Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00070

Full Text










Journal Pessoal
EDITOR RESPONSAVEL : LOCIO FLAVIO PINTO
Ano V NQ 85 1a Quinzena de Marqo de 1992 Cr$ 800,00


ELEI(AO


A coligaqgo que acabou


A coligag&o governista de 1990 nao

existe mais: o prefeito de Belem

e o grupo Liberal desistiram

de apoiar o nome de Helio Gueiros.


Os sete integrantes da banca
da federal do PDS e d.
PTB que atenderam ao con-
vite de Romulo Maiorana Jr. para
almogar no restaurant do journal
O Liberal safram do encontro, no
dia 14 de tevereiro, com trds al-
ternativas de nomes que a coliga-
gio governista de 1990 poderia
apoiar como candidate A prefeitu-
ra de Beldm na eleigdo deste ano:
o ex-governador Helio Gueiros e
os deputados Nelson Chaves e
Ronaldo Passarinho. Os deputa-
dos federais Osvaldo Melo e Ala-
cid Nunes, reconciliados apds
uma prolongada desavenga e au-
tores da iddia de reunir a bancada
e alguns de seus apandices, que-
riam que a reuniAo simplesmente
homologasse o nome de Gueiros.
NMo conseguiram.
Doze dias depois, o prefeito
Augusto Rezende, a principal li-
deranga municipal do PTB, deu o
golpe final nas pretens6es de uma
ala do seu partido e do PDS de
impor a candidatura de Hdlio
Gueiros & PMB. Numa entrevista
dada a 0 Liberal dois dias antes
de ser publicada, Rezende disse
que o candidate do PTB deveria
ter muito amor pela cidade, dis-
posigfo para trabalhar e a capaci-
dade de "manter um amplo en-
tendimento administrative com as
autoridades federais e estaduais,


a fim de assegurar recursos para
viabilizar obras e servigos essen-
ciais". Corn esse requisite, espe-
rava impedir que a populag&o "jA
tAo sofrida seja mais prejudicada
por problems polfticos que po-
dem ser resolvidos de maneira ci-
vilizada".
Esse "retrato falado" nao era
propriamente uma novidade, mas
pela primeira vez Rezende deixa-
va os recados indiretos para fazer
uma afirmativa frontal: admitiu
que o ex-governador "poderia ter
sido uma das alternatives do
PTB", mas a inviabilizara ao
deixar de responder a dois con-
vites do partido e "procurar con-
versas corn diversos partidos,
como o PTR e o PST, nunca comr
o PTB". 0 prefeito informava na
entrevista que o PTB "esta via-
bilizando uma outra candidatu-
ra", acrescentando que uma coli-
gagdo poderia ser formada em
torno de Nelson Chaves e Ronal-
do Passarinho, sem definigio ain-
da sobre qual dos dois seria o ca-
bega de chapa. Rezende aprovei-
tava para avisar que serd "o co-
mandante do process" e que a
decisao final ficard corn ele, "o
grupo que nos apdia" e o ex-pre-
teito Sahid Xerfan, a quem con-
vidou para dividir a articulaqio
da campanha.
A entrevista nio marcou ape-


nas a dissociacgo de Rezende da
candidatura H61lio Gueiros, mas
tamb6m a posigfo do grupo Libe-
ral. Rominho Maiorana atendeu o
pedido de Melo e Alacid para a
apresentagdo formal do nome do
ex-governador como candidate,
mas tratou de dar o maior desta-
que possfvel & entrevista de Re-
zende, editada corn o cuidado de
bloquear as vias de acesso do
grupo de Gueiros. Na segunda-
feira da semana passada, ao rece-
ber os membros da Ademi (a as-
sociagio do mercado imobilidrio),
Rominho disse-lhes que o grupo
Liberal iria apoiar a candidatura
de Ronaldo Passarinho.
Com suas declarag6es, Re-
zende antecipou uma decisao que
tentara transferir para depois do
carnaval, alertado pela ofensiva
de stores do PTB e do PDS para
transformar a hipdtese Gueiros
em fato consumado. 0 primeiro
movimento foi o patrocfnio da
vinda a Belem do president na-
cional do PTB, Paiva Muniz, cu-
jas despesas foram pagas pelo
mddico Henry Kayath, ex-supe-
rintendente da Sudam. Num en-
contro no Hilton, Paiva deveria
anunciar a escolha do ex-gover-
nador, mas o deputado Zenaldo
Coutinho rejeitou a iniciativa, de-
fendendo o privildgio do coman-
do do prefeito.


S
S








2 Jornal Pessoal


A outra investida foi um ma-
nifesto assinado por 10 vereado-
res (quase um tergo dos assentos
na Camara Municipal de Beldm).
A pretexto de repudiar "aqueles
que se apegam ao poder de tal
forma que, contrariando princf-
pios morais e dticos, tornam-se
adesista (sic) denegrindo a classes
polftica e minando sua credibili-
dade perante a populacgo", os 10
vereadores estavam langando far-
pas contra Rezende. Ele poderia
ser enquadrado como um dos po-
Ifticos que "fazem da indecisaio
uma c6moda posiqio murista,
deixando desencadear os fatos
polfticos para definir-se somente
no moment e ao lado da vit6-
ria". De qualquer maneira, jd nio
seria mais capaz de manter "coe-
sa a corrente oposicionista, evi-
tando que o Estado torne-se mo-
nop6lio de um dnico grupo", de-
vido A sua aproximagio corn o


governador Jader Barbalho.
0 tftulo dado por 0 Liberal A
entrevista era uma resposta direta
aos vereadores (quatro do PTB,
dois do PDS e os restantes do
PDC, PTR, PSB e PFL): "Rezen-
de apressa escolha do candida-
to". Na verdade, Rezende ndo
escolheu um candidate, mas re-
jeitou um nao-candidato para po-
der trabalhar as alternatives dis-
ponfveis sem a pressdo do ex-go-
vernador. Esse foi tambdm o pro-
pdsito da inclusio de Xerfan na
linha de frente da coligagqo: o
ex-prefeito estaria se alinhando
corn a candidatura de Ronaldo
Passarinho, servindo de anteparo
contra Gueiros. Os dois ficaram
estremecidos a partir do final da
eleigqo de 1990, cada um atri-
buindo ao outro a culpa pela der-
rota.
Sem Rezende e sem o grupo
Liberal, resta ao ex-governador a


cobertura do PFL, que se trans-
formou em propriedade do depu-
tado Alacid Nunes, do PTR e de
algum outro pequeno partido que
ele consiga arrebanhar. Para am-
pliar essa estrettfssima frente,
Gueiros tentara convencer o ex-
deputado Ademir Andrade a de-
sistir de ser prefeito e aceitar o
segundo lugar na chapa, con-
quistando mais preciosos minutes
na televised corn a incorporagao
do PSB. Marginalizado das es-
truturas mais importantes de po-
der no Estado, Gueiros devera
caprichar na ret6rica, radicali-
zando-a ao mrximo, para ter o
dnico trunfo que poderA usar: ser
o monopolista da oposigio ao go-
verno de Jader Barbalho. A con-
quista dessa arma dependera, en-
tretanto, das outras candidaturas
oposicionistas, se elas consegui-
rem escapar A image de quintas
colunas e adesistas.


Candidatura na rua


E m 1983 Sahid Xerfan per-
deu a prefeitura de Beldm
simplesmente por ter visi-
tado Jarbas Passarinho, na dpoca
sem mandato por ter sido derrota-
do no ano anterior, quando tenta-
va a reeleicgo para o Senado. Na
campanha eleitoral, Passarinho e
Jader Barbalho, que concorria
pela primeira vez ao governor do
Estado, trocaram farpas violentas.
O moment crftico da guerra
ocorreu quando Passarinho de-
nunciou que o governador de Sdo
Paulo, Paulo Maluf, estava aju-
dando a campanha do candidate
do PMDB por tras dos bastidores.
Jader retrucou que a acusagdo era
coisa de sexagenArio. Passarinho
completou que Jader conchecia o
assunto porque tinha um sexage-
nario em casa, o pai, Laercio
Barbalho.
Esse clima de retaliacgo ainda
estava muito vivo quando, sern
avisar ningu6m, Xerfan fez uma
visit em Bel6m ao casal Jarbas-
Ruth Passarinho. Jader, ja entdo
governador e responsdvel pela
nomeacao de Xerfan para a pre-
feitura de Beldm (naquela dpoca
as capitals ndo elegiam seus pre-
feitos, indicados pelo governador
do Estado), s6 ficou sabendo do
encontro atravds de notas do Re-
p6rter 70, a principal coluna de 0
Liberal, que na epoca eu redigia.


A iniciativa foi considerada um
ato de traigio, que impossibilitou
a permanencia de Xertan no car-
go. Ele foi forrado a pedir demis-
sio, embora todos soubessem que
a visit fora apenas um pretexto
que Jadei usou para se livrar de
um concorrente potential A par-
tilha do poder polftico. Jader
sempre preferiu ser uma estrela
solitAria no firmamento.
Em 1990 Xerfan e Jader medi-
ram forgas em campos frontal-
mente antag6nicos, principal-
mente por causa do verdadeiro
comandante da campanha situa-
clonista, que foi o entdo gover-
nador H61io Gueiros. Mas ne-
nhum dos dois foi tio fundamente
no ataque ao outro a ponto de fe-
char definitivamente o caminho
de um novo entendimento. Ao
que tudo indica, a partir da sema-
na que vem comegard a ficar cada
vez mais claro que Jarbas Passa-
rinho, Jader Barbalho, Sahid Xer-
fan e, por extensdo, Augusto Re-
zende, estardo outra vez no mes-
mo lado da dispute polftica.
Ao long dos pr6ximos dias o
ex-prefeito de Beldm, corn quern
Augusto Rezende dividiu a coor-
denagio eleitoral do PTB, anun-
ciard que o seu candidate A PMB
e o deputado Ronaldo Passarinho.
Polfticos ligados ao esquema


Gueiros garantem que o apoio de
Xerfan sera trocado por um
substancioso emprdstimo de ca-
pital de giro no Banco da Ama-
z6nia para as empresas de Xer-
fan, em situaqAo diffcil. Porta-
vozes desse novo acordo dizem
que a hist6ria nio passa de cald-
nia e retrucam corn a informaqio
de que Xerfan foi obrigado a as-
sumir pesadas despesas da ditima
campanha eleitoral, inclusive de
responsabilidade dos filhos do
entdo governador, "porque todos
os demais fugiram das responsa-
bilidades". Cobrado, um dos fi-
lhos do ex-governador teria res-
pondido que dfvida de campanha
nio se paga.
A candidatura de Ronaldo
Passarinho chegar, As ruas na
prdxima semana, depois que ele
tiver conclufdo as dltimas con-
versac6es corn Rezende, Xerfan e
Jader, isoladamente ou em con-
i'-nto. Esses arremates teriam a
capacidade de afastar a candida-
tura do deputado Nelson Chaves,
que continue sendo uma possibi-
lidade real de alternative, e uma
coligaqio corn o PSDB para colo-
car o senador Almir Gabriel como
cabega de chapa. Se isso ocorrer,
um dos polos em torno do qual
vai girar a eleiaio de outubro/no-
vembro jA estari definido.









Journal Pessoal 3


Uma bolha de Agua, conden-
sada na forma de nuvem,
corn 14 quil6metros de pro-
fundidade, se formou sobre Be-
lem no dia 18 de fevereiro e, ao
desabar, provocou o mais vio-
lento temporal que a cidade so-
freu nos dltimos 20, 30 ou 40
anos, conforme as diversas ava-
liaq6es que foram apresentadas.
A tal zona de convergencia in-
tertropical na regiao equatorial, A
qual os meteorologists estao
-*smpre se referindo, seria a causa
principal da inundaqao, a pior
que vArias geraq6es jA viram, e
que desencadeou prejufzos demo-
craticamente distribufdos sobre
* todas as camadas da populagao.
Esse acaso da natureza, combina-
do corn mars altas e agravado
por problems estruturais acu-
mulados ao long do tempo na
capital paraense, de certa forma
diminuiram a responsabilidade do
personagem invocado, entire im-
precaq6es e maldig6es, por boa
parte dos atingidos pelo dildvio:
o prefeito Augusto Rezende.
A chuva do dia 18 foi real-
mente pesada, mas nao um event
in6dito na hist6ria da regiao.
Num perfodo de 24 horas, a esta-
.*ao agroclimatol6gica da Embra-
pa mediu 130 milfmetros de Agua,
enquanto o departamento de me-
teorologia do Ministdrio da Agri-
cultura somava 116 milfmetros
(discrepancia explicAvel pela es-
colha de perfodos diferentes do
dia para a mediqao). Em 1985,
uma chuva de 10 horas alcangou
quase 137 milfmetros. Em feve-
reiro do ano passado, quando a
pluviometria esteve mais pr6xima
da m6dia, o dia de mais chuvas
registrou 117 milfmetros.
0 que deu caracterfstica espe-
cial A chuva do dia 18 foi a in-
tensidade da queda de Agua num
perfodo mais curto: em apenas
quatro horas entiree 16h21 e
20h30) cafram da bolha que se
instalou sobre a cidade mais de
109 milfmetros de Agua. Apenas o
perfmetro urban de Bel6m rece-
beu, assim, uma descarga de Agua
equivalent a quase seis bilh6es
de litros, uns 15% da Agua esto-
cada no reservat6rio da hidrel6-
trica de Tucuruf, no rio Tocantins


(o segundo maior lago artificial
do pafs).
Qualquer cidade sofreria corn
um ataque desse porte, mas para
Beldm a chuva do dia 18 teve umrn
significado novo: a cidade, cele-
brizada pela saudfvel (embora in-
conveniente para as atividades
humans em um ndcleo urban)
constancia de suas chuvas, tern
que passar a considerd-las como
fonte de problems. A regulari-
dade das precipitag6es indica que
a contribuigao do oceano para a
formagao das chuvas na Amaz6-
nia (responsavel por 50% do to-
tal) permanece estAvel. Mas Be-
l1m nao tern mais condig6es de
absorver volumes de Agua que
antes escorriam sem causar tantos
transtornos, prejufzos, inc6modos
e tens6es. 0 registry hist6rico de
precipitag6es tdo intensas quanto
a do dia 18 aponta para events
que, vistos da perspective de ho-
je, parecem c6micos. Corn a cu-
riosidade que faltou aos repdrte-
res, a engenheira agr6noma Ta-
tiana Deane de Abreu SA foi atrds
de jornais antigos e verificou que
verdadeiros dildvios resultavamr
na morte de pintinhos nos quin-
tais. Na Belem de hoje jA hA vf-
timas humans. A cidade cresceu
- e cresceu muito mal, bloquean-
do as vias de drenagem e iludin-
do-se, corn o aterro distribufdo
sem critdrio, sobretudo em perfo-
do electoral, que seu sftio nao A
mais um pantano.
NAo podendo resolver pro-
blemas de infraestrutura, o pre-
feito Augusto Rezende fez seu
nome corn obras de perfumaria,
concentradas nos espinhagos de
terras menos baixas, e corn a tra-
dicional obturagao dos buracos
que se abrem por conta da inade-
quaago do uso do solo dado pelo
home corn as condig6es naturais
do terreno, ma homeopatia de
cujo receituario fazem parte a
restauragao de estivas nas baixa-
das, a pintura de meio-fio, as
polainas das mangueiras e outras
mesinhas da mesmice municipal,
sempre acompanhadas de histd-
rias tortas (e tortuosas) sobre os
executantes dessas obras e com-
padrios afins. 0 eterno secretario
Wady Homci, especialista no ma-


no-a-mano do conhecimento da
cidade, contabilizou mil obtura-
96es perdidas por causa da chuva,
buracos mal fechados por um as-
falto de terceira. Mais Agua, co-
mo a que se espera para o margo
das mars equinociais, e o que
era pavao virard urubu.
Em favor do prefeito e das
d mais autoridades direta ou indi-
retamente envolvidas corn a
questdo pode-se argumentar que
nada se pode fazer enquanto nio
comegar o program de macro-
drenagem da maior de todas as
bacias da cidade, a do Una, o
mais important de todos os tem-
pos, corn investimento de 210
milh6es de d6lares. Mesmo que
em menores dimens6es, outras
obras desse tipo, como as da Do-
ca de Souza Franco, do canal do
Reduto ou da Almirante Taman-
dard, tiveram efeito apenas de
curto prazo, incapazes de manter
seus beneffcios corn o cresci-
mento ffsico e human da cidade.
Como atenuante, pode-se con-
siderar que jA estA na Camara
Municipal para discussed e vota-
g5o o piano director de Belem, a
fonte de referencia para uma agao
em maior extensdo e profundida-
de do que a reunido de quinqui-
lharias administrativas que duram
um mandate de prefeito e nio
autorizam nenhum deles a entrar
para o Album da mem6ria coleti-
vo. A d1tima fotografia unanime-
mente cativa 6 a do velho Lemos,
mas desde os relat6rios que ele
produziu no infcio do sdculo
acumulam-se nas prateleiras fon-
tes tdcnicas e tedricas de enqua-
dramento dos problems belenen-
ses, muitas delas judiciosas, raras
nio mais do que aquela literature
decorative de estantes bern emol-
duradas.
As chuvas de fevereiro, pre-
lddio das que se espera para mar-
go das mars equinociais, pode
servir de alerta definitive. A
Agua, como o fogo, tern um valor
catartico, terapeutico e pedag6gi-
co, embora frequentemente aja
corn violencia, como dio teste-
munho os textos bfblicos. A Be-
1dm fin-de-si6cle teve seu dild-
vio. Espera-se, agora, que tenha
sua ligao.


CHUVAS

4


0 alerta do diluvio








4 Jornal Pessoal


NAVEGAQAO


Entre ondas ocultas


principal program turfstico
no Pardi um passeio pelo
Marajd, a maior ilha fluvial
do planet. Mas para quem nao
tern acesso ou nAo se interessa
pelos razoavelmente bem organi-
zados "tours", ir ao Maraj6 pode
se transformar num inferno, so-
bretudo quando o rumo nada tern
a ver corn as rotas turfsticas.
Quem vai numa semana preten-
dendo voltar na outra pode estA
exposto A desgradavel surpresa de
ficar literalmente ilhado por mais
sete dias. Algumas cidades sdo
atingidas apenas por embarcag6es
de prefeituras municipais, que
costumam entrar em panes demo-
rados e sem aviso previo. Por
causa desses contumazes contra-
tempos, quando ha viagem todos
querem garantir seu lugar, mesmo
se b custa da superlotagao e da
ausencia dos mfnimos requisitos
de seguranqa, duas das principals
causes dos graves acidentes que
costumam ocorrer na regiao.
Viajar de barco pela maior
bacia fluvial que existe no mundo
so 6 Agradivel mesmo para os
passageiros corn maior capacida-
de aquisitiva, sobretudo os turis-
tas. Para o native, 6 uma contin-
gencia indescartavel que pode re-
sultar em trag6dia. As maiores,
na navegagao fluvial brasileira,
aconteceram na Amaz6nia. Na
d6cada de 80, cada um dos dois
maiores naufrAgios regionais vi-
timou 10 vezes mais pessoas do
que o acidente corn o "Bateau
Mouche", de maior repercussao
national por ocorrer na bafa do
Rio de Janeiro, ao alcance visual
da mfdia.
Embora atinjam 20 mil quil6-
metros de extensao, as grandes
vias navegAveis da Amaz6nia,
frequentadas por niao menos que
80 mil embarcac6es (o registry
vai bem aldm, mas inclui barcos
ja desativados), estao em piores
condic6es do que as sofrfveis es-
tradas de rodagem, implantadas
com profundas agress6es ao am-
biente. Os caminhos fluviais, op-
go natural e inteligente (tanto
por fazer parte da natureza como
por ser mais barata do que qual-
quer outra produzida pelo ho-


mem), sofrem as consequ6ncias
da incdria humana. Barcos nio
equipados, manobrados por gente
nio habilitada, sem dispor da
mais elementary estrutura de
apoio, transitando por rios con-
gestionados, sem ateniao.aos fa-
tores naturais (como toras de ma-
deira flutuando na Agua) e, o que
6 mais recent nessa sucessio de
transtornos, exposta & agressiio
do vibrAo col6rico, facilitada pela
transformag~o do rio em esgoto a
cdu aberto.
A situag~o pode ficar ainda
pior corn a decision do governor
federal de privatizar a maior e -
apesar de tudo melhor empresa
regional de navegagao, que Ihe
pertence. A venda a particulares
da Enasa (Empresa de Navegagio
da Amaz6nia) 6 apoiada pela opi-
niao pdblica local, cansada de ver
a velha empresa, fundada pelos
ingleses no sdculo passado, a
partir de uma semente plantada
pelo Bario do Rio Branco em
1852, transformada em instru-
mento de favors pessoais e
clientelismo polftico, elements
que estio na raiz de seu deficit
cr6nico. Um padrio elementary de
rigor administrative, eficiencia
operacional e seriedade financei-
ra bastaria para garantir a auto-
suficiencia da Enasa, mas suas
sucessivas direg6es, formadas
conforme as conveniencias do
compadrio politico e das mentali-
dades fisiol6gicas, foram incapa-
zes de estabelecer tal padriao.
Afundaram-na em sucessivos es-
candalos e crises que corroeram
sua imagem e colocaram em se-
gundo piano sua vital funcio so-
cial.
A melhor esperana regional,
de que a privatizaqio (al6m de
nio ser mais um negdcio favore-
cido na sucessio de ag6es entire
amigos que costuma marcar os
atos do governor) resultasse em
uma administrag o decent, pode
dissolver-se com o just receio de
que a transagio acabe liquidando
a Enasa e deixando 6rfis as de-
zenas de milhares de clients que
vinham tendo, nos navios dessa
empresa pdblica, o dnico meio de
transport pelos abandonados -


mas ainda assim habitados, apesar
da vision em contrario de Brasilia
- rios amaz6nicos. 0 advogado
Eduardo Grandi renunciou, na
semana passada, ao seu cargo no
conselho de administragio da em-
presa exatamente por achar que o
patrim6nio da Enasa pode ser
deslocado para outra region.
0 prego mfnimo fixado pelA
comissio de privatizaq~o do go-
verno, de 17,1 milh6es de d6la-
res, foi considerado aqudm do
valor real do patrim6nio lfquido
por Carlos Rocque, ex-presidente
da empresa. Rocque acredita que
o valor real seria de US$ 46 mi-
lh6es, contra uma dfvida apurada
em dois milh6es de d6dlares, que
pode aumentar apenas um pouco
mais com a contabilizagio das
pendEncias trabalhistas. 0 fil-
mignon, que exerce maior fascf-
nio sobre os oito pretendentes
que jd se manifestaram do que a
care de pescogo de alguns pro-
blemas incrustados na administra-
cao da empresa, s.o os estaleiros
existentes em Beldm e Manaus,
dos melhores da regiao, e dois
navios tipo catamari, usados para
o turismo de luxo. Sd6 eles, ga-
rante Rocque, representam 70%
do valor do lance mfnimo esta-
belecido para o leilio.
A questio do prego ainda vai
ser bastante discutida em funrdo
das bem alimentadas suspeitas
que essas alienac6es de patrim6-
nio sempre suscitam na descon-
fiada opinion pdblica. Especula-
se sobre interesses combinados
do secretirio national do desen-
volvimento regional, Egberto
Baptista, e do governador do
Amazonas, Gilberto Mestrinho,
em uma das empresas pretenden-
tes & Enasa, o mesmo grupo que
recentemente conseguiu aprovar
ur-, volumoso projeto de trans-
porte intermodal na Sudam. Tal-
vez esse interesse possa ajudar a
compreender a falta de resposta
dos governor estaduais para a
consult do BNDES, que poderia
transferir a Enasa das mios da
Unido para a dos Estados. Ini-
cialmente, o Banco Nacional do
Desenvolvimento Econ6mico e
Social estava disposto a patroci-








Jornal Pessoal 5


nar uma operaqao vantajosa, atra-
v6s da qual o governor federal fi-
caria corn o passivo da Enasa, li-
berando-a de seus entraves es-
truturais para poder operar me-
Ihor em novas mdos. Mas depois,
ao que se sabe por decisao supe-
rior de Brasilia, a .bsorgao da
Enasa passou a envclver todos os
6nus, o que pode ter influfdo
tanto ou mais do que operaq6es
de bastidores para favorecer al-
gu6m. Os Estados, de qualquer
maneira, abandonaram a luta que
sustentaram durante meses, acei-
tando a privatizaqgo.
Somente depois de sacramen-
tada a decisao pelo BNDES, o
governador Jader Barbalho, que
indicou o mais recent president
da Enasa, seu ex-secretdrio ClAu-
dio Furman, se manifestou contra
a avaliaqAo do patrim6nio da em-
presa, que considerou excessiva-
mente baixa (posicgo patrilhada
de pdblico ou para o pdblico -
por Egberto Baptista). 0 gover-


nador anunciou que iria pedir um
estudo A Secretaria de Transpor-
tes e talvez viesse novamente a
participar do esquema, se a hi-
pdtese suscitada pelo secretario
do desenvolvimento regional, de
que a licitagqo iria demorar muito
mais do que estava previsto (umrn
ano, profetizou ele), se concreti-
zar.
Os resultados quem vai sentir
ndo serd mais a elite, mas o assim
chamado povAo, com o sdbito e
ampliado deficit na relagio na-
vio/passageiro, se o desfecho da
novela for o que prev6 o advoga-
do Eduardo Grandi. Ele tentou
convencer os membros da comis-
slo de privatizacgo a incluir uma
exig8ncia no edital: de que as
embarcag6es deveriam continuar
em uso na Amaz6nia. Mas os t6c-
nicos argumentaram que assim
haveria um decrdscimo de inte-
resse pela arrematagAo e o valor
decairia ainda mais. Esses foram
os motivos que Grandi utilizou
para devolver aos t6cnicos a seu-


ranga que eles expressavam de
que o novo proprietdrio da Enasa
manteria as embarcag6es na re-
giao porque, tecnicamente, essa
seria a melhor alternative. Se es-
sa fosse realmente a intengao, a
definigao da condicionalidade
nao teria o efeito de afetar o inte-
resse e o valor do lance mfnimo.

Com esse final, varios pontos
de embarque e desembarque fica-
rao inativos ou perderao a fre-
quencia de navios, deixando o
morador da beira de rio como
aquela personagem de uma das
mais famosas composig6es de
Chico Buarque de Hollanda, ven-
do a banda no caso, o barco -
passar sem poder entrar no cor-
tejo. Navios em condig6es de na-
vegagao segura, na maior de to-
das as bacias fluviais, sao cada
vez mais miragens, que o governor
cria e apaga, conforme sua irres-
ponsAvel vontade e a convenien-
cia de quem poderia opor-se a
ela.


Uma etica a venda


C om sua sdrie de reportagens
sobre prostituiqao na Amaz6-
nia, o jornalista Gilberto Di-
menstein conseguiu dois efeitos
positivos: melhorar, mesmo que
temporariamente, a condigio de
vida de algumas das personagens
das hist6rias que coletou, e report
o delicado tema em debate. Bas-
taria a um jornalista ir a campo
com sensibilidade e compet&ncia
para juntar casos revoltantes, co-
mo os descritos pelo director da
sucursal da Folha de S. Paulo em
Brasilia, ou por Palmdrio Ddrea,
na Tribuna da Imprensa (republi-
cado no Diirio do Para).Mas Di-
menstein nao precisaria colocar
uma laranja podre nesse paneiro,
comprometendo a credibilidade
de tudo o que contou e contami-
nando seu texto corn a suspeita
do sensacionalismo e da m6 f6.
0 problema 6 uma foto que
saiu na primeira pAgina da Folha
na abertura da sdrie de reporta-
gens (e republicada, na semana
seguinte, no resume do noticidrio
que o journal costuma fazer as se-
gundas-feiras). A foto, de uma
suposta prostitute que estaria


sendo vendida em pleno Ver-o-
Peso, o mau cheiroso e maltrata-
do cartio postal de Beldm, 6 fal-
sa. Os mais c6ticos deduziram lo-
go que se tratava de uma monta-
gem do fot6grafo. Mas os depoi-
mentos de alguns dos homes que
aparecem na fotografia levaram A
concluso de que, na melhor das
hipdteses, o fot6grafo foi vftima
de uma brincadeira comum na-
quela area do mercado. A mulher
(que nao 6 menor) aparece inva-
riavelmente bebada no local. Na-
quele dia, como em outros, fize-
ram uma brincadeira corn ela:
colocaram um placa de venda nas
costas e copinhos de plAstico na
cabega dela, aproveitando-se do
torpor da bebedeira.
0 fotdgrafo achou a cena su-
gestiva e registrou-a. Mas daf a
dar-lhe valor documental vai uma
distancia que a 6tica e a inteli-
g6ncia nio permitem a um jorna-
lista percorrer, ainda mais algudm
que conhece razoavelmente bem o
cendrio. 0 que seria incompetent
ingenuidade (Bertolt Brecht esta-
va certo ao combater a ingenui-
dade, para ele prova lamentivel


de insensibilidade) pode se trans-
formar em ma fd, jornalismo sen-
sacionalista, de promogAo pes-
soal, que dA relevAncia A vaidade
do autor sobre a necessidade e
integridade de seu leitor. Di-
menstein, antes de aceitar a foto
como evid8ncia de uma realidade,
deveria apurar o fato, ainda mais
porque a foto foi obtida por en-
comenda e produzida meses antes
da passage do reporter pelo lo-
cal. Nao existissem todos esses
complicadores, haveria ainda o
recurso ao bom senso: um ele-
mentar raciocfnio Idgico mostra-
ria o absurdo de expor de maneira
tola um neg6cio que, feito sem o
estardalhago do cartaz de vende-
se, 6 praticado corn desenvoltura
em Cuid-Cuid, Bel6m, Brasilia ou
SAo Paulo.

Com seu erro, Dimenstein deu
munilAo aos que queriam um
pretexto para nao tratar de um
tema que, a esta altura, mesmo
considerado corn a mAxima serie-
dade, escapa A capacidade de en-
quadramento e resoluqAo das di-
tas autoridades competentes.







6 Jornal Pessoal

IMPRENSA



Alternative sem said


primeiro ndmero do journal
O Pasquim vendeu 20 mil
exemplares, em 1969. Mais
10 mil leitores compraram o nd-
mero dois. A terceira edigfo ven-
deu 40 mil jornais. 0 ndmero 32
atingiu o pique de 225 mil exem-
plares. No seu primeiro ano de
existencia, 0 Pasquim deu lucro
de 140 mil ddlares. Em apenas
sete meses de vida ja havia se
tornado auto-suficiente. A publi-
cidade, em alguns moments,
ocupou 30% do espago de suas
pAginas. Nem o Village Voice,
antecedente novaiorquino criado
em 1955, teve carreira tAo meted-
rica: 12 anos depois de langado
ainda vendia somente 75 mil
exemplares e s6 deixou de dar
prejufzo apds sete anos. Mas
o Village continue colocando nas
ruas sua edigio semanal de mais
de 150 pAginas, 40% delas ven-
dendo andncios, passados 27 anos
do langamento. JA o Pasquim
morreu de complete inanigao, em
1988, depois de passar muito
tempo vendendo nAo mais do que
tr8s mil exemplares e completa-
mente desmoralizado.
Nenhum drgao da imprensa
alternative teve o sucesso de 0
Pasquim (tftulo posteriormente
encurtado para simplesmente Pas-
quim). Foi ele tambdm o rarfssi-
mo caso na pequena imprensa de
publicagAo que esteve bem perto
de se tornar uma empresa rentil-
vel, capaz de escapar ao folego
curto que caracteriza a esmagado-
ra maioria desses jornais. Entre
1964 e 1980, o jornalista Bernar-
do Kucinski registrou 150 perid-
dicos, dos quais 25 conseguiram
durar mais do que cinco anos. 0
perfodo de anAlise nao foi esco-
Ihido por acaso, mas a partir da
generalizada presungio de que
a imprensa alternative s6 surgiu e
se desenvolveu como contrafagao
A "16gica da ditadura": sua Lnica
razfo de existir seria precisa-
mente "a resistencia". Acabada a
ditadura, deixavam de vigorar os
motives que haviam levado ao
florescimento dessa forma alter-
nativa de fazer imprensa.
Kucinski nao concorda intei-
ramente com a explicagio e seu


volumoso e desigual livro (Jor-
nalistas e Revolucionarios,
Scritta Editorial, 399 paginas)
busca as causes principals mais
no "imagindrio" dos que fizeram
a imprensa alternative do que na
agio "daqueles que nao a quise-
ram". E uma pena que Bernardo
Kucinski tenha feito seu trabalho
mais como academic (original-
mente trata-se de uma tese de
doutoramento defendida junto A
Escola de Comunicag6es e Artes
da Universidade de SAo Paulo) do
que propriamente como um jor-
nalista. Ganhariam todos se ele,
tateando conceitos e rastreando
teorias, imaginasse menos e in-
vestigasse mais. Competente es-
miugador de fatos, Kucinski, no
entauiu, se perde numa selva sel-
vaggia de conceitos muito caros a
uma nova forma de cronicalismo,
exagerada reagAo A obtusidade do
historicismo, mas sem valor heu-
rfstico. Desabam desse imagindrio
coisas como consciente gramscia-
no, inconsciente leninista e virias
formas de imagintrios, do trots-
kista atd o repressive, sem falar
no paradigma stalinista. Tendo
que entrar numa sala de aula, on-
de muitas vocag6es costumam
afundar, talvez Bernardo tenha se
sentido obrigado a adotar a lin-
guagem orweliana de seus pares
academicos, para prejufzo da cla-
reza e do prazer da leitura.
Ainda assim, Bernardo pres-
tou um relevant servigo aos jor-
nalistas e A opiniAo pdblica ao
colocar para fora algumas das
sujeiras que a esquerda prefer
deixar sob os tapetes de suas
histdrias de encomenda. 0 fracas-
so de 0 Pasquim, tAo metedrico
quanto seu sucesso, deve-se me
nos a repressao do governor do
que A irresponsabilidade de al-
guns dos mais notgveis integran-
tes da fauna jornalfstica, como o
bern dotado de talentor e nao tanto
de carter (e outros penduricalhos
morais e 6ticos) Tarso de Castro.
Por leviandade, 0 Pasquim con-
seguiu fazer-se mais mal, e ao
seu pdblico, do que o governor
que o perseguiu.
Esta, pordm, nao 6 a marca
registrada de grande parte dessa


generosa e fdrtil vertente da
grande imprensa que se recusou a
vender o c6rebro (e mais al6m -
ou aqudm). Alguns de seus pro-
dutos, como Opiniao, alcangaram
um nfvel de qualidade internacio-
nal. Numa edigao em que ambos
trataram do assassinate do estu-
dante Alexandre Vanucchi, Opi-
niao vendeu 39 mil exemplares
e Veja, 42 mil. Durante toda a
sua vida, Opiniao representou in-
vestimento de 300 mil ddlares. Sd
em seus dois primeiros anos, Veja
exigiu da Editora Abril dois mi-
lh6es de d6dlares.
A ligAo que fica da hist6ria da
imprensa alternative entire
1964/80 6 de que ela precisa ter
tambem uma organizagAo alterna-
tiva, uma forma de gerenciar, or-
ganizar e situar-se que escape aos
grilhdes da grande imprensa e do
establishment, que vai da perse-
guigco a jornalistas que envere-
dam por esse caminho atd a sa-
botagem na distribuiiao. Os pro-
blemas sao tao graves que, hoje,
praticamente esse tipo de impren-
sa foi varrida do pals.

0 livro de Kucinski, que exi-
giria muito mais do que este sim-
ples registro, vemn sendo inter-
pretado como um ajuste pessoal
de contas cornm Raimundo Rodri-
gues Pereira, o mais notdvel dos
jornalistas da pequena imprensa
paralela. Em varios moments
Bernardo deixa de lado sua in-
vestigacgo simplesmente para
atacar, cornm requintes de cruelda-
de, Raimundo, nao sem razao na
maioria das ocasi6es. Este '6 um
capftulo que merece tratamento &
parte. No entanto, independente-
mente de todos os erros que Rai-
mundo cometeu e das deslealda-
des que praticou, 6 glorioso para
qualquer imprensa te-lo tido.
Hoje, seu crddito inexiste, A custa
de tantos erros cometidos, mas o
que fez 6 suficiente para de-
monstrar que a imprensa alterna-
tiva s6 nao consegue se estabele-
cer porque tem do outro um go-
verrno perverse, uma sociedade
abdlica e uma constant carencia
de produto essencial A saude de
jornais: a liberdade.








lornal Pessoal 7


0 jornalismo partidario


N o infcio da d6cada de 70,
os jornalistas que haviam
sobrevivido ao golpe mais
brutal sofrido pela imprensa na
Repdblica, o Ato Institucional n2
5, nio conseguiam onde publicar
as informag6es que apuravam en-
quanto profissionais da grande
imprensa. As principals publica-
96es estavam censuradas ou ha-
viam se acomodado as imposig6es
do governor military. Em Londres,
onde curtia um auto-exflio, o em-
presArio Fernando Gasparian
sentiu essa angdstia e juntou-se a
Raimundo Rodrigues Pereira,
nordestino que quase foi enge-
nheiro aerondutico e ffsico atd
chegar a sua vocarao jornalfstica
(sem diploma especffico), para
fundar uma versao brasileira do
excelente The New Statesman.
Em 1972 comegou a circular Opi-
niAo, para o qual convergiram
jornalistas insubmissos corn a
mag6rrima dieta que a censura
lhes impunha das redag6es da
grande imprensa.
Gasparian e Raimundo esque-
ceram que o Brasil nao era a In-
glaterra. Fizeram uma competent
recriagao do peri6dico londrino,
mas como, antes, outros inte-
lectuais da esquerda haviam se
equivocado na conduqao do Cor-
reio da Manha acreditaram que
o inimigo seria um tanto risonho
e franco, nio se preparando para
a censura pr6via. Como Le Mon-
de, a mais bem sucedida publica-
qio diiria da imprensa alternative
alternativea que, no caso do jor-
nal parisiense, acabou corn o go-
verno Mitterrand), Opiniao se re-
cusava a publicar fotografias,
usando apenas desenhos. Reuniu
os melhores desenhistas do pafs
na ocasiio (Luis Trimano, Cassio
Loredano e Grillo, aldm das oca-
sionais incurs6es de Elifas An-
dreatto), mas o governor sentiu-se
particularmente atingido pelas
ilustrac6es, cada vez mais agres-
sivas, e passou a veta-las massi-
vamente, tirando um dos princi-
pais pds de apoio do journal.
Esse foi apenas um dos erros
estrat6gicos de Opiniao, mas ho-
je, reconstituindo sua hist6ria a
partir do livro de Bernardo Ku-


cinski, pode-se perceber que ha-
via um mal-entendido de origem,
ou uma distorgao 6tica, sobre a
qual os jornalistas realmente inte-
ressados no future de uma im-
prensa alternative A estabelecida
deveriam pensar sem preconcei-
tos. Ao ser convidado por Gaspa-
rian para dirigir Opiniao, Rai-
mundo Pereira mandou investigar
aquele burgu8s disposto ao mece-
nato. Gasparian nao mandou in-
vestigar Raimundo, que, segundo
Bernardo, jA mantinha entendi-
mentos corn a AP (Aqao Popular,
de origem crista, passando depois
ao marxismo-leninismo), o dnico
partido clandestine previamente
informado da iniciativa. Raimun-
do sabia das limita6ges de Gaspa-
rian e de todo o mecenato, mas o
empresirio ignorava as articula-
q6es polfticas de seu editor. Coi-
sas da heranqa mental do leninis-
mo.
Opiniao nao chegou a sofrer
ostensivamente os efeitos dessa
vinculagqo camuflada porque sua
redagdo era composta de jorna-
listas da mesma estatura de Rai-
mundo, boa parte deles que es-
creviam para o journal simples-
mente para transmitir a opiniao
pdblica suas preciosas informa-
q6es. Mesmo que quisesse (e par-
ticularmente duvido que naquele
moment esse fosse um objetivo
important para ele), Raimundo
nao conseguiria atrelar Opiniao a
uma linha partiddria. 0 journal foi
um dos mais brilhantes moments
da imprensa brasileira, que su-
cumbiu nio tanto por equfvocos
de concepgqo ou dissenq6es in-
ternas, mas pelo esmagamento da
censura, sem que houvesse da
parte da sociedade a mais d6bil
resistencia.
JA Movimento foi uma frus-
traqao praticamente desde o prin-
cfpio. Corn exagero, Kucinski ga-
rante que Raimundo sd aparente-
mente conduzia o journal, sendo
na verdade um fantoche manobra-
do por Duarte Pacheco, idedlogo
do Partido Comunista do Brasil,
que "tornou-se, na clandestinida-
de, o idedlogo e mestre polftico
de Raimundo, surgindo uma rela-
gio de dependencia devido A ig-


norAncia de Raimundo 'em matd-
ria de polftica para o nfvel de
responsabilidade que me foi posta
nas maos"'. Atravds de orienta-
q6es que as vezes eram transmiti-
das pela Radio Tirana, da Alba-
nia, o PC do B controlava de fato
Movimento, acabando por trans-
formd-lo num journall de seita",
embora sua origem tenha sido "a
mais ambiciosa campanha dz ar-
recadagao de funds jA feita por
um projeto de imprensa alternati-
va". Metade dos quase 100 mil
ddlares, conseguidos principal-
mente junto a outros jornalistas,
foram gascos em apenas quatro
meses, quando a vendagem de
Movimento ja era declinante e
seu sectarismo afastava vArios
dos jornalistas que nele haviam
ingree, ado a partir da experiencia
em OpiniAo.
Bernardo Kucinski quer mos-
trar que o PC do B 6 responsAvel
por alguns dos desvios e insuces-
sos dos empreendimentos da
grande imprensa alternative de
1964 a 1980. 0 diagn6stico 6
correto. Mas Bernardo acaba se
deixando levar pelo mesmo erro,
quando tenta trocar a utopia do
PC do B pela do PT, o Partido
dos Trabalhadores. E o rango que
p6e sob suspeita observag6es car-
regadas de adjetivaqAo, como ao
afirmar que Movimento "foi ga-
nhando um perfil estranho, no fi-
nal de 79", simplesmente por se
recusar "a reconhecer no movi-
mento operario do ABC o centro
de gravidade das oposig6es".
Tambdm sujeito a legftimas con-
testag6es, Bernardo diz que Rai-
mundo "preferiu fechar" Movi-
mento para nao permitir que o
journal "cafsse sob o control da
forga polftica que se tornava he-
gem6nica no movimento popular,
o PT".
Para o bem dos jornalistas,
dos jornais, da opiniao pdblica e
de toda a sociedade, 6 melhor que
os partidos fiquem a distancia do
control da imprensa. Neste par-
ticular, sao como macacos em
loja de lougas e 6 pouco provd-
vel que se eduquem para aceitar
que imprensa manipulada ou con-
duzida nio vale a pena.








As obras

de Jader
N os tres anos que ainda lhe
restam de mandate, o gover-
nador Jader Barbalho pretend
investor um bilhAo de d6lares
(mais de cinco vezes o orgamento
realizado em 1991) nos tr8s seto-
res estratdgicos da sua adminis-
tragco, nao incluindo nessas
contas os 210 milh6es de ddlares
do program de macrodrenagem
de Beldm, corn 70% dos recursos
financiados pelo Banco Interame-
ricano de Desenvolvimento. A
Secretaria de Transportes tera di-
reito a US$ 460 milh6es, para as
obras de energia estio previstos
US$ 350 milh6es e para o sanea-
mento, US$ 190 milh6es.
Essa distribuigao, apresentada
na mensagem que o governador
leu no plendrio da Assembldia
Legislative, na abertura dos tra-
balhos parlamentares, no mes
passado, 6 audaciosa para um pe-
rfodo retratado como crftico pela
maioria das previs6es. 0 gover-
nador, entretanto, diz-se disposto
a nao permitir que sua gestao se
esgote na manutengao em dia do
pagamento dos servidores pdbli-
cos estaduais. Nos 11 meses ini-
ciais de seu governor, o custeio da
folha de pessoal e dos encargos
sociais absorveu apenas 55% do
orgamento, abaixo do limited
constitutional de 65%. A verba
de investimento alcangou quase
22%,. garantida por um cresci-
mento da receita prdpria para
o pico de 60% de toda a arreca-
dagao (as transferencias federais
ficaram abaixo de 40%). 0 servi-
go da dfvida nio chegou a absor-
ver 6% do orgamento.
Jader vai se empenhar em ga-
rantir essa partilha do dinheiro
pdblico, a dnica maneira de fazer
um governor que o credencie a en-
frentar a dispute senatorial de
1994 sem os estigmas da dltim,
eleirao. Mas se o sucesso fiscal e
financeiro se consolidar, o que,
por enquanto, nao passa de hipd-
tese, resta avaliar o program de
obras do governor. A maior de to-
das elas serd a construg~o de uma
linha de transmissao para levar a
energia da hidrel6trica de Tucuruf
atd o oeste do Pard, alcangando
Altamira, Itaituba e Santardm.
Jader insisted numa obra dispen-
dio-. i (207 milh6es de ddlares) e
pouco racional, que poderia ser


substitufda corn grande economic
de custos e nenhuma perda de re-
sultado se pensasse em alternati-
vas mais adequadas as peculiari-
dades do consumo de energia
desses ndcleos. 0 mesmo raciocf-
nio se aplica as obras rodovid-
rias, espalhadas pelo Estado con-
forme os critdrios polfticos de
quem pretend manter-se no po-
der por bern mais do que dois
mandates.

Uma zona

muy franca
Q uando pautas de reuni6es dos
conselhos das superintenden-
cias regionais de desenvolvi-
mento estao volumosamente re-
cheadas e ainda assim os conse-
lheiros aprovam tudo de roldao,
nao tern erro: o acerto prdvio nos
bastidores foi mais eficiente do
que o encontro formal diante do
pdblico. Foi esta a caracterfstica
da reuniao do Conselho Delibe-
rative, da Suframa (Superinten-
dencia da Zona Franca de Ma-
naus) no dia 26. Em menos de
uma hora, sem pedidos de desta-
que, foram aprovados 66 proje-
tos, 42 de ampliag~o e diversifi-
cagco, e 24 de novos empreendi-
mentos.
Toda a expectitativa sobre
polemicas em torno dos ftens da
pauta frustrou-se, mas nao falta-
vam motivos para prever uma
reuniao movimentada. Era a pri-
meira depois de um ano de espera
pela nova regulamentag o da Zo-
na Franca. Os projetos foram se
acumulando e muitos competiam
para ver seu pedido inclufdo por
saberem que alguns ficariam de
fora, o que acabou ocorrendo:
seis projetos de fabricagao de
utilitarios nio foram pautados,
enquanto os da Mitsucar (liderado
pela japonesa Mitsui) e da Agir
foram aprovados.
Os 66 projetos deferidos re-
presentam investimento de 250
bilh6es de cruzeiros, mas para
viabiliza-los o governor autorizardi
as empresas a importer 675 bi-
lh6es. Assim, cada dinheiro que
sair do bolso dos empresdrios
exigird um cruzeiro do tesouro
national. E o dinheiro jA sai de
bolsos bem dotados. A poderosa
AT & T, o gigante das comunica-
96es americanas, investirA 7,6
milh6es de d6lares para fabricar
equipamentos de telecomunicagao
de ditima geraqao, mas terd di-


reito a uma cota de importaago de
US$ 48,7 milh6es, numa relag~o
de um para seis. 0 fascfnio da
Zona Franca sobre as multinacio-
nais devera crescer ainda mais
por conta do fim da exigencia do
fndice de nacionalizagao, um pas-
so decisive para transformar a
zona em tao risonha e franca co-
mo a reuniao do dia 26.


Jornalismo

liberal6ide

0 Liberal registrou o pronun-
ciamento feito no dia 18, no
plendrio da Assembleia Legislati-
va, pelo deputado (PT) Josd
Carlos Lima sobre a possfvel co-
nexAo dos assassinatos de Bruno
Meira Mattos, Domingos Rangel e
Marcio Martins da Costa. Mas
o journal eliminou de seu noticid-
rio um fato bAsico: o discurso do
parlamentar se baseou em tres
edig6es do Jornal Pessoal, citado
por Jos6 Carlos, como manda a
6tica, a moral e os bons costumes
que, pelo jeito, s6 nao conse-
guem penetrar na alta diregAo de
O Liberal. Mais uma vez ela op-
tou por seus caprichos, ao inves
de respeitar o direito do leitor do
journal a informaqao. Coisas de
mentalidade junior.
Quanto a conexio, na verdad<
ela nao existe, como este journal
antecipou e a polfcia confirmou
na semana passada, ao menos en-
tre as mortes de Bruno e Rangel.
O empresArio de Castanhal tinha
neg6cios corn Meira Mattos e sua
fazenda chegou a ser considerada
como o local onde Bruno esteve
antes de ser assasinado, mas a hi-
p6tese de ele ter algo a ver corn o
crime foi afastada, embora Casta-
nhal continue sendo considerada
um p6lo de investigagao.
JA a morte de Rangel resultou
de conflito corn os ocupantes da
fazenda por ele adquirida algum
t.mpo atrds, nada tendo a ver
com o assassinate de Bruno.




Jornal Pessoal
Editor responsivel: Lucio Flavio Pinto
llustraao: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone: 223-1929
Opqao Editoral