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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00056

Full Text











POLITICAL



Comego de fogo


do cargo no governor do Estado, o director de
Nodia 14 de margo, vespera da transmission
Ltda), Paulo Guilherme Cavalleiro de Mace-
do, foi informado pela Secretaria de Transportes
que pouco mais de 30 milhbes de cruzeiros, refe-
rentes a tr~s contratos de prestagio de servigos, ha-
viam sido depositados na conta da empresa. No dia
15, Cavalleiro de Macedo verificou que na conta da
Betubel no Banpard haviam sido creditados apenas
15 milhiies de cruzeiros. O gerente do banco disse
que a diregio da Secretaria havia solicitado o en-
dosso da Betubel para um cheque administrative de
15 milhbes, mas o director se recusou a tender o
pedido. Depois, no ter acesso g cbpia do cheque
que o gerente lhe havia apresentado, verificou que
o endosso obtido era fraudulent e as assinaturas
nio conferiam comn os originals dos diretores.


No dia 10 de abril, Cavalleiro de Macedo de-
nunciou o fato g Consultoria Geral do Estado, pe-
dindo "o reparo do ato de violencia que nos foi im-
posto". Encarregado pela Consultoria do inqudrito
policial logo instaurado, o delegado Paulo Tamer,
da DOPS, descobriu que o cheque de 15 milhbes,
emitido para ser depositado na conta da Betubel,
foray na verdade langado na conta 06.182.8, da
ag~ncia do Banco Rural. A conta 6 de outran empre-
sa, a Rodomar. Um de seus propriet~rios o entio
secret~rio de Transportes, Luis Otdvio Campos.
Pelo menos mais quatro cheques ji rastreados
pela DOPS seguiram o mesmo caminhon Um deles,
de 35,9 milhdes de cruzeiros, deveria ter sido pago
& Conspel (Construtora Pdrola Ltda), outra emprei-
teira da Setran, que no dia 3 de margo ajuizou uma
ag~o no Fbrum de Belim para tenter descobrir quem
resgatou o dinheiro de sua conta no Banpear.


Jor nal Pessoal
Liicio Flsivio Pinto


2a Quinzena de Junho de 1991


Cr$ 300,00


Ano IV


No 68






Documentos como esses comegaram a inundar
a mesa do governador Jader Barbalho e das equipes
que estio trabalhando na revisio dos atos da admi-
nistragio anterior. Jg 6 material suficiente para re-
verter inteiramente a imagem de probidade que o
governador H61io Gueiros conseguiu fixar junto &
opini~io pdblica, gragas a constantes campanhas de
propaganda, centradas nos vefculos do grupo Libe-
ral. Para os integrantes da comissio de auditagem,
assessorada pela empresa Trevisan, de Sio Paulo,
da Consultoria Geral do Estado e de v~rios stores
que estio lidando com esses pap6is, o governor ante-
rior foi um dos mais corruptos da histdria recent
do Pard. Mas essa convicgio ntIo poderia ser repas-
sada ao pdblico sem as provas documentais capazes
de demonstr8-la. As evid~ncias se multiplicavam,
mas as provas apareciam apenas lentamente
Jg nesta semana 6 provivel que a DOPS re-
queira a primeira prisio preventive, justamente a do
ex-secret~rio de Transportes, Luis Otivio Campos,
por improbidade administrative. Mas o governador
Jader Barbalho tem dito a interlocutores mais fnti-
mos que espera dar o mesmo destiny no ex-gover-
nador Hblio Gueiros. A papelada reunida com pro-
vas sobre a loucura dos meses finals de Gueiros,
entretanto, contrast com a imagemn que o ex-gover-
nador ainda consegue sustentar. Isto se deve so-
bretudo g incapacidade do governor atual de difundir
as informagbes que ja reuniu, ou, eventualmente
quando consegue divulg8-las, dar-1hes credibilida-
de. Os meios de comunicaglo a disposig~io de Jader
Barbalho nio tgm a mais pdlida capacidade se com-
parados as do grupo Liberal, inteiramente fechado
no atual do governador.
Um certo desespero por ver o tempo passer
sem conseguir dar sentido pr~tico As apurag8es ain-
da em cursor provavelmente foi o principal motiva-
dor para a decisio de Jader Barbalho de pedir a
convocag~o de uma sessio solene extraordin~ria da
Assemblbia Legislativa, na semana passada. At6 al-
guns dias antes o governador,, apesar de todos os
fatores, parecia disposto a esperar pela conclusio
das auditagens e pelas providbncias que comegava a
solicitar ao poder judicidrio. "Nio quero transfor-
mar a minha administragio numa delegacia encarre-
gada de investigar a administration passada, olhando
sempre para trds", dizia Jader. Mas os rombos nos
cofres pdblicos nlo parecem alimentar perspectives
de future mais sdlidas e ele decidiu iniciar uma in-
vestida mars ampla contra o antecessor, de certa
formal colocando nas wuas um clima de campanha
eleitoral pr6via para as eleigdes municipals do prd-
ximo ano.
Os resultados da sessio na Assembl~ia podem
ter sido menos auspiciosos do que esperava o go-
vernador. A TV c o journal "O Liberal" deixaram de
lado os ndmeros sobre a ca6tica heranga de Guei-
ros, preferindo destacar a reaq~io da oposigio, espe-
cialmente um certo tumulto provocado pelo PT. Em
compensagio, a partir daf comegou uma campanha
para transformar- H61io Gueiros em vftima, g qual
nio se concede o sagrado direito de resposta. O ex-
governador reivindicava o que nao 1he 6 de direito
agora, direito a que teria acesso quando ocupava a
chefia do Executivo, mas que nunca exerceu. Se
quisesse, poderia ter convocado uma session ex-


traordinairia para relatar a situagio que encontrara
ao assumir o governor. Tamb~m poderia ter ido B AL
para prestar contas de sua gestio, antes que o ex-
aliado, transformado em inimigo mortal, assumisse
o comando. Mas Gueiros optou por uma condugio
solitabria, quebrada apenas para incorporar um redu-
zidfssimo grupo de colaboradores de seu governor,
invariavelmente ligados aos mecanismos de control
do tesouro e de liberagiao de verbas.
Mas no precipitar acusagdes antes de poder
sustentar cada uma delas com proves, o governador
Jader Barbalho den arguments para seus advers8-
rios interpretarem sua iniciativa como mera retalia-
glio polftica. Mesmo documents como os que a
DOPS est8 reunindo nio bastam para colocar H61io
Gueiros na cadeia: para n~io parecer vinganga, uma
eventual punigio (de resto tio rara que poucos
acreditam nela) teria que esgotar todos os procedi-
mentos administrativos e judiciais ate o trlnsito em
julgado da acusagio, numa demand de tempo que
nio pode ser encurtada sem dar a idbia de persegui-
glo. E mesmo que Jader esteja bem armado para en-
frentar seu advers~rio, Gueiros ainda esta em me-
lhores condigdes na batalha de opini~io pdblica.
O ndcleo central da exposigio de mais de qua-
tro horas do governador na Assembl~ia Legislativa
for de que Gueiros empenhou-se na primeira metade
de seu governor em contrair despesas e expandir re-
ceitas, gerando um excedente de dinheiro que seria
aplicado na dltima metade, nio apenas para realizer
obras, mas, especialmente, para fazer political e ga-
nhar a eleigio. A folha de pessoal nlo consuming,
entire 1987 e 1991, mais do que 40% da renda esta-
dual e o servigo da dfyida ficou so redor de 2%.
Praticamente sem realizar qualquer obra de grande
porte, o governor H61io Gueiros elevou a dfyida ex-
terna e deixou uma vasta conta a pagar ao successor,
de 186 bilhdes de cruzeiros, dos quais 109 bilhbes
a empreiteiros (104 bilhbes a servigo da Secretaria
de Transportes). De 102 milhbes de ddlares que re-
cebeu para tres obras de pavimentagio de estradas,
das quais sd teria realizado uma, a administration
anterior deu sumigo em US$ 31 milhbes, que a
equipe de Jader nio conseguin localizar na Secreta-
ria da Fazenda.
A partir de 1990, todo o governor Gueiros foi
mobilizado para veneer a elei~go, de qualquer ma-
neira. Um de seus principals instruments foi a
Agio Social Integrada do Palacio do Governo, que
dispas de 831 milhdes de cruzeiros para fazer as-
sistencialismo eleitoreiro (comprando, entire muitos
itens, 1.700 cadeiras de roda, 39 mil metros de te-
cidos para fraldas, 12 mil metros de outros tecidos,
sete mil lengdis, material de construg8o, dculos,
eletrodom6sticos, mdveis, etc.), distribufdos com
maior i'ntensidade na operagio "Caminhando com o
Povo", paralelamente ao perfodo eleitoral.
A Asipag foi dispensada de fazer licita~go
"para aquisigIio de material para pronta assist&ncia
Ats pessoas carentes como 6culos, cadeiras de roda!
material de construgio, aparelhos ortop6dicos, ali-
menta~go, material escolar, enxoval de beb4, ortese,
prdtese, passagens e outros" por um decreto de
Goeiros, datado de 20 do janeiro, mas publicado no
Ditrio Oficial do Estado somente em 13 de dezem-
bro, quando entio devueria entrar em vigor. Uma






destacada fonte palaciana confessou, na semana
passada, que o despacho, manuscrito no prdprio
oficio da, coordenadora executive da Asipag solici-
tando a dispensa de licitagio, s6j foi dado mesmo
em dezembro, comn data atrasada. A information ex-
plicaria a defasagem de quase 11 meses entire a su-
posta data do despactio e sua divulgagio no DO. E
que Gueiros fizera tudo sem dispor sequer de um
papel para se justificar, por mais espdrio que fosse
esse papel.
No relatdrio sobre as irregularidades apuradas
na Asipag, o president da comissio de auditors,
Carlos Sampaio, diz que o governador H61io Guei-
ros fez a dispensa de licitagio "antecipadamente,
genericamente e sem real motive que justifique a
emergbncia e a urgencia alegadas". Apontou a
completea ausencia de qualquer crit~rio para a es-
colha de fornecedores", a nio realizagio de ne-
nhuma cotagi8o de pregos, com aquisig~des feitas sem
pr6vio empenho das despesas e sem documentagi-o
que comprove o recebimento das mercadorias adqui-
ridas, entire outros pontos.
Se a Asipag foi a linha de frente de atuagio di-
reta entire os eleitores e os cabos eleitorais, algumas
secretaries e empresas pdiblicas se transformaram
em biombos para tender os interesses dos financia-
dores da campanha e dos grupos econdmicos liga-
dos ao governador e seus filhos. O esquema dos
cheques administrativos, que retirava parte dos crd-
ditos dos empreiteiros (comissio que chegou a 50%
nos dltimos dias do governor Gueiros), foi apenas o
mais rdistico dentre os artificios empregados para
transferir dinheiro pdiblico para contas particulares.
Um grupo especial montado pela Celpa para apurar
irregularidades na obra de iluminagio da BR-316,
rodovia de acesso a Bel~m, mostrou como os con-
tratos de prestagIo de servigos, gs vezes obedecen-
do ordens expresses do governador, davam margem
a ganhos excessivos de empreiteiros (no caso, a
Tecnel, ligada por "contrato de gaveta" a um
dos filhos de Gueiros, agora declarada inidbnea).
Para realizar o servigo, o ent~io president da Cel_
pa, Fernando Pinho, solicitou dispensa de licitagi~o
a Gueiros, que, "abusiva e ilegalmente, autorizou".
A irregularidade esta em que, embora o governor do
Estado seja acionista majoritbrio, o governador nio
participa da administration da Celpa, que 6 empresa
pdiblica de direito privado.
Identica foi a situagI~o do Banco do Estado do
Pard e semelhante o erro cometido pelo seu presi-
dente, que pediu e obteve do governador dispensa
de licitagi~o para entregar & Endeco Engenharia a
construglo de uma caixa forte e da central de tesou-
raria da sua agbncia na avenida Senador Lemos. O
contract original recebeu oito reajustes e tr~s atua-
lizag6es, passando de 11 milhdes para 183 milhbes
de cruzeiros no espago de oito meses. A principal
das varias irregularidades levantadas pela comissio
de auditors 6 que Gueiros nio podia, "mesmo na
qualidade de Governador do Estado, deliberar sobre
qualquer assunto de interesse do BanparB, pois fal-
tava-1he compet~ncia para tal, jB que nio exercia
cargo algum na Administraglio do Banco, nem ao
president do Banco Ubirajara Ferreira e Silva -
cabia determinar sobre o assunto em question (cons-
trugio), sem o atendimento das prescrigoes legals e
estatutbrias"


Os documents jB coletados mostram que H61io
Gueiros terminou seu governor como um rei (e dis-
pota), por cujas mios deveriam passar todas as de-
cisbes do Estado, fossem ou nio de sua atribuig~io
legal, detalhe que a ele passou a parecer irrelevant
a partir do memento em que encarnou o princfpio
do seu inspirador, o caudilho Magalhies Barata, de
que lei 6 potoca. Com o dominio de todos os ins-
trumentos do poder, Gueiros estava definitivamente
convencido de que venceria a eleigi~o e, assim, teria
tempo para ajustar suas contas on encontrar, no su-
cessor amigo, compreensio para os "deslizes"
Surpreendido pela derrota, parece ter apostado
na political de terra arrasada, confiando em que os
problems e as bombas de efeito retardado que dei-
xaria no caminho do successor (como as que tamb6m
recebeu) o impediriam de fazer o que Jader Barba-
lho, ainda sem sucesso, esta tentando: desmontar
um falso monument de seu pedestal fraudulent.



Etica zero

Depois de manifestar seu repidio A carta que o ex-go-
vernador H61io Gueiros me envion (publicada no journal
Bandeira 3), o PT props a ida de Gueiros ao plendrio da
Assembleia Legislativa para responder As critics que the fez
- sem nunca citar seu nome o governador Jader Barbalho.
A esquerda nunca foi muito boa em conjugar 6tica com polf-
tica, mais atenta ao jesuitismo revolucionario de L~inin do
qlue A consci~ncia humanistica de Gramsci. Mesmo que por
motives politicos menos nobres do que o PT, mas coerentes
eticamente estiveram os vereadores Emanoel 6 de Almeida,
do PMDB, e Roberto Dias, do PL. Talvez por isso a conquis-
to do poder politico pela esquerda ocorra sem afastar os ris-
cos da tirania, quase sempre materializados.




O governador Jader Barbalho deve adotar algumas
cautelas se pretend dar aos didllogos Que vem promovendo
um significado mais elevado do que meros atos de relac~es
pbblicas. A sess~o com os trabalhadores rurais, por exemplo,
renderia frutos muito mais concretes se os auxiliares do go-
verno remetessem previamente seus relat6rios aos interes-
sados e reservassem o encontro para discusses em cima de
documents jA conhecidos. A longa sess~o, de quase cinco
horas, foi um mondlogo de pouco efeito pratico e de rendi-
mentos politicos duvidosos, mesmo que a iniciativa seja
louv~vel enquanto tese, mal aplicada, ali~s.


Ganho eterno

H61io Gueiros se habilitou, no dia 31 de maio, para ser
o primeiro ex-governador do Pard~ a receber a pensso vitali-
cia estabelecida pela Constituigso-estadual de 1989, equiva-
lente A remunerago de um desembargador (atualmente,
mais de dois milhbes de cruzeiros mensais). Mas ao inves de
protocolar regularmente seu requerim~ento na Secretaria de
Adlministragio, como seria de praxe, Gueiros pediu ao Pro-
curador Fiscal, Pedro Moura Patha, para ajud8-lo "no enca-
minhamento do expediente", atrav~s de um bilhete com dois
crassos erros de portugues. A pega foi recebida e mandada
ao protocolo para ser atendida. Agora, Gueiros vai receber
sua pensilo vitalicia.










enorme, que, aparentemente, s6 na Amaz~nia um policial se
consider autorizado a percorrer. Nem surpreende: o estatu-
to da cidadania ainda nlo chegou aos confins do sertio
amaz8nico.
Depois de invadida ou ocupada a fazenda, a .ANCA
pretendia trazer 100 posseiros a Bel~m para instala-los em
um "acampamento" em frente ao palilcio do governor esta-
dual. Seria a maneira de pressionar a administragio pilblica
a efetivar a desapropriago da fazenda, de origem t~io confu-
sa quanto acidentada tem sido sua tramitagno pelos escani-
nhos oficiais. Quem n~o concorda com esse tipo de proce-
dimento deve ter muitos motives para nio quere-lo materia-
lizado, mas o embate correto numa sociedade democr~tica
deveria ser travado no Ambito politico e nao na esfera poli-
cial, ao menos enquanto um delito penal nio se mate~rializar,
conforme recomenda a diretriz constitutional.
Mal o delegado fez sua acusago em MarabB, em
Belem o deputado estadual Osvaldo Mutran (propriet~rio
de terras e um dos lideres politicos da regiio)e eojornalista
Joio Malato tratavam de deixar bem claro que as palavras
do policial calam em terreno mais do que f~rtil para desen-
volv4-las e nlio exatamente por acaso. Mutran nem prestou
atengso as informagbes da PF: disse que os "guerrilheiros"
(de uma guerrilha inedita: que nao prega a luta armada) es-
tariam "utilizando armamento pesado, inclusive metralha-
doras", um segredo exclusive dele. JB Malato classificou os
press de "magote de desordeiros profissionais", membros
de "uma organizago de carter anarquista e destruidora",
que estaria por trds "dessa gentalha" que horroriza o articu-
lista de "O Liberal": os posseiros. Para Malato, o maior m6-
rito da ago policial seria "esclarecer as propositadas menti-
ras que procuravam atribuir aos fazendeiros e aos legitimos
proprietarios das terras saqueadas a total responsabilidade
pelos crimes e matangas que 14 se v~m perpetrando".
Ao fazer sua "mise-en-sc~ne" em Maraba, o delegado
pode ter pretendido apenas fazer cara feia para espantar
clientele inc~moda, sem ligacpo explicita com fazendeiros e
aliados. Mas esse tipo de cara feia sempre fez muito mal ao
pals.


As bancas

Para que o JORNAL PESSOAL possa aspirar a
sobreviver, seus leitores devem se empenhar em al-
gumas tarefas:
1 Procurar o journal nas bancas. Mas n~io se
contentar em it a uma dnica banca. E precise per-
correr algumas, ja que nem todas exibem o journal.
2 Atentar para a periodicidade quinzenal do
JP. O esquema de divulgagio do journal 6 prec~rio e
nio pode incluir o donor do mercado jornalfstico, o
grupo Liberal.
3 Divulgar ao mdximo o journal, comprando
exemplares para amigos e parents, sobretudo para
os que estio fora de B-eltm.
4 N~o fazer essa divulgagio atrav~s de ed-
pias xerox.

O Prof. Elias Sefer envion carta a este journal, a prop6-
sito de minha resposta ao ministry Jarbas Passarinho. Por
motives tdcnicos, a carta serd publicada na pr6xima edigao.


O crime politico, que a liberal Constituigio de 1988
procurou descaracterizar, continue a merecer especial
atengao da engrenagem policial do governor. Durante tres
meses a Policia Federal, em conjunto com a Policia Militar
do Pars, seguiu sete pessoas, at6 "grampeou" telefones, ras-
treou suas contas bancdrias e, por fim, invadiu a casa na qual
se reuniam, em MarabB, e prendeu-as. Um dia depois de te-
rem sido levados para o quartel da PM, os sete press foram
apresentados A imprensa, na terga-feira da semana passada,
como sendo guerrilheiros. O tiltimo movimento guerrilheiro
na Amaz~nia foi eliminado pelos militares hB quase 20 anos,
mas deixou insepulta uma reminisc~ncia traumdtica.
O "m6vel" do crime encontrado pela policia na casa
onde se reuniam, As tres horas da tarde de uma segunda-fei-
ra, a alguns metros do pr~dio da pr6pria delegacia da PF, foi
um "farto material de propaganda ideoldgica, folhetos de
instrugoes para invas~o de terra, relatbrios e panfletos". Ne-
nhum dos sete press estava armado, nenhum reagiu g or-
dem de prisio. Nada havia na casa al~m de pap~is. A entida-
de a que pertencem, a AssociBigo Nacional de Cooperaio
Agricola (ANCA), ests legalmente constitulda e funciona ha
10 anos, editando um journal, o "Sem Terra". O objetivo 6
apoiar os lavradores que nlo possuem um lote seu para cul-
tivar.
O delegado da Policia Federal que anuncion as prisses
disse que os sete membros da ANCA em MarabB "fazem
parte de uma grande conspirafao interessada em desestabili-
zar o governor, criando situagbes embaragosas". Admitiu que
o grupo ndo prega a luta armada, mas advertiu que seus in-
tegrantes "estio muito bem preparados intelectualmente pa-
ra cumprir suas tarefas". A principal seria desencadear in-
vasbes de propriedades rurais em sdrie.
Atos semelhantes jg teriamn sido praticados no Mara-
nh~o e sul do Pard mesmo, no ano passado. O primeiro de
Marabs ocorreria no domingo da semana passada, mas foi
abortado porque as duas policies cercaram o local do encon-
tro das families de posseiros e obrigaram-nas a se dispersar.
Apesar da agito ostensiva das policias, os organizadores do
movimento voltaram a se reunir um dia depois, sem sigilo,
quando foram press.
Para poder prender os quatro membros da ANCA, o
delegado acusou-os de estarem formando um bando e acu-
mularem material de propaganda political e documents so-
bre a situagao s6cio-econdmica da regilo. A libertagio dos
press passaria a ser apenas uma questio de tempo para
qualquer advogado diante de tais "provas". O problema mais
grave, no entanto, js nao 6 a prisio arbitrdria de pessoas
acusadas de praticar delitos com caracterizapo mais do que
forgada: a iniciativa policial revela o acirramento do clima
de permanent tensrio no meio rural da Amazinia.
B verdade que os sete filiados da ANCA preparavam a
invas~o da fazenda Ponta de Pedras. A policia nao vacila em
usar a expressso invasso, fazendo coro com os fazendeiros.
Ja. os lavradores e seus aliados falam tranqiiilamente em
ocupapio. Realizaram dezenas delas e, desde o acampamen-
to montado por agricultores gatichos na Encruzilhada Nata-
lino, os acampamentos se transformaram em um de seus
principals instruments de luta. Tal instrument pode ser
caracterizdvel como illegal e at6 ser prevenido por media
policial repressive. Mas dal que um delegado se sinta em
condiq~es de anunciar o ressurgimento da guerrilha e a
exist~ncia de conspirag-o de dimensito national vai distgncia


A cara feia de volta










A Companhia Vale do Rio Doce, que acumula varies
titulos de grandeza (uma das principals empresas brasileiras,
lider na mineragao e maior vendedora individual de minerio
de ferro do mundo, entire outros), comegou em Minas Ge-
rais, se expandia para o Espirito Santo e montou sua base
administrative no Rio de Janeiro. Os tres pblos constituem o
Sistema Sul da empresa, em torno do qual gravita seu poder.
Mas ao long' da decada de 90 esse eixo ira se deslocando pa-
ra a Amazinia Oriental, ficando na verdade concentrado no
Estado do ParB, individualmente a area de atuagio mais ex-
pressiva da CVRD.
Neste ano a Vale estara produzindo no Pard minerio
de ferro, mamganbs, bauxita, ouro e aluminio atraves de cin-
co grandes empreendimentos, que absorveram quase seis bi-
lhges de d61ares de investimento, representando um volume
de mais de 40 milhbes de toneladas de min~rios e derivados,
e permitirgo o apreciavel faturamento de 1,5 bilhio de d6la-
res em produtos destinados quase integralmente a expor-
tag~o. Esses nbmeros d~o a Vale um outro titulo: 6 a maior
empresa paraense, faturando mais do que o prdprio governor
do Estado consegue arrecadar em impostos.
Ja 6 muito, mas ainda n~o 6 tudo. Quando esta d~cada
terminar, a CVRD tera investido outros 1,6 bilhio de ddla-
res para implaptar quatro novos projetos minerals no Pard
(alumina, cobre, niquel e caulim), que ja. estio com sua en-
genharia definida. Eles incoporporario ao mercado mais 2,2
milhbes de toneladas de produtos de origem mineral e uma
receita superior a US$ 500 milhbes. S6 com eles, a Vale fe-
chard seu balango de 1999, no limiar do novo sdculo, fatu-
rando al6m de dois bilhoes de d61ares apenas no ParB. Sera,
entio, maior do que o Estado.
Essa 6 uma projego conservadora. A Vale detem uma
estrategica jazida de fosfato, cujo desenvolvimento ainda
n~o foi definido. Certamente localizard no Pard ao menos
um dos p6los florestais previstos par a a rea da ferrovia de
Caraj~s. Nessa provincia mineral, o conhecimento, ainda
a nlvel bbsico, continuard. se ampliando e, com ele, as pro-
babilidades de novos negbcios. O horizonte para a empresa
esta em aberto no Estado que fechard a d~cada, sob o impul-
so da gigantesca estatal, como o maior p61o de minerafio do
pais.
Apesar de toda essa grandeza, a cultural da Companhia
Vale do Rio Doce em territ6rio paraense 6 minima. A em-
presa forma seus quadros, planeja suas atividades e raciocna
como se s6 tivesse uma perna, assentada no Sistema Sul, de
horizonte ngo tao amplo e onde algumas de suas atividades
deverio entrar em process de esgotamento. Passaram-se
quase 25 anos, desde que a CVRD pos seus pQs no Pard, at6
que se realizasse uma primeira reuniao expressive da direto-
ria da empresa comn representantes do governor e dos em-
presarios locals.
O encontro foi em Belem, no filtimo dia 13, mas so
inegavel significado histdrico de que se revestiu nio corres-
ponderam resultados concretes de expresso, exceto por um
conv~nio vago e sem a previsio de recursos financeiros pa-
ra sustent8-lo assinado com o governor, que preve a reali-
zagio de uma serie de estudos para projetos desdobrados
dos empreendimentos bbsicos da CVRD. O planejamento
da Vale transcende a capacidade de acompanhamento da eli-
te local, que recorreu aos mesmos temas do passado sem
conseguir traduzi-los em efetivos instruments de presslo e
parceria, quando for o caso. Foi como se um Fusca disputas-


se corrida com uma Mac Laren de Ayrton Senna. Se a Vale
ainda nlo desenvolveu uma cultural paraense, como fez em
Minas Gerais (ponto de origem da maioria de seus quadros
executives), os paraenses n~o conseguem descobrir um ca-
minho de acesso, por menor que seja, aos escaninhos decis6)-
rios da empresa.
Um ou outro membro da elite local conseguiu chegar a
postos de comando, mas a ascensio, quase sempre, den-se
por critbrios politicos do velho clientelismo e nso por quali-
ficagio tecnica. Falta, ali~s, o saber especifico sobre as ativi-
dades a que a estatal se dedica e ela nlo se preocupa em
preencher a lacuna. Seu mais recent empreendimento, a
produg~o industrial de ouro em Carajas (para 4,8 toneladas
de metal por ano) prev6 o recrutamento de todos os t~cnicos
de nivel superior fora da regilo, que, como sempre, apenas
fornecer8 a mio-de-obra nlo qualificada.
A Vale dd. dinheiro para promogo5es culturais e socials,
mas mantem-se alheia A reivindicago de uma Escola de Mi-
nas, por exemplo. Atende pedidos de compras de empresa-
rios locals, que pensam nas causes de olho no prdprio bolso.
Mas nso cede parceria de poder. T4-lo sob pleno dominio
fard- comn que atravesse os anos tirando riquezas do Sistema
Norte sem refazer a relagio de desequillbrio com o Sistema
Sul, que continuara. comandando e usufruindo dessa relagao
- amplamente desfavoravel A Amaz~nia.

NOVO 1890
A Construtora Camargo Correa inicion um "lobby"
para garantir-lhe provavelmente o melhor contrato de obra
pliblica desta d~cada na Amazinia: a construg~o da segunda
etapa da hidreletrica de Tucurui, no Pard, com orfamento de
2,5 bilh6es de d61ares. A Camargo foi a empreiteira princi-
pal da primeira etapa, jB em fase final com a instalagio da
12a mdquina. A obra foi iniciada em 1975, quando seu custo
previsto era de US$ 2,5 bilhdes. Ao ser inaugurada, no final
de 1984, jd havia custado US$ 5,4 bilhbes, nlo incluidos os
pesados emprestimos contraldos pelo governor brasileiro. Es-
tima-se que o lucro liquid da Camargo Cotrea tenha sido
de aproximadamente US$ 500 milhges, o que permitiu a seu
donor, Sebastilo Camargo, entrar na lista dos milionbrios
com patrimonio acima de um bilh~o de d61ares das revistas
"Fortune" e "Forbes".
A grande questlo a decidir na pr6xima etapa 6 se a
continuidade das obras de Tucurui, a segunda maior usina
national, pode ser feita apenas atrav~s de um termo aditivo
ao primeiro contrato ou se exige um novo contrato. A pri-
meira hip6tese, evidentemente, 6 a mais simp~tica A Camar-
go Correa. Mas a outra alternative poderia ser mais interes-
sante & Eletronorte, se a estatal conseguir resistir so jogo de
presses dos bastidores. Na sua estada em Belem, alguns
dias atrds, o president da Eletronorte, Afonso Simas, disse
que o atual contrato inclui a segunda etapa, mas admitiu que
est8 fazendo uma revislo para tentar reduzir os custos unitb-
rios nele previstos. N~o disse, mas deixou implicita a de-
dufgio de que os terms do contrato poderiam ser muito
mais favor~veis ao empreiteiro do que A empresa contratan-
te. Se quiser continuar em Tucuruf, a Camargo Correa teria
que aceitar um reexame.
Ha pelo menos seis anos uma questio semelhante en-
volveu a continuagio das obras das eclusas de Tucurui, no
valor de mais de US$ 200 milhoes. A Camargo Correa saint
ganhando, como tem ocorrido desde 1975.


CVRD: sigla ex6tica










Olhando para a larga tradi o clkssica, a poeta inglQs
T. S. Elliot escreveu que abril 6 o pior dos meses. t o tempo
propicio para as trag~dias, como as que gregos antigos, mes-
tres insuperaveis, cantaram. Na Amaz~nia, o mes fatidico 6
junho. Marca a transig~o da estagno impropriamente conhe-
cida como inverno para o duro verlo. O que as diferencia de
fato slo as chuvas. At6 maio chove muito. A partir de junho
comega a estiagem, que assume seu rigor mdximo entire se-
tembro e outubro.
Mas nso se trata apenas de um ciclo climdtico e hi-
droljgico. A quantidade de Agua tem a ver com a principal
atividade do home nos sertdes amazinicos. Quando chove
muito, o home se limita a andar pelas veredas da floresta
atrds de frutos, sementes, 61eos tudo aquilo que a natureza
fornece, sem ser muito pertubada para gerar essa troca.
Quando a precipitago de Aguas suspended, o home queima
a mata, plant e forma os cultivos agricolas, agride a nature-
za e entire em cheque com outros homes. B a safra da
violencia, cada ver mais cheia de frutos.
O governor julga-se preparado para evitar que o saido
da guerra ecol6gica apresente os negros resultados de 1987.
Desde 1988 tem sido decrescentes os indices de queimadas.
No ano passado, a area destruida foi de 13 mil quilometros
quadrados, contra 80 nul de 1987. A expectativa 6 de que em
1991 a queda que se mantenha. Afinal, em 1992 o mando in-
teiro estardl no Rio de Janeiro disposto a colocar o Brasil no
banco dos rdus como o pafs que mais destr~i florestas em
todo o planet. O governor Collor parece ter tornado
quest~io de honra afastar indicadores tilo desastrosos como
os registrados na d~cada de 80, que se mantiveram em uma
m~dia de 30 mil quilometros quadrados de floresta queima.
dos a cada ano.
Aldm de sat61ites, avises, helic6pteros, fiscais e multas,
a prdpria recessio econdmica esta ajudando o governor nesse
ofensiva pr6-ecologia. Mas se os participants da Eco-92! n~o
olharem o problema amaz~nico pela bitola de um estreito
ecologismo, havergo de se perguntar se a proteg~o A nature-
za nao estara engendrando um custo social extremamente al-
to. A viol~ncia nos sert~es amazonicos atingin tal paroxismo
que a pr6prio governor, em boa parte o responsavel pela si-
tuagno, precison agir, quando nada para produzir algum efei-
to demonstrative. Os eteitos, entretanto, n~o foram os espe-
rados. A policia conseguiu prender os supostos executantes


e mandantes do assassinate do president do sindicato dos
trabalhadores rurais de Rio Maria, Expedito Ribeiro de
Souza, mas a imprensa nio repercutin o fato como em re-
laglo.A morte do seringalista Chico Mendes, no Act~e. O fa-
zendeiro Jerdnimo Alves de Amorim, mantido numa peni-
tencidria as proxidl~idaqes de Bel~m, n~o consegue nem inte-
ressar jornalistas para entrevistas.
Os fazendeiros de Rio Maria acham qlue Jer~nimo ar-
quitetou desastradamente o assassinate, movido por desejo
de vinganga estritamente pessoal. O climulo da imprud~ncia
foi contratar pistoleiro da pr6pria cidade, algo impens~vel
para os qlue recorrem ao crime de aluguel. A rdpida eluci-
dagio do atentado e a pris~o de todos os envolvidos n~io se-
ria, assim, nenhuma garantia de qlue o circuit da violgncia
tenha sido inibido. O caso de Rio Maria seria mais uma ex-
cegio do qlue a regra a seguida nesta safra de verlo.

Ainda qlue a Justiga se disponha a sair de sua letargia
para instalar varas agrdrias nas remotas comarcas do sertao e
o Executive aumente a eficiencia de sua desacreditada poll-
cia, as causes dia violencia devertro estar mais ativas nesta
temporada. A perspective deve ter forgado o president Fer-
nando Collor a anunciar, no final do mes passado, qlue sen
governor ird desapropriar seis mith~es de hectares terra at6! o
final do ano, em 17 Estados, para assentar nessa area 100 mil
familiess.
B meta para impressionar em qualquer parte do mun-
do. Em seus 14 meses de vida, adminiistrago Collor 86 havia
conseguido desapropriar 100 mil hectares, um contrast de-
sanimador diante de sua disposigo de desapropriar seis mi-
th6es em apenas sete meses. Ainda qlue consiga essa notdvel
inversso, se dar terras resolvesse a tenslo rural o president
Joso Figueiredo, recordista na prova, estaria para sempre
com seu lugar garantido na histdria. O titulo de terra pode
ser, so contrario, um passaporte para a expulsso da terra se
o agricultor enfrenta, a partir dal, situagao desfavoravel, a
comegar pelo tamanho do lote, que vem encurtando (agora
ter8, no maximo 40 hectares, area na Amazdnia insuficiente
para a sobreviv~ncia de uma familiar por mais de tres on qua-
tro safras).
Um poeta qlue medisse agora o clima parafrasearia El-
liot A maneira amaz~nica: junho 6 o pior dos meses.


O governor brasileiro espera se apresentar Ai confert~n-
cia mundial sobre ecologia e desenvolvimento, no pr~ximo
ano, com tres trunfos capazes de apagar sua ma imagem de
patrocinador da destruiSlo do meio ambiente. Uma delas 6 a
reduglo do indice de queimadas na Amazonia, que chegou
em 1987 ao record mundial absolute. O outro 6 um docu-
mento (ja reduzido de originals 2.500 piginas para atuais
500, mas ainda A espera de novo enxugamento), que revela-
ria a exist~ncia de uma s61ida e coerente political ambienta-
lista official. O terceiro produto seria ainda de maior impac-
to, pelo seu ineditismo: o piano de zoneamento ecol6gico e
econdmico da Amaz~nia.
Todos sabem que boa parte dos problems da region
resultam de sua ocupagao desordenada, ca6tica, irracional.
Na famosa colonizyaglo da Transamazinica, lavradores rece-


beram lotes com solos ruins e desprovidos de Agua, vizinhos
de terras bem 4otadas. Alguns s6 encontraram pedra nos 100
hectares que thes foram reservados. Fazendeiros transforma-
ram em past areas com terra roxa estruturada, indicadas
para cultivos de ciclo curto, sobretudo os alimentares. Arvo-
res nobres foram postas abaixo e queimadas para em seu lu-
gar surgirem rogas de rendimento decrescente on capim de
valor incomparavelmente inferior.
Se jd houvesse um zoneamento tecnico da Amazdnia, o
governor poderia utilizar alguns instruments, o mais eficien-
to dos quais parece ser, o credito rural, para estimular ativi-
dades economicas compativeis com as potencialidades natu-
rais de cada drea on microrregilo. Tambgm teria r~gua e
compasso para vetar ou inibir usos incongrueiites. Eviden-
temente que sd o zoneamento, por melhor qlue seja sua ela-


O fogo do verho


Reprise sem gosto






nada alimentam o ceticismo em face dos 12 meses que ainda
restam para a instalagio da ECO-92.

Mas nso 6 s6 a suspeita de um trabalho superficial e
incomplete que inquieta. O zoneamento, como invariavel-
mente ocorria nos governor militares, transformou-se em ta'-
refa delegada a um conselho de sabbios, que, a portas fecha-
das, decide tudo sem consultar al6m da bitola que lhe foi
imposta. E essa bitola 6 a mesma que demarcava a doutrina
de seguranga national, a verdadeira "filosofia" por trds e
por sobre o process de ocupagno recent da Amaz~nia.
O zoneamento virou questso estrat~gica, sigilosa,
quando deveria ser o produto da decantaglo do conhecimen-
to, que s6 se efetiva produtivamente quando gerada na con-
troversia, na ampla e produtiva discusslo entire os que co-
nhecem. Apesar da desmilitarizag~o da SAE, o zoneamento
foi militarizado, A maneira Collor, yuppizada, mas para va-
ler. Tanto que a SAE proibiu a Sudam, o drg~o de coorde-
nagao do governor federal na Amaz~nia, de divulgar quatro
mapas temiticos ja produzidos, para n~o criar "paralelis-
mo", como se a verdade resultasse de um process linear. A
Sudam gastou meses de trabalho em conjunto comn a Fun-
dagao IBGE e 23 milhbes de cruzeiros na elaborago dos
mapas e at6 anuncion sua entrega official, cancelada A 61tima
hora e suspense "sine die" por determinaCgo de Brasilia.
Esse filme n6s jB conhecemos. O final 6 previsivel -
e n~o 6 de boa qualidade.


bora~go e mais bem preparado que esteja o governor para
exrecutdl-lo, n8o 6 suficiente para afastar de vez o quadro de
devasta~go amaz6nica, mas reduziria significativamente sua
escala, so menos se houvesse vontade de execut8-lo.
Desde 1979 o governor fala em zoneamento. Ao final
daquele ano o entao ministry do Interior, Mgrio Andreazza,
se dispunha a concluir o trabalho em cinco anos. Passaram-
se 12 e nada ha de concrete. No inicio do mes a adminis-
trag8o Collor de Mello prometeu que em junho de 1992 os
participants da ECO-92 poderio receber o mapa de uma
Amaz~nia plenamente zoneada. Mas nao s6 esses visitantes
poderLo co~nsiderar-se surpresos com o present. Mesmo -
on sobretudo o brasileiro bem informado dlo deixard~ de se
surpreender se algum produto final digno do nome estiver
em condiqbes de ser entregue ao pdblico dentro de um ano.
Em setembro do ano passado a Secretaria de Assuntos
Estrat~gicos, que substitain o SNI, o Conselho de Seguranga
Nacional e todos os saus aphelics, passados e pretdritos,
fez a primeira reuni~odio grrpo de consultores envolvidos
no projeto do zoneamento. Consumido o tempo de um par-
to humane, o 6nico resultado concrete slo as atas das reu-
nioes, nas quais brota o compromisso de estabelecer uma
"~filosofia de trabalho" e muito pouco alem. O brago da SAE
que deveria tratar do assunto ainda n~o foi implantado. O
coordenador informal do zoneamento demitiu-se. Seu subs-
tituto 6 um ex-superintendente da Sudam, Hugo de Almei-
da, d~o aceito pelo meio cientifico. Os nove meses de quase


Mais de cinco mil garimpeiros brasileiros tem penetra-
do no territ6rio da Venezuela, nos 61timos dois anos, a par-
tir do Estado de Roraima, divisor entire os dois paises. O
ex~rcito venezuelano jB prendeu, nesse period, mais de mil
garimpeiros. Agora, hB 15 deles atras das grades em Puerto
Ayacucho, A espera de julgamento. Fizeram greve de fome
durante uma semana e dois deles tentaram se suicidar, em
desespero por se julgarem abandonados pelo governor de seu
pafs. Querem que ele interfira para poderem voltar o mais
rdpido possivel para junto de suas families.
Um retorno assim tio pacifico serb dificil. Ainda que a
Venezuela n~o queira criar complicaqbes diplomaticas com
o Brasil, seria um precedent perigoso. Todos os garimpei-
ros press anteriormente foram levados para fora do territd-
rio venezuelano e soltos. Mas a Venezuela teve que organi-
zar verdadeiras expedig~es militares a partir do memento
em que constatou a grave ameaga de destruigo do Orenoco,
nao s6 o principal rio como tambem uma esp~cie de simbolo
national. Os garimpeiros buscavam ouro justamente nas
nascentes do Orenoco, atacadas por bombas a jato e mered-
rio. Al~m de contaminar as Aguas, estavam assoreando as
margens e sedimentando o fundo do rio.
Representantes dos garimpeiros buscam outra~ expli-
cayao para a tolergncia de certas autoridades venezuelanas:
embora expulsando os invasores, retinham o ouro apreendi-
do e dele nso prestavam mais conta. Na acusagno est8 implf-
cita a suspeita de corruppao, mas nio hB qualquer prova
concrete para sustent8-la, so menos at6 agora. Ainda que
tenha havido desvios pelo caminho entire a ordem dada em
Caracas e seu cumprimento na zona fronteiriga, parece claro
que o governor venezuelano n~o ird: mais tolerar novas in-
vasbes.
De qualquer maneira, ainda que uma ou outra situano
possam parecer obscuras, o governor da Venezuela instaurou
process regular contra os garimpeiros brasileiros, com base
em motivag~es bastante claras e pertinentes: invasio de ter-


ritbrio e garimpo illegal. O advogado dos garimpeiros tenta
caracteriza-las como vagas, argumentando que seus clients
"nso sto militares on guerrilheiros interessados em ferir a
soberania da patria".
Ao advogado dos garimpeiros resta o console de poder
atuar em um process regular perante a Justiga. O mesmo
direito n;io esteve ao alcance de sete garimpeiros colombia-
nos mortos pelo Ex~rcito brasileiro, acusados de partici-
paqao num estranho ataque contra base' military national, no
Estado do Amazonas. O governo tenton sustentar que as vi-
timas eram guerrilheiros, verslo apresentada inicialmente
pelos militares locals e que previniria possiveis problems
diplomaticos, mas essa tese foi totalmente contrariada pelas
informaCC~es apuradas atrav~s da imprensa.
Toda a sucessso de equivocos comegou quando uma
ordem superior (de origem remota, como sempre ocorre em
tais casos) permitin que o ouro apreendido pelos soldados
brasileiros, ao inves de ser registrado e enviado aos canals
competentes (em tais situagdes, a Policia Federal e d~o o
Exercito), pudesse ser atirado so rio. O efeito de tal orien-
tagpo em uma regiao isolada, distant de qualquer centro
possivel de control, deve ter sido devastador, gerando pro-
miscuidade entire militares e garimpeiros.
Comn toda a sua cadeia de mal-entendidos, o incident
na fronteira brasileiro-colombiana terminou em mortes, mas
n~o em process judicial regular, como do lado venezuelano.
Pouco depois do cheque, todos als grupos guerrilheiros co-
lombianos iniciaram a negociagio final do armisticio com o
governor de seu pals, acrescentando mais um dado de incon-
sist~ncia a verso dada pelo governor brasileiro ao episddio.
Mas nem isso serviu de estimulo para uma apurafgno mais s6-
ria do que aconteceu na area do rio Traira.
Se esse desencontro pode servir de referencial, os 15
garimpeiros press em Puerto Ayacucho tem seus motives
para recear pela solidariedade do governor brasileiro. A se-
riedade nlo parece mais freqtientar o lado de ca da fronteira.


O Iado da seriedade












O quarto

perSOnag em
Belem, at6 agora a bnica das areas metropolitanas bra-
sileiras sem shoppings centers", vai assistir a partir de agora
a uma guerra entire tres grupos que jB langaram seus projetos
e um quarto que ainda nio apresenton suas cartas e por isso
corre "por fora" e, aparentemente, com mais vantagens do
que seus concorrentes explicitos. O grupo Lider saiu na fren-
te: seu "shopping" jB esta em construgao, no local mais afas-
tado do centro da cidade. Em drea mais nobre (e tambbm
mais critical a OAS empresa do sogro do governador da
Bahia, Antonio Carlos Magalhles ja langou sen conjunto
de lojas, prevendo conclul-lo at6 1993. O Grupo Cata espera
comegar neste ano ol seu projeto, localizado as margens do
rio Guamb.
Um novo competitor, entretanto, podera surgir a par-
tir da licitagno que a Aerondutica langou em seu privilegiado
terreno, ao lado do Aero Clube. A primeira concorrencia foi
apresentada em abril de 1989: todos os grupos que preten-
diam implantar shoppingg" se apresentaram, mas n~o hou-
ve vencedor. Dois anos depois, o 10 Comando Adreo resol-
ven langar um novo edital, quando os concorrentes originals
ao "shopping" ja definiram seus empreendimentos e, por-
tanto, estAo de fora da competigno pelo terreno da Aerongu-
tica, que exige do vencedor destinar a area a um "shopping".
Todos provavelmente gostariam de participar dessa
dispute porque suas condig~es s~o atraentes e at6 mais van-
tajosas do que em relagno as areas que ja possuem. No pri-
meiro edital, a Aerondutica avation os 86 mil metros qua-
drados da area em 4,1 milh~es de dblares (ou 5,3 milhbes de
cruzados novos da 6poca). No segundo, o prego baixou para
US$ 1,8 milhgo (ou 578 milhbes de cruzeiros). Os seis mil
metros quadrados do "buraco da Palmeira", no centro da ci-
dade, estso avaliados em US$ 3 milhoes. No mes passado a
Assembl~ia Paraense pagou. 50 milhbes de cruzeiros por
uma area de dois mil metros quadrados nos funds do clube,
em local n~o tao privilegiado quanto o da Aerondutica, que
tem duas frentes para pistas asfaltadas. Com tal prego, qual-
quer empresa poderia construir tres mil apartamentos em
pr~dios de quatro andares (o gabarito da area por causa da
pista de aterrissagem de avi~es) e os avos do terreno d~o
chegariam a 200 mil cruzeiros por unidade. Afinal, daria
apenas Cr$ 7.171,00 por metro quadrado.
Quando o resultado da concorrencia for anunciado, a 8
de julho, o acirrado quadro de dispute entire os shoppings
centers" poderb sofrer uma grande modificago com a reve-
la~go do quarto personagem, ainda oculto, capaz de pagar
10% do valor minimo (ou 1~80 mil d61ares) como caug~o e
deixar esse dinheiro sem qualquer rendimento at6 a decisao
da concorrencia.



Editor respons~vel: Lticio Fliivio Pinto
Ilustra~go: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.220
Fone: 223-1929
Opp~o Editoral


Uma empresa instalada na Zona Franca de Manaus
paga apenas 13% dos impostos que pesam sobre qualquer
indirstria funcionando fora dessa drea incentivada e ainda
pode importar, sem pagar direitos (exceto, naturalmente, ro-
yalties e patentes), bens e equipamentos que o mercado na-
cional poderia suprir. Gragas a esses favorecimentos, ao lon-
go de 24 anos, 850 ind~lstrias penetraram 1.600 quilbmetros
no sertso amazOnico, a partir do literal, para se estabelecer
na capital amazonense. At6 entio, Manaus sobrevivia letar-
gicamente saudosa dos gureos tempos do monop61io da bor-
racha, violentamente encerrados nos primeiros anos deste
s~culo.
A Zona Franca de Manaus tinha prazo certo de
existgncia, mas a ConstituigSo de 1988, em um de seus dis-
positivos mais casulsticos, deu-lhe outros 25 anos. A defi-
nigso sobre a verdadeira sabde da ZF, no entanto, esta sen-
do dada no memento, entire doses de clientelismo e promes-
sas de tratamento mais duradouro. A primeira tend~ncia,
aparentemente, saint vitoriosa na verdadeira guerra que vem
sendo travada nos 61timos meses e que atingin seu memento
mais dramatico com a queda da ministry Z61lia Cardoso de
Mello, teoricamente alinhada com a segunda tendencia.
Gragas a vitbria do secretdrio do Desenvolvimento
Regional, Egberto Batista, as inddstrias da Zona Franca vio
poder importar at6 1,2 bilhlo de ddlares nos prdximos qua-
tro meses, com a possibilidade ainda n~o assegurada, mas
vislumbrada de ter direito a mais US$ 500 milhbes at6 o fi-
nal do ano. S6 a primeira cota absorvera todo o saldo de di-
visas gerada pela Amaz~nia, a regilo brasileira que apresen-
tou a maior taxa de incremento (em terms relatives) de
com~rcio exterior nos b1timos anos, com as vendas de min6-
rios e seus derivados.
Ultrapassando um quarto de s~culo, apesar de alguns
ndmeros que o governor costuma apresentar para defend4-law
a Zona Franca de Manaus continue quase t~o artificial e
prectria quando em seu inicio. Seu maior trunfo continue
sendo a liberago de importagoes que, em outra circunstln-
cia, o pals nao poderia autorizar.
Teoricamente, cada empresa poderia importar este
ano algo em. torno de dois milhbes de d61ares, mas a distri-
buigio das cotas n~io result de um relagio aritm~tica. Ela
varia de acordo c-om o valor do empreendimento e seu vo-
lume de vendas, mas tambem 6 afetada por outros criterios -
informais, subjetivos, politicos ou que outra expresso se
quiser empregar para classificar um amplo espectro de inter-
ferencia que fez se multiplicarem os "lobbies". Uma das em-
presas do irmlo do secrethrio do Desenvolvimento Regio-
nal, por exemplo, importard US$ 60 milhbes.
Al entram os interesses pessoais e de grupo, que sem-
pre levam o governor a adotar medidas de curto prazo em re-
lag~o Ai Zona Franca, ao inv~s de trata-la com mais larga
perspective e menor oportunismo. Como as diversas formas
de subsidio estatal proporcionam um rapido retorno do ca-
pitakaplicado, grande parte dos empresarios da Z-F nio terd
i~lifuito problema para desfazer suas linhas de montagem e ir
embora atras de outra freguesia, se o artificialismo, renova-
do, desmoronar.
O risco dos amazonenses 6 se contentar com as lante-
joulas e esquecer de cobrar produto mais essencial, deixan-
do-se seduzir pela mesma t~cnica que encanta os indios no
primeiro contato com os brancos e depois os lanfa no
abismo.


O falso brilho