Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00059

Full Text











PO LITICA



Queda de brago


entio governador Hdlio Gueiros e seus alia-
O dos politicos estavam plenamente convenci.
venceriam a eleigio do ano seguinte para o
governor. Por isso, em setembro de 1989 Gueiros fez
a TV Liberal assinar um aditivo ao contrato com a
Funtelpa (Fundagio de Telecomunicagdes do Pard)
obrigando-se a ceder ao governador um minute de
program, tr~s vezes por semana, no hordirio nobre
da televislo brasileira entiree 20 e 22 horas), at6 30
de setembro de 1994. A concessio foi aceita nio sd
porque os dirigentes do Sistema Romulo Maiorana
de Comunicagio tamb~m estavam convencidos de
que Sahid Xerfan seria o successor de H61io Guei-
ros, como porque a TV pagava e continue a pagar
- um valor extremamente baixo (seriam 250 mil
cruzados mensais atualmente) para transmitir seu


sinal para o interior do Estado atrav6s das estag6es
repetidoras da Funtelpa. Nio tinha, assim, condi-
C6es de resistir ao pedido de Gueiros.
Somente quatro meses depois de ter assumido o
governor 6 que Jader Barbalho foi informado sobre a
possibilidade de desfrutar da grande audi~ncia da
repetidora da programaqio da Rede Globo, sem pre-
cisar fazer acordo com os Maiorana, nem pagar-lhes
pelo uso do horario. A descoberta do tesouro foi
feita pelo jornalista Luis Terra, trazido de Brasilia
(onde trabalhou com o ent~io ministry da Previdgn-
cia Social) para integrar o amplo esquerna de im-
prensa do governador, que tem filiais em Brastlia e
Sgo Paulo. Bastou a Terra ler o termo aditivo ao
contrato entire a Funtelpa e a TV Liberal, renovado
em 1987, para perceber o maravilhoso present da-
do a Jader pelos seus imprevidentes inimigos. Se ti-


Journal Pessoal
Liicio F1lvio Pinto


Ano IV


la Quinzena de Agosto de 1991


Cr$ 300,00


No 71






vesse uma methor assessoria, o governador poderia
ter utilizado essa arma desde o dia 16 de margo,
com direito a mantb-la at6 as visperas da campanha
eleitoral para a escolha de seu successor,
O golpe dado por Jader no grapo Liberal pode-
ria ter sido ainda mais fulminante se o chefe~do Ga-
binete Civil do governor, deputado Manoel Ribeiro,
tivesse exigido o cumprimento exato do offcio que
encaminhou no dia 24 de julho g direg~io da emisso-
ra de television, juntamente com a primeira fita de
divulgagio do governador. Jader exigia que a vei-
culag~io fosse feita exatamente As 20 horas. Para
cumprir a determina~go, a TV Liberal teria que reti-
rar, por um minute, o Jornal Nacional do ar, so-
frendo as consequbncias dessa attitude junto B TV
Globo. Mas Ribeiro acabou aceitando uma modifi-
cag5io: a exibi~go do program do governador no
primeiro intervalo commercial apds as 20 horas. A
alterag5io foi recebida com alfvio: seria o mais rude
golpe que a Liberal receberia da parte de quem nio
esconde o desejo de elimind-la do circuit da Rede
Globo, substituindo-a.
Para a opinilo pdblica em geral, surpreendida
com a aparigio de Jader no reduto dos Maiorana e
nlo esclarecida adequadamente a respeito nem por
um lado, nem pelo outro, deve ter ficado a impres-
srio de que os dois grupos est~o se reaproximando
para o desfecho miais comum nas relagdes entire a
imprensa e o poder: a composi~go. Mas esse acordo
est8 tio distant quanto antes do episddio, on mais
ainda. Para prevenir-se de uma recalda do governor
na exigbncia das 20 horas exatas, a TV Liberal
queixou-se aos dirigentes da Funtelpa de que alguns
dos "links" terrestres nio estio funcionando e, por
isso, o dinal nio chega a certos municfpios, como
determine o contrato.
Mas d mais f~cil & Funtelpa suprir essa falha
do que & Liberal proteger o flanco exposto. Para
romper o contrato, a emissora precisaria ter um
sistema prdprio de retransmissio de seu sinal, tarefa
que, iniciada agora, demandaria tempo e investi-
mento n~io inferior a cinco milh~es de ddlares. Ao
inv6s de fazer esse investimento estrategico, a em-
presa preferin continuar desfrutando das benesses
da linha da Funtelpa, muito mais barata, evidente-
mente, mas vinculada a interfer~ncias polfticas. Por
apostar sempre no mais barato, a TV Liberal ficou
defasada em relag~o g emissora que Jair Bernardino
monton, a RBA, muito mais modern at6 comegar a
ser sucateada pela md administration posterior ahl
colocada por Jader Barbalho (uma caracterfstica,
alids, de sua rede de comunicagio).
A possibilidade de am acerto entire o governa-
dor e os Maiorana, tema posto nas conversas de es-
quina a partir do inesperado aparecimento de Jader
nas telas da TV Liberal, vai se tornando cada vez
mais remota B media em que se aproxima a eleigio
municipal de 1992. A capacidade de resist~ncia do
grupo Liberal ao boicote do governor, que o cortou
da mfdia e exerce as presses possfveis sobre anun-
ciantes potenciais, dependerd bastante da manuten-
glo de um outro ponto de apoio politico e comer-
cial. Por enquanto, essa fun~go B desempenhada
pela Prefeitura de Beltm e nio hB perspective de
que ela possa vir a ser substitufda por outra instin-
cia. Resta ao grupo Liberal, entio, fazer o prdximo


prefeito da cidade, participando da campanha de
formal ainda mais aberta e decidida do que no ano
passado, com todos os graves riscos que essa deci-
slo traz consigo, tornando ainda mais perigosa a
opgio que fez na dltima eleigIio. Desta vez, os
Maiorana saber que terio ou poderio ter (ne-
nhuma certeza ha a este respeito) um aliado peri-
goso e inconfi~vel, o ex-governador Hdlio Gueiros.
Por essa circunstdncia, 6 duvidosa a candidatu-
ra de Gueiros g prefeitura, embora esteja decidida
sua participagio na campanha. Caso opte por entrar
diretamente na dispute, o ex-governador ird des-
gastar demais uma imagem de probidade e corregio
que conseguiu montar gragas & intense campanha
publicitaria desencadeada principalmente atrav~s do
grapo Liberal, mas abalada pelas apuragdes de seu
successor e pelo prdprio Gueiros, que den aos seus
inimigos a mais poderosa arma de que eles pode-
riam desfrutar: a carta imoral e pornogrsifica que me
mandou (cuja repercussio, no context de uma
campanha eleitoral pelos meios de comunicag~o de
massa, sera muito mais devastadora).
Para terem melhores condigbes de sobreviv~n-
cia, Gueiros e o grupo Liberal terio que estar no
mesmo palanque, mesmo que saiam para campos
opostos em outros ambientes. Por enquanto, ainda
nlo ha um candidate definido, mas o principal alvo
das sondagens iniciais 6 o deputado estadual Nelson
Chaves, do PTB (que tamb~m nio esta fora das co-
gitagdes de Jader). Mesmo sem maior densidade
eleitoral na capital, Nelson tem um nome e uma
imagem fAceis de trabalhar .atrav~s da imprensa,
principalmente quando tem atras de si um "lobby"
eficiente. Por conta desse tipo de dispute, travada
mais em gabinetes e alcovas do que em ruas e pra-
gas pdblicas, tem se tornado cada vez mais diffcil
ler as cartas enigmdticas que sbo produzidas e ligar
o que 6 aparente ao que 6 real, entendendo o que
esta por trds de fats surpreendentes como a apari-
d~o de Jader Barbalho na TV dos Maiorana. ~E o Pa-
rB inaugurando uma nova gravidade, no vicuo.



Dinheiro da sa(Ide


para assinaturas

A Secretaria de Sadde do Estado foi a escollii-
da para fazer cinco mil assinaturas dos jornais
"Diario do Pard e "A Provincia do Pard" por ser
a u'nica com disponibilidade de recursos na rubrica
"verba de custeio", esgotada nas demais. Houve
certa resistbncia dentro do governor a iniciativa, mas
prevaleceu a decisio pessoal do governador Jader
Barbalho de comprar os dois jornais. O destiny das
cinco mil assinaturas seria exclusivamente d pdbliL
co interno do Estado, mas muitos exemplares foram
para as ruas e o interior.
Segundo fonte palaciana, no governor H61io
Gueiros o Estado chegou a manter 4.500 assinituras
de "O Liberal", enquanto a circulagio do "Dibrio
do Pard" era proibida atB mesmo na Biblioteca Pd-
blica, a memdria do Pard. Situagio, alids, que esta
quase se repetindo agora em relagio ao journal dos
Maioranas.










Por pouco o governor Jader Barbalho nio foi
envolvido na primeira grande acusagio de corrup-
glo., A montagem da denducia comegou no dia 16
de julho, quando o journal "O Liberal" publicou, na
sua segio de classificados, um pequeno andncio,
aparentemente inocente, que dizia: "Consdrcio Pard
- L.E.P. C.P. OO1/91-B.L.Inst- Ma st er Mer-
cantil-R.24/77-GO". "O Liberal" imitava o journal
"Folha de S. Paulo", que, em cddigo, antecipou em
v~rios dias o resultado da licitagio para a constru-
glo da ferrovia Norte-Sul (obra de 2,5 bilh~es de
ddlares), provocando um dos maiores escbndalos da
administragio Sarney.
O andncio de "O Liberal" antecipava em 13
dias o resultado da concorrbncia da Loteria Espor-
tiva do Pard, que iria dar a uma empresa de Goids
especializada em loterias, a Lotebrds (com nome de
fantasia de Master), o direito de explorer o rico fi-
lio da "raspadinha", a loteria instant~inea que ji
existe no Rio de Janeiro e em Sho Paulo. Mas o re-
sultado da licitagio nio foi divulgado no dia 29 de
julho, como estava previsto. Cinco dias antes a
Loteria, dirigida pelo ex-deputado federal Carlos
Vinagre, cancelou a concorr~ncia. A ordem partiu
diretamente do governador Jader Barbalho.
Oficialmente, a decision foi tomada porque a


"raspadinha", criada ainda na gestio Hblio Guei-
ros, ainda n~io foi regulamentada, e os prazos para o
seu estabelecimento seriam atropelados pela licita-
950. Mas nlo 6 improydvel que o governador tenha
sido informado da iniciativa do journal "O Liberal",
acionado por um empresdrio que se sentiu prejudi-
cado pelos terms do edital de concorr~ncia e obte-
ve informagdes sobre o que seria um jogo de cartas
marcadas para favorecer a Master. A empresa goia-
na foi uma entire as sete (tres outras de Sio Paulo e
duas do Rio de Janeiro) que se apresentaram g lici-
tagio. Na Loterpa admitia-se que a Master tinha
grandes possibilidades de ganhar porque era "alta-
mente especializada".
Agora nio hB mais uma data para a nova licita-
gio e certamente o arranjo montado nas piginas de
"O Liberal" perdeu a fungio que teria, de dendncia
de uma concorr~ncia fraudulent. A implantagio da
"raspadinha" dever8 ser feita de qualquer maneira
porque a Loteria do Estado vive uma situag~io de
pendria, faturando em torno de 15 milhbes de cru-
zeiros por m~s e sem qualquer condi~go de concor-
rer comn as loterias federals. Mas se havia cartas
marcadas, elas agora serio reembaralhadas. "O Li-
beral" nIo nasceu mesmo para "Folha de S. Pau-
lo".


Carneiro (do ex-deputado federal Armando Carneiro
e de Oziel Carneiro, senador na vaga de Passari-
nho). A fibrica foi vendida por apreci~veis 2,5 mi-
lh~es de d61ares, prego provavelmente sd alcangado
porque o governador Jarbas Passarinho financing
dois importantes empres~rios locals a adquirirem
cimento da fibrica de Mestrinho. Sem essa ajuda, a
situagio da fibrica ficaria complicada: al~m de ter
sido cassado, Mestrinho ficara com os bens indis-
ponfveis e respondia a inquirito da Comissio Geral
de Investigagbes.
O coronel (da reserve) Newton Barreira, vice-
governador na administraCio de Fernando Guilhon
(indicado para o cargo por Passarinho, admitiu a
histdria em depoimento prestado g "A Provfncia do
ParB", em 1982, apontando-a como exemplo do
comportamento olfmpico de sea Ifder, que "nunca
foi home vingativo". Diz que "quando quiseram
levar Mestrinho g fal~ncia na fibrica de cimento de
Capanema, Jarbas achou que isso era absurdo, jd
que a f~brica era o ganha-pio de milhares de pa-
raenses que nio deviam pagar pelo que nio fizeram.
Haviam bloqueado as contas de Mestrinho e seus
diretores. A ffibrica iria fatalmente parar. Sem se
importer comn as fofocas, Jarbas financing direta-
mente os compradores, como a Importadora e o A.
F. Coelho, que, desse modo, pagavam o cimento g
vista".
Grato pelo apoio, Mestrinho mandou um pre-
sente carol para Passarinho, que, segundo ainda a,
depoimento de Barreira, o devolveu, porque niv
admitia isso". Alacid, ao contrdrio, aceitou o che-


Segundo o testemunho das pessoas que jB fala-
ram sobre o assunto, o rompimento entire o coronel
Jarbas Passarinho e o tenente-coronel Alacid Nu-
nes, o tema recorrente da political paraense desde a
metade da d6cada de 60, comegou As visperas da
campanha eleitoral de 1965 (pela qual Alacid se
tornou o successor de Passarinho no governor do Es-
tado). O ent~io governador acuson seu candidate de
ter "conspurcado a Revolu~Zo", cuja lideranga am-
bos haviam assumido pouco mais de um ano antes,
ao aceitar um cheque do ex-governador do Amazo-
nas, Gilberto Mestrinho, um dos primeiros politicos
a serem cassados pelos militares estabelecidos no
poder, sob a acusagio de corrupgio.
O episddio foi narrado pelo atual ministry da
Justiga no primeiro volume de seu livro de memd-
rias, "Na Planicie". Em entrevista concedida B re-
vista Veja desta semana, Mestrinho nega a intengio
de corromper Alacid e diz ter decidido dar o dinhei-
to ao saber por um amigo "que o candidate de Pas-
sarinho estava precisando de dinheiro e eu ofereci
essa quantia para ajudd-lo a comprar bois para a sua
campanha". Assegura ter sido "uma ajuda desinte-
ressada, e nunca pedi ajuda alguma nem ao Passari-
nho nem ao Alacid, mesmo depois de ele ser eleito
governador do Pard". Tudo porque Mestrinho "ti-
nha o maior respeito por Passarinho, que me tratou
muito bem no Pard, onde eu tinha uma fibrica de
cimento".
Mestrinho estava generoso na 6poca por ter
conseguido vender a fibrica de cimento que possufa
em Capanema, adquirida nio muito antes da famflia


O quase eschndalo


Reconhecimento confuse






que que Mestrinho the envion atrav~s do empresario
Ocir Proenga, na Cpoca patrio de Newton Barreira,
que, por essa condigIo, teve a "oportunidade" de
testemunhar o episddio que relatou. Mas, talvez in-
terpretando mal a iniciativa de Passarinho, Alacid
procurou-o logo para dizer-Ihe que os bois para os
churrascos de dia de eleigio (ainda hoje importan-
tes para influir sobre a vota~go no interior do Esta-
do) estavam garantidos. Os 25 milhdes de cruzeiros
que Mestrinho lhe deu representavam meio por
cento do valor de venda da f~brica de cimento (se
fosse comissio de venda, seria uma taxa razobvel).

Barreira diz no depoimento que Passarinho viu
o gesto de Alacid como "uma prova baixa de opor-
tunismo politico, daquele que deveria governor o
Pard em nome de novos princfpios, que nio aceita-


vam a corrupCpo, o contrabando, o jogo do bicho, o
uso indevido dos dinheiros pdblicos". Mesmo as-
sim, Alacid sd foi eleito, com uma votagio consa-
gradora, por causa do apoio de Jarbas, irnpossfvel
de evitar, segundo ele declara nas memdrias. Ao
deixar o governor, Alacid foi ser o representante em
Beldm do grupo Joho Santos, que comprou a fibrica
de Mestrinho e obteve, do ent~io governador Alacid,
uma mais do que generosa isen~go de impostos, s6
nio apurada convenientemente na administragIo se-
guinte, de Fernando Guilhon, porque os escritdrios
da empresa pegaram fogo, destruindo toda a sua do-
cumentagio outra histdria & qual o ministry da
Justiga se refere "a v8o de paissaro" e que a opi-
niao pdblica, para entender em maior profundidade,
continue aguardando por outros depoimentos como
o que Mestrinho den a "Veja".


A Alcoa, a maior empresa de aluminio do
mundo, pretend comegar neste verio a implanta~go
no Pard de um projeto que deverl ficar registrado
na histdria da mineraSgio: sera a primeira garimpa-
gem de bauxita de todos os tempos. O empreendi-
mento, evidentemente, nio 6 apresentado com estas
caracterfsticas: teoricamente, trata-se de uma lavra
industrial do mindrio, mas na pr~tica ele teriI uma
estrutura tio leve e sazonal que se parecer8 mais
aos garimpos. A Alcoa n~io pretend construir uma
vila residential para seus funciontrios, que recruta-
rd em cidades prdximas A mina, no Trombetas, para
trabalharem em jornadas de 15 dias por igual perf~o-
do de desmobiliza~go. Provavelmente recorrer8 a
empreiteiros para livrar-se de tarefas que normal-
mente o prdprio empreendedor precisa assumir.
O mais important para a Alcoa C iniciar, ainda
n~o ver~io deste ano, a exploraCio da segunda maior
jazlda de bauxita do distrito mineral do Trombetas.
Assim, evitard perder os direitos sobre esses im-
portantes depdsitos do mindrio de alumfnio, que se
tornar~io caducos em outubro de 1992, conforme os
dispositivos da Constituig~io de 1988. Investir o mf-
nimo possfvel na garantia do dominio mineral tem
sido o objetivo mais important perseguido pela Al-
coa an long da jg extensa e acidentada histbria de
sua presenga no vale do Trombetas.
A Alcoa gostaria de manter o esquema atual,
que the garante o suprimento de mindrio atrav~s da
MineragIo Rio do Norte, sua vizinha na area, em
atividade desde 1979 (e controlada pela concorrente
Alcan, em sociedade com a Companhia Vale do Rio
Doce e outros parceiros). Mas os constituintes de-
ram o prazo de quatro anos para que empresas na
situagio da Alcoa comegassem a explorer suas jazi-
das, sob pena de perderem-nas. A Alcoa finalmente
definiu um projeto para 2,25 milhdes de toneladas
anuais (um quarto da produ~go da MRN), sendo ela
prdpria -- atraves de sua fibrica de alumfnio em Slo
.Lais a maior absorvedora dessa produgio.
Depois de protelar tanto a partida do projeto, a
Alcoa agora est8 empenhada em aceler8-lo para nio
correr, ainda que remotamente, o risco de ser puni-
da por inadimpl~ncia. Mas est8 esbarrando em pro-
blemas que a principio nS~o previra ou cujos desdo-


bramentos ultrapassaram sua previsio: a repercus-
s6o de seu projeto sobre a populaglio native da re-
gilo. A principal comunidade afetada 6 a dos rema-
nescentes dos escravos negros, que fugiram para os
quilombos do Trombetas dois sbculos atrds e ali se
estabeleceram por sucessivas geragdes.
Apesar de presenga tio antiga, eles foram sim-
plesmente ignorados em duas outras iniciativas pio-
neiras na Sirea: a Reserva Bioldgica do Trombetas,
criada em 1979 para dar proteg2io is tartarugas que
procuram as praias do rio para se reproduzir, e a
prdpria Mineragio Rio do Norte. A MRN, com suas
origens fincadas em 1972 c o infcio de sua ativida-
de commercial em 1979, nio precisou prestar contas a
ningudm de sea extension e profundo impact econd-
mico e ecoldgico. A empresa quase destruin intei-
ramente o belo lago Batata, entupindo-o de argila
vermelha, aportinhou a vida de seus funcionbrios e
familiares com o pd vermelho, expelido pel~as cha-
minds da usina de secagem de mindrio atd nele se-
rem instalados filtros, anos depois, e n~io deu a me-
nor atengdo a negros e caboclos estabelecidos em
volta.
Na margem oposta g da Minerag~io, o governor
imobilizou 380 mil hectares de florestas ricas em
castanheiras, seringueiras e outras esptcies vitals
para a sobreviv~ncia de populagdes de extratores e
coletores dos frutos da natureza, sob o argument
de precisar da Brea para preservar as tartarugas,
ameagadas de extin~go pela caga predatdria. Para as
tartarugas, o que importam s~io as praias de desova
(os "tabuleiros"), os lagos e suas matas ciliares. Os
negros dos extintos quilombos poderiam continuar a
viver nas greas mais aprofundadas sem perturbar a
atuag~io preservacionista do governor, mas acabaram
sendo expulsos do local.com indenizag6es mesqui-
nhas.
Se os efeitos nocivos de empreendimentos des-
se porte jd eram perceptfveis na 6poca, a legislagio
sd comegou a surgir em 1981, consolidando-se em
1987. Ao contrdrio da MRN, a Alcoa sd pode co-
megar a funcionar na grea depois de estudar as con-
sequencias de sua intervengio, atrav~s do Rima
(Relatdrio de Impacto Ambiental). O document jB
est8 pronto e provavelmente seria o suficiente para


Garampagem original






dar & empresa a licenga de funcionamento se o Ce-
denpa (Centro de Estudos e de Defesa do Negro no
Pard) nlo solicitasse uma audi~ncia pdblica para a
discussion do Rima que uma consultora, a Promon,
preparou para a Alcoa. A audi~ncia foi marcada
pela Secretaria de Sadde Pdiblica para o dia 12, em
Oriximind.
A evolugio 6 visfvel, mas ainda nio chega a
um patamar capaz de garantir a populagio e o am-
biente contra os impacts negatives dos assim cha-
mados grandes projetos. O Rima e as attitudes da
Alcoa deixam visfvel a intengio da empresa de
conjugar uma retdrica de boa imagem com uma p8-
tica associada ao interesse estratdgico de assegurar
os direitos minergrios com o menor custo. Atrav~s
de uma minute de conv~nio, a empresa se declara
disposta a tirar dinheiro do prbprio bolso a mddi-
ca quantia de 150 milhbes de cruzeiros, espalhados
por cinco anos para "mitigar" seus efeitos dano-
sos. Na verdade, superestima o significado dessa
mitigag~io, adornando-a com outros ndmeros que
talvez sejam capazes de manter o brilho do interes-
se das comunidades locals e fazC-las aceitar o que,
numa visio mais exigente, se pareceria a um aut~n-
tico cavalo de Trdia.
A Alcoa procura conquistar a simpatia dos
mais resistentes apontando para a possibilidade de a
comunidade negra receber de dfzimos o equivalent
a um milh~io de ddlares por ano. No offcio encami-
nhado em maio B Secretaria, a empresa pede aos
t6cnicos para considerarem "a relevant significa-
gio de tio alto volume de recursos a serem geridos
por uma comunidade, a principio marcada pela re-
pressio e depois pelo abandon do Estado". Mas os
descendentes dos escravos sd terio direito a esse
dfzimo se conseguirem a titulagfio das terras sob
cujo sub-solo a Alcoa far8 a lavra mineral. Todos
garantem que o process logo estard definido, mas
ele sequer foi iniciado. Ainda que ele se defina,
entretanto, os congressistas precisar~io regulamentar
o artigo 68 das disposigdes transitdrias da Consti-
tui~go Federal, que garantiu o domfnio das terras
aos remanescentes dos quilombos que nelas residi-
rem. O dispositivo nio 6 auto-aplicivel.
Com toda a raz~io a Alcoa poderd argumentar
que sua vizinha e, a partir do prdximo ano, concor-
rente direta nio precisou passer por essas dores pa-
ra dar ao nascimento seu projeto. Mas o p6ssimo
antecedente da MRN sd nio se tornou irremedidvel
ou mais duradouro por causa da conscibncia da po-
pulagio e de sua resist~ncia g vontade dos empre-
endedores. Essa consci~ncia e essa capacidade de
leagIo estar~io em teste na audi6ncia pdblica, um
event novo e ainda mal assi'milado pelas vanguar-
das, por sua vez distantes do nfvel mental das po-
pulagbes locals, o que provoca um desequilfbrio
acentuado entire os contendores.
O lado dos que querem impor novas exigbncias
aos projetos impactantes tamb6m precisa renovar
sua retdrica e arejar sua visio, evitando o enrijeci-
mento de posigbes dogmatizantes. Uma delas torna
sacrossanto o meio ambiente, independentemente da
relagio que hB entire a ecologia e o home. Essa
obtusidade tem sido bem aproveitada pelos que ma-
nejam a q'uestio ambiental para efeito estrat6gico,
como fez a Companhia Vale do Rio Doce comn o


cinturio ecoldgico em torno das minas de ouro e
cobre de Carajds, e imitou-a a Alcoa com a Floresta
Nacional SaracB-Taquera, no Trombetas por via
oblfqua, naturalmente, que para isso o Ibama gs vQ-
zes esta. g mi-o. A natureza, neste caso, 6 uma arma
contra o dnico ser humane que a entende e a utiliza
harmoniosamente, o native, para encanto do foras-
teiro bem intencionado, mas mal informado.
Mas nio 6 sd para reconciliar as populagdes
negras comn sua histdria que o Rima da Alcoa deve-
rd ser questionado. O prdprio Pard precisa pergun-
tar-se se aceita passivamente e ser o cendrio para a
primeira garimpagem de bauxita do mundo, um ine-
ditismo que langa o Estado nos anais dos que foram
derrotados sem combater ou nio entenderam qual
era o verdadeiro combat.



Apolo inter national

O president Fernando Collor de Mello e o se-
cretgrio do Meio Ambiente, Jos6 Lutzenberger, co-
megaram a receber no m~s passado cartas de todo o
mundo intercedendo pelos seringueiros da AmazB-
nia. E a consequ~ncia de uma campanha patrocinada
pela Rainforest Action Network, organiza~go nio
governmental americana baseada em San Francis-
co, na Califdrnia. A entidade quer que o governor
brasileiro continue se empenhando na manutenglo
de um prego just para os produtores de borracha,
na demarcagio das reserves extrativas e na imediata
ativa~go do Programa Nacional de Reservas Extra-
tivas. Um dos boletins da Rainforest, dedicado aos
seringueiros, pedia aos militants ambientalistas do
mundo inteiro para que escrevessem as autoridades
brasileiras. A ONG tamb6m est8 vendendo camisas
alusivas ao tema para former fundo em favor dos
seringueiros da Amazdnia.




Tiragens secrets

No memento em que ultrapassa a tiragem de
um milhio de exemplares e a menos de um ano da
conferencia mundial sobre desenvolvimento e meio
ambiente, que recolocard a Amaz~nia como um dos
principals temas planet~rios, a revista Veja fecha
sua sucursal amaz6nica, baseada em Bel~m. Os
editors garantem que a decisio, com todas as ca-
racterfsticas de uma contradig~io, nio prejudicard o
acompanhamento dos temas amazbnicos. Sempre
que necessdrio, enviados especiais cruzario o espa-
go brasileiro para produzir reportagens "in situ".
Mas a explicaSgo esta. muito long de ser uma ga-
rantia de qualidade: como o prdprio nome design,
enviados especiais deveriam ser mandados em oca-
sides espectficas para cumprir tarefas tamb6m espe-
efficas e nio para se transformarem num padrio
sistem~tico de trabalho. Em nome desse prindipio
jornalfstico francamente "yuppie", "Veja" pde fim
g dnica sucursal da imprensa national estabelecida
- ao long de nove anos no conflitado territdrio
amaz6nico. "Veja", cada vez mais "city", "light"
on "soft", quer distincia das impurezas do "hin-
terland".









Durante a audiencia pdblica, realizada no mgs
passado em Laranjal do Jari, a primeira desse tipo
na Amaz6nia, as garantias dadas pelo Rima foram
questionadas. Evidentemente, os consultores nio
deveriam estar esperando a aceitagio geral somente
pelo volume ffsico do document. Apenas 20% do
texto tratavam um pouco mais diretamente do que
deveria ser seu objeto: a avaliag8o do impatio am-
biental da obra em causa. Muitas p~ginas foram
gastas ngo apenas com ndmeros completamente de-
fasados, mas at6 ociosos. No que era acessdrio, o
trabalho buscou ser minudente. No que interessava,
foi extremamente econ~mico, lacbnico, omisso.
Nio cabe culpa aos t6cnicos, 6 claro. A ques-
tio 6 metodoldgica. O maximo a que os Rimas se
prop~em 6 relacionar os problems, fazer cruza-
mento de riscos iminentes on potenciais, registrar a
preocupa~go com os problems e, garantida a pere-
nidade dos arquivos, deixar que a realidade se con-
sume. As medidas que slio sugeridas deveriam pre-
ceder a estrada e n~io vir depois de ela ter-se cons-
titufdo em realidade ffsica, com seus efeitos multi-
plicadores explosives. Os Rimas, no contrario,
partem de uma premissa: de que a obra 6 inquestio-
navel.
Nlo fosse assim, valeria a pena, nem que fosse
para simples raciocfnio, verificar custos/beneffcios
comparatives (para nao ir al6m da obtusidade eco-
nbmica) da atual ligagio fluvial Laranjal do Jari-
Macapa em relagilo a future rodovia. Ainda que a
atual situagio do transport hidrovibrio seja la-
mentivel (foi nesse percurso que se registronl o
mais grave acidente da histdria da navegagio ama-
z6nica), justamente por isso mais necessarios slio os
investimentos pdblicos nesse setor, deixados a mar-
gem no Rima pelas limitagdes ja apontadas.
Uma estrada na Amaz6nia nlo 6 apenas uma
ligagio entire seus pontos extremes. Se fosse assim,
nio haveria como contesta-la, nem tenter relativizar
o natural entusiasmo com que a esperam os morado-
res do Laranjal do Jari, ansiosos por quebrar um
isolamento sd rompido pela precaria (ainda que
muito mais barata e eficaz em terms potenciais) li-
gagio fluvial. Mas ha uma regi~io compreendida en-
tre esses dois pontos. O Rima passa veloz por ela,
fazendo de questbes s6rias nada mais do que Indice
remissive.
Somando 845 mil hectares, as reserves do Ca-
jari e do Maraca (criadas para apoiar o extrativis-
mo, a atividade econdmica mais expressive da re-
gi~o) ocupam 30% da drea de influ~ncia da estrada.
Ela atravessa a reserve do Cajari, a mais extensa
delas, numa extensio de 85 quil~metros, traduzida
em area para 85 hectares, como se seu impact se
restringisse a uma faika de 10 metros de largura e,
assim, pudesse ser gerenciada por dois postos de
fiscalizagio, na singela e apressada visio que o
Rima tem da questio. Embora a estrada ainda seja
apenas um caminho e um indicador topogrdfito em
sua extension integral, o prdprio relatdrio registra a
preseng~a de placess de posseiros que se dizem pro-
prietarios", vaga e imprecisa indicag~o de es-
peculagio imobilibria em expansion.


A lenda mais constant na mitologia dos Indios
da Amaz~nia relata a origem da noite. Ela teria ir-
rompido de um pequeno objeto (um carogo de tucu-
mi, por exemplo), aparentemente inocente e incapaz
de center algo com a complexidade da noite. Rema-
dores curiosos e imprudentes, na mitologia Wixkar-
yana, deixaram a noite escapar e, feito o mal, nio
mais conseguirant sequer remedid-lo.
As estradas sugerem uma comparag5io com o
sentido dessa lenda. Tragadas para rasgar o espago
verde da natureza amazdnica, elas sio recebidas
com esperanga, alegria e at6 entusiasmo pelas po-
pulagdes pioneiras dessas dreas remotas. Seriam o
tim do isolamento ffsico, o instrument da reden-
glo, o mero de melhoria da vida. A Transamaz6ni-
ca, a mais celebrizada dessas estradas, complete
duas d~cadas de existbncia implorando para ser res-
suscitada, mas, como no caso da noite, o mal est&
feito e, em virios sentidos, 6 irremedi~vel.
O governor federal, segundo resultados preli-
minares de uma pesquisa recentemente divulgada,
gastou, apenas na d~cada de 70, quase quatro bi-
lhbes de ddlares na constru~go de estradas na Ama-
zbnia. Mas, desassistindo-as, permitin que ao long
de suas greas de influencia passasse a prevalecer
um terrivel darwinismo social, a lei do mais forte
que instalou um quadro de caos e violbncia tornado
tristemente c61ebre no mundo inteiro. A estrada
transformou-se no fato mais traumiitico da histdria
da region.
Spreciso tg-lo em conta, ainda que fosse para
efeito prospective, ao analisar o impact do prolon-
gamento da BR-156, a mais important rodovia em
operagIo no AmapB, desde Rio Preto atC o Laranjal
do Jari, o novo nome do tamb6m polemicamente fa-
moso Beiradio do Jari, a cidade espontinea que se
formou em frente a Monte Dourado, sede adminis-
trativa do empreendimento ali fincado pelo miliond-
rio norte-americano Daniel Ludwig a partir de
1967.
IL primetra vista, a EAP-030 (a sigla com a
qual o prolongamento da Macapd-Oiapoque foi ba-
tizado) nio mereceria tanta atenglio e cuidado. A
estrada tem apenas 172 quildmetros de extensio,
dos quais 84 ja em fase de implanta~go e o restante,
at8 o ponto final, com o tragado definido. Direta-
mente, ela destruird 120 hectares, pondo abaixo
42.227 metros cdbicos de madeira. Se pudesse ser
circunscrita B pista de rolamento e Bs dreas de em-
pr6stimo de material, esse seria o alcance de sua fe-
rida na floresta.
O Relatdrio de Impacto Ambiental, elaborado
pela empresa de consultoria STCP, originsria do
mesmo Estado (o Parand) no qual tem sua sede a
construtora da estrada, a C. R. Almeida, admite que
o impact poder8 ser bem mais amplo, mas 6! oti-
mista. Calcula, sem apresentar membria mais cir-
cunstanciada desse c~lculo, que os efeitos positives
irdo superar os negatives. Apresenta sugest6es para
suavizar os dltimos e chega, inclusive, a proper um
program para proteger a Reserva Extrativista do
Rlo Cajari, a mais extensa unidade fundidria no tra-
gado da rodovia.


Trauma rodoviario






A realidade geogrifica e humana da iirea de in-
flu~ncia da estrada recomenda, mais do que am Ri-
ma como abre-alas rodovibrio, um plano de utiliza-
glo criativo, inteligente, voltado prioritariamente
para a populagio da prdpria grea, capaz, talvez, de
inaugurar uma nova era, na qual estradas, saudadas
com fogos de alegria na inauguragio, deixem de se
transformar, logo em seguida, em fonte de misdria,
amargura e insatisfagio. E mais do que evidence
que um plano de desenvolvimento deve antecipar-se
e sobrepor-se ao projeto de u~ma estrada e seu Rima,
ou, ao menos, que o estudo de impact nio seja a
descrigio anatbmica de quest6es para as quais nada
mais prop6e al6m do registro em papel. Ainda mais
quando deixa transparecer claramente a press na
sua elabora~go. O Rima diz, no texto, que nio ha-
via ainda said o decreto de criag~io da reserve ex-
trativista do rio MaracB, transcrito, pordm, em um
dos anexos.
Se um plano de desenvolvimento para a region
JarilCajari nio vier antes da estrada, definindo o
uso da terra na drea de influ~ncia, que as reserves
criadas sejam consolidadas, organizadas e postas
em funcionamento, sem o que todo o discurso do
Rima sobre os direitos da populagio local nio pas-
sar8 de retbrica barr6ca.



Sorry, Sul
Por uma quantia entire 8 e 12 milhdes de ddla-
res (os valores variam conforme a fonte), Rogdlio
Fernandez transferiu para um grupo de Santa Cata-
rina, o De Lucca, uma das maiores inddstrias do Pa-
rd, das poucas nesse porte que ainda permane-
ciam sob o controle do empresariado paraense. A
Inca (Inddstria Cerdmica da Amaz6nia) foi tambtm
uma das que mais incentives fiscais recebeu da Su-
dam, que chegou a dar colaboragIo financeira, si-
multaneaments, a quatro projetos de Rogdlio Fer-
nandez. Em mar6 contrbria, ele desistiu de conti-
nuar industrial e foi se dedicar apenas a suas fazen-
das, tamb~m implantadas com a utilizagio de di-
nheiro da Sudam.
Fechamento ou transfer~ncia de fibricas tem
sido um event muito mais comum no Estado do que
a abertura de novas inddstrias. A concorrente vizi-
nha da Inca, a Azpa, hoje nio 6 mais do que um
enorme galplio, esvaziado com a retirada de todo o
seu maquinairio e fora de produgio ha. bastante tem-
po. Igual destiny teve a Fosnor, que engolin a Fasa
(uma das poucas inddstrias paraenses a penetrar no
fechado mercado do Sul do pafs), mas tambdm ficou
sem suas maquinas, transferidas para o Mtxico pela
Fiat Lux, a multinational que abocanhou o mercado
local de fbsforos. A Phebo sucumbi a concorrbncia
estrangeira da Procter e Gamble e a Cerpa estd
constantemente nos boatos que antecipam sua ab-
sorgio por alguma das gigantes da cerveja.
Operag6es de compra e venda s6o retina no
mundo dos negdcios, onde a velha maxima lusitana
(quem nio tem competbncia n~io se estabelece) con-
tinua em vigor, sujeita, naturalmente, as adaptagBes
do cartorialismo brasileiro. O problema 6 que o Pa-
rd nlo tem qualquer polftica pdblica estabelecida
para o setor industrial. Depois de anos de irrespon-
sabilidade (mas nlio gratuidade) na concessio de in-


centivos fiscais estaduais, dados sem qualquer con-
trapartida para a sociedade, agora o fisco 6 um al-
goz embrutecido, incapaz de agir inteligentemente.
A grande margem de manobra que a conjugagio de
fatores propiciaria a um Estado como o Pard conti-
nua sem uso, contribuindo para esse desalentador
panorama de uma terra do "jd teve", tendo tanto
para ter mais do que antes.
A energia deveria se transformar na pedra de
toque da histdria paraense. Foi essa retdrica que le-
you o governor a decidir construir a hidrelitrica de
Tucuruf, no infcio da d~cada de 70. No entanto, o
efeito multiplicador da energia tem sido maior no
Maranhio do que no Para;, gragas a um dispositivo
do conv~nio do ICMS que isentou de imposto a
operagio de transfer~ncia de energia de um Estado
para outro. Assim, o Maranhio pode oferecer ener-
gia mais barata do que o ParB, que deixou passar
essa regra absurda e deverdi pagar muito carol por tal
desaten~go, uma entire muitas, sd lembradas quando
se transformam em fato irremedi~vel.



Banco invertedo

Durante pelo menos seis meses, entire novem-
bro de 1988 e abril de 1989, o Banco do Estado do
Pard praticou o melhor tipo de polftica para ir g
rufna: comprava por mais carol do que o prego de
mercado e vendia abaixo do valor de aquisi~go. O
resultado dessa estranha attitude 6 mais do que db-
vio: prejufzo certo para a instituigio. Como nenhum
banco (ou qualquer outro agent econdmico) costu-
ma dar-se a esse tipo de conduta, t~cnicos do Banco
Central estio fazendo uma auditagem no Banpard
para saber quem tomou a decisio inusitada e, se
houver, quem levou lucro nas operag8es ruinosas.
Auditagem internal do prdprio Banpard, mesmo
sem chegar tio profundamente nas origens e nas
consequ~ncias dessas transagdes, apontou sua irre-
gularidade em junho de 1989. No dia 11 de novem-
bro de 1988, por exemplo, o banco comprou quase
um bilhio de cruzados (valor da 6poca) em ouro.
Dois meses depois o metal foi vendido 59,35% mais
carol, por6m a corregio monetdria nesse perfodo foi
de 63,46%, com uma perda superior a 4%, acrescida
pelo fato de que a taxa real dos tftulos de renda fi-
xa nesse perfodo foi 2,82% maior (que daria ao
banco remuneragio de 68,06%).
No dia 1'- de dezmbro de 1988 o Banpard. fez
nova aplicagHo em ouro, no valor de 2,3 bilhdes de
cruzados, contabilizando rentabilidade de 32,69%
com a venda 41 dias depois. Nesse perfodo, a re-
muneraZgo do "over-night" foi de 42,78%, levando
o auditor a concluir que nessa operaqio "o Banco
teve juros efetivos e reais negatives". Outras duas
aplicaq6es semelhantes, em janeiro e abril de 1989,
tamb~m resultaram em perdas para o Banpard, con-
forme o relatdrio do auditor, que analisou ainda
seis transag~bes com tftulos de renda fixa, em quatro
das quals o banco comprou a prego bem superior
aos do mercado e vendeu por valores abaixo do que
poderia alcangar. A ordem para executar as estra-
nhas operagbes veio "de cima", como diz a audita-
gem. A tarefa, agora, consiste em identificar o su-
jeito dessa ora~go subordinada.











6 bem velho. O ex-politico e historiador amazonen-
se Arthur Cezar Ferreira Reis deu a consistencia de
corpo de doutrina a essa interpretagio conspirativa
da histbria no seu livro "A Amaz6nia e a Cobiga
International", cuja influbncia sobre os militares
nio pode ser minimizada. A conclusio da leitura 6
de que a Amaz~nia sd permaneceu brasileira graqas
g vigilbncia das armas, que, mesmo sem combater
em (uma fonte de melancolia e despropdsitos no
Brasil), sinalizaram o estado de alerta que afastou
os eternos e nunca sacidveis cobigosos de todos
os pauses, em todos os tempos.
Ferreira Reis colocou em um mesmo saco des-
de o visiondrio e aventureiro tenente Maury at6 a
Repdblica do Cunani, da mesma maneira que os
idedlogos de hoje da ESG slio capazes de homisiar
no mesmo barco os Estados Unidos e o Japio, que,
na Amaz6nia, como em outras parties do mundo, se
digladiam As v6speras de uma nova guerra esta,
sim, para valer. HA certa coerencia Idgica no racio-
efnio esgueano. O que nio hB 6 correspond~ncia
entire a 16gica e a realidade. Pior para a realidade,
ali~s, no Brasil frequentemente abolida por decreto.
Apesar dos delfrios, o document pode servir
de dtil sinal de alerta e de susto, tambdm. No
memento em que esse grupo military sugere trata-
mento de guerra para um conflito de iddias, o go-
verno manda para o Grupo dos Sete a proposta de
um program piloto para a conservag;io da floresta
amaz6nica que, al6m de produzido a seis mios (as
outras sio do Banco Mundial e da Comunidade
Econdmica Europdia), aceita pacificamente uma ju-
risdigio internacionalizada, o Brasil reduzido a um
tergo dos membros de uma comissio coordenadora
do program (outros dois tergos indo para o Bird e
a CEE). 11 combustfvel inflamilvel ao alcance de fo-
gueira exlosiva.
Nio 6 o dnico "erro" (se assim ele pode ser
classificado) do governor. Dando, como de hdbito,
uma no cravo e outra na ferradura, Brasilia negocia
avidamente dinheiro novo no exterior, dispondo-se
a tudo para ver o ingresso de ddlares, enquanto ce-
de aos militares a conduglio das quest~es ecoldgi-
cas, que estariam melhor postas em laboratdrios e
mesas acad~micas do que lacradas sob o sinete de
assunto estrat6gico. Niio admira que fique a impres-
s~io de que por trgs de tanta argumenta~go seriosa
haja algu6m colocando chiirre em cabega de cavalo,
quando ver a realidade B bem mais diffcil (mas al-
tamente recompensador) do que inventar visagens
sob o sol a pinon.




JOITTRI Yessoal
Editor responsivel: Llicio Flivio Pinto
Ilustra~gio: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.020
Fone: 223-1929
Opglio Edlitoral


O sdculo XX foi inaugurado sob as luzes da
economic, a ci~ncia que, plantada no sbculo ante-
rior, iria desvendar as rafzes ocultas de todos os
fats humans e determinar-lhes os rumos. Este sB-
culo chega ao fim sob o impulse de uma nova ci~n-
cia, a ecologia, disposta a mostrar que o homem
colher8 tempestades se continuar plantando ventos
descontrolados. Envolvida na tarefa de identificar
as repercussdes para a vida planetgria de cada ato
de transformacgio, a ecologia deixa de ser apenas
modismo on instrument a serving da manipula~go
de interesses para se tornar a ciencia do novo s6-
culo.
Enquanto nas principals pragas mundiais hB um
grande esforgo para dar roupagem cientffica a supo-
sigbes e interpretag6es baseadas no sensor comum on
mesmo no palpite puro e simples, no Brasil a ecolo-
gia pode passar a condigio de matdria de cddigo
penal e tema military. 11 enquadramento que the pre-
tende dar o document "1990-2000, D~cada Vital",
preparado no ano passado pela Escola Superior de
Guerra. A ESG se diz convencida de que os pauses
"da Area de influbncia ideoldgico-patrimonial dos
Estados Unidos, Europa e Japtio" estariam se em-
penhando em assumir o control da Amaz6nia, pas-
sando por cimoa da soberania brasileira exercida so-
bre a regilio.
A investida nlo 6 feital direta on explicita-
mente. Ela recorre a artiffcios e subterfdgios diver-
sos. Um dos citados d a consolidaglio do que o do-
cumento da ESG chama de "enclaves indfgenas",
extensas Breas de terras sob o control de popula-
S6es incentivadas a buscar uma etnia prdpria algo
contrdrio aos "objetivos nacionais permanentes"
perseguidos pelos militares como a chave para o
projeto do "Brasil Grande", que jamais abandona-
ram, apesar de tudo.
O principal instrument a serving da interna-
cionalizaCio, entretanto, seria o ativismo ecoldgico.
Atrav~s das ONGs (organizagbes nlo governamen-
tais), os pauses hegem~nicos pretendem manter in-
tocado o potential econdmico da Amaz~nia brasilei-
ra, exercendo uma tal pressiio que, para quebrd-la,
o governor se veria obrigado a recorrer ao estado de
guerra, n~io sem antes ser posto na condiglio de rdu
e sofrer presslio para ceder aos objetivos estrat~gi-
cos das naqbes mais poderosas.
Indo um pouco aldm no delfrio, o general An-
tenor Santa Cruz, comandante military da Amaz~nia,
disse que as Forgas Armadas reagiriam a qttalquer
tentative de internacionalizagio da regilo "vietna-
mizando-a" um Vietnam de dimensbes colossais,
evidentemente, para cuja defesa o official prevb uma
prepara~gio especffica das tropas. Foi sob o coman-
do do general Santa Cruz que um destacamento de
fronteira do Exdrcito foi atacado de surpresa por
garimpeiros, sofreu pesadas baixas e, ao adotar re-
presalia, transformou os garimpeiros em guerrilhei-
ros colombianos para justificar a vinganga, pratica-
da grosseiramente. Talver por conta do episddio a
military devera encerrar sua carreira no CMA mes-
mo, sem alcangar outro posto mais elevado.
Os condimentos slo novos, mas o raciocfnio jg


Fantasmas matutinos