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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00068
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00068

Full Text












VIOLANCIA


Para o arquivo morto

Ao morrer em sil~ncio, Mgrcio "Rambo"

levou para o ti'mulo muitos segredos, que

so uma investigaGo rigorosa levantara.

No Castelo dos Sonhos hA novo donor.


Miron concordou em bater na parade
Oca e chamar o irmao pelo nome. Caute-
losamente, M~rcio foi saindo, mas quan-
do virou o corpo para olhar para Miron
recebeu um tiro de fuzil que estragalhou
metade de seu rosto. Ainda conseguiu
apertar o gatilho da metralhadora In-
gram, mas jd nio tinha dire~go. Mais
quatro tiros atingiram sua cabega e o
t6tax, liquidando-o.
Se essa 6 a reconstituigio mais pr6xi-
ma da realidade, por que o comandante
da tropa montou o cendrio da morte,
colocando a metralhadora nas msos de
MBrcio e dando-se ao exagero de fazer
seu dedo indicador continuar apertando
o gatilho?


MERA EXECUQAO?

A fama de trucul&ncia, alimentada
pelas histbrias sobre o Rambo amazini-
co, devem ter influido no Animo dos mi-
litares envolvidos na operago. Eles
temiam que qualquer hesitagio resul-
tasse em mortes entire a tropa. Ngo de-
veriam dar nenhuma oportunidade de
reagno para Maircio. Mas nao esta. afas-
tada a hipbtese de uma orientag8o sore
a facilidade que Mgrcio tinha para li-
vrar-se de penitencidrias de seguranga
maxima atraves do suborno, como fez
pela filtima vez em novembro, em Co-
rumbs, Mato Grosso. Resolver oproble-
ma era entendido como eliminar de vez
o personagem e nso faltariam pretextos
para isso, embora sobrassem tamb~m,
depois, interpretages sobre a convenien-
cia da mera execucgio como forma de
eliminar algu~m capaz de fazer revelag6-
es bombssticas.


Arcio Martins da Costa tinha 23
Manos, um pequeno aviso compra-
do em sociedade com o tamb~m
piloto Ivo Parente Rodrigues e muita
ambigno quando chegou, em 1988, ao
Castelo dos Sonhos, um povoado que
seria inaugurado festivamente em agos-
to daquele ano para centralizar as ativi-
dades de oito garimpos espalhados por
uma brea de 400 mil hectares, 600 quild-
metros a sudeste de Itaituba, na divisa do
Pard comn Mato Grosso. Em abril do ano
seguinte ja. havia 700 pares de mdquinas
e 4.200 garimpeiros extraindo ouro no
local. M~rcio, mineiro de Uberl~ndia
que o espirito aventureiro havia levado
at6 Redeng~o como aprendiz de piloto,
achou que seria o memento de enrique-
cer.
No mes passado, sua rapida carreira
de donor de garimpos e comandante de
quadrilhas chegou ao fim, tres anos de-
pois de iniciada. M~rcio ja. possula um
patriminio avaliado por baixo em 2,8
milhbes de d61ares (mais de tr~s bilhbes
de cruzeiros, dinheiro suficiente para
pagar quase toda a folha de pessoal da
Justiga, incluindo a magistratura e fun-
ciondrios, durante um m~s). Esse patri-
minio inclula 17 pequenos aviiies (o
maior deles um Carajds, de 600 mil d6-
lares), 5 caminh~es, 10) mdquinas, im6-
veis e instalalgbes, entire as quais seis
postos de combustiveis, mas nho compu-
tava fazendas e eventual estoque de
ouro, al~m de armas, muitas, que pode-
riam elevar a soma para bem mais do que
tres milhdes de d61ares, nada mal para
quem, tres anos antes, nso poderia con-
tabilizar nem US$ 10 mil. Arrecadava
nio menos que 80 quilos de ouro por
mes, no valor de quase 100 milhoes de


cruzeiros. Mas s6 o ouro nio explicava a
sua fortune. Ela tambem tinha ramifica-
90es subterrdneas.
Talvez nio seja mais possivel apurar
o que 6 lenda do que 6 fato real na hist6-
ria de Marcio, aberta problematicamen-
te e assim arrematada. Ngo tendo
podido falar, ele morreu como um arqui-
vo morto, sepultado, mas inc~modo. A
verso official de sua morte dificilmente
serb. mais do que verso, a ser usada
conforme os interesses dos narradores.
Descrito como um guerreiro ao coman-
do de dezenas de homes bem armados,
disposto a iniciativa cinematogrificas
dignas de um Rambo (apelido pouco
criativo dado pela mfdia), como descer
de helic~ptero em garimpos e montar
sobre corpos de inimigos executados,
MBrcio morreu sozinho na sede de sua
fazenda, que funcionava como um quar-
tel-general de suas operag6es no vale da
Esperanga.
N~o lhe faltavam armas: estava com
uma metralhadora Ingram, sete rifles de
repetigio, trds espingardas, uma carabi-
na e dois rev61veres, alem de muita mu-
nigao, tudo colocado num esconderijo,
por trbs de uma parede falsa de madeira.
La ele se escondeu ao perceber que havia
cometido um erro, acreditando serem de
pesquisa geoldgica, como the foi dito,
dois helic6pteros que passaram sobre a
sede da fazenda transportando homes
da Policia Militar. No dlia seguinte os
militares ocuparam a casa, mas nao sou-
beram como localizer Mdgrcio (que so-
brevivia bebendo Agua mineral e
comendo rapadura para manter a glicose
no organismo), at6 o irmdo, Miron, de-
pois de espancado, indicar o esconderi-
Jo.


Jor nal Pe ssoal
Lucio F1lvio Pinto


Ano V


NE 83


19 Quinzena de Fevereiro de 1992


Cr$ 500,00






Mgrcio jB havia sido preso antes qua-
tro on cinco vezes, a tiltima delas na
"Operagno Realeza", montada pela Poll-
cia Federal, que mobilizou 239 homes
e contou com a colaboragso das policia
civil e military. O objetivo era reduzir a
violencia na regilo do Bico do Papagaio,
considerada a mais sangrenta do pals
(sul do ParB, norte de Tocantins e oeste
do Maranhlo), reprimindo o trabalho
escravo e as milicias organizadas. Mas a
logistica da operago foi modificada em
Brasilia e sua maior faganha foi confiscar
a fazenda Big Valley, de Mgrcio, acusado
- junto com o irm~io Miron de manter
26 trabalhadores sob regime de escravi-
dio. O director geral do DPF, Romeu
Tuma, apontou os dois como respons8-
veis pelas atividades ilegais praticadas na
brea, entire as quais o furto de carros e a
organizagso de milicias privadas.


JOGO DE INFLUANCIA

Mgrcio nso ficou preso mais de um
mes e logo volton para retomar o contro-
le do garimpo Esperancga I, o antigo
Mala. Sarcasticamente, dizia que o inico
resultado concrete da "Operagio Reale-
za" em Castelo dos Sonhos havia sido a
de dar a Atdson Martins Cardoso, o ~d-
son Goiano, o dominio do garimpo, que
ele vinha tentando obter atravbs da Jus-
tiga. M~rcio garantia que fidson, embora
o menos poderoso dos tres pretendentes
ao control dos garimpos, no menos na
pr6pria 8rea, tinha boas relagoes em
Brasilia. Seu advogado, Josias Batista
dos Santos, se declarava procurador mi-
litar em Tocantins, licenciado da funglo,
e seria ainda assessor do Ministerio da
Justiga (ao qual a Policia Federal esta
subordinada)e da Presid~ncia da Repti-
blica.
Mas Mgrcio nio estava desarmado
tamb~m nesse plano. Um de seus advo-
gados, Uiris Emanoel Beiriz, tinha sido
agent da Policia Federal em Goidnia.
Na retarguada da Justiga, Mgrcio conta-
va com a boa vontade (segundo dem~in-
cias, mantida literalmente a peso de
ouro) da juiza de Itaituba, Elena Farag,
que sustentou sua jurisdigio no conflito
de co~mpetencia provocado por Leo
Heck, gaticho que chegou g regiso em
1977, formou uma fazenda (recebendo
titulo do Incra em junho de 1987, mas
apenas sobre 180 dos tr~s mil hectares
que solicitara), abriu as primeiras pistas
de pouso, fundou Castelo dos Sonhos e
imaginou ser o senhor incontesta~vel de
todo o vale, at6 Mgrcio aparecer.
Juizes de Itaituba e Altamira disputa-
ram entire si o suspeito privilegio de di-
rimir os complicados e explosives
litigios dos garimpos, enquanto os pre-


feitos seguiam o exemplo no plano admi-
nistrativo: em fevereiro de 1989 o
prefeito de Itaituba, Bernigno Rtgis,
submeteu Castelo dos Sonhos a jurisdi-
go de Vila Alvorada da Amazinia, mas
em agosto do ano seguinte o prefeito
Armindo Bernardini crion o distrito de
Castelo dos Sonhos, nos limits munici-
pais de Altamira. Politicos ofereciam
seus servigos de intermediaSgo. Um dos
mais influentes do Tapaj6s chegou a ser
portador de remessas deoeuro de Marcio,
que pousaram em bem situados gabine-
tes governamentais em Beltm.
Miron dizia que o irm~o ja. estava
cansado do corrompimento, que come-
gava a pesar em seu orgamento. Mas ele
ainda parecia convencido de que a ope-
ragao iniciada pela Policia Militar a 19
de janeiro, com 200 homes, se equiva-
leria a de outubro da Policia Federal,
quando se entregou sem resist~ncia e um
mis depois estava de volta ao Castelo
dos Sonhos. Desde 1989 as policias fa-
ziam circular entire si informes e alertas
sobre o inchamento de Castelo dos So-
nhos e o desvio de suas atividades, que ja!
nso eram apenas de produgio de ouro.
Por ali transitavam carros furtados, fugi-
tivos da Justica e criminosos em geral a
transformavam em reftigio, e havia for-
tes indicios de que o narcotrifico preten-
dia plantar naquela area bem localizada
uma de suas bases,
Mdrcio fazia parte de um bando apa-
rentemente liderado por Jos6 Miguel
Villaverde, o Miguel Argentino, ex-as-
saltante de bancos, ligadlo so com6rcio
de ouro, pedras preciosas e narcotrsfico,
e acusado de mais de 50 homicidios, ain-
da solto e bem vivo. Os dois estariam
tambtm associados ao grupo do ex-de-
putado Jabes Rabelo, cassado no ano
passado pela Camara Federal por parti-
cipa~go comprovada no com~rcio de
drogas. Seu irmio, Abdiel, foi preso em
Slo Paulo, em agosto do ano passado,
com 554 quilos de cocaina. Portava uma
carteira funcional da C~mara, dada por
Jabes.
O personagem mais ilustre da cone-
xao era o senador Olavo Pires, executado
com 15 tiros de metralhadora em Porto
Velho, durante a campanha eleitoral de
1990, quando era o principal aspirante
ao governor de Rond~nia. Pires foi morto
porque um lance de pouca sorte revelou
a trapaga que pretendia aplicar em seus
parceiros: um avilio dele foi preso em
Silo Paulo com 760 quilos de cocaina,
quando deveria estar transportando
apenas dois quilos e meio, a carga com-
binada. O assssino de Pires teria sido
Roberval Luis Magalhles, o pistoleiro
"Polaco", que trabalhava para M~rcio no
Castelo dos Sonhos.


Segundo o mec~nico C~sar Luis Ca-
margo, outro ex-empregado de Marcio,
a trama para matar o senador foi acerta-
da na fazenda do vale da Esperanga, que
fica na beira da estrada CuiabB-Santa-
r~m. M~rcio arranjou os cinco pistolei-
ros, que receberam tres quilos de ouro
para fazer o "servigo", e Miguel Villaver-
de providenciou os dois carros.


ALIA~DOS ILUSTR ES

No depoimento prestado g policia de
Goidnia, Camargo disse que as duas em-
presas de fachada de todo o grupo eram
frequentadas por personagens ilustres,
entire os quais cita o entso ministry e
hoje governador Jader Barbalho, sem es-
clarecer se ele teria visitado a sede em
Porto Velho on a fazenda em Castelo
dos Sonhos. No dia 19 de dezembro do
ano passado o governador de Goids, Iris
Resende, mandon para seu amigo do
Pars o texto da confiss~o de Camar o'
providencia complementada com a in-
formagio verbal a respeito dada pelo
ministry Jarbas Passarinho. No dia 9 de
janeiro Msrcio empreendeu sus tiltima
faganha, invadindo o garimpo do Aqui-
no. A ago nso for tso espetaculosa
quanto as anteriores e o saldo teria sido
de tres mortes, mas esse foi o motive
oficialmente apresentado para a defini-
tiva operagio da PM: M~rcio tinha ultra-
passado os illtimos limits. Ao ministry
Passarinho o governador prometeu que
acabaria com aquele reduto do crime
organizado, de uma vez por todas. Entre
outras coisas, desejava provar com fats
que nada tinha a ver com isso. Era viti-
ma de caldnia.


QUEIMA DE AROUIVO

Talvez nso houvesse mesmo outra
maneira de empreender uma operafgo
de desarticulagio da quadrilha, mas
sempre sobrarlo dilvidas sobre sua re-
constitui~go. Policiais experiences di-
zem que ela teve todas as caracteristicas
de uma "queima de arquivo", mesmo que
nio a tenha sido. E fazem um paralelo
que consideram ilustrativo: em reunion
com o entio secretsrio de Seguranga Pti-
blica, no final de abril de 1990, da qual
participaram os delegados de policia do
Tapajbs, o escriv~o Carlinhos acuson o
empresario Wirland Freire de ser res-
ponssvel por muitas mortes na region.
Foi o tinico a fazer a acusagio. Os demais
ficaram calados. Nada foi provado.
Para se vingar, Wiriand teria pedido
para o ex-soldado PM Aragio, transfor-
mado no mais perigoso pistoleiro do
Pard depois de ser expulso da policia,
matar Carlinhos. Arag~i nio aceitou >






A associagio com o caso Mdrcio 6
estimulada por um dado adicionado
pelo mec~nico C~sar Camargo: ele diz
que um aviao S~neca II, do empressrio
de Itaituba, foi negociado numa opera-
gio triangular que envolveu ainda ouro
e cocalna, realizada entire os Rabelo e
M~rcio. O aviso, entretanto, nito apare-
ce na relagio da frota de 17 aparelhos do
ex-dono de garimpos.
Apesar de detalhadas e da aparente
solidez, as acusagdes de Camargo podem
obedecer a uma trama que manipula evi-
dencias 16gicas ou arrola nomnes polemi-
cos com o objetivo de criar umna falsa
pista. B o que acha o filho do senador
Olavo Pires, Emerson. Para ele, os ver-
dadeiros mandantes da morte do pai sno
o governador de Ronddnia, Oswaldo
Piana, o vice-governador, Assis Canuto,
o comandante da PM, coronel Walnir
Ferro, e o empresbrio Assis Gurcacz,
donor da emnpresa de Bnibus Uniso Cas-
cavel. Mas Emerson tambem assegura
que o senador ngo participava do narco-
trsfico, esta uma informaglo dificil de
sustentar diante de tantas evid~ncias em


contrbrio.
A verdade complete brotard desse
turbilhlo de hist6rias e lendas? B pouco
prov~vel, mas se tivesse conseguido se
entregar a policia e, depois, se liberar da
cadeia, Mgrcio voltaria ao Castelo dos
Sonhos e observaria, com ironia, que o
resultado prdtico de tanto artifIcio 6 que
L~o Heck, o mais discrete dos senhores
feudais, saiu ganhando. Ele agora man-
da na brea e at6 control uma cooperati-
va de garimpeiros, O que restart de mais
s61ido quando a poeira de chumbo tiver
pousado e a desapropriago feita pelo
governor, de uma drea que corresponde a
apenas 10% do total, tiver sido executa-
da, memento em que os pistoleiros que
fugiram e os que foram soltos retorna-
rem ao local sem deparar mais com a
forte estrutura policial ali contornada
por enquanto. A hist6ria que fica, como
se sabe, 6 aquela que os vencedores eS-
crevem, ao menos enquanto o tempo e o
eventual herolsmo d~o se encarregarem
de recuper os fats perdidos entire os
arquivos mortos e a mem6tia ainda inse-
pulta.


porque o policial o conhecia. Mas fez o
contato com dois cearenses para substi-
tui-lo no servingo", executado com com-
petencia. Por espirito de corpo, a policia
foi obrigada a investigar o crime, tendo
Wirland como principal suspeito, exata-
mente por Carlinhos ser seu maior (ou
Anico) inimigo entire os policiais. Segun-
do a fonte, Wirland, para se proteger,
deu todas as indicagoes para a policia
chegar aos dois pistoleiros, que aponta-
ram o esconderijo de Aragi-o. Ele foi
morto com 40 tiros numa fazenda situa-
da a 40 quil~metros de Santarem. A pro-
priedade 6 de Wirland.
Morto Arag~o, desaparecia o linico
elo de ligapao entire o empresdrio e o
assassino de Carlinhos: os dois pistolei-
ros haviam falado apenas com o ex-sol-
dado. Da operagio participaram 10
militares, que poderiam prender o pisto-
leiro. Confiante na protegao do empre-
sario, Arag~o estava desarmado e assim
permaneces ao ver o velculo com os po.
liciais chegar A fazenda, provavelmente
porque era do prbprio Wirland. Uma
tlpica "queima de arquivo".


GA RIMPO


no pogo da insolv~ncia. Nesse es-
forgo de guerra branca, o todo-
poderoso SNI (Servigo Nacional
de InformagBes) foi mobilizado
para executor uma tarefa que n~io
constava sequer de seus dilatados
propbsitos iniciais mal disfarga-
dos: ser o gerente de um garimpo
de ouro.
O agent encarregado da mis-
sio, um official do Ex~rcito que
combatera a guerrilha do Partido
Comunista do Brasil no Araguaia,
o tenente-coronel Sebastilo Ro-
drigues de Moura, assumiu o co-
mando de 50 mil garimpeiros com
o tftulo de Curid e acabou se ele-
gendo deputado federal. Foi o
primeiro "araponga" a alcangar
esse posto no pafs, sem provocar
reaqio orglnica no parlamento,
um dos principals alvos da "co-
munidade de informag8es" no pe-
rfodo dos governor militares.
A tolerincia da esquerda,
mais uma vez disposta a ignorer
os meios para alcangar objetivos
considerados mais importantes do
que o sujo caminho necessa~rio
para atingi-los, foi bem aprovei-
tado pela direita. Todos aceitaram
pacificamente, por exemplo, a
auto-apresentagio de Curid como


de um event absoluta-
mente incomum na histdria
do ouro, como foi Serra Pelada, a
esquerda e o governor ficaram
fascinados pelo garimpo na Ama-
zbnia. A esquerda acreditava que
seria a maneira de promover uma
certa socializa~go do capital, ex-
tremamente concentrado na re-
giio, porque o garimpo nio exi-
gia os investimentos pesados dos
"grandes projetos" e dava retor-
no imediato do dinheiro imobili-
zado. Se na d~cada de 70, com o
rodoviarismo do "milagre econd-
mico" do governor populista e
autoritslrio do general Mbdici, a
Amaz~nia foi projetada como a
Cana5 para os agricultores sem
terra do Nordeste, nos anos 80,
do general Figueiredo, ela seria o
eldorado dos deserdados da vida.
Para o governor, interessava
essa mfstica, mas para tender
necessidades bem mais pragm~ti-
cas. As reserves do Banco Cen-
tral foram esgotadas e o pafs nio
tinha moeda forte para lastrear as
operaqdes do sen com~rcio exte-
rior. A falta de ddlares, recorreu-
se ao estoque de ouro como ga-
rantia de que n~o desabarfamos


representante do Conselho de Se-
guranga Nacional, instituigio que
sempre exteve mais exposta ao
sol da opiniko pdblica do que o
nebuloso (e cabuloso) SNI. Sd as
v~speras de se eleger 6 que Curid
decidiu reveler o seu drg~o de
raiz e ningudm se escandalizou.
Tamb~m nio houve maior interes-
se em vasculhar as origens da
votagio alcangada pelo military,
que dizia te-la obtido no garimpo,
frequentado por milhares de mi-
grantes, sobretudo maranhenses,
sem domicflio no Estado pelo
qual Curid se elegeu e, portan-
to, sem poder votar nele (na ver-
dade, de Serra Pelada ele trouxe
literalmente o ouro que financia-
ria sua campanha).
Estes "detalhes" foram dei-
xados de lado para nlo prejudicar
a mobihlzagio que incrementava
os fluxos migrat6rios de gente
que ndo conseguia um pedago de
terra no campo ou um emprego na
cidade, transferindo seus sonhos
para os garimpos, uma loteria su-
postamente democritica. Por isso
eles se multiplicaram,dando g
Amaz~nia uma aparencia digna da
corrida ao Oeste dos Estados
Unidos, um sdculo atntes.


A miragem do paraiso






Ainda hoje, quando jd se fez
sentir um certo refluxo, a U'sagal
(Unilo dos Garimpeiros da Ama-
z6nia Legal) ainda maneja dados
impressionantes. Garante que hA
600 mil garimpeiros atuando na
regilo, com o apoio de 750 pe-
quenos avibes, mais de mil pistas
de pouso, 10 mil embarcagbes e
25 mil equipamentos de produ-
glo. Dessa estruturn toda resul-
tam de 30 a 150 toneladas de ou-
ro, conforme as estimativas
abranjam do cobmdrcio regular As
transagBes ilegais de descaminho,
do ouro que acaba no subsolo do
Banco Central ao que circula co-
mo moeda sem marcas no circuit
do narcotrifico.
O novo "modo de produ~gio"
que, por motives tio distintos,
uma certa esquerda e uma ala do
governor quiseram criar, tornou-se
uma criatura quase monstruosa
e incontrolivel. Foi-se a 6poca
em que lideres de garimpeiros
(mas nem sempre propriamente
garimpeiros) circulavam com de-
senvoltura por gabinetes do po-


der, como o do chefe da assesso-
ria military do president da Re-
pdblica e do Conselho de Segu-
ranga Nacional, general Bayma
Denys. Como a maioria dos mili-
tares, Denys achava muito melhor
colocar garimpeiros em lugares
ermos da Amaz~nia do que man-
ter "vazios" os espagos da re-
giio, cobigados por estrangeiros
gulosos.
De fato, hoje hB garimpeiros
nesses lugares, mas o produto que
eles criaram slo paisagens des-
trufdas e contaminadas por mer-
cdrio, on redutos da criminalida-
de e da banditagem, como o Cas-
telo dos Sonhos, no sul do Pard.
A traditional caracterizagio do
garlmpo, como a combinagio do
acaso da natureza com a persis-
tancia de homes isolados, mudou
completamente. O garimpo virou
caldo de cultural do que foi ex-
purgado da sociedade, de suas
rafzes invisfveis e profundas que,
ao emergir, sem se expor, langam
uma grave advert~ncia, ao mesmo
tempo em que comegam a se esta-


belecer como realidade inquie-
tante. O incident na fronteira
com a Venezuela, envolvendo um
avi~o de garimpeiros que foi me-
tralhado, com a morte de dois
passageiros e ferimentos em mais
dois, 6 apenas mais um capftulo
de uma novela sem autor definido
e desfecho ainda mais incerto.

As perdas humans no episd-
dio constituem fato lamentivel e
6 ineg~vel o extreme rigor adota-
do pelas autoridades venezuela-
nas, mas elas ji contabilizam
indmeras invasdes de seu territd-
rio. Depois de tantos incidents,
deixaram bem claro que nlo iriam
mais tolerar a contaminagio do
principal rio do pafs, o Orenoco,
pela garimpagem de brasileiros.
Se 4 precise reagir a qualquer
violbncia que esteja sendo prati-
cada na fronteira, 6 ainda mais
necess~rio nio ignorer os motives
que provocam esses atritos. Eles
t~m suas rafzes fincadas no Brasil
e 6 aqui mesmo que geram seus
mais nefastos efeitos.


PROCESS


ro e Roberto Cirino foram
mesmo os assassinos do de-
putado estadual Joio Carlos Ba-
tista, executado na entrada do
pr6dio onde mnorava, em Beldm,
no dia 6 de dezembro de 1988.
Esta seria a sentenga que a jufza
Yvone Santiago Marinho daria se
nlo tivesse renunciado ao proces-
so, As visperas de sentencid-lo,
depois de permanecer dois anos a
frente do caso. O process foi
transferido, atravbs de sorteio,
para a 2a Vara Penal, mas a titu-
lar, Ana Tereza Sereni Murrieta,
suscitou sua prdpria suspeigio.
Antes de dar prosseguimento
g agio, a jufza informou a Corre-
gedoria Geral de Justiga ser con-
traparente do empresdrio Josiel
Martins Rodrigues, acusado como
um dos mandantes do crime. Jo-
siel 6 sogro de JosC Nazareno Al-
buquerque Murrieta, sobrinho da
jufza. Mesmo assim ela se consi-
derou apta para julgar o caso.
Jg o promoter Raimundo de
Mendonga Ribeiro Alves, repre-
sentante do Minist~rio Pdblico,
opinou que o despacho da jufza


"transborda ambiguidades": ao
mesmo tempo que pretend presi-
dir o process, ela argiiiu sua
prdpria suspeiglio por motive de
"foro fntimo revelado", referin-
do-se ao sobrinho como "pessoa
por quem devote especial cari-
nho". De acordo com as normas
penais, contraparentesco nio 6
motive para um juiz ser conside-
rado suspeito. Mas em casos se-
melhantes jB houve impugnagio.
Esta nlo 6 a dnica diverg~n-
cia entire o promoter e a jufza.
Mendonga se refere a Josiel como
"perigoso gangster". Argumen-
tando que "ainda nio se aprecion
o feito na sua totalidade" e que,
se concordasse, estaria fazendo
um pr6-julgamento, como o que
consider ter sido feito pelo pro-
motor, Murrieta diz que Mendon-
ga "d que deveria ser considerado
suspeito".
Como prova de sua imparcia-
lidade, a jufza apresenta a attitude
dos advogados dos acusados, que
concordaram com sua permanen-
cia no caso, mesmo sendo seus
clients os maiores prejudicados
por serem os dnicos press at6


agora. Mas essa aceitag~io 6 ape-
nas utila das faces da moeda: os
advogados podemn estar de acordo
em funglo do parentesco de Jo-
siel com o sobrinho da jufza,
criando em rela~go a ela uma ex-
pectativa que a prdpria Murrieta
garante ser falsa. Podem estar es-
perando a improndncia dos man-
dantes e a condenagio apenas dos
executores, como tem sido a regra
nesses casos.
Depois que os cinco dltimos
suspeitos foram indiciados pelo
Minist~rio Pdblico, entire os quais
os empresarios Joaquim Fonseca
e Camilo Uliana, a jufza Yvone
Marinho abandonou o caso. Antes
de anunciar sua decisio, ela criti-
cou a polfcia por ter prendido
tres dos suspeitos, que estavam
no interior do Estado, e niio os
dois empresgrios domiciliados em
Bel~m, que, segundo a jufza,"to-
dos sabem onde moram, mas nlo
foram encontrados". Ao indeferir
a prisio de todos, liberando os
que jd estavam press, a jufza
desgastou ainda mais sun relag~io
com a mile do deputado, Isaura
E~atista, que a vinha: ssionando


A suspeigao suspeita






constantemente e acusando de
estar procurando beneficiary Fon-
seca, o maior armador da navega-
glio fluvial na Amaz6nia.

A suspeigio da jufza Murrieta
estava inclufda na pauta de jul-
gamento do Tribunal de quarta-
feira, dia 5 (apds o fechamento
desta edig5io do journal Antes
dessa definigio, o corregedor ge-
ral de Justiga, Wilson Marques da
Silva, havia dado seu parecer em
favor da manutengio da jufza no
process. Se os desembargadores
fixarem posigio contrdria, o caso


terli que ser novamente sorteado e
encaminhado a outro juiz. Se ele
n6o buscar nenhuma preliminary
para evitar assumir os autos, pre-
cisara de pelo menos seis meses
para ler as 2.122 pdginas do pro-
cesso. Murrieta diz que "sio es-
sas coisas que fazem a Justiga pa-
rar", preferindo logo julgar, in-
dependentemente da suspeigio
potential.

Ja a jufza Ivone se declara
arrependida de nio ter sido mais
endrgica com a mle do deputado,
forgando-a a deix8-la "trabalhar


em paz". Alegando a impertin~n-
cia de dona Isaura, que nio con-
seguia combater adequadanmente
porque "respeito acima de tudo
os idosos", a jufza preferiu re-
nunciar, quando o que lhe faltava
era arrematar as provas reunidas
contra os executantes e os muitos
indfcios apontados contra os pro-
viveis mandantes, suficientes pa-
ra conduzi-los ao julgamento do
jdri popular. Por tudo isso, o des-
fecho do "caso Batista" parece
tio distant. E mesmo a histdria
final que se conseguir produzir
est8 aneagada de nio convencer.


Os auditors do Banco Cen-
tral estranharam que Hamilton
Guedes tivesse. em fevereiro de
1985, autorizado o oagamento de
1.1 bilhio de cruzeiros ao Insti-
tuto Tecnoldaico de Brasilia. com
um recibo aue omitia "dados im-
portantes e necess~rios para sua
validade jurfdica, tais como:
qualifica~go da pessoa jurfdica
credora; ndimero de sua inscrigio
no Ministbrio da Economia, Fa-
zenda e Planejamento; perfodo de
prestagio de servigos; nomes das
entidades junto As quais foram
promovidos os trabalhos de in-
termediagio e aus~ncia de assi-
naturas de testemunhas no men-
cionado documento. A auditoria
do Bacen "nio encontrou qual-
quer instrument contratual ou
decisio da Diretoria do Banpard
que desse suporte a essa despe-
sa". Mas "pelo menos a quantia
de Cr$ 185.000.000,00 foi des-
viada para o patrimbnio do aludi-
do ex-diretor".
O advogado Paulo Lamario
prop6s uma ag~o popular no Fd-
rum de Bel~m, denunciando que o
Institute inexistia e que jamais
prestara qualquer servigo de in-
termediagio para que o governor
do Estado obtivesse um' aviso de
prioridade ministerial para um
empr6stimo externo de 20 milhbes
de ddlares, como argumentara a
diretoria do Banoardi. A acio ain-
da nio foi julgada.
A auditoria do Bancen tam-
bgm constatou que, seis meses
depois, um pagamento no valor
de outros 1,1 bilhio de cruzeiros
(padr~io monetario da 6poca) foi
efetuado "sob o falso motive de


1985, quando ocupava a di-
retoria administrative e fi-
nanceira do Banco do Estado do
Pard, O ex-deputado estadual Ha-
milton Guedes autorizou dois pa-
gamentos no valor de aproxima-
damente 450 mil ddlares (em tor-
no de 500 milhdes de cruzeiros,
em valor de hoje), alegando a
quita~go de servigos prestados
por terceiros e de rendimentos fi-
nanceiros de aphicagbes de clien-
tes. Mas pelo menos 200 mil dd-
lares foram parar nas contas do
prdprio Guedes, segundo investi-
gagio realizada pelo Banco Cen-
tral (local de trabalho original do
ex-deputado do PMDB e um dos
principals auxiliares do governa-
dor Jader Barbalho em sua pri-
meira gestio). Com parte do di-
nheiro, o ent~io director do Banpa-
ra comprou um apartamento no
Ediffcio Senador Meira, de classes
mddia alta.

O resultado da apuragio feita
pelo Banco Central foi comunica-
do em novembro do ano passado
g diregio do Banpard e mereceu
um voto (de ndmero 26) do entio
president, AlBudio Melo, que
renunciaria algumas semanas de-
pois. O voto de Albudio foi diri-
gido ao Conselho de Administra-
gio do banco, mas um dos con-
selheiros, consultado, disse des-
conhecer inteiramente o assunto,
mostrando-se mesmo surpreso
com o voto. "Estranho n~io t6-lo
recebido. Quem sabe esse voto
n~o foi dado com data atrasa-
da?", especulou, prometendo
apurar a questio.


pagar rendimentos de aplicagbes
financeiras feitas por clients do
Banco". O banco emitin quatro
cheques administrativos, nomina-
tivos, que, ao serem endossados,
em branco, se tornaram "cartulas
ao portador", permitindo a quem
os recebeu retirar o valor decla-
rado sem ser identificado.
Tres dos cheques, totalizando
um bilhio de cruzeiros (o ddlar
m~dio da 6poca equivalia a cinco
mil cruzeiros), foram utilizados
na abertura de tr~s contas de
poupanga em nome de Joio A4r-
canjo da Silva, "sendo que a au-
ditoria do Bacen ndo encontrou
qualquer esp~cie de aplicaqio
anterior proventura realizada pelo
citado cidadio". Um primeironi
saque, de 600 milh~es de cruzei-
ros, foi transformado em depdsito
na conta 219.821-5, "titulada
pelo sr. Hamilton Francisco de
Assis Guedes", que com o di-
nheiro comprou o apartamento
901, localizado no ediffcio Sena-
dor Meira, de propriedade de Ge-
raldo Carvalhaes.
Os restantes 663 milhbes da
conta de poupanga tamb6m foram
sacados atravts de um cheque
administrative, de 11 dias depois
da primeira retirada, que "ingres--
sou comprovadamente no patri-
mbnio do Diretor Administrativo
Hamilton Francisco de Assis
Guedes". "Visando, fraudulen-
tamente, comprovar os valores
desviados de forma ilfcita, obte-
ve, o Diretor apontado, em no-
vembro e dezembro/85, docu-
mentos das empresas 'Organiza-
g6es Benson Ltda' e da 'Data Ba-
se InformagBes Mercadoldgicas


BANCO


O destiny do dinheiro






Ltda.' no exato total de Cr$
1.100.000.000,00", diz a infor-
magio do Banco Central,

Ao relatar as informagbes
fornecidas, em seu voto de 20 de
dezembro do ano passado, AlBu-
dio Melo propde a convocaglo do
Conselho de Administragio do


Banpard para "tomar as provi-
d~ncias cabfveis, sob pena de
tornar-se responsavel soliddrio
em relagio aos prejufzos levanta-
dos". Nesse caso, poderia ser
ajuizada a~go de responsabilidade
civil contra o ex-diretor.

Na 6poca, vfirias fontes pee-


medebistas admitiram que o di-
nheiro havia sido desviado de sua
destina~go declarada, mas alega-
ram que fora usada para financial
a campanha de Tancredo Neves a
presidbncia da Repdblica. Agora
a histdria pode receber um novo
rumo, o definitive, se houver dis-
posigio nesse sentido.


Sarney anunciou o Plano
Nacional de Reforma Agri-
ria, em 1985, os proprietirios de
terras ficaram tio furiosos comn a
iniciativa que fundaram a UDR
(Uniio Democrdtica Ruralista),
encarregada de sabotar o plano.
Quando Sarney deixou o cargo,
cinco anos depois, havia filas de
fazendeiros no Incra pedindo para
terem suas terras desapropriadas
on, melhor ainda, negociadas
atrav6s de compra direta, transa-
glo que foi a marca registrada da
passage de Jader Barbalho pelo
Mirad (Minist~rio da Reforma e
do Desenvolvimento Agrdrio).
O governor nio fez a "razzia"
desapropriatbria que o PNRA
prometia, acabou adquirindo imd-
veis rurais desvalorizados por
pregos no mfnimo de mercado
e facilitou a tarefa do bloco polf-
tico ruralista de fazer a Consti-
tuigio de 1988 retornar a um pe-
rfodo anterior ao das conquistas
consolidadas pelo Estatuto da
Terra, de 1964. Aliviados, os
proprietdrios nem se deram ao
trabalho de mandar seus repre-
sentantes no parlamento (que
ocupam um tergo das cadeiras da
Cbmara dos Deputados) decorar a
solenidade de langamento do Pro-
grama da Terra, a verso collori-
da do PNRA, langado na semana
passada.
Nlo hg motive para inquieta-
Sdes desta vez. Como os disposi-
tivos especfficos da Constituigio
ainda nio foram regulamentados
por lei e a Justiga a considiera
prd-requisito essencial, o governor
nio pode mais desapropriar imd-
veis rurais art que o Congresso
promova a regulamentagio, pre-
vista, com otimismo, para o final
do semestre, quatro anos depots
do texto constitutional. A meta'
agora, prev6 apenas o assenta-


mento de 50 mil famflias. Para a
execugio da tarefa foram previs-
tos 352 bilhbes de cruzeiros, mas
apenas 172 bilhbes (0,2% do que
o Program da Terra prevC de in-
vestimentos at6 o final do gover-
no Collor, em 1994) jB estio dis-
ponfveis. Bom para os empreitei-
ros particulares, mas problemdti-
co para os prdprios lavradores: ao
contrbrio da lenda sobre um esto-
que inesgotgvel, o governor sd
dispbe de 735 mil hectares de ter-
ras devolutas para os assenta-
mentos, quando seriam necessd-
rios 2,9 milh6es de hectares -
sem precisar investor sobre os
patrim6nios privados.
Para os proprietbrios, o.Pro-
grama faz um aceno agradavel: o
governor promete guitar a dfyida
de 500 bilh~es de cruzeiros de
TDAs, os Tftulos da Dfyida
Agrdria que foram entregues aos
desapropriados e vinham sendo
negociados no mercado de pap~is
com desigio de 65% porque os
resgastes estavam atrasados. As-
sim, quem teoricamente foi puni-
do vai ganhar mais do que quem,
em tese, deveria ser premiado.
Coisa tfpica da administration
Collor.


Retrato


A ry Souza registrou o melhor
instantineo fotogrifico dos
ditimos tempos, que o journal "O
Liberal" publicou com o destaque
merecido na primeira pdgina da
sua edigio de 23 de janeiro: o
deputado estadual (PDS) Mlrio
Couto fazendo um gesto obscene
na diregio das pessoas que o
hostilizavam (e, segundo ele, o
agrediram) no plendrio da As-
sembl~ia Legislativa, quando se
discutia o regime dnico dos ser-
vidores pdblicos.


A imprensa nacional ja havia
apanhado o entio candidate Fer-
nando Collor de Mello numa ver-
slo sulista do "cotoco" paraense,
Mas al6m de a formatag~io pa-
raense ser mais agressiva, o fotd-
grafo Ary Souza foi feliz ao
captar a expression feroz do olhar
de Mgrio Couto por tras dos cor-
pos em primeiro plano. A imagem
dispensava as redundantes pala-
vras do editorial comn o qual o
journal se julgou obrigado a, mais
uma vez, atacar o parlamento. A
foto de Ary era o bastante para
mostrar att que ponto os deputa-
dos slo capazes de descer quando
seus instintos slo provocados
mais do que suas raz~es, estas
nem sempre uma ferramente de
uso ou, se usadas, incapazes de
oferecer produto diverse dos ins-
tintivos. A foto ajudava explicar
por que Couto trocou sua profis-
s6o de origem pela participagio
em um dos groups do jogo do bi-
cho, mas ngo conseguia, eviden-
temente, apontar nenhum argu-
mento para justificar sua perma-
n&ncia numa casa de didlogo po-
Iftico e agio legislative.



Tamanho

Uma fonte intimamente ligada
ao grupo Liberal diz queo
investimento na nova sede do
journal e na sua impressora soma
12 milh~es e nio 8 milhbes de
ddlares, como o JP noticiou no n"-
82. Faz-se? o registro para uma
me~olhor aproximag~io do valor
real, que a empresa nio fornece.
Mas se a primeira hipatese 6 a
verdadeira, ela dA, uma dimensio
dos problems que o grupo Libe-
ral deve estar enfrentando para
manter essa linha de frente.
Quanto ao restate da matdria, a
fonte diz nada ter a acrescentar.


TERRAS


Sem o espantalho











seculos atrds, nas entradas e bandeiras, e
continue em vigor atualmente na dilace-
rantemente anactinica fronteira amaz8-
nica.

Se mr etor no
oano passado as empresas da
Zona Franca (311 considera-
das de porte) faturaram em torno
de sris bilh6es de cruzeiros, a
meno: receita nos dltimos cinco
anos. Em compensagio, deixaram
de pagar um tergo desse valor na
forma de impostos, principal-
mente o IPI (Imposto sobre Pro-
dutos Industrializados), dos quais
foram isentas pelo governor. O
volume de importaq8es tambdm
deve ter sido um dos mais baixos
dos dltimos tempos, inferior a um
bilhio de ddlares, mas igualmente
deve ser contabilizado na conta
de haver das empresas e de d6bito
do governor, que bancou as opera-
gdes cambiais.
Para este ano, a rendncia tri-
butairia na Zona Franca atingird
2,5 bilhbes de ddlares, segundo
as projegbes do Ministtrio da
Economia, o que represents mais
de um tergo do total da receita de
impostos n~io efetuada pelo go-
verno por ca usa desses subsfdios
(ou US$ 7,7 bilhbes).


POnto comum

4 prefeito Augusto Rezende e o go-
L~vernador Jader Barbalho n~o preci-
sam de nenhum encontro secret para
definir um ponto comum, que jai estabe-
leceramr em reunites pbblicas, percepti-
vel t. lem sabe ler nas entrelinhas:
nenhu. deles apoiard as pretensbes 5-
ex-govelnador H61io Gueiros de ser o
future prefeito de Belem. Deixaram bem
nitida essa posiqio na reuni~o do inicio
da semana, realizada para tratar do pro-
grama de macrodrenagem da capital pa-
raense. Quem substitair Rezende terd
que ser capaz de conversar civilizada-
mente com o governador e estabelecer
entendimento administrative com ele,
hip6tese inteiramente descartavel se
Gueiros assumir o cargo. Rezende nio
quer isso. Jader muito menos. t o pri-
meiro trago de uni~o concrete no rumo
de uma composiqio, que, se n~o chegar
a um candidate em comum, resultara em
uma rejeigao combinada.


Oconta da Amaz~nia? Alarmada
comn este risco, a C~mara Federal
criou uma famosa Comiss~o Parlamen-
tar de Inquerito, quase 25 anos atras,
para investigar as transagoes que na 6po-
ca estavam sendo feitas na regitio. Um
military ultra-nacionalista, o brigadeiro
(jd na reserve) Haroldo Veloso, celebri-
zado por suas aventuras profissionais e
politicas, comandou a CPI. Ela compro-
you a atuaglo de estrangeiros, sobretu-
do americanos, mas a maioria dos
personagens nito passava de especulado-
res. Eram iniciativas individuals. Rara-
mente serviam de cobertura para
empresa organizada. Trata-se mais de
especulaglio do que efetivo interesse
econdmico, produtivo.
Mas enquanto os deputados cagavam
aventureiros como Amos Seelig ou ne-
gociantes de ha. muito estab~elecidos na
regitio, como o afa~vel Robin McGlohn,
Daniel Ludwig imaginava estar com-
prando naquele ano 3,7 milhbes de hec-
tares continues no vale do Jari, no ParB,
que seria a maior propriedade particular
continue do planet. O multimiliondrio,
chegando agora aos 95 anos de idade,
acabou tendo que aceitar uma reduglo
inicial a um tergo do que imaginava ha-
ver adquirido e, posteriormente, menos
da metade dos 1,2 milhilo de hectares a
que seus dominios foram legalmente re-
duzidos.
Ludwig, muito convenientemente
(para ele), atribuiu o encolhimento de
suas terras (ainda assim constituindo um
latif6ndio), a ms vontade do governor.
Conversa. Os intermedi~lrios na compra
nito atentaram para as intrincadas parti-
cularidades do dominio fundidrio na
Amaz~nia, afetado por uma imprecislio
da qual os Estados Unidos se livraram no
stculo passado, com a organizaglo dos
cadastros de terras. O que Ludwig pre-
sumia ser propriedade assegurada nto
passava de pretensito a posse, sujeita a
medig~o, demarcago e confirmagio.
Outras corporaqges internacionais
viveram problems parecidos. A Nix-
dorf, fabricante alemli de components
de computador, teve que renunciar a seu
projeto agropecubrio e madeireiro por
causa de litigio com ocupantes e vizi-
nhos. A Volkswagen, que na Amaz~nia
adquiriu pela primeira vez uma fazenda
em toda a sua histdria, deu-se mal na
experiencia e tambem passon o em-
preendimento em frente. A japonesa
Toyomenka igualmente fechou suas


portas. A holandesa Bruynzeel desistiu
de ser madeireira.
Nem todos os estrangeiros se foram,
6 claro. A Georgia Pacific, por exemplo
uma das maiores no ramo de madeira,
continue firme em Portel. Mas 6 exce-
Fg0. As multinacionais preferitam con-
centrar seus investimentos em
mineragio ou alguma atividade indus-
trial de extensio, metalrirgica ou side-
rdrgica. E, as mais sagazes, em firmar
contratos de compra de produtos a lon-
go prazo vantajosos para elas, como as
japonesas. Ao menos a medio prazo, es-
sas corporagojes nito parecem dispostas a
investor em capital fundibrio ou na pro-
duglio de alimentos na Amaz~nia, duas
das diretrizes e temores das decada de
60 e 70. Apesar de algumas campanhas
nacionalistas remanescentes, refrat~rias
g percepglio dos novos tempos, os dados
mais confidveis disponiveis atestam que
as maiores propriedades em poder de
estrangeiros se situam fora da AmazB-
nia e se destinam principalmente a reflo-
restamento.
A ameaga de internacionalizago do
dominio da terra na regiso, que se ima-
ginava em vias de concretizagno quando
a CPI do deputado-brigadeiro Veloso
inicion sua investigagio, hoje inexiste. A
proporgio de propriedades em poder de
estrangeiros 6 residual. Isto nso significa
que o capital international se tenha de-
sinteressado, pela exploraplo dos recur-
sos naturals da regilio. Apenas os
objetivos se setorizaram e os investi-
mentos se especializaram ainda mais. Os
mercados externos querem produtos in-
tensivos em energia e de baixo prego. A
o que a Amazinia lhes esta. fornecendo,
ao prego de relagbes de troca t'"sfavc "
veis a ela.
Mas essa nova realidade tambem sig-
nifica que os gravissimos problems in-
crustrados no meio rural amaz~nico sso
de quase inteira responsabilidade dos in-
vestidores nacionais. A concentragio da
propriedade, sua baixa produtividade, as
tenses socials geradas pela formaq~o de
estoques fundiarios especulativos, 0 '
do mais forte que gera tantos assassml-
tos e se alimenta da impunidade, as in-
tensas rotas migrat6rias, todos esses s~o
problems que resultam de um determi-
nado tipo de relacionamento da region
comn o centro dominant, que estd na
origem do feroz colonialismo interno
sofrido pela Amazbnia.
Este 6 um produto tipicamente nacio-
nal, que ja era oferecido ao mercado tres


TERRAS


"Made in Brazil" mesmo













hipdtese Gueiros representar. Se
conseguir tornar-se candidate,
Gueiros provavelmente encontra-
rd Almir do outro lado. Caso
contrdrio, o ex-prefeito preferirdi
continuar no senado.
As negociagbes que v~m sen-
do mantidas tratam das linhas ge-
rais de possfveis acordos, mas
nlo chegaram ao detalhe da com-
posi~go de nomes. Mas se as di-
versas arestas que se antepdem ao
nome de Almir como candidate de
consenso em uma ampla coligagio
forem aparadas, Rezende poderia
indicar um nome de sua confian-
ga, ainda que sem densidade
eleitoral (como o emprestrio Fer-
nando Yamada), para companhei-
ro de chapa. Esse vice-prefeito
assumiria o cargo caso o titular
se afastasse para disputar cargo
maior, o de governador, aspiragio
que esta no fundo dos mais pro-
tegidos pianos de Almir Gabriel,
o mais mineiro dos politicos pa-
raenses. A ascensio de um vice
como Yamada se daria no mo-
mento certo, a tempo de colocar a
miquina municipal a serving de
uma candidatura amiga, como a
de Rezende. Naturalmente, esta 6
apenas uma hipdtese: os princi-
pais movimentos desse jogo de
xadrez cheio de imprevistos sd
serio dados no prdximo mas, on
mesmo as v6speras do final do
prazo para a inscrigio de candi-
daturas.


Ao contrdrio do que noticion
este journal, niio houve o encontro
para um jantar entire o governador
Jader Barbalho e o prefeito Au-
gusto Rezende (Jornal Pessoal n?
80). A informagio foi dada por
um assessor do prefeito e confir-
mada por outro, mas Rezende ne-
gou-a categoricamente e uma
fonte do governor do Estado rea-
firmou a negative.



JOlmal PCSSOS.)
Editor responsivel: Liicio Flgvio Pinto
Ilustragiko: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone 223-1929
Opgao Editoral


cse Augusto Rezendecoos-
ceso dAugusto Rezende cm u
na prefeitura de Bel~m. A
hipdtese comegou a ser examina-
da, a partir de uma interpretagio
ultra-extensiva de dispositivos
constitucionais, para tender a
melhor conveni~ncia do memento:
uma candidature capaz de conci-
liar os interesses em jogo na dis-
puta polftica na capital e afastar a
hip6tese extremada da candidatu-
ra H61io Gueiros,.sd interessante
mesmo ao prdprio.
Apesar do ardente desejo dos
que passaram a pensar na reelei-
glo do prefeito, sua factibilidade
se desfaz com a simples leitura
do que estd contido na Constitui-
~go. Se tivesse sido apenas o
substituto do prefeito eleito em
1988, que foi Sahid Xerfan, Re-
zende poderia concorrer de novo.
Mas, como alertam varios advo-
gados com longa tradigio no di-
reito eleitoral, ele d o sucessor de
Xerfan. Logo, 6 inelegfvel em
1992.
Se pudesse voltar a disputar a
prefeitura, Rezende seria o can-
didato natural do PTB. Poderia
sofrer os inconvenientes de en-
tregar o cargo a um adverstrio, o
vereador Carlos Augusto Barbo-
sa, president da Clmara Munici-
pal, se ele tambtm nio precisasse
se desincompatibilizar para dis-
putar a reeleigio. Mas esse nio 6
problema que uma composi~gio
com o governador Jader Barbalho
nito fosse capaz de resolver. O
entendimento seria factfvel pela
9 ossibilidade de acabar com a
alternative H61io Gueiros: com
Rezende candidate, o ex-gover-
nador perderia todas as bases de
apoio com as quais espera contar
para ter poder de fogo real.
Alguns aliados do prefeito
ainda procuravam convenc6-lo a
fazer uma consult formal ao Ju-
dicidrio sobre a reeleigilo, mas o
resultado prdtico pievisfvel dessa
iniciativa parece ser mais a de
causar preocupagaes aos parcei-
cos potenciais de uma coligaglio,
advertidos para o propdsito prin-
cipal de Rezende: encontrar uma
f6rmula em condig8es de garantir
sua sobreviv~ncia ao ostracismo
em que ficara! nos dois anos que
faltam para a eleigiio geral de


1994, quando poderia disputar
uma cadeira de deputado federal.
Ainda assim, interloc utore s
niio faltam, dotadlos da maior das
boas vontades, para dialogar so-
bre eventuais acordos com um
prefeito que ainda sustenta, na
abertura de temporada de um in-
verno que promete ser rigorose,
os dividends de um ver~io passa-
do a limpo no espago de maior
repercussio na cidade: o centro,
reduto da parcela minoritaria da
populaglio, mas aquela que tem a
voz do donor.
Embora tenha dentro de seu
prdprio partido um aspirante h
PMB com credenciais que o ha-
bilitam a caber no figurine de um
acordo, o deputado estadual Nel-
son Chaves, Augusto Rezende
procurou mais vezes o senador
Almir Gabriel. O primeiro en-
contro, em Brasilia, foi apenas
para abrir portas: o tema princi-
pal da agenda era o program de
macrodrenagem das baixadas.
Mas nas duas converses seguintes
o eixo jB se tornon a sucesslio
municipal, que sustentou um
vis-8-vis demorado na dltima vez,
em Bel~m. O journal "O Liberal",
que registrou o encontro, infor-
mou que Almir Gabriel nito seria
candidate. Notificado em Brasilia
sobre a nota, o senador autorizou
que ela fosse desmentida (o que
aconteceria no dia seguinte), pri-
meiro sinal concrete de que jd
n~o est8 tio decidido a ficar de
fora como vem declarando.
Almir Gabriel vive a syndrome
de duas derrotas eleitorais suces-
sivas, mas 6 o d~nico meio de so-
breviv~ncia de que o PSDB dis-
p6e. Ele prdprio sabe que suas
aspiragbes ao governor em 1994
dependem mais de uma posiglio
de poder em Beldm do que da
atuaglio parlamentar em Brasilia,
por melhor que ela seja. Mas Al-
mir nlo se langard & PMB antes
de poder dar B sua candidatura o
format de uma soluglio natural,
ponto de confluencia das forgas
que nio querem colocar H61io
Gueiros numa posigio de con-
fronto desgastante, h frente da
prefeitura, com com o governador
do Estado. A viabilidade da can-
didatura Almir Gabriel se ali-
mentara;, assim, do risco que a


SUCESSAO


No meio da encruzilhada