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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00067

Full Text







ior al Pessoal
J Liicio Flavio Pinto


2e Quinzena de Janeiro de 1992


Cr$ 500,00


GARIMPO


As raizes ocultas

Marcio Martins Costa pensava que era

invencivel como Rambo. Seu final nada teve

de cinematografico. Mas ele ndo era

o maior personagem desta feroz hist6ria.


Aos 26 anos, Marcio Martins da Cos-
ta era dono de uma frota de oito
pequenos avioes, tinka postos de com-
bustivel em varias cidades do Pard e de
Mato Grosso, algumas fazendas e dizia
comandar dois mil homes produzindo
ouro para ele, aldm de contar com umn
pequeno exdrcito de 50 ou 60 pistoleiros
para operaO6es aparatosas, como a inva-
sdo e ocupaqio de garimpos de outras
pessoas. Entusiasmado com essas ac6es,
Marcio passou a se comportar como se
fosse uma versao amaz6nica de Rambo,
o her6i do celul6ide americano. No dia
18 a carreira de Marcio, que em 1988 era
apenas piloto amador de teco-teco em
Redenoo, chegou ao fim sem direito a
tratamento cinematografico.
Ele foi morto na sede de seu "bunker"
no garimpo de Castelo dos Sonhos, no
sul do Estado, por homes da Polfcia
Military, em circunstincias polemicas e
ainda sem condiqOes de complete re-
constituico. A sorte de Marcio foi sela-
da quando o governador Jader Barbalho
ficou sabendo que o haviam acusado de
ter algum tipo de ligaqio corn o grupo de
Marcio, atravds do ex-deputado Jabes
Rabelo, apontado pelo mecanico C6sar
Camargo como um dos mandantes do
assassinate do senador Olavo Pires, pra-
ticado pelo por cinco pistoleiros contra-
tado por Marcio (ver Jornal Pessoal n0
81). Indignado, Jader determinou A Po-
licia Militar que organizasse imediata-
mente uma operaoo em alta escala para
acabar corn a base de Marcio no garim-
po.
Enquanto o governador assinava em
Bel6m um decreto desapropriando 36
mil hectares, pelos quais supostamente
se espalham quase 20 garimpos indivi-


duais (mas a area global de dispersao dos
garimpos em torno do povoado de Cas-
telo dos Sonhos, situado 600 quilOme-
tros ao sul de Itaituba, quase na divisa
corn Mato Grosso, seria de 160 mil hec-
tares), 200 homes da PM chegavam A
area para executar a ordem. A desapro-
priatao era a investida administrative,
que tentava reorganizar as atividades em
um local tomado pela mais furiosa regra
de bandidagem na AmazOnia. A presen-
ca da PM era a extensao do braco armado
do governor, numa combinacao in6dita
na hist6ria da intervenoao official nesses
problems.
Para prevenir-se dos efeitos da pres-
sa, que costuma prejudicar boas intenco-
es, o governor fez a desapropriaiiao sob
duplo amparo: argumentando trata-se
de um caso de utilidade ptblica e, ao
mesmo tempo, alegando interesse so-
cial. Com base em uma sumaria avalia-
cao do Iterpa e tendo a ressalva de
tratar-se de dominio incerto, o governor
depositou em juizo 130 milh6es de cru-
zeiros para pagar a terra nua. Nao pode-
ria, na ocasiio, ter a menor iddia de
benfeitorias.

NOVA FIGURE
Castelo dos Sonhos, ocupando do
quil6metro 932 ao 935 da rodovia Santa-
r6m-Cuiba, 6 uma figure estranha a tra-
dicao dos garimpos, mas de acordo corn
o novo enquadramento que eles estao
assumindo. A terra havia sido ocupada
em 1980 por Ldo Heck, que ali pretendia
implantar uma fazenda. Mas a descober-
ta d'e ouro gete anos depois mudou seu
neg6cio: ele fundou o povoado, abriu
pista de pouso e passou a cobrar comis-


sio dos que chegavam atras do metal.
Marcio Martins da Costa comprou um
lote e formou uma empresa de aviacgo
para transportar garimpeiros. A rentabi-
lidade do neg6cio o fez avancar e acabou
assumindo o control da garimpagem,
deslocando Heck.
A dispute que Heck c Marcio manti-
nham foi engrossada pela chegada, em
1989, de Edson Martins Cardoso, o Ed-
son Goiano. A produoo crescia, o preco
do ouro estava em alta e o control do
garinpo justificava todos os meios desde
a corrupoo de policiais e juizes atd a
formaqao de bandos fortemente arma-
dos. A ousadia, a inteligencia e a ausdn-
cia de qualquer escrdpulo fizeram
Marcio assumir a vantage na feroz
concorrencia. A partir dal, os relatos de
selvageria estimularam at6 mesmo o sur-
gimento de hist6rias incriveis sobre as
operaqOes que ele organizava para ir as-
sumindo o control de todos os garim-
pos do vale da Esperanca. Inimigos eram
obrigados a "mamar" no cano de escope-
tas que eram entio disparadas ou a pra-
ticar sexo oral um com o outro antes de
serem executados. Mdrcio poderia ir-
romper no garimpo do adversdrio de he-
lic6ptero, armado de metralhadora Uzzi
e com dezenas de homes, que matavam
sem qualquer consideraqao, como na 61-
tima investida, em maio do ano passado,
no garimpo Trairfo, quando 12 homes
foram mortos.
Nao apenas a violencia se tornou de-
senfreada, absorvendo os policiais en-
viados para estabelecer na area algum
padrao legal. 0 neg6cio deixou de ser
exclusivamente de ouro, passando a en-
globar roubo de carro e trdfico de dro-
gas. Um delegado de policia, nomeado o.


Ano V


N2 82






em 1988 para atuar na area, "sem 6nus
para o Estado", andava a bordo de uma
camionete D-20 roubada e, final,
apreendida por outrq policial. Na sua
investida, a Policia Militar diz ter encon-
trado umrn laborat6rio artesanal de refino
de droga. Mas o carter sumario de sua
expedigAo, se pode ter eliminado umrn
foco de atua~Ao do crime organizado no
Para, provavelmente nao eliminou suas
raizes ocultas.

NEG6CIOS PARALELOS

Marcio era um tipo de personagemrn
que vem se multiplicando no interior na
Amaz6nia: violent e selvagem no ga-
rimpo, tern traquejo para bem frequen-
tar a paisagem urbana, transitando entire
personagens influentes. Graqas a essas
liga6es conseguiu sua segunda fuga de
uma area de seguranga maxima em pre-
sidio, o de Rosario, em Mato Grosso,
corn a conivencia do carcereiro David da
Silva, que tambdm fugiu. Corn dinheiro,
conseguia contratar advogados capazes
de garantir sua liberdade mesmo corn
tantas acusaO6es de homicidio feitas
contra ele. E ainda dava-se ao luxo de
nao ter apenas um neg6cio para-legal ou
illegal no "sertao": era tambem repre-
sentante de vendas de uma multinacio-
nal como a Shell.
Para quem parecia julgar-se inatingi-
vel, Marcio teve uma morte desconexa.
Estava sozinho, escondido atrds de uma
parede falsa de uma casa de madeira e

CRIME


cercado, quando talvez pudesse ter esca-
pado antes de perder de vez a porta de
fuga. Um fim incoerente corn a image
de lider de bando, que s6 morreria em
combat, de arma na mio. 0 cadaver
cuja foto a policia distribuiu aos jorna-
listas estava, de fato, corn uma metralha-
dora Uzzi nas maos, o must desse tipo de
bandido, mas ela aparecia ali artificial-
mente, tdo fdrqada quanto a versao ofi-
cial de que Mdrcio tentara resistir e fora
morto corn um finico tiro. A dedug3o de
mera execuoao foi inevitvel.
t provavel que essa tenha sido mes-
mo a ordem de comando. Temia-se que
mais uma vez, por causa de seu dinheiro,
Marcio conseguisse escapar, mesmo se
colocado numa cela de seguranqa maxi-
ma. Diante dos descaminhos da adminis-
tracao pdblica e da justipa, nio 6 uma
hip6tese improvavel. Mas outras hist6-
rias que certamentevao por sob suspeita
a eficidncia da operaqao realizada pela
PM. Se aparecia comeqario a surgir que
certamente vao por sob suspeita a efi-
ciencia da operacao realizada pela PM.
Se aparecia como o poderoso "chefao"
do Castelo dos Sonhos, Marcio, entre-
tanto, era apenas um elo da cadeia. Aci-
ma dela estava Jos6 Miguel Villaverde, o
Miguel Argentino, ligado a ouro, pedras
preciosas e narcotrAfico, acusado de
mais de 50 homicfdios, preso por assalto
a banco. Mas acima, de Miguel Argenti-
no poderiam existir outros personagens,
mais espertos, por isso mais ocultos.
a aqAo do grupo ia muito al6m do


Castelo dos Sonhos. Um de seus mem-
bros foi preso pela Policia Federal em
junho de 1990, em Macapa, sob a suspei-
ta de ter jogado 400 quilos de cocaina
sobre uma aldeia indigena no Oiapoque.
Os avioes utilizados pela quadrilha, em-
bora de pequena autonomia de v6o, co-
brem grandes percursos porque dispoem
de uma mangueira adaptada para rea-
bastecimento em pleno ar, carregando
apenas droga e galOes de combustivel.
Com isso, nao precisam fazer escalas,
escapando a fiscalizamoo policial.
0 espraiamento e o aprofundamento
do narcotrafico no Pard alcancam um
universe muito maior do que o do garim-
po em que a PM interveio e o governor
desapropriou. A aqAo foi ennrgica e, pe-
los pobres relatos disponiveis at6 agora,
correspondeu aos objetivos tragados.
Mas nao tern propornio adequada A do
problema para o qual deveria ser a solu-
Oio. Dias antes, o governador Jader Bar-
balho negava-se a admitir que o Pard
estivesse se transformando numa nova
ColOmbia, mas os epis6dios da semana
passada levam A conclusao de que a ava-
liaqao do governador nao 6 tao realista
quanto o comportamento dos militares
que foram ao Castelo dos Sonhos acabar
com aquele foco, sem extinguir suas cau-
sas, nem climinar as d6vidas da socieda-
de sobre os fdlego do crime organizado
no Estado. Ao inv6s de uma resposta
negative categ6rica, como a que o gover-
nador deu, cabem dtvidas e, mais do
que elas, preocupag6es.


Uma execuhao perfeita


U m mr s e meio depois do crime, a
policia praticamente nao tern qual-
quer pista concrete sobre os executantes
e mandantes do assassinate de Bruno
Meira Mattos, at6 agora a mais bern rea-
lizada execuiAo dentre as muitas na his-
t6ria das mortes de encomenda no Parda.
Suspeiqoes e indicios se multiplicam A
media em que sao puxados os fios de
uma complex teia de conexoes, que ti-
nham no filho do atual secretArio de Jus-
tiqa do Estado o ponto de partida ou elo
fundamental. t provavel que ele tenha
ido al6m da funqAo de "doleiro" e lavador
do dinheiro do narcotrafico, passando a
operar diretamente no comdrcio da dro-
ga. Complica oes nessa area delicada e
explosive podem ter sido a causa de sua
mortc.
At6 agora a policia nao conseguiu um
inico depoimento de testemunha que
tivesse visto o carro dos assassinos, pre-
senciado o atentado ou pudesse fazer


uma descriaio, ainda que imprecisa, do
autor do inico disparo que matou Bru-
no, e do motorist que certamente o
acompanhava. Boatos sobre um carro
observado no dia 10, rondando a casa de
Bruno e durante o crime, nao chegaram
a constituir propriamente uma pista.
Nio apenas o tiro solitario foi certeiro:
o moment de dispara-lo parece ter sido
estudado meticulosamente.
Faltavam 15 minutes para as seis ho-
ras da tardc do dia 10 de dezembro quan-
do o Gol dirigido por Bruno se
aproximou da curva do Cupuassu, a 30
quilOmetros de Beldm, em Santa Isabel
do ParA. A reta terminal numa curva fe-
chada, obrigando A reducao da velocida-
de. 0 carro dos assassinos, que vinha
atras, foi acelerado, emparelhou corn o
de Bruno e permitiu ao passageiro da
janela direita atirar de uma distancia in-
ferior a dois metros. Imediatamente o
carro dos agressores voltou A sua mao na


pista, exatamente quando o caminhio de
cargas, dirigido por Francisco Carlos Pi-
mentel, venceu a curva e entrou na reta.
Francisco nao teve tempo de perceber o
primeiro carro. Quando visualizou a
reta, o Gol jA estava em ziguezague, at6
parar do outro lado da pista, no acosta-
mento da esquerda.
0 grande mist6rio em torno do aten-
tado continue sendo o perfodo de mais
de cinco horas entire o ultimo contato de
Bruno, pouco antes das 13 horas, e o
moment de sua morte. No telefonema,
Bruno disse a Josd Ricardo Monteiro,
seu principal assessor na empresa de
cAmbio, que ja estava de volta e em mais
30 minutes chegaria A sede da Carajas. 0
telefonema foi dado de um post de ga-
solina que fica na entrada da estrada
para a Vigia. A 20 quil6metros dali, Jos6
Ricardo tern uma propriedade na qual
tentou criar camardo corn dinheiro do
FNO,o fuido de investimentos adminis- )






trado pelo Banco da Amazinia. Bruno
era s6cio de Jos6 Ricardo nesse em-
preendimento, corn participaoo simb6-
lica. A area estA praticamente
desativada.
Segundo Jos6 Ricardo, Bruno nao
disse exatamente para onde ia, limitan-
do-se a informar que usaria o Gol, ao
inv6s de seu autom6vel Santana, porque
trafegaria numa estrada de terra batida,
cheia de buracos. Mas em tres ocasi6es,
inclusive no vel6rio do amigo, Jos6 Ri-
cardo declarou que Bruno havia viajado
para Castanhal. Nas duas semanas ante-
riores A sua morte, Bruno foi duas ou tries
vezes a Castanhal, onde tinha dois clien-
tes: o exportador de pimenta-do-reino
Fernando Takeshima e o fazendeiro Do-
mingos Rangel Jr. Mas nessas ocasioes
usara sempre o Santana.

PISTAS ESPARSAS
No dia 10 Bruno nao esteve na cidade
de Castanhal, mas pode ter ido a algum
lugar no municlpio. Rangel possui uma
grandefazenda a 12quil6metros da cida-
de, acessivel por uma estrada de terra,
cheia de buracos. A polfcia esteve ld,
rondou o fazendeiro, acusado de recor-
rer a pistoleiros para resolver seus pro-
blemas de terra, mas nao encontrou
qualquer pista. Acha at6 que Bruno
pode ter ido muito mais long (uma das
hip6teses 6 Salinas). Todas as deducoes
dependem de uma uinica informaaio, a
que Josd Ricardo relata da sua rdpida
conversa telefOnica com Bruno.
Se nao fosse genro do senador Oziel
Carneiro, Josd Ricardo talvez tivesse
permanecido mais tempo preso quando
a policia o levou da porta de seu predio,
trees dias ap6s o assassinate, para um
"passeio" que seria long se nao tivesse
sido interrompido por cobrancas que se-
guidamente fizeram o senador e seu ami-
go, o ministry Jarbas Passarinho,
acionado pela familiar. A (nica prisao
acabou sendo a do traficante Izidorio
Oliveira Filho, outra das fontes de refe-
rencia principals sobre o caso. A prisao
de Izidorio foi revelada precipitada-
mente, no entendimento dos policiais -
porque ele foi fotografado, com autori-
zaco do delegado Manoel Gonqalves,
por um reporter de "0 Liberal", dando
origem A inica materia publicada pelo
journal a respeito. Rapidamente um ad-
vogado impetrou mandado de seguranca
e Izidorio teve que ser solto por ordem
judicial.
A noticia nao alertou apenas o advo-
gado. Quase foi a senha para que Celso
Gomes abandonasse as pressas o Hotel
Vanja, onde estava hospedado, junta-
mente com Erivaldo Rios, tido como
sendo o pistoleiro Nenem. Ambos ti-


nham vindo de Santa Catarina. Celso
Gomes atuava em Governador Valada-
res, Minas Gerais, e jA havia sido preso
por porte de d61ares falsos. Ele ia cons-
tantemente A sede da Carajas, juntamen-
te com lzidorio. Bruno Ihe dava de cada
vez entire 200 e 300 mil cruzeiros. Parecia
fazer parte de um mesmo grupo que in-
clufa tamb6m o ex-agente da Policia Fe-
deral, Jos6 Mauricio Nery da Costa.
Apesar de muitas evidencias sobre
esse grupo, que no dia 10 estava em gran-
de atividade provavelmente porque
chegaria a Bel6m uma grande partida de
cocaine, a policia s6 tem suspeitas a res-
peito dele, como as sustenta em relacao
a um amplo espectro de pessoas que ti-
nham neg6cios corn Bruno. A relacao de
suspeitos poderia se alimentar solida-
mente nos documents por ele manti-
dos, mas a policia j, nao sabe dizer
quantos havia. Dois dias depois do cri-
me, Jos6 Ricardo comandou uma opera-
cao de retirada do escrit6rio da Carajas
do computador privativo e seus disque-
tes, que s6 ele e Bruno operavam.
A id6ia de retirar essa documentaqao
teria sido do sogro de Bruno, Michel
Haber. No seu depoimento a policia,
Jos6 Ricardo disse que a proposta lhe foi
apresentada no vel6rio por Gustavo Ha-
bher, cunhado de Bruno, que via a neces-
sidade de preservar as informayoes
contidas no computador porque clas
"poderiam vir a auxiliar as investigay(cs
e por isso mesmo algu6m poderia ter
interesse em destrui-las". Mas o material
nao foi entregue espontancamente A po-
licia, que precisou retira-lo.

NEG6CIO MILIONARIO

Tudo o que foi revelado do acervo
remanescente deixado por Bruno e nao
desviado antes da aqdo policial mostra
um vasto universe de interesses. Entre
agosto e 9 de dezembro do ano passado,
data da tiltima atualizacao, Bruno movi-
mentou mais de 100 milhoes de d61ares.
Pequena part desse dinheiro constitui a
face legal de suas transacOes, efetuadas
com pessoas que compravam e vendiam
d61ares do mercado paralelo, tipica ati-
vidade de "doleiro" que se desenvolve A
margem, do cimbio official, mas nao ne-
cessariamente como ilegalidade. 0 gros-
so das movimentacOes, entretanto, era
feita com nomes em c6digos e atraves de
registros tamb6m codificados.
S6 corn um dos clients, Bruno teve
neg6cios de mais de 50 milhoes de d61a-
res em quatro meses. Esse client rece-
bia de Bruno d6lar em dinheiro quase
sempre quando igual quantia era depo-
sitada em cheque-d61lar no exterior, o
"cheque-cabo", como 6 conhecido na lin-


guagem do narcotrAfico. Para manter
esse fluxo intenso de dinheiro, Bruno
tinha contas em Nova Yorke Miami, nos
Estados Unidos, e em Paramarimbo e
Amsterdam, algumas delas numeradas e
outras em nomes de terceiros, como de
um graduado funcionArio estadual. 0
grande volume de dinheiro que passava
por suas maos permitia a Bruno incrivel
desenvoltura junto a bancos, sobretudo
nacionais. Assim conseguiu abrir contas
em nomes de modestos funciondrios de
suas empresa nos bancos Econdmico e
Bamerindus, que movimentava corn as-
sinaturas falsas. Os supostos donos das
contas nao tinham a minima id6ia sobre
elas, que recebiam dep6sitos constantes
de vArios milhoes de cruzeiros, um con-
traste corn os ingressos modestos na con-
ta que Bruno mantinha em seu pr6prio
nome. 0 volume era tao grande que uma
ex-gerente do Econ6mico retirou di-
nheiro da conta de Bruno e emprestou-o
a um client que nao devolveu o emprds-
timo, criando um conflito que eclodiu
poucos dias antes do crime.
Bruno recebia tratamento especial
nao apenas dos bancos corn os quais ope-
rava. Tinha informagno privilegiada na
policia. A16m do ex-agente Mauricio,
mantinha relaco corn um agent da ati-
va da Policia Federal, que frequente-
mente mandava a esposa a sede da
CarajAs buscar dinheiro. Em troca, fazia
"bandeira", despistando no aeroporto a
passage de dolar quando Bruno viaja-
va para o Rio de Janeiro ou o exterior.
Esse agent estA sob investigaoo da Po-
licia Federal, que tamb6m vinha acom-
panhando Bruno desde outubro do ano
passado.
Os neg6cios de Bruno se expandiram
tanto que ele ultrapassara o limited dos
pequenos traficantes de Bel6m ou dos
donos de embarca6oes no baixo Tocan-
tins, que comecaram no contrabando e
progressivamente ingressaram no nar-
cotrafico. Um deles, semi- letrado, rece-
beu passage de Bruno para ir a
Amsterdam num dia e voltar no outro,
provavelmente levando cocaina. Entre
os clients mais recentes havia colom-
bianos e bolivianos, como Ayub, Nassif
e Sharif. Seu principal agent em Guaja-
rd-Mirim, local estrat6gico no comdrcio
de Locaina, era Adrian Rivera Perrogon.
Os motivos para liquidar Bruno po-
deriam ser muitos e os suspeitos, diver-
sos, mas quem organizou o atentado
planejou-o de tal maneira que a policia,
mesmo levantando o manto que oculta-
va at6 entaio essa teia de neg6cios escu-
sos, ainda nao conseguiu dar um s6 passo
seguro no rumo dos criminosos, evitan-
do que este seja mais um caso para o
arquivo dos crimes insoldveis.






IMPRENSA


As paginas em branco


oda a imprensa paraense noticiou e
Svem acompanhando com destaque
os desdobramentos da morte de
Marcio Martins da Costa, que havia se
tornado uma esp6cie de senhor medieval
no garimpo Castelo dos Sonhos. MArcio
exemplificava a penetraco do narcotrA-
fico no baixo mundo e a contaminaao
que provocava em neg6cios at6 entao
aut6nomos, como a garimpagem de
ouro. Mas a imprensa continuou A mar-
gem do "caso Bruno Meira Mattos", ma-
terializaqao dessa mesma penetraqao na
alta sociedade e a definitive instalaiAo
do neg6cio de fachada, montado para
lavar o sujo dinheiro da droga. Sujo, sim,
mas hoje o mais rentavel mercado no
Estado.
0 tratamento desigual aos dois assun -
tos (ainda assim, nenhum 6rgAo da im-
prensa local conseguiu ser testemunha
da ofensiva da Policia Militar ao Castelo
dos Sonhos) mostra a parcialidade da
cobertura jornalistica. Uma political de
bom relacionamento com uma familiar e
corn circulos concdntricos do poder tern
sido mais forte do que o apelo de um real
e legitimo interesse pdiblico por um dos
mais graves problems vividos pelo Para.
A imprensa tern a obrigaqao de mostrar
aos cidadaos que a presenqa da droga j6
6 muito grave no Para, inde-
pendentemente do curriculo de alguns
de seus personagens e do "pedigree" que
possam ostentar. As mortes de MArcio e
Bruno, em contextos diferentes, mas li-
gadas pelos fios invisiveis de suas moti-
vaqoes comuns, sao uma advert6ncia.
Enquanto hi tempo, 6 precise conside-
rd-la e evitar que as mais negras previso-
es se concretizem.
Constitui peqa acusat6ria constatar


que apenas o Jornal Pessoal tratou o
assassinate do filho do secretArio de Jus-
tiqa da perspective que ela tern. Nio 6
uma exclusividade capaz de alegrar este
journal, que tentou, inutilmente, provo-
car a adesao de outros 6rgaos da impren-
sa. A edicao anterior do JP praticamente
se esgotou, indicador do interesse do lei-
tor. 0 tema caberia na exploracao sensa-
cionalista que costuma ocupar o espaco
do noticiario policial, mas este journal
procurou enquadri-la corn a seriedade e
a responsabilidade que ele requer. Ain-
da que atrav6s de uma mintiscula publi-
cacao, ao menos a elite nao pode mais
ignorar que o problema existe e precisa
ser enfrentado na media de sua dimen-
sao, j6 enorme.
Mesmo sem a pressao da grande im-
prensa, valiosa se existisse, a opiniao pi-
blica precisa cobrar providdncias do
governor e exigir- lhe que continue forne-
cendo e ampliando os meios necessa-
rios a uma boa investigacao policial,
como a que, apesar de todas as limita-
coes, vem sendo conduzida na apuragao
do assassinate de Bruno Meira Mattos.
Apesar do abalo que a divulgaoao de
informa6oes constrangedoras pode cau-
sar A familiar do morto, seu caso trans-
cende os limits do drama individual e
familiar para se tornar aquilo que os
te61ogos, sempre limitrofes da profecia,
chamam de "sinal dos tempos". A fria e
precisa execuqao de Bruno serve para
revelar at6 que ponto o crime organiza-
do penetrou nas estruturas de poder da
sociedade paraense. E precise encontrar
os responsiveis pelo crime e tamb6m os
contextos que facilitam sua proliferaqao,
e sua impunidade.
E por esse motivo que a expediao da


PM ao Castelo dos Sonhos, tendo elimi-
nado um territ6rio aut6nomo da crimi-
nalidade em jurisdicao estadual, nAo
significa a definitive destruicao dos ele-
mentos que engendram essa anomalia. A
rigor, alias, ji 6 temerdrio falar de ano-
malia, tantos sao os casos semelhantes
que vAo surgindo no Pard, como o garim-
po do Manelao, ainda A espera de um
tratamento cirirgico, mas nAo de "quei-
ma de arquivo", como a execucAo de
Mircio se caracterizard se impossibili-
tou as autoridades de obter uma confis-
sao ampla e detalhada desse
personagem. Sabe-se que ele tinha mui-
tos homes abaixo de sua hierarquia.
Mas sabe-se tamb6m que os poucos si-
tuados acima dele tinham muito mais
poder e o perigo dessa promiscuidade
esti justamente em juntar os dispostos a
tudo com os que tem as condiq6es reais
de poder. Tal combinaoao comeca a for-
mar-se no Para. Olhando para a vizinha
ColOmbia podemos ter uma antevisAo
do que disso result.
Amigos preocupados com a solidao
do Jornal Pessoal na cobertura desses
assuntos enviaram a politicos e 6rgao da
imprensa national uma carta de alerta,
ressaltando que garantir a integridade de
quem faz tais dentincias "6 mandato in-
declinAvel e irrenuncidvel que toda a so-
ciedade paraense tem de assumir, por
todos os seus segments e por todas as
suas categories profissionais, econdmi-
cas, political, sindicais e estudantis". A
colocaoao 6 irretocdvel e o rumo apon-
tado 6 o inico capaz de reverter a situa-
qao. De nossa parte, achamos que a
missAo da imprensa, em qualquer cir-
cunstancia, 6 nfio deixar em branco uma
pAgina A espera do registro dos fatos.


SUCESSAO


0 leva-e-traz cauteloso


pauta do reporter de "0 Liberal"
que foi cobrir a solenidade de co-
emoracao dos 376 anos de Be-
16m, no dia 12, tinha uma novidade: ao
contrArio de todas as outras vezes, em
ocasioes semelhantes, a orientacao da
direcao do journal era para fotografar o
governador Jader Barbalho e nao para
elimind-lo do registro. No dia seguinte,
pela primeira vez desde o rompimento
entire as duas parties, o governador nio


apenas apareceu na mais destacada foto
da primeira pAgina do journal, como teve
seu nome citado.
Na foto, apareciam dois candidates A
sucessao do prefeito Augusto Rezende,
que ombreava Jader na linha de frente
do palanque: os deputados estaduais
Ronaldo Passarinho e Nelson Chaves.
Um pelo PDS e outro pelo PTB, ambos
sAo considerados alternatives para uma
sucessao negociada entire adversarios da


ultima eleigao, a de 1990. Esse esquema
de composicAo envolveria necessaria-
mente o prefeito de Beldm e o governa-
dor do Estado. Mas, com qualquer dos
dois candidates, abriria espaqo tamb6m
para uma triangulaqao da qual, por via
oblfqua, o grupo Liberal participaria.
Ao inv6s de nova guerra, haveria uma
tr6gua.
Ao menos para efeito imediato, essa
tr6gua comecou na noite de sexta-feira, >






dia 10, quando o governador Jader Bar-
balho decidiu autorizar a publicacao, em
"0 Liberal", de tres anfincios do Banco
do Estado do ParA, a primeira veiculaAlo
de publicidade official no journal desde
que Jader voltou ao governor. A razao
determinante dessa decisao era o balan-
co referente ao primeiro semestre de
1991, final fechado, corn atraso que jd
causava inc6modos e prejuizos. 0 Ban-
pard encerrou o semestre corn prejuizo
de mais de 2,2 bilh6es de cruzeiros por
ter cumprido exigdncias do Banco Cen-
tral ignoradas pela direqao anterior, que
maquilara as contas de 1990, transfor-
mando prejuizo real de 397 milhoes de
cruzeiros (valor da 6poca) em lucro de
900 milhoes. Por conta dessas correqoes,
o prejuizo crescer6 ainda mais no balan-
co do exercicio de 1991.
Jader considerou que valia a pena sus-
pender o boicote publicitario ao grupo
Liberal para alertar a maioria dos leito-
res sobre a origem daquele prejuizo, o
que nao conseguiria se restringisse a pu-
blicacio aos jornais "A Provincia do
Para" e "DiArio do Pard", cuja circulacao
em conjunto represent pequena parce-
la de alcance do p6blico. Al6m disso,
conseguiria infiltrar no journal adversario
a primeira critical A administration ante-
rior, responsAvel pela manipulaqio con-
t6bil denunciada pelo Banco Central.
Esse detalhe nao deve ter escapado A
dire~io de "0 Liberal", mas um argu-
mento mais forte prevaleceu: os balan-
cos do Banpari e de sua empresa de
cr6dito imobiliirio, mais a nota official
do banco, representaram para "0 Libe-
ral" o invejAvel faturamento de aproxi-
madamente 35 milhoes de cruzeiros,
algo dificil de desprezar na atual estagao
das vacas magras.
No final da manha de sAbado chega-
ram A redaqao do journal as peas publi-
citArias e a autorizaco e, por outras vias,


uma discreta promessa de que outras
veiculaq6es, como a da Cosanpa, pode-
riam ter o mesmo fluxo. Bastou para que
Rominho Maiorana em pessoa determi-
nasse uma demonstracao de boa vontade
e reconhecimento para a edicao do dia
seguinte, que registrou at6 as palavras de
elogio de Jader a Rezende. t bem verda-
de que jA no dia posterior "0 Liberal" foi
discriminado na midia de divulgacao,
pelo governor do Estado, do falecimento
do ex-senador Catette Pinheiro, assim
como Jader voltou a ser apenas "o gover-
nador" no noticidrio do journal, que omi-
tiu a cobertura da posse de Josd Pereira
e Silva na presiddncia do BanparA e a
desapropriacao do garimpo Castelo dos
Sonhos.
Sc mostra que nao h6 ainda um acor-
do, o recuo nao 6 o bastante para cance-
lar as primeiras e tfmidas tentativas dc
composiqao, que s6 poderao ter arrema-
te se houver um candidate de consenso
entire os principals campos adversarios
na political paraense. Esse candidate,
evidentemente, nao 6 o ex-governador
H61io Gueiros. 0 pr6prio sabe trio bem
disso que na mesma segunda-feira em
que Jader voltou A primeira pagina de "0
Liberal" cobrou um encontro com Ro-
minho Maiorana e o prefeito Augusto
Rezende, com direito a foto destacada
no espaqo nobre do journal, a terceira
pagina.

Nem Rezende e nem Rominho que-
rem assumir uma briga com Guciros,
mas o prefeito da claros sinais de que naio
pretend entrar no esquema do ex-go-
vernador. Em entrevista ao program
"Sem Censura", da TV Cultura, Rezende
disse que seu candidato'terA que manter
um entendimento administrative com o
governador, sem o que haverA prejulzos
para a cidade (alrnm de cobrar uma qua-
lidade que nao 6 propriamente caracte-


ristica de H6lio: muita capacidade de
trabalho). A nao ser se proceda uma
drAstica e stibita mudanga no relaciona-
mento entire os dois, nao hd a menor
possibilidade de convivdncia entire Hdlio
e Jader, ao menos em um horizonte vi-
sualizAvel, hoje. Rezende nao pretend
dizer a Gueiros que nao o apoiarA, mas
espera que o ex-governador entenda a
situaco e a ela se submeta.

Essa attitude nao estA nos pianos de
Helio. Ele vem tentando viabilizar a for-
macao de uma coligacao de partidos
(tentou o PST, o PTR e o PTB) para
conquistar espaco na propaganda eleito-
ral gratuita, insuficiente se defender de
um 6nico guarda-chuva de pequeno par-
tido. Sua candidatura s6 se viabilizard
com o agravamento das diferencas que
separam os redutos do governador do de
seus adversarios, para os quais vem sen-
do trabalhadas opqoes capazes de servir
de ponte e traqo de uniao, ainda que
triangular, como Ronaldo Passarinho e
Nelson Chaves.
De forma sutil e evitando precipitar
qualquer definicao, Rezende trabalha
com essa hip6tese de forma cuidadosa,
enfatizando a necessidade de entendi-
mento administrative com o governa-
dor. Simbolicamente, essa aproximacao
esta retratada na placa que na semana
passada foi colocada em frente ao Pali-
cio Antonio Lemos, em fase de restaura-
qao, juntando a prefeitura e o governor.
Antes, pordm, da decisao que o prefeito
anuncia para quando o carnaval passar,
em margo, Rezende quer dispor de re-
cursos estaduais e federais para fazer
mais obras e, assim, lanqar as sementes
de sua pr6pria candidatura, em 1994,
sem a qual terA sido apenas um meteoro
na polftica paraense, o que ningu6m, de-
pois de sentado em algum dos tronos do
poder, deseja para sua pr6pria biografia.


IMPRENSA


0 "mais maior" de todos


D epois de autorizar o Banco do Es-
tado do Pard a publicar dois balan-
D os e uma nota official em "0
Liberal", suspendendo um boicote de 10
meses, o governador Jader Barbalho de-
cidiu dar um outro anincio ao journal na
edicao do dia 19, desta vez uma nota do
pr6prio governor sobre a adocao do novo
regime juridico do funcionalismo pibli-
co estadual. A iniciativa podia ter dupla
interpretacao: era mais um passo na re-
visao do clima de beligerdncia e retalia-
Oo entire as duas parties, ou entao o
governor era obrigado a novamente cur-
var-se ao dominio esmagador do grupo


Liberal sobre o mercado de comunica-
Oao de massa no Pard.
Comunicados oficiais que precisam
ter uma grande divulgaaio nao podem
simplesmente ser publicados nos jornais
"Didrio do Pard" e "A Provincia do Pard",
como tern ocorrido corn editais ou avisos
de rotina. "0 Liberal" sustenta que ape-
nas 2% dos leitores de jornais nao o
leem. t um nimero impressionante, que
s6 nio pode ser analisado melhor por-
que o journal, mesmo dedicando pagina
inteira a antincios calcados unicamente
nesse t6pico de uma pesquisa mais am-
pla, nao a revela por inteiro. Como "A


Provincia" e o "Diirio" em conjunto de-
vem deter entire 10 e 15% do mercado,
conclui-se que nio mais do que uns 15%
dos leitores de jornais compram mais de
um dos tres diArios.
A esmagadora maioria dos leitores 6
rmonovalente, usudrio de um s6 journal
por convicaio ou o que deve ser a
esmagadora maioria por necessidade.
0 valor de um exemplar de journal j6
equivale ao de duas passagens de 6nibus,
o que por si s6 6 suficiente para eliminar
a parcela majoritAria do mercado poten-
cial.
"0 Liberal" domina absolutamente as .






comunica0Oes no Para por falta de con-
corr6ncia. 0 journal, na sua mais recent
campanha publicitaria, quer convencer
o piblico, pordm, que 6 o primeiro nao
apenas por falta de alternative, mas por-
que desfruta de credibilidade. Outro
anmincio de grandes dimensoes anuncia
"0 Liberal" como o journall de maior cre-
dibilidade do Brasil". Uma pesquisa da
Toledo & Associados constatou que
66,3% dos leitores de Beldm considerarn
"0 Liberal"o journal local de maior credi-
bilidade, contra apenas 4,7% de picle-
rdncias pelo Jornal B (nao identificado)
e 11,6% por nenhum journal. Os indices
mais pr6ximos desse resultado sao os de
"Zero Hora", em Porto Alegre, e "A Tar-
de", em Salvador, ambos com 56,4% das
opqoes dos leitores.
A estatistica, aproveitada com entu-
siasmo por "O Liberal", que novamente
deixa de publicar os outros resultados da
pesquisa, pode ser vista por outro Angu-
lo. Se 98% dos leitores de jornais lem
"0 Liberal" e 68,3% o consideram o de
maior credibilidade, isto significa que
quase um tcrco dos leitores do journal o
leem mas nao acreditam nele. Sao movi-
dos pela forca do habito ou pela contin-
g6ncia de nao terem outra escolha. E nio
faltam motives a esses leitores para ceti-
cismo. Apesar de publicar os anuncios
do Banco do Estado do Para, "0 Liberal"
ignorou a posse do novo president do
banco, fato de inegAvel interesse para
seus leitores. No mrs passado o journal
registrou que a Assembl6ia Legislativa
havia aprovado um projeto sobre as con-
tas de 1989 de H61io Gueiros, mas omi-
tira da noticia que a resoluqao rejeitava
essas contas, evidentemente o dado mais
importanteda questao, mas excluido por
causa das ligacoes do journal com o cx-
governador.
Um journal que trata assim as informa-
Coes nao pode ter credibilidade. Se nao
concorda com determinados fatos que
noticia. "0 Liberal", seguindo o padrao
da melhor imprensa mundial, manifesta-
ria sua opiniio na pAgina de editorial.
Mas nem mesmo boa parte dos editorials
consegue ser original ou revelar convic-
qao pr6pria: o leitor atento observard
que alguns sao produzidos, desinteressa-
damente, em cima de despachos de agdn-
cias internacionais de noticias,
ligeiramente modificados.
Corn todas essas ressalvas, a conforti-
vel posioao do grupo Liberal no mercado
nao est6 ameagada por qualquer dos
concorrentes num horizonte pr6ximo.
Os maiores problems o grupo poderd
enfrentar quando e se perder a unidade
internal, caso as rivalidades e divergdn-
cias entire os irmaos extrapolarem o con-
trole exercido por D6a Maiorana, que


tem um cargo decorative na empresa,
mas reina de fato sobre os filhos, aparan-
do as arestas e impondo uma unidade
que nao se estabelece naturalmente e
dificilmente subsistiria sem ela.
0 perigo que uma cisao internal pode
representar ainda 6 coisa de future, mas
alguns erros sao risco mais imediato.
Um deles foi o pesado investimento na
nova sede e no parque grdfico exatamen-
te quando o pals atravessa perlodo reces-
sivo. Os pianos para dotar o journal de
uma nova, potente e modern impresso-
ra remontavam A dpoca de Romulo
Maiorana, mas nao parecem ter sido
convenientemente amadurecidos. Uma
fonte credenciada da empresa garante
que os Maiorana estavam convencidos
que a nova mAquina poderia ser instala-
da no prddio velho, da rua Gaspar Viana.
S6 depois da chegada do equipamento
ficou comprovada a necessidade de
construir novas instalagoes, que come-
cam a surgir em ampla area pelos funds
do Bosque Rodrigues Alves, meses ap6s
a maquina ter sido mantida em armaz6m
no cais do porto, enquanto os Maiorana
procuravam um terreno (precos favore-
cidos dados pela CDP provocaram de-
ndncias do "DiArio do Pard", sem maio-
res consequencias).
A mesma fonte nao acredita que o
investimento, de nao menos do que oito
milh6es de d61ares, va afetar a sadde do
grupo ou colocA-lo em dificuldades insu-
perAveis. "0 Liberal" estaria faturando
acima de um milhao de d61ares mensais,
receita apreciAvel para Bel6m, mas al-
guns fatos indicariam que a situacao jA
nao 6 tao tranquila quanto antes. Pela
primeira vez desde que Romulo Maiora-
na assumiu o journal, o pagamento dos
funciondrios atrasou alguns dias em pelo
menos duas vezes no ano passado. 0
retardamento pode ter sido para permi-
tir aplicaq6es financeiras de fim-de-se-
mana ou ser resultado de negligencia, a
mesma que fez o grupo aparecer na in-
cOmada relaoao dos protestados no Mo-
nitor Mercantil, ja agora com valores
bern mais altos do que as pequenas quan-
tias de antes. Circulava tamb6m um boa-
to, nao confirmado, de que o journal teria
uma grande dfvida junto A Samab, prin-
cipal fornecedora de papel da imprensa
brasileira.
Dados como esse e alguns outros que
pipocam em conversas informais nao
permitem ainda former um quadro con-
solidado sobre a real situaco do grupo
Liberal As v6speras de um dos passes
mais importantes que precisarA dar. Sem
dtivida a posiqao da empresa em relaqao
A eleicao deste ano poderd influir sobre
o resultado. Sem o apoio decidido dos
veiculos de comunicacAo da familiar


Maiorana, a candidatura do ex-governa-
dor Hl1io Gueiros A prefeitura de Belrm
nao passard de um sonho de verao. Em
outras circunstancias, "0 Liberal" ja es-
taria alinhado com Gueiros, mas os gra-
ves erros.cometidos pela familiar nos
61timos tempos sio um alerta para sua
repeticao agora. Para sair corn Gueiros
na linha de frente, "0 Liberal" terd que
estar em condiO6es de suportar a pior
guerra de sua hist6ria recent, quando a
tendencia parece ser mais de tr6gua, se
nio de uma aberta declaracao de paz.



Cartel forte

Um saco de cimento vindo da Russia
custa em Bel6m menos da metade do
preqo do cimento produzido em Capa-
nema, embora cubra uma distAncia 100
vezes maior, tenha a barreira do cAmbio
e necessite de transport intermodal. A
produoao, a distribuioao e a fixacao do
preqo do cimento resultado de um dos
mais poderosos cartdis em acao no pafs,
que conseguiu reajustar o produto tr6s
vezes acima do indice official de inflaoao.
0 cartel escalou o grupo Joao Santos
para tender o sofrido mercado nortista.
As duas inicas fabricas existentes na re-
giao sao dessa corporacao, que ainda
mant6m sob seu control o tinico proje-
to em andamento, o de Itaituba, sentado
em uma grande mina de calcdreo. 0 pre-
qo do cimento que a empresa coloca em
Bel6m 6 o maior do Brasil, embora a
fabrica esteja inteiramente amortizada
hU muito tempo, a mina se localiza ao
lado, o transport 6 efetuado pelo pr6-
prio grupo e cle usufrua das vantagens e
beneficios oficiais disponiveis, incluindo
isenAo de impostos, sobre cuja conces-
sao ha uma das mais escabrosas hist6rias
da administraqAo ptblica paraense.
Apesar de tudo isso, o cartel continue
impavidamente forte.



Ultima forma

O governador Jader Barbalho orien-
tou a direqao de redaqao de seu jor-
nal, o "Diario do Pard", para reduzir as
critics e suavizar o tratamento ao pre-
feito de Bel6m, Augusto Rezende, e ao
principal executive do grupo Liberal,
Romulo Maiorana Jr. A determinaqao
faz part da political que o governador
vem adotando para isolar o ex-governa-
dor H61io Gueiros e inviabilizar sua can-
didatura A prefeitura de Bel6m, que
perdero sua sustentacao sem o apoio de
Rezende ou de Rominho.







POLEMICA




0 tamanho da biografia


Ainteligencia de Jarhas Gongalves Pas-
sarinho 6 uma das mais brilhantes entire
todos homes pdiblicos que jA surgiram
no Par5. Essa inteligencia garantiu-lhe umrn
lugar de destaque na hist6ria republican
deste Estado, que nem o 6dio de seus piores
inimigos pode anular. Mas frequentemente
essa inegavel qualidade do ministry da Justiqa
nAo 6 antfdoto para os efeitos de alguns de
seus atos questiondveis, polemicos ou conde-
n`veis: nesses moments de inflexao negative
na vida piblica de Passarinho parecem preva-
lecer sua ilimitada vaidade e sua insufocivel
obsessao pelo exercfcio do poder, frequente-
mente a qualquer preco.
Estes dois elements essenciais da perso-
nalidade do ministry se evidenciam ao longo
do primeiro volume de suas memOrias, "Na
Planfcie", que critiquei no n6mero 66 deste
Jornal Pessoal. Passarinho nao gostou da re-
senha e me mandou uma carta endrgica, pro-
testando contra minha avaliacao e acusando
minha parcialidade. Repliquei. S6 10 meses
depois o ministry, certamente por seus absor-
ventes afazeres de coordenador polftico do
descoordenado governor Collor, conseguiu
dar nova resposta. Publico-a na fntegra, c para
nao prejudicar a leitura da carta, avolumando
mais sua introducao, deixo de fazer os reparos
todos que, em meu entendimento, ela exigiria.
Nao posso, entretanto, suprimir alguns co-
mentArios que me vem A mente. Passarinho
diz que nao fui convenientemente etico, dei-
xando de ouvi-lo antes de fazer meu "julga-
mento". Nem deveria: tratando-se de uma
resenha, o que eu precisava saber estava no
pr6prio livro. Aquela era a versao dele, con-
frontada corn a de personagens citados e que,
af sim por uma exigencia etica, eu deveria
consultar porque nao tinham voz no livro do
ministry, evidentemente, sendo apenas "sujei-
to passive", como ele classifica Irawaldyr Ro-
cha. No epis6dio envolvendo o alual
integrante do Conselho de Contas dos Muni-
cfpios, alias, criou-se um impasse: as versOes
dele e do ministry sao inconciliaveis, exigindo
um terceiros testemunho, que poderia ser o
do ex- governador Alacid Nunes, o eterno
surdo-mudo (por conveniencia) na hist6ria
recent do Par`, aquele que "nada diz e nada
escreve", como Passarinho assinala corn iro-
nia.
Qualquer jornalista haverAde preferir Pas-
sarinho a Alacid, embora este, corn a sagaz
combinacaode oportunismo corn omissio, es-
teja mais pr6ximo do modelo de sucesso
numa terra que premia os abulicos e castiga
os ativos, aqueles que pelo menos term a cora-
gem de se expor. Mesmo com depoimentos
de pd falso, Passarinho tern um olho na con-
juntura e ooutrona hist6ria, enquantoAlacid,
rds-o-chao, quer apenas garantir a rapadura.
E o amplo desejo da maioria, que recebeu as
mem6rias do ministry corn um silencio para
Ia de velhaco, especialmente em relaclo aos
que reservam sua manifestaqAo a bem prote-
gidas conversas entire quatro paredes. Assim,
a hist6ria continuara a ser monop6lio de ven-
cedores, como Passarinho.
Nao the invejo essa vit6ria, que nao faz
part do horizonte das minhas aspiracoes.


Sou, sempre fui e, enquanto me for possfvel,
sempre serei um jornalista, preocupado so-
bretudo em recuperar os fatos. Fui atras deles
no livro do ministry e tentei separar a factua-
lidade, que constitui o estofo da hist6ria, das
ervas daninhas das adjetivac0es e dos desca-
minhos do interesse pessoal. Com o peso de
sua presenqa na vida ptblica paraense ao
longo de quase cinco decades, Passarinho de-
veria ter ido alem da compilaoao das entrevis-
tas que havia concedido anteriormente e da
apressada consult aos pr6prios documents.
Pode-se ser sintetico sem ser falho, incomple-
to ou falso. "Na Planfcie" 6 apenas um ponto
de partida, nunca de chegada. E uma pena
que Passarinho tenha optado por uma corrida
solitaria: se tivesse recorrido alum "ghost-wri-
ter" ou a uma equipe de entrevistados, talvez
nao aparecesse tao olimpicamente her6ico
como na auto- avaliacao, mas estaria muito
mais pr6ximo da verdade e do ret rato corn qu
a hist6ria o preservard, entire as cinzas de mui-
tos de seus inimigos nessa efemera sucessao
de disputes pelo poder na planfcie e no planal-
to.
E reveladoramente freudiano (para recor-
rer a uma leitura que o ministry me atribui)
que Passarinho me consider "alarmantemen-
te vaidoso", crftica que registro pela primeira
vez em letra de forma depois de 26 anos de
militAncia jornalfstica, quase sempre na linha
de frente. A image que o ministry ve no
espelho, porem, e lamento quebrar o encanto
com essa observagao, nao 6 a minha, mas a
dele pr6prio. Esse bloqueio inconsciente faz o
ministry da Justica atribuir-me a responsabili-
dade de crfticas infants, que nao fiz, ignoran-
do as de essencia, que fiz e ele nao lembra, um
mdtodo de discutir bastante dtil para ganhar
a parada quando o contender 6 desatento ou
desconhece essas manhas.
Finalmente: minha "divergencia ideol6gi-
ca" com Jarbas Passarinho, por ele salientada
em todos os moments, inclusive naqueles
diffceis, como num debate pela televisao no
auge do regime military, quando esse tipo de
pecado costumava ser mortal (bem mais, pelo
menos, do que escrever o preficio de um obra
tingida de verniz solidarista cristao), jamais
me impedird de sentar diante dele, conversar
e melhor ainda discutir, enquanto o critdrio
de ponderaqao for o exercfcio da inteligencia.
Nao me incomoda em nada a "firme con-
viccao anti-marxista" do ministry, trago de ri-
gidez que inexiste no meu pensamento.
Nenhuma de minhas ideas se transformou
em dogma e ninguem pode afixar nelas uma
etiqueta. Livre pensar, para mim, como, an-
tes, para o MillOr Fernandes, 6 s6 pensar. Em
meio a esse relativismo, tenho 6 claro, alguns
jufzos categ6ricos, como o de responsabilizar
os signatlrios do Ato Institucional ndmero
cinco pela castracao de toda uma geragao e
pela imposicao das trevas sobre a bruxoleante
luz que ainda subsistia no Brasil, heranga re-
manescente, de uma epoca que, vista pela
6tica da inteligencia, havia sido de luminosida-
de rara (a da repiblica liberal de 1946- 68). E
o que minha geracao nao deixard de cobrar de
pessoas como Jarbas Passarinho, inde-
pendente de admirar sua inteligencia e dese-


jar-lhe longos anos de vida, para que, ate
nosso arquivamento desta vida, ainda poder-
mos travar novos e, se possfvel, proveitosos
debates como estes.
Abaixo, a fntegra da carta do ministry:
Estranho que parega e merece parecer -
s6 depois de dez meses 6-me dado voltar A sua
replica A carta na qual expressed nao apenas o
meu desacordo, como ate a indignacao com a
resenha do meu livro de mem6rias polfticas,
"Na Planfcie". Infelizmente, jA nao tenho co-
migo essa resenha que, insist, deu guarida a
inverdades. Nao se trata de "mania de perse-
guiqao", mas de simples constatacao de fatos.
Na sua resposta voce defended a etica jornalfs-
tica, que recomenda checar as diversas fontes
de informacao. A mim, porem, voce nao ou-
viu, antes de fazer oseu julgamento. Preferiu,
desde logo, emprestar veracidade a verslo ou
as verses que colheu em conflito com o que
eu escrevi no livro.
Vou limitar-me, ja passado o natural de-
sencanto corn a sua inesperada parcialidade,
ao que se contem em sua resposta. Seguem
c6pias de documents: 1) a carta do Coronel
Severiano da Fonseca Hermes; 2) tudo sobre
o affair Moraes Rego, inclusive as cartas que
escrevi aos Generais Castello e Costa e Silva;
3) o radiograma do Presidente Castello Bran-
co sugerindo a retirada da candidatura do
major Alacid; 4) prefAcio da 2a. ediqao da
"Pequena Enciclopedia de Moral e Civismo",
de 1972; 5) troca de cartas corn o Dr. Ray-
muindo Vianna, General Bandeira Coelho e
General Meira Matos; e 6) cartgo manuscrito
do filho do Presidente Castello Branco.
Ficaria muito longa esta carta se transcri-
tos todos os documents. Voce os lerd e tirar6
suas conclusoes. Desde logo, porem, fica pro-
vado que:
1 o coronel Severiano testemunha que o
epis6dio de minha quase prisao pelo Ministro
da Guerra, encerrou-se corn a conquista da
amizade e a admiracao dos Generais Zen6bio
e Jandyr "havendo eu com sinceridade, firme-
za de carter assumido a responsabilidade da
atuacao no dia anterior" (discurso no Clube de
Aeronautica);
2 a troca de insults com o Moraes Rego
resultou de minha adesAo A candidatura Costa
e Silva. 0 epis6dio se encerraria corn a expe-
diWao dos radiogramas de um para o outro, em
linguagem para ser compreendida por am-
bos e nho por todos, mas alguem, no Para,
facilmente identificAvel, entregou o radiogra-
mia insultuoso do Moraes Rego ao Ossian
Brito, que logo se apressou a publicA-lo na
"Folha". Em consequencia, publiquei o meu,
de resposta violent ao entao poderoso assis-
tente military do Presidente e, indo mais long,
tornei pdblico, pela "Provfncia do Pard" ambas
as cartas que dirigi ao General Costa e Silva e
ao President Castello Branco, para demons-
trar cabalmente que as cartas nao tinham
nada de contradit6rio e menos ainda de ambi-
gtlidade;
3 foi o Presidente Castello que, informa-
do de que o pr6prio Alacid temia a derrota
eleitoral, me telegrafou sugerindo a troca de
candidate. Vale fazer uma ligacao corn a via-







gem que o Moraes Rego fizera, na ocasiao, ao
Pard. 0 telegrama "Western", que passei ao
Alacid confirm o que escrevi nas mem6rias,
pois convenci o Presideme Castello a manter
a candidatura do Alacid;
4 o prefacio meu, A enciclopddia de res-
ponsabilidade do Padre Fernando Bastos de
vila, confirm o que Ihe pareceu ser baz6fia
minha. Acrescento que a editor foi a Fename
(Fundaqgo Nacional de Material Escolar),
pertencente ao MEC, sendo eu Ministro da
Educacao. E isso em 1972, no climax da insur-
reicao armada contra n6s, o que tornava mi-
nha iniciativa temerdria, no mfnimo;
5 as cartas do Dr. Raymundo Vianna e
dos Generais Meira Matos e Bandeira Coelho
sfio definitivas para afastar a difamaqao corn
que os vermes de sempre me procuraram
pintar como traindo companheiros para vir a
ser Governador do Pard. (Depois voce me
acusa de "mania de perseguiqao". Voce deve
andar encharcado de leitura de Freud...).;
6 finalmente, o cartao do filho do Presi-
dente Castello confirm que ele "apreciou
muito o reencontro" que teve comigo. Ora o
General Castello nao era home de duas ca-
ras. Quando o Senador Sarazate me levou ao
seu apartamento, e ele me recebeu atd afetuo-
samente, foi porque me fez justiga quanto ao
epis6dio da candidatura Costa e Silva. Cabe,
ainda, salientar que s6 disse ao Presidente
Costa e Silva que fora ver o ex-Presidente
Castello, depois e nao antes. Ao contrdrio do
que muitos pensavam, o Presidente Costa e
Silva louvou minha iniciativa.
Resta o caso Irawaldir. Voce tern razao em
ficar em dtvida, mas nao em acreditar desde
logo no Irawaldir. Fico perplexo corn o que
voce escreve, tendo-lhe afirmado o Irawaldir
que eu indiquei o seu nome ao Alacid. Abso-
lutamente falso! Eu estava no recinto reserva-
do da 2a. Seqao do Estado Maior do C.M.A.,
ultimando a missao que me dera o General
Ramagem, quando nele ingressou o major
Alacid, dizendo-me star buscando compor a
chapa para a Prefeitura. Lembro-me bern de
que ainda sugeri o nome de um ex- vereador,
funcionario da ENASA, mas o fiz sem maior
empenho. Ao voltar, horas depois, o Alacid
me trouxe o resultado de suas consultas. Vi-
nha corn o nome do Irawaldir, insist, para
surpresa minha. Mais tarde disseram-me
(nunca o Alacid, porque esse nada diz e nada
escreve) que a indicacao passara pelo Coronel
Oliveira, pelo Dr. Abel Figueiredo e pelo Ge-
raldo Palmeira. Reafirmo que nao indiquei o
Irawaldir. Baseado em que ele the terd dito
isso? Certamente por ouvir dizer, pois desaflo
que diga que de mim ouviu essa versAo. Como
me dizia o saudoso Senador Krieger, a prova
testemunhal seria definitive se os homes nao
errassem ou nao mentissem. Nao atribuo de-
liberaeao de mentir, ao Irawaldir, mas ele nao
6, certamente, a melhor testemunha, sujeito
passive que foi, no caso. Pergunte-lhe como
foi informado da escolha. Por quem? Quan-
do? Como se sabe a sua posse, corn Alacid,
deu-se tries dias antes da minha, que continua-
va no Quartel General, concluindo minha mis-
sao military e as articulagces para conseguir
maioria na Assembldia Legislativa. Gostava
do Irawaldyr. Limpei sua ficha na 2a. SelAo,
em nome da verdade, mas reafirmei tantas
vezes quantas necessdrias que nio fui patrono
de sua indicaeao para a vice-prefeitura de Be-
ldm. Do mesmo modo que assume integral-
mente a soluqao que dei ao seu caso,


nomeando-o para a Celpa, o que viria a dar-
me dores de cabeqa na area exaltada da Aero-
ndutica.
Voce diz que meu livro padece, entire ou-
tras, de duas inconveniencias: ser premature,
como mem6ria, e nao ter incorporado na in-
tegralidade textos a que me referi. No primei-
ro caso, vejo que, ao contrArio, foi tardia a
publicaqAo, pois fico impossibilitado de recor-
rer a certos testemunhos, dado que jd morreu
quem os podia dar. No segundo, continue
achando que o livro deve ser o mais sintftico
possfvel, sem prejufzo da documentaqao fun-
damental. Jd que voce gosta tanto de biogra-
fias, prefiro, por exemplo, a de Castello feita
por Foster Dulles Jr. A do mestre Luiz Vianna;
a "Minha Vida" de Golda Meir A "Olga" de
Fernando Moraes; a pequena Les Chenes
Qu' on Abat" A biografia de De Gaulle, por
Don Cook.
E bem antes de conhecer a sua preferen-
cia, tambdm eu prefer "Le Spectateur Enga-
g6" As volumosas "Mem6rias" do admirdvel
Raymond Aron. Exatamente porque, em to-
dos esses casos, a describao enxuta e a inexis-
tencia do tom laudat6rio me parecem
preferfveis.
Deixe-me dizer-lhe que o livro tern, de
fato, um sentido muito peculiar, voltado que
estd para acontecimentos no ParA, na sua
maior parte. Por isso, as transcriq es de elo-
gios consagradores, uma esp6cie de desmora-
lizaqao dos meus pertinazes adversarios
rofdos de inveja. Nisso voce viu extrema vai-
dade. Nao mereqo o julgamento, mas d born
lembrar que o frances tern duas expresses
para distinguir o que pode do que nao pode
ser vaidoso. Para o primeiro, ha a frase:
"Rempli de soi meme"; para o outro: Rempli
de sa merde"... Ou, como diz reu amigo Achi-
les Lima, hd que distinguir entire vaidoso e
pesporrento.

Julgamento de valor por julgamento de
valor eu o acho alarmantemente vaidoso,
urma espdcie de menino prodfgio que cresceu
a se permit o exercfcio duvidoso de julgar os
outros, quer do ponto de vista polftico como
do literdrio. Mas, e de convir, voce esta incluf-
do entire os que os franceses designam pela
primeira definilao. Onde voce extrapola do
direto de censor 6 no que tange as diferengas
de ordem ideologica. Nao me perdoard, por
exemplo, como o zoilo da "VEJA", minha fir-
me convicgao anti-marxista, nada obstante o
fragoroso desmoronamento do socialismo
real", successor do "socialismo concentraciond-
rio", assim apelidado por Albert Camus, por
analogia corn os campos de concentragao de
Stalin. Voce fard questao, sempre, de salientar
nossas divergencias e de condenar o Movi-
mento de 64 que, no seu maniquefsmo, s6 ve
como causador de "um mal irrepardvel a este
Pals". Basta essa frase, assim integrista na con-
denagdo, para se ver que voce nao 6 o mel.ior
analista da contra-Revolugao de 64. Mas isso
seria mattria para longa dispute.

Nao hd como comparar o meu livrinho
para-diddtico, "0 Pard", com o "Na Planfcie".
0 primeiro, realmente, foi feito apressada-
mente, para tender A solicitagao, corn prazo
certo, do Arnaldo Niskier, para a colegao
"Nosso Brasil". Obra de gabinete, mas bastou
que a editor inclufsse uma foto, do arquivo
da Manchete, de Santardm, dizendo na legen-
da ser cidade A margem do Tocantins, para


que esse erro palmar me fosse a mim imputa-
do! Por af se ve o animo bilioso do crftico.
Assunto passado e enterrado. JA nao 6 o caso
de sua tentative de considerar coisas do Barao
de Munchhausen as revelagOes de minhas
conquistas: ter posto em brios o Ministro da
Guerra Zen6bio da Costa, ter safdo da PE-
TROBRS nos bragos dos seus servidores, ter
sido ovacionado quando chamado para rece-
ber o diploma da Escola de Estado Maior do
Exdrcito. Nao pretend seja voce invejoso do
mdrito alheio. 0 seu pr6prio Ihe garante tran-
quila aceitagao do de outrem. No entanto, ter
sido chamado para ser preso, haver "assumi-
do, corn firmeza de carAter a sua responsabi-
lidade" e sair do gabinete do poderoso
Ministro corn um aperto de mao e livre, pare-
ce-lhe excessive? Pois entao me preste o tri-
buto da admiraoao e nao o da invectiva.
Quererd voce que eu peoa o testemunho de
meu amigo o General Negreiros, para confir-
mar meu relate sobre a formatura na Escola
de Estado Maior? A mae dele, brincando, diz
at6 hoje que nao me perdoa, pois o nome do
Negreiros seguia-se imediatamente ao meu, e
quando ele foi chamado para receber o diplo-
ma nao se Ihe ouviu a chamada, dado que as
palmas prosseguiam me saudando. Note que
tive e tenho o cuidado de salientar que essas
palmas retumbantes eram menos um aplauso
a mim mesmo, e mais um desagravo e um
protest contra os poderosos da 6poca, que
combatfamos. Quanto A PETROBRS, nada
Ihe significa que, jd afastado da superinten-
dencia, e depois que 4.500 servidores, dos
5.000 consultados, decidiram contribuir para
um present ao home que corn eles convi-
vera fraternalmente, hajam-me oferecido o
primeiro automovel que tive em minha vida,
um Fusca?
Isso nao pode doer em uma pessoa como
vocd, mas seguramente d6i em espfritos mes-
quinhos, prenhes de inveja. Certamente foi
pensando nessa fauna, que o padre Vieira
escreveu no Sermao da Segunda Dominga do
Advento: "Nao hM maior delito no mundo,
que ser o melhor. Um grande delito muitas
vezes achou piedade; um grande merecimen-
to nunca the faltou a inveja.......... Em Deus hd
miseric6rdia na inveja nao hd perdao". E, por
falar em merecimento, o meu livro que teve
em voce crftico severe e destrutivo, provocou
elogios de Rachel de Queiroz, de Josud Mon-
teiro, de Maria Alice Barro, e de Austragdsilo
de Atafde, escritores consagrados. Isso me
basta a mim, que nao pretend obra literdria,
mas um testemunho para servir de subsfdio a
historiadores isentos.
Finalmente, envio-lhe, inclusa, uma sdrie
de documents para tender ao seu desejo
expresso em sua rdplica. Homenagem ao ad-
versdrio no campo das iddias, que nao presto
aos que desprezo, a ponto de nao lhes ler
sequer o que escreveram corn a pena da inveja
molhada na tinta do despeito".




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