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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00066
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00066

Full Text













CRIME



A droga npa sociedfade


O assassinate de Brunao Meira Matos, filho do

secretbrio d1e Jusstiga do Estado, reveal

a9te qule ponto o snarcotrbfico penetroue

no mnuPndo dos neg6cios e n~a sociedad~e ]local.


I


Ano V


Cr$ 500,00


runo Marinho de Meira Matos
se equilibrava cm dois mundos
Bdistintos, que s6 se tocavam cm
tangentes invisiveis. Para o grande pt-
blico, cra um legitimo figurante de co-
lunas socials. Membro de uma das mais
tradicionais familias do Pard (os Mci-
ra), era bonito (moreno, 1,92 metro de
altura, forte) e, aos 32 anos, estava cada
vez mais rico. Mas poucas pessoas co-
nheciam a origem da fortune de Bruno:
provavelmente cra o mais importance
"lavador" dos ddlares do narcolrfico
em Belem. Scu escritdrio de c~mbio e
turismo, a fachada legal de negc~cios es-
cusos, movimentava alguns milhies de
d61lares mensalmente.
Pouco depois das 18 horas do dia 10
de dczembro do ano passado, a dificil
equilibrio mantido por Bruno Meira
Matos nos li1timos tris anos rompeu-
se. Ele nom percebcu qjuando uma ca-
mionete emparelhou com scu autom6-
vel Gol, a 30 quildmetros de Becl~m,
quando ele regressava de uma vingem
at6 agora nito esclarecida. Um homem
apontou uma pistola de grosso calibre,
provavelmente uma Magnum, c fez um
tinico disparo. A bala penetrou na
tempora de Bruno, abriu um buraco de
2,5 centimetros, e saiu na altura do
queixo, com um rombo de seis centime-
tros.
Massa encefdlica foi espalhadat polo
assent e Bruno teve morte imediata,
mas seu carro ainda percorreu 300 me-
tros no acostamento da pista antes de
se chocar, jd em baixa velocidade, com
um harranco. Quando a primcira tes-
temunha chcgou junto ao carro, nada
mais havia a fazer: algu~m ainda levou
o rev61ver 38, que estava visivel, mas


nlio perecheu os 350 mil cruzeiros que
Bruno levava consigo. Comeg~ava ali
um dos mais dificcis casos de homicidio
que a policia paracnse iria enfrentalr.

A4 VILAGEM MISTEIRIOSA

Nenhuma pessoa, nom mesmo o
motorist de um velho caminhilo de
carga diantc do qual cruzou o Gol des-
governado, viu o carro que emparclhou
comn a de Bruno ou os scus ocupantes,
no minimo dois (0 motorista c o autor
do tiro). Niio hB a mais remota des-
crigilo a respcito, um resultado propor-
dional d precisa execuc;io do atentado,
"coisa de profissionais", segundo um
dos policiais envolvidos na investi-
gac;io. Quem atirou estava preocupado
em -nio ser identificado, talvez por mo-
rar em Bel~m mesmo, o que ressalta
a~indla mais o risco a que sc expos, ma-
tando Bruno na linica estrada de acesso
Q cidade, em plena pista, com os dois
carros em movimento. Se errasse, pro-
vavelmente nito teria uma segunda
oportunidade.
B~runo foi apanhado de surpresa e
este 6 um dos detalhes que complica o
trabalho de decifracilo de sua morte.
Vgrios dias antes dela ocorrer, Bruno
havia comentado comn pelo menos duas
pcssoas a esposa Milene e o emprega-
do e amigo Jos6 Ricardo Montoiro -
ameag~as de morte que estaria receben-
do. Teria indicado os nomes de dois
suspeitos, ainda nito identificados (ou
porque as duas fontes sc recusam a
adcmirir a fato, on porqlue a polIcia n5to
quer reveld-lo).
Depois de quase trds anos de conti-
nuos; sinais de prosperidade, Bruno es-


tava passando por uma ~Fase difIcil. Jg
havia emprestado 70 milhoes de cruzci-
ros do sogro, Michel Haber, done
tambdm de uJma empresa de crmbio e
turismo, atualmentc sob investigation
policial por causa de possivel afinidade
comn atividade paratela. Hg uma verstio
de que recentemente uma grande quan-
tidade de cocaina de um dos clients de
Bruno havia sido apreendida pela Polf-
cia Federal, desencadeando uma strie
de chcitos negatives que cle nito teria
conscguido center. Talvez tivesse lan-
g~ado miio de dinheiro que nito pode
report, ficando "a descoberto".
Um dos dois escritbtios da Caraj~s
C~mbio e Tulrismo Ltda., que servia de
matrizr, na movimentada galeria da As-
sembldia Paraense, no centro de
Bel~m, havia se transformado num
autin~tico "bunker". Bruno controlova
o ingresso de pessoas atrav~s de circui-
to interno de television, tinha me~canis-
mos de bloqueio das entradas e, ao al-
cance, armas como uma pistol 7.65 e
duas espingardas de repetiglio, calibre
12. Dispunha de segurangas, mas niio
levou ncnhum para a viagem do dia 10
de dezembro.
Antes de sair de casa, Bruno disse ao
motorist, Jonatas Portilho de Melo,
que sairia no Gol e nito no Santana
porque iria enfrentar uma estrada de
terra. Deu tamb~m o telefonema roti-
neiro a esposa, Milene Xerfan Haber
de Meira Matos, sobrinha do ex-prefei-
to de Belem e candidate ao governo do
Estado no ano passado, Sahid Xerfan,
que estava cm Silo Paulo desde o dia 4.
De um telefone ptiblico, de algum lugar
na estrada, Bruno ligou Ats 10 horas da
manhli instruindo um funcionsrio do


Liicio Flivio Pintoo


No 81


la Quinzena de janeiro de '1992






agentes policiais que informalmente
davam seguranga a "Nego Ramos", tra-
ficante de cocaine assassinado hd mais
de dois anos em meio a uma sdrie de
execug6cs sumbrias c "arquivamentos"
no mundo do crime. Descoberto com
os demais, Mauricio foi expulso da PF.
Vinha tentando assumir a seguranga de
Bruno.


AdultO neg6cio de
SUCeSso g apenas
fachada para o mundo
do crime.


Os clients cifrados de Bruno ti-
nham a caracteristica de circular cons-
tantemente e obter dinheiro ou
perde-lo com extrema facilidade. Izi-
dorio esteve cinco vezes em Leticia, o
cntro da cocaina na fronteira do Brasil
com a Coldmbia. Celso Gomes, auto-
declarado comerciante de pedras pre-
ciosas, foi preso comn grande quantida-
de de moeda falsa, adquirida na Bolf-
via, e pot trsfico de cocaina. Aparecia
com crescente frequencia na sede da
Carajds. Durantc todo o dia 10, Izido-
rio andou atrds de Bruno e do dinhei-
to dele, 100 mil ou 200 mil cruzeiros,
para enfrontar algumas dificuldades
imediatas, que facilmente poderia re-
por. Apesar do morar no modesto con-
junto da Cidade Nova, Izidorio com-
prou, em meados do ano passado, uma
fazenda de 300 hectares em Vizeu, na
estrada do Japiim, condrio das andan-
gas do p'istolciro Quintino Bira, c rota
de ouro. Perto da fazenda hB um cam-
po de pouso, construido pelo Exdrcito
c abandonado.

UMWA NOVA COLOMBIA?

Niio havendo uma pista segura dos
assassinos, hB uma profustio de linhas
pontilhadas entire o mundo dos neg6-
cios legals c o da criminalidade no
Para, onde ouro, drogas e roubo de car-
ros, alividades em conextio, estariam
movimentando entire dois c tres bilhoes
de d61ares anualmente, de quatro a
cinco vezes mais do que o faturamento
da maior empresa do Estado. Quanto a
cocaina, o Pard parecce estar sendo des-
tinado pelos cart~is organizados a sulbs-
tituir Rondonia, posta sob inedmoda
evidencia. Bruno Meira Matos seria o
mais exemplar desse novo tipo de rela-
clonamento, mas nao o umico. Haveria
at6 nomes mais notbrios do que o dele,
embora nilo tilo impetuosos. Em ape-
nas tres anos de funcionamento de sua


escritbrio a fazer contato com a agencia
do banco Bamerindus, na qual tinha
conta, para cobrir qualquer cheque que
fosse apresentado, mesmo se estivesse
no "vermelho", para evitar problems
com credores.
Ainda niio era uma hora da tarde
quando Bruno fez uma nova e rapida
ligagio, a cobrar, do telefone pbibico
do posto de combustiveis Yamaga, em
Santa Isabel do Pard. Disse para Jos6
Roberto que jQ estava de volta cem
mais meia hora chegaria ao escritdrio.
Ningutm sabe ou quem sabe prefer
niio falar o que aconteceu nas cinco
horas seguintes, at6 a morte de Bruno
1Meira Matos, bcm prdximo do local de
onde cle fez a 61tima ligagrio.

CRIME PERFEITO?

A versito corrente, de que ele foi a
Castanhal, teria uma explicagilo: ali
mora um de seus clients, Fernando
Takeshima, produtor e exportador de
pimeta-do-reino. Regularmente o mo-
torista de Bruno, Jonatas, ia a Casta-
nhal buscar cheque-ddlar. Mas 6 possl-
vel que as relafoes com Takeshima
constituissem parte da face legal das
atividades de Bruno, que operava com
exportadores. .
Se simplesmente tivesse ido conver-
sar com Takeshima, Bruno usaria o au-
tom~vel Santana. Recormcu ao Gol pa-
ra entrentar uma estrada de terra, cir-
cunst~ncia que fez a policia tentar
identificar alguma fazcnda na grea que
pudesse pertencer a algudm passivdl de
suspeigio. Um dos nomes arrolados te-
ria sido o de Domingos Rangel, minci-
ro de enriquecimento trlo rrdpido quan-
to o de Bruno, envolvido em negc~cios
tumultuados c obscures, e donor de
uma fazenda a pouco mais de 20
quil~metros de Castanhal, acessivel por
estrada de revestimento primbrio. Mas
contar Rangel haveria apenas eviden-
cias 16gicas e nenhumat prova.
Por enquanto, o crime 6 perfeito.
Tanta investigation permitiu apenas
desvendar o mundo oculto de Bruno
Meira Matos. Elc tinha transagoecs com
os prmesipais traficantes de cocalna co-
nhecidos em Bel~m, entre os quals co-
megavam a surgir colombianos c boli-
vianos. Todos eles trabalham em uma
rota que comega na ColOmbia c na
Bolivia, passa por Manaus, faz escala
em Belem (onde jB hB evidencias do


Ouro, droga e carro
roubado movimentam
US$ 3 milhdes no Pard.


surgimento dos primeiros laboratbrios
de refine da droga, um dos quais foi
"cstourado" pela policia algum tempo
atrds), prossegue para o Suriname c
toma dois rumos internacionais: um
para os Estados Unidos e CanadB, ou-
tro para a Europa.
A conextio curop~ia movimenta a
rota fazendo dep6sitos em d61ar e ou-
tras moedas na conta de Bruno Meira
Matos em Amsterdam, capital da Ho-
landa. G o que os especialistas chamam
de "d61ar-cabo", que sustenta as ope-
raF~es legals, a fachada que "lava" 0
dinheiro ilicito. Ele niio vem para o
Brasil: serve de lastro para os saques
que o operator faz em suas transagaics
regulares. f3 um tipo do atividade que
parece em acclerado crescimento em
Bel~m, onde neg6cios aparentemente
limpos se tornam proficuos apesar do
todas as evidencias contrdrias a esse re-
sultado. B o que explica empresbrios
ou comerciantes de sucesso com neg~-
cios sem movimento na superficie visi-
vel, mas enflados em tortuosas takzes
de profundidade.

O SUBMUNDO OCULTO
Essa escabrosa associac;io estava re-
gistrada emn um dos tres computadores
que Bruno tinha em sua loja na galeria
da Assembl~ia Paraense, ao qual s6 ele
e Jos6 Ricardo tinham acesso. Os clien-,
tes "limpos" cram registrados com scus
nomes completes, ao lado das (geral-
mente elevadas) quantias em ddlar nas
contas de deve e haven. Mas os trafican-
tes apareciam comn apelidos ou iniciais:
o "CA", por exemplo, era Carlos Ro-
herto Martins Alegria, prcso pela pojll-
cia no ano passado c mantido na grea
de seguranga maxima da Penitencidria
Fernando Gitilhon, em Americano.
Em seus registros, Bruno anotara
que Alegria lhe devia pouco mais de
108 mil d61ares, mas o prbprio Alegria
jB s6 admite US$ 80 mil porque cedeu
ao seu credor um terreno na avenida
Augusto Montenegro, onde pretendia -
at6 sor preso por tr~fico de cocaina -
instalar a boate Las Palmas.
Cinco dias antes do assassinate,
Alegria recebeu na penitencibria a visi-
ta de Izidorio Costa Izidio de Oliveira
Filho, outro integrante da lista de dtbi-
tos junto a Bruno, com 77 mil d61arcs.
O contato entire os dois traficantes foi
cstabele~cido pelo pr6prio Bruno, a pe-
dido de Alegria, que, mesmo por tr~s
dlas grades, avisou o parceiro que, exa-
tamente no dia 10, chegaria uma nova
partida de cocaina. Testemunha da
conversa foi o ex-agente da Policia Fe-
deral Jos6 Mauricio Nery da Costa.
Mauricio cra um dos "'sete samurais",





empresa de cdmbio e turismo, comn de-
rivagoes para um pequeno shopping c
'uma loja de modas, cle doixou aparecce-
rem sinais de scu enriquecimento, co-
mo uma bela mansio, um padrio de vi-
da faustoso e constantes viagens ao ex-
terior, sobretudo os Estados Unidos.
Mas desvendar seu assassinate serd
tarefa tio ingldria quanto medir a pro-
fundidade da incontestivel penetragno
do n~arcotrifico no mundo dos neg6cios
e na assim declarada "melhor socieda-
de" de Bel~m. Mesmo sem ser consu-
midor de drogas, pelas quais tinha
aversio, Bruno se envolveu com alguns
dos mais perigosos personagens do
mundo do crime, langando sobre sua
familia, antes e apbs sua mortc, uma
mancha de lama e, atC, de suspoigio.
O pai, o secretsrio de Interior e Jus-
tiga do Estado, Adherbal Meira Matos,
fez questio, ainda durantc o veldrio, de
exigir que a policia investigasse a fundo
e revelasse tudo o que descobrisse. Na
prdtica, por~m, a familia nao tem aju-
dado a apuragio, uma attitude que ali-
menta os mais diferentes boatos e de-
dugoes de fats que podem ser vistos
por v~rios Angulos. Como a visit do


pr~iprio secrethrio A Penitencidria Fer-
nando Guilhon, poucos mcses anies do
crime, que acahou levando a um encon-
tro de Adherbal com o traficante Ale-
gria. O secretbrio foi exigindo a abertu-
ra de todas as celas que la encontrando
no percurso at6 que uma delas, a filti-
ma, foi a de Alegria. Nada conversaram
em particular, mas Alegria disse a al-
guns interlocutores que ja. conhecia o,
secret~rio. Izidorio garantiu ter levado
um pacote de francs franceses que
Bruno mandou para o pai, que estava
no Rio de Janciro.

Ha poucas dbvidas de que a familiar
sabia das complicagbes de Bruno, cujo
marco foi a organization de um assalto
Ai casa do pr6prio tio, o procurador re-
gional da Reptiblica, Paulo Meira, que
resultou na capture de ouro, j6ias e d6-
lar, recuperados posteriormente pela
Policia Federal, acionada com o argu-
mento de que entire os objetos rouba-
dos estava um rev61ver do patrimonio
da Procuradoria da Reptiblica. Bruno
foi preso juntamente com o cunhado,
Gustavo Haber, mas ambos acabaram
soltos porque Sahid Xerfan assumiu a


responsabilidade pela total indenizagio
de Paulo Meira.
A partir desse memento o ramo da
familia de Adherbal se distancion dos
outros Meira, mas tambem Bruno foi
na dirego dos Haber e ficou quase sem
contato com seus parents, recolocados
em situacio extremamente dificil pelo
impact traumitico do assassinate. P'e-
la notoriedade dos personagens envol-
vidos, a histdria apareceu momenta-
neamente nas psginas de "A Provincia
do Pard" e do "DiBrio do Pard", mas s6
mereceu um discretissimo registro em
"O Liberal" tr~s dias depois do crime.
Apesar disso, ela parece servir de ad-
vertencia para uma comparaqio feita
com constbncia cada vez maior por um
pequeno punhado de gente que sabe
das "coisas", mas as guar6da para si: o
Prar esta se: transformando numa nova
Colombia. O tamanho fisico dos dois 6
praticamente o mesmo. E as extens~es,
sobretudo as que sio mantidas g
distancia do conhecimnento ptiblico,
estrio sendo conectadas. A homogenei-
zagio, se nenhuma providefncia for ado-
tada, sera apenas question de tempo.
Quem conseguir viver, verd.


der respeitar compromissos 6 algo
incbmodo demais para que, vendo
avolumarem-se os problemnas, eu
decide poupar-me e aos mens
leitores fieis da inadimpl~ncia'
Espero que os' leitores, atraldos
para a leitura deste journal pela
comodidade da assinatura, nio
decidam abandond-lo simples-
mente por ele n~io chegar mais As
suas miios, entregue a domicflio.
Se seu leitor niio 6 capaz de ir h
banca on divulgar a publicapio
para ampliar seu universe de al-
cance, entlio o projeto de um jor-
nal como o JP niio val.e a pena.
A f~cil colocar na propaganda
que o journal tem o rabo preso
com o leitor, sem que essa rela-
Sdo constitua mais do que frase
de efeito. Outra coisa 6 viver de
fato tal situagio.
]De minha parte, acho ter al-
caugado o limited das mlnhas pos-
sibilidades de resistencia neste
empreendimento. Ir albm, como
vem alertando minha crescente-
mente debilitada condigio ffsica,
significa sacrificar uma vida em
torno de um projeto vital, sim,
mas que a realidade diz ser ontri-
co. Sonhar 6 precise, mas nito se
pode viver apenas de sonhos se
hd um outro plano na vida e
que 6 obrigaglio de todos os dias,
prosaica retina da qual nio temos


a direito (ou o privilegio) de fu-
gir.
Este journal seria absolutamente
desnecess~rio, nem precisaria
consumer minhas limitadas forgas,
se a imprensa desempenhasse o
elementary de sua funglio de in-
formagio numa regilo na qual se
desenrola uma histdria com a
dramaticidade da aventura ama-
z6nica. A omissrio da imprensa 4,
aqui, crimninosa. Mas nio vamos
ficar apenas no plano institucio-
rial. O desinteresse da esmagado-
ra maioria dos jornalistas por es-
se enredo 6 inacreditgvel: eles
t~nm ao alcance das mios o que de
melhor thes pode oferecer a te-
m~tica contemporfnnea e, ,no
entanmto, a desprezam, alegando
uma porglio de motives injustifi-
c~veis. Quemn sabe o que ests
acontecendo e tem conscibncia de
seu carter na histdria niio conse-
gue sair da linha de frente, do
desgastante dia a dia que, para
certo tipo de personagem, sacrifi-
ca suas melhores possibilidaides
pessonis. fE por isso que talvez
esteja chegando o memento em
que um projeto como este atinge
seu ponto de tensilo miximno, para
reviver ou morter. A resposta a
este impasse deixa, entlio, de ser
singular, como tem sido a vida
deste JOaRNAlL PIESSOALE.


P~aro moffer

OU 0908scef

Sestlio suspensas as assinaturased ia o ms p s a
do JOURNAL IPESSOAL. Novas
assinaturas ou a renovagio das ji
existentes serio feitas apenas pa-
ra fora do Pard,. O journal voltard
inteiramente is bancas, como no
reinfcio desta fase. A decisito,
que contraria minhas intengijes
originals, de buscar o miximo
possfvel de assinaturas (na pri-
meira fase o JP chegou a ter mais
de 1.300 assinantes pagos), re-
flete as dificuldades que sufocam
uma publicaCgo independent co-
mo esta. Espero que todos os
compromissos assumidos com os
atuais assinantes sejam cumpri-
dos, com a remessa dos ndmeros
do jornale a que tem direito, mas
nito quero ir al6m do que ja: est&
comprometido.
No caso do "Bandeira 3", que
fez uma campanha pr~via de assi-
naturas mas ficon no ndmero ze-
ro, devolvi os valores pagos -
com uma confianga comovedora -
por todos os assinantes, alguns
dos quais nem comn isso se im-
portaram. Acharam que o inves-
timento, coletivizado por obra do
acaso, foi bem feito. Mas nito po-






EMWPRIESAS



A~s casas da mn~e Joana


As empresas pdblicas tem
muito pouco a ver comn o pd-
Ablico: na prbtica, elas se tor-
naram um instrument manipula-
Ido pelos chefes do poder executi-
vo. As prerrogativas desse poder
labsolutista estlio na origem dos
diffceis problems enfrentados
atualmente (e, no que parece,
desde suas origens) pela Centrais
ElBtricas do Pard e pelo Banco do
Estado do ParB, duas das maiores
empresas pdblicas paraenses.
A Celpa comprometeu mais de
30% de sea capital com d6bitos
junto a dois empreiteirose e en-
contra-se em situagio desfavord-
vel para resolver o problema por
causal das interifer~ncias de dois
governadores. A histdria comegou
quando Jader Barbalho, na sua
primeira gestlio, imp6s um prazo
extremamente curto para que a
empresa, em 18 meses, construis-
se a maior linha de transmission
de energia de toda a sua histdria,
entire o sul e o sudeste do Estado.
A linha deveria ser inaugurada
a tempo de render votos para o
candidate de Jader g sua suces-
srio, Hdlio Gueiros.
A obra at6 poderia ser conside-
rada prioritbria, mas o prazo
apertado facilitou a prdtica de
certas irregularidades e deu aos
empreiteiros pretextos para one-
rar o custo final. Quando as difi-
culdades da economic national
bloquearam o esquema montado
galra financial a obra (sempre
atravts dos emprciteiros, que to-
mavam os empr~stimos e os diri-
giam para seus prdprios seI i-
gos), a president da empresa,
sem consulter formalmente o con-
selho de administra~go antes de
tomar a decislio, como seria sua
obrigagio legal, reconheccu o
valor da dfyida.
N~o haveria maiores complica-
g6es se o entendimento entire o
governador que deixara o cargo e
o que o assumira se tivesse man-
tido. O president da Celpa no
infcio do governor H61io Gueiros
havia sido o secretsrio da Fazen-
da no primeiro governo Jader
Barbalho. Roberto Ferreira tinha
todos os motives para achar que o
conselho de adinistraglio ref'erbn-


nunciar as fraudes anteriormente
cometidas ou em sanar atos irre-
gulares. Tudo seria ignorado em
favor do objetivo maior: resolver
o problema da dfyida dos em-
preiteiros.
Quando a denducia se tornou
pdblica atrav6s do JORNAL
.PESSOAL e repercutiu no legis-
lativo, todos os detalhes legals e
formats foram lembrados e a dis-
cussilo esquentou. Na semnana
passada, com base em parecer da
Consultoria Geral do Estado, o
governor decidiu restabelecer a
negociagio com os empreiteiros,
anunciando o saneamento do pro-
cesso, para evitar uma execu~go
judicial desastrosa contra a Cel-
pa, que jB perdeu uma das duas
ag~es apresentadas contra ela.
Mas como a histllria permanence
ainda obscura, inclusive quanto
ao valor da dfyida, 6S de elementary
cautela que o governor nio efetue
qualquer pagamento sem um
acompanhamnento e aprovagio -
do legislative, que se propde a
criar uma CPI para investigar a
question, e, se possfvel, tamb~m
do Minist~rio Pdblico.
A inesma facilidade que tem o
governador de passar por cima
dos colegiados e atropelar as
normas internal para fazer valer a
sua vontade levou B crise o Ban-
par8. Como fez em relagilo g Cel-
pa chg Emater (a empresa estadual
encarregada da assist~ncia tdeni-
ca e da extensio rural), o gover-
nador H61io Gueiros autorizou a
diretoria do banco a fazer con-
tratag8es sem a realizagio da ne-
cess~ria licitagio pdblica, despa-
chando pedidos do president
como se fosse n6o sendo legal-
mente a inst~ncia competent
para a decisito. Essas situagdes
estito sendo apuradas atrav~s de
inqu~ritos, de condu~glo mais
lenta do que o atual governor
gostaria.
Mas uma outra questlo foi sen-
do protelada pela diretoria que
assumiu juntamente comn a volta
de Jader Barbalho no poder. O
governador nunca escondeu sua
insatisfaglio com o parecer do au-
dilor independent das contas do
BanparB, a Campligia, de Stio


daria pacificamente o. termo de
confiss~o de dfyida que assinara
com os emprei'teiros. Mas a har-
monia entire H61io e Jader se
mantinha apenas na fachada, para
consume externo. Roberto F~errei-
ra foi demitido antes que a ata da
reuniio na qual o conselho apro-
you seu ato solitbrio fosse ofi-
cializada. Havia a minute pronta,
at6 com assinaturas de conselhei-
ros na primeira pggina, mas ela
foi totalmente modificada por
exig~ncia do entio governador
H61io Gueiros. Conselheiros que
haviam aprovado o ato do presi-
dente anterior, com a mudanga
alteraram tambem seu voto.
Roberto Ferreira, naturalmente,
se recuson a assinar a "nova"
ata, de conteddo fraudado. Mas,
no inv~s de fazer um protest pd-
blico on adotar procedimentos ju-
diciais para resguardar sua posi-
glSio, simplesmente preferiu sumir
com o livro de atas. De sua parte,
ao long de tras mess, a nova
diretoria da Celpa, acatando inte-
gralmente as ordens do governa-
dor, foi modificando a posiglio do
conselho atd faz8-lo rejeitar a de-
cisio adotada anteriormente. Ne-
nhuma dessas atas, entretanto, foi
registrada na Junta Comercial ou
publicada no Didrio Oficial,
Equivocadamente, a diretoria da
Celpa achou que as decis~es nto
afetavam interesses de terceiros
e, por isso, alio precisavam ser
oficializadas, bastando que
constassem do livro prdprio (este,
devidamente registrado),
Com a volta de Jader Barbalho
ao governo, Roberto Ferreira
reassumiu a secretaria da Fazen-
da. Gragas a esse cargo, foi para
o conselho de administra~gio da
Celpa, onde pbde aprovar o reinf-
cio dos entendimentos para que o
governor do Estado assumisse em
nome da empresa, completamente
descapitalizada para desempenhar
essa funglo, o pagamento dos
empreiteiros conforme o termo de
confissio de dfyida assinado pelo
prdprio Ferreira. Atd o memento
em que o assunto permaneceu &
margem do conhecimento da opi-
nitio pdblica, a nova diretoria da
Celpa niio se interessou em de-






Paulo. Jader dispunha de infor-
mag6es sobre irregularidades nes-
sas contas, a principal das quais
foi a transformagio artificial de
prejufzo real (de 300 milh6es de
cruzeiros) em lucr fictfcio (de
900 milhdes). A nova equipe
achava que a Campiglia havia si-
do, no minimo, omissa ao dar sua
aprovagi-o comn ressalvas a priti-
cas que deveriam ser condenadas.
Apesar de todas as pressbes
feitas no sentido de uma revisio
do balango e para providencias
em rela~go a auditagem externa, a
diretoria do Banpard nada fez.
Sua inagIo tornou-se crftica
quando a Campiglia venceu a
concorr~ncia pdblica aberta pelo


Estado para a auditagem de suas
contas desde 1983 relatives ao
endividamento externo e gs obras
da rodovia PA-150. A temperatu-
ra se elevou tanto que Albudio
Melo Jdnior alegou motives de
sadde para pedir demissio da pre-
sidencia do banco e Luiz Watrin
disse preferix voltar ao Banco
Central e deixar a diretoria finan-
ceira do Banpard. Os atos foram
consumados na semana passada,
mas desencadearam um clima de
tensa expectativa no banco esta-
dual por causa da indica~go dos
sucessores. O deputado Aluisio
Augusto Chaves, um dos presi-
dentes na gestio H61io Gueiros,
aderiu recentemente ao PMDB,


deixando o PTB, que liderou a
cohigagio prd-Xerfan, na dltima
eleigio, c poderia ter influencia
na volta de sua equipe aos cargos
de diregio.
Essa mondnotona e onerosa
gangorra de interesses, que amea-
ga a integridade ttcnica e a sadde
linanceira das empresas pdblicas,
sd do~ixar8 de ser desequilibrada,
pendendo sempre para o lado da
vontade do governador de plan-
tiio, se tais empresas passarem a
ser realmente pdblicas. Isto 6, a
servigo do pdblico, prestando-1he
contas e seguindo a orienta~go de
seas legftimos representantes. Por
enquanto, mais do que utopia,
este ideal 6~ ilusio.


CELPA


P ra todos os interlocutores e
para o pdblico, o ex e nova-
mente atual secret~rio da Fazen-
da, Roberto Ferreira, nega ter fi-
cado com o Livro de atas da Cen-
trais E16tricas do Pard, que presi-
diu no infcio da administration
H61io Gueiros. Mas em dezembro
de 1989 o motorists do director de
transmissilo foi ao prtdio onde
Roberto moral e entregou-lhe dois
livros. O menor era o livro de
presenga, que ele devolveu, sem
assinar. O outro, maior, era o de
atas, que ele reteve. Roberto n~io
devolveu o livro mesmo quando a
nova diretoria da Celpa lhe en-
viou duas carts com aviso de re-
cepglio, assinadas pelo porteiro
do pr6dio, que fica na mua Mlun-
durucus.

O livro continha atas de feve-
reiro de 1987 a outubro de 1989.
Roberto Ferreira foi demitido da


presid~ncia da Celpa em agosto
de 1989, mas sd tr~s mess de-
pois foram inscritas no livro as
atas de maio, junho e julho, que
ele necessariamente teria que re-
ferendar. Na de junho constava a
aprovagio ao termno de confissso
de dfyida com os empreiteirds
pelo conselho do administration,
que a governador H1lio Gueiros
mandou mudar. Segundo um ad-
vogado, Ferreira poderia, se qui-
sesse, simplesmente escrever no
livro de preferbncia com tinta
vermelha, para dar maior desta-
que que a ata expressava uma
fraude. Ou ajuizar uma a~go con-
tra aquela falsidade. Ou divulgar
publicamento um protest. Nada
disso ele fez. Sua attitude sd teria
uma explicaglio: o que interessa-
va, acima de tudo, era manter a
confissio de dfyida tal como ele a
assinara. Talvez para que, no fu-
turo, ela fosse retomada integral-


mente. Neste particular, a capaci-
dade de antevisio do ex e outra
vez secret~rio foi prof~tica.

Sua estrat~gia acabou bem su-
cedida porque seus sucessores
tambem nlo estavam interessados
em esclarecer a situag~io e resol-
ve-la convenientemnente. A direto-
ria da Celpa limitou-se a cobrar a
devolugio do livro, achando que
a alteragio no conteddo da ata de
junho de 1989 dera seus frutos.
Sd em mnargo de 1991, is v~spe-
ras do fimn da administrag8o H61io
Gueiros, funciondrios foramn cha-
mados is pressas para escrever
atas.atrasadas de dois anos e um
edital publicado no Didrio Ofi-
cial, registrando o extravio do li-
vro, por cujo reaparecimento nin-
gu~m mais tinha esperangas. E
assim se desearolam histdrias que
jamais serio convenientemente
registradas.


Mundial para a Natureza),nqat W Fno
Euma das entidades ambienta-
listas mais influentes do mundo,
the concedia um premio por sua
atuagio na defesa da Amaz~nia,
Mary Alegretti recebia, em Be-
16m, no final do ano passado, um
dos mais violentos ataques jB so-
fridos atd agora por qualquer mi-


litante ecoldglco. O duro 'mani-
festo contra a mais fntima amiga
do Ifder seringueiro Chico MWen-
des foi subscrito por 17 organiza-
gBes paraenses, apenas uma delas
mnais conhecida, a Sopren, co-
mandada pelo medico Camilo
Vianna, vice-reitor da Universi-
dade Federal doe Pard.
O document dispara contra


Alegretti uma acusagiio grave:
"Essa modern pirata e saqueado-
ra da Amazbnia, por sua insen-
satez e auddcia, em pouco tempo
jB contribuiu para intensificar a
violtncia na Amaz~nia, sacrifi-
cando Chico Mendes para mer-
cantilizar em nome dessa vitima
vantagens pessonis, prestfgio e
justificar uma ideia perigosa de


O r .
masteno de um vro


POL MICA



.~ Ofisiiloog ismo ecolog ico






reserves extrativistas".
Racioclnios semelhantes cir-
culam ha algum tempo pelo setor,
mas nunca antes haviam sai'do dos
bastidores. Principal base de Chi-
co Mendes foray do Acre, Miary
Alegrett~i apoiou o movimento dos
seringueiros desde o infcio. Para
sustentar o projeto das reserves
extrativistas, criou o Instituto de
Estudos Amaz~nicos (IEA), com
sede em Curitiba, no Parand. A
associnglio de seu nome ao de
Chico Mendes abriu-lhe as portas
de instituigbes em todo o mundo,
deu-lhe prestfgio e a tornou pre-
miada. Mas alguns militants
$cham q~ue todos esses efeitos slo
artificiais e sd foram produzi-
dos pela morte do 1ider sernaguei-
ro, mais important morto do que
vivo*
O manifesto contra Alegretti
tem duas dimensbes. Revela o
ambiente de competitividade e
agressividade entre diversas ON-
Os (Organizag6es Ngo-Governa-
mentais), estado de espfrito que
cada vez mais se acirra com a
aproximagio da conferencia da
ONU sobre desenvolvimento e
meio ambiente, que se realizard
em junho do prdximo ano, no Rio
de Janeiro. A opiniio pdblica
acha apenas que cada ONG esta
atrds de destaque e aprovagio pa-
ra seu trabalho, uma concorr~ncia
de iddias. Mas o manifesto deixa
bem claro que am dos alvos visa-
dos d o dinheiro: espera-se que os
c~us se abram e derramem um
mango de "verdinhas" sobre a ari-
dez financeira do Brasil, aduban-
do bolsos necessitados -
HA, como diz o documaento,
uma "onda fisioldgica", quae sd
serviria para beneficiary "um gru-
po de aventureiros chamados
ecologistas e burocratas, os no-
vos pirates saqueadores da Ama-
zbnia". Apesar dos pesados ad-
jetivos que utilize, o manifesto
n~io chega a exibir prova alguma
contra a, "tentativa maquiav61ica
e criminosa" de Alegretti. Sem it
tio long, os subscritores do pa-
pel poderiam enconatrar no Pard
mesmo exemplos de picaretagem
ecoldgica, praticada por Ifderes
de entidades fantasmas que, res-
paldados no m~gico nome da
Amaz~nia, tim conseguido arran-
car dinheiro de europeus para
projetos mais do qlue suspeitos.
Alegretti foi escolhida patra vt-
tima, entire tantas possfveis, cul-


padas de fato ou inocentes, por
ser de fora da Amaz~nia. Foi o
que pretendeu dizer o vice-presi-
dente do IEA, Augusto C~sar Pa-
yet, reagindo no "discurso xend-
fobo -e separatists". No entanto,
embora possa carregar esse duplo
preconceito, algumas das ques-
tdes suscitadas pelo document
merecem esclarecimento, mesmo
se mal postas num papel artifi-
cialmente incendidrio.
IE ineg~vel que o martf~rio de
Chico Mendes superdimensionou
a questio dos seringueiros. Mloti-
vo de dois "best-seller-s" recen-
tes, escritos por jornalistas ame-
ricanos, ela passou a ser vista
como pedra de toque do future,
atravts de reservas que procura-
iiam recriar as condig6es origi-
nais da relagio entire o home a
natureza. Isto sd 6 possfvel em
autbnticos parafsos, pequenas e
inexpressivas experiencias que
vem sendo mantidas gragas a sub-
sfdios internacionais, servindo,
por sua vez, de fachada para
"folders" coloridos de relagdes
pdblicas dessas instituigBes. En-
quanto isso, as frentes econdmi-
cas avangam selvagemente sobre
novas fropnteiras e sua principal
vftima, os trabalhadores rurais,
sio esquecidos sob o "glamour"
atriburdo aos seringueiros, uma
das menores minorias sociais da
regiio, condenada g insolvencia
se as fdrmulas salvacionistas
criadas em ingles continuarem a
ser vendidas como a thbua da sal.
vagio.
Deve ter algum significado que
tais organizag~es hajam se mobi-
lizado para dar importfincia inter-
nacional ao assassinate de um If-
der seringueiro, categoria que na
mais exagerada das estimativas
pode envolver 300 mil pessoas,
enquanto passaram ao largo de
crimes que atingiram outros Ifde-
res do mundo rural. Isto pode at6
estar ligado a oportunismo, mras
daf a acusar Alegretti de, comn seu
movimento em torno de Chico
Mendes, ter contribufdo para in-
tensificar a violencia no interior
da Amaz~nia, vai uma distlncia
que despeja o objetivo para a
vala comum do despropdsito on
da mB inteng~io. A feroz famfia
de imigrantes do Parand estabele-
cida ema Xapuri mataria Chico
LNMendes com on sem Alegretti.
Alids, se Darly pudesse ver al~m
de sua limitada perspective,


muito dtil para r~us que nio fo-
ram colocados no banco de jul-
gamento (inclusive por limita~gio
estritamente t6cnica), nio teria
mandado o filho matar a serin-
gueiro. Certamente nio estaria na
cela de prisio, onde ainda se en-
contra, mesmo com todos os pri-
vildgios concedidos.
Se falta razio 8 Sopren e asso-
ciadas para a acusagilo, tamb~m
s~io elas carentes de legitimidade
no caso, no menos por nio o te-
rem ttatado na extension e profun-
didade que ele reqauer. At6 apare-
cer ht frente do document, a en-
tidade defendia o extrativismo e
se omitia em relagio ao drama
sobre o qual agora pede atengio.
E contra a lei que impera na
"selva selvaggia", a do 38, falar
em idflios ecoldgicos nio 6 sd
oportunismo: 6 crime tamb~m.

A sucessho

ogo depois da reinauguraqio do
Memorial daCabanagem, no dia 22
f9sde dezemnbro, o governador Jader
Barbalho convidou o prefeito Augusto
Rezende para jantar na Granja do Icuf.
Rezendq~que comparecera A solenidade,
de responsabilidade do Estado, ediscur-
sara elogiando a inmiciativa, foi. As teste-
munhas resistem a revelar so a sucess~o
na carpital paracnse f~oi o prato forte do
carddpio. Preferem it direto B sobrcem-
sa.
Lopo de Castro Jr. nio 6 o cabega nas
pesquisa de opinion qfue vem vendo fei-
tas para avaliar a popularidade dos can-
didatos B Prefeitura Municipal de
Bel~m. Mas como temn ficado entire o
segundo e o terceiro lugares, tornou-se
o primeiro em volume de propaganda
cleitoral. Manda canietas, bolas, cartei-
ras de identificago, calend~rio e mate-
rial de divulgapo para supostos
eleitores. ]Pelo menos na fase de pr6-
aquecimento, est8 na frente.

A obsessio
fbusca da originalidade (pela
~i8originalidade) tem sido obses-
siva em Fernando Collor de Mel-
lo. Os presidents anteriores a ele
costumavam despachar seus off-
cios comn um prosaico "aprovo".
JA Collor se mnanifestou sobre a
exposigio de motives relativa as
diretrizes para a A~maz~nia, lide-
rada pelo ministry Mardlio Mar-
ques M\/oreira, escrevendo "Sim".
Um estilo original e amnbfguo pa-
rece ser a masrca do president
das Alagoas.






Ele diz que am grupo de tra-
balho integrado por representan-
tes da Eletrobrds, Petrobrds, ~le-
tronorte e as concessiondrias es-
taduais de energia no Amazonas,
Acre e Ronddnia, onde poderio
ser instaladas as usinas, ir8 ava-
liar o uso integrado do gds com
as hidrclbtricas da regitio: "em
scu plancjamento de curto e md-
dio prazos, a EletrobrBs e a E10-
tronorte devertio considerar a im-
plarnta~gio do projeto de geragilo
t~rmica a gds associado a cons-
truglio das hidrel~tricas de Portci.
ra e Ji-Parand, sem prejufzo do
prosseguimnento das providencias
referentes & alternativa hidrelCtri-
ca at6 a decision final", informa o
telex de Armando Aradjo.
A princfpio so imaginava que a
simples admission da alternative
do g as natural c xcluiria o project
das duas hiidreldtricas, recebidas
com reserves ou crfticas diretas
por vdrios grupos de opiniiio.
M~as niio apenas prosseguem as
provid~ncias visando Cachoeira
Porteira, no Trombetas, como Ji-
Parand, em Rond6nia, at6 uma
decision sobre o uso do gds, co-
mo, se esta alternative for aceita,
ela tera que ser associada as duas
polemicas usinas. iMais ainda: so
adotada a nova opglio, o gas serb
liquefeito na origem e sd assim
transportado, o que eliminaria a
construgho de um gasodato e
afetaria o plano de implantar um
novo polo petroqufmico no Ama-
zonas.
Espera-se, diante destas infor-
magdes, que a opinitio pdblica
nito permita que a decislio seja
exclusive competencia do um
grupo t~cnico, como tem ocorrido
quase semprc na Amaz~nia, com
os resultados que se conhece e,
frequenementoe, sc lamenta.

Um~ falso

d ilema a


graga. Para muitas, a indc-
pendencia foi conquista sangren-
ta, alCm de oncrosa financeiramente. Os
amazinidas allo devem ter d 6vida de que
vivem numa regigo colonizada, em scu
mais amplo sentido e mais Iprofunda
conseqll6ncia.. HAB alguns sof~ismas a res-
pcito. Brasfiiandiz qucos retornos tribu-
thrios c de caipitali paran a regillo excedem
as remessas que faz e as contribuigies
qIue priest no pais. A verdade. Mlas o


reinvestimecnto 16m destino certo: os
grande projetos, que vem multiplicando
at gergFio de mlooda forte na regillo. Nec-
nhuma no pals registrou semelhantc au-
mento de sues trocas comn o exterior. O
reinvestimen~to nrio tem traduglio social:
cle 6 monopolizado pelos grandes em-
preendimentos, que vinculam a regitio a
mercados externos, deixando-lhe um
amp'lo deficit social. Todos os utimeros
lidos com inteligencia mostramn esse
quadro.

Sc o Sul preconceituoso vorla a pro-
por o desmembramento do Brasil, o
Norte dcycria aproveitar para pensar
melhor sobre a these, ao inv~s de rejcit8-
la liminarmentc por vazios argumientos
patri6ticos. Ao monos para efeito tdti-
co, ou estrat~gico, conviria ipensar em
como seria a Amaz~nia separada do Bra-
sil, niio a Amaz~nia Legal, conceito que
a regitio deve comegatr a repudiar de vez,
mas o Norte cldssico, delimitado pela
bacia do rio Amazonas c a H~il~ia.

Os que defendem a manultenglo do
"statusqyuo" federtivo apontamoea xem-
plo da extinta Unitio Sovidtica como uam
descstimulo ao separatism~o, mas a reali-
dade 6 justamente o contrdrio: 0 Brasil
alo patdece das caracteristicas explosivas
do cumpulsivo unitarismo sovi~tico. Po-
deria former uma nova organizagno po-
Iltica sem chegar ao dilaceramento da
confederaglio que substituiu a URSS,
mas tamb~m semn permlncecr nesse fe-
derativismo centralizado c sugador.

Pensar niio d6i, nem faz: mal. O que a
Amazonia tem a perder, jB perdeu.





Pefegrin~a9RO

viabilizarilo da candcidatura de
ge H61io Guciros B prefcitura de Be-
6~~lm ser8 mais dificil at6 do que
poderia imaginar o ex- governadopr. Em
primeciro lugar, hd a amrcaga de cle se
tornar inclegivcl, comn a rejoigio de sua
prestacio de contas de 1989 e a possibi-
lidade de se repetir a condenagio em
relagIo as contas de 1990 c o trimestre
qune 6 de sua responsabilidade emn 1991.
O PTS3 do prefeito Augusto Rezende vai
sutilmentc fechando a porta para o alia-
do de 1990. O vice-governador Carlos
Santos conseguiu fincar sua base no PST
e dificilmente serd batido. O grupo Libe-
ral parece cada vez menos disposto a
uma a!!anga. O ex- governador vai preci-
sar, assimr, percorror o caminho das pe-
dras aanes de chegar a raia clitoral.


Re~sposta




Ofurioso ao scr informado, na so-
mana passadla, sobrc as declara-
FC~es do mecdnico C6;zar Luis Camargo,
hojc a principal testemunha do inqudri-
to que aputa o assassinate do senador
Olavo Pires, morto no centro de Porto
Velho durantc a campanha elcitoral de
1990. C~zar trabalhava nas cmpresas de
mineracio da familia Rambclo e de scus
s6cios no narcottifico, usadas para "la.
var" o dinheiro do negc~cio Ilegal. O de-
putado Jabcs Rabelo 6 apontado pelo
mecdnico como um dos organizadores
do atentado, executado por pistoleiros
saidos do garimpo Castelo dos Santos,
controlado no Pard por Mdrcio Martins
da Costa, scu irmlio Miron e Migucl Vil-
laverde.
C~zar diz que o entito ministro da
Previdencia Social esteve duas vezes na
sede das cmpresas de mineraglio do gru-
po, em Porto Velho. Eram tamb~m fre.
quentadores o atual deputado estadual
Vilmar Freire e seu pai, Wirland F~reire,
o home mais poderoso do vale do Ta-
paj~s, responsivel pelo suprimento de
combustivel aos garimpos. Wirland foi
tamb~m o principal financiador da cam-
panha clitoral do PMDB na regido.

O governador garantcqyue aversto de
C~zar Camargo 6 absurda e delirante,
negando qualquer tipo de envolvimento
com os Rabelos e associado, on visit As
empresas do grupo. Jader prolmete des-
mentir comn fats o que considera uma
caldinia. Seu objetivo parece ser o de
investir contra a quadrilha de Mdrcio e
Miron no Castelo dos Sonhos, hoje
transformado numa zonaliivre de bandi.
tagem na divisa do Pard comn Mato Gros-
so.

As opgao

dlo g a~s
Apossibilidade de o governor
iniciar a implantagilo de um
sistema de geragilo trmiica B base
de ggs natural na Amaz~nia nito o
impedird de prosseguir o progra-
ma hidreldtrico, ao menos en-
quanto nito tiver tornado uma de-
cislio final sobre as duas alterna-
tivas, O que deverd ocorrer at6
meados dleste ano. B o que in for-
nm o secret~rio national de ener-
gia, Armando Ribeiro de Aradjo,
em telex enviado ao JORNAL
PESSOAL no final do ano passa-
do.













sculs membros mais capazes mi-
gram para fora da regilio? HA If-
deres de grapos de pesquisa
ameagados de ficar sem seus au-
xiliares porque at6 bolsas deini-
ciag~io cientifica para alunos tem
sido suspensas. Todos se voltam
para o exterior, na esperanga de
que as luzes da Eco-92, por re-
flexo, iluminemn o final do long
e negro tdnel, mas at6 isso pode
se revelar, na apuragilo de tanta
propaganda, nada mais do que
miragem.


A pirimeira

COmapos~ico

governador Jader Barbalho e o
grupo Liberal, inimigos figadais,
acabaram compelidos a um pri-
meiro acordo. Rominho Maiorana ar-
mou um estratagema para colocar seu
amigo C~ssio Alves Albulquerque, se-
cretbrio do late Clube, na diregio local
do Dentel, o departamento do Mlinist6-
rio da Infra-Estrutra que controla as
cmissoras de radio e televislo (logo, um
setor estrat~gico para o Grupo Liberal).
Rominho chamou umn grupo de parla-
mentares federal c os estimulou a pro-
curamcm o minister da Justiga, Jarbas
Passarinrha, para pedir-lhe a indicagi~o
de C~ssio para o Dentel, sem revelar a
origem da inspiragio.
Passarinho aprovou e a nomeagio
saiu antes que o governador Jader Bar-
balho, donor do segundo grupo de comu-
nicafio do Estado, pudesse fazer
qualquer coisa. Cientificado da mano-
bra, Passarin.'!n io voltou atrds,msas fez
sentir scu desagrado. Cgssio, ameag~ado
de ficar no fogo cruzado, fez uma visit
conciliadora ao governador, que teve
uma compensa~gio: p~de indicar o dlire-
tor administrative do Dentel, um rarissi-
mo territdrio dopoder no qual convivem
representanes de Jadercedos Maiorana.



Ornaal P~essoal
Editor responsilvel: Liicio Fl6vio Pinto
flustragiko: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone: 223-1929
Opgao Editoral


m seu quinquenio como pre-
sidente da Repdblica, Fer-
Enando Collor de Mello pro-
mete comandar o process de
transiglio da Amaz~nia para o
"desenvolvimento sustentdvel", o
"ddrnier-cri" em mat~ria do jar-
glio no mercado das iddias. O
compromisso estb assuamido, com
todas as letras, nas "Diretrizes
para uma polftica de desenvolvi-
mento da Amaz~nia", um docu-
mento singelo que o president
oficializou no dia 15 de novem-
bro do ano passado e que a opi-
nito pdblica ignorou, apesar da
ocorrencia em data festiva. A im-
prensa nito foi aidm do registro
apressado e 6 pouco provivel que
o ndmero dos leitores do docu-
mento tenha ido' altm de algumas
dezenas.
Haveria o que destacar c co-
mentar nas diretrizes, produzidas
por umn ministtdrio (o da Econo-
mia) e tr~s secretaries presiden-
ciais (de Assuntos Estrat~gicos,
do Desenvolvimento Regional c
do Moio Ambiente). Elas se recu-
sam a endossar a transforma~gio
da Amaz~nia em "santu~rio eco-
Idgico", mas tamb~m negam que
a regitio deva ser "um simples
objeto de ocupaglio econ6mica
acelerada e tecnologicamente
inadequada".
Para o governo Collor, alcan-
gar o desenvolvimento sustenti-
vel requer "ampliar o conceito de
balango de custos e beneffcios,
incluindo equidade social, maior
efici~acia tecnoldgica dos pro-
cessos produtivos e conservagio
dos recursos naturals, respeitando
os valores culturais das popula-
g6es locals". Esse nirvana seria
atingido atrav6s de quatro polfti-
cas regionais, capazes de "per-
meaer o conjunto das atividades 0
investimentos na Amazonia" a
ambiental, a espacial, a sdcio-
antropoldgica e a institutional.
Muitos stores da sociedade
que costumam jogar pedras no
president poderiam juntar flores
ao redor de suas diretrizes so elas
conseguissem convence-los de
que essas palavras agora s~io para
valer. O problema 65 que raros
homens pdblicos consceuiram
caminhar por parakclas t~io dis-


tantes enue a retdrica e a prgtica
como Collor.
Sua administration so aproxima
do segundo anivers~rio sem uni-
dade e sem integridade (esta ex-
pressrio arrastando ~uma ampla di-
versidade de significados). As di-
retrizes, um documennto mera-
mente indicative, finalmente saf-
ram. Mas o Plano de Desenvolvi-
mento da Amaz~nia, de carter
normative, continue entalado nas
engrenagens burocrdticas. De
quinquenal, o plano ter8, no mB-
ximo, validade trienal. A rele-
vincia de sua aprova~gio seria
meramente formal so, a falta dela,
a agHo do governo na Amaz~nia
nio fosse inversamente propor-
cional ao que diz estar fazendo.
Para que a expansito da ativi-
dade econdmnica n~io continue a
ser marcada pela crescente selva-
geria que transformou a Amaz6-
nia em motive das preocupaqdes
mundiais, sinceras on niio, 6 pre-
ciso que o governo intervenha. O
darwinismo social vigento na re-
giso 6 um produto dos subsfdios
oficiais despejados no mercado.
N17o poderia scr outro o resultado
dessa combinaglio depravada da
socializaEilo dos riscos com a
privatizag~io dos beneficios, uma
conta obtusa que o discurso das
diretrizes se propde a rever, in-
trodozindo os components so_
clais que desequilibram o balango
dessa contabilidade torta.
As exportagBes da Amaz~nia
quintuplicaram em 10 anos, mas o
retorno da riqueza gerada foi
apenas residual. Como nesse pe-
rfodo aumentou mais a clientele
social dos frutos da atividade
econ~mica, o descompasso se
tornou explosive. A misbtia reas-
sumiu o "status" colonial e sd
niio impressiona mais porque na
"Jungle" faltam os cronistas de
que era prddigo o impbrio britB-
nico nas seas extens~es ultrama-
iinas.
Como aprofundar o conheci-
mento sobre a regilio e mudar as
tecnologias de aproveitamento de
scus recursos, atualmente preda-
d~oras, so os centros de pesquisa
estito entregues as moscas (em
multiplicagilo gragas &) insalubri-
dade dos centros urbanos) e os


PsLANOS


A pa avra do pres dente