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VIOLANCIA Para o arquivo morto Ao morrer em sil~ncio, Mgrcio "Rambo" levou para o ti'mulo muitos segredos, que so uma investigaGo rigorosa levantara. No Castelo dos Sonhos hA novo donor. Miron concordou em bater na parade Oca e chamar o irmao pelo nome. Caute- losamente, M~rcio foi saindo, mas quan- do virou o corpo para olhar para Miron recebeu um tiro de fuzil que estragalhou metade de seu rosto. Ainda conseguiu apertar o gatilho da metralhadora In- gram, mas jd nio tinha dire~go. Mais quatro tiros atingiram sua cabega e o t6tax, liquidando-o. Se essa 6 a reconstituigio mais pr6xi- ma da realidade, por que o comandante da tropa montou o cendrio da morte, colocando a metralhadora nas msos de MBrcio e dando-se ao exagero de fazer seu dedo indicador continuar apertando o gatilho? MERA EXECUQAO? A fama de trucul&ncia, alimentada pelas histbrias sobre o Rambo amazini- co, devem ter influido no Animo dos mi- litares envolvidos na operago. Eles temiam que qualquer hesitagio resul- tasse em mortes entire a tropa. Ngo de- veriam dar nenhuma oportunidade de reagno para Maircio. Mas nao esta. afas- tada a hipbtese de uma orientag8o sore a facilidade que Mgrcio tinha para li- vrar-se de penitencidrias de seguranga maxima atraves do suborno, como fez pela filtima vez em novembro, em Co- rumbs, Mato Grosso. Resolver oproble- ma era entendido como eliminar de vez o personagem e nso faltariam pretextos para isso, embora sobrassem tamb~m, depois, interpretages sobre a convenien- cia da mera execucgio como forma de eliminar algu~m capaz de fazer revelag6- es bombssticas. Arcio Martins da Costa tinha 23 Manos, um pequeno aviso compra- do em sociedade com o tamb~m piloto Ivo Parente Rodrigues e muita ambigno quando chegou, em 1988, ao Castelo dos Sonhos, um povoado que seria inaugurado festivamente em agos- to daquele ano para centralizar as ativi- dades de oito garimpos espalhados por uma brea de 400 mil hectares, 600 quild- metros a sudeste de Itaituba, na divisa do Pard comn Mato Grosso. Em abril do ano seguinte ja. havia 700 pares de mdquinas e 4.200 garimpeiros extraindo ouro no local. M~rcio, mineiro de Uberl~ndia que o espirito aventureiro havia levado at6 Redeng~o como aprendiz de piloto, achou que seria o memento de enrique- cer. No mes passado, sua rapida carreira de donor de garimpos e comandante de quadrilhas chegou ao fim, tres anos de- pois de iniciada. M~rcio ja. possula um patriminio avaliado por baixo em 2,8 milhbes de d61ares (mais de tr~s bilhbes de cruzeiros, dinheiro suficiente para pagar quase toda a folha de pessoal da Justiga, incluindo a magistratura e fun- ciondrios, durante um m~s). Esse patri- minio inclula 17 pequenos aviiies (o maior deles um Carajds, de 600 mil d6- lares), 5 caminh~es, 10) mdquinas, im6- veis e instalalgbes, entire as quais seis postos de combustiveis, mas nho compu- tava fazendas e eventual estoque de ouro, al~m de armas, muitas, que pode- riam elevar a soma para bem mais do que tres milhdes de d61ares, nada mal para quem, tres anos antes, nso poderia con- tabilizar nem US$ 10 mil. Arrecadava nio menos que 80 quilos de ouro por mes, no valor de quase 100 milhoes de cruzeiros. Mas s6 o ouro nio explicava a sua fortune. Ela tambem tinha ramifica- 90es subterrdneas. Talvez nio seja mais possivel apurar o que 6 lenda do que 6 fato real na hist6- ria de Marcio, aberta problematicamen- te e assim arrematada. Ngo tendo podido falar, ele morreu como um arqui- vo morto, sepultado, mas inc~modo. A verso official de sua morte dificilmente serb. mais do que verso, a ser usada conforme os interesses dos narradores. Descrito como um guerreiro ao coman- do de dezenas de homes bem armados, disposto a iniciativa cinematogrificas dignas de um Rambo (apelido pouco criativo dado pela mfdia), como descer de helic~ptero em garimpos e montar sobre corpos de inimigos executados, MBrcio morreu sozinho na sede de sua fazenda, que funcionava como um quar- tel-general de suas operag6es no vale da Esperanga. N~o lhe faltavam armas: estava com uma metralhadora Ingram, sete rifles de repetigio, trds espingardas, uma carabi- na e dois rev61veres, alem de muita mu- nigao, tudo colocado num esconderijo, por trbs de uma parede falsa de madeira. La ele se escondeu ao perceber que havia cometido um erro, acreditando serem de pesquisa geoldgica, como the foi dito, dois helic6pteros que passaram sobre a sede da fazenda transportando homes da Policia Militar. No dlia seguinte os militares ocuparam a casa, mas nao sou- beram como localizer Mdgrcio (que so- brevivia bebendo Agua mineral e comendo rapadura para manter a glicose no organismo), at6 o irmdo, Miron, de- pois de espancado, indicar o esconderi- Jo. Jor nal Pe ssoal Lucio F1lvio Pinto Ano V NE 83 19 Quinzena de Fevereiro de 1992 Cr$ 500,00 Mgrcio jB havia sido preso antes qua- tro on cinco vezes, a tiltima delas na "Operagno Realeza", montada pela Poll- cia Federal, que mobilizou 239 homes e contou com a colaboragso das policia civil e military. O objetivo era reduzir a violencia na regilo do Bico do Papagaio, considerada a mais sangrenta do pals (sul do ParB, norte de Tocantins e oeste do Maranhlo), reprimindo o trabalho escravo e as milicias organizadas. Mas a logistica da operago foi modificada em Brasilia e sua maior faganha foi confiscar a fazenda Big Valley, de Mgrcio, acusado - junto com o irm~io Miron de manter 26 trabalhadores sob regime de escravi- dio. O director geral do DPF, Romeu Tuma, apontou os dois como respons8- veis pelas atividades ilegais praticadas na brea, entire as quais o furto de carros e a organizagso de milicias privadas. JOGO DE INFLUANCIA Mgrcio nso ficou preso mais de um mes e logo volton para retomar o contro- le do garimpo Esperancga I, o antigo Mala. Sarcasticamente, dizia que o inico resultado concrete da "Operagio Reale- za" em Castelo dos Sonhos havia sido a de dar a Atdson Martins Cardoso, o ~d- son Goiano, o dominio do garimpo, que ele vinha tentando obter atravbs da Jus- tiga. M~rcio garantia que fidson, embora o menos poderoso dos tres pretendentes ao control dos garimpos, no menos na pr6pria 8rea, tinha boas relagoes em Brasilia. Seu advogado, Josias Batista dos Santos, se declarava procurador mi- litar em Tocantins, licenciado da funglo, e seria ainda assessor do Ministerio da Justiga (ao qual a Policia Federal esta subordinada)e da Presid~ncia da Repti- blica. Mas Mgrcio nio estava desarmado tamb~m nesse plano. Um de seus advo- gados, Uiris Emanoel Beiriz, tinha sido agent da Policia Federal em Goidnia. Na retarguada da Justiga, Mgrcio conta- va com a boa vontade (segundo dem~in- cias, mantida literalmente a peso de ouro) da juiza de Itaituba, Elena Farag, que sustentou sua jurisdigio no conflito de co~mpetencia provocado por Leo Heck, gaticho que chegou g regiso em 1977, formou uma fazenda (recebendo titulo do Incra em junho de 1987, mas apenas sobre 180 dos tr~s mil hectares que solicitara), abriu as primeiras pistas de pouso, fundou Castelo dos Sonhos e imaginou ser o senhor incontesta~vel de todo o vale, at6 Mgrcio aparecer. Juizes de Itaituba e Altamira disputa- ram entire si o suspeito privilegio de di- rimir os complicados e explosives litigios dos garimpos, enquanto os pre- feitos seguiam o exemplo no plano admi- nistrativo: em fevereiro de 1989 o prefeito de Itaituba, Bernigno Rtgis, submeteu Castelo dos Sonhos a jurisdi- go de Vila Alvorada da Amazinia, mas em agosto do ano seguinte o prefeito Armindo Bernardini crion o distrito de Castelo dos Sonhos, nos limits munici- pais de Altamira. Politicos ofereciam seus servigos de intermediaSgo. Um dos mais influentes do Tapaj6s chegou a ser portador de remessas deoeuro de Marcio, que pousaram em bem situados gabine- tes governamentais em Beltm. Miron dizia que o irm~o ja. estava cansado do corrompimento, que come- gava a pesar em seu orgamento. Mas ele ainda parecia convencido de que a ope- ragao iniciada pela Policia Militar a 19 de janeiro, com 200 homes, se equiva- leria a de outubro da Policia Federal, quando se entregou sem resist~ncia e um mis depois estava de volta ao Castelo dos Sonhos. Desde 1989 as policias fa- ziam circular entire si informes e alertas sobre o inchamento de Castelo dos So- nhos e o desvio de suas atividades, que ja! nso eram apenas de produgio de ouro. Por ali transitavam carros furtados, fugi- tivos da Justica e criminosos em geral a transformavam em reftigio, e havia for- tes indicios de que o narcotrifico preten- dia plantar naquela area bem localizada uma de suas bases, Mdrcio fazia parte de um bando apa- rentemente liderado por Jos6 Miguel Villaverde, o Miguel Argentino, ex-as- saltante de bancos, ligadlo so com6rcio de ouro, pedras preciosas e narcotrsfico, e acusado de mais de 50 homicidios, ain- da solto e bem vivo. Os dois estariam tambtm associados ao grupo do ex-de- putado Jabes Rabelo, cassado no ano passado pela Camara Federal por parti- cipa~go comprovada no com~rcio de drogas. Seu irmio, Abdiel, foi preso em Slo Paulo, em agosto do ano passado, com 554 quilos de cocaina. Portava uma carteira funcional da C~mara, dada por Jabes. O personagem mais ilustre da cone- xao era o senador Olavo Pires, executado com 15 tiros de metralhadora em Porto Velho, durante a campanha eleitoral de 1990, quando era o principal aspirante ao governor de Rond~nia. Pires foi morto porque um lance de pouca sorte revelou a trapaga que pretendia aplicar em seus parceiros: um avilio dele foi preso em Silo Paulo com 760 quilos de cocaina, quando deveria estar transportando apenas dois quilos e meio, a carga com- binada. O assssino de Pires teria sido Roberval Luis Magalhles, o pistoleiro "Polaco", que trabalhava para M~rcio no Castelo dos Sonhos. Segundo o mec~nico C~sar Luis Ca- margo, outro ex-empregado de Marcio, a trama para matar o senador foi acerta- da na fazenda do vale da Esperanga, que fica na beira da estrada CuiabB-Santa- r~m. M~rcio arranjou os cinco pistolei- ros, que receberam tres quilos de ouro para fazer o "servigo", e Miguel Villaver- de providenciou os dois carros. ALIA~DOS ILUSTR ES No depoimento prestado g policia de Goidnia, Camargo disse que as duas em- presas de fachada de todo o grupo eram frequentadas por personagens ilustres, entire os quais cita o entso ministry e hoje governador Jader Barbalho, sem es- clarecer se ele teria visitado a sede em Porto Velho on a fazenda em Castelo dos Sonhos. No dia 19 de dezembro do ano passado o governador de Goids, Iris Resende, mandon para seu amigo do Pars o texto da confiss~o de Camar o' providencia complementada com a in- formagio verbal a respeito dada pelo ministry Jarbas Passarinho. No dia 9 de janeiro Msrcio empreendeu sus tiltima faganha, invadindo o garimpo do Aqui- no. A ago nso for tso espetaculosa quanto as anteriores e o saldo teria sido de tres mortes, mas esse foi o motive oficialmente apresentado para a defini- tiva operagio da PM: M~rcio tinha ultra- passado os illtimos limits. Ao ministry Passarinho o governador prometeu que acabaria com aquele reduto do crime organizado, de uma vez por todas. Entre outras coisas, desejava provar com fats que nada tinha a ver com isso. Era viti- ma de caldnia. QUEIMA DE AROUIVO Talvez nso houvesse mesmo outra maneira de empreender uma operafgo de desarticulagio da quadrilha, mas sempre sobrarlo dilvidas sobre sua re- constitui~go. Policiais experiences di- zem que ela teve todas as caracteristicas de uma "queima de arquivo", mesmo que nio a tenha sido. E fazem um paralelo que consideram ilustrativo: em reunion com o entio secretsrio de Seguranga Pti- blica, no final de abril de 1990, da qual participaram os delegados de policia do Tapajbs, o escriv~o Carlinhos acuson o empresario Wirland Freire de ser res- ponssvel por muitas mortes na region. Foi o tinico a fazer a acusagio. Os demais ficaram calados. Nada foi provado. Para se vingar, Wiriand teria pedido para o ex-soldado PM Aragio, transfor- mado no mais perigoso pistoleiro do Pard depois de ser expulso da policia, matar Carlinhos. Arag~i nio aceitou > A associagio com o caso Mdrcio 6 estimulada por um dado adicionado pelo mec~nico C~sar Camargo: ele diz que um aviao S~neca II, do empressrio de Itaituba, foi negociado numa opera- gio triangular que envolveu ainda ouro e cocalna, realizada entire os Rabelo e M~rcio. O aviso, entretanto, nito apare- ce na relagio da frota de 17 aparelhos do ex-dono de garimpos. Apesar de detalhadas e da aparente solidez, as acusagdes de Camargo podem obedecer a uma trama que manipula evi- dencias 16gicas ou arrola nomnes polemi- cos com o objetivo de criar umna falsa pista. B o que acha o filho do senador Olavo Pires, Emerson. Para ele, os ver- dadeiros mandantes da morte do pai sno o governador de Ronddnia, Oswaldo Piana, o vice-governador, Assis Canuto, o comandante da PM, coronel Walnir Ferro, e o empresbrio Assis Gurcacz, donor da emnpresa de Bnibus Uniso Cas- cavel. Mas Emerson tambem assegura que o senador ngo participava do narco- trsfico, esta uma informaglo dificil de sustentar diante de tantas evid~ncias em contrbrio. A verdade complete brotard desse turbilhlo de hist6rias e lendas? B pouco prov~vel, mas se tivesse conseguido se entregar a policia e, depois, se liberar da cadeia, Mgrcio voltaria ao Castelo dos Sonhos e observaria, com ironia, que o resultado prdtico de tanto artifIcio 6 que L~o Heck, o mais discrete dos senhores feudais, saiu ganhando. Ele agora man- da na brea e at6 control uma cooperati- va de garimpeiros, O que restart de mais s61ido quando a poeira de chumbo tiver pousado e a desapropriago feita pelo governor, de uma drea que corresponde a apenas 10% do total, tiver sido executa- da, memento em que os pistoleiros que fugiram e os que foram soltos retorna- rem ao local sem deparar mais com a forte estrutura policial ali contornada por enquanto. A hist6ria que fica, como se sabe, 6 aquela que os vencedores eS- crevem, ao menos enquanto o tempo e o eventual herolsmo d~o se encarregarem de recuper os fats perdidos entire os arquivos mortos e a mem6tia ainda inse- pulta. porque o policial o conhecia. Mas fez o contato com dois cearenses para substi- tui-lo no servingo", executado com com- petencia. Por espirito de corpo, a policia foi obrigada a investigar o crime, tendo Wirland como principal suspeito, exata- mente por Carlinhos ser seu maior (ou Anico) inimigo entire os policiais. Segun- do a fonte, Wirland, para se proteger, deu todas as indicagoes para a policia chegar aos dois pistoleiros, que aponta- ram o esconderijo de Aragi-o. Ele foi morto com 40 tiros numa fazenda situa- da a 40 quil~metros de Santarem. A pro- priedade 6 de Wirland. Morto Arag~o, desaparecia o linico elo de ligapao entire o empresdrio e o assassino de Carlinhos: os dois pistolei- ros haviam falado apenas com o ex-sol- dado. Da operagio participaram 10 militares, que poderiam prender o pisto- leiro. Confiante na protegao do empre- sario, Arag~o estava desarmado e assim permaneces ao ver o velculo com os po. liciais chegar A fazenda, provavelmente porque era do prbprio Wirland. Uma tlpica "queima de arquivo". GA RIMPO no pogo da insolv~ncia. Nesse es- forgo de guerra branca, o todo- poderoso SNI (Servigo Nacional de InformagBes) foi mobilizado para executor uma tarefa que n~io constava sequer de seus dilatados propbsitos iniciais mal disfarga- dos: ser o gerente de um garimpo de ouro. O agent encarregado da mis- sio, um official do Ex~rcito que combatera a guerrilha do Partido Comunista do Brasil no Araguaia, o tenente-coronel Sebastilo Ro- drigues de Moura, assumiu o co- mando de 50 mil garimpeiros com o tftulo de Curid e acabou se ele- gendo deputado federal. Foi o primeiro "araponga" a alcangar esse posto no pafs, sem provocar reaqio orglnica no parlamento, um dos principals alvos da "co- munidade de informag8es" no pe- rfodo dos governor militares. A tolerincia da esquerda, mais uma vez disposta a ignorer os meios para alcangar objetivos considerados mais importantes do que o sujo caminho necessa~rio para atingi-los, foi bem aprovei- tado pela direita. Todos aceitaram pacificamente, por exemplo, a auto-apresentagio de Curid como de um event absoluta- mente incomum na histdria do ouro, como foi Serra Pelada, a esquerda e o governor ficaram fascinados pelo garimpo na Ama- zbnia. A esquerda acreditava que seria a maneira de promover uma certa socializa~go do capital, ex- tremamente concentrado na re- giio, porque o garimpo nio exi- gia os investimentos pesados dos "grandes projetos" e dava retor- no imediato do dinheiro imobili- zado. Se na d~cada de 70, com o rodoviarismo do "milagre econd- mico" do governor populista e autoritslrio do general Mbdici, a Amaz~nia foi projetada como a Cana5 para os agricultores sem terra do Nordeste, nos anos 80, do general Figueiredo, ela seria o eldorado dos deserdados da vida. Para o governor, interessava essa mfstica, mas para tender necessidades bem mais pragm~ti- cas. As reserves do Banco Cen- tral foram esgotadas e o pafs nio tinha moeda forte para lastrear as operaqdes do sen com~rcio exte- rior. A falta de ddlares, recorreu- se ao estoque de ouro como ga- rantia de que n~o desabarfamos representante do Conselho de Se- guranga Nacional, instituigio que sempre exteve mais exposta ao sol da opiniko pdblica do que o nebuloso (e cabuloso) SNI. Sd as v~speras de se eleger 6 que Curid decidiu reveler o seu drg~o de raiz e ningudm se escandalizou. Tamb~m nio houve maior interes- se em vasculhar as origens da votagio alcangada pelo military, que dizia te-la obtido no garimpo, frequentado por milhares de mi- grantes, sobretudo maranhenses, sem domicflio no Estado pelo qual Curid se elegeu e, portan- to, sem poder votar nele (na ver- dade, de Serra Pelada ele trouxe literalmente o ouro que financia- ria sua campanha). Estes "detalhes" foram dei- xados de lado para nlo prejudicar a mobihlzagio que incrementava os fluxos migrat6rios de gente que ndo conseguia um pedago de terra no campo ou um emprego na cidade, transferindo seus sonhos para os garimpos, uma loteria su- postamente democritica. Por isso eles se multiplicaram,dando g Amaz~nia uma aparencia digna da corrida ao Oeste dos Estados Unidos, um sdculo atntes. A miragem do paraiso Ainda hoje, quando jd se fez sentir um certo refluxo, a U'sagal (Unilo dos Garimpeiros da Ama- z6nia Legal) ainda maneja dados impressionantes. Garante que hA 600 mil garimpeiros atuando na regilo, com o apoio de 750 pe- quenos avibes, mais de mil pistas de pouso, 10 mil embarcagbes e 25 mil equipamentos de produ- glo. Dessa estruturn toda resul- tam de 30 a 150 toneladas de ou- ro, conforme as estimativas abranjam do cobmdrcio regular As transagBes ilegais de descaminho, do ouro que acaba no subsolo do Banco Central ao que circula co- mo moeda sem marcas no circuit do narcotrifico. O novo "modo de produ~gio" que, por motives tio distintos, uma certa esquerda e uma ala do governor quiseram criar, tornou-se uma criatura quase monstruosa e incontrolivel. Foi-se a 6poca em que lideres de garimpeiros (mas nem sempre propriamente garimpeiros) circulavam com de- senvoltura por gabinetes do po- der, como o do chefe da assesso- ria military do president da Re- pdblica e do Conselho de Segu- ranga Nacional, general Bayma Denys. Como a maioria dos mili- tares, Denys achava muito melhor colocar garimpeiros em lugares ermos da Amaz~nia do que man- ter "vazios" os espagos da re- giio, cobigados por estrangeiros gulosos. De fato, hoje hB garimpeiros nesses lugares, mas o produto que eles criaram slo paisagens des- trufdas e contaminadas por mer- cdrio, on redutos da criminalida- de e da banditagem, como o Cas- telo dos Sonhos, no sul do Pard. A traditional caracterizagio do garlmpo, como a combinagio do acaso da natureza com a persis- tancia de homes isolados, mudou completamente. O garimpo virou caldo de cultural do que foi ex- purgado da sociedade, de suas rafzes invisfveis e profundas que, ao emergir, sem se expor, langam uma grave advert~ncia, ao mesmo tempo em que comegam a se esta- belecer como realidade inquie- tante. O incident na fronteira com a Venezuela, envolvendo um avi~o de garimpeiros que foi me- tralhado, com a morte de dois passageiros e ferimentos em mais dois, 6 apenas mais um capftulo de uma novela sem autor definido e desfecho ainda mais incerto. As perdas humans no episd- dio constituem fato lamentivel e 6 ineg~vel o extreme rigor adota- do pelas autoridades venezuela- nas, mas elas ji contabilizam indmeras invasdes de seu territd- rio. Depois de tantos incidents, deixaram bem claro que nlo iriam mais tolerar a contaminagio do principal rio do pafs, o Orenoco, pela garimpagem de brasileiros. Se 4 precise reagir a qualquer violbncia que esteja sendo prati- cada na fronteira, 6 ainda mais necess~rio nio ignorer os motives que provocam esses atritos. Eles t~m suas rafzes fincadas no Brasil e 6 aqui mesmo que geram seus mais nefastos efeitos. PROCESS ro e Roberto Cirino foram mesmo os assassinos do de- putado estadual Joio Carlos Ba- tista, executado na entrada do pr6dio onde mnorava, em Beldm, no dia 6 de dezembro de 1988. Esta seria a sentenga que a jufza Yvone Santiago Marinho daria se nlo tivesse renunciado ao proces- so, As visperas de sentencid-lo, depois de permanecer dois anos a frente do caso. O process foi transferido, atravbs de sorteio, para a 2a Vara Penal, mas a titu- lar, Ana Tereza Sereni Murrieta, suscitou sua prdpria suspeigio. Antes de dar prosseguimento g agio, a jufza informou a Corre- gedoria Geral de Justiga ser con- traparente do empresdrio Josiel Martins Rodrigues, acusado como um dos mandantes do crime. Jo- siel 6 sogro de JosC Nazareno Al- buquerque Murrieta, sobrinho da jufza. Mesmo assim ela se consi- derou apta para julgar o caso. Jg o promoter Raimundo de Mendonga Ribeiro Alves, repre- sentante do Minist~rio Pdblico, opinou que o despacho da jufza "transborda ambiguidades": ao mesmo tempo que pretend presi- dir o process, ela argiiiu sua prdpria suspeiglio por motive de "foro fntimo revelado", referin- do-se ao sobrinho como "pessoa por quem devote especial cari- nho". De acordo com as normas penais, contraparentesco nio 6 motive para um juiz ser conside- rado suspeito. Mas em casos se- melhantes jB houve impugnagio. Esta nlo 6 a dnica diverg~n- cia entire o promoter e a jufza. Mendonga se refere a Josiel como "perigoso gangster". Argumen- tando que "ainda nio se aprecion o feito na sua totalidade" e que, se concordasse, estaria fazendo um pr6-julgamento, como o que consider ter sido feito pelo pro- motor, Murrieta diz que Mendon- ga "d que deveria ser considerado suspeito". Como prova de sua imparcia- lidade, a jufza apresenta a attitude dos advogados dos acusados, que concordaram com sua permanen- cia no caso, mesmo sendo seus clients os maiores prejudicados por serem os dnicos press at6 agora. Mas essa aceitag~io 6 ape- nas utila das faces da moeda: os advogados podemn estar de acordo em funglo do parentesco de Jo- siel com o sobrinho da jufza, criando em rela~go a ela uma ex- pectativa que a prdpria Murrieta garante ser falsa. Podem estar es- perando a improndncia dos man- dantes e a condenagio apenas dos executores, como tem sido a regra nesses casos. Depois que os cinco dltimos suspeitos foram indiciados pelo Minist~rio Pdblico, entire os quais os empresarios Joaquim Fonseca e Camilo Uliana, a jufza Yvone Marinho abandonou o caso. Antes de anunciar sua decisio, ela criti- cou a polfcia por ter prendido tres dos suspeitos, que estavam no interior do Estado, e niio os dois empresgrios domiciliados em Bel~m, que, segundo a jufza,"to- dos sabem onde moram, mas nlo foram encontrados". Ao indeferir a prisio de todos, liberando os que jd estavam press, a jufza desgastou ainda mais sun relag~io com a mile do deputado, Isaura E~atista, que a vinha: ssionando A suspeigao suspeita constantemente e acusando de estar procurando beneficiary Fon- seca, o maior armador da navega- glio fluvial na Amaz6nia. A suspeigio da jufza Murrieta estava inclufda na pauta de jul- gamento do Tribunal de quarta- feira, dia 5 (apds o fechamento desta edig5io do journal Antes dessa definigio, o corregedor ge- ral de Justiga, Wilson Marques da Silva, havia dado seu parecer em favor da manutengio da jufza no process. Se os desembargadores fixarem posigio contrdria, o caso terli que ser novamente sorteado e encaminhado a outro juiz. Se ele n6o buscar nenhuma preliminary para evitar assumir os autos, pre- cisara de pelo menos seis meses para ler as 2.122 pdginas do pro- cesso. Murrieta diz que "sio es- sas coisas que fazem a Justiga pa- rar", preferindo logo julgar, in- dependentemente da suspeigio potential. Ja a jufza Ivone se declara arrependida de nio ter sido mais endrgica com a mle do deputado, forgando-a a deix8-la "trabalhar em paz". Alegando a impertin~n- cia de dona Isaura, que nio con- seguia combater adequadanmente porque "respeito acima de tudo os idosos", a jufza preferiu re- nunciar, quando o que lhe faltava era arrematar as provas reunidas contra os executantes e os muitos indfcios apontados contra os pro- viveis mandantes, suficientes pa- ra conduzi-los ao julgamento do jdri popular. Por tudo isso, o des- fecho do "caso Batista" parece tio distant. E mesmo a histdria final que se conseguir produzir est8 aneagada de nio convencer. Os auditors do Banco Cen- tral estranharam que Hamilton Guedes tivesse. em fevereiro de 1985, autorizado o oagamento de 1.1 bilhio de cruzeiros ao Insti- tuto Tecnoldaico de Brasilia. com um recibo aue omitia "dados im- portantes e necess~rios para sua validade jurfdica, tais como: qualifica~go da pessoa jurfdica credora; ndimero de sua inscrigio no Ministbrio da Economia, Fa- zenda e Planejamento; perfodo de prestagio de servigos; nomes das entidades junto As quais foram promovidos os trabalhos de in- termediagio e aus~ncia de assi- naturas de testemunhas no men- cionado documento. A auditoria do Bacen "nio encontrou qual- quer instrument contratual ou decisio da Diretoria do Banpard que desse suporte a essa despe- sa". Mas "pelo menos a quantia de Cr$ 185.000.000,00 foi des- viada para o patrimbnio do aludi- do ex-diretor". O advogado Paulo Lamario prop6s uma ag~o popular no Fd- rum de Bel~m, denunciando que o Institute inexistia e que jamais prestara qualquer servigo de in- termediagio para que o governor do Estado obtivesse um' aviso de prioridade ministerial para um empr6stimo externo de 20 milhbes de ddlares, como argumentara a diretoria do Banoardi. A acio ain- da nio foi julgada. A auditoria do Bancen tam- bgm constatou que, seis meses depois, um pagamento no valor de outros 1,1 bilhio de cruzeiros (padr~io monetario da 6poca) foi efetuado "sob o falso motive de 1985, quando ocupava a di- retoria administrative e fi- nanceira do Banco do Estado do Pard, O ex-deputado estadual Ha- milton Guedes autorizou dois pa- gamentos no valor de aproxima- damente 450 mil ddlares (em tor- no de 500 milhdes de cruzeiros, em valor de hoje), alegando a quita~go de servigos prestados por terceiros e de rendimentos fi- nanceiros de aphicagbes de clien- tes. Mas pelo menos 200 mil dd- lares foram parar nas contas do prdprio Guedes, segundo investi- gagio realizada pelo Banco Cen- tral (local de trabalho original do ex-deputado do PMDB e um dos principals auxiliares do governa- dor Jader Barbalho em sua pri- meira gestio). Com parte do di- nheiro, o ent~io director do Banpa- ra comprou um apartamento no Ediffcio Senador Meira, de classes mddia alta. O resultado da apuragio feita pelo Banco Central foi comunica- do em novembro do ano passado g diregio do Banpard e mereceu um voto (de ndmero 26) do entio president, AlBudio Melo, que renunciaria algumas semanas de- pois. O voto de Albudio foi diri- gido ao Conselho de Administra- gio do banco, mas um dos con- selheiros, consultado, disse des- conhecer inteiramente o assunto, mostrando-se mesmo surpreso com o voto. "Estranho n~io t6-lo recebido. Quem sabe esse voto n~o foi dado com data atrasa- da?", especulou, prometendo apurar a questio. pagar rendimentos de aplicagbes financeiras feitas por clients do Banco". O banco emitin quatro cheques administrativos, nomina- tivos, que, ao serem endossados, em branco, se tornaram "cartulas ao portador", permitindo a quem os recebeu retirar o valor decla- rado sem ser identificado. Tres dos cheques, totalizando um bilhio de cruzeiros (o ddlar m~dio da 6poca equivalia a cinco mil cruzeiros), foram utilizados na abertura de tr~s contas de poupanga em nome de Joio A4r- canjo da Silva, "sendo que a au- ditoria do Bacen ndo encontrou qualquer esp~cie de aplicaqio anterior proventura realizada pelo citado cidadio". Um primeironi saque, de 600 milh~es de cruzei- ros, foi transformado em depdsito na conta 219.821-5, "titulada pelo sr. Hamilton Francisco de Assis Guedes", que com o di- nheiro comprou o apartamento 901, localizado no ediffcio Sena- dor Meira, de propriedade de Ge- raldo Carvalhaes. Os restantes 663 milhbes da conta de poupanga tamb6m foram sacados atravts de um cheque administrative, de 11 dias depois da primeira retirada, que "ingres-- sou comprovadamente no patri- mbnio do Diretor Administrativo Hamilton Francisco de Assis Guedes". "Visando, fraudulen- tamente, comprovar os valores desviados de forma ilfcita, obte- ve, o Diretor apontado, em no- vembro e dezembro/85, docu- mentos das empresas 'Organiza- g6es Benson Ltda' e da 'Data Ba- se InformagBes Mercadoldgicas BANCO O destiny do dinheiro Ltda.' no exato total de Cr$ 1.100.000.000,00", diz a infor- magio do Banco Central, Ao relatar as informagbes fornecidas, em seu voto de 20 de dezembro do ano passado, AlBu- dio Melo propde a convocaglo do Conselho de Administragio do Banpard para "tomar as provi- d~ncias cabfveis, sob pena de tornar-se responsavel soliddrio em relagio aos prejufzos levanta- dos". Nesse caso, poderia ser ajuizada a~go de responsabilidade civil contra o ex-diretor. Na 6poca, vfirias fontes pee- medebistas admitiram que o di- nheiro havia sido desviado de sua destina~go declarada, mas alega- ram que fora usada para financial a campanha de Tancredo Neves a presidbncia da Repdblica. Agora a histdria pode receber um novo rumo, o definitive, se houver dis- posigio nesse sentido. Sarney anunciou o Plano Nacional de Reforma Agri- ria, em 1985, os proprietirios de terras ficaram tio furiosos comn a iniciativa que fundaram a UDR (Uniio Democrdtica Ruralista), encarregada de sabotar o plano. Quando Sarney deixou o cargo, cinco anos depois, havia filas de fazendeiros no Incra pedindo para terem suas terras desapropriadas on, melhor ainda, negociadas atrav6s de compra direta, transa- glo que foi a marca registrada da passage de Jader Barbalho pelo Mirad (Minist~rio da Reforma e do Desenvolvimento Agrdrio). O governor nio fez a "razzia" desapropriatbria que o PNRA prometia, acabou adquirindo imd- veis rurais desvalorizados por pregos no mfnimo de mercado e facilitou a tarefa do bloco polf- tico ruralista de fazer a Consti- tuigio de 1988 retornar a um pe- rfodo anterior ao das conquistas consolidadas pelo Estatuto da Terra, de 1964. Aliviados, os proprietdrios nem se deram ao trabalho de mandar seus repre- sentantes no parlamento (que ocupam um tergo das cadeiras da Cbmara dos Deputados) decorar a solenidade de langamento do Pro- grama da Terra, a verso collori- da do PNRA, langado na semana passada. Nlo hg motive para inquieta- Sdes desta vez. Como os disposi- tivos especfficos da Constituigio ainda nio foram regulamentados por lei e a Justiga a considiera prd-requisito essencial, o governor nio pode mais desapropriar imd- veis rurais art que o Congresso promova a regulamentagio, pre- vista, com otimismo, para o final do semestre, quatro anos depots do texto constitutional. A meta' agora, prev6 apenas o assenta- mento de 50 mil famflias. Para a execugio da tarefa foram previs- tos 352 bilhbes de cruzeiros, mas apenas 172 bilhbes (0,2% do que o Program da Terra prevC de in- vestimentos at6 o final do gover- no Collor, em 1994) jB estio dis- ponfveis. Bom para os empreitei- ros particulares, mas problemdti- co para os prdprios lavradores: ao contrbrio da lenda sobre um esto- que inesgotgvel, o governor sd dispbe de 735 mil hectares de ter- ras devolutas para os assenta- mentos, quando seriam necessd- rios 2,9 milh6es de hectares - sem precisar investor sobre os patrim6nios privados. Para os proprietbrios, o.Pro- grama faz um aceno agradavel: o governor promete guitar a dfyida de 500 bilh~es de cruzeiros de TDAs, os Tftulos da Dfyida Agrdria que foram entregues aos desapropriados e vinham sendo negociados no mercado de pap~is com desigio de 65% porque os resgastes estavam atrasados. As- sim, quem teoricamente foi puni- do vai ganhar mais do que quem, em tese, deveria ser premiado. Coisa tfpica da administration Collor. Retrato A ry Souza registrou o melhor instantineo fotogrifico dos ditimos tempos, que o journal "O Liberal" publicou com o destaque merecido na primeira pdgina da sua edigio de 23 de janeiro: o deputado estadual (PDS) Mlrio Couto fazendo um gesto obscene na diregio das pessoas que o hostilizavam (e, segundo ele, o agrediram) no plendrio da As- sembl~ia Legislativa, quando se discutia o regime dnico dos ser- vidores pdblicos. A imprensa nacional ja havia apanhado o entio candidate Fer- nando Collor de Mello numa ver- slo sulista do "cotoco" paraense, Mas al6m de a formatag~io pa- raense ser mais agressiva, o fotd- grafo Ary Souza foi feliz ao captar a expression feroz do olhar de Mgrio Couto por tras dos cor- pos em primeiro plano. A imagem dispensava as redundantes pala- vras do editorial comn o qual o journal se julgou obrigado a, mais uma vez, atacar o parlamento. A foto de Ary era o bastante para mostrar att que ponto os deputa- dos slo capazes de descer quando seus instintos slo provocados mais do que suas raz~es, estas nem sempre uma ferramente de uso ou, se usadas, incapazes de oferecer produto diverse dos ins- tintivos. A foto ajudava explicar por que Couto trocou sua profis- s6o de origem pela participagio em um dos groups do jogo do bi- cho, mas ngo conseguia, eviden- temente, apontar nenhum argu- mento para justificar sua perma- n&ncia numa casa de didlogo po- Iftico e agio legislative. Tamanho Uma fonte intimamente ligada ao grupo Liberal diz queo investimento na nova sede do journal e na sua impressora soma 12 milh~es e nio 8 milhbes de ddlares, como o JP noticiou no n"- 82. Faz-se? o registro para uma me~olhor aproximag~io do valor real, que a empresa nio fornece. Mas se a primeira hipatese 6 a verdadeira, ela dA, uma dimensio dos problems que o grupo Libe- ral deve estar enfrentando para manter essa linha de frente. Quanto ao restate da matdria, a fonte diz nada ter a acrescentar. TERRAS Sem o espantalho seculos atrds, nas entradas e bandeiras, e continue em vigor atualmente na dilace- rantemente anactinica fronteira amaz8- nica. Se mr etor no oano passado as empresas da Zona Franca (311 considera- das de porte) faturaram em torno de sris bilh6es de cruzeiros, a meno: receita nos dltimos cinco anos. Em compensagio, deixaram de pagar um tergo desse valor na forma de impostos, principal- mente o IPI (Imposto sobre Pro- dutos Industrializados), dos quais foram isentas pelo governor. O volume de importaq8es tambdm deve ter sido um dos mais baixos dos dltimos tempos, inferior a um bilhio de ddlares, mas igualmente deve ser contabilizado na conta de haver das empresas e de d6bito do governor, que bancou as opera- gdes cambiais. Para este ano, a rendncia tri- butairia na Zona Franca atingird 2,5 bilhbes de ddlares, segundo as projegbes do Ministtrio da Economia, o que represents mais de um tergo do total da receita de impostos n~io efetuada pelo go- verno por ca usa desses subsfdios (ou US$ 7,7 bilhbes). POnto comum 4 prefeito Augusto Rezende e o go- L~vernador Jader Barbalho n~o preci- sam de nenhum encontro secret para definir um ponto comum, que jai estabe- leceramr em reunites pbblicas, percepti- vel t. lem sabe ler nas entrelinhas: nenhu. deles apoiard as pretensbes 5- ex-govelnador H61io Gueiros de ser o future prefeito de Belem. Deixaram bem nitida essa posiqio na reuni~o do inicio da semana, realizada para tratar do pro- grama de macrodrenagem da capital pa- raense. Quem substitair Rezende terd que ser capaz de conversar civilizada- mente com o governador e estabelecer entendimento administrative com ele, hip6tese inteiramente descartavel se Gueiros assumir o cargo. Rezende nio quer isso. Jader muito menos. t o pri- meiro trago de uni~o concrete no rumo de uma composiqio, que, se n~o chegar a um candidate em comum, resultara em uma rejeigao combinada. Oconta da Amaz~nia? Alarmada comn este risco, a C~mara Federal criou uma famosa Comiss~o Parlamen- tar de Inquerito, quase 25 anos atras, para investigar as transagoes que na 6po- ca estavam sendo feitas na regitio. Um military ultra-nacionalista, o brigadeiro (jd na reserve) Haroldo Veloso, celebri- zado por suas aventuras profissionais e politicas, comandou a CPI. Ela compro- you a atuaglo de estrangeiros, sobretu- do americanos, mas a maioria dos personagens nito passava de especulado- res. Eram iniciativas individuals. Rara- mente serviam de cobertura para empresa organizada. Trata-se mais de especulaglio do que efetivo interesse econdmico, produtivo. Mas enquanto os deputados cagavam aventureiros como Amos Seelig ou ne- gociantes de ha. muito estab~elecidos na regitio, como o afa~vel Robin McGlohn, Daniel Ludwig imaginava estar com- prando naquele ano 3,7 milhbes de hec- tares continues no vale do Jari, no ParB, que seria a maior propriedade particular continue do planet. O multimiliondrio, chegando agora aos 95 anos de idade, acabou tendo que aceitar uma reduglo inicial a um tergo do que imaginava ha- ver adquirido e, posteriormente, menos da metade dos 1,2 milhilo de hectares a que seus dominios foram legalmente re- duzidos. Ludwig, muito convenientemente (para ele), atribuiu o encolhimento de suas terras (ainda assim constituindo um latif6ndio), a ms vontade do governor. Conversa. Os intermedi~lrios na compra nito atentaram para as intrincadas parti- cularidades do dominio fundidrio na Amaz~nia, afetado por uma imprecislio da qual os Estados Unidos se livraram no stculo passado, com a organizaglo dos cadastros de terras. O que Ludwig pre- sumia ser propriedade assegurada nto passava de pretensito a posse, sujeita a medig~o, demarcago e confirmagio. Outras corporaqges internacionais viveram problems parecidos. A Nix- dorf, fabricante alemli de components de computador, teve que renunciar a seu projeto agropecubrio e madeireiro por causa de litigio com ocupantes e vizi- nhos. A Volkswagen, que na Amaz~nia adquiriu pela primeira vez uma fazenda em toda a sua histdria, deu-se mal na experiencia e tambem passon o em- preendimento em frente. A japonesa Toyomenka igualmente fechou suas portas. A holandesa Bruynzeel desistiu de ser madeireira. Nem todos os estrangeiros se foram, 6 claro. A Georgia Pacific, por exemplo uma das maiores no ramo de madeira, continue firme em Portel. Mas 6 exce- Fg0. As multinacionais preferitam con- centrar seus investimentos em mineragio ou alguma atividade indus- trial de extensio, metalrirgica ou side- rdrgica. E, as mais sagazes, em firmar contratos de compra de produtos a lon- go prazo vantajosos para elas, como as japonesas. Ao menos a medio prazo, es- sas corporagojes nito parecem dispostas a investor em capital fundibrio ou na pro- duglio de alimentos na Amaz~nia, duas das diretrizes e temores das decada de 60 e 70. Apesar de algumas campanhas nacionalistas remanescentes, refrat~rias g percepglio dos novos tempos, os dados mais confidveis disponiveis atestam que as maiores propriedades em poder de estrangeiros se situam fora da AmazB- nia e se destinam principalmente a reflo- restamento. A ameaga de internacionalizago do dominio da terra na regiso, que se ima- ginava em vias de concretizagno quando a CPI do deputado-brigadeiro Veloso inicion sua investigagio, hoje inexiste. A proporgio de propriedades em poder de estrangeiros 6 residual. Isto nso significa que o capital international se tenha de- sinteressado, pela exploraplo dos recur- sos naturals da regilio. Apenas os objetivos se setorizaram e os investi- mentos se especializaram ainda mais. Os mercados externos querem produtos in- tensivos em energia e de baixo prego. A o que a Amazinia lhes esta. fornecendo, ao prego de relagbes de troca t'"sfavc " veis a ela. Mas essa nova realidade tambem sig- nifica que os gravissimos problems in- crustrados no meio rural amaz~nico sso de quase inteira responsabilidade dos in- vestidores nacionais. A concentragio da propriedade, sua baixa produtividade, as tenses socials geradas pela formaq~o de estoques fundiarios especulativos, 0 ' do mais forte que gera tantos assassml- tos e se alimenta da impunidade, as in- tensas rotas migrat6rias, todos esses s~o problems que resultam de um determi- nado tipo de relacionamento da region comn o centro dominant, que estd na origem do feroz colonialismo interno sofrido pela Amazbnia. Este 6 um produto tipicamente nacio- nal, que ja era oferecido ao mercado tres TERRAS "Made in Brazil" mesmo hipdtese Gueiros representar. Se conseguir tornar-se candidate, Gueiros provavelmente encontra- rd Almir do outro lado. Caso contrdrio, o ex-prefeito preferirdi continuar no senado. As negociagbes que v~m sen- do mantidas tratam das linhas ge- rais de possfveis acordos, mas nlo chegaram ao detalhe da com- posi~go de nomes. Mas se as di- versas arestas que se antepdem ao nome de Almir como candidate de consenso em uma ampla coligagio forem aparadas, Rezende poderia indicar um nome de sua confian- ga, ainda que sem densidade eleitoral (como o emprestrio Fer- nando Yamada), para companhei- ro de chapa. Esse vice-prefeito assumiria o cargo caso o titular se afastasse para disputar cargo maior, o de governador, aspiragio que esta no fundo dos mais pro- tegidos pianos de Almir Gabriel, o mais mineiro dos politicos pa- raenses. A ascensio de um vice como Yamada se daria no mo- mento certo, a tempo de colocar a miquina municipal a serving de uma candidatura amiga, como a de Rezende. Naturalmente, esta 6 apenas uma hipdtese: os princi- pais movimentos desse jogo de xadrez cheio de imprevistos sd serio dados no prdximo mas, on mesmo as v6speras do final do prazo para a inscrigio de candi- daturas. Ao contrdrio do que noticion este journal, niio houve o encontro para um jantar entire o governador Jader Barbalho e o prefeito Au- gusto Rezende (Jornal Pessoal n? 80). A informagio foi dada por um assessor do prefeito e confir- mada por outro, mas Rezende ne- gou-a categoricamente e uma fonte do governor do Estado rea- firmou a negative. JOlmal PCSSOS.) Editor responsivel: Liicio Flgvio Pinto Ilustragiko: Luiz Pinto Rua Campos Sales, 268/803 66.020 Fone 223-1929 Opgao Editoral cse Augusto Rezendecoos- ceso dAugusto Rezende cm u na prefeitura de Bel~m. A hipdtese comegou a ser examina- da, a partir de uma interpretagio ultra-extensiva de dispositivos constitucionais, para tender a melhor conveni~ncia do memento: uma candidature capaz de conci- liar os interesses em jogo na dis- puta polftica na capital e afastar a hip6tese extremada da candidatu- ra H61io Gueiros,.sd interessante mesmo ao prdprio. Apesar do ardente desejo dos que passaram a pensar na reelei- glo do prefeito, sua factibilidade se desfaz com a simples leitura do que estd contido na Constitui- ~go. Se tivesse sido apenas o substituto do prefeito eleito em 1988, que foi Sahid Xerfan, Re- zende poderia concorrer de novo. Mas, como alertam varios advo- gados com longa tradigio no di- reito eleitoral, ele d o sucessor de Xerfan. Logo, 6 inelegfvel em 1992. Se pudesse voltar a disputar a prefeitura, Rezende seria o can- didato natural do PTB. Poderia sofrer os inconvenientes de en- tregar o cargo a um adverstrio, o vereador Carlos Augusto Barbo- sa, president da Clmara Munici- pal, se ele tambtm nio precisasse se desincompatibilizar para dis- putar a reeleigio. Mas esse nio 6 problema que uma composi~gio com o governador Jader Barbalho nito fosse capaz de resolver. O entendimento seria factfvel pela 9 ossibilidade de acabar com a alternative H61io Gueiros: com Rezende candidate, o ex-gover- nador perderia todas as bases de apoio com as quais espera contar para ter poder de fogo real. Alguns aliados do prefeito ainda procuravam convenc6-lo a fazer uma consult formal ao Ju- dicidrio sobre a reeleigilo, mas o resultado prdtico pievisfvel dessa iniciativa parece ser mais a de causar preocupagaes aos parcei- cos potenciais de uma coligaglio, advertidos para o propdsito prin- cipal de Rezende: encontrar uma f6rmula em condig8es de garantir sua sobreviv~ncia ao ostracismo em que ficara! nos dois anos que faltam para a eleigiio geral de 1994, quando poderia disputar uma cadeira de deputado federal. Ainda assim, interloc utore s niio faltam, dotadlos da maior das boas vontades, para dialogar so- bre eventuais acordos com um prefeito que ainda sustenta, na abertura de temporada de um in- verno que promete ser rigorose, os dividends de um ver~io passa- do a limpo no espago de maior repercussio na cidade: o centro, reduto da parcela minoritaria da populaglio, mas aquela que tem a voz do donor. Embora tenha dentro de seu prdprio partido um aspirante h PMB com credenciais que o ha- bilitam a caber no figurine de um acordo, o deputado estadual Nel- son Chaves, Augusto Rezende procurou mais vezes o senador Almir Gabriel. O primeiro en- contro, em Brasilia, foi apenas para abrir portas: o tema princi- pal da agenda era o program de macrodrenagem das baixadas. Mas nas duas converses seguintes o eixo jB se tornon a sucesslio municipal, que sustentou um vis-8-vis demorado na dltima vez, em Bel~m. O journal "O Liberal", que registrou o encontro, infor- mou que Almir Gabriel nito seria candidate. Notificado em Brasilia sobre a nota, o senador autorizou que ela fosse desmentida (o que aconteceria no dia seguinte), pri- meiro sinal concrete de que jd n~o est8 tio decidido a ficar de fora como vem declarando. Almir Gabriel vive a syndrome de duas derrotas eleitorais suces- sivas, mas 6 o d~nico meio de so- breviv~ncia de que o PSDB dis- p6e. Ele prdprio sabe que suas aspiragbes ao governor em 1994 dependem mais de uma posiglio de poder em Beldm do que da atuaglio parlamentar em Brasilia, por melhor que ela seja. Mas Al- mir nlo se langard & PMB antes de poder dar B sua candidatura o format de uma soluglio natural, ponto de confluencia das forgas que nio querem colocar H61io Gueiros numa posigio de con- fronto desgastante, h frente da prefeitura, com com o governador do Estado. A viabilidade da can- didatura Almir Gabriel se ali- mentara;, assim, do risco que a SUCESSAO No meio da encruzilhada |
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