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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00061
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00061

Full Text











POLITICAL


Os bois estio voando


Quem jB se acostumou a ver boi voar deve se
paraense. Atd recentemente seria inimagind-
Ovel assistir o vereador Eloy Santos criticar o
prefeito Augusto Rezende, mas na semana passada
Eloy, que diz ter remotas aspira~ges de sair candi-
dato a prefeito de Beldm pelo PDS (mas na verdade
estaria interessado em promover sua reeleigio), co-
brou uma definigio de seu correligiondirio, colocado
no noticitrio da imprensa por conta de uma suposta
transferbncia do PTB para o PMDB.
B pouco proydvel que Rezende esteja interes-
sado em fazer essa troca de partido, mas ineg~vel-
mente ele procura uma nova situagio polftica. Atr~s
dela esteve quando procurou em Brasilia o senador
Almir Gabriel, no m~s passado. Os dois conversa-
ram por muito tempo, sem testemunhas outra cena


impensivel fora da "saison" de surpresas que a
polftica costuma oferecer. Uma composigio entire
Rezende e Almir, que estiveram em palanques
opostos nas duas dltimas eleigBes, 4 uma das alter-
nativas para a dispute de 1992.
Rezende desatracon definitivamente da compa-
nhia do ex-governador Hdlio Guciros. Gueiros, por
sua vez, nio conta mais com o aliado de ontem. Foi
o recado que ele mandon atrav6s de notf~cia plantada
em "O Liberal", anunciando sen prov~vel ingresso
no PTR, a legend guarda-chova do governador do
Distrito Federal, Joaquim Roriz, e de aliados do
president Fernando Collor de Mello. Disposto a
um entendimento com o governador Jader Barbalho,
Rezende restabeleceu o contato com o maior nome
do PSDB no Pard certo de que ele pode set a me-
lhor hipdtese de trabalho eleitoral tanto para ven-


Jor nal Pessoal
Liicio Flsivio Pinto


Cr$ 400,00


28 Quinzena de Outubro de 1991


Ano V


No 76






cer no prdximo ano, como para montar uma estrutu-
ra para a dispute de um lugar na Cbmara Federal em
1994.
A outra possibilidade com que conta a nova
coalizio polftica em gestagio 6 o deputado estadual
(PTB) Nelson Chaves. Sem pontos de atrito nos
dois lads, o parlamentar, no entanto, poderia nio
ter o potential de fogo necess~rio para enfrentar as
baterias de H61io Gueiros, que, se for candidate,
estard disposto a usar qualquer tipo de arma. O es-
tilo e at6 mesmo a imagem de Nelson seriam leves
demais para suportar esse tipo de carga, temem al-
guns articuladores do entendimento PMDB-PTB,
mesmo considerando o nome de Nelson Chaves a
melhor reserve disponfvel.
Eles dio prefer~ncia, ao menos por enquanto, g
possibilidade de trazer Almir Gabriel para a terceira
eleigIo de que ele participaria desde sua ascensio
ao Senado, duas das quais as dlltimas perden. O
senador, que cultiva em elevado grau a auto-estima,
saiu afetado pelas derrotas e nbo estaria disposto a
submeter-se a um novo risco tendo mais quatro anos
de mandate federal assegurados. Mas seus correli-
giontrios e amigos tbm pouca ddvida de que depois
desse long perfodo de permangncia em Brasilia o
destiny de Almir Gabriel estard definido: a aposen-
tadoria polftica e, com ela, o fim do PSDB no Pa-
rd. Rico em id6ias, o partido 6 anamico em nomes
com densidade eleitoral.
O prdprio Almir nio consegue dar ao seu nome
a expresso eleitoral correspondent. Ele 6 f~cil de
carregar quando levado por uma estrutura de poder,
capaz de compensar o atavismo dos "tucanos" pe-
las chuteiras de trava alta, desajeitadas para terre-
nos pesados como os da polftica paraense. A medi-
da em que a reaproximaqio Jader-Rezende deixa de
ser mera especulagSio de repdrteres politicos para se
tornar um fato concrete, as resist&ncias de Almir g
quarta eleigio seguida vi-o diminuindo, enquanto
cresce a possibilidade de ele ser o advers~rio de
H61io Gueiros em 1992.
Apesar de resist~ncias internal que deverio
surgir tanto no PMDB quanto no PTB ao novo fato
politico, a maior inedgnita ainda 6 a posigio que o
grupo Liberal ird assumir. Desde a Bpoca em que
Romulo Maiorana interpretou o n6o recolhimento do
lixo em frente g sua casa, na praga Batista Campos,
como uma afronta pessoal deliberada do entio pre-
feito da cidade, a empresa alimenta uma persistent
antipatia ao nome de Almir, atrito alimentado por
pessoas influentes em ambos os lads. A alternative
Nelson Chaves seria melhor deglutfvel
O sil~ncio do journal sobre o possivel acordo
Jader-Rezende e a cobertura incaracterfstica que
passou a dar As atividades do governador slo sinais
indicadores de que o poderoso grupo de comunica-
Cgo ainda nio sabe como se comportar diante do
novo quadro politico. Tambdm nio quer precipitar
qualquer definigio sobre a hipdtese H61io Gueiros,
tlo incerta quanto a outra, nem sobre alternatives
que antes pareciam factfveis e hoje se distanciam da
realidade, como a de Ademir Andrade. O primeiro a
se langar candidato e o dnico plenamente assumido,
o ex-deputado federal do PSB 6 agora pano de fun-
do, uma dessas transformagdes sdbitas que sempre
ocorrtem quando os bois saem do chio seguro da
realidade e navegam pelos ares da polftica.


Sem a penslo

O ex-governador H61io Gueiros tornou-se revel
tanto no inqudrito policial quanto na sindic~ncia
administrative instaurada para apurar a aplicaglo ir-
regular de recursos na Agio Social Integrada do
Pal~cio do Governo. Como isto significa, do ponto
de vista administrative, o reconhecimento das acu-
sag~es que lhe foram feitas, o governor vai proper a
suspensio do pagamento da pensio que Gueiros
vem recebendo como ex-governador, no memento
em torno de cinco milh6es de cruzeiros mensais.



Neg 6cio cartog r fico
Paulo Gueiros, irmio do ex-governador, crion
uma empresa (a Public Publicaq~es e Comunica-
g6es Ltda) para editar, juntamente com a Cejup -
Cursos e Publicag6es, os mapas de todos os municf-
pios paraenses, com informagdes extraldas de pu-
blicagdes do Idesp. O governor compraria esses ma-
pas e os distribuiria. Mas o negdcio acabou nio se
consumando na administraqio anterior porque os
dois irmiios romperam. Por ter apoiado Jader Bar-
balho, Paulo Gueiros agora est8 propondo que o
negdcio enfim se realize.


POliciais afastados

O secret~rio de Seguranga Pd~blica, Alcides
Alcintara, determinou a demissio, a bem do serving
pdblico, dos policiais Manoel Pedro de Lima e Jor-
ge Fernandes Sobrinho, denunciados (ver Jornal
Pessoal nO 69) como integrantes de uma expedigio
clandestine que foi a Teresina, no Piaul, tentar as-
sassinar o pistoleiro P6ricles Ribeiro Moreira. Os
dois nio conseguiram justificar, na sindiclncia
adiministrativa instaurada, sua aus~ncia do Estado
para a execugho de uma missio nio autorizada e se-
quer comunicada aos superiores. Excluidos dos
quadros da polfcia, ambos passam a ser valiosas
testemunhas para esclarecer o assassinate do depu-
tado estadual Joho Batista. Cabe agora ao delegado
responsivel pelo inqudrito convocg-los.


Aviso aos navegantes

Durante os diltimos 16 anos fiz centenas de
palestras sobre a Amazdnia. Em 98% delas nada
cobrei, nem me pagaram. Era para difundir id6ias e
defender a causa. As idtias estio plantadas e a cau-
sa jB tem bastante defensores. Nio precise me obri-
gar g mesma atividade missiondria desse perfodo.
Agora quero aplicar a maior part da minha energia
neste journal, na formagio de um banco de dados
acessivel a todos, na montagem de um arquivo de
textos sobre a Amaz~nia e em v~rias outras ativida-
des que me consomem todo o tempo disponfvel e o
que puder inventar. Aldm disso, precise sobreviver
e garantir a sobreviv~ncia da famffia e seus agrega-
dos. Isso exige remuneragio por qualquer trabalho
que realizar. Espero que todos tenham isso na cabe-
ga quando pensarem em mim para palestras e even-
tos assemelhados.










Quase um m&s depois da divulgagio do resul-
tado da concorr~ncia, o secret;5rio da Fazenda, Ro-
berto Ferreira, ainda nlo a homologou. T~cnicos
chamados a examiner o process nio chegaram a um
acordo sobre o que fazer, mas parecem convencidos
de que nenhuma das alternatives d inteiramente sa-
tisfatdria. Simplesmente reconhecer o resultado
apresei'tado significaria expor o governor a um ris-
co: a Campiglia modificaria a andlise que ja fez das
contas do Banpard ao reexamind-las na auditagem
geral do Estado? Sua postura em relagio a essas
contas derivou de mero erro de mttodo contibil on
resultou de deliberada pactua~go com o client?
Os que formula essas perguntas niio sdo ca-
pazes de respondC-las, mas afastam a hip6tese de
declarer a inidoneidade da Campiglia, examinada
inicialmente, por falta de qualquer amparo legal
nesse sentido. Uma outra possibilidade, a de excluir
a Campiglia, tamb~m considerada a princfpio, foi
descartada: a segunda colocada, a Trevisan propss
Cr$ 374 milhbes e 210 dias de trabalho), ja presta
assessoria informal g comissio de auditors do Es-
tado; a terceira, a Mardon Nasi & Cia, ficou maito
distant (Cr$ 521 milhbes e 150 dias de trabalho).
Uma interveng~io desse tipo provocaria suspeitas e
daria motive a demands administrativas e recursos
judiciais.
A sugestio que estg sendo considerada, al6m
da mera homologa~go da concorr~ncia, 6 a sua re-
vogagio, provid~ncia mais correta do ponto de vista
jurfdico, por permitir ao governor alegar o interesse
pdblico (a anula~go exige a demonstragio da pritica
de irregularidade). Mesmo essa alternative, entre-
tanto, 6 problemitica: o governor apresentard como
argument as falhas na auditagem do BanparB, mas
a atual diretoria nio adotou qualquer provid~ncia
contra a Campiglia (nem para apurar de fato as ir-
regularidades constatadas, acrescentam assessores
do governador, de certa forma irritados com os res-
ponshveis pelo banco). A contradigio seria ainda
mais incamoda porque uma auditagem internal do
prdprio Banpardi reagiu ao trabalho feito pela Cam-
piglia. O relatdrio dessa auditagem continue guar-
dado a sete chaves, inacessfvel at6 mesmo ao go-
verno.
O melhor que pode acontecer agora para a ad-
ministrag~o Jader Barbalho 6 perder outros 90 dias
organizando uma nova concorr~ncia e sd poder
apresentar resultados concretes dessa auditagem As
v6speras da eleig~io do prdximo ano, comprometen-
do a imagem de lisura t~cnica desse servigo. Os
mais desesperados com esse quadro chegam a admi-
tir a possibilidade de uma articulag~io, com rafzes
na polftica local, para tumultuar a iniciativa e com-
prometer sua eficicia junto g opiniio pdblica. Sus-
peitas de "lobby" foram apresentadas por um dos
concorrentes, que se referiu a reuni~io em um hotel
de Bel~m para o acerto de pregos e de um esquema
de trabalho, mas nito apresentott nomes e o mo-
mento de sua manifestagio, na abertura das pro-
postas, ji nio era indicado.
Alguns ticnicos acham que, independente-
mente de ter havido manipulagio, houve ingenuida-
de na elaboraqio dos terms da concorr~ncia. Cada


Ao comparecer ao plendrio da Assembldia Le-
gislativa do Estado, em junho, para relatar a situa-
glio critical da administration pdiblica, que herdara do
antecessor, o governador Jader Barbalho anuncion o
que seria a provid~ncia de maior impact do infcio
de sua gestio: a realiza~go de uma auditagem exter-
na independent sobre as contas estaduais. Os alvos
seriam os endividamentos externo e interno, a
constru~go das principals rodovias e os recursos fi-
nanceiros do SUS (Sistema Onico de Sadide), consi-
derados as grandes fontes de desvio de recursos pd-
blicos para enriquecimentos particulares ou aplica-
g6es indevidas.
A iniciativa adquiria maior significado porque
Jader nio se limitava apenas ao perfodo de mandate
de H61io Gueiros: a auditagem comegaria em 1983,
quando ele assumiu o governor pela primeira vez.
Seria a oportunidade de verificar acusaC~es sempre
feitas e renovadas na d~ltima campanha eleitoral -
sobre malversagio de recursos em obras como a pa-
vimentagIo da PA-150 (que liga Beldm ao sul do
Estado). A lisura da apura~go seria assegurada pela
escolha da firma auditora atrav~s de concorr~ncia
pdblica national.
Passados quatro meses, o governor esta. amea-
gado de ter que recomegar tudo outra vez, sem a
certeza de que podera manter a aura de credibilida-
de de sua iniciativa. A vencedora da licitagio foi a
Campiglia Bianchesi & Cia Auditores, que se com-
prometeu a realizar o trabalho por 293 milh~es de
cruzeiros, em 180 dias, a melhor proposta tanto em
prego quanto em prazo. Mas sd depois de publicado
o resultado do julgamento no "Dibrio Oficial", no
dia 20 de setembro, stores do governor se apercebe-
ram de um detalhe: a Campiglia foi quem auditou as
contas do Banco do Estado do Pard, aprovando um
balango comprovadamente manipulado, que trans-
formou prejufzo em lucro e passou por cima de ope-
ragbes consideradas, no mfnimo, discutfveis.
O lucro de balango do BanparB teria sido de
976 milhbes de cruzeiros em 1990, mas uma verifi-
cadio informal do Banco Central constatou que, na
verdade, tinha havido um prejufzo de Cr$ 300 mi-
thbes, convenientemente maquilado. Outras contas
tamb6m nio haviam sido feitas de acordo com a boa
pritica cont~bil, mas o auditor, ao inv~s de apur8-
las, preferiu ressalvd-las. Tambdm nio foram audi-
tadas as operagdes internal do banco e suas empre-
sas controladas on coligadas, como a Vivenda e a
Sociedade de Cr~dito Imobilibrio. Operagbes sus-
peitas, feitas com ouro e papbis, que o governor est&
rastreando, passaram ao largo dos olhos dos audito-
res,
Apesar de tudo isso, nenhuma das vertentes
governamentais informadas a respeito da atuag~io da
Campiglia impugnou sua participag~io on o resulta-
do da licitag~io (que dava prazo de cinco dias para
tal manifesta~go). A maior estranheza nos stores
alertados para o problema foi em relagilo ao silbncio
da diretoria do Banpard, mas uma fonte do banco
explicou essa attitude: apesar das falhas da audita-
gem, a Campiglia foi mantida pela nova diretoria.
Impugnd-la para a auditagem geral do Estado seria
uma contradigio.


A auditoria ameagada






pela apresentagio de pr~opostas, e afastado a possi-
bilidade de se usar um ardil. Agora o governor tenta
segurar uma batata quente e evitar que uma imagem
de desarticula~go e incompetdncia seja transmitida A
opiniko pdblica. Nenhuma das duas tarefas 6 fa~cil.


um dos temas da auditagem jB exigiria um grande e
complex trabalho, mas a concorrancia foi muito
ampla na qualificagio e vaga na definigio de seus
objetivos. Mais precisa, detalhada e especifica, te-
ria estimulado on induzido os grandes nomes da au-
ditagem national, que acabaram nio se interessando


Da primeira turma para a qual deu aulas o ad-
vogado Joaquim Lemos de Souza fazia parte Ossiam
Almeida. Com base num relacionamento que re-
monta a essa 6poca, o procurador geral do Estado
foi & casa do atual desembargador, no dia 2, pe-
dir-lhe que nio sentenciasse um mandado de segu-
ranga da empresa Alfredo Rodrigues Cabral Comdr-
cio e Navegagio, mais conhecida como Rodomar,
sem antes informd-lo. Joaquim saiu da casa do ex-
aluno com o compromisso, mas foi surpreendido na
manh~i seguinte com a liminar concedida por Os-
siam. A assessoria jurfdica estadual foi ent6o mobi-
lizada As pressas e, em quatro horas, conseguiu que
a president interina do Tribunal de Justiga, Maria
Ldcia Santos, revogasse a liminar, atrav~s da qual a
Rodomar pretendia voltar a operar vbrias travessias
de balsas que 1he foram retiradas no dia 1"- pela Se-
cretaria de Transportes.
Nio satisfeito com a vitdria na instincia esta-
dual, o Estado recorreu logo em seguida ao Supe-
rior Tribunal de Justiga, em Brasilia, atacando mais
duramente a liminar do desembargador Almeida,
"Lconcedida, candentemente, sem exame mais acura-
do da forma e dos motives do ato administrative, e
sem, sequer, a cognicaqio da lide onde assente es-
teja o contraditdrio". A liminar seria "uma inomi-
n~vel, pordm apriorfstica, invasI~o da autoridade ju-
dicidria no exame do mdrito administrative o que
Ihe 6 defeso e, repita-se, somente aferfvel quando
estabelecido o contraditbrio e se acaso revelada
uma ilegalidade flagrante capaz de invalidar o ato".
Destacou ainda rapidez com que foi concedida a
"agodada liminar", menos de 24 horas depois da
anula~go dos contracts da Rodomar.
O governor se considerava bem fundamentado
ao retirar os servigos de oito travessias de balsas
que a Rodomar vinha realizando at6 entio com ex-
clusividade. Um inqu~rito administrative instaurado
pela Secretaria de Transportes indicara que, al~m
de nlo ter havido concorr~ncia pdblica, diversas
provas deixavam bem claro que os contratos foram
assinados muito depois de sua suposta data de vi-
g~ncia, gragas a fraudes como adulteragio de ca-
rimbo, do registro de protocolo e at6 do funciondrio
responsdvel. As fraudes eram tio grosseiras que a
data de um dos contratos, de 12 de abril de 1987,
cafa em pleno domingo.
A Setran tamb~m investiu sobre as notas
"frias" emitidas pela Rodomar para acobertar des-
vio de recursos estaduais, constatadas em inqu~rito
policial que levou g prisio, por sete horas, o ex-se-
cretirio de Transportes, Luiz Ot~vio Campos, tam-
b6m director da empresa. Mesmo todas essas caute-
las, por6m, nio tiraram do ato do governor a vincu-
lagIo a uma represilia polftica contra adversdrios,
nem faziam Indicar a possibilidade de uma nova
postura da administration pdblica. Se bem que para


vigbncia restrita e em carter temporbrio, para aten-
dimento de urgencia de um servigo que niio poderia
ser interrompido sem causar grandes prejufzos aos
usu~rios, a Secretaria de Transportes recrutou as
novas empresas substitutes da Rodomar sem concor-
r~ncia pdiblica. Elas tamb~m n6o apresentaram pro-
vas de habilitagHo para a realiza~go da tarefa: pelo
menos uma delas teve que alugar is pressas balsas e
improvar porto de atracaCgo. A qualidade do servi-
go caiu sensivelmente e as travessias atrasaram
bastante.
O prego seria aceit~vel para uma transigio
traum~tica se o governor conseguisse demonstrar sua
lisura. Este 6 o grande desafio, ainda por assumir.
Se nio faltaram motives legals ou pertinentes para
cancelar os contratos da Rodomar, que crit~rios fo-
ram adotados para excluir a Griffo da pr6-selegio
das agencias de propaganda e publicidade aptas a
prestar servigos ao governor? Uma compara~go entire
a Griffo e as nove selecionadas levard. g conclusio
de que os critdrios t6cnicos foram substitufdos pe-
los politicos, os dnicos que justificariam a elimina-
gho de uma ag~ncia que coordenou a destinagio da
verba de publicidade da campanha "caminhando
com o povo", o principal instrument politico dio
governor anterior junto B mfdia. Assim, o governor
embaralha sua missio de representante do interesse
pdblico com as injungdes de seus projetos politicos
ou pessoais, nem sempre associ~veis ao que interes-
sa de fato g coletividade.



Prazos estourados

A atual administra~go federal deveria ser res-
ponsivel pela execu~go de um novo plano quinque-
nal de desenvolvimento, referente ao perfodo
1991/95. O plano regional da Amazbnia ainda nio
ficou pronto e agora sua vig~ncia sd poderb. ser
quatrienal. Irritado, o president Fernando Collor
de Mello seu prazo de 30 dias para a copclusio das
diretrizes do plano, com uma orientagio especifica
bastante sintomgtica: Cnfase para Roraima, onde se
trava uma verdadeira luta em tlorno da demarcagBo
de 9,4 mithdes de hectares para nove mil fndios
Yanom~mi.
O president tamb~m exige que o zoneamento
ecoldgico-econbmico da Amaz6nia esteja pronto
a tempo de ser apresentado em junho, na Eco-92. O
trabalho comegou em maio do ano passado e ainda
nio tem qualquer resultado concrete, passados 17
meses. Mas a SAE (Secretaria de Assuntos Estrat6-
gicos, que substituiu o SNI), estranhamente a res-
ponsivel pelo trabalho, promete tender a determi-
na~go presidential. Bom para os prazos, ruim para
o contedido.


A lisura do governor









Desde a segunda quinzena do mes passado o
chefe do Gabinete Civil do governor, deputado fede-
ral Manoel Ribeiro, tenta se desincumbir de uma ta-
refa que diz lhe ter sido passada pelo governador
Jader Barbalho: encontrar algudm em condigbes de
comandar uma equipe de acompanhamento das ati-
vidades do vice-governador Carlos Santos. Um ex-
parlamentar do PMDB foi contactado e nio aceitou.
Outros ja. estariam sendo sondados.
A princfpio encarada com bonomia, a vitalida-
de do vice comega a causar apreensio aos efrculos
mais prdximos no governador. Imaginava-se ini-
cialmente que a incessante atividade de Carlos
Santos pelo interior era o resultado da picada da
mosca azul, inseto que costuma causar danos aos
menos adestrados frequentadores do poder. Mas
agora nio hi mais ddvida de que o mais tfpico "o-
ne-man-show" que o Pal~cio Lauro Sodr6 jB abri-
gou esta em plena campanha eleitoral para ser o su-
cessor de Jader Barbalho, com o apoio dele ou de
motor prdprio.
Carlos Santos nio 6 a opg~o de Jader Barba-
1ho. O comerciante-cantor foi escolhido companhei-
ro de chapa na eleig~io do ano passado mais por sua
virtude negative do que por qualquer qualidade po-
sitiva: em chapa autbnoma, iria tirar votos de Jader
nas camadas C, D eE da popula~go (se a pauperi-
zagio do povo jB nio remeteu suas camadas socials
para as dltimas letras do alfabeto). Jader via apenas
o quadro politico imediato, mas, como quase sempre
isso ocorre, foi obrigado a ignorar os events pos-
teriores que transformam os vices em fontes perma-
nentes de dor de cabega, atritos, conflitos e explo-
sbes. As do vice Carlos Santos jB estio pipocando.
Quando ele apenas convocava uma seguranga
reforgada para abrir alas ao seu "cooper" litorineo
ou para garantir elevador privative no pr6dio resi-
dencial, tudo eram risos. Mas agora o vice usa seus


fins de semana para instalar diretdrios de seu parti-
do, o PST, filiar militants, montar bases eleitorais
e distribuir promessas que a administration estadual
terd que tender, ciente o chefe de que estai ali-
mentando uma cobra criada. Quando esse previsfvel
desfecho comegou a delinear-se, os articuladores
politicos do governador achavam que uma vaga para
a Cbmara Federal satisfaria o appetite do vice. Mas a
dnica coisa que ele quer 6 ser candidate a governa-
dor. Por isso descartou logo a aventura do prdximo
ano para a prefeitura de Beldm. On tudo ou nada,
parece ser o novo lema de Carlos Santos.
Se nio puder ser o candidate official, ele n~io
saird candidate a nada mais. Neste caso, Jader teria
que deix8-lo no governor para disputar o Senado, o
ftem que falta no seu curdlculo e a garantia de que
nio pode abrir mlo para enfrentar as contingbncias
do jogo politico (como aprendeu amargamente no
vaicuo entire o fim do primeiro mandate de governa-
dor e a convocaqio para o ministbrio Sarney).
Mesmo sem o apoio do Carlos Santos governador,
Jader podera se eleger senador. Mas outra coisa 6
manter a estrutura que montou com os poderes da-
dos ao inquilino do "Lauro Sodrd". Privado do
maior dos sonhos que o acaso colocou ao alcance
de sua imaginagio, como se comportard Carlos
Santos diante do correligiondrio que jB nio sera
entio o ndmero um do Estado?
Para preparar as complicadas estrat~gias do
future 6 que Manoel Ribeiro est8 articulando a for-
magio de um grupo incumbido de desfazer as en-
grenagens que o vice est8 montando no interior e
nos subdrbios da capital, justamente as principals
bases de sustentagio de Jader Barbalho. Se em 1990
Jader teve que entregar a Carlos Santos a vice-com-
panhia, na nova situagio o que deveri ou podera
- oferecer? Por enquanto, nio ha resposta, mas res-
posta terl que haver.


A prdpria jufza Ivone Santiago Marinho, a
quarta mais antiga do Estado, admitiu que seu com-
portamento foi "inusitado": depois de passar dois
anos e meio instruindo um dos mais pol~micos pro-
cessos judiciais dos dltimos tempos, que apura o as-
sassinato do deputado estadual Jodo Carlos Batista,
ocorrido em dezembro de 1988, a jufza, com 29
anos de carreira, renuncion As vtsperas de dar a
sentenga. Na melhor das hipdteses seu ath- remeter&
o desfecho do caso para 1992: dificilmente um novo
juiz se considerard habilitado a decidir sem antes
fazer um atento reexame dos sete volumes do pro-
cesso. pouco provivel que a tarefa seja cumprida
antes do recesso do Judicitrio, em dezembro.
Acostumada as questbes penais chg realizagiio
de jdris, a jufza surpreendeu ao anunciar, no dia 3,
que se afastaria do process por causes das pres-
s~es que lhe vinha fazendo a mle do parlamentar
assassinado. Isaura Batista, uma mulher enbrgica
apesar dos cabelos completamente brancos e do ar
cansado, nio escondia sea insatisfagio diante do
desempenho da jufza. Mas Ivove Marinho manteve-


se no process mesmo enfrentando vgrios incidents
provocados pela m~ie, parents e defensores de Ba-
tista, que queriam mais celeridade e uma ag~o mais
en~rgica contra os acusados de serem os mandantes
do crime, tratados segundo seu entendimento -
com uma deferencia contrastante comn o tratamento
dado aos provdveis executantes.
Novas informagdes produzidas a partir da pri-
slo de P~ricles Ribeiro Moreira, tido como o autor
do disparo que matou Batista, nio foram incorpora-
das h instrug8o, nem houve qualquer avango con-
creto na diregio dos organizadores do atentado.
A d~ltima iniciativa da jufza, a acarea~go entire P~ri-
cles, Roberto Cirino, o outro pistoleiro, e o empre-
s~rio Josiel Martins Rodrigues, acabou sendo total-
mente bendfica ao ditimo. Depois de ter sido apon-
tado por Robertinho como mandante, Josiel foi ino-
centado. O pistoleiro, claramente instruldo, negou
tudo o que havia declarado em tr~s depoimentos,
admitiu que mentira deliberadamente e avangou im-
passfvel is observagbes ir6nicas da jufza, todas
teitas de corpo present, nenhuma delas transcrita


No rastro do vice


Rent'ncia fora de hora






cordam que a simples distribuigio de tftulos de ter-
ra, a que se reduzin a polftica agrdria official, niio
resolve o problema, pior ainda ele se tornard quan-
do nem titular o governor for mais capaz, realidade
que se registra nos anos recentes: o governor Collor
foi o que menos tftulos distribuiu nos dltimos tem-
pos.

Carta do lestor
O leitor Jorge Moreira Juliso escreven ao editor a seguinte cart:
~caro mnigo:
Li- "[ma histdriaem 4 anos" no lornalPessolno 73.
Tenho a colegdio quase completa do JP desde o semtplar nO I'?' Fal-
ta-me alguns, por~que verpor outra or emrpresto e ndio retomrnam o que alidts d
bom. Ainda esta semana uma professora universitdria pediu-me por emprdsti-
rno, parapesquisa alguns eremplares;eutdispunha emrprestel.
Tantas coisas dlreis e verdades ditas no seu JP em quarro anos, embora
"chegue a trio poucas pessoas" como dissestes. Mas hd muitas delays que ndo a
lIem ndo merecem, ao menos, nem mesmo sabermt a verdade. "Os poderoses~

--"*:::: **** co ::::rssdierna Histdria (....) Permtit-mepordm,
discorder quando dizes "grande imprensa". Mas como grande? thna imprensa
a qual a gene envia artigos e carras e ele ndo tem a gent~ileza, on dignidade,
nem de agradccr ao menos. Classifico-a, sim,~ dee "imprensa grande": mes-
quinha, Fpil, ptjia, camuflada, conveniente, parcial e etecetara. 1Ydo far jdts
nem a memdria de Gutemberg.
hna pulga no cds incomoda mais queam elefante. Teu lernal Psscal
d que d rande imprensa apulga. Aoutra do elefante,q~ue ndo vai nunca nun-
capoder ir aocds, porque dapenasimprensa grande evenal't

Limites precarios
As prefeituras e as clmaras municipals de Be-
16m e de Ananindeua tiveram tr~s anos para definir
os limits territorials entire os dois municfpios antes
de uma intervengdo federal na questio. Acabaram
tendo que resolver o problema agodadamente, em
duas semanas, atrav~s de um protocolo politico que,
at6 poder ser implantado, vai exigir muito malaba-
rismo t6cnico e outras doses de boa vontade. Os er-
ros no estabelecimento dos novos limits foram
exaustivamente apresentados, nem sempre com ra-
zio, mas eles sd existiram porque a gestio urbana
continue a ser um tema tratado com inacreditsrvel
desleixo.
De qualquer maneira, duas dentre varias situa-
gdes vIo defender agora de uma decisio da prefei-
tura de Bel~m. Uma delas refere-se ao malfadado
depdsito de lixo. Antes Beldm jogava seu lixo em
area de Ananindeua, que havia baixado lei proibin-
do essa destinagio em seu territdrio. A localizagIo
da usina do lixo, ao lado do Aurd, nio poderia ser
mais contra-indicada. O prdprio Aura constitui ou-
tra questio-chave. De volta & jurisdigio belenense,
o Aura foi considerado, despropositadamente area
rural, quando nele ja ha muitas construg6es. A dni-
ca serventia dessa classificaCgo seria a de, final-
mente, salvar essa area, a dltima f~eserva natural na
Grande Bel~m, da destruigio atrav6s da especulagio
imobilibria.

A partir deste ndmero o Jornal Pessoal tem no-
vo prego. O reajuste 6 de pouco mais de 30% e nio
cobre nem a inflagio decorrida no perfodo de mais
de cinco meses em que ele vem circulando, na nova
fase. EstB ainda mais distant de outros componen-
tes de seus custos. Por isso, sera inevitivel outro
reajuste em prazo menor. Os leitores podem imagi-
nar as dificuldades que uma publicag~io indepen-
dente como esta entrenta na b~usca de sua sobrevi-
vencia.


nos autos.
O dltimo event da instrugho de Ivone Santia-
go Marinho acabard ficando como um complicador
para o juiz que f'or designado para substitui-la. A
jufza disse,- ao anunciar seu afastamento, que jB ti-
nha um convencimento sobre o caso, mas, pelo que
est& no process, ela nio iria al~m dos dois pisto-
leiros. Isto significaria dar a mais uma apuraqio ju-
dicial de crime de encomenda o desfecho contu-
maz: os principals personagens permanecem como
sujeitos ocultos de uma oragio viciada. Depois de
ter resistido a tantos incidents no cursor do proces-
so, a j uiza atraiu para si o inusitad o" quando oo
que Ihe caberia f azer era sentenciar e deixar para
outro memento ou circunstincia sua indignagio ou
qualquer outro d aqueles motives consid erados de
fore o ntimo" .


M entire pre miad a

Quem estivesse acompanhando o depoimento
do pistoleiro Roberto Cirino de Oliveira no fdrum
de Bel~m, no dia 3, n~io teria ddivida alguma de que
ele estava repetindo o que the haviam mandado di-
zer. A miss~io de Robertinho era reembaralhar o
process, distanciando-se do outro pistoleiro envol-
vido no assassinate do deputado JoHo Batista e li-
yrando a responsabilidade do empresdrio Josiel
Martins. Sem se importar com as advert~ncias da
Jufza Ivone Marinho, Robertinho ia confirmando
que mentira nos dois outros depoimentos prestados
diante dela. Ao final, levantou-se e voltou g peni-
tenci~ria, onde parece estar sendo tio bem tratado
quanto P~ricles Ribeiro Moreira, sem ao menos le-
var consigo um novo process, por desrespeito &
Justiga'


Terra desolada

Onde se lia Secretaria Nacional da Reforma
Agrdria, leia-se, a partir do memento em que um
projeto do governor for aprovado pelo Congresso,
Secretaria Nacional de Polftica Agrfcola. A reform
agrdria vai continuar a existir, mas no Ambito de um
drgio de segunda linha, o Incra. O fato de perma-
necer na primeira linha apenas a polftica que trata
da produ~go e da produtividade agrfcolas significa
que, definitivamente, o problema da terra no60 B
prioridade para a administration Collor. O projeto
que consagra essa nova forma de ver a complex
realidade rural do pafs foi enviado ao Congresso no
infcio do m~s.
Mas se internamente a reform agrdria se esva-
zia, os respons~veis pelo Pr~mio Nobel Alternativo
(da Fundagio Right Livelihood, da Sutcia) resolve-
ram distinguir a Comissio Pastoral da Terra (CPT)
e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), que estario entire os premiados na sessio
programada para o dia 9 de dezembro. A lembranga
das duas entidades veio com a constatagio, pela
fundagio sueca, de que no Brasil existe a mais de-
sigual distribuigIo de terras em todo o mundo: 60%
da Brea cultiv~vel est8 nas m~ios de apenas 2% da
populagio.
A estatfstica provocard discusses, sobretudo
entire os agraristas arrependidos. Mas se todos con-










sobre suas prdprias atribuigdes. Nos espagos inter-
medidrios desse cabo-de-guerra, em cujas extremi-
dades pontificavam estrelas, muitos interesses dos
contrariados aos difusamente envolvidos compli-
cavam o entendimento da correlagio de forgas.
Usando jacards como fachada, o governador do
Amazonas, Gilberto Mestrinho (imortalizado em-
bora niio exatamente exaltado para a literature
pelo conterrineo Mgrcio Souza, que apropriada-
mente o batizou de boto tucuxi), crion uma arma-
dilha na qual a president do Ibama caiu, apesar de
toda a sua reconhecida esperteza. A partir de uma
ficqio que n~io precisa ser demonstrada, mas tam-
b~m nio 6 passfvel de negagio fitica imediata
(quem faria este tipo de censo?), Mestrinho alegou
haver uma superpopula~go de jacards em Nhamun-
dd, pacato municfpio na divisa de seu Estado comn o
Pardi. A partir daf desencadeou uma tal discussion
que, sem jamais atingir um eixo de racionalidade,
atropelou Munhoz, mais afeita a discusses em au-
ditdrios acad~micos.
Terceiro president a passar pelo Ibama na era
Collor-Lutzenberger, o bidlogo Eduardo Martins as-
sume o cargo num memento delicado. Os cientistas
temem que em 1991 se repitam queimadas seme-
thantes As de 1987, que fizeram o Brasil bater, na
Amaz6nia. os records mundiais de destruigio da
natureza em todos os tempos. Como o fogo ja foi
quase todo ateado, As proximidades do fim do vert-o
e do infcio das chuvas, anunciar o fim do "xerifis-
mo" como uma nova etapa na vida do Ibama, que
deixaria um pouco de lado as tarefas de fiscalizagBo
e repressio dos delitos ecoldgicos, considerad~as
ultrapassadas, apenas da. razio ao velho e ssbio
Shakespearse. Ele sempre conseguiu ver muito mais
coisas entire o cdu e a terra do que acad~micos fan-
tasiados de autoridade e sempre cheios da v~i meta-
ffsica burocritica.


O projeto do governador Jader Barbalho de
converter os 130 milhbes de ddlares de dfyida ex-
terna do Estado em recursos para promover a ecolo-
gia e o desenvolvimento sofreu um rude golpe. O
ministry da Economia, Mareflio Marques Moreira, d
contra as converses, exceto para a aplicaqio em
projetos -ecoldgicos, e defended a limitagio do fundo
a ser criado com esse objetivo em US$ 100 milhbes
ao ano, para todos os Estados. No projeto de Jader,
a dinica contrapartida do Pard seria a cessio de uma
grea a ser utilizada para pesquisas pelo Museu
Emflio Goeldi. O dinheiro mesmo seria aplicado em
projetos econdmicos, sob a supervisor do Estado,
um esquema qlue exigiria da Uniio a alocag8o de
recursos (de ddlares convertidos) a fundo perdido.

Assinatura
Os leitores que quiserem fazer assinatura do
"Jornal Pessoal" devem entrar em contato com
Eduardo on Marcos, atravts dos telefones 241-6821
e 225-2487, ou procur8-los na Tv. 14 de Margo
477, em frente ao P'ronto Socorro Municipal. A op-
Fgio de: assinatura deve ser feita sobretudo por leito-
res de fora de Beldm.


O primeiro president do Ibama (Instituto Bra-
sileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renovaveis) na administraCio Collor, Werner Zu-
lauf, soube que havia sido demitido lendo a notfcia
nos jornais. Quem o substituiu, Tbnia Munhoz, teve
um pouco mais de sorte: o secret~rio do Meio Am-
biente, seu superior hierdrquico, pedia o cargo de
volta pelo telefone, sem maiores explicag6es. Ngo
reston a Thnia outra safda: senton g mdquina e redi-
giu o pedido de demissio, "em carter irrevog8-
vel".
Foi facil exqnerar os dois presidents sogobra-
dos no Ibama em pouco mais de um ano de Jos4
Lutzenberger, mas ambos safram atirando na dire-
glo de uma das mais famosas e pol~micas figures do
governor, at6 antes de Collor um radical inquilino
do "outro lado do balcio", de onde se diz que cri-
ticar 6 tio fdcil que dispensa tentar p~r em prdtica o
que se prega. Zulauf, amigo de 20 anos do ecdlogo
gadcho, tentou explicar sua queda com um argu-
mento que faria a delfcia do antropofigico Oswald
de Andrade: Lutzenberger nio leu e nio gostou do
Floram, um projeto que o engenheiro havia elabora-
do de parceria com outros dois pesquisadores pau-
listas (o ffsico Jos6 Goldemberg, atual ministry da
EducaSIo, e o gedgrafo Aziz Ab'Saber) para reflo-
restar 20 milh6es de hectares no Brasil.
A gota d'ggua caiu sobre Zulauf quando ele
defended o Floram numa entrevista a imprensa.
Mais por cidme on impulse autorit~rio do que por
diverg~ncia de id6ias a respeito, Lutzenberger re-
solveu livrar-se do responsivel pela agio executive
de sua secretaria (um drgio sem bragos prdprios),
cortando a primeira das cabegas em sua carreira de
autoridade maior responsdvel pela ecologia em Bra-
silia.
Nada podendo fazer para resistir no cargo, a
socidloga Thnia Munhoz reagiu com sarcasmo e
ironia ao ato do chefe. Sd nio uson a palavra caos
para classificar a forma de administrar de Lutzen-
berger, mas 6 como se tivesse empregado essa ex_
pressio, de larga difusio em todo o territdrio na-
cional: "Ele est8 sempre viajando e quando fica no
Brasil 6 avesso a despachos formats", disse, acres-
centando que Lutzenberger "nio tem normas ou
m~todo de trabalho".
Essa maneira desordenada de agir, aceit~vel
em pequenas organizagbes informais, que consti-
tuem a experi~ncia anterior de Lutzenberger, mas
invi~veis em entidades governamentais mais com-
plexas como a Secretaria Especial de Meio Am-
biente, explicaria as determinaqdes recebidas por
Tbnia Munhoz: ora ela era obrigada a desenvolver
projetos de agriculture bioldgica, que nio cabem ao
Ibama, ora era chamada a reprimir a comercializa-
glo de dom~sticos xaxins, o que jB nio cabe no bom
sensor.
Ecologias g parte, houve mesmo uma dispute
de poder entire os dois personagens. Lutzenberger
se queixava da hipertrofia do Ibama, com seus
6.500 funciondrios expandindo suas fungdes e pro-
vocando o apequenamento da Sema. T~nia Munhoz
reclamava da falta de apolo e de discernimento de
um secret~rio que ainda sequer se havia informado


Guerra de estrelas











esse ndmero As v~speras da Eco-92, se o que Jos6
Lutzenberger revelou no semindrio "Desenvolvi-
mento e Ecologia na Amgrica Latina: a visio em-
presarial", for verdade. Por enquanto, sd resta &
opiniko pdblica ficar perplexa entire duas estimati-
vas tio conflitantes.


RaZiGS ocultas

O president da Loteria do Estado do Pard'
Carlos Vinagre, nega que tenha havido qualquer ir-
regularidade na concorr&ncia para a instalagio da
loteria instant~inea estadual, a "raspadinha", estra-
nhando a tentative de antecipar uma suposta fraude
atravis da publicag5o, em cddigo, do resultado da
licitagio. Vinagre diz, em carta enviada a este jor-
nal, sd ter sabido da dendncia depois de passar 45
dias em tratamento de sadide em Sho Paulo. O Jornal
Pessoall da 1a quinzena de agosto revelou a existbn-
cia de um andncio codificado, publicado no journal
"O Liberal" de 16 de julho, que anunciava o con-
sdrcio Lotebrds/Master como o vencedor da concor-
r~ncia, 13 dias antes da data marcada para o andn-
cio official dos resultados. Antes, porbm, o gover-
nador Jader Barbalho mandou suspender a licitagBo,
por motives at6 agora nio revelados, inclusive g
prdpria diregio da Loteria do Estado.
Em longa e atenciosa carta, Vinagre garante
que seria impossfvel o resultado anunciado no
andncio de "O Liberal" porque Lotebrdls e Master,
embora ambas sediadas em Goiinia, seriam duas
empresas distintas. Ainda que tivessem ligagio, nio
poderiam explorer a "raspadinha" em consdrcio, ja
proibido no edital da concorrencia.
O ex-deputado v& semelhanga entire o episddio
paraense e o que ocorreu no Rio Grande do Sul,
onde a Lotebris levantou suspeitas sobre a lisura da
licitagio para a implantagio da "raspadinha" gad-
cha e foi interpelada pela diregio da Caixa EconB-
mica estadual, que negou ter havido cartas marca-
das.
A Master Mercantil de Loterias foi a dnica a se
manifestar em relagio a denducia sobre a concor-
rancia paraense. Em carta ao president da Loterpa,
a empresa afirma n~io ser consorciada nem ter
"qualquer vinculo empresarial com a empresa Lote-
brds". Tamb6m assegura que nlo apresentou "qual-
quer proposta B Loterpa". No entanto, e'la foi uma
das sete arroladas por Vinagre entire as que se ha-
bilitaram a concorr~ncia. Quanto ao motive do can-
celamento, solicitado pelo deputado Manoel Ribei-
ro, chefe do Gabinete Civil do Governo, ao director
t~cnico da Loterpa, Luis Loureiro, at6 agora nio foi
revelado.


JOrnal Pessoal
Editor responsiveli Ltcio Flivio Pinto
llustra~gio: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone: 223-1929
Opgao Editoral


No inicio de setembro houve dias em MarabA
em que cada metro cdbico de ar continha 360 mi-
crogramas de particular em suspension. A legislag~io
ambiental brasileira estabelece em 80 micrograms
por m o limited toler~vel. Assim, sem ter nada pare-
cido ao parque industrial de Cubatio, MarabB esta-
va t~io polufda quanto tristemente famoso municfpio
paulista, sflmbolo da degradagio da qualidade de vi-
da por forga do irracionalismo da atividade humana.
Sd que a cdntaminaCio do ar marabaense nio era
provocada pelas chaminbs de fgbricas, mas pela
queima de floresta, causes distintas para um mesmo
e grave problema.
A concentragiPo de particular no at 6 uma das
varidveis utilizadas pelos integrantes de uma expe-
digio de cientistas do Inpe (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais, de SHo Jos6 dos Campos, Sao
Paulo) para prever para 1991 queimadas na AmazG-
nia iguais ou ainda piores do que as de 1987, quan-
do 80 mil quil6metros quadrados de florestas vir-
gens foram destruidos pelo fogo e outros 120 mil
km2 de outras coberturas vegetais tiveram igual
destiny. A expedigio \fez uma incursio area por 10
cidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasilei-
ros entire os dias 4 e 10 do m~s passado, sob a co-
ordenagiBo de Alberto Setzer, autor do relatdrio so-
bre as queimadas de 1987.
Os pesquisadores estabeleceram seu roteiro a
partir de imagens do sat61ite metereoldgico ameri-
cano NOAA-11, que na semana da excursio chegou
a registrar, em um d~nico dia, 88 focos de fogo,
concentrados no sudeste do Pard, no sudoeste do
Maranhio, em Tocantins e no nordeste de Mato
Grosso. Os pesquisadores ficaram chocados com a
quantidade de fumaga provocada pelas linhas de fo-
go, algumas das quais chegavam a ter 50 quil6me-
tros de frente, se propaganda dentro da floresta
'amazbnica, que 6 naturalmente d~mida. Esse fato
grave e surpreendente, "observado poucas vezes
neste s6culo", foi destacado por Setzer em entre-
vista ao journal "Folha de S. Paulo".
Para dar uma idbia do efeito da fumaga, outro
membro da expedigiHo, Paulo Artaxo, fez uma com-
paragio. No campo, pode-se enxergar de 20 a 30
quildmetros na diregio do horizonte em um dia cla-
ro. Na cidade de Slo Paulo, em um dia considerado
normal, a visibilidade alcan~a entire 5 e 7 quil~me-
tros. "Em MarabB niio consegulamos ver alt~m dos
cem metros", depbs o membro do Grupo de Estudos
de Poluigio do Ar do Instituto de Ffsica da Univer-
sidade de Sgo Paulo. Se as previs6es se confirma-
rem, o que parecia impossfvel tera se realizado:
mesmo sem expandir a fronteira por greas novas na
mesma intensidade de quatro anos atrds, as frentes
de ocupagi~o da Amazcinia a terho destrufdo ainda
mais.
O secretgrio do Meio Ambiente, no entanto,
surpreendeu no dia 8 ao anunciar que o desmata-
mento nlo alcangard mais do que nove mil quilb-
metros quadrados na Amaz~nia, em 1991, baseado
em estimativas sobre as quais nio forneceu maiores
detalhes. Seria uma redugio acentuada att mesmo
sobre o fndice de 1990, que foi de 14 mil hectares.
Nada melhor para o governor Collor do que anunciar


O inferno ouitra vez