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ornal Pessoal Licio Flavio Pinto 2a Quinzena de Fevereiro de 1992 Cr$ 800,00 VIOLENCIA Uma prostituigao geral Uma series de reportagens leva a policia a libertar 45 mulheres mantidas como escravas no garimpo de Cuiu-Cuid. Mas o problema ainda nao foi resolvido. jornalista Gilberto Di- menstein prestou um grande servigo a opinmlo pdbitca brastleira: a sdrne de reportagens que ele escreveu e a Folha de S. Paulo pubitcou, entire os dias 6 e 11 deste m6s, deu a liberdade para 45 mulheres que eram pros- iuuidas, sob regime de escravi- dio. no mais famoso dos garim- pos do Tapajds, no Para, 22 delays menores de idade, e reacendeu a chama do interesse pelo grav(ssi- mo problema do tiatico de meno- res nos prostlbulos da regiao. Agenciadores e aprisionadores dessas mulheres toram pesos, mas Dimenstein exagerou a di- mensio da operagio policial de- sencadeada sobre o garimpo do Cuid-Cuid: "Da descoberta do Brasil ati ontem rio havia sido ecetuada nenhuma prisio de res- ponsdveis por trAfico e aprisio- namento de meninas", disse ele. NAo 6 verdade. Sempre que a imprensa deu tempo e espago a seus rep6rteres para apurar a si- tuagfo da prostituifio infantil. seja em bairros das capitals como em distantes paragens do sertio, o impact tot tro grande que as at6 entao omissas autoiidades vi- ram-se obrigadas a dar algum tipo de resposta. Mas invaravelmente a resposta tot de curia duraqgo e limitado alcance, como, de resto, as pr6prias reportagens produzidas na maioria das vezes pela impiensa de ocaslao e cir- cunstAncia Se ap6s as sEries de reportagens, impressas ou produ- zidas no vfdco, a situacao voltou a ser tao chocante que permittu ao ditetor da sucursal de Brasilia da Folha voltar a produzir im- pacto corn um tema recorrente, e poique a combinarAo da misdria do povo cor a insensibilidade cas elites do pals mantem o cfr- culo vicioso que retroalimenta a combustio dessa chama exposta 0 mnrto maior do jornalista Gilberto Dimenstein consistiu em Ir ve comr os prdprios olhos o que a maioria dos jornalistas trata apenas na converse. Sobretudo a imprensa amaz6nica ficou ho- misiada nas capitals, sem interes- se em investor algum dinheiro corn enviados especiais ao inte- rior, perdendo-se num joinalismo de gabinete, encurralado por pautas, press-releases e interpre- ta~io de papdis. Mas os exempios ilustrativos da tragddia est~o ao alcance de um caminhar pelas ruas de Beldm. Na sexta-leira da semania passada, em itente i sotisticada Sapataria Carrapatoso, no que jA lto o centro commercial da cidade, ciuzei cor cinco mulheres. A mais velha, apesar da aparencia desgastada, nio devia ter 18 anos. A mats nova parecia star pelos 12 Todas prostitutas To- das morando nas ruas. Tentei conversar corn a que parecia a If- dei impossfvel Puxava o resto de uma garrafa de plastico de agua mineral, cheirava a cola que estava IA dentro. escondia o ob- jeto dentro da blusa, que puxava sem qualquer pudor, expondo os seios flAcidos, olhava, tentava entender o que eu dizia, nao con- seguia e continuava a caminhar. Estavam, todas, no "barato" ab- soluto. E tAo espantoso ciuzal con essas criangas quanto. depots do impacto desse contato, ter a cer- ieza de que ele continualn a se iepetir e multiplicar Deixou de ser um fen6meno regional, esta- dual, municipal a misdria na- clonal universalizou-se, pene- trando em todas as sobras de es- pago Ifsico e indo ate o topo da pitrmide social, intiltrando-se nas atividades de sobrevivencia e no mais escondido porao da cul- tura. NAo s6 crianqas sAo obriga- das a se prostituir, em tonalida- des diversas, do mais negio regi- me de esciavizaqlo ate os con- cursos de "miss". mas o pals co- mo um todo. 0 director de um clube social de Belem me relatou algum tempo atras sua expel tncia de concur- sos de beleza Os pais de candi- datas em potential trazem as fi- lhas e, mal conseguem autotiza- qao para entrar no gabinete do di- retor do clube, mandam as jovens tiiarem a roupa e exibirem os dotes A primerra abordagem 6 cautelosa. diante dos pais. Mas e > Ano V No 84 depois? Para sairem nas totogra- fias das colunas socials, essas jo- vens aceitam fazer poses er6ticas, convencidas de que e na vitrine do interesse masculine que devem ponttlicar. Essa seria umu "mrn.talidade da dpoca", que assassina o ero- usmo ao busca-lo, libeiando a mulher de muitos preconceitos, mas expondo-a ao vazio de expe- rinncias finalizadoras sem senti- do. Na Amaz6nia, o choque da cultural native cor a do coloniza- dor estimula o incremento de uma prostituigio que tem rafzes fir- memente plantadas na misdria so- cial. O erotismo natural 6 um element intrfnseco da cultural que os fndios transmitiram ao ca- boclo, no lento e por isso, co- mo resuitado, relativamente har- m6nico process de aculturagio quase inteiramente lechado, en- ddgeno Convive-se com a sen- sualidade da lavadeira de beira de iio. mas essa 6 uma paisagem ir- resistfvel para o migrant citadi- no reprnmdo nas cidades pelo ce- nario e no campo pela formag&o cultural obtusa. A prostituiglo apresentou-se como um resultado potencialmente automatico no contato entire essas duas cultural em locals como o Acre, Rond6nia e Roraima em malor grau, mas de um modo geral na Amaz6nia toda. Este, porrm, 6 apenas o pano de tundo A indugAo & prostitui- cAo 6 um subproduto inevittvel de um modelo de ocupagio ba- seado na migraqao massiva, teita especialmente para a construaio de giandes obras, que abrigario maior volume de pessoas em sua lase de implantaglo, mas depois as distribuirao pelos cord6es de misdrta enquistada que cnaiam ao iedor de si. O garimpo do Cuid- Culd mobilizou a atengAo da mf- dia e provid6ncias das autorida- des com suas 65 prostitutes, 10% da populagAo local. Mas nAo hou- ve escAndalo quando havia quase quatro mil prostitutes para aten- der 32 mil trabalhadores, a esma- gadora maioria deles solteiros, no pique das obras da hidreldtrica de Tucuruf, a maior obra pdblica da Amaz6nia, de onde o empresario Sebastlio Cama go, dono da Construtora Camargo Correa. ex- traiu metade de sua fortuna, 500 milhOes de d6lares. O resultado da vasta e cara operadAo de resgate executada na semana passada pelo governor 6 uma invisfvel gota dagua num oceano encapelado de problems. Ela deveria ser realizada, quando nada para livrar pessoas humans de um tratamento animalesco, in- compatfvcl com a dignidade da civilizacio da qual julgamos fa- zer parte. Para 45 pessoas a si- tuagio passou a ficar menos ruim, mas a melhora 6 apenas de tona- lidade e as causes do problema permanecem intocadas. Nenhuma delas gostaria de viver como sAo obrigadas a viver em garimpos lechados. submetidas ao velho ststema do "barracAo". conheci- do hi s6culos de fndios, serin- gueiros e pedes -- e ha s6culos re- sistindo As promessas de que, dista vez, ter4 um fim. Mas a prostituigao 6 para elas um atrati- vo tio Indescartavel quanto o ga- rimpo para os homes que delas se aproveitam. Como dizia o poeta JoAo Cabral de Mello Neto, relatando a misdria recifense em Morte e Vida Severina, trata-se apenas de faz6-la passar de um lado para o outro do Capeberibe e Beberibe. O canhAo que os des- bravadores usam na tronteira amaz6nica ainda funciona & base de bucha humana. Vitimas e vitimados que o reporter ouviu e a polfcia flagrou sio os elos finals de uma cadeia & qual nem um e nem outro costu- mam chegar. A soma das "contri- buig6es" do comdrcio (inclufdo o da came) de Cuid-Cuid, aproxi- madamente 200 mil cruzeiros mensais, represent pouco menos de uma "venda" de mulher para os prostfbulos. O alcance da cor- rupgfo, do lenocfcio e das men- talidades 6 esse, no circulto que Ihes foi concedido para atuar. Os cfrculos seguintes, h semelhanga dos que Dante descreveu na sua Divina Conddia estAo tAo ao al- cance desses personagens como uma vida estavel e auto-suficiente - a limpa atividade que faz o ou- ro se0 depositado nos cofres do Banco Central ou limpar a sujeira do tratico de drogas. BIOGRAFIA A forga do cerebro O advogado e politico Cldvis Ferro Costa, que morreu na semana passada, aos 72 anos, tornou-se um nome de dimensio national pelos mdritos de sua in- teligEncia e capacidade de traba- Iho. Nao 6 feito que se deva su- bestimar numa provincia de cujo cfrculo de limitagio ou mediocri- dade alguns conseguem escapar graqas a favorecimento, fisiolo- gismo, clientelismo e falsas re- putaq6es, raramente por seus prd- prios atributos pessoais. Ferro Costa foi um dos mais brilhantes advogados e politicos da Repd- blica paraense, desses imigrantes adotados na terra (como Antonio Lemos, maranhense como ele, ou Jarbas Passarinho, acreano). Mas a causa pdblica, que as biografias oficiais procuraram demonstrar ter sido a preocupagao de toda a vida de Ferro Costa, nem sempre foi bem servida por seus atos, mesmo quando invocada por ele. Em muitos epis6dios, e cada vez mais nos recentes, a inteli- gencia, a sagacidade e a habili- dade do ex-deputado federal fo- ram usadas a servigo de interes- ses particulares, camuflados pela longa vinculagio que ele teve com quest6es de relevancia para o Estado. Esta reveladora disso- ciaqio entire o perfil polftico de um home que sempre ocupou posiq6es de vanguard no Estado e o resultado concrete de suas iniciativas esti na base das ava- liaq6es contradit6rias e antag6ni- cas que se pode fazer da biogra- fia de C16vis Ferro Costa. Ela ter moments de alto brilho e depois decai para sus- peitas participag6es, como no li- tfgio da gleba Cidapar, na desa- propriag~o da JaderlAndia ou, mais recentemente, no conflito da Alcoa cor os moradores da area na qual pretend desenvolver seu projeto de minerar bauxita. Neste ponto, por6m, nio hd o que imputar especificamente ao polftico paraense: essa contradi- go ter sido a marca de liberals brasileiros como ele e do pr6prio liberalism enquanto doutrina aplicada a um pafs que o desen- volveu & sombra da casa grande e da senzala, dupla sinalizaaio das nossas melhores possibilidades e de nossos mais tristes resultados quando de sua aplicaqao pratica. CIDADES O Amazonas e Manaus Aaior fronteira do pafs, cha- mando para si uma mfstica de grande apelo emotional, a Amaz6nia 6 uma terra de mi- grantes. A cada ano novos espa- gos slo ocupados por gene de todo o pafs, que chega & regiio convencida de ali fincar as bases de uma hist6ria de sucesso e feli- cidade. Os espacos ja ocupados anteriormente se adensam, adqui- rindo um crescimento que nio ter igual em outras parties do Brasil. Nenhuma capital apre- sentou, entire 1970 e 1990, por exemplo, o crescimento de Porto Velho, sede de um dos tres novos Estados que surgiram na Amaz6- nia nesse perfodo justamente por causa do grande fluxo migrat6rio: de pouco menos de 85 mil habi- tantes, passou para 286 mil, tres vezes mais do que possufa quan- do foi aberta a primeira estrada ligando-a ao restante do territdrio national. Essa 6 a tendencia observada em praticamente todas as cidades da regilo, mas Manaus, que abri- ga a tnica zona de livre comdrcio do pafs, talvez exatamente por esse motive constitui uma exce- gio a merecer andlise atenta. Em 1970 Manaus tinha apenas metade da popula;go de Beldm, maior ci- dade regional. Dez anos depois ja estava cor quase 70% e em 1990 atingiu mais de 80%. Nesse pe- rfodo, a relagio entire os Estados do Amazonas e do Para foi exa- tamente inversa: em 1970 a po- pulagio do Amazonas equivalia a 44% da do Pard, decrescendo pa- ra 42% e 41% em 1980 e 1990, respectivamente. A consequdncia natural 6 que Manaus foi concen- trando parcela cada vez maior da populasgo do seu Estado: 32% em 1970, 44% em 1980 e 48% em 1990. O caso paraense 6 diametral- mente oposto: Beldm tinha pouco menos de 30% da populacio do Estado em 1970, 27% dez anos depois e menos de 25% em 1990, conforme apurado pelo dltimo censo. Isto significa que a expan- slo da fronteira econdmica no interior do Estado e o cresci- mento de pequenas e m6dias ci- dades fora da drbita da capital desconcentrou a polarizagio que antes havia em torno de Beldm. Ja Manaus, atualmente cor quase metade da populagio do Amazo- nas, absorve mais de 90% da ren- da estadual, paroxismo sem similar em todo o pafs. Mais do que atrair migrants de outros Estados, a Zona Franca de Ma- naus esvaziou o interior amazo- nense: seu territ6rio, de 1,5 mi- lhao de quilometros quadrados (por si sd um pafs de porte consi- derAvel), 6 ocupado por menos de um milhfo de habitantes, vivendo de atividades primitivas ou em torno de uns poucos ndcleos eco- n6micos de significado. As lan- tejoulas de Manaus exerceram um fascfnio bem maior do que, vArias d6cadas antes, o "boom" da pro- ducio de borracha. O risco de uma crise desorganizadora 6 tio grande quanto antes e os ama- zonenses nao parecem ter conse- guido identificar as liq6es da histdria. Gragas aos pesados subsfdios que Ihe vem sendo concedidos (ver Jornal Pessoal n 83), a ZF transformou-se em um polo pro- dutivo que compete cor os eixos tradicionais da economic brasilei- ra. Mas essa posiqao 6 mantida cor um artificialismo que cresce A media em que se ampliam tam- bdm as dificuldades do Estado brasileiro, o gestor, em dltima instancia, dessa unidade. Quando o custo dessa estrutura se tornar excessivamente oneroso, o Estado poderd renunciar a essa alianga e dissolve-la unilateralmente, como fez em relacgo A economic da borracha amaz6nica, provocando sequelas atd hoje nio eliminadas. Cientes desse risco, os ama- zonenses o estdo enfrentando co- mo a avestruz diante do perigo: enfiando a cabega em um conve- niente buraco, sem ver, sequer, a avolumagio das demiss6es pelas industries incentivadas. S6 neste ano 50 lojas ja foram fechadas em Manaus. Mas nao se trata apenas de uma crise commercial, que po- deria ser compensada pela ativi- dade industrial, velha aspiragio que .no parece ter mais condi- c6es de se materializar. O distrito industrial, que tinha 100 mil em- pregados em 1990, foi reduzido a metade, mas s6 25 mil deles estao em atividades: os demais recebe- ram f6rias coletivas ou licenqa remunerada, desde dezembro. Sao sinais de alerta, que podem de- sembocar, sem anteparos, no pre- cipicio. Por baixo do pano Embora o governador Jader Barbalho apareca e atue como o dono da TV RBA, oficialmente o control da emissora ainda pertence ao espdlio de Jair Ber- nardino de Souza, que ter 33.100 cotas, enquanto Jader Barbalho possui 24.825 e seu irmao, Luiz Gullherme Barbalho, control 8.275 Os heideiros de Jalr, que era o dnico proprietrtao da repe- tidora da TV Manchete, conti- nuam cor 51% das cotas Do ponto de vista legal, o que ocot- reu em marco de 1990 foi uma simples transteerncia de cotas e nao uma mudanga de control aciontirio, caracterizando uma transterCncia indireta, o que auto- rizaria o Minist6rio da Intraes- trutura a intervir e anular a ope- raqao, como tentaram tazer os adversArios do governador. Para se prevenir, ele legalh- zou apenas a compra de 49% das cotas, mas, naturalmente, como se praxe nesse tipo de negociagio, deve ter assinado um contrato de gaveta, garantindo-se para ficar corn a totalidade da empresa de- pots de passado o prazo de cinco anos para que esse tipo de trans- icrencia se torne legal. Nada a tazer para anular a transferencia, exceto se o contrato de gaveta for revelado, o que costume ser multo laro. O esquema 6 o mesmo ado- tado em relaqfo ao canal 10, que pertencia exclusivamente tlamf- lia do governador (a maior cotista era sua esposa, Elcione). Em se- tembro de 1990 o vice-governa- dor Carlos Santos adquiru 49% das cotas (mais uma em nome da mulhei, Agazil), ftcando com 9.999 (ndmero padrio dos pro- dutos Carlos Santos), cnquanto Elcione Barbalho dettim oito mil e seu cunhado. Pedro Paulo Bas- tos, dois mil JUSTI(A Um poder a menos D esde o infcio do m6s o Did- rio Oticial da Justiga est& sendo impresso pela Im- prensa Oficial do Estado. A me- dida permltiu ao Tribunal econo- mizar de imediato quase 25 mi- lh6es de cruzeiros por m6s, mas pode dar ao antigo responsavel pela impressao, o Centro de Es- tudos Jurfdicos do Pard (Cejup), prejufzo de ate 60 milh6es de cruzeiros, valor superior ao fatu- ramento de boa parte das maiores grAticas de Belem. O president do TJE, Nelson Silvestre do Amorim, decidiu de- nunciar unilateralmente o con- trato de servigo que a Justiga as- sinara cor o Cejup em janeiro de 1991. Esse contrato nao se basea- ra em qualquer concorrencia pd- blica, mas numa simples resolu- Cgo do Tribunal, referendada por todos os desembargadores, inclu- sive Nelson Amorim, que na epo- ca ainda nao era o president do Tribunal. Essa resolugao instituf- ra o Diario da Justiqa do Estado do Pard, que passaria a ser publi- cagao aut6noma (at6 entio os atos judiciais eram publicados gratui- tamente no Didrio Oficial do Es- tado), e ao mesmo tempo autori- zou o president a "celebrar Convenio corn o Centro de Estu- dos Jurfdicos do Pard, a fim de viabilizar a implantacao do refe- rido 'Dibrio da Justiga"'. Pelo contrato, o Cejup estava obrigado a imprimir o Didrio corn no mfnimo oito e no maximo 16 pdginas, e tiragem de 1.500 exemplares, 500 das quaig seriam entregues ao Tribunal. Em troca, poderia vender os outros mil exemplares e comercializar a pu- blicagao de atos judiciais "oriun- dos de terceiros interessados, in- clusive outros drgaos do Poder Judiciario, Estadual ou nao". Sd depois de dois anos de aplicagAo desse esquema, haveria uma progressivea redugao da partici- pagao financeira do Tribunal na realizagao das ediq6es (...) ate que se garanta a veiculagao re- gular, disciplinada e gratuita dos atos do Poder Judicidrio" Atd que ocorresse essa auto- nomizagao, entretanto, o Tribunal pagaria por cada pdgina do Did- rio. Em janeiro do ano passado o valor da edigao de oito pdginas era de 332 mil cruzeiros. Um ano depois, estava em 35 milh6es de cruzeiros por mes. O Cejup pode- ria faturar ainda em torno de sete milh6es corn a venda avulsa ou mais ainda corn assinaturas (a trimestral variava entire 23,5 mil e 72 mil cruzeiros, conforme fosse para Beldm ou outras localida- des). Entre 15 e 20 milh6es pode- riam ser arrecadados corn a publi- cagao de editais de interesse de terceiros. Provavelmente era a principal fonte de receita da Ce- jup, que se consider detentor do maior parque grafico do Pard. Ao decidir romper o contrato, o president do TJE conseguiu da Imprensa Oficial menos de 10 milh6es de cruzeiros pela circula- gao mensal do Didrio. O Cejup ainda tentou, as pressas, garantir prego um pouco inferior, quase quatro vezes menos do que o praticado em janeiro. Mas a in- tenqao do desembargador Nelson Amorim, entretanto, nao parecia ser apenas a de proporcionar eco- nomia a combalida finanga do TJE, mas eliminar uma fonte de poder paralelo ao dele prdprio. O dono do Cejup 6 Gengis Freire, chefe da secretaria do Tribunal, HA mais de 10 anos Gengis conseguiu criar o Cejup dentro do Tribunal atravds de uma intrinca- da operaago triangular que utili- zava a Escola da Magistratura como ponte e o respeitado nome do desembargador Silvio Hall de Moura como aval. Essa ardilosa engrenagem permitiu ao Cejup funcionar nas instalag6es do TJE, utilizar sua estrutura e crescer rapidamente, mesmo sendo enti- dade sem fins lucrativos, ate se tornar na maior grdfica do Estado e uma das principals de toda a regiao, quando se desligou do Ju- dicidrio. Ainda assim, se manteve como seu fornecedor grdfico e editor exclusive, sempre recor- rendo a convenios que pareciam obrigar o Cejup a cumprir servi- gos cor o atraente resultado de que eles sempre eram altamente rentAveis. Sob o tftulo de prestagao de servigos de "fins culturais", um convenio de janeiro de 198.. tazia o Tribunal pagar o equivalent a 1,63 ORTN (da epoca) ao Cejup para a impressao da revista do Judicidrio (cujo dltimo ndmero tinha 316 paginas, incluindo fo- tos do presidente. Mas, genero- samente, a cl4usula terceira do convenio declarava: "Fica o Ce- jup ainda obrigado a confeccionar todos os impresses de interesse do TJE, em carter prioritfrio, a pregos m6dicos e sempre fazendo incidir sobre o preco final des- conto nao inferior a 10%". Sem nenhuma limitagio, a nao ser a vagufssima exigencia de "prego mddico", o Cejup inun- dou o Tribunal de impresses, que, segundo um graduado funcionario da administraago, precisarAo de anos de intense uso para serem totalmente utilizados, afastando os concorrentes atrav6s do cabe- qalho do conv6nio, que garantia tratar-se de uma relagao quase filantr6pica e nAo de um contrato commercial mais do que vantajoso para a parte recedora do dinheiro. Em janeiro do ano passado, um novo contrato reafirmou a inusual exigencia de que o Cejup confec- cione, "no melhor padrio grafi- co, todos os impresses de interes- se do Tribunal", propondo como "contraprestagao desse servigo o pagamento de 2,6 milh6es de cru- zeiros (valor da 6poca), com cor- reqao trimestral. O rompimento do contrato de edigao do DiArio da Justiga foi apenas mais um pass, embora o principal, que o desembargador Nelson Amorim deu para afastar o Cejup do Tribunal e minimizar a enorme forga que o dono da empresa tinha e ainda continue a ter na Justiga, gragas ao exercfcio de seu estratdgico cargo de se- cretdrio. Antes, Amorim ji vinha adotando como norma abrir lici- tag6es individualizadas para tender cada uma das necessida- des de impresses do Tribunal, deixando ate mesmo de enviar convites para o Cejup. Sua prd- xima meta 6 dar a revista do tri- bunal o mesmo destine do Diario. IMPRENSA Monopolio da mediocridade O journal "0 Liberal" temr feito intense campanha promocional para conven- cer seus leitores de que 6 o de maior credibilidade em todo o pafs. Mas o pr6prio journal nao parece levar a sdrio o que diz. No dia 6 "O Liberal" provocou um grande impact na cidade ao anunciar, em manchete de primei- ra pagina, que "Beldm bebe Agua cheia de coliformes". Em qual- quer circunstAncia, uma dendncia dessas teria profunda repercussio mas o surto de sclera poderia dar-lhe a dimensio de um escfn- dalo. No dia seguinte, a Secreta- ria de Sadde divulgou nota official esclarecendo que o journal se refe- ria A qualidade da Agua bruta captada em dois lagos e nao A agua tratada na estagio para for- necimento ao consumidor. Para reforcar o desmentido, a Sespa anexou declaragdo da pesquisa da Universidade Federal do Pard cuja pesquisa servira de base ao equivocado noticiArio do journal. O confront da reportagem do journal cor a nota official, refor- gada pela declaraqio da pesqui- sadora Hebe Morgane Campos Ribeiro, nao deixa ddvida alguma de que o autor da manchete e da chamada de primeira pagina de "0 Liberal" errara ao interpreter o texto ambfguo da notfcia do re- dator. Apesar da cristalina dife- renca entire a agua bruta (estoca- da no reservat6rio dos dois lagos ou oriunda de suas enfraquecidas nascentes) e a Agua pronta para consume, o journal nao se permitiu admitir o erro, reconhecimento que o tornaria de boa f6. No dia seguinte, cor uma manchete mais do que forgada ("Cosanpa admi- te: ha coliformes fecais na Agua 'bebida em Bel6m"), o journal pro- curava estabelecer uma confusao artificial a partir das declarag6es do director de operag6es da Co- sanpa, Haroldo Aradjo. Suas de- clarac6es, entire aspas, diziam uma coisa. As observarbes do journal conclufam outra. Estivesse certo, "O Liberal" teria prosseguido a partir de en- tao cor uma campanha de escla- recimento da populagio e para forgar o governor a corrigir a pe- rigosa irregularidade. Mas, de- pois de merecer a principal man- chete de primeira pdgina e uma sufte capcciosa, a questio desa- pareceu das pAginas do journal, sem que ele tivesse esclarecido o leitor sobre seu erro primArio. Pa- ra 90% dos leitores de journal, que fazem de "O Liberal" sua dnica fonte de information impress, tomar Agua diretamente das tor- neiras de Bel6m significa conde- nar-se a contrair doengas, inclu- sive a cdlera. O que esperar de uma empresa de comunicacqo cujo dnico servi- go de utilidade prestado A comu- nidade sao anacr6nicos concursos de beleza? Ainda assim, a forga do grupo Liberal nao tem paralelo na hist6ria da imprensa paraense. Manter e renovar essa forqa ape- sar de atos de complete desres- peito ao pdblico dB uma iddia da desestruturagdo e mesmo da prostraqao a que foram reduzidos os paraenses no imp6rio de um colonialismo sem reticencias, co- mo o que Brasilia nos imp6s. Esta 6 uma sociedade que perde os 6l- timos filamentos de sua espinha dorsal, do que se aproveita muito bem o grupo Liberal para impor um monop6lio que se baseia, acima de tudo, na mediocridade. Os medfocres com instruments de poder A mao se imp6em Aque- les que acham que o exercfcio do poder sempre foi assim, e se prostram. Convenhamos, entretanto, que o grupo Liberal abusa dessa le- targia geral, produzindo um jor- nal que quase todos lem e que, por isso, se torna na maior fonte de poder fora das instancias ins- titucionalmente estabelecidas. No dia 7 o journal abriu manchete de pdgina fmpar para anunciar que o Tribunal de Contas do Estado "inspeciona o gabinete do gover- nador". Como foi redigida, a no- tfcia dd a entender que o gabinete a ser investigado 6 o do governa- dor atual, indugao ao erro feita pelo "press release" do TCE, transcrito sem atengao. Mas se prezasse a credibilidade de que se diz possuidor, o journal teria apu- rado a informagao e transmitiria ao leitor a notfcia certa: a irre- gularidade foi constatada pelo Tribunal na gestao Hl6io Gueiros. Fazer campanha contra o go- verno, ou a despeito dele, 6 uma das fung6es mais nobres da im- prensa, mas "O Liberal" nao chega a isso quando se trata de combater a administragao Jader Barbalho. A contaminagao dos lagos Agua Preta e Bolonha ji 6 fato pdblico e notdrio, que for- mou sua cultural no conhecimento da opiniao pdblica. Tratar dessa contaminagao como se ela fosse fato novo 6 prova de ignorancia ou ma f6. Mas o journal poderia ajudar a esclarecer a opiniao pd- blica se investigasse a qualidade da Agua nas torneiras, principal- mente ao atravessar redes de dis- tribuigao antigas. Ou se juntasse especialistas para discutir uma forma de captacao e fornecimento mais adequada, a partir da falen- cia do conjunto do Utinga Os donos do journal podem se queixar de que as crfticas a seus vefculos estao contaminadas por ma vontade e despeito. Mas se serve para arranjar justificativas entire amigos, essa attitude nao 6 suficiente para evitar a contfnua decadencia da empresa e certo ti- po de interpretagao que suas prd- ticas viciadas suscita. Nao deve ter passado desapercebido ao ob- servador mais atento, por exem- plo, que as tr6s dnicas notfcias publicadas por "O Liberal" sobre o assassinate do empresdrio Bru- no Meira Mattos se referiam ao traficante de drogas Isidoro Costa Izfdio Oliveira Filho. A primeira delas praticamente serviu de alerta para que o advogado de Isidoro impetrasse "habeas cor- pus" para soltI-lo da prisao, at4 aquele moment ignorada pelo grande pdblico. Apesar de tanta atenqao dada ao traficante, o no- ticidrio do journal em nenhum moment a~sociou a morte de Bruno ao trifico de drogas, como se "O Liberal" quisesse mandar recado a destinatdrio privilegiado ao inv6s de informar o pdblico em geral. E o que acontece quan- do credibilidade se torna produto de venda em gabinete de dono de journal. LIVRO Apenas mitologia N a rmtologia da esquerda, uma das mais cultuadas lendas trata do fim do Coreio da Manh, na metade da ddcada de 70, tendo co- mo supreme herofna sua propricetria, Niomar Muniz Sodre Bittencourt. Diz a lenda que o journal mais intluente em grande part da hist6dia republican brastlelra Ioi assassmnado pelo regime militr de 1964. que nio Ihe deu a menor possibdtdade de sobievivencia As cmzas do journal serviram de cend- 1no, entretanto, para a attrma~Ao de um exemplo de digmdade e lorqa: o de dona Niomna Como quase toda lenda tem um lundo de veodade, os dois elements sio components fundamentals dos mementos tmais do Correio mas nio o explicam por mtetro. O governor do marechal Castelo Branco, o primeiro ap6s a deposiquo de JoAo Goulait, e dos miutares que o sucedetam at, o general Mtdici, fizeram o que esteve ao seu alcance para sufocar o grande journal camioca Prenderam lunciond- nos da empresa, empastelaram ediqes do journal, colocaram censors na ie- dag~o, intimidaram os anunciantes e patrocinaram um boicote econ6mico sufocante, mas nfo pareciam conven- cidos de podei denotat um journal que, ao long dos anos, se mostrara mais torte do que os governor. JAnio de Freitas, um dos redato- ies-chetes do Comreo, reconhece que "a ditadura pressionou muito o Jor- nal", mas garante que, em meados do govemno Castello, "jf4 tinha ticado demonstrado que eles (os nmduares) pressionavam mas nao tinham coia- gem de tlchar" Janio, um dos mais expenentes e respettados jornalistas brasileiros, acha que a cdreio do jor- nal, percebendo que seus advetsAios nio inam lechar a empresa. dcveram ta-la preparado para tuncionar sob um sistema de sobrevivencia, "adequa-la a uma situagio de cerco" Mas isso nao toi telto e o jomal ftcou enfra- quetido. "Nio partncipo, o~o sou adepto da teona segundo a qual foi o regime nmlitar que fechou o Correwo da Manhi Do meu ponto de vista, nio fot, nito. Foi a mA administrm ao mesmo. Inexistencia de administra- iao". dep6e Jnio. O Cmonmo nio precisaria fazei composiqoes tiio explftitas como o Jomal do Brand, O Globo ou a Fo- Uia de S. Paulo fizeram com os novos donos do powder, mas tena que ser muito mais intelligent, apilcado e competence do que o Diirio de Nodt- casu, outro dos grande jornais dirios que desapareceram com o novo regi- 6 me O Coneno jA havia sobrevivido a mtervenaio de mais de onto meses do president Arthur Beinardes, que entrentaia a oposiago do journal gover- nando em estado de sftio permanent duante quatro anos Tambum nao su- cumbira I ditadura de Getdho Vai gas Poi que, ji sexagenArio, havera de alundac sob as turbulncias dos gene- rais da So bonne? 0 livro de Jefferson de Andrade (Urn jomal amasmndo A dituna batalha do Corrio da Manha, Josd Olympio Editora, 375 pAginas) se prop6o a responder a um dos memen- tos mais dramnticos em today a histdna da imprensa brasileira, mas o que o salva de uma frustraqio total sio os depoimentos dos quatro dltimos reda- tores-chetes do journal (Antonio Calla- do, Lufs Alberto Bahia, JAnio de Frettas e Osvaldo Peralva) A contri- buigAo do pr6prio Jefteison 6 quase desnecessAna: ele se limit a repetir a mitologia, como se nem uvesse absor- vido o que os ouuo quatro jornalistas Ihe disseram. Rara pessoa corn menos de 25 anos, inclufdos jornahstas, ouviu falar do Cortcio da Manhi, ou, se o conhe- t. de vaga retenrncia, ter uma idila do quo ele representou em mais de 70 anos de existncia. Ati metade da de- cada de 50, era, de long, o mais in- tluente cm todo o pafs, cujo peso e densidade slo palidas atualizag6es jornas como a FoUha de S Paulo ou o Journal do Brasi de hoje A mudanra na chetia de redaaio do journal costu- mava atrair mais a ateniAo dos ire- quentadores do poder do que a altera- gao nos ministries. Costa Rego, o mais duradouro dos redatores-cheles, tinha sido senador e governador de Alagoas e amda assim era um jor- nalista brilhante Edmundo Bitten- court, o tundador. e Paulo Bitten- court, seu tWho e successor, que garan- tuam a continuidade da tamflia t trente da empresa durame quase 60 anos inintelruptos, nio eram apenas os donos da voz do journal, mas sabiam escrever, entendiam de jornalismo, realidade que nos dias atuais parece peqa arqueoldgica Entrentar a umania dos militaes colocados no poder cor o apoio do pr6prio journal. que com dois tamosfs- simos editorais (Biasa! e Forw!) ajuda- lam a preparar o apoio da classes md- dia ao golpe que dep6s Goulart, tlo mais uma batalha na sucessao de combates que o Coreao da Manli precisou travar na segunda metade da ddcada de 50, quando come ou seu decifnmo. Dubidativo, Paulo Bitten- court passava muito tempo na Europa, onde ia buscar refigio quando algum conthto mterno que nao queria ou nio podia resolver estourava. A re- dagAo queria renovar, mas a admmnis- traco era conservadora. A forga do journal se baseava nos andncios classi- ticados, que garantiam independ&ncia econ6mica contra a pressao dos pode- rosos descontentes, mas o comnrcio foi sendo deslocado pela inddstria. que, para intlur mats eticientemente, mventou as agencias de publicidade. A ideologia liberal passou a ser apenas um mote. Como os intelectuais de esquerda que se acumularam em sua redagso, o Coucio achava que os militares de 1964 senam tao tuansit6- nos quanto os antenores. Desde 1922 eles vmham tentando permanecer no powder que episodicamente tomavam, mas logo devolviam o bastio aos ci- vis. Mas o Conrio deu-lhes a adesio da classes media, que ate entAo eles n8o tinham, o que taltava para se es- tabelecerem por longufssimos 20 anos. O journal abriu sua pr6pria se- pultura e os outros 6rgaos, sem usar sequer os instintos da sobrevivencia corporativa, trataram de jogar flores no tdmulo do que toi o mais liberal de todos os jornais deste pats, um de seus mals belos produtos, produto que sd nos Estados Unidos, em situaqdes co- mo a do Washington Pom, conseguem ilorescer. AtZ que o Conrio toi um sonho que durou muito, mais ate do que merecia o seu pdblico Amnda assim, nio serA demans lamentar que dona Niomar tenha deci- dido airendar o famoso journal que re- cebeu de heranga a uma dupla de em- preiteiros mteressados em pattocinar a nau-morta candidatura do coronel Md- no Andreazza I presidcncia da Repd- blca, em 1969, ao inves de entregd-lo a uma empresa jornalfstica como a Folha de S. Paulo, a outra preten- dente. Inviabilzada a candidatura de Andreazza com a money do general Costa e Silva, os empreiteiros, aos quais Niomar cedeu o journal supondo "que optanam por uma inha gover- nsta" (num racioclfo oportumsta e novamente equivocado quanto A per- manencia dos mthtares no poder), uataram de laviar a lapide sob a qual st enceirou, melancolicamente, a me- lhor trajet6na da imprensa brasiletra Dessa tumba glorosa, mas andnima neste pars sem mem6ria, nao o livra o p6ssmno ivro de Jelferson de Andra- de, capaz apenas de acender alguma iembranga no cerebro dos que, como eu, tiveram a gl6na de algum dia tra- balhar nas redag6es do jonal. DEPOIMENTO Apenas na promessa Aur6hlo Correa do Carmo 6 o lnico dos governadores anteriores ao regime militax estabelecido em 1964 ainda vivo, personagem important na vida republican paraense at6 seu en- cerramento naquele ano por um golpe de Estado. Era natural, as- sim, que se esperasse com certa ansiedade o langamento do livro atravds do qual o ex-governador faria sua autobiografia. Mas Uma vida a secvigo da causa pdblica (Edig6es Cejup, 110 paginas, 1992) 6 uma decepgao. Aposenta- do compulsoriamente do Tribunal de Justica do Estado, o .entao de- sembargador preferiu ocupar 80% do espaco do livro corn despachos e pareceres (de problemitica pe- renidade), dados durante a curta passage pelo mais alto nfvel da magistratura estadual, a qual che- gou por nomeagCo do governador Jader Barbalho em sua primeira gestao. Os restantes 20% sho pre- enchidos por totografias tiradas ao long da vida pdblica, que. embora de mero valor iconogrifi- co, suplantam em significado a parte dominant do livro. A opCao por essa organizaaio do primeiro livro do ex-governa- dor certamente nao reflete a posi- gao de um politico que se retira da vida pdblica, mas a arguta de- cisao de quem pretend voltar a" militancia nas eleig6es de 1994, talvez como candidate ao Senado ou a CAmara Federal. O livro po- de se tornar um instrument em favor desses objetivos, mas presta pouqufssimo servigo ao esclare- cimento da hist6ria pela qual Au- r6lio do Carmo passou corn a sua marca. No discurso de despedida da magistratura, sem a pompa do li- vro, mas de muito maior serventia para os historiadores, Aurdlio admitiu ter exercido as mais ele- vadas fung6es no serving pdblico estadual "mais novo do que deve- ria ser". Bacharel em Direito aos 22 anos, conseguiu logo (por no- meagAo) um cargo de promoter no interior e nove meses depois jd estava na capital. Em seguida foi o mais novo dos auxiliares do ge- neral Magalhaes Barata, na pri- meira vez em que ele governor o Pari gracas a uma eleig~o direta. "Corn este meu temperament acredito que tivesse evitado que muitos atos se fizessem nao pelo general Barata, mas pessoas que cercam os governantes e que le- vam ao cometimento de- atos que pudessem arranhar a administra- 9Co correta, honest e s6ria do nosso pranteado general", decla- rou. Esse temperament afiAvel, que dava a Aurdlio uma perma- nente aura de simpatia, em oposi- Cgo ao radicalismo do tratamento que os baratistas dispensavam aos adversarios e inimigos, deu re- sultados favoraveis a Aur61io: "acredito que, na hist6ria do Pa- rdi, nio tenha ocorrido (campa- nha) identica & minha. Tive maio- ria absolute. Sd perdi tendo um rev6s eleitoral no municfpio de Breves, por 200 votos. Pela pri- meira vez o partido a que perten- cia ganhava na capital do Esta- do", dep6s. Apesar de todos os elogios ao general Barata, o maior caudilho da repdblica paraense, que ele tentou reduzir a uma autocracia, Aurdlio lembra ter encontrado o Estado "em serias dificuldades financeiras", um produto inques- tronvel da administracgo bara- tista e do PSD. No discurso, Au- r6lio apresenta alguns efeitos de sua gesto para melhorar esse quadro de dificuldades, mas ,cer- tamente passou compulsoria- mente o Estado corn problems multiplicados. Governador aos 35 anos, faltou-lhe maturidade para cultivar alguns de seus bons atri- butos e imobilizar sua ansia de "savoir-tanre", uma postura ir- responsivel que afundava as boas iniciativas que a precediam no mar revolto de uma imagem de leviandades. O successor de Aur6- lio poderia adotar, em relag~o a ele, o mesmo discurso corn que ele recebeu a gestao anterior. Fui dos adolescents que co- megaram precocemente uma inge- nua militancia polftica gragas ao governador Aurl1io do Carmo: trequentemente acampava ao lado da Faculdade de Direito, no Lar- go da Trindade (onde morava), esperando a passage do carro official para gritar "1h vai ele" para o governador, caricaturizado pela "Folha do Norte" por suas constantes viagens para fora do Estado, sobretudo o Rio de Janei- ro e particularmente o hotel Co- pacabana Palace, em misses que nem sempre ele podia relatar. Certamente em multos moments o governador foi injustigado e pelo menos os dias finals da sua permanencia no cargo, em junho de 1964, Ihe deram uma dimensio de dignidade que a brincadeira de moleque haveria de captar, relati- vizando o conceito desfavoravel. Mas o governor de Aurelio do Carmo foi tio polemico e essa polemica tao mal tratada que o ex-desembargador prestaria um grande service aos seus concida- daos se submetesse seus pianos polfticos as suas responsailidades para com a hist6ria. Sem conex o O assassinate do pecuarista e industrial Domingos Rangel Filho. de Castanhal, no dia 7. na- da tem a ver com a morte do em- presano Bruno Meira Mattos As poucas pistas j4 levantadas pela polfcia parecem indicar para a hs- p6tese de vinganca de um grupo de posseiros da regilo do Capim, onde Rangel tinha comprado uma tazenda mas nAo absorvera as amistosas relag6es que o antigo propriethrao vanha cultivando corn os ocupantes de parte de suas ter- ras. Uma outra fazenda de Ran- gel, a 12 qutl6metros de Casta- nhal, chegou a ser admitada como o local onde Bruno esteve antes de ser assassinado, no dia 10 de dezembro do ano passado. mas nada contfrmou essa suspelta Nem apareceu qualquei trago de ligagio entire os dois climes Novo prego do journal para tentar atualizar o valor atual aos 300 cruzeiros que eram cobrados em maio do ano passado, quando o Jornal Pessoal voltou a circular, o prego de capa tern novo reajuste neste ndmero. Os 800 cruzeiros, entretanto, ain- da nao recuperam o desgaste in- flaciondrio do perfodo. A lavagem de dinheiro Sbloqueio, pela justiqa ameri- cana, de 30 milh6es de ddla- res depositados numa conta da Piano International em Nova York, nos Estados Unidos, pode levar a polfcia a rastrear o fluxo de ddlares do narcotrAfico que tem o Brasil como origem. A re- velaqio do bloqueio, na semana passada, nao foi acompanhada de maiores detalhes, mas sabe-se que o dep6sito foi efetuado por um brasileiro e provavelmente se trata de uma operaqgo de lavagem de dinheiro resultante do trAfico de cocafna. Um dos clients da agnncia da Casa Piano em Nova York era o empresario Bruno Meira Mattos. Quando foi assassinado, no dia 10 de dezembro do ano passado, ele devia & Piano 500 mil francos franceses e 1.249 ddlares, um valor inexpressivo diante do vo- lume de transag6es que vinham efetuando. Bruno utilizava uma conta numerada da Piano em No- va York para suas operac6es com o chamado d6lar-cabo, aquele que pode ser comprado ou vendido atravds de telefone, telex ou fax. Bruno possufa outras contas des- se tipo em Miami, uma delas aberta em nome de um funciond- rio da Secretaria da Fazenda do Estado. Mas ele tambdm transan cionava na Europa, tendo como bases Amsterdam e Roma. Quando recebesse um relat6- rio do Departamento do Tesouro norte-americano, a Polfcia Fede- ral iria investigar a origem do di- nheiro dos correntistas da Casa Piano, sediada no Rio de Janeiro, que comeqou como uma empresa de cambio e se transformou, gra- gas & criaqgo do cambio flutuan- te, em 1989, numa instituigao bancAria mdltipla. Sua subsididria nos Estados Unidos 6 uma "clea- ring", uma esp6cie de camara de compensacgo para operac6es de cAmbio de clients em diversos pafses, inclufdo o Brasil. A libertaco do cambio serviu de estfmulo para a drenagem do d6dar sujo. que antes seguia caminhos tor- tuosos e uriiscados Necessitado de moeda lowt, o governor preleriu taper o nanz e ignotar o odor dos d6lares para aimazena-los nos cores do Ban- co Central. Mas a corrida tem sido tio mtensa que ameaga provocar escfin- dalos, como o que o rcp6rter Theo- domuo Braga revelou, attavds do Jor- nal do Briam, envolvendo os bancos Goldmme e Ourmvest. A atuagco de Bruno Meira Mattos em Belem faz part dessa espual de lavagem de di- nheiro ilicito que funciona A margem da econonma formal e do mundo das leis, exceto uma: a da selva Desastre aniversaria Salbina. a mais alucinante das hidreltricas construfdas na Amaz6nia, completou neste m6s tres anos de funcionamento Quando comegou a ser construf- da, em 1981, ela deveria ser ca- paz de tender todo o consume de energia de Manaus, a segunda principal cidade da Amaz6nia, da qual fica distance 145 quil6me- tros Seu custo nAo deveria ir alim de 400 mnlh6es de d'lares E a Area por ela alagada nao de- veria extravasar enormes 1.500 quil6metros quadrados. Hoje, Balbina atende apenas 38% da demand energetica de Manaus, obrigando a cidade a buscar uma nova fonte de supri- mento antes do final desta ddca- da, quando a hidrel6trica cons- trufda no rio UatumA nAo poderd garantir nem um quarto das ne- cessidades da capital amazonen- se. A capacidade nominal de ge- ragao da usina e de 250 mil kw, mas sua pot6ncia firme jd nAo atinge 90 mil kw. O lago nao p6- de chegar A melhor cota opera- clonal porque a inundagio iria alem dos escandalosos 2.360 quilometros quadrados do reser- vat6dro, quase do tamanho do de Tucuruf, que tem condiq6es de chegar a oito milh6es de kw. Corn isso, as turbines tem que opera a carga menor e apenas uma vez pot m6s todas as cinco maquinas luncionam simultaneamente. Os muitos erros de concep- Ao e execuqgo, aldm dos atrasos na obra, que deveria ter comega- do a funcionar em 1985, ftzeram o orgamento estourar. A Eletro- norte fala em. 750 milh6es de dd- lares, mas os crfticas estio certos de que o valor final alcanqou um bilhao de d6lares, o custo pot kw de uma central nuclear, a mais cara tonte de energia disponfvel. Balbina s6 nio produz resfduo at6mico, mas o lixo de atrocida- des colocado embaixo do tapete da burocracia official 6 imenso e de pdssimo odor Lembrd-lo, tras anos depois. quando o governor ji comeqa a providenciat uma alter- nativa energ6tica mais contiavel e duradoura para Manaus, pode server para alimentar a ilusio de que absurdos como o de Balbina nao mais serao repetidos. 0 "nao" official 0 marketing procurou transfor- mar o Simdamaz6nia, simpd- sio realizado na semana passada pelo governor do Estado com dis- tante endosso da ONU (Organiza- gio das Nag6es Unidas) em um nio regional. Mas a excassez de tempo para organizer agenda tdo extensa e os mais do que claros prop6sitos polfticos que a impul- sionavam deram ao encontro a marca de um nao official, O simp6sio acabou sendo uma repetigdo de tantos outros jd pro- movidos: muito movimento, ele- vado ndmero de inscriq6es, ses- s6es concorridas, mas nada mais do que reuniio acad6mica, cor seus inevitaveis moments altos e baixos. Os organizadores jd deve- riam ter aprendido que uma pauta congestionada pode garantir o "frisson" que faz o sucesso co- mercial desses events, mas pou- co ou nada acrescenta aos melho- res propdsitos para a Amaz6nia: dar A informagio e ao conheci- mento a forga de arma polftica. 0 eleitor inverno A t a eleicqo municipal de ou- tubro, um eleitor privilegiado vai estar em agao em Bel6m, sur- preendendo os esquemas polfticos montados: o inverno. A chuva do dia 18 toi a que causou maiores danos na histdria recent da cida- de, deixando nio apenas prejuf- zos para seus moradores, mas sujando a bela imagem que o pre- feito Augusto Rezende vinha cultivando para usar no moment decisive do voto. Journal Pessoal Editor responsavel: Licio FlAvio Pinto Ilustraao: Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone: 223-1929 Opaho Editoral |
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