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Journal Pessoal EDITOR RESPONSAVEL : LOCIO FLAVIO PINTO Ano V NQ 85 1a Quinzena de Marqo de 1992 Cr$ 800,00 ELEI(AO A coligaqgo que acabou A coligag&o governista de 1990 nao existe mais: o prefeito de Belem e o grupo Liberal desistiram de apoiar o nome de Helio Gueiros. Os sete integrantes da banca da federal do PDS e d. PTB que atenderam ao con- vite de Romulo Maiorana Jr. para almogar no restaurant do journal O Liberal safram do encontro, no dia 14 de tevereiro, com trds al- ternativas de nomes que a coliga- gio governista de 1990 poderia apoiar como candidate A prefeitu- ra de Beldm na eleigdo deste ano: o ex-governador Helio Gueiros e os deputados Nelson Chaves e Ronaldo Passarinho. Os deputa- dos federais Osvaldo Melo e Ala- cid Nunes, reconciliados apds uma prolongada desavenga e au- tores da iddia de reunir a bancada e alguns de seus apandices, que- riam que a reuniAo simplesmente homologasse o nome de Gueiros. NMo conseguiram. Doze dias depois, o prefeito Augusto Rezende, a principal li- deranga municipal do PTB, deu o golpe final nas pretens6es de uma ala do seu partido e do PDS de impor a candidatura de Hdlio Gueiros & PMB. Numa entrevista dada a 0 Liberal dois dias antes de ser publicada, Rezende disse que o candidate do PTB deveria ter muito amor pela cidade, dis- posigfo para trabalhar e a capaci- dade de "manter um amplo en- tendimento administrative com as autoridades federais e estaduais, a fim de assegurar recursos para viabilizar obras e servigos essen- ciais". Corn esse requisite, espe- rava impedir que a populag&o "jA tAo sofrida seja mais prejudicada por problems polfticos que po- dem ser resolvidos de maneira ci- vilizada". Esse "retrato falado" nao era propriamente uma novidade, mas pela primeira vez Rezende deixa- va os recados indiretos para fazer uma afirmativa frontal: admitiu que o ex-governador "poderia ter sido uma das alternatives do PTB", mas a inviabilizara ao deixar de responder a dois con- vites do partido e "procurar con- versas corn diversos partidos, como o PTR e o PST, nunca comr o PTB". 0 prefeito informava na entrevista que o PTB "esta via- bilizando uma outra candidatu- ra", acrescentando que uma coli- gagdo poderia ser formada em torno de Nelson Chaves e Ronal- do Passarinho, sem definigio ain- da sobre qual dos dois seria o ca- bega de chapa. Rezende aprovei- tava para avisar que serd "o co- mandante do process" e que a decisao final ficard corn ele, "o grupo que nos apdia" e o ex-pre- teito Sahid Xerfan, a quem con- vidou para dividir a articulaqio da campanha. A entrevista nio marcou ape- nas a dissociacgo de Rezende da candidatura H61lio Gueiros, mas tamb6m a posigfo do grupo Libe- ral. Rominho Maiorana atendeu o pedido de Melo e Alacid para a apresentagdo formal do nome do ex-governador como candidate, mas tratou de dar o maior desta- que possfvel & entrevista de Re- zende, editada corn o cuidado de bloquear as vias de acesso do grupo de Gueiros. Na segunda- feira da semana passada, ao rece- ber os membros da Ademi (a as- sociagio do mercado imobilidrio), Rominho disse-lhes que o grupo Liberal iria apoiar a candidatura de Ronaldo Passarinho. Com suas declarag6es, Re- zende antecipou uma decisao que tentara transferir para depois do carnaval, alertado pela ofensiva de stores do PTB e do PDS para transformar a hipdtese Gueiros em fato consumado. 0 primeiro movimento foi o patrocfnio da vinda a Belem do president na- cional do PTB, Paiva Muniz, cu- jas despesas foram pagas pelo mddico Henry Kayath, ex-supe- rintendente da Sudam. Num en- contro no Hilton, Paiva deveria anunciar a escolha do ex-gover- nador, mas o deputado Zenaldo Coutinho rejeitou a iniciativa, de- fendendo o privildgio do coman- do do prefeito. S S 2 Jornal Pessoal A outra investida foi um ma- nifesto assinado por 10 vereado- res (quase um tergo dos assentos na Camara Municipal de Beldm). A pretexto de repudiar "aqueles que se apegam ao poder de tal forma que, contrariando princf- pios morais e dticos, tornam-se adesista (sic) denegrindo a classes polftica e minando sua credibili- dade perante a populacgo", os 10 vereadores estavam langando far- pas contra Rezende. Ele poderia ser enquadrado como um dos po- Ifticos que "fazem da indecisaio uma c6moda posiqio murista, deixando desencadear os fatos polfticos para definir-se somente no moment e ao lado da vit6- ria". De qualquer maneira, jd nio seria mais capaz de manter "coe- sa a corrente oposicionista, evi- tando que o Estado torne-se mo- nop6lio de um dnico grupo", de- vido A sua aproximagio corn o governador Jader Barbalho. 0 tftulo dado por 0 Liberal A entrevista era uma resposta direta aos vereadores (quatro do PTB, dois do PDS e os restantes do PDC, PTR, PSB e PFL): "Rezen- de apressa escolha do candida- to". Na verdade, Rezende ndo escolheu um candidate, mas re- jeitou um nao-candidato para po- der trabalhar as alternatives dis- ponfveis sem a pressdo do ex-go- vernador. Esse foi tambdm o pro- pdsito da inclusio de Xerfan na linha de frente da coligagqo: o ex-prefeito estaria se alinhando corn a candidatura de Ronaldo Passarinho, servindo de anteparo contra Gueiros. Os dois ficaram estremecidos a partir do final da eleigqo de 1990, cada um atri- buindo ao outro a culpa pela der- rota. Sem Rezende e sem o grupo Liberal, resta ao ex-governador a cobertura do PFL, que se trans- formou em propriedade do depu- tado Alacid Nunes, do PTR e de algum outro pequeno partido que ele consiga arrebanhar. Para am- pliar essa estrettfssima frente, Gueiros tentara convencer o ex- deputado Ademir Andrade a de- sistir de ser prefeito e aceitar o segundo lugar na chapa, con- quistando mais preciosos minutes na televised corn a incorporagao do PSB. Marginalizado das es- truturas mais importantes de po- der no Estado, Gueiros devera caprichar na ret6rica, radicali- zando-a ao mrximo, para ter o dnico trunfo que poderA usar: ser o monopolista da oposigio ao go- verno de Jader Barbalho. A con- quista dessa arma dependera, en- tretanto, das outras candidaturas oposicionistas, se elas consegui- rem escapar A image de quintas colunas e adesistas. Candidatura na rua E m 1983 Sahid Xerfan per- deu a prefeitura de Beldm simplesmente por ter visi- tado Jarbas Passarinho, na dpoca sem mandato por ter sido derrota- do no ano anterior, quando tenta- va a reeleicgo para o Senado. Na campanha eleitoral, Passarinho e Jader Barbalho, que concorria pela primeira vez ao governor do Estado, trocaram farpas violentas. O moment crftico da guerra ocorreu quando Passarinho de- nunciou que o governador de Sdo Paulo, Paulo Maluf, estava aju- dando a campanha do candidate do PMDB por tras dos bastidores. Jader retrucou que a acusagdo era coisa de sexagenArio. Passarinho completou que Jader conchecia o assunto porque tinha um sexage- nario em casa, o pai, Laercio Barbalho. Esse clima de retaliacgo ainda estava muito vivo quando, sern avisar ningu6m, Xerfan fez uma visit em Bel6m ao casal Jarbas- Ruth Passarinho. Jader, ja entdo governador e responsdvel pela nomeacao de Xerfan para a pre- feitura de Beldm (naquela dpoca as capitals ndo elegiam seus pre- feitos, indicados pelo governador do Estado), s6 ficou sabendo do encontro atravds de notas do Re- p6rter 70, a principal coluna de 0 Liberal, que na epoca eu redigia. A iniciativa foi considerada um ato de traigio, que impossibilitou a permanencia de Xertan no car- go. Ele foi forrado a pedir demis- sio, embora todos soubessem que a visit fora apenas um pretexto que Jadei usou para se livrar de um concorrente potential A par- tilha do poder polftico. Jader sempre preferiu ser uma estrela solitAria no firmamento. Em 1990 Xerfan e Jader medi- ram forgas em campos frontal- mente antag6nicos, principal- mente por causa do verdadeiro comandante da campanha situa- clonista, que foi o entdo gover- nador H61io Gueiros. Mas ne- nhum dos dois foi tio fundamente no ataque ao outro a ponto de fe- char definitivamente o caminho de um novo entendimento. Ao que tudo indica, a partir da sema- na que vem comegard a ficar cada vez mais claro que Jarbas Passa- rinho, Jader Barbalho, Sahid Xer- fan e, por extensdo, Augusto Re- zende, estardo outra vez no mes- mo lado da dispute polftica. Ao long dos pr6ximos dias o ex-prefeito de Beldm, corn quern Augusto Rezende dividiu a coor- denagio eleitoral do PTB, anun- ciard que o seu candidate A PMB e o deputado Ronaldo Passarinho. Polfticos ligados ao esquema Gueiros garantem que o apoio de Xerfan sera trocado por um substancioso emprdstimo de ca- pital de giro no Banco da Ama- z6nia para as empresas de Xer- fan, em situaqAo diffcil. Porta- vozes desse novo acordo dizem que a hist6ria nio passa de cald- nia e retrucam corn a informaqio de que Xerfan foi obrigado a as- sumir pesadas despesas da ditima campanha eleitoral, inclusive de responsabilidade dos filhos do entdo governador, "porque todos os demais fugiram das responsa- bilidades". Cobrado, um dos fi- lhos do ex-governador teria res- pondido que dfvida de campanha nio se paga. A candidatura de Ronaldo Passarinho chegar, As ruas na prdxima semana, depois que ele tiver conclufdo as dltimas con- versac6es corn Rezende, Xerfan e Jader, isoladamente ou em con- i'-nto. Esses arremates teriam a capacidade de afastar a candida- tura do deputado Nelson Chaves, que continue sendo uma possibi- lidade real de alternative, e uma coligaqio corn o PSDB para colo- car o senador Almir Gabriel como cabega de chapa. Se isso ocorrer, um dos polos em torno do qual vai girar a eleiaio de outubro/no- vembro jA estari definido. Journal Pessoal 3 Uma bolha de Agua, conden- sada na forma de nuvem, corn 14 quil6metros de pro- fundidade, se formou sobre Be- lem no dia 18 de fevereiro e, ao desabar, provocou o mais vio- lento temporal que a cidade so- freu nos dltimos 20, 30 ou 40 anos, conforme as diversas ava- liaq6es que foram apresentadas. A tal zona de convergencia in- tertropical na regiao equatorial, A qual os meteorologists estao -*smpre se referindo, seria a causa principal da inundaqao, a pior que vArias geraq6es jA viram, e que desencadeou prejufzos demo- craticamente distribufdos sobre * todas as camadas da populagao. Esse acaso da natureza, combina- do corn mars altas e agravado por problems estruturais acu- mulados ao long do tempo na capital paraense, de certa forma diminuiram a responsabilidade do personagem invocado, entire im- precaq6es e maldig6es, por boa parte dos atingidos pelo dildvio: o prefeito Augusto Rezende. A chuva do dia 18 foi real- mente pesada, mas nao um event in6dito na hist6ria da regiao. Num perfodo de 24 horas, a esta- .*ao agroclimatol6gica da Embra- pa mediu 130 milfmetros de Agua, enquanto o departamento de me- teorologia do Ministdrio da Agri- cultura somava 116 milfmetros (discrepancia explicAvel pela es- colha de perfodos diferentes do dia para a mediqao). Em 1985, uma chuva de 10 horas alcangou quase 137 milfmetros. Em feve- reiro do ano passado, quando a pluviometria esteve mais pr6xima da m6dia, o dia de mais chuvas registrou 117 milfmetros. 0 que deu caracterfstica espe- cial A chuva do dia 18 foi a in- tensidade da queda de Agua num perfodo mais curto: em apenas quatro horas entiree 16h21 e 20h30) cafram da bolha que se instalou sobre a cidade mais de 109 milfmetros de Agua. Apenas o perfmetro urban de Bel6m rece- beu, assim, uma descarga de Agua equivalent a quase seis bilh6es de litros, uns 15% da Agua esto- cada no reservat6rio da hidrel6- trica de Tucuruf, no rio Tocantins (o segundo maior lago artificial do pafs). Qualquer cidade sofreria corn um ataque desse porte, mas para Beldm a chuva do dia 18 teve umrn significado novo: a cidade, cele- brizada pela saudfvel (embora in- conveniente para as atividades humans em um ndcleo urban) constancia de suas chuvas, tern que passar a considerd-las como fonte de problems. A regulari- dade das precipitag6es indica que a contribuigao do oceano para a formagao das chuvas na Amaz6- nia (responsavel por 50% do to- tal) permanece estAvel. Mas Be- l1m nao tern mais condig6es de absorver volumes de Agua que antes escorriam sem causar tantos transtornos, prejufzos, inc6modos e tens6es. 0 registry hist6rico de precipitag6es tdo intensas quanto a do dia 18 aponta para events que, vistos da perspective de ho- je, parecem c6micos. Corn a cu- riosidade que faltou aos repdrte- res, a engenheira agr6noma Ta- tiana Deane de Abreu SA foi atrds de jornais antigos e verificou que verdadeiros dildvios resultavamr na morte de pintinhos nos quin- tais. Na Belem de hoje jA hA vf- timas humans. A cidade cresceu - e cresceu muito mal, bloquean- do as vias de drenagem e iludin- do-se, corn o aterro distribufdo sem critdrio, sobretudo em perfo- do electoral, que seu sftio nao A mais um pantano. NAo podendo resolver pro- blemas de infraestrutura, o pre- feito Augusto Rezende fez seu nome corn obras de perfumaria, concentradas nos espinhagos de terras menos baixas, e corn a tra- dicional obturagao dos buracos que se abrem por conta da inade- quaago do uso do solo dado pelo home corn as condig6es naturais do terreno, ma homeopatia de cujo receituario fazem parte a restauragao de estivas nas baixa- das, a pintura de meio-fio, as polainas das mangueiras e outras mesinhas da mesmice municipal, sempre acompanhadas de histd- rias tortas (e tortuosas) sobre os executantes dessas obras e com- padrios afins. 0 eterno secretario Wady Homci, especialista no ma- no-a-mano do conhecimento da cidade, contabilizou mil obtura- 96es perdidas por causa da chuva, buracos mal fechados por um as- falto de terceira. Mais Agua, co- mo a que se espera para o margo das mars equinociais, e o que era pavao virard urubu. Em favor do prefeito e das d mais autoridades direta ou indi- retamente envolvidas corn a questdo pode-se argumentar que nada se pode fazer enquanto nio comegar o program de macro- drenagem da maior de todas as bacias da cidade, a do Una, o mais important de todos os tem- pos, corn investimento de 210 milh6es de d6lares. Mesmo que em menores dimens6es, outras obras desse tipo, como as da Do- ca de Souza Franco, do canal do Reduto ou da Almirante Taman- dard, tiveram efeito apenas de curto prazo, incapazes de manter seus beneffcios corn o cresci- mento ffsico e human da cidade. Como atenuante, pode-se con- siderar que jA estA na Camara Municipal para discussed e vota- g5o o piano director de Belem, a fonte de referencia para uma agao em maior extensdo e profundida- de do que a reunido de quinqui- lharias administrativas que duram um mandate de prefeito e nio autorizam nenhum deles a entrar para o Album da mem6ria coleti- vo. A d1tima fotografia unanime- mente cativa 6 a do velho Lemos, mas desde os relat6rios que ele produziu no infcio do sdculo acumulam-se nas prateleiras fon- tes tdcnicas e tedricas de enqua- dramento dos problems belenen- ses, muitas delas judiciosas, raras nio mais do que aquela literature decorative de estantes bern emol- duradas. As chuvas de fevereiro, pre- lddio das que se espera para mar- go das mars equinociais, pode servir de alerta definitive. A Agua, como o fogo, tern um valor catartico, terapeutico e pedag6gi- co, embora frequentemente aja corn violencia, como dio teste- munho os textos bfblicos. A Be- 1dm fin-de-si6cle teve seu dild- vio. Espera-se, agora, que tenha sua ligao. CHUVAS 4 0 alerta do diluvio 4 Jornal Pessoal NAVEGAQAO Entre ondas ocultas principal program turfstico no Pardi um passeio pelo Marajd, a maior ilha fluvial do planet. Mas para quem nao tern acesso ou nAo se interessa pelos razoavelmente bem organi- zados "tours", ir ao Maraj6 pode se transformar num inferno, so- bretudo quando o rumo nada tern a ver corn as rotas turfsticas. Quem vai numa semana preten- dendo voltar na outra pode estA exposto A desgradavel surpresa de ficar literalmente ilhado por mais sete dias. Algumas cidades sdo atingidas apenas por embarcag6es de prefeituras municipais, que costumam entrar em panes demo- rados e sem aviso previo. Por causa desses contumazes contra- tempos, quando ha viagem todos querem garantir seu lugar, mesmo se b custa da superlotagao e da ausencia dos mfnimos requisitos de seguranqa, duas das principals causes dos graves acidentes que costumam ocorrer na regiao. Viajar de barco pela maior bacia fluvial que existe no mundo so 6 Agradivel mesmo para os passageiros corn maior capacida- de aquisitiva, sobretudo os turis- tas. Para o native, 6 uma contin- gencia indescartavel que pode re- sultar em trag6dia. As maiores, na navegagao fluvial brasileira, aconteceram na Amaz6nia. Na d6cada de 80, cada um dos dois maiores naufrAgios regionais vi- timou 10 vezes mais pessoas do que o acidente corn o "Bateau Mouche", de maior repercussao national por ocorrer na bafa do Rio de Janeiro, ao alcance visual da mfdia. Embora atinjam 20 mil quil6- metros de extensao, as grandes vias navegAveis da Amaz6nia, frequentadas por niao menos que 80 mil embarcac6es (o registry vai bem aldm, mas inclui barcos ja desativados), estao em piores condic6es do que as sofrfveis es- tradas de rodagem, implantadas com profundas agress6es ao am- biente. Os caminhos fluviais, op- go natural e inteligente (tanto por fazer parte da natureza como por ser mais barata do que qual- quer outra produzida pelo ho- mem), sofrem as consequ6ncias da incdria humana. Barcos nio equipados, manobrados por gente nio habilitada, sem dispor da mais elementary estrutura de apoio, transitando por rios con- gestionados, sem ateniao.aos fa- tores naturais (como toras de ma- deira flutuando na Agua) e, o que 6 mais recent nessa sucessio de transtornos, exposta & agressiio do vibrAo col6rico, facilitada pela transformag~o do rio em esgoto a cdu aberto. A situag~o pode ficar ainda pior corn a decision do governor federal de privatizar a maior e - apesar de tudo melhor empresa regional de navegagao, que Ihe pertence. A venda a particulares da Enasa (Empresa de Navegagio da Amaz6nia) 6 apoiada pela opi- niao pdblica local, cansada de ver a velha empresa, fundada pelos ingleses no sdculo passado, a partir de uma semente plantada pelo Bario do Rio Branco em 1852, transformada em instru- mento de favors pessoais e clientelismo polftico, elements que estio na raiz de seu deficit cr6nico. Um padrio elementary de rigor administrative, eficiencia operacional e seriedade financei- ra bastaria para garantir a auto- suficiencia da Enasa, mas suas sucessivas direg6es, formadas conforme as conveniencias do compadrio politico e das mentali- dades fisiol6gicas, foram incapa- zes de estabelecer tal padriao. Afundaram-na em sucessivos es- candalos e crises que corroeram sua imagem e colocaram em se- gundo piano sua vital funcio so- cial. A melhor esperana regional, de que a privatizaqio (al6m de nio ser mais um negdcio favore- cido na sucessio de ag6es entire amigos que costuma marcar os atos do governor) resultasse em uma administrag o decent, pode dissolver-se com o just receio de que a transagio acabe liquidando a Enasa e deixando 6rfis as de- zenas de milhares de clients que vinham tendo, nos navios dessa empresa pdblica, o dnico meio de transport pelos abandonados - mas ainda assim habitados, apesar da vision em contrario de Brasilia - rios amaz6nicos. 0 advogado Eduardo Grandi renunciou, na semana passada, ao seu cargo no conselho de administragio da em- presa exatamente por achar que o patrim6nio da Enasa pode ser deslocado para outra region. 0 prego mfnimo fixado pelA comissio de privatizaq~o do go- verno, de 17,1 milh6es de d6la- res, foi considerado aqudm do valor real do patrim6nio lfquido por Carlos Rocque, ex-presidente da empresa. Rocque acredita que o valor real seria de US$ 46 mi- lh6es, contra uma dfvida apurada em dois milh6es de d6dlares, que pode aumentar apenas um pouco mais com a contabilizagio das pendEncias trabalhistas. 0 fil- mignon, que exerce maior fascf- nio sobre os oito pretendentes que jd se manifestaram do que a care de pescogo de alguns pro- blemas incrustados na administra- cao da empresa, s.o os estaleiros existentes em Beldm e Manaus, dos melhores da regiao, e dois navios tipo catamari, usados para o turismo de luxo. Sd6 eles, ga- rante Rocque, representam 70% do valor do lance mfnimo esta- belecido para o leilio. A questio do prego ainda vai ser bastante discutida em funrdo das bem alimentadas suspeitas que essas alienac6es de patrim6- nio sempre suscitam na descon- fiada opinion pdblica. Especula- se sobre interesses combinados do secretirio national do desen- volvimento regional, Egberto Baptista, e do governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, em uma das empresas pretenden- tes & Enasa, o mesmo grupo que recentemente conseguiu aprovar ur-, volumoso projeto de trans- porte intermodal na Sudam. Tal- vez esse interesse possa ajudar a compreender a falta de resposta dos governor estaduais para a consult do BNDES, que poderia transferir a Enasa das mios da Unido para a dos Estados. Ini- cialmente, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econ6mico e Social estava disposto a patroci- Jornal Pessoal 5 nar uma operaqao vantajosa, atra- v6s da qual o governor federal fi- caria corn o passivo da Enasa, li- berando-a de seus entraves es- truturais para poder operar me- Ihor em novas mdos. Mas depois, ao que se sabe por decisao supe- rior de Brasilia, a .bsorgao da Enasa passou a envclver todos os 6nus, o que pode ter influfdo tanto ou mais do que operaq6es de bastidores para favorecer al- gu6m. Os Estados, de qualquer maneira, abandonaram a luta que sustentaram durante meses, acei- tando a privatizaqgo. Somente depois de sacramen- tada a decisao pelo BNDES, o governador Jader Barbalho, que indicou o mais recent president da Enasa, seu ex-secretdrio ClAu- dio Furman, se manifestou contra a avaliaqAo do patrim6nio da em- presa, que considerou excessiva- mente baixa (posicgo patrilhada de pdblico ou para o pdblico - por Egberto Baptista). 0 gover- nador anunciou que iria pedir um estudo A Secretaria de Transpor- tes e talvez viesse novamente a participar do esquema, se a hi- pdtese suscitada pelo secretario do desenvolvimento regional, de que a licitagqo iria demorar muito mais do que estava previsto (umrn ano, profetizou ele), se concreti- zar. Os resultados quem vai sentir ndo serd mais a elite, mas o assim chamado povAo, com o sdbito e ampliado deficit na relagio na- vio/passageiro, se o desfecho da novela for o que prev6 o advoga- do Eduardo Grandi. Ele tentou convencer os membros da comis- slo de privatizacgo a incluir uma exig8ncia no edital: de que as embarcag6es deveriam continuar em uso na Amaz6nia. Mas os t6c- nicos argumentaram que assim haveria um decrdscimo de inte- resse pela arrematagAo e o valor decairia ainda mais. Esses foram os motivos que Grandi utilizou para devolver aos t6cnicos a seu- ranga que eles expressavam de que o novo proprietdrio da Enasa manteria as embarcag6es na re- giao porque, tecnicamente, essa seria a melhor alternative. Se es- sa fosse realmente a intengao, a definigao da condicionalidade nao teria o efeito de afetar o inte- resse e o valor do lance mfnimo. Com esse final, varios pontos de embarque e desembarque fica- rao inativos ou perderao a fre- quencia de navios, deixando o morador da beira de rio como aquela personagem de uma das mais famosas composig6es de Chico Buarque de Hollanda, ven- do a banda no caso, o barco - passar sem poder entrar no cor- tejo. Navios em condig6es de na- vegagao segura, na maior de to- das as bacias fluviais, sao cada vez mais miragens, que o governor cria e apaga, conforme sua irres- ponsAvel vontade e a convenien- cia de quem poderia opor-se a ela. Uma etica a venda C om sua sdrie de reportagens sobre prostituiqao na Amaz6- nia, o jornalista Gilberto Di- menstein conseguiu dois efeitos positivos: melhorar, mesmo que temporariamente, a condigio de vida de algumas das personagens das hist6rias que coletou, e report o delicado tema em debate. Bas- taria a um jornalista ir a campo com sensibilidade e compet&ncia para juntar casos revoltantes, co- mo os descritos pelo director da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasilia, ou por Palmdrio Ddrea, na Tribuna da Imprensa (republi- cado no Diirio do Para).Mas Di- menstein nao precisaria colocar uma laranja podre nesse paneiro, comprometendo a credibilidade de tudo o que contou e contami- nando seu texto corn a suspeita do sensacionalismo e da m6 f6. 0 problema 6 uma foto que saiu na primeira pAgina da Folha na abertura da sdrie de reporta- gens (e republicada, na semana seguinte, no resume do noticidrio que o journal costuma fazer as se- gundas-feiras). A foto, de uma suposta prostitute que estaria sendo vendida em pleno Ver-o- Peso, o mau cheiroso e maltrata- do cartio postal de Beldm, 6 fal- sa. Os mais c6ticos deduziram lo- go que se tratava de uma monta- gem do fot6grafo. Mas os depoi- mentos de alguns dos homes que aparecem na fotografia levaram A concluso de que, na melhor das hipdteses, o fot6grafo foi vftima de uma brincadeira comum na- quela area do mercado. A mulher (que nao 6 menor) aparece inva- riavelmente bebada no local. Na- quele dia, como em outros, fize- ram uma brincadeira corn ela: colocaram um placa de venda nas costas e copinhos de plAstico na cabega dela, aproveitando-se do torpor da bebedeira. 0 fotdgrafo achou a cena su- gestiva e registrou-a. Mas daf a dar-lhe valor documental vai uma distancia que a 6tica e a inteli- g6ncia nio permitem a um jorna- lista percorrer, ainda mais algudm que conhece razoavelmente bem o cendrio. 0 que seria incompetent ingenuidade (Bertolt Brecht esta- va certo ao combater a ingenui- dade, para ele prova lamentivel de insensibilidade) pode se trans- formar em ma fd, jornalismo sen- sacionalista, de promogAo pes- soal, que dA relevAncia A vaidade do autor sobre a necessidade e integridade de seu leitor. Di- menstein, antes de aceitar a foto como evid8ncia de uma realidade, deveria apurar o fato, ainda mais porque a foto foi obtida por en- comenda e produzida meses antes da passage do reporter pelo lo- cal. Nao existissem todos esses complicadores, haveria ainda o recurso ao bom senso: um ele- mentar raciocfnio Idgico mostra- ria o absurdo de expor de maneira tola um neg6cio que, feito sem o estardalhago do cartaz de vende- se, 6 praticado corn desenvoltura em Cuid-Cuid, Bel6m, Brasilia ou SAo Paulo. Com seu erro, Dimenstein deu munilAo aos que queriam um pretexto para nao tratar de um tema que, a esta altura, mesmo considerado corn a mAxima serie- dade, escapa A capacidade de en- quadramento e resoluqAo das di- tas autoridades competentes. 6 Jornal Pessoal IMPRENSA Alternative sem said primeiro ndmero do journal O Pasquim vendeu 20 mil exemplares, em 1969. Mais 10 mil leitores compraram o nd- mero dois. A terceira edigfo ven- deu 40 mil jornais. 0 ndmero 32 atingiu o pique de 225 mil exem- plares. No seu primeiro ano de existencia, 0 Pasquim deu lucro de 140 mil ddlares. Em apenas sete meses de vida ja havia se tornado auto-suficiente. A publi- cidade, em alguns moments, ocupou 30% do espago de suas pAginas. Nem o Village Voice, antecedente novaiorquino criado em 1955, teve carreira tAo meted- rica: 12 anos depois de langado ainda vendia somente 75 mil exemplares e s6 deixou de dar prejufzo apds sete anos. Mas o Village continue colocando nas ruas sua edigio semanal de mais de 150 pAginas, 40% delas ven- dendo andncios, passados 27 anos do langamento. JA o Pasquim morreu de complete inanigao, em 1988, depois de passar muito tempo vendendo nAo mais do que tr8s mil exemplares e completa- mente desmoralizado. Nenhum drgao da imprensa alternative teve o sucesso de 0 Pasquim (tftulo posteriormente encurtado para simplesmente Pas- quim). Foi ele tambdm o rarfssi- mo caso na pequena imprensa de publicagAo que esteve bem perto de se tornar uma empresa rentil- vel, capaz de escapar ao folego curto que caracteriza a esmagado- ra maioria desses jornais. Entre 1964 e 1980, o jornalista Bernar- do Kucinski registrou 150 perid- dicos, dos quais 25 conseguiram durar mais do que cinco anos. 0 perfodo de anAlise nao foi esco- Ihido por acaso, mas a partir da generalizada presungio de que a imprensa alternative s6 surgiu e se desenvolveu como contrafagao A "16gica da ditadura": sua Lnica razfo de existir seria precisa- mente "a resistencia". Acabada a ditadura, deixavam de vigorar os motives que haviam levado ao florescimento dessa forma alter- nativa de fazer imprensa. Kucinski nao concorda intei- ramente com a explicagio e seu volumoso e desigual livro (Jor- nalistas e Revolucionarios, Scritta Editorial, 399 paginas) busca as causes principals mais no "imagindrio" dos que fizeram a imprensa alternative do que na agio "daqueles que nao a quise- ram". E uma pena que Bernardo Kucinski tenha feito seu trabalho mais como academic (original- mente trata-se de uma tese de doutoramento defendida junto A Escola de Comunicag6es e Artes da Universidade de SAo Paulo) do que propriamente como um jor- nalista. Ganhariam todos se ele, tateando conceitos e rastreando teorias, imaginasse menos e in- vestigasse mais. Competente es- miugador de fatos, Kucinski, no entauiu, se perde numa selva sel- vaggia de conceitos muito caros a uma nova forma de cronicalismo, exagerada reagAo A obtusidade do historicismo, mas sem valor heu- rfstico. Desabam desse imagindrio coisas como consciente gramscia- no, inconsciente leninista e virias formas de imagintrios, do trots- kista atd o repressive, sem falar no paradigma stalinista. Tendo que entrar numa sala de aula, on- de muitas vocag6es costumam afundar, talvez Bernardo tenha se sentido obrigado a adotar a lin- guagem orweliana de seus pares academicos, para prejufzo da cla- reza e do prazer da leitura. Ainda assim, Bernardo pres- tou um relevant servigo aos jor- nalistas e A opiniAo pdblica ao colocar para fora algumas das sujeiras que a esquerda prefer deixar sob os tapetes de suas histdrias de encomenda. 0 fracas- so de 0 Pasquim, tAo metedrico quanto seu sucesso, deve-se me nos a repressao do governor do que A irresponsabilidade de al- guns dos mais notgveis integran- tes da fauna jornalfstica, como o bern dotado de talentor e nao tanto de carter (e outros penduricalhos morais e 6ticos) Tarso de Castro. Por leviandade, 0 Pasquim con- seguiu fazer-se mais mal, e ao seu pdblico, do que o governor que o perseguiu. Esta, pordm, nao 6 a marca registrada de grande parte dessa generosa e fdrtil vertente da grande imprensa que se recusou a vender o c6rebro (e mais al6m - ou aqudm). Alguns de seus pro- dutos, como Opiniao, alcangaram um nfvel de qualidade internacio- nal. Numa edigao em que ambos trataram do assassinate do estu- dante Alexandre Vanucchi, Opi- niao vendeu 39 mil exemplares e Veja, 42 mil. Durante toda a sua vida, Opiniao representou in- vestimento de 300 mil ddlares. Sd em seus dois primeiros anos, Veja exigiu da Editora Abril dois mi- lh6es de d6dlares. A ligAo que fica da hist6ria da imprensa alternative entire 1964/80 6 de que ela precisa ter tambem uma organizagAo alterna- tiva, uma forma de gerenciar, or- ganizar e situar-se que escape aos grilhdes da grande imprensa e do establishment, que vai da perse- guigco a jornalistas que envere- dam por esse caminho atd a sa- botagem na distribuiiao. Os pro- blemas sao tao graves que, hoje, praticamente esse tipo de impren- sa foi varrida do pals. 0 livro de Kucinski, que exi- giria muito mais do que este sim- ples registro, vemn sendo inter- pretado como um ajuste pessoal de contas cornm Raimundo Rodri- gues Pereira, o mais notdvel dos jornalistas da pequena imprensa paralela. Em varios moments Bernardo deixa de lado sua in- vestigacgo simplesmente para atacar, cornm requintes de cruelda- de, Raimundo, nao sem razao na maioria das ocasi6es. Este '6 um capftulo que merece tratamento & parte. No entanto, independente- mente de todos os erros que Rai- mundo cometeu e das deslealda- des que praticou, 6 glorioso para qualquer imprensa te-lo tido. Hoje, seu crddito inexiste, A custa de tantos erros cometidos, mas o que fez 6 suficiente para de- monstrar que a imprensa alterna- tiva s6 nao consegue se estabele- cer porque tem do outro um go- verrno perverse, uma sociedade abdlica e uma constant carencia de produto essencial A saude de jornais: a liberdade. lornal Pessoal 7 0 jornalismo partidario N o infcio da d6cada de 70, os jornalistas que haviam sobrevivido ao golpe mais brutal sofrido pela imprensa na Repdblica, o Ato Institucional n2 5, nio conseguiam onde publicar as informag6es que apuravam en- quanto profissionais da grande imprensa. As principals publica- 96es estavam censuradas ou ha- viam se acomodado as imposig6es do governor military. Em Londres, onde curtia um auto-exflio, o em- presArio Fernando Gasparian sentiu essa angdstia e juntou-se a Raimundo Rodrigues Pereira, nordestino que quase foi enge- nheiro aerondutico e ffsico atd chegar a sua vocarao jornalfstica (sem diploma especffico), para fundar uma versao brasileira do excelente The New Statesman. Em 1972 comegou a circular Opi- niAo, para o qual convergiram jornalistas insubmissos corn a mag6rrima dieta que a censura lhes impunha das redag6es da grande imprensa. Gasparian e Raimundo esque- ceram que o Brasil nao era a In- glaterra. Fizeram uma competent recriagao do peri6dico londrino, mas como, antes, outros inte- lectuais da esquerda haviam se equivocado na conduqao do Cor- reio da Manha acreditaram que o inimigo seria um tanto risonho e franco, nio se preparando para a censura pr6via. Como Le Mon- de, a mais bem sucedida publica- qio diiria da imprensa alternative alternativea que, no caso do jor- nal parisiense, acabou corn o go- verno Mitterrand), Opiniao se re- cusava a publicar fotografias, usando apenas desenhos. Reuniu os melhores desenhistas do pafs na ocasiio (Luis Trimano, Cassio Loredano e Grillo, aldm das oca- sionais incurs6es de Elifas An- dreatto), mas o governor sentiu-se particularmente atingido pelas ilustrac6es, cada vez mais agres- sivas, e passou a veta-las massi- vamente, tirando um dos princi- pais pds de apoio do journal. Esse foi apenas um dos erros estrat6gicos de Opiniao, mas ho- je, reconstituindo sua hist6ria a partir do livro de Bernardo Ku- cinski, pode-se perceber que ha- via um mal-entendido de origem, ou uma distorgao 6tica, sobre a qual os jornalistas realmente inte- ressados no future de uma im- prensa alternative A estabelecida deveriam pensar sem preconcei- tos. Ao ser convidado por Gaspa- rian para dirigir Opiniao, Rai- mundo Pereira mandou investigar aquele burgu8s disposto ao mece- nato. Gasparian nao mandou in- vestigar Raimundo, que, segundo Bernardo, jA mantinha entendi- mentos corn a AP (Aqao Popular, de origem crista, passando depois ao marxismo-leninismo), o dnico partido clandestine previamente informado da iniciativa. Raimun- do sabia das limita6ges de Gaspa- rian e de todo o mecenato, mas o empresirio ignorava as articula- q6es polfticas de seu editor. Coi- sas da heranqa mental do leninis- mo. Opiniao nao chegou a sofrer ostensivamente os efeitos dessa vinculagqo camuflada porque sua redagdo era composta de jorna- listas da mesma estatura de Rai- mundo, boa parte deles que es- creviam para o journal simples- mente para transmitir a opiniao pdblica suas preciosas informa- q6es. Mesmo que quisesse (e par- ticularmente duvido que naquele moment esse fosse um objetivo important para ele), Raimundo nao conseguiria atrelar Opiniao a uma linha partiddria. 0 journal foi um dos mais brilhantes moments da imprensa brasileira, que su- cumbiu nio tanto por equfvocos de concepgqo ou dissenq6es in- ternas, mas pelo esmagamento da censura, sem que houvesse da parte da sociedade a mais d6bil resistencia. JA Movimento foi uma frus- traqao praticamente desde o prin- cfpio. Corn exagero, Kucinski ga- rante que Raimundo sd aparente- mente conduzia o journal, sendo na verdade um fantoche manobra- do por Duarte Pacheco, idedlogo do Partido Comunista do Brasil, que "tornou-se, na clandestinida- de, o idedlogo e mestre polftico de Raimundo, surgindo uma rela- gio de dependencia devido A ig- norAncia de Raimundo 'em matd- ria de polftica para o nfvel de responsabilidade que me foi posta nas maos"'. Atravds de orienta- q6es que as vezes eram transmiti- das pela Radio Tirana, da Alba- nia, o PC do B controlava de fato Movimento, acabando por trans- formd-lo num journall de seita", embora sua origem tenha sido "a mais ambiciosa campanha dz ar- recadagao de funds jA feita por um projeto de imprensa alternati- va". Metade dos quase 100 mil ddlares, conseguidos principal- mente junto a outros jornalistas, foram gascos em apenas quatro meses, quando a vendagem de Movimento ja era declinante e seu sectarismo afastava vArios dos jornalistas que nele haviam ingree, ado a partir da experiencia em OpiniAo. Bernardo Kucinski quer mos- trar que o PC do B 6 responsAvel por alguns dos desvios e insuces- sos dos empreendimentos da grande imprensa alternative de 1964 a 1980. 0 diagn6stico 6 correto. Mas Bernardo acaba se deixando levar pelo mesmo erro, quando tenta trocar a utopia do PC do B pela do PT, o Partido dos Trabalhadores. E o rango que p6e sob suspeita observag6es car- regadas de adjetivaqAo, como ao afirmar que Movimento "foi ga- nhando um perfil estranho, no fi- nal de 79", simplesmente por se recusar "a reconhecer no movi- mento operario do ABC o centro de gravidade das oposig6es". Tambdm sujeito a legftimas con- testag6es, Bernardo diz que Rai- mundo "preferiu fechar" Movi- mento para nao permitir que o journal "cafsse sob o control da forga polftica que se tornava he- gem6nica no movimento popular, o PT". Para o bem dos jornalistas, dos jornais, da opiniao pdblica e de toda a sociedade, 6 melhor que os partidos fiquem a distancia do control da imprensa. Neste par- ticular, sao como macacos em loja de lougas e 6 pouco provd- vel que se eduquem para aceitar que imprensa manipulada ou con- duzida nio vale a pena. As obras de Jader N os tres anos que ainda lhe restam de mandate, o gover- nador Jader Barbalho pretend investor um bilhAo de d6lares (mais de cinco vezes o orgamento realizado em 1991) nos tr8s seto- res estratdgicos da sua adminis- tragco, nao incluindo nessas contas os 210 milh6es de ddlares do program de macrodrenagem de Beldm, corn 70% dos recursos financiados pelo Banco Interame- ricano de Desenvolvimento. A Secretaria de Transportes tera di- reito a US$ 460 milh6es, para as obras de energia estio previstos US$ 350 milh6es e para o sanea- mento, US$ 190 milh6es. Essa distribuigao, apresentada na mensagem que o governador leu no plendrio da Assembldia Legislative, na abertura dos tra- balhos parlamentares, no mes passado, 6 audaciosa para um pe- rfodo retratado como crftico pela maioria das previs6es. 0 gover- nador, entretanto, diz-se disposto a nao permitir que sua gestao se esgote na manutengao em dia do pagamento dos servidores pdbli- cos estaduais. Nos 11 meses ini- ciais de seu governor, o custeio da folha de pessoal e dos encargos sociais absorveu apenas 55% do orgamento, abaixo do limited constitutional de 65%. A verba de investimento alcangou quase 22%,. garantida por um cresci- mento da receita prdpria para o pico de 60% de toda a arreca- dagao (as transferencias federais ficaram abaixo de 40%). 0 servi- go da dfvida nio chegou a absor- ver 6% do orgamento. Jader vai se empenhar em ga- rantir essa partilha do dinheiro pdblico, a dnica maneira de fazer um governor que o credencie a en- frentar a dispute senatorial de 1994 sem os estigmas da dltim, eleirao. Mas se o sucesso fiscal e financeiro se consolidar, o que, por enquanto, nao passa de hipd- tese, resta avaliar o program de obras do governor. A maior de to- das elas serd a construg~o de uma linha de transmissao para levar a energia da hidrel6trica de Tucuruf atd o oeste do Pard, alcangando Altamira, Itaituba e Santardm. Jader insisted numa obra dispen- dio-. i (207 milh6es de ddlares) e pouco racional, que poderia ser substitufda corn grande economic de custos e nenhuma perda de re- sultado se pensasse em alternati- vas mais adequadas as peculiari- dades do consumo de energia desses ndcleos. 0 mesmo raciocf- nio se aplica as obras rodovid- rias, espalhadas pelo Estado con- forme os critdrios polfticos de quem pretend manter-se no po- der por bern mais do que dois mandates. Uma zona muy franca Q uando pautas de reuni6es dos conselhos das superintenden- cias regionais de desenvolvi- mento estao volumosamente re- cheadas e ainda assim os conse- lheiros aprovam tudo de roldao, nao tern erro: o acerto prdvio nos bastidores foi mais eficiente do que o encontro formal diante do pdblico. Foi esta a caracterfstica da reuniao do Conselho Delibe- rative, da Suframa (Superinten- dencia da Zona Franca de Ma- naus) no dia 26. Em menos de uma hora, sem pedidos de desta- que, foram aprovados 66 proje- tos, 42 de ampliag~o e diversifi- cagco, e 24 de novos empreendi- mentos. Toda a expectitativa sobre polemicas em torno dos ftens da pauta frustrou-se, mas nao falta- vam motivos para prever uma reuniao movimentada. Era a pri- meira depois de um ano de espera pela nova regulamentag o da Zo- na Franca. Os projetos foram se acumulando e muitos competiam para ver seu pedido inclufdo por saberem que alguns ficariam de fora, o que acabou ocorrendo: seis projetos de fabricagao de utilitarios nio foram pautados, enquanto os da Mitsucar (liderado pela japonesa Mitsui) e da Agir foram aprovados. Os 66 projetos deferidos re- presentam investimento de 250 bilh6es de cruzeiros, mas para viabiliza-los o governor autorizardi as empresas a importer 675 bi- lh6es. Assim, cada dinheiro que sair do bolso dos empresdrios exigird um cruzeiro do tesouro national. E o dinheiro jA sai de bolsos bem dotados. A poderosa AT & T, o gigante das comunica- 96es americanas, investirA 7,6 milh6es de d6lares para fabricar equipamentos de telecomunicagao de ditima geraqao, mas terd di- reito a uma cota de importaago de US$ 48,7 milh6es, numa relag~o de um para seis. 0 fascfnio da Zona Franca sobre as multinacio- nais devera crescer ainda mais por conta do fim da exigencia do fndice de nacionalizagao, um pas- so decisive para transformar a zona em tao risonha e franca co- mo a reuniao do dia 26. Jornalismo liberal6ide 0 Liberal registrou o pronun- ciamento feito no dia 18, no plendrio da Assembleia Legislati- va, pelo deputado (PT) Josd Carlos Lima sobre a possfvel co- nexAo dos assassinatos de Bruno Meira Mattos, Domingos Rangel e Marcio Martins da Costa. Mas o journal eliminou de seu noticid- rio um fato bAsico: o discurso do parlamentar se baseou em tres edig6es do Jornal Pessoal, citado por Jos6 Carlos, como manda a 6tica, a moral e os bons costumes que, pelo jeito, s6 nao conse- guem penetrar na alta diregAo de O Liberal. Mais uma vez ela op- tou por seus caprichos, ao inves de respeitar o direito do leitor do journal a informaqao. Coisas de mentalidade junior. Quanto a conexio, na verdad< ela nao existe, como este journal antecipou e a polfcia confirmou na semana passada, ao menos en- tre as mortes de Bruno e Rangel. O empresArio de Castanhal tinha neg6cios corn Meira Mattos e sua fazenda chegou a ser considerada como o local onde Bruno esteve antes de ser assasinado, mas a hi- p6tese de ele ter algo a ver corn o crime foi afastada, embora Casta- nhal continue sendo considerada um p6lo de investigagao. JA a morte de Rangel resultou de conflito corn os ocupantes da fazenda por ele adquirida algum t.mpo atrds, nada tendo a ver com o assassinate de Bruno. Jornal Pessoal Editor responsivel: Lucio Flavio Pinto llustraao: Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone: 223-1929 Opqao Editoral |
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