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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00071

Full Text





=Jorna1 Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL: LuJCIO FLAVIO PINTO
Ano V N? 86 28 Quinzena de Margo de 1992 Cr$ 800,00


DROGA


Aranha paraense


Tres meses depois, a policia ainda nao sabe quern
matou Bruno Meira Mattos, crime com perfil de perfeicgo.
Mas ja se sabe que o narcotrtfico veio
para ficar e tern seus centros de "lavagem" de d61ar.


O assassinate de Bruno Mari-
nho Meira Mattos continue
a ser um crime perfeito, mais de
tres meses depois de ter sido co-
metido. A polfcia nio conseguiu
descobrir sequer qual foi o carro
utilizado pelo assassino, quantas
pessoas estavam dentro do vef-
culo, qual a arma usada e uma
descricao ao menos rudimentar do
autor do dnico disparo que matou
o empresArio, a 30 quil6metros de
Beldm, no infcio da noite do dia
10 de dezembro. Nunca houve umrn
crime important parecido a esse


no Pard. Ate agora, suas carac-
terfsticas sAo as de um crime per-
feito, que sd um acaso ou um
erro inesperado dos que o prati.-
caram podera desvendf-lo.
Esse perfil tern levado a polf-
cia a pensar que a execu@go do
filho do secretdrio de Justiga do
Estado, Adherbal Meira Mattos,
foi cuidadosamente planejado e
executado por um professional da
mais alta qualificagio para esse
tipo de service. Nesse caso, seria
um acerto de contas de persona-
gens mais graduados no trifico de


drogas com Bruno, que atuava
nesse circuit como um "lava-
dor" do dinheiro produzido pelo
grupo e, provavelmente, pode ter
tentado engand-lo como em ou-
tras situag6es semelhantes, sem
sucesso. Foi assim o desfecho da
vida do senador por Rond6nia
Olavo Pires, que tentou negociar
paralelamente uma grande quanti-
dade de cocafna sem o conheci-
mento do cartel, foi descoberto e
morto corn 15 tiros de metralha-
dora em Porto Velho, as v6speras
da eleig~o para o governor do Es- >







2
tado, na qual aparecia como o fa-
vorito.
Apesar dessa hipdtese mais
provdvel, nao estA descartada a
possibilidade de que os organiza-
dores e executores do crime se-
jam de Bel6m e ainda permane-
gam na cidade. Depois de se ter
transformado no maior "doleiro"
da cidade, transacionando corn
trocadores de d6dlares legais, mas,
sobretudo, absorvendo a moeda
do comdrcio de drogas, a partir
do segundo semestre do ano pas-
sado Bruno passou a ter dificul-
dades financeiras. 0 sogro, Mi-
chel Haber, que comanda corn o
filho, Gustavo, negdcio seme-
lhante atravds da corretora e
agencia de turismo Monop6lio,
diz ter-lhe emprestado 70 milh6es
de cruzeiros mais ou menos em
agosto, dinheiro que nio recebeu
de volta.
Mas esse valor e insignifi-
cante diante do volume de transa-
q6es da corretora Carajds, que ti-
nha apenas cinco anos de funcio-
namento quando seu dono foi
morto. Nos d1timos quatro meses
de 1991, ate o dia 9 de dezembro,
os as anotag6es codificadas do
computador pessoal de Bruno re-
gistravam operaq6es no valor de
100 milh6es de ddlares, entire
80% e 90% do total relatives A
compra e venda de cocafna. A
comissio de Bruno variava entire
2% e 3%, o que lhe permitia ter
um padrdo de vida muitas vezes
superior ao que sua renda decla-
rada seria capaz de suportar.
Parece que a partir de um
certo moment ate mesmo a re-
ceita clandestine tornou-se insu-
ficiente para sustentar as despe-
sas de Bruno, ou ele resolve nao
ser mais apenas um intermediArio
financeiro, entrando na operagio
da droga. De qualquer maneira,
pode ter aberto um buraco de dd-
bito no livro de ajuste com os tra-
ficantes e corn os simples troca-
dores de ddlar. Quando morreu,
Bruno devia pelo menos 100 mil
d6lares, 400 milh6es de cruzeiros
e 210 mil francos franceses a no-
ve pessoas (valores do infcio de
dezembro, hoje mais do que du-
plicados). Pela listagem desse
d6bito, a polfcia poderia tentar
encontrar uma pista do criminoso
dentro d9s limits de Belem ou
do Para.
0 dnico suspeito ou indiciado


Jornal Pessoal


preso atd agora 6 Izidorio Olivei-
ra Filho, mantido desde o mrs
passado na Central de Polfcia de
Bel6m. Assumido traficante de
drogas e um dos parceiros de
Bruno, que lhe devia 18 mil d6dla-
res, Izidorio continue sustentando
nada ter com o crime. Mas ele 6
personagem da dnica hist6ria que
pode levar ao assassino.

0 encontro da morte

No dia 9, segundo versdo da
empregada da resid&ncia dos Mei-
ra Mattos, Izidorio telefonou para
Bruno e os dois tiveram uma dis-
cussao. Bruno reclamava que Izi-
dorio ja havia marcado v&rios en-
contros com um personagem, ate
agora nao identificado, mas ele -
que deveria trazer dinheiro ou
droga nao havia aparecido ne-
nhuma vez. Bruno estava irritado,
estado de espfrito percebido pelos
empregados porque quase nao
safra na segunda-feira, um dia
depois de ter retornado de Sao
Paulo, onde fora visitar a esposa
e o filho. Izidorio garantiu que
dessa vez nio ia haver falha. 0
novo encontro seria dia 10, o dia
da morte de Bruno.
Izidorio nega ter dado esse
telefonema. Nao confirm tamb6m
que na noite do crime foi A casa
de Bruno num carro no qual esta-
vam mais dois homes, perguntou
pelo empresirio (naquele mo-
mento ji assassinado) e disse ser
Salvador quando o vigia, corn
quem conversou, quis saber quem
ele era. Izidorio garante que no
dia 10 procurou insistentemente
por Bruno apenas para receber o
dinheiro que ele lhe devia. Mas
embora nao tenha participado do
atentado em si, nenhuma das pes-
soas que ja conversaram com ele
acredita que tudo o que diz 6
verdade. Como outros envolvidos
na hist6dria, Izidorio esta omitindo
detalhes importantes.
Esse e tamb6m o caso de Jose.
Ricardo Monteiro Raymundo,
amigo de infincia de Bruno e seu
principal auxiliar na corretora
Carajds. E dele uma informaqao-
chave para tentar desvendar o
mistdrio do assassinate. Tres ho-
ras depois de ter safdo de sua ca-
sa, As 1.0 horas da manhA do dia
10, num Gol prateado dizendo ir
para uma estrada de chao batido,
Bruno telefonou de um posto de
gasoline na bifurcaqAo da BR-316


corn a estrada para a Vigia (na
qual Jose Ricardo tem um terre-
no, usado para tentar implantar
um projeto de criacgo de camario
incentivado pelo FNO, o Fundo
Constitucional Norte), Bruno te-
lefonou para o amigo dizendo que
ja estava de volta e em mais uma
hora chegaria A empresa. Essa 6 a
duragio aproximada do percurso
do posto at6 o centro de Beldm.
Mas cinco horas depois Bruno foi
morto a pouca distAncia de onde
telefonara por um home que o
seguira e aproveitou um local
extremamente favorgvel para ati-
rar nele corn os dois carros empa-
relhados, a uma velocidade de
100 quil6metros por hora, e nao
ser visto por ninguem.
Se jA estava voltando e a ape-
nas uma hora da corretora, por
que Bruno se daria ao trabalho de
telefonar simplesmente para dizer
que estava chegando, ao invds de
seguir diretamente? Se fez isso,
provavelmente foi porque tinha
um compromisso important para
o qual jA estava atrasado ou entdo
para dizer a Josd Ricardo que o
primeiro encontro (talvez o que
Izidorio acertara) nao havia dado
certo ou exigiria que ele voltasse
ao local, como parece ter feito. E
quase certo nao ter dito simples-
mente que ja estava chegando,
embora o telefonema tenha sido
realmente de curta duragio. Mas
alguma coisa a mais deve ter dito
para o amigo, que estava preocu-
pado corn a demora. Qualquer que
seja a alternative correta, a ver-
sao de Jose Ricardo e a menos
crfvel de todas. Ele tambnm estA
omitindo informal 'es.
Faltam informaq6es tamb6m
na hist6ria da retirada clandestine
do computador de Bruno do es-
crit6rio da Carajis um dia depois
do crime. Jose Ricardo diz ter
atendido um pedido de Michel
Haber, que nega, garantindo sua
surpresa quando Josd Ricardo
chegou corn o aparelho e dois
disquetes. Ricardo alegou preten-
der ajudar a polfcia, mas os poli-
ciais tiveram que arrancar os dis-
quetes dele.
Um crime nao pode ser eluci-
dado quando algumas perguntas
elementares permanecem sem res-
posta. Por exemplo: para onde foi
Bruno quando deixou de usar seu
confortAvel Santana Quantum,
corn motorist, para dirigir um )







Journal Pessoal 3


carro mais rdstico como o Gol?
Ele disse que iria para umra estra-
da primAria, fora da BR, que 6
asfaltada. A polfcia pensou em
Domingos Rangel Jr., o violent
empresdrio de Castanhal, morto
tamb6m um pouco depois. Bruno
e Rangel tiveram uma dnica tran-
saqio, ao que parece. A hip6tese,
que jA era considerada pouco
consistent, ficou mais diffcil de
apurar com o desaparecimento do
segundo personagem. A outra hi-
p6tese seria a propriedade de Jo-
s6 Ricardo, mas os vizinhos nio
se lembram de ter visto estranhos
por ali naquele dia. 0 local deve
ficar entire Santa Izabel e Casta-
nhal, mas nio ha nenhuma pista
concrete sobre onde fica exata-
mente.

Perguntas sem resposta

A outra perguta fundamental
6: por que Bruno nio levou seu
seguranqa, um investigator da
polfcia civil que desempenha essa
fun;iio A margem da autorizagio
legal? Aldm de nunca deixar sua
pistola, Bruno andava sempre
corn o seguranca. A mulher e a
Jos6 Ricardo, que negam isso,
Bruno revelou que duas pessoas
estavam interessados em matA-lo.
Naturalmente, deve ter dado os
nomes. A polfcia, Milene e o
amigo desmentiram tudo. Isto
significa, no entanto, que quem
atraiu Bruno para a cilada o co-
nhecia e mantinha boas ou nor-
mais relag6es corn ele. Por isso, o
empresdrio achou suficiente levar
sua arma e voltou despreocupado
do encontro (ou encontros), nio
tendo nem o cuidado de fechar o
vidro do seu lado da janela do
carro, gesto instintivo de quem
houvesse discutido antes ou te-
messe a reaqio do interlocutor.
Por isso, toda a verdade que Izi-
dorio, Josd Ricardo e Milene es-
tivessem dispostos a revelar po-
deria desfazer a couraga de pro-
tecio na qual o crime se mant6m
como realizagio sem erros.
Mesmo que a polfcia esteja
navegando em mar revolto, sob
um cdu sem estrelas, e jA agora
evitando o vazamento de infor-
mag6es, provavelmente para nio
prejudicar as frageis pistas que
arranjou ou proteger eventuais
personagens considerados de
destaque na sociedade local, uma


coisa estd definida: Bel6m tor-
nou-se o mais important ponto
de transito da cocafna produzida
na Bolfvia e ja comega a receber
tamb6m o produto colombiano.
Muito dinheiro est6 entrando
clandestinamente na economic lo-
cal, provocando o surgimento de
centros de "lavagem" com facha-
da legal, principalmente ag6ncias
de cAmbio e turismo, mas tamb6m
outras atividades comerciais apa-
rentemente sem qualquer ligacao
com o narcotrAfico. As mais sus-
peitas sao aquelas de sucesso
mete6rico contrastando com ati-
vidades de pouca expressio, co-
mo rede de lojas em expansio e
pouca frequ8ncia de clients.

A rota da droga

O esquema do qual Bel6m
participa tern em Guajarg-Mirim,
em Rond6nia, seu elo de ligaaio
mais pr6ximo corn o centro boli-
viano de produqho, onde atuam
personagens ja bastante conheci-
dos da polfcia brasileira como
Adrian Ribera Perrogon, bolivia-
no que tern lojas e hotel corn s6-
cio brasileiro. Esses agents en-
viam para Beldm a cocafna atra-
v6s de seus "mulas", que entre-
gam o produto a intermediarios
como Izidorio. Estes traficantes
sio pagos por agenciadores como
era Bruno, que desembolsam o
dinheiro quando valor equiva-
lente 6 depositado, pelo destina-
tArio final, em contas especiais
abertas no exterior, o chamado
dolar-cabo. Feito o acerto, a dro-
ga 6 enviada principalmente para
Paramaribo, no Suriname, por
aviio ou atrav6s de barcos, que
tamb6m fazem contrabando. Al-
guns dos principals barcos tern
sua base em Abaetetuba, onde
outros traficantes assume a fa-
chada legal de comerciantes.
O transport de Bel6m pode
ser feito diretamente para a Euro-
pa ou os Estados Unidos, quando
as circunstancias favorecem,
mesmo corn trinsito em Paramari-
bo. Nesse caso, o "mula", quemr
realmente leva a droga, 6 acom-
panhado por outra pessoa, encar-
regada de ver, fiscalizar, fazer a
entrega final e tratar do cr6dito a
ser depositado. 0 "mula" pode
ser usado tamb6m como isca: ele
leva pouca quantidade da droga e
quando 6 preso, geralmente no


aeroporto, cria um tumulto que
favorece a passage incdlume do
acompanhante, com quem esti o
maior volume de cocafna.
Bruno Meira Mattos pagou
muitas passagens para esses
"mulas" viajarem e mantinha
contas especiais, algumas nume-
radas, em Miami e Nova York,
nos Estados Unidos, e em Para-
maribo, Amsterdam, Roma e Ge-
nebra. Ele foi um dos que conse-
guiu burlar a auto-declarada vi-
gilancia das Casas Piano e depo-
sitar dinheiro do narcotrAfico na
conta da Piano International Co.
em Nova York. Como se trata de
conta numerada, hi various tipos
de registro, que s6 os especialis-
tas sao capazes de decifrar. A
conta da Piano no City Bank se-
ria de ndmero 369776/49, mas ha
tamb6m o registro da conta 2515
ABA 021 0000 89.
Essa desenvoltura internacio-
nal de Bruno e seu grupo atrafram
a atengqo da agencia americana
de repressao a drogas, o DEA,
que estA por tras da acao da polf-
cia federal brasileira. Recente-
mente o DEA doou uma lancha,
equipada corn metralhadora anti-
a6rea e visor com infravermelho
(que permit ver A noite) para a
divisao de repressao a entorpe-
centes da Polfcia Federal do Para.
Mas passou a investigar Bruno e
suas conex6es, montando o que
esses agents, na sua linguagem
pr6pria, chamam de "aranha", ou
seja, todos os elos de ligagio corn
o ndcleo. 0 "acampanamento",
entretanto, nio passou desaperce-
bido ao pr6prio Bruno, perma-
nentemente informado a respeito
por um agent da pr6pria PF, que
havia sido designado em 1986 pa-
ra investigar o assalto A casa do
procurador regional da Repdbli-
ca, Paulo Meira, planejado por
Bruno e seu cunhado, Gustavo
Haber, qr:ando se ligou aos dois.
Esse agent, que al6m de repassar
informac6es, dava cobertura aos
"mulas" que safam de Bel6m corn
cocafna, estava na lista de paga-
mentos de Bruno. Ele, como a
mulher, ia frequentemente A sede
da Carajas.
Outro agent, expulso dois
anos antes por envolvimento corn
o traficante conhecido como Ne-
go Ramos, assassinado no curso
de uma queima geral de arquivos,
era um elo de ligagio corn os tra- ).







4 Jornal Pessoal


ficantes. Aldm disso, Bruno havia
sido recentemente advertido- pelo
pr6prio pai, o secretdrio de Justi-
ga Adherbal Meira Mattos, que
havia recebido alerta do superin-
tendente da PF, Roberto Porto,
preocupado corn as atividades do
filho do amigo.

Os homes do DEA, coorde-
nados por agents americanos em
Brasilia, que atuam apenas na
parte de informag6es e planeja-
mento, deixando as operag6es pa-
ra os policiais federais brasilei-
ros, colocados nas superinten-
dencias como agregados, vinham
acompanhando as crescentes ati-
vidades de Bruno. Detectaram
outros elos aldm dos bolivianos e
colombianos. Europeus aparente-
mente dedicados a outros tipos de
com6rcio, como a venda de peles
e pedras preciosas, na verdade
sdo traficantes, a razio de seus
altos padres de vida. Uma
question delicada nas investiga-
g6es passou a girar em torno do
conhecimento ou mesmo da parti-
cipacio do pai de Bruno nesses
neg6cios. Mesmo graduadas fon-
tes, duas delas em Brasilia, que
admitem o tema como pertinente,
se recusam a fazer qualquer co-
mentario a respeito, alegando


que, por enquanto, "tudo nio
passa de especulaqio".
Mas elas nao tem ddvida de
que o comdrcio de droga, espe-
cialmente de cocafna, se estabe-
leceu de vez em Bel6m e possui
expressive significado. A rede
que tinha Bruno como centro en-
volvia diretamente pelo menos 18
pessoas, tr6s bolivianos, quatro
em Abaetetuba, dois europeus,
um agent da PF, um ex-agente,
comerciantes e simples trafican-
tes. Mas ela contava corn a boa
vontade de muitas outras pessoas,
entire as quais agents de bancos,
que permitiam a Bruno abrir
contas milion6rios em nome de
empregados humildes, movimen-
tando-as com assinaturas forja-
das, sabendo tratar-se de opera-
g6es de "doleiros", com origem
mais do que suspeita no narcotrd-
fico. Um esquema tio frouxo que
uma gerente do Banco Econ6mi-
co, j. afastada do cargo, retirou
10 milh6es de cruzeiros de uma
dessas contas irregulares, entre-
gou a um amigo e nio reps o di-
nheiro porque o beneficiArio deu
o calote. Duas semanas antes de
morrer Bruno havia vendido um
cheque de 100 mil d6lares para
um funcionirio do Banco Econ6-
mico, que voltou sem funds. 0


banco queria cobrar o valor por
um cimbio acima do que estava
fixado no cheque. Bruno se recu-
sou a aceitar. 0 cheque era do
dono de dois hot6is populares,
seu assfduo client na troca de
d6lares. A transagio ficou pen-
dente.

A "aranha" da rede de Bruno
era muito mais extensa do que se
pensava. Tec6-la da tanto traba-
Iho quanto ir atris das pistas dos
assassins, corn a compensaqio
de estar dando melhores resulta-
dos. Depois de anos de prosperi-
dade, Bruno estava enfrentando
grandes problems para manter
essa rede. Tanto devia muito co-
mo tinha altos cr6ditos a receber
(o maior deles de Carlos Alegria,
originalmente de 109 mil d6lares,
traticante corn pena de 12 anos de
prisio, que estA sendo cumprida
na PenitenciAria de Americano).
Sua crise e morte, mesmo ainda
permanecendo na ante-sala dos
crimes insoldveis, pode provocar
a suspensio de um pesado pano
que vinha escondendo um espan-
toso mundo de criminalidade.
Resta saber at6 que ponto quem
pode esta disposto a revelar o que
estA por trds de algumas apa-
rencias respeitAveis


IMPRENSA



A quem interessar possa


O sensacionalismo 6 um vfrus
ao qual os jornalistas estdo
expostos, mesmo os que se
consideram sdrios e honestos. S6
se consegue evitar a agio insidio-
sa dessa tentaqio combatendo a
vaidade, mesmo aquela em estado
larvar, e reforgando o compro-
misso de servir o leitor. 0 sensa-
cionalismo pode vir at6 mesmo de
boa f6, como forma de provocar a
atengio de pessoas normalmente
desatentas ou desinteressadas em
encarar problems e, se possf-
vel, resolve-los.
A polemica foto corn a qual
a Folha de S. Paulo inaugurou, a
6 de fevereiro, uma sdrie de re-
portagens de Gilberto Dimenstein
sobre a prostituicgo infantil na
Amaz6nia, 6 sensacionalismo. Ao
voltar da viagem A regido e editar
o material, Dimenstein verificou


que nenhuma das imagens capta-
das pela fotdgrafa que o acompa-
nhou na expedigio A jungle,
Paula Simas, teria o impact de
uma foto que lhe foi entregue
pelo amigo Ruy Faquini.
Question de forma
Sd que Ruy batera aquela foto
mais de um ano antes, sem a in-
tengio de publicA-la e com um
outro tipo de preocupagio: pro-
duzir imagens para peas publi-
citdrias. Passeando pelo Ver-o-"
Peso, por iniciativa pr6pria ele
nem teria feito a foto de uma mo-
ga que dormia escorada numa pa-
rede se sua esposa nio tivesse in-
sistido. Como explicou depois pa-'
ra o ombudsman da Folha, Faqui-
ni s6 se preocupa corn a forma
porque 6 assim que consider ser
o trabalho publicitArio. Um dos
princfpios dessa "metodologia" 6


"nfio fotografar a misdria". Mas
a placa colocada na costa da mu-
lher era inusitada: dizia que ela
estava A venda. Faquini fez a foto
e depois diz ter conversado sobre
a situa;iao com as pessoas que
estavam As proximidades. Mas
nio anotou seus nomes, nio
identificou a principal persona-
gem, nio levLntou hist6ria algu-
ma.
Quinze meses depois, como
observou o pr6prio ombudsman
Mario Vitor Santos (uma esp6cie
de fiscal do journal em nome dos
leitores),a Folha publicou a foto
"sem informar sua data nem o
context da situagio, descum-
prindo normas do Manual de Re-
dagio", uma esp6cie de bfblia
sem autoria divina (ao menos se
Octavio Frias Filho ainda nio
reivindica esse tftulo para si) na o







Journal Pessoal 5


redagdo do journal. Aldm disso,
atribuiu "A menina a condiqio de
prostitute, o que nao foi checado.
Sequer sabia o nome dela. Nio
sabe at6 hoje". Dimenstein tam-
b6m nao se deu ao trabalho de fa-
zer a checagem que Faquini, por
atavismo publicitArio, considera-
va desnecessario. Deixou-se levar
pelo impulse sensacionalista,
contaminando corn esse vfrus to-
do o trabalho posiavo que reali-
zara.
De outubro de 1990 a feverei-
ro de 1992 a paisagem continuou
incrivelmente inalterada naquele
pedago do Ver-o-Peso. A reporter
Sonia Vinas voltou ao cenario
e 14 encontrou tres das pessoas
que figuram na foto de Fachini. 0
sapateiro Mozarino Teixeira, o
vendedor de revistas Raimundo
dos Santos e o engraxate (menor)
A. A. M. foram unanimes: o fot6-
grafo foi vftima de uma brinca-
deira. 0 av6 do rapaz colocou a
placa de "vendo" nas costas da
moqa e copos de plAstico na ca-
bega dela, aproveitando-se de sua
bebedeira. Prostituig4o, lenocf-
nio, trAfico de mulheres e outros
crimes sao correntes em Bel6m,
mas o dltimo mercado de escravos
foi desativado hA bem mais que
120 anos. Levar a prostitute para
vender no principal ponto turfsti-
co da cidade, corn uma rdstica
placa revelando a natureza do ne-
gdcio, seria estupidez. Acreditar
que a imagem de uma tal cena
possa ser documentario, sem uma
rigorosa apuragdo do fato, ao me-
nos conforme o sacrossanto "Ma-
nual de Redacao" da academia
Folha de S. Paulo, 6 puro (puro?)
sensacionalismo.

A 'melhor" defesa

Escoteiro do manual que Oc-
tavinho talvez quisesse transfor-
mar em tabua das leis do jorna-
lismo, Gilberto teria que fazer o
caminho de volta ao Ver-o-Peso
para ter certeza de estar pratican-
do jornalismo e nao publicidade,
a ser verdadeira a distingao pou-
co dtica que faz seu amigo Faqui-
ni. Flagrado no contrap6, reagiu
usando a velha tatica do futebol-
espetfculo (tambmr algo distinto
de jornalismo): foi para o ataque,
que costuma ser a melhor defesa.
Atacou o governador Jader Bar-
balho de omisso, por ter sido in-


formado sobre a trAgica situacqo
das prostitutes do Cuid-Cuid a 5
de dezembro, sem tomar provi-
d6ncias. E classificou de dema-
gdgica a iniciativa do journal do
governador, que mostrou a farsa
da fotografia, sem tratar do md-
rito em si da pr6pria situagao.
No geral de suas crfticas ao
Diario do Pard, Gilberto Di-
menstein estA certo, mas no caso
especffico nao tem razao. Na
histdria do journal hA muitos ou-
tros casos de sensacionalismo,
ausencia de princfpios 6ticos,
desprezo pelas mais elementares
regras de jornalismo, de gravida-
de incomparavelmente superior ao
deslize do reporter da Folha, mas
no entrevero especffico a posiqAo
de Dimenstein 6 desconfortAvel.
0 Diirio publicou, sem alte-
ra(io, a sdrie de reportagens de
Gilberto, que nao tocava na omis-
sao do governador (detalhe mais
do que relevant para autorizar a
transcricgo). Depois publicou
uma matdria de Palmdrio D6ria,
corn a indisfarg vel funq~o de
resposta, como notou corn acui-
dade (nem sempre frequent)
o ombudsman: "Ao descrever
realidades mais distantes, a im-
prensa sente-se mais A vontade do
que ao retratar o caos local",
uma tendencia que a faz "colocar
o problema em outro lugar, em
restringi-lo A esfera alheia". A
reportagem de Palmdrio procura-
va mostrar que Gilberto nao pre-
cisaria percorrer tantos milhares
de quil6metros para documentary
um problema que estava a metros
de distAncia de seu local de tra-
balho, t6cnica que tern o condo
de acalmar as consciencias e ate-
nuar as cobrangas de providen-
cias das autoridades locais.
Neste ponto, a postura do jor-
nal foi oportunista, a servigo do
chefe. Mas foi correta ao docu-
mentar (expressio semantica-
mente anarquizada por uma im-
prensa de ocasiao, que investiga
"a v6o de pAssaro") a irrealidade
do registro fotografico. Sern nun-
ca reconhecer o equfvoco de ori-
gem, Dimenstein passou ao ata-
que, fazendo crfticas que talvez
esquecesse se o Difrio do Par& se
limitasse a transcrever suas re-
portagens. Ele tern razao ao dizer
que o governador foi omisso atd o
moment de ser forgado a retirar
as mulheres que eram mantidos


sob cativeiro no garimpo do
Cuid-Cuid, mas esta 6 uma suces-
sao de omiss6es sem monop6lio,
partilhada inclusive pela socieda-
de. Ficaria melhor o governador
se admitisse essa falha, ao inv6s
de declarar desconhecer o garim-
po, realidade tao gritante que foi
uma das minhas primeiras indica-
q6es quando Gilberto chegou A
minha casa atrAs de informag6es
para sua investigagio. 0 gover-
nador nio pode dizer que ignora
o que 6 de sua obrigacgo, se nao
de sua consciencia, conhecer.
Ao contririo do que procurou
mostrar Gilberto Dimenstein, nio
hA um mercado de mulheres no
Ver-o-Peso, nem nunca houve. 0
que hA 6 menos prostitutes confi-
nadas em garimpos, expostas a
uma condicgo de vida de escravi-
dio, gragas ao que ele escreveu.
Mas quando o tratamento de uma
questao tao s6ria como essa passa
a defender de uma esgrima de
interesses pessoais e convenien-
cias mutuamente excludentes, na-
da tambdm garante que tudo nao
voltara ao que era antes que cir-
cunstancias de moment fizessem
as pessoas abandonarem sua le-
targia e realizarem, para valer, o
que at6 entao fingiam fazer. 0
governador tern a obrigacqo de
pelo menos apagar os quadros
mais dantescos dessa hist6ria ne-
gra e Dimenstein, elevado A con-
di~io de membro do conselho
editorial de seu journal apds a pu-
blicagdo das reportagens, precisa
impor-se princfpios que receitua
para os outros.

S uspendendo a renovacgo de
assinaturas, o Jornal Pessoal
passa a ser comercializado quase
integralmente nas bancas de re-
vista, o que nos obriga a traba-
lhar um pouco mais no seu visual,
limitado pelo precArio esquema
de fechamento de sua edicgo. Por
esse motivo, retorna a charge de
primeira pagina, de autoria do
mete6rico artist Luiz Pinto. 0
aspect grAfico tamb6m foi reto-
cado, nio tanto quanto havia sido
o planejamento de Age de Car-
valho. Num gesto de generosida-
de, Age fez um belo "bone-
co" para este journal, mas as cir-
cunstAncias nas quais 6 produzido
nos permitiram apenas utilizar al-
gumas das sugest6es, consolida-
das nesta edigao.






Jornal Pessoal


SUDAM


Um paragrafo maligno


A mudanqa de um pequeno
parAgrafo no projeto da fd-
brica de cimento do grupo
Jodo Santos, em Itaituba, poderd
custar ao governor o equivalent a
207 milh6es de d6dlares (ou mais
de 350 bilh6es de cruzeiros). Atd
1986 o grupo, o dnico que produz
cimento na Amaz6nia (uma fAbri-
ca em Capanema, a mais antiga, e
outra em Manaus), estava obriga-
do a auto-suprir de energia a fd-
brica que vem construindo ha
mais de 10 anos em Itaituba. Essa
fol uma esp6cie de puniqgo ado-
tada pela Sudam contra a protela-
cao na implantagqo do empreen-
dimento, que recebe colaboraqio
financeira dos incentives fiscais.
Originalmente, a unidade -
sediada em Prainha iria ser
abastecida pela hidrel6trica de
Curua-Una. Ao se transferir para
Itaituba, foi obrigada a ter que
construir uma termeldtrica para
garantir os 12 mil kw (mais de
uma turbina de Curua-Una) que a
fAbrica de cimento consumiria pa-
ra produzir 360 mil toneladas
anuais de clinquer. 0 parecer da
Sudam, que aprovou a relocaliza-
9do da fabrica, garantia que a
mudanqa para o auto-suprimento
de energia nao acarretaria "qual-
quer acr6scimo no investimento".
Mas se fossem necessarias inver-
s6es adicionais, elas "correrio
exclusivamente A conta de recur-
sos pr6prios do grupo empresa-
ruial", final, uma contrapartida
a tanto dinheiro recebido do go-
verno.
Cinco anos depois de conse-
guir a mudanga da localizagqo in-
dustrial, o grupo Joao Santos
voltou A Sudam com um novo
projeto de reformulagio, alegan-
do a necessidade de adequar as
duas fAbricas que deveria im-
plantar simultaneamente (a de
Manaus e a de Itaituba), "com os
necessarios ajustes nas especifi-
caq6es, uma vez que o empreen-
dimento de Manaus esta em estA-
gio bastante avanqado de im-
plantacio e jA em funcionamento,
bern como o de Itaituba, embora
menos adiantado, apresenta-se
tamb6m em um estAgio de im-


plantacgo compatfvel com os re-
cursos alocados, e o que estd
projetado faz parte de um estudo
detalhado feito pela Empresa".

0 "detalhe" oculto

0 prefimbulo do projeto sub-
metido aos conselheiros da Su-
dam nenhuma referencia fazia a
um pequeno pardgrafo contend
assunto de muito maior relevAncia
do que o que estava explfcito na
declaragqo de intenq6es. Simplo-
riamente colocado no meio de um
texto aparentemente t6cnico, o
paragrafo dizia: "0 suprimento
de energia eldtrica para o com-
plexo de Itaituba-PA, segundo in-
formag6es prestadas pelos diri-
gentes da empresa, sera feito
atrav6s da Eletronorte-Celpa, que
fard chegar atd o local da fdbrica
essa linha de transmission"
Isto quer dizer que os respon-
sdveis pela elaboragqo do parecer
de reformulaqio dos dois proje-
tos do grupo Joao Santos, sub-
metidos ao Conseiho Deliberativo
da Sudam e por ele aprovados
(provavelmente sem que o "de-
talhe", de tto escondido, fosse
sequer percebido) modificaram
um dos (tens principals do empre-
endimento, desobrigando a em-
presa de investor na construgio da
usina t6rmica para suprir de ener-
gia a fAbrica de cimento e pas-
sando o encargo para duas esta-
tais (Eletronorte e Celpa). E o
que 6 pior: tomando como base
para esse deslocamento informa-
qio prestada pela pr6pria empresa
interessada.
A inexistencia de oferta de
energia no volume necessArio tern
sido a explicaqio dada pelo grupo
Joao Santos para quebrar um dos
compromissos assumidos em
1977. Naquele ano, em meio a
uma intense polemica, o grupo se
comprometeu a implantar as uni-
dades de Manaus e de Itaituba
"na media do possfvel de forma
simultAnea". Era a forma de que-
brar a resistencia do Pard, con-
vencido de que a empresa estava
interessada apenas no funciona-
mento da unidade de Manaus,


usando o calcArio do Pard.
A fibrica de Manaus, inaugu-
rada pessoalmente pelo entio pre-
sidente Jos6 Sarney, funciona
desde 1986. A de Itaituba conti-
nua aguardando energia, ja agora
graqas ao ardiloso dispositivo
de 1986 desobrigada de investor
na geracgo.
Com base em todas as conces-
s6es recebidas, o grupo Joao
Santos se sentiu estimulado a fa-
zer nova solicitaqgo: quer trans-
terir para sua fdbrica de Sergipe
os equipamentos el6tricos de co-
mando de medicao e de control
que estao em Itaituba, como as
demais peas e equipamentos,
ainda nao montados. 0 pedido
estd tramitando atualmente na
Sudam e, apesar de significar um
golpe no jA cambaleante projeto,
legalmente nao h6 mais como re-
cusar essa transferencia.
A novela da segunda fdbrica
de cimento do Pard comegou em
1969, quando a Companhia
Agroindustrial de Monte Alegre,
de um grupo local, conseguiu
aprovar seu projeto original na
Sudam. Seis anos depois o grupo
Joio Santos assumiu o projeto e,
desde entao, conseguiu que a Su-
dam deferisse todos os seus pedi-
dos. Transferiu a sede de Monte
Alegre para Prainha e, em segui-
da, para Itaituba, onde descobriu
uma jazida maior e melhor de
calcario, corn 250 nilh6es de to-
neladas. Nunca faltou dinheiro
para os projetos: mesmo parte do
dinheiro sendo oriunda do "bo-
lo" dos incentives, anualmente
Brasilia prd-determinava as apli-
caq6es em favor do cartel, que,
assim, nio prezisava se submeter
ao leilio de aplicaq6es.
Com tanto favorecimento,
a dinica contrapartida exigida era
a de que a empresa investisse na
termeldtrica. A reformulaciao de
1986 nao apenas a isentou desse
gasto de capital, como transferiu-
o para os costados do poder pd-
blico. Apesar das crfticas que
vem sendo feitas pelos stores
t6cnicos, o governor do Estado
continue insistindo em considerar
prioridade mAxima a construqAio .


6


6






Jornal Pessoal


de uma linha de transmissio de
energia da hidreldtrica de Tucuruf
para Altamira e Itaituba, investi-
mento contabilizado no planeja-
mento plurianual da administra-
gqo Jader Barbalho em 207 mi-
lh6es de d6lares.


De Aitamira

MINERIO


para Itaituba,


a Linica fonte de consumo que po-
deria justificar essa obra (se nto
houvesse alternatives mais bara-
tas e tdo eficientes) 6 a fAbrica de
cimento do grupo Jodo Santos,
onde hA uma diretriz bern defini-
da: favorecer os poderosos de
plantdo para cobrar deles, multi-


7
plicados, os dividends desses
tavores, como o jatinho, eterna-
mente post & disposicgo dos que
podem diminuir os gastos e au-
mentar os lucros do sdcio de um
cartel tdo poderoso que faz seu
produto tornar-se muito mais caro
do que o similar importado da ex-
Uniio Sovi6tica.


0 interesse sensivel


G raqas a um simples disposi-
tivo da Constituigio de
1988, o governor conseguiu
cancelar quase um quarto de to-
dos os domfnios particulares que
havia no pafs sobre jazidas mine-
rais, situadas principalmente na
Amaz6nia. Tudo nio passava de
papel, desde a formagio de em-
presas fantasmas atd suas ativida-
des de pesquisa para "ingles
ver". Mas o anacronismo legal
permitia aos detentores desses
pap6is, avalizados pela burocra-
cia official, "sentar" sobre minas,
como dizem os ge6dlogos. Conse-
guiam ao mesmo tempo dar valor
contdbil a um patrim6nio fictfcio,
se protegiam contra a deteriora-
g5o inflaciondria e mantinham em
caixa um neg6cio para realizar no
moment mais favordvel.
Corn base no artigo 43 da
Constituiaio, o DNPM (Departa-
mento Nacional da Produ~Ao Mi-
neral) cassou quase seis mil tftu-
los minerdrios, do simples alvara
ao elo final da cadeia de conces-
s6es governamentais relatives ao
subsolo, a autorizaiAo de lavra.
0 mais espetacular de todos os
atos atingiu o grupo Votorantim,
a maior corporagco econ6mica
privada brasileira. A CBA (Com-
panhia Brasileira de Alumfnio)
perdeu os direitos sobre uma ja-
zida de 220 milh6es de toneladas
de bauxita em Paragominas, no
Pard, avaliada em dois bilh6es de
d6lares.
A reacgo do "chairman" da
corporaqio, o multicandidato
mal-sucedido (ao governor de Sdo
Paulo e A presidencia da Repdbli-
ca) Antonio Ermfrio de Moraes,
foi a de sempre nesses casos.
Acusou o DNPM de ter atingido
sua empresa apenas porque ela
represent o capital national,
deixando imunes grupos multina-


cionais que estdo na mesma situa-
gdo. Seria mais um capftulo do
process de desnacionalizagio da
economic brasileira sob o pa-
trocfnio de Brasilia.
Pode ser, mas nao 6 necessa-
riamente isso. 0 ato do DNPM
nem deveria ser considerado uma
punigio. A rigor, trata-se de mero
cumprimento do texto constitu-
cional. Mas entio, em favor dos
altos interesses nacionais, dos
quais se declara defensor, Anto-
nio Ermfrio deveria dar nome aos
bois, ao invds de deixar a impres-
sdo de que suscita o argument
simplesmente para tentar reverter
a situagqo desfavorAvel a seus
interesses.
E possfvel que o DNPM esteja
dando tratamentos desiguais a
competidores e servindo a um jo-
go sujo. Admite-se a hip6tese
porque isso jd ocorreu antes. 0
departamento, personagem explf-
cito de uma trama que envolvia,
na sombra dos bastidores, atores
mais graduados, favoreceu a Al-
coa na transaqio (durante o go-
verno do general Figueiredo) de
uma outra jazida de bauxita no
Pard, a do Trombetas, que o mi-
liondrio norte-americano Daniel
Ludwig praticamente foi obrigado
a ceder A mais poderosa das inte-
grantes do cartel do alumfnio.
Se antecedentes hd, nem por
isso esta autorizada a simples de-
duqo. E necessirio provar que o
DNPM repete, agora, procedi-
mentos danosos de um passado
ainda recent. 0 departamento,
dirigido na atual administration
por um ticnico de larga tradicgo
no setor, tambdm nao estd isento
da obrigagio de abrir seus arqui-
vos e demonstrar a lisura de seu
procedimento. Mais do que lim-
peza, alias, o acerto de sua ini-
ciativa.


No mundo capitalist, se uma
empresa nio tem condiq6es de
desempenhar seu papel no merca-
do, deve ceder o espago para
quem possa cumprir essa funigio.
Apesar das melhores justificati-
vas que esteja em condic6es de
apresentar para explicar a prote-
lagqo na exploragio da mina de
bauxita, o grupo CBA nao tern o
direito de mant6-la imobilizada
porque o patrim6nio 6 da Uniio.
A esse bern a empresa teve acesso
atravds de uma concessdo a tftulo
prec6rio, estabelecida cornm uma
cl6usula fundamental: a de pro-
duzir num determinado prazo.
Esgotado esse prazo, com
suas prorrogaq6es possfveis, o
Estado tern a prerrogativa de rea-
ver o pleno domfnio do patrim6-
nio e levd-lo a nova licitagio en-
tre interessados. Se esse novo
caminho, meridianamente ilumi-
nado, nio esta sendo percorrido,
que se denuncie o fato e se puna
o infrator, ao invds de bloquear a
trilha apenas porque algum pode-
roso nao mais pode percorrd-la.


Caso val a justiga

O inqu6rito policial sobre o as-
sassinato de Bruno Meira
Mattos foi conclufdo nesta sema-
na e encaminhado A jufza de
,Santa Izabel, comarca da ocor-
rencia. Como se previa, as inves-
tigag6es, comandadas pelo dele-
gado Gilvandro Furtado, nio
apontaram mandantes e executo-
res, mas indiciaram 14 pessoas
como envolvidas em atividades
ilegais ou irregulares, ou suspei-
tas de participaqio ainda que
indireta no atentado. 0 delega-
do nio quis antecipar o conteddo
de seu relat6rio, nem fazer co-
mentArios a respeito.









Um paraense singular


P ode-se escolher uma das
duas datas para comemora-
g6es, mas em ambas hd um
dnico personagem principal: o
acaraense Filippe Alberto Patroni
Martins Maciel Parente. A 6 de
janeiro de 1821 ele se tornou o
primeiro paraense a imprimir um
journal, a Gazeta do Par&, que cir-
culou em Lisboa. No ano seguinte
ele comprou uma grafica na ca-
pital portuguesa, transportou-a
para Beldm e a 22 de maio colo-
cou nas ruas da cidade o primeiro
journal rigorosamente paraense,
corn o exato tftulo de 0 Paraense.
Apesar da passage dos 170
anos dessa important data, a
dnica perspective de espantar a
desmem6ria local esta no pequeno
livro editado por Haroldo Mara-
nhfo no Rio de Janeiro, contend
dois textos de Patroni: a Disser-
tagio sobre o direito de cagoar e
a Carta a Salvador Rodrigues do
Couto, por ele escritos no perfo-
do da primeira maturidade, entire
1817 e 1818. Haroldo escreveu a
introducao e montou a mais com-
pleta bibliografia disponfvel,
al6m de acrescentar uma ilustrati-
va cronologia ao livro, co-ediiao
das editors Loyola e Giordano,
112 volume da colegao Mem6ria.
Patroni foi muita coisa na vi-
da, precocemente e com intensi-
dade furiosa, limftrofe de um de-
sequilfbrio que foi avangando em
seu cdrebro com o peso dos anos
e a irrealizagio das utopias. Es-
teve na contra-mao dos seus
contemporaneos, rompeu os gri-
lh6es das classificag6es conven-
cionais e foi uma personalidade
tAo rica e contraditdria que ate
hoje sua fascinante biografia
continue a espera de um autor a
altura dela.
Nenhum tern se aproximado
mais dessa aproximagAo do que,
Haroldo MaranhAo. Diante da di-
ficuldade para tratar um material
primdrio caoticamente disperse e
fontes secundarias inadequadas,
Haroldo optou por uma ficqAo a
meio pd do romance "a clef" pa-
ra exaltar Patroni e transcende-lo
em Cabelos no Corarao, o maior
acontecimento na literature pa-
raense desde Dalcfdio Jurandir
(apenas uma referencia, ja que
o livro pertence a solitaria dinas-


tia de produtos do porte de Gran-
de Sertio: Veredas). Cabelos,
entretanto, nio 6 nem exatamente
e nem sobretudo biografia roman-
ceada, mas a obra capital de um
escritor experimental com rafzes
firmamente plantadas na sua ter-
ra, acometido de uma terqi be-
nigna vocabular, um paludismo
de inventive sem freios e frontei-
ras.

Sem biografia
A publicagio dos dois textos,
em si mesmos incapazes de tradu-
zir completamente o pensamento
de Patroni, mas um avango consi-
deravel em relaqao a desleixada
reuniao de suas "obras escolhi-
das" pelo Conselho Estadual de
Cultura, pode ser mais um pass
dado por Haroldo Maranhio para
suprir uma das maiores lacunas
na historiografia regional. E fas-
cinante a trajet6ria de um humil-
de caboclo do interior paraense
que consegue chegar A famosa
Universidade de Coimbra, faz um
curso brilhante atd o bacharelato,
assume a representagio do seu
Estado junto A c6rte, 6 poliglota,
domina uma vasta frente de te-
mas, assume uma militancia soli-
taria, desafia conveng6es e per-
corre uma trajetdria encrespada
ate sucumbir A apoplexia, doenga
que fulminaria um m6s depois
a dnica companheira de vida, sem
deixar descendentes.
Meu primeiro contato corn
Patroni foi aos 17 anos, quando
escrevi reportagem de pagina in-
teira para a capa do segundo ca-
derno de A Provfncia do Park. Eu
nAo sabia que a iddia entao domi-
nante era de que Patron nao pas-
sava de um louco. Depois de ler
manuscritos e alguns jornais no
Arquivo Pdblico, eu ficara fasci-
nado por aquele home, espe.-
cialmente o jornalista. 0 editor
do journal, muito mais velho,
mesmo condicionado pelos pre-
conceitos vigentes achou que
aquela era uma nova roupagem
para o mito e deu destaque ao
texto, uma suropresa para mim,
um convite A curiosidade insatis-
feita.
Insatisfeitos ainda devem es-
tar todos os que se interessaram


nao apenas em saber da vida de
Patroni, mas buscar-lhe um senti-
do, uma definirAo. Nos intervalos
em que foi juiz, advogado, polfti-
co e pensador, ele foi jornalista.
Aldm da Gazeta do Para e de 0
Paraense, foi responsavel por
mais tries jornais. Mas na impren-
sa paraense ele nao foi muito
aldm do que precursor: tres dias
depois de 0 Paraense circular
Patroni foi preso. A partir daf, o
c6nego Batista Campos, um ver-
dadeiro panfletirio, assumiu o
journal. Que linha teria seguido
o journal se seu fundador perma-
necesse em liberdade?
Perguntas desse tipo cabem
emn varios moments da vida de
Patroni, marcada mais pela inten-
sidade do que pela continuidade,
por impulses de lucidez inerrom-
pidos por um desequilfbrio (ou
uma desorganizagao?) mental que
se iria acentuando. Politicamente
ele foi tambdm um precursor, cu-
jas iddias avangadas em relagao
ao rompimento da dependencia
colonial e da repdblica eram con-
vicgao mesmo, mal expostas de-
baixo de uma bern cuidada preo-
cupagao tatica, capaz de manter a
cabega sobre o tronco, ou oportu-
nismo? Para ele bastaria ao Para
atualizar-se A monarquia consti-
tucional portuguesa do que
aventurar-se por uma indepen-
dencia claudicante?
SAo perguntas que o tempo sd
responderd se autores menos con-
dicionados por verses forem
atris das resposta-. Elas nio vi-
rAo enquanto homenagens forem
prestadas a Patroni apenas para
cumprir obrigag6es formais, como
dando seu nome a uma praga ou
editando obras que, escritas ap6s
1850, sao antes de mais nada o
atestado do delfrio de uma mente
vulcanica obrigada a pensar numa
planfcie acomodada.



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Ilustrajao: Luiz Pinto
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