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=Jorna1 Pessoal EDITOR RESPONSAVEL: LuJCIO FLAVIO PINTO Ano V N? 86 28 Quinzena de Margo de 1992 Cr$ 800,00 DROGA Aranha paraense Tres meses depois, a policia ainda nao sabe quern matou Bruno Meira Mattos, crime com perfil de perfeicgo. Mas ja se sabe que o narcotrtfico veio para ficar e tern seus centros de "lavagem" de d61ar. O assassinate de Bruno Mari- nho Meira Mattos continue a ser um crime perfeito, mais de tres meses depois de ter sido co- metido. A polfcia nio conseguiu descobrir sequer qual foi o carro utilizado pelo assassino, quantas pessoas estavam dentro do vef- culo, qual a arma usada e uma descricao ao menos rudimentar do autor do dnico disparo que matou o empresArio, a 30 quil6metros de Beldm, no infcio da noite do dia 10 de dezembro. Nunca houve umrn crime important parecido a esse no Pard. Ate agora, suas carac- terfsticas sAo as de um crime per- feito, que sd um acaso ou um erro inesperado dos que o prati.- caram podera desvendf-lo. Esse perfil tern levado a polf- cia a pensar que a execu@go do filho do secretdrio de Justiga do Estado, Adherbal Meira Mattos, foi cuidadosamente planejado e executado por um professional da mais alta qualificagio para esse tipo de service. Nesse caso, seria um acerto de contas de persona- gens mais graduados no trifico de drogas com Bruno, que atuava nesse circuit como um "lava- dor" do dinheiro produzido pelo grupo e, provavelmente, pode ter tentado engand-lo como em ou- tras situag6es semelhantes, sem sucesso. Foi assim o desfecho da vida do senador por Rond6nia Olavo Pires, que tentou negociar paralelamente uma grande quanti- dade de cocafna sem o conheci- mento do cartel, foi descoberto e morto corn 15 tiros de metralha- dora em Porto Velho, as v6speras da eleig~o para o governor do Es- > 2 tado, na qual aparecia como o fa- vorito. Apesar dessa hipdtese mais provdvel, nao estA descartada a possibilidade de que os organiza- dores e executores do crime se- jam de Bel6m e ainda permane- gam na cidade. Depois de se ter transformado no maior "doleiro" da cidade, transacionando corn trocadores de d6dlares legais, mas, sobretudo, absorvendo a moeda do comdrcio de drogas, a partir do segundo semestre do ano pas- sado Bruno passou a ter dificul- dades financeiras. 0 sogro, Mi- chel Haber, que comanda corn o filho, Gustavo, negdcio seme- lhante atravds da corretora e agencia de turismo Monop6lio, diz ter-lhe emprestado 70 milh6es de cruzeiros mais ou menos em agosto, dinheiro que nio recebeu de volta. Mas esse valor e insignifi- cante diante do volume de transa- q6es da corretora Carajds, que ti- nha apenas cinco anos de funcio- namento quando seu dono foi morto. Nos d1timos quatro meses de 1991, ate o dia 9 de dezembro, os as anotag6es codificadas do computador pessoal de Bruno re- gistravam operaq6es no valor de 100 milh6es de ddlares, entire 80% e 90% do total relatives A compra e venda de cocafna. A comissio de Bruno variava entire 2% e 3%, o que lhe permitia ter um padrdo de vida muitas vezes superior ao que sua renda decla- rada seria capaz de suportar. Parece que a partir de um certo moment ate mesmo a re- ceita clandestine tornou-se insu- ficiente para sustentar as despe- sas de Bruno, ou ele resolve nao ser mais apenas um intermediArio financeiro, entrando na operagio da droga. De qualquer maneira, pode ter aberto um buraco de dd- bito no livro de ajuste com os tra- ficantes e corn os simples troca- dores de ddlar. Quando morreu, Bruno devia pelo menos 100 mil d6lares, 400 milh6es de cruzeiros e 210 mil francos franceses a no- ve pessoas (valores do infcio de dezembro, hoje mais do que du- plicados). Pela listagem desse d6bito, a polfcia poderia tentar encontrar uma pista do criminoso dentro d9s limits de Belem ou do Para. 0 dnico suspeito ou indiciado Jornal Pessoal preso atd agora 6 Izidorio Olivei- ra Filho, mantido desde o mrs passado na Central de Polfcia de Bel6m. Assumido traficante de drogas e um dos parceiros de Bruno, que lhe devia 18 mil d6dla- res, Izidorio continue sustentando nada ter com o crime. Mas ele 6 personagem da dnica hist6ria que pode levar ao assassino. 0 encontro da morte No dia 9, segundo versdo da empregada da resid&ncia dos Mei- ra Mattos, Izidorio telefonou para Bruno e os dois tiveram uma dis- cussao. Bruno reclamava que Izi- dorio ja havia marcado v&rios en- contros com um personagem, ate agora nao identificado, mas ele - que deveria trazer dinheiro ou droga nao havia aparecido ne- nhuma vez. Bruno estava irritado, estado de espfrito percebido pelos empregados porque quase nao safra na segunda-feira, um dia depois de ter retornado de Sao Paulo, onde fora visitar a esposa e o filho. Izidorio garantiu que dessa vez nio ia haver falha. 0 novo encontro seria dia 10, o dia da morte de Bruno. Izidorio nega ter dado esse telefonema. Nao confirm tamb6m que na noite do crime foi A casa de Bruno num carro no qual esta- vam mais dois homes, perguntou pelo empresirio (naquele mo- mento ji assassinado) e disse ser Salvador quando o vigia, corn quem conversou, quis saber quem ele era. Izidorio garante que no dia 10 procurou insistentemente por Bruno apenas para receber o dinheiro que ele lhe devia. Mas embora nao tenha participado do atentado em si, nenhuma das pes- soas que ja conversaram com ele acredita que tudo o que diz 6 verdade. Como outros envolvidos na hist6dria, Izidorio esta omitindo detalhes importantes. Esse e tamb6m o caso de Jose. Ricardo Monteiro Raymundo, amigo de infincia de Bruno e seu principal auxiliar na corretora Carajds. E dele uma informaqao- chave para tentar desvendar o mistdrio do assassinate. Tres ho- ras depois de ter safdo de sua ca- sa, As 1.0 horas da manhA do dia 10, num Gol prateado dizendo ir para uma estrada de chao batido, Bruno telefonou de um posto de gasoline na bifurcaqAo da BR-316 corn a estrada para a Vigia (na qual Jose Ricardo tem um terre- no, usado para tentar implantar um projeto de criacgo de camario incentivado pelo FNO, o Fundo Constitucional Norte), Bruno te- lefonou para o amigo dizendo que ja estava de volta e em mais uma hora chegaria A empresa. Essa 6 a duragio aproximada do percurso do posto at6 o centro de Beldm. Mas cinco horas depois Bruno foi morto a pouca distAncia de onde telefonara por um home que o seguira e aproveitou um local extremamente favorgvel para ati- rar nele corn os dois carros empa- relhados, a uma velocidade de 100 quil6metros por hora, e nao ser visto por ninguem. Se jA estava voltando e a ape- nas uma hora da corretora, por que Bruno se daria ao trabalho de telefonar simplesmente para dizer que estava chegando, ao invds de seguir diretamente? Se fez isso, provavelmente foi porque tinha um compromisso important para o qual jA estava atrasado ou entdo para dizer a Josd Ricardo que o primeiro encontro (talvez o que Izidorio acertara) nao havia dado certo ou exigiria que ele voltasse ao local, como parece ter feito. E quase certo nao ter dito simples- mente que ja estava chegando, embora o telefonema tenha sido realmente de curta duragio. Mas alguma coisa a mais deve ter dito para o amigo, que estava preocu- pado corn a demora. Qualquer que seja a alternative correta, a ver- sao de Jose Ricardo e a menos crfvel de todas. Ele tambnm estA omitindo informal 'es. Faltam informaq6es tamb6m na hist6ria da retirada clandestine do computador de Bruno do es- crit6rio da Carajis um dia depois do crime. Jose Ricardo diz ter atendido um pedido de Michel Haber, que nega, garantindo sua surpresa quando Josd Ricardo chegou corn o aparelho e dois disquetes. Ricardo alegou preten- der ajudar a polfcia, mas os poli- ciais tiveram que arrancar os dis- quetes dele. Um crime nao pode ser eluci- dado quando algumas perguntas elementares permanecem sem res- posta. Por exemplo: para onde foi Bruno quando deixou de usar seu confortAvel Santana Quantum, corn motorist, para dirigir um ) Journal Pessoal 3 carro mais rdstico como o Gol? Ele disse que iria para umra estra- da primAria, fora da BR, que 6 asfaltada. A polfcia pensou em Domingos Rangel Jr., o violent empresdrio de Castanhal, morto tamb6m um pouco depois. Bruno e Rangel tiveram uma dnica tran- saqio, ao que parece. A hip6tese, que jA era considerada pouco consistent, ficou mais diffcil de apurar com o desaparecimento do segundo personagem. A outra hi- p6tese seria a propriedade de Jo- s6 Ricardo, mas os vizinhos nio se lembram de ter visto estranhos por ali naquele dia. 0 local deve ficar entire Santa Izabel e Casta- nhal, mas nio ha nenhuma pista concrete sobre onde fica exata- mente. Perguntas sem resposta A outra perguta fundamental 6: por que Bruno nio levou seu seguranqa, um investigator da polfcia civil que desempenha essa fun;iio A margem da autorizagio legal? Aldm de nunca deixar sua pistola, Bruno andava sempre corn o seguranca. A mulher e a Jos6 Ricardo, que negam isso, Bruno revelou que duas pessoas estavam interessados em matA-lo. Naturalmente, deve ter dado os nomes. A polfcia, Milene e o amigo desmentiram tudo. Isto significa, no entanto, que quem atraiu Bruno para a cilada o co- nhecia e mantinha boas ou nor- mais relag6es corn ele. Por isso, o empresdrio achou suficiente levar sua arma e voltou despreocupado do encontro (ou encontros), nio tendo nem o cuidado de fechar o vidro do seu lado da janela do carro, gesto instintivo de quem houvesse discutido antes ou te- messe a reaqio do interlocutor. Por isso, toda a verdade que Izi- dorio, Josd Ricardo e Milene es- tivessem dispostos a revelar po- deria desfazer a couraga de pro- tecio na qual o crime se mant6m como realizagio sem erros. Mesmo que a polfcia esteja navegando em mar revolto, sob um cdu sem estrelas, e jA agora evitando o vazamento de infor- mag6es, provavelmente para nio prejudicar as frageis pistas que arranjou ou proteger eventuais personagens considerados de destaque na sociedade local, uma coisa estd definida: Bel6m tor- nou-se o mais important ponto de transito da cocafna produzida na Bolfvia e ja comega a receber tamb6m o produto colombiano. Muito dinheiro est6 entrando clandestinamente na economic lo- cal, provocando o surgimento de centros de "lavagem" com facha- da legal, principalmente ag6ncias de cAmbio e turismo, mas tamb6m outras atividades comerciais apa- rentemente sem qualquer ligacao com o narcotrAfico. As mais sus- peitas sao aquelas de sucesso mete6rico contrastando com ati- vidades de pouca expressio, co- mo rede de lojas em expansio e pouca frequ8ncia de clients. A rota da droga O esquema do qual Bel6m participa tern em Guajarg-Mirim, em Rond6nia, seu elo de ligaaio mais pr6ximo corn o centro boli- viano de produqho, onde atuam personagens ja bastante conheci- dos da polfcia brasileira como Adrian Ribera Perrogon, bolivia- no que tern lojas e hotel corn s6- cio brasileiro. Esses agents en- viam para Beldm a cocafna atra- v6s de seus "mulas", que entre- gam o produto a intermediarios como Izidorio. Estes traficantes sio pagos por agenciadores como era Bruno, que desembolsam o dinheiro quando valor equiva- lente 6 depositado, pelo destina- tArio final, em contas especiais abertas no exterior, o chamado dolar-cabo. Feito o acerto, a dro- ga 6 enviada principalmente para Paramaribo, no Suriname, por aviio ou atrav6s de barcos, que tamb6m fazem contrabando. Al- guns dos principals barcos tern sua base em Abaetetuba, onde outros traficantes assume a fa- chada legal de comerciantes. O transport de Bel6m pode ser feito diretamente para a Euro- pa ou os Estados Unidos, quando as circunstancias favorecem, mesmo corn trinsito em Paramari- bo. Nesse caso, o "mula", quemr realmente leva a droga, 6 acom- panhado por outra pessoa, encar- regada de ver, fiscalizar, fazer a entrega final e tratar do cr6dito a ser depositado. 0 "mula" pode ser usado tamb6m como isca: ele leva pouca quantidade da droga e quando 6 preso, geralmente no aeroporto, cria um tumulto que favorece a passage incdlume do acompanhante, com quem esti o maior volume de cocafna. Bruno Meira Mattos pagou muitas passagens para esses "mulas" viajarem e mantinha contas especiais, algumas nume- radas, em Miami e Nova York, nos Estados Unidos, e em Para- maribo, Amsterdam, Roma e Ge- nebra. Ele foi um dos que conse- guiu burlar a auto-declarada vi- gilancia das Casas Piano e depo- sitar dinheiro do narcotrAfico na conta da Piano International Co. em Nova York. Como se trata de conta numerada, hi various tipos de registro, que s6 os especialis- tas sao capazes de decifrar. A conta da Piano no City Bank se- ria de ndmero 369776/49, mas ha tamb6m o registro da conta 2515 ABA 021 0000 89. Essa desenvoltura internacio- nal de Bruno e seu grupo atrafram a atengqo da agencia americana de repressao a drogas, o DEA, que estA por tras da acao da polf- cia federal brasileira. Recente- mente o DEA doou uma lancha, equipada corn metralhadora anti- a6rea e visor com infravermelho (que permit ver A noite) para a divisao de repressao a entorpe- centes da Polfcia Federal do Para. Mas passou a investigar Bruno e suas conex6es, montando o que esses agents, na sua linguagem pr6pria, chamam de "aranha", ou seja, todos os elos de ligagio corn o ndcleo. 0 "acampanamento", entretanto, nio passou desaperce- bido ao pr6prio Bruno, perma- nentemente informado a respeito por um agent da pr6pria PF, que havia sido designado em 1986 pa- ra investigar o assalto A casa do procurador regional da Repdbli- ca, Paulo Meira, planejado por Bruno e seu cunhado, Gustavo Haber, qr:ando se ligou aos dois. Esse agent, que al6m de repassar informac6es, dava cobertura aos "mulas" que safam de Bel6m corn cocafna, estava na lista de paga- mentos de Bruno. Ele, como a mulher, ia frequentemente A sede da Carajas. Outro agent, expulso dois anos antes por envolvimento corn o traficante conhecido como Ne- go Ramos, assassinado no curso de uma queima geral de arquivos, era um elo de ligagio corn os tra- ). 4 Jornal Pessoal ficantes. Aldm disso, Bruno havia sido recentemente advertido- pelo pr6prio pai, o secretdrio de Justi- ga Adherbal Meira Mattos, que havia recebido alerta do superin- tendente da PF, Roberto Porto, preocupado corn as atividades do filho do amigo. Os homes do DEA, coorde- nados por agents americanos em Brasilia, que atuam apenas na parte de informag6es e planeja- mento, deixando as operag6es pa- ra os policiais federais brasilei- ros, colocados nas superinten- dencias como agregados, vinham acompanhando as crescentes ati- vidades de Bruno. Detectaram outros elos aldm dos bolivianos e colombianos. Europeus aparente- mente dedicados a outros tipos de com6rcio, como a venda de peles e pedras preciosas, na verdade sdo traficantes, a razio de seus altos padres de vida. Uma question delicada nas investiga- g6es passou a girar em torno do conhecimento ou mesmo da parti- cipacio do pai de Bruno nesses neg6cios. Mesmo graduadas fon- tes, duas delas em Brasilia, que admitem o tema como pertinente, se recusam a fazer qualquer co- mentario a respeito, alegando que, por enquanto, "tudo nio passa de especulaqio". Mas elas nao tem ddvida de que o comdrcio de droga, espe- cialmente de cocafna, se estabe- leceu de vez em Bel6m e possui expressive significado. A rede que tinha Bruno como centro en- volvia diretamente pelo menos 18 pessoas, tr6s bolivianos, quatro em Abaetetuba, dois europeus, um agent da PF, um ex-agente, comerciantes e simples trafican- tes. Mas ela contava corn a boa vontade de muitas outras pessoas, entire as quais agents de bancos, que permitiam a Bruno abrir contas milion6rios em nome de empregados humildes, movimen- tando-as com assinaturas forja- das, sabendo tratar-se de opera- g6es de "doleiros", com origem mais do que suspeita no narcotrd- fico. Um esquema tio frouxo que uma gerente do Banco Econ6mi- co, j. afastada do cargo, retirou 10 milh6es de cruzeiros de uma dessas contas irregulares, entre- gou a um amigo e nio reps o di- nheiro porque o beneficiArio deu o calote. Duas semanas antes de morrer Bruno havia vendido um cheque de 100 mil d6lares para um funcionirio do Banco Econ6- mico, que voltou sem funds. 0 banco queria cobrar o valor por um cimbio acima do que estava fixado no cheque. Bruno se recu- sou a aceitar. 0 cheque era do dono de dois hot6is populares, seu assfduo client na troca de d6lares. A transagio ficou pen- dente. A "aranha" da rede de Bruno era muito mais extensa do que se pensava. Tec6-la da tanto traba- Iho quanto ir atris das pistas dos assassins, corn a compensaqio de estar dando melhores resulta- dos. Depois de anos de prosperi- dade, Bruno estava enfrentando grandes problems para manter essa rede. Tanto devia muito co- mo tinha altos cr6ditos a receber (o maior deles de Carlos Alegria, originalmente de 109 mil d6lares, traticante corn pena de 12 anos de prisio, que estA sendo cumprida na PenitenciAria de Americano). Sua crise e morte, mesmo ainda permanecendo na ante-sala dos crimes insoldveis, pode provocar a suspensio de um pesado pano que vinha escondendo um espan- toso mundo de criminalidade. Resta saber at6 que ponto quem pode esta disposto a revelar o que estA por trds de algumas apa- rencias respeitAveis IMPRENSA A quem interessar possa O sensacionalismo 6 um vfrus ao qual os jornalistas estdo expostos, mesmo os que se consideram sdrios e honestos. S6 se consegue evitar a agio insidio- sa dessa tentaqio combatendo a vaidade, mesmo aquela em estado larvar, e reforgando o compro- misso de servir o leitor. 0 sensa- cionalismo pode vir at6 mesmo de boa f6, como forma de provocar a atengio de pessoas normalmente desatentas ou desinteressadas em encarar problems e, se possf- vel, resolve-los. A polemica foto corn a qual a Folha de S. Paulo inaugurou, a 6 de fevereiro, uma sdrie de re- portagens de Gilberto Dimenstein sobre a prostituicgo infantil na Amaz6nia, 6 sensacionalismo. Ao voltar da viagem A regido e editar o material, Dimenstein verificou que nenhuma das imagens capta- das pela fotdgrafa que o acompa- nhou na expedigio A jungle, Paula Simas, teria o impact de uma foto que lhe foi entregue pelo amigo Ruy Faquini. Question de forma Sd que Ruy batera aquela foto mais de um ano antes, sem a in- tengio de publicA-la e com um outro tipo de preocupagio: pro- duzir imagens para peas publi- citdrias. Passeando pelo Ver-o-" Peso, por iniciativa pr6pria ele nem teria feito a foto de uma mo- ga que dormia escorada numa pa- rede se sua esposa nio tivesse in- sistido. Como explicou depois pa-' ra o ombudsman da Folha, Faqui- ni s6 se preocupa corn a forma porque 6 assim que consider ser o trabalho publicitArio. Um dos princfpios dessa "metodologia" 6 "nfio fotografar a misdria". Mas a placa colocada na costa da mu- lher era inusitada: dizia que ela estava A venda. Faquini fez a foto e depois diz ter conversado sobre a situa;iao com as pessoas que estavam As proximidades. Mas nio anotou seus nomes, nio identificou a principal persona- gem, nio levLntou hist6ria algu- ma. Quinze meses depois, como observou o pr6prio ombudsman Mario Vitor Santos (uma esp6cie de fiscal do journal em nome dos leitores),a Folha publicou a foto "sem informar sua data nem o context da situagio, descum- prindo normas do Manual de Re- dagio", uma esp6cie de bfblia sem autoria divina (ao menos se Octavio Frias Filho ainda nio reivindica esse tftulo para si) na o Journal Pessoal 5 redagdo do journal. Aldm disso, atribuiu "A menina a condiqio de prostitute, o que nao foi checado. Sequer sabia o nome dela. Nio sabe at6 hoje". Dimenstein tam- b6m nao se deu ao trabalho de fa- zer a checagem que Faquini, por atavismo publicitArio, considera- va desnecessario. Deixou-se levar pelo impulse sensacionalista, contaminando corn esse vfrus to- do o trabalho posiavo que reali- zara. De outubro de 1990 a feverei- ro de 1992 a paisagem continuou incrivelmente inalterada naquele pedago do Ver-o-Peso. A reporter Sonia Vinas voltou ao cenario e 14 encontrou tres das pessoas que figuram na foto de Fachini. 0 sapateiro Mozarino Teixeira, o vendedor de revistas Raimundo dos Santos e o engraxate (menor) A. A. M. foram unanimes: o fot6- grafo foi vftima de uma brinca- deira. 0 av6 do rapaz colocou a placa de "vendo" nas costas da moqa e copos de plAstico na ca- bega dela, aproveitando-se de sua bebedeira. Prostituig4o, lenocf- nio, trAfico de mulheres e outros crimes sao correntes em Bel6m, mas o dltimo mercado de escravos foi desativado hA bem mais que 120 anos. Levar a prostitute para vender no principal ponto turfsti- co da cidade, corn uma rdstica placa revelando a natureza do ne- gdcio, seria estupidez. Acreditar que a imagem de uma tal cena possa ser documentario, sem uma rigorosa apuragdo do fato, ao me- nos conforme o sacrossanto "Ma- nual de Redacao" da academia Folha de S. Paulo, 6 puro (puro?) sensacionalismo. A 'melhor" defesa Escoteiro do manual que Oc- tavinho talvez quisesse transfor- mar em tabua das leis do jorna- lismo, Gilberto teria que fazer o caminho de volta ao Ver-o-Peso para ter certeza de estar pratican- do jornalismo e nao publicidade, a ser verdadeira a distingao pou- co dtica que faz seu amigo Faqui- ni. Flagrado no contrap6, reagiu usando a velha tatica do futebol- espetfculo (tambmr algo distinto de jornalismo): foi para o ataque, que costuma ser a melhor defesa. Atacou o governador Jader Bar- balho de omisso, por ter sido in- formado sobre a trAgica situacqo das prostitutes do Cuid-Cuid a 5 de dezembro, sem tomar provi- d6ncias. E classificou de dema- gdgica a iniciativa do journal do governador, que mostrou a farsa da fotografia, sem tratar do md- rito em si da pr6pria situagao. No geral de suas crfticas ao Diario do Pard, Gilberto Di- menstein estA certo, mas no caso especffico nao tem razao. Na histdria do journal hA muitos ou- tros casos de sensacionalismo, ausencia de princfpios 6ticos, desprezo pelas mais elementares regras de jornalismo, de gravida- de incomparavelmente superior ao deslize do reporter da Folha, mas no entrevero especffico a posiqAo de Dimenstein 6 desconfortAvel. 0 Diirio publicou, sem alte- ra(io, a sdrie de reportagens de Gilberto, que nao tocava na omis- sao do governador (detalhe mais do que relevant para autorizar a transcricgo). Depois publicou uma matdria de Palmdrio D6ria, corn a indisfarg vel funq~o de resposta, como notou corn acui- dade (nem sempre frequent) o ombudsman: "Ao descrever realidades mais distantes, a im- prensa sente-se mais A vontade do que ao retratar o caos local", uma tendencia que a faz "colocar o problema em outro lugar, em restringi-lo A esfera alheia". A reportagem de Palmdrio procura- va mostrar que Gilberto nao pre- cisaria percorrer tantos milhares de quil6metros para documentary um problema que estava a metros de distAncia de seu local de tra- balho, t6cnica que tern o condo de acalmar as consciencias e ate- nuar as cobrangas de providen- cias das autoridades locais. Neste ponto, a postura do jor- nal foi oportunista, a servigo do chefe. Mas foi correta ao docu- mentar (expressio semantica- mente anarquizada por uma im- prensa de ocasiao, que investiga "a v6o de pAssaro") a irrealidade do registro fotografico. Sern nun- ca reconhecer o equfvoco de ori- gem, Dimenstein passou ao ata- que, fazendo crfticas que talvez esquecesse se o Difrio do Par& se limitasse a transcrever suas re- portagens. Ele tern razao ao dizer que o governador foi omisso atd o moment de ser forgado a retirar as mulheres que eram mantidos sob cativeiro no garimpo do Cuid-Cuid, mas esta 6 uma suces- sao de omiss6es sem monop6lio, partilhada inclusive pela socieda- de. Ficaria melhor o governador se admitisse essa falha, ao inv6s de declarar desconhecer o garim- po, realidade tao gritante que foi uma das minhas primeiras indica- q6es quando Gilberto chegou A minha casa atrAs de informag6es para sua investigagio. 0 gover- nador nio pode dizer que ignora o que 6 de sua obrigacgo, se nao de sua consciencia, conhecer. Ao contririo do que procurou mostrar Gilberto Dimenstein, nio hA um mercado de mulheres no Ver-o-Peso, nem nunca houve. 0 que hA 6 menos prostitutes confi- nadas em garimpos, expostas a uma condicgo de vida de escravi- dio, gragas ao que ele escreveu. Mas quando o tratamento de uma questao tao s6ria como essa passa a defender de uma esgrima de interesses pessoais e convenien- cias mutuamente excludentes, na- da tambdm garante que tudo nao voltara ao que era antes que cir- cunstancias de moment fizessem as pessoas abandonarem sua le- targia e realizarem, para valer, o que at6 entao fingiam fazer. 0 governador tern a obrigacqo de pelo menos apagar os quadros mais dantescos dessa hist6ria ne- gra e Dimenstein, elevado A con- di~io de membro do conselho editorial de seu journal apds a pu- blicagdo das reportagens, precisa impor-se princfpios que receitua para os outros. S uspendendo a renovacgo de assinaturas, o Jornal Pessoal passa a ser comercializado quase integralmente nas bancas de re- vista, o que nos obriga a traba- lhar um pouco mais no seu visual, limitado pelo precArio esquema de fechamento de sua edicgo. Por esse motivo, retorna a charge de primeira pagina, de autoria do mete6rico artist Luiz Pinto. 0 aspect grAfico tamb6m foi reto- cado, nio tanto quanto havia sido o planejamento de Age de Car- valho. Num gesto de generosida- de, Age fez um belo "bone- co" para este journal, mas as cir- cunstAncias nas quais 6 produzido nos permitiram apenas utilizar al- gumas das sugest6es, consolida- das nesta edigao. Jornal Pessoal SUDAM Um paragrafo maligno A mudanqa de um pequeno parAgrafo no projeto da fd- brica de cimento do grupo Jodo Santos, em Itaituba, poderd custar ao governor o equivalent a 207 milh6es de d6dlares (ou mais de 350 bilh6es de cruzeiros). Atd 1986 o grupo, o dnico que produz cimento na Amaz6nia (uma fAbri- ca em Capanema, a mais antiga, e outra em Manaus), estava obriga- do a auto-suprir de energia a fd- brica que vem construindo ha mais de 10 anos em Itaituba. Essa fol uma esp6cie de puniqgo ado- tada pela Sudam contra a protela- cao na implantagqo do empreen- dimento, que recebe colaboraqio financeira dos incentives fiscais. Originalmente, a unidade - sediada em Prainha iria ser abastecida pela hidrel6trica de Curua-Una. Ao se transferir para Itaituba, foi obrigada a ter que construir uma termeldtrica para garantir os 12 mil kw (mais de uma turbina de Curua-Una) que a fAbrica de cimento consumiria pa- ra produzir 360 mil toneladas anuais de clinquer. 0 parecer da Sudam, que aprovou a relocaliza- 9do da fabrica, garantia que a mudanqa para o auto-suprimento de energia nao acarretaria "qual- quer acr6scimo no investimento". Mas se fossem necessarias inver- s6es adicionais, elas "correrio exclusivamente A conta de recur- sos pr6prios do grupo empresa- ruial", final, uma contrapartida a tanto dinheiro recebido do go- verno. Cinco anos depois de conse- guir a mudanga da localizagqo in- dustrial, o grupo Joao Santos voltou A Sudam com um novo projeto de reformulagio, alegan- do a necessidade de adequar as duas fAbricas que deveria im- plantar simultaneamente (a de Manaus e a de Itaituba), "com os necessarios ajustes nas especifi- caq6es, uma vez que o empreen- dimento de Manaus esta em estA- gio bastante avanqado de im- plantacio e jA em funcionamento, bern como o de Itaituba, embora menos adiantado, apresenta-se tamb6m em um estAgio de im- plantacgo compatfvel com os re- cursos alocados, e o que estd projetado faz parte de um estudo detalhado feito pela Empresa". 0 "detalhe" oculto 0 prefimbulo do projeto sub- metido aos conselheiros da Su- dam nenhuma referencia fazia a um pequeno pardgrafo contend assunto de muito maior relevAncia do que o que estava explfcito na declaragqo de intenq6es. Simplo- riamente colocado no meio de um texto aparentemente t6cnico, o paragrafo dizia: "0 suprimento de energia eldtrica para o com- plexo de Itaituba-PA, segundo in- formag6es prestadas pelos diri- gentes da empresa, sera feito atrav6s da Eletronorte-Celpa, que fard chegar atd o local da fdbrica essa linha de transmission" Isto quer dizer que os respon- sdveis pela elaboragqo do parecer de reformulaqio dos dois proje- tos do grupo Joao Santos, sub- metidos ao Conseiho Deliberativo da Sudam e por ele aprovados (provavelmente sem que o "de- talhe", de tto escondido, fosse sequer percebido) modificaram um dos (tens principals do empre- endimento, desobrigando a em- presa de investor na construgio da usina t6rmica para suprir de ener- gia a fAbrica de cimento e pas- sando o encargo para duas esta- tais (Eletronorte e Celpa). E o que 6 pior: tomando como base para esse deslocamento informa- qio prestada pela pr6pria empresa interessada. A inexistencia de oferta de energia no volume necessArio tern sido a explicaqio dada pelo grupo Joao Santos para quebrar um dos compromissos assumidos em 1977. Naquele ano, em meio a uma intense polemica, o grupo se comprometeu a implantar as uni- dades de Manaus e de Itaituba "na media do possfvel de forma simultAnea". Era a forma de que- brar a resistencia do Pard, con- vencido de que a empresa estava interessada apenas no funciona- mento da unidade de Manaus, usando o calcArio do Pard. A fibrica de Manaus, inaugu- rada pessoalmente pelo entio pre- sidente Jos6 Sarney, funciona desde 1986. A de Itaituba conti- nua aguardando energia, ja agora graqas ao ardiloso dispositivo de 1986 desobrigada de investor na geracgo. Com base em todas as conces- s6es recebidas, o grupo Joao Santos se sentiu estimulado a fa- zer nova solicitaqgo: quer trans- terir para sua fdbrica de Sergipe os equipamentos el6tricos de co- mando de medicao e de control que estao em Itaituba, como as demais peas e equipamentos, ainda nao montados. 0 pedido estd tramitando atualmente na Sudam e, apesar de significar um golpe no jA cambaleante projeto, legalmente nao h6 mais como re- cusar essa transferencia. A novela da segunda fdbrica de cimento do Pard comegou em 1969, quando a Companhia Agroindustrial de Monte Alegre, de um grupo local, conseguiu aprovar seu projeto original na Sudam. Seis anos depois o grupo Joio Santos assumiu o projeto e, desde entao, conseguiu que a Su- dam deferisse todos os seus pedi- dos. Transferiu a sede de Monte Alegre para Prainha e, em segui- da, para Itaituba, onde descobriu uma jazida maior e melhor de calcario, corn 250 nilh6es de to- neladas. Nunca faltou dinheiro para os projetos: mesmo parte do dinheiro sendo oriunda do "bo- lo" dos incentives, anualmente Brasilia prd-determinava as apli- caq6es em favor do cartel, que, assim, nio prezisava se submeter ao leilio de aplicaq6es. Com tanto favorecimento, a dinica contrapartida exigida era a de que a empresa investisse na termeldtrica. A reformulaciao de 1986 nao apenas a isentou desse gasto de capital, como transferiu- o para os costados do poder pd- blico. Apesar das crfticas que vem sendo feitas pelos stores t6cnicos, o governor do Estado continue insistindo em considerar prioridade mAxima a construqAio . 6 6 Jornal Pessoal de uma linha de transmissio de energia da hidreldtrica de Tucuruf para Altamira e Itaituba, investi- mento contabilizado no planeja- mento plurianual da administra- gqo Jader Barbalho em 207 mi- lh6es de d6lares. De Aitamira MINERIO para Itaituba, a Linica fonte de consumo que po- deria justificar essa obra (se nto houvesse alternatives mais bara- tas e tdo eficientes) 6 a fAbrica de cimento do grupo Jodo Santos, onde hA uma diretriz bern defini- da: favorecer os poderosos de plantdo para cobrar deles, multi- 7 plicados, os dividends desses tavores, como o jatinho, eterna- mente post & disposicgo dos que podem diminuir os gastos e au- mentar os lucros do sdcio de um cartel tdo poderoso que faz seu produto tornar-se muito mais caro do que o similar importado da ex- Uniio Sovi6tica. 0 interesse sensivel G raqas a um simples disposi- tivo da Constituigio de 1988, o governor conseguiu cancelar quase um quarto de to- dos os domfnios particulares que havia no pafs sobre jazidas mine- rais, situadas principalmente na Amaz6nia. Tudo nio passava de papel, desde a formagio de em- presas fantasmas atd suas ativida- des de pesquisa para "ingles ver". Mas o anacronismo legal permitia aos detentores desses pap6is, avalizados pela burocra- cia official, "sentar" sobre minas, como dizem os ge6dlogos. Conse- guiam ao mesmo tempo dar valor contdbil a um patrim6nio fictfcio, se protegiam contra a deteriora- g5o inflaciondria e mantinham em caixa um neg6cio para realizar no moment mais favordvel. Corn base no artigo 43 da Constituiaio, o DNPM (Departa- mento Nacional da Produ~Ao Mi- neral) cassou quase seis mil tftu- los minerdrios, do simples alvara ao elo final da cadeia de conces- s6es governamentais relatives ao subsolo, a autorizaiAo de lavra. 0 mais espetacular de todos os atos atingiu o grupo Votorantim, a maior corporagco econ6mica privada brasileira. A CBA (Com- panhia Brasileira de Alumfnio) perdeu os direitos sobre uma ja- zida de 220 milh6es de toneladas de bauxita em Paragominas, no Pard, avaliada em dois bilh6es de d6lares. A reacgo do "chairman" da corporaqio, o multicandidato mal-sucedido (ao governor de Sdo Paulo e A presidencia da Repdbli- ca) Antonio Ermfrio de Moraes, foi a de sempre nesses casos. Acusou o DNPM de ter atingido sua empresa apenas porque ela represent o capital national, deixando imunes grupos multina- cionais que estdo na mesma situa- gdo. Seria mais um capftulo do process de desnacionalizagio da economic brasileira sob o pa- trocfnio de Brasilia. Pode ser, mas nao 6 necessa- riamente isso. 0 ato do DNPM nem deveria ser considerado uma punigio. A rigor, trata-se de mero cumprimento do texto constitu- cional. Mas entio, em favor dos altos interesses nacionais, dos quais se declara defensor, Anto- nio Ermfrio deveria dar nome aos bois, ao invds de deixar a impres- sdo de que suscita o argument simplesmente para tentar reverter a situagqo desfavorAvel a seus interesses. E possfvel que o DNPM esteja dando tratamentos desiguais a competidores e servindo a um jo- go sujo. Admite-se a hip6tese porque isso jd ocorreu antes. 0 departamento, personagem explf- cito de uma trama que envolvia, na sombra dos bastidores, atores mais graduados, favoreceu a Al- coa na transaqio (durante o go- verno do general Figueiredo) de uma outra jazida de bauxita no Pard, a do Trombetas, que o mi- liondrio norte-americano Daniel Ludwig praticamente foi obrigado a ceder A mais poderosa das inte- grantes do cartel do alumfnio. Se antecedentes hd, nem por isso esta autorizada a simples de- duqo. E necessirio provar que o DNPM repete, agora, procedi- mentos danosos de um passado ainda recent. 0 departamento, dirigido na atual administration por um ticnico de larga tradicgo no setor, tambdm nao estd isento da obrigagio de abrir seus arqui- vos e demonstrar a lisura de seu procedimento. Mais do que lim- peza, alias, o acerto de sua ini- ciativa. No mundo capitalist, se uma empresa nio tem condiq6es de desempenhar seu papel no merca- do, deve ceder o espago para quem possa cumprir essa funigio. Apesar das melhores justificati- vas que esteja em condic6es de apresentar para explicar a prote- lagqo na exploragio da mina de bauxita, o grupo CBA nao tern o direito de mant6-la imobilizada porque o patrim6nio 6 da Uniio. A esse bern a empresa teve acesso atravds de uma concessdo a tftulo prec6rio, estabelecida cornm uma cl6usula fundamental: a de pro- duzir num determinado prazo. Esgotado esse prazo, com suas prorrogaq6es possfveis, o Estado tern a prerrogativa de rea- ver o pleno domfnio do patrim6- nio e levd-lo a nova licitagio en- tre interessados. Se esse novo caminho, meridianamente ilumi- nado, nio esta sendo percorrido, que se denuncie o fato e se puna o infrator, ao invds de bloquear a trilha apenas porque algum pode- roso nao mais pode percorrd-la. Caso val a justiga O inqu6rito policial sobre o as- sassinato de Bruno Meira Mattos foi conclufdo nesta sema- na e encaminhado A jufza de ,Santa Izabel, comarca da ocor- rencia. Como se previa, as inves- tigag6es, comandadas pelo dele- gado Gilvandro Furtado, nio apontaram mandantes e executo- res, mas indiciaram 14 pessoas como envolvidas em atividades ilegais ou irregulares, ou suspei- tas de participaqio ainda que indireta no atentado. 0 delega- do nio quis antecipar o conteddo de seu relat6rio, nem fazer co- mentArios a respeito. Um paraense singular P ode-se escolher uma das duas datas para comemora- g6es, mas em ambas hd um dnico personagem principal: o acaraense Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente. A 6 de janeiro de 1821 ele se tornou o primeiro paraense a imprimir um journal, a Gazeta do Par&, que cir- culou em Lisboa. No ano seguinte ele comprou uma grafica na ca- pital portuguesa, transportou-a para Beldm e a 22 de maio colo- cou nas ruas da cidade o primeiro journal rigorosamente paraense, corn o exato tftulo de 0 Paraense. Apesar da passage dos 170 anos dessa important data, a dnica perspective de espantar a desmem6ria local esta no pequeno livro editado por Haroldo Mara- nhfo no Rio de Janeiro, contend dois textos de Patroni: a Disser- tagio sobre o direito de cagoar e a Carta a Salvador Rodrigues do Couto, por ele escritos no perfo- do da primeira maturidade, entire 1817 e 1818. Haroldo escreveu a introducao e montou a mais com- pleta bibliografia disponfvel, al6m de acrescentar uma ilustrati- va cronologia ao livro, co-ediiao das editors Loyola e Giordano, 112 volume da colegao Mem6ria. Patroni foi muita coisa na vi- da, precocemente e com intensi- dade furiosa, limftrofe de um de- sequilfbrio que foi avangando em seu cdrebro com o peso dos anos e a irrealizagio das utopias. Es- teve na contra-mao dos seus contemporaneos, rompeu os gri- lh6es das classificag6es conven- cionais e foi uma personalidade tAo rica e contraditdria que ate hoje sua fascinante biografia continue a espera de um autor a altura dela. Nenhum tern se aproximado mais dessa aproximagAo do que, Haroldo MaranhAo. Diante da di- ficuldade para tratar um material primdrio caoticamente disperse e fontes secundarias inadequadas, Haroldo optou por uma ficqAo a meio pd do romance "a clef" pa- ra exaltar Patroni e transcende-lo em Cabelos no Corarao, o maior acontecimento na literature pa- raense desde Dalcfdio Jurandir (apenas uma referencia, ja que o livro pertence a solitaria dinas- tia de produtos do porte de Gran- de Sertio: Veredas). Cabelos, entretanto, nio 6 nem exatamente e nem sobretudo biografia roman- ceada, mas a obra capital de um escritor experimental com rafzes firmamente plantadas na sua ter- ra, acometido de uma terqi be- nigna vocabular, um paludismo de inventive sem freios e frontei- ras. Sem biografia A publicagio dos dois textos, em si mesmos incapazes de tradu- zir completamente o pensamento de Patroni, mas um avango consi- deravel em relaqao a desleixada reuniao de suas "obras escolhi- das" pelo Conselho Estadual de Cultura, pode ser mais um pass dado por Haroldo Maranhio para suprir uma das maiores lacunas na historiografia regional. E fas- cinante a trajet6ria de um humil- de caboclo do interior paraense que consegue chegar A famosa Universidade de Coimbra, faz um curso brilhante atd o bacharelato, assume a representagio do seu Estado junto A c6rte, 6 poliglota, domina uma vasta frente de te- mas, assume uma militancia soli- taria, desafia conveng6es e per- corre uma trajetdria encrespada ate sucumbir A apoplexia, doenga que fulminaria um m6s depois a dnica companheira de vida, sem deixar descendentes. Meu primeiro contato corn Patroni foi aos 17 anos, quando escrevi reportagem de pagina in- teira para a capa do segundo ca- derno de A Provfncia do Park. Eu nAo sabia que a iddia entao domi- nante era de que Patron nao pas- sava de um louco. Depois de ler manuscritos e alguns jornais no Arquivo Pdblico, eu ficara fasci- nado por aquele home, espe.- cialmente o jornalista. 0 editor do journal, muito mais velho, mesmo condicionado pelos pre- conceitos vigentes achou que aquela era uma nova roupagem para o mito e deu destaque ao texto, uma suropresa para mim, um convite A curiosidade insatis- feita. Insatisfeitos ainda devem es- tar todos os que se interessaram nao apenas em saber da vida de Patroni, mas buscar-lhe um senti- do, uma definirAo. Nos intervalos em que foi juiz, advogado, polfti- co e pensador, ele foi jornalista. Aldm da Gazeta do Para e de 0 Paraense, foi responsavel por mais tries jornais. Mas na impren- sa paraense ele nao foi muito aldm do que precursor: tres dias depois de 0 Paraense circular Patroni foi preso. A partir daf, o c6nego Batista Campos, um ver- dadeiro panfletirio, assumiu o journal. Que linha teria seguido o journal se seu fundador perma- necesse em liberdade? Perguntas desse tipo cabem emn varios moments da vida de Patroni, marcada mais pela inten- sidade do que pela continuidade, por impulses de lucidez inerrom- pidos por um desequilfbrio (ou uma desorganizagao?) mental que se iria acentuando. Politicamente ele foi tambdm um precursor, cu- jas iddias avangadas em relagao ao rompimento da dependencia colonial e da repdblica eram con- vicgao mesmo, mal expostas de- baixo de uma bern cuidada preo- cupagao tatica, capaz de manter a cabega sobre o tronco, ou oportu- nismo? Para ele bastaria ao Para atualizar-se A monarquia consti- tucional portuguesa do que aventurar-se por uma indepen- dencia claudicante? SAo perguntas que o tempo sd responderd se autores menos con- dicionados por verses forem atris das resposta-. Elas nio vi- rAo enquanto homenagens forem prestadas a Patroni apenas para cumprir obrigag6es formais, como dando seu nome a uma praga ou editando obras que, escritas ap6s 1850, sao antes de mais nada o atestado do delfrio de uma mente vulcanica obrigada a pensar numa planfcie acomodada. Jornal Pessoal Editor responsive: Lucio Flavio Pinto Ilustrajao: Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone: 223-1929 Opqao Editoral |
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