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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00069

Full Text








ornal Pessoal
Licio Flavio Pinto


2a Quinzena de Fevereiro de 1992


Cr$ 800,00


VIOLENCIA


Uma prostituigao geral


Uma series de reportagens leva a policia

a libertar 45 mulheres mantidas como

escravas no garimpo de Cuiu-Cuid.

Mas o problema ainda nao foi resolvido.


jornalista Gilberto Di-
menstein prestou um grande
servigo a opinmlo pdbitca
brastleira: a sdrne de reportagens
que ele escreveu e a Folha de S.
Paulo pubitcou, entire os dias 6 e
11 deste m6s, deu a liberdade
para 45 mulheres que eram pros-
iuuidas, sob regime de escravi-
dio. no mais famoso dos garim-
pos do Tapajds, no Para, 22 delays
menores de idade, e reacendeu a
chama do interesse pelo grav(ssi-
mo problema do tiatico de meno-
res nos prostlbulos da regiao.
Agenciadores e aprisionadores
dessas mulheres toram pesos,
mas Dimenstein exagerou a di-
mensio da operagio policial de-
sencadeada sobre o garimpo do
Cuid-Cuid: "Da descoberta do
Brasil ati ontem rio havia sido
ecetuada nenhuma prisio de res-
ponsdveis por trAfico e aprisio-
namento de meninas", disse ele.
NAo 6 verdade. Sempre que a
imprensa deu tempo e espago a
seus rep6rteres para apurar a si-
tuagfo da prostituifio infantil.
seja em bairros das capitals como
em distantes paragens do sertio,
o impact tot tro grande que as
at6 entao omissas autoiidades vi-
ram-se obrigadas a dar algum tipo
de resposta. Mas invaravelmente
a resposta tot de curia duraqgo
e limitado alcance, como, de
resto, as pr6prias reportagens
produzidas na maioria das vezes
pela impiensa de ocaslao e cir-


cunstAncia Se ap6s as sEries de
reportagens, impressas ou produ-
zidas no vfdco, a situacao voltou
a ser tao chocante que permittu
ao ditetor da sucursal de Brasilia
da Folha voltar a produzir im-
pacto corn um tema recorrente, e
poique a combinarAo da misdria
do povo cor a insensibilidade
cas elites do pals mantem o cfr-
culo vicioso que retroalimenta a
combustio dessa chama exposta
0 mnrto maior do jornalista
Gilberto Dimenstein consistiu em
Ir ve comr os prdprios olhos o
que a maioria dos jornalistas trata
apenas na converse. Sobretudo
a imprensa amaz6nica ficou ho-
misiada nas capitals, sem interes-
se em investor algum dinheiro
corn enviados especiais ao inte-
rior, perdendo-se num joinalismo
de gabinete, encurralado por
pautas, press-releases e interpre-
ta~io de papdis. Mas os exempios
ilustrativos da tragddia est~o ao
alcance de um caminhar pelas
ruas de Beldm.
Na sexta-leira da semania
passada, em itente i sotisticada
Sapataria Carrapatoso, no que jA
lto o centro commercial da cidade,
ciuzei cor cinco mulheres. A
mais velha, apesar da aparencia
desgastada, nio devia ter 18
anos. A mats nova parecia star
pelos 12 Todas prostitutas To-
das morando nas ruas. Tentei
conversar corn a que parecia a If-
dei impossfvel Puxava o resto


de uma garrafa de plastico de
agua mineral, cheirava a cola que
estava IA dentro. escondia o ob-
jeto dentro da blusa, que puxava
sem qualquer pudor, expondo os
seios flAcidos, olhava, tentava
entender o que eu dizia, nao con-
seguia e continuava a caminhar.
Estavam, todas, no "barato" ab-
soluto.
E tAo espantoso ciuzal con
essas criangas quanto. depots do
impacto desse contato, ter a cer-
ieza de que ele continualn a se
iepetir e multiplicar Deixou de
ser um fen6meno regional, esta-
dual, municipal a misdria na-
clonal universalizou-se, pene-
trando em todas as sobras de es-
pago Ifsico e indo ate o topo da
pitrmide social, intiltrando-se
nas atividades de sobrevivencia e
no mais escondido porao da cul-
tura. NAo s6 crianqas sAo obriga-
das a se prostituir, em tonalida-
des diversas, do mais negio regi-
me de esciavizaqlo ate os con-
cursos de "miss". mas o pals co-
mo um todo.
0 director de um clube social
de Belem me relatou algum tempo
atras sua expel tncia de concur-
sos de beleza Os pais de candi-
datas em potential trazem as fi-
lhas e, mal conseguem autotiza-
qao para entrar no gabinete do di-
retor do clube, mandam as jovens
tiiarem a roupa e exibirem os
dotes A primerra abordagem 6
cautelosa. diante dos pais. Mas e >


Ano V


No 84








depois? Para sairem nas totogra-
fias das colunas socials, essas jo-
vens aceitam fazer poses er6ticas,
convencidas de que e na vitrine
do interesse masculine que devem
ponttlicar.
Essa seria umu "mrn.talidade
da dpoca", que assassina o ero-
usmo ao busca-lo, libeiando a
mulher de muitos preconceitos,
mas expondo-a ao vazio de expe-
rinncias finalizadoras sem senti-
do. Na Amaz6nia, o choque da
cultural native cor a do coloniza-
dor estimula o incremento de uma
prostituigio que tem rafzes fir-
memente plantadas na misdria so-
cial. O erotismo natural 6 um
element intrfnseco da cultural
que os fndios transmitiram ao ca-
boclo, no lento e por isso, co-
mo resuitado, relativamente har-
m6nico process de aculturagio
quase inteiramente lechado, en-
ddgeno Convive-se com a sen-
sualidade da lavadeira de beira de
iio. mas essa 6 uma paisagem ir-
resistfvel para o migrant citadi-
no reprnmdo nas cidades pelo ce-
nario e no campo pela formag&o
cultural obtusa. A prostituiglo
apresentou-se como um resultado
potencialmente automatico no
contato entire essas duas cultural
em locals como o Acre, Rond6nia
e Roraima em malor grau, mas de
um modo geral na Amaz6nia toda.
Este, porrm, 6 apenas o pano
de tundo A indugAo & prostitui-
cAo 6 um subproduto inevittvel
de um modelo de ocupagio ba-


seado na migraqao massiva, teita
especialmente para a construaio
de giandes obras, que abrigario
maior volume de pessoas em sua
lase de implantaglo, mas depois
as distribuirao pelos cord6es de
misdrta enquistada que cnaiam ao
iedor de si. O garimpo do Cuid-
Culd mobilizou a atengAo da mf-
dia e provid6ncias das autorida-
des com suas 65 prostitutes, 10%
da populagAo local. Mas nAo hou-
ve escAndalo quando havia quase
quatro mil prostitutes para aten-
der 32 mil trabalhadores, a esma-
gadora maioria deles solteiros, no
pique das obras da hidreldtrica de
Tucuruf, a maior obra pdblica da
Amaz6nia, de onde o empresario
Sebastlio Cama go, dono da
Construtora Camargo Correa. ex-
traiu metade de sua fortuna, 500
milhOes de d6lares.
O resultado da vasta e cara
operadAo de resgate executada na
semana passada pelo governor 6
uma invisfvel gota dagua num
oceano encapelado de problems.
Ela deveria ser realizada, quando
nada para livrar pessoas humans
de um tratamento animalesco, in-
compatfvcl com a dignidade da
civilizacio da qual julgamos fa-
zer parte. Para 45 pessoas a si-
tuagio passou a ficar menos ruim,
mas a melhora 6 apenas de tona-
lidade e as causes do problema
permanecem intocadas. Nenhuma
delas gostaria de viver como sAo
obrigadas a viver em garimpos
lechados. submetidas ao velho


ststema do "barracAo". conheci-
do hi s6culos de fndios, serin-
gueiros e pedes -- e ha s6culos re-
sistindo As promessas de que,
dista vez, ter4 um fim. Mas a
prostituigao 6 para elas um atrati-
vo tio Indescartavel quanto o ga-
rimpo para os homes que delas
se aproveitam. Como dizia o
poeta JoAo Cabral de Mello Neto,
relatando a misdria recifense em
Morte e Vida Severina, trata-se
apenas de faz6-la passar de um
lado para o outro do Capeberibe e
Beberibe. O canhAo que os des-
bravadores usam na tronteira
amaz6nica ainda funciona & base
de bucha humana.
Vitimas e vitimados que o
reporter ouviu e a polfcia flagrou
sio os elos finals de uma cadeia &
qual nem um e nem outro costu-
mam chegar. A soma das "contri-
buig6es" do comdrcio (inclufdo o
da came) de Cuid-Cuid, aproxi-
madamente 200 mil cruzeiros
mensais, represent pouco menos
de uma "venda" de mulher para
os prostfbulos. O alcance da cor-
rupgfo, do lenocfcio e das men-
talidades 6 esse, no circulto que
Ihes foi concedido para atuar. Os
cfrculos seguintes, h semelhanga
dos que Dante descreveu na sua
Divina Conddia estAo tAo ao al-
cance desses personagens como
uma vida estavel e auto-suficiente
- a limpa atividade que faz o ou-
ro se0 depositado nos cofres do
Banco Central ou limpar a sujeira
do tratico de drogas.


BIOGRAFIA


A forga do

cerebro
O advogado e politico Cldvis
Ferro Costa, que morreu na
semana passada, aos 72 anos,
tornou-se um nome de dimensio
national pelos mdritos de sua in-
teligEncia e capacidade de traba-
Iho. Nao 6 feito que se deva su-
bestimar numa provincia de cujo
cfrculo de limitagio ou mediocri-
dade alguns conseguem escapar
graqas a favorecimento, fisiolo-
gismo, clientelismo e falsas re-
putaq6es, raramente por seus prd-
prios atributos pessoais. Ferro
Costa foi um dos mais brilhantes
advogados e politicos da Repd-
blica paraense, desses imigrantes
adotados na terra (como Antonio


Lemos, maranhense como ele, ou
Jarbas Passarinho, acreano). Mas
a causa pdblica, que as biografias
oficiais procuraram demonstrar
ter sido a preocupagao de toda a
vida de Ferro Costa, nem sempre
foi bem servida por seus atos,
mesmo quando invocada por ele.
Em muitos epis6dios, e cada
vez mais nos recentes, a inteli-
gencia, a sagacidade e a habili-
dade do ex-deputado federal fo-
ram usadas a servigo de interes-
ses particulares, camuflados pela
longa vinculagio que ele teve
com quest6es de relevancia para
o Estado. Esta reveladora disso-
ciaqio entire o perfil polftico de
um home que sempre ocupou
posiq6es de vanguard no Estado
e o resultado concrete de suas
iniciativas esti na base das ava-
liaq6es contradit6rias e antag6ni-


cas que se pode fazer da biogra-
fia de C16vis Ferro Costa.
Ela ter moments de alto
brilho e depois decai para sus-
peitas participag6es, como no li-
tfgio da gleba Cidapar, na desa-
propriag~o da JaderlAndia ou,
mais recentemente, no conflito da
Alcoa cor os moradores da area
na qual pretend desenvolver seu
projeto de minerar bauxita.
Neste ponto, por6m, nio hd o
que imputar especificamente ao
polftico paraense: essa contradi-
go ter sido a marca de liberals
brasileiros como ele e do pr6prio
liberalism enquanto doutrina
aplicada a um pafs que o desen-
volveu & sombra da casa grande e
da senzala, dupla sinalizaaio das
nossas melhores possibilidades e
de nossos mais tristes resultados
quando de sua aplicaqao pratica.








CIDADES


O Amazonas e Manaus


Aaior fronteira do pafs, cha-
mando para si uma mfstica
de grande apelo emotional,
a Amaz6nia 6 uma terra de mi-
grantes. A cada ano novos espa-
gos slo ocupados por gene de
todo o pafs, que chega & regiio
convencida de ali fincar as bases
de uma hist6ria de sucesso e feli-
cidade. Os espacos ja ocupados
anteriormente se adensam, adqui-
rindo um crescimento que nio
ter igual em outras parties do
Brasil. Nenhuma capital apre-
sentou, entire 1970 e 1990, por
exemplo, o crescimento de Porto
Velho, sede de um dos tres novos
Estados que surgiram na Amaz6-
nia nesse perfodo justamente por
causa do grande fluxo migrat6rio:
de pouco menos de 85 mil habi-
tantes, passou para 286 mil, tres
vezes mais do que possufa quan-
do foi aberta a primeira estrada
ligando-a ao restante do territdrio
national.
Essa 6 a tendencia observada
em praticamente todas as cidades
da regilo, mas Manaus, que abri-
ga a tnica zona de livre comdrcio
do pafs, talvez exatamente por
esse motive constitui uma exce-
gio a merecer andlise atenta. Em
1970 Manaus tinha apenas metade
da popula;go de Beldm, maior ci-
dade regional. Dez anos depois ja
estava cor quase 70% e em 1990
atingiu mais de 80%. Nesse pe-
rfodo, a relagio entire os Estados
do Amazonas e do Para foi exa-
tamente inversa: em 1970 a po-
pulagio do Amazonas equivalia a
44% da do Pard, decrescendo pa-
ra 42% e 41% em 1980 e 1990,
respectivamente. A consequdncia
natural 6 que Manaus foi concen-
trando parcela cada vez maior da
populasgo do seu Estado: 32% em
1970, 44% em 1980 e 48% em
1990.
O caso paraense 6 diametral-
mente oposto: Beldm tinha pouco
menos de 30% da populacio do
Estado em 1970, 27% dez anos
depois e menos de 25% em 1990,
conforme apurado pelo dltimo
censo. Isto significa que a expan-
slo da fronteira econdmica no
interior do Estado e o cresci-
mento de pequenas e m6dias ci-
dades fora da drbita da capital


desconcentrou a polarizagio que
antes havia em torno de Beldm.
Ja Manaus, atualmente cor quase
metade da populagio do Amazo-
nas, absorve mais de 90% da ren-
da estadual, paroxismo sem
similar em todo o pafs. Mais do
que atrair migrants de outros
Estados, a Zona Franca de Ma-
naus esvaziou o interior amazo-
nense: seu territ6rio, de 1,5 mi-
lhao de quilometros quadrados
(por si sd um pafs de porte consi-
derAvel), 6 ocupado por menos de
um milhfo de habitantes, vivendo
de atividades primitivas ou em
torno de uns poucos ndcleos eco-
n6micos de significado. As lan-
tejoulas de Manaus exerceram um
fascfnio bem maior do que, vArias
d6cadas antes, o "boom" da pro-
ducio de borracha. O risco de
uma crise desorganizadora 6 tio
grande quanto antes e os ama-
zonenses nao parecem ter conse-
guido identificar as liq6es da
histdria.
Gragas aos pesados subsfdios
que Ihe vem sendo concedidos
(ver Jornal Pessoal n 83), a ZF
transformou-se em um polo pro-
dutivo que compete cor os eixos
tradicionais da economic brasilei-
ra. Mas essa posiqao 6 mantida
cor um artificialismo que cresce
A media em que se ampliam tam-
bdm as dificuldades do Estado
brasileiro, o gestor, em dltima
instancia, dessa unidade. Quando
o custo dessa estrutura se tornar
excessivamente oneroso, o Estado
poderd renunciar a essa alianga e
dissolve-la unilateralmente, como
fez em relacgo A economic da
borracha amaz6nica, provocando
sequelas atd hoje nio eliminadas.
Cientes desse risco, os ama-
zonenses o estdo enfrentando co-
mo a avestruz diante do perigo:
enfiando a cabega em um conve-
niente buraco, sem ver, sequer, a
avolumagio das demiss6es pelas
industries incentivadas. S6 neste
ano 50 lojas ja foram fechadas em
Manaus. Mas nao se trata apenas
de uma crise commercial, que po-
deria ser compensada pela ativi-
dade industrial, velha aspiragio
que .no parece ter mais condi-
c6es de se materializar. O distrito
industrial, que tinha 100 mil em-


pregados em 1990, foi reduzido a
metade, mas s6 25 mil deles estao
em atividades: os demais recebe-
ram f6rias coletivas ou licenqa
remunerada, desde dezembro. Sao
sinais de alerta, que podem de-
sembocar, sem anteparos, no pre-
cipicio.

Por baixo do pano
Embora o governador Jader
Barbalho apareca e atue como
o dono da TV RBA, oficialmente
o control da emissora ainda
pertence ao espdlio de Jair Ber-
nardino de Souza, que ter 33.100
cotas, enquanto Jader Barbalho
possui 24.825 e seu irmao, Luiz
Gullherme Barbalho, control
8.275 Os heideiros de Jalr, que
era o dnico proprietrtao da repe-
tidora da TV Manchete, conti-
nuam cor 51% das cotas Do
ponto de vista legal, o que ocot-
reu em marco de 1990 foi uma
simples transteerncia de cotas e
nao uma mudanga de control
aciontirio, caracterizando uma
transterCncia indireta, o que auto-
rizaria o Minist6rio da Intraes-
trutura a intervir e anular a ope-
raqao, como tentaram tazer os
adversArios do governador.
Para se prevenir, ele legalh-
zou apenas a compra de 49% das
cotas, mas, naturalmente, como se
praxe nesse tipo de negociagio,
deve ter assinado um contrato de
gaveta, garantindo-se para ficar
corn a totalidade da empresa de-
pots de passado o prazo de cinco
anos para que esse tipo de trans-
icrencia se torne legal. Nada a
tazer para anular a transferencia,
exceto se o contrato de gaveta for
revelado, o que costume ser
multo laro.
O esquema 6 o mesmo ado-
tado em relaqfo ao canal 10, que
pertencia exclusivamente tlamf-
lia do governador (a maior cotista
era sua esposa, Elcione). Em se-
tembro de 1990 o vice-governa-
dor Carlos Santos adquiru 49%
das cotas (mais uma em nome da
mulhei, Agazil), ftcando com
9.999 (ndmero padrio dos pro-
dutos Carlos Santos), cnquanto
Elcione Barbalho dettim oito mil
e seu cunhado. Pedro Paulo Bas-
tos, dois mil









JUSTI(A


Um poder a menos


D esde o infcio do m6s o Did-
rio Oticial da Justiga est&
sendo impresso pela Im-
prensa Oficial do Estado. A me-
dida permltiu ao Tribunal econo-
mizar de imediato quase 25 mi-
lh6es de cruzeiros por m6s, mas
pode dar ao antigo responsavel
pela impressao, o Centro de Es-
tudos Jurfdicos do Pard (Cejup),
prejufzo de ate 60 milh6es de
cruzeiros, valor superior ao fatu-
ramento de boa parte das maiores
grAticas de Belem.
O president do TJE, Nelson
Silvestre do Amorim, decidiu de-
nunciar unilateralmente o con-
trato de servigo que a Justiga as-
sinara cor o Cejup em janeiro de
1991. Esse contrato nao se basea-
ra em qualquer concorrencia pd-
blica, mas numa simples resolu-
Cgo do Tribunal, referendada por
todos os desembargadores, inclu-
sive Nelson Amorim, que na epo-
ca ainda nao era o president do
Tribunal. Essa resolugao instituf-
ra o Diario da Justiqa do Estado
do Pard, que passaria a ser publi-
cagao aut6noma (at6 entio os atos
judiciais eram publicados gratui-
tamente no Didrio Oficial do Es-
tado), e ao mesmo tempo autori-
zou o president a "celebrar
Convenio corn o Centro de Estu-
dos Jurfdicos do Pard, a fim de
viabilizar a implantacao do refe-
rido 'Dibrio da Justiga"'.
Pelo contrato, o Cejup estava
obrigado a imprimir o Didrio corn
no mfnimo oito e no maximo 16
pdginas, e tiragem de 1.500
exemplares, 500 das quaig seriam
entregues ao Tribunal. Em troca,
poderia vender os outros mil
exemplares e comercializar a pu-
blicagao de atos judiciais "oriun-
dos de terceiros interessados, in-
clusive outros drgaos do Poder
Judiciario, Estadual ou nao". Sd
depois de dois anos de aplicagAo
desse esquema, haveria uma
progressivea redugao da partici-
pagao financeira do Tribunal na
realizagao das ediq6es (...) ate
que se garanta a veiculagao re-
gular, disciplinada e gratuita dos
atos do Poder Judicidrio"
Atd que ocorresse essa auto-
nomizagao, entretanto, o Tribunal
pagaria por cada pdgina do Did-


rio. Em janeiro do ano passado o
valor da edigao de oito pdginas
era de 332 mil cruzeiros. Um ano
depois, estava em 35 milh6es de
cruzeiros por mes. O Cejup pode-
ria faturar ainda em torno de sete
milh6es corn a venda avulsa ou
mais ainda corn assinaturas (a
trimestral variava entire 23,5 mil e
72 mil cruzeiros, conforme fosse
para Beldm ou outras localida-
des). Entre 15 e 20 milh6es pode-
riam ser arrecadados corn a publi-
cagao de editais de interesse de
terceiros. Provavelmente era a
principal fonte de receita da Ce-
jup, que se consider detentor do
maior parque grafico do Pard.
Ao decidir romper o contrato,
o president do TJE conseguiu da
Imprensa Oficial menos de 10
milh6es de cruzeiros pela circula-
gao mensal do Didrio. O Cejup
ainda tentou, as pressas, garantir
prego um pouco inferior, quase
quatro vezes menos do que o
praticado em janeiro. Mas a in-
tenqao do desembargador Nelson
Amorim, entretanto, nao parecia
ser apenas a de proporcionar eco-
nomia a combalida finanga do
TJE, mas eliminar uma fonte de
poder paralelo ao dele prdprio. O
dono do Cejup 6 Gengis Freire,
chefe da secretaria do Tribunal,
HA mais de 10 anos Gengis
conseguiu criar o Cejup dentro do
Tribunal atravds de uma intrinca-
da operaago triangular que utili-
zava a Escola da Magistratura
como ponte e o respeitado nome
do desembargador Silvio Hall de
Moura como aval. Essa ardilosa
engrenagem permitiu ao Cejup
funcionar nas instalag6es do TJE,
utilizar sua estrutura e crescer
rapidamente, mesmo sendo enti-
dade sem fins lucrativos, ate se
tornar na maior grdfica do Estado
e uma das principals de toda a
regiao, quando se desligou do Ju-
dicidrio. Ainda assim, se manteve
como seu fornecedor grdfico e
editor exclusive, sempre recor-
rendo a convenios que pareciam
obrigar o Cejup a cumprir servi-
gos cor o atraente resultado de
que eles sempre eram altamente
rentAveis.
Sob o tftulo de prestagao de


servigos de "fins culturais", um
convenio de janeiro de 198.. tazia
o Tribunal pagar o equivalent a
1,63 ORTN (da epoca) ao Cejup
para a impressao da revista do
Judicidrio (cujo dltimo ndmero
tinha 316 paginas, incluindo fo-
tos do presidente. Mas, genero-
samente, a cl4usula terceira do
convenio declarava: "Fica o Ce-
jup ainda obrigado a confeccionar
todos os impresses de interesse
do TJE, em carter prioritfrio, a
pregos m6dicos e sempre fazendo
incidir sobre o preco final des-
conto nao inferior a 10%".
Sem nenhuma limitagio, a nao
ser a vagufssima exigencia de
"prego mddico", o Cejup inun-
dou o Tribunal de impresses, que,
segundo um graduado funcionario
da administraago, precisarAo de
anos de intense uso para serem
totalmente utilizados, afastando
os concorrentes atrav6s do cabe-
qalho do conv6nio, que garantia
tratar-se de uma relagao quase
filantr6pica e nAo de um contrato
commercial mais do que vantajoso
para a parte recedora do dinheiro.
Em janeiro do ano passado, um
novo contrato reafirmou a inusual
exigencia de que o Cejup confec-
cione, "no melhor padrio grafi-
co, todos os impresses de interes-
se do Tribunal", propondo como
"contraprestagao desse servigo o
pagamento de 2,6 milh6es de cru-
zeiros (valor da 6poca), com cor-
reqao trimestral.

O rompimento do contrato de
edigao do DiArio da Justiga foi
apenas mais um pass, embora o
principal, que o desembargador
Nelson Amorim deu para afastar
o Cejup do Tribunal e minimizar
a enorme forga que o dono da
empresa tinha e ainda continue a
ter na Justiga, gragas ao exercfcio
de seu estratdgico cargo de se-
cretdrio. Antes, Amorim ji vinha
adotando como norma abrir lici-
tag6es individualizadas para
tender cada uma das necessida-
des de impresses do Tribunal,
deixando ate mesmo de enviar
convites para o Cejup. Sua prd-
xima meta 6 dar a revista do tri-
bunal o mesmo destine do Diario.









IMPRENSA


Monopolio da mediocridade


O journal "0 Liberal" temr
feito intense campanha
promocional para conven-
cer seus leitores de que 6 o de
maior credibilidade em todo o
pafs. Mas o pr6prio journal nao
parece levar a sdrio o que diz. No
dia 6 "O Liberal" provocou um
grande impact na cidade ao
anunciar, em manchete de primei-
ra pagina, que "Beldm bebe Agua
cheia de coliformes". Em qual-
quer circunstAncia, uma dendncia
dessas teria profunda repercussio
mas o surto de sclera poderia
dar-lhe a dimensio de um escfn-
dalo. No dia seguinte, a Secreta-
ria de Sadde divulgou nota official
esclarecendo que o journal se refe-
ria A qualidade da Agua bruta
captada em dois lagos e nao A
agua tratada na estagio para for-
necimento ao consumidor. Para
reforcar o desmentido, a Sespa
anexou declaragdo da pesquisa da
Universidade Federal do Pard
cuja pesquisa servira de base ao
equivocado noticiArio do journal.
O confront da reportagem do
journal cor a nota official, refor-
gada pela declaraqio da pesqui-
sadora Hebe Morgane Campos
Ribeiro, nao deixa ddvida alguma
de que o autor da manchete e da
chamada de primeira pagina de
"0 Liberal" errara ao interpreter
o texto ambfguo da notfcia do re-
dator. Apesar da cristalina dife-
renca entire a agua bruta (estoca-
da no reservat6rio dos dois lagos
ou oriunda de suas enfraquecidas
nascentes) e a Agua pronta para
consume, o journal nao se permitiu
admitir o erro, reconhecimento
que o tornaria de boa f6. No dia
seguinte, cor uma manchete mais
do que forgada ("Cosanpa admi-
te: ha coliformes fecais na Agua
'bebida em Bel6m"), o journal pro-
curava estabelecer uma confusao
artificial a partir das declarag6es
do director de operag6es da Co-
sanpa, Haroldo Aradjo. Suas de-
clarac6es, entire aspas, diziam
uma coisa. As observarbes do
journal conclufam outra.
Estivesse certo, "O Liberal"
teria prosseguido a partir de en-
tao cor uma campanha de escla-
recimento da populagio e para
forgar o governor a corrigir a pe-


rigosa irregularidade. Mas, de-
pois de merecer a principal man-
chete de primeira pdgina e uma
sufte capcciosa, a questio desa-
pareceu das pAginas do journal,
sem que ele tivesse esclarecido o
leitor sobre seu erro primArio. Pa-
ra 90% dos leitores de journal, que
fazem de "O Liberal" sua dnica
fonte de information impress,
tomar Agua diretamente das tor-
neiras de Bel6m significa conde-
nar-se a contrair doengas, inclu-
sive a cdlera.
O que esperar de uma empresa
de comunicacqo cujo dnico servi-
go de utilidade prestado A comu-
nidade sao anacr6nicos concursos
de beleza? Ainda assim, a forga
do grupo Liberal nao tem paralelo
na hist6ria da imprensa paraense.
Manter e renovar essa forqa ape-
sar de atos de complete desres-
peito ao pdblico dB uma iddia da
desestruturagdo e mesmo da
prostraqao a que foram reduzidos
os paraenses no imp6rio de um
colonialismo sem reticencias, co-
mo o que Brasilia nos imp6s. Esta
6 uma sociedade que perde os 6l-
timos filamentos de sua espinha
dorsal, do que se aproveita muito
bem o grupo Liberal para impor
um monop6lio que se baseia,
acima de tudo, na mediocridade.
Os medfocres com instruments
de poder A mao se imp6em Aque-
les que acham que o exercfcio do
poder sempre foi assim, e se
prostram.
Convenhamos, entretanto, que
o grupo Liberal abusa dessa le-
targia geral, produzindo um jor-
nal que quase todos lem e que,
por isso, se torna na maior fonte
de poder fora das instancias ins-
titucionalmente estabelecidas. No
dia 7 o journal abriu manchete de
pdgina fmpar para anunciar que o
Tribunal de Contas do Estado
"inspeciona o gabinete do gover-
nador". Como foi redigida, a no-
tfcia dd a entender que o gabinete
a ser investigado 6 o do governa-
dor atual, indugao ao erro feita
pelo "press release" do TCE,
transcrito sem atengao. Mas se
prezasse a credibilidade de que se
diz possuidor, o journal teria apu-
rado a informagao e transmitiria
ao leitor a notfcia certa: a irre-


gularidade foi constatada pelo
Tribunal na gestao Hl6io Gueiros.

Fazer campanha contra o go-
verno, ou a despeito dele, 6 uma
das fung6es mais nobres da im-
prensa, mas "O Liberal" nao
chega a isso quando se trata de
combater a administragao Jader
Barbalho. A contaminagao dos
lagos Agua Preta e Bolonha ji 6
fato pdblico e notdrio, que for-
mou sua cultural no conhecimento
da opiniao pdblica. Tratar dessa
contaminagao como se ela fosse
fato novo 6 prova de ignorancia
ou ma f6. Mas o journal poderia
ajudar a esclarecer a opiniao pd-
blica se investigasse a qualidade
da Agua nas torneiras, principal-
mente ao atravessar redes de dis-
tribuigao antigas. Ou se juntasse
especialistas para discutir uma
forma de captacao e fornecimento
mais adequada, a partir da falen-
cia do conjunto do Utinga
Os donos do journal podem se
queixar de que as crfticas a seus
vefculos estao contaminadas por
ma vontade e despeito. Mas se
serve para arranjar justificativas
entire amigos, essa attitude nao 6
suficiente para evitar a contfnua
decadencia da empresa e certo ti-
po de interpretagao que suas prd-
ticas viciadas suscita. Nao deve
ter passado desapercebido ao ob-
servador mais atento, por exem-
plo, que as tr6s dnicas notfcias
publicadas por "O Liberal" sobre
o assassinate do empresdrio Bru-
no Meira Mattos se referiam ao
traficante de drogas Isidoro Costa
Izfdio Oliveira Filho. A primeira
delas praticamente serviu de
alerta para que o advogado de
Isidoro impetrasse "habeas cor-
pus" para soltI-lo da prisao, at4
aquele moment ignorada pelo
grande pdblico. Apesar de tanta
atenqao dada ao traficante, o no-
ticidrio do journal em nenhum
moment a~sociou a morte de
Bruno ao trifico de drogas, como
se "O Liberal" quisesse mandar
recado a destinatdrio privilegiado
ao inv6s de informar o pdblico
em geral. E o que acontece quan-
do credibilidade se torna produto
de venda em gabinete de dono de
journal.








LIVRO


Apenas mitologia


N a rmtologia da esquerda, uma
das mais cultuadas lendas trata
do fim do Coreio da Manh,
na metade da ddcada de 70, tendo co-
mo supreme herofna sua propricetria,
Niomar Muniz Sodre Bittencourt. Diz
a lenda que o journal mais intluente em
grande part da hist6dia republican
brastlelra Ioi assassmnado pelo regime
militr de 1964. que nio Ihe deu a
menor possibdtdade de sobievivencia
As cmzas do journal serviram de cend-
1no, entretanto, para a attrma~Ao de
um exemplo de digmdade e lorqa: o
de dona Niomna
Como quase toda lenda tem um
lundo de veodade, os dois elements
sio components fundamentals dos
mementos tmais do Correio mas nio
o explicam por mtetro. O governor do
marechal Castelo Branco, o primeiro
ap6s a deposiquo de JoAo Goulait, e
dos miutares que o sucedetam at, o
general Mtdici, fizeram o que esteve
ao seu alcance para sufocar o grande
journal camioca Prenderam lunciond-
nos da empresa, empastelaram ediqes
do journal, colocaram censors na ie-
dag~o, intimidaram os anunciantes e
patrocinaram um boicote econ6mico
sufocante, mas nfo pareciam conven-
cidos de podei denotat um journal que,
ao long dos anos, se mostrara mais
torte do que os governor.
JAnio de Freitas, um dos redato-
ies-chetes do Comreo, reconhece que
"a ditadura pressionou muito o Jor-
nal", mas garante que, em meados do
govemno Castello, "jf4 tinha ticado
demonstrado que eles (os nmduares)
pressionavam mas nao tinham coia-
gem de tlchar" Janio, um dos mais
expenentes e respettados jornalistas
brasileiros, acha que a cdreio do jor-
nal, percebendo que seus advetsAios
nio inam lechar a empresa. dcveram
ta-la preparado para tuncionar sob um
sistema de sobrevivencia, "adequa-la
a uma situagio de cerco" Mas isso
nao toi telto e o jomal ftcou enfra-
quetido. "Nio partncipo, o~o sou
adepto da teona segundo a qual foi o
regime nmlitar que fechou o Correwo
da Manhi Do meu ponto de vista,
nio fot, nito. Foi a mA administrm ao
mesmo. Inexistencia de administra-
iao". dep6e Jnio.
O Cmonmo nio precisaria fazei
composiqoes tiio explftitas como
o Jomal do Brand, O Globo ou a Fo-
Uia de S. Paulo fizeram com os novos
donos do powder, mas tena que ser
muito mais intelligent, apilcado e
competence do que o Diirio de Nodt-
casu, outro dos grande jornais dirios
que desapareceram com o novo regi-

6


me O Coneno jA havia sobrevivido
a mtervenaio de mais de onto meses
do president Arthur Beinardes, que
entrentaia a oposiago do journal gover-
nando em estado de sftio permanent
duante quatro anos Tambum nao su-
cumbira I ditadura de Getdho Vai gas
Poi que, ji sexagenArio, havera de
alundac sob as turbulncias dos gene-
rais da So bonne?
0 livro de Jefferson de Andrade
(Urn jomal amasmndo A dituna
batalha do Corrio da Manha, Josd
Olympio Editora, 375 pAginas) se
prop6o a responder a um dos memen-
tos mais dramnticos em today a histdna
da imprensa brasileira, mas o que o
salva de uma frustraqio total sio os
depoimentos dos quatro dltimos reda-
tores-chetes do journal (Antonio Calla-
do, Lufs Alberto Bahia, JAnio de
Frettas e Osvaldo Peralva) A contri-
buigAo do pr6prio Jefteison 6 quase
desnecessAna: ele se limit a repetir a
mitologia, como se nem uvesse absor-
vido o que os ouuo quatro jornalistas
Ihe disseram.
Rara pessoa corn menos de 25
anos, inclufdos jornahstas, ouviu falar
do Cortcio da Manhi, ou, se o conhe-
t. de vaga retenrncia, ter uma idila
do quo ele representou em mais de 70
anos de existncia. Ati metade da de-
cada de 50, era, de long, o mais in-
tluente cm todo o pafs, cujo peso e
densidade slo palidas atualizag6es
jornas como a FoUha de S Paulo ou o
Journal do Brasi de hoje A mudanra
na chetia de redaaio do journal costu-
mava atrair mais a ateniAo dos ire-
quentadores do poder do que a altera-
gao nos ministries. Costa Rego, o
mais duradouro dos redatores-cheles,
tinha sido senador e governador de
Alagoas e amda assim era um jor-
nalista brilhante Edmundo Bitten-
court, o tundador. e Paulo Bitten-
court, seu tWho e successor, que garan-
tuam a continuidade da tamflia t
trente da empresa durame quase 60
anos inintelruptos, nio eram apenas
os donos da voz do journal, mas sabiam
escrever, entendiam de jornalismo,
realidade que nos dias atuais parece
peqa arqueoldgica
Entrentar a umania dos militaes
colocados no poder cor o apoio do
pr6prio journal. que com dois tamosfs-
simos editorais (Biasa! e Forw!) ajuda-
lam a preparar o apoio da classes md-
dia ao golpe que dep6s Goulart, tlo
mais uma batalha na sucessao de
combates que o Coreao da Manli
precisou travar na segunda metade da
ddcada de 50, quando come ou seu
decifnmo. Dubidativo, Paulo Bitten-


court passava muito tempo na Europa,
onde ia buscar refigio quando algum
conthto mterno que nao queria ou
nio podia resolver estourava. A re-
dagAo queria renovar, mas a admmnis-
traco era conservadora. A forga do
journal se baseava nos andncios classi-
ticados, que garantiam independ&ncia
econ6mica contra a pressao dos pode-
rosos descontentes, mas o comnrcio
foi sendo deslocado pela inddstria.
que, para intlur mats eticientemente,
mventou as agencias de publicidade.
A ideologia liberal passou a ser
apenas um mote. Como os intelectuais
de esquerda que se acumularam em
sua redagso, o Coucio achava que os
militares de 1964 senam tao tuansit6-
nos quanto os antenores. Desde 1922
eles vmham tentando permanecer no
powder que episodicamente tomavam,
mas logo devolviam o bastio aos ci-
vis. Mas o Conrio deu-lhes a adesio
da classes media, que ate entAo eles
n8o tinham, o que taltava para se es-
tabelecerem por longufssimos 20 anos.
O journal abriu sua pr6pria se-
pultura e os outros 6rgaos, sem usar
sequer os instintos da sobrevivencia
corporativa, trataram de jogar flores
no tdmulo do que toi o mais liberal de
todos os jornais deste pats, um de seus
mals belos produtos, produto que sd
nos Estados Unidos, em situaqdes co-
mo a do Washington Pom, conseguem
ilorescer. AtZ que o Conrio toi um
sonho que durou muito, mais ate do
que merecia o seu pdblico
Amnda assim, nio serA demans
lamentar que dona Niomar tenha deci-
dido airendar o famoso journal que re-
cebeu de heranga a uma dupla de em-
preiteiros mteressados em pattocinar a
nau-morta candidatura do coronel Md-
no Andreazza I presidcncia da Repd-
blca, em 1969, ao inves de entregd-lo
a uma empresa jornalfstica como
a Folha de S. Paulo, a outra preten-
dente. Inviabilzada a candidatura de
Andreazza com a money do general
Costa e Silva, os empreiteiros, aos
quais Niomar cedeu o journal supondo
"que optanam por uma inha gover-
nsta" (num racioclfo oportumsta e
novamente equivocado quanto A per-
manencia dos mthtares no poder),
uataram de laviar a lapide sob a qual
st enceirou, melancolicamente, a me-
lhor trajet6na da imprensa brasiletra
Dessa tumba glorosa, mas andnima
neste pars sem mem6ria, nao o livra o
p6ssmno ivro de Jelferson de Andra-
de, capaz apenas de acender alguma
iembranga no cerebro dos que, como
eu, tiveram a gl6na de algum dia tra-
balhar nas redag6es do jonal.








DEPOIMENTO


Apenas na promessa


Aur6hlo Correa do Carmo 6 o
lnico dos governadores
anteriores ao regime militax
estabelecido em 1964 ainda vivo,
personagem important na vida
republican paraense at6 seu en-
cerramento naquele ano por um
golpe de Estado. Era natural, as-
sim, que se esperasse com certa
ansiedade o langamento do livro
atravds do qual o ex-governador
faria sua autobiografia. Mas Uma
vida a secvigo da causa pdblica
(Edig6es Cejup, 110 paginas,
1992) 6 uma decepgao. Aposenta-
do compulsoriamente do Tribunal
de Justica do Estado, o .entao de-
sembargador preferiu ocupar 80%
do espaco do livro corn despachos
e pareceres (de problemitica pe-
renidade), dados durante a curta
passage pelo mais alto nfvel da
magistratura estadual, a qual che-
gou por nomeagCo do governador
Jader Barbalho em sua primeira
gestao. Os restantes 20% sho pre-
enchidos por totografias tiradas
ao long da vida pdblica, que.
embora de mero valor iconogrifi-
co, suplantam em significado a
parte dominant do livro.
A opCao por essa organizaaio
do primeiro livro do ex-governa-
dor certamente nao reflete a posi-
gao de um politico que se retira
da vida pdblica, mas a arguta de-
cisao de quem pretend voltar a"
militancia nas eleig6es de 1994,
talvez como candidate ao Senado
ou a CAmara Federal. O livro po-
de se tornar um instrument em
favor desses objetivos, mas presta
pouqufssimo servigo ao esclare-
cimento da hist6ria pela qual Au-
r6lio do Carmo passou corn a sua
marca.
No discurso de despedida da
magistratura, sem a pompa do li-
vro, mas de muito maior serventia
para os historiadores, Aurdlio
admitiu ter exercido as mais ele-
vadas fung6es no serving pdblico
estadual "mais novo do que deve-
ria ser". Bacharel em Direito aos
22 anos, conseguiu logo (por no-
meagAo) um cargo de promoter no
interior e nove meses depois jd
estava na capital. Em seguida foi
o mais novo dos auxiliares do ge-
neral Magalhaes Barata, na pri-
meira vez em que ele governor o


Pari gracas a uma eleig~o direta.
"Corn este meu temperament
acredito que tivesse evitado que
muitos atos se fizessem nao pelo
general Barata, mas pessoas que
cercam os governantes e que le-
vam ao cometimento de- atos que
pudessem arranhar a administra-
9Co correta, honest e s6ria do
nosso pranteado general", decla-
rou. Esse temperament afiAvel,
que dava a Aurdlio uma perma-
nente aura de simpatia, em oposi-
Cgo ao radicalismo do tratamento
que os baratistas dispensavam aos
adversarios e inimigos, deu re-
sultados favoraveis a Aur61io:
"acredito que, na hist6ria do Pa-
rdi, nio tenha ocorrido (campa-
nha) identica & minha. Tive maio-
ria absolute. Sd perdi tendo um
rev6s eleitoral no municfpio de
Breves, por 200 votos. Pela pri-
meira vez o partido a que perten-
cia ganhava na capital do Esta-
do", dep6s.
Apesar de todos os elogios ao
general Barata, o maior caudilho
da repdblica paraense, que ele
tentou reduzir a uma autocracia,
Aurdlio lembra ter encontrado o
Estado "em serias dificuldades
financeiras", um produto inques-
tronvel da administracgo bara-
tista e do PSD. No discurso, Au-
r6lio apresenta alguns efeitos de
sua gesto para melhorar esse
quadro de dificuldades, mas ,cer-
tamente passou compulsoria-
mente o Estado corn problems
multiplicados. Governador aos 35
anos, faltou-lhe maturidade para
cultivar alguns de seus bons atri-
butos e imobilizar sua ansia de
"savoir-tanre", uma postura ir-
responsivel que afundava as boas
iniciativas que a precediam no
mar revolto de uma imagem de
leviandades. O successor de Aur6-
lio poderia adotar, em relag~o a
ele, o mesmo discurso corn que
ele recebeu a gestao anterior.
Fui dos adolescents que co-
megaram precocemente uma inge-
nua militancia polftica gragas ao
governador Aurl1io do Carmo:
trequentemente acampava ao lado
da Faculdade de Direito, no Lar-
go da Trindade (onde morava),
esperando a passage do carro
official para gritar "1h vai ele"


para o governador, caricaturizado
pela "Folha do Norte" por suas
constantes viagens para fora do
Estado, sobretudo o Rio de Janei-
ro e particularmente o hotel Co-
pacabana Palace, em misses que
nem sempre ele podia relatar.
Certamente em multos moments
o governador foi injustigado e
pelo menos os dias finals da sua
permanencia no cargo, em junho
de 1964, Ihe deram uma dimensio
de dignidade que a brincadeira de
moleque haveria de captar, relati-
vizando o conceito desfavoravel.
Mas o governor de Aurelio do
Carmo foi tio polemico e essa
polemica tao mal tratada que o
ex-desembargador prestaria um
grande service aos seus concida-
daos se submetesse seus pianos
polfticos as suas responsailidades
para com a hist6ria.

Sem conex o

O assassinate do pecuarista e
industrial Domingos Rangel
Filho. de Castanhal, no dia 7. na-
da tem a ver com a morte do em-
presano Bruno Meira Mattos As
poucas pistas j4 levantadas pela
polfcia parecem indicar para a hs-
p6tese de vinganca de um grupo
de posseiros da regilo do Capim,
onde Rangel tinha comprado uma
tazenda mas nAo absorvera as
amistosas relag6es que o antigo
propriethrao vanha cultivando corn
os ocupantes de parte de suas ter-
ras. Uma outra fazenda de Ran-
gel, a 12 qutl6metros de Casta-
nhal, chegou a ser admitada como
o local onde Bruno esteve antes
de ser assassinado, no dia 10 de
dezembro do ano passado. mas
nada contfrmou essa suspelta
Nem apareceu qualquei trago de
ligagio entire os dois climes

Novo prego

do journal

para tentar atualizar o valor
atual aos 300 cruzeiros que
eram cobrados em maio do ano
passado, quando o Jornal Pessoal
voltou a circular, o prego de capa
tern novo reajuste neste ndmero.
Os 800 cruzeiros, entretanto, ain-
da nao recuperam o desgaste in-
flaciondrio do perfodo.









A lavagem

de dinheiro

Sbloqueio, pela justiqa ameri-
cana, de 30 milh6es de ddla-
res depositados numa conta da
Piano International em Nova
York, nos Estados Unidos, pode
levar a polfcia a rastrear o fluxo
de ddlares do narcotrAfico que
tem o Brasil como origem. A re-
velaqio do bloqueio, na semana
passada, nao foi acompanhada de
maiores detalhes, mas sabe-se que
o dep6sito foi efetuado por um
brasileiro e provavelmente se
trata de uma operaqgo de lavagem
de dinheiro resultante do trAfico
de cocafna.
Um dos clients da agnncia da
Casa Piano em Nova York era o
empresario Bruno Meira Mattos.
Quando foi assassinado, no dia
10 de dezembro do ano passado,
ele devia & Piano 500 mil francos
franceses e 1.249 ddlares, um
valor inexpressivo diante do vo-
lume de transag6es que vinham
efetuando. Bruno utilizava uma
conta numerada da Piano em No-
va York para suas operac6es com
o chamado d6lar-cabo, aquele que
pode ser comprado ou vendido
atravds de telefone, telex ou fax.
Bruno possufa outras contas des-
se tipo em Miami, uma delas
aberta em nome de um funciond-
rio da Secretaria da Fazenda do
Estado. Mas ele tambdm transan
cionava na Europa, tendo como
bases Amsterdam e Roma.
Quando recebesse um relat6-
rio do Departamento do Tesouro
norte-americano, a Polfcia Fede-
ral iria investigar a origem do di-
nheiro dos correntistas da Casa
Piano, sediada no Rio de Janeiro,
que comeqou como uma empresa
de cambio e se transformou, gra-
gas & criaqgo do cambio flutuan-
te, em 1989, numa instituigao
bancAria mdltipla. Sua subsididria
nos Estados Unidos 6 uma "clea-
ring", uma esp6cie de camara de
compensacgo para operac6es de
cAmbio de clients em diversos
pafses, inclufdo o Brasil.
A libertaco do cambio serviu de
estfmulo para a drenagem do d6dar
sujo. que antes seguia caminhos tor-
tuosos e uriiscados Necessitado de
moeda lowt, o governor preleriu taper
o nanz e ignotar o odor dos d6lares
para aimazena-los nos cores do Ban-
co Central. Mas a corrida tem sido tio
mtensa que ameaga provocar escfin-


dalos, como o que o rcp6rter Theo-
domuo Braga revelou, attavds do Jor-
nal do Briam, envolvendo os bancos
Goldmme e Ourmvest. A atuagco de
Bruno Meira Mattos em Belem faz
part dessa espual de lavagem de di-
nheiro ilicito que funciona A margem
da econonma formal e do mundo das
leis, exceto uma: a da selva

Desastre

aniversaria
Salbina. a mais alucinante das
hidreltricas construfdas na
Amaz6nia, completou neste m6s
tres anos de funcionamento
Quando comegou a ser construf-
da, em 1981, ela deveria ser ca-
paz de tender todo o consume de
energia de Manaus, a segunda
principal cidade da Amaz6nia, da
qual fica distance 145 quil6me-
tros Seu custo nAo deveria ir
alim de 400 mnlh6es de d'lares
E a Area por ela alagada nao de-
veria extravasar enormes 1.500
quil6metros quadrados.
Hoje, Balbina atende apenas
38% da demand energetica de
Manaus, obrigando a cidade a
buscar uma nova fonte de supri-
mento antes do final desta ddca-
da, quando a hidrel6trica cons-
trufda no rio UatumA nAo poderd
garantir nem um quarto das ne-
cessidades da capital amazonen-
se. A capacidade nominal de ge-
ragao da usina e de 250 mil kw,
mas sua pot6ncia firme jd nAo
atinge 90 mil kw. O lago nao p6-
de chegar A melhor cota opera-
clonal porque a inundagio iria
alem dos escandalosos 2.360
quilometros quadrados do reser-
vat6dro, quase do tamanho do de
Tucuruf, que tem condiq6es de
chegar a oito milh6es de kw. Corn
isso, as turbines tem que opera a
carga menor e apenas uma vez
pot m6s todas as cinco maquinas
luncionam simultaneamente.
Os muitos erros de concep-
Ao e execuqgo, aldm dos atrasos
na obra, que deveria ter comega-
do a funcionar em 1985, ftzeram
o orgamento estourar. A Eletro-
norte fala em. 750 milh6es de dd-
lares, mas os crfticas estio certos
de que o valor final alcanqou um
bilhao de d6lares, o custo pot kw
de uma central nuclear, a mais
cara tonte de energia disponfvel.
Balbina s6 nio produz resfduo
at6mico, mas o lixo de atrocida-
des colocado embaixo do tapete
da burocracia official 6 imenso e


de pdssimo odor Lembrd-lo, tras
anos depois. quando o governor ji
comeqa a providenciat uma alter-
nativa energ6tica mais contiavel e
duradoura para Manaus, pode
server para alimentar a ilusio de
que absurdos como o de Balbina
nao mais serao repetidos.

0 "nao" official

0 marketing procurou transfor-
mar o Simdamaz6nia, simpd-
sio realizado na semana passada
pelo governor do Estado com dis-
tante endosso da ONU (Organiza-
gio das Nag6es Unidas) em um
nio regional. Mas a excassez de
tempo para organizer agenda tdo
extensa e os mais do que claros
prop6sitos polfticos que a impul-
sionavam deram ao encontro a
marca de um nao official,
O simp6sio acabou sendo uma
repetigdo de tantos outros jd pro-
movidos: muito movimento, ele-
vado ndmero de inscriq6es, ses-
s6es concorridas, mas nada mais
do que reuniio acad6mica, cor
seus inevitaveis moments altos e
baixos. Os organizadores jd deve-
riam ter aprendido que uma pauta
congestionada pode garantir o
"frisson" que faz o sucesso co-
mercial desses events, mas pou-
co ou nada acrescenta aos melho-
res propdsitos para a Amaz6nia:
dar A informagio e ao conheci-
mento a forga de arma polftica.


0 eleitor inverno

A t a eleicqo municipal de ou-
tubro, um eleitor privilegiado
vai estar em agao em Bel6m, sur-
preendendo os esquemas polfticos
montados: o inverno. A chuva do
dia 18 toi a que causou maiores
danos na histdria recent da cida-
de, deixando nio apenas prejuf-
zos para seus moradores, mas
sujando a bela imagem que o pre-
feito Augusto Rezende vinha
cultivando para usar no moment
decisive do voto.



Journal Pessoal
Editor responsavel: Licio FlAvio Pinto
Ilustraao: Luiz Pinto
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Fone: 223-1929
Opaho Editoral