela
empresa.
Em valores projetados pela
equipe tdcnica da Sudam para de-
zembro do ano passado (nao rigo-
rosamente reais, portanto), o
projeto da Frigopesca envolve in-
vestimento de 113 bilh6es de cru-
zeiros. A Sudam se comprometeu
a entrar com metade, 56,5 bi-
lh6es, dos quais quase 40 bilh6es
oriundos do artigo 52 (aqueles
que realmente a Sudam destina
aos projetos particulares) e menos
de 17 bilh6es do artigo 92 (aquele
dinheiro que o investidor precisa
disputar no mercado, sem favore-
cimento ao menos explfcito -
do 6rgdo official .
Atualizado para abril deste
ano, o investimento global passa
a ser de 282 bilh6es de cruzeiros.
A parte sob a responsabilidade da
Sudam fica em Cr$ 141 bilh6es
(ou 76,8 milh6es de d6lares), a
serem liberados em apenas tres
anos. Desse total, 97 bilh6es de
cruzeiros de Cr$ 194 bilh6es
(incluindo recursos pr6prios e de
incentives fiscais) destinados ao
ftem embarcaq6es na estrutura de
custos (atualizacgo para abril dos
Cr$ 85 bilh6es de dezembro do
ano passado) serao repassados
ao estaleiro que for construir os
10 barcos de pesca da empresa.
Ndmeros costumam prejudicar
o raciocfnio l6gico, mas estes
querem dizer uma coisa bem cla-
ra: de imensos 282 bilh6es de in-
vestimento necessdril para que,
em 1994, a Frigopesca comece a
funcionar no Furo do Maguari,
municfpio de Belem, Cr$ 194 bi-
lh6es serao empregados na for-
magdo de uma frota pesqueira
corn 10 barcos apenas. A Sudam
entrard com metade desse dinhei-
ro (sua participacgo em todo o
projeto, enquadrado generosa-
mente na prioridade mdxima).
Cada um desses barcos custard
Cr$ 19,4 bilh6es, caindo nas
costas da Sudam Cr$ 9,7 bilh6es.
Convertido o custo em d6dlares,
aceitando-se o orgamento forne-
cido pelo pr6prio projeto, cada
barco sairia por nada menos do
que 11 milh6es de d6dlares. Uma
fonte do setor assegura que qual-
quer estaleiro national, de mddio


ou grande porte, estA em condi-
q6es de oferecer a mesma embar-
cagdo por 10 vezes menos. Nesse
caso, o orqamento teria sido su-
per-dimensionado para favorecer
o estaleiro, no final das contas o
maior beneficiado corn o projeto
de pesca.
0 estaleiro que irA receber es-
sa preciosa encomenda, segundo
tontes do setor e da Sudam, serd
a Ebal (Estaleiros da Bacia Ama-
z6nica), da qual o director t6cnico
e um dos filhos do ex-governador
H1lio Gueiros. A Ebal se tornou
subitamente a maior empresa pri-
vada de construgAo naval da re-
giao (e a s6tima do pafs) graqas A
abundante liberagqo de incentives
fiscais patrocinada pelo m6dico
Henry Kayath quando superinten-
dente da Sudam. 0 amplo favore-
cimento A empresa, contrastante
com o tratamento que at6 entdo
ela vinha tendo da Sudam, logo
suscitou a interpretacgo de que,
por trAs de sua composicgo acio-
nAria official, havia um "acordo
de gaveta" que daria participacqo
na empresa aos Gueiros e Kayath,
A semelhanga do que teria sido
feito na Refrigerantes Garoto
(corn os Kayath) e na TV RBA
(com os Barbalho, mas fora da
Sudam). Segundo a mesma fonte,
o orgamento da Frigopesca foi
preparado pela Ebal. A suspeita
de ligacgo adv6m ainda do fato
de que a nova empresa se esta-
belecerA em terreno adjacent ao
da Ebal, na estrada de Maraca-
cuera, corn 12 hectares (avaliado,
para efeito de incorporagqo ao
capital, em dois bilh6es de cru-
zeiros).

Biombo de negocios

A impressio de que a Frigo-
pesca 6 realmente uma empresa
de papel, servindo de biombo a
negdcios paralelos ou derivados,
e reforgada por sua estrutura
acionAria. 0 principal acionista 6
Bension Strengerowski. Na nova
composicgo de acionistas que se-
ra formada a partir da aprovacqo
do projeto (sanando algumas das
lacunas denunciadas pela Folha e
pelo deputado do PDT), Strenge-
rovski terA 1% enquanto pessoa







Jornal Pessoal5


ffsica e mais 45% da Buriti Parti-
cipag6es e Empreendimentos,
controladora de 85% do capital
da Frigopesca, somando 46% pe-
las duas vias. No entanto, ele 6
apenas conselheiro da Frigopes-
ca. Gilson Schilis, detentor de
1% do capital da Frigopesca e de
5% das aq6es da Buriti (6% pelos
dois caminhos) tera poderes totais
para gerenciar, dirigir e tomar
decis6es pela empresa isolada-
mente, sem consultar outros acio-
nistas. Trata-se de situaqdo ab-
solutamente inusual para uma
empresa de 282 bilh6es de cruzei-
ros.

A parte todos esses fatos


questionAveis ou francamente
suspeitos, 6 discutfvel a priorida-
de dada ao projeto. Com investi-
mento de Cr$ 282 bilh6es, a Fri-
gopesca ird faturar Cr$ 23 bi-
lh6es anuais corn a capture de 7,2
.mil toneladas de pescado. Dire-
tamente, ela ird gerar apenas 145
empregos. S6 a Sudam terA que
imobilizar um bilhdo de cruzeiros
para criar cada um desses empre-
gos, valor muito acima do tolerA-
vel, principalmente para uma re-
gido carente como a Amaz6nia. A
relagqo aponta para um desperdf-
cio de dinheiro pdblico e baixo
retorno social. A folha de pessoal
diretamente empregado soma Cr$
196 milh6es, enquanto Cr$ 2,2


bilh6es sdo reservados para a re-
muneracao dos 42 tripulantes das
10 embarcag6es, que trabalhardo
como aut6nomos.

Uma colaboragqo financeira
corn esse perfil serve de atestado
de 6bito para a polftica de incen-
tivos fiscais da Sudam. Um pare-
cer tao evidentemente talho so te-
na recebido a aprovagao unanime
e silenciosa dos conselheiros da
Sudam porque a Frigopesca teve
um padrinho poderoso A epoca da
aprovagqo: o secretArio do desen-
volvimento regional, Egberto
Baptista, o mais constant e au-
dacioso personagem dos bastido-
res do poder na region.


Nada de novo no "front"


D urante mais de um ano a
Sudam esteve fechada para
balanqo, enquanto o gover-
no federal preparava as novas re-
gras para a aplicagao dos incenti-
vos fiscais na regido. Os tdcnicos
procuravam mecanismos que fos-
sem capazes de evitar os desvios
e irregularidades (ou mesmo as
fraudes abertas) apontados no
sistema de colaboraq~o financeira
prestada pela Sudam a projetos
particulares incentivados. Poucos
meses depois de a Sudam reabrir
sua banca, novas dendncias mos-
tram que as correg6es formuladas
no papel nao foram suficientes ou
eficazes na prAtica: os incentives
fiscais continual a ser uma fonte
de vazamento do dinheiro pdblico
para bolsos privados.
A questAo suscitada recente-
mente pelo journal Folha de S.
Paulo, denunciando a destinagqo
de muito dinheiro para uma em-
presa de pesca que existia so-
mente no papel, 6 apenas a ponta
do "iceberg". E se a situagqo
pode de fato ser considerada imo-
ral, nao 6 propriamente uma ile-
galidade, muito menos novidade.
Os anais da Sudam como os da
Sudene no Nordeste e os da Su-
frama no Amazonas registram
indmeros casos semelhantes.
0 prdprio parecer de analise
documento preparado pelos fun-
ciondrios da Sudam a partir do
projeto complete apresentado
pela empresa) que os conselheiros
aprovam costuma aceitar a condi-
cionante, segundo a qual o em-
presArio sd- abre seu bolso depois
que o governor Ihe entrega o di-
nheiro pdblico. Na "jungle" os


empresarios costumam esquecer
que o risco constitui a ess6ncia -
e a forga do capitalism. S6
estdo dispostos a entrar no mer-
cado corn cautelas e muletas. Es-
se assistencialismo paternalista
(mas depravado) levou a polftica
de incentives fiscais ao colapso,
que a administraqio Collor pre-
tendia superar estabelecendo no-
vas regras para um jogo ja entdo
viciado.
Entre metade e dois terros do
capital aplicado pelos empresa-
rios nos novos investimentos pro-
vinha (como continue a originar-
se) do tesouro national. Nao se
tratava de crddito, a forma regu-
lar de transagqo nesses casos em
sistemas econdmicos menos cao-
ticamente hfbridos que o brasilei-
ro, mas de colaboracqo financei-
ra, como se as duas parties se as-
sociassem. 0 governor, cedente do
dinheiro, recebia a promessa de
pagamento de dividends, quando
o projeto beneficiado desse lucro,
o que demorava muito a aconte-
cer, se chegava mesmo a aconte-
cer o que vinha sendo insignifi-
cante excecio. Pelo menos dois
bilh6es de ddlares foram desper-
dicados por causa desse meca-
nismo frouxo, que facilitava a
fraude e nao tornava compuls6ria
a devoluqao do dinheiro recebido,
transformado em "fundo perdi-
do".
A principal caracterfstica do
catalogo de regras estabelecidas
no ano passado pelo governor
Collor foi dar ao incentive fiscal
certas caracterfsticas de uma ope-
ragdo creditfcia conventional,
obrigando o empresArio a devol-


ver os recursos financeiros rece-
bidos para, assim, realimentar o
fundo de incentives fiscais, ao
inv6s de deixa-lo A mfngua, na
depend8ncia do ingresso de mais
dinheiro pdblico, como vinha
ocorrendo. Para dar um pouco
mais de formalidade moral e legal
A rela(io, ao inv6s de a6oes no-
minativas, sujeitas a uma bolsa de
valores fictfcia que permitia ao
emitente recuperar o papel por
um preqo muito abaixo do valor
nominal ("de face"), este mesmo
jd inferior ao valor real de mer-
cado, a Sudam passou a receber
debentures, conversfveis ou nao
em aq6es, mas muito mais fortes
no compromisso de resgate.
Os fatos apontados pela Folha
mostram que a maioria dos em-
presarios continue nao dando
qualquer importAncia a esses pa-
p6is, dispondo-se a praticar o
mesmo jogo de protelagqo e ca-
lote do sistema anterior. A Su-
dam, por sua vez, nao adotou o
rigor que se esperava para a sele-
gqo e aprovagqo de novos proje-
tos, lotando sua banca indepen-
dentemente do equilfbrio orga-
mentArio e da possibilidade de
reposigdo do dinheiro do fundo,
atendendo algumas vontades -
superiores, mas nada elevadas. 0
desfecho previsfvel dessa dupla
combinacgo de fatores nao deverA
ser surpresa, quando ocorrer: se
se concretizar, quem pagarA a
conta e quem estarA disposto a
ressuscitar uma polftica aparen-
temente condenada, por sua ori-
gem e mecanica, a renascer sem-
pre morta? A resposta 6 tdo 6bvia
que dispensa enuncid-la.


Jornal Pessoal






6 Jornal Pessoal


GUERRILHA



A versao dos vencedores


tenente-coronel Sebastiho
Rodrigues de Moura, ex-
deputado federal pelo PDS
do Pard, resolve fazer uma "a-
vant-premier" do livro que hd
tempos vem anunciando para re-
constituir a hist6ria da guerrilha
do Araguaia pela 6tica dos que
combateram os militants do Par-
tido Comunista do Brasil naquela
regiao entire o Pard e Goids (hoje
Estado do Tocantins). Sem assu-
mir a origem, evidentemente, o
famoso "major Curid", que coor-
denou o garimpo de Serra Pelada
em nome do SNI (Servico Nacio-
nal de Informag6es), do qual era
agent (mas usando as costas lar-
gas do Conselho de Seguranqa
Nacional), "vazou" alguns do-
cumentos oficiais para os rep6rte-
res Ronaldo Brasiliense e Eteval-
do Dias, do Jornal do Brasil, que
iniciaram uma sdrie de reporta-
gens a respeito no dia 22 do mes
passado.
Presos & 6tica, nenhum dos
dois jornalistas revelou sua fonte,
mas nio 6 precise fazer maior es-
forgo para perceber o rabo deixa-
do do lado de fora. Alguns anos
atrds "Curi6" mandou um emis-
sdrio, um sargento da reserve da
Aerondutica, me fazer uma pro-
posta: eu teria acesso aos docu-
mentos confidenciais e sigilosos
do Ex6rcito sobre o Araguaia em
troca de ser o "ghost-writer" do
livro do entdo home forte de
Serra Pelada, que deve manejar
muito melhor com armas do que
com "in-folios". Aceitei a oferta,
com uma condiqio: depois eu te-
ria o direito de utilizar os docu-
mentos A minha maneira, jorna-
listicamente. 0 emissdrio jamais
voltou com a resposta. "Curi6"
deve ter continuado sua peregri-
nagdo atras de autor.

A voz do porto

A revelacgo, pela primeira
vez, de alguns documents ofi-
ciais sobre a guerrilha do PC do
B no Araguaia, independente-
mente de suas origens, 6 um
acontecimento hist6rico. Certa-
mente "Curid6" deixard as melho-
res fatias para seu pr6prio livro,
garantindo um estado de expecta-


tiva com as reportagens do JB.
Hd todos os motivos para acredi-
tar que serd um sucesso, nao s6
pelo tema e pelo material de sus-
tentacgo da hist6ria, como por ser
a estr6ia digamos assim lite-
rdria de um araponga official. 0
coronel Moura nao foi um mero
bisbilhoteiro urbano ou um re-
cortador de jornais, o tipo padrdo
do burocrata do SNI, ou apenas
um executor de jogadas sujas, a
caracterfstica da seqao operacio-
nal do 6rgdo. Curi6, de fato, fez
parte da hist6ria. Foi uma esp6cie
de "coringa", que, como os de
origem castrense, acabou deixan-
do-se fascinar pelas atividades
que nada tinham a ver corn sua
prepara(qo professional e atd a
contradiziam.
Ele surgiu no moment crftico
da repressio A guerrilha, quando
o Exdrcito, mal adestrado para
esse tipo de event, que conhecia
apenas de bibliografia, filmogra-
fia e simulagqo, descobriu que na
selva, em regiao miserdvel, acfio
relimpago desencadeada corn o
propdsito de conseguir um resul-
tado massivamente rdpido, 6 ilu-
sdo e equfvoco. Disfargado de
comprador de terra e de madeira,
"Curi6" coletou informaq6es pa-
ra a montagem da logfstica que
sustentaria uma acqo rApida e efi-
caz, tm contrast ccm as duas
primetras e desgastantes campa-
nhas. Os principals resultados
positives, no entanto, nao foram
alcangados pela tropa regular:
eles se deveram aos "bate-paus",
informantes e "mateiros" recru-
tados (nio mais A forqa, mas
atrav6s de persuasdo e com pro-
messas de compensag6es, como a
doaqio de lotes de terra) entire a
populacgo native. Um deles ma-
tou o principal dos guerrilheiros,
Osvaldo Orlando da Costa, o
"Osvaldho", um ex-jogador de
basquete amador. Perdido nas
matas da Bolfivia, Ernesto "Che"
Guevara havia anotado no seu
didrio um dos mais pungentes
documents sobre o desafio que
represent a tentative de conciliar
(ou harmonizar) o dever politico
corn a consci6ncia intellectual,
quando nao hd um casamento
compuls6drio entire eles as difi-


culdades para conquistar o native
rural, desconfiado e ensimesma-
do. Foi liquidado pelos "ran-
gers" porque os camponeses o
entregaram. Os guerrilheiros do
PC do B tiveram a mesma ilusio,
sem a lucidez terminal de Gueva-
ra, mesmo porque nao erzm do
mesmo estofo, nem a Bolfvia ou
Cuba 6 o Brasil.

0 mundo do sertio

A literature disponfvel sobre
a guerrilha (1972-75) do Ara-
guaia, em sua maior parte cons-
trufda com base nos documents e
verses da esquerda, corn o infcio
da incorporaqAo dos documents
oficiais jd permit chegar a uma
conclusio que causard perplexi-
dade: tanto os militants do PC
do B quanto os militares do Ex6r-
cito desconheciam o sertao. Mes-
mo meses de uma experiencia so-
frida e intense nao foram sufi-
cientes para os guerrilheiros per-
ceberem as rafzes de problems
que acabavEm encarando e ten-
tando resolver corn a mesma su-
perficialidade dos 6rgios de um
poder que pretendiam derrubar.
Seus relat6rios evidenciam essa
visdo urbanizada de quest6es co-
mo os litfgios e pendencias fun-
diarios. 0 despreparo do Ex6rci-
to, mais do que o adestramento de
seus inimigos, 6 a causa do tom
glorioso ccm que a guerrilla do
Araguaia foi tratado pela literatu-
ra de esquerda. Talvez por isso
tenha sido at6 convenient para
ambas as parties que esta guerra
tenha tido poucas testemunhas
e tao fraca documentaqiao, ne-
nhum Euclides para refazer esse
Canudos tardio.
Na dltima das tr8s operaq6es,
o Exdrcito jA nio queria fazer
plisioneiros, mas apenas executar
guerrilheiros e apagar de vez
aquele event, como se isso fosse
possfvel. Era a v5 tentative de
anular os compromissos que havia
assumido junto aos nativos para
conquistar-lhes a simpatia. Um
dos documents preparados pelo
CIE (Centro de Informag6es do
Ex6rcito), responsAvel pela inte-
ligencia das operaq6es, admite
que a estrutura fundiaria injusta,






Jornal Pessoal 7


dominada por latifundiArios e
grileiros, era um terreno f6rtil pa-
ra as id6ias de transformaqgo de-
fendidas pelos guerrilheiros. Co-
mo a imagem do governor estava
associada a esses ricos ou pode-
rosos favorecidos, na dltima fase
os militares tentaram demonstrar
que estavam em posigio distinta,
ao lado dos lavradores. Atd hoje
6 comentada a prisdo de um fa-
zendeiro da regido, Toninho Al-
cazas Martins, enterrado apenas
corn a cabeqa de fora e exposto
durante varias horas para os pos-
seiros que tentara expulsar vio-
lentamente de suas terras. Termi-


A Construrora Norberto Ode-
brecht, acusada de ser fa-
vorecida ilicitamente pelos
ex-ministros Antonio Rog6rio
Magri e Margarida Proc6pio, estA
executando obras de contengio e
prevencgo de eros6es em Orixi-
mini, no oeste do Estado, atrav6s
de um contrato assinado sem con-
correncia pdblica prdvia. Uma
das clAusulas desse contrato esta-
beleceu que parte do dinheiro pa-
ra pagar os servigos seria obtido
junto ao Minist6rio da Agio So-
cial e na Secretaria de Desenvol-
vimento Regional da Presidencia
da Reptiblica. 0 valor das obras
foi fixado em 1,4 bilhAo de cru-
zeiros, a pregos de margo de 1991
(hoje seriam quase 10 bilh6es de
cruzeiros).
No dia 22 de fevereiro do ano
passado o prefeito Luiz Silva de
Souza, do PMDB, baixou decreto
eonsiderando uma determinada
area da cidade de Oriximina em
estado de emergencia por causa
da erosio, que poderia provocar o
desabamento de casas no trecho
atingido. Alegou que as obras de
contengao dessa erosao deveriam
ser contratadas sob a modalidade
de dispensa de licitagio. Quatro
dias depois a CAmara Municipal
aprovou a dispensa de licitacao,
projeto que teve uma tramitaraio
complete no mesmo dia da apro-
vagao. A 13 de margo foi assina-
do o contrato com a Norberto
Odebrecht. Apesar da emergencia
declarada pelo prefeito, o con-
trato estabeleceu o prazo de dois
anos, prorrogavel se necessArio,
para a conclusao das obras, corn
reajuste mensal do valor a ser pa-
go A empresa, sem estabelecer
nenhum prazo intermediArio para


nada a guerrilha, o Incra apare-
ceu na area novamente contra o
dono da Impar, mas a favor de
outros supostos proprietArios, do
grupo do ex-presidente Jfnio
Quadros. E a estrutura permane-
ceu a mesma.

0 contra-canto dos vencedo-
res ao solildquio dos vencidos, ao
contrArio da praxe, estA vindo
depois, mas vem em boa hora.
O terreno da histdria 6 adubado
pela controversial dos vivos mais
do que pelos ossos dos mortos,
principalmente quando estes se-
quer puderam dar seu dltimo gri-


os servigos de emergencia que le-
varam A contratacao direta.
O deputado estadual Gedeao
Dias Chaves, do PDS, chegou a
apresentar um requerimento na
Assembldia Legislativa solicitan-
do que o Tribunal de Contas dos
Municfpios realizasse uma audi-
tagem especial para apurar o que
denominou de "escandalo e cri-
me". Segundo Gedeao, houve
contratacao irregular da Odebre-
cht "por valor muito acima dos
pregos do mercado, evidenciando
a fraude e corrupgao dos contra-
tantes, solapando o erArio pdbli-
co", sem licitacao e corn vincula-
qao da principal receita munici-
pal, os royalties sobre a extraqao
do mindrio de bauxita, illegall e
danosa aos interesses do povo".
A vinculagao desobrigou a pre-
feitura de fazer empenho especf-
fico de verbal para tender as
obras. Mas depois o pr6prio de-
putado retirou de pauta seu re-
querimento, sem dar explicaq6es.
O prefeito Luiz Silva de Sou-
za garante que houve dispensa de
concorrencia porque realmente as
obras eram urgentes. E que a
Norberto Odebrecht sd foi con-
tratada porque hA alguns anos
atua no municfpio, como emprei-
teira da Mineragao Rio do Norte,
a empresa que explore a mina de
bauxita do Trombetas e que tern
como s6cia majoritAria a Compa-
nhia Vale do Rio Doce. Luiz
Souza diz que as obras estao em
andamento e deverao ser concluf-
das em 1993. Confirmou que
realmente a prefeitura pretend
obter recursos do Minist6rio da
Agao Social e de drgaos federais,
mas que atd agora nao recebeu
qualquer ajuda official.


to. Se revelar todos os documen-
tos que tern, "Curi6" estard con-
tribuindo positivamente para re-
vitalizar esse capftulo maltratado
da hist6ria recent do pafs, ainda
que nao diga tudo o que sabe,
nem reconstitua exatamente o que
e como fez para ajudar a acabar
corn a guerrilha e, a partir dela,
ser um dos pendulos do poder no
dilacerado Araguaia, onde mfsti-
cas, ideais e famas nem sempre
tem o brilho duradouro de seu ou-
ro, mesmo porque 6 no metal, em
geral, que aquelas virtudes se
fundem, sob o vapor do mercdrio
metAlico e moral.

As pedras mudam
T res meses depois de uma in-
tensa investigagio, o delega-
do Gilvandro Furtado nao e mais
o responsAvel pelo inqu6rito que
apura o assassinate do empresArio
Bruno Meira Mattos, filho do se-
cretario de Justiga Adherbal Mei-
ra Mattos. Quando j& estava tra-
balhando no relatdrio final que
encaminharia & Justiga, indician-
do 14 pessoas, Gilvandro foi
substitufdo pelo delegado Cl6vis
Martins, que chefia a Divisao de
Crimes contra a Pessoa, na qual o
prdprio Gilvandro esti lotado.
Fontes da Secretaria de Segu-
ranga Pdblica elogiaram o traba-
lho de Gilvandro, mas explicaram
a mudanga como uma forma de
abrir novos caminhos na investi-
gagao. 0 delegado anterior havia
enquadrado em diversos crimes
todas as pessoas relacionadas ao
esquema de "lavagem" de dinhei-
ro do narcotrgfico que Bruno ha-
via montado, mas nao chegara a
uma pista concrete dos assassi-
nos.
Enquanto mudava o comando
do inqudrito, a jufza de Santa
Isabel do Para, comarca do crime,
concedia licenga de 15 dias para
o traficante confesso Iziddrio Isi-
dro Oliveira Filho tratar de sua
sadde. Izid6rio era o dnico dos
suspeitos de participacgo no as-
sassinato que estava preso. Os
policiais nao acreditam que ele se
reapresente espontaneamente A
jufza na pr6xima semana, como
deveria. Agora sabe-se muito so-
bre a penetraqio do trafico de
drogas em Bel6m, mas nio hd
mais personagens do mais bem
executado atentado cometido no
Estado para falar ou os que
permanecem fora das grades nio
falam tudo o que sabem.


No rastro de Magri









Um quixote aloprado


Aascensio e queda de Josd
Lutzenberger 6 um sfmbolo
exato da trajet6ria percor-
rida pelo governor Collor ao long
de dois anos. Quando Lutz subiu,
expressava a pirotecnia no poder,
uma forma mAgica e espalhafatosa
de enfrentar os graves problems
brasileiros. Assim como Collor
pensava em liquidar a inflacgo
como o mocinho abate o tigre em
cagada hollywoodiana, usando
nao mais do que um tiro certeiro,
Lutzenberger imaginava ser capaz
de cumprir sua espinhosa mission
multiplicando retumbantes pales-
tras feitas para audit6rios espa-
lhados pelo primeiro mundo, dis-
postos mais a aplaudir frases de
efeito do que em conferir seu
conteddo de realidade.
Cavaleiro sonhador, aparen-
temente sem macula, Lutzenber-
ger expressava o estado de espf-
rito dos que, no exterior, se sen-
sibilizam e solidarizam com o
drama da Amaz6nia, sem, obri-
gatoriamente, ter que dele parti-
cipar. E uma vinculagco intelec-
tual e emotional infiltrada de
sentiment de culpa, que faz eu-
ropeus e americanos abrire;m a
bolsa (mas nao tanto) para o va-
rejo dos problems, corn resulta-
dos que estAo & altura do empe-
nho dispendido (e ao alcance dos
picaretas de plantdo).
O pdblico rico, assim, era
francamente receptivo ao discurso
de Lutzenberger, por sua vez mo-
dulado por essa expectativa. Ele
desceu no governor Collor trazido
por essas mdos; e, sem jamais ter
realmente pousado na Secretaria
do Meio Ambiente, que simples-
mente usava como pista de deco-
lagem, saiu pelo mesmo caminho.
Foi mais uma ilusdo de milagre
que passou e se desfez corn a du-
ra realidade.
O contato do ec6logo gadcho
com o cotidiano desses problems
era apenas occasional. A rigor,
sobre a Amaz6nia ele produzira
atd entdo simplesmente uma as-
sessoria para um filme alternative
sobre a destruiqio de Rond6nia
pela colonizacAo ao long da ro-
dovia Cuiabi-Porto Velho. Suas
outras poucas incurs6es A regiao
foram literalmente a jato. A exu-
berfncia verbal e mental de Lut-
zenberger tratou de acrescentar a
esse parco arsenal de conheci-


mentos uma roupagem luminosa,
verniz para auditdrios exigentes,
brilho estrelar para pdblicos ni-
velados ao personagem. Por isso
Lutzenberger praticamente se
homisiou no exterior, deixando
6rfi a secretaria que deveria co-
mandar.
"Ele quer bancar a vedete e
s6 faz essas acusag6es no exterior
por covardia", reagiu a socidloga
Tania Munhoz, um dos quatro
presidents que o Ibama teve na
era Lutzenberger (em m6dia, um a
cada semestre), demitida semr
grandeza pelo chefe. Eduardo
Martins, o successor submetido ao
mesmo tratamento, completou o
diagn6stico: Lutzenberger se re-
cusou a assinar a carta de demis-
sao que o governor Ihe havia pe-
dido como reparagio pelos incon-
venientes que provocara, "para
poder sair como vftima de todo o
epis6dio".
Dentro do poder, que criticou
asperamente enquanto esteve de
fora, Lutzenberger parece ter in-
corporado o vfrus que dilata o
estomago e faz os inquilinos des-
se oasis serem capazes de engolir
muito mais sapos do que pode-
riam imaginar para nio serem
despejados dessa cobertura de
privil6gios. Em todos os momen-
tos crfticos, Lutzenberger prefe-
riu manter-se no cargo e mostrou-
se indiferente ao caos que ia mar-
cando sua trilha. Continuava
agindo como se nao fosse gover-
no, a espera das providencias que
Ihe competiam tomar. Desfrutava
do lado bom do poder sem se
desgastar corn sua face ruim, algo
que os auto-declarados genios
julgam ser uma de suas quase di-
vinas prerrogativas.
Estrelas desse porte detestam
companhia, preferindo o brilho
solitArio. Lutzenberger tinha ra-
zao em critical o Ibama e nao foi
a primeira a manifestagio que, no
m6s passado, acabou levando-o A
demissfo. No final do ano passa-
do ele descobrira que o institute
entregava guias em branco a ma-
deireiros para que eles as preen-
chessem conforme suas conve-
niencias. Vinha falando nisso
desde entio, mas em 1991 foram
instauradas 15 sindicincias e 65
inqu6ritos no Ibama, mais 5 sin-
dicancias e 17 inqu6ritos nos tras
primeiros meses deste ano. En-


quanto Lutz falava sem parar,
TAnia e Eduardo agiam (se bern, 6
outra questlo). Os ndmeros, que
inclufam 64 processes conclufdos
e oito demiss6es, eram apresenta-
dos publicamente. Como os re-
sultados de uma recent auditoria
no Maranhio, que verificou serem
irregulares 80% das guias corn as
quais a madeira circulava pelo
Estado.
0 problema 6 serfssimo, desa-
fiando compet6ncia, inteligencia
e honestidade, que estAo um pou-
co long de serem monopdlio de
Lutzenberger. No litfgio que se
estabeleceu entire um procurador
do Ibama e o ouvidor, Lutz saiu a
favor de seu amigo Orlando Fer-
reira, que recorrera atd A ameaga
de dar tiro para tentar anular uma
multa de 5,6 milh6es de cruzeiros
imposta ao ministry da Agio So-
cial, Ricardo Fidza, dono da em-
presa Agro-Industrial do Mara-
nhio, flagrada em situacgo irre-
gular. Essa situaqio, evidente-
mente, nio constitui exclusivida-
de maranhense. 0 antecessor de
Ferreira na ouvidoria do Ibama,
Victor Sucupira, concluiu que
existe uma mafia atuando no setor
madeireiro na Amaz6nia ao reali-
zar detalhada investigaqio sobre
extrafio e industrializacqo de
madeira em Breves. Mas foi obri-
gado a deixar o cargo antes de
concluir seu trabalho.
A dois meses apenas da
Eco-92, quando muitos de seus
convivas nas principals praqas
mundiais estario reunidos no Rio
de Janeiro, sedentos por sua pa-
lavra prof6tica, Lutz conseguiu
envolver-se em mais uma crise e,
na crista da onda, abandonou o
barco. Com isso, talvez possa
voltar a falar para seus audit6rios
cativos sem precisar ter que agre-
gar obras efetivamente realizadas
i torrente de palavras que despeja
em seus pronunciamentos, con-
tradigio sd perceptfvel pelos que
aqui ficam e participam do drama,
agora com uma ilusio a menos.


Journal Pessoal
Editor responsavel: Lucio Flavio Pinto
llustraiAo Luiz Pinto
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Fone 223-1929
Op(ao Editoral